Você está na página 1de 42

UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS

Instituto das Ciências Humanas


Curso de História

Trabalho de Conclusão de Curso

Um olhar sobre as senhorinhas na Illustração Pelotense: moda e


representação do comportamento feminino na aurora dos anos de 1920.

Sâmera Eichholz

Pelotas, 2014
Sâmera Eichholz

Um olhar sobre as senhorinhas na Illustração Pelotense: moda e


representação do comportamento feminino na aurora dos anos de 1920.

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao


Instituto de Ciências Humanas da Universidade
Federal de Pelotas, como requisito parcial à
obtenção do título de Licenciatura em História.

Pelotas, 2014
Banca examinadora:

___________________________________________
Profª Drª Ana Inez Klein (Departamento de História)

___________________________________________
Prof. Dr. Paulo Ricardo Pezat (Departamento de História)
Resumo

O presente trabalho pretende contribuir para a história da cidade de Pelotas quando


o assunto se direciona para a moda, fotografia e a representação do comportamento
feminino na aurora dos seus anos de 1920. O objetivo foi analisar a imagem da
mulher pelotense ou, mais especificamente, a forma com que o comportamento
feminino era representado usando como fontes a vestimenta, as fotografias e os
escritos inseridos na revista Illustração Pelotense, nos anos de 1919 e 1920. A
Illustração foi um importante periódico que circulou em várias cidades do Estado,
mas destacava em suas páginas a cidade de Pelotas e a sua elite. O trabalho se
desenvolveu com o olhar voltado nas fontes que de alguma forma retratavam a vida
das senhorinhas inseridas numa sociedade que viveu o auge de modernidade na
sua “Belle Époque” tardia. A modernidade anunciava mudanças que eram
confrontadas com os valores e costumes tradicionais desta cidade aristocrata. A
pesquisa buscou compreender e também problematizar, por meio das sensibilidades
transmitidas das fontes contidas na Illustração, como se deu esse anúncio e o que
mudava no cotidiano das gentis senhorinhas que viveram na cidade de Pelotas, nas
primeiras décadas do século XX.

Palavras-chave: representação, feminino, Illustração Pelotense


Abstract

The present paper aims to contribute to the history of Pelotas city when the subject is
directed to fashion, photography and representation of female behavior in the early of
20’s. The purpose was to analyze the image of Pelotas woman or, more specifically,
the way in which female behavior was represented taking as sources clothes,
photographs and writings inserted in “Illustração Pelotense” magazine in 1919 and
1920. “Illustração Pelotense” the was an important journal that circulated in many
cities of Rio Grande do Sul state, but the emphasis in its pages was the city of
Pelotas and its elite. The paper was done with the view the sources that represented
the lives of the ladies in a society that lived the height of modernity in its "Belle
Époque" late looking. The Modernity announced changes that were confronted with
traditional values and customs of this aristocratic city. The research also tried to
understand and discuss, through the details of the sources contained in “Illustração
Pelotense”, how this announcement happened and what changed in the everyday life
of the fine ladies who lived in Pelotas city in the first decades of the century XX.

Keywords: representation, female, Illustração Pelotense


Sumário

Introdução

Capítulo I –

Capítulo II –

Capítulo III –
Introdução

Com o fim da Primeira Guerra Mundial começava uma nova década, a


década dos anos de 1920, num contexto mundial, depois de toda angústia e tristeza
produzida por esse evento o que se pretendia era viver – e viver de forma mais
intensa e efervescente. Foi também devido ao avanço tecnológico que novos meios
de expressões emergiam, como o cinema que projetava cenas mais realistas do
mundo, impulsionando novas tendências de moda com os embalos dos novos ritmos
estonteantes do jazz, fox trot e charleston.

No que concerne às mulheres onde antes ficavam apenas restritas ao lar, ao


privado, começam a ter certa autonomia “saindo de casa” neste período de
modernização urbana onde ocupam vagas que antes eram masculinas como
datilógrafas, secretárias, balconistas, professoras – sendo estas ainda hoje
profissões predominantemente femininas. Além de isso propiciar alguma
independência financeira, mostra a elas à capacidade de serem não apenas mais
uma extensão do poder de seus maridos.

De fato, as conquistas das mulheres refletiam uma vida mais aberta, se


considerarmos períodos anteriores, que podem ser percebidos, sobretudo, no
atrevimento, ao se libertarem das amarras de trajares que não representavam mais
o espírito daquelas mulheres do novo século. O trajar feminino anterior ao século XX
representava uma demarcação de poder dos homens sobre as mulheres onde o
exagero em adornos, demonstrava a limitação feminina, identificada com sua
fragilidade e impotência. Na virada do século ocorre uma revolução no vestir, se
pode dizer que a partir das primeiras décadas do século XX houve uma
democratização do comportamento e também do vestuário feminino.

Diante desse contexto, o estudo se volta para a cidade de Pelotas, Rio


Grande do Sul. De acordo com Nascimentoº e Marroniº esse período ainda pode ser
considerado a “Belle Époque” pelotense, mesmo tardia, foi vivida com os “loucos
anos 20”. Remontando, assim, a história da sociedade daquela época de forma
peculiar. A cidade por muito tempo foi denominada através dos relatos de seus
visitantes a “mais aristocrática” do Estado. Com a riqueza provida das heranças da
indústria do charque – neste período já entravam em decadência as charqueadas -
propiciava aos seus citadinos mais abastados um contanto quase que simultâneo
com a Europa, importando costumes e tendências do

A elite pelotense importava as tendências retratadas nas telas de projeção


que seu comportamento traduzia, refletindo, também em seus trajes, mesmo
sofrendo repressão de setores conservadores. Michelon e Santos (2006) tratam da
necessária imposição da moda:
“Os arraigados costumes da sociedade da “Princesa do Sul” viram-se
confrontados com o gosto mundano europeu e, apesar dos protestos da Igreja e das
ferozes críticas dos conservadores, freqüentemente contrários a essas formas e
gostos do vestir e do portar-se (especialmente no que concernia às mulheres), a
moda impunha-se, ainda que negociada.” (p.130)

Diante disso, o presente estudo se propõe a analisar a forma que o


comportamento das mulheres democratizou o vestir-se e vice-versa. Como se deu o
diálogo dessas inovações com uma sociedade que pregava valores e costumes
tradicionais. Usando como fonte de pesquisa a Revista Illustração Pelotense em
suas primeiras edições (1919 e 1920) sendo um periódico influente no assunto da
moda e do comportamento feminino. Com a característica de mídia impressa
voltada para um público abastado, interessado na leitura de questões sociais,
culturais e artísticas. Supria e instigava os desejos de uma parcela da sociedade que
emergia interessada nos assuntos intelectuais do cotidiano e da vida pública: as
mulheres.

O trabalho será apresentado destacando no primeiro capítulo a cidade de


Pelotas no contexto histórico que remonta o inicio do século XX. No segundo
capítulo irei me ater quanto a revista Illustração Pelotense apontando a sua
contribuição para sociedade pelotense. Por fim, no terceiro capítulo

Dentro do campo de pesquisa histórica é comum vermos trabalhos dedicados


à política, economia e aos aspectos sociais. No entanto, ainda que timidamente,
estudos avançam em outros campos e redesenham a historiografia. Um deles, sem
dúvidas, é a moda. Pensar a moda como objeto de estudo é englobar todos aqueles
aspectos que destaquei no inicio. Neste trabalho pretende-se enxergar a moda como
um objeto de estudo capaz de desvendar informações sobre o contexto histórico que
será apresentado.
Capítulo I

A cidade de Pelotas na sua “Belle Époque”

O período escolhido para os fins da pesquisa na Illustração equivale aos anos


de 1919 e 1920. No entanto, se faz necessário um apanhado histórico sobre a
cidade de Pelotas. Desde 1890 até 1927, Pelotas vive a sua “Belle Époque”. Ao
considerar a denominada época na Europa se sabe que a mesma tem sua ruptura
em 1914, com o início da Primeira Guerra Mundial. Mas, no extremo sul da Província
de São Pedro, foram nas primeiras décadas do século XX que a cidade finalmente
se modernizou e estabeleceu os viveres mais arraigados para uma elite que se
espelhava no modelo europeu que, no entanto, já havia ultrapassado essa
denominação.

