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CENTENÁRIO DA REVOLUÇÃO RUSSA

ORGANIZAÇÃO: GRUPO DE PESQUISA DIREITO E PENSAMENTO POLÍTICO


OUTUBRO/2017
A REVOLUÇÃO DE
“OUTUBRO”
2017 é o ano em que se comemora o centenário da Revolução Russa. 100
anos passaram-se desde a insurreição contra o regime monárquico do czar
Nicolau II do Império Russo. Um século depois nos perguntamos: qual legado
nos deixou tal ruptura do sistema político e econômico global? Quais
conclusões devemos tirar dessa fase pela qual passou a humanidade? E o que
foi essa tal revolução vermelha a qual abalou a Europa e o mundo no século
XX?

A Revolução Russa, conhecida como Revolução de Outubro, Soviética,


Vermelha ou Bolchevique, foi um movimento político revolucionário liderado
por Lênin (Vladimir Ilyitch Ulianov) em 1917. Cabe frisar que, apesar de todos
esses nomes remeterem nosso senso comum à Revolução Russa, na linguagem
técnica existem diferenças.

Apesar de ser conhecida como Revolução de Outubro, a Revolução Russa


ocorreu em dois momentos: a primeira fase em fevereiro, responsável pela
queda do czar e implantação de uma república liberal e a segunda em outubro,
quando a revolução tomou rumos socialistas. A Revolução de Outubro
aconteceu no mês de novembro. Isso se deve ao fato de ser o calendário
juliano adotado pelo império russo na
data da revolução, no qual marcava o
dia 25 de outubro. De acordo com
nosso calendário (gregoriano), a data
certa seria o dia 07 de novembro de
1917. O mesmo vale para a primeira
revolução que irrompeu, de acordo
com o calendário gregoriano, em 08
de março de 1917.
Desde a instalação de sua
ideologia político-econômica de
cunho socialista marxista-leninista, a
Revolução Russa tem dividido os
sentimentos dos observadores em
amor e ódio, desprezo e apreço,
simpatia e antipatia. Ajudaremos o
leitor a entender melhor o que foi a
Revolução Russa e sua importância
para a história mundial.
(Pintura de Lênin)
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SOCIALISMO E COMUNISMO
Apesar de serem comumente confundidos,
socialismo e comunismo são diferentes. Existem
socialistas que não são comunistas e comunistas
que não são socialistas, veremos a explicação
adiante.

O Socialismo é uma doutrina político-


econômica o qual possui diversas vertentes,
sendo a mais conhecida a do socialismo
científico, teorizada por Karl Marx e seu
companheiro de pesquisa Friedrich Engels.
Juntos, eles escreveram um panfleto conhecido
como Manifesto do Partido Comunista.

Existem duas grandes vertentes do socialismo: Socialismo Utópico e


Socialismo Científico, das quais derivam outras vertentes menores como o
Socialismo Cristão, Social Democracia (num ponto de vista reformista),
Socialismo Real. A grande diferença entre o Socialismo Utópico e o Científico
está nos caminhos escolhidos para sua implantação/realização.

Mas afinal, o que é socialismo? O Socialismo teve origem no século XIX,


derivado de lutas anarquistas pela Europa industrial; período no qual o
capitalismo mostrou sua face mais cruel, transformando o ser humano
proletário (trabalhador desprovido dos meios de produção e forçado a
vender sua força de trabalho para sobreviver) em apenas um instrumento
para fazer crescer o capital das fábricas e os lucros dos capitalistas. Nessa
época, os trabalhadores chegavam a trabalhar 16 horas por dia, sem direito a
férias, 13º salário ou licença médica. Não existiam direitos trabalhistas e, até
mesmo, crianças eram forçadas a trabalhar. Em muitos casos, tinham partes
do corpo mutiladas pelas máquinas pesadas por falta de segurança.

