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Universidade Federal de Pernambuco


Faculdade de Direito do Recife
Disciplina: Direito do Consumidor
Professor: Humberto Carneiro
Turma: N6
Aluno: Ricardo Fernando Freire de Souza Melo Filho

1. Diálogo de Fontes.
Diante da existência de diversos berços legislativos, depreende-se uma
necessidade de coordená-los para que haja uma relação compatível de modo
que a aplicação das normas conceba um sistema eficiente e justo. Ocorre que,
em face dessa multiplicidade legislativa é muito comum que surjam dúvidas
perante a colisão ou derrogação de leis, assim como conflitos normativos. 1
Esses conflitos seriam solucionados, à luz da doutrina tradicional,
através da prevalência de uma lei sobre a outra, fundada em critérios de
especialidade, hierarquia e anterioridade 2, seja por ab-rogação, derrogação ou
por revogação3, ou ainda, por preempção (preemption)4.
Contudo, visando a não exclusão normativa adotada anteriormente, a
doutrina (pós)moderna busca uma maior harmonia e coordenação das normas
no ordenamento jurídico. O que se objetiva, portanto, é uma eficiência do
sistema múltiplo e complexo do Direito como um todo, de modo a evitar
antinomias, incompatibilidades e/ou incoerências. Dessa forma, propõe-se que
a solução sistemática deve ser mais fluida, flexível, de modo que haja espaço
para uma maior mobilidade e fineza de distinções. Assim, o sistema jurídico
reestabelece sua coerência através da coordenação flexível das normas em

1 MARQUES, Claudia Lima. Campo de aplicação do CDC. In: BENJAMIN, Antonio


Herman de Vasconcellos e; BESSA, Leonardo Roscoe. Manual de direito do consumidor. 3.
Ed. São Paulo: RT,2010. P.108 e 109.
2 BOBBIO, Noberto. Teoria do ordenamento jurídico. São Paulo-Brasília: Pollis-Unb apud

MARQUES, Claudia Lima. Diálogo entre o Código de Defesa do Consumidor e o novo


Código Civil: do “diálogo das fontes” no combate às cláusulas abusivas. Revista do Direito
do Consumidor, São Paulo, n. 45, p.71-99, jan./mar. 2003. P. 72.
3 MARQUES, Claudia Lima. Diálogo entre o Código de Defesa do Consumidor e o

novo Código Civil: do “diálogo das fontes” no combate às cláusulas abusivas. Revista do
Direito do Consumidor, São Paulo, n. 45, p.71-99, jan./mar. 2003. P. 72.
4 SCHROEDER, Christopher. Supreme Court Preemption Docrtine. In: BUZBEE, William.

Preemption Choice: The Theory, Law, and Reality of Federalism’s Core Question.
Cambridge: Cambridge University Press. C6 (P. 119-126) and (P.131-143).
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conflito, mudando o paradigma da simples retirada de uma das normas que


estejam em conflito para a convivência dessas 5, buscando-se o dialogo para o
alcance de suas finalidades.6
Tais ideais, seguindo a ideia de coerência derivada ou restaurada 7,
desembocam na Teoria do “Diálogo de Fontes” cujo fundamento está no fato
de que as normas surgem para serem aplicadas como um todo e não para
serem excluídas umas pelas outras, principalmente quando trilham o mesmo
caminho, isto é, convergem no mesmo sentido de campo de atuação. Salienta-
se a busca de uma eficiência funcional de todo o complexo de direitos
contemporâneos, mais fluida e flexível, tratando diferentemente os diferentes.
Quanto ao tratamento diferenciado nas relações de consumo, Cláudia Lima
Marques advertiu que:
“[...] O diálogo das fontes permite assegurar, à pessoas
humana, consumidora e leiga, uma tutela especial e
digna, conforme os valores e os princípios constitucionais
de proteção especial, e renovar, mesmo a aplicação do
próprio sistema constitucional, com a prevalência dos
tratados internacionais de direitos humanos [2],
considerados supralegais, e renovar o direito brasileiro
para impedir prisão por dívidas do depositário infiel [...]”8

2. Os tipos de diálogos.
Vislumbram-se três possíveis tipos de diálogos das fontes, o dialogo
sistemático de coerência, o dialogo sistemático de complementariedade e
subsidiariedade em antinomias e o dialogo de coordenação e adaptação
sistemática.
Verifica-se o dialogo sistemático de coerência na aplicação de duas leis,
de forma simultânea, na qual uma pode servir de base conceitual para outra,

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MARQUES, Claudia Lima. In: BENJAMIN, Antonio Herman de Vasconcellos e; BESSA,
Leonardo Roscoe. Manual de direito do consumidor. 3. Ed. São Paulo: RT,2010. P.147.
6 MARQUES, Claudia Lima. Diálogo entre o Código de Defesa do Consumidor e o

novo Código Civil: do “diálogo das fontes” no combate às cláusulas abusivas. Revista do
Direito do Consumidor, São Paulo, n. 45, p.71-99, jan./mar. 2003. P. 73 e 74.
7 SAUPHANOR, Nathalie. L’influence du Droit de la Consommation sur le système

juridique. Paris: LGDJ, 2000, P.23-32. (“cohérence dérivée ou restaurée)


8 MARQUES, Cláudia Lima. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor. 3.ª

Ed. São Paulo: Revista dos Tribunais. 2010. P.62.


