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Edmu, m,dHu,ssert

;Husserlconsideraque a ciênciafm pane integrante da origem e do desti-


no da humanidade europeia. Por esta razão, a crise das ciências europeias,
muito mais do que uma crise epistemológica, é uma crise espiHtual e exis-
tencial da Europa. No entanto, dadas a crescenteeuropeizaçãodas outras
humanidades e a cientificização e tendencial modernização de todas as
outras culturas, a crise europeia é, além disto, uma crise da humanidade
como um todo. Na medida em que a palavra êzúls significa originalmente
escolhaou decisão,tratava-se,no momento histórico que a Europa viveu
naqueles anos,de decidir acercado sentido da Europa e da humanidade.
A.
A CASE DAS
ltatava-se de saber se a humanidade europeia fracassadaperante o ideal
da ciência, que é a sua deânição como humanidade de matrb grega, e que
a distingue entre as outras culturas historicamente situadas. Ou se, pelo CIENCHS EUROPEUS
contrário, a humanidade encontraria os meios de levar à prática o ideal da
c\ênch. 'SÓassim sedecide se o \ecosque, com o vmscimentoda $1oso$a
grega, se tornou ini.atoà humanidade europeia, o \e\os de[. . . ] querer
ser uma humanidade a parir de uma razão $1os6jica, e de só poda ser
E A FENOMENOLOGH
comotal, é um meradetido histórico-fático,uma aquisiçãoacMental
de uma humanidade acidental [. .]. T] rSCENDENiAL
Diogo FalcãoFerrer

Uma Introdução à Filosofia Fenomenológica

190
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H972(

9ii7 ã'ã'b'3'õ'ti93's'õ'92
Edmund Husserl nasceuem Prossnitz. em
1859, na região da Morávia, então parte do Im-
pério Austro-Húngaro.De família judaica, Hus-
serl estudou em escolapública na vizinha cidade
alemã de Olmüu. Posteriormente estudou física
matemática,astronomiae filosofia nas universo.
dades de Leipzig, Berlim e hiena
Em hiena doutorou-se em Filosofia em 1882.
com a tesesobre a ]eoda da\eüação dosCálculos
+eitràge zur Tbeorie der Vaüatiottsrecbnung]
Em 1883, em cena, Husserl passou a estudar
com Franz Bretano e, como o mestre, desenvol-
veu aversãoà linha orientadaexclusivamentepela
crença no fato psicológico como fundamento de
todo conhecimento. O ideário de Brentano acer.
ca de uma psicologia descritiva tcvc significativa
abrangênciae influência sobre Husserl
No círculo de admiradores de Brentano
. ACUSEIHS
espargta-seo espírito iluminista da tolerância re-
ligiosa e da filosofia racional. Husserl se inscreve
CIENCHS EUROPEUS
como um de seusseguidores, e na Viena de ] 887 EA FENOMENOLOGH
converge-seao luteranismo e casa-secom Mal-
vine Steinschneider,
sua dedicadamulher por TRANSCENDENTAL
todaavida

Após muitos anos explorando estudos sobre


hlosofia lógico-matemática, Husserl tornou-se
professor orientador na Universidade de Fribur-
go, em 1916, o que significou um renascimen-
to 61osóâco. Neste ponto, Husserl desenvolve
a base de sua filosofia fenomenológica,com o
ensaio sobre a "Fenomenologia Pura, Área de

m=;:=:=lU:zz=z«'".;
Com o advento da Primeira Guerra. Husserl
identifica o colapso da civilização europeia cal'
cada até aqueles áureos tempos no ideário da
cultura, da 61osofiae da ciência. Com o efeito
desagregadosda guerra, Husserl repensa a
fundamentaçãoepistemológca de sua 61osoíia
fenomenológica. Dará\ante, ele empreende a

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Edmun,dHusserl

E
A CASE DAS
A.

CIENCUS EUROPEUS
E A FENOMENOLOGH
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B TRANSCENDENTE
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Uma Introdução à Filosofia Fenomenológica
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@ De acordo com o texto de Husserliana VI


Í

x' Editado por


=' Walter Biemel
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Tradução de
Diogo FalcãoFerrer

Diretor cientíâco
Pedro M. S. Alves <=
UJ

O GEN l Grupo Editorial Nacional reúne as editoras Guanabara Koogan, Santos, Roca, Ü Revisor técnico-ortográfico para adaptação
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da língua portuguesa falada no Brasil
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.J
várias geraçõesde profissionais e de estudantesde Administração, Direito, Enferma Aprovada pelos Arquivos-Husserl de Lovaina <=
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gem, Engenharia, Fisioterapia, Medicina, Odontologia, Educação Física e muitas outras g
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ciências, tendo se tornado sinónimo de seriedade e respeito. (

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Rio de Janeiro

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Traduzido de

ã ::U=Z'giZ:=;='=!H==i'KiÍIÍ""««'«'.'.
Martinus NijhoHPublishers, The pague, 1954.
p"""'"'''p. ''« ;;-''"".;« ''' Apresentação da Tradução Portuguesa
xl
Primeira Parte
)

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DAS ciÊNciAS COMO EXPRESSÃODA CRisE RADicAL DA VIOA DA nu-
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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental
ISBN 978-85-309-3509-2 ' '-------w-,--'u'
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CoPyrljgAf © 2012 by
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12

Segunda Parte

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'T":"'":"-- ;: 15
$ 8. Á origem da ideia modem?zada u zfversaZldade(üz cürzcza na fru/ieáormação da /nafemáfica 15
$9..4mafematfzação
ga/fZalca
danatureza
...... 16
a) 4 'keomeírlapura"
17

I'edição - 2012

Editado por: \Malter Biemel


y ; lznz :!u el'n111'Hilll-1111'«l«;';ú
3) A motivação da concepçãogalilaica da natureza
: 21
26
29
Tradutor: Diogo Falcão Ferrer e) O «,áí« «nÚ,«- íí,á d. àpór«e .ie«f@c.-«af«r.Z/a«d.«-'",./ . 32
Diretorcientífico:PedroM. S.Alves f) O proa/ema do senfído de .lõrmu/a" da ciência da Pzafzzreza.
.. 33
Revisor técnico-ortográfico: Marco Antânio Casanova

...
36

'
CIP - Brasil. Catalogação-na-fonte 38
42
45
H96c
45
Husserl,Edmund, 1859-1938 \Q. A origem da dualismo na modelaridade dominante da ciência cla natureza. A raciana-
cidade
domundo
"mare
geometrico
. . . . . . . . . . . . . .. 47
O dualismo: razão da inapreensibitidade dosproblemas da razão, pressupostoda esse
cialização das ciências e alicerce da psicologia naturalística ' "' 1" ç aposto aa espe 49
Tradução de; Díe Krfsfs der europdfschen WisseP7sc#aÚenund die franszendenfa/e Pãdnomenologfe $12.Característica
gera!
doracionalismo
.Hsicalista
modertto
... ...
A-:-J:..
Apêndice e Eirzlefüng in diephdnamerzoiogisc/zePhf/osopAfe ' \3.Asptimeirasdi$culdadesdortat'"' '----'" ' ''' ' ' ' ' ''' ''''' 52

Contém glossário Alemão-Português da subjetividade realizadora . . . listo Jisicalista na psicologia: a inapreensibilidade


ISBN 978-85-309-3509-2 ' 54

z ;/:: *Zi#Úii:'l
lllw«};«; !"1111?if
1. Filosofa moderna. 2. Ciência - Filosofia. 3. Fenomenologia. 4. Transcendentalismo.1.Biemel, Walter. 11.Título.
11-7008. 55
CDU:190 56
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ll lllli' 59
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental e Edmund Husserl Índice Gera

$ \7. O retorno de Descartesao "egocopito".Explicitação do sentidoda "epoché"cartesiana 60


$ 36. Como pode o muttdo da vida tornar-se o tema de uma ciência,após a "Croché"das
S \ 8. A autointerpretação errónea de Descartes:a lfalsi$caçãopsicotogista do puro egoalcatt ciências objetivas? Distittção de princípio entre o "a priori" lógico-objetivo e o "a priori
çadopela "epoché' 63 112
do mundo da vida
$ 19. O interessepremente de Descarnespelo objetivismo como.fundamento da sua errónea $ 37. As estruturas maisformalmetlte gerais cio marido da vida: coisa e mundo, por um lado,
aufoilzferprefação. 65 115
consciência da coisa, por outro .
$ 20. A "inferzciotzalidade" em Descarnes 66
S 38. Os dois modos possíveisjündamentais de tornar temático o muttdo da vida: a tomada de
S2 1. Descarnescolho porLto de partida para as duas linhas de desetwolvimertto: a do raciotta atitude direta natural ingénua e a ideia de uma atitude consequentereFexiva sobreo como
67
!isco e a do empirismo do modo subjetivo de doação do mundo da vida e dos abetos do mundo da vida 117
S 22. A psicologia naturatístico-gnosiológica de Lacre 68
$ 39. A especi$cidadeda 'epoché" transcettdental como alteração total da atitude natural da
$ 23. Berkeley A psicologia de David Hume como teoria .Racionalistado conhecimento:a 120
70
"bancarrota" da$!osoÓa e da ciência. S 4Q.As di#culdades do sentido genuíno da eletivação da "Croché" tola!. A tentação de com
$ 24. O abalo do objetivismo, verdadeiro motivo Jitosó$cooculto tio contrassensodo ceticis preettdê-la erroneamente como uma abstenção,a ser realizada passo a passo,de todas
mo de cume 72 asvalidadosparticulares 121
S 25. O motivo "transcendental"tío racionalismo: a concepçãode Kart de uma Jilosolia S 4 \ . A "Croché" transcendental genuína possibilita a "redução tratiscendetítat" a descoberta
franscelzderzfa/. . . . . . . . . . . . . . . 74 e a pesquisa da correlação transcendental entre o mundo e a consciência do mundo. 123

S 26. Discussão prévia do conceito, para ttós, orietttador, de "transcendental" 79 $ 42. A tarefa da ittdicação cottcreta de caminhos para üma execuçãoefetiva da redução
transcendental. ... 124
$ 27. A Jiloso©a de Kart e dos seus seguidoresda perspectiva do nosso conceito diretor de
80 $ 43. Caracterização de uma rzovavia para a redução, em confrasfe com a "via cartesiana' 125
transcendente!".A tanga de uma tomada deposição crítica . . .
S 44. O mundo da vida como tema de um interesseteórico, determinado por uma 'epoché;
Terceira Parte universal em relação à efetividade das coisas do muttdo da vida 126
S45. Início de uma explicitaçãoconcretadas daçõesda intuição sertsívetpuramente como tat . 128
A CLARIFICAÇÃO DO PROBLEMATRANSCENDENTALE A FUNÇÃO CORRES-
PONDENTEDAPSICOLOGIA..... 83 $ 46.O 'b priori"u?zíversal
dacorrelação
.. 129
S47. Indicação de outras direçõesde pesquisa:osfenómenos subjetivos.Mndametüais da sineste
sia, da mudança de validade, da consciêttcia de horizonte e da comunidade da experiência 131
A. O caminho para a âlosoâa transcenderítal fenomenológica a partir da questão retros
83 $ 48. Todo o ente, de quahuer sentido e região, como índice de um sistema subjetivo de cor-
pectiva acerca do mundo da vida pré-dado . . . . .
83 relações 134
$ 28. O "pressuposto"tido explícito de Kart: o mundo da vida circundante dado como óbvio.
S 49. Conceito prévio da constituição trattscendental como "constituição original de sentido".
S 29. O muttdo da vida é acessívelcomo um domínio dejertõmettos quepermattecem "anõ-
nz/nos 90 A limitação exemplar das análises efetuadas; indicação de horizontes mais vastos de
$ 30. A ausência de um método ínfuifívo-mosfrafivo como razão das construçõesmíticas de explicitação.
H 92 S 50. Primeira subordinação de todos os problemas de trabalho aos títulos: ego "copito'
'togifafum' 139
S 3\ . Kart e a insu#ciêrtcia da psicologia de então. A opacidade da diferença entre sübjetivi- 141
dade transcendental e a mente . . 94 S 51. A tareánde uma 'b?zfologfado muradoda vida'
$ 52. Emergem incompreensibilidades paradoxais. A necessidade de trovas rePexões radicais . . 142
S 32. A possibilidade de uma verdade escondida na .Rtoso$atrarlscetidental de Kart: o problema
96 $ 53. Os paradoxos da subjetividade humana: o simultâneo ser sujeito para o mundo e ser
de uma "nova dimensão". O antagonismo entre 'vida superficial" e "vida pro@nda' 146
98 objeto no mundo . . . . .
S33. O problema do "mundo da vida" como uma parte do problema gera! da ciência objetivo . 149
100 $ 54.A teso/ração
dosparadoxos. . .
$ 34. Exposição do problema de uma ciência do muttdo da vida 149
100 a) Nós. como homens e como sujeitos em última irtstâttcia funcional-realizadores. .
a) O@rença Cafre ciência oyetiva e ciência em geral. b) O eu comoeü originário constitui o meu horizonte do outro trariscendetltalcomo
b) A utilização das experiêrzcfasrelativas ao s©eíto para as clé?leiasoqefívas e a ciência 150
102 cossujeitoda intersubjetividade transcendental constituinte do marido . . ..
dessas experiê zcias
103 S 55. A correção de princípio da nossa abordagem inicial da "epoché" pela redução da mesma
c) Será que o relativo ao sQeito é objeto da psicologia? 153
ao ego absolutamente único e em última instãtlciajuncionat ..
d) O muttdo da vida como universo da intuitividade prirtcipial - o muttdo "objetivo
mente verdadeiro" como substrução "lógica" principiatmerite não intuível. ... 103
B. O caminho para a filosofia transcendental fenomenológica a partir da psicologia . 155
e) As ciências oqetívas como conúguraçõessuqetivas - como conúgz'raçõesde uma S 56. Caracterização do desenvolvimento.Rios(5©co depois de Kart sob o palito de vista da
praxis particular, a praxis lógico- teorética,pertencente ela própria à concreçãocompleta luta entre o objetivismolisicalista e o "motivo transcendental" sempre novamente anui
do mz4/zdoda vida. . . . . . - . . . . . . . 105
Ú 155
J) O problema o mundo da vida, não como um problema parcial, mas como problema $ 57. A separaçãofunesta entrejiloso©a transcenderltate psicologia 161
filosófico zl zíversaZ. . . . . . . . . . . . . . . 107
S 58. Geminação e distinção da psicologia e da .Rtoso$atranscendental. A psicologia como o
S 35. Analítica da "epoché" traltscettdental. Primeiro palito: a "Croché" da ciência objetivo 110 165
campodecisivo.