Foi nesse contexto histórico de brutalidade contra o trabalhador que


surgiram os grupos anarquistas e, logo em seguida, as teorias socialistas em
busca de uma sociedade mais igualitária. É importante salientar que
anarquismo e socialismo são duas ideologias diferentes. O anarquista é uma
espécie de comunista, mas diferente do socialista, o anarquista não possui
uma abordagem materialista-histórica para alcançar o comunismo; o
socialismo é justamente essa fase de transição entre a sociedade capitalista
atual e o comunismo.
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Curiosidade: a foice e o martelo, símbolos do
comunismo, têm sua origem na união entre os
trabalhadores das fábricas (representados pelo
martelo) e os trabalhadores do campo/rurais
(representados pela foice). Antes de chegar à
Rússia, o movimento socialista era um
movimento operário, os trabalhadores do
campo não tinham expressão. Isso se deu pelo
fato de a Rússia de 1917 ainda ser uma nação
majoritariamente agrária, diferente de outros
países como Inglaterra, França e Alemanha.

O Comunismo, diferentemente do Socialismo, é a fase posterior à fase


socialista. Atingir o comunismo significa dizer que o ser humano está
totalmente emancipado, livre de quaisquer formas de opressão ou
subjulgamento por quaisquer entidades, seja ela estatal, religiosa ou até
mesmo por outro ser humano. Agora, podemos compreender porque o
Comunismo é chamado de utopia. Ele aparenta ser inalcançável, mas a busca
pelo inalcançável nos mantém sempre numa constante busca pelo melhor.

O socialismo nasceu como uma teoria que visava o fim do Estado, essa
foi uma das razões pelas quais Marx nunca criou uma teoria do Estado
socialista. O que se tinha em mente era implantar a Ditadura do Proletariado
e, aos poucos, ir desmantelando o Estado burguês e suas formas de opressão.
Entretanto, com o socialismo real soviético e as contingências da época
(sobretudo causadas pela ameaça externa dos países imperialistas), os
Estados socialistas soviéticos tomaram um sentido oposto à teoria do Estado
de Marx, fortalecendo o Estado e estagnando na fase da ditadura do
proletariado. O Socialismo surge como uma tentativa de alcançar o
Comunismo por meio de uma perspectiva materialista-histórica. Hoje, a busca
pela realização do Comunismo não é mais intrínseca ao Socialismo, podendo
este ser pensado como um fim em si mesmo, não mais como uma busca para
realização da utopia comunista.

OBS.: o termo Ditadura do Proletariado nada se


assemelha ao conceito de ditadura que existe
hoje no entendimento comum como sendo de um
regime autoritário e violador de direitos. Marx
contrapõe a ditadura do proletariado com a
ditadura da burguesia. A sociedade vive hoje a
ditadura da burguesia, ou seja, a burguesia está
no poder da política e da economia. O que Marx
propõe é que o proletariado deve tomar esse
poder, controlar o Estado e as instituições sociais
e governar em prol do povo trabalhador.

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ÀS PORTAS DA REVOLUÇÃO
A situação da Rússia pré-revolucionária era pouco otimista. O país era
uma monarquia absolutista governada pelo czar Nicolau II. Sua economia era
basicamente agrária e ainda de teor feudal com insipiente desenvolvimento
capitalista dependente do capital estrangeiro, sendo a produção industrial
voltada para produção têxtil e metalúrgica. Na virada do século XIX para o
XX, a população russa era composta por 79% de camponeses,
aproximadamente 103 milhões de pessoas.

Por contingências históricas, a Rússia exercia um papel geopolítico


contrarrevolucionário de mantenedor militar do status quo das monarquias
europeias; era conhecida historicamente como Gendarme da Europa, ou
guarda da Europa. Muito devido às
(Foto da família imperial russa Romanov)

conjunturas de formação do czarismo no


século XV contra as invasões mongóis,
assim como a submissão ao poder
econômico dos países centrais
capitalistas da Europa.

Nos fins do século XIX, começam a


ser organizados os partidos operários
como o Partido Operário Social-
Democrático da Rússia (POSDR),
partido de Lênin, que mais tarde se dividiria nas vertentes bolchevique
(maioria) e menchevique (minoria).
Em 1905, durante a guerra russo-japonesa, irrompeu uma greve de 250
mil trabalhadores reivindicando direitos sociais e políticos. Em 09 de janeiro,
mil manifestantes foram mortos pela fuzilaria russa, esse dia é conhecido
como Domingo Sangrento. Desde esse episódio, várias greves irrompem pela
Rússia, impulsionadas pelo descontentamento com a guerra contra o Japão.
Foi nesse período que surgiram os sovietes (conselhos operários).