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principalmente se uma lei faz parte do microssistema e a outra do sistema


maior9, ou seja, se uma lei é geral e a outra é especial. Assim, por exemplo, no
âmbito do direito privado, o que é nulidade, o que é pessoa jurídica, etc, são
conceitos não definidos no microssistema (CDC), terão suas definições
atualizadas pelo CC/02.10
Identifica-se o dialogo sistemático de complementariedade e
subsidiariedade na aplicação coordenada das leis, na qual uma complementa
a aplicação da outra de modo que dependendo de seu campo de aplicação no
caso concreto, seria indicada a incidência de suas normas e princípios de
maneira necessária e/ou subsidiaria, caso beneficiasse o sujeito que está
fazendo uso de sua aplicação.11
Por fim, reconhece-se o dialogo de coordenação e adaptação
sistemática na influencia reciproca que os sistemas se impõem, isto é, uma
atuação da aplicação normativa do sistema geral no especial e vice-versa.12
Diante do exposto, verifica-se, então, que a Teoria do Diálogo de Fontes
veio para possibilitar ao jurista uma amplitude sistemática na aplicação da
norma, ou seja, que ele não se encontre preso ao microssistema jurídico para
o qual a norma incidente foi pensada. O ordenamento é um todo unitário e deve
ser assim aplicado, ao contrario da concepção tradicional de solução de
antinomia jurídica. Dessa forma, essa teoria não se confunde com os critérios
clássicos na solução de antinomias jurídicas, como as citadas por Bobbio.

3. A Teoria e o Código de Defesa do Consumidor.


Diante das discussões ensejadas pela chegada no Código Civil de 2002,
acaba sendo evidente compreender a incidência dessa Teoria no que concerne
à aplicabilidade do CDC. A incidência deste diploma de proteção ao consumidor
a determinado suporte fático não afasta a análise harmoniosa com outras
fontes legais. Ademais, o Código de Defesa do Consumidor, em razão de seu

9 AGUIAR JR, Ruy Rosado. O Novo Código Civil e o Código de Defesa do

Consumidor (Pontos de Convergência). Rio de Janeiro. Revista da EMERJ, v. 6, n. 24, 2003.


P. 1-3.
10 MARQUES, Claudia Lima. Diálogo entre o Código de Defesa do Consumidor e o

novo Código Civil: do “diálogo das fontes” no combate às cláusulas abusivas. Revista do
Direito do Consumidor, São Paulo, n. 45, p.71-99, jan./mar. 2003. P. 76
11 Ibidem, p.76
12 Ibidem, p.77
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corte horizontal nas mais diversas relações jurídicas, acaba sendo um


significativo exemplo da atual necessidade de convivência entre diversos
diplomas.13
A partir dessas discussões, em situações inerentes a essa Lei, entende-
se, dessa forma, que outras normas podem ser invocadas, principalmente
quando mais vantajosas ao consumidor, sendo aplicadas e, inevitavelmente,
analisadas em conjunto, buscando-se sempre a coerência e harmonia nas
conclusões.
A própria Lei traz, em seu conteúdo, um dispositivo que da abertura para
o dialogo entre o CDC e outras fontes normativas. O artigo 7º estabelece que:
“Art. 7º - Os direitos previstos neste código não excluem outros
decorrentes de tratados ou convenções internacionais de que Brasil
seja signatário, da legislação interna ordinária, de regulamentos
expedidos pelas autoridades administrativas competentes, bem como
dos que derivem dos princípios gerais do direito, analogia, costumes
e equidade.”14
Desse modo, tem-se que não é exclusividade do CDC instituir direitos
do consumidor, anuindo a possibilidade de influência ou de uma aplicação
simultânea de outras leis na análise das relações de consumo, assim como a
possibilidade desse diploma ser utilizado na análise de outras normas.

Referências Bibliográficas:

AGUIAR JR, Ruy Rosado. O Novo Código Civil e o Código de Defesa do


Consumidor (Pontos de Convergência). Rio de Janeiro. Revista da EMERJ,
v. 6, n. 24, 2003.

Artigo 7º, caput, Código de Defesa do Consumidor.

BOBBIO, Noberto. Teoria do ordenamento jurídico. São Paulo-Brasília: Pollis-


Unb apud MARQUES, Claudia Lima. Diálogo entre o Código de Defesa do
Consumidor e o novo Código Civil: do “diálogo das fontes” no combate às

13
MARQUES, Claudia Lima. Campo de aplicação do CDC. In: BENJAMIN, Antonio
Herman de Vasconcellos e; BESSA, Leonardo Roscoe. Manual de direito do consumidor. 3.
Ed. São Paulo: RT,2010. P.156 – 158.
14
Artigo 7º, caput, Código de Defesa do Consumidor.
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cláusulas abusivas. Revista do Direito do Consumidor, São Paulo, n. 45, p.71-


99, jan./mar. 2003.

MARQUES, Claudia Lima. Campo de aplicação do CDC. In: BENJAMIN, Antonio


Herman de Vasconcellos e; BESSA, Leonardo Roscoe. Manual de direito do
consumidor. 3. Ed. São Paulo: RT,2010.
MARQUES, Cláudia Lima. Comentários ao Código de Defesa do
Consumidor. 3.ª Ed. São Paulo: Revista dos Tribunais. 2010

MARQUES, Claudia Lima. Diálogo entre o Código de Defesa do Consumidor


e o novo Código Civil: do “diálogo das fontes” no combate às cláusulas
abusivas. Revista do Direito do Consumidor, São Paulo, n. 45, p.71-99, jan./mar.
2003.

SAUPHANOR, Nathalie. L’influence du Droit de la Consommation sur le


système juridique. Paris: LGDJ, 2000, P.23-32. (“cohérence dérivée ou
restaurée)

SCHROEDER, Christopher. Supreme Court Preemption Docrtine. In: BUZBEE,


William. Preemption Choice: The Theory, Law, and Reality of Federalism’s
Core Question. Cambridge: Cambridge University Press.