VI vtl
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental e Edmund Husserl Índice Geral

S 59. Arlálise da mudattça de atitude, da atitude psicológica para a atitude transceridenfal.A Anexo V aos $$ 16 e sega. 318
psicologia "antes" e "depois" da redução lfenomenológica.(O problema do "apupo".) 169 Anexo VI aos $S 16 e sega. 328
$ 6Q.A razão do lfracasso da psicologia: os pressupostos dualistas eJisicalistas 171 O PercursoOrigittat da I' Meditação 337
$ 61. A psicologia na tensão entre a ideia da ciência (objetivístico-$1osójica) e o proceder Anexo Vll ao S 18 337
:mpírico: a incompatibilidade das duas direçõesda pesquisapsicológica (a pesquisapsi- Anexo Vlll ao $ 18
339
colísica e a "psicologia a partir da experiência interior") . 173 AnexoIX ao S20 342
S 62. Discussãoprévia do contrassensoda equiparação principiam das mentes e dos corpos Anexo X ao $$ 21 e sega. 343
como realidades: referência à diferença de princípio da temporalidade, da causalidade e AnexoXI ao S23 355
da individuação nas coisasda natureza e na mente. 174 AnexoXll ao $ 23. 357
$ 63. Questionabilidadedos cottceitosde "experiência exterior" e "interior". Por que não AnexoXlll à Crise,111
A 358
pertence até aqui ao tema da psicologia a experiência da coisa corpóreo do mundo da Prefácio à Continuação da "Crise' 358
vida, como experiência de algo "meramente subjetivo"?. 177 Anexo XIV ao $ 28 .
369
$ 64. O dualismo cartesiano como .fundamettto do paralelismo - Do esquema:ciência descri- A Reação do Empirismo contra o Racionalismo 369
179 Anexo XV ao $ 28. 373
tiva e ciência explicativa,sóestájust$cado o aspectomaisjormal-geral.
$ 65. Exame da correçãode um dualismo empiricamentejundado pehjamiliarização com o AnexoXVI ao$ 29 378
procedimentofálico dos psicólogoseFsiólogos 181 Anexo XVll aos $$ 33 e segs. 380
$ 66. O mundo da experiência geral; a sua tipologia regional e as abstraçõesuniversais nela AnexoXVlll ao$ 34 384
possíveis:a "natureza" como corretato de uma abstração universal, o problema da "abs AnexoXIX ao $ 34e 387
tração complementar' 183 Anexo XX ao S39. . . 389
S 67. O dualismo das abstraçõesfutidadas na experiência. O contirLuadoefeito histórico da Atitude Natural e "Epoché".A "Efetuação"da Validadedo Mundo Qual a EfetuaçãoInibida
abordagem empírica(desde Hobbes até Wundt). Crítica do empirismo dos dados 186 na "Epoché' 389
$ 68. A tarefa de uma explicitação pura da cottsciênciacomo tal: a problemática universal da AnexoXXI aoS46 393
188 Attexo de Fina sobre o Problema do "Inconsciente' 393
interlcionalidade. (O ensaio de Bretttatio de r(;forma da psicologia.)
Anexo XXll ao $ 62 . . . 395
$ 69. O método psicológicofuridamentat da "reduçãojenomenológico-psicológica". (Primeira
característica: 1. 0 ser referido intencional e a "epoché"; 2. estádios da psicologia descri-
AnexoXXlll ao$ 65 400
l tiva; 3. estabelecimettto do "observador desinteressado".) 190 AnexoXXIV ao$ 73 403
Anexo XXV ao $ 73 . . . . 408
S 70. As d$culdades da abstraçãopsicológica. (Osparadoxos do "objeto intettciottal", ojenâ-
meno itttencional originário do "sentido'.) 195 AnexoXXVI ao S73 419
Estádios da Historicidade. Historicidade Primeira . 419
$ 7 1. O risco da compreensãoerrada da "universalidade" da 'epoché"jertomenológico psico
!ógica. A sigtiiBcação decisiva da compreensão carreta 197 Anexo XXVll ao $ 73 421
Anexo XXVlll ao $ 73 . 425
$ 72. A relação da psicologia transcertdentat com a jetlomenologia transcendental como o
AnexoXXIX 430
acessogettuíno ao puro autoconhecimerito. Abattdotto de$rlitivo do idem!objetivista nas
cíêlzcías da me?zfe . . . . . . . . . 208 Esboço de Fina para a Continuação da "Crise' 430
$ 73. Conclusão:A ftosa$a como automeditação humalla. Autoefetivação da razão 214
Glossário Alemão-Português 433
Textos Complementares

A.TRATADOS.. . 221
Ciência da Realidadee Idealização A Matelnatizaçãoda Natureza .. 221
Atitude Científico-Natural e Atitude Científico-Espiritual. Naturalismo, Dualismo e Psico
logra Psicofísica 232
A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia 249

B.ANEXOS..
Anexo l ao $ 9 . .
Anexoll ao $ 9a 284
Anexo111 ao S9a 292
Anexo IV ao $ 12 314

Vlll lx
APRESENTAÇÃO DA TRADUÇÃO PORTUGUESA

1.Acercado Zexfo

Proibido de qualquer atividade pública na Alemanha nazi, Husserl 6oi


convidado a proferir, em 7 de maio e em novembro de 1935,conferênciasem
Viena e em Pragasobre o tema da "Filosofa na Crise da Humanidade Euro-
peia':O texto da conferênciade Viena foi publicado pelaprimeira vez em 1954,
incluído no volume VI da Husser/{aníz. As conferênciasde Praga,por suavez,
serviram de base a Husserl para a redação de A Crise das Ciências FÍ/os(ocas e
a Fenómeno/agiaTranscendenfaZ: Uma Introdução à Filosofia Fenomenológica.
Esta foi a obra derradeira e o testamento filosófico de Husserl, que a fez publicar
em Belgrado, em 1936, na Revista P/zíZosop/zfa - testamentoque contém um
último esforço crítico contra os contrassensos filosóâcos que, no entender do
autor, impedem o acessoao verdadeiro sentido da filosofa.
Desta primeira edição constavam somente as partes l e 11,ou seja, até o
parágrafo 27. Husserl viria a adoecer e morrer em 1938, ainda antes da catástro-
fe maior da civilização europeia que se seguiria, sem poder publicar as partes lll
A e 111B, ou redigir outras partes que estariam projetadas. Na sua forma atual, a
Cf-ise das Ciências Europeias e a FenomenoZogía Transcendenfa/ foi trazida à es
tampa somente em 1954,editada por Walter Biemel, como o volume VI da IJus-
ser/iarza. As partes l e ll (parágrafos l a 27) correspondem ao texto publicado em
1936,em Belgrado, cujo manuscrito não foi encontrado pelo editor. Da parte lll
(parágrafos28 a 72), não foi encontrado o original redigido em estenograâapor
Husserl, mas somente a cópia passadaa limpo por Eugen Fink e anotada pelo
autor, cópia que serviu de base à edição de Walter Biemel. Essacópia chegou a
ser enviada por Husserl ao editor. Pretendendo fazer ainda alteraçõesde monta,
Husserl pediu, contudo, o manuscrito de volta, não tornando a envia-lo.
O volume da Husser/íarzaque ora apresentamos em tradução portuguesa
inclui(1) a totalidade do texto tal como publicado em 1936 (partes l e 11),(2) as
partes 111A e 111B conforme a cópia de Eugen Fink, com acréscimos de Husserl,
(3) o texto da conferênciade 1935,em Viena, sobre '%.Crise da Humanidade
Europeia" e (4) uma seleção, feita por Walter Biemel, de diversos outros manus
critos de investigação datados entre 1926 e 1938. Dois dessesmanuscritos, pela
sua extensão e completude, surgem agrupados com a conferência de Viena, e
classiâcadospelo editor como "Tratados Independentes'l Os restantessãoapre-
sentados como Anexos. O parágrafo numerado 73, que antecede imediatamente
os textos complementares e que seapresenta como conclusão da Crise das Cíên-
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental ' Edmund Husserl Apresentação da Tradução Portuguesa

elasFÍ/osó/ocas
é também um manuscrito independente que o editor considerou, repetidamente que a intenção da Fenomenologia transcendental é, pelo contrá-
por razõesde conteúdo, apropriado para funcionar como fecho da obra.
rio, a de fornecer os meios para uma reflexão e uma responsabilidade integrais
pelo significado da humanidade que domina e usa a técnica. Trata-se,aânal, de
2..4 Obra
ver para que serve a ciência, para onde nos conduz, quais as suaslimitações, de
onde provém, por que e como se transformou em técnica, com as suasvirtudes.
Husserl considera que a ciência íaz parte integrante da origem e do destino deâciências e consequentes riscos.
da humanidade europeia. Por esta razão, a crise das ciências europeias, muito
Mas trata-se também de saber,em segundo lugar, se a humanidade, po-
mais do que uma crise epistemológica, é uma crise espiritual e existencial da Eu dendo encontrar um solo comum onde se radicar, saberá conduzir-se "no es-
ropa. No entanto, dadas a crescente europeização das outras humanidades e a
forço infinito de autonormatização por meio desta verdade e genuinidade da
cientiíização e tendencial modernização de todas as outras culturas, a crise euro-
humanidade':: Husserl toma partido na decisão, muito atual, de saber se a razão
peia é, além disto, uma crise da humanidade como um todo. Na medida em que a
ou alguma forma do que se possa chamar razão - pode e deve reivindicar vali-
palavra "krÊls" significa originalmente escolha ou decisão,tratava-se, no momen-
dade como solo comum de toda a humanidade, ou se a razão âlosóâca, o princi-
to histórico que a Europa viveu naqueles anos, de decidir acerca do sentido da Eu- pal produto europeu, é somente um fenómeno histórico localizado, um aciden-
ropa e da humanidade. Tratava-se de saber se a humanidade europeia fracassada te cultural que em nada se distingue de todas as outras peculiaridades locais. Na
peranteo ideal da ciência, que é a suadefinição como humanidade de matriz gre- verdade, a questão é a de saber se o solo em que as humanidades estão radicadas
ga e que a distingue entre as outras culturas historicamente situadas.Ou se, pelo
é o da sua nação, da sua raça, da sua cultura, idioma ou religião específicos, ou
contrário, a humanidade encontraria os meios de levar à prática o ideal da ciência. quaisquer outras particularidades, segundo os acidentes históricos e potências
"SÓ assim se decide se o feios que, com o nascimento da fUosoâa grega, se tornou
fáticas, ou sehá um outro solo para a humanidade regular a suavida. Trata-se
inato à humanidade europeia, o feios de [. . . ] querer ser uma humanidade a partir de saber "se a humanidade europeia transporta em si uma ideia absoluta, não
de uma razão filosóâca, e de só poder ser como tal, é um mero delírio histórico sendo um tipo antropológico meramente empírico':' e, por conseguinte, se a
fático, uma aquisição acidenta] de uma humanidade acidenta] [. . .]:''
existência de um solo comum à humanidade, idealizado pela razão íilosóâca, é
Na "razão filosófica': conforme a entende Husserl, está implicado mui- mais do que um "delírio histórico-fático':
to da história humana. No impulso, originalmente Êlosófico, da ciência e da
Husserl pretende que o verdadeiro solo da humanidade estápresente no
autorreflexão do homem decidiram-se,e continuam a decidir-se, traços fun ideal filosóâco do entendimento na razão e pela razão. A crise das ciências eu-
damentais da história do Ocidente. Isto é assim em especial sob a forma da Mo-
ropeias e respectiva civilização, transformadas e submetidas a técnicas cegas,
dernidade e da Contemporaneidade, que partiram do impulso originariamente
deve-seà perda desse solo. A ciência tecnicizada funciona como uma máqui-
l grego, íilosóâco e europeu do saber científico embora saibamos hoje que esse
na' sem atenção a qualquer outra fonte de signiâcação vital. A perda do solo
impulso, no seu estadonascente,foi partilhado por algumasoutras culturas -, comum da sua genuína radicação é a ruína da humanidade e, por isso, "os ver-
que depois se torna matemático e técnico, e que incluiu também, a cada passo, dadeiros combates do nosso tempo, os únicos significativos, são os combates
o concurso do esclarecimento e da autorreflexão teorético-cognoscitivos. Uma
entre a humanidade já arruinada e a que ainda se mantém radicada, e que luta
parte da crise retratada na obra deriva justamente da inadequação desta última
por essaradicação, ou por uma Dova;'s Essanova radicação corresponde a uma
autorreflexão perante o êxito galopante das ciências positivas. Em virtude dessa
nova racionalidade âlosófica, esboçadapela Fenomenologia transcendental.
inadequação, as ciências perderam rapidamente o seu fundamento de sentido.
Dado este quadro da situação, a problemática da Crise das Cíêzzcfas Ezz-
A crise retratada por Husserl é, nestes termos, uma decisão acerca do sen-
ropeíase a FenomenologiaTrarzscerzdenfa/ pode ser exposta num esquemasim-
tido da história europeia e humana em dois níveis. Em primeiro lugar, trata-se
ples: (1) a apresentaçãodo diagnóstico da crise; (2) a busca da sua etiologia; e
de saber se é possível uma fundamentação última da razão e da ciência por ela
(3) as propostas da sua superação.
produzida. Em caso negativo, a ciência é uma mera simbologia e técnica cegas,
àsquais não subjaz nem deve subjazer nenhuma inteligência acerca da verdade,
2 Loc. cit.
do significado e da finalidade do seu uso. Ao longo da obra, Husserl acentua
3 P.14,/nora.
4 V.p.52,/nora
l P. 13,/n/}a 5 P. 13,/nora.

Xll Xlll
'\

A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental Edmund Husser Apresentação da Tradução Portuguesa

(1) O díaXrzósfíco.
A crise é uma crise dos fundamentos das ciências:falta o denominado psicologismo.' A Fenomenologia transcendental não pede, por
uma compreensão das suasbasese do seu significado. É uma crisúdã'filosofa, isso, deixar de começar justamente por uma crítica ao Psicologismo, conforme
desencaminhada, segundo Husserl, numa floresta de contrassensos, ceticismos elaborada nos Pro/egómenosà l,ógíca Pzzra,de 1900. Estas falsas interpretações,
e irracionalismos. É, também, uma crise existencial da civilização europeia, que objetivistas e dualistas, que confundiram a mente com uma substância objetiva
abandonou a sua matriz filosófica. É ainda, e finalmente, uma crise da subjetivi e culminaram no psicologismo, impediram uma efetiva autocompreensão da
dade, do ser sujeito em geral. Se ser sujeito envolve a capacidade de conhecer-se subjetividade humana, e não foi por isso possível compreender a fonte de senti-
do de todas as ciências.
e julgar-se reflexivamente na sua atitude perante o mundo e si mesmo, então
uma filosofa que nunca encontrou, por diversos acidenteshistóricos, os meios (3) Propostas feóricózsrefzovadas. Husserl apresenta a Fenomenologia
de uma compreensãoadequadado sujeito é o espelho de uma subjetividade transcendental numa perspectiva de unidade. As inovações que aparecem na
aporétiça e desencaminhada.O motivo de A Crise das CíêlzcíasEuropeias e a Crise das Ciências Europeiasdevem ser, segundo o autor, entendidas como ex:
renome?zoZogía Tralzscendenfa/é que a crise, que já vinha de trás, chegou, no tensões e aprofundamento da intenção originária da Fenomenologia. Assim,
presentede Husserl, a uma "escaladaviolenta': perante a qual a Fenomenologia sob a forma da referida "nova radicação" para as ciências e para a ideia da âloso-
se apresenta como restituição da fonte primeira de toda a significação.ó fia, é exposta uma racionalidade definida, na continuidade do seu trabalho an-
(2) A efíoZogía.A necessidadede buscar as causas da crise contemporâ terior, segundo uma redescoberta das próprias bases a priori da constituição da
nea conduz Husserl a um estudo (i.e., a uma questão retrospectiva e reflexiva intencionalidade. Paraalém do ego transcendental, como única fonte de sentido
pelo sentido, que Husserl designa"Besízznz4ng")histórico-sistemático acercadas para toda a íilosoâa e ciência e já largamente tematizado em outras obras, como
dificuldades e desenvolvimentos filosóficos que, no passado,conduziram ao re- IS Ideias para uma Fenomenologia Transcendental e Filosofa Fenomenológica,
ferido extravio da ideia da filosofia e da compreensãoda subjetividade. Esse de 1913, ou as À4edífações Cízrfesíalzas, de 1929, novos temas e conceitos são
estudo do sentido parte da deânição do ideal da ciência como íilosoíia. Husserl introduzidos. O mais conhecido dentre eles é o de mundo da t,ída, que parece
percorre o modo como a arte da agrimensura se transforma em técnica e ciência disputar agora com o ego transcendental o lugar de fonte originária de sentido.
geométrica por uma crescente idealização até à Modernidade, quando a reali- O mundo da vida é entendido como o horizonte pré-científico de sentido prévio
dade construída matemática e geometricamente substituiu, como um ser em si, a toda e qualquer idealização cientíâca. Trata-se do mundo da coxa, relativo
a realidade de onde partiu, numa figura de pensamento que Husserl denomina aospropósitos e fins humanos,da intuição sensívelnão "substruída" por cons-
"substrução': Aquilo que era somente um método, uma técnica de produção truções idealizadas. Compõe-se de teleologias, de corpos, e corpos somáticos,
l
teórica, transformou-se na realidade em si. O culminar deste processo coincidiu causalidades,signiâcaçõese indutividades próprias da praxis humana. Toda a
com a âlosofia de Descartes,que aparececomo figura bifronte, inaugural da Mo- ciência, pelo contrário, vive da suspensão,da epoc/zédeste mundo pré-científico.
dernidade. Se,por um lado, foi o genial iniciador do caminho para uma correta A condição da iluminação objetiva do mundo pela ciência é o obscurecimento
interpretação da subjetividade segundo as exigênciasda ideia mais autêntica da do seu signiâcado relativo ao sujeito. Mas esta relatividade é, pelo contrário,
11
filosofia, por outro lado deu também início a um dualismo funesto que, através constitutiva do mundo da vida. Ora, o mundo não é uma hipótese em nenhum
de várias modificações, desembocou no contrassensopsicologista. As duas pos sentido, mas estrutura transcendental a priori, o que quer dizer, inultrapassável.
sibilidadesessenciaisda Modernidade - o descobrimentorefletido do sentido A intencionalidade do ego transcendental manifesta-se, em última instância,
do ser e a tentação da substituição dessesentido pela tecnicização e objetivação como estrutura do mundo da vida. Deste mundo da vida fazem parte outras
de tudo - estavam desde logo reunidas no pensamento cartesiano. O dualismo estruturas fundamentais de sentido, como a do corpo somáfíco, a da ilzfersub-
mente-corpo cartesiano começou por isolar a objetividade científica de tudo jefivídade, a da Zíngz4agem ou a da comz4nídadede cíenfisfas como constitutivos
o que fosse relativo ao sujeito; essedualismo procurou em seguidaelaborar, de uma racionalidade não mais unilateralmente encurtada como objetivismo
com os empiristas britânicos, uma psicologia objetiva, como se a mente pudesse fisicalista ou substrução idealizada. Se a crise da ciência é "a perda da sua signi-
ser tratada com um estatuto análogo à ciência objetiva dos corpos físicos; para ficação para a vida': o restabelecerda sua signiâcação para a vida deve consistir
acabar por tentar atribuir funções teorético-cognoscitivas de fundação das ci- no reatar da ligação da ciência, pela filosofa, com as evidências originariamente
ências objetivas à ciência objetiva que trata da subjetividade, a psicologia, com signiâcativaspara a vida. E essasselocalizam no mundo da vida, da intersub-

