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ABORDAGENS E

PRÁTICAS DA PESQUISA
QUALITATIVA EM
GEOGRAFIA E SABERES
SOBRE ESPAÇO E
CULTURA
Álvaro Luiz Heidrich
L
Letra1
Cláudia Luísa Zeferino Pires
editora
Organizadores
PPG GEOGRAFIA
ABORDAGENS E
PRÁTICAS DA PESQUISA
QUALITATIVA EM
GEOGRAFIA E SABERES
SOBRE ESPAÇO E
CULTURA
Álvaro Luiz Heidrich
Cláudia Luísa Zeferino Pires
Organizadores

UFRGS L
Letra1
GEOCIÊNCIAS editora
PPG GEOGRAFIA
© 2016 – Autores

Revisão
Geordana Cavalheiro
Paulo de Toledo

Capa
Daniele Zelanis

Projeto gráfico e diagramação


Ronaldo Machado | Letra1

Impressão
Gráfica da UFRGS
Dados Internacionais de Publicação
Bibliotecária Ketlen Stueber CRB: 10/2221

A154 Abordagens e práticas da pesquisa qualitativa


em geografia e saberes sobre espaço e cultura /
organização de Álvaro Luiz Heidrich e Cláudia Luísa
Zeferino Pires . – Porto Alegre: Editora Letra1, 2016.
334 p.
ISBN 978-85-63800-22-0
DOI 10.21826/9788563800220

1. Geografia cultural: saberes e práticas de pesquisa. 2.


Discursos e narrativas. 3. Espaço, sociedade e cultura. I.
Heidrich, Álvaro Luiz. II. Pires, Cláudia Luísa Zeferino.
III. Título.

CDU 911.3 : 001

Disponível para download em


http://www.lume.ufrgs.br/

L
Letra1
www.editoraletra1. com.br
CNPJ 12.062.268/0001-37
letra1@editoraletra1.com.br
editora porto alegre - brasil
ABORDAGENS E
PRÁTICAS DA PESQUISA
QUALITATIVA EM
GEOGRAFIA E SABERES
SOBRE ESPAÇO E
CULTURA
Álvaro Luiz Heidrich
Cláudia Luísa Zeferino Pires
Organizadores
Sumário

Apresentação
Álvaro Luiz Heidrich
Cláudia Luísa Zeferino Pires 9

Introdução: Método e metodologias

1 - Método e metodologias na pesquisa das geografias com cultura


e sociedade

Álvaro Luiz Heidrich 15

I - Cartografias e narrativas

2 - Narrativas do espaço nas histórias de vida: os desafios das


metodologias qualitativas na geografia

Nola Patrícia Gamalho 35

3 - Mapas-narrativas e um Conto Geográfico

Cláudia Luísa Zeferino Pires, Cristiano Quaresma de Paula,


Helena Bonetto 49

4 - Entre corredores ecológicos e salas poéticas: conexões criativas


no fazer científico

Ana Stumpf Mitchell 69


5 - A pesquisa-ação em educação popular e o lugar nos quilombos
urbanos de Porto Alegre/RS

Felipe da Costa Franco, Igor Dalla Vecchia, João Pedro Izé Jardim,
Marília Guimarães Rathmann, Winnie Ludmila Mathias Dobal 85

6 - Ribeirinhos da FLONA de Tefé-AM: Cartografia Social na


compreensão do modo de vida

Dirce Maria Antunes Suertegaray, Mateus Gleiser Oliveira,


Elisa Caminha da Silveira Delfino 103

II - Etnografia em redes e territórios

7 - Geografia e cotidiano: reflexões sobre teoria e


prática de pesquisa

Benhur Pinós da Costa 129

8 - A pesquisa etnogeográfica com os Kawahib em Rondônia:


desafios, trilhas e horizontes

Adnilson de Almeida Silva 151

9 - Etnografia Multilocalizada em Antropologia e Geografia

Lucas Manassi Panitz, Luis Felipe Rosado Murillo 169

III - Percorrer, ver e escutar em campo

10 - Entre a paisagem sonora religiosa e as paisagens da memória


e da imaginação: uma proposta metodológica

Marcos Alberto Torres 195


11 - Um mosaico de relações – o Pagus e as múltiplas leituras para o
estudo da paisagem

Roberto Verdum, Daniele Caron, Letícia Castilhos Coelho, Marina


Cañas Martins, Lucas Panitz, Maurício Pimentel, Geovane Aparecida
Puntel, Mário Rangel, João Paulo Schwerz, Luis Aberto Pires da Silva,
Juliane da Soller, Lucimar de Fátima dos Santos Vieira 211

12 - Dos recortes do espaço à instrumentalização da geografia

Theo Soares de Lima 229

13 - Geografia e experiência cinematográfica: apontamentos para uma


metodologia

Julia Saldanha Vieira de Aguiar 249

IV - Decifrar falas

14 - Imaginação geográfica e análise de notícias como fonte em


pesquisas em Geografia

Daniela de Seixas Grimberg, Adriana Dorfman 271

15 - Geografia e Saúde: articulação de saberes, práticas discursivas e


produção do espaço

Camilo Darsie 287

16 - Ofício, Engenho e Arte: inspiração e técnica na análise de dados


qualitativos

Edson Armando Silva, Joseli Maria Silva 301

Sobre os autores 329


Apresentação

Álvaro Luiz Heidrich

Apresentação
Cláudia Luísa Zeferino Pires

Esta coletânea de textos foi reunida com a ideia de trazer


discussões sobre abordagens metodológicas em Geografia e demais
campos de estudo sobre espaço e cultura, estratégias de levantamento
de dados e sua análise. Como se expressa em seu título, trata-se de
abordagens – enfoques ou aproximações –, pois, tanto no todo como
em cada capítulo, se compreende que metodologia é uma arquitetura
em adaptação. Um arranjo para viabilizar a pesquisa, sobre algo em
descobrimento, sempre em aprontamento, nunca acabado. Temos o
objetivo de contribuir com ideias, métodos e técnicas qualitativas em
pesquisa, bem como discutir criticamente para o desenvolvimento
teórico e metodológico desse campo de conhecimento.
Os estudos que interligam espaço, sociedade e cultura, o
objeto das pesquisas aqui refletidas orienta nosso foco de atenção
destas para práticas qualitativas, que lidam com a discursividade, a
narrativa e as expressões subjetivas. Contudo, não é exclusivamente
sobre procedimentos e técnicas de pesquisa o que se discute, pois o
entrelaçamento com a ideia que sustenta a investigação remete em
muitos trabalhos à reflexão sobre Método, envolvendo também o
fundamento epistêmico e teórico. Este é o ponto de partida tomado
no capítulo de introdução desta obra, no qual Álvaro Heidrich

In: HEIDRICH, A. L. & PIRES, C. L. Z. (orgs.). Abordagens e práticas da pesquisa


qualitativa em Geografia e saberes sobre espaço e cultura. Porto Alegre:
Editora Letra1, 2016, p. 9-14. DOI: 10.21826/9788563800220
ABORDAGENS E PRÁTICAS DA PESQUISA QUALITATIVA EM GEOGRAFIA E SABERES SOBRE ESPAÇO E CULTURA

entrelaça método, metodologias, geografia cultural e social, e as modalidades de


abordagem qualitativa usuais nesse campo. Os capítulos seguintes estão organizados
em outras quatro partes: (I) Cartografias e narrativas; (II) Etnografias em redes e
territórios; (III) Percorrer, ver e escutar em campo e (IV) Decifrar falas. A aproximação
Apresentação

reunida em cada parte diz respeito a experiências, tanto teóricas como empíricas,
pautadas pela orientação comum de conterem reflexões e relatos metodológicos.
Nesse sentido, expõem fundamentos de pesquisa e apontamentos como recortes
espaço-temporais, métodos de coleta de dados e os desafios discutidos e analisados
na abordagem ali reportada.
A primeira parte reúne cinco textos com foco mais orientado para as
metodologias da participação entre pesquisados e pesquisadores, em trabalho de
diálogo e construção da compreensão de seus lugares de vida. No capítulo dois, Nola
Gamalho, ao tratar a oralidade como uma prática que perpassa várias modalidades,
observa que ela ultrapassa o material, mas como se trata do subjetivo de nossas
vidas, dele não se separa. O estudo está fortemente embasado em sua experiência na
pesquisa, permitindo-lhe trazer argumentos bem pautados, não deixando, contudo,
de oferecer a abertura teórica necessária. Reflete sobre a posição do estranho que se
adentra no espaço vivido do outro e como isso vai se transfigurando e oferecendo
possibilidades de leitura.
No capítulo três, Cláudia Pires, Christiano de Paula e Helena Bonetto recontam
uma vivência de extensão universitária que buscou trabalhar memórias de moradores
sobre seu bairro, à maneira de um resgate cartográfico vivido. Ao refazerem os
mapas, vivenciarem memórias, pesquisadores e moradores compuseram um conto.
Virou livro, registrou memória e transformou-se em conhecimento. Atrevemo-nos
a dizer que, de lambuja, retrabalhou metodologia, pois o recontar trazido aqui está
permeado de discussão bem amparada.
No capítulo quatro, Ana Mitchell discute a formulação de sua pesquisa na qual
buscou compreensão sobre a vivência de pequenos agricultores em espaço geográfico
demarcado por corredores ecológicos. Relata a ideia inicial da pesquisa, influenciada
pelo imaginário de encontrar tipos específicos de uso do solo à possibilidade de
corredores ecológicos, o que teria influenciado a escolha de entrevistados e sua
própria postura de pesquisadora. O reconhecimento de ter encontrado complexidade
muito maior denuncia sua honestidade intelectual. Seu texto ensaia filosofia e poética,
não deixando de ser criterioso – metodológico. Seu estudo percorre o trabalho de
campo como um espaço para conhecer outros pontos de vista e o diário de campo
como um espaço de autorização para registros e reflexões.

10
APRESENTAÇÃO

No capítulo cinco, o Coletivo de Apoio à Reforma Urbana1 (CARU) relata as


ações desenvolvidas em projeto de extensão realizado pela Universidade Federal do
Rio Grande do Sul junto a duas comunidades quilombolas da cidade de Porto Alegre.
O projeto foi acompanhado por discussões metodológicas continuadas e estudos
teóricos também frequentes. Além desse aspecto, o trabalho de extensão manteve a

Apresentação
equipe sempre em contato com a comunidade e suas crianças e adolescentes, com a
ideia de desenvolver um processo educativo de aprendizagem sobre o espaço vivido
com procedimentos de construção de narrativas e cartográficas sobre ele. Nesse
texto, o grupo reflete sobre os fundamentos da ação-pesquisa e comenta o passo a
passo de seu percurso.
No capítulo seis, Dirce Suertegaray, Mateus Oliveira e Elisa Delfino relatam
o desenvolvimento de um projeto que teve o objetivo de registrar o uso da terra em
área protegida da Amazônia, porém sem desvinculá-lo dos modos das populações
tradicionais desse espaço. A cartografia social consistiu na metodologia ajustada
para a tarefa. Envolveu, evidentemente, tanto o levantamento das práticas de uso
e a concretude das paisagens da área, quanto as compreensões e significados delas
para as comunidades ribeirinhas.
A segunda parte conta com três diferentes enfoques de etnografia, todos eles,
porém, com sua própria associação dessa metodologia com o espaço, como espaço
vivido, microterritório ou multilocalização. No capítulo sete, Benhur Pinós da Costa
desenvolve autêntica discussão teórico-metodológica. Nela, ele expõe argumentos
em fundamentação de uma geografia do cotidiano, viabilizada por metodologia de
participação observante. Como já vem fazendo em vários de seus estudos, Benhur
desenvolve especial atenção para a escala e o enfoque microterritorial. A atenção para
esse âmbito da pesquisa justifica-se por favorecer o encontro espacial dos eventos
e das ações coletivas e individuais que, analisados por suas condições múltiplas de
negociações das diversidades, configura um procedimento metodológico “de dentro”
(Géographie dedans).
No capítulo oito, Adnilson Silva desenvolve um trabalho de etnogeografia, uma
etnografia orientada para a compreensão da territorialidade indígena Kawahib. Seu
texto relata a preocupação típica do etnógrafo (ou etnogeógrafo, então), à medida
que expõe descrição empírica e esforço de articulação teórica numa articulação
de bases históricas, antropológicas e geográficas. Trabalha autêntico passo a passo
metodológico, explicitado em dezessete pontos preparatório (pré-campo) e cinco
outros pontos basilares para o seu transcorrer amparado em fenomenologia. Seu
depoimento ainda nos enriquece ao final, mediante explanação de argumentos de
avaliação crítica.
1 Participaram os então alunos do Curso de Geografia da UFRGS, e associados da seção Porto Alegre da
AGB, Felipe da Costa Franco, Igor Dalla Vechia, João Pedro Izé Jardim, Marília Guimarães Rathmann e
Winnie Ludmila Mathias Dobal.

11
ABORDAGENS E PRÁTICAS DA PESQUISA QUALITATIVA EM GEOGRAFIA E SABERES SOBRE ESPAÇO E CULTURA

O capítulo nove fecha esta parte do livro, trazendo mais uma modalidade
de aproximação entre etnografia e geografia. Tem a ver com a necessidade de
rediscussão dos procedimentos etnográficos em vista de tratar aspectos não restritos
em localização. A renovação alcançada implica na realização do trabalho de campo
em outra escala, de processos mais globais, de articulação de redes sociais, o que
Apresentação

evidencia a importância de seu tratamento em geografia. Lucas Panitz e Luis Felipe


Murillo aprofundam a discussão teórica de bases antropológicas e geográficas e
comentam suas explorações de pesquisa.
A terceira parte deste livro dedica-se ao percurso e registro em campo, e
também ao olhar e escuta da paisagem. Inicia-se com o capítulo dez, de Marcos
Torres, que vê a paisagem sob outra forma: sua sonoridade. No estudo relatado,
que objetiva lidar com a paisagem sonora do espaço religioso, lida com ambos os
conceitos e desenvolve a pesquisa registrando os sons desse meio e articula, com
bases na compreensão do imaginário memorizado, uma análise com enfoque na
oralidade dos sujeitos pesquisados. Como já vínhamos apontando, trata-se de uma
“arquitetura” metodológica adaptada. Possui bases sólidas de fundamentação e
orientação justamente delineada ao objeto em atenção.
O capítulo onze é fruto de uma escrita coletiva elaborada no Pagus – Laboratório
da Paisagem da Universidade Federal do Rio Grande do Sul2. O laboratório reúne
pesquisadores, professores e alunos envolvidos com a pesquisa com a paisagem.
No texto, eles explicitam a dupla consideração dessa feição geográfica, tanto como
fato objetivo, material, como imaginário, produto de uma compreensão estética da
Geografia. Por isso, não poderia deixar de estar presente no conjunto dos relatos e
discussões desta coletânea. A paisagem, como imaginário nas narrativas literárias,
musicais e das artes plásticas, possui enlace fenomenológico para sua abordagem.
O texto reporta-se também aos temas de pesquisa, nos quais tanto o delineamento
objetivo da paisagem em unidades, como a sua caracterização por motivações
ambientais, turísticas, emotivas etc. necessitam da consideração de metodologias
qualitativas.
O capítulo doze, de Theo de Lima, enfoca o trabalho de campo como
metodologia de estar em paisagem. Ele inicia seu texto, porém, percorrendo
orientações mais clássicas dessa operação tão geográfica quanto a própria disciplina.
Interessante é o fato de o autor tomar no seu texto a própria ideia do percurso em
campo. Nele, então, lida com a metodologia como ferramenta, que envolve preparação
da atividade em levantamento documental e a atividade em diálogo com pessoas,
além das anotações de observação e, aos poucos, vai delineando um discurso de
propósito transformador: aproximando poética e geograficidade.
2 Participaram da escrita: Roberto Verdum, Daniele Caron, Letícia Coelho, Marina Martins, Lucas
Panitz, Maurício Pimentel, Geovane Aparecida Puntel, Mário Rangel, João Paulo Schwerz, Luis Aberto
Silva, Juliane da Soller e Lucimar de Fátima Vieira.

12
APRESENTAÇÃO

Júlia de Aguiar discorre, no capítulo treze, último desta seção, sobre a tomada
de cenas em vídeo-documentário. Ela se reporta à construção da experiência
cinematográfica para seu uso como uma metodologia de construção do saber em
campo. Embora preenchido de recursos e orientações técnicas, constitui modalidade
para lidar com a narrativa que envolve espaços vividos, por meio de um artefato

Apresentação
inteiramente cultural. Seu texto detalha revisão teórica e encaminha a ideia de
pertinência dessa arte com a geografia. O vídeo-documentário oferece uma maneira
de fazer entrevista, com a qual o entrevistador-cineasta proporciona ao sujeito
entrevistado a reflexividade, que permite associar imagens aos registros de fala.
A última parte desta coletânea traz três contribuições voltadas para a leitura
de narrativas, válidas tanto para os textos transcritos de entrevistas como para os
documentos já escritos. Elas envolvem a análise de elaborações dos discursos,
nos quais é necessário escrutinar e decifrar seus conteúdos. A primeira dessas
contribuições, o capítulo quatorze, de Daniela Grimberg e Adriana Dorfman, traça
uma orientação teórico-metodológica sucinta, como oferece a possibilidade do espaço
de um capítulo apenas, mas bastante completa. Oferece a possibilidade tanto de uma
primeira orientação, como de revisão dos aspectos básicos que estão ali associados.
O que se pode destacar como muito pertinente à proposta deste livro é a articulação
do embasamento conceitual sobre o imaginário, como as notícias sobre lugares e
fenômenos geograficamente localizados, geralmente portadoras de conotações que
reclamam desvelo. Pelo que se vê na discussão, reforça nossa compreensão de que
a subjetividade requer cuidado não apenas nas modalidades de sua coleta e escuta,
mas também na sua leitura.
Camilo Darsie discute, no capítulo quinze, geografia e saúde com o auxílio da
análise do discurso. Sua orientação apresenta a variante de fundamentar seu trabalho
com o aporte dos estudos culturais. Parte da indagação sobre as maneiras com que
o espaço é referido nos discursos sobre saúde, pois coinsidera que os mesmos são
capazes de orientar ou provocar transformações culturais. Sua discussão está bastante
centrada na análise dos documentos da Organização Mundial de Saúde, que apesar de
mencionarem aspectos espaciais nos problemas e ações de saúde, fundamentalmente
se configuram por meio de estatísticas e não por ações orientadas ao espaço como
um contexto integrado.
O capítulo dezesseis, de Edson Silva e Joseli Silva, também explora a análise
de conteúdo. O estudo, porém, centra-se no argumento de propor a clivagem de
gênero como fundamento para desnaturalizar o ponto de vista dominante nas
ciências sociais. Nesse sentido, defendem que a organização de instrumentos de
pesquisa estruturados em questionários fechados não permite essa exploração que
é justamente a abordagem do qualitativo, das entrevistas abertas, histórias de vida e
observações participantes que podem revelar aspectos não esperados que precisam
ser estudados, trazidos em consideração como informação efetiva. No decorrer do

13
ABORDAGENS E PRÁTICAS DA PESQUISA QUALITATIVA EM GEOGRAFIA E SABERES SOBRE ESPAÇO E CULTURA

texto, expõem procedimentos para lidar com a questão proposta e o recurso que
fazem (e propõem) de ferramentas informacionais.
Não é demais enfatizarmos aqui que o conteúdo que está neste livro reunido é
rico e emparelha-se à atenção e discussões atuais em crescimento sobre o tratamento
do imaginário. Alinha-se aos demais estudos que fazem reconhecimento da interface
Apresentação

materialidade-imaterialidade, do agir social e do simbólico. Nossa expectativa é de


uma proveitosa leitura.

Porto Alegre, Janeiro de 2016.

Os organizadores

14
1 Método e metodologias na pesquisa
das geografias com cultura e
sociedade

Introdução
Álvaro Luiz Heidrich

Neste texto, busco desenvolver algumas ideias gerais sobre


a abordagem qualitativa de pesquisa com sociedade e cultura nos
estudos de geografia. Com esse intento, proponho logo a seguir um
argumento de enlace: uma compreensão de contexto que também
se mostra latente em todo o conteúdo aqui tratado. Nesse tópico,
faço breve incursão sobre método e metodologia, remetendo à
consideração mais ampla do interesse e objeto da pesquisa geográfica.
O segundo tópico traz um primeiro entrelace de ideias ao caracterizar
o campo1 de estudo que reclama o uso das metodologias qualitativas
– as geografias que lidam com as práticas sociais e culturais. No tópico
seguinte, trago um segundo entrelace, sobre as modalidades mais
usuais da abordagem qualitativa e, por fim, as considerações finais
são trazidas como uma proposta de desenlace dessas ideias, voltando
à consideração primeira sobre o contexto com que estamos lidando.

1 Este termo tem uso frequente neste texto. Adiante aparecerá mais nitidamente
vinculado ao âmbito da pesquisa com enfoque sociocultural, que justamente
busca demonstrar ser o campo que solicita fortemente o uso das metodologias
qualitativas. Muito embora possamos aceitar para o termo o sentido mais
elaborado que Bourdieu (1989) adotou, que envolve posturas e defesas de posições
rigorosamente orientadas por definições institucionais e que, por certo, ocorre neste
mesmo que estamos nos reportando (ver o estudo de NABOSNY, 2014), aqui se
refere ao contorno primeiro usado por aquele autor e do sentido etimológico geral
do termo, de domínio e âmbito de ação.

In: HEIDRICH, A. L. & PIRES, C. L. Z. (orgs.). Abordagens e práticas da pesquisa


qualitativa em Geografia e saberes sobre espaço e cultura. Porto Alegre:
Editora Letra1, 2016, p. 15-33. DOI: 10.21826/9788563800220
Álvaro Luiz Heidrich

O enlace: método, metodologia e delineamento do geográfico


O tratamento da informação na pesquisa geográfica, que considera o dado não
rigorosamente objetivo e que precisa ser trazido a partir de diálogos, de compreensões
e vivências de pessoas e grupos, espaços vividos e práticas, é uma perspectiva recente.
Introdução

A Geografia possui tradição bastante materialista, e mesmo as antigas orientações


descritivas desta disciplina, pode-se dizer, restringiam-se ao que se denotava no campo
observado e quase nada se adentrava nas conotações de sentido. O registro de um
fato observado limitava-se predominantemente à compreensão de suas feições. Já,
as práticas de pesquisa com enfoque qualitativo passam a ser essenciais no campo
das humanidades e nas geografias orientadas para os estudos de cultura e sociedade
sob a influência das chamadas Filosofias do Significado ( JOHNSON; GREGORY;
SMITH, 2000). Pode-se ver, então, que o contexto aqui comentado não se limita à
enumeração de procedimentos ou técnicas. Ele envolve a afetação entre método e
metodologia, ou seja: o que se faz como prática de estudo e pesquisa depende das
concepções de como conduzir o próprio pensamento.
Método é compreendido por dois significados (ABBAGNANO, 1998):
(1) o que é mais geral e extensivo a vários campos consiste numa orientação de
pesquisa (por exemplo, método dialético, hipotético-dedutivo, a fenomenologia, a
hermenêutica, o empirismo lógico etc.); e (2) o que é mais restrito, numa técnica
particular de pesquisa. Este significado indica um procedimento de investigação
organizado, elaborado para o alcance de resultados considerados válidos. Em geral,
refere-se a procedimentos específicos de investigação e verificação.
O Dicionário de Filosofia de Abbagnano (1998) reconhece quatro significados
para o termo metodologia: (1) a lógica ou parte da lógica que estuda os métodos;
(2) lógica transcendental aplicada (segundo Kant); (3) conjunto de procedimentos
metódicos de uma ou mais ciências; e (4) a análise filosófica de tais procedimentos.
Sem maior pretensão de revisão, uma simplificação poderia ser vista, de um lado
(o da filosofia, principalmente), como o estudo do método e, de outro (os campos
particulares de pesquisa), como os procedimentos derivados de uma orientação geral
de método adaptados a uma disciplina ou pesquisa.
Visto dessa forma, previamente ao comentário sobre as práticas de pesquisa
qualitativa, é necessário lidar com o campo de estudos. Esse campo pode naturalmente
ser identificado por uma arquitetura teórico-metodológica – complexa –, porém, mais
facilmente se evidencia pelo conjunto de ideias básicas e termos relacionados através
dos quais nos comunicamos, debatemos e vamos delineando o campo geográfico. O

16
Método e metodologias na pesquisa das geografias com cultura e sociedade

vocabulário geográfico2 é extenso e atém-se aos fatos com que lidamos nas explicações
do emaranhado que é o espaço geográfico. Esses fatos estão predominantemente
ligados às suas feições, aspectos que os diferenciam e remetem à compreensão de
suas naturezas. Surgem por nossa experiência empírica e no cotidiano da vida de
cada um, diretamente relacionadas com o meio (social e ambiental).

Introdução
Para Moreira (2007), essa relação adquire feições geográficas como paisagem,
território e espaço, as categorias da geografia. Afirma, porém, que, antes delas,
são os princípios lógicos (localização, distribuição, extensão, distância, posição e
escala) dessa relação que fazem surgir a compreensão das feições geográficas e,
por consequência, de seus desdobramentos em outras categorias3. Evidentemente,
a relação entre elas nos transmite a imagem de um campo (universo) bastante
complexo. Uma geografia como um todo abstrato é um complexo de paisagens,
regiões, lugares, percursos, dinâmicas, etc. A combinação entre lugar e paisagem
permite construir noção de espaço geográfico (ou, geografizado), dinâmicas de
diferenciação e compreensão de temporalidades. A identificação de uma área desse
espaço, em particular, passa a ser reconhecida pela vinculação a seus respectivos
grupos como território, senão como ocupação, possivelmente como uso, produção
de marcas, particularização de processos etc.
Num esforço de formulação de método geográfico, Santos (2008), por meio de
uma abstração maior, mais distante da empiria geográfica, desenvolve compreensão
estrutural do espaço com as categorias de Estrutura, Processo, Função e Forma. Nesta
proposição, as formas não podem ser compreendidas isoladas de suas destinações
(funções), de seus processos formadores e de sua importância no condicionamento
de novas dinâmicas. Esse método, contextualizado por pensamento histórico-
dialético, exemplifica a importância da explicação do processo para a compreensão
da origem das formas. Ou seja, vai-se além da provocação inicial ocasionada pelos
princípios lógicos. A ação ou a dinâmica estão implicadas. Mas a consideração de
processos e dinâmicas os geógrafos já vinham trazendo para dar conta da explicação
da formação das paisagens e dos ambientes naturais da superfície terrestre (BLOOM,
1970; CLAVAL, 2014).
No contexto sociocultural, além da feição e da ação, o campo do imaginário
também é parte que se faz em geografia. Se espaço torna-se geográfico por produção
e/ou compreensão de geografias, por arranjos e configurações, se territórios são
2 Em “Entrevista” (capítulo do livro “Testamento intelectual”), Santos (2004) comenta que a
necessidade da explicação teórica divergente de seus mestres obrigou-lhe a propor definições e que,
frente ao manancial imenso de ideias e obras sem definição prévia de divisões disciplinares, trouxe-lhe
a compreensão de que necessitava de um mínimo vocabulário. Nesse mesmo espaço de conversa, ele se
queixa do “hábito de alienação cultural” (p. 31). Compreende-se assim, com sua experiência e trajetória
singular, a importância de termos e prezarmos por um vocabulário geográfico.
3 Associadas a espaço, os próprios princípios lógicos constituem subcategorias, a território, região, lugar e
rede, e a paisagem, arranjo e configuração (MOREIRA, 2007).

17
Álvaro Luiz Heidrich

suas apropriações, certamente há batismos, nomeações desses processos e formas,


significados assimilados e processados em modalidades de práticas.

A compreensão completa uma tríade. Ações e representações são criadoras de


morfologias. Morfologias dizem respeito ao fato, que grava cultura no espaço.
As representações não são mais do que elaborações de sujeitos com noções do
Introdução

espaço. E as ações são realizações dos sujeitos, construindo e transformando


espaço. Não nos cabe, por isso, esboçar a compreensão isolada, seja da forma,
da ação ou da representação. Quando nos reportamos a um ou outro, seria mais
adequado aceitar sua imbricação complexa (HEIDRICH, 2013, p. 57).

Bonnemaison (2002) considera que o espaço estudado pelos geógrafos possui


três níveis. Numa mais afinada tradução de sua ideia, podemos compreender esses
níveis como planos, projeções de um único espaço. Um deles é o espaço estrutural
ou objetivo, da materialidade efetiva das coisas e objetos da ação, das relações em
sociedade. Outro consiste no espaço vivido, “formado pela soma dos lugares e
trajetos não usuais a um grupo ou indivíduo” (p. 110), que envolve o cotidiano e
as subjetividades. Para ele, este ainda não é o espaço cultural, embora reconheça
que cultura engloba o vivido. Bonnemaison (2002) busca destacar que o plano
cultural transcende aquele outro e define-o como espaço geossimbólico, pois a
“representação cultural vai para além do horizonte do cotidiano”. Nele está o plano
das afetividades, dos valores socioculturais, os imaginários e seus significados. Acho
importante enfatizar, então, que não se trata de espaços separados, estanques, mas
de planos que se afetam mutuamente4.
O imaginário, ou as geografias imaginadas, ou, ainda, uma geografia das
representações, frutifica-se como orientação de estudo e pesquisa com a chamada
virada linguística na Geografia, pela qual se estabelece criticamente um posicionamento
variante em relação à separação entre materialidade e imaterialidade. Essa virada, que
vem sendo obstinadamente refletida pelo campo da, assim chamada, Nova Geografia
Cultural (COSGROVE; JACKSON, 2003) tem sido vista como uma possibilidade
de redenção, pois, como expressou Claval (2014, p. 309), a concepção de “espaço
como um recipiente, como fez a Geografia desde o Renascimento, não é inocente:
é transformá-lo num instrumento de dominação, que os poderosos souberam – e
sabem – utilizar”. A pós-modernidade e o recente interesse pelo pós-colonialismo
são vistos como influências destacadas para a valorização da ideia de imaginação
geográfica ( JOHNSON; GREGORY; SMITH, 2000).
Possuem papel distintivo para esse tema os trabalhos de Edward W. Said sobre
a construção imaginativa do Oriente feita pelo Ocidente, carregada de estereótipos

4 A inseparabilidade entre o material e o simbólico, o campo das relações objetivas e das ideias, é
claramente argumentada por Henri Lefebvre. A interação dialética da prática espacial que envolve a
representação dominante, técnica e científica e a representação delineada no cotidiano, que implica na
apropriação do espaço, é o que mantém a produção do espaço e “as relações sociais em um estado de
coexistência e coesão” (LEFEBVRE, 2000, p. 42).

18
Método e metodologias na pesquisa das geografias com cultura e sociedade

associados às práticas de dominação imperialista (2007)5. Juntamente com a crítica


considerada pós-colonial e pós-moderna, também os textos de orientação marxista,
como os trabalhos de Lefebvre, em Critique de la vie quotidiene (1961), com base
nas ideias de Bakhtin (2014), em Marxismo e filosofia da linguagem, devem ser
trazidos como referência do atual campo. Desse modo, tanto as pesquisas crítico-

Introdução
dialéticas como as fenomenológico-hermenêuticas, identificadas por Sposito (2004),
constituem referências de método desse enfoque. Além do aspecto metodológico, o
foco de atenção e as problematizações de pesquisa também têm se entrelaçado. Uma
pesquisa em particular sempre seleciona atenção mais restrita, mas o conjunto dos
estudos vem constituindo um campo maior de aproximação entre geografia cultural
e social, no qual as pesquisas qualitativas são cada vez mais necessárias.

Primeiro entrelace: Geografia Cultural e Social como campo


Tem sido difícil não utilizar a denominação Geografia Cultural para muitos
procedimentos e enfoques teóricos dos estudos sobre práticas e manifestações
culturais vinculadas a contextos geográficos. Por outro lado, o argumento de Claval
(2002a, 2008), mais favorável ao reconhecimento de uma abordagem e não de uma
disciplina, é muito coerente, pois não há como efetivar investigação sobre cultura
de modo desassociado do amplo campo de estudos de Geografia Humana. Quem
elabora essas classificações é o nosso próprio fazer-ciência. Porém, muito do que se
faz nesse campo não se distancia das atuais referências da Geografia Social, o que dá
muita validade para uma reflexão articulada. Essa aproximação já é reconhecida nos
estudos mais recentes ( JOHNSON; GREGORY; SMITH, 2000), assim como ganha
expressão o argumento que concebe uma geografia sociocultural (RAIBAUD, 2011).
Num ponto de vista correlato, muitos estudos de Geografia Humana, Econômica,
Política, Urbana ou Agrária, que consideram problemas como a desigualdade, a
segregação espacial, os problemas territoriais, são autêntica Geografia Social, assim
como as questões de identidade nesses problemas associados necessitam trabalhar
com a discussão atual da abordagem ou geografia cultural. Por isso, a denominação
é a questão menos importante. Principalmente porque o uso do termo fixou-se,
tornou-se normal. Ao lado disso, o que expressa maior consistência é o âmbito de
estudos, com referências metodológicas e de método, como a consideração importante
das representações e ideias ao lado das práticas espaciais, ou seja: propriamente um
campo. Para a denominação como uma subdisciplina – Geografia Cultural – pesa
a tradição de ter nascido com essa marca. Como uma abordagem, conta bastante
aquilo que se faz como enfoque, uma aproximação, que poderá contar, inclusive,
com objetivações muito particulares e, até mesmo, não ser a prática cotidiana de
5 Ver também o seu estudo sobre a narrativa colonialista na obra de Albert Camus em “Narrative,
geography and interpretation” (SAID, 1980).

19
Álvaro Luiz Heidrich

um pesquisador ocasional.
Sob a denominação de Geografia Cultural há um grande espectro de estudos
e temas de interesse, como o simbolismo das paisagens, o estudo de percepções e
representações do espaço, as identidades territoriais, estudos de gênero, religiões e
festas, microterritorialidades, geografias na literatura, cinema e música, problemas
Introdução

culturais associados à mundialização etc..

A influência da teoria linguística na geografia humana tem solicitado maior


atenção à cultura como um processo de autossignificação e de significação social,
na qual o significado é instável e questionável porque sempre se constitui
através dos discursos compartilhados de grupos humanos específicos. A nova
geografia cultural, em resposta ao MULTICULTURALISMO das sociedades
urbanas contemporâneas na Europa e América do Norte e à reclamação da
PÓS-MODERNIDADE para que se dê voz ao “outro”: ou seja, aos discursos
daqueles que tradicionalmente não têm tido em consideração na ciência social
ocidental e nas humanidades. Nesta perspectiva, alguns escritores recentes
têm insistido na integridade cultural dos povos colonizados, das mulheres, dos
que têm sido despossuídos materialmente e de outras minorias dominadas por
uma cultura fundamentalmente branca, masculina e burguesa ( JOHNSON;
GREGORY; SMITH, 2000, p. 252)6.

Para Di Méo e Buléon (2007), quatro abordagens compõem o quadro de


uma Geografia Social complexa, para a qual propõem marcos teóricos para uma
nova geografia cognitiva, social e cultural7. Uma dessas abordagens constitui-se
no estudo da imbricação das relações sociais (de trabalho, parentesco ou amizade,
lazer); relações consensuais ou conflitantes e as relações espaciais (uso e apropriação
de lugares, afetivos ou estratégicos, mantenedores ou modificadores das estruturas
espaciais). Uma segunda refere-se ao estudo das posições sociais que demarcam as
diferenças do espaço geográfico, que se traduzem por riqueza e pobreza, dominação
ou exclusão. A terceira refere-se ao estudo dos itinerários cotidianos, as práticas do
espaço geográfico que lhe conferem dimensão humana e social. E a quarta trata da
produção mental de imagens, das representações elaboradas socialmente, a produção
midiática da hiper-realidade que continuamente invade os sistemas de comunicação
e influencia nossa interpretação do mundo.
A complexidade das relações espaço-homem-sociedade foi retratada por esses
autores em dois planos, o da realidade e sua replicação num plano representacional
(Figura 1). No esquema, aparecem as categorias geográficas mais vinculadas aos
âmbitos sociais amplos, como classes e grupos e, na outra ponta, encontra-se o
sujeito, na sua expressão mais íntima. As categorias de espaço vivido e espaço social,
por exemplo, não coincidem em posição e as relações entre eles é mais indireta, pois
sofre a intermediação pelas demais relações demonstradas no esquema. Similarmente,

6 Grifos no original. Tradução livre.


7 Seguramente essa orientação não se enquadra na crítica formulada por Smith (2014) de uma geografia
cultural apolítica, até porque seu discurso parece estar bastante direcionado aos estudos anglófonos.

20
Método e metodologias na pesquisa das geografias com cultura e sociedade

as relações entre as composições do social chegam ao sujeito por intermediações.


Como é sugerido, o campo das ideias, o simbólico, não se reduz ao fenomenológico,
tampouco ele é exclusivamente social. Está num outro plano e perpassa a totalidade
do real. Não se separam, por isso, o que é material e racional do que é imaginário,
assim como não se separam também o que é subjetivo, no plano da realidade, do

Introdução
que seria imaginado sobre ele mesmo. Podemos ver assim o ganho de importância
do plano simbólico e sermos então instigados para o seu estudo.
Originalmente se reconhece a cultura como um conjunto de práticas, de
princípios e de atitudes. Há que se considerar, porém, que ainda que se tenha a
cultura em particular ela é, no singular e no plural, cultura em transformação e em
diversidade. Em espaço integrado, de forte intercâmbio comunicacional e ao mesmo
tempo local, interceptado em múltiplas escalas intermediárias até o mundial, o
âmbito dos problemas não se reduz ao social e ambiental local, ele possui múltiplas
referências. A apropriação de metodologias capazes de lidar com esse contexto assim
modificado (o espaço mundialmente condensado e localmente ampliado) torna-se,
por isso,
não essencial.
tratamos As feiçõesdas
diretamente da geografia estãoda
coisas, mas à nossa volta
relação quee estamos embebidos
temos com elas, do
delas, mas não basta captar sua imagem, delinear seus contornos objetivos, sem
que sentimos e compreendemos, por meio da linguagem, da arte, do mito, da
ciência e da religião
Figura(2005).
1 - Relações espaciais (espaço-homem-sociedade)
e objeto ou formas geográficas associadas.

Fonte: adaptado de Di Méo e Buléon (2007), por Torres (2011).


Figura 1 - Relações espaciais (espaço-homem-sociedade) e objeto ou formas
geográficas associadas. Fonte: adaptado de DI MÉO & BULÉON (2007) por Marcos
Torres (2011). 21
Álvaro Luiz Heidrich

distinguir as afetações simbólicas e o uso que se fazem delas. Na compreensão de


Ernest Cassirer, não tratamos diretamente das coisas, mas da relação que temos com
elas, do que sentimos e compreendemos, por meio da linguagem, da arte, do mito,
da ciência e da religião (2005).
Desse modo, com o auxílio teórico-metodológico que delineia a necessidade
Introdução

de se lidar com o imaginário, o levantamento dos fatos em campo visa a captura das
falas e o envolvimento com os espaços culturais – geossimbólicos. Questionários
e tabulações com amostras aleatórias não expressam essas relações. Elas não são
quantificáveis, até porque não estão baseadas em parâmetros objetivos e quantificáveis.
O sociocultural é captado mediante o envolvimento do pesquisador com o contexto
da pesquisa. É preciso lidar com oralidade e posteriormente destrinchar os significados
e sentidos. É para isso que se recorre aos levantamentos e pesquisas qualitativas, que
permitem manejar informações textuais.

Segundo entrelace: práticas da abordagem qualitativa


Por pesquisa ou metodologia qualitativa, pode-se compreender a prática ou
conjunto de procedimentos voltados à coleta de informações que envolvem o uso da
linguagem, em geral objetivadas para a captura de subjetividades e/ou significados
contidos nos textos produzidos no levantamento em trabalho de campo. O universo
de metodologias e abordagens teóricas é bastante amplo e muitas variações nele
encontradas são alcançadas em disciplinas específicas que as adequam a seu escopo,
embora tendam a difundir-se para outras áreas. Como é inerente a qualquer prática
de metodologia, ela requer adaptação ao foco da pesquisa. Por isso, assim como os
demais capítulos que seguem neste livro, outras importantes publicações retratam a
reflexão sobre sua aplicação (BROSE, 2001; RAMIRES; PESSÔA, 2009; MARAFON
et al., 2013). Neste tópico, apenas vão ser delineadas algumas referências para a
pesquisa que lidam direta ou indiretamente com cultura e sociedade na geografia,
objetivando-se muito mais a revelar os principais atributos do que caracterizar
extensivamente as diferentes modalidades8.
Uma comparação com as metodologias quantitativas (Quadro 1) torna essa
tarefa mais facilitada. As pesquisas qualitativas privilegiam o estudo de questões
subjetivas, geralmente não quantificáveis, apesar de que tem sido muito comum a
organização dos chamados levantamentos (ou questionários) semiestruturados, para
serem trazidas informações objetivas básicas sobre a população pesquisada ou tratar
de alguns aspectos materiais do problema ou contexto estudado.
Elas requerem que o trabalho de busca da informação seja intensivo e não
são muito viáveis para aplicações extensivas. Como todo levantamento de pesquisa,
8 Para uma visão mais atenciosa sobre as modalidades de pesquisa qualitativa, ver o trabalho de Flick
(2009), Introdução à pesquisa qualitativa.

22
Método e metodologias na pesquisa das geografias com cultura e sociedade

o nível intensivo ou extensivo se refere logicamente à amostragem da população


pesquisada, mas pelo fato de estarmos lidando com geografia, isso também replica
em termos espaciais (extensão e distâncias a serem percorridas). Dá-se muito mais
atenção a cada unidade da amostra (sujeitos pesquisados), demanda-se convivência
dialogada e conhecimento mais rico em detalhes da situação vivida. Valendo-se

Introdução
de um exercício de analogia, podemos dizer que vale a mesma ideia da situação
de mercado na qual se ganha mais por unidade de produto quando se lida com
pequenos estoques em relação à venda por atacado. Desse modo, o levantamento da
informação exige maior disponibilidade de tempo, tanto em função de ser necessário
adaptar o procedimento ao caso em estudo, como pelo fato de exigir diálogo aberto
e não dirigido, o que impede sua apropriação por um número grande de auxiliares
ou participantes da pesquisa.
Elas são aplicáveis ao estudo de situações em particular e não para a compreensão
de tendências gerais. A situação pesquisada é vista em particularidade. Por isso, a
escala de atuação é predominantemente local. Não se impossibilita, porém, lidar
com situações distantes, como no caso das pesquisas direcionadas para aspectos
multiplamente situados ou afetados pelas dinâmicas de mundialização. Se for essa
a situação, exigir-se-á deslocamento e apropriação dos locais pesquisados, a fim de
se possibilitar o diálogo mais aprofundado9. Contudo, esse exemplo não sugere
apropriação para efeito de comparabilidade das situações visitadas, tanto porque não
se reúnem tamanhos amostrais confiáveis, como pelo fato de que o próprio espaço
deva ser considerado uma situação, possivelmente local-mundial.
As questões de pesquisa não são elaboradas para os sujeitos entrevistados ou
envolvidos no levantamento responderem diretamente. É recomendável que sejam
perguntas-guia, para serem lembradas durante uma discussão num grupo focal,
numa entrevista ou participação ativa em situação de grupo. Isso também não quer
dizer que se desprezem conteúdos de diálogo não referidos diretamente ao guia
construído, pois a descrição de situações em particular, com mais raridade podem
ser previamente consideradas. Por isso, durante uma conversação, há mais ênfase
na explanação. É autenticamente uma conversa, momento no qual podem surgir
mudanças de situação, aparecer outros interlocutores e eventualidades. As surpresas
também podem trazer aspectos positivos antes não considerados no levantamento,
e isso deve ser acolhido como valiosa oportunidade de reconstrução de referências e
reorientação de procedimentos de levantamento, de consideração de novas questões
e ampliação do grupo pesquisado.
O pesquisador ou seu grupo assumem um papel mais ativo, diferenciando-
se da tradicional postura de neutralidade e distância da situação de pesquisa.
Particularmente nos enfoques etnográficos, o pesquisador é pessoa que participa

9 Ver capítulo 9: Etnografia multilocalizada em Antropologia e Geografia.

23
Álvaro Luiz Heidrich

Quadro 1 – Aspectos principais das pesquisas qualitativas e quantitativas.

Aspectos Pesquisas qualitativas Pesquisas quantitativas


Introdução

Como um processo funciona em Quais são as regularidades, os


um caso particular ou em um padrões comuns e as distintas
pequeno número de casos? Quais categorias da população?
Questões de pesquisa
deles produzem alguma mudança? Qual a amplitude de suas
O que fazem e como atuam os características, processos atuantes
agentes do/no processo? ou representados?

Relações substanciais e de Relações formais e de


Relações estabelecidas
conexão similaridade

Grupos estudados Causais Taxonômicos

Estudo de agentes individuais em


Pesquisa da população em larga
seu contexto causal, entrevistas
escala ou amostras significativas,
interativas, etnografia e
Tipos de procedimentos questionários formais e
observação participante.
entrevistas padronizadas.
Análises qualitativas, de conteúdo
Análises estatísticas.
e de discurso.

Explanação causal sobre a Generalizações descritivas


produção (ou vinculação) de representativas da população,
Tipos de relatos produzidos objetos, eventos ou situações, não amostra ou classes e grupos,
necessariamente considerados precisamente vinculadas à leitura
representativos. dos dados objetivos.

Apesar de se representar a
Padrões concretos e exatos,
população considerada, não
relativos ao conjunto entrevistado,
se pode estendê-la para outras
não são usuais como informação
situações, lugares e períodos.
Limitações encontradas representativa, generalizável ou
Há risco de se produzir falácias de
comum.
inferência sobre indivíduos.
Relações podem ser estabelecidas
Possui poder explanatório
em muitas variações e situações.
limitado.

Fonte: adaptado de Cloke et al. (2004).

24
Método e metodologias na pesquisa das geografias com cultura e sociedade

subjetivamente da situação e das vidas daqueles que são foco de atenção do estudo
(ANGROSINO, 2009). Nas práticas de observação participante, são vistos como
trabalhadores reflexivos em relação ao processo de construção da informação.
Uma das práticas de pesquisa qualitativa mais difundida é a observação
participante, por vezes também denominada como pesquisa participante ou

Introdução
participativa, porém há um importante aspecto que as difere. A observação participante
é fundamentalmente uma postura adotada pelo pesquisador em campo, enquanto
na pesquisa participante há envolvimento do pesquisador ou mediador com os
interesses da comunidade ou grupo envolvido na questão. Alguns exemplos desta
modalidade são os procedimentos de levantamento de necessidades para a elaboração
de documentos de reivindicação, realização de diagnósticos de problemas locais
ou comunitários e que, muitas vezes, podem estar envolvendo tomada de decisões
sobre uso de recursos, demanda ou adoção de políticas públicas (BROSE, 2001).
“No fundo, a [pesquisa participante] pode ser vista como participação baseada
na pesquisa10. Trata-se de fundamentação científica da opção histórico-política”
(DEMO, 2008). Muito similar a esse procedimento, caracteriza-se a chamada
Pesquisa-ação (THIOLLENT, 2004), quando se desenvolve em estreita associação
com um grupo social para o encontro da solução de um problema coletivo, estando
a pesquisa participativamente envolvida com esse objetivo. O detalhe acrescido é o
comprometimento no alcance dos resultados pretendidos pelo grupo (BARBIER,
2007).
Quando a questão envolve de modo mais exclusivo a realização da pesquisa
acadêmica e ocorre a identificação entre grupo de pesquisa e grupo pesquisado,
inclusive com o compartilhamento de resultados e discussão aberta dos problemas
em estudo, realiza-se então a observação participante. Muito embora a propriedade
das informações passe a ter uma responsabilidade formal do pesquisador, elas
também precisam ser compreendidas como um conhecimento do pesquisado, à
medida que se configure a interação nos questionamentos e também a atitude de
escuta. Apesar de não ser considerada propriamente uma metodologia, a ela se
associa a postura do envolvimento, do diálogo e provavelmente da entrevista não-
diretiva. Esta postura comumente adotada na etnografia (ANGROSINO, 2009)
tende a garantir legitimidade para sua atuação e presença junto ao grupo pesquisado,
possibilitando-se superar os constrangimentos de fala e assim facilitar a obtenção das
informações. Nessa prática, as informações são trazidas ou elaboradas conjuntamente
por pesquisador e pesquisado. Utiliza-se a etnografia quando há necessidade de
caracterizar o universo simbólico de modo autêntico, explicitado pela união do
conhecimento etnográfico, teórico e prático.

10 Grifo no original.

25
Álvaro Luiz Heidrich

Tem-se difundido bastante essa incursão metodológica na pesquisa de campo


de geografia, e já se torna bem conhecida a variante etnogeografia. Seguindo-se as
orientações de envolvimento do pesquisador com as etnias11, os geógrafos defendem
que a etnogeografia permite apreender a especificidade dos lugares e das paisagens
e verificar que a diversidade de normas que vigoram no lugar, nem sempre formais,
Introdução

muitas vezes não é captada nas pesquisas sobre temas econômicos, sociais e políticos
(CLAVAL, 2002b). Para Bonnemaison (2002, p. 96-97):

(...) a territorialidade emana da etnia, no sentido de que ela é, antes de tudo, a


relação culturalmente vivida entre um grupo humano e uma trama de lugares
hierarquizados e interdependentes, cujo traçado no solo constitui um sistema
espacial - dito de outra forma, um território.

Muitas situações vivenciadas na pesquisa ou observação participante envolvem


a ação dialógica em grupo. O pesquisador muitas vezes se distancia de uma figura
central e a noção de respostas verdadeiras transfigura-se pelo potencial do diálogo
(CLOKE et al., 2004). Cabe interpretar e tirar proveito de considerações que
podem ser polêmicas, divergentes, considerando-se que o grupo nem sempre atua
em consenso. Também nessa prática não há neutralidade. Nem sempre ela se dá
ocasionalmente, pode ser planejada para obter-se um resultado esperado, como
quando se quer obter dados, capturar ideias ou percepções, que não se alcançaria
em conversação isolada. Pode ser também excelente alternativa para conhecer
informantes, apresentar-se a um grupo por meio da chegada do pesquisador por
intermédio de instituições ou associações de determinado lugar12.
O campo de pesquisa sociocultural demanda, com freqüência, a busca por
referentes territoriais, de frente às ameaças de desterritorialização tão comuns devido
à propagação de inovações, modificação do meio social e ambiental, implantação
de grandes construções quase sempre causadoras do desalojamento de populações.
Situações como essas, notadamente com migrantes, requerem que o pesquisador lide
com fatos e acontecimentos passados, quase sempre sem ou com precário registro
documental. A conhecida história oral constitui-se em metodologia para este caso.
Se possível, facilita-se a obtenção da narrativa com o uso de gravadores de voz, ou
mesmo tomada de imagem13, para serem trazidas as vivências do grupo pesquisado
em relação aos ambientes e lugares, instituições, modos de vida etc.
Também com a denominação de história de vida, o produto levantado por

11 Como explicitado em Bonnemaison (2002, p. 96), por etnia se concebe “o campo de existência e de
cultura, vivido de modo coletivo por um determinado número de indivíduos”, querendo dizer que não
são exclusivamente povos intocados e de práticas tradicionais.
12 Esta foi a alternativa encontrada por Gamalho (2015) para construir a legitimidade de sua pesquisa
junto a jovens sobre suas práticas espaciais.
13 Ver capítulo 13: Geografia e experiência cinematográfica.

26
Método e metodologias na pesquisa das geografias com cultura e sociedade

esse meio, em grupos de discussão e observação participante, constitui narrativas,


textos que necessitam decifração. É muito interessante o fato de que o conjunto das
narrativas permite revelar conteúdos essencialmente socioespaciais. Não se trata,
como se viu mais acima, de reconhecer um espaço geográfico objetivo. As relações
espaciais não são paisagem visível. Não se captam a dor, o preconceito, os estigmas

Introdução
e formas veladas de dominação.

O espaço social assemelha-se a um texto cujos códigos necessitam de tradução,


de entendimento. Sua escrita não está dada, mas deve ser compreendida em
seus quadros de interpretação, permeados por contradições e superposições.
Ora, é necessário que o pesquisador desvencilhe-se de seus pré-conceitos e,
para compreender o outro não a partir de si, de seu modo de vida e valores, mas
a partir de estruturas e entendimentos desse outro (GAMALHO, 2010, p. 90).

Em todas essas modalidades, o propósito é dar autenticidade para as percepções


das experiências das pessoas. Também em todas elas há envolvimento com a entrevista
não-diretiva, que se orienta para a valorização da individualidade e sua subjetividade.
O quadro geral e específico da situação e as contingências precisam ser levados em
conta na leitura dos resultados. A ação de entrevista, porém, não é isolada. Faz parte
de um “estar em contato, em trabalho de campo”, uma das atividades mais ricas da
pesquisa com pessoas e grupos sociais e suas geografias. Envolve diretamente a
intensa articulação de práticas com enfoque qualitativo, como o registro em diário e
a tomada de imagens, a escuta, a própria entrevista e, também, sempre que possível, o
intercâmbio de experiência com os próprios praticantes do levantamento, à maneira
de um grupo focal.
O registro é para ser feito a todo o momento. O objetivo é trazer os aspectos
relevantes – o que é próprio do lugar (da paisagem e do território) e seu diálogo
com o que se repete pelas dinâmicas de assimilação das influências globais. Esta
orientação toma partido de um provocador teórico, uma postura metodológica
modificada em relação ao que era feito tradicionalmente na Geografia Humana e na
Geografia Cultural. O singular não é mais algo perfeitamente encaixado. O registro
se obtém com a anotação em diário, a fotografia, o relato de entrevista ou gravação e
a escuta das pessoas do lugar ou seus interlocutores. Mais que um procedimento, o
registro consiste na atividade articuladora das demais ações. Escutar é dar atenção à
conversa, mas também a tudo aquilo que seja expressão do lugar: um discurso, uma
manifestação espontânea, o que possa revelar as maneiras do lugar. Implica em reter
a informação do que surge como próprio e vinculado ao que está em cena. Desse
modo, deve ser também anotação em diário de campo da impressão causada que
possibilita tanto indagar para conhecer, como também refletir sobre o que é dito e
visto, considerando nossos referenciais.
A leitura de campo pode ser considerada um estudo. Pode gerar uma
interpretação que destaque aspecto, o relevo de alguma qualidade que tenha resultado

27
Álvaro Luiz Heidrich

do diálogo, do registro, da articulação de nossos valores referenciais, que muitas vezes


conseguimos ver na experiência empírica. Nem sempre, porém, o olhar e a escuta de
um é a mesma do outro. Entre vários fatores, destaco dois deles: depende do modo
que cada um lê, influenciado pelo que se conhece, e por que os caminhos e os olhares
no campo sempre podem diferir. Por isso, um seminário de campo ou simples roda de
Introdução

conversa (Figura 2) é uma prática bastante enriquecedora. Ali relatamos, recontamos


as oralidades, comentamos detalhes, quase sempre despreocupados com a maneira
de apresentar. Fazemos a troca do que um observou e registrou e comparamos.
Muitas vezes, diferentemente da soma, as compreensões se multiplicam. Alguns
aspectos podem ser generalizados, outros são muito próprios. Às vezes, se extrai a
iluminação teórica e, em muitas outras, se desbloqueiam interessantes perguntas.
Termina por ser um manancial no qual se pode usufruir para expor a vivência e
elaborar o registro ao modo de uma leitura.
Saber como se pode tirar proveito posterior do que se busca, do que se levanta
em campo, é substancial para a análise do que foi registrado. Identifico pelo menos
três maneiras – chaves de leitura – pelas quais podemos identificar nas leituras de
entrevista o que se busca com elas: (1) conteúdos gerados pelas considerações
de partida e dos objetivos da pesquisa; (2) conteúdos-surpresa, que podem ser
guardados como preciosidades que, a maneira de um garimpo (de não se desprezarem
esmeraldas e turmalinas mesmo que a procura seja por ouro), dão relevo às unidades
de significação (MICHELAT, 1982); e a outra (3), o teor dos objetos-conceitos
geográficos no interior (na alma) das falas. Este último pode garantir um alcance
especial, à medida que se elabora a tradução empírica do objeto teórico. Assim,
por exemplo, aquilo que é um conceito referencial da investigação ou do campo de
pesquisa, aparece com coloração, significado local, com implicações nas vivências.
Assim como a atividade foi planejada, quando se alcança o resultado do
trabalho, o ideal é ter-se uma transcrição na qual possam ser feitas as marcações com
as categorias esperadas e as unidades de significação encontradas14. Dois métodos
que se referem ao texto são bastante úteis para essa fase da pesquisa. São as teorias
do campo da linguística: as análises de conteúdo e de discurso. Ambas lidam com o
conteúdo do texto (FRANCO, 2008; PÁDUA, 2002), mas possuem diferenças, pois
enquanto a análise de conteúdo lida com os aspectos mais objetivos do conteúdo, a
análise de discurso interessa-se pelos significados contidos nas narrativas. O trabalho
primeiro de decodificar o texto, de separar os campos de atenção, as unidades de
significação e termos conceituais, pode ser feito por meio da leitura do próprio
pesquisador, por sistemas de busca de palavras ou trechos do editor de texto eletrônico
ou por meio de softwares elaborados propriamente para esse objetivo15.

14 Ver capítulo 4: Entre corredores ecológicos e salas poéticas: conexões criativas no fazer científico.
15 No estudo de Mitchell (2011), o texto é trabalhado por sua própria leitura e auxílio do editor de texto

28
Método e metodologias na pesquisa das geografias com cultura e sociedade

Figura 2 – Seminário do Trabalho de Campo Maçambique de Osório,


Osório – Outubro, 2011.

Introdução
Foto: Wagner Innocencio Cardoso.
Fonte: Heidrich e Museu da UFRGS (2013).

Selecionados os campos, ao conteúdo pode se aplicar a análise que visa


decifrar significados contidos na oralidade. Trabalha-se a palavra a partir de emissores
identificáveis para se conhecer aquilo que está por trás delas (PECHÊUX, 1973).
Dentre os conceitos propostos por Mikhail Bakhtin para a análise do discurso, a busca
pelo contexto da enunciação e a própria enunciação ou enunciado são centrais para
deslanchar essa fase do estudo, na medida em que garantem compreensão, possuem
sentido, em associação com outros conceitos ou termos (BRAIT; MELO, 2010). A
partir de sua identificação, vai se revelando o significado nele contido. Não é mais a
palavra aparente e como a oralidade do entrevistado está preenchida de lembranças e
suas compreensões do vivido é, por isso, repleta em detalhes de fatos empíricos que

eletrônico e vai definindo atentamente as categorias encontradas em cotejo com sua reflexão. O estudo
de Brum (2015), sobre a terminologia utilizada em geografia cultural no conteúdo dos textos da Revista
Géographie et Cultures, explora com eficiência os atributos do software para análise de conteúdo,
impraticável de ser feito de outra forma, pois o corpus de 270 artigos gerou 1.048.618 palavras.

29
Álvaro Luiz Heidrich

dizem respeito a suas compreensões ideológicas, psicossociais, dores, alegrias etc.

É necessário que [se] traga [...] um enfoque que articule o linguístico e o social,
buscando as relações que vinculam a linguagem à ideologia. Sistema de significação
da realidade, a linguagem é um distanciamento entre a coisa representada e o
signo que a representa. E é nessa distância, no interstício entre a coisa e sua
representação sígnica que reside o ideológico (BRANDÃO, 2004).
Introdução

Esse procedimento pode revelar também os aspectos mais subjetivos


vinculados aos significados dados pelas características primeiras e imediatas do texto.
O sentido que eles possuem é o significado mais pessoal ou que esteja organicamente
compartilhado em grupo. É importante, pois ele é objetivado, se concretiza na prática
social e se expressa como representações sociais, cognitivas, subjetivas, valorativas e
emocionais, necessariamente contextualizadas (FRANCO, 2008). Sentido, então, é
significado subjetivo. Está associado a algum objeto de referência, algo importante
da memória coletiva e do espaço vivido. Para Berger e Luckmann (2004), ele é uma
forma complexa de consciência que se origina da noção de que existe uma relação
entre as experiências. Portanto, pode ser pessoal, de grupo ou de âmbitos sociais mais
amplos. Fazemo-nos corpo social por meio da compreensão dessas experiências,
que manifestam sua coesão ao mesmo tempo que em seu conflito interno. Apesar de
estarmos embebidos do mundo – portanto, da geografia –, podemos compreendê-lo,
não como algo imanente, mas por meio daquilo que ele produz em nossos sentidos.
Na análise das mensagens socialmente construídas, na busca por suas objetivações,
todos os enunciados que suportem a tese de desigualdade, estranhamento, surpresa,
além das contextualizações da pesquisa, devem ser analisados. Isso requer que as
descobertas tenham relevância teórica e implica comparações contextuais.

Desenlace
Estas reflexões foram iniciadas com a ideia de compreensão da utilidade e
pertinência das metodologias qualitativas na pesquisa de geografia. Considerações
sobre o método, em geral e na geografia, foram importantes para demonstrar o
quanto o enfoque qualitativo é necessário, assim como também ele oportuniza o
desenvolvimento dos estudos que envolvem o campo do imaginário sobre espaços e
lugares e, mesmo, verificar que esse não é um campo que se isola do objeto de estudos
presentes nos demais focos de atenção de nossa disciplina. Não há imaginário que se
reporte em si mesmo, sem ancorar-se em qualquer fato objetivo do vivido. Por isso,
não é fortuitamente que muitos arranjos dos procedimentos de pesquisa mesclam o
enfoque qualitativo em instrumentos semiestruturados, nos quais perguntas objetivas
permitem dar os primeiros recortes do contexto. Vimos, porém, que esse objetivo
é interpretado, trazido de modo particular por pessoas e grupos.
Dois entrelaces foram importantes nessa construção: (1) o reconhecimento

30
Método e metodologias na pesquisa das geografias com cultura e sociedade

de um campo de atenção que liga os temas de estudo da cultura aos problemas


sociais; e (2) a identificação de diferentes modalidades do enfoque metodológico
qualitativo que, todavia, possui muitos aspectos em comum e, notadamente, o da
entrevista não-diretiva. No primeiro entrelace, anota-se não apenas o fortalecimento
mútuo entre geografia cultural e geografia social, como revela a proposta de arranjo

Introdução
metodológico de uma geografia sociocultural. No segundo, observou-se que há uma
amplitude de aplicações dessas metodologias e que o entrelace faz surgir, justamente,
um campo inteiramente interdisciplinar, no qual desenvolvimentos alcançados numa
área revelam-se aplicáveis e extremamente importantes em outras.
Portanto, o que foi demonstrado não é um método geográfico, tampouco
geossociocultural. Certamente a própria etnogeografia pode ser explorada e adaptada
para outras áreas. Qualquer uma das modalidades delineadas neste texto não é
completa em si mesma como meio de se construírem as explicações. Necessitamos
de cartografias, descrições, trabalhos de campo (integradores de vários enfoques
analíticos, levantamentos semiestruturados e pesquisas qualitativas) e interpretação de
dados textuais e de imagens. Como foi visto, o contorno e a natureza de cada pesquisa
em particular, em função da questão a ser estudada, requer e merece adequação do
enfoque metodológico e da modalidade do procedimento a ser explorado.

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33
Introdução
2 Narrativas do espaço nas histórias de
vida: os desafios das metodologias

Cartografias e narrativas
qualitativas na geografia

Nola Patrícia Gamalho

As experiências, práticas e sentidos associados aos espaços


sociais são questões que emergem com importância renovada no
conhecimento geográfico, particularmente nas geografias de cunho
humanista, cultural e social. O espaço, o território, o lugar é percorrido
horizontalmente, na perspectiva de atores (DI MÉO; BULÉON,
2007), em passos e percursos que delineiam o cotidiano no espaço
vivido, aparentemente banal e sem importância. Todavia, esse espaço
banal, de práticas microbianas (CERTEAU, 2009), revela-se como
importante instrumento de leitura do mundo, transparecendo, nos
interstícios das estruturas socioespaciais, outras geografias.
Ao deslocar o problema da materialidade do espaço para
aspectos que envolvam subjetividades, insere-se a questão de
como fazê-lo. O primeiro passo é o diálogo com outros campos do
conhecimento, como antropologia, sociologia, psicologia, educação,
que têm desenvolvido e problematizado acerca das metodologias
qualitativas. Todavia, cabe à geografia não apenas a apropriação de
metodologias, mas a contribuição ao desenvolvimento das mesmas a
partir de suas especificidades. O desafio de aventurar-se por geografias
subterrâneas, por vozes silenciadas, impõe rigor e criatividade na
execução e reflexão metodológicas. As narrativas do espaço imersas
nas histórias de vida, nas práticas socioespaciais, são objetivo dessa

In: HEIDRICH, A. L. & PIRES, C. L. Z. (orgs.). Abordagens e práticas da pesquisa


qualitativa em Geografia e saberes sobre espaço e cultura. Porto Alegre:
Editora Letra1, 2016, p. 35-47. DOI: 10.21826/9788563800220
Nola Patrícia Gamalho

aventura, porque pesquisar pressupõe desprender-se e perder-se no novo, no inusitado,


buscando, com isso, recriar caminhos.
Perdemo-nos pelas trilhas da periferia, pelo burburinho das vozes dos jovens
Cartografias e narrativas

do Guajuviras1, narradores do espaço que externalizam em suas falas os processos de


estigmatização e a criatividade e subversão das práticas microbianas. As interpretações
possíveis a partir dessas narrativas compõem esse espaço social, com especificidades do
lugar e com elementos estruturantes; pois produção e reprodução são indissociáveis.
A complexidade desse espaço vivido dá indícios das dificuldades do percurso
metodológico, logo é indispensável pensar nos acertos, erros, potencialidades e
desafios das metodologias qualitativas ao objeto geográfico.
Operacionalmente, as metodologias qualitativas inserem, indissociavelmente,
problemas e potencialidades. A inserção em campo, os diálogos com os narradores e as
interpretações das narrativas e práticas exigem rigor e flexibilidade. As particularidades
dessas etapas da pesquisa propiciam a produção de saberes que emergem do empírico
exaustivamente analisado e articulado a concepções teóricas que potencializem a
compreensão do fenômeno.