Em 1914, começa a I Guerra Mundial. Inicialmente a população apoiava,


mas com o prolongamento da guerra e sucessivas derrotas, o povo começou a
se revoltar. Em 09 de janeiro de 1917, uma manifestação em memória do
Domingo Sangrento reúne 150 mil trabalhadores em Petrogrado, dando forma
à revolução iminente, com o tema “Paz, Terra e Pão”. Em 23 de fevereiro,
irrompe a primeira revolução de 1917, a Revolução de Fevereiro, depondo a
monarquia czarista e tirando a Rússia da guerra em março de 1918. “Todo
poder aos sovietes, tanto na capital como nas províncias”, dizia o lema.
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REVOLUÇÃO E CONSOLIDAÇÃO
DO ESTADO SOCIALISTA
A Revolução de Fevereiro não
conseguiu atingir seu objetivo de
melhoria das condições de vida do
povo; a Rússia ainda vivia um período
de crise, inflação e escassez de
alimentos. Na madrugada do dia 24
para 25 de outubro, irrompeu uma
insurreição liderada por Lênin em
Petrogrado, a Revolução de Outubro,
pondo fim ao governo provisório.

O período após a insurreição entre 1917 a 1922 foi o período da guerra


civil russa. Durante esse ínterim, surgiu o Exército Vermelho, tendo como um
dos articuladores principais Leon Trotsky, mais tarde nomeado Comissário da
Guerra e Presidente do Supremo Conselho de Guerra.

Curiosidade: o Exército Vermelho foi criado


para combater o Exército Branco imperial,
comandado por Anton Denikin (exército) e
Aleksandr Kolchak (marinha). A cor vermelha só
passou a ser associada ao comunismo após a
criação do Exército Vermelho.

O período após à revolução foi dedicado à transição do antigo regime


para o socialismo. Surge a pergunta: “Que fazer?” Esse era o grande
problema após a tomada do poder. Não existia uma Teoria Geral do Estado
Socialista, os soviéticos estavam às cegas. A Rússia sofria as consequências da
guerra civil. Sua indústria decrescera, a população das capitais das províncias
diminuíra cerca de 33% e a produção agrícola não estava melhor. Foi nesse
quadro que o socialismo soviético construiu-se e, surpreendentemente, saiu
vitorioso. Um dado indica o triunfo dessa revolução em uma comparação de
crescimento industrial entre os anos de 1913-39: Alemanha -24,6%, Bretanha
-14,8%, EUA +10,2%, União Soviética +291,9%. A Rússia saiu do patamar de
uma nação semifeudal e tornou-se uma das grandes potências mundiais.

Em 30 de dezembro de 1922, a República Socialista Federativa


Soviética da Rússia junto com as repúblicas socialistas Transcaucasiana,
Ucraniana e a Bielorrussa assinam um tratado formando a União das
Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) ou Союз Советских Социалистических
Республик (CCCP).
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PERÍODO STALINISTA
Em 21 de janeiro de 1924, morre o líder
revolucionário Lênin. Inicia-se uma disputa
interna pela liderança do poder político da
União Soviética e dois nomes principais
emergem: Leon Trotsky e Josef Stalin.
Trotsky era partidário da teoria da revolução
permanente, ideia de um esforço conjunto da
classe proletária de todos os países, uma
teoria marxista ortodoxa encontrada na frase final do Manifesto Comunista:
“Proletários de todos os países, uni-vos!”. A ideia é de que o socialismo só
daria certo se a revolução se expandisse para outros países capitalistas
desenvolvidos, derrotando os sistemas capitalistas noutros territórios. Stalin
posicionava-se de modo diferente, não ortodoxo, baseado na teoria de
Nikolai Bukharin de socialismo em um só país. A ideia era fortalecer o
socialismo dentro de determinado país antes de ser proposta qualquer
expansão internacionalizante. Josef Stalin saiu vencedor, implantando a teoria
de Bukharin que se mostrou perfeitamente possível, contrariando o
pensamento de Trotsky.
(foto do jovem Josef Stalin)
Existe um forte teor de propaganda ao
falar sobre a figura de Josef Stalin, nos sentidos
positivo e negativo, porém principalmente no
negativo como tentativa de deslegitimar as
ideias socialistas e comunistas. O que, de fato,
podemos extrair de sua biografia de
verdadeiro?