A “Belle Époque” na Europa e, principalmente, na França foi um período que


correspondeu entre os anos de 1880 e 1914 em que o viver das classes mais altas
se resumia na tranqüilidade, no apreço às artes, na preocupação com o belo e a
importância de freqüentar redutos sofisticados e intelectuais para a noção de
pertencimento à sua devida classe.

Para Marroni (2008), a “Belle Époque” pelotense ocorreu entre os anos de


1890 e 1927, pois foi nesse período que a cultura da cidade estava em
efervescência,

Este intervalo de tempo justifica-se em função dos inúmeros


acontecimentos que marcaram a vida cultural da cidade neste período, tais
como: a explosão da imprensa na segunda metade do século XIX, a
fundação da Guarani-Films por Francisco Santos, um dos primeiros
pioneiros do cinema mundial [...]; a re-inauguração do Teatro Sete de Abril
em 1916; a visita de Olavo Bilac a Pelotas neste mesmo ano; a inauguração
do imponente Teatro Guarany em 1921, além da proliferação de casas
comerciais de diversos tipos, com destaque para as casas de moda e de
artigos de luxo importados (MARRONI, 2008, p.).

Foi neste período de apogeu cultural que a cidade se modernizou e moldou-


se de acordo aos padrões europeus. Toda essa expansão desde o século XIX não
se deu por mera coincidência. Aliando aos fatores sociais, a cidade gozava, ainda,
da sua posição geográfica privilegiada. Costeada pela Lagoa dos Patos, tendo
inúmeros arroios, como o Canal São Gonçalo que era o principal meio de acesso
para os estrangeiros e do escoamento da produção do charque.

A indústria saladeril em seu auge proporcionou um grande acúmulo de


riqueza aos que se beneficiavam do seu lucro. Fazendo os mesmos gastarem nos
grandes centros nacionais como São Paulo e Rio de Janeiro. E também fora do país
nas próximas Montevidéu e Buenos Aires e nas capitais de maior influência cultural
da Europa, sobretudo, Paris. Ou seja, os pelotenses mais abastados tratavam de
fazer com maior gosto a importação dos costumes, da moda, do modo de ser dos
maiores centros culturais. Copiava-se para o viver da “Princesa do Sul” o que
esperava ser de mais “moderno”.

Figura 1 – A Praça da República

(Fonte: Ilustração Pelotense, 1919)

A peculiaridade de Pelotas com a sua modernização importadas


principalmente da Europa contrastava em comparação as demais cidades do Rio
Grande do Sul, neste caso, em relação às cidades próximas da campanha onde os
“costumes gaúchos” prevaleciam. Enquanto nessas os valores tradicionais
campeiros permaneciam, além de serem fortemente rurais. Pelotas almejava se
tornar urbana com as fortes influências européias impondo um classicismo suntuoso
nesse contexto do extremo sul do Brasil. Esse desenvolvimento e opulência
chamava a atenção dos viajantes. Sendo os seus relatos umas das principais fontes
para compreender como de fato esse processo se desenvolvia ante aos seus olhos.

Mario Osório Magalhães, historiador da cidade de Pelotas, em seu livro


Pelotas: toda a prosa, de 2002, segundo volume, equivalente aos anos de 1874 a
1925, apresenta a coleção de textos e fragmentos de autores que relataram suas
impressões quando estiveram de passagem entre esse período pela cidade. Sem
dúvida, é uma coletânea incrível. Por meio dos relatos generosos aos detalhes é
possível ter a noção de como a cidade ia se constituindo e formando sua estética.
Numa crônica do ano de 1910, Andradina de Oliveira, natural de Porto Alegre, relata
sua impressão sobre a cidade,

“Eis-me em Pelotas.

Eis-me na cidade das flores, da música, das mulheres lindas, dos rapazes
elegantes; na cidade dos carros, do luxo, da aristocracia educada, gentil e
chic; na cidade vasta, formosa, com as suas ruas largas, extensas,
paralelas todas, duma edificação quase uniforme, na beleza das vistosas
habitações, no conforto e higiene dos seus grandes armazéns, onde o
comércio forte, poderoso, vai impulsionando, de parceria com a pujante
indústria, o progresso da terra hospitaleira, cognominada com justiça a
Princesa do Sul” (MAGALHÃES. 2002, p. 253).

As palavras de Andradina descrevem de forma maravilhada a cidade,


convencendo o leitor de parecer estar num encantado paraíso. Ao relatar a
arquitetura urbanística destaca o alinhamento das ruas, também comum em mais
relatos de viajantes que chegam à cidade. Das coisas que mais lhe chama a
atenção são os números de automóveis que já circulavam pelas ruas pelotenses.
Magalhães (2002) comenta que num período anterior, a presença de automóveis
não era mais novidade no trânsito pelotense: “[...] conforme se supõe, já existam
aqui desde 1903; na maior parte, porém, de veículos de tração animal”
(MAGALHÃES, 2002, p. ).

Nos primeiros anos do século XX foram investidas obras na rede de esgoto e


eletricidade. Além da fundação das faculdades de Farmácia e Odontologia, em
1911 e Direito, em 1912. Foi inaugurada a Fábrica de Fiação e Tecidos,
impulsionando a economia local, em 1913. Dois anos depois o bonde elétrico
circulava por entre algumas ruas. Via-se, portanto, um grande e promissor pólo
cultural, social e econômico.

Figura 2 – Uma vista de Pelotas, vendo-se uma parte do Mercado Central

(Fonte: Illustração Pelotense, 1919).

Como bem vê a cidade ia se modernizando de acordo com as exigências de


uma elite que necessitava de uma estrutura que estivesse ao patamar de uma
sociedade civilizada, longe de ser “arcaica” ou “atrasada”. Marroni (2008) afirma “Ao
tempo em que a elite “preparava a casa”, surgiu a necessidade de “celebrar” e criar
bulevares sofisticados para o entretenimento da sociedade” (MARRONI, 2008, p.
51). Marca do período como a “Belle Époque” a opulência, o valor às artes, a
literatura, dos bons lugares para se freqüentar e ostentar um papel designado às
classes mais abastadas. Ou seja, os mais bem afortunados deveriam usufruir de
lugares onde pudessem ser o que pretendiam ser; o que copiavam dos demais
centros urbanos.

No final da primeira década e início dos anos 20 a cidade vivia e respirava a


modernidade que tanto almejava. Sendo brindada pelos cinemas e teatros que
reproduziam de forma mais realista o que se via no mundo. Entendia o que era o
atual e o seguia, sempre com a ideia de progresso dada pela República. A cidade
demandava por uma vivência adequada para a sua elite que, por conseguinte, atraia
figuras ilustres que aportavam e a descreviam como um paraíso aristocrata
praticamente isolado no extremo sul.

Eram novos tempos que prenunciavam mudanças que não ficavam somente
restritas à urbanização da cidade, mas também de um novo estilo de vida de seus
citadinos. Seguiam-se tendências ao que estava na moda. Seja tanto na vestimenta
quanto no portar-se, bem como Marroni (2008) aponta:

A “moda” era vista das mais variadas formas. Não se limitava, apenas, ao
modo de vestir, às roupas expostas nas vitrinas ou estampadas nos
“figurinos” vindos de Paris, mas refletia-se no jeito de ser, de andar de se
comportar em diferentes situações. A moda provocava mudanças no
cotidiano local. Desestabilizava. Rompia com um passado e impunha novos
valores. Na sua permanência, a construção de um novo modo de vida. E
esta moda ou modo de ser, persuadia, tentava, seduzia (MARRONI, 2008,
p. 59).