Desejo e temor: o inusitado nas pesquisas qualitativas


A opção de trabalhar com a oralidade, seja a partir das histórias de vida,
biografias, grupos focais ou entrevistas não diretivas, está associada a análises do
espaço que ultrapassem as questões vinculadas às materialidades, sem, contudo,
descolar-se delas. Em um questionário estruturado, as perguntas são diretas, assim
como as respostas. Ao indagar, por exemplo, onde o sujeito reside, quantos filhos
têm, quantos cômodos possui sua casa, a fonte de renda, o pesquisador restringe
as informações ao âmbito objetivo, são dados mais superficiais e próprios para
a quantificação estatística. Todavia, caso o objetivo seja delinear como o sujeito
constrói os significados e práticas das relações residenciais e familiares, trabalhistas,
é necessário fornecer-lhe instrumentos para explorar essas questões de forma a
acionar informações mais profundas. Os instrumentos qualitativos de produção de
informações partem do princípio de que os atores são detentores de saberes a partir
dos quais o mundo é conhecido e significado.
As narrativas geram uma diversidade de dados que emergem de forma
desordenada, não linear e, por vezes, aparentemente desconexas ou sem
importância. Ao delegar ao narrador a posição de exploração2 das memórias, valores

1 O Guajuviras é um bairro popular localizado no município de Canoas, Região Metropolitana de Porto


Alegre, RS.
2 O que não significa que o pesquisador adota uma postura passiva, ao contrário, o trabalho com narrativas
é uma troca, diálogo através do qual o pesquisador busca interferir quando necessário, ajudando o ator
a aprofundar e formular melhor os seus pensamentos (KANDEL, 1980).

36
Narrativas do espaço nas histórias de vida: os desafios das metodologias qualitativas na geografia

e representações, tem-se como resultado elementos não pensados previamente


no objeto de pesquisa, gerando desvios. Deparamo-nos com “uma tempestade
de luz” (MORAES, 2003), ou seja, múltiplas construções de sentido que, em

Cartografias e narrativas
meio à aparente desordem e caos, produzem uma nova ordem. O problema de
pesquisa não raramente é fugidio, produz-se no fazer. Os métodos indutivo e
dedutivo (MORAES, 2003), quando combinados, propiciam o equilíbrio entre
o planejamento e o desvio. A inserção no objeto de estudo parte do método
dedutivo, de categorias a priori que estimulam e orientam as reflexões sobre
o problema. Parte-se do geral para o particular, assim, ao iniciar a pesquisa,
tem-se os referenciais teóricos que contribuem para a leitura do mundo. Já o
indutivo, constitui-se a partir das informações contidas no material produzido
em campo, que logo aparecem como categorias não planejadas. Os descaminhos
e insurgências redirecionam o olhar do pesquisador e o que se revela de forma
difusa, demandando densas reflexões, é a emergência de conhecimentos novos.
Assim, o problema emerge de forma maleável, reelaborando-se no percurso,
possibilitando, com isso, o desejo, o medo e a inovação. Ribeiro (1999) salienta
o “perigo da terra firme ao conhecimento”, reconhecendo o medo frente ao
inusitado, mas também a potencialidade de inovação ao adentrar por terrenos
desconhecidos. É preciso abrir-se ao inesperado, reelaborando os pressupostos
e direcionamentos no decorrer do percurso. São essenciais
(...) as insubordinações do próprio sujeito que delimita o objeto. Em muitos
momentos o sujeito apaga com o seu desejo e curiosidade as linhas traçadas para
o texto, trançando-o por caminhos que não foram intencionados (CARRANO,
1999, p. 2).

Parafraseando Tom Zé (1976), talvez a melhor forma de iniciar a trajetória


de pesquisa seja mesmo explicar para confundir, confundir para esclarecer, iluminar
para cegar e ficar cego para poder guiar3, porque toda construção deve proceder de
desconstruções, estranhamentos, desconfortos. A aventura do caminho está em
perder-se, descobrir outros planos, o inusitado. Projetando a pesquisa para uma
confusão que projeta outras verdades, pois perder-se é parte inexorável do encontro,
e de se encontrar.
O papel acolhe as ideias e nele, aparentemente, não há barreiras. O planejamento
é essencial ao desenvolvimento da pesquisa, porém, ao utilizar metodologias
qualitativas, abre-se a possibilidade do inusitado. A utilização de instrumentos de
pesquisa de cunho qualitativo não é suficiente para a construção de metodologias
qualitativas. A produção de dados e a interpretação desses são qualitativas quando se
colocam para o novo, para o que há de mais profundo nas narrativas. A convergência,

3 Música “Tô”, do CD Estudando o Samba.

37
Nola Patrícia Gamalho

por exemplo, da dedução e indução equilibra as informações nos referenciais prévios


ao mesmo tempo que possibilita o inusitado. Prazer e medo são aspectos do mesmo
processo, “mas um pavor que desperte a vontade de inovar em vez de levar o estudante
Cartografias e narrativas

a procurar a terra firme, terreno conhecido” (RIBEIRO, 1999, p. 190). A abertura


de narrativas propiciadas pelas técnicas qualitativas pressupõe a disposição do
pesquisador em acolher essa profusão de informações, aceitando também, caso se
imponham, os descaminhos.
Pesquisar é também um instrumento de desejo, de curiosidade, portanto é
indissociável do sujeito pesquisador. Quando João Moreira Salles abandonou o projeto
do documentário de Santiago4, ele o fez pelo descompasso entre o planejamento do
papel e sua aplicabilidade. Ao retornar ao projeto, ele retornou um olhar sobre si,
percebendo o documentarista e o jovem de suas memórias. Contar uma história é
também expor traços de si e uma possibilidade de se voltar para as próprias práticas
em erros e acertos, em incertezas e possibilidades, desmistificando as distâncias
entre pesquisador e objeto de estudo. O que faz da autoria algo compartilhado,
as vozes do pesquisador e dos atores sociais convergem, divergem e retornam em
múltiplos movimentos.

Este é o meu primeiro roteiro de montagem. Nele aparecem os três primeiros planos
do filme, os três movimentos da câmera em direção às fotografias. Na época, tentei
montar o filme. Para me ajudar, reuni expressões que ouvi de Santiago durante a
filmagem: grande roda da vida, redondo caminho, marionetes grotescas, mortos
insepultos, paisagem tétrica. Fiz um glossário das palavras que de algum modo
descreviam o mundo dele: redenção, memória, transitório, eternidade, perene,
contingente, inutilidade, despedida. Tentei organizar o filme em torno de temas
contrastantes: vida e morte, memória e esquecimento. Na época isso me parecia
uma ideia original. Filmei inúmeras cenas em estúdio. Elas serviriam para ilustrar
as histórias que Santiago me contou durante os cinco dias de filmagem. Um trem
elétrico, rolos de fumaça, um casal valsando, um vaso de flor, dois sacos plásticos
voando no ar, um lutador de boxe. (...) Não levei muito tempo até interromper
a montagem. No papel minhas ideias pareciam boas, mas na ilha de edição não
funcionaram. Foi o único filme que eu não terminei (SANTIAGO, 2007).

O documentário é narrado em primeira pessoa e a história de Santiago


transforma-se na história de João que, em 2005, olha para o João de 1992 e se
entristece, questiona sua ética, a fidedignidade das informações e sua sensibilidade.
Interpretar o mundo é uma mistura de prudência e ímpeto, de dualidades que se
completam, como confundir para esclarecer.
Os encontros e desencontros com os narradores são oportunidades de realizar
uma geografia centrada no ator, na sua potencialidade narrativa e argumentativa.
Todavia, é preciso criatividade e persistência para gerar oportunidades de encontros.

4 O documentário sobre Santiago, mordomo da família de João Moreira Salles, na casa da Gávea por
trinta anos, é dividido em dois momentos: o primeiro, em 1992, quando o cineasta fez o projeto e as
filmagens; e outro, em 2005, no retorno ao projeto, então com outros olhares e percepções.

38
Narrativas do espaço nas histórias de vida: os desafios das metodologias qualitativas na geografia

Entrando em campo: estrangeiros no cotidiano


O trabalho de campo opera com duas lógicas complementares: proximidade
e estranhamento. A proximidade dá-se através da geração de mecanismos de

Cartografias e narrativas
aproximação dos atores sociais. Com ela, são mitigadas as distâncias inerentes aos
distintos papéis sociais. O estranhamento é a permanência da atenção aos detalhes
de um cotidiano a princípio banal e naturalizado, mas diferente ao observador.
A partir da condição de forasteiro (SCHUTZ, 1999) ou de estrangeiro
(SIMMEL, 1983), tem-se a inserção junto a um grupo de determinado território.
O forasteiro é exemplificado por ocupar uma posição em que é aceito ou tolerado
no grupo social, sua inserção propicia, no caso do pesquisador, ter compartilhadas
as experiências e histórias do grupo envolvido. O forasteiro marca uma posição
geográfica: é alguém de fora, o que também desenvolve a curiosidade referente a
si, posto o trabalho de campo ser uma relação, ou seja, estar permeada por trocas.
O estrangeiro também remete a uma analogia geográfica, a do viajante, em que sua
posição é a de alguém que, embora não pertença ao grupo, não tenha partilhado suas
experiências, estabelece um contato em que é racionalmente próximo e distante. O
papel social de pesquisador não elimina os demais papéis sociais, como ser homem
ou mulher, pertencer a determinado território, torcer por determinado time etc.
Alguns papéis são compartilhados com os atores sociais, produzindo proximidades.
O próximo distante marca a dualidade da posição do pesquisador, que, para
tecer compreensões a partir de dentro, precisa trilhar os percursos, entrar nas casas,
conversar com os atores. Essa dualidade pode ser positiva ou negativa e exige esforço
e autorreflexão constantes. Ao realizar as filmagens para o documentário “Santiago”
e, posteriormente, retornar ao material bruto, João Moreira Salles percebe que a
barreira entre os papéis sociais não foi ultrapassada.

Essa é a última filmagem que fiz com Santiago. Ela me permite fazer uma
observação: não existem planos fechados nesse filme, nenhum close de rosto.
Ele está sempre distante. Penso que a distância não aconteceu por acaso: ao
longo da edição entendi o que agora parece evidente. A maneira como conduzi
as entrevistas me afastou dele. Desde o início havia uma ambiguidade insuperável
entre nós, que explica o desconforto de Santiago. É que ele não era apenas o meu
personagem e eu não era apenas um documentarista. Durante os cinco dias de
filmagem eu nunca deixei de ser o filho do dono da casa e ele nunca deixou de
ser o nosso mordomo (SANTIAGO, 2007).

Na relação entre João e Santiago, preponderou a distância. Ainda que houvesse


vínculos entre ambos, suas posições sociais prevaleceram, não apenas por parte
de Santiago (o ator social), mas, principalmente, de João (o documentarista). O
pesquisador tem a responsabilidade de deixar os atores à vontade com a atividade
ou acompanhamento das práticas espaciais. Ser o próximo distante é estabelecer
relações pautadas na transparência de quem está imerso com o objetivo de realizar

39
Nola Patrícia Gamalho

uma pesquisa. Não é uma relação simulada, como apontado na experiência de


Whyte (2005, p. 304).
Cartografias e narrativas

No início, concentrei-me na tarefa de me ajustar a Corneville, embora um pouco


mais tarde tivesse de enfrentar a questão de até que ponto ia me envolver na vida
do distrito. Dei de cara com o problema numa noite, quando descia a rua com
os Norton. Tentando entrar no espírito do papo furado, soltei um monte de
obscenidades e vulgaridades. Todos pararam por um momento e olharam para
mim, surpreendidos. Doc balançou a cabeça e disse: “Bill, a gente não espera que
você fale desse jeito. Não combina com você.” (...) Aprendi que as pessoas não
esperavam que eu fosse exatamente igual a elas; na realidade, estavam interessadas
em mim e satisfeitas comigo porque viam que eu era diferente, bastava que tivesse
um interesse amigável por elas.

A aceitação junto a determinado grupo depende das relações pessoais


desenvolvidas a partir de pessoas-chave que facilitem a inserção e a confiança dos
demais atores, visto o estrangeiro/forasteiro ser um estranho que busca saber de
fatos da vida e do cotidiano, às vezes íntimos, outras, tidos como sem importância.
O pesquisador não se desveste de quem é, mas de pré-concepções, de preconceitos
e de perspectivas moralistas. A atenção e questionamento da própria postura devem
ser constantes, evitando, com isso, produzir compreensões que sejam estereotipadas
ou estigmatizadas.

As narrativas do espaço nas histórias de vida


A vida desenrola-se no tempo e no espaço: a casa da infância, a praça das
brincadeiras, o colégio, o trabalho, o mercado da esquina, tudo tem uma referência
espacial que não se reduz ao substrato. A vida é marcadamente especializada e
aparece ora implícita, ora explicita nas narrativas de vida e narrativas de cotidiano. E
é responsabilidade da geografia problematizar as referências espaciais, seus sentidos,
significados e relações com a constituição dos sujeitos. Esse espaço geográfico é
indissociavelmente material e imaterial, possui formas e sentidos, influencia em
relações e pertencimentos, logo, não é apenas onde a vida acontece.
Tendo em vista esse espaço vivido e percebido (LEFEBVRE, 2000), desponta o
problema de como identificar as narrativas de espaço nas histórias de vida, entrevistas
não diretivas, grupos focais, enfim, nos instrumentos de metodologia qualitativa.
Como estimular e distinguir as narrativas do espaço, que tipo de perguntas fazer?
Como reconhecer o não material do espaço geográfico? A casa, a cidade, a praça,
o shopping, possuem materialidades, mas também sentidos, representações e, com
isso, são também imateriais. Uma Catedral e um viaduto são materiais: concreto
e aço, mas também têm sentidos: a fé e o progresso. Os sentidos originam-se em
múltiplas escalas, sendo difusamente apropriados e reelaborados pelos atores, já
que as reproduções contêm produções (MARTINS, 2008).

40
Narrativas do espaço nas histórias de vida: os desafios das metodologias qualitativas na geografia

O espaço vivido, marcado pela experiência dos sujeitos com seus espaços, pelos
mecanismos de apropriação e produção de significados, referências e pertencimentos,
coloca-nos uma questão metodológica diferente das distribuições locacionais,

Cartografias e narrativas
formas e processos vinculados ao planejamento e desenvolvimento urbano a partir
de uma lógica distante (LEFEBVRE, 2001) ou tecnocrática (CERTEAU, 2009). A
definição do espaço vivido a partir da experiência dos atores evidencia as relações
multiescalares, uma vez que os sentidos da fé, do progresso, do lar, não são produzidos
exclusivamente na ordem próxima. O espaço geográfico das experiências e sistemas
de significado é antropocêntrico, logo, “lleva consigo dificuldades metodológicas
ampliadas porque solo pueda estudiarse desde la perspectiva del sujeto que lo
experimenta: no es posible verlo dede afuera del sujeto” (LINDON, 2008, p. 10).
O ator (DI MÉO; BULÉON, 2007) adquire papel central, é o narrador das
histórias e práticas. O ator é aquele que age, que constrói uma casa, caminha nas
ruas, ocupa os parques e praças, protesta no espaço público... Enfim, o ator age
intencionalmente, logo, reflexivamente, a partir de motivações diversas. Todavia,
neste estudo, suas práticas e ações são predominantemente microbianas (CERTEAU,
2009), delineando em astúcias e estratégias o cotidiano. Produz e é influenciado tanto
pelo espaço material, quanto imaterial. Atribui sentidos às ruas, elabora significados
da casa, estabelece relações territoriais. Essa cartografia de pequenos processos e
ações somente pode ser descoberta a partir de dentro. Nesse sentido, parte-se da
perspectiva de Geertz (1989), que argumenta sobre a necessidade de compreender
os sujeitos a partir de seus quadros de significações.
Ao narrar suas histórias, o ator as reconstitui reflexivamente, estabelecendo
uma primeira interpretação. Seleciona fatos que lhe são significativos, censura
outros. Percorre ruas, narra sobre moradores e lugares. Suas narrativas partem das
experiências e representações do lugar, posto o mesmo ser constituído simbolicamente
em múltiplas escalas. Vilas, periferias, favelas já detêm significados anteriores às
experiências dos atores, que acrescentam às múltiplas narrativas do lugar suas
experiências no misto entre fato e representação.
Contudo, os sentidos e representações raramente são explicitados
objetivamente, mas diluídos nas narrativas. Ao narrar suas histórias de vida, os
jovens falam: “meu pai é pedreiro, minha mãe, doméstica; meu pai estudou até a
5ª série. Eu quero ser alguém na vida” 5. Quais os sentidos dessas narrativas e quais
suas relações com o espaço? Os sentidos de mundo e sociedade estão implícitos nas
narrativas, marcam distâncias, indissociavelmente sociais e espaciais.
As narrativas do espaço não se encontram apenas onde são explicitadas,
mas permeiam as histórias de vida e práticas espaciais. A intrínseca relação entre
sujeitos e espaços, em mútua adjetivação, como a vila e o vileiro, a favela e o favelado,

5 Registros de trabalho de campo no Bairro Guajuviras, Canoas.

41
Nola Patrícia Gamalho

demonstram que as falas dos sujeitos estabelecem vínculos com o espaço. Portanto,
as interpretações são elaboradas a partir do detalhe, da informação pontual, mas
compreendendo-a na totalidade da narrativa, que estabelece os sujeitos em quadros
Cartografias e narrativas

e redes de significações, entendendo-os em sua teia de produção de significados, de


códigos. As narrativas fornecem os significantes através dos quais são interpretados
os significados. Envolvem um mosaico de influências estruturais e locais, imbricando-
os em narrativas de vida espaciais (LINDÓN, 2008).
Ao explorar suas memórias, o ator reinterpreta sua trajetória, fazendo-o de
forma racional e emotiva. As narrativas não são lineares, coesas, mas um intrincado
retalho de lembranças e de ações cotidianas que, ao serem reelaboradas, deixam de
ser banais. O espaço vivido não é exatamente o espaço das histórias: são versões
e não exclusivamente fatos. Ora, ao narrar suas histórias e práticas, o ator recria a
realidade, representando-a.
O espaço social é produzido cotidianamente no imbricamento entre as
materialidades e imaterialidades, entre o local e o global. As narrativas sobre vilas
dão-se na relação entre o material: rua sem calçada, crianças brincando, animais etc.,
ou seja, elementos mensuráveis, mas também na relação com o imaterial: mexericos,
relações de vizinhança, valores sociais etc. São versões, pois, para determinado
ator, esse universo pode ser construído por aversão e negação, para outro, por
pertencimento e reconhecimento.
Representações e fatos não possuem existências separadas, enquanto as
representações constituem-se como interpretações que envolvem a subjetividade
e a intersubjetividade, os fatos somente são compreendidos como representação,
envoltos na construção de sentidos. Logo, os fatos são inseparáveis das representações,
pois é como o ator interpreta o real, a partir de suas experiências, subjetividades
e intersubjetividades. O espaço é produzido no acúmulo de múltiplas narrativas,
de memórias herdadas (AMADO, 1995), mesclando as histórias sociais com as
individuais. A memória herdada atua no presente e futuro, constituindo esquemas
inconscientes de ação e percepção, o habitus ao qual se refere Bourdieu (2007). As
narrativas elaboram-se a partir das camadas de significados que o espaço adquire
ao longo do tempo e, reformuladas, em permanências e rupturas. As narrativas do
Guajuviras, por exemplo, remontam aos processos de ocupações das décadas de
1980 e 1990. Embora os jovens não as tenham vivido, é a partir das histórias de seus
pais, vizinhos, amigos, da mídia, do Estado e suas experiências socioespaciais, que
eles elaboram as suas narrativas. São como as rugosidades (SANTOS, 2002), não
apenas do que permanece na paisagem enquanto materialidade, mas principalmente
nos sentidos cujas roupagens apenas simulam outras realidades ou ideologias.
Esse espaço de rugosidades é importante matriz de significações, pois o bairro,
enquanto individualidade de processos e formas, é detentor de identidade, de elementos
que o significam, repercutindo seus sentidos aos sujeitos e instrumentalizando

42
Narrativas do espaço nas histórias de vida: os desafios das metodologias qualitativas na geografia

suas ações a partir dessa tomada de posicionamento. Para Claval (1997, p. 93),
as representações “permitem superpor ao aqui e agora os algures, que são sociais,
geográficos ou metafísicos”. Partindo do pressuposto de que as ações partem de

Cartografias e narrativas
representações, por que negá-las? Amado (1995), em sua pesquisa sobre a Revolta
de Formoso, depara-se com o “Grande Mentiroso”, o que, em um primeiro momento
lhe causa revolta, pois os fatos são distorcidos e fantasiosos. Todavia, reencontra-se
com seus registros, reelaborando essa compreensão acerca da mentira.

Toda narrativa apresenta uma versão, um ponto de vista sobre algo. A narrativa
de Fernandes constituiu uma versão, entre muitas, da Revolta de Formoso;
até hoje ela disputa, com outras, espaços, audiências e adesões, em busca de
legitimidade social e histórica. “Importa a versão, não o fato”: o antigo ditado
popular já chamava a atenção par a importância e autonomia das interpretações
(AMADO, 1995, p.133).

As narrativas são espaços de criação através dos quais os atores recriam suas
trajetórias e elaboram seus pertencimentos. Revelam não apenas as histórias de
vida, mas sentidos e sistemas culturais por meio dos quais os atores se expressam.
Um músico trará em suas composições os sentidos elaborados, um religioso vai
expressar sua relação com o mundo a partir de pressupostos religiosos. Cada ator é um
narrador específico e cabe ao pesquisador refletir sobre os mecanismos de estimular
as narrativas, compreendendo-as como leituras do mundo. O quadro de referências
dos atores é aquele de suas narrativas, logo, o espaço e suas histórias devem ser lidas
nos sistemas de sentido e/ou ideológicos que esses atores usam para expressar-se.
Contudo, às narrativas deve ser associada uma intensa observação. Qual a
importância dos silêncios? Como interpretar e/ou driblar as censuras? Compreender o
outro está além de compreender o sentido das palavras, mas envolve todo o ambiente,
o momento, o contexto do narrador e o esforço do pesquisador em compreendê-lo
a partir de suas referências. Essa relação está bem explicitada nos diálogos de Franz
e Sabine, do romance A insustentável leveza do ser, ou de João e Santiago.

Ele a escutava falar de sua vida avidamente e ela o ouvia com a mesma avidez.
Compreendiam exatamente o sentido lógico das palavras que pronunciavam,
mas sem ouvir o murmúrio do rio semântico que corria entre essas palavras
(KUNDERA, 1985, p. 94).

Santiago escreveu: “desgraçadamente, apesar de ter aumentado o cristal de minha


lente, vai progredindo, do olho esquerdo, a catarata”. Deu a essa passagem o título:
Lento ma non tropo. É um bom título. Santiago sugeria que a vida podia ser lenta,
mas não era suficientemente lenta. Ao longo dos cinco dias de filmagem ele não
falou de outra coisa. Eu não entendi (SANTIAGO, 2007).

Não compreender uma narrativa é comum, faz parte da posição de forasteiro/


estrangeiro não dominar os códigos, todavia, é parte das ações do pesquisador sentir-

43
Nola Patrícia Gamalho

se provocado e aventurar-se na descoberta de conhecimentos mais profundos. Há


palavras, mas há também sentidos ocultos nas entrelinhas, nos silêncios e nas censuras.
Deve-se ir mais profundamente nas narrativas. Um jovem argumenta sobre seu gosto
Cartografias e narrativas

em relação ao transporte público, que prefere pegar um ônibus ao invés de outro.


Seu argumento é que o outro ônibus vai muito cheio. A narrativa pode referir-se
exatamente à lotação do ônibus, mas também referir-se a outros dados: o ônibus
supostamente mais cheio percorre predominantemente os espaços da vila, o outro,
os de um bairro de classe média. As palavras revelam, mas também ocultam, contudo,
sempre estão impregnadas de sentidos e, nesse exemplo, a relação socioespacial é
latente. Não corresponde a uma mentira, talvez censura, mas, principalmente, revela
mecanismos de diferenciação social.

Interpretar o texto das narrativas: o manifesto e o latente nas


palavras
As metodologias qualitativas proporcionam uma profusão de dados que
exigem estratégias de análise e interpretação para tornarem-se informação. Outra vez,
confundir é parte inexorável de esclarecer. A dificuldade de reconhecer elementos
do cotidiano, do espaço e os sentidos, é comum na etapa de análise. As narrativas
transcritas e os registros de campo compõem o conjunto diverso de textos, posto
que, ao atribuir ao ator a função de explorador das memórias, percorrendo o que
há de mais íntimo, particular, afetivo e subjetivo, tem-se a diversidade textual cujos
nexos precisam ser identificados.
Seria contraproducente partir de metodologias que produzam uma diversidade
de dados e reduzi-los a categorias pré-determinadas, ao que há de manifesto. Ao iniciar
o trabalho de campo, tem-se algumas categorias prévias que orientam a inserção e
que correspondem ao problema de pesquisa. Contudo, há também as categorias
emergentes e insights (MORAES, 2003). Para ultrapassar as categorias prévias,
identificando categorias internas a elas ou novas, é preciso a intensa impregnação
(MICHELAT, 1980) do material textual e predisposição para a aventura do inesperado
por parte do pesquisador. Aventura e rigor são os principais elementos das análises
textuais, que se iniciam pela intensa impregnação do acervo e pelo retardamento
da categorização (MAÎTRE, 1980).
Impregnar-se decorre de exaustivas leituras, a partir das quais se potencializa
o reconhecimento das particularidades e dos nexos entre as narrativas. Tudo tem
uma significação, devendo, portanto, ser relacionada a unidades de significação
(MICHELAT, 1980; MORAES, 2003). O processo de retardamento de categorias
evita análises precipitadas, favorecendo que as compreensões desenvolvam-se em
um tempo de maturação. Para Thiollent:

44
Narrativas do espaço nas histórias de vida: os desafios das metodologias qualitativas na geografia

Com a imposição de problemática, a técnica de investigação corre o risco de


categorização antecipada, isso quer dizer, uma leitura do real por meio de categorias
predeterminadas antes da observação e inadequadas à especificidade (1980, p. 95).

Cartografias e narrativas
A partir da proposta de análise textual de Moraes (2003), tem-se a
instrumentalização para operar com o material bruto das narrativas e registros
de campo. Três etapas entrelaçadas compõem o processo de interpretação, de
transformação dos dados brutos em informações:
– Unitarização; consiste em fragmentar o material textual em unidades de
sentido. Cada entrevista, cada narrativa tem seu corpus fragmentado e identificado,
produzindo, com isso, leituras detalhadas. Quanto mais fragmentado, maior a
profundidade da leitura em reconhecer as unidades de sentido;
– Categorização: a partir do caos e diversidade produzidos na unitarização,
tem-se o estabelecimento de categorias aglutinadoras das unidades de sentido e
das distintas narrativas. Desta forma, a ordem criativa constitui-se do caos. Tem-
se, portanto, uma análise relacional entre a parte e o todo, em que as categorias são
construções, portanto, resultam da intensa leitura, impregnação e aporte teórico;
– Construção de um metatexto: envolve a descrição e interpretação do corpus
textual. O material empírico dissecado e agrupado nas etapas anteriores é reelaborado
em associação com o referencial teórico prévio ou que as narrativas suscitam na
emergência de unidades de sentido e categorias. Nesse processo, o pesquisador
assume a posição de autor, estabelecendo relações, interpretações e, com isso, produz
um texto além das narrativas, além do cotidiano ofuscado, mas reelaborado sob as
lentes da inquietude e estranhamento de quem pesquisa. O metatexto, “mais do
que apresentar as categorias construídas na análise, deve constituir-se a partir de
algo importante que o pesquisador tem a dizer sobre o fenômeno que investigou”
(MORAES, 2003, p. 22).
O movimento entre o singular e o conjunto do corpus textual é também do
indivíduo para o social. Cada narrativa tem elementos reveladores da construção do
mundo a partir do indivíduo, mas que na categorização e produção textual adquirem
sentidos sociais, no caso, socioespaciais. As relações de afeto ou de aversão, as
trajetórias de opressão ou de aventura, são dados que emergem de forma manifesta
ou latente, demandando a impregnação do material produzido. Termos como aqui,
lá, subindo, descendo evidenciam relações espaciais. Todavia, categorizar o espaço
e as práticas espaciais não deve reduzir-se ao manifesto. Pegar esse ônibus e não o
outro, argumentar sobre o nível de instrução dos pais, pode, dentro dos múltiplos
sentidos que a própria identificação das unidades de sentido suscita, estar diretamente
associado aos significantes do lugar.

45
Nola Patrícia Gamalho

Considerações finais
A construção dos sentidos e práticas do espaço, a partir do uso de oralidades,
coloca importantes desafios à ciência geográfica. É um mergulho nas práticas
Cartografias e narrativas

microbianas, nos espaços horizontais. Todavia, não estabelece um rompimento


com as perspectivas macrossociais. Ao elaborar os sentidos a partir da oralidade, a
partir do ator social, é possível identificar mecanismos estruturais no plano do lugar,
como os sistemas de disposição do habitus, através dos quais Vilas, Periferias e Favelas
possuem significados que extrapolam as experiências, constituindo espaços hiper-
reais (DI MÉO; BULÉON, 2007), em que representações, como as da violência,
incidem intensificando as representações inerentes ao espaço vivido e suas práticas.
As interpretações das narrativas inserem fortemente o espaço imaterial no
fazer geográfico. O que não caracteriza a dissociação entre material e imaterial, mas
possibilita leituras espaciais com ênfase nos atores sociais e sua construção simbólica
do espaço. Contudo, inserem também a necessidade de refletir sobre as metodologias
qualitativas e seus instrumentos na pesquisa geográfica. Essa preocupação está presente
nas diferentes etapas: inserção em campo, produção de narrativas e interpretação dos
dados. Nas duas últimas, é necessária a construção de estratégias para fazer emergir
as questões espaciais nas narrativas e identificá-las quando não são evidentes.
As narrativas somente podem ser compreendidas em sua totalidade na
construção dos quadros de referência de cada ator. A diversidade de sentidos que
podem ser obtidos/construídos a partir das narrativas exige rigor de construção de
sistemas de sentido e categorias, construindo o real no imbricamento das experiências
narradas e das interpretações do pesquisador.
Esta exposição não tem como objetivo concluir o tema, pois essas questões
devem ser debatidas nas diferentes experiências de pesquisa, mas evidenciar a
importância das metodologias qualitativas em geografia e a necessidade de
aprofundamento instrumental e metodológico das mesmas.

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Narrativas do espaço nas histórias de vida: os desafios das metodologias qualitativas na geografia

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47
Cartografias e narrativas
3 Mapas-narrativas e um Conto Geográfico

Cartografias e narrativas
Cláudia Luísa Zeferino Pires
Cristiano Quaresma de Paula
Helena Bonetto

Apresentação

O que está posto nas próximas páginas


é a valorização dos lugares, das lutas, das
conquistas e da força dos TINGUERREIROS.
(Conto, Apresentação , p. 2)

Apresentamos, neste capítulo, reflexões teóricas e


metodológicas resultantes do projeto de pesquisa Identidades
Territoriais e a Questão Ambiental, o qual objetivou, entre outras
coisas, a elaboração de um conto sobre o Bairro Restinga, em
Porto Alegre – RS. Este conto foi escrito com base em memórias
de moradores, as quais foram situadas no tempo e no espaço. Estes
narradores aparecem no conto e interagem com personagens fictícios
em um contexto escolar.
A partir do objetivo de cartografar contrastes socioambientais
e analisar a diversidade territorial do bairro, o conto apresenta
memórias sobre as relações dos moradores com o espaço em que
vivem. Diante das inúmeras possibilidades de procedimentos
metodológicos para desvendar o espaço geográfico na Restinga, a
equipe se percebe na produção do conhecimento e busca estabelecer

In: HEIDRICH, A. L. & PIRES, C. L. Z. (orgs.). Abordagens e práticas da pesquisa


qualitativa em Geografia e saberes sobre espaço e cultura. Porto Alegre:
Editora Letra1, 2016, p. 49-68. DOI: 10.21826/9788563800220
Cláudia Luísa Zeferino Pires, Cristiano Quaresma de Paula e Helena Bonetto

outros caminhos metodológicos, mais adequados aos objetivos esperados do projeto


e da perspectiva da construção de um conto, o qual busca exprimir as vivências no
bairro.
Cartografias e narrativas

Como suporte à proposição metodológica, buscaram-se pressupostos teóricos


que favoreçam a compreensão do espaço geográfico. Na perspectiva de Santos
(2006), a compreensão de que espaço geográfico remete a dimensões de sociedade/
natureza e espaço/tempo. Assim, é possível compreender o processo de constituição
do bairro, a instalação de “fixos” e os “fluxos” que o atravessam. Ainda proporciona
entender as “verticalidades”, sobretudo impostas pela gestão pública, e a reação dos
moradores como “horizontalidades” que se expressam em redes de solidariedade
e organizações comunitárias.
Para a construção do conto, buscou-se compreender o espaço geográfico no
Bairro Restinga a partir de mapas-narrativas realizados junto aos moradores que
são reconhecidos como protagonistas nas organizações comunitárias do passado
e do presente. Estes foram os narradores, os quais compartilharam suas trajetórias
com o grupo de pesquisadores para que essas compusessem a trajetória do bairro.
Maria Clara Cardoso Nunes relata sua história desde que decidiu se mudar para a
Restinga. É uma liderança comunitária que participou ativamente na construção do
Clube de Mães do bairro e possui uma trajetória de luta por melhorias há mais de 40
anos. José Carlos dos Santos, conhecido Beleza, é morador da Restinga e liderança
comunitária há mais de 30 anos. Participa do Orçamento Participativo e também
lutou pela construção do Hospital da Restinga. Carla Regina Fontoura é moradora,
desde criança, e participava da Escola de Samba Estado Maior da Restinga, Maria
Augusta da Silva e Djanira Corrêa da Conceição, também residentes há 20 anos.
Djanira tem sua atuação política relacionada com as demandas atuais do bairro
como a implementação do Instituto Federal da Restinga, do Hospital e também no
Orçamento Participativo, principalmente, estando envolvida com as questões da saúde.
Este grupo foi convidado para reuniões onde foi exposto os objetivos da
pesquisa e os princípios que estávamos buscando, ou seja, contar sobre a Restinga
e suas transformações. Compreendendo que esses moradores iniciam sua história
com o bairro em tempos diferentes, e moram em lugares diversos também, eles
situaram contextos políticos e reviveram suas memórias.
Os relatos expõem as chegadas ao bairro, as primeiras percepções de ausências
e a busca permanente da presença, a conformação coletiva de desejos de melhorias,
como se integraram em organizações comunitárias, as estratégias frente às faltas
de infraestruturas, as lutas que estabeleceram a partir de demandas do bairro, o
diálogo com gestores públicos e políticos em busca por melhorias, as conquistas em
infraestruturas, as mudanças que observam nas infraestruturas e relações sociais do

50
Mapas-narrativas e um Conto Geográfico

bairro, as lutas atuais e os desejos por conquistas para o bairro.


A partir dos mapas-narrativas, expressam o movimento de construção e
transformação do bairro. Representam cotidianos no espaço, situados no tempo. Os

Cartografias e narrativas
narradores, ao contarem sobre sua chegada à Restinga, partem do “nada”, ou seja, do
momento histórico em que os primeiros moradores chegam após serem removidos
de áreas centrais da cidade, e seguem apresentando a sequencia de loteamentos,
a instalação de infraestruturas, sempre vinculando as práticas diárias e as lutas
assumidas pelas organizações comunitárias. Eles marcam no espaço representado
em mapa símbolos que são significantes no momento histórico apresentado e
compõem significados no presente. É um processo de mapeamento atravessado por
sentimentos de vitória, derrotas, frustrações e perseverança de pessoas que vivem e
entendem o bairro onde moram.
A compreensão desses referenciais espaço-temporais, repletos de significados,
deu-se através da análise do mapa concomitante com a revisão de narrativas desses
moradores gravadas e anotadas no contexto de elaboração desse. Essas narrativas
dão significado a cada símbolo expresso no mapa a partir de experiências individuais
e coletivas, por isso chamamos de mapas-narrativas. Assim, compuseram-se outras
histórias sobre o espaço do Bairro Restinga, que vão além do contexto de violência
e marginalidade social que se expressa na mídia de Porto Alegre. São histórias que
transitam no espaço e em determinados momentos se encontram, uma vez que
os moradores que participaram do processo frequentemente se encontram em
momentos de luta e compartilham as mesmas experiências.
No conto, essas experiências espaciais formam um percurso que acontece
em diversas temporalidades. O título do conto é “Desvendando a Tinga: o mistério
das caixas”. Nesse trajeto, os personagens, crianças em idade escolar, encontram
os moradores que participaram do projeto e recebem deles caixas com símbolos a
serem desvendados. Esse conto, problematizado no cotidiano escolar, proporciona
reflexões acerca da geografia do lugar, onde substitui conhecimentos mais genéricos
por um detalhamento de contrastes espaciais do bairro e se relaciona com conteúdos
mais específicos, não somente com a geografia, mas com outras disciplinas. Além
de favorecer o desenvolvimento de atividades interdisciplinares nas escolas, tende a
um contexto de educação geográfica cotidiana, uma vez que expressa experiências
e vivências de moradores do bairro, repercute na própria Restinga que reconhece
sua trajetória e dialoga com o conto. A figura 1, na página seguinte, apresenta a capa
do livro-conto.
Na sequência deste texto, apresentaremos o contexto da pesquisa e a
aproximação com o contexto escolar onde as atividades foram realizadas, e os
caminhos da pesquisa e suas reflexões teórico-metodológicas.

51
Cláudia Luísa Zeferino Pires, Cristiano Quaresma de Paula e Helena Bonetto

Figura 1: Capa do livro-conto, ilustração de Nádia Poltosi e publicação de Compasso Lugar/


Cultura, em parceria com a Imprensa Livre (2014).
Cartografias e narrativas

A Tinga, a Escola

É sábado, tem escola aberta, lá vão os amigos


Daniel, Hector, Carlos, Ana e Tetê
participar das atividades.
(Conto, p. 2)

A Restinga é um bairro com características muito heterogêneas: com uma


intensa urbanização, também possui espaços com aspectos rurais onde ainda se
desenvolvem atividades hortifrutigranjeiras. Sua história está associada ao Lema
“Remover para Promover”, do município de Porto Alegre, que tratava das remoções
de vilas e núcleos irregulares, entre o período de 1965 até meados de 1970, onde
muitas vilas foram removidas para a Restinga. Na área mais urbanizada, há uma
fragmentação territorial muito conhecida: a mais antiga – com infraestrutura precária,
com ruas estreitas e paralelas e outras sinuosas e irregulares – é chamada de Restinga
Velha; a com maior infraestrutura urbana é chamada de Restinga Nova – com
algumas ruas largas, com bastante comércio, praças e acessos menores onde mora
a maioria das famílias de “classe média” do bairro, com residências de alvenaria. A
denominada Restinga Nova possui quatro unidades vicinais de planejamento que
correspondem aos diferentes processos temporais e espaciais de ocupação. Seguindo

52
Mapas-narrativas e um Conto Geográfico

certo padrão, mas que também possui áreas com ocupações irregulares e habitações
precárias; a mais nova unidade vicinal é denominada de quinta unidade da Restinga,
que possui casas populares pequenas e padronizadas, construídas pela prefeitura,

Cartografias e narrativas
mas já alteradas devido à necessidade de ampliações e carências de infraestrutura
urbana (AIGNER; PIRES, 2012).
Conforme Aigner (2002), a Escola Municipal Prof. Larry José Ribeiro Alves foi
fundada em 1987, era organizada por séries e implantou a organização do ensino por
ciclos de formação apenas no início do ano letivo de 2000. A partir da implantação
dos ciclos por formação, a comunidade escolar buscou algumas aproximações entre
o trabalho pedagógico realizado na escola com a realidade da comunidade atendida
nessa instituição. Essa organização trouxe a possibilidade de pesquisa para o contexto
escolar e assim trouxe aproximações significativas entre escola e comunidade. É
nesse contexto que surge a possibilidade de integrar pesquisa, ensino e extensão,
articulando e fortalecendo o papel da escola na integração com a comunidade.
Consideramos importante frisar que esse trabalho foi possível nesse contexto
de conformação de um ambiente escolar aberto à comunidade. Isto favorece as
atividades de pesquisa, pois os participantes já estabeleceram vínculos com os
pesquisadores e com a comunidade escolar e, por isso, se sentem à vontade para
exporem as suas histórias. Os participantes expõem seus saberes, pois se sentem
respeitados e valorizados quando chamados a falar na escola pelos pesquisadores.
Houve o compromisso explícito de que os participantes e toda comunidade se
relacionariam com a atividade e os princípios da pesquisa teriam um retorno em
forma de um livro-conto.

Os caminhos metodológicos
Os caminhos metodológicos adotados para escrita do livro-conto “Desvendando
a Tinga: O mistério das caixas” foram constituídos por meio da escuta de narrativas
espaciais, a qual se dava concomitante com o mapeamento dos marcadores das
memórias históricas e espaciais dos moradores da Restinga.
Para esclarecer nosso leitor, explicaremos as conceituações de narrativas
espaciais, mapeamento e marcadores espaciais. Após a explicação destes referenciais,
será encontrada a proposição conceitual mapa-narrativa, tendo em vista que esses
procedimentos metodológicos foram realizados de forma simultânea nos encontros
com os narradores da Restinga.
As narrativas espaciais são entendidas a partir dos pressupostos teórico-
metodológicos de Lindón (2007). Para a autora, a reconstrução das experiências
vividas se dá através das narrativas nas quais as pessoas desvelam o espaço e a
espacialidade de diferentes formas. O narrador se vale do espaço para a simples
localização dos fatos, para a atribuição de lembranças carregadas de significados,

53
Cláudia Luísa Zeferino Pires, Cristiano Quaresma de Paula e Helena Bonetto

para a afirmação de si mesmo, quando esse lugar está relacionado com prestigio,
ou para depreciação de si mesmo, quando esse lugar é perigoso (LINDÓN, 2007).
Além das narrativas resgatarem experiências, fatos importantes da vida
Cartografias e narrativas

das pessoas, ao contarmos uma história, segundo Lindón (2007), atribuímos


valores, sentimentos, significados e conferimos características a determinados
lugares. Portanto, por meio das narrativas revelamos lugares que são invisíveis ou
estão parcialmente visíveis para outros grupos sociais. As narrativas expressaram
movimentos, marcas, sentimentos, numa relação de pertencimento espacial muito
forte. A compreensão da espacialidade do bairro estava relacionada a um vivido, a
uma significação de mundo.
O Núcleo de Estudos Geografia & Ambiente tem priorizado discussões
sobre a construção de mapas a partir da participação de comunidades tradicionais,
e povos de periferia urbana. Por meio do diálogo com interlocutores do grupo
levantaremos questões que favorecem compreender o processo de mapeamento
realizado na Restinga.
Oliveira e Paula (2015) apresentam o processo de construção metodológica
de mapas participativos na Floresta Nacional de Tefé. Os autores destacam que o
caminho da pesquisa é construído de forma coletiva, em um processo contínuo
de avaliação e priorizando as demandas dos participantes. Destacam os autores:
A participação dos comunitários no processo de elaboração dos mapas significa
certificar a representação espacial relativa aos seus recursos, usos e conflitos,
além do poder ativo na tomada de decisões no que será representado como
necessidades e problemas sociais e ambientais para a futura gestão (OLIVEIRA;
PAULA, 2015, p. 161).

Assim como abordam os autores, o processo de mapeamento na Restinga


buscou envolver e integrar os participantes do projeto que traziam suas expectativas
e demandas. O processo de mapeamento não foi engessado, à medida que os
pesquisadores apresentavam propostas, os participantes tinham a possibilidade de
enfatizar determinados elementos e sugerir outros. Um exemplo é a separação que
usualmente é feita do bairro em Restinga Velha e Restinga Nova. Os participantes
queriam que se discutisse o bairro como um todo, para que o resultado do trabalho
provocasse uma maior união em vez de cisões. Isso motivou o grupo a pensar
todo o conjunto de atividades.
Paula (2013, 2015) ressalta o papel da participação e dos vínculos
comunitários como essencial para se pensar os mapeamentos comunitários.
Assim, os comunitários se apropriam do processo (agregando suas demandas)
e do mapa como instrumento de defesa dos seus territórios.
A participação e o vínculo comunitário caracterizam essa forma de mapear,
mais do que os procedimentos cartográficos convencionais. Participação, como

54
Mapas-narrativas e um Conto Geográfico

o próprio nome sugere, ocorre quando os principais envolvidos tomam parte


do processo (DEZIN; LINCOLN, 2006). Não se trata de uma “capacitação”
em técnicas cartográficas, mas da utilização do mapa como linguagem, meio de
expressão de vivências e instrumento para refletir e promover ações. Assim, esse
tipo de mapeamento deve expressar os temas de interesse da comunidade. Pode

Cartografias e narrativas
ser compreendido como instrumento de pesquisa em processos de “pesquisa-
ação” (THIOLLTENT, 2002), pois mais do que uma resposta a uma questão
pesquisada, deve responder às questões de interesse da comunidade (PAULA,
2015, p. 49).

Sendo os participantes dos mapeamentos as lideranças comunitárias do


bairro, o empenho, desde o princípio, foi de que os resultados expressassem as
histórias e geografias da Restinga. Quando se depararam com a proposta de
mapeamento, os participantes se apropriaram do processo e efetivamente o
tomaram como seu. Assim, expressavam as histórias dos lugares onde constituíram
vínculos com a comunidade, de lugares que, apesar de hoje não terem as mesmas
características, são repletos de significados. Um exemplo é a Figueira, que constituía
um lugar de encontro dos primeiros moradores e que hoje, apesar de não existir
mais, representa um importante referencial no espaço do bairro.
Do ponto de vista do método cabe destacar que a proposta foi, mais do
que criar um mapa, promover uma ação. Thiollent (2002) ressalta que a pesquisa-
ação é uma modalidade de pesquisa que ocorre quando há grande empenho em
transformar a realidade pesquisada. Assim, os participantes devem trazer uma
demanda e todo o processo deve buscar intervenção. Construir um mapa que gera
um conto que valoriza a história dos restingueiros pareceu, para os pesquisadores
e participantes, uma possibilidade de valorizar os moradores do bairro. A mídia
da cidade de Porto Alegre expõe esses moradores frequentemente relacionados
à violência e ao tráfico de drogas, logo, o mapa pretende dar elementos para
elaboração de um conto que apresenta os moradores como guerreiros que
solidariamente lutam contra as adversidades e por melhorias no bairro.
Batista (2014, 2015) realizou cartografias comunitárias com agricultores de
assentamentos de reforma agrária no Mato Grosso. A autora entende a cartografia
como uma linguagem visual e espacial e produz representações do espaço à
medida que produz e reproduz seus espaços de representações. Enfatiza o mapa
como expressão da relação entre simbólico e material, em que se reconhecem as
condições materiais de vida para que sejam dadas novas condições de também
outros sentidos de humanização. Assim, o mapa é instrumento de luta:
Sob esta possibilidade historicamente produzida, situar o mapa como instrumento
de luta viabiliza a compreensão e apreensão de uma dada lógica espacial, cotidiana
(compreendida na relação entre as diversas escalas) e ao mesmo tempo a
possibilidade de reivindicar condições objetivas para a resistência no espaço e
quiçá a possibilidade da transformação social (BATISTA, 2015, p.92).

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Cláudia Luísa Zeferino Pires, Cristiano Quaresma de Paula e Helena Bonetto

Enquanto linguagem, o mapa promoveu o diálogo entre pesquisadores e


participantes, o que favoreceu a compreensão das narrativas. Buscamos compreender
e mapear elementos materiais (muitos deles conquistas como ruas calçadas, postos
Cartografias e narrativas

de saúde, escolas etc.), mas também imateriais, como lugares de reuniões, encontros,
cultos etc. Assim, houve o empenho de contemplar diferentes dimensões da vida
no lugar.
Com o objetivo de valorizar a Restinga e seus moradores, o mapa e o conto
gerado a partir dele constituiriam um instrumento de luta. Luta por reconhecimento,
respeito e tratamento digno. Contudo, na medida em que se mapeava a Restinga
que eles construíram ao longo dos anos se evidenciava que, além de instrumento, o
mapa expressa a materialização das conquistas alcançadas por meio de lutas sociais.
No projeto, utilizamos como base cartográfica uma imagem de satélite com a
sobreposição de um shape das ruas do bairro. Após, o narrador reconhece o bairro e
principais pontos de referência são marcados no espaço. Alguns participantes faziam
tais marcações enquanto narravam, outros preferiam marcar após a narrativa (nesse
caso a equipe de pesquisadores registrava os principais referenciais para posteriormente
percorrê-los com os narradores). É importante salientar que a cada novo encontro foi
utilizada uma nova folha de papel vegetal, assim foram gerados mapeamentos para cada
um dos narradores que participaram do projeto do livro-conto. Quando foram realizados
todos os mapeamentos, as informações compuseram um único mapa-síntese, o qual
serviu de base para traçar o percurso do conto.
A partir do processo que envolveu a escuta de narrativas e mapeamento
de marcadores espaciais, identificamos a Restinga como espaço de moradia, de
criação dos filhos, das possibilidades de vivência. Ou seja, traz o lugar como um
espaço afetivo, encontrado nas significações do pertencimento: sou da Tinga. As
espacialidades se revelam durante as narrativas/mapeamento pelos campos de
disputa por melhorias por equipamentos urbanos ausentes no bairro, tais como:
transporte, escolas, água, postos de saúde, que materializam as lutas e mobilizam
subjetividades transformadoras na busca destas melhorias.
Nossa estratégia, nesse momento, foi identificar marcas (materiais e simbólicas)
presentes ao longo do processo de vivência dos moradores com o bairro. A figura 2,
na página ao lado ilustra esta etapa.
A escrita do conto surgiu da necessidade de permanência contínua do diálogo
com a comunidade, proporcionando leituras sobre cotidianos, espacialidades e de
valorização de suas conquistas através da mobilização política que os narradores
participaram da história da Restinga.

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Mapas-narrativas e um Conto Geográfico

Figura 2: Etapas da construção da narrativa espacial.


Cada marca foi inserida sobre a base de uma imagem de satélite.

Cartografias e narrativas
A partir de reuniões e atividades de campo realizadas na Restinga, elaborou-se
uma cartografia que sintetiza pontos, marcas territoriais que participam da memória
dos narradores e que contam como foram ocorrendo as transformações espaciais.
Busca-se, assim, a reconstrução de narrativas de vida dos moradores do bairro, numa
tentativa de resgate da construção do espaço coletivo a partir da memória individual.
Lindón (2007) nos coloca que os lugares também são construídos pelos sentidos
e significados que lhe são atribuídos, compondo assim uma complexa trama. As
narrativas foram registradas em vídeo, áudio e anotações de campo. Estas serviram de
base para a interpretação das marcas e possibilitaram a construção de uma cartografia
da memória do bairro. A figura 3 demonstra esta etapa.
Após a construção de mapas-narrativas com os sujeitos, integraram-se os
referenciais espaciais em um só mapa (Figura 3, página seguinte). Este expressa
trajetos que se entrecruzam de acordo com a significação no contexto comunitário.
Foi possível, então, verificar, no espaço do bairro Restinga, elementos que favorecem
a construção de significações espaciais e que estas poderiam inspirar um conto para
crianças e jovens. Mapas-narrativas compreendem um diálogo que relaciona o vivido
entrecruzado com o espaço. Representam sentidos e linguagens de significação do
conhecimento pela percepção do mundo em suas transformações experienciadas.

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Cláudia Luísa Zeferino Pires, Cristiano Quaresma de Paula e Helena Bonetto
Cartografias e narrativas

Figura 3 – Mapa com marcas e memórias espaciais.

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Mapas-narrativas e um Conto Geográfico

O Diálogo: vamos contar!


Foi na tentativa de compreender o ser Restinga, que representava ser cada um
deles e que estava presente na fala “a Restinga somos nós!”, buscamos contar sobre

Cartografias e narrativas
o bairro através de narrativas que se situam em temporalidades e espacialidades
diferentes, mas se encontram em contextos de organização comunitária. Como o conto
expressa vivências desses moradores, decidimos apresentá-los como personagens,
para valorizar suas trajetórias na comunidade. Eles vão presentear crianças, em idade
escolar, com caixas cheias de símbolos. Essas caixas representam as suas memórias,
que, na compreensão de história oral, são transmitidas entre sujeitos em relações
sociais.
Com base no mapeamento, estabeleceu-se um trajeto para a construção de um
conto geográfico. Para que jovens se reconhecessem nesse conto, os personagens são
inspirados em estudantes da escola em que foi realizado o projeto, os quais saem do
ambiente escolar em busca de descobertas no bairro. Assim, a provocação é de que
os educandos que leem o conto também valorizem e busquem, com seus amigos e
familiares, memórias sobre a Restinga.
À medida que se deslocam no bairro, os jovens encontram caixas com símbolos,
que são oferecidas por personagens reais (os narradores). Essas caixas representam
a memória destes narradores que são recheadas com símbolos que remetem aos
marcadores espaciais. Assim, o espaço vai se tornando significante na medida em
que se compreende o significado dos símbolos.
Tendo elaborado a primeira versão do conto, a equipe de pesquisadores
convidou os narradores e estudantes da escola para uma pré-apresentação da obra.
Este foi um momento importante para avaliar o quanto o conto era apreensível pelos
estudantes, bem como promover o diálogo entre os narradores que, no momento
anterior, participaram individualmente juntamente conosco. Para tanto, utilizamos
como estratégia o círculo hermenêutico-dialético. Esta técnica, para Oliveira
(2001), situa o diálogo numa ação na qual os diversos atores sociais da pesquisa
se encontram para discutir seus resultados. A partir de um vaivém ininterrupto de
interpretação e reinterpretação, os participantes se colocam em construção de um
diálogo sobre a pesquisa, que, em nossa situação, foi o conto geográfico. As críticas,
as revisões, as análises e construções textuais do conto buscaram reunir no conjunto
as falas e os significados que poderiam ser apresentados nesse conto. Na ação dessa
técnica, reuniu-se o grupo de pesquisadores da Universidade, da Comunidade e
da Escola.
Não houve impasses entre os narradores, mas complementações, celebração
de conquistas, e por isso um importante momento de reescrever o conto e de pensar
a comunidade. Destacamos que foi nesse encontro que o grupo de pesquisadores e
narradores decidiram manter a identificação destes últimos como personagens do

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Cláudia Luísa Zeferino Pires, Cristiano Quaresma de Paula e Helena Bonetto

conto, para valorizar as suas trajetórias. Outra questão a frisar foi o impacto do conto
nos estudantes, que se mostraram muito interessados em escutar as histórias dos
narradores, questionando-os e trazendo relatos que já haviam escutado dos pais e avós.
Cartografias e narrativas

Figura 4: Pré-apresentação dos resultados da pesquisa com a participação da comunidade.


Este foi um momento de leitura e escuta das narrativas das entrevistas, bem como apresentar
a ideia do livro para popularização dos resultados da pesquisa. Envolveu os narradores
(lideranças comunitárias), alunos e professores da Escola Municipal Larry José Ribeiro Alves.

Após essa etapa, a equipe de pesquisadores voltou a trabalhar na edição do


conto. Buscou-se integrar todas as sugestões apontadas pelo grupo. Nesse momento,
também procurou-se identificar quais seriam as principais cenas que seriam ilustradas.
Decidiu-se, então, que as cenas seriam as que expressassem os personagens (educandos
e os narradores) no tempo presente, de forma que ocorressem em diversos espaços
do bairro. Foi então realizada uma outra versão do conto, já com ilustrações que
foram elaboradas pela artista plástica Nádia Poltosi. Esta versão, também foi analisada
por Nelson Rego que fez a leitura do percurso do conto para pontuar suas possíveis
interseccionalidades com o ensino de geografia, que na época sugeriu o encarte
didático para o livro.

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Mapas-narrativas e um Conto Geográfico

Ainda, antes da divulgação do conto impresso, este serviu de base para dois
trabalhos de campo no Bairro Restinga. Neste, se observou a potencialidade do
conto para aprendizados, também fora da sala de aula. O primeiro trabalho de

Cartografias e narrativas
campo foi realizado no contexto das Jornadas Pedagógicas promovidas pela AGB
(Associação de Geógrafos Brasileiros - Secção Porto Alegre) e o LIAU (Laboratório
de Inteligência Urbana).

O percurso, os campos: marcas deixadas no espaço ou Geo-Grafias


Ao longo da pesquisa foram realizados trabalhos de campo pelo bairro. Alguns
estiveram vinculados à Escola Municipal de Ensino Fundamental Professor Larry
José Ribeiro Alves, mediadora em nossa aproximação com a comunidade. O que
comumente chamamos de trabalho de campo, neste texto utilizaremos a expressão de
Suertegaray (2002) “campeando”. Para a autora, a expressão campeando refere-se a
algo que está à procura, ou seja, procurando – pesquisando. Como campear significa
pesquisar, esta significa a busca. A busca pela leitura do lugar, de descobertas, de
leituras da Restinga.
O conto tem como cenário inicial a Escola Larry Ribeira Alves. O local foi
escolhido por ter sido o ponto de encontro entre pesquisadores, narradores e alunos
que participaram do projeto. A primeira cena do conto se passa na biblioteca, conforme
podemos observar na primeira ilustração do livro (Figura 5), pois é na biblioteca onde
as crianças encontram a primeira caixa, a qual os levará ao primeiro marco espacial.
Na primeira caixa, as crianças se surpreendem e encontram os seguintes objetos:

Os amigos ficam muito surpresos com o que encontram dentro: uma pedra, um
escrito e um desenho. Atraída pelas risadas das crianças, a professora Giselle
entra na biblioteca e pergunta o que está acontecendo (CONTO, p.2, 2013).

Os objetos em si não contam a história do bairro, por isso, para cada um


deles encontramos uma explicação realizada por diferentes personagens. O texto
rabiscado é explicado pela professora Giselle, o qual faz referência a uma música
do compositor gaúcho Lupicínio Rodrigues sobre a Ilhota. A Ilhota foi um lugar de
onde muitos moradores da Restinga foram originários.
Portanto, a música faz referência aos primeiros moradores da Restinga que
foram removidos do centro de Porto Alegre, das chamadas vilas Ilhota, Marítimos,
Dona Teodora e Santa Luzia. Essas pessoas foram arrancadas do centro da cidade
e foram jogadas na parte do bairro que seria chamada posteriormente de Restinga
Velha. Para melhor entendimento, eles estavam agora distantes 27 quilômetros do
centro de Porto Alegre.
O desenho de um mapa é encontrado pelas crianças e simboliza um lugar
a ser “campeado”, tendo em vista que nem todas as explicações dos objetos se dão

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Cláudia Luísa Zeferino Pires, Cristiano Quaresma de Paula e Helena Bonetto

Figura: 5 - A biblioteca.
Cartografias e narrativas

Fonte: “Desvendando a Tinga: O mistério das caixas”.


Ilustração: Nádia Poltosi.

na escola. O desenho do mapa é a localização de outra marca espacial, apontada


durante as narrativas como a figueira. Esta simboliza a parte mais antiga do bairro,
o ponto de encontro para as primeiras muambas, de acordo com a explicação da
narradora Carla:

Ao chegarem no ponto marcado no desenho, as crianças encontram Carla e


Augusta. Daniel, entusiasmado ao encontrá-las, conta sobre o mistério da caixa
encontrada na biblioteca. Carla conta que ali havia uma figueira que fazia sombra
sobre os dois lados da rua e que deste local saíam as muambas. Ana pergunta: o
que são muambas? A muamba é a arrancada geral para o ensaio de uma escola de
samba. Fui a maior muambeira daqui da Restinga e ela partia daqui da figueira
(Conto, p.4, 2013).

A figueira já não existe, mas está na memória dos moradores, pois foi lembrada
por nossos narradores, e ainda durante vários campos foi possível observar que tudo
que existe no entorno dela leva seu nome: bares, pequenos comércios, entre outros.
Os moradores se referem ao lugar como “volta da figueira”. Para Maria Clara, a figueira
simboliza o espírito do restingueiro, a força dos moradores do bairro. A figueira grafa
espacialmente o bairro e torna-o um lugar de memória para os moradores, o lugar

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Mapas-narrativas e um Conto Geográfico

entendido aqui, a partir de Tuan (1983), como sendo um espaço de memórias, de


lembranças, de sentimentos afetivos ou de medo. O espaço torna-se lugar na medida
em que os sujeitos atribuem significados, atribuem lembranças, quando se torna

Cartografias e narrativas
parte de suas vidas.
Nossa história não termina aqui! Continuamos o trajeto com as crianças
que recebem uma segunda caixa na figueira, não esquecendo que a pedra dada na
primeira caixa continua no bolso da personagem Ana sem explicação.
As crianças seguem para a esplanada, outra marca espacial. A Esplanada da
Restinga – praça central localizada na avenida João Antônio da Silveira – é um lugar
de muita importância para o bairro. É lugar de encontro, possui uma centralidade
onde acontecem às principais comemorações, festas e outras atividades. Para nossa
narradora, Maria Clara, é na Esplanada onde estão os diferentes poderes, o judiciário,
representado pelo Fórum, o religioso, representado pela Igreja Nossa Senhora da
Misericórdia, e o cultural, representado pela Escola de Samba Estado Maior da
Restinga (Figura 6).

Figura 6: Esplanada da Restinga.

Fonte: “Desvendando a Tinga: O mistério das caixas”.


Ilustração: Nádia Poltosi.

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Cláudia Luísa Zeferino Pires, Cristiano Quaresma de Paula e Helena Bonetto

Na segunda caixa, os elementos constituintes são: um novelo de lã, um copo


e um pandeiro. É Maria Clara quem explica os elementos da caixa às crianças.
Contudo, antes da explicação, as crianças ficam sabendo do por que da pedra da
Cartografias e narrativas

primeira caixa, através dessa narradora:


Nessa época, a vida era muito difícil por aqui. Para ir ao centro de Porto Alegre
usávamos o Romeu e Julieta: um ônibus articulado que ia de manhã e voltava à
noite. Ele fazia a volta da Figueira, aquela das muambas, e outros trajetos marcados
com pedras que ajudavam a nos localizar (Conto, p. 8, 2013).

A pedra simboliza a dificuldade de deslocamento dos moradores da


Restinga para o centro da cidade, o transporte é uma das principais lutas dessa
população que ficou totalmente apartada do centro, devido à distancia. Podemos,
a partir da pedra, compreender como a mobilização por transporte possibilita
o fortalecimento de laços entre os moradores, tendo em vista a necessidade de
transcender uma necessidade individual e tornando-a coletiva, para que ganhe
força, e para exercer pressão nos gestores da cidade a mudar a situação desses
moradores.
O espaço da Restinga está marcado pelas mobilizações da coletividade, as
quais estão materializadas na paisagem do bairro, pela construção de locais, os
quais são pontos de encontro e articulação entre os moradores, o primeiro destes
locais é o Clube de Mães, simbolizado aqui pelo novelo de lã, nas palavras de
Maria Clara: “Crianças, este novelo de lã me faz lembrar o Clube de Mães, onde
as mulheres aprendiam crochê e artesanato. Mulheres como a Maria Angélica, a
Terezinha e eu ajudamos a fundar o Clube em1975” (Conto, p. 8, 2013).
A conquista de equipamentos públicos da Restinga é fruto de mobilização
popular, todos nós sabemos que é dever do Estado possibilitar que as pessoas
vivam bem, que tenham uma boa qualidade de vida, entretanto, no caso deste
bairro, isto aconteceu muito por meio da organização dos moradores. A fala de
nossa narradora Djanira demonstra e reafirma a força dos moradores da Restinga:
A Restinga tem muita história para contar. Lembro quando ocupamos o Centro
Administrativo da Restinga, em 2008, para que nos garantissem o terreno para
a Escola Técnica. Ainda buscamos o seu melhoramento e estamos conquistando
o hospital (Conto, p. 10, 2013).

O pandeiro simboliza a cultura do samba, a qual faz parte do cotidiano do


bairro até os dias de hoje, a Restinga tem uma das maiores escolas de samba de
Porto Alegre. Vejamos o diálogo entre de Maria Clara e as crianças:
Vó Clara! O pandeiro tem relação com a escola de samba? - Isso mesmo! Na
Restinga temos duas escolas de samba: Estado Maior da Restinga e União da
Tinga, chamada de Tinguinha. Eu já fui da ala das baianas na Estado Maior!
(Conto, p. 8, 2013).

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Mapas-narrativas e um Conto Geográfico

É Djanira que entrega a próxima caixa às crianças, que as levará ao outro


marco espacial: a Avenida Nilo Wulff. Na caixa, encontramos mais três elementos:
uma bola de futebol, um nariz de palhaço e uma reportagem. O próximo mistério

Cartografias e narrativas
só poderia ser resolvido pelo nosso narrador José Carlos, mais conhecido como
“Beleza”.
A avenida Nilo Wulff encontra-se, nos dias de hoje, na parte do bairro
que é chamada pelos moradores de Restinga Nova. Na formação da Restinga,
compreende-se na segunda forma de ocupação, tendo em vista que a primeira
se dá por meio das remoções de moradores do centro da cidade.
A segunda forma de ocupação deu-se predominantemente pela obtenção
de casas ou apartamentos através do cadastramento realizado no Departamento
Municipal de Habitação (DEMHAB). As pessoas realizavam um cadastramento
no DEMHAB e esperavam ser chamadas para receber suas casas, as quais não
eram dadas pelo DEMHAB, tendo em vista que muitos moradores pagam até
hoje uma pequena prestação.
Logo que chegamos à avenida Nilo Wulff, observamos na sua paisagem
os blocos habitacionais daquela área. Os arredores e a própria avenida foram
marcados por diferentes eventos da história da Restinga. Nosso narrador, o
Beleza, detalha esses eventos durante sua narrativa de vida espacial e mapeamento.
Na Nilo Wulff, está situado o CECORES, Centro Comunitário da Restinga,
que foi palco de diferentes eventos, Beleza explica o que ele simboliza:
O empenho de muitos moradores foi transformando o nosso espaço. Foi com
muita luta que ajudamos a construir o centro comunitário, o CECORES. Nele
acontecia até baile de debutantes. Nesse momento, Daniel comenta:
- Então, a Restinga se encontrava no CECORES.
Beleza exclama: - Isso mesmo! Sua construção nos ajudou muito nos movimentos
de melhoria do bairro. Nossas dificuldades foram vencidas com muita garra e
atitude. Hoje temos muitas escolas no bairro, elas foram conquistadas. A escola
é o espaço de transformação social. Gurizada é o seguinte: a gente se mobilizou
muito pela Restinga e esse espírito deve continuar (Conto, p. 14, 2013).