Stalin, conhecido como o Homem de Aço,


foi Secretário-Geral do Partido Comunista da
União Soviética entre 1922 e 1953, ano de sua
morte. Existia um culto à figura de Stalin devido
a ele ser considerado um herdeiro de Lênin
(outra figura cultuada), contudo, Stalin opunha-
se a esse culto à personalidade. Ele não
aceitava, mas mesmo assim seus admiradores continuavam a cultuá-lo. Em
julho de 1933, o jornal do Partido Comunista, a Pravda (verdade, em russo),
passou a homenagear quase diariamente a figura de Stalin como uma espécie
de ritual, reforçando a ideia de culto à personalidade. Esse culto, não
defendido pelo marxismo, resultou do fato de Stalin ter uma visão além da
teoria marxista e ter compreendido a necessidade urgente de seu povo.
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O período stalinista foi conhecido pelo
fortalecimento e burocratização do Estado,
universalização da saúde e da educação,
coletivização dos meios de produção,
planificação da economia, unipartidarismo,
militarização do Partido Comunista, expurgos
e totalitarismo. Todas essas alegações são
verdadeiras, contudo, existem verdades
incompletas em algumas afirmações sobre
este período. Contrapropaganda de países
capitalistas, na tentativa de deslegitimar as
ideias socialistas, fizeram de Stalin e seu
governo um espantalho dos “males do
socialismo” e da ideologia comunista.

É um fato consumado e comprovado que houve expurgos e pessoas


inocentes foram condenadas por serem considerados contrarrevolucionários.
Mas há uma parte da história não contada, o papel do Comissário Popular de
Questões Internas (da polícia secreta), exercido por Guenrikh Yagoda (1934-
36) e Nikolai Yezhov (1936-38), acusados no Julgamento dos 21 de usarem a
autoridade que possuíam para proteger seus companheiros conspiradores e
acusar comunistas fiéis de serem contrarrevolucionários. Após investigações,
Yagoda e Yezhov foram condenados e o número de acusados de traição
revolucionária despencou, havendo, também, reinvestigações e correções de
milhares de injustiças. O número estatístico de prisioneiros, publicado
posteriormente por Boris Yeltsin, constatou uma quantidade menor de presos
na URSS que nos Estados Unidos na mesma época.

Da mesma forma, acusam o Socialismo de não suprir as necessidades


alimentares de seu povo citando o episódio do Holodomor nos anos 1932-33.
De fato, houve fome, mas esse fato teve suas proporções aumentadas. A
principal causa da fome foi a guerra civil entre os kulaks (camponeses ricos
detentores de terras) contra a coletivização de terras proposta por Stalin. Os
kulaks abatiam seus animais e queimavam plantações (próprias e coletivas),
pois preferiam essa atitude a ver seus bens coletivizados.
Em 1939, começa a 2ª Guerra Mundial. No
mesmo ano, às vésperas da guerra, a Alemanha e
URSS assinam o pacto de não agressão (Molotov-
Ribbentrop), durando até 1941, ano em que a
Alemanha invadiu a URSS. Ocorre em 1942-43, a
Batalha de Stalingrado, a URSS sai vitoriosa e os
rumos da guerra mudam graças à rigidez do Exército
Vermelho e ao lema “nenhum passo para trás”. Em
maio de 1945, o Exército Vermelho vence a Batalha
de Berlim, pondo fim à ameaça nazista.
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FIM DA 2ª GUERRA MUNDIAL,
GUERRA FRIA E FIM DA URSS
Os esforços de guerra dos soviéticos foram determinantes na vitória
sobre o nazismo. As figuras de Stalin e da URSS foram essenciais para a
derrota nazista. O mundo precisava de um Estado resistente, como o
soviético, comandado por um líder forte, como Stalin. Foram essas
características que decidiram os rumos da civilização ocidental no século XX,
vide ter sido o Exército Vermelho o primeiro a hastear sua bandeira e
marchar por Berlim. Contudo, há um paradoxo aqui: Stalin, apesar de ser
considerado um ditador sanguinário, livrou o mundo da barbárie nazista.
Podemos observar por duas perspectivas diferentes: i) de fato Stalin era
mesmo do que era acusado ou ii) ele se dispôs a ser considerado um monstro
pela história em nome da civilização.