6 P.14 e 15,/nora. 7 V.p.450,/n/ra

xtv xv
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendenta Edmund Husserl
Apresentação da Tradução Portuguesa

jetividade ou do corpo. O sentido transcendental a priori deste novo campo jetivas de construção de corpos físicos ou químicos e fazer previsõesde acordo
da racionalidade é, segundo Husserl, que "nenhum homem imaginável, e por com isso - nada disto explica coisa alguma, mas necessita de explicação. A única
mais transformado que o pensemos, poderia experienciar um mundo noutras explicação efetiva é tornar transcendentalmente compreensível:'io A "antologia
maneiras de doação, a não ser na relatividade incessantemente mutável, por nós do mundo da vida" assim esboçadaconsiste na descriçãoque permitirá tornar
em geral circunscrita, como um mundo previamente dado na vida da sua cons- compreensível, como estrutura transcendental, a partir da teleologia da razão
ciência e em comunidade com a sua co-humanidade;'8 que se torna explícita atravésda história, até o modo como se constitui necessá-
Mas, ao integrar o mundo da vida como elemento de sentido fundamental, ria e fundadamente o ego na sua concretude mundana.
Husserl acabou,então,por ficar preso à situaçãono mundo concreto como hori- A. Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental é um
zonte último, à relatividade situacional, antropológica ou outra, que sempre re- estudo transcendental-histórico que visa a tornar compreensível a crise, exis-
cusou? Ficou em causa o "privilégio absoluto da razão objetiva" que defendia em tencial e histórica, bem como os fundamentos necessariamentefilosóâcos das
1901, na sua I' Investigação Lógica, perante a necessáriarelatividade ao sujeito ciências europeias. A obra culmina os esforços fenomenológicos para definir
de todo o mundo da vida? É possívelfazer ainda um último esforçoreflexivo que a fonte da significaçãodos modos da intencionalidade do ego puro. Perantea
dê à Fenomenologia um acessonão meramente factual à relatividade inerente ao crise europeia, uma coisa é clara: "não podemos prosseguir seriamente com o
mundo da vida, ou seja,uma descrição universalmente válida para a relatividade nosso âlosoíar como até aqui't'' A resposta, para Husserl, não poderia estar
do mundo da vida?Como relativizar mais uma vez estehorizonte último e inul- em substituir o jugo da razão europeia que, apesar dos descaminhos, deve ser
trapassável de relatividade? Husserl projeta na Crise das Ciências Ez ropefas uma o jugo da responsabilidade perante a humanidade, por um outro, porventura
'ontologia do mundo da vida': uma ciência eidética deste objeto especíâco, que mais pesadoainda, mas em levar até o fim a responsabilidade inerente a essara-
atenda, na sua evidência própria, à sua relatividade ao sujeito do mundo como cionalidade. A tarefa era para Husserl, então, a de encontrar uma racionalidade
fenómeno. A nova questão da Fenomenologia será a racionalidade da história e, apropriada para tornar compreensíveisos fenómenos significativos da existên-
como se disse, a do corpo, da intersubjetividade ou da comunidade de investi- cia humana, sem abandonar a responsabilidade de uma filosofa preocupada
gação.A Fenomenologia busca agora uma racionalidade finalmente última, ou com a fundamentação última das suas teses. Este esforço anal de alargamento
seja, que não se abstraia do horizonte mais vasto de sentido, o mundo da vida. e aprofundamento da Fenomenologia em direção à história, ao problema do
Visado é então um conhecimento integral da intencionalidade mais vasta de to- eventualsentido universal da racionalidade europeia e a um questionamento
l das, a do homem concreto, histórico e social nas suas evidências específicas. sem restrições - em parte explícito, em parte implícito acercado valor das
l Como entende Husserl a integração desta relatividade mais radical no filosofias relativistas e irracionalistas, conduziu a temas e problemas que se tor-
prometooriginariamente eidético da Fenomenologia, projeto essedotado da sua naram centrais para o século XX, e continuam vivos ainda hoje.
evidência própria? Também esta relatividade deve ser eideticamente descrita A Crise das Ciências E ropeías persegue, à maneira fenomenológica, uma

11 e compreendida ao seu nível de evidência fenomenológica adequado. Para o


filósofo, "toda evidência é o nome de um problema, exceto a evidência fenome-
nológica, depois de se ter clarificado reflexivamente a si mesma e demonstrado
como evidência última;'9 Mas esta evidência última caracteriza a âlosoâa não
verdadeira diabética da Au!/klãrung. Trata-se de indagar se é assim e de iluminar
os motivos historicamente esquecidos pelos quais "sempre a razão terá de setor
nar o sem-sentido, a benfeitoria uma praga':': A resposta para esteenigma histó-
rico, que parece ser comum tanto à razão europeia quanto ao irracionalismo em
como esfera de certezas absolutas, mas como prometode compreerzsãodo sentido geral, não passa,segundo Husserl, pela renúncia foz4fcourt à ideia europeia da
num horizonte infinito. Assim, "é,naturalmente, um erro risível, embora infeliz- razão, mas pela aprendizagem, por ela, dos novos territórios próprios da relativi-
mente habitual, querer combater a fenomenologia transcendental consideran- dade, que são inerentes ao mundo da vida e aos temas a ele associados. Especial-
do-'a como um "cartesianismo': como se o seu "ego cogíro" fosse uma premissa mente no momento da crise da razão "é de qzzaZquerma?leira rzecessáríoo esfzzdo
ou esferade premissas,a partir da qual fossem,com absoluta"segurança':de- ja questão reflexiva ao sentido, "Besírzrzzzng"l
, para que nos encontremos:':'
duzidos os restantes conhecimentos [ . . . ] . Não importa assegurar a objetividade,
mas compreendê-la 1...1.Deduzir não é explicar. Prever, ou conhecer formas ob-
lO Ibidem.
11 P. 14,inÍra
8 P.168,/nora. 12 P.4,/nora.
9 P.192-193,fr7fra. 13 P.510,//lira

XVI XVll
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental Edmund Husser

3. Sobre a Tradução
(& <1> PRIMEIRA PARTE

A tradução para a língua portuguesa que trazemos agora a público segue


a edição da HusserZiana,volume Vl: Edmund Husserl, Díe Krisís der ezzropãís- A CRISEDAS CIÊNCIAS COMO EXPRESSÃODA CRISE
;hen Wissenscha$enund die transzendentalePhãnomenologie.Eine Einleitung RADICAL DA VIDA DA HUMANIDADE EUROPEIA
ín díep/zãnomeno/ogísc/ze Phí/osop/zie,org. por Walter Biemel, 2. Auflage, Haag.
Martinus Nijhoa, 1962. A tradução procura um compromisso entre a legibilida-
de e a literalidade. Julgamosque em quase todos os casosfoi possível encontrar S \ . Há efetivamente, em face de seus constantes êxitos, uma crise das ciências?
uma via sem sacrificar essencialmentenem a língua portuguesa, nem o pensa-
mento, a escrita e o estilo do autor. Em diversas passagensde maior dificuldade Tenho de estar preparado para que, neste local dedicado às ciências, já
socorremo-nos do auxílio das seguintes traduções: Edmund Husserl, Z,a Crise o título destas conferências A crise das ciências europeias e a Psicologiai sus-
des Scíences Ezzropéennes ef /a P/zénoméfzoZogíe ZranscendanfaZe. Traduzida do
cite objeções..Épossível falar seriamente de uma crise pura e simples das nos-
alemão por Gérard Granel. Paras:Gallimard, 1976; e Edmund Husserl, 77zeCrí-
sas ciências? Não será este discurso, muito ouvido hoje em dia, um exagero?
ds olfEuropea?z Scíencesand Transcendental P/zenomeno/OXy. An Introduction to A crise de uma ciência não diz nada menos que o seguinte: a sua cienti6cida-
Phenomenological Philosophy. Traduzida por David Carr. Evanston: Northwes- de genuína, todo o modo como ela deâniu a sua tarefa, e, para isso, formou a
tern Univesity Press,1970.
sua metodologia, se tornou questionável. Isto pode convir à filosofia, que se vê
A terminologia íoi bastante melhorada com o auxílio do Doutor Pedra ameaçada em nosso presente de sucumbir ao ceticismo, ao irracionalismo e ao
Alves, a quem dirijo o respectivo agradecimento. Ao Doutor Pedro Alves deve- sticismo. O mesmo pode ser válido para a psicologia, enquanto ainda tiver
se também a tradução incluída neste volume da conferência de Viena ':A Crise
aspiraçõesfilosóficas, e não quiser ser simplesmente uma das ciências positivas
da Humanidade Europeia e a Filosofia': entre outras.Mas como sepoderia íal'ar propriamente, e com toda a seriedade,
l As notas de rodapé acrescentadaspelo tradutor estão assinaladascom as de uma crise das ciências em geral, ou seja, também das ciências positivas' entre
l iniciais N.T. Sãoas notas com as consideraçõesestritamente indispensáveispara elas, de uma crise da matemática pura, ou das ciências exatas da natureza' que
a boa leitura da tradução
nunca podemos deixar de admirar como modelos de cientiâcidade rigorosa e
Completa a tradução um Glossário Alemão-Português, onde reunimos maximamente bem-sucedida? É certo que estas ciências se mostraram como
diversos termos técnicos, peculiaridades que se revelaram necessáriaspara a mutáveis quanto ao estilo geral do seu arcabouço teórico e de sua metodologia
tradução ou termos de tradução menos fácil ou menos óbvia.
sistemática. SÓrecentemente elas romperam uma paralisia que, neste aspecto,
as ameaçavasob o título de física clássica,como a suposta completude clássica
do seuestilo há séculosconservado.Mas signiÊca<2> então o combatevito-
rioso contra o ideal da física clássica e, do mesmo modo, a controvérsia ainda
a decorrer em torno de uma genuína forma de construção da matemática pura
conforme ao seu sentido, que a física e a matemática anteriores não eram ainda
científicas, ou que elas, embora acometidasde certa falta de clarezaou obs-
curidades, não adquiriram, no seu campo de trabalho, intelecções2evidentes?
Não serão estasintelecçõesobrigatórias também para nós, que' nos libertámos
dessesantolhos? E a partir daí, se nos colocarmos na posição dos clássicos,não
poderemos compreender totalmente como foi nela que surgiram todas asgran

l
Este era o título inicial do ciclo de conferências de Praga
2
N.T.:"E/ns/chten". Na falta de melhor opção portuguesa, traduzimos "E/nsfchr' por "inte-
lecção",não obstante perder-seem boa medida a ressonânciavisual ("9chr') que o termo
a emão possui. No que concerne aos termos derivados de "f/r7s/cht'l veja-se a nota da p.
<b>tntra. '

xv l l l
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental e Edmund Husserl
ise Radicalda Vida da Humanidade Europeia

des descobertas,definitivamente válidas, bem como a plenitude das invenções


técnicas que tão grande motivo deram para a admiração das geraçõespreceden-
tes?A física sempre fot e continua a ser uma ciência exata, sqa ela representada
por um Newton, um Planck, um Einstein ou por quem quer que seja no ftlturo.
Ela permanece ciência exata, ainda que tenham razão os que acham que nunca
se poderá esperar ou buscar uma âgura absolutamente última para o estilo de
construção detida ateorética
Algo de similar é manifestamenteválido também para um outro grande
grupo de ciências que costumamos incluir nas ciências positivas, a saber, as ciên'
das concretas do espírito, como quer que se considere a sua controversa remis-
são ao ideal de exatidão das ciências da natureza - uma questionabilidade que
também já aÉeta,aliás, a relação das disciplinas biofísicas (as ciências "concretas"
da natureza) com as disciplinas das ciências da natureza matematicamente exa-
tas. Não estáem questãoo rigor da cientiâcidade de todas estasdisciplinas, à
evidência das suasrealizações' teóricas e dos seusconcludentes resultados du-
radouros. SÓnão estaremostalvez tão certos em relaçãoà psicologia, na medida
em que pretende ser a ciência fundamental abstrata,explicativa em sentido últi-
mo para as ciências concretas do espírito. Mas, se se considerar o seu manifesto
atrasoquanto ao método e aos resultados,' como um desenvolvimento natural.
mente mais lento, também ela, de um modo muito geral, poderá ser admitida.
Em todo caso, não pode deixar de ser reconhecido o contraste da "cientificidade'
destesgrupos de ciências em relação à "não cientiâcidade" da âlosofia. Assim,
reconhecemos de antemão uma certa justiça ao protesto interior inicial <3> dos
cientistas, seguros do seu método, contra o título destas conferências.

2. A reduçãopositivista da ideia de ciência a uma mera ciência dejatos. A crise


:ía ciência como perda da sua sigtt$cância para a vida

Todavia, a partir de uma outra perspectiva, a partir, designadamente, dos


lamentos gerais sobre a crise da nossa cultura e do papel que nela é atribuído às
ciências, talvez surjam motivos para submeter a cienti6cidade de todas as ciências
a uma crítica séria e mzzffo necessária, sem por isso abandonar o seu sentido pri-
meiro de cientificidade, inatacável na correção das suas realizações metódicas.
Queremos, de fato, empreender a alteração indicada de toda a perspec-
tiva da observação. Ao leva-la a cabo, depressairemos perceber que a questio-
nabilídade de que a psicologia padece, não só nos nossos dias, mas há séculos
- a "crise" que Ihe é própria -, tem um signiâcado central para o aparecimento

3 5
N.T. Leistungen' V. nota à p. <26> i/tara. N:T3 "Bes/nnung". Em alguns contextos, mas não em todos, o termo "Bes/nnung" admitiria
4 N.t Leistungen' V. nota à p. <26> /rtfra.
tamos-sor "estudo" çao . A nm de manter a uniformidade da terminologia da obra, op-