O nariz de palhaço simboliza os ensaios de circo que aconteciam nas


proximidades do CECORES e a bola de futebol simboliza a importância da
liga de futebol amador que existia na cidade de Porto Alegre. Segundo Beleza:
O nariz de palhaço lembra os artistas de circo que se apresentavam ao lado
do CECORES, onde tinha um coreto. Nesse lugar aconteciam as festas e as
comemorações da Semana da Restinga. O futebol, também, é importante, por
isso a bola aí, nessa caixa. Tínhamos a LIFEAR, Liga de Futebol da Restinga, e
temos muitos campeonatos ainda hoje (Conto, p. 14, 2013).

O conto se encerra com a entrega de uma chave e de uma reportagem por


Beleza. A chave provoca as crianças a procurarem o último mistério. Na reportagem,

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Cláudia Luísa Zeferino Pires, Cristiano Quaresma de Paula e Helena Bonetto

elas visualizam um endereço que as leva a um apartamento do conjunto habitacional


da Nilo Wulff, que representa a última caixa.
Nesta caixa (Figura 07), lembranças da história da Restinga e o reencontro
Cartografias e narrativas

de todos nossos narradores acontece e as falas representam este diálogo:

– Ana aqui pode ver nossas histórias. Têm lembranças das pessoas, com quem
conversamos. Logo em seguida, chegam Maria Clara, Carla, Augusta, Deja e o
Beleza, que pergunta:
– Desvendaram o mistério? Ele mostra pela janela o horizonte da Restinga e
de lá observam o Morro São Pedro, o Arroio do Salso, a Esplanada e a vida do
bairro. Tetê responde:
– Ainda não. Quem fez o mapa? Vamos ter outra pista?
Beleza esclarece às crianças que aquele mapa se faz e se refaz todos os dias pelas
pessoas que constroem a nossa Restinga e que existem muitas outras caixas
(Conto, p. 15, 2013).

Figura 7: Casa do Beleza.

Fonte: “Desvendando a Tinga: O mistério das Caixas”.


Ilustração: Nádia Poltosi.

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Mapas-narrativas e um Conto Geográfico

A partir das narrativas e do mapeamento foi possível construir os mapas-


narrativas, os quais se constituem de lugares significativos para nossos narradores.
Os lugares foram significados por objetos que estão nas caixas e, assim, vamos

Cartografias e narrativas
entendendo e compreendo os significados destes lugares e observando que existe
um entrelaçamento entre passado, presente e futuro pela memória, luta por melhores
condições de vida, manifestações culturais e práticas socioespaciais dos moradores
da Restinga.
A partir das marcas espaciais, foi possível contar sobre o bairro dando acento
às transformações dos lugares geográficos, os quais se constituem como marcos
memoriais. Assim, não temos apenas uma história contada a partir do tempo,
mas uma história contada a partir do tempo e do espaço, em sua simultaneidade e
multiplicidade .

“Desvendando a Tinga: O mistério das caixas” seguiu seu próprio


caminho
Para a divulgação da primeira edição do conto, foram realizadas oficinas em
diferentes escolas no bairro Restinga durante o ano de 2015, com a participação de
alunos e professores da rede municipal de Porto Alegre e do Estado do Rio Grande
do Sul. Oficinas realizadas com professores e alunos possibilitaram o conhecimento
da história espacial do bairro, reconhecimento de um cotidiano vivido espacialmente.
Apreendemos com este caminhar que os processos de pesquisa relacionam-se
com o envolvimento participativo. No contexto em que pesquisamos, o mapa tornou-
se um meio de diálogo entre todos os envolvidos na pesquisa e as narrativas espaciais
expressam trajetórias individuais e coletivas. Então, nesse momento, sem encerrar a
discussão, entendemos que no nosso caminho metodológico houve o mapeamento
de marcas espaciais, que ontologicamente estão intrínsecos na existência dos sujeitos.
Assim, a construção de mapas-narrativas, os quais se referem a uma perspectiva
dialética entre totalidade/particularidade das relações entre sujeito e espaço em
que vive, nos proporcionou a compreensão de que os indivíduos simplesmente não
se movimentam pelo espaço, e sim que são caminhantes de suas trajetórias de vida
vividas e experienciadas, que nos faz ligar espacialmente ao mundo que vivemos e,
assim, nos significar na relação com o espaço.

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Cláudia Luísa Zeferino Pires, Cristiano Quaresma de Paula e Helena Bonetto

Referências
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TUAN, Y-F. Espaço e lugar: a perspectiva da experiência. São Paulo: Difel, 1983.

68
4 Entre corredores ecológicos e salas
poéticas: conexões criativas no fazer

Cartografias e narrativas
científico

Ana Stumpf Mitchell

Para o início da conversa, um conto


“O que você vê neste trabalho?”, perguntei para um novo grupo de visitantes
na exposição. “Não sei, um cavalo marinho, ali no meio?”, respondeu um
deles. “Pois eu vejo uma perna!”, respondeu outro. Uma senhora, mais
timidamente, disse ter enxergado uma vagina. A maioria dos visitantes
não conseguia definir o que via naquele trabalho, outros tentavam
resolver o enigma com aproximações: cavalo-marinho, perna, vagina.
Eu, inclusive, que observava a obra seis dias por semana, não conseguia
decodificar aquela imagem. Certa vez, um visitante compartilhou: “pois
eu vejo o ventre aberto de um cavalo que está pendurado pelas patas
traseiras”. Eu passei imediatamente a ver esse cenário. Fiz esse exercício
com praticamente todos os grupos que recebi a partir de então: primeiro,
experimentávamos as mais diversas tentativas de decodificação; depois,
eu sugeria uma resolução (ventre aberto de um cavalo que está pendurado
pelas patas traseiras) e todos conseguiam imaginar, então, o contexto.
A obra, uma fotografia colada em um papel reciclado suspenso por fios
transparentes e sem título ou indicação de local, era um fragmento de
um corpo. Nem eu, nem aqueles que nunca haviam visto um contexto
que se encaixasse naquele fragmento conseguimos decifrá-la sozinhos. O
visitante que a decodificou já havia visto o ventre aberto de um cavalo
pendurado pelas patas traseiras. Conhecia, portanto, um contexto que
se encaixava naquele fragmento.

In: HEIDRICH, A. L. & PIRES, C. L. Z. (orgs.). Abordagens e práticas da pesquisa


qualitativa em Geografia e saberes sobre espaço e cultura. Porto Alegre:
Editora Letra1, 2016, p. 69-84. DOI: 10.21826/9788563800220
Ana Stumpf Mitchell

Dessa experiência com os visitantes, vivida enquanto mediadora/educadora


na exposição “Ponto Cego”1, de Miguel Rio Branco, trago pelo menos duas questões:
primeiro, a dificuldade de vermos o que nunca vimos e, segundo, a necessidade de
Cartografias e narrativas

outros pontos de vista para enxergarmos o que nunca vimos. Experienciei essas
questões durante a realização da pesquisa e escrita da dissertação para o mestrado
em Geografia. A reflexão sobre essas experiências é o tema deste artigo.

Como conto o que conto


A “experiência” é aqui compreendida no sentido dado por Larrosa (2002, p.21):
“A experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. Não o que se
passa, não o que acontece, ou o que toca”. Por isso, a escolha de escrever na primeira
pessoa: “Eles [nós, na Ciência] pensam que a verdade é coisa fria e até inventaram
um jeito engraçado de escrever, tudo sempre no impessoal, como se o escritor não
existisse, e assim o texto parece que foi escrito por todos e por ninguém” (ALVES,
1987). Este “eles” ao qual Rubem Alves se refere, no que compreendo, diz respeito
a uma forma de agir que aprendemos sem estarmos conscientes. Ao mesmo tempo,
arte e ciência foram se distanciando: “E foi por causa deste frio que se interditou o
aparecimento da beleza e do engraçado nos textos de ciência. O saber deve ser coisa
séria, sem sabor” (ALVES, 1987).
Comunico-me aqui a partir da escrita, da palavra, e por isso vale ressaltar
que “as palavras são vasos cheios de experiência que transbordam do recipiente.
As palavras designam a experiência; não constituem a experiência” (FROMM,
1979, p.97). Segundo Maturana (2001, p.29) as explicações são reformulações da
experiência, mas nem toda reformulação da experiência é uma explicação: “Uma
explicação é uma reformulação da experiência aceita por um observador. […] o
explicar e a explicação têm a ver com aquele que aceita a explicação”.
No momento em que há a leitura das palavras, um texto (seja um artigo
científico, um ensaio, uma poesia) é mais do que um objeto, passa a ser um evento.
Enquanto evento, o texto (objeto criado por um sujeito) está conectado à leitura
(de um sujeito que se relaciona com o objeto). Ao depender de um sujeito, o texto
passa a ser, portanto, algo vivo. Se há um sujeito que lê, há vida envolvida. E, sendo
vivo, está sujeito à mutação: forma e conteúdo estão conectados. Assim, as palavras
tanto designam uma experiência (uma pesquisa, por exemplo), quanto possibilitam
uma outra experiência (a leitura).
Segundo Maturana (2001), há dois modos fundamentais de escutar e aceitar
reformulações da experiência, que correspondem, ao mesmo tempo, a dois caminhos
explicativos e a dois modos de estar em relação com os outros:
1 Curadoria de Paulo Herkenhoff e Miguel Rio Branco, no Santander Cultural, em Porto Alegre/RS, de 4
de setembro a 11 de novembro de 2012.

70
Entre corredores ecológicos e salas poéticas: conexões criativas no fazer científico

(1) No domínio das ontologias transcendentes, denominado caminho da


objetividade, acredita-se que a existência é independente do observador; o fenômeno
cognitivo é descrito, e não explicado. A realidade, única, existe independentemente

Cartografias e narrativas
do observador. Utilizei este caminho na pesquisa para descrever, por exemplo, a
situação de um bioma no espaço geográfico de estudo.
(2) No domínio das ontologias constitutivas, denominado objetividade entre
parênteses, aceita-se a pergunta pelo observador e pelo observar; trata da explicação
do fenômeno cognitivo. Toda explicação é uma reformulação da experiência com
elementos da experiência. A realidade, neste caso, é uma proposição cognitiva,
um argumento explicativo, cujo número de realidades corresponde ao número
de domínios explicativos, todas legítimas. Utilizei este caminho para explicar, por
exemplo, diferentes vínculos de grupos humanos com o espaço geográfico de estudo.
Na vida cotidiana, movemo-nos de um caminho explicativo para outro:

Descrição e explicação são inseparáveis. O que deve estar no alicerce da descrição


é a vontade de explicação, que supõe a existência prévia de um sistema. Quando
este faz falta, o que resulta em cada vez são peças isoladas, distanciando-nos do
ideal de coerência próprio a um dado ramo do saber e do objeto de pertinência
indispensável (SANTOS, 2002, p.18).

Experiencialmente , não é possível distinguir entre ilusão e percepção, é


preciso explicar como é que faço o que faço, pois qualquer afirmação é válida no
contexto das coerências que a constituem como válida. Desse modo, assumimos
que não podemos fazer referência a entidades independentes de nós para construir
nosso explicar.

Quem conta um conto


Em um contexto científico, preocupado em conhecer o que não é ainda
conhecido ou, ainda, conhecer a partir de um ponto de vista inovador, a comunicação
deste conhecimento é sempre uma criação. Desde a invenção do telescópio (mais
precisamente seu uso a partir de Galileo Galilei, em 1609, cujas observações
marcaram o início da astronomia moderna), a realidade passou a ser apresentada
por um instrumento fabricado e não pelos sentidos ou pela razão. O ponto de vista
arquimediano, ensejando o desenvolvimento de uma nova ciência que considera
a natureza da Terra do ponto de vista do universo, permitiu a descoberta de que
nossos sentidos podem nos trair. O advento da dúvida cartesiana, onde o Ser e a
Aparência estão definitivamente separados e, portanto, tudo deve ser posto em
dúvida, valorizou o conhecimento matemático e transferiu o ponto arquimediano
para dentro do próprio homem, pois “embora não possa conhecer a verdade como
algo dado e revelado, o homem pode, pelo menos, conhecer o que ele próprio faz”
(ARENDT, 2005, p. 295). Neste contexto, arte e ciência distanciaram-se até sua
dissociação:

71
Ana Stumpf Mitchell

Nos tempos de Heródoto, os viajantes faziam geografia sem o intuito de fazê-la.


A meu ver, o maior erro que a geografia cometeu foi o de querer ser ciência, em
vez de ciência e arte. Ela abandonou a literatura, mudou sua forma de escrever e
sucumbiu ao método de pensar científico (SANTOS, 1994, p.17).
Cartografias e narrativas

Ainda que formalmente se diferenciem arte e ciência, podemos verificar


que essa diferenciação é uma ilusão, pois é mais um exercício de racionalização e
categorização do que de empirismo. Para Friedensreich Hundertwasser , a arte é um
gênero de vida e a criação é um direito de todos. Ao longo de sua vida, simbolizou
a constituição humana por uma espiral concêntrica de cinco peles: 1) epiderme;
2) vestuário; 3) moradia; 4) identidade (meio social); e 5) planeta Terra, pele essa
“ligada diretamente ao destino da biosfera, à qualidade da biosfera, à qualidade do
ar que se respira, e ao estado da crosta terrestre que nos protege e nos alimenta”
(RESTANY, 2003, p.11).

Figura 1: The Five Skins of Man, de Hundertwasser.

Fonte: RESTANY, 2003, p.3.

72
Entre corredores ecológicos e salas poéticas: conexões criativas no fazer científico

Essa espiral concêntrica estreita-se, por exemplo, na leitura que faço, com
o eixo local atravessado por distintos âmbitos de coesão social e solidariedade
proposto por Álvaro Heidrich , correspondendo o eixo local à primeira pele segundo

Cartografias e narrativas
Hundertwasser :

Figura 2: Integração socioespacial fragmentada, de Heidrich.

Fonte: HEIDRICH, 2004, p.52.

73
Ana Stumpf Mitchell

Na dissertação (MITCHELL, 2011), um dos primeiros capítulos corresponde


a uma tentativa de “pintar meu retrato” na pesquisa, tanto das conversas durante
a pesquisa quanto do texto elaborado, na tentativa de compartilhar reflexões e
Cartografias e narrativas

explicitar limitações do contexto socioespacial que tive consciência de produção de


conhecimento. Como nos lembra Bourdieu (1998, p. 103): “seria sucumbir ainda
a uma forma da ilusão escolástica da onipotência do pensamento acreditarmos na
possibilidade de assumirmos um ponto de vista absoluto sobre nosso próprio ponto
de vista”. Matisse (2007, p.38) nos lembra, ainda, que “não consigo distinguir entre
meu sentimento da vida e o modo como o traduzo”.
Sou brasileira, nascida em 1983 em Porto Alegre/RS, onde sempre morei.
Estudei em colégio de orientação franciscana (instituição privada), em escola pública
estadual e em colégio de regime militar (instituição pública estadual). Ingressei
no curso de graduação em Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do
Sul (UFRGS) em 2001 e concluí o bacharelado em 2005. Em 2006, iniciei meus
estudos sobre corredores ecológicos através do Instituto Curicaca2, organização
não-governamental em que estive envolvida entre 2002 e 2006. Durante o ano de
2006, cursei a disciplina “Estudo Temático: Crítica do território”, o que me auxiliou
a elaborar o anteprojeto de pesquisa a partir do conceito de vínculos territoriais,
desenvolvido por Álvaro Heidrich , e a optar por sua orientação. A experiência de
ser orientada pelo autor do principal referencial teórico da pesquisa foi riquíssima,
em especial pelo apoio para não me restringir às suas reflexões. A pesquisa foi
aprofundada entre 2007 e 2009, período que estive vinculada ao Programa de Pós-
graduação em Geografia/UFRGS, e entre 2010 e 2011, período em que trabalhei
na loja da Fundação Iberê Camargo3, onde me aproximei das Artes Visuais e da
arte-educação/mediação e, depois, na Fundação Bienal do Mercosul4. Em 2012,
prossegui com o trabalho de educadora/mediadora no Santander Cultural5.
A pesquisa despertou algumas inquietações sobre o conceito de território,
especialmente pela dissociação entre seres humanos e natureza, em relações de
dominação. Na tentativa de compreendê-las, a partir de então passei a me orientar
por uma metodologia efetuada pelo pesquisador psicanalista Fromm (1979) em
seu livro “Ter ou Ser?”. No referido estudo, Fromm fundamenta-se nas Quatro
Nobres Verdades (a natureza do sofrimento; a origem do sofrimento; a cessação do
sofrimento; e o caminho para a cessação do sofrimento), base de ensinamento de
Siddhartha Gautama, e apresenta coerências com as ideias de salvação de Friedrich
Marx (mostrar à classe trabalhadora que ela sofria; mostrar que a natureza do

2 Sítio institucional: http://www.curicaca.org.br/


3 Sítio institucional: http://www.iberecamargo.org.br/
4 Sítio institucional: http://bienalmercosul.org.br/
5 Sítio institucional: http://www.santandercultural.com.br/

74
Entre corredores ecológicos e salas poéticas: conexões criativas no fazer científico

capitalismo e o caráter de ambição e avareza produzido pelo sistema capitalista


são as causas desse sofrimento; mostrar que o sofrimento podia ser afastado se as
condições do sofrimento fossem afastadas; mostrar o novo estilo de vida através

Cartografias e narrativas
de novo sistema social) e o método terapêutico de Sigmund Freud (a essência do
processo psicanalítico é ajudar os pacientes a se tornarem conscientes das causas
de sua doença; intuição dos pacientes de que sua doença pode ser curada, desde
que removidas suas causas). Utilizar tal linha de raciocínio passou a ser uma escolha
didática e uma intenção colaborativa ao relatado estudo, exercitada a seguir.
Estamos sofrendo e temos consciência desse sofrimento: dificuldade de ver
o que nunca se viu
A escolha de um tema de pesquisa pode se dar, por exemplo, por uma
inquietação, uma dúvida, uma vontade de resolver uma questão. “Descobrir” é deixar
de cobrir, e se a visão é o sentido mais estimulado, descobrir é retirar o que cobre
para passar a ver. Assim, a princípio, pesquisamos o que não sabemos, pesquisamos
o que nunca vimos. Antes de prosseguir, convido o leitor a um desafio: observe a
imagem da página seguinte.
Observe, principalmente, suas reações ao observar a imagem. Se for preciso,
retorne à imagem. O que você viu? Quanto tempo você conseguiu investir para
observá-la? Tentou encontrar figuras conhecidas, numa tentativa de “resolver” o
que você via?
Essa imagem é uma reprodução de uma pintura que faz parte de uma série
na qual Tomie Ohtake vendou os olhos para pintar. Suas pinturas são registros de
um momento:

Na paciente repetição, [Tomie Ohtake] encontra a possibilidade da diferenciação


de cada pincelada como momento único. O paradoxo a que nos submetem as
pinturas cegas é uma sorte de poética que simultaneamente produz linguagem e
conhecimento e que, ainda, apresenta-se como experiência processual e intuitiva
do não ver, do não saber. “O quadro não é uma coisa, mas um momento; podia
ser antes, podia ser depois”, diz a artista. Sem drama da cegueira ou “furor
heroico” da visão, expressão de Giordano Bruno, Ohtake é o pintar em marcha
(HERKENHOFF, 2012, p.77).

Agora, se você substituir a imagem por um tema de pesquisa, qual a sensação? A


experiência de quem observa a pintura de Ohtake pode ser semelhante à experiência
de pesquisar: é preciso atenção e vigilância dos próprios pensamentos para não
sucumbir à vontade de resolver rapidamente um problema com elementos já
conhecidos para, assim, “concretizar” o que se apresenta “abstrato”. As exposições
“Ponto Cego”, de Miguel Rio Branco, e “Pinturas Cegas”6, de Tomie Ohtake, ambas
com curadoria de Paulo Herkenhoff, exploravam o desconhecido, o que o olho não
consegue ver, a dificuldade de enxergar: o que é “real” e o que é “representação”? De

6 Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre/RS, de 15 de junho a 12 de agosto de 2012.

75
Ana Stumpf Mitchell

Figura 3: sem título, 1959, de Tomie Ohtake | óleo sobre tela, 100×70cm, col. particular.
Cartografias e narrativas

Fonte: HERKENHOFF, 2012, p.5

76
Entre corredores ecológicos e salas poéticas: conexões criativas no fazer científico

forma generalizada, aprendemos a relacionar pinturas a representações e fotografias


a captações do instante real. Nos casos apresentados, as fotografias de Miguel Rio
Branco hibridizam-se com a pintura, e as pinturas de Tomie Ohtake são registros

Cartografias e narrativas
de um momento.
No processo de pesquisa para o mestrado, fui a campo com a intenção de fazer
um registro de uma realidade específica, que eu já esperava encontrar. O tema da
pesquisa estava imerso, sem que eu estivesse consciente, em uma representação de
mundo específica: a que eu vivia a partir da instituição em que eu estava envolvida.
Embora com uma intencionalidade metodológica de abertura ao inesperado,
minha primeira postura foi a de tentar coincidir o meu imaginário, construído inclusive
com a revisão bibliográfica, com as informações levantadas nos trabalhos de campo.
Havia, no entanto, uma incompatibilidade das minhas sensações durante as entrevistas
com a minha visão condicionada pelo meu imaginário. Apreendi que o imaginário
participa de forma muito relevante tanto nas escolhas dos entrevistados, quanto na
postura do pesquisador. No domínio da representação, segundo Sandra Pesavento,
as coisas ditas, pensadas e expressas têm outro sentido além daquele manifesto:

Enquanto representação do real, o imaginário é sempre referência a um “outro”


ausente. O imaginário enuncia, se reporta e evoca outra coisa não explícita
e não presente. Este processo, portanto, envolve a relação que se estabelece
entre significantes (imagens, palavras) com os seus significados (representações,
significações) (CASTORIADIS 1982), processo este que envolve uma dimensão
simbólica (PESAVENTO, 1995, p.15).

Sendo o real concretude e representação, para Castoriadis (1982) a sociedade


é instituída imaginariamente, uma vez que ela se expressa simbolicamente por um
sistema de ideias & imagens que constituem a representação do real.
Encontrei, em campo, a situação de um agricultor que convertera recentemente
sua plantação de bananas do sistema convencional, com o uso de agrotóxicos e
baseado no monocultivo, para o sistema agroflorestal, baseado no consórcio de
plantas nativas e sem aplicação de agrotóxicos. Ainda que sua produção e o retorno
financeiro tenham aumentado com o sistema agroflorestal, o agricultor pensava
em retornar ao sistema convencional. Entre outros motivos, como o da busca pela
autonomia (tratado em MITCHELL, 2011), o agricultor sentia-se desconfortável
com o que ele via: uma plantação misturada à floresta, enquanto seu imaginário de
produtividade e, portanto, satisfação com o próprio trabalho, estava relacionado a
uma plantação uniforme.
Outro caso encontrado em campo foi o de um antigo agricultor que passou
a trabalhar como comerciante. Em conversa, dissertou sobre a diferença entre a
banana cultivada com veneno e a sem veneno. Esse senhor é conhecido na Colônia
(Dom Pedro de Alcântara) por ter precisado sumariamente partir do município
pelos efeitos em sua saúde do uso excessivo de agrotóxico. Em seu mercado, em

77
Ana Stumpf Mitchell

uma pequena praia de Torres, perguntei qual das duas bananas ele consumia. Sem
hesitar, respondeu: “a com veneno, pois é mais bonita, claro! Pois nós comemos
com os olhos”. Convidou-me a degustar a banana sem veneno para provar que era
Cartografias e narrativas

mais saborosa e disse que ela apodrece no seu mercado por falta de demanda, afinal,
“todos comem com os olhos” (MITCHELL, 2011, p. 145).
Esses casos demonstram a força do imaginário, a qual não estamos imunes
enquanto pesquisadores. Fui a campo com a intenção de associar tipos específicos de
uso do solo à possibilidade de corredores ecológicos e encontrei uma complexidade
muito maior do que a que eu poderia apreender apenas com meu olhar. A partir da
revisão bibliográfica, também esperava encontrar nos trabalhos de campo elementos
que comprovassem a situação de isolamento do município enquanto consequência
de fatores externos à própria Colônia. Na revisão bibliográfica, encontrei apenas
dois trabalhos que contestam esse isolamento (DREHER, 1999; WITT, 2001). A
análise final que fiz, depois de todo o processo pelo qual passei, apontou uma maior
concordância com esses dois trabalhos (para maiores detalhes, favor consultar
MITCHELL, 2011).
Frequentemente, vem-me à mente esta máxima de Camargo [s. d.]: “É preciso
que o fruto que está dentro do artista amadureça no vagar do tempo. Aquele que tem
pressa em vendê-lo, fará frutos de cera ou irá apanhá-los no pomar do vizinho”. Estar
consciente da dificuldade de ver o que nunca se viu é um instrumental essencial na
pesquisa, pois prepara-nos para a abertura ao inesperado, ao desconhecido.

Reconhecemos a origem do nosso mal-estar: fragmentação do


sujeito
O início da era industrial divulgou a grande promessa do progresso ilimitado:
a sujeição da natureza e a abundância material trariam maior felicidade para o maior
número de pessoas e liberdade individual sem obstáculos. Para tanto, priorizou-se
o que é bom para a melhoria do sistema econômico ao invés de priorizar-se o que é
bom para a Humanidade. Estimulou-se, assim, um imaginário que afirma ser bom
para as pessoas o que é bom para o sistema econômico capitalista (FROMM, 1979).
Essa verdade foi acompanhada pela elaboração de outra, a do laissez-faire, por
Adam Smith : a de que “não há alternativa” ao sistema do livre mercado capitalista, cujo
utopismo do processo foi fortalecido no século XX com a ascensão do neoliberalismo
como ideologia dominante. Segundo Harvey (2004), essa lógica propiciou uma
naturalização e relativa autonomia do sistema econômico predominante. Em
consequência, fragmentamo-nos enquanto seres humanos e fragmentamos o espaço
geográfico:

78
Entre corredores ecológicos e salas poéticas: conexões criativas no fazer científico

Grande parcela da extraordinária transformação da superfície da terra nos últimos


duzentos anos reflete precisamente a materialização da forma de utopismo do
processo fundado no livre mercado e suas incansáveis e perpétuas reorganizações
de formas espaciais (HARVEY, 2004, p.233).

Cartografias e narrativas
A grande promessa, no entanto, foi frustrada, resultante da desumanização e
desnaturalização do ser humano. As premissas psicológicas do hedonismo radical e do
culto ilimitado do eu revelaram-se premissas contraditórias. A primeira contradição
é a de que somos seres felizes: “o objetivo da vida é a felicidade, isto é, o prazer
máximo, definidos como a satisfação de todos os desejos ou necessidades subjetivas
que alguém possa sentir” (FROMM, 1979, p.25). O ideal de trabalho disciplinado,
com sua ética de trabalho obsessivo, em linha de montagem automática e rotina
burocrática, combina contraditoriamente com o ideal do prazer sem limites, da
completa ociosidade durante o restante do dia e nas férias, em que as formas de
passar o tempo são passivas. Se em uma parte da jornada há a máxima produção,
na outra há o máximo consumo, em que “matamos” o tempo duramente poupado
anteriormente. Embora contraditória, é a combinação desses dois ideais que permite
sua coexistência em um mesmo ser humano, que enlouqueceria se vivesse apenas
um deles. Como resultado, somos uma sociedade de pessoas notoriamente infelizes:
solitárias, ansiosas, deprimidas, destrutivas, dependentes.
A segunda contradição é a de que o culto ilimitado do eu traria a paz: “o culto do
eu, o egoísmo e a voracidade, como o sistema precisa gerar a fim de funcionar, levam
à harmonia e paz” (FROMM, 1979, p.25). Criou-se a ilusão de que as qualidades
exigidas pelo sistema capitalista (culto do eu, egoísmo e cobiça) são inatas na natureza
humana. Em realidade, “cobiça e paz excluem-se reciprocamente” (FROMM, 1979,
p.27). Sociedades em que essas qualidades não existem, por sua vez, são consideradas
“primitivas” e seus membros “infantis”.
A procrastinação foi elemento presente e recorrente durante o processo de
escrita da dissertação e está relacionada à frustração da grande promessa do progresso
ilimitado, apresentada por Fromm. Compreender a causa da procrastinação foi
fundamental para o prosseguimento da pesquisa. Segundo Joseph R. Ferrari , a
procrastinação está ligada a nossa baixa autoestima e a nossa insegurança:

E, por causa delas, acabamos protelando por evitar o medo de não termos o
sucesso esperado em algumas tarefas. “As pessoas com essas características são
muito preocupadas com o que os outros pensam delas. Dessa forma, preferem
que pensem que ela é displicente e tem problemas em se esforçar para agir do
que percebam que, no fundo, elas não têm habilidade para isso”, explica. [...] O
perfeccionismo exacerbado tem a capacidade de nos fazer desistir ou postergar
por um tempo ilimitado nossos afazeres, desejos e intenções (TONON, 2009).

Para atingir o objetivo metodológico de “pintar meu retrato” na pesquisa – e


assim compartilhar reflexões e explicitar limitações do contexto socioespacial de

79
Ana Stumpf Mitchell

produção de conhecimento – foi então imperativo me estudar, uma vez que minhas
dificuldades internas, fragmentações do sujeito, atrapalhavam a pesquisa.
Cartografias e narrativas

Reconhecemos haver um modo de superar nosso mal-estar: “ver”


com outros sentidos através da experiência
Um modo de superar, ou pelo menos minimizar, a fragmentação do
conhecimento e de sua produção, é permitir a pesquisa enquanto experiência e
estar consciente da necessidade de ver através de diferentes pontos de vista. Isso
inclui revisão bibliográfica, realização de entrevistas abertas, além de consultar
obras de literatura e cinema como fontes, entre outras, de outros pontos de vista.
É muito importante, como experienciamos com a obra de Ohtake, não considerar
o problema resolvido antes dos trabalhos de campo. Para dar um breve exemplo,
fui a campo convicta de que os agricultores convencionais não possibilitariam
corredores ecológicos e tenderiam a se isolar dos que pensam diferente, enquanto
os agricultores agroecologistas criariam as condições para corredores ecológicos.
Ao conviver com eles, experienciei uma enorme diversidade que modificou o meu
olhar, ampliando-o: “Não é a ação antrópica estrito senso que fragmenta o espaço,
mas tipos de atividades humanas em suas complexidades: quem tem vínculo com
a terra não deseja destruí-la, ainda que a prejudique (e a própria vida) por falta de
conhecimento” (MITCHELL, 2011, p.151).
Considero o trabalho de campo como um espaço para conhecer outros
pontos de vista e o diário de campo como um espaço de autorização para registros
e reflexões. São ferramentas fundamentais de pesquisa.
O diário de campo pode ser elaborado com a finalidade de registrar detalhes
das informações recolhidas durante os trabalhos de campo (inclusive transcrição das
entrevistas) e, quando possível, fazer ligações com teorias e conceitos. Isso possibilita
o resgate de informações que poderiam parecer menos relevantes para as análises
num primeiro momento. O diário de campo é uma estratégia tanto para o acervo
de diversos pontos de vista (para a posterior curadoria, considerando que o texto/
artigo/relatório é uma exposição de ideias), quanto para evitar o medo da “página
em branco”, que pode anteceder a escrita de um texto, uma vez que nada parte do
nada. Até a versão final do texto, é importante considerar a mudança como integrante
fundamental de todo o processo. Em minha experiência, a prática dissertativa foi
principalmente ferramenta na construção da pesquisa. Escrever manteve presente
na análise os conceitos de conexão e fragmentação.
O estabelecimento de mediadores foi fundamental para a formação da rede
de entrevistados. A rede foi iniciada a partir de contatos do Instituto Curicaca, da
EMATER do município e do Centro Ecológico (organização não-governamental
com sede em Dom Pedro de Alcântara), e se expandiu através de entrevistados, que

80
Entre corredores ecológicos e salas poéticas: conexões criativas no fazer científico

se tornaram, por sua vez, mediadores. A dinâmica das entrevistas procurou respeitar o
cotidiano dos entrevistados. Foi feito um primeiro contato para me apresentar, dizer
de onde sou, explicar do que se trata a pesquisa para, então, agendar as entrevistas.

Cartografias e narrativas
Os nomes dos entrevistados foram substituídos por códigos, conforme
combinado previamente. Essa escolha pelo anonimato dos entrevistados foi uma
decisão que me gerou muitas dúvidas após os trabalhos de campo. Essa opção, num
primeiro momento, foi concebida como uma ferramenta para deixar os entrevistados
mais à vontade para falar. Entretanto, hoje penso que o anonimato impediu os devidos
créditos das ideias a seus autores.
Desenhei a rede socioespacial dos sujeitos na pesquisa através de um diagrama
a partir de mim. Os vínculos de parentesco com o mediador principal de cada núcleo
familiar foram destacados em colchetes e conectados através de linhas tracejadas,
alguns deles entrevistados (indicados por códigos), outros apenas referenciados
(indicados apenas pelo vínculo familiar). Utilizei o recurso de diferentes tonalidades
de cores para representar as localidades de origem dos entrevistados.

Figura 4: Recorte da Rede Socioespacial dos entrevistados, por Mitchell.

Fonte: MITCHELL, 2011, p.34.

81
Ana Stumpf Mitchell

Esse diagrama foi uma estratégia bastante útil para o leitor da pesquisa
compreender como a rede se formou.
Cartografias e narrativas

Aceitamos que, a fim de superar nosso mal-estar, devemos mudar


nossa atual maneira de viver
Eu me conscientizei de que a minha leitura sobre o problema de pesquisa estava
inadequada no quarto semestre do mestrado. Concluí que era mais coerente manter-
me leal ao fazer ciência, arcando assim com o descumprimento de prazos estabelecidos
de forma generalizada. Foi preciso passar pelo desligamento da Universidade para
continuar a pesquisa, com a orientação voluntária de Heidrich.
Começar um texto é geralmente desafiador. O desenvolvimento da autoria é
diferente para cada um, mas envolve em princípio uma autorização. A autorização
demanda encontro, vínculo e, assim, exposição:
Do ponto de vista da experiência, o importante não é nem a posição (nossa
maneira de pormos), nem a “o-posição” (nossa maneira de opormos), nem a “im-
posição” (nossa maneira de impormos), nem a “pro-posição” (nossa maneira de
propormos), mas a “ex-posição”, nossa maneira de “ex-pormos”, com tudo o que
isso tem de vulnerabilidade e de risco. Por isso é incapaz de experiência aquele
que se põe, ou se opõe, ou se impõe, ou se propõe, mas não se “ex-põe”. É incapaz
de experiência aquele a quem nada lhe passa, a quem nada lhe acontece, a quem
nada lhe sucede, a quem nada o toca, nada lhe chega, nada o afeta, a quem nada
o ameaça, a quem nada ocorre (LARROSA, 2002, p.25).

Para tornar a escrita e a pesquisa “experiências” e, assim, reconciliar ciência


e arte, é preciso se conhecer. Um importante objeto de pesquisa é, como sugerido
por Pierre Bourdieu , o próprio pesquisador e as condições sociais de produção do
conhecimento.

Em qualquer caso, seja como território de passagem, seja como lugar de chegada
ou como espaço do acontecer, o sujeito da experiência se define não por sua
atividade, mas por sua passividade, por sua receptividade, por sua disponibilidade,
por sua abertura. Trata-se, porém, de uma passividade anterior à oposição entre
ativo e passivo, de uma passividade feita de paixão, de padecimento, de paciência,
de atenção, como uma receptividade primeira, como uma disponibilidade
fundamental, como uma abertura essencial (LARROSA, 2002, p.19).

Como afirmou Haesbaert (2004, p.370): “para poder ‘amar tudo o que existe’
e construir territórios efetivamente – o que significa, sobretudo, ‘afetivamente’ –
apropriados, é necessário, primeiro, acabar com toda exploração e indiferença dos
homens entre si e dos homens para com a própria ‘natureza’”. Acrescentaria que é
necessário acabar com toda exploração e indiferença do sujeito para consigo. Para
tanto, é importante cuidarmos da saúde de nosso corpo, pensado de forma integral,
integrando-nos efetivamente à nossa condição de natureza; e da saúde de nossas
relações, integrando-nos afetivamente à nossa condição humana.

82
Entre corredores ecológicos e salas poéticas: conexões criativas no fazer científico

Referências
ALVES, R. Sobre deuses e caquis. In: A Casa de Rubem Alves. 1987. Disponível em <http://
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84
5 A pesquisa-ação em educação popular
e o lugar nos quilombos urbanos de

Cartografias e narrativas
Porto Alegre/RS

Felipe da Costa Franco


Igor Dalla Vecchia
João Pedro Izé Jardim
Marília Guimarães Rathmann
Winnie Ludmila Mathias Dobal

Introdução
Neste texto, discutimos o envolvimento articulado de dois
projetos1, com os quais buscamos tornar o conhecimento geográfico
um instrumento teórico-metodológico gerador de entendimentos
sobre grupos urbanos remanescentes de quilombo, os quais têm
sofrido contínua opressão social, cultural, econômica e política,
nos marcos do imaginário da sociedade heterônoma que produz e é
produzida pelo sistema capitalista em sua fase globalizada.  Ambos
os projetos compreendem um processo de trabalho em pleno
andamento e as pesquisas foram concebidas por meio de cooperação

1 O primeiro, uma ação de extensão, vinculada à Pró-reitoria de Extensão da UFRGS,


e o outro, uma atividade vinculada ao Programa de Popularização da Ciência da
Pró-reitoria de Pesquisa, esta mesma universidade, ambos sob orientação dos
professores Álvaro Heidrich e Claudia Pires.

In: HEIDRICH, A. L. & PIRES, C. L. Z. (orgs.). Abordagens e práticas da pesquisa


qualitativa em Geografia e saberes sobre espaço e cultura. Porto Alegre:
Editora Letra1, 2016, p. 85-102. DOI: 10.21826/9788563800220
FRANCO ET AL.

interinstitucional entre a Universidade Federal do Rio Grande do Sul e o Coletivo


de Apoio à Reforma Urbana (CARU)2, vinculado à Associação de Geógrafos
Brasileiros, seção Porto Alegre.
Cartografias e narrativas

O trabalho vem sendo desenvolvido junto às comunidades da Família Silva


e da Família Fidelix, e às respectivas instituições escolares que atendem os jovens
moradores dos quilombos. A escolha por compreender essas duas comunidades se deu
por conta do contraste existente entre cada formação territorial e pela possibilidade
de acompanhar diferentes estágios de evolução do processo de conquista pelo título
de terras.
Inicialmente, a aproximação deste coletivo acadêmico nas comunidades
quilombolas ocorreu junto a ativistas externos, importantes na perspectiva da
representação jurídica e política frente ao Estado. Porém, após um ano de trabalho
junto aos moradores, observou-se que as potencialidades evidentes destes – investidos
ou não de liderança moral/institucional – para intervir no processo político, no
qual são sujeitos, e determinar de modo conjunto e participativo o rumo desse
processo, foram constantemente subaproveitadas pelos ativistas externos. Com isso,
a legitimidade que os sujeitos comunitários possuem para protagonizar a luta por
reparação histórica acaba por ser arrefecida e a sua autovalorização reprimida pelo
uso de linguagem técnica, jurídica ou ideológica, vazia de sentido para eles. Essas
relações, assim estabelecidas, decorrem, entre outras questões, da baixa relevância
dada pelos ativistas externos à informalidade do saber vivido e a incipiente educação
formal dos sujeitos comunitários, fato que os coloca, frequentemente, como ouvintes
passivos de interpretações alheias sobre o seu próprio território. Essa prática pode ser
considerada a partir do que Freire (1971) denomina como “invasão cultural”. Enfim,
prescinde-se de fomentar o saber-fazer autônomo dos moradores dos quilombos ao
estreitar o seu horizonte de empoderamento sobre o processo de conquista de direitos.
A primeira etapa deste texto ressalta as características comuns e as diferenças
de configuração socioespacial em cada território reivindicado, na busca por edificar
a teoria do espaço baseada em dados empíricos e sem prescindir do saber vivido dos
sujeitos comunitários. Logo após, tendo como base teórica a proposta de geração
de ambiências (REGO, 2002), realiza-se o diagnóstico sobre a situação de cada
instituição escolar na qual os pesquisadores se integraram e a exposição sobre a
constituição do meio urbano como universo de reflexão sobre as relações entre as
escolas e os quilombos. Por último, resgatamos a organização da investigação coletiva
na elaboração e realização de oficinas de educação popular em diferentes contextos
escolares utilizando metodologias convergentes.
Este trabalho é compreendido como pesquisa-ação. Visa construir o diagnóstico
sobre a situação inicial (conjuntura atual) em que se encontram cada uma das

2 Cf Sítio de ligação para o blog: <carucoletivo.wordpress.com>.

86
A pesquisa-ação em educação popular e o lugar nos quilombos urbanos de Porto Alegre/RS

comunidades e, a partir disso, busca, nos diálogos estabelecidos com os moradores,


entender a causalidade das demandas emergentes e projetar alguma outra situação
final almejada (nunca predeterminada), desde que construída de modo participativo

Cartografias e narrativas
(THIOLLENT, 2009). Para isso, devem-se elencar objetivos e instrumentos que
viabilizem a evolução conjunta de cada grupo territorial. Para Morin, Ciurana e
Motta (2003, p. 29): “O método é aquilo que ensina a aprender. Trata-se de uma
viagem que não se inicia com um método, inicia-se antes procurando um método”.
Desse modo, pode-se prever que o resultado da interação de ideias com sujeitos
individuais/coletivos distintos não tem como resultado o mesmo produto.

Conceitos de quilombo contemporâneo


A definição contemporânea de comunidades remanescentes de quilombos se refere
a territórios negros estabelecidos que perpetuem práticas vinculadas à cultura afro-
brasileira como o samba de roda, o jongo, a festa de reis, afrorreligiosidades, entre
outros, não necessariamente no mesmo sítio de ocupação dos antigos quilombos
da era escravista. Esses remanescentes de quilombos são constatados pelas suas
características econômicas, culturais, religiosas, sociais que vêm sendo recriadas na
interação com novas regiões ocupadas após o fim da escravidão legal.
Na perspectiva adotada por Campos (2010):

O quilombo, como um dos catalisadores das questões sociais emergidas no sistema


escravista, surge como uma das opções de análise, possibilitando em um único
processo de formação socioespacial entender cultura, política, discriminação,
segregação espacial e, fundamentalmente, a criminalização dos mais pobres (p. 51).

Esse conceito também encontra suporte legal nos marcos da Constituição


Federal brasileira de 1988, no artigo 68 do Ato de Disposições Constitucionais
Transitórias, o qual prevê o dever do Estado em emitir títulos a comunidades
reconhecidas, porém esse se constitui apenas como princípio até 2003, quando
foi assinado o decreto 4887/2003, que instrumentaliza as titulações em âmbito
federal. Este decreto determina quatro fases, quais sejam: (a) o autorreconhecimento
enquanto pretensa comunidade quilombola; (b) a elaboração científica de laudo
histórico-antropológico; (c) a demarcação e a desapropriação da área constitui a fase
propriamente política do processo; (d) a certificação e a titulação das terras que
passam a ser inalienáveis e indivisíveis para uso comum, sem parcelamento por lotes.
É importante frisar que esta seção do artigo não tem a intenção de esgotar
o debate em torno do conceito de quilombo e foi apresentada aqui apenas a
fundamentação conceitual que baseou a realização deste trabalho.

87
FRANCO ET AL.

Caracterização das comunidades quilombolas


As duas comunidades quilombolas urbanas apresentadas neste artigo possuem
diferentes formações socioespaciais, mas são muito próximas em termos quantitativos.
Cartografias e narrativas

O quilombo da Família Silva habita área de 4.445,71m² (COMIN; WEIMER,


2004) e a Família Fidelix está pleiteando uma área de 5.000m² (ANJOS, 2009). Na
atualidade, essas comunidades contêm aproximadamente 70 habitantes e podem
ser consideradas de pequeno porte, em escala microterritorial.
O Quilombo Família Fidelix localiza-se na rua Otto Ernst Maier, no Bairro
Cidade Baixa, na zona central de Porto Alegre. Ele tem a sua formação no início dos
anos 1980, por pessoas oriundas da comunidade negra do município de Santana do
Livramento, Rio Grande do Sul (ANJOS, 2009). As casas de alvenaria são semelhantes
e muitas são geminadas para economia de recursos. O tronco genealógico da Família
Fidelix é predominante e este tem como característica o patriarcado, porém não
alcança a totalidade das famílias, o que se revela pela heterogeneidade dos discursos e
das práticas socioculturais comunitárias. A afrorreligiosidade e o samba são presentes
na comunidade pelas suas relações com a vizinhança, nos bares da boêmia e nas
casas de religião do entorno, o que não deixa de se mostrar no cotidiano de muitos
moradores. O processo de titulação avança na fase de delimitação e desapropriação
de lotes e a expectativa dos moradores é grande após sete anos de luta.
Por sua vez, o Quilombo da Família Silva fica localizado na rua João Caetano,
zona norte de Porto Alegre, e estabeleceu-se na década de 1940, quando ainda
se constituía como zona rural do município. A autoconstrução das casas, todas
de madeira - exceto os banheiros -, é realizada a partir da prática de mutirões
comunitários. Segundo Sommer (2011, p. 109), “no nucleamento a denominação
família é autoexplicativa: o parentesco é o princípio norteador da ocupação territorial”
e a estrutura de poder interno é notadamente matriarcal. A questão religiosa gera
laços de identificação com o entorno por meio do batismo, da crisma e união em
matrimônio na igreja católica. A desigualdade socioeconômica com o entorno é
abismal: enquanto a renda média mensal das famílias moradoras do Quilombo dos
Silva fica em torno de um até quatro salários mínimos, o restante dos moradores do
Bairro Três Figueiras recebem a média de 37 salários mínimos (COSTA, 2008, p. 58).
A conquista legal do território ocorreu no ano de 2009 e representa um marco em
âmbito nacional, pois esse foi o primeiro quilombo titulado em área urbana no Brasil.
Dessa forma, destaca-se que este estudo apresenta dois recortes de área
no perímetro urbano de Porto Alegre, e ambos compartilham o mesmo tema
dos quilombos urbanos. Porém, deve-se esclarecer que não são adotados aqui
procedimentos de análise comparativa entre as duas comunidades.

88
A pesquisa-ação em educação popular e o lugar nos quilombos urbanos de Porto Alegre/RS

Sobre lugar e identidade


Como referido, o primeiro passo em busca da titulação de um território
quilombola é o seu autorreconhecimento enquanto tal. Com isso, surge o objetivo

Cartografias e narrativas
geral de compreender a subjetividade dos que produzem cultura urbana desde a
perspectiva da etnia negra e suscita o problema da forja de uma identidade quilombola
na contemporaneidade no Brasil. A ontologia da produção dos territórios quilombolas
no Brasil Colônia é assentada na cultura de matriz africana e na diversidade de etnias,
sendo que a diversidade cultural na contemporaneidade se torna mais acentuada
quando caracterizamos a sua expressão em escala nacional (Campos, 2010).
Para tratar do objetivo do problema de pesquisa, introduziremos brevemente
o caso do quilombo da Família Silva sob o ponto de vista de seu lugar, como exemplo
elucidativo para a análise da questão identitária. Esses mesmos conceitos serão
aprofundados mais adiante e com outras perspectivas dentro desta análise.
Em dissertação, Sommer (2011) analisa a configuração morfológica da
comunidade dos Silva e denomina-a de “Kraal Brasileiro” – tipo de formação
socioespacial rural com origem em Angola e no golfo da Guiné, na costa ocidental
africana. Sobre o território, a autora coloca que “o uso coletivo do solo, não havendo
propriedade individual dentro do núcleo é claro, além da predominância dos espaços
públicos de uso coletivo sobre o individual” (p.118), diferentemente do seu entorno
que apresenta “maciça presença de condomínios horizontais de ocupação recente.
Destaque para a altura dos muros que circundam a área: extremamente altos e com
vigilância por microcâmeras. O traçado regular predomina no entorno da área
exclusivamente residencial” (p. 121). Existem três acessos que convergem para o
espaço público de uso comum, o qual possui em seu centro uma árvore seringueira
de quatro metros de diâmetro (SOMMER, 2011, p. 143) que projeta sua sombra
sobre a quase totalidade dessa mesma área. Na ausência de qualquer impedimento
físico ou cerceamento para a entrada ou saída de visitantes, o assentamento pode ser
descrito como altamente permeável, diferentemente dos condomínios horizontais do
entorno. Esses vizinhos dos condomínios poderiam, por qualquer motivo, adentrar
o quilombo, mesmo que isso viesse a gerar um estranhamento imediato. Porém, o
mesmo não poderia acontecer em qualquer condomínio horizontal do entorno
a não ser na condição de trabalhadores a cumprir algum serviço e devidamente
identificados de modo formal.
O termo “quilombo” vem sendo parcialmente incorporado pelos moradores,
principalmente quando se dirigem a agentes externos – políticos, acadêmicos, entre
outros. Para designar internamente o seu espaço público de uso comum, ou seja,
o centro integrador das vivências no local, o termo usado cotidianamente pelos
moradores é “pátio”.

89
FRANCO ET AL.

Por estar posicionado entre as duas principais avenidas da região - a Nilo


Peçanha e a Carlos Gomes –, e pela ausência de porteiros ou qualquer outro tipo
de regulação física do espaço, o “pátio” é utilizado tanto como espaço de vivência
Cartografias e narrativas

quanto para o trânsito de pedestres. A inacessibilidade de automóveis por causa do


terreno mais acidentado e sem calçamento também é fator seletivo dos transeuntes
dessa área que contrasta fortemente com o entorno densamente urbanizado.
Nesse meio, os frequentadores mais assíduos do “pátio” da família Silva são
os moradores das duas únicas comunidades de ocupação informal no raio de um
quilômetro de distância, a Vila Caddie e a Vila Resvalo, as quais compartilham
características comuns quanto à situação socioeconômica e cultural, bem como
laços de parentesco, compadrio, lazer, trabalho, mesmo que mantenham “diferenças
morfológicas e sociais diversas” (SOMMER, 2011. p. 129) com relação ao Kraal
Brasileiro. A Resvalo é lindeira ao “pátio” e duas das suas dez unidades habitacionais
também são moradias ocupadas por descendentes da Família Silva. A Caddie
(denominada na planta oficial do município como avenida Frei Caneca) é a maior
comunidade, contendo 75 unidades habitacionais (KOCH, 2004, p.20), e se localiza
no lado oposto da avenida Nilo Peçanha, a uma distância de três quadras. A Vila
Caddie tem essa denominação porque se localiza no limite externo do Country Golf
Club de Porto Alegre (1930), e muitos moradores trabalham ou trabalharam como
caddies (carregadores de tacos e bolas, na sua expressão em língua inglesa) nesse
estabelecimento. É muito comum a prática do golfe nas praças e terrenos baldios
do entorno por parte dos moradores dessas duas comunidades e do quilombo, que
ganham equipamentos seminovos dos seus empregadores. Os caddies mais experientes
ensinam aos mais jovens as técnicas observadas e aprendidas em anos de trabalho
nos gramados do clube privado.
A realização do percurso a pé, que distancia em duas quadras a Vila Caddie e
o Quilombo dos Silva, obriga os moradores a atravessarem a avenida Nilo Peçanha
onde existe, na esquina da rua do quilombo, uma lanchonete McDonald’s e uma
concessionária Mercedes-Benz, além de torres de escritórios executivos. Esses
estabelecimentos do setor terciário são fortes representações simbólicas nessa
avenida que “em termos de equipamentos urbanos, infraestrutura viária de acesso
e marcos simbólicos, esse eixo materializa a apropriação do espaço urbano pelos
mais elevados patamares de renda” (KOCH, 2004, p.20).
As festas periódicas que comemoram aniversários e outras datas também
acontecem no “pátio”, e selecionam seus participantes, mesmo que inexistam
alambrados que restrinjam a área, por meio de reconhecimento e identificação por
parte dos moradores. Os critérios de convite e participação nessas confraternizações
são os mesmos para aqueles que estão apenas de passagem entre um lugar e outro
do bairro, além de alguns agentes (políticos e acadêmicos) externos que criam

90
A pesquisa-ação em educação popular e o lugar nos quilombos urbanos de Porto Alegre/RS

laços afetivos com os moradores. A organização das comemorações é construída


previamente para encaminhar as contribuições monetárias – chamadas de “vaquinha”
– ou de produtos como bebida e comida, bem como os mutirões de preparo do

Cartografias e narrativas
espaço onde acontecem as festas. O funk carioca e o pagode são os estilos musicais
que compõem a trilha sonora dessas comemorações.
Esses fatores caracterizam o lugar dos moradores do Quilombo da Família
Silva e são constituintes de sua identidade, distanciando os preconceitos formados
pelo senso comum naquilo que se imagina como a essência de uma “identidade
quilombola”. Esses elementos híbridos estão relacionados ao advento do capitalismo
em sua fase de globalização, assim como indicam os estudos de Hall (2006):

Em toda parte, estão emergindo identidades culturais que não são fixas, mas que
estão suspensas, em transição, em diferentes posições; que retiram seus recursos,
ao mesmo tempo, de diferentes tradições culturais e que são misturas desses
complicados cruzamentos e misturas culturais que são cada vez mais comuns num
mundo globalizado. Pode ser tentador pensar na identidade, na era da globalização,
como estando destinada a acabar num lugar ou noutro: ou retornando às suas
‘raízes’ ou desaparecendo através da assimilação e da homogeneização. Mas esse
pode ser um falso dilema (p. 88).

Por conta deste “falso dilema”, de que não podemos determinar uma identidade
essencialista, e nem mesmo outra, dispersa, para os moradores desses quilombos
urbanos em Porto alegre nos quais temos atuação direta, é de grande importância
a realização da pesquisa com enfoque nas relações existentes entre cada uma das
comunidades quilombolas com os moradores e as comunidades do entorno. Por
isso, fazemos esse esforço teórico e prático para chegar mais próximo dos saberes
vividos no(s) lugar(es).

A organização do coletivo acadêmico e os caminhos percorridos


O trabalho tem sido desenvolvido em diferentes etapas que embasam a
realização dessa pesquisa-ação. O levantamento de dados de documentos jurídicos,
laudos antropológicos e mapas que se referem ao processo de titulação de cada
território; o acompanhamento da conjuntura desses processos junto aos servidores
do INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária/RS); e a leitura
de textos acadêmicos sobre as comunidades. Estes passos foram imprescindíveis
para embasar a fase de exploração sobre a sua formação socioespacial.
Abastecido dessas informações prévias, o CARU planeja a estratégia de
construção do conhecimento por meio da divisão interna de tarefas entre dois
subgrupos com atribuições específicas e complementares. O seu cumprimento se deu
por meio de anotações de campo sobre o saber vivido dos sujeitos, o que angariou
subsídios que foram articulados com as informações e os conceitos geográficos

91
FRANCO ET AL.

adotados para que o grupo de trabalho, novamente reunido, fizesse a reflexão e a


possível reinterpretação sobre a sua própria metodologia de pesquisa-ação. O cerne
dessas ações ocorreu nas instituições escolares.
Cartografias e narrativas

Nesse sentido, Thiollent (2009) nos cede o embasamento de que

Com a orientação metodológica da pesquisa-ação, os pesquisadores em educação


estariam em condições de produzir informações e conhecimentos de uso
mais efetivo, inclusive a nível pedagógico. Tal orientação contribuiria para o
esclarecimento das microssituações escolares e para a definição de objetivos de
ação pedagógica e de transformações mais abrangentes (p.81).

Assim, cada subgrupo passou a promover ações de inserção em escolas que


atendem os moradores dos quilombos, o que ocorreu a partir da constatação de
espaços educacionais apropriados a tal tarefa. Foram planejadas e realizadas oficinas
com jovens na faixa etária dos 10 aos 14 anos de idade. A Escola Estadual de Ensino
Fundamental Bahia foi criada em 1958, na Rua Professor Angelito Asmus Aiquel, no
número 125, Bairro Bela Vista, e se localiza a pouco mais de 250 metros de distância
do quilombo da Família Silva. O Centro Diaconal Evangélico Luterano – CEDEL
foi estabelecido no ano 2000, na Rua Otto Ernst Maier, dentro da área pretendida
como território da Família Fidelix. Cada uma das instituições educacionais atende
cerca de 100 educandos.
Procurou-se interrogar, inicialmente, a direção dessas instituições educacionais
sobre o modo de adequar o trabalho às necessidades do público. A proposta do
tema da Educação para a Diversidade Cultural como projeto pedagógico foi uma
alternativa encontrada pelo CARU para oferecer ao conjunto dos sujeitos desses
espaços escolares uma abordagem centrada nas questões culturais de grupos sociais
de baixa renda, no que emerge a questão do negro na geografia do Brasil. Optou-se
por tangenciar o fator etnicorracial como significante do aprendizado sobre o espaço
vivido pelos educandos, pois, de fato, esteve-se distante de atingir todos os indivíduos
jovens das comunidades quilombolas durante as oficinas que foram conduzidas de
março até dezembro de 2012.
Esse tema se atribui às políticas de promoção da igualdade racial e da valorização
da cultura afrodescendente no Brasil, concernente às diretrizes da lei 10.639/2003,
que solicita “incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da
temática História e Cultura Afro-brasileira” (BRASIL, 2003). Dentro disso, a educação
geográfica pôde assumir um papel que tange as técnicas pedagógicas alternativas e
a transversalidade temática, ao entender que a leitura da lei (completados dez anos
de sua homologação em 2013) não deve estar restrita às disciplinas de história,
educação artística e literatura, como está referido no documento federal, mas que
também o estudo do espaço oferece escopo conceitual destacado para contribuir
com seu aperfeiçoamento prático (SANTOS, 2009).

92
A pesquisa-ação em educação popular e o lugar nos quilombos urbanos de Porto Alegre/RS

Com essas reflexões iniciais, apontou-se para o enfoque nas instituições


educativas, refutando a ideia simplista de que estas existem apenas enquanto
espaços formais para tal prática. A escola se constitui como um nó na rede de

Cartografias e narrativas
sociabilidade dos quilombos com as comunidades do seu entorno, as quais se
identificam entre si por sua situação socioeconômica e traços culturais. Desse
modo, a pesquisa busca entender o lugar dos sujeitos individuais/coletivos e seus
vínculos que se efetivam através de uma teia de convivência expressa por elos
de parentesco, lazer e trabalho. Os relatos de acontecimentos e o entendimento
dos jovens estudantes sobre o seu espaço imediatamente experienciado pode ser
desvelado por meio do desenvolvimento de métodos pedagógicos em oficinas
em sala de aula.
Para a sistematização da análise sobre o meio urbano do entorno das
escolas que estabelecem relação direta e indireta com as comunidades, pode-se
referir ao conceito de geração de ambiências (REGO, 2002), o qual nos serve
como nexo ideativo na relação meio em torno com o meio entre. Segundo o autor:
o conjunto dos meios entre é também constituinte dos meios em torno, assim como
cada um dos meios entre é condicionado pelo meio em torno, material e simbólico.
Geração de ambiências, nesse caso, significa elencar as questões e os problemas do
meio em torno como suporte ou veículo para os processos educacionais de algum
meio entre (uma sala de aula, por exemplo) (REGO, 2002, p.201).

Durante essa primeira fase da estratégia da pesquisa-ação procurou-se


compreender o espaço escolar em suas relações com os quilombos e comunidades
do entorno, através da

leitura complexa (que) torna-se, desse modo, estruturada segundo um desenho, no


qual se estabelece um centro – o centro relativo de um sujeito individual/coletivo
que lê o meio em torno (com as suas diversas escalas interpretativas), valorizando
os referenciais locais dos meios entre exercidos com seus pares cotidianos (Rego,
2002, p.204)

O esquema a seguir busca explicitar o percurso dessa pesquisa:

A educação pode ser concebida por meio da interpretação (hermenêutica)


instauradora (REGO; SUERTEGARAY; HEIDRICH, 2001). Os autores destacam
que “os fatos geográficos que contextualizam a vida de uma pessoa influenciam
fortemente a sua vida” (p. 173). Essa hermenêutica na metodologia das práticas
da educação de jovens moradores das comunidades do entorno de cada quilombo
pretende aproximar-se do ponto de vista desse jovem, entendendo-o como agente da
comunidade escolar e do bairro, ao prospectar narrações que denotam causalidades
de fenômenos que não estão imediatamente declarados. Esse entendimento é
possível por meio da observação dos produtos pedagógicos elaborados pelos

93
FRANCO ET AL.

Figura 1 - Esboço esquemático sobre a estratégia de pesquisa-ação.


Cartografias e narrativas

mesmos estudantes, os quais originaram hipóteses para os temas tratados, levando


a questionamentos sobre modos de sua superação. Procura-se elencar a disposição
recíproca das diferentes partes daquilo que é comum entre o sujeito que é produto
e produtor do meio urbano e, assim, refletir sobre as representações espaciais que
apresentaram esses sujeitos.
A seguir, estão expostas algumas possibilidades instauradoras com o intuito
de instrumentalizar as Associações de Moradores dos quilombos para aprofundar o
empoderamento comunitário sobre as suas instituições educacionais. O planejamento
de ações do CARU tem alguns questionamentos e passos a serem cumpridos: (a)
Retorno dos produtos pedagógicos para as famílias dos educandos com exposição
das relações internas na sala de aula e na escola como um todo; (b) Produzir
questionários para aplicar junto aos pais/responsáveis em sua residência, com o
objetivo de buscar o sentido dos projetos educativos durante o turno inverso e
levar os dados brutos para que pais/responsáveis possam analisá-los; (c) Outro
questionário apontaria para a observação das respostas do corpo de educadores não-
formais que trabalham nas mesmas instituições educativas na busca de entender o
acúmulo e potencialidades destes e dos gestores escolares sobre aqueles que devem
orientar um projeto interdisciplinar para áreas como informática, esporte, arte e
educação ambiental; (d) proposta de leitura e interpretação coletiva da lei 10.639
para entendimento sobre as suas diretrizes e de qual modo proceder quanto ao
exercício desse direito junto à escola.

94
A pesquisa-ação em educação popular e o lugar nos quilombos urbanos de Porto Alegre/RS

Das práticas educativas sobre diversidade cultural


A teoria da educação popular pressupõe que ambos, educadores e educandos,
sejam sujeitos do processo de ensino-aprendizagem, contrapondo a idéia de que

Cartografias e narrativas
os saberes são transmitidos daqueles que sabem para aqueles que não sabem. O
conhecimento não é construído somente no estudo das palavras e teorias científicas,
mas também ao entender as experiências cotidianas do educando, sendo a escola
um espaço importante nessa construção. A dialogicidade se dá quando esses saberes
são colocados em um mesmo plano de interação.
Na visão de Rego (2002) o prefixo “di” da palavra dialogia pode ter duplo
significado. O termo pode suscitar o diálogo como ponte comunicativa, assim como
acontece de maneira mais frequente, mas também indica a sua lógica oposta, ou seja,
a divergência como muro divisório. Esse sentido duplo do mesmo conceito “não
apenas acentua oposições entre essas, mas igualmente acentua nas divergências
as possibilidades de conciliações provisórias” (p. 207). É nessa questão da análise
que podemos apontar, nas diferenças entre métodos pedagógicos, as causalidades
dos acontecimentos naquelas comunidades escolares, pois o CARU inseriu-se em
instituições formais de ensino com proposta de educação não-formal, o que gera
limites e possibilidades. Esse fazer educativo flexibiliza a escolha dos assuntos e, num
primeiro momento, parece atrair de modo mais efetivo o interesse dos educandos, o
que não é uma regra. A questão avaliativa é um ponto nevrálgico quando tratamos
das diferenças entre métodos. O jovem que não tem a obrigatoriedade de “passar de
ano” nas oficinas de Diversidade Cultural necessita de motivações e estímulos que
se diferenciem da aula regular, o que aumenta o desafio do educador não-formal
para combinar responsabilidades que sejam cumpridas com o objetivo de mostrar
meios alternativos de aprender.
Dessa maneira, não se poderia reduzir esse processo pedagógico a um programa
prévio a ser aplicado pelos educadores e seguido pelos educandos. Antes, se teve que
conhecer os espaços educativos do ponto de vista interno e o exame de questões a
serem problematizadas acerca do espaço vivido dos adolescentes, sob a necessidade
de valorizar temas convergentes que venham a ser concebidos como temas geradores.
Essas são ações necessárias para a construção de uma educação dialógica. Segundo
Schnorr (2001):

Os temas geradores são o eixo fundamental do fazer educativo libertador. Partem


da investigação com o povo, com os educandos, das contradições existentes em
sua situação existencial, concreta, presente. E o compromisso de assumir isto
como um problema, um desafio que exige reflexão, problematização e ação (p. 97).

A educação dialógica deve emergir, necessariamente, tendo como suporte


o conhecimento sobre a realidade investigada. Para isso, foram realizadas oficinas

95
FRANCO ET AL.

com mapas mentais baseados na metodologia Kozel e Galvão (2008), a qual foi
proposta em oficina aos educandos para que realizassem “mapas desenhados” a
partir de perguntas que se relacionam com o seu lugar.
Cartografias e narrativas

Foi proposto que os educandos realizassem um “mapa desenhado” do percurso


casa-escola em folha em branco de tamanho A3, levantando (com auxílio da lousa)
o conjunto dos elementos do espaço urbano encontrados nesse caminho – placas,
prédios, casas, escolas, carros e árvores, enfim, todos os objetos apreensíveis. Desse
exercício, houve respostas que revelaram a memória do percurso da casa até a escola
a pé. Constatou-se que os principais locais representados graficamente são o shopping
center e as praças públicas mais próximos de suas casas, representando o espaço que
é público e o de propriedade privada.
O “mapa desenhado” da aluna “F. de Oliveira” (13 anos), estudante da escola
Bahia e moradora da Vila Caddie, apresenta conteúdo rico para compreender a sua
percepção sobre o Bairro. Quanto aos elementos na imagem (Figura 2), pode-se
perceber que os ícones têm forma de representação gráfica através de desenhos
associados a palavras que os complementam, trazendo evidências espaciais dos
fenômenos representados. Quanto à distribuição dos elementos gráficos, nota-
se a forma circular associada a ícones dispersos, sem revelar nenhum elemento
propriamente humano, senão apenas enquanto paisagem construída (KOZEL;
GALVÃO, 2008).
À esquerda da imagem, observa-se um conjunto uniforme de pequenas
habitações – barracos –, dentre as quais a casa dessa aluna que está assinalada ao
lado do “valão” (arroio poluído). Ao sair da zona de sua comunidade, ela deve passar
por uma “obra” (edificação em fase de construção) e pelo centro administrativo do
Porto Alegre Country Club, o qual a jovem denomina como “prédio do campo de
golf ”, que se localiza logo na saída de sua comunidade. Ao cruzar a avenida Marechal
Andréia, ela encontra o “matagal” e a rua da sua escola, a “quatorze de julho”. Interessa
observar que no mapa mental essa rua não leva até a escola, tendo que atravessar uma
fila de automóveis. No limite superior direito do desenho está representada a Escola
Bahia, separada do Colégio Monteiro Lobato pela praça Ephraim Pinheiro Cabral,
que demarca a separação entre uma e outra. Existem ainda dois ícones dispersos
na parte central da imagem, que estão denominados. Avaliamos que os outros dois
elementos são conjugados, sendo eles o “castelinho” (Colégio Província de São
Pedro) e a “carroça” – carrinho de preparar e vender pipocas –, que se localiza em
frente a uma das saídas dessa escola. O vínculo se dá quando essa jovem compra
pipocas nessa “carroça” – assim como tivemos a possibilidade de acompanhar alguns
de seus colegas que também param para comer ali enquanto tem a oportunidade
de permanecer por alguns minutos em frente ao “castelinho”, provavelmente o
único modo plausível de uma jovem negra que estuda na escola pública vizinha se
aproximar e observar os alunos daquela escola particular.