Era desta forma que Pelotas ia configurando a característica de uma cidade


moderna que compunha desde seus traços urbanos, então “civilizados” e adaptados
ao estilo vigente até a forma de seus habitantes, das camadas mais abastadas, que
se comportavam de acordo aos padrões ditados longe dali. Não esquecendo,
portanto, desta época que exaltava o belo e ao bem-viver, que carregou consigo
mudanças e adotou novas posturas mundanas, mas que frequentemente dialogava
com seus costumes conservadores e tradicionais daquela sociedade herdeira dos
barões do charque.

Capítulo II
A Illustração Pelotense

No capítulo anterior foi apresentado que Pelotas ia atribuindo o traço de uma


cidade urbana no final do século XIX, mas principalmente nas primeiras décadas do
século XX. Iam sendo investidos recursos primordiais para se adequar aos padrões
modernos de requinte e de “civilização”. A elite pelotense ansiava ser aquilo tudo
que vislumbrava quando viajava para os grandes centros culturais do Brasil e do
“velho continente”. Ela precisava ser e precisava mostrar-se. É nesse momento que
a mídia impressa toma o rumo de ilustrar e dar visibilidade àquele modo de vida.

No início do século XX há uma explosão na maioria dos centros urbanos de


almanaques, panfletos publicitários e fascículos que começavam a tratar da vida
cotidiana e impulsionaram paralelamente a urbanização, as estruturas modernas
que eram delegadas em nome da aspiração da classe burguesa. De acordo com
Luca (2005) as consideradas revistas de variedades ou ilustradas ”principal produto
da indústria cultural que então despontava” (LUCA, 2005, p. 121) se destacaram e
ganharam o gosto do público, pois

Com apresentação cuidadosa, de leitura fácil e agradável, diagramação que


reservava amplo espaço para as imagens e conteúdo diversificado, que
poderia incluir acontecimentos sociais, crônicas, poesias, fatos curiosos do
país e do mundo, instantâneos da vida urbana, humor, conselhos médicos,
moda e regras de etiqueta, notas policiais, jogos, charadas e literatura para
crianças, tais publicações forneciam um lauto cardápio que procurava
agradar a diferentes leitores, justificando o termo variedades (LUCA, 2005,
p. 121).

É nesse sentido que a revista Illustração Pelotense se torna referência para


os fins desta pesquisa, pois ela surge para corresponder a demanda sustentada pela
elite para sua representação. Além de “instruir” esse público através de crônicas,
poema, textos relacionados à arte, à moda e ao bem estar social. Esse periódico
entrou em circulação na cidade de Pelotas e em demais cidades da região no
primeiro mês do ano de 1919 e, com interrupções, esteve em circulação até o ano
de 1927.

A presente pesquisa se concentra nos dois primeiros anos da revista: 1919 e


1920. Essa escolha se justifica para entender a influência que a revista teve na
sociedade pelotense após seu lançamento e a maneira que a vida das mulheres é
representada nessa virada de década, sobretudo, na aurora dos anos de 1920. Na
Illustração, os textos e as fotografias atendiam demandas sobre o que se pretendia
com a moda, quais eram os possíveis padrões de mudanças visuais e
comportamentais, os cuidados com a saúde.

Em sua primeira edição, a primeira página foi direcionada a uma


apresentação ao público com a proposta da Illustração Pelotense:

Balbuciando...
Com o novo ano, surge a Illustração Pelotense. Nasce com todas as
esperanças que desperta uma nova era de paz. Ergue-se confiante no
apoio que não lhe negará o nosso brilhante meio literário e elegante. O seu
programa é simples e claro. Pelotas já é um centro intelectual e um centro
elegante. Notáveis homens de letras e artistas visitam Pelotas e dedicam
trabalhos, ao seu publico.
O nosso meio social conta já com excelentes poetas e prosadores cujas
produções honram Pelotas. É mister animar os nossos intelectuais, os
nossos literatos, dando-lhes um órgão de publicidade. Por isso a
“Illustração” será literária. Com prazer e desvanecimento receberá ela a
colaboração espontânea dos nossos escritores. Aqui eles estarão em seu
lugar próprio. O noticiarismo, os telegramas, a nota política não virão tomar-
lhes espaço.
Além de dedicar-se ao meio literário, a “Illustração” pretende tornar-se a
revista do nosso mundo elegante. Para isso procurará arquivar pela
fotografia os mais importantes acontecimentos sociais: festas públicas,
cívicas, religiosas, carnavalescas, literárias, quermesses, bailes, concertos,
exposições, reuniões elegantes, enlaces nupciais, terão aqui o seu registro.
E não se esquecerá a “Illustração” de iluminar suas páginas com o retrato
das nossas belas e elegantes conterrâneas, que para isso honrarem a
nossa revista com o seu valioso consentimento.
Eis, em linhas gerais, o nosso objetivo, que será completado com uma
propaganda em prol dos mais alevantados ideais pátrios, nesta hora feliz de
resurgimento universal.
A “Illustração”, ao nascer, cumprimenta os seus brilhantes colegas da
imprensa local, agradece ao honrado comércio o franco apoio que lhe foi
prestado, saúda afetuosamente o publico pelotense, e deseja a todos Feliz
Ano Novo.
(ILLUSTRAÇÃO PELOTENSE, janeiro de 1919)

A revista “nascia”, como o autor bem frisou, justamente “nesta hora feliz de
resurgimento universal”. Aparando as arestas de angústias e incertezas deixadas
pelo período da Primeira Guerra Mundial. O cronista ainda ressalta sobre o centro
de intelectualidades presente na cidade, cuja revista serviu para amplitude deste
meio. Visto que nunca antes a cidade teve uma revista dedicada primordialmente
aos temas culturais e do cotidiano.

Dos trabalhos que se dedicaram em ter a Illustração como fonte de pesquisa


dois destes divergem entre o ano que se encerraram as publicações desta última.
Segundo Fabiane Marroni (2008) a revista esteve em circulação até o ano de 1925:
”A “Illustração Pelotense” [...] Lançada no ano de 1919, permaneceu em atividade
por 7 anos, encerrando-a em 1925” (MARRONI, 2008, p. 150). Enquanto que Taine
Taborda (2012) aponta que a revista manteve suas publicações até o ano de 1927:
“[...] há exemplares da revista disponíveis também na Biblioteca Central da PUC e
no Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa de números posteriores a
1926, última data que Biblioteca Pública de Pelotas possui em seu acervo.”
(TABORDA, 2012, p. 43).

No entanto, ambas apontam as duas fases que a revista apresentou em seu


tempo de duração. A primeira fase corresponde entre os anos de 1919 e 1923 e a
segunda de 1924 a 1925. No primeiro ano o periódico tinha como diretor Bruno de
Mendonça Lima e redator Pedro Vergara e diretores artísticos Luiz Lanzetta e
Brisolara da Silva, sendo estes dois últimos os mais conceituados fotógrafos da
cidade. A revista perdurou com esta direção pelos primeiros três meses, quando
Pedro Vergara deixa a redação para ser promotor público na cidade de Camaquã e
ocupa seu lugar o poeta Tenente Januário Coelho da Costa. Após o mês de abril
deste primeiro ano a revista sai de circulação, retornado novamente apenas em
setembro, onde passa a ser quinzenal e tem apenas Coelho da Costa como diretor e
Luiz Lanzetta como diretor artístico.

Por meio de uma leitura atenta nos quatro primeiros fascículos é possível
enxergar certo destaque em privilegiar alguns lugares de lazer da cidade em relação
aos outros. Um exemplo disso, Taborda (2012) aponta na sua tese:

[...] a revista ilustra as festividades de carnaval na cidade com imagens dos


carros alegóricos, das rainhas dos clubes e informações sobre eles (clube
Brilhante e clube Diamantinos), destaca as passeatas burlescas, os bailes e
quermesses, dando mais espaço ao clube Brilhante em suas páginas
(TABORDA, 2012, p. 47).