2
3
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental Edmund Husserl Primeira Parte e A Crise das Ciências como Expressão da Crise Radical da Vida da Humanidade Europeia

mundo, e a existência humana nele, ter na verdade um sentido, se as ciências só Deus. A filosofia <6> como teoria não liberta somente o investigador, mas todo
admitirem como verdadeiro aquilo que é deste modo objetivamente verificável, aquele que seja formado âlosoíicamente. À autonomia teórica segue-sea prá-
se a história não tiver mais nada a ensinar senão que todas as âguras do mundo tica. No ideal que guia o Renascimento, o homem antigo é aquele que se forma
espiritual, todos os vínculos de vida que a cada passomantêm o homem, os intelectivamente' numa razão livre. Isto implica, para o "platonismo" renovado:
ideais, as normas, se formam e voltam a se dissolver como ondas fugazes,que importa não só conâgurar-se a si mesmo eticamente, mas conâgurar de novo
sempre assim foi e será, que a razão sempre terá de se tornar o sem-sentido, a todo o mundo humano circundante, a existência política e social da humanida-
benfeitoria, uma praga? Será que podemos nos satisfazer com isso, será que po- de, a partir da razão livre, a partir das intelecções de uma âlosoâa universal.
demos viver neste mundo, cujo acontecer histórico não é outra coisa senão um De acordo com estemodelo antigo, que se impõe de início aosindivíduos
encadeamento interminável <5> de ímpetos ilusórios e amargas decepções? e em círculos restritos, deve surgir novamente uma filosofa teórica, que não
deve ser recebida cegamente de um modo tradicional, mas como algo de novo a
partir de uma investigaçãoe de uma crítica próprias.
S 3. A futldametttação da autonomia da humanidade europeiapela nova concep- Deve-sesublinhar aqui que a ideia de âlosoâa transmitida pelos antigos
ção da ideia de .Êloso$ano Renascimento não é o conceito escolarque nos é habitual, o qual apenasengloba um gru-
po de disciplinas; estaideia altera-se substancialmente, é certo, logo após a sua
Nem sempre a ciência compreendeu a sua exigência de uma verdade rigo- recepção,mas formalmente mantém, nos primeiros séculos da Modernidade,
rosamente fundada no sentido daqzieZaobjetividade que domina metodologica- o sentido de uma ciência om?zí-e/zgZobanfe, a ciência da totalidade do ente. As
mente as nossasciências positivas e que, atuando muito para além delas,confere ciências no plural, todas as ciências que serão um dia fundadas e todas as que
a um positivismo filosófico marcado pela visão de mundo um suporte e uma já estão trabalhando, são apenas ramos não autónomos da filosofa una. Numa
divulgação universal. Nem sempre asquestões específicas da humanidade estive- ampliação ousada,e mesmo arrebatada, do sentido da universalidade, que já se
ram banidas do domínio da ciência, e nem sempre foi colocada fora de considera- inicia com Descartes,esta nova filosofia não aspira a nada menos que abraçar,
ção a sua referência interna a todas as ciências, mesmo àquelas em que o homem com rigor cientíâco,todas as questõesque têm em geral sentido na unidade de
não é o tema (como nas ciências da natureza). Enquanto as coisas se passaram um sísfemafeóríco, numa metodologia de intelecção apodítica e num progresso
de modo diferente, a ciência pede reivindicar um significado para a humanidade infinito, mas racionalmente ordenado, da pesquisa. Uma construção única de
europeia que se configura, desde o Renascimento, de um modo completamente verdades definitivas, ligadas teoricamente, que continua a crescerinânitamen-
novo, e mesmo, como sabemos,o signiâcado condutor desta nova configuração. te de geração em geração,devia assim responder a todos os problemas que se
Porque ela perdeu estacondução, porque se chegou a uma alteraçãoessencial,à pudessem pensar - problemas de fatos ou problemas da razão, problemas da
restrição positivista da ideia de ciência compreendê-lo, segundo os seus moti- temporalidade ou da eternidade.
vos mais pr(Z/findos, é de importância para a intenção destas conferências. O conceito positivista de ciência, no nosso tempo, é, então considerado
No Renascimento, como bem se sabe,a humanidade europeia leva a cabo historicamente -, um corzceítoresidzíaZ.Ele deixou cair todas as questões que
em si uma inversão revolucionária. Ela vira-se contra o seu modo de existir se tinham incluído nos conceitos, ora estritos, ora alargados, da metafísica, en-
até então, contra o modo de existir medieval, desvaloriza-o e passa a querer tre as quais todas as questõesque, de um modo pouco claro, são chamadasde
configurar-se livremente de um modo novo. A humanidade antiga é o modelo ' questões supremas e últimas': Vistas mais exatamente, estas, e todas aquelas que
admirado. No Renascimento, busca-sereproduzir em si estetipo de existência. foram em geral excluídas, <7> recebem a sua unidade indissolúvel ao conterem,
Que apreendea humanidade europeia, no homem antigo, como o essen- seja explicitamente, seja implicitamente no seu sentido, os problemas da razão
cial? Após alguma hesitação,o essencialnão é senão a forma de existir "filosófi - da razão em todas as suas âguras particulares. Ela é explicitamente o tema nas
cd': o dar-se livremente a si mesmo, a toda a suavida, as suasregras, a partir da
razão pura, a partir da âlosoâa. A filosofia teórica é a primeira coisa.Tem de se 6
N.T.: "E/ns/chtfg". Seria de considerar a opção "inteligivelmente". Optou-se, contudo, por
operar uma observaçãodo mundo que seja refletida, livre dos vínculos do mito verter "E/ns/chr'por "intelecção",e os seusderivadospor termos da mesmafamília em
e da tradição em geral, um conhecimento universal do mundo e do homem detrimento de "inteligível" ou "inteligibilidade". igualmente legítimos como pares de "in-
numa absolutaausênciade pressupostos reconhecendoânalmente, no pró- telecção". A opção por "intelectivo", "ínteleccionável" ou "intelecüvidade" faz ressaltar o
valor específico do termo "E/ns/chr' em Husserl.
prio mundo, a razão e teleologia que nele residem, e o seu princípio supremo:

4 5
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendenta EdmundHusser
Primeira Parte e A Crise das Ciências como Expressão da Crise Radical da Vida da Humanidade Europeia

disciplinas do conhecimento (a saber, do conhecimento verdadeiro e genuíno,


$ 4. O /racassoda nova ciência,de início bem-sucedida,e o seu motivo não
do conhecimento racional), do valor verdadeiro e genuíno (dos valores genuínos esclarecido
enquanto valores da razão), da ação ética (do agir verdadeiramente bom, o agir a
partir da razão prática); a razão é, assim, um título para ideias e ideais "absolutos';
'eternos'; "supratemporais': válidos "incondicionalmente': Se o homem se torna Ora, se a nova humanidade, animada e agraciada por essealto espírito,
um problema "metafísico'; um problema especiâcamente filosófico, ele está em não resistiu, isso só pede ter acontecido por ela ter perdido aquela crença entu .
siasmante no seu ideal de uma filosofia universal e no alcance do novo método.
questão como ser racional; e, se a sua história estáem questão,é porque se trata
do "sentido': da razão na história. O problema de Deus contém manifestamente E assim aconteceu efetivamente. Verificou-se que este método só podia atuar
com resultados indubitáveis nas ciências positivas. As coisas eram diferentes
o problema da razão "absoluta" enquanto fonte teleológica de toda a razão no
mundo, do "sentido" do mundo. Naturalmente,também a questãoda imortali- na metafísica,ou seja, nos problemasfilosóficos em sentido particular, apesar
dade é uma questão da razão, como não o é menos a questão da liberdade. Todas de também aqui não ter havido falta de inícios esperançosos,aparentemente
bem-sucedidos. A filosofia universal, na qual estes problemas - de modo muito
estas questões "metafísicas': tomadas de um modo alargado, as questões que no
pouco claro - estavam ligados às ciências de fatos, assumiu a forma de filosofias
discurso usual são as especiâcamente filosóâcas, ultrapassam o mundo enquanto
sistemáticas impressionantes que, infelizmente, não se reuniam, mas se desalo-
universo de meros fatos. Ultrapassam-no precisamente enquanto questõesque
javam entre si. Mesmo que ainda no século XVlll se pudesseestar convencido
têm o sentido da ideia de razão. E todas elas reivindicam uma maior dignidade
em face das questões acerca de fatos, as quais estão abaixo delas também na or- da possibilidade de chegar a uma unificação, a uma construção que se ampliasse
dem do questionamento. O positivismo, por assim dizer, decapitaa filosofia. Já teoreticamente de geração em geração e, com a admiração geral, permanecesse
inabalável perante qualquer crítica, tal como foi incontestavelmente o caso nas
na ideia antiga de âlosoíia, que encontra a sua unidade na unidade inseparável
de todo o ser,estavacovisadauma ordem do ser plena de sentido e, por isso, ciências positivas esta convicção era insustentável por muito tempo. A crença
no ideal da âlosofia e do método, que guiava os movimentos desde o início da
também dos problemas do ser. Deste modo, coube à metaHsica,à ciência das
questões supremase últimas, a dignidade de rainha das ciências, cujo espírito Modernidade, começaa oscilar; e isso não, por exemplo, pela simples razão
exterior de que cresceuenormemente o contraste entre os constantes insucessos
unicamente proporciona o sentido último a todos os conhecimentos, aosconhe-
da metafísica e o ininterrupto e cada vez mais impressionante avolumar <9> dos
cimentos de todas as outras ciências. Também isto foi assumido pela filosofia de
resultados teoréticos e práticos das ciências positivas. Tal contraste atuou tanto
maneira renovada, sendo que esta atéacreditou ter descoberto o verdadeiro mé-
todo universal pelo qual teria de ser possível construir uma âlosoíia sistemáticaa sobre os que estavam de fora do movimento como sobre aqueles cientistas que,
no empreendimento especializado das ciências positivas, se tornaram cada vez
culminar na metafísica, decididamente como p/ziZosop/zia
perennis.
Compreendemosa partir daí o impulso que animava todos os empre mais especialistasnão filosóâcos. Mas também nos investigadores completa-
endimentos científicos, mas também os empreendimentos das meras ciências mente imbuídos do espírito âlosófico, interessados,por isso,principalmente pe-
las questõesmetafísicas supremas, instalou-se um sentimento de fracassocada
de fatos de nível inferior, impulso que, no século XVl11, <8> que se chamava a
vez mais agudo, e, nestes,por moffvos mais profundos, embora completamente
si mesmo de século âlosófico, infundiu em círculos cada vez mais alargados o
obscz4ros,motivos que levantavam um protesto cada vez mais ruidoso contra
entusiasmo pela âlosoíia e por todas as ciências singulares como suas ramifica-
ções.Daí aquele ímpeto ardente para a ilustração,' aquele zelo por uma reforma as obviedades' profundamente enraizadas do ideal dominante. Chega, então, a
longa época de uma luta apaixonada, que se estende desde cume e Kant até os
âlosófica do ensino e das formas da existência social e política da humanidade
nossos dias, para aceder a uma autocompreensão das verdadeiras razões desse
inteira, que torna tão digna de louvor estaera do iluminismo, tantasvezesde-
preciada. Possuímos um testemunho imperecível deste espírito no magnífico fracasso de séculos; naturalmente, uma luta que se desenrolou numa pequena
minoria de vocacionados e eleitos, enquanto a massa dos restantes encontrou e
hino de Schiller e Beethoven 'Ã Alegria'l Hoje só podemos compreender este
continua a encontrar rapidamente a sua fórmula para se tranquilizar a si e aos
hino com sentimentos dolorosos. Não é pensável um maior contraste em rela- seus leitores.
ção à nossasituação atual.

8
N.T.:Não obstante alguma repulsa linguística, o uso do substantivo abstrato "obviedade
Bildung' para traduzir "Se/bstverstãnd//chke/r',revelou-se como a solução menos comprometedora
da simultânea lateralidadee legibilidade do texto.

6
7
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental ' Edmund Husser Primeira Parte e A Crise das Ciências como Expressão da Crise Radical da Vida da Humanidade Europeia

$ 5. O ideal da .Êtoso$auttiversal e o processoda sua dissoluçãoittterna então, a medieval e a antiga, se quer renovar radicalmente por meio de sua nova
filosofia, e unicamente por meio dela. Assim, a crise da filosofia significa a crise
Uma estranha mudança de todo o pensar foi a consequência necessária. de todas as ciências modernas enquanto elos da universalidade âlosóâca, uma
A âlosoíia tornou-se ela mesma um problema e, compreensivelmente,em pri- crise inicialmente latente, mas que emerge depois cada vez mais à luz do dia.
meiro lugar sob a forma da possibilidade de uma metafísica, o que aíetava,como crise da própria humanidade europeia em todo o sentido da sua vida cultural.
em toda a sua "existência':
se disse acima, o sentido e a possibilidade implícitos em toda a problemática da
razão. No que respeita às ciências positivas, elas estavam aí desde logo como O ceticismo em relaçãoà possibilidadede uma metafísica,o desmoro-
inatacáveis.Contudo, o problema de uma metafísicapossívelabrangiaeo 4'se namento da crençanuma filosofa universal como condutora do novo homem,
também o da possibilidade das ciências de fatos, as quais tinham na unidade significa precisamente o desmoronamento da crença na "razão': entendida tal
inseparável da Êlosofia o seu sentido referencial, o seu sentido como verdades como os antigos contrapunham à coxa a qlsfeme. É ela que <1 1> a tudo aquilo
para simples domínios do ente.9Se é a razão cognoscenfeque defermí/zaaqzz{/o que supostamente é, a todas as coisas, valores, fins, confere em última instância
que é o erzfe,serão separál,eisa razão e o erzfe?A pergunta basta para tornar de um sentido, a saber,a sua referência normativa àquilo que, desde os inícios da
antemãocompreensível a indicação de que o processohistórico tem, no seu âlosofia, era designado pela palavra verdade verdade em si - e, correlativa-
todo, uma figura muito estranha, que só é visível por meio de uma explicitação mente, pela palavra ente 6vzoç óv. Assim, cai também a crença numa razão
da mais íntima motivaçãooculta: não a âgura de um desenvolvimentounifor- aliso/ufa" a partir da qual o mundo tem o seu sentido, a crença no sentido da
me, de um crescimento contínuo de aquisições espirituais permanentes <10> história, no sentido da humanidade,na sua liberdade, nomeadamentecomo a
ou de uma transformação das âguras espirituais, dos conceitos, das teorias ou capacidadede o homem prover à sua existência humana individual e geral um
sentido racional.
dos sistemas,a explicar pelas situações históricas acidentais. O começo, como
í?zsfífuíçãoínaugz4raZda Àfodernfdade.pZosó/íca,por assim dizer, e de todas as Seo homem perder estacrença, então isto não significa outra coisa senão
suas linhas de desenvolvimento, é feito por um ideal defermínado de zzma./i/oso que: ele perde a crença "em si mesmo': no ser verdadeiro que Ihe é próprio, de
./ia anil,farsa/ e de um método que Ihe pertence. No entanto, em vez de poder de que ele não dispõe sempre já, com a evidência do "eu sou': mas apenastem e
fato produzir efeitos, esteideal experimenta uma dissolução interna. Esta disso- pode ter sob a forma da luta pela sua verdade, por se fazer a si mesmo verdadei-
lução motiva novas configurações revolucionárias mais ou menos radicais, em ro. ,Em foda a Barre o ser verdadeiro é uma meta ideal, uma tarefa da episfeme,
contraposição às tentativas da sua prossecução e da sua renovada consolidação. da "razão': contraposta ao ser meramente suposto que, na coxa, é inquestiona-
Assim, o problema do ídea/ genuí?zode uma filosofia universal e do seu método velmente "óbvio'l No fundo, qualquer um conhece esta diferença, que se refere
genuíno torna-se agora, autenticamente, a mais íntima força impulsionadora à sua verdadeira e genuína humanidade, assim como já na quotidianídade a
de todos os movimentos filosóficos históricos. Mas isso quer dizer que todas verdade tampouco Ihe é estranha como meta, como tarefa: apesar de, aqui, ape-
asciênciasmodernas entraram finalmente numa crise peculiar, sentidade um nas de modo singular e relativo. A filosofa ultrapassa, porém, estafigura prévia
modo cadavez mais enigmático, a propósito do sentido em que foram fundadas que foi a da filosofia antiga na sua primeira e originária fundação inaugural,
como ramos da âlosoíia e que continuaram depois a transportar em si. É uma porquanto apreende a ideia excessivade um conhecimento universal, referido
crise que não atinge as ciências especializadasnos seusresultados teoréticos e ao todo do ente, e a põe como a sua tarefa. Entretanto, é precisamente na ten
práticos, masque abala,contudo, de um lado ao outro, todo o seu sentido de tativa do seu cumprimento e isto se torna sensível já na contraposição entre
verdade.''Não se trata aqui dos assuntospertencentes a uma forma especial de os sistemas antigos - que a obviedade ingênua desta tarefa se transforma pro
cultura, a "ciência" ou a "âlosofia': enquanto uma entre outras formas de cultura gressivamente numa incompreensão. Cada vez mais a história da âlosoíia, vista
da humanidade europeia.Pois a instituição originária da nova âlosofia é, con- de dentro, assume o caráter de uma luta pela existência, a saber,como luta de
forme se adiantou, a instituição inaugural da humanidade europeiamoderna, uma filosofia que vive na sua tareia de uma âlosoõa que acredita ingenuamen-
enquanto humanidade que, em contraste com a humanidade que existira até te na razão contra o ceticismo que a nega ou empiricamente desvaloriza. O
ceticismo faz incessantementevaler o mundo de fato vivenciado, o mundo da
experiência eíetiva, como algo onde não se pode encontrar nada da razão e das
9 N.T.: "defende". A opção "existente", que pemíüría uma melhor leitura em português, foi
recusada por razões de lateralidade, e por se considerar o termo "ente" naturalizado na suasideias. A própria razão e o seu "ente" tornam-se cada vez mais enigmáticos,
linguagem filosófica. ou seja, a razão - enquanto razão que, a partir de si, dá sentido ao mundo que