96
A pesquisa-ação em educação popular e o lugar nos quilombos urbanos de Porto Alegre/RS

Figura 2 – “Mapa desenhado” (Flávia).

Cartografias e narrativas
Por conta dessa relação com o entorno, a escola Bahia se constitui como um
dos principais redutos de formação da identidade da população de baixa renda do
Bairro Três Figueiras.
As questões relevantes detectadas no contexto dos educandos e a reflexão sobre
o seu espaço vivido geram a problematização do universo temático do educando,
vista como modo de ressignificar aquilo que se conhece de forma empírica e, muitas
vezes, simplória. Em outras palavras, o tema gerador é um ponto de instauração do
inédito viável que nos permite caminhar para outro estágio do processo pedagógico
e buscar novas problematizações e desafios que complexificam o objeto em questão.
Dar nome aos temas geradores, e codificá-los, permite a ambos, educadores e
educandos, falar sobre a mesma coisa, aprimorando a interação e o aprendizado.
No processo das práticas educativas, optou-se por realizar um percurso livre
pelas ruas do entorno da escola que cumprisse dois papéis: o primeiro era de que
os educandos, ao caminharem conjuntamente com os educadores, mostrassem o
que sabem sobre este entorno, possibilitando que os educadores percebam a sua
relação com o lugar. O segundo era de captar imagens que, após um processo de
seleção e sistematização, fossem capazes de gerar reflexões conjuntas sobre essas
relações dos educandos com o lugar.

97
FRANCO ET AL.

Neste sentido, procurou-se uma metodologia que fosse capaz de mobilizar essas
reflexões. Optou-se pela construção de fanzines3. A metodologia de construção do
fanzine é também uma forma de captar e expressar as representações socioespaciais dos
Cartografias e narrativas

educandos, ou seja, um veículo catalisador. O processo de elaboração foi estruturado


em três etapas: levantamento dos assuntos a serem tratados; a problematização dos
temas; e a elaboração de um produto pelos educandos. É colocado em movimento a
partir da codificação e descodificação dos objetos em análise. Freire (1987) diz que:

A codificação é a representação de um aspecto da realidade. [...] Descodificação


é o ato de analisar a codificação. Descodificando a codificação que representa
aspectos da realidade, estamos lendo a realidade. Diálogo do animador com o
grupo, bem como um diálogo dos alfabetizandos entre si (p. 144-145).

Ao se levantar os assuntos a serem tratados no fanzine, como processo dialógico,


o educador deve elaborar os códigos, que serão problematizados, movimentando o
processo de descodificação de um dado aspecto da realidade, e assim cheguemos a uma
síntese dessas reflexões, a publicação em si. O próximo passo seria a apresentação e
distribuição dos fanzines para pais, familiares e vizinhos, além da própria comunidade
escolar.
Dessa forma, o educador deve empreender o esforço de escolher a codificação
mais apropriada para o tema gerador e propor sua descodificação pelos educandos.
As descodificações das codificações tornam-se o caminhar educativo. Ao invés de
“vencer conteúdos”, tenta-se chegar a novos entendimentos a partir de situações
problematizadas.
Na primeira fase do trabalho, antes mesmo de desenvolver a produção direta,
foram realizadas oficinas preparatórias, com leituras de publicações diversas para
entendimento do que constitui uma publicação e qual seu sentido. Em outra oficina,
também estimulamos os educandos a debaterem e escreverem a partir de fotos
selecionadas previamente.
Adentrando a metodologia, decidiu-se por problematizar as fotos do percurso
no entorno da escola, realizadas dias antes. Foram apresentadas as codificações
fotográficas para desencadear o debate. As questões surgidas no debate eram
posteriormente problematizadas a partir de um novo código. Um exemplo foi a
codificação da foto de um prédio residencial na avenida Anita Garibaldi, que causou
interesse nos educandos. Na oficina seguinte, foi trazida uma nova codificação,
comparando o prédio a uma oca indígena, em que a ideia era estabelecer outro
ponto de vista sobre o objeto.
As fotos tiradas no percurso do entorno, assim, cumpriram o papel de códigos
a serem descodificados, proporcionando a elaboração de outros textos, que seriam

3 Publicação artesanal de baixo custo com o intuito de distribuição local, permite a inserção e
desenvolvimento de temáticas significativas.

98
A pesquisa-ação em educação popular e o lugar nos quilombos urbanos de Porto Alegre/RS

Figura 3 - Página de um fanzine produzida por educanda

Cartografias e narrativas

inseridos na publicação. Ou seja, as próprias fotos da deriva foram utilizadas nos


fanzines, mas com alguma qualificação, com desdobramentos, textos elaborados
pelos educandos, desenhos, montagem de figuras com recortes de revista etc.

99
FRANCO ET AL.

Buscando aprofundar o entendimento sobre a percepção dos educandos


com o espaço, outra atividade pedagógica foi pensada voltada aos educandos tanto
do CEDEL como da Escola Bahia: um trabalho de campo para a antiga região da
Cartografias e narrativas

Ilhota, na área central de Porto Alegre. Esse espaço foi reduto característico de parcela
pobre e negra da população que, a partir do Projeto Renascença de urbanização,
promovido pelo Estado, foi removida para zonas periféricas da cidade na década
de 1960. Segundo Souza (2008), em sua dissertação de mestrado, a Ilhota sofreu
um processo de gentrificação, um conceito desenvolvido a partir da análise de
fenômenos que tenham em comum o movimento de classes dentro de um mesmo
espaço urbano, motivado por iniciativas públicas de “revitalização” de regiões
consideradas empobrecidas.
Embora o trabalho de campo tenha sido realizado no mesmo espaço, as
abordagens dadas para os educandos de cada instituição foram diferenciadas. No caso
da Escola Bahia, o campo foi um estímulo para que os educandos estabelecessem
relações comparativas entre o espaço da antiga Ilhota com o seu espaço vivido,
expandindo e problematizando a sua percepção sobre os espaços da cidade. Espaços
esses velados de uma carga étnica e cultural negra em que os educandos encontram,
a partir do trabalho, a possibilidade de ressignificá-los a ponto de se identificarem.
Por sua vez, as lentes sobre a antiga Ilhota para os educandos do CEDEL permitiram
outras apreensões além daquela com o seu espaço vivido. Isso porque tanto o CEDEL
como a Vila Lupicínio Rodrigues e os quilombos da Família Fidelix e Areal da
Baronesa se localizam na antiga Ilhota. O trabalho de campo com esses educandos
priorizou a compreensão da formação socioespacial da área, partindo da composição
presente do espaço até a descrição da antiga Ilhota, destacando a presença negra
como ator protagonista nesse processo. Assim sendo, os educandos do Bahia tiverem
uma percepção comparativa entre dois espaços no mesmo tempo, enquanto os do
CEDEL analisaram o mesmo espaço em tempos diferentes.
Por meio do trabalho de campo, foi possível intermediar o diálogo entre os
educandos e as lideranças da Vila Lupicínio Rodrigues e do quilombo da Família
Fidélix. Esta proporcionou aprendizados tanto para educandos quanto para os
moradores, já que estes, na busca de explicar a trajetória da antiga Ilhota, refletiram
os seus papéis no processo de formação socioespacial dos lugares. Destaca-se que,
de significante para os educandos, o campo representou uma ressignificação dos
seus espaços de moradia. No início, pelo fato de terem vínculos de sociabilidade
com a Vila Lupicínio e inseridos no contexto do imaginário pejorativo que cerca
os espaços populares de moradia, alguns educandos se mostravam contrários a
visita a esse lugar. Porém, após conversarem com um dos moradores da Vila, e
discutirem com os educadores a respeito do que significava viver neste espaço,
causas e consequências, os educandos concluíram que a “Vila não é um lugar ruim

100
A pesquisa-ação em educação popular e o lugar nos quilombos urbanos de Porto Alegre/RS

para morar, muito pelo contrário, é o lugar onde eles se sentem bem”, demonstrando
identificação e desfazendo o preconceito presente antes do trabalho de campo.

Cartografias e narrativas
Conclusão
No ano de 2013, a lei 10.639 e o decreto 4.887 ADCT completaram dez
anos de vigência em âmbito federal. A partir desse marco temporal, a sociedade
pode fazer avaliações mais precisas sobre o modo e a abrangência com que as
ações têm sido implementadas. Dentre as instituições de ensino formais onde o
CARU atuou naquele ano, pôde-se constatar a incipiência no tratamento com a
questão etnicorracial, mesmo que essas escolas atendam alunos oriundos de territórios
quilombolas, sendo percebidas ações isoladas por parte de professores ou pais no
período próximo ao dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. O coletivo
acadêmico reconhece também a incompletude de seu trabalho não-formal, sendo
necessária a autocrítica para continuar a realizá-lo com maior precisão.  
Assim, considera-se imprescindível o enfoque centrado nas relações dos
sujeitos com o seu lugar para compreender sua situação atual. Desse modo, sabe-se
que a emancipação surge do próprio povo, mas que pode ser estimulada por quem
conhece intimamente as suas demandas e aspirações ao amadurecer ideias que
surgem do diálogo e resultam em ações organizadas e mais precisas. A emancipação
quilombola e popular tem como necessidade primordial a questão educacional e
continua sendo um fator de grande dificuldade para aqueles que almejam construir
uma verdadeira Reparação Histórica e Social para o povo negro, ou seja, autônoma
frente ao Estado.

Referências
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Família Fidelix – Porto Alegre/RS. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do
Sul, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, 2009.
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1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial
da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”, e dá outras
providências. Diário Oficial [da] Republica Federativa do Brasil, Brasília, 9 de janeiro de
2003; 182o da Independência e 115o da República. 
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101
FRANCO ET AL.

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102
6 Ribeirinhos da FLONA de Tefé-AM:
Cartografia Social na compreensão do

Cartografias e narrativas
modo de vida

Dirce Maria Antunes Suertegaray


Mateus Gleiser Oliveira
Elisa Caminha da Silveira Delfino

Aos Ribeirinhos da Flona e lago Tefé.

Embarcamos no Almirante Barbosa no dia 11 de abril, no Porto de Tefé.


Subimos o lago Tefé em direção à comunidade São Francisco do Itaúba
(alto Tefé), navegamos após o lago pelo Rio Tefé. Percorremos Paranás,
não podíamos encurtar caminhos pelos furos, devido ao tamanho do barco.
Como era época de cheia, cortávamos direto na cacaia. Viajávamos em
águas calmas. O banzeiro era evitado. Nesses momentos (foram poucos),
o barco ancorava em lugares seguros. Banho de rio para amenizar o calor.
Percorremos igarapés (de voadeira) e repartimentos. Observamos, no
trajeto, comunidades, além dos fenômenos das terras caídas, a mata de
várzea, a de terra firme, a de Igapó, o pé de terra, as ressacas e os sacados,
o tucuxi, o guariba, a ariramba. Jacarés, devido à cheia, só à noite, seus
olhos brilhantes, às margens. Visitamos comunidades, bebemos açaí,
comemos ingá, castanha e queixada. Calor e umidade na floresta, o
paú, denso e fofo recobria o solo, alimentando as diferentes espécies que
a compõem. Fizemos várias reuniões com os comunitários, retornamos
descendo o grande rio Tefé, convivemos com pessoas amáveis, doces e
com um grande conhecimento do seu lugar, de seus trajetos, da pesca,

In: HEIDRICH, A. L. & PIRES, C. L. Z. (orgs.). Abordagens e práticas da pesquisa


qualitativa em Geografia e saberes sobre espaço e cultura. Porto Alegre:
Editora Letra1, 2016, p. 103-127. DOI: 10.21826/9788563800220
Dirce Maria Antunes Suertegaray, Mateus Gleiser Oliveira e Elisa Caminha da Silveira Delfino

do extrativismo, do roçado. Ao final da expedição “bora para Tefé”, pescaria à vista e


amanhecer no lago, já era dia, 20 de abril. Não podemos dizer que “não vou pralá cunojo”
e também que “desconjuramos daquele lugar”. O que vivemos só nos permite dizer que
Cartografias e narrativas

sentíamos saudades, antes mesmo do retorno, e... desejamos voltar!!!

Introdução
O objetivo deste capítulo é trazer a público o trabalho de mapeamento
feito junto à Floresta Nacional (FLONA), de Tefé - AM. Este mapeamento, mais
especificamente, é relativo ao Uso da Terra e foi elaborado com o objetivo de,
juntamente com os demais mapas necessários, subsidiar o Plano de Manejo dessa
Unidade de Conservação UC, que vem sendo elaborado pelos gestores da FLONA
de Tefé. Para tanto, foi construída uma parceria entre o escritório do Instituto Chico
Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBIO), Tefé - AM, e o grupo
de Pesquisa Geografia e Ambiente, vinculado ao Núcleo de Estudos Geografia e
Ambiente (NEGA), do departamento de Geografia da UFRGS.
O projeto de mapeamento é resultado de uma construção coletiva composta
por um grupo de pesquisadores e alunos da UFRGS, em parceria com os gestores
da FLONA de Tefé, que estruturou um procedimento de mapeamento a priori,
e apresentou para discussão aos gestores do ICMBIO/FLONA de Tefé e, na
continuidade, foi sendo adaptado a partir do diálogo com os ribeirinhos.
A metodologia proposta se articula aos estudos relativos à Cartografia Social
e tem como princípio mapear o uso da terra em diálogo com os comunitários,
mais especificamente, os caboclos1 ribeirinhos, moradores em áreas no interior da
FLONA, bem como os moradores da área de entorno.
Oficialmente decretada no dia 10 de abril de 1989, através do Decreto n°
97.629, a FLONA de Tefé foi criada no contexto do Programa de Polos Agropecuários
e Agrominerais da Amazônia, que tinha como objetivo promover a exploração
agropecuária e mineral em alguns pontos prioritários da região amazônica, entre
elas o interflúvio dos rios Juruá e Solimões.
Integrante do Corredor Ecológico Central da Amazônia Ocidental, a FLONA
de Tefé, Figura 1, encontra-se distante de centros urbanos e do arco de desmatamento
da Amazônia, constituindo-se de uma unidade de conservação com difícil acesso
e sendo este um dos fatores que têm beneficiado sua conservação. Possui uma
extensão de 1.020.000 hectares, divididos entre os municípios de Tefé, Alvarães,

1 Segundo Lima (1999), o termo caboclo é muito utilizado na Amazônia brasileira como uma categoria
social. É também usado na literatura acadêmica para fazer referência direta aos pequenos produtores
rurais de ocupação histórica. (...) No sentido antropológico, a conceituação de caboclos como
camponeses amazônicos objetiva distinguir os habitantes tradicionais dos imigrantes recém-chegados
de outras regiões do país.

104
Ribeirinhos da FLONA de Tefé-AM: Cartografia Social na compreensão do modo de vida

Carauari, Juruá e Uarini, todos estes localizados no estado do Amazonas. Localiza-


se nas microrregiões geográficas Tefé e Juruá, conforme denominação do Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística, onde residem atualmente, aproximadamente,

Cartografias e narrativas
500 famílias distribuídas em pequenas comunidades nas margens dos rios Bauana,
Tefé e Curumitá de Baixo, os principais e mais influentes cursos d’água da FLONA
(BRIANEZI, 2007). O número de famílias registrado mais recentemente pelos
gestores ICMBIO/Tefé é de aproximadamente 700.

Figura 1 - Localização da FLONA de Tefé.

Fonte: ICMBIO (2004).

A unidade de Conservação em questão apresenta “comunidades tradicionais”


em seu interior e entorno que têm por fonte de subsistência, principalmente, a
agricultura familiar, com destaque para a produção de mandioca e comercialização
da farinha; a pesca artesanal, como a do tambaqui e tucunaré; o extrativismo da
castanha, açaí, andiroba e copaíba. O principal ponto de apoio para o desenvolvimento
de suas atividades é a cidade de Tefé, município que batiza e dá acesso à Unidade
de Conservação, exclusivamente por via fluvial, e que serve de suporte para o
desenvolvimento das atividades da FLONA.

105
Dirce Maria Antunes Suertegaray, Mateus Gleiser Oliveira e Elisa Caminha da Silveira Delfino

Apesar de no decreto de criação da FLONA de Tefé não ter sido mencionada


a presença de “comunidades tradicionais”, as populações foram mantidas na Unidade
de Conservação. Do amplo contato com as comunidades ribeirinhas por parte dos
Cartografias e narrativas

gestores atuais da UC, se evidenciou a vontade das comunidades de fortalecer a sua


organização social, entendida como um dos requisitos para uma boa gestão da área.
Assim, com a necessidade crescente desse documento, em 2011 foi aberto um novo
processo de elaboração do Plano de Manejo, visando a criação de espaços voltados
para a participação social e instrumentalização da gestão da UC.
Nesse contexto, se faz necessária a produção de uma série cartográfica que
revele as atuais potencialidades e usos no território da FLONA de Tefé por parte
das comunidades ribeirinhas ali fixadas. Para tanto, a equipe do ICMBIO/escritório
Tefé, órgão responsável pela administração da gestão da UC, convida o grupo da
UFRGS-NEGA para a realização dessa demanda. Concebido segundo uma lógica
ascendente e não descendente, e fundado na participação das comunidades, se
iniciou um processo de mapeamento participativo, concluído em 2012, no qual
ribeirinhos, gestores e pesquisadores foram integradamente atores do mapeamento.
A participação dos comunitários no processo de elaboração dos mapas significa
certificar a representação espacial relativa aos seus recursos, usos e conflitos, além
do poder ativo na tomada de decisões no que será representado como necessidades
e problemas sociais e ambientais para a futura gestão.

Referenciais: o ponto de partida, a intencionalidade


O ponto de partida da pesquisa é a elaboração de um mapeamento, que se
integra a um processo de gestão territorial. Esse tipo de cartografia “que se quer
participativo, entende ligar os atores e o território, construir o território com os atores
e mobilizar estes atores através do território sob a hipótese de que nessa relação uns
e outros se transformam” (ACSELRAD; COLI, 2008, p. 38).
A proposta se aproxima das metodologias denominadas participativas:

Entre os métodos participativos, a pesquisa-ação ocupa um lugar de destaque.


Sua história já é longa (início na década de 1940) e está em constante renovação
(MORIN, 2004). Sua fundamentação encontra apoio em várias concepções
psicossociológicas, comunicacionais, educacionais, críticas etc. (ANDALOUSSI,
2004). Enquanto metodologia de pesquisa, a pesquisa-ação não deve ser confundida
com outros métodos participativos cujas características e finalidades são diferentes,
como no caso de técnicas de planejamento, monitoramento ou avaliação. É bom
lembrar que a principal vocação da pesquisa-ação é principalmente investigativa,
dentro de um processo de interação entre pesquisadores e população interessada,
para gerar possíveis soluções aos problemas detectados. De acordo com Liu
(1997), a pesquisa-ação não se limita à resolução dos problemas práticos dos
usuários, não deve ser confundida com uma simples técnica de consultoria,
já que a ambição que lhe é associada consiste também em fazer progredir os
conhecimentos fundamentais. Todo esse processo ocorre em um “trabalho
conjunto que é aprendizagem mútua entre pesquisadores e usuários” (a função

106
Ribeirinhos da FLONA de Tefé-AM: Cartografia Social na compreensão do modo de vida

educativa é muito desenvolvida em certos projetos ambientais) e dentro de


um quadro “ético negociado e aceito por todos” (LIU, 1996). Os resultados da
pesquisa-ação se verificam nos “modos de resolução de problemas concretos
encontrados no decorrer da realização do projeto” (THIOLLENT; SILVA,

Cartografias e narrativas
2007, p. 95).

No caso desta pesquisa, não se trata de falar de uma pesquisa-ação na forma


como é efetivamente concebida, na medida em que a pesquisa-ação, ainda que
desencadeie novos problemas de pesquisa, se associa à resolução de um ou mais
problemas que provém da comunidade envolvida. Não descartamos, entretanto,
na continuidade, essa possibilidade, uma vez que, ao longo do mapeamento, no
diálogo com os ribeirinhos, muitas questões foram detectadas no campo da valoração
da cultura local, da melhoria da educação, da saúde, da alimentação, do acesso/
mobilidade, da infraestrutura e, nesse sentido, algumas questões já vêm sendo
pensadas e articuladas com as comunidades.
Tal processo, efetivamente, contribui para o conhecimento por parte dos
envolvidos sobre diferentes situações, a exemplo do conhecimento das formas de uso
da terra e modo de vida dos ribeirinhos por parte dos pesquisadores, e das formas de
mapeamento diferenciadas (no papel e no computador) pelos ribeirinhos e técnicos/
gestores do ICMBIO; ou ainda, pode potencializar a organização comunitária na
medida em que sucessivas reuniões foram feitas ao longo do processo de construção
do mapeamento, ora pelos gestores, ora por gestores e pesquisadores em conjunto,
em qualquer situação, com os comunitários. As ações demandadas pelos ribeirinhos
serão, por sua vez, objeto de gestão, entre Estado e o conjunto das comunidades
localizadas na FLONA. Os pesquisadores interagiram nesse processo em um desses
momentos, o relativo ao mapeamento e construção da proposta de Zoneamento que
foi, efetivamente, construída em diálogo com os gestores e ribeirinhos. Portanto,
os protagonistas desse processo são: os gestores do FLONA, os comunitários e os
pesquisadores.

A inserção: o início do percurso.


Na caminhada da construção do projeto, as etapas de pesquisa compreendem o
planejamento e a organização das informações (cartas imagens, leituras de relatórios
técnicos do ICMBio, a localização e situação das comunidades da FLONA), o
mapeamento participativo com as comunidades, a sistematização e elaboração da
cartografia da FLONA, avaliação da sistematização dos resultados, ou seja, dos
mapas construídos com as comunidades, a construção do relatório e a proposição
do zoneamento da FLONA. Essas etapas foram propostas a partir das necessidades e
potencialidades das populações ribeirinhas, evidenciadas pelos trabalhos do ICMbio
primeiramente, e que, na continuação do trabalho local, poderá contribuir para uma

107
Dirce Maria Antunes Suertegaray, Mateus Gleiser Oliveira e Elisa Caminha da Silveira Delfino

gestão que fortaleça o uso e as decisões coletivas na Unidade de Conservação, a fim


de incentivar ações de autonomia das comunidades.
Mas ainda é importante ressaltar que todo trabalho com populações
Cartografias e narrativas

“tradicionais”, considerando por vezes que, em relação ao pesquisador, pode se tratar


de uma primeira experiência, requer uma aproximação e ampliação do conhecimento
sobre o local. Diante disso, as atividades foram organizadas em duas expedições,
a primeira denominada de Amazonas Pátria das Águas, e a segunda Caboquinhos:
filhos do Amazonas. Estas atividades foram destinadas à elaboração coletiva do
mapa de Uso da Terra, do ciclo anual da produção e da jornada diária de trabalho.
O conhecimento adquirido pelo grupo de pesquisadores se deu pelo contato direto
com os pescadores e ribeirinhos, seja no percurso de barco, seja em reuniões e/ou
visitas às comunidades. O Mapa como produto foi, portanto, o resultado do diálogo
entre o grupo, do desenho da informação pelos pesquisadores, sobre folha de papel
superposta à imagem de satélite, e elaboração final em um ambiente de SIG.

O mapeamento do uso da terra


Os procedimentos metodológicos aplicados para essa fase do trabalho são
descritos conforme as seguintes etapas:

Planejamento inicial
O processo iniciou-se com reuniões preliminares com os gestores do ICMBIO/
Tefé, nas quais foram levantados os elementos a serem mapeados para a elaboração
do plano de manejo. O grupo do NEGA/UFRGS ficou responsável por produzir os
mapas básicos de Uso da Terra relativos à FLONA de Tefé, estruturada com base
nos pressupostos da cartografia Social/Participativa. O mapeamento do uso da terra
é realizado com o intuito de subsidiar o estabelecimento de diferentes zonas na UC
(Unidade de Conservação), item obrigatório do plano de manejo.
Para a realização desse mapeamento, procedeu-se à obtenção de imagens
orbitais do programa Google Earth e confecção de uma carta imagem para a área
de estudo. Para recobrir toda a área de entorno e interior da FLONA, se adquiriu
266 cenas com altitude do ponto de visão de 8,71km, salvas em formato TIFF, e
unidas através do CorelDRAW em quatro blocos de imagens, Figura 2. A partir
dessas imagens, foi realizado um mosaico da área, utilizando-se o software ENVI 4.7.
Num segundo momento, foi feito o georreferenciamento dos quatro blocos através
da utilização do ARCGIS 10, por meio de pontos de controle de quatro imagens
SRTM (shuttle radar etc), correspondentes à área de estudo.
Imagens de radar foram também utilizadas para extrair, automaticamente, a
hidrografia da UC, com base nas ferramentas de análises espaciais do ARCGis 10.

108
Ribeirinhos da FLONA de Tefé-AM: Cartografia Social na compreensão do modo de vida

Cartografias e narrativas
Foi ainda elaborado o ajuste da drenagem extraída a partir do SRTM com a
carta imagem gerada com imagens do Google.
Ao final dessas etapas, tem-se pronta a Carta Imagem da FLONA de Tefé
e entorno, com seus respectivos cursos d’água. Na continuidade, esta imagem foi
fatiada em 19 cortes. Esses dezenove cortes constituíram a base para interpretação e
mapeamento em campo, pelos ribeirinhos, gestores e pesquisadores. A presença da
drenagem, em particular numa região como a Amazônica, se torna indispensável, visto
que é através dela que o ribeirinho orienta a si mesmo e suas atividades espacialmente.

Atividade de campo - 1ª Expedição: Amazonas Pátria das Águas


As atividades de campo foram organizadas em sete reuniões, uma reunião por
setor administrativo da FLONA, sendo o conjunto desses setores correspondentes
à área habitada da UC. A primeira expedição tem como foco a elaboração do
mapeamento participativo, este foi construído a partir das sete reuniões realizadas,
em subgrupos de comunitários e pesquisadores. O trabalho de mapeamento foi
operacionalizado pela superposição de papel vegetal nas imagens de satélites e
apoiado no dialogo com os comunitários, ilustrado pela Figura 3.
Os moradores locais fazem a interpretação identificando na imagem seus
lugares de pesca, roçado e extrativismo, entre outros elementos. Identificadas as
localizações e denominações, o grupo de pesquisadores desenha sobre a imagem,
utilizando o papel vegetal para as informações obtidas. Após essa etapa, a continuidade
do mapeamento ocorreu em laboratório.

109
Dirce Maria Antunes Suertegaray, Mateus Gleiser Oliveira e Elisa Caminha da Silveira Delfino

Figura 3 - Interpretação de imagens de satélite em diálogo entre comunitários e


pesquisadores e gestores.
Cartografias e narrativas

Fotos: Acervo NEGA -UFRGS


110
Ribeirinhos da FLONA de Tefé-AM: Cartografia Social na compreensão do modo de vida

O uso do SIG
Entre a primeira e a segunda expedição, tem-se o processo de sistematização
dos dados adquiridos em campo, para a elaboração de mapas temáticos. Para esse

Cartografias e narrativas
procedimento, foi utilizado o software ARCGis 10, um exemplo desse processo é
representado na Figura 4. Nessa etapa, o procedimento consistiu em representar
o uso da terra, anteriormente desenhada no papel vegetal, em reunião com os
comunitários, para um ambiente digital e criando um banco de dados espaciais
atrelados à informação visual. Sendo assim, cada linha, ponto ou polígono traçado
não indica apenas a posição absoluta de um uso, mas, também, sua qualidade.

Figura 4 - Vetorização dos dados de campo.

Atividade de campo - 2ª Expedição: Caboquinhos: filhos do Amazonas


Após digitalizarmos as informações interpretadas pelos ribeirinhos, há um
segundo retorno ao campo, com a realização da segunda expedição, cuja meta é a
avaliação e confirmação dos mapas temáticos gerados em computador. Também se
tem por objetivo mapear comunidades que não lograram participar de nenhuma
reunião da expedição anterior. Nessa etapa, realizou-se a conferência dos mapas
gerados sob diferentes formas, que se fizeram necessárias frente ao número de
comunitários e/ou comunidades envolvidas nesse processo. Ora os mapas foram
projetados com a articulação de um Datashow e Laptop com o software ARCGis,
Figura 5, possibilitando alterações do mapeamento no próprio tempo da reunião, ora
foram utilizados mapas impressos, posicionados lado a lado, considerando o corte
setorial utilizado para mapear dada área e seu respectivo desenho no papel vegetal,
Figura 6. Durante a segunda expedição, foi feita também a discussão das diferentes

111
Dirce Maria Antunes Suertegaray, Mateus Gleiser Oliveira e Elisa Caminha da Silveira Delfino

Figura 5 - Articulação Datashow e Laptop.


Cartografias e narrativas

Figura 6 - Comparação entre o mapa produzido em vegetal e o vetorizado.

112 Fotos: Acervo NEGA -UFRGS


Ribeirinhos da FLONA de Tefé-AM: Cartografia Social na compreensão do modo de vida

zonas a serem criadas para FLONA de Tefé para fins de zoneamento. As referidas
zonas e os critérios de definição foram propostos pelos gestores do ICMBIO e
acordado seus limites em diálogo de acordo com as demandas dos comunitários.

Cartografias e narrativas
Finalização do mapeamento em ambiente do SIG
Esta etapa consistiu na elaboração final do mapeamento de uso da terra
elaborada no retorno da segunda expedição, a partir dos dados coletados e confirmados
na segunda etapa de campo. Nesse momento, se realizaram, então, os ajustes finais
aos shapes que representam o uso da terra pelos ribeirinhos, amplia-se e revisa-se o
banco de dados espaciais, além de passar por um trabalho de consistência dos dados.

Ciclo anual da produção e a jornada diária de trabalho


Para a representação do ciclo anual de produção, o grupo mediador da reunião
perguntava aos participantes ribeirinhos: No caso do roçado, qual o local de plantio
dos produtos cultivados e a época de plantio e colheita? Em relação à pesca, qual o
local da pesca, os tipos de peixes e o período mais piscoso? Em relação ao extrativismo,
qual o local onde ocorria a extração, os tipos de produtos extraídos considerando as
épocas de cheia e de seca? Essas representações foram inicialmente desenhadas em
um papel pardo e posteriormente transferidas ao ambiente computacional.
Para a representação de práticas cotidianas, a jornada diária de trabalho, o grupo
mediador, em diálogo com os ribeirinhos, organizava, a partir das informações desses,
as atividades desenvolvidas de acordo com o espaço-tempo demandado por cada uma
delas: roçado, pesca, extrativismo, lazer, trabalho da mulher, horas de trabalho no
dia e o trabalho do homem em horas diárias. O conjunto das atividades distribuídas
por seu tempo foi expresso no gráfico (em forma de círculo) elaborado sobre papel
pardo (Fig. 7). Da mesma forma que o ciclo anual da produção, esta representação
em desenho do cotidiano dos ribeirinhos foi, posteriormente, reproduzida em
ambiente computacional.
Além do levantamento das informações sobre a produção e o trabalho, através
do diálogo foram levantadas e registradas em caderno de campo a toponímia regional,
tipos de espécies vegetais e animais, denominação de equipamentos de trabalho - seja
na pesca, no roçado ou no extrativismo, e expressões de linguagem de uso comum
entre os ribeirinhos. Fotos de diferentes atividades revelam parte do cotidiano e
as condições técnicas para a produção. Dessa inserção, resultou um conjunto de
informações espaciais que permitem analisar o modo de vida dessas comunidades.
Desse conhecimento, neste texto, optamos por considerar o ciclo anual da produção,
na relação com as estações úmida e seca, e a jornada de trabalho como dois elementos-
chave para entender a relação do ribeirinho com a natureza local, além da análise
das demandas da comunidade.

113
Dirce Maria Antunes Suertegaray, Mateus Gleiser Oliveira e Elisa Caminha da Silveira Delfino

Figura 7 - Ciclo Anual da produção, elaborado com os ribeirinhos, em papel pardo. FLONA
de Tefé. Abril de 2012.
Cartografias e narrativas

Fotos: Astrogildo Martins de Moares


A análise espacial
A espacialização da vida material e das práticas dos ribeirinhos serão aqui
analisadas a partir da Figura 8. Esta figura ilustra parte do Setor Boa Vista do Rio
Curumitá, curso d’água de maior densidade populacional da FLONA, apresentando
em torno de vinte comunidades e localidades, representadas no mapa pelo ícone
de casa em circulo amarelo. As comunidades possuem um raio maior do círculo
amarelo, as localidades possuem um raio menor. Essa comunidade tem seu modo
de vida associado à prática da pesca, do extrativismo e do roçado (agricultura de
subsistência). O mapa revela suas práticas, o rio Curumitá de Baixo é usado, de modo
comum, por todas as comunidades do setor para a atividade de pesca de subsistência
e não é possível atribuir-lhe conflitos territoriais/de uso. O mesmo não se pode falar
da atividade de pesca confinada em lagos, onde ao sul da comunidade Boa Vista do
Curumitá se encontra um desses enclaves, ocorrendo disputa pelo uso do recurso,
seja entre comunidades vizinhas, ou dos denominados, pelos comunitários, de
invasores, provenientes de fora da área da FLONA e entorno. A pesca é mais farta
no período da vazante, quando os peixes, em grande parte, ficam confinados nos
lagos. O trajeto aos lagos também se faz de maneira diferente, nas cheias é pelos
igarapés, nas secas, o percurso é feito pelo varadouro - caminhos entre um rio ou
igarapé e o lago, neste trajeto o pescador carrega sua canoa no ombro ou na cabeça.
Em relação à caça, observando o mapa, o caçador, em legenda em caixa
amarela, indica a área aproximada de caça. O mesmo ícone representa a área de caça
indefinida, só que em cor rosa, esse aponta o conflito referente à atividade de caça,
podendo ser observado que conflitos, nesse setor, aparecem em diversos pontos. O

114
Ribeirinhos da FLONA de Tefé-AM: Cartografia Social na compreensão do modo de vida

Figura 8 - Mapa preliminar de Uso da Terra – Setor Boa Vista do Rio Curumitá,

Cartografias e narrativas
FLONA de Tefé-AM.

115
Dirce Maria Antunes Suertegaray, Mateus Gleiser Oliveira e Elisa Caminha da Silveira Delfino

diálogo com os ribeirinhos permitiu perceber que é comum o que denominam de


“atividade de caça invasora”, realizada por população externa à FLONA. Portanto,
esta exerce atividade ilegal. As principais atividades praticadas pelos invasores são
Cartografias e narrativas

a pesca e a caça, ambas para serem comercializadas nos espaços de venda na região.
Tal qual a pesca, que se expressa espacialmente de acordo com a configuração
hídrica, a atividade extrativista também possui uma condicionante espacial, sendo
observadas duas possibilidades para sua distribuição: o extrativismo em várzea,
representada pelos polígonos verdes contíguos aos rios e igarapés, e o extrativismo
em terra firme, representado pelos ícones de árvore em caixa verde. Essa distinção
é realizada em função de duas variáveis. A primeira é referente às espécies vegetais
que se desenvolvem em cada um desses espaços de forma desigual: existem aquelas
que somente são encontradas às margens dos rios, como o açaí e o buriti, e aquelas
presentes na terra firme, como a castanheira. A segunda é a precisão da informação
– enquanto a ocorrência de extrativismo em área de várzea pode ser delimitada com
certa segurança, pois o critério de limite é a extensão da várzea, o extrativismo em
terra firme é marcado como um ponto, ou nuvem de pontos, pois não se obteve com
precisão onde ocorre cada uma das espécies vegetais utilizadas na atividade extrativa.
A respeito da precisão da informação, tem-se a mesma lógica para as áreas
de caça, onde o polígono hachurado aponta para áreas bem definidas onde ocorre
a atividade, e o ícone do caçador em caixa amarela indica a área aproximada. Usa-
se o mesmo ícone para área de caça indefinida, só que em cor rosa, este aponta o
conflito referente à atividade de caça, podendo ser observado que conflitos, nesse
setor, aparecem em diversos pontos.
A atividade de roçado, que junto à pesca e ao extrativismo constituem a fonte
de alimento e renda para os comunitários, é demarcada no mapa pelos polígonos
em laranja.
O roçado apresenta, por sua vez, uma localização definida, em geral a retaguarda
da comunidade. Embora exista uma distinção do conjunto do que se planta em
cada comunidade, a produção de mandioca merece destaque, pois está presente
em toda quadra de roça. Aliás, a questão da quadra de roça é pauta de debate entre
ribeirinhos e gestores. Entre os ribeirinhos, a expansão da área agricultável de uma
ou outra comunidade pode gerar conflitos entre os próprios, pois a abertura de
novos talhões acaba por gerar uma pressão sobre o uso da terra.

Sobre o modo de viver dos ribeirinhos


Para compreender o modo de vida das populações ribeirinhas no Amazonas, faz-
se fundamental compreender a dinâmica da natureza, sobretudo o ciclo das águas. Essas
populações, portanto, convivem com a presença marcante da água e da exuberância da
floresta, exatamente por que a FLONA de TEFÉ, ao localizar-se no centro o Estado do

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Ribeirinhos da FLONA de Tefé-AM: Cartografia Social na compreensão do modo de vida

Amazonas, ainda se encontra fora do cinturão de desmatamento. São populações que têm,
na sua origem, migrantes nordestinos provenientes mais especificamente do Ceará, que
se deslocaram para o Amazonas no período da exploração da borracha (1890 e 1910) e,

Cartografias e narrativas
na região, constituíram família, em muitos casos com mulheres indígenas provenientes
de grupos indígenas locais. Há também a presença de afrodescendentes.
Por meio de entrevistas com líderes dessas comunidades, no decorrer das
reuniões de mapeamento do Uso da Terra, constatou-se que as comunidades na
sua quase totalidade têm sua origem nos anos 1960/70 em decorrência da forte
ação da Igreja Católica através da CEB (Comunidades Eclesiais de Base). Antes
dessa ação, relatam os ribeirinhos, com a extinção e/ou declínio da exploração da
borracha, viviam isolados na floresta, dispersos e com grande dificuldade de contato.
As comunidades surgem, então, com o objetivo de reuni-los em um lugar comum
onde, de forma mais coletiva, pudessem desenvolver suas atividades.
Para obterem sua sobrevivência, essas populações recriaram suas vidas através
da atividade agrícola, plantando seus roçados, praticando a pesca e o extrativismo.
Essas atividades estão diretamente associadas ao ciclo das águas, ou seja, aos períodos
de cheia (de fevereiro a julho) e vazante ou seca (de agosto a janeiro). Mas, não só
as suas atividades de subsistência e renda estão associadas a esse ciclo, a mobilidade
e acesso a outras comunidades, e mesmo às cidades maiores, a exemplo de Tefé,
dependem desse ciclo. Embora os rios principais sejam caudalosos, como observados
nos períodos de cheia, em período de vazante ou mesmo de seca, o isolamento pela
dificuldade de navegação faz parte de suas vidas. Este isolamento se reflete, por sua
vez, nas condições objetivas de suas vidas, como comercialização da produção,
saúde, educação e infraestrutura. Essas deficiências são cada vez maiores à medida
que nos distanciamos dos centros irradiadores, como Tefé, e nos dirigimos para ao
alto dos rios Tefé, Bauana e Curumitá, onde o acesso se faz impossível, mesmo em
pequenos barcos (rabetas ou voadeiras) no período da vazante, ou seca.
Para um melhor entendimento de seu modo de vida, passamos a analisar o
Ciclo da Produção Anual e a Jornada Diária de Trabalho elaborados para o conjunto
das comunidades de ribeirinhos da FLONA de Tefé. Sete gráficos foram produzidos
para cada uma dessas categorias compreensivas, cada um deles representa um setor
administrativo estabelecido pelos gestores da FLONA de Tefé. Cada setor congrega o
conjunto de comunidades contíguas ou mais próximas, muito embora a escolha, pelo
ribeirinho, para a sua participação na reunião leve em conta outros critérios, como
dia, horário e acesso. Os gráficos, portanto, aproximam as informações, podendo
se perceber que há muito em comum entre os moradores da FLONA de Tefé, que
hoje correspondem a aproximadamente 700 famílias, de acordo com os dados do
Cadastro da Floresta Nacional de Tefé, fornecido pelos gestores do ICMBIO.

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Dirce Maria Antunes Suertegaray, Mateus Gleiser Oliveira e Elisa Caminha da Silveira Delfino

O Ciclo Anual da Produção


Conforme exemplificamos na indicação dos procedimentos, o ciclo da
produção foi construído na forma de um gráfico circular. Neste, foram indicados todos
Cartografias e narrativas

os produtos agrícolas cultivados, as atividades de pesca e extrativismo, considerando


o período de cheia e de vazante. A Figura 9, localizada ao final do item, apresenta as
informações para o conjunto dos sete setores.
O que se depreende da análise desses gráficos, refere-se às atividades produtivas.
Cabe informar que os moradores/comunitários da FLONA de Tefé têm seu modo de
vida predominantemente centrado na subsistência, muito embora, a mandioca seja
comercializada assim como, em algumas comunidades, o peixe, a castanha e mesmo
o açaí. Isso é observável na representação da produção para cada comunidade. Assim,
fazendo uma leitura conjunta dos gráficos elaborados, verifica-se uma aproximação
das atividades produtivas entre os moradores da FLONA/ribeirinhos, ou seja: a
mandioca é representada em todos os setores como o principal produto comercial
- em especial na forma de farinha. Esta atividade se materializa na existência comum
nas comunidades da casa de farinha, Figura 10.
A pesca ocorre o ano todo, sendo que o período mais piscoso é o período
da seca em decorrência da concentração dos peixes nos lagos e rios que se tornam
menos caudalosos. Por sua vez, é predominante a pesca de subsistência, sendo
possível observar que a pesca comercial e mesmo a pesca ornamental ocorrem com
maior presença nas comunidades mais próximas a Tefé, a exemplo das comunidades
do Médio Tefé, Baixo Tefé e Lago Tefé. A Figura 11 revela uma pescaria comercial
de moradores do entorno da FLONA no Lago Tefé, que não está incluído nos
limites da FLONA, mas cujos pescadores são regulados pelo Acordo de Pesca. O
peixe e a farinha, portanto, constituem o alimento básico do ribeirinho, a base de
sua alimentação.
Em relação ao extrativismo, ao observar a Figura 9, verifica-se o grande
número de espécies aproveitadas, sendo estas frutíferas ou produtoras de óleo,
como a copaíba e a andiroba. A extração do óleo da copaíba é feita durante todo ano
e o da andiroba, no período das cheias. Estas, enquanto produtos do extrativismo,
estão presentes em quase a totalidade das comunidades. Muito embora a extração
desses óleos seja feita em pequenas proporções, principalmente para a subsistência.
Existe a possibilidade de extração comercial e já foram realizados cursos em algumas
comunidades, entretanto, entre os ribeirinhos existe a dúvida quanto à disponibilidade
de acesso ao mercado. Outra questão é a falta do conhecimento e instrumentalização
técnica para a produção, o que tem sido uma das reivindicações dos ribeirinhos.
São inúmeros os produtos provenientes do extrativismo. Alguns têm sua
produção concentrada na época das cheias, outros em época de seca. Esta condição
é comum a todas as comunidades, embora seja perceptível uma pequena variação
em número de produtos extraídos e época de extração. Variação esta, segundo

118
Figura 9 - Ciclo anual de produção para os sete setores da FLONA de Tefé-AM.
Ribeirinhos da FLONA de Tefé-AM: Cartografia Social na compreensão do modo de vida

119
Cartografias e narrativas
Dirce Maria Antunes Suertegaray, Mateus Gleiser Oliveira e Elisa Caminha da Silveira Delfino

Figura 10 - Torra em casa de Farinha. FLONA de Tefé-AM.


Cartografias e narrativas

Foto: Dirce Suertegaray, abril de 2012.

Figura 11 - Pesca em canoa com malhadeira. Lago Tefé AM.

Foto: Dirce Suertegaray, abril de 2012.

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Ribeirinhos da FLONA de Tefé-AM: Cartografia Social na compreensão do modo de vida

informações dos ribeirinhos, associada ao período de baixa das águas, da montante


(cabeceiras fluviais) para jusante (foz). Entre os produtos extrativos na época das
cheias, tem-se castanha, açaí, piquiá, uixi, bacaba, seringa de terra firme, buriti,

Cartografias e narrativas
tucumã, cipós, andiroba, pupunha, bacuri e cupuaçu.
Ao observar a Figura 9 verifica-se que cada comunidade promove um tipo de
extrativismo, em algumas dessas comunidades alguns tipos de recursos da floresta não
são citados pelos ribeirinhos. Pela leitura do gráfico, se depreende que a subsistência
do ribeirinho é, em termos de variedade de produtos para consumo, mais rica nos
meses de cheia. O número de espécies indicadas por setor não é o mesmo. É possível
observar que os setores mais próximos à cidade de Tefé, Setor do lago Tefé e do Rio
Bauana, têm um extrativismo pouco expressivo.
No período da seca verifica-se (Figura 9) uma diminuição significativa do
número de espécies utilizadas, são elas: seringa de várzea, patuá, arumã e ambé (cipós
extraídos na várzea), bacaba e bacabinha. Algumas das espécies indicadas como
extraídas no período úmido em algumas comunidades, em outras, são extraídas na
transição do seco para úmido ou do úmido para o seco, a exemplo de: buriti e patoá,
tucumã, bacaba, piquiá, uixi, entre outras, conforme pode ser observado nos gráficos.
O roçado é a denominação da atividade de plantio (agricultura de subsistência).
Conforme já nos referimos, pode ser visualizado em todos os gráficos, para além
da mandioca que é produzida para alimentação (macaxeira) e para produção de
farinha (praticamente a única fonte de renda dos ribeirinhos a não ser as bolsas,
mais recentemente recebidas, relativas aos programas sociais do Governo Federal),
destacam-se: açaí, banana, cupuaçu, manga, abacate e tucumã, cana-de-açúcar,
abacaxi, pupunha, cará, melancia, milho, jerimum (abóbora), feijão, pepino, maxixe,
melão, batata e castanha.
A mesma Figura 9, em relação ao roçado, revela que desse conjunto não
há uniformidade de produção em todos os setores. Alguns setores, em especial os
mais próximos à cidade de Tefé, apresentam uma variabilidade maior de produtos
plantados. Já comunidades distantes, como o exemplo do setor Alto Tefé, a produção
se restringe, de maneira geral, à mandioca e à banana.
A produção alimentar, o extrativismo e a pesca são reveladores do modo de
vida e das condições alimentares dos ribeirinhos. Diante disso, o cotidiano dessas
pessoas se expressa numa dinâmica que envolve essas três atividades como centrais,
acrescidas da fabricação da farinha, e mais, no caso das mulheres o cuidado dos
filhos e da casa.

A jornada Diária dos Ribeirinhos


Da mesma forma em que se elaborou o gráfico do Ciclo da Produção, foi
elaborado o gráfico da Jornada Diária de Trabalho, em reuniões com os ribeirinhos
em cada setor definido pelo ICMBIO. No total, foram sete gráficos, cada um deles

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Dirce Maria Antunes Suertegaray, Mateus Gleiser Oliveira e Elisa Caminha da Silveira Delfino

representa o conjunto das comunidades do setor.


A análise da Figura 12, em seu conjunto, permite verificar a cotidianidade dos
ribeirinhos em relação ao trabalho, sejam eles homens ou mulheres. Diariamente, pelo
Cartografias e narrativas

que foi registrado, os ribeirinhos (homens) iniciam suas atividades aproximadamente


às 4 horas da manhã, com a pesca. A pesca de subsistência é realizada com malhadeira,
caniço ou zagaia. Esta se apresenta diferenciada conforme o setor, embora seja,
predominantemente, realizada no horário das 4h às 7h da manhã. Quando praticada
à noite, é a chamada pesca de facho, utilizando uma zagaia, como foi registrada no
gráfico do setor Médio Tefé. Esta modalidade ocorre em algumas comunidades,
mais especificamente nas comunidades do setor Lago Tefé, onde a pesca comercial
é realizada em conformidade com o acordo de pesca. Neste setor, chamam atenção
os horários da pesca registrados pelos ribeirinhos, ou seja, a pesca de subsistência é
feita à noite e a pesca comercial, durante o dia, das 7h às 18 horas.
Essa é interrompida em torno de sete horas, isto é variável entre as comunidades,
e a continuidade do trabalho ocorre no roçado (atividade agrícola) ou no extrativismo,
concomitantemente. Isso significa que as famílias e os comunitários se dividem,
ora trabalham no roçado, ora no extrativismo. O período indicado para essa
simultaneidade de atividades é predominantemente das 7h às 17 horas. Algumas
comunidades registram horários mais dilatados, como o exemplo das comunidades
do Setor São Sebastião do Rio Curumitá. Assim como algumas dedicam nesse
período tempos diferentes para cada uma das atividades, sendo predominante um
tempo maior dedicado ao roçado.
Para complementar o ciclo diário das atividades ( Jornada de Trabalho),
perguntou-se sobre o horário de lazer, além do horário de trabalho masculino e
feminino. Observa-se, pelo que está registrado nos gráficos, que o horário de lazer
indicado pelos ribeirinhos é predominantemente das 17h às 19 horas. Em algumas
comunidades, como o setor do lago de Tefé, esse tempo é menor, sendo das 18h
às 19h, ou seja, apenas uma hora de lazer. O lazer relatado pelos comunitários é o
futebol, que tanto é jogado pelos homens, como por mulheres e crianças. Em algumas
comunidades, essa prática de lazer é feita em diferentes quadras (campos de futebol).
Tem-se então o campo de futebol masculino, o feminino e o infantil. Não significa essa
divisão que, por vezes, homens e mulheres não participem conjuntamente dos jogos.
Em relação ao trabalho masculino e feminino tem-se registrado um tempo
que demonstra uma longa, jornada tanto para homens como para mulheres. O
trabalho inicia-se ainda à noite, ou na madrugada. Para os homens, em geral em
torno de 3h ou 4h da manhã, com a pesca. As mulheres, um pouco mais tarde, entre
6 horas, por vezes, 7 horas da manhã. Ao final do dia, as jornadas se encerram para
os homens em torno de 17h ou 18h, com exceção de um setor que indica inicio e
término da jornada entre 7h e 20h para os homens. A jornada feminina se encerra
predominantemente após as 20h. Em dois setores, tem-se o registro do término

122
Figura 12 - Jornada diária de trabalho para os sete setores da FLONA de Tefé- AM.
Ribeirinhos da FLONA de Tefé-AM: Cartografia Social na compreensão do modo de vida

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Cartografias e narrativas
Dirce Maria Antunes Suertegaray, Mateus Gleiser Oliveira e Elisa Caminha da Silveira Delfino

às 18 horas, neste o dado precisa ser relativizado, pois não foram computadas,
por essas mulheres, as atividades da casa após o término do trabalho no roçado,
por exemplo. Para ambos, a jornada de trabalho é longa, em média, conforme os
Cartografias e narrativas

dados tem-se: para os homens 13 horas de trabalho diário e, para as mulheres, 13,4
horas diárias. Se excluirmos as comunidades cuja computação não inclui o trabalho
noturno (entre 20h e 22h) da mulher, essa média aumenta para mais de 14 horas de
trabalho-dia entre as mulheres. Pelas informações orais, inclusive acordadas, durante
o diálogo por homens e mulheres participantes das reuniões, a jornada feminina é
efetivamente maior.
A análise do ciclo anual da produção e da jornada do trabalho permite construir
o que aqui denominamos modo de vida, ou seja, a expressão da cotidianidade dos
ribeirinhos ao longo de um ano ou de sucessivos anos, pois essa tem sido a condição
de vida dessas populações. São populações que, pelo seu ritmo de trabalho associado
às condições técnicas para a produção, apresentam um conhecimento e um vínculo
efetivo com a natureza, registrada pela lógica da produção em associação com
os recursos obtidos da floresta e das águas, seja em relação ao alimento, seja em
relação aos objetos produzidos para o desenvolvimento dessas atividades que são
predominantemente construídas a partir dos recursos locais, a exemplo do paneiro
e do tipipi, objetos símbolos da produção de mandioca, os caniços da pesca, ou
mesmo as canoas e outros utensílios.
Essa realidade revela um modo de vida particular e diferenciado em que a
natureza e o homem ainda vivem amalgamados, como se referia La Blache ao tratar dos
gêneros de vida. Realidade essa que, por sua vez, vem lentamente se transformando,
seja pela substituição dos objetos técnicos utilizados, como, por exemplo, o uso da
voadeira, barco de alumínio a motor mais rápido que a canoa com motor rabeta.
Da mesma forma, pela mudança nos hábitos alimentares favorecidos pelas
políticas sociais, que permitem ao ribeirinho acesso a outros bens, sejam eles alimentos
industrializados, vestuários e mesmo equipamentos eletrônicos, como máquinas
fotográficas, celulares e, mais restritamente, computadores. Essa transformação não é
generalizada, não é comum, por isso persiste entre os comunitários um modo de vida
ainda centrado nas relações comunitárias, no trabalho coletivo, por exemplo, quando
da produção da farinha, em especial da queima, o exemplo mais emblemático. Ou
ainda pelo hábito de vizinhar, ou seja, compartilhar a alimentação em períodos de
escassez (mas não somente), com os vizinhos com maiores dificuldades. Seus desejos,
no entanto, são de melhorar suas condições de vida, suas atividades profissionais,
transformar suas jornadas de trabalho em um menor número de horas-dia, ter maiores
oportunidades no campo da educação, extremamente débil nas comunidades em
geral devido à falta de escolas equipadas e também da presença de professores.
Esse modo de vida expressa carências, conflitos e potencialidades. A
infraestrutura e os serviços de responsabilidade dos administradores municipais se

124
Ribeirinhos da FLONA de Tefé-AM: Cartografia Social na compreensão do modo de vida

fazem precária, como, por exemplo: a luz, a água potável, a coleta de lixo, a saúde
e a educação. Conflitos são observados em geral com os denominados invasores,
populações que se utilizam dos recursos dessa Unidade para, na maioria das vezes,

Cartografias e narrativas
comercializar. No entanto a abundância de recursos lhes permite dispor de uma
riqueza potencial.

Considerações Finais
Este relato é expressão de um trabalho que se inicia com um processo de
mapeamento do Uso da Terra. As expedições programadas para esse mapeamento
permitiram um convívio de mais de vinte dias, considerando as duas expedições. O
diálogo desde o barco e nas reuniões, além daquelas que ocorreram nos intervalos de
refeições ou em momentos de visitas às comunidades, permitiu aos pesquisadores uma
inserção na cotidianidade dos ribeirinhos, facilitando a atividade de mapeamento e
o conhecimento da realidade local. A experiência foi rica em informações e vivências
e, sobretudo, em aprendizado coletivo. A acessibilidade da população, a curiosidade
pelo trabalho realizado e, sobretudo, a receptividade, constituem expressões desse
modo de vida, ainda em grande parte centrado na lógica comunitária. O apoio mútuo
entre comunitários se revelou significativo, certamente muita coisa está mudando,
mas ainda é possível observar essa dimensão nas relações cotidianas. É um modo
de vida que se revela pela imbricada relação com a natureza, com seus ciclos e com
seus recursos. Viver é conviver com a natureza.
Entretanto o que se observa é que, independentemente dessa condição, são
comunidades extremamente carentes de infraestrutura e de serviços, com dificuldade
de acesso quando necessitam uma maior urgência, por exemplo, na doença, pois
sempre nesses casos precisam se deslocar à cidade, deslocamentos longos, muitas
horas gastas, dependendo da comunidade, são 4, 5, 6 horas ou mais horas para
percorrer as distâncias. São tempos lentos, sob todos os aspectos, mas ao mesmo
tempo são tempos longos, se observarmos a jornada de trabalho. Trabalho este que
é esgotante, sob sol escaldante, altas temperaturas, chuvas abundantes.
O que se depreende dessa análise é aquilo que muito já foi escrito: os ribeirinhos
do Amazonas vivem esquecidos e, em certa medida, a parte das discussões sobre
os projetos nessa região, muito embora sejam eles e os demais grupos que ocupam
essa parcela do território, coabitantes das florestas e das águas. É delas que vem sua
base de sustentação num local onde o acesso é difícil, seja em termos de mobilidade
espacial ou relativo à comunicação, além do acesso à infraestrutura e serviços. Os
ribeirinhos conhecem seu espaço de vida e a natureza com propriedade sob todos
os aspectos, dominam a geografia do local e com o lugar se identificam.
Concluindo, pode-se afirmar que o projeto e a metodologia propostos
permitiram um efetivo diálogo entre os sujeitos envolvidos (comunitários,

125
Dirce Maria Antunes Suertegaray, Mateus Gleiser Oliveira e Elisa Caminha da Silveira Delfino

pesquisadores e gestores). Demonstrou-se a possibilidade de utilização do SIG


no mapeamento participativo e se revelou eficiente na medida em que o diálogo
entre os envolvidos no processo se deu de forma efetiva, revelando um significativo
Cartografias e narrativas

aprendizado coletivo. As informações especializadas revelam informações a partir de


um conhecimento gerado pela comunidade, e auxiliam na transformação social, na
medida em que possibilita ao ribeirinho e aos gestores entenderem as representações
sobre o espaço, as formas de uso desses recursos, favorecendo o que se deseja, a
gestão participativa efetivamente.

Agradecimentos
Embora o texto acima tenha sido sistematizado por três dos pesquisadores, o
grupo envolvido, efetivamente, neste projeto – Cartografia Social em Comunidades
Ribeirinhas: Flona De Tefé – Amazonas, é bem maior. Assim, segue a menção das
pessoas sem as quais este trabalho não teria sido possível, organizados pela instituição
a que pertencem. Grupo do NEGA: Cláudia Luiza Zeferino Pires, Cleder Fontana,
Cristiano Quaresma de Paula, Daniele Machado Vieira , Laurindo Antônio Guasselli,
Luiz Morelli, Pablo Leandro Proença Ferreira, Pedro Saldanha Frantz, Renato Barbieri,
Sinthia Cristina Batista, Theo Soares De Lima. Grupo do ICMBIO/Tefé: Astrogildo
Martins de Moraes, Gabriella Calixto Scelza, Rafael Suertegaray Rossato.

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127
Cartografias e narrativas
7 Geografia e cotidiano: reflexões sobre
teoria e prática de pesquisa

Benhur Pinós da Costa

Etnografias em redes e territórios


Podemos verificar, desde a década de 1990 até os dias
atuais, um maior interesse dos Geógrafos em abordar as relações
das diversidades humanas e culturais com o espaço geográfico.
Muitos trabalhos que foram e estão sendo produzidos apontam para
uma direção denominada Geografia Cultural, mas que, conforme
analisou Claval (2001), se diferem daqueles trabalhos desenvolvidos
pela Geografia Francesa, na segunda metade do século XX, que se
ocupavam, sobretudo, com uma descrição dos produtos da cultura
e desses produtos relacionados à materialidade. Sendo assim, a
paisagem e a região seriam a marca espacial da cultura local. Este
campo de pesquisa geográfica que se produz atualmente interessa-
se pelos vários aspectos da vida humana comum e, neste sentido,
tanto pode adentrar-se na busca da compreensão das relações
espaciais entre habitantes de comunidades rurais, e/ou ainda não
totalmente inseridas às condições do mundo moderno - como certas
situações de vida nos confins da Amazônia, por exemplo -, como
na ampliação do “espectro” de visão do próprio mundo moderno
urbano, cujas pluralidades de formas e de “espécies” de vivência
encontradas tornam desafiante o entendimento daquilo que se
parecia já compreendido (a cidade, por exemplo).
Assim, esse campo cultural amplia-se em diversidades
de temas de pesquisa e a cada período que se passa parece-nos
que ainda somos capazes de descobrir novas relações espaciais

In: HEIDRICH, A. L. & PIRES, C. L. Z. (orgs.). Abordagens e práticas da pesquisa


qualitativa em Geografia e saberes sobre espaço e cultura. Porto Alegre:
Editora Letra1, 2016, p. 129-149. DOI: 10.21826/9788563800220
Benhur Pinós da Costa

perante um espaço que já parecia ter sido compreendido. O espaço urbano, desse
modo, transforma-se de uma representação monolítica condicionada à dureza da
funcionalidade econômica para um campo de possibilidades múltiplas de existência.
A ampliação temática na Geografia com enfoque cultural colocou em cheque as
visões massificantes da produção do espaço geográfico e até mesmo do social como
uma estrutura rígida condicionante das expressões e manifestações humanas. Ao
contrário de uma estrutura rígida, o espaço poderia ser entendido como produção de
uma série de agentes em conflito (RAFFESTIN, 1993), como produto e produtor de
diversidades de eventos de diferentes ordens e comandos (SILVEIRA, 1999), assim
como pela ação criativa da pluralidade social ainda não vista pelas ciências humanas
condicionadas aos preceitos ideológicos da modernidade unificadora (MAFFESOLI,
2010). Além de uma espacialidade divergente e criativa, produzida de forma tática
por ações microscópicas que sorrateiramente modificam o uso e o entendimento
Etnografias em redes e territórios

sobre o lugar comum (CERTEAU, 1994), o próprio espaço, que antes poderia ser
somente a forma do poder que condiciona e reprime a criatividade (FOUCAULT,
1993), apresenta-se pela desordem, como produto de manifestações diversas de
potências latentes de forças subterrâneas (MAFFESOLI, 2002, 2010) a uma pretensa
estrutura homogênea que só se faz assim aos olhos legitimadores da ciência que serve
ao discurso hegemônico. Neste sentido, o espaço torna-se algo em contínua construção
porque é lugar do encontro da diversidade (de sujeitos e de eventos: tanto de ações
estruturantes dos agentes econômicos que atuam em diferentes escalas, como da
interseção dos sujeitos comuns e suas formas de relações espontâneas) e, assim, o
espaço é algo que vai além da representação porque tal representação procura fixar
algo que, na verdade, sempre se transforma (MASSEY, 2009).
É nesse contexto que uma abertura do debate sobre a questão do cotidiano
se torna importante à Geografia, ou pelo menos um tipo de Geografia. Algumas
pesquisas e debates na Geografia brasileira, nessas últimas décadas, vêm se ocupando
com o estudo de pequenos espaços (ou o processo de diferenciação e também de
inter-relação de espacialidades vistas em muito grande escala) e/ou produção plural
do espaço urbano na perspectiva do uso, da percepção e da representação espacial de
pluralidades culturais e de uma variabilidade de grupos focais de pesquisa. Muitas
destas discussões veem a necessidade de se entender a complexidade do espaço
geográfico por um olhar “de dentro” da dinâmica social (muito parecido com um
sociologia du dedans, discutida por MAFFESOLI, 2010), sendo este espaço social
visto por sua multiplicidade de vivências que ora são constituídas, ora constituem
a (des)organização da sociedade.
Em virtude disso, certas tradições teóricas e metodológicas, que constituem
a Geografia, começam a ser revistas, principalmente seus conceitos articuladores
de visões da realidade e seus métodos de pesquisa. Podemos citar alguns trabalhos
importantes nessas discussões, como os de Souza (1995), que discute o conceito

130
Geografia e cotidiano: reflexões sobre teoria e prática de pesquisa

de território ao enfocar a flexibilidade de pequenas apropriações territoriais na


cidade; o de Gomes (2001, 2002), na sua discussão sobre os diferentes usos e
apropriações diversas do espaço público, principalmente sobre a ideia de nomoespaço
e genoespaço; o de Costa (2002, 2008), em sua discussão sobre territorializações,
microterritorializações e microterritorialidades urbanas; os trabalhos de Maia
(2002), em sua discussão sobre as apropriações e representações espaciais de
diversidades de grupos que circulam nos shopping centers da cidade do Rio de Janeiro;
assim como os trabalhos de Silva (2009), nas suas discussões sobre espacialidades
diferenciais de grupos focais com enfoques diversos quanto às negociações sobre
gênero, masculinidades e feminilidades nas cidades; e também as pesquisas de Turra
(2004), sobre identidade e territórios punks em Londrina-PR, assim como suas atuais
pesquisas sobre juventudes e relações espaciais urbanas. Atualmente, um grupo de
pesquisadores procura constituir um campo de análise sobre microterritorialidades

Etnografias em redes e territórios


urbanas, cujos produtos se realizaram na constituição de seminários de debates em
2010 (Escola de Serviço Social da UFRJ) e em 2012 (Programa de Pós-Graduação em
Geografia da UNESP-Presidente Prudente), assim como o lançamento de uma edição
especial da revista Terra Plural (2012) sobre Microterritorialidades nas Cidades,
e em 2014 (Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFRGS), produzindo
também o lançamento do livro “Plurilocalidades dos sujeitos: representações e ações
no território” (PIRES; HEIDRICH; COSTA, 2016).
Em virtude desse movimento, cabe trazer à tona o campo de discussão
sobre o cotidiano para a Geografia, isto porque o cotidiano possibilita, conforme
Tedesco (2003), agregar, por um lado, o papel das estruturas coercitivas e sociais e
a determinação do comportamento coletivo e individual, e, por outro lado, análises
atomistas, subjetivas e fenomenológicas que compõem a realidade socioespacial. O
mérito do campo de análise do cotidiano, segundo Tedesco, é justamente estabelecer
ligações entre os grandes dispositivos sociais, que talvez regulem a vida, e a emergência
do sujeito em face de tais estruturas. Neste sentido, a vida cotidiana é, ao mesmo
tempo, uma manifestação privada (individual, subjetiva) e uma manifestação
pública (institucionalização de sistemas de poder). Isso nos parece contribuir
em muito para a análise geográfica, uma vez que os pressupostos sobre os estudos
sociológicos a respeito do cotidiano ocupam-se de um contexto espacial onde vive
determinado grupo humano e onde se expressam certas individualidades perante a
pretensa estrutura espacial unificada. Tal campo procura entender essas diversidades
e apontam para análise da vida dos sujeitos sociais, suas relações grupais e suas
vivências e produções diferenciadas do contexto espacial. Por outro lado, essas análises
não esquecem as diferentes relações escalares que influenciam a vida localizada e
fragmentada, constituindo uma ponte entre o atomismo e o estruturalismo, coisa cara
ao debate de longa data na Geografia sobre, por exemplo, a análise idiográfica (cujas
críticas à Geografia Cultural se constituem) e geral (como campo de estruturação

131
Benhur Pinós da Costa

hegemônica do espaço geográfico). É por esse viés que escrevemos este ensaio, para,
em primeiro lugar, colocar em discussão certos preceitos conflituosos sobre cotidiano
e, posteriormente, trazer estes preceitos para a análise da Geografia, principalmente
em relação às posturas de pesquisa empírica.