Após essas quatro primeiras edições mensais, a revista para de circular sem
qualquer explicação. Retornado somente três meses depois, em setembro, e se
tornando um periódico quinzenal. Para explicar aos seus leitores e leitoras, a
primeira página apresenta uma “nota de esclarecimento”, onde é mencionado que a
revista não tem o intuito de privilegiar qualquer instituição que seja, pregando pela
“imparcialidade” de suas ações:

Resurgindo...
Reaparece hoje a Illustração Pelotense, que espera de nosso meio social o
mesmo benévolo acolhimento que lhe foi dispensado em sua primeira fase
e do qual não pode absolutamente prescindir.
Motivos que não cabe assinalar aqui lhe determinaram um eclipse de três
longos meses, com desprazer, queremo-nos acreditar, de quantos a vinham
distinguindo com a sua carinhosa simpatia.
Desaparecidos esses motivos, surge de novo, na arena da publicidade, sem
elmo e de viseira erguida, para a defesa apaixonada do Belo, em todas as
suas manifestações sublimes.
Sem cor política ou religiosa, terá suas colunas abertas a todos que, sob
sua exclusiva responsabilidade e dando aos seus trabalhos feição literária,
quiseram externar, no terreno elevado dos princípios e, pois, impessoal,
suas opiniões e suas crenças.
Sem preferência por esta ou aquela sociedade carnavalesca, este ou
aquele clube sportivo, registrará imparcialmente, como acontecimentos
sociais, todos os atos solenes das associações locais cultuadoras de Momo
ou do generalizado e interessante jogo bretão.
Terminado esta secção redatorial, que já vai tresandando a plataforma
política, saudamos como no primeiro número, a sociedade pelotense,
hipotecando-lhes o nosso franco e decidido apoio em todos os
cometimentos que visem a manutenção dos seus foros de cultura.
(ILLUSTRAÇÃO PELOTENSE, setembro de 1919)

De fato, a revista voltou repaginada. Editada na Livraria Universal, ela


ressurgiu com poucas fotos em comparação as edições anteriores. Nas segundas
edições de setembro e outubro as capas são masculinas, evidenciando senhores de
altíssimo poder aquisitivo da cidade. Notam-se mais páginas de publicidade, ou seja,
demonstrando a necessidade que a revista teve para novamente tomar rumo e se
estabelecer contando com apoio financeiro de empresas e pessoas ilustres da
região. Por isso, também, são identificadas mais fotografias da elite de outras
cidades, como Bagé. A fim de expandir e fazer mais pessoas aderirem ao deleite
deste fascículo.
Figura 3 – Ilustração no cabeçalho da primeira página

(Fonte: Illustração Pelotense, 1919)

A Figura 3 ilustra de forma perspicaz o intuito da revista. Todas as edições até


o ano de 1920 vinham com este desenho no cabeçalho da primeira página.
Trazendo essa ilustração com o seu nome que é “iluminado” pelos raios do Sol
indicando a luz, o “novo”, o conhecimento que estava adentrando as casas de uma
cidade do interior. Mas também se modernizava dialogando tanto com a
intelectualidade que deste fascículo iria advir quanto com as inovações tecnológicas
representadas pelas figuras do automóvel e avião. Sendo assim, a revista surgia
para compactuar de leituras com os seus viventes já tão intelectuais, para trazer as
novidades da sua própria sociedade e também para inovar a mídia impressa local
seja com os seus textos ou com a novidade da presença de fotografias em suas
páginas.

De fato, o uso da fotografia como recurso foi uma grande inovação na


proposta deste periódico. Segundo Marroni (2008),

A “Illustração Pelotense” foi a primeira revista de variedades que fez uso da


fotografia, em Pelotas. Até então, só se conhecia este recurso através de
revistas editadas e impressas, principalmente, no centro do país. A
novidade da fotografia, a utilização de cores a partir da introdução em
chapas em tricromia, e a diagramação das páginas, compunham um todo
de sentido, um convite ao olhar (MARRONI, 2008, p. 147).
Aos citadinos não poderia ser mais esplêndida a representatividade dada pela
fotografia nas páginas ilustradas. Eventos sociais, enlaces nupciais, as matinês
freqüentadas pela mais alta sociedade tinha o porquê de ser registrado para o fim de
glamour e prestigio de ser publicado e ainda distribuído para demais cidades do
Estado. Principalmente no que concernia às mulheres, pois predominantemente a
maioria das fotografias catalogadas nas edições dos anos de 1919 e 1920, incluindo
as capas, com algumas exceções, apresentavam as senhorinhas da elite pelotense.

Figura 4 – Senhorinha Othylia Lang

(Fonte: Illustração Pelotense, 1920)

O uso da fotografia em periódicos era uma novidade na Princesa do Sul. No


entanto, já se fazia presente outras cidades como Porto Alegre, São Paulo e Rio de
Janeiro. Desde a criação destas revistas ditas de variedades ilustrações, caricaturas,
charges iam configurando esse perfil emaranhado de inúmeras maneiras de
transmitir a informação com entretenimento, juntamente com as fotografias que
deslancharam mesmo na década de 20. Revistas como a Careta (RJ, 1908) e A
Cigarra (SP, 1914) traçavam o perfil. No entanto, nenhuma foi tão influente como O
Cruzeiro, lançada somente em 1928, mas que renovou na maneira ditar os padrões
de estética por meio de suas fotografias editoriais de moda.

A Illustração Pelotense sendo a revista pioneira lançava a moda através de


suas fotografias. Nogueira e Michelon (2011) num artigo escrito conjuntamente
sobre as mulheres na relação com a música representadas na Illustração analisam
sobre os tipos de fotografias encontrados nos fascículos

Sobre as fotografias, foram identificadas quatro categorias, a saber:


Retratos, Eventos, Locais e Instantâneos. A categoria “Retratos” é a mais
numerosa, demonstrando um maior número de retratos individuais, com
predomínio de imagens de mulheres na modalidade do ¾ de perfil,
conforme tendência da época. É notória a ênfase para o artista e para a
personalidade artística traduzida em poses, ângulos inusitados,
enquadramentos expressivos e composição de luz e contraste, qualidades
que apontam para fotos geradas em estúdio, planejadas e executadas por
retratistas criativos e experientes tecnicamente (NOGUEIRA; MICHELON,
2011, p. 251).

Figura 5 – Um instantaneo na Praça da República


(Fonte: Illustração Pelotense, 1919)

A Figura 5 representa o primeiro Instantâneo ou o footing da Illustração, na


Praça da República. Apesar de conter mais fotografias no estilo “Retratos”, o footing
era a forma ideal de captar os estilos das senhorinhas e dos almofadinhas. Pois
normalmente eram feitas nas vias públicas, no caso de Pelotas, na rua XV de
novembro, na Praça da República ou nas matinês do Ponto Chic, denominadas
como “flagrantes” pela revista tornavam as fotos mais fiéis ao estilo cotidiano dos
citadinos. No entanto, um footing normalmente era feito com quem já sabia que iria
ser fotografado, portanto houve uma preparação ou, mais ainda, o ritual do preparo
para a foto, e por isso não pegava ninguém desprevenido.
Capítulo III

As sensibilidades na representação do comportamento e no vestir das


senhorinhas

Neste capítulo será analisada por meio da moda, das fotografias e dos
escritos ou textos presentes na Illustração Pelotense a representação sob as
interpretações das sensibilidades para decifrar o comportamento das mulheres que
viveram na cidade de Pelotas, no início da década 1920. Como bem já foi dito, foram
analisadas as edições que correspondem aos anos de 1919 e 1920. Nelas foram
priorizados textos que tivessem relação à mulher. Escritos tanto por homens quanto
por elas, os textos comportam o que se esperava de uma mulher da elite, inserida
naquele contexto: como ser uma boa filha, mãe e esposa; como se vestir
adequadamente seguindo os padrões importados; o que deveria ler e ouvir. As
inúmeras fotografias também presentes nos periódicos fazem-se mister como fonte
para uma compreensão mais realista tanto do visual esperado, quanto do cotidiano
para assim poder entender como deveria ser a vida de uma típica senhorinha nos
anunciados “anos 20”.