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Primeira Parte A Crise das Ciências como Expressão da Crise Radical da Vida da Humanidade Europeia
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental e Edmund Husserl

é <12> e, visto do lado contrário, o mundo, como o que é a partir da razão; até céticas- ou melhor, entre asnão filosofias que apenasconservam a palavra, mas
que,por fim, o problemado mundo que vem à tona conscíenfemetzfe, e o proble- não a tarefa - e as íilosoíias efetivas ainda vivas. Contudo, a vitalidade destas
ma do mais profundo vínculo essencialda razão e do ente em geral, o enÜma de consiste em lutarem pelo seu genuíno e verdadeiro sentido e, assim,pelo senti-
fados os enigmas, precisou se tornar um tema genuíno. do de uma humanidade genuína. Trazer a razão latente à autocompreensãodas
O nosso interesse só incide aqui na Modernidade âlosófica. Mas esta não suaspossibilidades e tornar assim Compreensível:' a possibilidade de uma me-
tafísica enquanto verdadeira possibilidade tal é o único caminho para trazer
é um mero fragmento do fenómenohistórico acimaindicado, o maior fenóme-
no histórico de todos: a humanidade em luta pela suaautocompreensão(pois uma metafísica,ou uma âlosofia universal, ao curso trabalhoso da efetivação.
SÓassim se decide se o fe/os que, com o nascimento da filosofa grega, setornou
tudo estácontido nesta expressão).A Modernidade filosóâca - enquanto nova
instituição da filosofia com uma nova tarefa universal e, ao mesmo tempo, com inato àhumanidadeeuropeia,o feiosde - no movimento infinito da razãolaten-
o sentido de um renascimento da filosofia antiga é antes, simultaneamente, te até a manifesta, e no esforçoinfinito de autonormação por meio destaverda
uma repetição e uma transformação universal de sentido. Nisto, ela tem-se por de e genuinidade da humanidade - querer ser uma humanidade a partir de uma
razão filosóâca, e de só poder ser como tal, é um mero delírio histórico-fático,
vocacionada para iniciar um novo tempo, completamente segura da sua ideia
de âlosofia e do seu método verdadeiro; segura, também, de ter superado, pelo uma aquisição acidental de uma humanidade acidental, no meio de muitas ou
seu radicalismo de um novo começar, todas as ingenuidades anteriores e, assim, trás humanidades e historicidades; ou se antes não irrompeu na humanidade
todo o ceticismo. Contudo, inadvertidamente acometida das suas próprias in- grega, pela primeira vez, aquilo que, na humanidade enquanto tal, se definiu,
genuidades, o seu destino, no caminho de um paulatino autodesvelamento, mo- segundo a sua essência,como erzfe/équía.::A humanidade em geral é, segundo
a sua essência,ser homem em humanidades ligadas generativa e socialmente,
tivado por novos combates,é o de ter de procurar, antes de tudo o mais, a ideia
definitiva da âlosofia, o seu verdadeiro tema, o seu verdadeiro método, o de ter e, se o homem é ser racional (anima/ rafíonale), ele só o é na medida em que
de descobrir, antes de mais nada, os verdadeiros enigmas do mundo, pondo-os toda a sua humanidade é uma humanidade racional quer orientada de forma
no trilho da decisão. latente para a razão, quer abertamente orientada para a enteléquia que chegou
a si mesma, que se tornou manifesta para si mesma e que, doravante, corzduzírá
Nós, h.omens do presente, que surgimos neste desenvolvimento, encontra-
conscíenfemenfe,numa necessidadeessencial,o devir da humanidade. A flloso
mo-nos em meio ao grande perigo .denos afundarmos no dilúvio cético e, assim,
fia, a ciência, seria, então, o movimento hísfóríco da revê/anão da razão zzníversaZ,
de deixarmos escapara nossaverdade própria. Estudando-nos nesta urgência, o
<14> "í/lata" como faZ ã /lume?zídade.
nosso olhar -retorna até a história na nossa humanidade de hoje. SÓpoderemos
Seria efetivamente assim, se o movimento até hoje ainda não concluído
conquistar a autocompreensãoe, assim,uma solidez interior mediante o esclare-
cimento do seu sentido de unidade, o qual Ihe é inato desdea sua origem, com a se tivesse mostrado como a enteléquia cujos puros efeitos decorreram de modo
tarefa reinstituída que, como força propulsora, move as tentativas filosóficas. genuíno e certo, ou se a razão se tivesse,de fato, tornado manifesta para si mes-
ma, de um modo plenamente consciente, na forma que é própria da sua essên-
cia, isto é, na forma de uma filosofa universal, que continua a vir a ser numa
$ 6. A história da Jiloso$a moderna como combatepelo sentido do homem intelecção apodítica consequentee que, num método apodítico, atribui-se a si
mesma aspróprias normas. SÓassim estaria decidido se a humanidade europeia
Se considerarmos o efeito do desenvolvimento filosófico das ideias sobre transporta em si uma ideia absoluta,não sendo um tipo antropológico mera
mente empírico como a "China" ou a "Índia"; e, novamente, se o espetáculo da
a humanidade no seu conjunto (a que não faz pesquisa filosóÊca), teremos de
europeizaçãode todas as humanidades estrangeiras anuncia em si a vigência de
dizer o seguinte:
SÓa compreensãointerna da mobilidade da filosofia moderna, de Des- um sentido absoluto, pertencente ao sentido do mundo, e não um sem sentido
histórico dessemesmo mundo.
cartes <13> até ao presente, una em todas as suas contradições, possibilita uma
compreensão deste mesmo presente. Os verdadeiros combates do nosso tempo, Estamos agora certos de que o racionalismo do século XVlll, o seu modo
os únicos significativos, são os combates entre a humanidadejá arruinada e de querer adquirir a radicação requerida à humanidade europeia, foi uma ín-
a que ainda se mantém radicada, e que luta por esta radicação, ou por uma
nova. Os autênticos combates espirituais da humanidade europeia enquanto tal 10 N.T.: "E/ns/chtfg". V. nota à p. 31 supra
11 N.T.:"Ente/echfe'
decorrem como combatesentre as ./i/osoÚas,designadamente entre as filosofias

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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental + Edmund Husserl Primeira Parte A Crise das Ciências como Expressão da Crise Radical da Vida da Humanidade Europeia

gerzzzidade.
Mas será que com esteracionalismoingênuo,e, pensadode um nosso verdadeiro ser próprio, enquanto filósofos na nossa íntima vocação pes-
modo consequente, mesmo contraditório, está abandonado o sentido genuíno soal, traz em si, ao mesmo tempo, a responsabilidade pelo verdadeiro ser da
do racionalismo?E quanto ao esclarecimentosério dessaingenuidade,desse humanidade, o qual só é': na medida em que é ser dirigido a um feiose, se de
contrassenso,e quanto à racionalidadedo irracionalismo,tão louvado e que fado puder ser eíetivado, só o pode ser pela filosofia por rzós,seformos seria-
se esperade nós?SeIhe devemos dar ouvidos, não terá ele de nos persuadir, l mente âlósoíos. Há aqui - neste "se" existencial um recuo? Se não houver, que
como irracionalismoa considerare fundamentarracionalmente?Não seráa devemos fazer para <16> poder acreditar, nós, que acredífamos?Nós, que não
sua irracionalidade, afinal, uma racionalidade mesquinha e má, pior que a do podemos prosseguir seriamente com o nosso filosofar como até aqui, âlosofar
racionalismo antigo?Não será até uma "razão preguiçosa" a queloge da luta por esseque nos permite esperar filosoâas, mas não a filosofa?
uma clarificação dos dados últimos, e das metas e caminhos que a partir deles se O nosso estudohistórico inicial não só tornou clara para nós a situação
delineiam, de um modo em última instância e verdadeiramente racional? fática do presentee a sua indigência como um fato simples, mas também nos re-
Mas basta; apressei-merapidamente em tornar sensível o significado in- cordou que, segundo a meta que a palavra "filosofia" indica, segundo os concei-
comparável envolvido num esclarecimento dos mais profundos motivos da cri- tos, os problemas e os métodos, somos ;herdeiros do passado. É claro (e que mais
se em que a Êlosoâae a ciência modernas já desdemuito cedo entraram, e que, nos poderia aqui ajudar?) que é necessário um penetrante estudo retrospecfívo
numa escaladaviolenta, se estendeaté o nosso presente. histórico e crítico, para, antes de q aísquer decisões, cuidarmos de uma autocom-
preensão radical: e isto por meio de uma pergunta retrospectiva por aquilo que
originariamente e alguma vez se quis como âlosoâa, e que assim continuou a ser
<1.5> S 7. O propósito das investigaçõesdesteescrito atravésde todos os filósofos e âlosofias que historicamente estiveram em comu
nhão; mas isto sob a consideração crítica daquilo que, na fixação da meta e no
Mas nós mesmos,filósofos destetempo presente,o que podem, o que pre- método, exibe aquela getzuí?zídadeú/rima da ofegam que, uma vez contemplada,
cisam signiâcar para nós estudos do tipo dos que acabamosde levar a cabo? constrangeapodífícamerzfe a vontade.
Queríamos ouvir aqui somente um discurso acadêmico? Podemos regressar É de início pouco claro como isto deve ser efetivamente levado a cabo e
simplesmente ao trabalho interrompido, aos nossos "problemas âlosóficos : ou o que deve autenticamente querer dizer, em última instância, a apoditicidade
seja, à continuação da construção das nossas filosofias próprias? Podemos fazê- que decide sobre o nosso ser existencial como filósofos. No que se segue, quero
lo seriamente, perante a perspectiva segura de que a nossa filosofia, assim como tentar indicar os caminhos que eu próprio trilhei, cuja viabilidade e solidez ex-
a de todos os que no presente e no passadoconosco são filósofos, apenasterá perimentei ao longo de décadas.Caminharemos, então, doravante em conjunto,
a sua fugaz existência efémera, entre a flora das filosoÊas que sempre de novo armados com a atitude do espírito mais extremamente cética, mas que não sela
nascem e morrem? antecipadamentenegativista. Tentaremos perfurar a crosta dos "fatos históri-
Precisamenteaqui reside a miséria que nos é própria, a todos nós que não cos" superâciais da história da filosofia, questionando, mostrando, testando o
somos filósofos literatos, mas que, educados pelos genuínos filósofos do grande seu sentido interior, a sua teleologia oculta. Paulatinamente anunciar-se-ão nes-
passado,vivemos da verdade, e só vivendo assim estamose queremos estar na te caminho possibilidades,de partida quase despercebidas,mas que progres-
nossa verdade própria. Enquanto filósofos destetempo presente,caímos, no en- sivamente se impõem, possibilidades de orientações completamente novas do
tanto, numa lamentável corzfradíçãoexistencial. Não podemosdeixar perder-se a olhar, apontando para novas dimensões. Despontarão perguntas nunca antes
crença na possibilidade da íilosoâa como tarefa, ou seja, na possibilidade de um feitas, mostrar-se-ão campos de trabalho nunca pisados, correlações nunca ra-
conhecimento universal. Como Êlósofos seriamente, sabemo-rios vocacionados dicalmente compreendidas nem captadas. Estas obrigarão, por fim, a transfor-
para estatarefa. E, contudo, como manter a crença, que só tem sentido na refe- mar, no seu fundo essencial,o sentido completo da filosofia tal como ele,por
rência à única meta que nos é comum a todos, a âlosoíia? entre todas as figuras históricas, vigorava como "óbvio': Com a nova tarefa e o
Tambémjá percebemos,do modo mais geral, que o filosofar humano e seu solo apodítico universal, demonstra-se a possibilidade práfíca <17> de uma
os seusresultados para a existência humana no seu conjunto não têm de modo nova filosofia: por meio da ação. Mas também se mostra que toda a Êlosoâa do
nenhum o signiâcado de meros âns culturais privados ou, de qualquer outro
modo, limitados. Somos, então, no nossofilosofar como poderíamos ignorá- 12 A fim de preservaro usoautónomo dos verbos "ser" e "existir", optamos por manter o ter
mo "é" mesmo num uso intransitivo, onde em português seria mais natural empregar "existe
lo /ufzcionáríos da zunia cidade. A responsabilidade inteiramente pessoal pelo

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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental. Edmund Husserl

passado,embora de modo inconsciente, estavaintimamente orientada para este


(» <18> SEGUNDA PARTE
novo sentido de âlosoâa. Nesta perspectiva, torna-se compreensível e claro, em
particular, o trágico fracasso da psícoZogiamoderna; torna-se compreensível a
sua existência histórica na contradição de (no sentido que historicamente ad-
quiriu) ter tido de reivindicar ser a ciência filosófica fundamental, no mesmo
passo em que daí resultavam consequências manifestamente contraditórias, as
consequências do chamado "psicologismo':
rei guiar, não doutrinar, tão só mostrar, descrevero que vejo. Não
reivindico mais do que, em primeira linha perante mim mesmo e só então tam-
bém perante os outros, poder ídar segundo o meu melhor saber e consciência, mação da matemática derna da universalidade da ciência em meio à transfor-
como alguém que viveu até ao fim o destino de uma existênciafilosóâca em
toda asuaseriedade.

14
Segunda Parte ' A Elucidação da Origem da Oposição Moderna entre Objetivismo Fisicalista e Subjeüvismo
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental ' Edmund Husserl

motiva à realidade. Ora, na mafemczfização ga/ÍZaíca da natureza, é esta mesma


inanidade. é encerrada em si e sistematicamente uniâcada e que, partindo de
natureza que é idealizada sob a orientação da nova matemática; ela torna-se -
conceitos e proposições axiomáticos, permite construir com univocidade dedu- em termos modernos - também uma multiplicidade matemática.
tiva qualquer âgura imaginável que se possa inscrever no espaço'Está à partida Qzza/o sentido desta mafemafízação da naf reza, como reconstruímos o
decidido, de modo unívoco e em todas as suasdeterminações, o que idealmente curso do pensamento que a motivou?
'existe" no espaço geométrico. O nosso pensar apodítico, segundo conceitos, O mundo é pré-cientiâcamente dado, na experiência sensívelquotidiana,
proposições, raciocínios ou demonstrações que progridem por etapasaté o inâ- de modo subjetivo-relativo. Cada um de nós tem as suas aparições, e estas valem
nito, limita-se a "descobrir" aquilo que, à partida, já é, na verdade, em si. para cada um como aquilo que efetivamente é. Interiorizamos há muito, nas
A concepção desta ideia de tala totalidade ínÚnífa e racional de ser, com nossasrelações recíprocas, esta discrepância entre as nossas validades do ser.
alma ciência racional qz/ea domírzasistematicamente,é o que é novo e inaudito. Não julgamos por isso, todavia, que haja muitos mundos. Cremos necessaria-
E concebido um mundo infinito, aqui um mundo de ídea/idades,um mundo tal mente no mundo, com as mesmascoisas que, contudo, nos aparecem diversa-
cujos objetos não são acessíveisao nosso conhecimento como que por acaso, mente. <21> Não temos nada mais do que a necessária ideia vazia de coisas que
de modo isolado e incompleto, mas que um método racional, sistematicamente sãoobjetivamente em si?Não há, nas próprias aparições, um conteúdo que atri-
unificado alcança num progresso inânito até alcançar cada objeto finalmente buímos necessariamenteà verdadeira natureza? Aqui pertence, pois - descre-
segundo o seu ser-em-si integral. vo, sem tomar propriamente posição, a "obviedade" que motiva o pensamento
E assim é, não só no que concerne ao espaço ideal. Ainda muito mais longe
galilaico -, tudo o que, na evidência da absoluta validade universal, a geometria
dos antigos estavaa concepção de uma ideia similar, mas mais geral (posto que pura e, em geral, a matemática da forma espaço-temporal pura ensinam acerca
originada por abstraçãoformalizadora), isto é, a ideia de uma mafemátícalormaJ. das puras âguras nela idealmente construíveis.
SÓnos alvores da Modernidade começa a conquista e descobertapropriamente Merece uma cuidadosa interpretação aquilo que residia nesta "obviedade'
dita dos horizontes matemáticos infinitos. <20> Despertam os alvoresda álgebra, de Galileu, assimcomo nasposteriores obviedadesque seIhe acrescentarampara
da matemática dos contínuos, da geometria analítica. Com a audácia e originali- motivar a ideia de um conhecimento matemático da natureza no seu novo senti-
dade próprias da nova humanidade será a partir daí, em bem pouco tempo, ante- do. Observamos que Galileu, o filósofo natural e "pioneiro" da física, não foi ain-
c pado o grande ideal de uma ciência oniabrangente, racional neste novo sentido, da um físico no pleno sentido atual; que o seu pensar não se move ainda, como o
ou sqa, a ideia de que a totalidade infinita do ente em geral é, em si, uma unida- do nosso matemático e físico matemático, numa simbologia estranha à intuição,
de total racional, que precisaria ser regida correlativamente, e sem resíduo, por e que não Ihe podemos imputar aquilo que para nós, em resultado de Galileu e
uma ciência universal. Muito antes de estaideia estar madura, ainda só como um
do desenvolvimento histórico que se Ihe seguiu, se tornou "coisas óbvias'l
pressentimento obscuro ou semiobscuro, ela foi já determinante para o desenvol-
vimento subsequente.As coisasnão se foram satisfeitas,em todo caso,pela nova a) A "geometria pura'"
matemática. O seu racionalismo depressa se alastra para a ciência da natureza,
e cria para esta a ideia, inteiramente nova, da ciência matemáfíca da tzatureza: a Consideremos em primeiro lugar a "geometria pura': a matemática pura
ciência galilaica,conforme, com justiça, íoi há muito denominada. Tão logo esta das figuras espaço-temporais em geral, dada a Galileu como tradição antiga, e
enceta o passo de uma realização bem-sucedida, transforma-se também toda a compreendida num desenvolvimento progressivo vivo ou seja, tal como em
ideia da âlosofia (como ciência do universo,do ente como um todo). geral existe ainda para nós, como ciência de "idealidades puras': e, por outro
lado, em permanente aplicaçãoprática no mundo da experiênciasensível.O
intercâmbio entre teoria apriorística e empina nos é tão familiar que estamos
S 9. A matematização galilaica da natureza' habitualmente inclinados a não distinguir o espaçoe as figuras espaciais,de que
a geometria fala, do espaçoe das âguras do espaço na efetividade da experiên
Para o platonismo, o real possuía uma mefhexísmais ou menos perfeita cia, como se elas fossem o mesmo. Mas se a geometria deve ser entendida como
no ideal. Isto oferecia à geometria antiga possibilidades de uma aplicação pri-