Enquanto Inglaterra e Estados Unidos sofreram pouco da guerra em


seus territórios, a URSS teve seu povo e território massacrados pelo exército
alemão. As batalhas com mais baixas foram as do fronte oriental. Cerca de 2
mil cidades soviéticas foram total ou parcialmente destruídas com a invasão.
Estimava-se que a recuperação industrial soviética levaria décadas, contudo,
3 anos após o fim da 2ª Grande Guerra a industria da URSS tinha ultrapassado
os níveis de 1940, 1 ano antes de entrarem na guerra. Em 1950 a produção
tinha crescido 73% comparando a 1940.

Com o fim da 2ª Guerra, iniciou-se uma guerra velada, a Guerra Fria. Os


protagonistas eram: do lado capitalista os Estados Unidos e do lado socialista
a União Soviética. De 1945 até 1989 (ano da queda do Muro de Berlim), essas
duas potências disputaram a hegemonia política, econômica e bélica no
mundo, mesmo nunca entrando em combates bélicos diretos.

Um exemplo dessa disputa foi a corrida


espacial. A URSS põe em órbita o primeiro
satélite (Sputnik 1) em 1957 e, no mesmo ano,
(Foto de Yuri Gagarin)

enviam outro satélite com a cadela Laika nele.


Em 1958. os EUA põem o deles. Em 1961, a URSS
envia o primeiro homem ao espaço (Yuri A.
Gagarin). O fato era que a URSS sempre estava à
frente dos EUA na corrida espacial, exceto pelo
envio do homem à Lua, sendo esse o
estadunidense Neil A. Armstrong, o primeiro homem a pisar na lua. Contudo, a
corrida espacial teve como finalidade a demonstração das potências
hegemônicas do poder bélico de alcance de seus foguetes e ogivas nucleares.
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Além da corrida espacial foram travadas “guerras indiretas” entre as
duas potências, como as guerras: da Coreia, resultando na divisão em dois do
país; do Vietnã, resultando na transformação em um país socialista; e a do
Afeganistão, sendo uma guerra civil posterior à adoção do socialismo, tendo
ajuda de tropas soviéticas no lado do governo e ajuda logística dos EUA no
lado dos rebeldes.

Em 1918 forças armadas de países imperialistas da Europa tentaram


enfraquecer a construção do socialismo na Rússia, mas saíram derrotados. A
lição tirada foi que era improvável o socialismo soviético ser destruído por
ofensivas diretas externas. A desconstrução do regime socialista só daria
certo por dentro, gradativamente, por meio de contrapropaganda e de
agentes do próprio Partido Comunista com discurso revisionista de
modernização do socialismo, levando a divisões internas e queda do apoio
popular. Foi exatamente isso que ocorreu na URSS após a morte de Stalin.

A URSS tinha uma economia consolidada e o apoio das massas, foi o


revisionismo o qual implodiu o socialismo soviético. No entanto, ao contrário
dos que defendem, não foi somente no governo de Mikhail Gorbachev que a
URSS começou a ruir, mas, desde o revisionismo proposto por Nikita
Kruschev, entre os 20º e 22º Congressos do Partido Comunista (1956-61). Em
1961, foi declarado que a ditadura do proletariado era dispensável. Foram
feitas reformas econômicas e a abertura para a economia privada, trazendo
consigo os malefícios e corrupções inerentes à economia privada em nome
da “liberdade”, como a concentração de renda e poder corruptivo do
dinheiro. Essa abertura econômica preparou o cenário para o
enfraquecimento do socialismo. A economia privada tornou-se maior que a
economia socialista no período de Gorbachev, período no qual as políticas
revisionistas cresceram largamente, como as políticas perestroika e glasnost,
reformas econômica e ideológica de cunho liberal-burguês.

