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Ninguém Explica Deus – Preto no

Branco (Análise)
Posted by Thiago Oliveira | 8/jul/2016

Uma música tem feito certo sucesso entre os evangélicos. Seu


título é “Ninguém explica Deus” e quem canta é o grupo Preto
no Branco. Vamos analisar a sua letra?

Bem, a canção começa assim:

Nada é igual ao Seu redor


Tudo se faz no Seu olhar
Todo o universo se formou no Seu falar

Já dá para perceber que o compositor buscou exaltar a grandeza


do Deus criador. Ele parte da cosmovisão bíblica que se
encontra em Gênesis 1 e 2, onde diz que Deus criou todas as
coisas, trazendo elas a existência ao falar “haja”. Logo após a
palavra decretada, as coisas vieram a existir. Isso é
assombrosamente maravilhoso, e, muitos salmos louvam ao
SENHOR pelas maravilhas de sua criação. Todavia, há uma
frase estranha aí: “tudo se faz no seu olhar”. Não é o que diz a
Escritura. O relato bíblico da criação diz o que a próxima frase
da canção afirmou: “Todo o universo se formou no Seu falar”.
O motivo do autor ter afirmado que Deus fez algo através do seu
olhar não podemos conhecer, mas a possível desculpa da
“licença poética” não pode ser aplicada quando tal licença vai de
encontro a Palavra revelada. Portanto, já temos um ligeiro
problema com a canção.

Teologia pra explicar ou big bang pra disfarçar


Pode alguém até duvidar sei que há um Deus a me guardar

Confesso que não entendo bem a correlação entre a explicação


teológica e a teoria do Bing Bang. Numa lida superficial, a
impressão que tenho é que o trabalho da teologia é
desqualificado. E isso é algo negativo. Vamos seguir com a letra:

E eu tão pequeno e frágil querendo Sua atenção


No silêncio encontro resposta certa então
Dono de toda ciência, sabedoria e poder
Oh dá-me de beber da água da fonte da vida
Antes que o haja houvesse Ele já era Deus
Se revelou ao seus do crente ao ateu (do gentio ao judeu)
Ninguém explica Deus

Aqui se evidencia um equívoco que já é perceptível no título da


música: Como assim ninguém explica Deus? Se temos um Deus
que se revela, podemos explicá-lO de acordo com o conteúdo
revelado. Reflita junto comigo:

Na própria música há proposições que são oriundas da visão do


Deus criador, visão que se extraiu da Bíblia. Frases como “Antes
que o haja houvesse Ele já era Deus” estão na canção. Como
se sabe disso? Deus se revelou e homens por Ele dotados de
sabedoria, os conhecidos teólogos, explicaram o conceito de
eternidade e a criação ex nihilo (que estão por trás da concepção
da música), baseando-se na Escritura. Logo, há sim algo
explicável, não tudo, não é uma explicação exaustiva, isto é,
plena, mas é suficiente para sabermos quem é Deus e o que Ele
requer de nós. Por isso temos a seguinte resposta no Catecismo
Maior de Westminster para a pergunta “Quem é Deus?”:
”Deus é espírito, em si e por si infinito em seu ser, glória, bem-
aventurança e perfeição; todo – suficiente, eterno, imutável,
insondável, onipresente, infinito em poder, sabedoria, santidade,
justiça, misericórdia e clemência, longânimo e cheio de bondade
e verdade.

João 4:24; Exo. 3:14; Job. 11:7-9; At. 5:2; I Tim. 6:15; Mat. 5:48;
Rom. 11:35-36 Sal. 90:2 -145:3 e 139:1, 2, 7; Mal. 2:6; Apoc. 4:8;
Heb. 4:13; Rom. 16:27; Isa. 6:3; Deut. 32:4; Exo. 34:6.”