2 Cf. Anexos ll e lll


1 Cf. Anexo l

17
16
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental ' Edmund Husserl Segunda Parte ' A Elucidação da Origem da Oposição Moderna entre Objetivismo Fisicalista e Subjetivismo

o fundamento do sentido da física exata, temos, aqui, e em geral, de ser muito partir da prática do aperfeiçoamento,ao avançar-selivremente no horizonte do
precisos. Para esclarecera formação do pensamento de Galileu teremos, por aperfeiçoamento "sempre novamente" ímagináve/, em toda a parte se delineiam
isso, de reconstruir não só o que conscientemente o motivou. Será igualmente ./igz4ras-limite em direção às quais, como polos invariantes jamais alcançáveis,
<22> instrutivo elucidar, além disso, aquilo que implicitamente estavacontido a série de aperfeiçoamento a cada momento converge. Interessados por estas
na imagem da matemáticaque o guiava, embora no direcionamento dos seus âguras ideais e, por conseguinte, ocupados em determina-las e em construir
interesses Ihe permanecesse vedado, como pressuposição de sentido encoberta novas a partir das já determinadas, somos "geâmetras'l E, no que respeita à es-

que não pede, naturalmente, deixar de se integrar na sua física. fera mais vasta, que abrange também a dimensão do tempo, somos, do mesmo
Ao dirigir um olhar abstrativo para as meras âguras espaço'temporais no modo, matemáticos das figuras "puras': cuja forma universal é a própria forma
mundo circundante intuível, experienciamos "corpos" ' não corpos geométri- espaço-temporal coidealizada. Em lugar da prática real - seja na ação ou na
co-ideais mas, precisamente,os corpos que eíetivamente experienciamos, com consideração de possibilidades empíricas relativas aos corpos efetivos e real-
o conteúdo que é efetivamente um conteúdo de experiência. Por mais arbitra- mente possíveis temos agora uma práfíca idem/de um "puro pensar" que se
riamente que os possamos transformar pelo pensamento no interior da fantasia, mantém exclusivamente no domírzío das pzzras.#guras-Zímífe.Estessão métodos
as possibilidades livres, num certo sentido "ideais': que assim alcançámos, não de idealização e construção, já há muito formados historicamente no exercício
são de todo as possibilidades geométrico-ideais, não são as "puras" figuras ge- da comunicaçãointersubjetiva,que se tornaram aquisiçõesusuais-disponíveis
ométricas que se podem inscrever no espaço ideal - os "puros" corpos, as retas com as quais sepode sempreelaborar algo de novo: um mundo inõnito e, no
"puras': os planos "puros': as restantes figuras "puras" e os movimentos e de- entanto, fechado em si, de objetualidades' ideais como campo de trabalho. As-
formações que ocorrem nas figuras "puras'l O espaçogeométrico não significa, sim como todas as aquisiçõesculturais resultantes do trabalho humano, estes
assim,um espaçoporventura fantasiado e, genericamente,não significa de todo métodos permanecem reconhecíveis e disponíveis mesmo sem que a formação
o espaçode um mundo, como quer que se possafantasia-lo (imagina-lo). .A do seu sentido tenha de ser sempre de novo tornada explícita; com basena
fantasia só pode transformar figuras sensíveis novamente em figuras sensíveis. incorporação sensível,por exemplo, pela linguagem e pela escrita, são simples-
E tais âguras, seja na realidade efetiva, seja na fantasia, só são pensáveisnuma mente apreendidos de modo aperceptivo e operativamente tratados. Funcio-
nam de maneira semelhante os "modelos" sensíveis, entre os quais se contam,
gradualidade:do mais ou menosreto, plano, circular etc.
As coisas do mundo circundante intuível estão,pois, em geral e segundo em particular, os sinais no papel constantemente empregados durante o tra-
todas as suaspropriedades, dentro da oscilaçãodo que é meramente típico; a sua balho e, quando se aprende a ler, os sinais impressos no manual de estudo e
identidade consigo mesmas,o seu ser-igual-a-si-mesmase perdurar temporaria- outros similares. Assim como outros objetos culturais (o alicate, a broca etc.),
mente na igualdade são uma mera aproximação,assimcomo o seuser igual a ou- <24> são compreendidos, "vistos" simplesmente nas suas propriedades cultu-
tras. Isto interfere em todas as alterações e nas szzasigualdades e alterações possíveis. rais especíâcas,sem que aquilo que conferiu a estaspropriedades o seu sentido
O mesmo é válido também para as figuras abstratamenteapreendidasdos corpos próprio se tenha de tornar novamente intuitivo. Sob esta figura de aquisições há
empiricamente intuíveis e das suas relações. Esta gradualidade caracteriza-se como muito compreendidas, os signiÊcados, por assim dizer sedimentados nas incor
uma gradualidadede maior ou menor perfeição.Na prática, também aqui, como porações, são usados na prática metódica dos matemáticos. E tornam, assim,
de resto, há um]grau] simplesmente perfeito, no sentido de que o interesse especi' possível um lidar espiritual, no mundo geométrico, com objetualidades ideais.
ricamente prático nele se satisfazplenamente. No entanto, com a mudança dos in- (A geometria representaaqui para nós, em qualquer caso,a matemática inteira
teresses,aquilo que para um interesse é plena e precisamente satisfatório não mais da espaço-temporalidade.)
o é para um outro, pelo que é estabelecido um limite à capacidade técnica normal Nesta prática matemática, contudo, alcançámos aquilo que nos é vedado
de aperfeiçoamento, à capacidade, por exemplo, de tornar o reto ainda mais reto na prática empírica: "exafídão"; porque, para as âguras ideais, se abre a possibi-
lidade de defermírzá-Zasem identidade absoluta, de conhecê-las, de modo abso-
ou o plano ainda mais plano. <23> Com a humanidade, porém, progride também
b técnica, bem como o interessepelo que é tecnicamente mais refinado; e o ideal da lutamente idêntico e metodicamente unívoco, como substrato de características
determináveisde modo absolutamenteidêntico e metodicamenteunívoco. E
perfeição desliza, assim, sempre mais além. Por isso temos também sempre já um
horizonte aberto de melhoramento ímagítzável,a conduzir sempre mais além.
Semaprofundar aqui mais as conexõesessenciais(o que nunca foi feito
3 N.T.: Gegenstdnd//chkeíten. Reservamos "objeüvidade" para trad uzir Obyeküv/tât
sistematicamente, e de modo nenhum é fácil), compreenderemos desdejá que a

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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental + Edmund Husser
' l Segunda Parte + A Elucidação da Origem da Oposição Moderna entre Objetivismo Fisicalista e Subjetivisma

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cadascomo universalme só disponíveis, e segundosoperaçoeseoemiarlnnver" <26> b) O pensamento fundamental da física galilaica: a natureza como
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relações existentes (ou a descobrir) entre eles e outras âguras corpóreas, deter-

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início em esferas limitadas (por exemplo, na agf'imensura), :então, para
depois, ;:1: 1
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Ihor leitura,:.:,l=1=,1'C;,!=:lp'l=='=='':;:':='s:::.ii::,,'::::!.:;=.T::
optar-sepor "operação"como nestecaso ou "resultado«po"nta- parame-
novas esferas de figuras. Assim se compreende que, após ter despertado a busca l tarte.querc açãor';m'nte aoooortuguês
"realização",o originalalemãoLefstungnãotem
EdmundHusser Segunda Parte ' A Elucidação da Origem da Oposição Moderna entre Objetivismo Fisicalista e Subjetivismo
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental

Na sequência das observações históricas a partir de Galileu, <27> assumirá um Faz também parte da concreção dos corpos sensivelmente intuíveis, do
interesse para nós essencial saber por que era inevitável a urgência de uma inver- seu ser na experiência efetiva e possível, que eles, na mutabilidade própria da sua
são do olhar, e a "origem" do conhecimento tornar-se o problema capital. essência, estejam ligados. As suas alterações quanto à posição espaço-temporal,
à constituição da sua forma e do seu pZenum,não são contingentes-arbitrárias,
Vemos aqui como a geometria, tomada na ingenuidade da evidência a
priori que mantém em movimento todo o trabalho geométrico normal, deter- mas empiricamente dependentesentre si de maneiras sensivelmentef@ícas.
Tais referências dos acontecimentos corpóreos uns aos outros são momentos
mina o pensamento de Galileu e o conduz até a ideia de uma física que aparece,
então, pela primeira vez, no trabalho da suavida. Assim, a partir do modo como próprios da í/zfuição empírica quofídíana; são experienciadas como aqui/o que
confere coperfezzçaaos corpos qzzesão em conyulzro, simultânea e sucessivamen
a geometria, num entendimento prático, proporciona desde há muito tempo
uma determinação unívoca dentro de uma esferado mundo circundante sensí- te, ou como o qz4e/@a entre si o seu ser e ser-assim. Com frequência, mas não
vel, tradicionalmente recebida, Galileu disse para si mesmo: onde uma tal me- sempre, estas ligações real-causais, com as suas articulações, vêm-nos ao encon
tro de modo determinado na experiência. Onde este não é o caso, e algo de novo
todologia se desenvolveu,ultrapassamos também a relatividade das concepções
e surpreendente acontece,perguntamos de imediato pelo porquê, e buscamo-lo
subjetivas,essencialao mundo empírico-intuível. Pois desta maneira adquiri-
mos uma verdade idêntica não reiafiva, da qual qualquer um que seja capaz de em redor, nas circunstânciasespaço-temporais.As coisasdo mundo intuível
(tomadas sempre tais como existem aí intuitivamente para nós, na quotidianei-
compreender e empregar essemétodo pode se convencer.Recolz/tecemos aqui,
dade da vida, e para nós valem como efetividades) têm, por assim dizer, os seus
então, tlm enteproprfamenfe verdadeiro - embora somente sob a forma de uma
'hábífos': comportam-se de modo semelhante sob circunstâncias tipicamente
aproximação sempre crescentedesde o dado empírico em direção à figura geo-
semelhantes.Se tomarmos o mundo intuível no seu todo, na particularidade
métrica ideal que funciona como polo orientador.
Entretanto, toda esta matemática pz/ra tem que ver com os corpos e o fluente em que ele para nós simplesmente existe, então o mundo intuível tem
para nós também, como um todo, o seu "hábito': a saber,o de continuar como
mundo corpóreo numa mera absfração,a saber,somente com as./igz4ras absfra-
foi usual até aqui. Assim, o nosso mundo circundante empiricamente {nfuh'e/
fas na espaço-temporalidade e, além disso, com estasapenasenquanto figuras-
limite puramente "ideais't Contudo, as figuras empíricas, efetivase possíveis, tem fado um esfíZoempírico. Como quer que pensemos este mundo transforma
nos são dadas em concreto, em primeiro lugar na intuição empírica sensível,
do pela fantasia,ou nos representemoso curso futuro do mundo naquilo que
tem de desconhecido, "como ele poderia ser': nas suas possibilidades: represen-
meramentecomo 'formas" de uma "matéria': de um p/enumssensível;ou seja,
tamos tal curso necessariamenteno estilo em que até aqui temos e tivemos o
com aquilo que seapresenta nas chamadas qzía/idades "espec@cas"dos sentidos,'
mundo. <29> Disto podemos tomar consciência explícita na reflexão e ?zzlma
cor, som, odor e similares, em gradaçõespróprias. <28>
livre vaz'caçãodessaspossíbí/andes.Podemos, então, fematízar o estilo gera/ í?z
variarzfe em que este mundo intuível persiste no fluxo da experiência total. E
5 N.T.: FEI//e.Propomos o termo latino p/enfim para traduzir o termo alemão Fii//e,cujo sig vemos precisamente assim que, em geral, as coisas e os seus acontecimentos
nificado Husserl define logo em seguida. O termo português "preenchimento" estará, com não surgem nem decorrem arbitrariamente, mas estão ligados a priori por esse
algumas exceções,reservado para traduzir E/:ft}//ur7g,enquanto plural de "plenitude", "as estilo, pela forma invariante do mundo intuível; vemos, em outras palavras,que,
plenitudes", pareceu-nosestilisticamente pouco feliz.
6 É uma má herança da tradição psicológica desde os tempos de Locke que às qua//dados por meio de uma regz4/anão universal causal, todo o ente, serzdoem conyurzfo?zo
sensíve/sdos corpos efeüvamenteexpor/enc/idos no mundo circundante quotidianamente mz4ndo,tem uma coperte?zça geral, imediata ou mediata, na qual o mundo não
intuível -- as cores, as qualidades táteis, os odores, as temperaturas, os pesos etc., que são é uma mera totalidade, mas uma unicidade, um lodo (embora inânito). Isto é
perceb/dos nos próprios corpos, precisamente como as suas propr/idades -- sejam invaria- evidente a priori, por menos que se experienciem efetivamente as ligações cau-
velmente substituídos os "dados dos sentidos". Os "dados das sensações", a que indiferen-
ciadamente se chama também do mesmo modo qualidades sensíveise que, pelo menos
em geral, delas não são de todo diferenciadas. Quando se percebe aqui uma diferença(em
vez de se descrever em profundidade essa diferença, o que seria assaznecessário), <28n>
propriedades são efetivamente percebidos. E, quando os designamoscomo p/ena fFi}//enj
é chamadaentão a desempenhar o seu papel a opinião fundamentalmente errada de que
de figuras, então tomamos também estas figuras como "qualidades" dos próprios corpos,
os "dados das sensações" são os dados imediatos. E usa-se, então, substituir de imediato,
e também como "qualidades" sensíveis, só que, como CEiaOTjçà Katvâ, não têm a refe-
ao que a e]es corresponde nos próprios corpos, o [elemento] ü'fico-matemático, cujas fon-
rência aos órgãos dos sentidos que unicamente lhes pertencem, como acontece com os
tes de sentido ora cuidamosde investigar.Trazendofielmente à expressãoa experiência
CEiaOTjzàIÕta.
efetiva, falamos aqui, e sempre, de qua/idades, de propriedades dos corpos que nestas