Para tamanho efeito buscou-se fazer a compreensão da relação


escritos/roupas/fotografias através das representações de suas sensibilidades.
Entendendo que seja possível traduzir, dessa forma, a realidade pretendida. Pois, de
acordo com Pesavento (2004):

As sensibilidades seriam, pois, as formas pelas quais indivíduos e grupos


se dão a perceber, comparecendo como um reduto de representação da
realidade através das emoções e dos sentidos. Nesta media, as
sensibilidades não só comparecem no cerne do processo de representação
do mundo, como correspondem, para o historiador da cultura, àquele objeto
a ser capturado no passado (PESAVENTO, 2004, p. 6).

Pretende-se construir a relação da representatividade do comportamento


feminino com o contexto em que ela deveria mostrar-se ser para garantir o status e
glamour de sua classe social. De forma a compreender o que mudava e anunciava
esse início de uma nova década que, de certa maneira, transformava o modo de
viver daquelas mulheres.
Decodificar as mensagens sob as revelações das fontes imagéticas, roupas e
crônicas inseridas numa revista que se fez presente naquele mundo é se aproximar
da noção de um imaginário que foi vivido. Pois “nessa operação mental o próprio
real é reconstruído pelos homens via imaginário e é o estudo das sensibilidades que
possibilitará acesso ao núcleo secreto deste passado” (SABALLA, 2011, p. 66).

Dessa forma, Sandra Pesavento (2004) aponta que o historiador ao fazer esta
interpretação das fontes deve ter o cuidado na leitura dos aspectos que representam
aquele passado porque ao

captar as razões e sentimentos de uma temporalidade já escoada é ter em


mente a alteridade do passado, com sua diferença de códigos e valores.
Este gap entre tempo do historiador e tempo do acontecido impõe o
passado como um outro, que desafia e oculta seus sentidos. Não há pois,
como deixar de ter em conta aquilo que é próprio da história: o fato de que
as respostas construídas sobre o tempo escoado são sempre provisórias,
cumulativas, parciais, datadas, prováveis e que o historiador busca tornar
sempre, o mais possível, verossímil e convincente. Ao estabelecer os
marcos destes filtros do passado, é que a atividade do historiador se
constrói como uma tarefa hermenêutica (PESAVENTO, 2004, p. 17).

Portanto, ao analisar os códigos que estão gravados na revista e que fizeram


parte dos momentos onde determinada classe esteve presente é buscar através de
seus significados e signos uma releitura possível daquele período. O historiador
deve se transportar, se reinventar para interpretar o recorte temporal escolhido, mas
jamais deve abandonar o seu tempo onde cada vez encontra os caminhos para a
compreensão aprofundada que agora se interessa não apenas pela individualidade,
mas também pela subjetividade; não somente pela razão e sim pelos sentimentos e,
por fim, pela possibilidade de reinventar a história.

A partir das páginas da Illustração Pelotense será feita uma interpretação da


vida das mulheres que estiveram presentes pelo menos em seus dois primeiros
anos de circulação. Aquelas mulheres que são representadas nas fotografias ou na
forma de pequenos textos com palavras direcionadas a elas deverão ser
compreendidas como indivíduos singulares: cada uma soube em seu tempo aderir
as modernidades que lhe eram oferecidas. Principalmente no que concernia ao
vestuário que por tanto tempo manteve-se solidificado por cima de seus corpos, com
a década de 20 eles finalmente começaram a serem moldados por roupas que
deram a mulher conforto e um espírito de liberdade. Mesmo que velada sobre o julgo
do jogo moderno x tradicional tão presente na Princesa do Sul.

Diversas crônicas ou fragmentos de escritores estrangeiros ou do centro do


país são reeditados na revista. Um pequeno texto de um escritor alemão foi
reeditado na edição de 1919 e o tema se inclina para o comportamento das
mulheres:

A mulher modelo

Interrogado sobre requisitos da mulher modelo, um moralista de Berlim


declarou exigir nella, entre outros muitos, os seguintes:

A mulher modelo deve parecer-se com o caracol, que nunca abandona a


casca, mas não deve como caracol por ás costas tudo o que tem.

- Deve parecer-se com echo que não fala sem interrogarem ; não devem
porem, como echo, procurar ser o ultimo a falar.

- Deve, como relógio official, ser de uma perfeita regularidade ; com a


diferença de não dever como um desses relógios, fazer ouvir a sua voz por
toda a cidade.

(ILLUSTRAÇÃO PELOTENSE, fevereiro de 1919)

A comparação da mulher com um caracol remete ao símbolo da “casca”, ou


seja, de permanecer presente no seu devido lugar: na casa, no âmbito privado.
Mesmo estando ciente da posição assumida por elas de “sair de casa” para
trabalhar era clamado pelo não abandono do seu meio. O que já não era possível de
conter desde o momento que elas saem para trabalhar ocupando as vagas antes
masculinas, mas que foram perdendo espaço principalmente após a Primeira Guerra
Mundial. Obviamente que o impacto não teve as mesmas proporções da Europa em
comparação ao extremo sul do Brasil. Mas as mulheres daqui acompanhavam e se
interessavam pelas notícias e enxergavam a independência daquelas mulheres que
já eram tanto copiadas por essas no quesito principalmente da moda.

Outra coisa que incomodava era a audácia feminina: elas começavam a expor
as suas ideias. E não era mais nas cartas trocadas com suas amigas. Era através da
independência que ia sendo conquistada diariamente. No então momento, elas
também podiam praticar esportes junto aos homens e não ficar somente atreladas
ao corte e costura e, sobretudo, começavam a ter o mesmo nível de educação dos
homens quando se inserem nas faculdades. Como representa a Figura tal (ver foto)
Elas também faziam parte do grupo de atiradoras do clube: elas, portanto, estavam
usufruindo dos espaços oferecidos e mudando a forma de vislumbrá-los.

Outro texto, sem autoria – no entanto, supostamente escrito por um homem,


pois no ano de 1919 não houve sequer uma publicação feminina na revista – relata o
atrevimento das senhorinhas que iam ao ponto de lazer mais procurado na cidade
de Pelotas: o Ponto Chic.

A fila dos coiós

As nossas moças não são apenas creaturas elegantes e formosas que


derramam em nossa vida de cidade progressista um encanto infinito, uma
graça que desdobre em toda sorte de expressões fascinadoras.

Ellas são igualmente de um espírito subtil.

As vezes, á superfície da sua bondade complacente, florece com todos os


seus espinhos e com todas as suas cores palpitantes, uma rosa cruel de
ironia e sarcasmo.

E por que são moças e belas e espirituosas, o que ellas dizem ficar nunca
mais desapparece, e tão bem se justapoem nos cousas, que se integram
nesses causos, como se fossem parte dellas.

O Ponto Chic, possue uma fila de cadeiras vão sentar-se os namorados e


todos aquelles que querem namorar : por isso ali se veem, desde o menino
que chora ao se deitar, até o ansião encanecido, de pernas tremulas, visto
como, sua magestade o amor, não reconhece idades.

Realmente a tal fila lateral do Ponto Chic é um dos pontos mais estratégicos
que se conhecem para os ardentes e ternas batalhas do coração.

Pois bem essa poética fila que certas noites parece uma longa exposição de
brinquedos, as nossas moças denominaram – A fila dos coiós!
(ILLUSTRAÇÃO PELOTENSE, fevereiro de 1919)

Este fragmento que chama a atenção pelo título e com uma leitura levada
pelo tracejar do perfil feminino ambíguo relata um episódio do cotidiano pelotense no
começo do ano de 1919. A fila dos coiós indica uma dualidade de posicionamentos
quanto ao comportamento das senhorinhas que mesmo ”á superfície da sua
bondade complacente, floresce com todos os seus espinhos e com todas as suas
cores palpitantes, uma rosa cruel de ironia e sarcasmo”. Neste caso também pode
ser associado um perfil de comparações, o texto anterior analisado se preocupava
com a esfera do público/privado, enquanto este remete ao gênio espirituoso delas:
do bom ao mau; do encantador ao perverso. As mulheres se tornam um ponto de
interrogação para os homens. A ponto de serem caracterizadas, conforme a
ilustração abaixo, como uma espécie de “armadilha” aos rapazes.