Embora o conhecimento não seja exaustivo, no entanto, há um


abrangente conteúdo revelado que nos diz quem é o Deus
triúno, criador dos céus e da terra. Quem sustenta que ninguém
explica Deus são os deístas, que acreditam que o Divino se
ausentou após criar o cosmos. O teísmo, onde se encontra o
cristianismo, é proposicional, por isso há um conteúdo
comunicável e explicável. A afirmação de não se poder explicar
Deus, indiretamente nega o principio da imanência e da
revelação especial. Ela está mais para fideísmo do que para a fé
cristã ortodoxa.Fideísmo é crer dando um “salto no escuro”. Mas
Deus trouxe luz acerca de si mesmo através da Escritura. É
preciso ter cuidado com determinadas afirmações. Como nos diz
Francis Schaeffer:

“Ele falou. E o que nos disse? Ele falou apenas sobre as demais
coisas? Não, ele nos contou a verdade sobre si mesmo – e, pelo
fato de ter nos contato a verdade acerca de si mesmo – de que
ele é o Deus pessoal infinito e trino – nós temos a resposta para
a existência. Ou poderíamos colocar isto nos seguintes termos:
no que diz respeito à metafísica – ao Ser, à existência – a
revelação geral e específica falam com uma só voz” (O Deus que
se revela, p. 58).

Muito provavelmente a intenção do compositor não foi fazer uma


alusão ao deísmo. Perceba que antes de soltar a máxima ele diz
que Deus “Se revelou ao seus”. Imagino, baseado na frase que
diz “E eu tão pequeno e frágil querendo Sua atenção”, que talvez
ele tenha tido a mesma intenção de Paulo ao falar em Romanos
11.33: “Ó profundidade da riqueza, da sabedoria e do
conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e
quão inescrutáveis, os seus caminhos! Pois, quem conheceu a
mente do Senhor? Quem se tornou seu conselheiro?”. É bem
verdade que Deus transcende nossa mente limitada e afetada
pelos efeitos do pecado. O Senhor é como diz a letra “Dono de
toda ciência, sabedoria e poder”. Mas devemos louvá-lo porque
Ele também é imanente e se comunicou a nós, revelando coisas
sobre a Sua pessoa que nos dão o conhecimento necessário
para saber que o pecado o desagrada por violar Sua santidade.
E saber disso, impulsionados pelo Espírito que se revela a nós,
nos faz correr para Jesus seguros de que nEle os nossos
pecados foram perdoados. Temos que louvar ao Senhor pela
sua revelação que nos é satisfatória. Atentemos para o que diz
Bobby Jamieson:

“Como as Escrituras representam fielmente a mente de Deus,


seu ensino pode ser reunido em um todo coerente. Podemos
resumir o que as Escrituras na sua totalidade dizem a respeito
de suas questões centrais – como, por exemplo, o caráter de
Deus, o estado da criação, a natureza caída do homem, a obra
salvífica de Cristo, a vida da igreja e a promessa do mundo
vindouro” (Sã Doutrina, pp. 45-46).

Agora vejamos o último trecho da música:

Ninguém explica
Ninguém explica Deus
Ninguém explica
Ninguém explica Deus
ou se duvida ou se acredita
Ninguém explica
Ninguém explica Deus

Aqui temos a tão conhecida repetição das canções evangélicas


contemporâneas. E o pior: repete-se a parte problemática e o
fideísmo fica mais explícito: “ou se duvida ou se acredita”.
Duvidar e crer não “chutam” a explicação embasada na
revelação para o escanteio. A dúvida e a crença tem como base
o que foi revelado, conhecido e explicado. Nossa fé não pode
ser cega! Cremos naquilo que faz sentido. A Bíblia é um livro que
tem um enredo amarrado, que embora seja espiritual possui
lógica e nos dá as respostas mais satisfatórias as questões
últimas da vida, que são: Por que algo existe ao invés do nada?
O que fazemos nesse mundo? Para onde nós iremos? Esta é a
fé cristã, meus irmãos. Se não podemos explicar isso, não
podemos dizer que os hindus estão errados ao cultuar milhares
de deuses, e nem afirmar que os panteístas (que dizem que
Deus está contido na natureza) estão equivocados. Logo, quem
estaria certo, no fim das contas? Os deístas que
categoricamente afirmam que Deus “deu corda” no mundo e
depois o abandonou, afastando-se de um modo que ninguém o
alcança. Vejam onde é que tal afirmação desemboca.

A conclusão que chego é a de que esta música entra em conflito


com aquilo que chamamos de fé cristã histórica e confessional.
Ela põe em xeque os concílios, credos e toda formulação
teológica que temos em mais de dois milênios de cristianismo.
Desaconselho cantá-la pessoalmente. Pior ainda seria usá-la no
culto público. Isso não seria nem um pouco recomendável, por
conta de seu teor dúbio.