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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendenta EdmundHusserl
Segunda Parte ' A Elucidação da Origem da Oposição Moderna entre Objeüvismo Fisicalista e Subjetivismo

saisparticulares, por pouco que delasse conheça pela experiência anterior e por precisamente por ser construível ex datas no seu ser-em-si objetivamente verda-
pouco que elas esbocem da experiência futura. deiro, pelo seu método que não é somente postulado, mas efetivamente criado
Este estilo causaluniversal do mundo circundante intuível faz com que e apoditicamente produtivo.
nele sejam possíveis h@ófeses,induções, previsões com respeito ao que no pre Em segzzndolugar: ocorrendo em conexão com a arte da medição e, do-
sente, no passadoe no futuro é desconhecido. Na vida cognoscitiva pré-cientí- ravante a conduzi-la, a matemática descendo agora do mundo das idealidades
fica, porém, estamos, apesarde tudo, no aproximativo e fPíco. Como seria pos- novamente para o mundo empiricamente intuível mostrou que se pode alcan-
sível uma '.pZosoÚa': um conhecimento cíenfz@codo mz4ndo, se as coisas ficassem çar universalmente, rias coisas do mundo ílzfzííl,eZ-({áefívoe, com efeito, segundo
imersas na vaga consciência da totalidade em que o mundo nos é coconsciente, o aspectoque unicamentea interessacomo matemáticadasfiguras (em que
como horizonte de toda a mudança de interesses e temas de conhecimento mo todas as coisas tomam necessariamente parte), um conhecímelzfoo@eflvamenfe
mentâneos?Podemostambém, é certo, como se mostrou acima, refletir tema- real de uma espécieinteiramente rzova,a saber,referido aproxfmafívamerzfe às
ticamente sobre esta totalidade do mundo e apreender o seu estilo causal. Mas suas próprias idealidades. Todas as coisas do mundo empiricamente intuível
com isso ganhamos somente a evidência da generalidade vazia de que todo o têm, no estilo do mundo, corporeidade, são resexfensae,experienciadas em co-
acontecer experienciável, em toda a parte e em todos os tempos, é causalmente locações' alteráveis que, consideradas a cada vez como um todo, <31> têm a sua
determinado. E quanto à causalidade defermínada em cada caso, no mundo, colocação completa e, nestas, os corpos singulares os seus lugares relativos etc.
como o feixe em cada caso determinado de ligações causais que torna concretas Em virtude da matemática pura e da arte prática da medição, pode-se criar, para
todas as ocorrências reais em todos os tempos? Conhecer o mundo "íilosofica tudo o que é assim extensional no mundo dos corpos, uma previsão indutiva de
mente': de modo seriamente científico, só pode ter sentido, e só é possível, se se um f@o fnfeíramenfe }zovo, pode-se, a saber, "ca/chiar" com necessidade conclu-
puder descobrir um método de consfr ir sistematicamente,de certo modo por dente, a partir de ocorrências de figuras a cada vez dadas e medidas, a ocorrên-
antecipação, o mundo e a infinidade das suas causalidades, a partir do exíguo cia de âguras desconhecidase inacessíveisà medição direta. .Ageomefría ídea/,
material que, de cada vez, é só relativamente registrado na experiência direta, e, estranha ao mundo, torna-se, assim, "aplicada" e, então, num certo aspecto, um
<30> não obstantea infinidade, conÚrmarde modo concludente estaconstru- método universal de conhecimento de realidades.
ção. Como isto seria pensável? Mas não sugerejá estaespéciede objetivação,exercitada sobre um as
Aqui, porém, oferece-se-nos a mafemáfíca como mestra. Com respeito às pecto do mundo abstratamente limitado, o pensamento, a questão e a suspeita
figuras espaço-temporais, ela já tinha aberto o caminho, e, na verdade, de duas seguinte?
maneiras. Em primeiro /usar: pela sua idealização do mundo dos corpos, a mate- Não terá algo de semelhante de ser possível para o mundo concreto? Não se
mática criou, quanto ao seu âgurativo espaço-temporal, objetividades ideais. A tinha já - como Galileu -, em virtude do retorno do Renascimentoà âlosofia
partir da forma geral indeterminada jprópria do] mundo circundante,a forma antiga, a convicção firme da possibilidade de uma íilosoâa, de uma episteme
espaço e tempo com a multiplicidade das âguras empírico-intuíveis que neles se produtora de uma ciência objetiva do mundo, e não se mostrou já acima que a
podem inventar, ela construiu pela primeira vez um mundo ob/Crivoem sentido matemática pura, aplicada à natureza, preenche completamente o postulado da
próprio; a saber,uma totalidade infinita de oQefuaZídadesideaismetodicamente episteme na esfera das suas figuras: não tinha de estar já delineada para Galileu
determináveis,para toda a gente,de modo inteiramentegeral e unívoco. Ela a ideia de uma nafz4reza corzsfrzzfivamenfe defermífzáveZ, da mesma maneira, em
mostrou, assim, pela primeira vez, que uma infinidade de objetos,' pensados todos os outros aspectos?
de modo subjetivo-relativo e só numa vaga representação geral, é (:abril,amenfe Mas há um outro modo de isto ser possível que não seja pela extensão
l pensáveZ,por um método a priori oniabrangente, de modo oqerívamente defer-
mi lavei e como em sí defermí fada; mais precisamente: como uma infinidade de
do método da medição, em aproximações e determinações construtivas, a todas
as propriedades reais e relaçõesreal-causais do mundo intuível, a tudo o que é
objetos decfdfda de início como em si determinada em todos os seus objetos e experienciável em experiências particulares? Mas como se pode satisfazeresta
em todas as propriedades e relações dos mesmos. É pensável disse eu; a saber, antecipaçãogeral, e como se poderia transforma-la no método praticável de um
conhecimento concreto da natureza?
7 N.T.: Geger7stãnden.Não se encontrou infelizmente em português equivalentes para a dis-
Hnção entre Gegensfand e Obyekt, sendo ambos traduzidos por "objeto". Somente nos ter-
mos derivados foi possível manter a distinção (v. nota à p. <23> supra). 8 NI.: Koilokaüonen

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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendenta EdmundHusserl Segunda Parte ' A Elucidação da Origem da Oposição Moderna entre Objetivismo Fisicalista e Subjetivismo

A dÚcu/ande reside aqui em que precisamente os plena materiais, nas dos plena. Os corpos do mundo empírico-intuível são, segundo a estrutura do
suas gradações próprias as qualidades "especíâcas"dos sentidos - que com- mundo que a priori lhes pertence, de tal espécieque cada corpo tem a suaexten-
pletam concretamente os momentos espaço-temporais das figuras do mundo são - em termos abstratos - própria, mas que todas estas extensões são âguras
corpóreo, tzãopodem ser tratadas dírefamentecomo as próprias figuras. Do na extensão infinita, única e total do mundo. Como mundo, como configuração
mesmo modo, também estas qualidades, tudo o que constitui a concreção do total de todos os corpos, ele tem, então, malorma fofas abrangendo rodas aslor-
mundo sensivelmenteintuível, têm de valer como manifestaçãode um mundo mas, e esta é ídealizáveZ e domírzáveZpor construção da maneira acima analisada.
objetivo': <32> Ou, antes, tem de permanecer válido; porque (tal é a maneira Ora, pertence também à estrutura do mundo que todos os corpos têm
de pensar que motiva a ideia da nova física), atravésde todas as transforma- cada um as suas qualidades específicas. Contudo, as conâgurações qualitativas
ções das apreensões subjetivas, se estende sem cessar a certeza, que a todos nós meiaspuramente fundadas não são análogas das./iguras espaço'temporais,rzão
vincula, de um mesmo mundo único, da efetividade em si; todos os momentos estão ordenadas a umalorma do mundo própria delas. As figuras-limite destas
das intuições experienciais manifestam algo dessemundo. Ele é alcançável para qualidades não são idealizáveis em sentido análogo às figuras espaço'temporais,
o nosso conhecimento objetivo, se se tornam precisamente matematizáveis de as suasmedições("avaliações")não se deixam referir a idealidadescorrespon'
modo índírefo aqueles momentos que, como as qualidades sensíveis, são abstra- dentesde um mundo construível,objetivado já numa idealidade.Assim, tam-
ídos e não são eles mesmos diretamente matematizáveis pela matemática pura pouco tem o conceito de "aproximação" um sentido análogo ao da esfera mate-
da forma espaço-temporal e das suas figuras particulares possíveis. matizável de figuras: o de uma realização objetivadora.
No que concerne à mafemafízação "índírefa" desse aspecto do mundo
c) O problema da matematizabilidade dos "plena" que não tem em si nenhuma forma do mundo em si mesmamatematizável,tal
matematização só é pensávelno sentido em que as qualidades especificamente
A questão é agora sobre o que possa signiâcar uma mafemafízação ítzdirefa. sensíveis("plena") experienciáveis nos corpos intuíveis, juntamente com as./i-
Consideremos em primeiro lugar a razão pz'(:fundaque torna princ4'ía/- guras que essencialmente lhes pertencem, estão reXz4Zarmenfe
irmanadas de uma
menteímpossíve/uma mafemafízaçãodírefa (ou um análogo de uma construção maneira muito particular. Seperguntarmos o que está a priori predeterminado
aproximativa) das qualidades especificamente sensíveis dos corpos pela forma do mundo universal, na sua causalidade universal, e perguntarmos,
Também estas qualidades se apresentam em gradações e, de certo modo, então, pelo estilo geral invariante do ser, a que obedece o mundo intuível na sua
assim como a todas as gradações, pertence-lhes igualmente a medição a "ava- incessante mudança, então está, por um lado, predeterminada <34> a Jorna
liação" da "grandeza" do calor e do frio, da aspereza e da lisura, da clareza e obs- espaço-femporaZ,
como abrangendo todos os corpos em relação à figura, e aquilo
curidade etc. Mas aqui não há uma medição exata, um incremento da exatidão e que a ela pertence a priori (antes da idealização); e, também, que./igzíraslãfícas
dos métodos de medida. Quando nós, homens de hoje, falamos de medição, de exigem a cada vez pZenalãfícos em corpos reais, e vice-versa; e, assim, que vigora
grandezas de medida, de métodos de medida ou simplesmente de grandezas, já esta espéciede causalidade geral que vincula momentos de um concreto, que só
sempre queremos normalmente dizer medidas "exatas': referidas já a idealida- de modo abstrato são separáveis, mas não na realidade. Além disso, como um
des;assim como se nos torna difícil levar a cabo o necessárioisolamento abstra- todo: vigora uma causalidade concreta u?zíversaZ.Nela é necessariamente anfe-
tivo dos plena: ou seja,considerar a título de ensaio, por assim dizer, o mundo c@adoo fato de que o mundo intuível só pode ser intuído como mundo nzzm
corpóreo exclusivamente segundo o "lado" das propriedades que cabem sob o horizorzfe ínÚrzífame zfe aberto e, por isso, também a multiplicidade infinita das
título de "qualidades específicas dos sentidos': em contra-abstração universal causalidades particulares não pode ser ela própria dada, mas somente horizon-
perante aquelaspropriedades apresentadaspelo mundo universal das figuras. talmente antecipada. Estamos assim, de qualquer modo e a priori, certos não só
O que consfifzíi a 'kxafídão"? Manifestamente nada mais do que o que de que a totalidade do mundo corpóreo, no aspecto em que é compostos pelas fi-
acima expusemos: medição empírica num incremento de precisão, mas sob a guras, exige, em geral, um aspecto depZena que atravessa todas as õguras, como
orientação de um mundo de idealidades <33> já de início objetivado por idea- também de que qz4aZqzzer
aZferação,diga ela respeito ao momento da.#gura ou
lização e construção, e de certas conâgurações ideais particulares, ordenáveis às do pZenum, decorre segundo alguma causalidade - imediata ou mediatamente
escalasde medida respectivas.E podemos agora elucidar o contraste numa pala-
vra. Temos uma sólorma ulziversaZdo mundo, não dzzas,uma só geomefría,não
9 N.T.:Adenda do tradutor.
uma geometria dupla, a saber,uma geometria das formas e também uma outra

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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendenta EdmundHusser Segunda Parte ' A Elucidação da Origem da Oposição Moderna entre Objetfvismo Fisicalista e Subjetivismo.

mas, precisamente,exigindo-a. Até aí chega,conforme se disse, a antecipação a guntar como pôde ele chegar ao pensamento de que tudo o que nas qualidades es-
priori indeterminadamente geral. pecíâcas dos sentidos seanuncia como real tem de ter o seu índice mafemáfico em
Com isto não se diz, contudo, que a fofa/idade da franlláormaçãodas qua- ocorrências da esfera das âguras, sempre pensada já obviamente como idealizada.
lidades do pZenum, nas suas alterações e não alterações, sucede segundo regras e de que a partir daí tem de se obter a possibilidade <36> de uma matematização
causais de tal modo que este aspecto abstrato inteiro do mundo este/a depen- índirefa também no seu sentido integral, a saber, que tem assim de ser possível
:lente, de modo uno, do que causalmente sucede no aspecto do mundo [composto] (embora indiretamente, e por um método indutivo particular) construir ex dafís
peias.#guras. Em outras palavras: não é a priori inteleccionável o fato de que e, assim, determinar, objetivamente, todas as ocorrências do lado dose/ena. A to-
uma alteração qualquer experienciável de qualidades específicasdos corpos in- talidade da natureza infinita, como urz/verso concreto da ca sa/idade - isto residia
tuíveis, imaginável na experiência e6etivae possível, dependa causalmente de nesta estranha concepção -, tornou-se uma mafemáfíca ap/içada szzigenerís.
ocorrências no estrato do mundo abstrato das âguras, de que ela tivesse, por Mas respondamos em primeiro lugar à questão sobre o que, no mundo
assim dizer, a sua imagem corresporzderzfeno domírzío das ./iguras, de tal modo dado e já matematizado à maneira limitada antiga, poderia incitar ao pensa-
que cada alteração completa da totalidade dos p\ena tivesse a sua imagem corres- mento fundamental de Galileu.
pondente causal na esfera das$guras.
Assim posto, este pensamento poderia parecer temerário. Mas tomemos d) A motivação da concepçãogalilaica da natureza
agora a já ancestral idealização da forma espaço-temporal, efetivada (em vastas
esferas,embora de modo nenhum completamente) há milênios, com todas as 06ereciam-se aqui oporfunídades, muito tênues, é certo, para diversas ex-
suas âguras, assim como com as alterações e âguras de alterações a elas respei- periências, embora desconexas,dentro da totalidade da experiência pré-científi-
tantes. <35> Nela estava contida, como sabemos, a idealização da arte da medida ca, as quais sugeriam algo como uma quantiíicabilidade indireta de certas quali-
não só como arte de medir, mas como arte de construções empiricamente causais dades sensíveis e, assim, uma certa possibilidade de caracteriza-las por meio de
(onde obviamente, como em toda a arte, também cooperavam raciocínios de- grandezase medidas numéricas. Já os antigos pitagóricos estimularam a obser-
dutivos). A posição e tematização teóricas das idealidades e construções puras vação da dependência funcional da altura do som em relação ao comprimento da
conduziram à geometria pura (que abrange aqui, entretanto, a matemática pura cordaposta em vibração.Eram, naturalmente,também de conhecimentogeral
das figuras em geral); resultou mais tarde (conforme recordamos) - pela inversão muitas outras conexõescausaisde espéciesemelhante.No fundo, residiam em
que se tornou compreensível a geometria aplicada: a arte prática da medida todos os processosconcretosintuíveis do mundo circundante familiar depen-
guiada pelas idealidades e pelas construções com elas idealmente realizadas,ou dências facilmente assinaláveis de acontecimentos jao nível dos] p/ezzapara com
seja, uma objetivação do mundo corpóreo concreto-causal nas esferaslimitadas doutros nla esfera das figuras. Mas faltava em geral um motivo para conferir uma
relevantes.Ao recapitularmos tudo isto, o pensamento que antes abordamos, e orientação analítica ao entrelaçamento das dependências causais.Na sua vaga
que inicialmente parecia quase extravagante, perdeu a sua estranheza e assumiu indeterminidade, estasnão podiam suscitar interesse. Mas não era assim lá onde
de imediato para nós - em virtude da nossa formação escolar científica prévia - o assumiam o caráter de uma determinidade que as tornava apropriadas para a
caráter do óbvio. O que experienciamos na vida pré-cientíâca como cores,sons, indução determinante; e isto nos reconduz à medição dos p/e/za.Nem tudo o que
temperaturas, como peso nas próprias coisas, causalmente como radiação de ca- visivelmente se alterava em conjunto no lado das âguras era mensurável pelos
lor de um corpo, que aqueceos corpos em redor, e coisassimilares, isto manifesta, métodos de medida antigos já formados. E estava, além disso, ainda longe de tais
é claro, "âsicamente": vibrações sonoras, vibrações de temperatura, ou seja, puras experiênciaso caminho para a ideia, e a hipótese universal de que todas as ocor-
ocorrências do mundo das figuras. Esta indexação universal é, então, hoje tratada rências especificamentequalitativas apontam como índices para constelaçõesde
como obviamente fora de questão. Mas, se retornarmos a Galileu, aquilo que so- figuras e acontecimentos que lhes correspondem de modo determinado. Mas
mente se tornou óbvio pela sua ação não poderia ser óbvio já para ele, o criador não demasiado longe para os homens do <37> Renascimento, inclinados por
da concepção, que tornou em geral a física pela primeira vez possível. Para ele, só toda a parte para ousadasgeneralizações,e entre os quais hipótesescorrespon-
era óbvia a matemática pura e a antiga maneira usual de aplicar a matemática. dentemente excessivas encontravam de imediato um público receptivo. A mate-
Senos ativermos agora puramente à motivação de Galileu, tal como íoi de mática, como domínio de conhecimento (e de técnica, sob a sua instrução) ge-
fato inaugural para a ideia moderna da física, tem de se nos tornar clara a esfra- nuinamente objetivo, estavapara Galileu, e já antes dele, no foco do interesse que
}zheza que, na situação da época, residia no seu pensamento fundamental, e per- move o homem "moderno" para um conhecimento filosófico do mundo e uma