Pressupostos metodológicos: Heller, De Certeau, Massey


Heller (1991) discute a vida cotidiana como um conjunto de atividades
que especializam o sujeito comum. Essas atividades geram a reprodução tanto do
indivíduo como da sociedade. A característica do cotidiano seria a constituição
da heterogeneidade social baseada nas funções diversificadas do trabalho e das
instituições, cujos indivíduos apreenderiam sua posição pela necessidade de
socialização e de sobrevivência no mundo mercantil moderno. O cotidiano teria,
Etnografias em redes e territórios

segundo a autora, dois conjuntos de objetivações: as primeiras seriam as “objetivações


genéricas em-si” que constituíam a base vivida do cotidiano, sendo os costumes, a
linguagem, o conjunto de objetos e de atividades que seriam exercidas; as segundas
seriam as “objetivações genéricas para-si” que não formariam o âmbito cotidiano, mas
que estariam ligadas como instâncias formadoras e legitimadoras dos processos de
socialização e de formação da heterogeneidade e especialização, sendo a ciência, o
Estado, a arte, a moral e a política. A esfera do cotidiano teria como fundamento esses
conjuntos de objetivações, mas as objetivações genéricas em-si seriam efetivamente
exercidas como as coisas materiais, as atividades a serem desempenhadas e os costumes
apreendidos como normalidades. As objetivações genéricas para-si fugiriam da esfera
do cotidiano porque os sujeitos não a exerceriam e não poderiam manipulá-las. A
incapacidade de dirigir conscientemente a própria vida, característica da alienação,
se apresentaria devido à impossibilidade de apropriação das objetivações genéricas
para-si, sendo que a divisão do trabalho e a fragmentação das atividades e papéis
sociais tornariam distante o particular (indivíduo) do genérico (esferas de poder).
Para Heller (1991), a vida cotidiana é heterogênea, mas as esferas não cotidianas
são homogêneas, porém não desvinculadas do social. A luta contra a alienação seria,
então, gerar momentos de homogeneização como construção de relações com as
objetivações genéricas para-si. O indivíduo alienado é um ente fragmentado (eu-
particular) que exerce sem questionar e pensar os papéis sociais. A mente se torna
cativa do processo de trabalho, disciplinando seu fazer como um conjunto de atos
inevitáveis à adequação na sociedade. Por outro lado, a mercadoria e o consumo
se tornam fundamentos do vivido cuja publicidade manipula gostos e normas de
convivência, assim como as próprias relações humanas se tornam instrumentais
e mediadas por valores de troca (reificação). Nesse sentido, o vivido cotidiano é
submetido a uma exterioridade incompreensível em sua totalidade, cujo sujeito
apreende em fragmentos e em posições de dualidade e identidades fixas. Nesse

132
Geografia e cotidiano: reflexões sobre teoria e prática de pesquisa

contexto, não é possível compreender a si mesmo como significante e significado


nas rotinas da heterogeneidade social.
As técnicas do trabalho, a burocracia e a especialização promovem essa
particularidade/especialização alienada, tornando o sujeito nada mais que o conjunto
de seus papéis. Com a expansão de um meio técnico, o indivíduo se move em um
sistema formado de aparelhos e equipamentos cujos funcionamentos apreende, mas
não entende. A técnica se transforma em suporte corpóreo do cotidiano (SANTOS,
1996), acoplando a todos em um conjunto de procedimentos e atividades de que não
se pode escapar. O avanço técnico transforma o trabalho em simples manipulações de
objetos sem que o indivíduo tome consciência do que faz e por que faz. O conjunto de
objetos técnicos é exercido como se aprisionassem a todos em uma lógica complexa
impossível de ser questionada. A inserção nesse meio técnico torna-se inevitável
para participação no social cujos sentidos dessa participação não são revelados, mas

Etnografias em redes e territórios


somente feitos. É, assim, no mundo urbano, que a cotidianidade se apresenta em
seu estado mais exaltado porque este se apresenta pelo adensamento técnico cujas
lógicas e determinações materiais técnicas se diversificam em ritmos simultâneos,
tornando isolados e decompostos em momentos diversos os indivíduos. É no urbano
que a cotidianidade cai no trivial, no banal, no impensado, no exercido e no alienado.
Foucault (1988, 1993), em sua microfísica do poder, organiza um referencial
teórico que busca resolver a relação cotidiana das objetivações genéricas para-si. Em
primeiro momento, organiza os sentidos práticos do aprisionamento, classificação
e tipificação das atitudes e atributos humanos pela produção das identidades e
polarizações abstratas do comportamento compondo as genealogias da produção dos
discursos religiosos, filosóficos, científicos e culturais. Em outro momento, evidencia
que as objetivações genéricas para-si se objetivam no cotidiano em formas materiais e
procedimentos cotidianos, regidos por uma espécie de poder com “p” minúsculo, ou
seja, inserido, produzido e produtor das relações comuns e banais. A materialidade é
o “concreto-pensado” (SILVEIRA, 1999), que constitui o “prático-inerte” (SARTRE,
2002), ou a ação que está contida nas coisas. Agimos, assim, sem pensar, movido
por uma necessidade aprendida externamente a nós, em certas condições materiais
e objetivas, que também estão relacionados por tipos de conhecimentos objetivados
nas próprias atividades banais.
Por outro lado, Certeau (1994) critica Michel Foucault em sua “microfísica
do poder”, que tende a privilegiar os aparelhos produtores da disciplina, como a
instituição escolar, que, a partir dos discursos de ensino e aprendizagem, reproduzem
os sistemas de representações sociais. O autor questiona:

Se é verdade que por toda parte se estende e se precisa a rede da vigilância,


mais urgente ainda é descobrir como é que uma sociedade inteira não se reduz
a ela? Que procedimentos populares (também minúsculos e cotidianos) jogam
com os mecanismos das disciplinas e não se conformam com ela a não ser para

133
Benhur Pinós da Costa

alterá-los? Enfim, que “maneiras de fazer” formam a contrapartida, do lado


dos consumidores (ou “dominados”?), dos processos mudos que organizam a
ordenação sócio-política? (p. 41)

Segundo Certeau (1994), essas “maneiras de fazer” constituem as mil práticas


pelas quais os sujeitos (na leitura do livro, o autor denomina-os de “usuários”) se
reapropriam do espaço organizado pelas técnicas de produção sociocultural. Elas
colocam questões análogas e contrárias às abordadas por Foucault:

Análogas, porque se trata de distinguir operações quase microbianas que proliferam


no seio das estruturas tecnocráticas e alteram o seu funcionamento por uma
multiplicidade de “táticas” articuladas sobre os “detalhes” do cotidiano; contrárias,
por não se tratar mais de precisar como a violência da ordem se transforma em
tecnologia disciplinar, mas de exumar as formas “sub-reptícias” que são assumidas
pela criatividade dispersa, tática e bricoladora de grupos ou de indivíduos presos
nas redes de vigilância. (CERTEAU, 1994 , p. 41)
Etnografias em redes e territórios

Ocorrem, então, duas lógicas de ação, uma estratégica e outra tática. A estratégia
representa o cálculo das relações de força e ela postula o lugar capaz de ser circunscrito
como um próprio e, portanto, capaz de servir de base a uma gestão de suas relações
como uma exterioridade distinta. A nacionalidade política, econômica ou científica
foi construída segundo modelo estratégico. A tática é como um cálculo que não
pode contar com um próprio, nem, portanto, com uma fronteira que distingue o
outro como totalidade visível.

A tática só tem por lugar o do outro. Ela aí se insinua fragmentariamente, sem


apreendê-lo por inteiro, sem poder retê-lo à distância. Ela não dispõe de base
onde capitalizar os seus proveitos, preparar suas expansões e assegurar uma
independência em face às circunstâncias. O próprio é uma vitória do lugar sobre
o tempo. Ao contrário, pelo fato de seu não-lugar, a tática depende do tempo,
vigiando para captar no voo possibilidades de ganho. Tem que constantemente
jogar com os acontecimentos para ganhar ocasiões. Sem cessar os fracos devem tirar
partido de forças que lhe são estranhas. Ele consegue em momentos oportunos
onde combina elementos heterogêneos (a dona de casa e o supermercado), mas
a sua síntese intelectual tem por forma não um discurso, mas a própria decisão,
ato e maneira de aproveitar a ocasião. (p. 46)

Posteriormente Certeau (1994) se debruça em uma visão sobre a cidade


contemporânea, observando que, além da produção calculada do discurso e da
realização do planejamento tecnocrático, que gera uma complexa burocracia e sistemas
de reprodução de poder e de capital, ocorre outra complexidade de outras “maneiras
de fazer” contidas nas próprias redes e formas materiais, cujas pesquisas das ciências
sociais se ocupam justamente para legitimar os discursos de suas reproduções.
Um dos exemplos que constituem essas ações “microbianas” que não se chocam
totalmente com a disciplina dos lugares, mas as alteram sutilmente e representam
a criatividade dos sujeitos comuns em suas trajetórias cotidianas, é o próprio ato

134
Geografia e cotidiano: reflexões sobre teoria e prática de pesquisa

simplório de caminhar. Neste sentido, Certeau nos fala:

O ato de caminhar está para o sistema urbano como a enunciação está para a língua
ou para os enunciados proferidos [...] É um processo de apropriação dos sistemas
topográficos; é uma realização espacial do lugar (assim como o ato da palavra é
um realização sonora da língua); implica relações entre posições diferenciadas,
ou seja, contratos pragmáticos sob a forma de movimento. [...] Se é verdade
que existe uma ordem espacial que organiza um conjunto de possibilidades e
proibições, o caminhante atualiza algumas delas, tanto fazendo-as ser como
aparecer. Mas também desloca e inventa outras, pois as variações e as improvisações
das caminhadas privilegiam, mudam ou deixam de lado elementos espaciais.
[...] Também pode transformar em outra coisa cada significante espacial. Torna
efetivas algumas possibilidades fixadas pela ordem construída, do outro aumenta o
número dos possíveis ou dos interditos (se proíbe de passar). O usuário da cidade
extrai fragmentos do enunciado para atualizá-los em segredo. [...] Caminhar é ter
falta de um lugar. A cidade é uma imensa experiência social da privação do lugar.
O caminhar é a tática da busca de um próprio que se constitui no efêmero que
não se repete mas desestabiliza o lugar estratégico na reinvenção dos elementos
do espaço e no compartilhamento da experiência non sense. (Esta passagem é

Etnografias em redes e territórios


um conjunto de fragmentos de citação do livro de CERTEAU, 1994, entre as
páginas 177 e 187).

Massey (2009) critica a posição de Certeau, argumentando sobre a dicotomia


estratégia e tática. Ela explica que o autor constrói a noção de estratégia a partir do
lugar já construído, estático, dado, ou seja, uma estrutura. A tática, dessa forma,
são as práticas da vida cotidiana que são requeridas por aquelas estruturas e, neste
sentido, produz uma dicotomia entre estrutura e agenciamento. Segundo Massey
(2009), esse argumento envolve uma concepção de poder da sociedade como uma
ordem monolítica, de um lado, e as táticas dos fracos, de outro. Em sua crítica, isso
superestima a coerência dos poderosos e não atenta ao caráter hibrido com que
as estratégias são produzidas, assim como reduz o poder potencial dos fracos (as
potências cotidianas de MAFFESOLI, 2002) e esconde as implicações deles no poder.
Outro fato dessa crítica é que as estratégias são interpretadas em termos de
espaço e as táticas em termos de tempo, na leitura de Certeau, segundo Massey (2009).
Assim a relação “poder versus resistência” apresenta-se como uma forma de crítica
ao estruturalismo, mas, nesse discurso, se deixa ainda estruturas determinantes das
questões sociais. Isso reproduz a relação poder/resistência como ainda binária, no
mesmo sentido da relação espacial/temporal, contrário ao objetivo de Massey, no
livro “Pelo espaço”, que se mostra justamente em fazer uma imbricação do espaço
em relação ao tempo, assim como do próprio espaço como produtor do tempo, uma
vez que ele se desconstitui de uma representação fixa e acabada, como que produto
do poder e determinante rígido das relações sociais. O discurso de Certeau, segundo
a autora, é romântico ao observar o movimento da resistência tática em uma cidade
cuja estrutura é implacável e legitimada. Nesse sentido, a ideia é que não pode haver
um sistema tão coerente e determinante cujas táticas não consigam produzir um
foco singular de resistência e assim gerar espaço. Nessa interpretação, o espaço seria

135
Benhur Pinós da Costa

dinâmico em composição espaço-tempo, o que possibilitaria a simultaneidade de


trajetórias mútuas de diferentes ordens e não um lugar como fixo pelas estratégias
de poder. O lugar, assim, seria o misto de trajetórias diversas (miúdas e globais) que
o produz pela heterogeneidade de ações (banais e institucionais).
Nesse sentido, o espaço é produzido no cotidiano e no “aqui e agora”,
conforme Maffesoli (2002), sendo nele que se produzem as relações entre comandos
hegemônicos de escalas não-cotidianas e processos banais, ocasionais do fazer local.
Por esse sentido, o fazer local pode tanto ser comandado como alterar e comandar
ações hegemônicas, porque tudo converge e tudo se faz no espaço/lugar, desde as
mais simples das ações individuais e coletivas cotidianas até produções de eventos
constituídos pelo cálculo de instituições e empresas globalizadas. Os fazeres cotidianos
e as estratégias calculadas, dita hegemônicas, se fazem no encontro espacial e, dali
(estórias-até-agora) se desfazem e se refazem em constante transformação. Nesse
Etnografias em redes e territórios

sentido, espaço e cotidiano se confundem, sendo constitutivos, assim como também


estratégias e táticas (vistas em Certeau) se anulam na produção conjunta no cotidiano/
espaço. Nessa visão, espaço e cotidiano são produtos de inter-relações, como sendo
constituídos por meio de interações. O espaço é uma esfera da possibilidade da
existência da multiplicidade, como esfera na qual distintas trajetórias coexistem.
Espaço e multiplicidade são constituídos de forma imbricada e o espaço está
sempre em construção como em um contínuo “fazer-se”, porque a convergência
de diversidades que ele abriga gera seu próprio processo de fazer-se e desfazer-se.
Segundo Massey (2009), o espaço é a simultaneidade de “estórias-até-agora”:

Não apenas a história, mas o espaço é aberto. Nesse espaço aberto interacional há
sempre conexões ainda por serem feitas, justaposições ainda a desabrochar em
interação (ou não, pois nem todas as conexões potenciais têm de ser estabelecidas),
relações que podem ou não ser realizadas. Não são relações de um sistema coerente,
fechado, dentro do qual, como se diz, tudo está relacionado com tudo. Um espaço
de resultados imprevisíveis e de ligações ausentes. Trajetória e estória significam
enfatizar o processo de mudança em um fenômeno. Noção de espaço ordinário,
o espaço e os lugares através dos quais, na negociação de relações dentro da
multiplicidade, o social é construído (p. 32).

Pensamos que em Massey (2009) conseguimos perceber uma relação mais


consistente da relação entre cotidiano e espaço. Esta já vinha sendo construída
teoricamente na trajetória das discussões dos autores que comentamos, desde Heller,
perpassando Foucault, até concentrar-se na espacialização das estratégias e táticas
de Certeau. A noção de “estórias-até-agora”, de Massey, nos possibilita entender o
cotidiano em sua relação espacial da co-constituição de processos banais imbricados
com representações hegemônicas como as do consumo, da moral e dos costumes,
sendo eles um híbrido que só se pode perceber no lugar e no fazer cotidiano. Nesse
sentido, metodologias geográficas du dedans (de dentro das relações sociais) devem
ser atentas para entender a construção espacial e assim a construção social. Por outro

136
Geografia e cotidiano: reflexões sobre teoria e prática de pesquisa

lado, isso é ainda um desafio metodológico que nós, da Geografia, temos que nos
debruçar mais seriamente. Por outro lado se, segundo esta ideia sobre a produção
ininterrupta do espaço, do cotidiano, das ações hegemônicas e da sociedade, tudo se
transforma e nada é fixo, podemos pensar também que possa existir inúmeros fazeres
de pesquisa para captar tais construções complexas em seus “se fazeres” imprevisíveis.
Nessa ideia, a seriedade, a responsabilidade e a dedicação incansável se tornam
cada vez mais necessárias para construir suas próprias estratégias de descoberta
e de argumentação. O importante é tentar procurar saber de tudo e encontrar as
mais minúsculas e incoerentes relações, mesmo sabendo que esse tudo no tempo
mais próximo possível se esvairá em outras trajetórias constituídas do encontro
que as transformou e que pensamos ter captado. A pesquisa assim é contextual e
situacional, mas ela pode captar certos laços de relações que constituíram outras e
assim entender certos aspectos e fenômenos que ocorrem no espaço. A seguir, vamos

Etnografias em redes e territórios


procurar dar algumas sugestões de posturas de pesquisa, acompanhando essa análise
teórica sobre espaço e cotidiano que construímos até aqui.

A escala, a microgeografia
Gomes (2001) denomina de “microgeografia” a abordagem geográfica que se
ocupa da análise dos fenômenos em grande escala. Porém, o mesmo autor argumenta
que não podemos voltar a uma geografia dos “casos únicos”, sendo necessário
estabelecer comparações e reconstituições de influências de outras escalas aos
fenômenos visíveis no cotidiano. Nesse sentido, essa análise microgeográfica se
relaciona metodologicamente aos estudos do cotidiano, uma vez que estes preveem
que toda manifestação cotidiana que se dá no lugar e no tempo “aqui e agora” deve
ser valorizada perante as análises estruturais da sociedade, mas, por outro lado,
estas mesmas análises devem ser levadas em conta, pois existem certas influências
interescalares que tanto podem construir e ser desconstruídas pela ação local cotidiana.
Nos trabalhos de Costa (2002, 2008), observamos essa tentativa de agregar
relações escalares na análise sobre os processos de microterritorializações homoeróticas
no espaço urbano. No caso destas microterritorializações, desenvolvemos uma
análise das questões estruturais da sociedade que condicionam uma organização
do espaço social assim como seus regramentos, mas ao contrário das representações
sociais institucionalizadas e das diretrizes do espaço público e privado, algo escapava
à normatização das convivências espaciais. Certas condições espaciais, que se
apresentavam desvinculadas dos regramentos contidos no espaço, possibilitavam
o encontro de uma diversidade dissidente, no caso do estudo vinculado aos desejos
homoeróticos.
Ao mesmo tempo, na discussão encontrada em Costa (2011), o mercado
apresentava-se como uma força que desorganizava as condições estruturais de

137
Benhur Pinós da Costa

regramento social, pois possibilitava a emergência de espaços de convivências


desvinculados das instituições morais. Por outro lado, ao mesmo tempo em que
se vinculava a estratégias de comando tecidas em diferentes escalas e lugares não-
locais, as relações de consumo locais apresentavam-se como criações tecidas pelo
encontro cotidiano, mesmo abastecidas por representações contidas na mídia e na
propaganda. Além dessas análises, também pensamos que condicionamentos não
cotidianos que tecem certos regramentos e condições de relações e convivências
locais, também em algum espaço e em algum tempo, foram tecidos justamente
por relações locais. Isso se aproxima ao pensamento de Santos (2002) sobre os
processos da globalização, cujos processos são justamente produtos de relações locais
que se globalizaram e que, ao atingirem outros lugares, tanto podem se reproduzir
literalmente como no comando que as originou, como podem desencadear processos
divergentes ou híbridos (LATOUR, 1994) de ação e representação. Assim sendo,
Etnografias em redes e territórios

temos um imperativo local de produção das condições de vida, das convivências,


das representações, das linguagens e dos fenômenos de consumo, de moralidade,
de crendices e de formas de ação. O espaço, conforme a leitura de Massey (2009),
é condição de “estórias até agora” que convergem como multiplicidades, que se
transformam e que originam novas formas sociais e espaciais. A sociedade e o espaço
estão em constante transformação e esses processos só podem ser apreendidos no
próprio espaço do acontecimento construtivo. Neste espaço, estão presentes, em
relação e dinamismo, representações e linguagens relacionais provenientes de outros
locais (que também são locais) que se imbricam com formas de uso e criações
relacionados ao encontro humano que se apropriam delas. É do espaço e no espaço
que se produzem e reproduzem espaços, tempos e formas sociais.
É nesse sentido que as pesquisas podem se vincular a uma análise
microgeográfica cotidiana, pois é no encontro espacial dos eventos e das ações
coletivas e individuais que os fenômenos sociais e temporais se tecem, assim como
o próprio espaço se tece pela interação (mesmo conflituosa) da diversidade. Nesse
sentido, o estudo de um espaço como de um shopping center, de um show de música
global, de uma instituição comercial transnacional, assim como de uma escola, de
uma praça ou de um distrito industrial de uma cidade, devem ser analisados por
suas condições múltiplas de negociações das diversidades que os compõem a partir
de um procedimento metodológico “de dentro” (Geografia du dedans). Primeiro,
porque somente assim poderemos encontrar certos comandos não-locais, que
procuram reger seus funcionamentos; em segundo, porque, com certeza, iremos
encontrar certas condições locais de alteração ou de imbricação criativa em que se
encontram diversidade de sujeitos, de propostas e de formas de interpretação do
contexto e representação das ações. É dessa forma que nossa proposta de postura
metodológica geográfica é o estudo do espaço (a pesquisa também pode discorrer
sobre o lugar ou o território, desde que se posicione pela escolha do conceito) como

138
Geografia e cotidiano: reflexões sobre teoria e prática de pesquisa

realidade concreta de ações e relações de diversidades de pessoas, grupos e eventos


que se inserem alterando ou são alterados pelas interações locais. Para podermos nos
inserir na condição dinâmica de constante construção espacial (que torna híbridas
determinação global e criatividade local), devemos escolher uma muito grande escala
de análise e de inserção que deve sempre ser participativa. Podemos inicialmente ter
o propósito de recorte espacial como primeiro passo clássico da representação de
uma porção de espaço (lugar e território), mas, como meta de ampliação do estudo,
podemos procurar acompanhar as condições, as ações e as trajetórias que não podem
ser explicadas pelo contexto e que devem estar ligadas a outros formatos de escalas. A
fonte de informação são as pessoas que vivem e convivem, que reproduzem normas
e representações (legais, morais, estéticas e/ou consumistas etc). Tais pessoas são o
próprio recorte espacial (elas são o espaço), elas estão condicionadas à materialidade,
mas também percebem, representam, produzem e transformam esta materialidade.

Etnografias em redes e territórios


Gostamos muito da sugestão de Maffesoli (2010), enfatizando que toda
pesquisa interessante provém, de certa forma, do pesquisador como parte integrante
(interessada) daquilo que desejamos falar. Nossa proximidade com o fenômeno
e com o espaço de análise possibilita a proximidade e a imersão de estudo. Já o
interesse de estudo possibilita talvez a procura daquele inesperado sobre nossas
próprias vivências. Isto se aproxima da análise comparativa de Taylor (1997), no
sentido de, ao mesmo tempo, imergirmos em nossas compreensões sobre os fatos de
que participamos, mas, pelo viés científico, começarmos a dialogar com as dúvidas
impostas pelos métodos e conceitos científicos, assim como pelo interesse no
inesperado e naquilo que sempre (mesmo convivendo com o fato que se reproduz)
fugiu à nossa compreensão. O encontro com o outro e com o inesperado aqui deve
ser atributo de valor, pois abre a perspectiva sobre o próprio espaço que convivemos
e que nos identificamos a partir de certas convivências que tecemos. Mas o que
ocorre fora de nossa percepção ou aquilo de que estamos perto, mas, por força de
nossos hábitos, deixamos, mesmo que próximo, afastado de nossa convivência?
Conforme Maffesoli (2010, p. 49):

Em outras palavras, digamos que, sem ser forçosamente participante ou ator – tal
como exigem certas metodologias – há certa interação, que logo se estabelece
entre observador e seu objeto de estudo. Há conivência; às vezes, cumplicidade;
diríamos mesmo que se trata de empatia (al. Einfühlung). Talvez seja isto o que
constitui a especificidade de nossa disciplina (grifo do autor). A compreensão envolve
generosidade de espírito, proximidade, “correspondência”. É justamente porque,
de certo modo, “somos parte disto tudo” que podemos apreender, ou pressentir,
as sutilezas, os matizes, as descontinuidades desta ou daquela situação social.

Ser parte do que observamos, na configuração de uma “participação


observante”1, possibilita pensarmos sobre nossas próprias ações impensadas e
1 Fazemos aqui um trocadilho a respeito da observação participante. Participação observante remete

139
Benhur Pinós da Costa

analisarmos o contexto de ação em que agimos, ligando ação e reflexão em nós mesmos
e em relação aos outros com que convivemos. Além disso, ela possibilita sempre o
diálogo entre mim (agindo no contexto em que faço parte), o eu (a reflexão sobre
minhas representações nas ações) e o outro (aquele que age junto ou contra mim
no contexto de ação, podendo captar, assim, as continuidades de descontinuidades
de ações e representações). (Sobre essa relação entre “mim”, “eu” e “outro” ver as
discussões de Honneth (2003) e sua teoria das relações sociais de reconhecimento).
A dúvida que parte da reflexão contida no meu próprio eu (a reflexão sobre o mim e
sobre minhas ações nos contextos de interação e espacialização) gera um interesse
reflexivo também sobre o outro (que participa ou que contradiz) no sentido do
meu próprio entendimento e do entendimento dos contextos de ação e relação
(as espacialidades). Além do entendimento sobre os atos e o próprio contexto que
liga “mim”, “eu” e “outro”, vem a ampliação sobre as influencias contextuais em que
Etnografias em redes e territórios

estamos inseridos (Por que gostamos do que fazemos? O que nos reprime e o que nos
causa tristeza? O que nos lança à alegria? O que e por que nos definem dessa forma?
De onde vêm tais ideias e processos de que partilhamos? Etc.). Assim começamos
a questionar as influências estéticas e éticas em que estamos imersos e procuramos
explicações na tentativa de construir uma espiral de compreensões fora de nós e
dos contextos imediatos de que partilhamos. A isso implica perceber, contatar e
interpretar outras tramas que nos conduzem (fazendo outras relações escalares)
a formação do contexto, a certas historicidades, como representações contidas
nas mídias, nas esferas de consumo e de propriedade e formação estratégica dos
lugares, como as burocracias e as normativas institucionais etc. Porém, essa espiral
é produzida em primeiro plano no/por “mim” (“mim” agindo e “eu” pensando sobre
mim e o “outro”) e no meu contexto de ação que se torna contexto (espacialidade)
à ideia descrita por Maffesoli sobre a proximidade do pesquisador com o grupo focal e/ou lugar de
pesquisa, no sentido de se manter uma cumplicidade com o objeto e, até mesmo, ser participante ativo
das interações estabelecidas no cotidiano. Mesmo sendo participante do grupo, o papel de pesquisador
crítico altera o olhar em relação ao “eu” (pesquisador) e a “nós” (grupo que participo) e, na complexidade
das relações estabelecidas, o esforço de procurar questionar-se sobre as “coisas mesmas” simplórias, que
se repetem, deve custar muito a esse tipo de posicionalidade de pesquisa. Por um lado, a cumplicidade
pode levar a uma falta de parcialidade em relação às críticas estabelecidas, como uma acentuada defesa
do grupo e das ações estabelecidas, por outro lado, os resultados podem apresentar uma excessiva visão
do eu-pesquisador-participante, no sentido de que o conforto da participação tende a fazer esquecer
a visão dos outros componentes do grupo. Deve-se ter cuidado a essas duas questões nesse tipo de
posicionalidade e, mesmo sabendo profundamente dos fatos, atividades e acontecimentos, isto deve
representar somente uma pista a ser investigada, no sentido de trazer à tona outras opiniões e descrever,
como que desconhecida, outras atividades estabelecidas nos lugares de interação. Por outro lado, ainda,
sempre existirão coisas que são estranhas a nós, pois sempre lugares e grupos de convivência se alteram e
se transformam. A atenção aos estranhos cotidianos apresenta-se como profícua aos dados da pesquisa,
desde que nos esforcemos a não lançar nenhum juízo de valor apressado a elas, uma vez que nosso
estranhamento e “proximidade-distanciada” entre certos elementos do grupo e atividades desenvolvidas
é controlado por nossas afetividades e “desafetividades” cotidianas, que constantemente mobiliza
psiquicamente preconceitos e estereótipos. Esse tipo de pesquisa apresenta-se muito desafiadora.

140
Geografia e cotidiano: reflexões sobre teoria e prática de pesquisa

de análise de pesquisa. As ligações entre outras esferas e escalas estruturais estão


aqui e devem dialogar com o contexto de ação e reflexão em um diálogo aberto
entre ação, cotidianidade e sociedade contidas no espaço de vivência minha e dos
outros com que compartilho.

Etnogeografia
Se o espaço é o encontro da multiplicidade constituído por “estórias até agora”,
estas estórias advêm da condução de sujeitos em interação que transitam por uma
diversidade de espacialidades. As estórias são trazidas de espaços em espaços em
diferentes momentos cotidianos, assim como determinados sujeitos transformam e se
transformam nos espaços trazendo contribuições de estórias distantes. Parker (2002)
analisa a produção de espaços de consumo gays no Brasil a partir de influências de

Etnografias em redes e territórios


empresários, artistas e/ou pessoas comuns que trazem novas estéticas e atitudes de
lugares distantes, construindo, assim, a transnacionalização da cultura gay no Brasil.
Um bar gay na cidade de Porto Alegre e/ou São Paulo, ou até mesmo no interior
de algum Estado da Federação brasileira, pode ser influenciado por certas posturas
e estéticas trazidas de meios internacionais pela ação de determinados sujeitos
que produzem ou participam das relações instauradas nos lugares de frequência
homossexual. Uma estória construída por um conjunto de experiências internacionais
poderá modificar (ou ser modificada ou hibridizada) o conjunto de vivências e estilos
e comportamentos de sujeitos em interação em um determinado espaço em algum
lugar do território nacional. Essas atitudes e influências circulam pelas redes de
contatos homoeróticos (reais e virtuais), alterando constantemente as espacialidades
gays. Assim se constrói uma cultura gay plural por todo o planeta.
Assim, se transitamos por diferentes espacialidades e contribuímos
constantemente na construção e desconstrução delas, quer dizer que nos compomos
de forma variada nestas espacialidades, sendo elas algo que conhecemos e algo que
não conhecemos por completo. Parece que, ao mesmo tempo, compomos um grupo
cultural cotidiano, mas também este grupo cultural, no espaço-tempo do momento
do encontro, se torna sempre algo que transita entre a rotina e o inesperado dos
acontecimentos. Mas ele está contido, as relações variáveis, numa espacialidade de
um conjunto de sucessões espaço-temporais transitórias. Para definir nossa pesquisa,
temos que definir uma espacialidade transitória e captar aquilo que nos aproxima e
aquilo que nos é estranho, assim como as possibilidades de apreender as mudanças
que ocorrem. Não queremos, de certa forma, entender o grupo cultural, pois o
próprio grupo cultural é variável e plural e só pode ser definido pela espacialidade.
É a espacialidade que agrega o conjunto de “estórias até agora”. Nosso propósito,
assim, é essa transitoriedade da composição múltipla e variável do espaço, que agrega
certas continuidades definidas como cultura, assim como certas descontinuidades

141
Benhur Pinós da Costa

dos trânsitos e hibridizações culturais. O desafio será compor essas continuidades de


descontinuidades numa relação estreita entre nossas experiências e as experiências
dos outros no lugar de análise.
Bonnemaison (2002) já nos aconselhava sobre um olhar geográfico sobre
a cultura e a sociedade, no sentido que, para encontrar o grupo cultural, teríamos
que encontrar o território. O território, dessa forma, compõe o grupo cultural e suas
regularidades e desregularidades, seus costumes na durabilidade dos acontecimentos
e suas atitudes de transformação, assim como a possibilidade de fazer convergir
os sujeitos e novas representações que geram as rupturas com o estabelecido
(pelo conflito e pela simples admiração e desejo de consumir o novo). Além de
uma etnografia, o fundamento da explicação aqui é a ideia da etnogeografia, cujas
espacialidades cotidianas produzem as interações, as reações, as continuidades e as
decontinuidades de atitudes, costumes e expressões dos sujeitos em trânsito constante.
Etnografias em redes e territórios

Devemos lembrar que os sujeitos em interação numa dada espacialidade transitam


entre várias outras em um emaranhado de redes de relações. Dessa forma, seguem-se
os desafios das etnogeografias: 1) desvendar (cientes dos limites e possibilidades de
pesquisa, mas assumindo o esforço e a responsabilidade de incansavelmente assumir
a dura e complexa necessidade de análise a partir da intensa e densa participação
na espacialidade) a composição dos sujeitos em relação, suas experiências tecidas
e trazidas para o lugar, suas avaliações sobre si mesmos e os outros, suas histórias e
avaliações quanto à rotina e as transformações do lugar, das pessoas e das relações;
2) registrar as redes construídas por um maior número possível de sujeitos que
interagem: seus trânsitos cotidianos, suas influências extralocais, suas participações
em composições virtuais, seus valores estéticos e éticos, como absorvem experiências
(processos de admiração e imitação), assim como tendem a impetrarem influências
(aquilo que julgam ser suas condutas originais e que se utilizam para convencer e
tornarem-se admiráveis).
A etnogeografia deve transitar assim entre a convivência e o registro contínuo
em uma espacialidade delimitada pelo interesse da pesquisa (que está contida na
própria experiência espacial do pesquisador e deve ser revelada honestamente como
trajetória sua e como sujeito participativo em sociedade), no uso das anotações de
campo e no registro das conversas que se teceram como simples contatos cotidianos.
Algumas questões devem apresentar melhor atenção pois constituem dúvidas mais
destacadas na pesquisa (que conduzem rupturas ou continuidades de aspectos
relacionais do lugar). A necessidade de se desvendar e de desenredar certas tramas
contraditórias às análises, que vêm se fazendo até um determinado ponto do processo
de estudo, gera a intensificação do papel de investigação aguçada e de “lançar-se ao
percalço” da explicação de certos fatos e situações inusitadas. A densa investigação
define a necessidade de maior proximidade e de coleta de narrativas a determinados
colaboradores a pesquisa, o que torna necessário assumir a identidade de investigador/

142
Geografia e cotidiano: reflexões sobre teoria e prática de pesquisa

pesquisador e de explicitar aos informantes os procedimentos metodológicos do


trabalho. O intuito é de coletar narrativas mais aprofundadas sobre as representações
e estórias cotidianas de certos sujeitos na reflexão sobre suas ações e experiências
na espacialidade em questão. Os contrapontos encontrados são evidências das
descontinuidades e apontam para os processos de mudanças sobre as convivências. As
concordâncias apontam para certa aura cultural do lugar em questão. As observações
sobre aquilo que os colaboradores perderam e sobre determinadas faltas, saudades
ou sentimentos de nostalgia ou desgostos sobre certos acontecimentos, representam
“pistas” sobre outras atividades de sujeitos que vêm a contribuir com a mudança das
relações tecidas no lugar de convivência. Os contrapontos entre nostalgias e novas
perspectivas de interações tornam possível delinear as trajetórias de mudanças na
espacialidade. A pesquisa, assim, torna-se uma continua busca pela continuidade e
descontinuidade de atividades dos sujeitos em interação, suas representações, suas

Etnografias em redes e territórios


adequações e divergências, seus estranhamentos quanto ao novo e suas saudades
daquilo que perderam.

Alguns truques de pesquisa


Espaço e grupo
Como argumentamos, nós transitamos por diferentes espacialidades, assim
como compomos culturas relacionais transitórias em cada espacialidade que
compartilhamos. Essas espacialidades apresentam-se ao mesmo tempo conhecidas
e estranhas a nós mesmos, uma vez que a dinâmica se caracteriza pela fluidez de
suas composições que ligam trajetórias diferenciadas de sujeitos que mobilizam
suas “estórias até agora”. Podemos argumentar que as espacialidades compõem os
grupos culturais no espaço-tempo do acontecimento (encontro da diversidade),
e elas abrigam continuidades e descontinuidades de ações, de expressões e de
relações internas. Elas se apresentam como um nó de relações que fundem (tornam
convergentes) trajetórias individuais e eventos diversos que trazem consigo expressões
e representações de outros lugares e outras relações. Mas a convergência define a
espacialidade e a especificidade composta nas relações estabelecidas no lugar assim
como a celebração do “estar-junto” (que pode ser “por si só” ou sem propósitos ou
definidos por ações propositais dos sujeitos). Captar o grupo permanente torna-se
tarefa difícil em virtude dos trânsitos contínuos de sujeitos e eventos que produzem
e são produzidos pelas espacialidades. Nesse sentido, como truque de pesquisa, para
entender essas espacialidades, seguimos a ideia de Becker (2007, p. 18), em que é
necessário “reconhecer que não se pode estudar um grupo étnico isoladamente,
devendo-se sua ‘etnicidade’ à rede de relações com outros grupos no qual ela surge”.

143
Benhur Pinós da Costa

Representações
Segundo Maffesoli (2010), o mundo social contido nas representações
dos sujeitos apresenta-se com um conjunto de formas em formação, ou seja,
imagens inacabadas, transpostas e justapostas que definem igualdades, alteridades
e estranhamentos. Esse mundo social não é somente algo externo ao contexto do
pesquisador. Ele mesmo está condicionado por suas experiências empíricas, sociais,
científicas e conceituais a definir uma complexidade de formas socioespaciais. Dessa
forma, como geógrafos, somos acostumados a construir imagens dos fenômenos
com base em nossas experiências pessoais e acadêmicas. No entanto, temos que
ter cuidado com o controle das imagens estereotipadas que podemos construir,
principalmente porque elas são veículo de algum controle que queremos ter dos
fenômenos e espacialidades que queremos entender a fundo. Isso se torna crucial
quando existem algumas disjunções em nossos dados qualitativos (entrevistas,
Etnografias em redes e territórios

questionários, narrativas, anotações de campo) que, por necessidade de tornar fácil


a descrição das relações estabelecidas, operamos com nossas representações sobre
as conexões (desconectas) dos dados disjuntivos. É nesse sentido que temos que
desconfiar de nossas próprias imagens das espacialidades que trabalhamos e cuidar
com nossos ímpetos de determinar certas conexões forçosas aos fenômenos e às
relações estabelecidas. Temos um conjunto de dados disjuntivos que, muitas vezes,
por falta de tempo ou por simples criatividade inventiva, organizamos suas conexões
por nossas representações. Somente a experiência continuada nas espacialidades
cotidianas, por longo tempo e em contínuo trabalho diário e semanal, que nos
permite coletar uma intensidade de dados para poder fazer relações mais próximas
às estabelecidas no mundo empírico. Dessa forma, “sem conhecimento baseado em
experiência de primeira mão para corrigir nossas representações, não só não sabemos
por onde olhar à procura de material interessante, como também não sabemos o que
não requer investigação e prova extensa” (MOLOTCH apud BECKER, 2007, p. 36).

Truque da hipótese nula


As espacialidades que queremos desvendar são constituídas (além de nós
mesmos, com nossas cargas de representações, que podem ser inseridas na pesquisa,
mas como somente um elemento de relação) por um conjunto de sujeitos que a elas
formam e são formados. A necessidade é aproximação a essa diversidade de sujeitos
que encontramos na espacialidade, para compor nossos dados etnogeográficos
baseados na reflexão sobre suas experiências, expressões e representações no/do
lugar, além de suas trajetórias pela cidade. Partimos do pressuposto primeiro de que
somos parte integrante dos processos cotidianos que nos ligam a tal espacialidade
e assim temos certos conhecimentos locais ou nos envolvemos em uma rede de
relações para nos aproximarmos dos colaboradores com os quais coletaremos
narrativas para entender os acontecimentos, as atividades e as relações estabelecidas

144
Geografia e cotidiano: reflexões sobre teoria e prática de pesquisa

na espacialidade. O truque da hipótese nula, segundo Becker (2007, p. 40-46), é


procurar entender que a seleção dos colaboradores foi aleatória, embora um conjunto
de fatos, que devem ser descritos honestamente no processo de pesquisa, nos levou
a encontrar determinados sujeitos e fazer deles informantes essenciais para nossas
construções sobre as relações espaciais. A hipótese nula aqui é que não selecionamos
a partir de um conjunto de predisposições o grupo de sujeitos colaboradores, mas
que eles se enredaram em nossa trajetória de pesquisa e, ao mesmo tempo em que o
pesquisador se aproximou deles, eles se aproximaram do pesquisador. Essa trama/
trajetória de encontros e desencontros caóticos deve ser, honestamente e de forma
aprofundada, descrita, embora essa trajetória se baseie em uma hipótese nula, ou
seja, não delimitada metodicamente a partir de um conjunto de predisposições e
formulações tabulares de dados.
A outra ponta da aproximação seria justamente a tabulação qualitativa das

Etnografias em redes e territórios


pessoas a serem exploradas pela pesquisa, como um processo de delimitação obtido
por certos parâmetros sociais e individuais, como faixa etária, renda, escolaridade,
sexo, relação de frequência à espacialidade, forma de participação, entre outras
questões que se podem levar em conta antes da procura selecionada dos informantes.
Construiríamos nossos limites de pesquisa e enfatizaríamos algumas hipóteses na
delimitação e da representação do grupo a ser pesquisado. Nesse sentido, procuramos,
em um primeiro momento, dar ênfase às nossas representações, impondo uma
organização do processo de pesquisa, por outras vezes deixamos os acasos das
trajetórias relacionais nos estabelecer no jogo de relações compostas pelas diversidades
encontradas na espacialidade. Esse trabalho implica em compormos e decompormos
nossas representações e hipóteses e assim retirar nossos controles e tornar ausentes
nossas representações para justamente encontrar os conjuntos de disjunções que
nos levam à complexidade que compõem a espacialidade em questão.

A ação estudada faz sentido, somente não sabemos que sentido é este
Um dos propósitos de trabalhar com a “hipótese nula” é tornar parte integrante
das atividades, processos e relações que produzem e são produzidos pela/na
espacialidade. Como parte integrante, encontramos um conjunto de sentidos e
compreensões em que nos conectamos com determinados sujeitos que serão fontes
de nossas descrições e reflexões sobre tal espacialidade cotidiana. Porém, temos que
ter cuidado para não nos apropriarmos em demasia daquilo que nos faz sentido e
tornar isto a condição de nossos resultados. Determinadas ações, reações, expressões
e interações não fazem sentido para nós no processo de integração etnogeográfica.
Temos que nos dar conta que determinados acontecimentos fazem sentido só que
não temos compreensões fundantes deles. Temos que procurar essas discordâncias
e os inesperados como uma “boa ideia” e seguir um novo esforço de aproximação,
como outra camada de atividade e descrição, para a compreensão dos sentidos e

145
Benhur Pinós da Costa

subsentidos dos acontecimentos e atividades diversas que compõem as relações


na espacialidade estudada. “Isto transforma o trabalho analítico na descoberta das
circunstâncias que levam o ator a pensar que aquela era uma boa ideia” (BECKER,
2007, p. 47). Seguir o percalço das situações incompreensíveis é parte da experiência
científica etnográfica e “se alguma ação que percebemos não faz sentido é porque
estamos distantes da situação para conhecer as contingências sob as quais a ação
aconteceu” (BECKER, 2007, p. 47 ).
Os sentidos das ações e atividades de certos sujeitos que compõem
circunstâncias apresentadas nas espacialidades cotidianas que estudamos são somente
a “ponta do iceberg”. Nesse sentido, entra em cena a necessidade de atenção ao
acontecimento inusitado. Tais acontecimentos são situações de interação (podendo
ser conflituosas ou não) de sujeitos que trazem uma bagagem (ou estoque) de
outros acontecimentos que o fizeram convergirem ao momento “aqui e agora” da
Etnografias em redes e territórios

situação empreendida. O conjunto de trajetórias diversas produziu uma trama de


contingências em espiral que fez surgir (e explodir) a intensidade do momento
relacional acontecido (em que inclusive fazemos parte e compomos uma linha da
trama da espiral que fundou o acontecimento, assim temos que nos compor nesta
trama). A ação empreendida por cada um dos participantes presentes em interação
apresenta-se em face de um estoque de situações anteriores que culminaram no
encontro e na atividade produzida. A partir do encontro conduzido pela espiral,
novos saberes e novos aprendizados conduzirão a formas de agir dos sujeitos em
questão, que o tornam agente para outros fatos e ações no mesmo lugar ou em
outros que se relacionarão. A investigação sobre o acontecimento fundamental
da espacialidade naquele momento é a descrição densa sobre o fato ocorrido, na
observação do pesquisador como participante dele, assim como na descrição dos
envolvidos no fato. A descrição dos envolvidos no fato perpassa o acontecimento
do momento e a busca em explorar as motivações anteriores de sua ação, no sentido
de fazer ligar outros fatos e outros ocorridos que levaram a participação à situação
empreendida. Esse processo é possível pela investigação das posições e representações
dos diferentes sujeitos envolvidos no fato como um conjunto de narrativas históricas
individuais que convergiram para a relação espacial. Dessa forma, conforme Becker
(2007, p. 54-55):

À discussão acima leva, sem dúvida, falando do ponto de vista prático, à ideia
de que as coisas não apenas acontecem, mas ocorrem numa série de etapas, que
nós, cientistas sociais, tendemos a chamar de “processos”, mas que igualmente
poderiam ser chamadas de histórias. Uma história bem construída pode nos
satisfazer como explicações para um evento. A história nos diz como algo aconteceu
– como isto aconteceu primeiro e fez, de uma maneira que parece razoável, com
que aquilo outro acontecesse, e depois como estas coisas levaram à seguinte...
e assim por diante, até o fim. [...] Aprendi, em grande parte sob influência de
Evertt C. Hughes, a pensar sobre essas dependências de um evento em relação a
outro como “contingências”. Quando o evento A acontece, as pessoas envolvidas

146
Geografia e cotidiano: reflexões sobre teoria e prática de pesquisa

passam a se encontrar numa situação em que várias coisas poderiam acontecer em


seguida. [...] “Uma explicação histórica não repousa em deduções diretas a partir
das leis da natureza, mas numa sequência imprevisível de estados antecedentes,
onde cada mudança de vulto em qualquer passo da sequência teria alterado o
resultado final” (esta parte é uma citação de Stephen Jay Gould, feita pelo autor).

Assim sendo, temos que nos ocupar dos improváveis e inesperados fatos
ocorridos nas espacialidades que estamos apreendendo etnogeograficamente. Os
acontecimentos que fogem de nosso controle e explicação são os mais importantes
para tornarem mais próximas a compreensão do espaço como convergência
da multiplicidade e da diversidade de sujeitos e seus conjuntos de “estórias até
agora” (MASSEY, 2009). A composição dessas estórias nos possibilita um passo
para representar a trama de situações e espaços que se integram à emergência
da espacialidade, assim como tal evento, constituído na espacialidade, a alterará

Etnografias em redes e territórios


e constituirá outras, assim sucessivamente. Essa postura metodológica permite
uma compreensão do espaço além das representações estanques e sincrônicas,
tornando-o parte fundamental dos processos dinâmicos das transformações sociais
e da organicidade da sociedade.

Considerações finais
Observamos neste texto que os estudos do cotidiano são importantes para a
análise geográfica, como o desenvolvimento de uma “Geografia du dedans”, paralela
à sociologia du dedans, proposta por Maffesoli. Isso quer dizer que a experiência
etnográfica pode ser um processo metodológico discutido no estudo e na pesquisa
sobre o espaço, principalmente porque nossas fontes de dados se ocupam das
informações e grupos culturais e sujeitos que trabalhamos. Por outro lado,
demonstramos que essa pesquisa etnográfica deve também prezar uma ideia de espaço
geográfico dinâmico, em que a vida espacial de tais grupos e sujeitos apresentam-se
em constante transformação e instabilidade. Nesse sentido, na pesquisa, é de vital
importância captar a atividade dos sujeitos e não suas estabilidades, no sentido de
buscar uma representação acomodada de suas relações com o espaço. Nesse tipo
de projeto, também frisamos a possibilidade de aproximação do pesquisador com
o grupo pesquisado, rompendo a postura positivista da neutralidade científica. As
intersubjetividades construídas nos grupos de pertença não se apresentam de forma
estabilizada, como se pensa, uma vez que os sujeitos, na sociedade contemporânea,
partilham e participam de grupos muito heterogêneos, assim suas relações com o
espaço são híbridas e conflituosas. Mesmo o sujeito pesquisador ser parceiro do sujeito
pesquisado, suas visões de mundo são dispersadas pela diversidade e heterogeneidade
da vida social, fazendo com que a pesquisa se mantenha no sentido da descoberta
das instabilidades “no meu próprio mundo”. O desafio dessa discussão é grande, mas

147
Benhur Pinós da Costa

no Brasil muitos geógrafos têm se ocupado, principalmente nos estudos culturais


urbanos e em relação às pluralidades culturais. As discussões sobre território e suas
flexibilidades de representação, de escala e de formato estão ajudando bastante para
ampliar o debate. Esperamos, assim, maior atenção ao tema e que este texto possa
colaborar com novas pesquisas.

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149
Etnografias em redes e territórios
8 A pesquisa etnogeográfica com os
Kawahib em Rondônia: desafios,
trilhas e horizontes

Adnilson de Almeida Silva

Etnografias em redes e territórios


Estudar e pesquisar ciência geográfica com indígenas
na Amazônia apresenta um grandioso desafio, sobretudo pelas
diversidades culturais – a barreira da língua e da linguagem constitui-
se como o primeiro deles –, os demais desafios estão relacionados à
estrutura governamental em conceder autorizações para a entrada
de pesquisadores em terras indígenas, aliado a isto, encontram-se
as distâncias físicas e a logística de transporte.
Movido por esses desafios com o sentido de percorrer não
somente a trilha física, sobretudo as metodológicas, propôs-se o
caminhar da pesquisa em busca de horizontes que pudessem oferecer
resposta para a compreensão de estudos etnogeográficos. Como
resultado, foi construída a tese de doutorado “Territorialidades e
identidade dos coletivos Kawahib da Terra Indígena Uru-Eu-Wau-
Wau em Rondônia: ‘Orevaki Are’ (reencontro) dos marcadores
territoriais”, da qual fragmentos encontram-se descritos no presente
artigo.
Uma das motivações em desenvolver trabalho acadêmico
com indígenas, remete-nos às considerações feitas por Salustio
(1958 apud Cirlot, 2007, p. 11): “o mundo é um objeto simbólico”
e, como símbolo, é uma representação. No caso em questão, um
dos objetivos era compreender seu modo de vida a partir de suas

In: HEIDRICH, A. L. & PIRES, C. L. Z. (orgs.). Abordagens e práticas da pesquisa


qualitativa em Geografia e saberes sobre espaço e cultura. Porto Alegre:
Editora Letra1, 2016, p. 151-168. DOI: 10.21826/9788563800220
Adnilson de Almeida Silva

representações, culturas e valores e sua importância como caráter didático em


oferecer o etnoconhecimento.
Em relação à escolha em trabalhar com os Kawahib, ela deu-se em função
das experiências profissionais, no início do século XXI, com esse coletivo indígena,
especificamente com Jupaú (os que usam jenipapo) ou Pindobatywudjara-Gã (os
que habitam nos palmeirais de babaçu Orbygnia speciosa) conhecido na sociedade
envolvente como Uru-Eu-Wau-Wau e ainda os Juma – que foram colaboradores em
nossa dissertação de Mestrado.
No doutorado, incluíram-se os Amondawa, autodeterminados de Envuga (os
que andam sempre no caminho do rio). O trabalho científico resultou na apreensão
de como o coletivo Kawahib concebe

[...] seu microcosmo de forma interligada, cujas relações de construção passam


pelo respeito e utilização dos meios indispensáveis à sobrevivência física e do
Etnografias em redes e territórios

exercício de práticas ancestrais e estendem-se aos aspectos da espiritualidade e


da cosmogonia, ao tempo que a representação das formas simbólicas se efetiva
por meio de suas identidades e práticas de etnodesenvolvimento (ALMEIDA
SILVA, 2010, p.25).

A relação de construção cosmogônica é integradora e está atrelada às


experiências ou “espaço de ação” (CASSIRER, 1968) e formas simbólicas
(CASSIRER, 1965) que caracterizam os modos de vida indígena, a qual sintetiza
AGUILERA URQUIZA (2006, p. 03):

As populações indígenas, normalmente, têm como base a percepção da profunda


interdependência entre o mundo da natureza (vegetais e animais) e o mundo dos
humanos, entendendo a natureza como algo vivente com quem podem interagir
e estabelecer uma comunicação constante, apoiada numa visão cosmológica [...].

Desse modo, se tem que a visão cosmogônica ou cosmológica é um processo


sociocultural coletivo, e, por meio das representações sociais e simbólicas, e a
utilização das formas simbólicas, caracterizam-se como elementos que propiciam
a defesa de sua integridade física, cultural e territorial, efetivadas pela experiência
socioespacial e ancestralidade de construção de mundo.

Os Kawahib de Rondônia: breve relato


Pertencem ao tronco Tupi, que é dividido linguisticamente em famílias
Tupi-Guarani, Tupi-Mondé, Tupi Rama Rama e Tupi Kawahib (COSTA, 1980;
LÉVI-STRAUSS, 1948a, 1948b; MALCHER, 1964; NIMUENDAJÚ, 1948; PAIVA,
2005; SAMPAIO, 2001; SILVA, 1920; SILVA, 2000), além da língua nheengatu
conhecida como Tupi moderno e falada ainda por um grande número de indígenas
na Amazônia, na fronteira Brasil/Paraguai e ainda neste último país mencionado.

152
A pesquisa etnogeográfica com os Kawahib em Rondônia: desafios, trilhas e horizontes

A designação Kawahib, todavia, é constituída de outras variáveis, tais como:


Kawahiba (MENÉNDEZ, 1989); Kawahiva (MENÉNDEZ, 1989), Kagwahib
(KRACKE, 2005; SAMPAIO, 1996); Kagwahiba (NIMUENDAJÚ, 1978); Kawahyb
(NIMUENDAJÚ, 1948); Cawahib (GALVÃO, 1979); Cauahib e Cauaiua (PEREIRA,
2007); e ainda outras denominações, como: Kawaib, Cavaíba, Cabaíba, Cabhiba,
Cawahiwa, Cauaíbe, dadas por um número grande de autores e referenciadas em
ALMEIDA SILVA (2007a).
No universo de representação cosmogônica, os Kawahib são portadores de
duas metades, conforme Figura 2, a primeira denominada de Mutum: Mutum ou
Mutum-Nygwera (PEGGION, 1996; 2005), Mytun (KRACKE, 1984a, 1984b),
Mytunynguera (LEVINHO, 1990), Mutum Nhangwera (PAIVA, 2005; ALMEIDA
SILVA, 2007a) e Mytў Nhãgwera (KUROVSKI, 2005, 2009).
A outra metade entre os indivíduos Amondawa e Jupaú ou Pindobatywudjara-

Etnografias em redes e territórios


Gã se reconhecem como Kanindé (LEVINHO, 1990; PAIVA, 2005; PEGGION,
1996; 2005) ou Kanindewa (ALMEIDA SILVA, 2007a); no caso dos Tenharim e
Juma, são Kwandu-Taravé; Parintintin são reconhecidos como Kwandu-Apyawytang;
Karipuna, como Tucano (PEGGION, 1996, 2005) ou Yvytu’i (LEVINHO, 1990).
As representações e formas de metades exogâmicas presentes na organização
social dos Kawahib, como ocorre em vários outros coletivos humanos, caracterizam
a territorialidade e identidade de maneira muito nítida, com origem a partir da
narrativa do heróico mítico fundador, centrado na representação cosmogônica e
social realizada por Baíra (PEREIRA, 2007) ou Bahira (PAIVA, 2005)1.
Em relação à territorialidade Kawahib, partimos do princípio que ela
possui características peculiares e portadoras de identidades, contendo nelas não
somente os aspectos de materialidade, mas também a imaterialidade presentificada
cosmogonicamente, o sentimento, as formas significativas e as representações
simbólicas, e permitem-nos compreender as múltiplas dimensões, seja em momentos
que expressam tranquilidade ou conflitos, em decorrência da construção e da
experiência socioespacial do coletivo.
Essa condição conduz à reflexão, a qual indica que a construção da identidade
não se encontra dissociada da territorialidade e, como processo, está relacionada
indistintamente à cosmogonia e ao histórico de relações que propiciam estruturas
estruturantes que permitem compreender o construto de sua existência.
Entendemos que a construção e a manutenção cosmogônica como um dos
importantes requisitos de salvaguarda contra os riscos de perda de identidade

1 Além do herói mítico fundador Baíra, Bahira ou Mbahira’nga (demiurgo terreno, relativo à pedra e
promotor da cultura), os Kawahib possuem em sua cosmogonia Ivaga’nga ou Yvaga’nga (demiurgo
celeste, relacionado à espiritualidade) e Anhang (correspondente à natureza e aos espíritos inferiores
[demônios]), conforme Kracke (1984b) e Peggion (2005).

153
Adnilson de Almeida Silva

cultural, em escala individual e coletiva, isto porque as sociedades indígenas “não


são sociedades imóveis, [...] sem história, mesmo quando negam; [...] que alteram a
sua memória de maneira a adaptar às necessidades do momento e em conformidade
com os seus desejos e interesses, com forte posicionamento” (CLAVAL, 2000, p. 41).
Uma das características dos Kawahib é sua habilidade como exímios guerreiros
que defendem a territorialidade desde tempos imemoriais e primam especialmente
pela manutenção de sua cultura, como “marcador territorial” resultante do espaço
de ação e das experiências sociocosmogônicas.
Em tal contexto, a tese contribuiu para a compreensão da territorialidade e a
identidade do Coletivo Kawahib da Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau - TIUEWW,
mediante as representações, símbolos e signos de representação que constituem os
modos de vida e compõem os “marcadores territoriais”.
Etnografias em redes e territórios

Trilha teórica e a revisão bibliográfica


A pesquisa fundamentou-se nas formas simbólicas de Cassirer como
possibilidade de discussão da temática indígena na Geografia e encontra-se vinculada
à Fenomenologia, como proposta metodológica de compreensão da ação humana no
espaço, em que esta se apresenta como desencadeadora de abordagens que oferecem
o suporte epistêmico às pesquisas da Nova Geografia Cultural, considerando as
vivências sensíveis do ser humano.

A consciência, na abordagem fenomenológica, sempre é consciência de alguma


coisa, e como tal é marcada pela análise intencional e descritiva da consciência.
Nessa análise consideram-se as definições quanto às relações essenciais entre atos
mentais e mundo externo, ou seja, a investigação no mundo das exterioridades e
objetos identificando os aspectos imutáveis da percepção dos objetos e a produção
de atributos da realidade de modo a qualificá-lo ou percebê-lo ou ainda pela
percepção que fazemos em relação ao mundo. É o ser e se fazer representar no
mundo, é o representar-se e ser representado no mundo (ALMEIDA SILVA,
2010, p. 38-39).

Em Cassirer (1953-1957, 1968, 1975, 1976, 1978, 1992, 1994, 2001,


2004, 2005), nos apoiamos nas abordagens interpretativas do espaço de ação,
formas simbólicas, pregnância simbólica, linguagem, substância, formas e função,
relacionando-se sobre o ser e não sobre o dever ser, em que a compreensão das coisas
respalda-se na existência concomitante do real e ideal, caracterizando-se como
existência fenomenal, considerando a percepção atual e a antecessora.
A tese pauta-se ainda em Cassirer (1994), quando este analisa o fenômeno
por meio dos conhecimentos: concreto (ideal), perceptual (sensorial) e o simbólico
que sintetiza os dois anteriores e atua como intermediário entre espírito e matéria,
cujo contexto ocorre com a familiarização (apresentação) e com o conhecimento
abstrato (representação) (CASSIRER, 1992, 1968).

154
A pesquisa etnogeográfica com os Kawahib em Rondônia: desafios, trilhas e horizontes

Esses elementos qualificam o espaço heterogeneamente como um fenômeno


basilar da vivência de qualquer coletivo humano, não se limitando apenas às sociedades
tradicionais (CASSIRER, 1968)2.
Outro aspecto recorrente é que não se trata mais do homem lúdico ou animal
rationale, mas do animal symbolicum com as qualidades de realizar-se e representar-se
perante o mundo através de seu espaço de ação (CASSIRER, 1968).
Ainda sobre a análise das formas simbólicas, encontramos na abordagem
de Cassirer (1953-1957, 1992, 2001, 2004) que o discurso humano se sustenta na
Sprache (linguagem), no Mythos (mito) e no Erkenntnis (conhecimento), que constitui
o símbolo como campo mediador entre o espírito e a essência, isso porque o símbolo
é imprescindível que se remete a todas as disciplinas como forma a priori do espírito
humano e se presentifica em tudo o que o homem constrói através das experiências
no espaço de ação, de modo que a intensidade é motivada emocionalmente pelas

Etnografias em redes e territórios


formas e representações inerentes ao símbolo (ALMEIDA SILVA, 2010, p. 42).
Aqui se trata da linguagem simbólica como ponte de acessibilidade para uma
relação análoga com o inatingível, ou seja, com o não ser, caracterizando-se como
“as coisas do mundo, que existem no mundo como aparente, como fenômeno, como
elas se apresentam” (CASSIRER, 1994, p. 81-96).
A pesquisa buscou, no campo da Antropologia, o conceito de cultura que
ocorre a partir de um sistema de símbolos e de significados, conforme descrito por
Schneider (1968), White (1978) e Geertz (1983; 2004), com aproximação dos
estudos em Cassirer (1953-1957, 1968, 1994, 2001, 2004) sobre representação,
uma vez que o comportamento humano está associado desde sua origem à utilização
dos símbolos.

Foi o símbolo que transformou nossos ancestrais antropóides em homens e fê-los


humanos. Todas as civilizações se espalharam e perpetuaram somente pelo uso
de símbolos [...] Toda cultura depende de símbolos. É o exercício da faculdade
de simbolização que cria a cultura e o uso de símbolos que torna possível a sua
perpetuação. Sem o símbolo não haveria cultura, e o homem seria apenas animal,
não um ser humano [...]. O comportamento humano é o comportamento simbólico
(WHITE, 1970 apud LARAIA, 2008, p. 55).

Vinculou-se ainda à pesquisa os fenômenos da Psicologia de Jung (1986)


sobre a decodificação dos símbolos e significados pelos humanos originados da
realidade encontrada em seu meio e que esse se torna consciente à medida que

2 O termo tradicional utilizado aqui é aplicado às demais coletividades, cujo modo de vida (ou
experiências socioespaciais) é marcado pela lógica de relações estreitas com o meio. Assim, constitui-
se como uma visão e interpretação do mundo, cujos valores de formas, representação simbólica e
presentificação são distintas daqueles da sociedade envolvente, porque se fundamenta no contexto da
sobrevivência material e espiritual na espacialidade e/ou territorialidade e encontra-se desvinculada da
ideia de apropriação dos recursos com finalidade econômica. Logo, possui certa proximidade conceitual
com os indivíduos indígenas.

155
Adnilson de Almeida Silva

mentalmente constrói individual e coletivamente suas concepções de mundo, isso


porque quando compreende a si mesmo, também compreende a exterioridade do
seu mundo para que possa sobreviver.
A estruturação do trabalho foi concebida em três princípios: as formas
simbólicas, a construção da territorialidade, as inter-relações entre os coletivos
humanos.
O primeiro princípio diz respeito diretamente às representações como dialética
e responsável pela construção do conhecimento humano, atuando como elemento
explicativo da análise geográfica por meio da inter-relação da materialidade dos
objetos e a imaterialidade construída pela cosmogonia indígena, cuja base conceitual
advém das concepções de espaço de ação (CASSIRER, 1968) e formas simbólicas
(CASSIRER, 1965).
Com ênfase na expressão cassireriana, a pesquisa procurou compreender os
Etnografias em redes e territórios

“marcadores territoriais” como dados indispensáveis à compreensão da cultura e às


múltiplas relações de defesa e legitimidade do território, as formas simbólicas como
construtoras da cosmogonia e modo de vida Kawahib.
Os “marcadores territoriais” são um dos componentes da representação e
da forma simbólica, cuja legitimação é primordial ao conhecimento imaginário,
possibilitando interpretar o espaço e sua origem ocorre

[...] a partir da reprodução de uma imagem visual, que substitui o real através
da lembrança, provocada por fragmentos do real. O objeto pode ter sido
anteriormente percebido, como pode ser novo, produzido pelas capacidades
criativas e a representação (KOZEL, 2004, p. 223).

O segundo princípio está interligado ao primeiro e apresenta a territorialidade


como resultante do espaço de ação e experiências socioespaciais, como realidade
material e imaterial construída simbolicamente pelos Kawahib.
O terceiro princípio é concebido a partir das inter-relações entre os coletivos
humanos, e está relacionado aos princípios anteriores, em que o estabelecimento
das relações entre os coletivos distintos realizam e possibilitam a gênese de marcas –
identidade e cultura - no espaço e contribuem profundamente tanto no pertencimento,
quanto para a modificação do modo de vida e cultura de determinada coletividade.
A base nesses conceitos permitiu a análise dos processos geográficos e
culturais a partir da identificação dos “marcadores territoriais” vivos, simbólicos,
fabricados, históricos, musicais e funcionais, os quais conferem “originalidade dos
territórios, impondo a sua própria estrutura e a afirmação da autonomia de cada um
dos participantes” (HENRIQUES, 2003, p. 9-12).