Figura – Ilustração/Charge intitulada “A teia onde os homens caem”.

(Fonte: Illustração Pelotense, 1919)

A partir do texto talvez seja possível fazer o exercício mental de criar a fila do
conceituado Ponto Chic para uma matinê: 1919, de um lado senhorinhas
cochichando entre elas, rindo e expressando uma feição esnobe, caso seja
conveniente. De outro, rapazes apreensivos esperando serem retribuídos por algum
olhar dócil de compaixão. Em meio ao atrevido portar-se das moças, o autor
denomina a submissão dos sentimentos dos moços. Invertendo os papéis como se
agora o alvo fossem eles e as mulheres os seres que transpareciam os mais
desnecessários sentimentos de sarcasmo e audácia que duelavam com a mais
singela aparência de bondade e formosura.
Figura .. – A saída da matinée do Ponto Chic

(Fonte: Illustração Pelotense, 1919)

Ao ler estas crônicas escritas por homens convém pensar sobre o que talvez
tenham os motivados para tal ato. A resposta poderá vir de um olhar não retribuído
ou de um amor platônico por alguma senhorinha que não compartilhe de tamanho
sentimento. Como nada pode ser generalizado é imprescindível ter em mente que,
de fato, algumas moças tinham a vontade de poder fazer as suas próprias escolhas
e as colocava em prática, seja estudando na faculdade predominantemente ocupada
por homens (senhorinha Carmen doglia que terminnou com brilhantismo o seo curso
de odontologia), seja por vestir-se com a última tendência que fez o seu vestido
deixar a mostra o seu braço. Entretanto, muitas delas ainda conservavam valores
ditos tradicionais e mantinha apenas as atividades exclusivamente femininas, bem
como se resguardavam em seus trajares pouco inovadores.

Neste sentindo, observa-se o texto onde se questiona se as senhorinhas


podiam ou não andar sozinhas nas vias públicas:

Podem as moças andar sós?

Não ha inconveniente algum em que uma senhorinha saia só pela manhã a


fazer compras. A tarde tambem não ha inconveniente ; mas deve ter-se em
consideração que de tarde ha mais agrupamento e movimento. A essa hora
é, pois, preferivel não sair só.
Em Paris ninguem é capaz de se métter com uma jovem, nem na França,
nem na Suissa, nem na Inglaterra ; Italia são mais atrevidos e na Hespanha
chegam á audacia e á licença a tal extremo que em Madrid se
estabeleceram ultimamente penas policiaes de multas pesadas e prisão
para aquele que falte com o respeito a uma senhora na rua, pois era antes
uma cousa insupportavel.

(ILLUSTRAÇÃO PELOTENSE, março de 1919)

A negociação era dada em contraponto às demais cidades européias. Aqui


elas poderiam andar, mas o mais recomendado era que fosse na parte da manhã;
pela tarde só acompanhadas. Apesar de constar na revista a regra de bom senso
para as senhorinhas, não era assim que acontecia na cidade de Pelotas. Santos
(2013) entrevistou, em 2006, a senhora Cecy Riff então com mais de cem anos de
idade onde relatou que na verdade

[...] moças não andavam sozinhas pelas ruas. Para ir à escola,


acompanhava-se de uma criada, ainda que caminhasse à frente desta para
aparentar locomover-se independente. Quanto ao namoro, “usávamos
almofadas para nos debruçar na janela, a fim de observar o movimento," e
deste modo, nascia na janela o namoro de gargarejo: as moças especadas
no parapeito de janelas dos casarões e, considerada a elevação da
pretendente em relação ao cortejador, este último necessitava erguer a
cabeça em direção ao alto para conversar com a jovem (SANTOS, 2013, p.
146).

Mesmo tendo o aval de poder andar pela manhã sozinhas e as opções de


lazer como os cinemas, as matinês, os eventos nos clubes as moças em sua maioria
estavam acompanhadas seja pelas criadas ou pelos familiares. Ainda Santos (2013)
aponta que os afazeres exclusivos femininos seguiam em predominância pelas
moças prendadas da elite da cidade:

Neste ambiente previamente delimitado, os moldes de costura e de


bordados constituíam, portanto, um rico e prestigioso aliado das moças
prendadas, que se dedicavam à leitura, a declamar poesias, tocar piano e
cantar, assim como às atividades de caráter feminino como o bordado, a
costura, o tricô e o crochê (SANTOS, 2013, p.146).
Portanto, os novos costumes e comportamentos importados das capitais
renomadas impunham-se, mas de forma negociada. Toda a influência vinda das
telas projetadas no cinema ou das páginas das revistas ilustradas da capital da
República era vista com olhos carregados de críticas e valores tradicionais. No
entanto, como afirmam Michelon e Santos (2010) mesmo com esse olhar cuidadoso
sobre as senhorinhas pelotenses

Obviamente, a essas alturas, não seria mais possível retroceder. No


contexto de outrora, não se poderia acolher a mulher que experimentara a
eloqüência e o efervescente desejo de viver que transbordavam, nos anos
20, dos anúncios, das telas do cinema, das notícias vindas das grandes
cidades: havia, sobretudo, o apelo para se divertir. Nesses anos, a mulher
passaria a se preocupar com a forma física, a praticar esportes, a
domesticar a fome. A ordem “menos é mais”, sugerida pelas novas
estéticas, prevaleceria, manifestando-se, também, através de um vestuário
que solicitava formas esguias e corpos atléticos (SANTOS; MICHElON.
2010, p. 133).

O corpo feminino antes velado por uma diversidade de camadas de tecidos


que o cobria ou dos espartilhos que o amarrava para modelá-lo. Não havia tanta
preocupação com o “fechar a boca e conter a gula”. Na verdade era até ao contrário:
quanto mais opulento, sinuoso e cheio de formas, mais aderido ao padrão seria. Já
no início da primeira década do século XX, mas, principalmente, a década de 20
anunciava a mudança dos moldes das roupas e por consequência do corpo.

O visual que a modernidade anunciava entrava em voga: nunca antes os


corpos opulentos estiveram tão à vontade, soltos e também à mostra. Prezando a
higiene, os vestidos não mais deslizavam suas bainhas sob o chão das calçadas.
Era possível enxergar partes antes escondidas, pernas e braços ficaram evidentes.
Fazendo o olhar masculino também mudar de direção. A magreza estava
estampada nas fotos e nas telas, no entanto, somente aos poucos as senhorinhas
de Pelotas iam entendo que o visual esquálido e andrógeno era a mais nova
tendência.

Entretanto as edições da Illustração do ano de 1920 traziam anúncios de um


famoso composto que fazia novamente as carnes voltarem eliminado o visual
raquítico. O que mais uma vez torna-se uma contradição, um apelo aos costumes
tradicionais. Para muitos esse visual denegria a saúde da mulher incorporado mais
outros sintomas como anemia e falta de apetite, conforme aparece no anúncio
abaixo.

FOTO DO ANUNCIO ----------------------

Porém, em quase sua maioria, as fotografias registravam senhorinhas com


corpos com formas opulentas significando o atraso ao aderir a moda. Ou seja, havia
um discurso impregnado nas revistas locais contra essa tendência de
emagrecimento e isso, consequentemente, acarretava nesta não aderência total dos
novos costumes. Na Figura n. foto de uma senhorinha no início do ano de 1920.