Essas políticas, que começaram a


ser implantadas após a morte de Josef
Stalin, culminaram em três marcos
importantes: a queda do Muro de Berlim
1989, marcando o fim da Guerra Fria, a
dissolução do Partido Comunista em
1991 e o fim da União Soviética em 31 de
dezembro de 1991. Esse foi o fim da
maior potência socialista do mundo,
destruída por dentro. Entretanto, o triunfo da Revolução de Outubro de 1917
marcou a história. Seu legado será eterno.

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EPÍLOGO
Essa parte é dedicada a comentar sobre determinados pontos de
maneira direta na forma de perguntas e respostas. Nossa intenção é desfazer
alguns mitos os quais ainda podem existir sobre o tema abordado.

Nazismo e Comunismo são a mesma coisa?


Definitivamente não. Essa confusão entre duas ideologias tão diferentes foi
construída como uma tentativa de deslegitimar o Comunismo. Na linguagem
técnica, esse argumento é conhecido como Reductio ad Hitlerum, em que
associam uma ideia a Hitler ou ao nazismo para a desvalorizar. O nazismo foi
uma ideologia que, desde suas bases teóricas, pregava a superioridade de
raças, negava a luta de classes e não visava ao fim da propriedade privada
dos meios de produção, posições totalmente diversas à ideia do comunismo
que visava à emancipação do ser humano contra qualquer forma de opressão.
Além do fato de os marxistas terem sido perseguidos pelos nazistas e de
Hitler ter escrito no seu livro Mein Kampf várias passagens contra o
marxismo, o comunismo é uma ideologia de esquerda e o nazismo de direita.

Um Estado ser grande significa dizer que ele é socialista/comunista?


A ideia de Estado é anterior às teorias comunistas e socialistas ou até mesmo
à separação entre esquerda e direita. O Estado moderno surgiu em 1648 com
a Paz de Vestfália, mais de 1 século antes do surgimento da classificação
esquerda, direita e centro que data da Revolução Francesa (1789) e exatos 2
séculos antes da publicação do Manifesto Comunista. O tamanho do Estado
não está relacionado a ele adotar uma ideologia de direita ou esquerda.

O Brasil é, já foi ou está tornando-se socialista?


A resposta para as 3 perguntas é não. O Brasil está longe de ser um país
socialista, assim como os países escandinavos não o são. O que aconteceu na
última década e meia foi o aumento de programas sociais que tinham como
proposta aumentar o acesso da população de renda baixa aos bens de
consumo por meio da distribuição de renda para movimentar a economia e
fazê-la crescer. Essa é uma característica do capitalismo social-democrata,
assim como acontece nos países centrais europeus. Não existe nessa política-
econômica a intenção de transformar o país em socialista, apenas de
perpetuar a economia capitalista. Os países socialistas da atualidade são
Cuba, Coreia do Norte e China (esse último com algumas ressalvas). Além
desses, atualmente, não existem outros países que adotam ou se dizem
socialistas.

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Já existiu algum país que alcançou o Comunismo?
Não, nenhum país chegou a ser comunista, apenas socialista como a URSS,
Alemanha Oriental, Iugoslávia, Mongólia e até mesmo o Chile, país que
conseguiu implantar o socialismo por meio da eleição de Salvador Allende,
mas pouco depois houve um golpe de Estado, liderado pelo general Augusto
Pinochet, reprimindo o socialismo e implantando uma das mais sanguinárias
ditaduras da América Latina. Os países socialistas da atualidade são Cuba,
Coreia do Norte e China (esse último com algumas ressalvas). Além desses,
atualmente, não existem outros países que adotam ou se dizem socialistas. A
Venezuela, diferente do que é dito, não é socialista. Apesar de a Venezuela
estar passando por um período de transição por meio de reformas, a
Venezuela ainda possui características capitalistas como atuação do setor
privado na economia.

No Socialismo o salário de todos é igual?