156
A pesquisa etnogeográfica com os Kawahib em Rondônia: desafios, trilhas e horizontes

A trilha metodológica
A pesquisa foi desenvolvida em quatro grandes componentes com fulcro
interdisciplinar e inter-referencial, conforme se vê:
– O primeiro componente transcorreu com o aprofundamento das
reflexões quanto às questões epistemológicas e aproximação teórica por meio das
discussões suscitadas em salas de aula, com o estabelecimento de leituras de obras
desenvolvidas por teóricos das mais diversas áreas do conhecimento. Esse momento
foi imprescindível para subsidiar a elaboração da teoria ou de sua teorização a partir
da temática proposta para a Tese, com ênfase na análise geográfica dos “marcadores
territoriais”, seus sentidos e seus significados da construção, forma e representação
simbólicas e presentificação do universo cosmogônico dos Kawahib da TIUEWW.
– O segundo componente efetivou-se com um minucioso levantamento

Etnografias em redes e territórios


bibliográfico e documental, como canais formais, em órgãos públicos, bibliotecas
e entidades indigenistas e socioambientais não governamentais. Outros meios de
acessibilidade foram consultados, tais como sites específicos sobre Antropologia,
Etnologia, Sociologia, Geografia, além de revistas especializadas e diálogos com
pesquisadores e estudiosos da temática, com isso obteve-se o suporte indispensável
ao entendimento e ao aprofundamento sobre as questões indígenas.
– O terceiro componente efetivou-se com a execução de atividade em campo,
fundamentada no conceito da pesquisa participante, com o propósito de conhecer
os aspectos do modo de vida do Coletivo Kawahib e sua relação com a representação
e os “marcadores territoriais”.
O procedimento metodológico da pesquisa participante destacou-se como a
mais adequada para entendermos as experiências sociocosmogônicas e socioespaciais
em suas formas e representações simbólicas e presentificações, sendo testada e
aprovada por pesquisadores como Boas, Malinowski, Evans-Pritchard, Geertz,
Cardoso de Oliveira, Borda, Thiollent, Bosco Pinto, Acosta, Briceño, entre outros,
cujo princípio é defendido por Costa (1995, p. 133), como:

[...] o principal instrumento de pesquisa é o investigador, num contacto directo,


frequente e prolongado com os actores sociais e os seus contextos; as diversas
técnicas reforçam-se, sendo sujeitas a uma constante vigilância e adaptação
segundo as reacções e as situações. ‘A natureza específica dos procedimentos do
método de campo impõe-lhes que, para adquirirem pertinência e rigor, tenham
que ser, necessáriamente, diversificadas e flexíveis’. (sic).

A pesquisa sustentada nessa metodologia, não deve prescindir dos ensinamentos


antropológicos, sociológicos, históricos e geográficos porque envolvem coletividades
humanas com concepções de mundo distintas das nossas (MALINOWSKI, 1984),
em que em sua construção é imprescindível o estabelecimento de relação entre
pesquisador e colaborador com trocas de experiências (CASTRO, 2002).

157
Adnilson de Almeida Silva

Esta foi uma das nossas grandes preocupações de entendermos estruturas


de linguagem diferente, em que a pesquisa não tivesse procedimentos e conceitos
elaborados e formatados dentro de uma visão clássica de sociedade envolvente,
mas que procurasse abordar como êmico (conceito e visão particular de mundo
formulado pelo colaborador). Logo, desenvolveu-se por meio das trocas de diálogos
ou moronguetá (conversas), em que o pesquisador e os indígenas estabelecem relações
abertas de comunicação, sem um roteiro predefinido.
Com o estabelecimento do diálogo, o trabalho da pesquisa se efetivou com idas
a campo, inclusive aos locais atuais de moradia, aos espaços espirituais, aos roçados,
aos locais de caçadas e pescarias, no auxílio às atividades cotidianas e à participação
em rituais, de modo que se estabeleceram relações científicas e pessoais profundas,
notadamente com as manifestações culturais.
Essas manifestações constituíram-se no epicentro para o entendimento do
Etnografias em redes e territórios

significado dos “marcadores territoriais” como elementos geradores e contribuintes


da defesa territorial e da utilização pelos indígenas de seus bens naturais, assim como
de sua manutenção.
Dessa maneira, a pesquisa participante envolveu uma matriz metodológica
marcada por especialidades que conferem autenticidade e compromisso,
antidogmatismo, restituição sistemática do conhecimento produzido e o diálogo
entre o pesquisador, os indivíduos e a coletividade.
Essa liberdade permitiu ao pesquisador, em sua atuação, não aprisionar-se a
rígidos esquemas de análise, ao contrário, possibilitou-lhe compreender a importância
do meio cultural como articulador de técnicas flexíveis, com o respeito ao cotidiano
das coletividades através de uma linguagem acessível a todos e da utilização de
instrumentais locais.
O procedimento metodológico agregou outras técnicas (não utilização de
gravadores e blocos de anotações em muitos momentos; uso da memorização
das narrativas e dos acontecimentos do cotidiano), ainda que apresente validade
estritamente local, foram indispensáveis na concepção da tese. Nesse sentido,
respaldamo-nos em Garvey (1979), o qual afirma que todas as etapas de atividades
que compreendem uma pesquisa, desde sua concepção até o resultado final, são
aceitas como integrantes do conhecimento científico.
O sentido da pesquisa, como se observa, é situada no campo da Fenomenologia
(qualitativa e descritiva), em virtude de estabelecer uma relação de interpretação dos
fenômenos e atributos de significados entre o mundo real e o simbólico, de modo
que constitui um vínculo indissociável entre o mundo objetivo e a subjetividade do
indivíduo, que não pode ser traduzido estatisticamente.
Nela, a instrumentalização metodológica, o pesquisador, os indivíduos e o
coletivo não se apartam, antes evoluem e transformam as mais variadas condições
encontradas, dada a sua essência de informalidade, ou melhor, pelos canais informais,

158
A pesquisa etnogeográfica com os Kawahib em Rondônia: desafios, trilhas e horizontes

como “colégios invisíveis” (PRICE, 1979), ou “círculos sociais” (CRANE, 1972;


KADUSHIN, 1976), ou ainda “redes científicas” (LATOUR, 1994).
Os canais informais justificam-se como uma técnica de comunicação dinâmica
e seletiva, em razão da interatividade efetiva entre o pesquisador e o coletivo, não
tendo um caráter de pesquisa com formulação estruturada. Portanto, não necessita
de controle, o que, no caso dos coletivos indígenas, constituem-se em uma valiosa
ferramenta de relação e intercâmbio social.
Podemos afirmar que a construção da pesquisa se realizou de forma coletiva e
que sinteticamente compreendeu os seguintes pontos de abordagem, que auxiliaram na
compreensão do modo e dos arranjos dos “marcadores territoriais”: 1) A importância
do território Kawahib da TIUEWW, onde vivem, para a cultura; 2) A importância
das histórias simbólicas e narrativas míticas indígenas na afirmação da cosmogonia;
3) A relevância da dança, rituais e músicas como formas e representações simbólicas;

Etnografias em redes e territórios


4) A influência de outras culturas no modo de vida do Coletivo; 5) A preservação
da história e a cultura dos antepassados; 6) O significado e o sentido de caminhar
na floresta e as visitas às antigas malocas; 7) A importância da natureza para o modo
de vida do Coletivo; 8) A importância da forma simbólica e seu significado como
elemento fenômico da identidade corporal; 9) O entendimento do ser humano
indígena no passado e na atualidade; 10) A origem cosmogônica do Coletivo; 11)
A relação do Coletivo com a exterioridade da sociedade envolvente; 12) O sentido
de pensamento dos não indígenas atribuído ao Coletivo indígena, a partir do olhar
desse Coletivo; 13) O sentido de pensamento do Coletivo indígena em relação
aos não indígenas; 14) O sentido e significado das formas simbólicas na defesa do
território; 15) O sentido e o significado das pesquisas sobre o Coletivo indígena;
16) O sentido e o significado das pesquisas indígenas sobre o Coletivo indígena;
e 17) O envolvimento e o processo de vivência e produção do conhecimento do
pesquisador para com o Coletivo.
Essas questões nortearam a pesquisa em campo e compuseram a base
estrutural preparatória das atividades, focalizadas no: a) Arranjo institucional com
o envolvimento e a discussão do projeto de pesquisa com a coletividade indígena e
seus representantes; esclarecimento de dúvidas quanto ao propósito da pesquisa;
planejamento dos locais a serem visitados e estudados; atividades de acompanhamento
aos indígenas em sua cotidianidade; b) Aproximação com as lideranças e interlocutores
Amondawa e Jupaú ou Pindobatywudjara-Gã, que atuam como intérpretes das
línguas Kawahib e portuguesa, para discorrer sobre a temática proposta: atividades
culturais, universo simbólico, entre outros. O objetivo traçado foi o de identificar
o tipo e natureza histórica e a vivência no presente no contexto da territorialidade,
possibilitando analisar a constituição cultural, êmica e étnica do Coletivo como parte
integrante na definição dos “marcadores territoriais”; e c) Conhecimento por meio da
ação, envolvendo a análise da pesquisa, com posterior devolução de seus resultados

159
Adnilson de Almeida Silva

aos coletivos para discussão e incorporação/rejeição das ideias desenvolvidas no


trabalho, firmando o diálogo entre o pesquisador e o Coletivo Kawahib da TIUEWW.
A pesquisa realizada com os Kawahib da TIEWW, em Rondônia, foi construída
tendo como princípios basilares: 1) O respeito aos valores cosmogônicos, êmicos e
éticos da cultura; 2) O estabelecimento de uma linguagem inteligível consonante à
cotidianidade dos Kawahib, como colaboradores e protagonistas na construção da
pesquisa; 3) Respeito aos saberes ancestrais; 4) Tomada de decisões em conformidade
com os valores culturais do Coletivo Kawahib; e 5) Validação dos resultados, com
retorno do material escrito, gravado e degravado, fotografado, entre outros.
O procedimento metodológico, em sua maioria, se efetivou pela técnica de
memorização do pesquisador, mas também por uso de materiais e de tecnologias,
como: a) Gravador de voz e imagem, máquina fotográfica, em que se procurou
respeitar os valores da cultura e com o consentimento do coletivo; b) Bloco de
Etnografias em redes e territórios

anotações em forma de diário de campo para obtenção das informações; c) Transcrição


dos moronguetá (roda de conversas ou bate-papo informal) que acontecem geralmente
ao entardecer; d) Transcrição das informalidades obtidas nas atividades do cotidiano
dos Kawahib; e) Interpretação das manifestações artísticas dos indivíduos e de mapas
de reconhecimento previamente elaborados, em que se discutiu a toponímia (rios
e aldeias) presente na territorialidade Kawahib; e f) Caminhadas em trilhas antigas
e visitas aos locais de incalculável valor simbólico com suas formas, representações
e presentificações, além das atuais aldeias em que se vivenciou a cotidianidade dos
Kawahib.
O quarto componente realizou-se com a análise das informações secundárias
obtidas através das referências bibliográficas e documentais com as informações
primárias (adquiridas em campo com a pesquisa e percepções acerca do cotidiano e
ambiente) e o estabelecimento da fundamentação teórica, ou seja, a Tese propriamente
dita. Esse componente refere-se ainda às atividades em escritório com a preparação
e elaboração das representações cartográficas convencionais e outros instrumentos
necessários à Tese.
De modo sintético, o roteiro metodológico do trabalho científico é apresentado
em espiral, cuja área central representa o início – seu núcleo duro, em que se exige
maior atenção e dedicação do pesquisador, e configura a ideia de labirinto, mas com
a perspectiva de chegar ao ponto desejado, conforme se observa na figura a seguir.
Destarte, constata-se que a complexidade da temática indígena exige distintos
tipos e níveis de abordagens epistêmicas, por se tratar de uma compreensão que se
fundamenta na Fenomenologia, cujos elementos se revestem de significância na
análise do pesquisador.
Outro ponto a ser considerado na abordagem epistêmica, orientada à temática
proposta, é que as atividades da pesquisa jamais ocorrem de forma estagnada, isto
porque são orientadas para uma atitude de inter-relação e complementaridade,

160
A pesquisa etnogeográfica com os Kawahib em Rondônia: desafios, trilhas e horizontes

sendo que a ação humana ocorre no tempo e no espaço por meio de formas, de
representações simbólicas e de presentificações.
Figura 1. Trilhas da pesquisa.

Etnografias em redes e territórios


Para além das experiências das trilhas
No transcurso do trabalho de campo, dois temas tornaram-se fundamentais: a
territorialidade e a identidade – djara-gã (gente) - como elementos integrantes para
a discussão das formas simbólicas presentificadas nos “marcadores territoriais”. É
evidente que a compreensão dos “marcadores territoriais” situa-se no terreno das
representações, na qual a cultura, modo de vida, espiritualidade, fazem parte do
contexto do Coletivo Kawahib.
No entendimento de culturas com valores distintos dos nossos, porque
raramente questionamos quais são as bagagens, nível de interação e intervenção
feitas no território que muitas vezes assinam pela subalternidade fixada pelo poder
das instituições e pelas especialidades profissionais. Numa pesquisa de aplicação e
que envolve indivíduos e coletividades, alguns elementos devem ser ponderados
como norteadores da ação do pesquisador.

161
Adnilson de Almeida Silva

[...] envolve observação com anotação mental constante, muitas vezes, significa
deixar o papel de escriba das anotações de campo, enquanto pesquisadora [...]
acontecem as ricas conversas informais e/ou para a longa viagem de volta ao
campo. Esse é o ônus que se paga em um contexto de pesquisa aplicada [...]
há armadilhas conceituais relacionadas a temas cristalizados, emblemáticos do
positivismo, por exemplo, o trio ‘confiabilidade’, ‘validade’ e ‘generalização’ [...]
dois conceitos são importantes: a identidade e as representações sociais [...]
(CAVALCANTI, 2008, p. 238-239).

Essas reflexões como processo de amadurecimento intelectual, no nosso


caso, referem-se a nossas experiências anteriores (ALMEIDA SILVA, 2007a; 2007b,
ALMEIDA SILVA; SILVA, 2007) e que, de certa maneira, se não atentarmos a alguns
detalhes pequenos, podem esconder ou deixar de revelar aspectos e elementos
fundamentais de um coletivo ou agrupamento humano.
Assim, esses pequenos detalhes podem desvendar, através da forma simbólica,
Etnografias em redes e territórios

da cosmogonia, da materialidade, da cultura, dos valores e dos mitos, grandes


contributos indispensáveis à compreensão sobre a organização do espaço de um
coletivo indígena e seguem um rito peculiar, cuja característica maior é distinguir-se
na forma de representar em relação aos demais coletivos humanos.

Alguns senões na realização de pesquisas


Uma das questões mais emblemáticas para o pesquisador de temática indígena
inicia-se quando da busca de aprovação de seu projeto junto aos Comitês de Ética
das Universidades, porque ele se depara com uma série de documentos que precisam
ser preenchidos, analisados e, quando aprovados, seguem um longo caminho.
Posteriormente, o projeto é encaminhado à sede nacional da Fundação
Nacional do Índio – FUNAI e a outros órgãos para que se obtenha parecer favorável
e autorização, sendo necessária ainda a permissão dos indígenas para o ingresso em
suas terras. Numa previsão otimista, demora-se aproximadamente um ano para obter
todas as autorizações e assim ocorrer o início da pesquisa - geralmente a autorização
é para um período de doze meses.
Finda essa etapa de caráter eminentemente burocrático, é hora de ir a campo
para a coleta de dados, o que muitas vezes transforma-se em quase saga, conforme
breve relato a seguir.
A primeira das grandes dificuldades operacionais de realização de pesquisa
na Amazônia deve-se às enormes distâncias geográficas que se medem não por
quilômetros, mas em dias, número de meandros e estirões de rios, número de
dias em caminhada pela floresta. Ainda é necessário mencionar as dificuldades
geográficas relacionadas ao relevo, à hidrografia e à floresta, que, em muitos pontos,
são intransponíveis, portanto, inacessíveis.

162
A pesquisa etnogeográfica com os Kawahib em Rondônia: desafios, trilhas e horizontes

Com isso é muito comum que a realização de uma pesquisa necessite de


estratégias de deslocamento, tais como: deslocamento em aeronaves, ônibus, carroças
de tração animal, caminhões e camionetes tipo “pau-de-arara”, tratores, lombos
de animais, barcos e canoas, motocicletas, bicicletas e, até mesmo, por meio de
caminhadas.
No nosso caso de estudo, na TIEWW, havia dois grandes condicionantes
relacionados ao clima: a seca e a chuva. Devido às condições climáticas de Rondônia,
o período chuvoso, que se inicia em outubro e se estende até meados do mês de
maio, a situação das estradas municipais e linhas vicinais ficam precárias e, em muitos
pontos, totalmente intransitáveis, o que coloca em risco instrumentos de trabalho
e a própria vida de quem se arrisca a percorrê-las.
É muito comum nesse período ocorrerem intensas inundações e
transbordamento de rios e igarapés que carregam os pontilhões de madeira, com

Etnografias em redes e territórios


isso, os custos financeiros da pesquisa se elevam significativamente.
No interior da TIEWW, na floresta tem-se o perigo eminente de ataques de
animais predadores (onça, porco-do-mato etc.), peçonhentos (cobras, escorpiões,
morcegos, aranhas, formigas, entre outros), armadilhas naturais (cipós, espinhos,
locais escorregadios, fendas/buracos camuflados no solo e queda de árvores e
galhos), sendo que, no período chuvoso, é comum ser surpreendido no meio da
noite com chuvas torrenciais e alagações que dificultam a caminhada no interior
das trilhas da floresta.
No período de estiagem, a escassez de chuvas transforma rios e igarapés em
cursos intermitentes e as poucas águas restantes são impróprias ao consumo, sendo
que sua ingestão pode ocasionar a morte. Assim, dependendo da localização de um
curso d’água, é possível que se passe um ou mais dias sem banho.
Uma das saídas para hidratar o corpo é a utilização de cipós e plantas que
são verdadeiros depósitos de água, entretanto, é indispensável todo cuidado para a
escolha certa, devido ao perigo de intoxicação. Em tal aspecto, a presença de alguém
que detém o etnoconhecimento e a familiarização com a floresta é mais do que
oportuno, é uma questão de sobrevivência.
Outro componente que ocasiona dificuldade é a alta umidade da floresta
que, aliada ao calor constante da região – a exceção ocorre em junho/julho, com
o fenômeno da friagem e a diminuição da umidade –, muitas vezes pode oferecer
prejuízos à saúde.
Um aspecto que entendemos como fundamental para pesquisas relacionadas
às questões indígenas e populações tradicionais é o desapego de conceitos prévios
sobre outras culturas e que essencialmente conecta-se também com os “tabus” de
alimentação. Sob essa condição, o alimento (carne de animais, peixe, insetos, vegetais)
ou a bebida oferecida por essas populações não devem ser rejeitadas, até mesmo em
função de que, no interior da floresta e das áreas ribeirinhas, em muitas ocasiões,

163
Adnilson de Almeida Silva

esses são os produtos existentes e que garantem a vida das pessoas.


O etnoconhecimento e o conjunto de técnicas adquiridas com a experiência
no espaço de ação é algo que, dentro da floresta e no desenvolvimento de uma
pesquisa, não podem ser preteridos. Um exemplo disso ocorre quando alguém fica
doente (doença natural, picadas de animais peçonhentos, lesões, entre outras), onde
a logística de transporte e atendimento à saúde é difícil, então se debela o problema
com a utilização dos etnoconhecimentos dessas populações.
Ainda relacionado à saúde, numa pesquisa com indígenas e populações
tradicionais, é recomendável que o pesquisador tenha sempre um kit de medicamentos
e pacote de alimentos calóricos de rápida absorção (açúcar, barrinhas de cereais,
mel, entre outros).

Para não concluir


Etnografias em redes e territórios

Em uma pesquisa acadêmico-científica voltada aos indígenas e populações


tradicionais, a metodologia aplicada e seus resultados dependem muito de como
o pesquisador traça os objetivos, mas não pode ser uma fórmula pronta, isso em
razão das culturas terem distintos pontos de apreensão e representação de mundo.
A pesquisa descrita neste trabalho atendeu nossos anseios, entretanto, não
existe uma garantia total de que teria os mesmos resultados se fosse aplicada com
outras populações em outras partes do planeta. É possível que sim, entretanto, cabe
ao pesquisador encontrar o caminho que deseja percorrer.
Do ponto de vista das culturas, e para o sucesso de uma pesquisa participante, o
que pode ser destacado pelo pesquisador é sua participação nas atividades cotidianas
e ritualísticas para as quais é convidado, porque, além de experimentar essas vivências,
possibilita a aproximação e o respeito aos valores culturais.
O trabalho científico realizado e concretizado na tese efetivamente teve início
em 2006, e prosseguiu até 2009, trazendo vários aprendizados, como o fato de
percorrer mais de 40 quilômetros na floresta para auxiliarmos no restabelecimento
físico da antiga maloca-cemitério de Inãmõrarikãgã, forma e presentificação simbólica,
sendo esta um importante “marcador territorial” dos Jupaú.
A segunda lição foi compreender as sutis diferenças de visão de mundo de dois
povos Kawahib, os Jupaú e os Amondawa que habitam o mesmo espaço, entretanto,
suas territorialidades são distintas, em razão de “sua vida e ao seu mundo, pode-se
fundar nos usos propositados de intuição decisiva da organização social” (VIVEIROS
DE CASTRO, 2006, p. 403). Essa condição diz respeito a cada atualização da vida
prática do coletivo, em que dinamicamente a cultura se refaz como forma de se
presentificar, entretanto a ideia central da cosmogonia atua como permanência.
A terceira aprendizagem resultou da excelente experiência não apenas do
ponto de vista acadêmico, mas principalmente, pelo grande aprendizado de valores

164
A pesquisa etnogeográfica com os Kawahib em Rondônia: desafios, trilhas e horizontes

culturais, humanos, sociais refletidos em seu modo de vida, inclusive ser aceito e
respeitado como um deles – um parente, receber o nome indígena de Apinagá.
Conclui-se, desse modo, que os aportes teóricos e metodológicos relacionados
à vivência e à experiência no espaço de ação (dos e com) Kawahib contribuíram na
construção do trabalho científico e, em contrapartida, ofereceu-se a possibilidade
de sua visibilidade no contexto da sociedade envolvente. Aos Uru-Eu-Wau-Wau
(autodenominados Jupaú ou Pindobatywudjara-Gã), aos Juma e aos Amondawa
(autodeterminados de Envuga) nosso agradecimento pelo respeito e amizade.

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9 Etnografia Multilocalizada em
Antropologia e Geografia

Lucas Manassi Panitz


Luis Felipe Rosado Murillo

Etnografias em redes e territórios


Introdução
A proposta de etnografia multilocalizada – multi-sited ou
multi-localeethnography, em inglês – foi elaborada no contexto do
debate em torno da chamada crise paradigmática das ciências sociais
(IANNI, 1991; MARCUS; FISCHER, 1986; SANTOS, 2000). No
caso específico da antropologia, a proposta procurou responder
à questão da crise das representações para a escrita etnográfica e
retomar a renovação da orientação para o trabalho de campo, bem
como da reflexão teórica acerca da articulação de escalas de análise.
O uso do desenho de pesquisa multilocalizada em Geografia pode
ser identificado, por sua vez, e ainda que não nominalmente, pelo
trabalho de pesquisadores de campo que se ocuparam de redes
sociais com foco em processos de multi e transterritorialidades,
como em Haesbaert (1997) e Dorfman (2009).
Neste artigo, nós realizamos um breve percurso histórico acerca
da proposta de etnografia multilocalizada com foco em sua aplicação
no contexto da geografia e antropologia culturais. Apresentamos e
discutimos exemplos retirados de projetos de pesquisa dos autores
cuja orientação teórica e metodológica teve como base o projeto de
trabalho de campo, etnografia multilocalizada, realizada e voltada
principalmente para o estudo de fenômenos transnacionais. Como

In: HEIDRICH, A. L. & PIRES, C. L. Z. (orgs.). Abordagens e práticas da pesquisa


qualitativa em Geografia e saberes sobre espaço e cultura. Porto Alegre:
Editora Letra1, 2016, p. 169-193. DOI: 10.21826/9788563800220
Lucas Manassi Panitz e Luis Felipe Rosado Murillo

parte da conclusão, discutiremos os pontos de convergência e divergência acerca


da proposta na antropologia e geografia, tendo em vista a abertura para renovadas
formas de posicionamento político das pesquisadoras e pesquisadores em campo.

Noção de campo em debate na antropologia


A tradição antropológica de estudo etnográfico tem origem no contexto
da história natural e da prática de campo dos naturalistas europeus do século XIX
(BARTH et al., 2010; KUCLICK, 1997). No livro As Palavras e as Coisas, Foucault
(1966) descreveu, dentre outras transições no campo dos saberes enquanto
protociências, a transição da história natural para a biologia moderna. Em uma
entrevista concedida ao antropólogo norte-americano Paul Rabinow, Foucault
discutiu o processo de espacialização que acompanhou a nova orientação em torno
das ciências biológicas nos seguintes termos:
Etnografias em redes e territórios

o que chama atenção a respeito das mutações e transformações do século XVII


é ver como a espacialização do conhecimento foi um dos fatores de constituição
desde conhecimento como ciência. Se a história natural e a classificação de
Lineu foram possíveis, é por um certo número de razões: de um lado, houve
literalmente a espacialização do próprio objeto de suas análises, uma vez que a
eles se impuseram a regra de estudar e classificar uma planta apenas com base
naquilo que era visível (FOUCAULT, 1984, p. 2541).

É nesse sentido que o objeto da biologia, bem como o da antropologia,


enquanto disciplina empírica, é espacializado. A orientação naturalista do final do
século XIX teve um grande impacto na Antropologia com efeitos sentidos até os dias
de hoje, a despeito do desenvolvimento de abordagens críticas como o da etnografia
histórica e a crítica das relações entre a antropologia e o colonialismo britânico.
Com base na expedição pioneira às ilhas do estreito de Torres, organizada pelo
naturalista Haddon em 1889, Malinowski (1950) aprofundou a definição do trabalho
de campo ao elaborar as “três pedras fundamentais” da etnografia: 1) isolamento
do pesquisador da companhia daqueles que compartilham da mesma cultura com
o objetivo de obter um contato mais próximo com nativos e com a vida tribal; 2)
inspirar-se pela teoria, mas se liberar de ideias preconcebidas quando o campo
traz à tona novas evidências; 3) oferecer uma representação clara da constituição
social da vida tribal. Em sua orientação para o trabalho etnográfico com base na
observação participante, Malinowski seguiu a orientação metodológica de Haddon
e de seu orientador e participante da expedição, C. G. Seligman, de estudar as Ilhas
Trobriand in situ e em profundidade. Essa orientação foi constituída, ainda que de
forma bastante tangencial, com o posicionamento evolucionista em defesa do método

1 Todas as traduções de trechos em língua estrangeira para o português foram realizadas pelos
autores.

170
Etnografia Multilocalizada em Antropologia e Geografia

comparativo: ao conduzir diversos estudos de caso, os antropólogos, tanto quanto


os biólogos, teriam a possibilidade de comparar grupos, elencando-os em escala
evolutiva (KUKLICK, 1997). Essa tradição embasou a noção de campo enquanto
espaço geográfico delimitado e discreto que, por vezes, é confundida com a de sítio
geográfico até os dias de hoje.
A etnografia multilocalizada diz respeito mais a um quadro de referências
conceituais contemporâneas do que a uma estratégia para a realização prática do
trabalho de campo. A proposta procura reagir à tradição de estudos etnográficos
com base no contexto de transformações do panorama de produção de ferramentas
teóricas e metodológicas das ciências sociais do final dos anos 1960. Ela também
implica, sobretudo, na pressuposição de que o trabalho de campo consiste em uma
“complexa teia de interação na qual pesquisadores e pesquisadoras2, em colaboração
com seus sujeitos de pesquisa, convencionalmente concebidos como informantes e

Etnografias em redes e territórios


localizados em uma variedade contrastante de contextos, traçam conexões dentre
redes, mutações e influências de forças culturais e pressões sociais cambiantes”
(MARCUS; FISCHER, 1986, p. XVIII).
O trabalho de George Marcus situa-se em um contexto de transformação
da antropologia Norte-Americana e tem contribuído substancialmente para a
sua retomada crítica. O autor fez parte de uma nova geração de antropólogos (e
ex-alunos) de Geertz que problematizou o projeto de interpretação cultural como
objetivo último da antropologia sem a devida problematização da relação entre o
antropólogo e o produto de seu trabalho, o texto etnográfico, e a relação entre a
produção teórica e o posicionamento político do analista. Junto com Dick Cushman
e James Clifford, Marcus (CLIFFORD; MARCUS, 1986; MARCUS; CUSHMAN,
1982) elaborou a crítica da literatura etnográfica sob a influência dos estudos da
linguagem, sugerindo uma nova forma de produção de conhecimento: não mais a
busca do sentido de símbolos públicos como postulava a antropologia de Geertz
(1989), mas a historicização do texto e a análise do caráter polifônico do discurso
antropológico do qual participam diversas vozes, especializadas e não-especializadas
como aquela do antropólogo e de seus pares, bem como dos grupos que estudam
e da diversidade encontrada sob a rubrica nebulosa do estudo de uma cultura
(supostamente) discreta. “Anthropology as Cultural Critique”, de Marcus e Fischer
(1986), constitui-se num ensaio que serviu como manifesto bastante influente para
uma geração de pesquisadores que tomaria a cena da antropologia norte-americana
ao final dos anos 1980 e ao longo dos anos 1990, condensando debates da primeira
metade dos anos 1980 — durante o mesmo período em que se realizavam os

2 Ao nos referirmos aos termos “pesquisadores”, “geógrafos” e antropólogos”, indicamos que


a generalização indica tão somente uma economia no texto pois, ao fazermos, nos referimos
tanto a estudiosos do sexo masculino quanto feminino e transgêneros.

171
Lucas Manassi Panitz e Luis Felipe Rosado Murillo

seminários de preparação da coletânea-manifesto “WritingCulture”, de Clifford


e Marcus (1986), reunindo um conjunto de ensaios críticos sobre o estado da
antropologia (nos Estados Unidos) e da necessidade de uma renovação teórica e
sobretudo política3.
O texto de revisão da literatura “The Emergence of Multi-sited Ethnography”,
de Marcus (1995), tornou-se uma das mais influentes intervenções no debate
contemporâneo sobre as transformações do fazer etnográfico. Nas palavras do autor, o
objetivo da abordagem multilocalizada é o de “iniciar com uma visão prévia do sistema-
mundo e fornecer uma descrição etnográfica dele através do compartilhamento das
formas de vida local que o sistema encompassa e que, portanto, levam a novas e
revisadas visões da natureza do sistema em si, traduzindo suas qualidades abstratas
em termos integralmente humanos” (p. 171). Apesar da sugestão metodológica
de “seguir” o fluxo de história de vida dos atores, dos objetos, dos conflitos, das
Etnografias em redes e territórios

metáforas e das associações, a proposta de etnografia multilocalizada consiste no


deslocamento da forma canônica de trabalho de campo em uma única localidade
ou dimensão combinada com o esforço de descrição e interpretação de “circulação
de sentidos, objetos, identidades” (p. 96). Uma das características-chave da prática
de campo multilocalizada, sugere Marcus, consiste em traduzir “um idioma cultural
ou linguagem em outro [...] uma vez que o campo não é praticado no sentido
primeiro, dualista “nós-eles” que enquadra as etnografias tradicionais”, o que requer
mais atenção às nuances, apagamentos, desvios, deslizes, uma vez que a “prática de
tradução conecta várias localidades que a pesquisa explora ao longo de não-esperadas e
dissonantes fraturas da localização social” (p. 100). A pesquisa multi-sited é desenhada
para dar conta de “encadeamentos, caminhos, trilhas, conjunções e disjunções, ou
justaposição de localidades nas quais o etnógrafo estabelece certa presença literal,
física, com uma lógica explicitamente colocada de associação ou conexão através de
localidades que, de fato, definem o argumento da etnografia” (p. 105).
A antropologia contemporânea, sobretudo a partir dos anos 1990, é também
revista e renovada por outra abordagem crítica que poderia ser categorizada com a
“virada espacial” – a virada da disciplina para os estudos críticos do espaço, do lugar
e dos fluxos culturais para além do legado imperialista constitutivo do campo dos
“estudos de área” (area studies) norte-americanos e da noção de “campo” em uso desde
a contribuição de etnografias clássicas da escola britânica da primeira metade do século
XX. A crítica espacial e a discussão dos fluxos históricos, culturais, e econômicos possui
uma genealogia mais ampla que remonta aos trabalhos de Wolf e Eriksen (2010 ) e a
crítica do estudo da cultura como uma entidade apartada de outras entidades, como

3 A discussão pormenorizada da abordagem chamada “pós-moderna” na antropologia norte-americana


está para além do escopo deste capítulo. Para uma crítica feminista fundamentada desta corrente, veja
Behar e Gordon (1996) e Olson e Hirsh (1995).

172
Etnografia Multilocalizada em Antropologia e Geografia

se as sociedades que a antropologia estuda fossem bolas de biliar, na famosa metáfora


oferecida pelo autor) e no trabalho de grande alcance crítico e transformador, também
produto de um seminário, “Antropology and Colonial Encounter”, organizado por
Asad (1973), em que o legado de violência simbólica, econômica, e estrutural do
colonialismo inglês com a cumplicidade da escola antropológica britânica é avaliado
por autores que foram treinados na Inglaterra. É somente no inicio dos anos 1990,
com os trabalhos de Gupta e Ferguson (1992) e Appadurai (1988) no campo dos
estudos da globalização que esta orientação ganha maior espaço, criando um campo
de estudos da globalização enquanto circulação de grupos étnicos, capital, bens
culturais e infraestruturas sociotécnicas. É na primeira metade dos anos 1990 que
são lançadas as coletâneas de estudo da globalização por Inda e Rosaldo (2002),
e de antropologia da paisagem e do lugar, por Hirsch e Ohanlon (1995), trazendo
uma série de intervenções que problematizam o “encontro circunstancial entre o

Etnografias em redes e territórios


antropólogo voluntariamente deslocado e o ‘outro’ involuntariamente localizado”
(APPADURAI, 1988).
Em “World in Motion”, Inda e Rosaldo (2002) argumentam em favor de uma
nova visão para os estudos da condição global que não estejam limitados aos discursos
de superfície sobre homogeneização, ocidentalização e norte-americanização do
mundo. A noção de “deslocalização”4 sugere que diferentes condições culturais não
são mais bem vistas “com base no modelo monolítico da relação centro-periferia,
mas como lugar cultural interconectado, um lugar de fluxos que se cruzam e de
sistemas de significado que se interceptam” (INDA & ROSALDO 2002, p. 26). A
globalização, nesse sentido, reflete uma intensificação de fluxos culturais, econômicos
e migratórios com a interconexão e a recriação dos laços (ou grilhões) de dependência
através do planeta. Para além da tendência à homogeneização e imposição de bens
culturais com vistas à acumulação flexível de capital, a condição global é marcada por
contrastes e desequilíbrios: certas localidades estão mais bem situadas e centralmente
conectadas do que outras; para certos grupos, é permitida a circulação, para outros, a
circulação é veementemente proibida e policiada, tema tratado também do ponto de
vista geográfico por Haesbaert (2011). O capital financeiro e a intensa circulação de
mercadorias possuem circuitos particulares e dedicados que não estão distribuídos de
forma homogênea através de regiões e fronteiras nacionais. Contra a definição estrita
da globalização enquanto imperialismo cultural, Inda e Rosaldo (2002) sugerem que
não há desacomodação de significados cotidianos sem uma forma de territorialização,
ou, em outras palavras, “para cada processo de desterritorialização, como a política, as
identidades, comunidades e formas de consumo são destacadas de contextos locais”
(KEARNEY, 1995, p. 554), há um contramovimento de territorialização que recria

4 Emprestada da análise de Laclau (1990).

173
Lucas Manassi Panitz e Luis Felipe Rosado Murillo

bens culturais em circulação no contexto da experiência coletiva e histórica de grupos


particulares. Essa discussão é particularmente bem desenvolvida no contexto da
geografia política e cultural dos processos de territorialização-desterritorialização que
apontam para a necessidade de desenhos de pesquisa que se utilizem da etnografia
multilocalizada.
Em “Spatial Practices”, James Clifford (1997) discute o conjunto de imagens
que a noção de campo evoca, tais como a barraca de Malinoski, nas ilhas Trobriand,
ou as fotos de Margaret Mead, em Samoa. O ponto de ancoragem da discussão
gira em torno da noção de prática espacial que se utiliza dos trabalhos de Certeau
(1994) e Certeau, Giard e Mayol (2008), no qual o espaço é conceituado como
dependente das dimensões experienciais e históricas do corpo e do discurso, bem
como da experiência dos agentes sociais em movimento no espaço, o que também
serve como crítica da noção modernista de espaço cartesiano. Clifford argumenta
Etnografias em redes e territórios

que o uso e a definição da noção de “campo” estão mudando e sendo disputados. A


questão do que atualmente passa por trabalho de campo legítimo é muito produtiva
uma vez que aponta para questões cruciais que a antropologia contemporânea
enfrenta com a transformação da paisagem teórica e metodológica das ciências
sociais, transformação de noções longamente estabelecidas e arraigadas como as
de cultura, lugar e campo. As transformações da antropologia são acompanhadas
de um sentimento de diferença cultural sentida de forma bastante forte no contexto
doméstico, o que justifica o trabalho de campo na sociedade na qual o antropólogo
possui laços, mas não ao lugar, localidade ou grupo ao qual o/a etnógrafo/a pertence.
A discussão de Gupta e Ferguson (1992) acerca da noção de campo refere-
se à produção do conhecimento em antropologia com base em “saberes locais”
(GEERTZ, 1997) e nas estratégias retóricas de construção do Outro empregadas
por etnógrafos e etnógrafas enquanto produtores de conhecimento de segunda
ordem. Ainda que a antropologia tenha se definido historicamente como “ciência de
campo”, pouca reflexão crítica foi dedicada à questão da prática de campo, apesar de
termos a etnografia como método antropológico por excelência. A contribuição de
Gupta e Ferguson reside no deslocamento da noção e da prática de campo orientada
pelo imperativo malinowskiano da delimitação e espacialização para a noção de
fluxos, conectando lugares e redefinindo fronteiras. A nova orientação, que surgiu
nos trabalhos de Marcus, Gupta, Rosaldo, Appadurai e Ferguson, por exemplo,
tem ajudado a deslocar a noção de campo – no sentido de área delimitada – para
um modo de pesquisar que se ocupa da interconexão e da articulação de múltiplos
lugares e localidades sociopolíticas (GUPTA; FERGUSON, 1992). É nesse sentido
que se busca descrever, com base na etnografia, a “produção das localidades” no
encontro de processos e eventos de ordem, ao mesmo tempo, local e global. O efeito
de desfetichização do campo em antropologia carrega também um efeito político

174
Etnografia Multilocalizada em Antropologia e Geografia

evidente: o da desautorização de certos agentes antropológicos do privilégio de falar


sobre e em nome do Outro. A etnografia multilocalizada figura nesse contexto, em
suma, como um recurso metodológico central, uma vez que renovado com novas
formas de circulação e engajamento entre pesquisadores e seus colaboradores para
o trabalho de investigação de práticas culturais.
A abordagem multilocalizada não está imune a uma série de riscos que dizem
respeito à aceleração da vida social, a dificuldade de «acesso» ao campo, o que
tem sido um ponto fundamental da discussão sobre o fazer etnográfico e as forças
de relacionamento superficiais e marcam as formas caracterizadas pela etnografia
"drive-by” (MILLS; RATCLIFFE, 2012) e pela etnografia “por agendamento”
(HANNERZ, 2006). Esses problemas dizem respeito às condições de possibilidade
de aprofundamento da experiência relacional, o que tem sido a marca distintiva do
trabalho de campo etnográfico. Em sua reflexão sobre a antropologia contemporânea,

Etnografias em redes e territórios


Hannerz (2003) discute os problemas que surgiram em seu trabalho de pesquisa
entre correspondentes internacionais em Tóquio, Jerusalém e Johanesburgo. O autor
sugere que o termo “multilocal” é insuficiente uma vez que se trata fundamentalmente
de um trabalho etnográfico translocal, ou seja, do trânsito do objeto, dos agentes e da
pesquisadora através de localidades em que certas processos e práticas culturais são
elaboradas, ressignificadas, reproduzidas, transformadas etc. Em relação ao problema
da profundidade e do cultivo das relações em campo, o formato canônico legado
para outras antropologias nacionais, sobretudo com base em etnografias clássicas
da escola britânica, consistia em um trabalho de campo de, no mínimo, um ano: o
tempo mínimo suficiente para a observação dos ciclos de atividade política, legal/
moral, econômica, e religiosa ao longo das estações do ano. Esta orientação carregava
o imperativo da descrição da vida social e explicação de instituições culturais em sua
pretensa totalidade. O objetivo era o da reconstrução das relações sociais observáveis
e explicação das funções que cumpriam para a manutenção de um determinado
coletivo. A questão do relacionamento em campo, observa Hannerz, no contexto
da etnografia multilocalizada diz respeito ao posicionamento do etnógrafo em redes
sociais transnacionais, o que distingue a natureza da etnografia contemporânea em
relação aos trabalhos de orientação canônica. A antropologia constitui-se, dentre
as dificuldades práticas e as transformações do panorama teórico da disciplina, na
“arte do possível” (HANNERZ, 2003, p. 213).

Recompondo as relações entre geografia e antropologia


Duas disciplinas tão próximas quanto o próprio desenvolvimento das ciências
humanas: assim Geografia e Antropologia caminharam lado a lado por diversas vezes,
enriquecendo-se mutuamente, sobretudo em seu estágio inicial de desenvolvimento.

175
Lucas Manassi Panitz e Luis Felipe Rosado Murillo

Capel (1985) ofereceu um estudo detalhado desta relação. Segundo o autor, a

ampla utilização de monografias e trabalho de campo, a classificação e comparação,


assim como a utilização sistemática da indução e a ênfase na importância do
método comparativo (p. 24)

são características iniciais marcantes das duas disciplinas, bem como a


semelhança no processo de institucionalização. Atribui-se, por exemplo, a Ratzel,
geógrafo e arqueólogo, importantes contribuições à etnologia, sobretudo nos
estudos de difusão, posteriormente atualizados sob a rubrica de kulturkreis, pelos
etnólogos Leo Frobenius, Fritz Graebner e Wilhelm Schimidt, pertencentes à Escola
Histórica Austríaco-alemã do início do século XX (ERICKSON; MURPHY, 2013).
A perspectiva difusionista influenciou decididamente Franz Boas (primeiramente
geógrafo de formação) e seus discípulos, tais como Ruth Benedict e Alfred
Etnografias em redes e territórios

Kroeber. Além disso, Boas contribuiu com a noção de cultura de raiz romântica,


ligada de forma íntima à noção de ambiente, o que expressava a transdisciplinaridade
de sua formação nas ciências naturais e a sua exposição ao debate alemão acerca
das chamadas ciências históricas. Boas insistiu sobre a importância do ambiente
na geração da diferença entre grupos sociais, sendo as diferenças culturais tanto
materiais – referentes à paisagem e à cultura material – como espirituais – quer dizer,
aos modos de vida, linguagem, e cosmologia.
Ao final do século XIX e início do século XX, nos Estados Unidos, Franz Boas
e Carl Sauer avançaram uma alternativa antropogeográfica para a dicotomia que
prevalecia no contexto de desenvolvimento primevo da geografia humana, a saber,
o naturalismo de Humboldt, cujo argumento da determinação geográfica da cultura
contrastava com a escola Francesa de Vidal de La Blache e a proposta geográfica
do possibilismo, defendendo que a paisagem é formada diferentemente de acordo
com a presença humana e a variação cultural. Ex-aluno de Boas, Alfred Kroeber
tornou-se parceiro frequente de Carl Sauer na chamada Escola de Berkeley. Nos
departamentos de Geografia e Antropologia fundados na virada dos séculos XIX e
XX (1898 e 1901, respectivamente), na Universidade da Califórnia, em Berkeley, a
chamada “Escola de Berkeley” inaugurou não somente a Geografia Cultural norte-
americana que sustentou a perspectiva difusionista e histórica em contraposição ao
determinismo ambiental, como também ajudou a formar a história ambiental e a
ecologia de paisagem, como observado por Mathewson e Seemann (2008).
Na França, é exemplar o trabalho de Jean Gallais e de suas pesquisas
etnogeográficas na África setentrional, especialmente na faixa do Sahel, no
delta interior do rio Niger, Mali, Camarões, Etiópia, bem como no Nordeste do
Brasil. Devem-se a Gallais as primeiras reflexões propriamente geográficas sobre
o espaço vivido no mundo tropical, além dos conceitos de distância estrutural,
afetiva e ecológica (GALLAIS, 1998). Outro geógrafo e etnólogo dos trópicos,

176
Etnografia Multilocalizada em Antropologia e Geografia

Joel Bonnemaison, com amplos estudos na Oceania, insiste no binômio território-


etnia e na consideração dos geossímbolos como fundamentais para uma abordagem
cultural em geografia (BONNEMAISON, 2002).
No Brasil, a relação entre geografia e antropologia remonta à própria
institucionalização destas disciplinas nas universidades brasileiras, a partir das
missões francesas na USP nas décadas de 1930 e 40. Inicialmente com Pierre
Deffontaines, fundador da Revue de Géographie Humaine et d’Ethnologie na França,
e posteriormente com os trabalhos de Claude Lévi-Strauss e Pierre Monbeig, nas
zonas pioneiras de café no norte do Paraná e oeste de São Paulo (PEIXOTO, 1998;
THÉRY, 2008). Deffontaines participou da Associação dos Geógrafos Brasileiros
(AGB), em São Paulo, que contou com a participação de Lévi-Strauss, Monbeig
(futuro presidente da AGB), Roger Bastide, Caio Prado Júnior, entre outros. Em
décadas posteriores, os movimentos institucionais feitos pela Geografia brasileira se

Etnografias em redes e territórios


afastam da Antropologia, seguindo a tendência dos países centrais; primeiramente
rumo à incorporação dos modelos matemáticos da chamada Geografia Teorética, e
logo posteriormente na aproximação com a Sociologia e com a Economia Política,
a partir da Geografia Crítica (ou “Geografia Radical”, como preferem os países
anglófonos). Concomitante à renovação da Geografia por meio de sua vertente
crítica, cresce também, ainda que em número bem menos expressivo, a abordagem
humanista com a contribuição decisiva de Lívia de Oliveira, na UNESP Rio Claro,
com um viés claramente construtivista, inspirado na psicologia genética de Jean
Piaget, e posteriormente no trabalho do geógrafo sino-canadense Yi-fu Tuan. Lívia
de Oliveira foi responsável pela tradução para o português dos emblemáticos livros
de Tuan, Topofilia e Espaço e Lugar, além da contribuição inestimável para o campo da
percepção ambiental e do ensino de Geografia (MARANDOLA; GRATÃO, 2003).
A Geografia humanista no Brasil, portanto, inseriu sob novas bases teóricas, o papel
da psicologia humana e do pensamento simbólico na Geografia geral. A partir da
década de 1990, com a formação do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Espaço e
Cultura (NEPEC), por Roberto Lobato Corrêa e Zeny Rosendahl, retomou-se de
vez a abordagem cultural por meio da tradução de textos clássicos e contemporâneos
das geografias humanista e cultural francesa e anglófona (estadunidense, canadense
e inglesa), foram organizadas coletâneas de artigos em livros bem como a revista
“Espaço e Cultura”, uma referência na área.
Nas últimas décadas, existiram pelo menos dois momentos decisivos para
a reaproximação entre geografia e antropologia. A chamada “virada cultural” das
ciências sociais nos anos 1980 trouxe para a geografia a valorização da hermenêutica
e da fenomenologia, com foco na dimensão simbólica do espaço através da geografia
humanista e cultural. Surge, nesse contexto, o interesse pelo papel sociocultural
do imaginário geográfico, da subjetividade, das representações do espaço e do
espaço vivido. Na década de 1990, com a “virada espacial”, a reaproximação foi

177
Lucas Manassi Panitz e Luis Felipe Rosado Murillo

efetivamente realizada com a defesa da importância da imbricação entre escalas


geográficas e a reformulação crítica da noção de campo em antropologia. Na fronteira
com a antropologia, os temas contemporâneos na geografia cultural incluem as
identidades nacionais e seus desencaixes, as redes técnicas e as tecnologias da
informação e comunicação, a circulação de pessoas, mercadorias, e informações
que reconfiguram o espaço em diversos níveis. Com isso, os geógrafos colocam em
evidência o processo de globalização da economia, mundialização da cultura e a
relação entre distintos recortes geográficos. Em nosso entendimento, uma das formas
de estudar esses processos, talvez a mais produtiva delas na contemporaneidade, é
por meio da perspectiva multilocalizada. Ainda que a perspectiva multilocal só tenha
sido colocada nominalmente em trabalhos recentes (PANITZ, 2010, 2013), faz-se
necessário retomar outras pesquisas que já realizaram desenhos metodológicos e
abordagens teóricas similares.
Etnografias em redes e territórios

Hoeffle (2007) esclarece que os momentos de aproximação entre Geografia


e Antropologia podem ser identificados de forma geral como momentos de “crise”
ou de “sintagma crítico”, ou seja, quando há o esgotamento de explicações teóricas
anteriores e quando há esforço coletivo de determinados campos para a formulação
de novas perguntas e abordagens teóricas. Analisando o modelo proposto por
Hoefle para sistematizar a relação Geografia-Antropologia (entre colaboração,
embate e indiferença), nota-se que atualmente o advento da globalização é o que traz
questionamentos em comum para ambas: o papel das identidades territorializadas
e da consequente desterritorialização; o hibridismo cultural; a relação global-
local; os fluxos de mercadorias, informações e pessoas; a aplicação integrada de
métodos qualitativos e quantitativos. O ponto de encontro é, por um lado, o do
reconhecimento, por parte da Antropologia, do papel do espaço na produção do
simbólico e da multiescalaridade dos processos sociotécnicos e culturais; por outro,
no reconhecimento, por parte da Geografia, da especificidade do papel da cultura na
produção do espaço geográfico em suas mais variadas categorias de análise.

O trabalho de campo na geografia: por um desenho multilocal


O fluxo, o trajeto, a trânsito, como base de um trabalho de campo em Geografia,
não são características novas. Ao contrário: percorrer trajetos e articular diferentes
lugares para compreender o território e a paisagem são atributos clássicos do trabalho
geográfico, ainda que recorrendo a interpretações teóricas e quadros epistemológicos
distintos. Eles já estão presentes desde a Ibéria de Estrabão, passando pelos relatos
de viajantes entre os séculos XVI e XIX, até, por exemplo, os relatos de campo de
Pierre Monbeig, observando a paisagem cambiante da janela de um trem. Portanto,
como se pode argumentar por um trabalho multilocalizado em Geografia? Ele não
foi por acaso, desde o seu início, multilocalizado? É preciso, portanto, fazer algumas

178
Etnografia Multilocalizada em Antropologia e Geografia

ressalvas e observações preliminares.


Poderia ser argumentado, também, se as pesquisas de frente pioneiras no Brasil,
levadas por Pierre Monbeig e Leo Waibel (ALVES; FERREIRA, 2011), não tiveram
um caráter multilocalizado. Os dois geógrafos buscaram acompanhar a dinâmica de
transformação da paisagem em seu desenrolar, integrando os diferentes estágios de
transformação dos lugares inventariados. Para isso consideraram fundamentalmente
a análise histórica e o papel da cultura na modelagem da paisagem, renovando as
perspectivas da Geografia clássica alemã e francesa. Monbeig propõe localizar
(observar), descrever (detalhar), comparar (reflexão sistematizada). Waibel, por sua
vez, propõe observar o campo, coletar e sistematizar os dados, descrever características
diferenciadas e propor generalizações. Se a cultura modela a paisagem – ou seja, ela
mesma é um produto histórico e cultural – lembramos de Frobenius5 com base em
Ratzel, que buscou na espacialidade de um objeto – o tambor, no caso – a dispersão

Etnografias em redes e territórios


das sociedades em questão, contribuindo na formulação teórica dos círculos culturais.
O objeto (musical), portanto, era indício e materialidade do trânsito de populações de
outrora que deixaram na cultura local uma certa morfologia. No trabalho multilocal,
o que está em jogo, porém, não é o objeto em si, mas o que ele carrega consigo.
Alterna-se no campo o acompanhamento do que está em trânsito, mas também
daquilo que se fixa para logo após circular novamente.
O avanço tecnológico, o acesso à informação e as bases de dados mundiais, os
sistemas de informação geográfica e a teledetecção, as tecnologias da informação e da
comunicação, por fim, tudo isso poderia levar a Geografia a um retorno ao gabinete.
A promessa de uma terra que havia se tornado plana, por um processo que a tudo
homogeneizaria, porém, apresenta-se como a antítese do que a globalização de fato
se mostrou. Mais do que homogeneização, o que se verifica é um processo contínuo
de criação de situações totalmente novas a partir do contato entre elementos e formas
sociais de distintos lugares, e também a recomposição de situações geográficas e
culturais pretéritas, mas que se engendram de forma desigual em um sistema-mundo.
Compreender esses movimentos da sociedade contemporânea tem requerido
um trabalho de campo em Geografia que instiga as relações de escala e o próprio
significado dos conceitos e categorias geográficas, como região, lugar e território.
O desejo e a curiosidade, típicos da pesquisa geográfica (CLAVAL, 2013), e
os processos de desencaixe do local por meio da globalização, fizeram da articulação
entre os locais um âmbito privilegiado para o trabalho de campo. Sem negar outras
formas de pensar o campo, o que se nota é uma coexistência delas e uma possibilidade
de atravessamentos. O ir-lá (estudar comunidades distantes geográfica e culturalmente

5 Importante ressaltar que Frobenius não era geógrafo, mas sim um etnólogo e arqueólogo
treinado por Ratzel. Contudo, naquele momento (século XIX), os limites disciplinares entre
etnologia, geografia e arqueologia não estavam totalmente claros, e muitos pesquisadores
encarnavam várias figuras e utilizavam métodos caros ao conjunto dessas disciplinas.

179
Lucas Manassi Panitz e Luis Felipe Rosado Murillo

daquela do pesquisador) continua importante; o ir-logo-ali (estudar a comunidade


onde o pesquisador está inserido e/ou se identifica) é cada vez mais frequente; e
o ir-por-aí (o contexto da multilocalidade) se apresenta como uma possibilidade
ainda mais profícua. A terrae incognitae na atualidade não é mais nem o outro-lá (o
distante), nem o mesmo-aqui (o próximo) – mas o entre.
Em termos de trabalho de campo, e/ou desenho metodológico em Geografia,
buscou-se identificar – de forma não-exaustiva – alguns trabalhos que podem ser
considerados de natureza multilocal, ainda que não estejam identificados propriamente
ou nominalmente como abordagens multilocalizadas. O recorte realizado, porém,
está consoante com o interesse de pesquisa dessa tese – a discussão sobre cultura,
território, territorialidade e redes6.
Ao relatar, por meio de observação participante, a dispersão dos sulistas
gaúchos pelo interior do Brasil, mais especificamente pelo oeste da Bahia e sul do
Etnografias em redes e territórios

Piauí, Haesbaert (1997) descreveu a sobreposição entre as territorialidades gaúcha e


nordestina. Ao descrever as distintas orientações e sensibilidades políticas e geográficas
dos migrantes, Haesbaert defendeu que, por exemplo, o grande latifundiário via o
processo de reterritorialização circunscrito à dimensão econômica e dirigindo seu
raciocínio para os circuitos globais de financiamento, produção e circulação. Por
sua vez, o médio empresário possuía interesses vinculados à escala regional, e, por
isso mesmo, buscava interferir no processo político da região. Já a base da população
sulina no nordeste (composta de pequenos e médios agricultores, comerciantes,
profissionais liberais e trabalhadores rurais) é a que

[sofreu] de modo muito mais direto as agruras da desterritorialização enquanto


migrantes; mesmo nesta condição eles [acabavam] forjando uma reterritorialização
que, reforçada pelas desigualdades sociais impostas por uma estrutura econômica
perversa, [alimentava] o preconceito e a estigmatização frente às populações e à
cultura local; consequentemente, [recusavam] perder os laços com a “querência”
(HAESBAERT, 1997).

Haesbaert (1997) conclui que muitos sulistas reforçam seus laços identitários
ao fundarem, por exemplo, os Centros de Tradições Gaúchas que, ainda que
conservadores, constituem-se num contraponto à racionalidade da economia de
mercado que, contraditoriamente, é por esses mesmos grupos difundida. Para
realizar essa pesquisa, o autor não só fez diversos trabalhos de campo no nordeste
brasileiro, como considerou o trajeto que o levava do sul/sudeste até o nordeste –
realizando entrevistas durante o trajeto, no ônibus que o levava, coletando estórias

6 Outros trabalhos, como o de Huertas (2013) sobre o transporte de cargas no Brasil e a


estruturação do território brasileiro, bem como o de Costa (2008), sobre as redes técnicas e
o uso privado do território no Vale do Carajás, constituem-se em desenhos multilocais – haja
vista a compreensão do periodo de globalização na produção do território e o papel atual das
redes, e ainda a circulação dos pesquisadores através das próprias redes em estudo.

180
Etnografia Multilocalizada em Antropologia e Geografia

e compreendendo melhor o processo de trânsito dos agentes em estudo. O objeto


de pesquisa de Haesbaert estava em movimento, por assim dizer, já que não se trata
de uma comparação entre as formações socioespaciais entre o Rio Grande do Sul e
Bahia, mas, sim, das desterritorializações e reterritorializações ocorridas mediante
o encontro de dois grupos e de suas lógicas culturais, econômicas e políticas. A
territorialidade sulista é evidenciada pela reterritorialização de elementos culturais
(leitura dos jornais e escuta das rádios do sul, gastronomia específica, lugares
de sociabilidade como os Centros de Tradições Gaúchas), econômicos (como a
introdução da modernização agrícola) e políticos (atuação junto a associações, cargos
eletivos e partidos políticos). Haesbaert chama de “rede regional” esta articulação
multilocalizada que funciona como uma malha social, proporcionando espaços
de socialização e sociabilidade. O autor inseriu a noção de multiterritorialidade,
definida por ele como:

Etnografias em redes e territórios


territorializações efetivamente múltiplas, resultantes da sobreposição e/ou
combinação particular de controles, funções e simbolizações, como nos territórios
pessoais de alguns indivíduos ou grupos mais globalizados que podem ou se
permitem usufruir do cosmopolitismo multiterritorial das grandes metrópoles.
[...] Multiterritorialidade [...] implica assim a possibilidade de acessar ou
conectar diversos territórios, o que pode se dar tanto através de uma ‘mobilidade
concreta’, no sentido de um deslocamento físico, quanto ‘virtual’, no sentido de
acionar diferentes territorialidades mesmo sem deslocamento físico, como nas
novas experiências espaço-temporais proporcionadas através do ciberespaço
(HAESBAERT 2004, p. 342-344). 

Em uma atualização da discussão acerca das redes e dos processos de


territorialização e desterritorialização, Haesbaert e Mondardo (2010) e Haesbaert
(2011) refletiram sobre a transculturação (em sua vertente dos estudos culturais
latino-americanos), a antropofagia (do movimento modernista brasileiro) e a multi/
transterritorialidade como condição contemporânea de circulação de indivíduos,
recursos, capital, implementos e bens culturais. Para os autores, o hibridismo se
mostra como um processo cultural contínuo de ir-e-vir no qual dialogam e alteram-se
elementos de distintos lugares e naturezas. A multi/transterritorialidade mostrar-
se-ia, em uma primeira análise, como a face geográfica mais ampla do hibridismo,
indicando um movimento de entrada, saída e trânsito entre distintos territórios,
envolvendo não só a dimensão cultural, como também a econômica e a política.
Nesse sentido a

transterritorialidade envolve não apenas o trânsito ou a passagem de um território


ou territorialidade a outra, mas a transformação efetiva dessa alternância em
uma situação nova, muito mais híbrida. Destaca-se a própria transição, não no
sentido de algo temporário, efêmero e/ou de menor relevância, mas no sentido
de “trânsito”, movimento e do próprio “atravessamento” e imbricação territorial
– não um simples passar por mas um estar-entre (idem, p. 34).

181
Lucas Manassi Panitz e Luis Felipe Rosado Murillo

Com outro interesse temático, a geógrafa Adriana Dorfman propôs-se a


analisar o contrabando na fronteira Brasil-Uruguai, mais especificamente entre
Santana do Livramento e Rivera. Para tanto, a autora recorreu a uma Geografia do
Pensamento, quer dizer, ao trabalho de análise da literatura de fronteira e dos contos
de contrabando situados na Comarca Literária do Pampa, como proposto por Rama
(1982). A autora retomou também a discussão geográfica sobre e através das fronteiras,
mostrando a formação socioespacial na fronteira Brasil-Uruguai. O contato das
populações dos dois Estados nacionais criou um cotidiano transnacional com práticas
de tradução cultural. Dorfman identificou em seu trabalho multilocalizado as distintas
formas de contrabando na fronteira: desde pequenos volumes e contrabandos
cotidianos, até o abigeato e a circulação de grandes volumes de mercadoria. Em
suas conclusões, a autora defende que 
Etnografias em redes e territórios

O contrabando organiza lugares e é absolutamente estrutural nessa sociedade, no


abastecimento e no sustento das pessoas, sendo visto mais como trabalho do que
como delito, realizando-se através das redes de solidariedade indispensáveis à sua
execução e legitimação. Além disso o ethos contrabandista cria uma identidade
de lugar, distinguindo outsiders e membros (cúmplices) do grupo, numa
territorialidade com extensão, passagens e polarizações em constante atualização,
dada a variabilidade dos conteúdos da fronteira. (DORFMAN, 2009, p. 7).

O trabalho de campo de Dorfman foi realizado em visitas sistemáticas à região


da fronteira por cinco anos consecutivos, bem como por meio de entrevistas com
fronteiriços, autoridades policiais, professores de Geografia da região, advogados
e artistas. Além de acompanhar o trajeto de algumas bagayeras (contrabandistas
mulheres), a autora confrontou distintas visões e vivências do contrabando na
fronteira. O trabalho de descrição multilocalizado de Dorfman pode-se mostrar
também multissituado, no sentido que se situa diferentemente perante a pesquisa de
formas distintas. Não estão em questão somente os processos sustentados por meio de
práticas em fluxo, nem da passagem de uma escala à outra (no caso, o local/cotidiano
que também atravessa fronteiras), nem o de estar entre duas culturas nacionais,
mas também o de assumir distintas posições (situações) enquanto pesquisadora
em distintas instâncias (política, cultural, literária etc) ao descrever as diferentes
formas de contrabando.
Na esteira de uma abordagem “miltoniana”, Tozi (2012) busca compreender os
caminhos da pirataria na dialética entre a rigidez normativa e a flexibilidade tropical,
expressada em sua pesquisa na diversidade de situações geográficas engendradas
na produção e circulação de objetos técnicos no território brasileiro. Realizando
pesquisas de campo em cidades como São Paulo, Belém, Foz do Iguaçu e Ciudad
del Este, Tozi buscou distintas manifestações envolvidas com os objetos técnicos
tidos como “piratas”, explorando situações como comércio fronteiriço, uma feira
de produtos “piratas” que acontece nas madrugadas de uma região central de São

182
Etnografia Multilocalizada em Antropologia e Geografia

Paulo, as políticas públicas municipais de combate à pirataria e a militarização do


território, e novas formas de reprodução da economia urbana ligadas à cultura. Num
interessante jogo de relações escalares, no quadro interpretativo do meio técnico-
científico-informacional proposto por Milton Santos, o autor realiza análises que
consideram desde os fenômenos globais, às relações entre Estados Nacionais, às
políticas públicas municipais, à escala intraurbana de manifestação da produção e
circulação de objetos técnicos “piratas”. Tozi mostra que o advento atual da pirataria,
intensificado e encadeado em processos globais da economia, se expressa no Brasil
em formas alternadas entre a rigidez normativa – que combate a pirataria de forma
veemente, oprimindo sobretudo o circuito inferior da economia – e a flexibilidade
tropical – geradora de formas de agir e pensar que se expressam nos agentes públicos
ora pela permissividade, ora pelo interesse de lucrar com o fluxo dos produtos
“piratas”, mas também uma flexibilidade que, nas economias urbanas periféricas

Etnografias em redes e territórios


(como no caso de Bélem), é criadora de situações totalmente novas e capazes de
gerar autonomia local.
Fica claro no trabalho dos autores citados, portanto, o interesse da Geografia
em explorar a questão das redes e das circulações de pessoas e objetos, levando ao
tensionamento e enriquecimento da discussão sobre escalas e categorias.
Vemos que, de um lado, a rede articula – enquanto metáfora e instrumento
analítico – distintos lugares mediados, sobretudo por redes sociotécnicas pelas
quais transitam pessoas, mercadorias, informações etc. De outro lado, uma nova
territorialidade passa a se desenvolver não só na articulação dos lugares, mas no
próprio movimento entre os lugares. Grupos sociais contemporâneos na condição
transnacional experimentam uma transterritorialidade cada vez mais comum. Isso
é sensivelmente notado em grupos executivos de empresas globais, funcionários
de órgãos transnacionais (como ONU, OMC, entre outros), grupos de pesquisa
científica em situação de internacionalização, artistas do showbusiness etc. As novas
transterritorialidades possuem características de articulação entre referências espaciais
e culturais de distintos lugares. Pensamos, por exemplo, em artistas da chamada
worldmusic. Neste gênero, as referências dos artistas estão em profunda e constante
reelaboração num esforço de equacionamento entre referências regionais e globais,
bem como de adequação às preferências de consumo do público para produzirem
uma “música global com sabor local”, no dizer de Kong (1996). Principalmente na
Europa e nos Estados Unidos, existe um esforço de compatibilização de ritmos,
harmonias e linguagens entre a música latina, africana e do oriente médio, com as
referências do pop, reggae, blues, folk, jazz e rock, como, por exemplo, em artistas
como BKO Quintet (Mali), Dominique Pinto (Brasil), Kevin Johansen (Argentina),
Jorge Drexler (Uruguai), Hindi Zahra (Marrocos) e Piers Faccini (Inglaterra-Itália).
O interesse geográfico no caso das transterritorialidades não reside só nos imaginários
geográficos e na dimensão corporal da experimentação de contextos transculturais,

183
Lucas Manassi Panitz e Luis Felipe Rosado Murillo

mas também na circulação de objetos e pessoas que animam de fato a rede e os


territórios que a música articula.
A abordagem multilocalizada, portanto, insere uma problemática que a
Geografia tem-se ocupado desde os primórdios da disciplina, a saber, a escala dos
fenômenos e a circulação das pessoas e coisas, porém com outras questões teóricas e
objetos de análise. Com maior interesse nos macroprocessos societais – principalmente
a produção do espaço urbano, a industrialização, o fluxo de mercadorias e pessoas, os
movimentos políticos, as questões regionais –, a Geografia tem-se ocupado em sua
renovação crítica a compreender a relação entre escalas globais, regionais e locais, e
inserindo a cultura como componente fundamental para a compreensão da produção
do espaço. Nesse contexto de renovação teórica e metodológica, a Geografia cultural
e social contemporânea trouxe novos objetos e preocupações de pesquisa que a
aproximaram da Antropologia, dos Estudos Culturais e da Sociologia. A necessidade
Etnografias em redes e territórios

de entender com mais profundidade questões acerca da ação humana, não-humana


e suas espacialidades, levou os geógrafos a considerarem a dimensão simbólica, a
subjetividade e a intersubjetividade sem abrir mão de suas perspectivas críticas e da
formação socioespacial dos recortes geográficos em análise. Dessa forma, a escala
passa a considerar não só as instâncias escalares tradicionais – global, regional,
local – mas também o interior dos grupos e o próprio individuo e seu corpo, que
tem levado a Geografia à descoberta de novas expressões espaciais da vida humana.
Passamos, na seção seguinte, a apresentar duas perspectivas do desenho
multilocalizado, de ambos os autores deste capítulo. No primeiro caso, a abordagem
da Geografia, mediante uma pesquisa sobre redes musicais no espaço platino. No
segundo caso, a abordagem da Antropologia sobre a produção global de tecnologias
digitais abertas.