(Fonte: Illustração Pelotense, 1920)

Em linhas gerais, Santos (2013) resume o que ia acontecendo e modificando


o corpo e o trajar das moças, impulsionando a uma democratização do vestir:

A moda iniciava uma revolução que de certa forma impulsionou a


democratização do vestuário feminino. Linhas retas delineavam os corpos
de moças que buscavam um visual andrógino e que reportava à figura de
um menino. A nova realidade do corpo feminino configurava-se pela
magreza extrema, em oposição à cintura de vespa que delineava os corpos
sinuosos do final do século XIX. Aliás, as bainhas subiram, as cinturas
desceram e alguns vestidos as exibiam na altura do quadril (SANTOS,
2013, p. 122).
Essa democratização do vestir tanto colaborou para as senhorinhas da elite
quanto para aquelas que não possuíam grande poder aquisitivo, pois as roupas
podiam ser facilmente copiadas e feitas em casa. Mesmo importando as tendências
assinadas por grandes estilistas europeus, como Chanel, era possível também
poder criar sua própria peça de roupa. Podendo ser constatada num texto intitulado
Moda, presente na revista no ano de 1919, onde são dadas dicas de cuidado e
criação de peças:

[...] Os preços das luvas aumentaram de tal maneira que já não se sabe
como fazer para andar enluvada sem ficar arruinada. Talvez as experiências
que se estão fazendo com seda artificial venha resolver o problema [...].
Agora que as mangas curtas são permitidas, eis como se faz facilmente
uma blusa: em um metro e três quartos de tecido faz-se uma abertura para
passar a cabeça e uma outra pequena na frente; no lugar da cintura põe-se
um elástico estreito e as cavas com botões. [...] (ILLUSTRAÇÃO
PELOTENSE, fevereiro de 1919).

Assim como as senhorinhas da elite poderiam criar suas próprias roupas as


demais senhorinhas de classes sociais mais inferiores da sociedade pelotense
também poderiam. Uma foto presente na Illustração representa as “operárias da
Illustração Pelotense”, ou seja, talvez devessem ser as encarregadas da limpeza da
editora e estão vestidas adequadamente aos novos moldes.
Figura .. – As nossas esforçadas operarias que tomam parte no êxito da Illustração

(fonte: Illustração Pelotense, 1920)

Evidentemente não foram todos que apreciaram esta democratização do


vestir, pois apesar dos moldes copiados, os tecidos normalmente não eram os
mesmos importados usados pelas senhorinhas mais bem afortunadas. Porém, eram
novos tempos, e até mesmo os tecidos resgatados por Chanel, como o jersey, de
valores mais acessíveis, caíram aos gostos de todas as classes. Como também
comentam Santos e Michelon (2010),

Tanta simplicidade possibilitava que costureiras ou habilidosas donas de


casa pudessem, como de fato o fizeram, copiar os modelos exibidos em
revistas ou nas telas de cinema, ou das roupas usadas pelas bem-
abastadas, que pagavam muit pelos modelos com os quais se deixavam
fotografar nos lugares do bem-viver (SaNTOS; MICHElON. 2010, p. 136).

A fotografia era a principal fonte que também evidenciou essa


democratização. Além de ser o meio que todas se espelhavam: a senhorinha que
podia pagar por uma revista illustrada diretamente vinda da capital da moda, Paris,
imediatamente percorria os olhos atrás de que tinha de novo. Qual era, portanto, a
última tendência. Depois disso, ou importava diretamente o modelo pronto ou corria
na fiel costureira para mostrar-lhe a sua mais nova pretendida aquisição de vestir.
Enquanto isso, a senhorinha que podia pagar apenas pela Illustração Pelotense não
deixava de interpretar a moda e vestir-se com o que vislumbrava nas fotografias.
Portanto, era um ciclo de (re) criações, onde a facilidade do vestir possibilitou que
todas pudessem aderir como nunca o que de fato era moda.

A Illustração Pelotense além de recheada de fotografias que divulgavam a


moda também continha dicas do que usar em eventos do cotidiano como notas
reeditadas de famosos críticos de moda. Neste primeiro caso, intitulado Indicações
Íntimas refere-se ao que seja indicado usar no período de luto:

Indicações intimas

O luto

O luto por irmã é ”de” 6 mezes rigoroso, 6 de alivio e 6 de meio luto,


portanto um anno e meio de luto.

Ora o luto o véo no rosto e o manto já não se usam, foram substituidos pelo
gorro singelo com ampla cauda de crepe georgette e tul pelo rosto e levitan
ou casaco largo ou a capa moderna que é tão seria e elegante.
(ILLUSTRAÇÃO PELOTENSE, março de 1919)

Mesmo num período de luto a mulher jamais deveria perder a sua


elegância. A nota é específica para o luto de uma irmã, o que sugere que deveriam
existir outras formas de representá-lo na forma de vestir quando o fosse para outro
ente familiar. Já nas outras próximas notas que foram reeditadas em duas edições
sequenciais – maio e junho de 1920 – trouxeram as dicas detalhadas do que era a
última tendência de Paris.

CHONICA DA MODA

(A. BOUFRATELLO)
Em Pariz, actualmente, o vestido de saraó, geralmente faz de Taffetas
Pompadour, pannejado e com crinoline. Parece que volvem, após essa
grande guerra européa, quanto á moda, os deliciosos tempos de Luiz
Quinze e da senhora Pompadour.

Durante a guerra o traje de alfaiate quase cahiu no olvido e havia para isso
a seguinte razão: Os alfaiates, que são indispensáveis para fazel-o foram
chamados ao serviço militar e as modistas não são capazes de executal-o,
por muito gosto e por muita boa vontade que tenham. Distingui-se de logo o
trabalho do alfaiate do trabalho da costureira. As modistas durante a guerra
substituiram o sastre pela bata camisa que estamos fartos de ver e que por
ser de confeição simples, a qualquer pessoa é facil fazel-a por si mesmo.
Quem entende um pouco de costura, com uns pannos rectos e um cinturão
preso ao talhe, atraz, adiantte, ou solto, já tem uma bata-camisa
(ILLUSTRAÇÃO PELOTENSE, maio de 1920).

O contrario se dá com o traje sastre que fez seu reapparecimento logo após
formada a paz, por terem regressado os homens da guerra. Meio
dissimuladamente no primeiro verão após o termo da confragação, mais
estensivo no inverno ultimo em Paris, reappareceu em estylo-homem :
sacco curto com bolsos, collarinhos e punhos de cores variadas : azul,
verde, granadas, xadrez, branco e preto, negro e castanho, amarello ocre e
pardo.

Todos esses punhos affectavam formas rectangulares de cinco centimetros


por onze, tres por sete, etc. eram de genero inglez. Para a tarde, o traje
sastre de visitas e de passeios é mais complicado, mais guarnecido: A aba
é mais larga e mais ampla ; a jaqueta é larga até cinco centimetros antes do
bordo da aba. O traje é amplo em baixo e em roda, desenhando e
imperceptivelmente o talhe. As gollas, altas e flexiveis, podendo fechar de
modo a cobrir a bocca ou descobrir graciosamente sobre a espádua.
Confeiçoa-se o sastre, que tem obtido um grande triumpho, de Jerseys, de
séda de malhas grossas, de lã de velludo, de lã de séda, etc. etc.

Assim, a moda soberana, do alto de seu throno, proclama o traje sastre


como o mais correcto e o mais pratico (ILLUSTRAÇÃO PELOTENSE, junho
de 1920).
Na primeira parte da crônica fez-se uma crítica às costureiras que não
eram capazes de obter o mesmo talento e precisão dos alfaiates, mas que foram a
solução para o momento no período de guerra. Ele também diz que o sastre – traje
típico desde o princípio da primeira década do século xx, mas que ia sofrendo
variações e adaptações ao passar dos anos – fora substituído por uma simples bata
camisa, pelas costureiras. Após toda a crítica feita ele sugere que o sastre deve
permanecer no gosto das moças. Mas pergunta que surge após ler essa informação
seria que de algum modo essa crítica fez sentido para as senhorinhas da cidade de
Pelotas? A praticidade da moda aqui parecia ser muito mais a tendência. As
costureiras eram as válvulas de escape das senhorinhas. Portanto, algumas notícias
trazidas pela revista pareciam ficar um pouco à margem da realidade vivida pelas
pelotenses.