Não, essa é uma ideia totalmente errada sobre o Socialismo. Em momento
algum, Marx ou teóricos sobre o Socialismo disseram ou pregaram isso. O
que ocorre no Socialismo é a diminuição desigualdade de renda, não a
igualação entre todos os salários, independente da profissão. O gari e o
médico não vão ganhar a mesma coisa, mas ambos ganharão salários dignos,
referentes à sua profissão. O que se busca é acabar com casos como o de 1%
da população mundial controlar 45% de toda a riqueza.

O Socialismo vai tomar minha casa e não poderemos ter iPhone?


Não. O que se prega é o fim da propriedade privada dos meios de produção,
ou seja, as fábricas/indústrias devem ser propriedade do Estado/povo, não
de apenas alguns poucos que exploram os trabalhadores por meio da mais-
valia. A casa não é considerada meio de produção. Não existe nenhuma teoria
que proíba ter iPhone ou qualquer outro bem tecnológico. Na verdade, o
Socialismo tem a intenção de que o acesso aos bens de consumo seja geral,
não apenas de alguns poucos que podem pagar. E sobre os países socialistas
serem atrasados em avanços tecnológicos é um mito, vide os avanços
tecnológicos do período da Guerra Fria.

O Socialismo funciona?
Um sistema que tirou a Rússia do feudalismo e em 25 anos a transformou em
uma potência econômica e bélica não pode ser considerado como não
funcional. Os motivos do fim da URSS foram explicados na página 9. A
pergunta a ser feita é: o Capitalismo funciona? Se funciona, a que preço?

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CRÉDITOS E BIBLIOGRAFIA
Autor:
Patrick de Almeida Saigg – patrick-al-saigg@hotmail.com
Graduando em Direito pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro
(UFRRJ).

Supervisão:
Daniel Nunes Pereira – danielnunes@id.uff.br
Bacharel em Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF); Especialista
em História Europeia (Universiteit Utrecht); Mestre em Sociologia e Direito
(PPGSD-UFF); Mestre em Ciência Política (PPGCP-UFF); Doutorando em
Sociologia e Direito (PPGSD-UFF). Professor orientador do Grupo de Estudos
Direito e Pensamento Político.

Revisão gramatical:
Roberto de Carvalho Silva – rocasil@hotmail.com
Bacharel/Licenciado em Letras Português-Grego pela Universidade do Estado
do Rio de Janeiro (UERJ); Pós-Graduação Lato Sensu em Língua Portuguesa
pela Faculdade Internacional Signorelli.

Bibliografia:
-ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo. Mestre Jou: 1970.
-BLAND, Bill. Carta à Academia Sarat em Londres, 1999. Disponível em:
www.novacultura.info/single-post/2017/05/13/Bland-Stalinismo
-BRAR, Harpal. Perestroika. prefácio à 2ª edição hindu. Disponível em:
www.novacultura.info/single-post/2017/08/05/Como-o-revisionismo-
kruschevista-destruiu-a-Uniao-Sovietica.
-CARLEIAL, Aydano. Uma Breve História da Conquista Espacial. Disponível em:
www.ufpa.br/ensinofts/artigos/breve%20historia%20dos%20foguetes.pdf
-DALARI, Dalmo. Elementos da Teoria Geral do Estado. São Paulo. Saraiva:
1989.
-GRUPPI, Luciano. Tudo Começou com Maquiavel. São Paulo. L&PM: 1987.
-MARTENS, Ludo. Stalin, um Novo Olhar. Rio de Janeiro. Revan: 2015.
-MARX & ENGELS. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo. Escala: 2009.
-STALIN, Josef. A Formação da União das Repúblicas Soviéticas. Primeiro
Congresso dos Sovietes. 1922. Disponível em:
www.marxists.org/reference/archive/stalin/works/1922/12/30.htm
-ZINÓVIEV, Aleksandr. Staline, a Época de Staline e o Stalinismo. 2003.
Disponível em: www.hist-socialismo.com/docs/AZinovievEpocaStaline.pdf

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“Que as classes dominantes tremam à
ideia de uma revolução comunista! Os
proletários nada tem a perder, exceto
seus grilhões. Tem um mundo a ganhar.”