Geografia da música multilocalizada


A pesquisa de Panitz (2013) foi realizada em um contexto de problematização
das territorialidades regional e nacional com base em um conjunto de práticas e
políticas musicais estabelecidas na região transfronteiriça entre Argentina, Brasil
e Uruguai. Um grupo de músicos e atores culturais organiza-se em rede a partir
de Buenos Aires (Argentina), Porto Alegre (Brasil) e Montevidéu (Uruguai). Eles
atuam em conjunto produzindo shows, gravando discos, criando pequenos festivais,
inserindo-se em políticas culturais de integração regional da América do Sul, e
debatendo publicamente as relações entre a paisagem, cultura e música. O que esses
atores têm em comum e o que a Geografia Cultural pode ajudar na compreensão desse
fenômeno multilocalizado? Basicamente, um reprocessamento da cultura regional,
popular e folclórica no seio da música pop contemporânea, globalizada e com forte

184
Etnografia Multilocalizada em Antropologia e Geografia

apelo às representações de um mosaico de paisagens rurais, urbanas e litorâneas


na região do Pampa. Panitz identificou, ao longo dos últimos anos de pesquisa, a
produção de uma nova territorialidade musical em rede sobreposta a um contexto
regional. Ele seguiu os atores onde estes se encontravam, buscando compreender,
no conjunto de eventos e representações, como tal rede era produzida. Junto à
proposta multi-sited de Marcus, somou-se a perspectiva geográfica hiper-relacional
de seguir os atores e actantes como propõe Lussault (2007), com base na teoria do
ator-rede de John Law, Michel Callon e Bruno Latour. Para tanto, realizou observação
participante em diversas cidades, entrevistas abertas e análise de materiais diversos,
como discos, cartazes, livros e vídeos.
A análise do material levou à compreensão de redes de produção cultural
entre capitais no contexto platino, mas também de discursos geográficos com
origem em diferentes lugares e de atores que convergem, contudo, em diversos

Etnografias em redes e territórios


aspectos. É notória a apresentação de propostas musicais como a Estética do Frio,
o Templadismo e o Subtropicalismo, como formas de colocar a música regional do
Prata no espectro da música popular contemporânea feita no mundo. Ritmos e formas
poéticas regionais como o tango, a milonga, o candombe, a murga e a payada são
hibridizados com a bossa-nova, o rock, o reggae, entre outros. Cria-se uma imagem
que reafirma a regionalidade platina, mas que a coloca num patamar não do folclore,
mas da circulação contemporânea de bens culturais.
Percebe-se, por um lado, uma forte dimensão geografizante nas representações
dos artistas. Elas trazem elementos da materialidade do espaço geográfico para
a criação estética, tornando essa materialidade viva e indispensável na própria
concepção musical. A representação da paisagem do pampa surge como metáfora
capaz de representar uma cultura local transfronteiriça (gaúcha), uma região (platina)
e uma condição climática (temperada). Surge também como metáfora sonora na
qual os elementos da paisagem são transpostos para as canções. Nota-se igualmente
uma intenção territorializante, seja pelos shows coletivos de artistas das distintas
nacionalidades, seja pelos eventos que discutem os rumos da música do sul, seja pelos
eventos culturais promovidos por entes públicos e privados, organizando artistas,
produtores culturais e a audiência em torno de um novo circuito de música popular
que se organiza em rede nas cidades dos distintos países envolvidos.
Ao realizar a cartografia da produção e dos eventos musicais (Fig. 1), é possível
ver um eixo entre Porto Alegre e Buenos Aires. Neste eixo, concentram-se os lugares
de gravação dos álbuns, residência dos artistas e produção dos principais eventos.
Outras cidades, secundárias, recebem unicamente as apresentações musicais. Uma
densidade maior de eventos nas cidades de fronteira entre o Brasil e o Uruguai
justifica-se pelas iniciativas de integração regional promovidas por instituições
públicas, em especial as municipalidades de ambos os países e o governo do Uruguai.

185
Lucas Manassi Panitz e Luis Felipe Rosado Murillo

No Brasil, outras cidades acolhem os artistas por meio de instituições como o SESC7.
A Argentina, com menos artistas envolvidos na rede, recebe pequenos eventos,
principalmente em Buenos Aires, contudo é o local preferido pelos artistas para a
gravação de álbuns em função da qualidade técnica dos estúdios e dos produtores,
além do baixo custo de produção.

Figura 1: A rede de produção musical em destaque.
Etnografias em redes e territórios

Em nossa opinião, esses processos não têm o estatuto de exceção. Eles


dizem respeito às novas construções territoriais e experienciais do espaço na
contemporaneidade que transcendem os limites territoriais dos Estados-nação
e são articuladas não em uma determinada área, mas em uma topologia de rede.
Entendemos que se trata de uma transterritorialidade (HAESBAERT, 2011) musical
que é transfronteiriça. Ela articula relações escalares regionais, fronteiriças e nacionais
buscando uma referência identitária de estabilidade na fluidez e na multiplicidade
das relações translocais. Em sua trajetória, contudo, ela recompõe igualmente
identidades regionais e étnicas que os projetos identitários nacionais negaram por
muito tempo, justamente porque cruzavam os limites territoriais dos Estados. A isso

7 Serviço Social do Comércio, rede nacional dedicada à formação profissional, serviço social e
ações culturais.

186
Etnografia Multilocalizada em Antropologia e Geografia

chamamos de (p)latinidade, que se traduz num pertencimento identitário à região


platina, mas também à América Latina, que hibridiza os novos mundos lusófono e
hispanófono americanos. Compreendemos, assim, que iniciativas oficiais como a do
Mercosul, ao aprofundar relações comerciais e econômicas no contexto da América
do Sul, também servem de mote para a organização de atores culturais que, de forma
relativamente autônoma, contribuem para amalgamar as relações regionais e criar
novas experiências identitárias e culturais para além das fronteiras geopolíticas.

Etnografia multilocalizada da expertise em computação


A pesquisa multilocalizada não implica necessariamente em um estudo de
diferentes regiões ou fronteiras geográficas, mas em um desenho de pesquisa que
se ocupa de diversos planos, atuais e virtuais, quer dizer, visíveis e mensuráveis bem
como latentes e intangíveis nos quais práticas culturais são realizadas. Marcus (2013)

Etnografias em redes e territórios


exemplifica esse ponto ao discutir como a noção de campo multilocalizado implica
na consideração das relações entre diversas dimensões da vida social, tais como o
plano virtual da memória, do discurso e das formas de interação não-presencial
sustentadas por novas tecnologias da comunicação e da informação.
A pesquisa etnográfica de Murillo (2015) oferece um exemplo de pesquisa
multilocalizada e multissituada em que o objeto de pesquisa foi construído com
base na distribuição global da produção de hardware e software livre e de código
aberto. Em seu estudo, o pesquisador acompanhou o trabalho de mobilização
política e técnica de engenheiros e ativistas que se encontram regularmente para
além das fronteiras nacionais de seus países de origem, primeiramente, através de
contatos sustentados por projetos de produção técnica colaborativa. O estudo da
circulação dos agentes coloca um problema prático para o pesquisador, uma vez que
os fluxos de tecnologia, capital e elites tecnocientíficas não sofrem com as mesmas
restrições que os pesquisadores e as pesquisadoras do Sul Global. Murillo lidou com
esse desafio por meio da busca de recursos em instituições de fomento à pesquisa
internacionais mas com foco regional, tais como os centros de pesquisa da região do
Pacífico, e realizou observação participante com uma elite técnica autoidentificada
como “hacker” (e identificada por seus pares como tal) em eventos internacionais, e
espaços de socialização e sociabilidade localizados predominantemente em cidades
globais chamados hackerspaces. A elite técnica especializada em tecnologias abertas
é representativa de um fenômeno recente de produção transnacional de tecnologias
que são caracterizadas fundamentalmente por formas de licenciamento e práticas
de desenvolvimento que desafiam tanto o regime de propriedade intelectual como a
indústria estabelecida de software e hardware, ainda que possuam laços com ambas.
Com base no desenho de pesquisa multilocalizada, Murillo definiu como
objetivo a investigação de práticas transnacionais, não-institucionalizadas de trabalho

187
Lucas Manassi Panitz e Luis Felipe Rosado Murillo

técnico colaborativo, buscando descrever e compreender suas formas de articulação


em nível local e global por meio de laços sociais de caráter técnico, político, econômico
e moral. Em diálogo com a literatura em torno da prática do hacking (COLEMAN
2013; KELTY 2008; LEVY, 1984; THOMAS, 2002), Murillo descreveu em sua
etnografia o processo de produção de localidades para a prática do hacking para além do
eixo central Euro-Americano. Com base na descrição e interpretação do hacking em
laboratórios comunitários das cidades de São Francisco, Tóquio, Shenzhen e Hong
Kong, a pesquisa multilocalizada tratou não apenas da complexa relação de encaixe e
desencaixe entre processos econômicos, técnicos, e culturais, mas também do cultivo
moral e formação política de experts em computação. Em outros termos, não apenas
às questões econômicas e estruturais do avanço das tecnologias da informação a
serviço das transformações do capital informacional, mas também em relação às
transformações no mundo da vida dos agentes responsáveis pela implementação
Etnografias em redes e territórios

das infraestruturas sociotécnicas.


Ao assumir para a construção do objeto de pesquisa o problema da circulação do
próprio objeto entre escalas geográficas, sociológicas, econômicas e tecnocientíficas, a
investigação da política em torno das formas de expertise em computação demonstrou-
se fundamental para a compreensão das respostas políticas e morais dadas pelos
agentes técnicos para questões contemporâneas centrais da esfera pública, tais
como privacidade, proteção ambiental, acesso ao conhecimento, transparência
governamental e direitos de propriedade de bens intangíveis.

Considerações finais
Durante a reunião da Associação Norte-Americana de Antropologia (AAA),
em 2012, George Marcus apresentou um paper com a avaliação do trabalho etnográfico
experimental corrente desde a publicação de seu artigo de revisão bibliográfica que
tornou a proposta de etnografia multilocalizada bastante conhecida para além da
antropologia norte-americana. Em sua apresentação, Marcus discutiu os avanços
em direção ao trabalho colaborativo entre antropólogos e pesquisadores de outras
áreas no processo de desenho de pesquisa e definição de estratégias de representação,
evocação e interpretação. Em sua reflexão acerca da forma de exposição da proposta
de etnografia multilocalizada no texto de 1995, Marcus sugeriu que a metáfora
de “seguir” objetos e atores sociais carregava um sentido geográfico muito forte e
que a noção de “ativismo circunstancial”, que fechava o artigo, aparecia como uma
das consequências dessa forma, então emergente, de engajamento etnográfico.
Dada as transformações das condições de possibilidade do trabalho de campo na
contemporaneidade, a crítica à proposta de etnografia multi-sited apontava para o
risco da dissolução do poder explicativo e interpretativo da etnografia, dada a sua
dispersão potencial em diversos campos. O fundamento do fazer etnográfico na

188
Etnografia Multilocalizada em Antropologia e Geografia

densidade experiencial e profundo engajamento relacional – marcas distintivas


do trabalho de campo em Antropologia – são, por assim dizer, diluídos quando o
campo (ainda que multilocalizado) não é delimitado por uma questão de pesquisa
bem definida. Uma das questões adicionais que se coloca na atualidade, portanto, é
a da construção do conhecimento antropológico e geográfico com base no trabalho
compartilhado e no valor normativo da colaboração que se impõe ao pesquisador
enquanto questão ética e condição fundamental primeira para o trabalho de campo.
Segundo Marcus, a produção etnográfica dos anos 2000, sobretudo em centros de
pesquisa menos centrais e menos conservadores nos Estados Unidos, ocupou-se de
“como se constituem relações especificamente colaborativas em campo que servem
ao antropólogo implicado na colaboração, sendo a colaboração primeiramente prática
e ideológica associação no mundo neoliberal dos grandes projetos, associações de
poder e assemblages. Nesse sentido, a própria definição do trabalho de campo é

Etnografias em redes e territórios


criada a partir dos horizontes de colaboração, o que também revela consequências
importantes para os meios de expressão do trabalho etnográfico, a saber, das formas
de registro e disseminação da etnografia sob suportes diversos e voltados para
audiências muito mais amplas do que a comunidade acadêmica. 
A aproximação entre Geografia e Antropologia abre a possibilidade de uma
compreensão ampliada daquilo que Milton Santos chamou de verticalidades e
horizontalidades do espaço geográfico. A abordagem multilocalizada leva, nesse
sentido, a importância das escalas geográficas para a Antropologia e o aprofundamento
da análise simbólica e da interpretação de experiências coletivas para a Geografia.
Nesse sentido, ao valorizar o desenvolvimento das preocupações disciplinares do
saber acadêmico em ciências humanas e sociais, chamamos a atenção igualmente
para a necessidade de diálogo constante e compartilhamento de objetos e métodos
de pesquisa híbridos, capazes de responder questões pertinentes ao corpo de cada
disciplina, como também estabelecer um território comum. As questões fronteiriças
colocadas pela pesquisa etnográfica multiescalar, que discutimos neste capítulo,
podem indicar aproximações entre as duas disciplinas que não são apenas viáveis,
mas necessárias e promissoras.

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Etnografias em redes e territórios

193
Etnografias em redes e territórios
10 Entre a paisagem sonora religiosa
e as paisagens da memória e
da imaginação: uma proposta
metodológica

Marcos Alberto Torres

Introdução
Os elementos sonoros da paisagem, entendidos na perspectiva
de Schafer (1991, 2001) como paisagem sonora1, apresentam-se
como elementares à compreensão da cultura em sua intrínseca relação
com a paisagem. Na busca de tal compreensão, há que se considerar
as paisagens sonoras de espaços restritos, pois adentrar determinados
espaços implica embrenhar-se num universo específico de valores

Percorrer, ver e escutar em campo


e significados humanos que se compartilham por meio de formas
simbólicas e se manifestam na paisagem sonora do lugar. Dentre
eles, estão os espaços religiosos, uma vez que a religião figura entre
os mais significativos elementos culturais formadores de identidade.
Nas igrejas e em outros espaços religiosos, a comunicação
se dá, sobretudo, em torno do sagrado. É no interior dos espaços
religiosos que a identidade religiosa se constrói e se fortalece à medida
que as pessoas compartilham e vivenciam juntas a manifestação
do sagrado, construindo ou reforçando valores que se refletem nos

1 O termo “paisagem sonora” surgiu nos países de língua latina como tradução do
termo “soundscape”, um neologismo criado pelo músico e compositor canadense
Murray Schafer a partir da palavra inglesa landscape.

In: HEIDRICH, A. L. & PIRES, C. L. Z. (orgs.). Abordagens e práticas da pesquisa


qualitativa em Geografia e saberes sobre espaço e cultura. Porto Alegre: Editora
Letra1, 2016, p. 195-210. DOI: 10.21826/9788563800220
Marcos Alberto Torres

espaços externos ao espaço religioso por meio das ações dos indivíduos. Desse modo,
cada espaço religioso possui uma paisagem sonora específica que envolve seus fiéis,
ao passo que comunica acerca do sagrado – base da religião. Comunica ainda sobre
a comunidade, produzindo valores que se difundem no espaço externo ao religioso
por meio da espacialidade dos crentes.
O presente artigo apresenta e discute possibilidades metodológicas para o
estudo da paisagem sonora religiosa, tendo como base a pesquisa realizada junto ao
programa de pós-graduação em Geografia na Universidade Federal do Paraná, em
âmbito de doutorado, com a comunidade religiosa Adventista da Promessa do Bairro
Alto, na cidade de Curitiba-PR (TORRES, 2014). Para tanto, cabe, primeiramente,
assinalar as relações que se estabelecem entre a paisagem sonora e as paisagens da
memória e da imaginação.
Cada espaço religioso possui uma sonoridade própria e apresenta especificidades
e particularidades nos sons que produz, guardando semelhanças entre as religiões
de mesmas denominações e raízes, e diferenças entre as demais. A multiplicidade
de sons e sonoridades produzida e contida no interior dos espaços religiosos, aqui
denominada paisagem sonora religiosa, envolve seus fiéis por meio dos diferentes
elementos que a compõem, o que a faz portadora de mensagens e significados que
participam da identidade e do sentimento de pertença do ser religioso. Os fiéis e
frequentadores identificam-se com o espaço sonoro, reconhecem e interpretam
cada som e cada música, e também são capazes de interpretar e interagir em cada
momento do culto. Dessa forma, verifica-se uma reciprocidade de ações entre o ser
religioso e o espaço religioso e, consequentemente, com o espaço sonoro nele e por
ele produzido, o que reflete a identificação religiosa.
Percorrer, ver e escutar em campo

O conjunto de sons que compõem a paisagem sonora religiosa integra o


universo simbólico religioso e fornece elementos para a construção de paisagens
da memória e de paisagens da imaginação, necessárias à construção identitária
do ser religioso. Após formada a identidade do ser religioso, este passa a interagir
no espaço religioso, contribuindo com a produção da paisagem sonora religiosa,
ao passo que reafirma sua identidade e contribui para a identidade coletiva e da
instituição religiosa, o que é capaz a partir das relações existentes entre a experiência
e a memória de cada ser religioso.

Memória, imaginação e a experiência da paisagem na vida


religiosa
A experiência corporal apresenta-se como base de toda sensação e percepção
e, consequentemente, de toda imaginação e memória simbólicas. É no contato
com o espaço que o indivíduo percebe uma paisagem e a ressignifica a cada nova
experiência. Bosi (1994) afirma que cada imagem formada no indivíduo é mediada

196
Entre a paisagem sonora religiosa e as paisagens da memória e da imaginação: uma proposta metodológica

pela imagem sempre presente do seu próprio corpo, ao que se pode afirmar que as
experiências corporais definem a construção da percepção, que estão diretamente
relacionadas às memórias, e que se vinculam às experiências compartilhadas entre
os integrantes de um mesmo grupo de convívio social.
O contato com as histórias de vida de outras pessoas do mesmo convívio
social, o compartilhamento de fatos e fenômenos ocorridos na coletividade, são
experiências que fazem do espaço e do tempo elementos essenciais à construção
da identidade. Do mesmo modo, essas experiências resultam em imagens para cada
indivíduo que, segundo Cassirer (2001), são produtos da capacidade empírica da
imaginação produtiva.
O que se tem início no contato imediato do indivíduo com o objeto/fenômeno,
a partir das sensações e percepções, perpassa a memória e a imaginação, elementos
que constituem a capacidade humana de significação simbólica que, quando
compartilhadas, encontram no outro possibilidades para a reconstrução do fato/
fenômeno a partir de suas experiências.
O espaço religioso apresenta-se como lugar familiar às pessoas que o
frequentam. Nele, experimentam e compartilham as manifestações do sagrado, além
de comunicarem entre si a fé e suas convicções, que se manifestam na paisagem e
integram o cotidiano do ser religioso. O espaço religioso é portador de uma paisagem
religiosa, que contempla as manifestações do sagrado, bem como o ser religioso,
que a refaz constantemente por meio de suas práticas religiosas, e nela encontra
elementos que participam da sua construção/reafirmação identitária.
Dentre os elementos que compõem a paisagem religiosa está a história da
religião e da instituição religiosa, que está intrinsecamente relacionada a um discurso

Percorrer, ver e escutar em campo


religioso, por meio do qual o crente encontra explicações para as manifestações
do sagrado, para sua vida e para o mundo. O discurso religioso “tende ao discurso
da verdade ou para a verdade, sendo esta revestida do caráter de permanência em
contraposição à obsolescência crescente do discurso laico” (GIL, 2008, p. 86), e
tem na permanência do sagrado a característica distintiva frente ao profano (GIL,
2008). Com uma natureza simbólica, o discurso religioso (base primordial do
espaço sagrado) apresenta-se no plano da linguagem e espacializa-se por meio de
representações simbólicas. As representações podem se dar de maneira distinta entre
os indivíduos, pois estes baseiam-se, sobretudo, em suas experiências e vivências,
que estão no plano da percepção e integram suas memórias.
A memória é uma faculdade individual, mas que, conforme explicitado por
Halbwachs (2006), perpetua-se e reconstrói-se na coletividade. Nesse processo, a
linguagem desempenha papel central, reproduzindo imagens representacionais que
remetem aos fatos vividos por cada pessoa. Para Bergson (2006a), a percepção e a
lembrança se penetram constantemente, o que evidencia a relação direta estabelecida
entre a percepção e a memória. Segundo esse autor, o que sentimos e pensamos

197
Marcos Alberto Torres

está conosco a todo instante, “debruçado sobre o presente que a ele irá se juntar”
(BERGSON, 2006b, p. 48), num progresso que se soma aos anteriormente vividos, de
modo acumulativo, o que é trazido à consciência sempre que necessário à compreensão
da situação presente.
As paisagens da memória, portanto, constroem-se a partir das experiências,
vivências e valores compartilhados pelas pessoas, o que abarca os processos que
envolvem tanto o indivíduo como também a coletividade. O espaço religioso é
um dos espaços que proporcionam tais compartilhamentos, visto que nele os fiéis
frequentadores comunicam experiências e memórias, o que contribui para a construção
da identidade dos indivíduos, do grupo de religiosos e da religião, e também para a
construção da ideia de mundo, pois os fatos e momentos compartilhados no espaço
religioso somam-se às demais experiências pessoais do cotidiano.
A capacidade da imaginação e a faculdade da memória complementam-se,
visto que a imaginação baseia-se em elementos reconhecidos, pela experiência, que
integram as paisagens da memória; e a memória utiliza-se de elementos imaginados,
muitas vezes apropriados de relatos e discursos de terceiros. No caso das paisagens,
cabe estabelecer limites para que se torne possível distinguir as paisagens da memória
das paisagens da imaginação.
Nas paisagens da memória, prevalecem os elementos vivenciados, sentidos e
com significados atribuídos principalmente pelo indivíduo que recorda, enquanto
que nas paisagens da imaginação prevalecem os elementos idealizados, construídos
principalmente a partir de elementos que se aproximem da paisagem idealizada, com
base nas experiências do indivíduo. Como exemplos de paisagens da imaginação,
podem ser destacadas as que se referem ao Jardim do Éden e à Nova Jerusalém,
Percorrer, ver e escutar em campo

conforme relatadas na Bíblia. São paisagens que sugerem lugares específicos,


inacessíveis no mundo objetivo, o que as tornam impossíveis de serem vivenciadas
pelo crente no mundo objetivo das coisas, mas apenas imaginadas e galgadas a partir
da práxis religiosa. Para que a paisagem descrita no texto sagrado ganhe sentido,
o indivíduo que imagina recorrerá às suas experiências estéticas, vivenciadas em
paisagens do mundo real e objetivo, que possam fornecer elementos que o capacitem
a reconstruir mentalmente o lugar bíblico em questão.
As paisagens da memória remetem às experiências pessoais, histórias vividas
e compartilhadas pelos indivíduos, que se apoiam nas memórias dos outros para
manterem vivas as suas próprias. No caso das paisagens religiosas da memória, elas
podem estar relacionadas às experiências do sagrado, mesclando-se ao imaginário que
move a fé, dando sentido às formas mítico-religiosas. Podem ser acessadas dentro do
espaço religioso nos momentos de culto, ou fora dele, quando o indivíduo relaciona
fatos ocorridos em sua vida às questões sagradas. Ou, ainda, as paisagens religiosas
da memória podem vir à tona quando um som ou sonoridade remeta a ela, e aí as
músicas e demais elementos dispostos na paisagem sonora ganham relevância à

198
Entre a paisagem sonora religiosa e as paisagens da memória e da imaginação: uma proposta metodológica

compreensão da espacialidade religiosa.


A identidade religiosa, construída na relação da experiência do sagrado
com as significações adquiridas no espaço religioso e na vida, integra a paisagem
sonora. Assim, o estudo da paisagem sonora religiosa remete aos indivíduos que
interagem com ela, e que, assim, a refazem constantemente. Dessa forma, a análise
da paisagem sonora religiosa necessita de uma metodologia que contemple os sons
e a subjetividade daqueles que a integram, o que implica na busca da compreensão
do universo pessoal, com as percepções e memórias daqueles que contribuem para
a construção de uma identidade religiosa.

Dos universos pessoais à compreensão da paisagem sonora


O estudo da paisagem sonora religiosa encontra na pesquisa qualitativa
participante um profícuo caminho, visto que esta se abre à vivência e à realização
do registro da paisagem sonora do interior do espaço religioso, bem como amplia as
possibilidades das entrevistas com seus fiéis, pois permite “observar fatos, situações
e comportamentos que não ocorreriam ou que seriam alterados na presença de
estranhos” (THIOLLENT, 1999, p. 83). A participação nos cultos a partir da
observação participante consiste numa participação real do pesquisador com a
comunidade a ser estudada, pois, segundo Marconi e Lakatos (2003), o pesquisador
“se incorpora ao grupo, confunde-se com ele. Fica tão próximo quanto um membro
do grupo que está estudando e participa das atividades normais deste” (MARCONI;
LAKATOS, 2003, p. 194). As autoras ainda distinguem duas formas de observação
participante, sendo a primeira denominada “natural”, na qual o observador pertence

Percorrer, ver e escutar em campo


à mesma comunidade ou grupo que investiga, e a “artificial”, em que o observador
integra-se ao grupo com o objetivo de obter informações (MARCONI; LAKATOS,
2003). Assim, a metodologia adotada por Torres (2014) nos cultos foi a da observação
participante natural. Schimidt (2006) acrescenta que o termo participante “sugere
a controversa inserção de um pesquisador num campo de investigação formado
pela vida social e cultural de um outro, próximo ou distante, que, por sua vez, é
convocado a participar da investigação na qualidade de informante, colaborador
ou interlocutor” (SCHIMIDT, 2006, p. 14).
Se, por um lado, a coleta de materiais foi facilitada pelo envolvimento do
pesquisador com a comunidade, houve o desafio no exercício do distanciamento
desta para a análise dos materiais, o que foi exercitado no trabalho de gabinete, na
audição das gravações, quando se podia retomar os momentos vividos nos cultos
ou durante as entrevistas, adotando a perspectiva única de observador.
As primeiras questões que as observações em campo suscitaram foram de
que a pesquisa deveria contemplar, nas entrevistas, os crentes que participaram
da fundação da referida igreja e os principais produtores da paisagem sonora da

199
Marcos Alberto Torres

mesma (músicos, pregadores, diretores, professores etc.). Desse modo, seriam


revelados elementos que serviriam de base à compreensão do surgimento da Igreja
e das transformações ocorridas em sua paisagem sonora, e da relação destes com
a identidade religiosa. Contudo, ainda que a observação tenha revelado algumas
possibilidades, viu-se a necessidade de que a própria comunidade indicasse seus
representantes. Para tanto, foi elaborado um questionário com três perguntas abertas,
que foi aplicado entre os membros da Igreja durante os cultos oficiais de sábado,
no período de dois meses. Os questionários em branco foram entregues às pessoas
presentes nos cultos, e lhes era solicitado que o devolvessem preenchido assim que
o completassem. Como os questionários não eram identificados, à medida que eram
recebidos eram imediatamente colocados dentro de um saco plástico e, em uma folha
separada, era anotado o nome de quem o havia entregado. Quarenta questionários
retornaram respondidos, o que equivalia à média de frequentadores dos cultos2.
O questionário era composto das seguintes perguntas: 1) Qual o momento do
culto em que você se sente mais próximo(a) de Deus?; 2) Cite o nome de uma pessoa
da Igreja do Bairro Alto que você considera importante para que o culto aconteça;
e 3) Cite o nome de uma pessoa da Igreja do Bairro Alto que você considera um
exemplo de vida cristã. Essas perguntas foram lançadas no intuito de levantar, entre
os frequentadores dos cultos, nomes de pessoas que participassem ativamente da
construção da paisagem sonora, e daqueles que tivessem uma ligação direta com a
história da comunidade religiosa local. Procurou-se ainda identificar o momento de
destaque do culto, para, assim, buscar as relações deste com a experiência do sagrado.
À primeira questão, o momento mais indicado pelos respondentes foi o dos
louvores (momento musical), com 25 apontamentos, seguido da pregação, com 10
Percorrer, ver e escutar em campo

indicações. Os questionários também resultaram em 7 apontamentos aos momentos


de oração, 1 para os hinos do Brados de Júbilo3, e 1 para a escola bíblica.
A escolha dos entrevistados teve como critério a indicação de ao menos duas
pessoas distintas pelo respondente. Para excluir a possibilidade de autoindicação
do respondente, optou-se também em desconsiderar os nomes duas vezes citados,
pois, nesses casos, permanecia a possibilidade de ao menos uma autoindicação
somada a um voto que não o do respondente. Assim, o critério estabelecido foi de
que o nome aparecesse ao menos três vezes em uma das questões, o que resultou
na eleição de sete pessoas.

2 Apesar de possuir 86 membros matriculados, a média de presença e participação nos cultos da Igreja
Adventista da Promessa do Bairro Alto é de 50%. Contudo, os números oficiais são ainda menores, pois
há apenas o registro dos participantes da Escola Bíblica, que ocorre das 9h até as 10h, antes do culto.
3 Brados de Júbilo é o hinário oficial da Igreja Adventista da Promessa. Trata-se de um compêndio de
hinos de diferentes hinários, como o Salmos e hinos, Cantor Cristão, Harpa Cristã, dentre outros. A
primeira edição foi publicada em 1939, e contava com 247 hinos. Atualmente, na 12ª edição, possui uma
seleção de 420 letras de hinos.

200
Entre a paisagem sonora religiosa e as paisagens da memória e da imaginação: uma proposta metodológica

De modo a valorizar as histórias, experiências e percepções de cada indivíduo


a ser entrevistado, para que se pudessem estabelecer as conexões entre a paisagem
sonora e a identidade religiosa do indivíduo e da coletividade, os procedimentos
metodológicos adotados inserem-se na perspectiva qualitativa, utilizando-se de
gravações dos cultos, gravações de entrevistas e análise de mapas mentais. Para
Martins, a “variedade de material obtido qualitativamente exige do pesquisador uma
capacidade integrativa e analítica que, por sua vez, depende do desenvolvimento de
uma capacidade criadora e intuitiva” (MARTINS, 2004, p. 292). Dessa forma, os
materiais coletados possibilitaram a complementaridade das informações necessárias
ao desenvolvimento da tese em pauta, o que foi facilitado pela escolha dos caminhos
para a coleta dos dados.
A primeira etapa dos registros foi a gravação dos cultos das manhãs de sábado,
que são os cultos oficiais, e que agregam o maior número de participantes em relação
aos demais cultos da semana. Foram gravados quinze cultos durante os meses de
junho de 2012 a outubro de 2013, em datas escolhidas aleatoriamente. Cada arquivo
possuía em média três horas e trinta minutos de gravação, e a soma do tempo dos
arquivos dos cultos foi de quarenta e nove horas e vinte e três minutos.
A escolha dos recursos de gravação e a inserção dos mesmos no espaço
religioso foi motivo de preocupação, pois havia a necessidade de que a naturalidade
dos fiéis não sofresse alteração no decorrer do culto pelo fato de que o mesmo
estivesse sendo gravado. Desse modo, os recursos de gravação deveriam causar o
menor impacto visual possível no interior do templo. Inicialmente foram utilizados
dois microfones a condensador da marca Behringer modelo C-2, ligados a uma
interface de áudio de marca Alesis modelo iO2 express (interface com dois canais

Percorrer, ver e escutar em campo


de entrada, e uma saída USB), conectados em um notebook pela porta de entrada
USB, o qual utilizava-se do software Reaper v.4.402 para a gravação em tempo real.
Este esquema de gravação, utilizado nas duas primeiras gravações, foi montado
próximo às principais fontes sonoras da igreja, conforme esquema representado,
na figura 1, pela letra “A”. A disposição dos equipamentos de gravação, bem como a
quantidade de equipamentos utilizados, chamavam a atenção dos frequentadores,
que eventualmente questionavam sobre o motivo da presença dos equipamentos,
o que levou a busca por outro sistema de gravação que causasse menor impacto
visual. O resultado da busca foi a mudança para um gravador de mão da marca Zoom
modelo H2, aparelho que conta com microfones a condensadores, sem a necessidade
de interface de som extra ou mesmo de microcomputador, o que garantiu a mesma
qualidade do equipamento utilizado anteriormente, com menor impacto visual dentro
do templo. De posse desse gravador, optou-se por posicioná-lo próximo à porta de
entrada e saída da igreja (letra “B” na figura 1), fora do campo visual das pessoas, e
também por possibilitar a captação do áudio amplificado sem que este abafasse os
demais sons produzidos no espaço do templo, como os das pessoas orando a partir

201
Marcos Alberto Torres

dos seus próprios lugares.


De posse das gravações, tiveram início as audições dos arquivos. A quantidade
de registros possibilitou que se encontrassem os padrões dos cultos e o mapeamento
dos elementos comuns presentes neles, como as ocasiões em que se discursam a
respeito de temas bíblicos, os momentos musicais, os momentos que se relacionam à
glossolalia, e as relações que se estabelecem no discurso entre as práticas religiosas e
as ações no espaço cotidiano dos indivíduos. Contudo, houve a necessidade de uma
análise mais apurada dos arquivos, o que conduziu ao estabelecimento de critérios
à escolha dos arquivos a serem analisados.

Figura 1 – Localização dos sistemas de gravação na Igreja do Bairro Alto.


Percorrer, ver e escutar em campo

Organização: Torres (2014).

Do total de arquivos gravados nos cultos, três foram selecionados para uma
análise mais profunda. Para tanto, foram consideradas as participações das pessoas
selecionadas para as entrevistas, de modo que cada arquivo foi ouvido para levantar

202
Entre a paisagem sonora religiosa e as paisagens da memória e da imaginação: uma proposta metodológica

quais seriam os cultos que teriam o maior número de entrevistados participantes.


A segunda etapa, dedicada às entrevistas, utilizou-se de entrevistas
semiestruturadas, por proporcionarem maior flexibilidade na execução das perguntas
e possibilitarem ao entrevistado liberdade para falar. Triviños entende a entrevista
semiestruturada como “aquela que parte de certos questionamentos básicos, apoiados
em teorias e hipóteses que vão surgindo à medida que se recebem as respostas do
informante” (TRIVIÑOS, 1987, p. 146). Manzini (2004) afirma que esse tipo de
entrevista “pode fazer emergir informações de forma mais livre e as respostas não
estão condicionadas a uma padronização de alternativas” (MANZINI, 2004, p. 02).
Boni e Quaresma (2005) definem entrevistas semiestruturadas como aquelas que
combinam perguntas abertas e fechadas. Dessa forma, abre-se a possibilidade para
a realização de uma entrevista menos formal do que em uma entrevista fechada.
As entrevistas foram realizadas na casa de cada um dos entrevistados, sendo
todas previamente agendadas por telefonema. A escolha do local para a realização
da gravação foi para que as pessoas a serem entrevistadas se sentissem à vontade
para falar de suas histórias, pois, de acordo com Boni e Quaresma (2005), “a
entrevista deve proporcionar ao pesquisado bem-estar para que ele possa falar sem
constrangimento de sua vida e de seus problemas e quando isso ocorre surgem
discursos extraordinários”. Contudo, para além do local escolhido, deve-se considerar
também a postura adotada enquanto entrevistador, que deve englobar respeito e
interesse pela fala do outro, conforme pontua Thompson (1992):

Há algumas qualidades essenciais que o entrevistador bem sucedido deve possuir:


interesse e respeito pelos outros como pessoas e flexibilidade nas reações em
relação a eles; capacidade de demonstrar compreensão e simpatia pela opinião

Percorrer, ver e escutar em campo


deles; e, acima de tudo, disposição para ficar calado e escutar. Quem não consegue
parar de falar, nem resistir à tentação de discordar do informante, ou de lhe impor
suas próprias ideias, irá obter informações que, ou são inúteis, ou positivamente
enganosas (THOMPSON, 1992, p. 254).

De modo a contribuir com a continuidade da fala do entrevistado, questões


norteadoras foram definidas, para serem inseridas nos momentos em que o entrevistado
esperasse o direcionamento do entrevistador. Contudo, houve a preocupação de que
a inserção de questões não suprimisse o diálogo, o qual é necessário para que as
ideias desenvolvidas pelo entrevistado sejam concluídas, e de que nenhum assunto
fique “aberto”, o que exige do entrevistador atenção à fala do entrevistado, que só
existe a partir do interesse sublinhado por Thompson (1992). Assim, as questões
predefinidas foram:

1) Quem é o entrevistado (história de vida)?


2) Como e quando tornou-se Adventista da Promessa?
3) Como era a Igreja e a estrutura de culto quando tornou-se cristão?

203
Marcos Alberto Torres

4) Qual foi a sua maior experiência com o sagrado?


5) Como define sua vida cristã?

O número reduzido de questões apresentou a vantagem de serem fáceis de


memorizar, o que dispensou o uso de anotações. Optou-se por explorar ao máximo
os temas desenvolvidos por cada entrevistado, em que as perguntas predefinidas só
eram feitas caso não tivessem sido abordadas espontaneamente pelo entrevistado, o
que aproximou-se de uma entrevista livre. Para Thompson (1992) uma entrevista
livre ocorre quando o pesquisador dedica todo o tempo necessário para ouvir o
sujeito que fala, com a menor quantidade de perguntas possíveis. Contudo, esse
mesmo autor reconhece que uma entrevista completamente livre não pode existir,
pois uma entrevista pressupõe a explicação de um contexto social ao entrevistado, o
que implica ao menos em uma pergunta inicial, que direciona para o que se pretende
da entrevista. Nesse sentido, deve-se tomar o cuidado de agendar as entrevistas para
um momento do dia em que o entrevistado não necessite abandonar a entrevista
sem concluí-la e, da mesma maneira, o entrevistado deve ser informado sobre a
pesquisa e o contexto em que se inserem, o que, acreditamos, é facilitado quando a
pesquisa realizada se utiliza da metodologia participante.
A última etapa foi dedicada aos mapas mentais, no intuito de aproximar
o pesquisador – por meio de um recurso não verbal – do espaço de ação e de
representação dos entrevistados, auxiliando assim na busca de subsídios para a
compreensão da construção da identidade religiosa e da espacialidade religiosa.
Entendidos como “uma forma de linguagem que reflete o espaço vivido representado
em todas as suas nuances, cujos signos são construções sociais” (KOZEL, 2007, p.
Percorrer, ver e escutar em campo

115), os mapas mentais produzidos pelos entrevistados foram coletados de modo a


buscar, em cada indivíduo, elementos que retratassem a religiosidade em suas histórias
de vida, como complemento às informações obtidas nas entrevistas, ou mesmo para
apresentar outros elementos pertinentes à análise. Ao contemplarem a realidade
percebida e a imaginação, os mapas mentais apresentam-se como representações da
vida, que se complementam às memórias narradas nas entrevistas. Entendendo que
as histórias de vida de cada entrevistado são pessoais e únicas, nelas há representações
sobre diferentes lugares, que remetem a distintas paisagens da memória, e sobre a
importância do sagrado em suas vidas, que incide sobre a construção da identidade
religiosa, que, por sua vez, concede um olhar específico sobre as questões concernentes
à prática religiosa e à Igreja Adventista da Promessa do Bairro Alto, espaço que se
relaciona diretamente com as paisagens sonoras que participam da construção
identitária.
A metodologia Kozel foi a escolhida para a análise dos mapas mentais
produzidos pelos entrevistados. A escolha foi influenciada pelo trabalho de Kashiwagi
(2011), que elenca e discute diferentes possibilidades metodológicas para a análise

204
Entre a paisagem sonora religiosa e as paisagens da memória e da imaginação: uma proposta metodológica

de mapas mentais a partir dos autores: Kevin Lynch, Lloyd Rodwin, Peter Gould,
Alexander Siegel, Gary Moore, Constancio de Castro Aguirre e Salete Kozel. Ao
analisar as distintas possibilidades metodológicas para a análise dos mapas mentais,
Kashiwagi concluiu que a metodologia Kozel é a mais complexa, pois vai além
da classificação e alcança a interpretação a partir de teorias sígnicas e linguísticas
(KASHIWAGI, 2011, p. 202). Essa metodologia considera a interpretação das
imagens com base em quatro elementos:

1) Quanto à forma de representação dos elementos na imagem;


2) Quanto à distribuição dos elementos na imagem;
3) Quanto à especificidade dos ícones;
4) Apresentação de outros aspectos ou particularidades.

A solicitação feita aos entrevistados para a elaboração dos mapas mentais


ocorreu ao término da entrevista, sendo que foi dado a cada um o prazo mínimo de
quarenta e oito horas para a elaboração do mesmo. Para tanto, foi deixada uma folha
de papel A4 em branco para cada entrevistado, e pedido que nela elaborassem um
desenho livre que representasse sua vida. A escolha dos recursos para tal elaboração
também ficou a critério de cada entrevistado. Apenas um entrevistado recusou-se a
elaborar o mapa mental; entretanto, foi deixada a folha em branco com ele, e pedido
que pensasse a respeito do desenho que faria (caso tivesse disponibilidade) e, no
dia marcado para pegar sua produção, fomos até sua residência, sentamos com ele,
e gravamos sua explicação a respeito do desenho que faria, o que resultou em um
mapa mental verbalizado e gestual.

Percorrer, ver e escutar em campo


A análise dos materiais coletados permitiu uma maior compreensão da
paisagem sonora religiosa Adventista da Promessa, e de sua participação na construção
e reafirmação da identidade religiosa. Permitiu ainda compreender as mudanças que
ocorreram ao longo do tempo em sua paisagem sonora, e de que forma a referida
igreja alia tradição e novidades em seus cultos.

Resultados da análise dos materiais coletados


Por meio das entrevistas, verificou-se que as construções de identidade religiosa
tiveram início com a pregação de um indivíduo religioso, portador de um discurso
acerca do sagrado que se dava a partir de uma interpretação específica da Bíblia. A
história do surgimento da igreja estudada conta que foi a partir da experiência do
sagrado vivida pelo seu fundador que tiveram início as pregações acerca da nova
explicação bíblica, organizada a partir de pontos doutrinais. Dessa igreja, nasceu
também uma nova paisagem sonora religiosa, de pessoas que creem em preceitos
adventistas, e também nos elementos do pentecostalismo.

205
Marcos Alberto Torres

A oralidade, presente nos processos de conversão dos entrevistados, tem sua


continuidade na paisagem sonora religiosa, uma vez que é no espaço religioso que
ocorrem os estudos bíblicos, que proporcionam a participação dos fiéis a respeito da
interpretação bíblica e sua relação com o cotidiano, bem como a pregação, momento
separado no culto para que uma pessoa discurse sobre um tema religioso. Contudo,
os relatos dos entrevistados apontaram para mudanças sutis que ocorreram na
paisagem sonora religiosa por eles vivenciada.
As alterações na paisagem sonora dos cultos Adventista da Promessa ocorreram
de maneira lenta e gradual, como diagnosticado a partir dos relatos sobre a inserção
dos instrumentos musicais, primeiramente do violão e, em seguida, da supressão deste
pelos instrumentos elétricos e de percussão. A bateria, apontada como instrumento
musical que causa incômodo nos crentes mais antigos, é um dos instrumentos
que foram inseridos no início da década de 1980 na igreja, e que, apesar de sofrer
resistência por parte dos fiéis, mantém seu espaço nas programações da igreja. As
mudanças lentas sugerem a necessidade da manutenção de elementos na paisagem
sonora que remetam ao passado, de modo que as identidades não sofram grande
impacto e possam agregar novos fiéis, sem que os crentes antigos se afastem.
A paisagem sonora religiosa da igreja estudada contém elementos que indicam
uma identidade evangélica mais ampla, como a seleção das músicas dentro de cada
culto, uma vez que a igreja se utiliza de músicas religiosas tradicionais, que são
também utilizadas por distintas denominações protestantes, e de músicas religiosas
contemporâneas, frutos da indústria fonográfica cristã, veiculadas nas diferentes
mídias, dentre elas, o rádio.
O rádio, que no passado contribuiu para a formação da identidade nacional
Percorrer, ver e escutar em campo

brasileira, hodiernamente contribui para as formações de identidades específicas,


dentre elas, a religiosa. Ainda que as programações religiosas radiofônicas tenham
perdido espaço, em grande parte, para outras mídias como a televisão, continua a
cumprir importante papel dentro das propostas de disseminação dos valores das
instituições religiosas. Ao transmitir conteúdo religioso por suas ondas sonoras, o
rádio participa das paisagens da memória e da imaginação do indivíduo que ouve
as suas programações. O rádio cumpre ainda a função de divulgar as novidades
musicais do meio evangélico, o que contribui, ao longo do tempo, com as alterações
dos padrões de escuta ao veicular músicas com conteúdos evangélicos, porém com
distintos ritmos musicais, outrora utilizados apenas nas músicas seculares. Os
padrões de escuta também se alteram com o acesso às tecnologias musicais, que
possibilitam a inserção de instrumentos musicais e equipamentos de amplificação,
como o ocorrido na Igreja Adventista da Promessa analisada.
A música produzida no interior das igrejas é um produto da cultura em que o
artista possui relação direta na construção e significação da mesma, pois, de acordo
com o pensamento cassireriano, que se baseia em Goethe (1995), a arte é a expressão

206
Entre a paisagem sonora religiosa e as paisagens da memória e da imaginação: uma proposta metodológica

do próprio artista (CASSIRER, 1994). Ainda que tratemos da música religiosa


tradicional, quando executada no interior das igrejas, deve-se compreendê-la como
um produto atual, pois envolve a espontaneidade do artista, que se liga ao contexto
específico em que se insere. A arte colabora com o ser religioso na compreensão
de um determinado momento que contém a verdade, por meio da representação.
A paisagem sonora da igreja estudada contém também elementos que indicam
sua raiz pentecostal, que é a presença da glossolalia nos cultos. Os elementos que
remetem a uma identidade especificamente “adventista da promessa” situam-se no
espaço de tempo dedicado à escola bíblica, em que os participantes discorrem acerca
dos temas propostos nas lições bíblicas e relacionam seus conteúdos às suas práticas
cotidianas. Eventualmente podem ser encontrados elementos especificamente
“adventista da promessa” nas pregações, quando nestas são abordados temas contidos
na doutrina da referida Igreja. Nas pregações, e durante os estudos bíblicos, a forma
simbólica empregada por excelência é a linguagem, responsável pela significação dos
fatos do cotidiano a partir dos elementos religiosos, e, no outro sentido, dos fatos
religiosos a partir dos eventos do cotidiano.
O tempo simbólico cassireriano, que inclui o passado simbólico e o futuro
simbólico, tem na constante busca do sagrado a procura da experiência religiosa
marcante, o que aponta para o futuro simbólico, de modo que se acredita alcançar a
salvação – a eterna graça – a partir do contato com o sagrado. A transcendência que
ocorre na experiência do sagrado cria no indivíduo um marco referencial no espaço
e no tempo relativo à compreensão do sagrado. No ser religioso, o espaço da vida
está em segundo plano frente às questões concernentes ao sagrado, e todo pensar e
agir (entendendo que o pensar também é uma ação) no espaço imediato é mediado

Percorrer, ver e escutar em campo


pela forma simbólica da religião. Nos dizeres de Bollnow (2008), é a espacialidade
da experiência humana. Nessa espacialidade, a materialidade da religião pode estar
na arquitetura dos templos e igrejas, mas também no plano sensível dos sons por
meio da paisagem sonora, onde espacializam-se os discursos construídos no seio da
religião. A materialidade dialoga com a imaterialidade simbólica que, no ser religioso,
é destacada por meio da oposição entre o espaço sagrado e o espaço profano.
No espaço de ação do crente, encontra-se o espaço profano, espaço em que o
ser religioso não está mais no sagrado. O sagrado, contudo, permanece na memória
do crente e é por intermédio dele, e dos elementos que o envolvem, que o indivíduo
se move na busca de manter-se nos preceitos religiosos, para que possa sempre ter
acesso à experiência do sagrado. Dessa forma, as paisagens sonoras participam da
construção de paisagens da memória e da imaginação do ser religioso, essenciais à
construção e manutenção da identidade religiosa, e culmina na revelação dos espaços
de ação do indivíduo, onde ele coloca em prática seus valores religiosos.
Como constatação direta das ações religiosas do indivíduo no seu cotidiano, a
realização dos cultos nas manhãs de sábado indica que a paisagem sonora “adventista

207
Marcos Alberto Torres

da promessa” só existe porque os fiéis agem de maneira diferenciada no espaço, visto


que, para estar na igreja, abrem mão de outras atividades do mundo secular. Fora do
espaço religioso, as falas e as músicas escolhidas para tocar no carro ou no aparelho
de som de suas casas podem apresentar-se na paisagem sonora como um indicativo
da identidade religiosa. Desse modo, a paisagem sensível e passível de distintos
significados encontra na coletividade elementos imprescindíveis à sua significação.
Para compreendê-la, caberá ao geógrafo a busca de caminhos que o ajudem revelar
o universo da cultura humana.

Considerações finais
O estudo da paisagem religiosa necessita de abordagens que superem o
seu aspecto visual, de modo a abarcar os significados e sentidos nela contida. A
interpretação das subjetividades daqueles que a constroem carece de uma imersão do
pesquisador nesse meio, de modo a revelar a religiosidade dos fiéis e a participação
de cada um na construção da paisagem.
Na pesquisa aqui relatada, a observação participante natural proporcionou o
registro de momentos espontâneos dos fiéis dentro do espaço religioso. De igual modo,
as entrevistas semiestruturadas realizadas nas residências também encontraram a
espontaneidade dos entrevistados, que falaram abertamente e sem constrangimento de
suas experiências religiosas, além de produzirem mapas mentais que se apresentaram
como importantes instrumentos na busca de respostas acerca das paisagens da
memória, o que contribuiu para o estabelecimento de relações entre as memórias
Percorrer, ver e escutar em campo

e as práticas religiosas, bem como no entrecruzamento com as paisagens sonoras


registradas dos cultos.
A metodologia buscou contemplar as singularidades das subjetividades dos
indivíduos entrevistados, juntamente com as similitudes encontradas na coletividade
no espaço religioso. Assim o universo simbólico religioso pôde ser mais bem
compreendido, ao passo que os entrevistados pontuaram suas experiências com o
sagrado, enquanto as gravações feitas no espaço religioso proporcionaram o contato
do pesquisador com as manifestações do sagrado e com os rituais e discursos ligados
à religião, que direcionam o crente em suas ações no seu espaço de ação.
A relação da paisagem sonora religiosa com a construção de uma identidade
cultural a partir da forma simbólica religião implica certa espacialidade de ideias e
ações. A igreja estudada, situada no Bairro Alto, na cidade de Curitiba-PR, contribuiu
para a compreensão do universo simbólico na vida dos religiosos, ao passo que estes
se dispuseram a falar de suas vidas e representá-las por meio de mapas mentais, o
que se mostrou essencial ao cruzamento das informações coletadas no interior do
espaço religioso.

208
Entre a paisagem sonora religiosa e as paisagens da memória e da imaginação: uma proposta metodológica

O presente trabalho apresenta-se como uma contribuição à compreensão


do espaço da vida humana, tanto na interpretação da paisagem sonora quanto na
espacialidade das ações religiosas, ciente de que a dinâmica das paisagens exige
dinamicidade do pesquisador, o que faz da Geografia um encantador e sempre novo
campo de estudos.

Referências

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Percorrer, ver e escutar em campo

210
11 Um mosaico de relações – o Pagus e
as múltiplas leituras para o estudo da
paisagem

Roberto Verdum
Daniele Caron
Letícia Castilhos Coelho
Marina Cañas Martins
Lucas Panitz
Maurício Pimentel
Geovane Aparecida Puntel
Mário Rangel
João Paulo Schwerz
Luis Aberto Pires da Silva
Juliane da Soller
Lucimar de Fátima dos Santos Vieira

Percorrer, ver e escutar em campo


Introdução
O Pagus – Laboratório da Paisagem, localizado no
Departamento de Geografia/Instituto de Geociências da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul, nasceu com o objetivo de desenvolver
estudos nas diversas perspectivas que a paisagem proporciona para
a construção de leituras, conceitos, metodologias de análise e
intervenções no espaço geográfico. Com o objetivo principal de
gerar estudos e trabalhos técnicos que busquem conceber a paisagem
numa perspectiva de entrelaçamento de olhares interdisciplinares,

In: HEIDRICH, A. L. & PIRES, C. L. Z. (orgs.). Abordagens e práticas da pesquisa


qualitativa em Geografia e saberes sobre espaço e cultura. Porto Alegre:
Editora Letra1, 2016, p. 211-228. DOI: 10.21826/9788563800220
Verdum ET AL.

o grupo é constituído por profissionais da área da geografia, biologia, turismo,


arquitetura, educação, artes, urbanismo e planejamento.
Neste capítulo, apresenta-se como um mosaico das diversas abordagens de
paisagem dentro do Pagus, nos estudos de percepção, planejamento e gestão, avaliação
de impactos, projetos de intervenção, sensibilização paisagística, entre outros.
A perspectiva do Pagus é a do entendimento da paisagem como um sistema
aberto, como um conceito complexo ao qual estão relacionados aspectos da natureza,
sociais, econômicos e culturais em constante interação e transformação. Essa
pluralidade de conceitos é sistematizada na primeira parte do artigo. Em seguida,
partimos para a apresentação de algumas metodologias desenvolvidas no âmbito
do laboratório, trazendo autores de referência e propondo alguns questionamentos.

Pagus e a dupla perspectiva da paisagem


Os pesquisadores do Pagus têm desenvolvido suas investigações levando em
consideração duas perspectivas da paisagem: a paisagem enquanto algo concreto,
e a paisagem enquanto um fenômeno, refletido em representações sociais. Raras
são as pesquisas que optam por apenas um desses entendimentos, por isso não os
separamos com intuito classificatório, mas sim com o objetivo de abrir os conceitos
para melhor compreendê-los.
A paisagem concreta é entendida como o resultado das marcas que a
sociedade humana imprime na superfície terrestre ao longo do tempo. Essas marcas
se traduzem em formas, linhas, cores e texturas, condicionadas por fatores geológicos,
geomorfológicos, ecológicos e climáticos em constante transformação por dinâmicas
Percorrer, ver e escutar em campo

físicas, sociais, econômicas e culturais.


Essa abordagem destaca duas importantes variáveis que influenciam na
constituição da paisagem: o tempo e a materialidade. As formas, funções e estruturas
da paisagem são constantemente modificadas. Ao estudá-la num determinado
momento, a consideramos como expressão das heranças da ação do homem sobre
a natureza até aquele período, uma sucessão de relações, um resultado histórico
acumulado, mas levando em consideração sua dinâmica constante e suas infinitas
possibilidades de transformação.
A materialidade da paisagem aparece nos embasamentos das pesquisas do Pagus
nas ideias de paisagem enquanto soma, resultado, síntese, totalidade, composição,
acumulação. Essa perspectiva é importante para a compreensão e localização dos
diferentes elementos que compõem a paisagem, como vegetação, fauna, solos,
litologia, ocupação e uso da terra, e suas inter-relações. O entendimento de que a
paisagem possui limites definidos, ou que é composta por unidades identificáveis,
é um caminho metodológico admissível, dada a grandeza do conceito de paisagem,
a complexa tarefa de lê-la, e a necessidade de torná-la operativa em estratégias de

212
Um mosaico de relações – o Pagus e as múltiplas leituras para o estudo da paisagem

diagnóstico, planejamento e gestão do território.


A segunda abordagem de nossos estudos considera a paisagem enquanto
fenômeno. Cada pessoa, de acordo com a sua trajetória, consciência e experiência,
vê as paisagens de forma diferente e única e nela se insere de determinada forma.
Cada um constrói seus conceitos que refletirão em suas ações e seus olhares. Por sua
vez, esses olhares e essas ações são concebidos a partir de uma matriz cultural que
é do coletivo de uma determinada sociedade humana. O aspecto fenomenológico
da paisagem reside, então, nos diferentes – e infinitos – modos do sujeito olhar,
interpretar e transformar o território. Dito de outra forma, compreende-se que essa
leitura da paisagem é uma construção contínua, social e ao mesmo tempo particular,
onde se sobrepõem a identidade, os conhecimentos, a memória e os sentimentos
de cada pessoa, associados ao processo cultural que remete à organização coletiva
em que estamos inseridos, com toda sua carga simbólica.
A abordagem fenomenológica significa constantes desafios para os estudos
da paisagem: compreendê-la enquanto imaginação e enquanto representação social.
Enquanto imaginação, a paisagem se constrói visualmente, mas não necessariamente
se atendo a um processo ótico. A transformação da paisagem em imagem se dá
em processos de representação social, que podem ser expressos em narrativas, na
literatura, na música, na fotografia, na pintura, no cinema e em tantas outras formas.
As ações de perceber e representar a paisagem passam por valores estéticos, plásticos
e emocionais em relação ao meio. E interpretar essas imagens e representações
pressupõe a compreensão de uma determinada matriz cultural.
A abordagem fenomenológica também está intrinsecamente relacionada com

Percorrer, ver e escutar em campo


o conceito de tempo, de modo que não há nada fixo, estático ou imutável. O caráter
dinâmico e mutante da paisagem em relação à imprevisibilidade da própria natureza
e, principalmente, das concepções de uma sociedade, a caracterizam como um meio
volátil, difícil de manipular e em constante transformação. A partir dessa noção de
tempo condensado, chegamos novamente ao tema da memória.
A memória é um dos agentes que determina a crescente complexidade da
paisagem, uma vez que se acumula em estratos ao longo do tempo. Nas pedras, nas
dobras e no simples caminhar do viajante se deposita uma infinidade de histórias,
que, por um lado, compõe a paisagem, tal como se apresenta fisicamente, e, por outro,
gera uma diversidade causada por essa multiplicidade de leituras. Essa superposição
ocorre em diferentes medidas e pode crescer em lugares onde a paisagem se construa
a partir de dicotomias ou dualidades como o urbano x rural, o natural x social, o
passado x presente.
Importante salientar que as pesquisas que adotam a abordagem fenomenológica
iluminam o constante movimento de uma sociedade que molda a paisagem ao
mesmo tempo em que é moldada por ela. Sugerimos que é na relação complexa de

213
Verdum ET AL.

retroalimentar a modificação do objeto e do objeto modificando o sujeito, que a


paisagem como um todo nos é dada a conhecer.
Apresentadas as duas abordagens, arriscamo-nos a constatar que a distância
e a separação entre o entendimento da paisagem enquanto matéria e enquanto
fenômeno, já não encontra espaço na atualidade, por ser justamente na relação entre
a forma e seu valor imaterial que reside o avanço dessa aproximação conceitual.
O Pagus, por ser constituído por pesquisadores de formações em campos de
conhecimento que valorizam igualmente a forma e o conteúdo, tende a trabalhar
com métodos que cruzam ambas as abordagens, conforme será apresentado no
item a seguir.

O mosaico multidisciplinar na aplicação das metodologias de


pesquisa em paisagem do Pagus
Selecionamos algumas pesquisas desenvolvidas ou em desenvolvimento no
âmbito do Pagus (dissertações, teses e trabalhos técnicos) para colocar em pauta
possíveis metodologias de análise e discussão de paisagem. É importante destacar
este trabalho como um primeiro passo do Pagus em identificar as sobreposições,
conexões e tensões entre as metodologias utilizadas nas investigações, a fim de
aproximar-se desse mosaico de relações intencionado pelo grupo de pesquisa.

Nas pesquisas para Diagnósticos Socioeconômicos e Ambientais e Planos de


Manejo em Unidades de Conservação no Estado do Rio Grande do Sul, a partir
Percorrer, ver e escutar em campo

de uma solicitação de “caracterização da paisagem”, são utilizados os critérios de


forma, função, estrutura e dinâmica, como também um conjunto de técnicas e bases
de informações, como os estudos realizados sobre determinados elementos que
caracterizam as paisagens (vegetação, solos, litologia e ocupação/uso da terra), os
produtos do sensoriamento remoto, as observações e os registros de campo, assim
como questionários aplicados à população situada na área de estudo (BERINGUIER;
BERINGUIER, 1991; BERTRAND, 2007).
Nesses estudos, se adotada a sistemática de definição de Unidades de Paisagem
(UP’s), a partir de dois níveis hierárquicos: o primeiro nível hierárquico leva em
consideração as características que são atribuídas às UP’s como de interesse para
a sua conservação, sendo que essas são apresentadas, essencialmente, em função
dos fatores do meio (geológicos, geomorfológicos, hidrológicos, pedológicos e
cobertura vegetal); o segundo nível hierárquico de diferenciação das UP’s leva em
consideração as diferentes estruturas e funções que caracterizam as intervenções
e as transformações na paisagem produzidas socialmente (sistemas de produção
agrícola nos espaços rurais).

214
Um mosaico de relações – o Pagus e as múltiplas leituras para o estudo da paisagem

A pesquisa dos Impactos na Paisagem pela Introdução dos Aerogeradores


para a geração de Energia no Estado do Rio Grande do Sul utiliza os critérios
forma, função, estrutura e dinâmica, no entanto, aprofunda a investigação buscando
estabelecer os indicadores de percepção da paisagem, por meio do reconhecimento
dos elementos que a estruturam e do entendimento da relação desses com novos
elementos que são a ela integrados ou extraídos, na escala espacial e temporal;
sobretudo nas paisagens de referência (identidades) para os indivíduos e a coletividade
(BERQUE, 1998; BERQUE 2008). Para a avaliação sensorial dos entrevistados em
relação a esses novos elementos que se incorporam na paisagem, foram considerados
como potenciais entrevistados, tanto aqueles que são residentes, quanto os ocasionais,
no meio rural e urbano.
Assim, para se estabelecer os índices de qualificação das paisagens pelos
entrevistados e dos indicadores visuais, propõem-se as seguintes etapas metodológicas:
a) analisar a paisagem pela sua globalidade ou pela sua decomposição em unidades,
que são definidas por limites naturais (elementos como planície, coxilha, cerro,
serra – vale, encosta, topo, floresta, banhado...). Neste sentido, pode-se propor que
o entrevistado avalie globalmente o conjunto da paisagem (primeira impressão) e/
ou de seus elementos constituintes (modulações da percepção inicial - atratividade),
a partir das experiências vividas por ele, numa escala que varia de um a cinco. O
menor e o maior valor nesta escala correspondem às paisagens identificadas pelos
entrevistados tendo, respectivamente, menor ou maior importância para eles; b)
conhecer entre esses elementos da paisagem, aqueles que são marcantes, de referências
e valorizados, que realmente determinam a reação estética do entrevistado.

Percorrer, ver e escutar em campo


Esse método permite elaborar a expressão cartográfica das representações
mentais da paisagem, percebida pelos entrevistados nos locais, onde ocorreu a
aplicação do instrumento de análise, onde constam os elementos da paisagem passíveis
de incorporação dos aerogeradores e aqueles considerados como de referência e que
devem ser preservados de tais incorporações.

A pesquisa sobre A Percepção Sobre a Água na Paisagem Urbana: Bacia


Hidrográfica da Barragem Mãe D’água – Região Metropolitana de Porto Alegre no
Estado do Rio Grande do Sul tem como principal objetivo saber qual a percepção
que os moradores, trabalhadores locais, usuários e gestores públicos têm da água
inserida na paisagem em uma bacia hidrográfica urbana. A área de estudo é a bacia
de captação da Barragem Mãe d’Água, localizada na Região Metropolitana de Porto
Alegre (RMPA), na divisa dos municípios de Porto Alegre e Viamão, no Estado do
Rio Grande do Sul. O estudo também tenta determinar se essas pessoas, através de
sua percepção, têm consciência de que a água que chega às torneiras de suas casas,
que é utilizada para seus diversos usos, deriva daquelas águas que passam pelos

215
Verdum ET AL.

cursos d’água onde moram.


Para atingir esse objetivo, parte-se da hipótese de que o grau de percepção
da população relacionado às questões ambientais, a paisagem e a água inserida
na paisagem, o ciclo hidrológico, são influenciadas pela cultura, pelas condições
socioeconômicas e pelo grau de instrução dessas pessoas.
A pesquisa baseia-se em dados do Índice de Qualidade das Águas (IQA)
obtidos em três épocas distintas (1990/91, 2002 e 2007), em que foram feitas coletas
para a determinação da qualidade de água em três pontos dessa bacia hidrográfica.
É realizado, paralelamente, um estudo sobre o processo de urbanização na área de
estudo, através de imagens de Sensoriamento Remoto e levantamento fotográfico dos
pontos de amostragem, das habitações e da infraestrutura oferecida aos moradores,
dando-se ênfase às condições ambientais, principalmente dos cursos d’água.
Para o entendimento e a determinação do grau da percepção da paisagem
urbana e, principalmente, da água na paisagem pelas pessoas que vivem nessa bacia
hidrográfica, é aplicado um questionário elaborado a partir do conceito descrito pelas
Ciências Sociais como entrevista semiestruturada. De posse desse universo de dados
e do seu processamento e análise, é testada a hipótese formulada nesse estudo em
que, a cultura, as condições socioeconômicas e o grau de instrução têm influência
na percepção das pessoas, interferindo ou atenuando o olhar crítico quanto aos
problemas ambientais, principalmente aos relacionados com a percepção da água
na paisagem. Os resultados desse estudo estão espacializados em mapas temáticos,
em que são incluídas as paisagens preferidas e aquelas que desagradam. Também
são propostas intervenções, a partir da percepção dos entrevistados, que tenham
Percorrer, ver e escutar em campo

o objetivo de qualificar o espaço urbano e a paisagem, principalmente aquelas em


que a água está presente.