De fato, eram mais precisamente as fotografias que carregavam os signos


e as interpretações dadas sobre o que se pretendia com a moda. “As jovens belas e
gentis senhorias [...] ensaiavam a pose, o gesto, o olhar, o sorriso [...] mostrando o
que deveria ser mostrado, especialmente roupas e acessórios, ousando usar
modelos dos grandes centros, com os ajustes permitidos” (SANTOS; MICHElON,
2010, p. 141).

figura .. – senhorinhas de Bagé buscar legenda exata


Nesta fotografia, pela primeira vez, se enxergam as listras no vestuário
feminino. Remetendo aos tecidos que eram usados por marinheiros, Coco Chanel
introduz essa nova forma de estampa no vestuário feminino e cai ao gosto das
moças. A curiosidade desta foto ainda recai ao identificar que as senhorinhas que
usam pela primeira vez o tecido estampado são da elite de outra cidade da região e
não Pelotas, a pioneira da moda do extremo sul. Além disso, é possível identificar
uma espécie de remo nas mãos daquela que está em pé remetendo também à
figura dos marinheiros. Os chapéus, neste caso, não se parecem nem com o estilo à
la garçonne, e muito menos com aqueles que ainda permaneciam opulentos em
detalhes e tamanhos, ainda muito usados na Princesa do Sul.

Num contexto onde as inovações tornavam-se constantes, a boa


educação dada de uma mãe pra sua filha remetia na graciosidade de sua aparência.
Mesmo aquelas que não tiveram a sorte de serem já naturalmente formosas
poderiam investir para, no mínimo, serem belas. Na crônica Educação da mulher
encontrada no ano de 1920, isso pode ser muito bem observado:

A educação da mulher

A mulher deve ser bella, deve ter graças e encantos. Nem todas podem ser
lindas, que formosura não ficou em dote a todas filhas de Eva ; mas todas
podem ser bellas. Belleza não é formosura nem lindeza ; belleza é o
resultado das graças ; e toda a mulher bem educada pode ter graças :
pode-lh’as dar educação, póde substituir a formosura e fazer linda a
fealdade.

Mães cegas, que vos enlevaes na formosura de vossas filhas e cuidaes que
não precisam mai encantos – mães, que choraes sobre a fealdade das
vossas filhas e julgaes que nenhuns attractivos podem ter – voltae d’esse
erro fatal a ambas, e tão funesto a umas como outras.

Se a natureza foi liberal com tua filha, não desprezes essa vantagem ; cuida
da sua formosura, preserva essa tez delicada, conserva essas mãos finas,
cultiva essas rosas de saúde, nutre esse cabello ondeado, molda esse talhe
airoso, concerta esse porte elegante. Tua filha será formosa ; tanto melhor
para ella : com virtude, instrucção e formosura. Foi á tua filha escassa ou
madrasta a natureza ? – não a creias infeliz por isso : em tua mão não está
fazê-la formosa, - bella sim. (ILLUSTRAÇÃO PELOTENSE, 1920).
Portanto, as “filhas de Eva” sejam para aquelas que apenas deveriam
preservar a formosura ou para as outras que por crueldade do destino nasceram
feias e deveriam, ao menos, se esforçar intelectualmente para compensar na
educação o mínimo de serem belas. Na verdade, para ambas, as graças e destrezas
eram atribuídos sentidos de suas posturas. As poses, expressões e gestos numa
fotografia podem dizer muito sobre a intencionalidade de reproduzir o perfil
desejado.

Figura - Senhorias Tavares de Oliveira, “de nosso escol”


(Fonte: Illustração Pelotense, 1920)

As quatro senhorinhas que se propuseram imortalizar seus semblantes


joviais por meio desta fotografia evidentemente tiveram toda preparação que
antecede o ato do disparar da câmara fotográfica. Neste estilo de fotografia é
preparado um cenário especial que deverá fazer sentido às retratadas. O cenário,
neste caso, não utiliza muitos acessórios: percebe-se uma cortina ao fundo e na
extremidade direita apenas uma parte de uma janela. A simplicidade da escolha de
poucos detalhes faz o foco voltar-se para as personalidades presentes. O ângulo
mais fechado proporcionou que sejam evidenciadas as sutilezas de cada moça.
Possivelmente a escolha das posições seja referente ao estado civil de cada uma.

No tocante ao gestual percebe-se um olhar preciso de todas ao


direcionarem ele para a lente. As bocas entre abertas ou com um sorriso eram
comumente notáveis entre elas. Incitando, de certa forma, sensualidade e
provocação, formando, portanto uma dualidade de sentidos: as mãos apoiadas na
cadeira ou sobre o colo trazem consigo a delicadeza dos gestos revelando uma
alma de feminilidade almejada pelos que tanto vigiam o comportamento delas, mas
ao mesmo tempo as expressões de seus rostos trazem incógnitas e ambiguidades
de sensações levando a imaginação passar pelo provocativo à inocência.

A nobreza dos tecidos que compõem os moldes alinhados dos vestidos


adornados em seus corpos com graciosidade correspondem ao estilo europeu que
se esperava de uma senhorinha da elite. A presença de jóias remete a riqueza, ao
status social privilegiado. Os cortes e penteados reportam àquela figura andrógena
que se apresentava para elas. Mas, na verdade, eram elas mesmas que também
divulgavam os anúncios da moda que se apresentava.

As senhorinhas de Pelotas representavam por meio de suas próprias


imagens divulgadas no periódico o que elas viam desabrochar como tendência e,
sobretudo, reforçavam a sua imagem para identificarem sua posição na sociedade
hierarquizada onde para ser era preciso mostrar-se.

Conclusão
Amabilidades conjugaes

O marido : Decididamente, tu nasceste para ser mulher dum imbecil !

A Esposa – E creio que não errei a vocação...

Para se conservar a paz domestica

Regras para se conservar a paz domestica, - quanto aos homens :

Faze sempre a corte á tua mulher, como fizeste antes do casamento.

Não vás muitas vezes á cosinha e não te intromettas nos arranjos da casa.

Não busques nenhum prazer ou distracção fóra de tua mulher.

Leva sempre em tua companhia a tua mulher ao club, ao theatro, etc.

Não disputes nunca em presença das creanças ou de extranhos.

Beija a tua mulher antes de sahir de casa para que á tua volta não a
encontres em pranto.

Agora quanto ás mulheres :


Fazei tudo para conservar a vossa beleza e graça.

Procurai sempre um marido que vos seja superior em espirito e ilustração ;


a sua palavra vos exaltará, o seu talento vos fará experimentar as mais
puras alegrias.

Conservais-vos sempre moças ; arredai para longe de vós as sombras e as


tristezas, e alegrai-vos do dia de hoje lembrando-vos que o de amanhã é
incerto.

Fazei de vossa casa um pequeno paraíso e deixai-vos ficar nelle.

E ahi temos uns conselhos, para que a felicidade e paz domestica sejam
relativamente completas.

Quem seguir taes conselhos conseguirá fazer da vida um paraíso terrestre.

(ILLUSTRAÇÃO PELOTENSE, Abril de 1920)

Fotos a serem colocadas nos devidos lugares


NOGUEIRA, Isabel Porto e MICHELON, Francisca Ferreira. Mulheres da música
na Revista Illustração Pelotense: a imagem como construção da identidade.
Disponível em:
<http://www.musimid.mus.br/3encontro/files/pdf/Isabel%20Porto%20Nogueira.pdf.>
Acesso em 30 de novembro de 2013.

LUCA, Tania Regina de. “Fontes impressas: História dos , nos e por meio
dos periódicos.” In:“Fontes Históricas”. Org. Carla Bassanegi Pinsky. São Paulo:
Contexto. 2005. p.111-153.

SABALLA, Viviane Adriana. Narrativas visuais do sensível: retrato fotográfico e


indumentária. Disponível em:
<http://facos.edu.br/publicacoes/revistas/escrita_no_plural/outubro_2011/pdf/narrativ
as_visuais_do_sensivel_-_retrato_fotografico_e_indumentaria.pdf.>

Acesso em 27 de junho de 2014.