A pesquisa que trata da Alteração da Paisagem pela Silvicultura de Eucalipto


no Município de São Francisco de Assis, no Estado do Rio Grande do Sul, estuda a
paisagem como um ponto de acumulação de resultados das atividades econômicas,
assim como da percepção da ruptura de uma paisagem dada e entendida como de
referência a uma determinada área, e tenta compreender quais foram as alterações
na paisagem derivadas dos investimentos das grandes empresas de celulose que
fizeram grandes plantações de maciços arbóreos de eucalipto no Pampa gaúcho.
A metodologia passa pela leitura de narrativas, pela análise bibliográfica e pela
elaboração de instrumento de pesquisa para entrevistar habitantes do município, no
sentido de tentar verificar quais os impactos mais percebidos no meio. O instrumento
de pesquisa desenvolvido para esse fim questiona e busca aspectos da paisagem que
envolvam a cristalização desta (aspectos visuais e concretos, atuais e passados), assim
como seu simbolismo e significado (parte mais abstrata e subjetiva).

216
Um mosaico de relações – o Pagus e as múltiplas leituras para o estudo da paisagem

A pesquisa Interpretação da Paisagem Através da Lógica Interpretativa


investiga a paisagem como categoria de análise operativa na área do planejamento
urbanístico e territorial, compreendendo-a numa interação entre o sujeito (em seu
modo de olhar e transformar) e o território, utilizando-se do método fenomenológico.
Por tratar-se de um conceito tão amplo e múltiplo como a paisagem, esta investigação
situa-se num campo teórico diverso, absorvendo definições e debates conceituais e
metodológicos da área da geografia, urbanismo, filosofia, antropologia e literatura.
Alguns autores foram, até o momento, de fundamental importância para o
desenvolvimento dessa concepção fenomenológica da paisagem: os geógrafos
Augustin Berque e Claude Raffestin, os urbanistas Sébastien Marot e Bernardo Secchi,
o filósofo e antropólogo Paul Ricoeur, o sociólogo e filósofo Maurice Halbawachs
e alguns escritores e críticos literários como Milan Kundera, Claudio Magris e
Alessandro Baricco.
A partir desse interesse na superposição entre âmbitos territoriais diferenciados
e híbridos – urbano/periférico/ rural – a metodologia de pesquisa busca interpretar
as narrativas da paisagem, como modo de acolher essa diversidade, decodificando
os elementos e processos-chave que condicionam e ativam o projeto de cidade e
território. Nesse sentido, foram realizadas duas experiências de campo utilizando-se
um “percurso” que atravessa uma sequência de lugares diferentes entre si em termos
sociais, culturais, urbanos e, muitas vezes, econômicos, compondo uma paisagem
de diferentes territorialidades.
A primeira experiência metodológica se desenvolve em território catalão,
através do percurso da antiga linha férrea da região que atravessa a interface entre a

Percorrer, ver e escutar em campo


zona urbana e rural da cidade de Olot, capital da zona vulcânica de maior expoente
da península ibérica. Nessa ocasião, utiliza-se o discurso literário local sobre a
paisagem, como modo de aproximar-se a essas peculiaridades do fenômeno nesse
território ao longo do tempo.
A segunda experiência foi realizada em território brasileiro, na cidade de Paraty,
Rio de Janeiro. A metodologia se constrói a partir da definição de um fio condutor da
narrativa – neste caso, o Rio Perequê-Açú, que define diferentes territorialidades no
trânsito entre espaço rural e urbano de Paraty – através do qual os narradores possam
articular suas experiências e memórias sobre a paisagem. Em seguida, se constrói uma
análise preliminar da paisagem, reunindo percepções e reconhecimentos in loco a fim
de sobrepor registros gráficos, fotográficos e textuais à cartografia histórica e atual. A
etapa seguinte se refere à análise da narrativa etnográfica da paisagem, capturada na
forma essencial da experiência narrada por contadores de história local, e conduzida
através de três encontros com cada narrador, onde o Rio Perequê-Açú atua como
ponto de partida para a entrevista narrativa episódica. A partir da revelação do
conteúdo semántico das narrativas, se procede com a identificação dos valores da

217
Verdum ET AL.

paisagem, utilizando quatro categorias de análise: forma, função, estrutura e dinâmica;


e construindo cartografias temáticas. O aporte metodológico, oportunamente
gerado a partir da superposição entre os dados obtidos na interpretação prévia da
paisagem, a matéria-prima da experiência vivida decodificada e as cartografías da
planificação urbana atual do local, poderão ilustrar a necessidade de um novo olhar
sobre a interface urbano-rural, destacando o uso mediador dos valores da paisagem
para o planejamento territorial.

A pesquisa Revelação da Paisagem através da fotografia: construção e


aplicação de um método: Porto Alegre vista do Guaíba surge do anseio de
compreender o fenômeno urbano na contemporaneidade a partir de um prisma
voltado para as dimensões culturais e simbólicas. Buscando lançar um olhar que
atravesse e alcance as variadas construções e manifestações da cultura e do cotidiano,
ao pensar que múltiplas camadas espaço-temporais se superpõem na paisagem, nas
quais estão acomodadas de forma híbrida as diversas expressões relativas à interação
sociedade-natureza, acredita-se ser possível perseguir os rastros que conduzirão
ao entendimento da cidade como fenômeno em constante transformação. Para
acessar os vestígios do passado, e realizar um percurso no tempo, adota-se a imagem
fotográfica como fonte para a investigação.
Nesse encontro da paisagem e da fotografia, enquanto fenômenos visíveis,
sob a inspiração e referência filosófica, o princípio da montagem de Benjamin
articulado aos fundamentos de conceituação e interpretação da paisagem trabalhados,
principalmente, no campo da geografia e da história em suas abordagens culturais,
estabelecendo-se, assim, um diálogo com autores como Georg Simmel, Augustin
Percorrer, ver e escutar em campo

Berque, Denis Cosgrove, Paul Claval, Michael Jakob, Alain Corbain, David Lowenthal,
Paul Ricouer, Gaston Bachelard, entre outros. Como estudo de caso, utilizam-se
fotografias de Porto Alegre vista do Guaíba em diferentes períodos, considerados
emblemáticos em relação às transformações urbanas. Ao acessar as fotografias
enquanto vestígios deixados como uma experiência sensível do mundo, a paisagem
se revela, permitindo a apreensão de seus significados.

A pesquisa da Imagem da Paisagem do Sul da América do Sul parte da ideia


de paisagem enquanto imagem de um território e busca entender que paisagem do sul
da América do Sul é configurada através de imagens de produções cinematográficas
argentinas, brasileiras e uruguaias.
Ancorando-se nas teorias de Raffestin (2005) e Cosgrove (1989), entre
outros autores, entende-se que a paisagem é uma construção social formada a
partir de vivências diretas, dos cinco sentidos em contato com determinado espaço
geográfico, mas que também pode ser construída por meio da experiência indireta,
por meio do contato do indivíduo com essa paisagem através de diferentes meios,

218
Um mosaico de relações – o Pagus e as múltiplas leituras para o estudo da paisagem

seja a literatura, a música, a fotografia, a pintura ou o cinema. Sendo assim, entende-


se a paisagem não como matéria, mas sim como uma imagem dessa matéria, seja no
plano artístico ou no científico.
Compreendendo que a paisagem encontra sua afirmação como imagem,
pressupõe-se que é possível investigar a constituição da paisagem por meio da análise
do discurso da imagem, mais especificamente, no caso desta pesquisa, através do
discurso audiovisual. E, para a seleção dos filmes analisados nesta pesquisa, são
seguidos alguns critérios, como o reconhecimento da obra em instâncias culturais e/
ou econômicas, e certo grau de independência das imagens de paisagem em relação
à narrativa do filme. Após a seleção, é feita uma análise das paisagens de cada obra,
dentro das categorias propostas por Pisón (2006): estrutura, forma, função/relação
externa, elementos, evolução/dinâmica, unidades e conteúdos.

A pesquisa Paisagem Pampeana como Matriz Geradora de Representações


da Cultura Platina considera a criação artística como espaço de trocas culturais
intensas. A abordagem baseia-se no binômio “material” e “ideal” do antropólogo
Godelier (1984) e nas leituras de Lussault (2007), Méo e Buleón (2007) e Besse
(2006). A paisagem constitui-se, então, numa categoria importante para a apreensão
dos imaginários regionais e dos significados atribuídos ao espaço.
Em termos empíricos, reflete-se sobre a articulação da paisagem com as
representações da regionalidade e da transfronteiricidade entre Argentina, Brasil e
Uruguai, através de uma rede de compositores das referidas nacionalidades. Parte-se
da análise da construção da ideia de uma música territorializada sobre uma paisagem
(notadamente o Pampa), enredada igualmente nas representações da cultura regional.

Percorrer, ver e escutar em campo


As considerações sobre o papel das políticas culturais de integração regional na região
platina, que reforçam os laços inter-identitários entre os países, na qual também a
paisagem constitui-se num importante ponto de apoio das representações. Também
se observa como as narrativas e as sonoridades são articuladas dentro das próprias
músicas e canções, trazendo os elementos da paisagem pampeana e da identidade
transfronteiriça à qual se refere. Os produtos culturais e suas representações, nesse
sentido, possuem um importante papel na construção dos significados das paisagens,
que dialogam diretamente com a região que as contêm.

A pesquisa Lugar do Turista na Leitura da Paisagem Geográfica e sua Relação


com o Ensino da Geografia residiu na investigação das relações entre o ensino de
geografia e o turismo, com o foco da pesquisa direcionado para os conceitos geográficos
e as representações sociais contidas na leitura da paisagem e na construção do lugar.
A reflexão teórica foi sustentada pelos conceitos da geografia cultural, do saber-fazer
do turismo, do ensino de geografia, da teoria das representações sociais, da paisagem e

219
Verdum ET AL.

de lugar. Com o método do Paradigma da Complexidade, pesquisam-se as dinâmicas


do espaço estudado, ambientado no município litorâneo de Garopaba, Estado de
Santa Catarina. A metodologia utilizada foi composta de pesquisa qualitativa, na
qual se trabalha, sobretudo, a partir de narrativas das entrevistas episódicas que
revelam as leituras da paisagem pelos sujeitos entrevistados e as possibilidades para
os sujeitos se lugarizarem. Analisam-se também fontes documentais referentes à
mídia turística e à constituição do espaço local, bem como observações de campo.
A noção de construção do lugar é tecida à paisagem, com base em que se pode ler
e compreender os processos da paisagem, pode-se tecer laços com o lugar, e se nos
“lugarizamos”, passamos a cuidar do ambiente.
A importância do ensino de geografia proporciona a contestação no sentido
de uma transgressão das formas já agendadas, possibilitando lermos o mundo com
reflexão, criatividade e autonomia, fomentando a (auto)descoberta, as compreensões
mútuas e a valorização das identidades que se encontram no turismo. A dialógica
transversal que abre espaço para relacionar a geografia e o turismo, parece ser uma
possibilidade cognitiva de curiosidade em descobrir a paisagem, de nos relacionar
com o lugar, indo além de sua aparência, que pode levar a repensar as racionalidades
hegemônicas, tanto quanto as nossas responsabilidades para com o mundo. Em trilhas
turísticas interpretativas, o trabalho se dá em sentido inverso, parte-se do que nosso
olhar descobre no ambiente, para levarmos aos visitantes, com recursos didáticos
que visam aproximar as pessoas do ambiente, buscando que as nossas relações sejam
repensadas e mais integradas ao desenvolvimento pleno da vida.
Percorrer, ver e escutar em campo

A pesquisa denominada Cataratas do Iguaçu: Experiências e Registros de uma


Paisagem Turística possui como pontos de partilha o Paradigma da Complexidade
e a Geografia Cultural. Com o objetivo de analisar os significados que os sujeitos
atribuem à experiência geográfica das Cataratas do Iguaçu desde sua intencionalidade
turística, recorreu-se aos princípios da Complexidade: dialógica, recursividade e
hologramática. Os procedimentos investigativos basearam-se no instrumental da
pesquisa qualitativa e a revisão bibliográfica nas categorias: Espaço Geográfico,
Turismo, Paisagem e Geograficidade. Os espaços visitados são um palco, onde se
desenvolve uma trama ou uma sequência de ações que irá compor a narrativa de
viagem. Em um movimento em que o estar imbricado naquele conjunto atribui
aos próprios sujeitos determinadas significações associadas à paisagem visitada. As
representações paisagísticas feitas pelos visitantes permitem prolongar e recordar
sua experiência turística, mas também inscrevem significados no espaço visitado e
na identidade pessoal do sujeito turista.
Tendo como preceito a compreensão da paisagem enquanto representação
de um conjunto de relações espaciais, percebe-se a existência de um processo ativo

220
Um mosaico de relações – o Pagus e as múltiplas leituras para o estudo da paisagem

de composição e ordenamento de elementos com diversas denotações simbólicas,


de cujo arranjo emerge uma identidade autônoma. Com essa predefinição, podemos
traçar alguns caminhos metodológicos para o estudo desse processo em determinada
paisagem.
Primeiramente, é possível, por meio da literatura turística (guias de viagem,
relatos, blogs, fotografias, cartões-postais), delimitar quais elementos formam as
matrizes de apreciação de determinada paisagem (BERQUE, 1998) e quais os
atributos/simbolismos lhe conferem identidade, bem como as inovações sobre os
modos de a perceber que ocorreram ao longo tempo.
Em um segundo estágio, a partir de entrevistas semiestruturadas (FLICK,
2009) com os visitantes sobre suas experiências e impressões do sítio visitado, é
possível compreender a mediação paisagística dos sujeitos e o modo como estruturam
suas representações sobre a vivência daquilo que motivou seu deslocamento.
A análise dessas entrevistas é feita a partir das técnicas de rotulação e
categorização da Teoria Fundamentada propostas por Corbin e Strauss (2008):
codificação aberta, axial e seletiva. Ao realizar-se a análise dos depoimentos,
concomitante ao período de entrevistas, é interessante que na interação com os
próximos informantes busque-se, através da contraposição de possibilidades de
leituras diferente daquela que estão fazendo, um retorno sobre as categorias que estão
emergindo na pesquisa, havendo assim uma oportunidade para melhor refiná-las.

A pesquisa Paisagem como Possibilidade de Leitura do Espaço Geográfico


e na Contribuição à Alfabetização permite um olhar que contempla o social, o

Percorrer, ver e escutar em campo


natural, o histórico, o cultural, entre outros elementos que se relacionam entre si. A
paisagem tem uma proximidade com o lugar, e é a partir do lugar que se começa a ter
uma maior compreensão da complexidade do espaço geográfico. Concordando com
Beringuier e Beringuier (1991), estudar a paisagem é fundamental, pois possibilita
uma maneira de olhar, de compreender, de conhecer, de amar o lugar e de agir
sobre ele mesmo. Nesse sentido, Cavalcanti (2004, p. 101) também argumenta que
“caberia ao ensino trazer a ‘paisagem’ para o universo do aluno, para o lugar vivido
por ele, o que quer dizer trazer a paisagem conceitualmente como um instrumento
que o ajude a compreender o mundo em que vive”. A partir desse entendimento,
que é uma parte de um todo maior e que representa características desse todo, o
educando pode se interessar e atribuir sentido ao estudo do espaço geográfico,
percebendo-se como um agente participante, um sujeito vivo em um espaço, onde
tudo está interligado e inter-relacionado.
A compreensão do espaço geográfico pode se dar de diferentes formas, usando
diferentes categorias ou conceitos-chave da Geografia, porém o mais importante é
buscar um processo ensino/aprendizagem preocupado em ajudar a formar pessoas

221
Verdum ET AL.

mais comprometidas e com raciocínios e conhecimentos claros a respeito do espaço


que ocupam. Deve-se possibilitar aos educandos a prática de pensar sobre os fatos
e acontecimentos mediante várias explicações. Se conseguirem pensar o espaço de
forma mais abrangente e ativa, com certeza, a sua participação na comunidade em
que vivem será mais efetiva e sua atuação será mais consciente.
Em uma visita à Usina de Triagem de Lixo de Santa Cruz do Sul, localizada
no Bairro Dona Carlota, observou-se uma paisagem não muito comum aos olhos
de meninos e meninas de 11 anos, estudantes de uma escola privada. Durante essa
vivência, buscou-se trabalhar o olhar atento, a sensação daquele espaço, a sensibilização
e o entendimento de que somos corresponsáveis por essa paisagem. Para isso, a
metodologia aplicada nessa atividade compreendeu a preparação dos alunos em sala de
aula, possibilitando vivência, observação, investigação, sistematização e sensibilização;
tudo isso em busca de mudanças de atitudes e ações propositivas em prol de uma
sustentabilidade ambiental, social e econômica. O que se percebe é que os alunos
passaram a ver essa paisagem com um valor humano e social, pois a experiência
passou a fazer parte de suas vidas, produzindo uma relação de pertencimento com
o que viram na Usina. E isso se transforma em compromisso pessoal, pois um
dos principais desafios da educação em paisagem é fazer com que os estudantes
“desenvolvam a sensibilidade e senso ético da escola e de todos os cidadãos para a
paisagem” (BUSQUETS, 2011, p. 75).

A pesquisa sobre As Narrativas das Percepções e Conectividades de


Caminhantes nas Paisagens dos Areais Pampeanos: Perspectivas Ambientais
para a Geração de Ambiências toma conhecimento das representações ambientais
Percorrer, ver e escutar em campo

de educadores e estudantes visando o engajamento destes em novas leituras das


paisagens locais, por meio de atividades de educação ambiental nas comunidades
que vivenciam os areais do sudoeste sul-rio-grandense, a fim de ampliar as discussões
junto às comunidades vislumbrando a gênese de ambiências, mediadas por imagens
que refletem as representações sociais dessas paisagens.
A ambiência de campo envolveu diferentes atores sociais, vinculando-
os à paisagem dos areais dos Campos Sulinos. A dialogicidade referenciada no
convívio entre os atores estabelecidos no cenário dos areais, com distintas leituras e
interpretações, deve considerar as possibilidades de alterações qualitativas no sentido
que as “leituras do mundo” podem ser discutidas, recriadas, refeitas, desconstruídas.
Essa paisagem deve mediar o olhar e o ver dos sujeitos-intérpretes, traduzindo-se
num reservatório de utopias: estéticas, políticas, didáticas, intelectuais, constituintes
e constituidoras desse recorte do espaço.
Como objetivo, se propõe promover atividades de educação ambiental nas
comunidades que vivenciam os areais do sudoeste sul-rio-grandense, a fim de ampliar
as discussões junto às comunidades, vislumbrando a gênese de ambiências, mediadas

222
Um mosaico de relações – o Pagus e as múltiplas leituras para o estudo da paisagem

por imagens que reflitam as representações sociais dessas paisagens. A escolha das
professoras é justificada, segundo observações prévias de seus discursos e relatos de
ações pedagógicas desenvolvidas no CEFET do Município de São Vicente do Sul/
RS, caracterizando uma dinâmica de engajamento de um educador ambiental. As
professoras foram convidadas para um diálogo, onde se estabeleceu um debate inicial
sobre suas percepções da paisagem regional, como integrantes da comunidade local,
assim como o reflexo nas suas práticas pedagógicas. Utilizaram-se, como parâmetro
desse diálogo, as visitas já realizadas aos areais, focalizando diferentes escalas dessas
paisagens e buscava cercar o meu interesse as representações que esses caminhantes
construíam ao vivenciar essas paisagens.
Complementou-se a cena ao fomentar a realização de encontros para debates
locais sobre essas paisagens, incentivando a participação da comunidade escolar,
a fim de efetivar a apropriação das discussões sobre os destinos de tais paisagens
nas previstas apropriações econômico-desenvolvimentistas. As revelações das
representações sociais, resultantes das entrevistas e imagens produzidas no cenário
dos areais, constituíram os alicerces para novas possibilidades de leitura, tornando
viáveis novas práxis nas paisagens dos areais do pampa gaúcho. Foram utilizados
recursos de captura de imagens, se servindo de câmeras fotográficas digitais ou
representações através de desenhos, músicas, poemas, entre outras manifestações,
buscando captar as impressões significativas deixadas por essas paisagens.

A pesquisa sobre A Beleza Cênica da Paisagem e sua Significância Ambiental


parte da hipótese de que a preservação da beleza cênica de uma paisagem contribui
para a preservação, restauração e a conservação do patrimônio natural e cultural,

Percorrer, ver e escutar em campo


assim como se constitui como uma nova fonte de renda aos produtores rurais,
através do pagamento dos serviços ambientais. O método utilizado na pesquisa é o
hipotético-dedutivo. As estratégias teóricas, metodológicas e operacionais dividem-
se em dois grandes eixos: estratégia teórico-conceitual e estratégia operacional, cada
um constituído por um conjunto de pressupostos e procedimentos.
A estratégia teórico-conceitual consiste em uma série de ações, visando ao
levantamento de teorias e conceitos da beleza cênica das paisagens no contexto da
legislação brasileira, da caracterização dos atributos e da valoração da paisagem e
da identificação e da caracterização das paisagens preconcebidas do bioma Pampa
de interesse de preservação/conservação e restauração associadas à beleza cênica.
O instrumento metodológico a ser proposto para identificação e caracterização
das belezas cênicas terá como base teórica a análise da paisagem nas suas dimensões
descritiva, sistêmica e perceptiva. A paisagem descritiva é a definição das suas formas
e a enumeração dos seus elementos. A sistêmica é a complexidade da paisagem, é
a combinação dos elementos físicos, biológicos e sociais, a interface de todos esses
elementos. A paisagem perceptiva é aquela que pode ser descritiva e inventariada,

223
Verdum ET AL.

começa pela descrição, passa pela abstração (mudança de escala e de tempo), é a


relação da sociedade com o espaço e com a natureza. A estratégia operacional é
produzida a partir do levantamento bibliográfico para a fundamentação teórica e da
elaboração do formulário para identificar os critérios a serem adotados na definição
das belezas cênicas das paisagens preconcebidas do bioma Pampa do Estado do Rio
Grande do Sul, com a aplicação de um formulário a um grupo de pesquisadores e
técnicos da área ambiental que pesquisam ou trabalham na área do bioma Pampa,
como, por exemplo, geógrafos, biólogos, turismólogos, arqueólogos, paleontólogos
etc. Com a indicação das paisagens, elabora-se um mapa com a identificação das
belezas cênicas preestabelecidas. As informações contidas no formulário e no mapa
servem como critério técnico para a identificação das belezas cênicas das paisagens.
A pesquisa Da Paisagem ao Planejamento do Território – Proposta
metodológica para a Quarta Colônia de Imigração do Rio Grande do Sul se
concentra nas possibilidades de adotar a paisagem como categoria de análise para
avaliação e intervenção no território, buscando novas abordagens nos processos de
planejamento territorial.
Uma das vertentes mais aceitas, atualmente, para os estudos de paisagem,
provinda do campo da Filosofia, mas largamente utilizada como referências nas
diversas Ciências, é aquela que afirma que ‘paisagem’ só existe a partir da mediação
cultural. É justamente neste ponto que os conceitos de ‘território’ e ‘paisagem’
coincidem com grande força. Da mesma forma que o território, a concepção
contemporânea de paisagem integra as dimensões política, econômica e cultural,
inseparáveis neste contexto de análise. Mas, se por um lado, o território aparece
definido pelas relações de poder, a dimensão cultural é a condição sine qua non para
Percorrer, ver e escutar em campo

que se configure a paisagem.


Uma diferença fundamental entre os dois conceitos, considerando que nem
todas as correntes territoriais assumem a dimensão temporal, é que para a paisagem, a
dinâmica é uma constante imprescindível. Este fator, embora torne essa aproximação
mais complexa, mostra-se muito apropriada para correlações com aplicações práticas,
como para o planejamento territorial.
De fato, a paisagem vem sendo utilizada, mais intensamente nos últimos
dez anos, como importante meio de entendimento do território e base para
planos de ordenação territorial. Como consequência dos debates propostos e,
principalmente, dos resultados que há alguns anos começam a aparecer, muitos
países adotam resoluções semelhantes, ainda que pontuais, de estudo da paisagem
para o planejamento e gestão do território, entre eles, o Brasil.
A pesquisa citada tem como balizador a metodologia de elaboração dos
“Catálogos de Paisagem da Catalunha”, instrumento especialmente concebido para
incorporação da paisagem no planejamento territorial da Espanha. No contexto
brasileiro, porém, essa aplicação não tem paralelo direto, necessitando, além de uma

224
Um mosaico de relações – o Pagus e as múltiplas leituras para o estudo da paisagem

reflexão crítica a respeito das suas possibilidades concretas para o planejamento,


adaptações que se referem ao marco jurídico-institucional, bem como de escala.
De qualquer forma, embora seja ainda de uso relativamente recente, a paisagem
tem se mostrado um caminho possível para concatenar diferentes meios e atores do
espaço, distinguindo valores econômicos, estéticos, históricos, simbólicos, ambientais
etc., evidenciando com mais clareza os reflexos que estes podem – ou deveriam – ter
para o planejamento e a gestão do território.

Conclusão
O uso de paisagem, enquanto categoria de análise do espaço, pode ser
considerado recente, sofrendo grande interesse, a partir do início do século XX,
nas discussões de geógrafos alemães e franceses distinguidos como naturalistas.
Duas abordagens foram recorrentes, uma que prioriza a morfologia da paisagem
(paisagem concreta), estabelecida no início do século XX, e aquela voltada para a
simbologia da paisagem (paisagem fenômeno), que começa a ganhar destaque no
final dos anos 1960.
Atualmente, a distância existente entre o entendimento da paisagem como
estudo morfológico e o entendimento da paisagem como estudo simbólico não
encontra espaço na atual noção de paisagem, por ser justamente na relação entre a
forma e seu valor como símbolo que reside o avanço dessa aproximação conceitual.
Com algumas dissonâncias típicas de um conceito ainda em fase de afirmação,
a paisagem acaba por ser adotada em diversos campos do conhecimento, tal qual
território: Geografia, Sociologia, Biologia (e Ecologia mais especialmente), Artes,

Percorrer, ver e escutar em campo


Arquitetura, História, Planejamento, Economia, entre outras.
Ao cruzar as diversas metodologias de pesquisa do Pagus, percebemos que, de
diferentes modos e medidas, cada investigação busca relacionar a ideia de paisagem
concreta e paisagem fenomenológica, ora trazendo a dimensão cultural para uma
pesquisa centrada na paisagem material, ora buscando resultados operativos e
estratégicos de planejamento territorial em uma pesquisa dedicada às subjetividades
da paisagem imaginada.
Fica evidente, a partir da análise das diversas correntes, que as diferentes
perspectivas sobre a paisagem dependem da posição filosófica adotada pelo
pesquisador. Ao mesmo tempo, é importante ter em mente que os conceitos e
metodologias, muitas vezes, crescem em complexidade com o passar do tempo, e
estão sujeitos à dinâmica que é própria da evolução do pensamento.

225
Verdum ET AL.

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228
12 Dos recortes do espaço à
instrumentalização da geografia

Theo Soares de Lima

Apontamentos
Este artigo tem como objetivo expor e aprofundar uma das
temáticas que envolveram a pesquisa de dissertação de mestrado
deste autor (LIMA, 2015), as ambiências enquanto ferramenta
de regionalização do espaço urbano. Para tanto, realizar-se-á um
movimento que parte das noções de phýsis e kósmos, passando pela
origem da Geografia e da compartimentação analítica da Terra, como
em Heródoto e Eratóstenes, até chegar a duas noções de ambiência,
que levarão à sistematização de apontamentos metodológicos e,
enfim, à conclusão.
O leitor pode se perguntar a razão de, novamente, recuperar-se
o conceito de região, dado que autores “de maior peso” já o fizeram

Percorrer, ver e escutar em campo


(GOMES, 2008; HAESBAERT, 2010; LENCIONI, 2003; SOUZA,
2013). Mesmo que correta, essa afirmação não invalida a busca
de outros elementos como os conceitos de phýsis e kósmos, não
discutidos nas obras supracitadas, mas que ajudam a contextualizar
a concepção de mundo em que nasce a Geografia e a prática de
repartir a superfície terrestre. Além disso, não há como começar
diretamente de uma proposta de junção teórica: é necessário falar,
antes, sobre os conceitos a serem conectados.
Destarte, o presente trabalho faz uma apresentação da
importância do conceito de região e de sua operacionalização
geográfica, articulando tais aspectos com outra questão, a de
ambiência (DEBORD, 2003; REGO, 2000). Esta, por sua vez,

In: HEIDRICH, A. L. & PIRES, C. L. Z. (orgs.). Abordagens e práticas da pesquisa


qualitativa em Geografia e saberes sobre espaço e cultura. Porto Alegre:
Editora Letra1, 2016, p. 229-247. DOI: 10.21826/9788563800220
Theo Soares de Lima

também merecerá um desenvolvimento à parte. Somente depois é que será possível,


enfim, discorrer sobre a junção da proposta de ambiência como uma ferramenta de
análise regional.
Por conseguinte, este artigo possui um quinhão epistêmico, em um resgate
de conceitos e dos conhecimentos produzidos a partir deles, e outro quinhão
metodológico, porque tenta dar conta de um caminho a ser seguido, ou seja, de
algo que possa ser reproduzido por outrem de maneira similar. Pois o método é
isso, um caminho, um trajeto, um indicativo que pessoas diferentes podem seguir
para chegar a resultados similares ou, num sentido estrito, a um resultado idêntico.

A natureza e o universo
As origens da Geografia, como ocorre com diversas outras disciplinas e
assuntos em geral, remontam aos gregos da Antiguidade. Como certa feita foi dito
a este autor: “antes de achar que pensaste algo original, tenhas certeza se os gregos já
não falaram sobre o assunto”. No presente caso, de fato, contamos com Heródoto, “o
primeiro geógrafo” (CLAVAL, 2014, p. 77) e, dois séculos depois, com Eratóstenes,
quem efetivamente cunha o termo Geografia (CLAVAL, 2014, p. 66). Esses são,
“[n]a Antigüidade, os grandes nomes relacionados ao conhecimento geográfico”
(LENCIONI, 2003, p. 39). É necessário adentrar nessa espécie de genealogia (de ir
às origens) da geografia/região, a partir da época efervescente que foi o nascimento
da Filosofia, porque é daí que se lançam as bases para a construção do que veio
a ser o “pensamento ocidental”, e, por óbvio, o próprio pensamento geográfico
(LENCIONI, 2003, p. 32-44).
Percorrer, ver e escutar em campo

Em torno de 500 a.C., temos com Tales, Anaximandro, Anaxímenes, Heráclito


e, posteriormente, com Sócrates, Platão e Aristóteles, o surgimento da Filosofia, o
“amor à Sabedoria”. Muitos já ouviram falar dos diálogos socráticos ou com eles são
familiarizados, reconhecendo-os pelo protagonismo daquele enigmático personagem
que percorre a àgora ateniense desafiando sofistas – aquele homem que nada sabe
e que não tem o intuito de ensinar, mas de mostrar aos outros que eles, tampouco,
sabem o que dizem. As aporias socráticas (situação em que o interlocutor se vê
diante da insustentabilidade de suas teses iniciais, as quais é obrigado a abandonar
ou a permanecer em contradição) tornaram-se bastante conhecidas nos espaços
acadêmicos, e o próprio Sócrates serve como ferramenta divisória de dois momentos
filosóficos, através da denominação pré-socráticos.1 No entanto, tal separação é
bastante curiosa, posto que alguns dos autores que a compõem são seus conterrâneos
de época (ONFRAY, 2008, 2010).
Contudo, essas questões já vão adiantadas ao que, de fato, propriamente
1 Este termo foi cunhado e difundido através do título da obra de Hermann Diels e Walther Kranz, “Die
Fragmenteder Vorsokratiker” (BORNHEIM, 1998, p. 17).

230
Dos recortes do espaço à instrumentalização da geografia

interessa para a discussão de região, posto que, anteriormente, é preciso que se


compreenda o entendimento dos gregos acerca do universo em dois sentidos, o de
phýsis e o de kósmos. Estas noções estão enraizadas no pensamento de Heródoto, e
por meio delas encontram-se instrumentos para aclarar as tentativas de divisões da
superfície terrestre, presentes em toda história da Geografia.
É nesse momento da história grega que mito e razão começam a se separar,
configurando-se a superação das crenças em intervenções divinas quanto aos
fenômenos, que passam a ser substituídas por explicações causais, assim como
pela percepção de suas regularidades (MURACHCO, 1997). Heródoto, entretanto,
encontra-se no intermédio dessa transição, mantendo “um pé em cada mundo”
(VLASTOS, 1987, p. 16).
Em um excelente capítulo intitulado “Os gregos descobrem o Cosmos”, Vlastos
(1987) situa o período histórico no qual essas noções adquirem força no pensamento
helênico, assim como explana o porquê de elas serem fundamentais, tanto para o
entendimento das suas concepções de sociedade quanto para a consolidação das
bases de uma produção filosófica crescente. Outro trabalho interessante, em âmbito
semelhante, é o de Murachco (1997), que efetua um resgate e um debate linguístico
a partir, dentre outras fontes, do capítulo de Vlastos.
Cabe destacar, inclusive, que os filósofos antigos, como os quatro pré-socráticos
citados anteriormente, eram conhecidos como physiológoi, ou seja, como estudiosos
da phýsis, mais do que como philósofoi (MURACHCO, 1997), que representa aquilo
que entendemos por filósofo. Atualmente, a ideia mais forte de phýsis remete à
natureza, no sentido de primeira natureza: montanha, rio, floresta. Já kósmos assume

Percorrer, ver e escutar em campo


o caráter de universo, remetendo ao espaço sideral. Nenhuma das duas concepções
está equivocada, apenas não comportam os significados “totais” dos termos, na
medida em que eles são isso, mas também são mais.
Em seu sentido básico, derivado da etimologia, phýsis significa os atos
de “nascer” e de “brotar” (MURACHCO, 1997), de “crescer” e de “produzir”
(BORNHEIM, 1998). Portanto, quando se enuncia esse conceito, se está falando
de uma natureza movente, que advém de algo e que se dirige a algo, algo este que é
concreto, uma vez que sustenta o mundo. Para Tales, esse algo é representado pela
água, para Anaximandro, por sua vez, pelo apéiron, para Anaxímenes, pelo ar e, para
Heráclito, pelo fogo (BORNHEIM, 1998).
Mas, como já foi dito, phýsis significa mais do que natureza no sentido de meio
natural. Ela também significa natureza no sentido de natureza do ser, “um feixe de
características estáveis pelas quais podemos reconhecer essa coisa” (VLASTOS,
1987, p. 21). Há uma passagem do capítulo de Vlastos que aborda, precisamente, o
“primeiro geógrafo”, a quem ainda se deve a merecida atenção, a qual será conferida
no capítulo seguinte, pois resta apresentar a noção de kósmos, que se segue:

231
Theo Soares de Lima

[...] a partir do fato de que uma dada coisa tem uma phýsis, Heródoto não nos
permite inferir que sempre a veremos na posse total dessa phýsis. Assim, é da phýsis
de um crocodilo ter um rabo, mas não se segue daí que este crocodilo o terá: ele
pode tê-lo perdido em uma briga ou de qualquer outra maneira. A única coisa
certa para Heródoto é que, exceto pela intervenção do sobrenatural, sempre que
as coisas interagem, as suas phýseis estabelecem os limites do que pode acontecer.
O que os physiológoi fazem é abandonar essa exceção [do sobrenatural]. Eles
fazem do mundo um cosmos, conservando o que lá já estava em forma de phýsis
e eliminando todo o resto (negrito nosso; VLASTOS, 1987, p. 22).

A primeira coisa que se pode salientar na relação dos dois termos presentes
na citação, a partir dela própria, é que kósmos é mais amplo do que phýsis: esta é
açambarcada por aquele. Explique-se, novamente, por meio de etimologia.
Cosmos, como chega até o português, advém de kósmos, que significa um
conjunto de coisas ordenadas, resultado da ação verbalizada pelos gregos como
“kosméo: colocar em ordem, arranjar, arrumar” (VLASTOS, 1987, p. 11). Entretanto,
este termo não se esgota no seu sentido de ordem, posto que há um componente
estético no ordenamento, aproximando-o da ideia de “ornamentar, ornamento”
(VLASTOS, 1987, p. 11), “ordenação com beleza” (MURACHCO, 1997, p. 21), “uma
organização que impressiona os olhos e a mente como agradavelmente apropriada;
como estabelecendo, mantendo ou repondo as coisas em sua ordem própria” (grifo nosso;
VLASTOS, 1987, p. 11). Não por coincidência, este sentido de belo é que origina
a palavra “cosmético” (VLASTOS, 1987, p. 11).
Enfim, o grande salto a ser entendido aqui é de que forma esse termo - utilizado
para aquilo que faz um comandante, ao dispor seus homens em batalha ou, então,
para o que fazem os funcionários de justiça, ao preservar a ordem legal - passa a
Percorrer, ver e escutar em campo

ser aplicado “[...] como nome de um sistema físico composto pela Terra, Lua, Sol,
estrelas e tudo o que estivesse em, sobre ou entre esses objetos [...]” (VLASTOS,
1987, p. 11-12).
Tal salto se configura, conforme consta no trecho supramencionado, pelo
abandono da exceção. A “natureza”, entendida por intermédio da ideia de cosmos,
passa a ser compreendida por meio da percepção de suas regularidades. Essa
concepção, ademais, é uma operação de duas pontas: de um lado, ela ataca o caráter
sobrenatural que explica, pretensamente, os fenômenos por meio de mitos, como
uma erupção vulcânica ser uma intervenção divina. De outro, ela é a possibilidade
de produzir “teorias sobre a phýsis do Universo como um todo” (VLASTOS, 1987,
p. 22), sendo a previsão atribuída a Tales, de um eclipse total do Sol, exemplar nesse
sentido (BORNHEIM, 1998, p. 22).
Por último, como curiosidade, podem ser lembradas duas concepções
libertárias que se aproximam muito da concepção grega – uma que afirma que a
natureza é “o todo, do qual o homem é uma metáfora” (grifo do autor; BOOKCHIN,
s/d, p. 86), e outra que diz que o “homem é a natureza tomando consciência de si

232
Dos recortes do espaço à instrumentalização da geografia

própria” (RECLUS, 1985a, p. 38). Na primeira delas, natureza é tomada como um


todo no sentido de uma phýsis do Universo, e o homem é uma metáfora desse todo
no sentido de que detém sua própria natureza. Da mesma maneira, na segunda, o
homem é tal qual a phýsis, com a diferença de que ele consegue pensar sua própria
natureza. Frente a isso, percebe-se que ambos os autores estão atentando para o fato
de que tanto o humano quanto o natural são regidos por um mínimo de princípios
comuns. Considerando-se que ambas, estrelas e pessoas, são igualmente constituídas
por partículas, suas afirmações não parecem estar fora do esquadro estruturante do
cosmos.

Porções da superfície terrestre


Quando Heródoto escreve sua História, já existem representações cartográficas
da superfície terrestre, mas elas “são toscas” e ele “zomba delas” (CLAVAL, 2014,
p. 77). Apesar disso, o autor não deixa de considerá-las, pois são elas que permitem
que ele possa manter um olhar distante de onde se encontra, conseguindo traçar
contornos locacionais dos povos que habitam o mundo conhecido pelos gregos
antigos. Para ele, na escala mundial, era possível identificar quatro grandes regiões:
“Europa, Ásia, Líbia e Delta do Nilo” (LENCIONI, 2003, p. 39), o que não o impede
de localizar, também, regiões menores, o que se atesta por sua descrição da Cítia,
imbuída de uma “forma quadrilateral” (CLAVAL, 2014, p. 77), e da Hiléia, sua área
de floresta (LENCIONI, 2003, p. 40).
Essa ideia jônica, de uma carta “feita da justaposição de figuras geométricas”
(CLAVAL, 2014, p. 77), influenciará Eratóstenes, filósofo mencionado anteriormente

Percorrer, ver e escutar em campo


e que merece, ao menos, dois destaques. O primeiro se refere ao fato de ter calculado
a circunferência da Terra e de ter, nessa empreitada, encontrado medida próxima da
atualmente considerada correta (CLAVAL, 2014; LENCIONI, 2003). O segundo, de
ter dividido a Terra habitada em cinco partes denominadas “esfrágides” (LENCIONI,
2003, p. 41) ou “sphragides” (CLAVAL, 2014, p. 77), palavra que tem o sentido
de lacre ou de selo. Sua carta é a primeira a apresentar, claramente, “coordenadas
geográficas como referência” (LENCIONI, 2003, p. 41).
Por sua vez, quem herda a tradição de Eratóstenes é Estrabão e sua Geografia,
que divide geógrafos e corógrafos em duas epistemes diferentes, em função de suas
escalas: respectivamente, a global e a regional (CLAVAL, 2014). É por isso que, se
Heródoto é tomado como o primeiro geógrafo, Estrabão representa “o marco inaugural
da Geografia Regional” (LENCIONI, 2003, p. 46). Já em Ptolomeu, igualmente
herdeiro de Eratóstenes e mais tardio que Estrabão, também se encontram os termos
“‘geographia’ (geral) e ‘chorographia’ (regional)” (HAESBAERT, 2010, p. 27).
Esse período histórico, mesmo que tão distante, é de extrema importância,
porque é nele que se inicia uma divisão de análise, que acarretará nas discussões sobre

233
Theo Soares de Lima

se a região é o objeto da Geografia, assim como se a Geografia deve se preocupar


em criar teorias ou apenas em descrever as divisões da superfície terrestre. Dessa
maneira, é a própria finalidade da disciplina que está em questão: “durante muitas
décadas [o conceito de região] foi, para um grande número de geógrafos, o seu
verdadeiro ‘carro-chefe’ [...]” (SOUZA, 2013, p. 135). Razão pela qual “é o mais
nitidamente reconhecido como conceito geográfico por outros cientistas sociais”
(HAESBAERT, 2010, p. 157).
Ademais, é interessante observar que Estrabão viveu, assim como Heródoto,
em um momento de transição. No seu caso, foi o da passagem do apogeu grego
para o romano, a partir de quando o latim difunde-se, torna-se dominante e acaba
por legar à língua portuguesa palavras como região, formada pelo prefixo reg, do
latim regere, que diz respeito a reger no sentido de comandar (GOMES, 2008) e
província, advinda de pro-vincere, que eram os administradores das terras conquistadas
(LENCIONI, 2003). Nessa seara, é com os romanos que surge a região no seu
sentido administrativo: regione, uma unidade local que se reportava a Roma, estando
“subordinada às regras gerais e hegemônicas” (GOMES, 2008, p. 50).
Tem-se aqui um apontamento importante. Se os romanos legam a origem da
palavra região e o seu sentido administrativo/político – que, ainda que transmutado,
permanece vivo até hoje –, é aos gregos que se deve creditar a possibilidade dos
conhecimentos geográficos produzidos por aqueles até a queda de seu Império no
século V d.C. (LENCIONI, 2003).2
A partir daí transcorre um período medieval milenar até o surgimento e a
consolidação do Estado-moderno. É somente por ter feito parte dessa complexa
história da Antiguidade que a Geografia será tão importante, nesse novo período,
Percorrer, ver e escutar em campo

enquanto um conhecimento de controle (GOMES, 2008,). Contudo, observe-se


que mesmo após um “salto”, para o século XV, a Geografia e suas problemáticas
regionais permanecem envoltas em uma mescla de questões já presentes nos gregos
e nos romanos: a delimitação de um todo, ordenado segundo características que lhe
definem e que é governado por um poder em particular.
Mas não é só na constituição do Estado-moderno que as questões dos
antigos permanecem, já que elas também estão presentes no século XIX, quando
da sistematização universitária/científica da disciplina. Afinal, os responsáveis pela
institucionalização da Geografia, Alexander Von Humboldt e Karl Ritter, concebiam
“o estudo da superfície da Terra como um todo coerente e harmônico” (LENCIONI,
2003, p. 88). Tal apontamento é reforçado pelo fato, para citar apenas um, de que
a principal obra de Humboldt recebeu o título de Kosmos – na qual investiga “as
relações entre a vida orgânica, incluído aí o homem, e a superfície inorgânica da

2 Um bom quadro sinótico, contendo diversos nomes mencionados nos tópicos 2 e 3, pode ser encontrado
ao final do capítulo “As origens do Conhecimento Geográfico” (LENCIONI, 2003, p. 71).

234
Dos recortes do espaço à instrumentalização da geografia

Terra” (LENCIONI, 2003, p. 89).


Nos quase dois séculos transcorridos desses autores até a atualidade, a
Geografia multiplica-se ao redor do globo acompanhada da região, que passa a ser
operacionalizada por meio de “diversos domínios” (GOMES, 2008, p. 53-68): o
de região natural, o de região-paisagem, o de região enquanto construto mental,
o de região funcional, o de região fruto da divisão do trabalho, o de região como
espaço vivido. Estes diversos domínios são possíveis, por sua vez, de ser agrupados
na trajetória de distintas perspectivas e abordagens que os definiram e utilizaram
(HAESBAERT, 2010).
Independentemente de qual caminho se adote, o que mais interessa aqui
é ver que o resultado será o mesmo. De que há de se ter em mente que “a noção
(antes mesmo do conceito) de região está sujeita, como tantas outras ideias caras
à pesquisa socioespacial, a uma grande variabilidade histórico-geográfico-cultural”
(SOUZA, 2013, p. 146).
É dever de cada pesquisador, destarte, aclarar essa diversidade nos seus
estudos, situando em que “linhagem” está o conceito de região que utiliza, sendo,
consequentemente, responsável por tal. Afinal, toda construção teórica tem seus
méritos, bem como carrega limites e incompletudes. O mais importante, em face
disso, é manter-se uma constelação de conceitos coerentes, onde cada um possua
sua definição e uso, sem ser contraditório ou igual aos seus próximos (HAESBAERT,
2010).

Ambientes e comportamentos

Percorrer, ver e escutar em campo


Como dito na apresentação, este tópico trata de duas noções de ambiência.
Uma foi apresentada no texto de fundação da Internacional Situacionista (IS),
movimento de “contracultura” que existiu entre os anos 50 e 60 do século XX. Tal
texto é assinado por Debord (2003), um dos nomes mais proeminentes da IS, e traz
uma noção de ambiência imbricada em um complexo sistema de ideias, do qual se
tentou dar conta em outros momentos (LIMA, 2011, 2013, 2015).
Dentre várias outras propostas, a IS intentava superar o urbanismo moderno
por meio do que seus integrantes denominaram de “urbanismo unitário” (DEBORD,
2003, p. 54; INTERNACIONAL SITUACIONISTA, 2003, p. 65), preocupado com
“dois grandes componentes que interagem continuamente: o cenário material da
vida e os comportamentos que ele provoca e que o alteram” (DEBORD, 2003, p.
54). É somente dando a devida atenção para esses dois componentes que se poderia
chegar a “uma composição integral do ambiente” (DEBORD, 2003, p. 54).
Diferentemente de muitas das discussões feitas pelos situacionistas (como são
denominados os integrantes da IS), imprecisas nas suas conceituações, aqui há uma
proposta clara e direta de “troca” de um paradigma por outro. O urbanismo unitário

235
Theo Soares de Lima

apregoa, em sua expressão máxima, que “a principal atividade dos moradores será a
deriva contínua” (IVAIN, 2003, p. 71), em resposta às concepções modernistas que,
segundos os situacionistas, carregaram para dentro das cidades um viés urbanista
funcional, fragmentador do tecido urbano em áreas com finalidades de usos específicos.
Para que o urbanismo unitário pudesse ser alcançado, os situacionistas
propuseram uma técnica de investigação que se ocupava de identificar ambiências
existentes no espaço urbano. Esse primeiro resultado deveria servir para impulsionar
novos usos para os locais, como um catalisador pelas constatações que gera. A
essa técnica deram o nome de “psicogeografia” (DEBORD, 2003, p. 56), definido
como o “estudo dos efeitos exatos do meio geográfico, conscientemente planejado
ou não, que agem diretamente sobre o comportamento afetivo dos indivíduos”
(INTERNACIONAL SITUACIONISTA, 2003, p. 65).
Foi essa proposta que assumiu lugar central na dissertação deste autor (LIMA,
2015), tendo como principal fonte, para entender a “metodologia” da psicogeografia,
o relatório das derivas realizadas por Abdelhafid Khatib no bairro parisiense Les
Halles (KHATIB, 2003, p. 79-84). Neste bairro, estava presente um mercado público,
para o qual o situacionista pensou o uso de “um parque de diversões para a educação
lúdica” (KHATIB, 2003, p.84). O mercado foi demolido logo após o término
forçado de sua pesquisa, entretanto, o relatório permaneceu como exemplo do que
esse movimento pretendia, quando falava em superar o funcionalismo moderno.3
Ressalta-se que, depois da abertura deste tópico, por duas vezes utilizou-se
deriva nos dois sentidos que os situacionistas têm para esta palavra (DEBORD,
2003) – uma atividade cotidiana e um meio para um fim, a pesquisa psicogeográfica.
Ambos, porém, são transversalizados pela noção de ser uma “técnica da passagem
Percorrer, ver e escutar em campo

rápida por ambiências várias” (INTERNACIONAL SITUACIONISTA, 2003, p. 65).


Do relatório de Khatib, em particular, a dissertação tomou os elementos
estruturados por ele e tentou aprofundá-los (LIMA, 2015). Apesar de seu estudo
ter sido interrompido precipitadamente, há uma grande fecundidade nos escritos
desse situacionista, podendo-se salientar que suas investigações psicogeográficas
delimitaram uma ambiência geral que abrange a área estudada, zonas de ambiência
internas, que compõem essa ambiência maior, eixos de conexão externos e internos
(respectivamente, de entrada e saída da ambiência e de circulação dentro dela),
além de placas giratórias, existentes e possíveis, no interior da área - nodosidades
que convergem diversos passantes até si e os dispersa para várias outras direções
(LIMA, 2015).
A outra concepção de ambiência que resta aclarar é:

[...] uma noção de espaço geográfico como um sistema composto por relações
sociais articuladas a relações físico-sociais, espaço condicionador da existência

3 Como esclarece a nota ao fim de seu relatório, um decreto passou a proibir a permanência de norte-
africanos nas ruas parisienses depois das 21h30 e as principais ambiências do bairro eram noturnas.

236
Dos recortes do espaço à instrumentalização da geografia

humana e que pode, este espaço, ser eleito como objeto catalisador de ações
transformadoras exatamente por este motivo – por ser condicionador da existência
humana (grifos nosso; REGO, 2000, p. 7).

Por conseguinte, mantêm-se nessa segunda noção os aspectos fundamentais


ressaltados pela IS, de que ela é material e de que sua materialidade se estabelece de
maneira relacional com os sujeitos a quem serve de substrato. Essas aproximações têm
em vista ressaltar a coerência de ambas as perspectivas, mas não servem somente a
isso, pois há ressalvas diretas nessa segunda noção – enquanto que, na que é utilizada
pelos situacionistas, é necessário efetuar deduções e até mesmo inferências.
Na ambiência, posta como um espaço condicionador, se reconhece que há
influência do entorno sobre os seres que o ocupam, ainda que não haja determinismo
do meio geográfico, herdado desde os gregos, no qual as localizações dos povos os
sujeitavam a terem comportamentos específicos – é a influência da astrologia sobre os
conhecimentos da astronomia (CLAVAL, 2014). O potencial catalisador, portanto,
coloca diante dos sujeitos uma multiplicidade de mundos que eles irão optar por
criar. Não há determinações, apenas possibilidades. Sempre refeitas, sempre abertas.
“Pois a geografia não é coisa imutável; ela se faz, se refaz todos os dias: a cada instante
se modifica pela ação do homem” (RECLUS, 1985b, p. 156).
O outro aspecto importante dessa noção expõe que, por ser condicionadora da
existência, a ambiência é, também, catalisadora de sua transformação, ou seja, criadora
de condições outras. Há, novamente, uma ilação com a noção dos situacionistas,
que igualmente reconhecem o cenário material agindo sobre os comportamentos
que retroagem sobre o cenário.
Cabe dizer, ainda, que Éliseé Reclus, geógrafo anarquista mencionado

Percorrer, ver e escutar em campo


anteriormente, trata a “complexidade da produção do espaço geográfico” (RECLUS,
1985a, p. 56-61) de uma maneira muito próxima às ambiências, através do termo
“meio geral” (RECLUS, 1985a, p. 58). As contribuições de sua discussão influenciaram
sobremaneira a forma de vivenciar os campos que, por sua vez, resultaram nas zonas
psicogeográficas. Assim, algumas menções aos seus escritos serão feitas no próximo
tópico.
Enfim, essas são as duas noções de ambiência, e suas decorrências, que se
prometeu apresentar no início do artigo. Feito isso, é hora de passar para a articulação
das mesmas com as discussões de região, desembocando na esquematização de sua
instrumentalidade.

Vivências e parâmetros
Da abordagem feita até aqui, decorrem duas afirmações centrais. A região
(e, consequentemente, a ambiência) é composta, necessariamente, de “um fato
externo, presente na superfície terrestre, e um fato teórico, presente na ação de

237
Theo Soares de Lima

quem grafa” (LIMA, 2015, p. 74). É isso que faz dela um “artefato” (HAESBAERT,
2010), resultado de um artifício particular, utilizado pelo sujeito que regionaliza
um fenômeno específico.
A abertura desse item serve de alerta epistêmico, pois não permite conceber
regiões somente como um intuito analítico, nem somente como um fato natural,
dado e único para cada local. Assim, o que se está defendendo é que a mesma área
pode comportar, simultaneamente, diversas regiões, o que não pode acontecer é
circunscrever-se, arbitrariamente, porções de algo que inexiste factualmente, como
ocorrências de florestas em áreas de desertos.
Novamente, faz-se notável o pensamento dos physiológoi: ainda que algo
seja manifesto (que é o sentido etimológico grego de fenômeno, phenomenon -
fato, ocorrência, aquilo que aparece)4, sua ordenação precisa ser desvendada. É
um acontecimento que independe do observador para acontecer e que, contudo,
aquele só pode ser explicado por este. Essa é uma constatação evidente pelo fato de
que os gregos da antiguidade sustentaram, como causa da ordem e da subjacência
do cosmos, elementos diferentes. O mesmo fenômeno é explicado de inúmeras
maneiras, verdadeiras ou não, mas a existência do mesmo não é colocada em xeque.
Aproveitando-se essa retomada dos itens 2 e 3 deste artigo, mais uma vez são
importantes as noções de phýsis e kósmos, porque auxiliam a situar as ambientações.
As ambiências gerais comportam inúmeras totalidades singulares e cada uma, todo
ou partes, formada de acordo com as características que as fazem ser o que são, uma
natureza própria que se dá de maneira ordenada. Tal qual em Heródoto, em que
o mundo era composto por quatro grandes regiões, formadas de regiões menores,
como a Cítia, que comporta, por sua vez, regionalizações internas, como a Hiléia:
Percorrer, ver e escutar em campo

regiões dentro de regiões. Essa é a máxima legada pelos physiológoi, no que concerne
as ambiências, porque independente da escala em que sejam demarcadas, há sempre
uma organização que lhe dá suporte e que a propicia. Com Reclus (1985b) temos a
mesma percepção, transposta diretamente para as cidades, porque cada uma

[...] tem sua individualidade particular, sua vida própria, sua fisionomia, trágica
ou triste em algumas, alegre ou espiritual entre algumas outras. As gerações que
ali se sucederam lhe deixaram seu caráter distintivo; constitui uma personalidade
coletiva, cuja impressão sobre o indivíduo isolado é má ou boa, hostil ou
acolhedora. Mas a cidade é também um personagem muito complexo, e cada
um dos seus diversos bairros se distingue do outro, por uma natureza particular (grifo
nosso; RECLUS, 1985b, p. 154).

Enunciados esses destaques, resta tratar diretamente do processo e do resultado


do ato de ambientar. Para tal, serão propostos cinco parâmetros de ambientações, ou

4 Extraído do site “Online Etymology Dictionary” <http://www.etymonline.com/>, que contém um


acervo, se não completo, quase, das etimologias para o inglês. Felizmente, o caso em tela se aplica,
também, ao português.

238
Dos recortes do espaço à instrumentalização da geografia

seja, de regionalizações do ambiente em ligação com os comportamentos que ele


produz e que o reconstroem. São esses parâmetros que permitem uma construção
metodológica da região-ambiência, porque deles não se pode abrir mão para defini-
la(s) e operacionalizá-la(s), e eles mantêm a sugestão inicial de que o método é um
caminho a ser seguido por outrem. Enfim, sua construção é resultado das diversas
características apontadas neste artigo em conjunto com desenvolvimentos que
permearam a dissertação, o que torna necessário tomar um momento para falar que
desenvolvimentos foram esses.
Ao longo do trabalho de dissertação, foram realizadas derivas de maneiras
distintas, porque “[d]iversos foram os dilemas enfrentados quanto às realizações das
entradas de campo” (LIMA, 2015, p. 14). Como foi narrado, “em torno de três meses”
(LIMA, 2015, p. 132), continuamente, “todo santo dia”, derivou-se pelas ruas do
bairro escolhido. Isso se deu para adentrar no cotidiano, submergir no ritmo de vida
do local, apreendê-lo na sua constância rotineira, nas diferenças de uma hora para a
outra, de um dia para o seguinte, de uma semana para a próxima. Mas tal não quer
dizer que as derivas só tenham acontecido nesse período. Ao contrário, absolutamente
todos os meses, desde o ingresso na pós-graduação, foram realizadas caminhadas
pela área estudada. Algumas dessas incursões foram ocasionais, aproveitando-se a
ida demandada pela busca de um serviço, outras foram destinadas diretamente a
suprimir uma dúvida sobre determinada característica. Algumas começaram de manhã
e terminaram de madrugada, outras não chegaram a completar um turno. O que é
certo é que em todas as estações o corpo derivante, à procura de ambiências, se fez
presente. Essa descontinuidade dos trabalhos de campo tornou-se necessária quando
se percebeu que não poderia eliminar os frutíferos encontros que o acaso produz.

Percorrer, ver e escutar em campo


Para calcar as impressões dos campos, foi montado um acervo fotográfico,
totalizando vinte e seis imagens capturadas com um celular. A escolha por esse
“singelo” aparelho se deu por uma questão de praticidade, mas, também, para
mostrar o alcance dos utensílios comuns que se tem à disposição no dia a dia. As
fotos apresentadas na dissertação estão localizadas, por pontos, em um dos dois
mapas elaborados (LIMA, 2015). No texto, elas estão acompanhadas de descrições
autorais de cada local, que, embasadas em dados governamentais, registros históricos
e conversas com uma enorme gama de pessoas, deram forma e conteúdo para as
ambiências delimitadas.
Cabe salientar que, com conversas, se quer dizer, na verdade, as “entrevistas”
realizadas. Nenhuma delas se deu no sentido formal, de questionários fechados
ou semiestruturados. O que chegou a ser, de fato, considerado. Entretanto, dentre
outras questões, essa medida permitiu manter o mesmo grau de importância entre
estórias contadas por pessoas tão diferentes, como vendedores de toda sorte, policiais,
garçons, moradores de rua, taxistas, catadores e agentes de trânsito. Todas essas
vivências foram anotadas em diário de campo e sintetizadas em uma “narrativa

239
Theo Soares de Lima

interpessoal ambientada em escala 1:1” (LIMA, 2015, p. 131-139), um texto que


relata acontecimentos vivenciados pelo autor, em trocas constantes com as pessoas
do entorno, e situado em um nível de detalhamento que parte da escala da rua.
Por último, os dois mapas apresentados na dissertação (LIMA, 2015)
foram tanto meio quanto produto da pesquisa. Sua vetorização, em um Sistema
de Informações Geográficas - SIG, deu-se a partir de um mosaico montado com
imagens do Google Earth. Seu processo de construção incitou novas percepções e
dúvidas que a mirada a partir do corpo deixou escapar, ao mesmo tempo em que
são os resultados de derivas, fotos, descrições e, por que não?, da própria narrativa.
Sua finalidade principal foi espacializar as informações textuais, proporcionando,
inclusive, maior facilidade de localização para os que desconhecem a área investigada.
Conjuntamente, eles contêm a ambiência geral e as internas, o limite administrativo
do bairro, os eixos de conexão externos e internos, as placas giratórias e a plotagem
das fotos.
Os parâmetros, enfim, estão dispostos individualmente, acompanhados de
uma breve explanação. Todavia, sua apreensão deve ser feita de maneira maleável,
tomando-os como indicativos, e não como estruturas rígidas que demarcariam, na
precisão decimal de uma carta topográfica, o passo a passo das ambientações. Isso
se dá porque

[...] o meio geral se decompõe em elementos inumeráveis: uns pertencem à natureza


exterior, designada frequentemente como o “meio” por excelência, o ambiente
propriamente dito; outros são de ordem diferente, uma vez que decorrem da
própria marcha das sociedades e se produziram sucessivamente, aumentando ao
infinito - por multiplicação - a complexidade dos fenômenos ativos (grifo nosso;
RECLUS, 1985a, p. 58).
Percorrer, ver e escutar em campo

Seguem, sem hierarquia de importância, os cinco parâmetros para


instrumentalizar as ambientações, esses recortes do espaço que estão dentro e fora
de cada sujeito.
(a) A delimitação de ambiências calca-se na materialidade do mundo.
Ainda que os seres humanos não partilhem suas vivências pela exatidão do
que sentem, “é demasiado forçado dizer, por exemplo, que duas pessoas discordarão
sobre o número de andares ao observarem uma casa somente de piso térreo” (LIMA,
2015, p. 48).
Como coloca Dardel (2011), é de matéria que se constituem os espaços:
telúrico, aquático, aéreo ou construído. Montanha, rio, atmosfera ou prédio, não
importa, eles estão aí, presentes no mundo em suas constituições atômicas. Cai-se
ao pular de um abismo, choca-se ao correr contra uma parede, queima-se a pele ao
estar na luz do sol.
Mesmo que exista desacordo ou preferência acerca de determinados locais,
“cuja impressão sobre o indivíduo isolado é má ou boa, hostil ou acolhedora”

240
Dos recortes do espaço à instrumentalização da geografia

(RECLUS, 1985b, p. 154), ela certamente calca-se nas condições da natureza, que
“influem, para melhor ou para pior, no desenvolvimento das cidades” (RECLUS,
1985b, p. 151).
Assim, evidencia-se uma dupla preocupação com a materialidade – natural
e social/construída –, que sustenta as práticas das derivas. De forma geográfica e
sintética, pode-se dizer que a delimitação de ambiências calca-se num “substrato
espacial material” (SOUZA, 2013, p. 63-76).
(b) A delimitação de ambiências depende do indivíduo que a efetua.
Mesmo que não se estivesse falando do presente tema, a ressalva contida
neste parâmetro é válida para qualquer pesquisa. Não existe obra sem autor, e, assim
sendo, não há trabalho que não contenha um cunho biográfico, “porque todos os
filósofos, sem exceção, pensam a partir de sua existência própria” (ONFRAY, 2010,
p. 13). Ainda que os resultados e o compromisso crítico não devam, jamais, ser
suprimidos frente a questões pessoais - como muito se fez em nome da ideologia
-, os caminhos são particulares às vidas que os trilharam. “Cada um de nós é, na
realidade, um resumo de tudo aquilo que viu, ouviu, viveu, de tudo aquilo que pôde
assimilar pelas sensações” (RECLUS, 1985a, p. 57).
Portanto, as ambiências são, sim, resultado do mundo sensível, mas não
se esgotam nele, muito menos são devaneios de quem deriva, porque não se dão
apenas na individualidade do que cada ente acha e opina sobre as coisas manifestas.
Também é “necessário buscar teorias e dados estatísticos e documentais para auxiliar
tal investigação” (LIMA, 2015, p. 125), de maneira que haja suportes que extrapolem
as próprias vivencias.
(c) A delimitação de ambiências depende das existências compartilhadas.

Percorrer, ver e escutar em campo


Assim, decorre do parâmetro anterior que estudos como o do situacionista
(KHATIB, 2003) e do presente autor sejam pessoais, entretanto, as delimitações
de ambiências dependem de enlaces entre indivíduos, ou, dito de outra maneira,
dependem de uma “construção compartilhada” (LIMA, 2015, p. 49).
Ao derivar pela cidade, o corpo está em contato com outros corpos, que
o ignoram ou que o percebem, e esses contatos se dão em locais específicos, em
determinados momentos. O músico de rua faz parte da ambiência tanto quanto
a fachada colonial do sobrado que o emoldura. O cheiro das frutas e das flores à
venda tanto quanto o paralelepípedo que lhes dá chão e o vendedor que as expõe.
Quem cruza pelo derivante constitui, junto com os objetos, a paisagem por
onde transitou. Assim, é preciso aceitar que as ambiências são resultado de uma
convivência, de um viver com o outro.
(d) A delimitação de ambiências requer viagens investigativas.
A principal atenção que se deve dar a este parâmetro é sobre o significado
de viagem, porque se reveste de “entrada de campo”. A primeira vez que este autor
utilizou essa denominação, “entradas de campo”, foi na monografia (LIMA, 2011, p.

241
Theo Soares de Lima

51), aclarando apenas que é uma ideia que inverte as comumente chamadas “saídas de
campo”, que dá a impressão de que o trabalho de campo ocorre por serem deixados
escritórios, laboratórios, salas de aula. Quando, em verdade, o que importa é para
onde se está indo, a área a ser explorada. A segunda vez, foi na dissertação (LIMA,
2015, p. 14-17), em que foram feitos apontamentos metodológicos sobre a realização
das derivas que lá seriam relatadas. Dentre tais apontamentos, alguns já foram aqui
mencionados, mas cabe o reforço. Num período de dois anos, não há a necessidade
de realizar derivas diariamente. É preciso deixá-las assentar: pensar e escrever sobre o
que foi vivido. Claro que se houver uma disponibilidade curta de tempo, a discussão
é outra. Não é necessário, também, restringir as vivências do local apenas aos dias
inicialmente programados, porque o acaso tem papel importante nesse submergir.
Na dissertação, por exemplo, foi exatamente por um desses acasos que se tomou a
decisão de incluir todas as experiências relacionadas ao bairro como integrantes da
subjetividade em construção. Tal foi o desdobramento de uma conversa em um táxi,
indo para a rodoviária e falando sobre as (im)possibilidades de sua expansão física.
A discussão, por sua vez, das entradas de campo enquanto viagens investigativas,
deu-se em um subcapítulo da dissertação, denominado “Botar o pé na estrada” (LIMA,
2015, p. 103-114), em que é apresentada a proposta de Onfray (2009) e sua poética
da geografia, que supõe a “arte de deixar-se embeber pela paisagem, para querer
depois compreendê-la, vê-la em suas combinações [...]” (ONFRAY, 2009, 106).
Não cabe retomá-lo completamente agora, apenas aclarar a relação feita com o autor.
Quando se prepara uma viagem, escolhe-se um destino, ou vários, discutem-se