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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental EdmundHusserl Segunda Parte e A Elucidação da Origem da Oposição Moderna entre Objetivismo Fisicalista e Subjetívismo

prática racional. Tem de haver métodos de medida para tudo aquilo que abran- ídea/ízaçãodo mzzndo,concreta e, por isso, dupla, que residia na hipótese galilai
gem, na sua idealidade e aprioridade, a geometria ou a matemática das figuras. E ca, estavatambém dado que era óbvia uma catzsaZídade exala universal a qual,
o mundo concreto inteiro terá de serevelar como matematizável e objetivo, se se- naturalmente, não se obtém por indução a partir da identificação de causalida-
guirmos aquelas experiências singulares e medirmos efetivamente tudo o que Ihe des singulares, mas que precede todas as induções de causalidades particulares
é atribuível como pressuposto da geometria aplicada, ou seja,se construirmos os e as conduz - o que já é válido para a causalidade intuível concreta geral, a qual
métodos de medida correspondentes. Se assim fizermos, o lado das ocorrências constitui a forma do mundo concreta intuível, em contraste com as causalidades
especificamente qualitativas tem índírefame?ztede se comafemafizan singulares em particular experienciáveis no mundo circundante da vida.
Na interpretação do caráter óbvio, para Galileu, da aplicabilidade universal Esta causalidade universal ídea/ízada abrange todas as figuras e p/ena fáti-
da matemática pura, deve-seobservar o seguinte. Em qualquer aplicação à na- cos na sua infinidade idealizada. É manifesto que, se asmedições que precisam ser
tureza intuitivamente dada, a matemática tem de abandonar a sua abstraçãodo levadas a cabo na esferadas âguras devem fornecer determinações objetivas, os
pZenzzm intuível, no mesmo passo em que deixa, no entanto, intocado o que nas acontecimentos no lado do tambémpZenum têm de ser metodicamente questiona
figuras(nas figuras espaciais,durações,movimentos ou deformações)é idealiza- dos. <39> As coisas e acontecimentos em cada caso totalmente concretos, ou seja,
do. E realiza-se, assim, num certo aspecto, uma coídeízlízação do p/enfim sensível asmaneiras como os plena e figuras fáticos estão sujeitos à causalidade,têm de se
correspondente. A ínÚrzídadeextensiva e intensiva, que era substruída com a ide- submeterao método.A aplicaçãoda matemáticaaosplena da âgura realmente
alização dos íenâmenos sensíveispara além de todas as possesda intuição efetiva dados têm, já por força da sua concreção, pressupostos causais que devem come-
- a partibilidade e divisibilidade ílz nÚnítum, assim como tudo o que pertence ao çar a ser determinados. Como se deve efetivamente proceder para isso, como se
contínuo matemático -, significa uma substrução de iníinidades para as qualida- deve regular metodicamente o trabalho a realizar inteiramente dentro do mundo
desdo p/enfim, eopso cossubstruídas.Assim, todo o mundo dos corpos concreto intuível; como, nestemundo onde a idealizaçãohipotética introduziu inõnidades
é carregado com infinidades, não só da figura, mas também dos p/ena. Mas há que ainda desconhecidas, se deve fazer justiça, pelos dois lados, à causalidade dos da-
fazer aqui a nova observaçãode que ainda não estádada com isto aquela "matema- dos corpóreos faticamente apreensíveis,e como a partir deles, sempre segundo
tizabilidade indireta" que constitui a concepçãopropriamente galilaica da física. métodos de medida, se hão de inferir as infinidades ocultas; como resultam daí,
Tendo chegado até aqui, só se adquiriu por ora um pensamento geral ou, na esfera das figuras, índices sempre mais perfeitos para o pZenum qualitativo dos
expresso com precisão, uma /zípótesegeral: domina, no <38> mundo intuível, corpos idealizados;como os próprios corpos, como concretos, se tornam deter-
uma indutívídade uníl,farsa/,anunciada naquelas experiências quotidianas, mas mináveis, por meio de aproximações, segundo todas as suas ocorrências ideais
oculta na sua inanidade. possíveis: tudo isto era assunto de descoberta na /z'fica. Por outras palavras: era
Para Galileu, esta indutividade universal não era certamente entendida assunto de uma apaixonada prática de pesquisa, e não, porventura, de um estudo
como /zlpófese.De imediato, uma física era para ele quasetão certa quanto a ma- sistemático que a precedessesobre aspossibilidades de princípio, sobre os pressu-
temática pura e aplicada até então.Esta Ihe desenha,também, do mesmo modo, postos essenciaisde uma objetivação matemática que devessepoder determinar
o passometódico da realização (uma realizaçãocujo êxito tem, aosnossos olhos, de fato o concreto real no entrelaçamento da causalidade concreta universal.
necessariamente o significado da conÚrmação da /zzpófese- esta hipótese que de A descobertaé uma mistura de instinto e método. Mas deverá perguntar-
todo não é óbvia com respeito à estrutura fática inacessível do mundo concreto). sese uma tal mistura pode ser filosofia ou ciência em sentido rigoroso, se,em
Tratava-se, assim, para ele, antes de mais nada, de obter métodos de grande alcan- sentido último, e no único sentido que nos pode servir para uma compreensão
ce, e sempre aperfeiçoáveis,de formar efetivamente,para além do que tinha até do mundo e autocompreensão,uma tal mistura pode ser um conhecimento do
então sido faticamente feito, todos os métodos de medida formados como possi- mundo. Como descobridor, Galileu pretendia realizar diretamente a sua ideia,
bilidades ideais na idealidade da pura matemática; ou seja, por exemplo, de medir pretendia formar métodos de medida para os dados mais próximos da experi-
velocidadesou acelerações.Mas também a própria matemática pura das figuras ência geral; e a experiência efetiva mostrou (naturalmente, por uma metodo
carecia de uma formação mais rica no que respeita à quantificação construti- logra que não foi radicalmente esclarecida) o que era a cada vez exigido pela
va - o que posteriormente conduziu à geometria analítica. Tratava-se,então, de sua antecipaçãohipotética; ele encontrou conexões efetivamente causaisque se
apreender por tais meios auxiliares a causalidade universal ou, poderíamos dizê- deixavam exprimir matematicamente em "fórmulas'l
lo, de apreender sistematicamentea indutividade universal específicado mundo É certo que, na atividade eíetiva de medir os dados intuíveis da experiên-
empírico pressuposto na hipótese. Há que observar que, com a nova espéciede cia, só se adquirem grandezase os seusvalores numéricos, <40> empiricamente

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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental + Edmund Husserl
Segunda Parte ' A Elucidação da Origem da Oposição Moderna entre Objeüvismo Fisicalista e Subjeüvismo

inexatos. Porém, a arte da medida é em si também uma arte de levar sempre mais
essência da ciência da natureza, é a priori o seu modo de ser, ser /z@óteseafé ao
longe a "exatidão"da medição na direção de um aperfeiçoamentocrescente.E inÚnífo, e afé ao inÚnifo conÚrmação.Nestes termos, a confirmação estánão só,
uma arte, não como um método pronto para fazer algo acabado,mas, símuZfarzea-
como aconteceem toda a vida ativa, exposta à possibilidade do erro, nem requi-
mente, zzmmétodo de melhorar sempre novamente o seu método, pela invenção de sita correções ocasionais. Há aqui, em cada fase do desenvolvimento científico
meios técnicos (por exemplo, instrumentais) sempre novos. Em virtude da refe- natural, uma ação metódica e uma teoria inteiramente correta, da qual o "erro"
rência do mundo à matemática pura, como o seu campo de aplicação, o "sempre estájá excluído.Newton, o ideal do pesquisadorexato da natureza,diz ";zypo-
novamente" adquire, no entanto, o sentido matemático do írz ínÚnífum, e, então, fhesesnon ./i/zgo': e nisto está também incluído que não se engana nos cálculos
toda a medição recebeo sentido de uma aproximação a um polo, decerto inalcan-
e que não incorre em erros metódicas. Assim como em todos os singulares, em
çável, mas ideal idêntico, a saber, de aproximação a uma configuração determina- todos os conceitos,proposiçõesou métodos que exprimem uma "exatidão': uma
da das idealidades matemáticas ou a uma das conâgurações a elas pertencentes. idealidade, esconde-seo ín inÚnífum, como forma permanente da indutividade
O método inteiro tem de antemãoum sentidogeral, por mais que a cada característica,que a geometria primeiramente trouxe ao mundo histórico, o mes
vez se lide com o fático-individual. Por exemplo,não se tem de antemãoem mo í?zínÚnífum se escondetambém na ideia total de uma ciência exata;e, com
vista a queda livre deste corpo, mas o fático individual, é um exemplo dentro da isto, tal como se escondejá na ideia da matemática pura, também o faz na ideia
típica completa concreta da natureza intuível, coincluído de início na sua inva- total da física. No progresso inânito das teorias corretas, agrupadas respectiva
riância empiricamente familiar; e isto se transpõe naturalmente para a atitude mente sob o título de "ciência da natureza de uma época': temos um progresso de
idealizadora matemática galilaica. A matematização indireta do mundo que se hipóteses que são, todas elas, hipóteses e conârmações. No progresso reside um
perâla, então, como oqetívação metódica do mundo í/zfuíve/forneceJórmuZas aperfeiçoamentocrescente;tomado no seutodo, para a ciência da naturezaintei-
rzuméricasgerais que, uma vez encontradas,podem servir, na sua aplicação, ra, nele reside que esta sempre vem mais a si mesma, até o seu verdadeiro sentido
para levar a cabo a objetivação fática nos casos particulares subsumíveis. As "definitivo': que ela oferecesempre uma "representação"melhor daquilo que é a
fórmulas exprimem manifestamente conexões causais gerais, "leis da natureza'; 'verdadeiranatureza':Mas esta <42> não reside porventura no infinito, como
leis de dependências reais sob a forma de dependências "funcionais" de valores uma pura reta. Como "polo" infinitamente distante, a verdadeira natureza é tam-
numéricos.:' O seu sentido próprio reside, então, não em puras conexões de va- bém uma ínÚnídadede feorím, e só é pensávelcomo confirmação, ou seja,como
lores numéricos (como se fossem fórmulas em sentido puramente aritmético), referida a um processoínÚnifo de aproximação /zísfóríca.Isto bem pode ocupar o
mas naquilo que a ideia galilaica de uma física universal, com o seu conteúdo pensar filosófico; mas remete para questõesque não se podem aqui ainda apre
altamente complexo, como se irá mostrar, prescreveu como uma tarefa que cabe ender e que não pertencem ao círculo daquilo que agora em primeiro lugar nos
à humanidadecientífica,e que é fornecido no processoda suarealizaçãona deve ocupar: importa-nos antes esclarecer integralmente, tal como se mostravam
física bem-sucedida, como processo da formação de métodos particulares e de na sua motivação, a ideia e a tareia de uma física que, como física galilaica, deter
l fórmulas e "teorias" matemáticas por eles cunhadas. <41> minou desde a sua origem a âlosoâa moderna, e esclarecertambém aquilo que,
como tradicionalmenteóbvio, a influenciou; aquilo que permaneceu,por isso,
e) O caráterconârmativo da hipótesecientífico-natural fundamental como pressuposto de serzfído não esc/arecido ou que posteriormente se Ihe juntou,
transformando o seuverdadeiro sentido em algo de pretensamente óbvio.
Segundo a nossa observação - que ultrapassa, de resto, o simples problema A este respeito não é necessárioentrar mais concretamente nos primór-
do esclarecimentoda motivação galilaica e da ideia e tarefa de uma física daí re- dios da encenação da física galilaica e da formação dos seus métodos.
sultantes -, a ideia galilaica é uma /zzpófese,e uma hipótese, aliás, de uma espécie
nofáveZ;
e a ciênciada naturezareal, confirmadaao longo dos séculos,é uma f) O problema do sentido de "fórmula" da ciência da natureza
conârmação de uma espéciecorrelativamente notável. Notável: porqz4ea ;zPófese
permattece também, apesar da con$rmação, ainda e sempre hipótese;a conforma- Há, aqui, porém, ainda algo de importante para o nosso esclarecimento.
ção (a única para ela imaginável) é um curso ínÚnífo de conÚrmações. É a própria A realização:: decisíl'a pela qual, de acordo com o sentido global dos métodos

10 N.T.:No original,Zah/en 11 N.T.:Le/sfung

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.ao.z VIS
l A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental. Edmund Husser Segunda Parte ' A Elucidação da Origem da Oposição Moderna entre Objetívismo Fisicalista e Subjetivismo

cientíâco-naturais, se tornam possíveissem mais, numa ordem sistemática, malizadas de modo algébrico com um propósito metódico. Surge, então, uma
determinadas previsõespara além da esferadas intuições imediatamente ex- 'arifmefízaçãoda geomefriíz':uma aritmetização de todo o domínio das puras
perienciáveis e dos conhecimentos empíricos possíveis do mundo da vida pré- âguras (das retas,dos círculos, dos triângulos, dos movimentos, das relações
cientíâco, é a ordenação eáefí?adas ídea/idades mafemáfícízs, de início substru- de lugar ideais etc.). Eles são pensados idealmente como mensuráveis de modo
ídas hipoteticamente numa generalidade indeterminada, mas que têm de ser exato, só que as próprias unidades ideais de medida têm um sentido de grande
ainda demonstradasna sua determinidade. Seainda se têm estasidealidades za espaço-temporal.
vivas no seu sentido original, então bastará dirigir um simples olhar temático De certo modo, estaaritmetização da geometria conduz como que por
para estesentido, a íim de apreender as séries de incremento das í/zfzíções(que si mesma ao esvazíamenfodo seusenado. As idealidades efetivamente espaço-
valem doravante como aproximações) indicadas pelas quantidades da coorde temporais, tal como originalmente se expõem no pensar geométrico sob o título
nação funcional (em poucas palavras: pelas fórmulas) ou, seguindo estas indica- usual de "intuições puras': transformam-se, por assim dizer, em puras figuras
ções,atualizar de modo vivo essasséries. E o mesmo em relaçãoà própria coor numéricas, em configurações algébricas. No cálculo algébrico faz-se automa-
denação que se exprime nas formas funcionais, segundo a qual <43> se podem ticamente retroceder, ou abandona-se mesmo por completo, o significado ge
desenhar as regularidades empíricas que podem ser esperadas do mundo da vida ométrico; calcula-se, e só no âm se recorda que os números deviam significar
práfíco. Em outras palavras: uma vez na posse das fórmulas, tem-se, então, já de grandezas.Não se calcula, porém, "mecanicamente" como nos cálculos numéri-
início, a previsão, pretendida para a prática, do que há para se esperar na certeza cos habituais; pensa-se,inventa-se, fazem-se eventualmente grandes descober-
empírica, no mundo intuível da vida concretamente efetiva, onde o jelementol tas - mas com um sentido insensivelmente deslocado, "símbó/íco': Daí advém,
matemático é somente uma prática especial.A matematização,com as fórmulas mais tarde, um deslocamento metódico inteiramente consciente - uma transi-
por ela alcançadas, é, então, a realização decisiva para a vida. ção metódica, por exemplo, da geometria para a análise, tratada como ciência
A partir destasconsiderações compreende-se que o interesseapaixonado do autónoma, e uma aplicação à geometria dos resultados nela alcançados. Teremos
pesqzzísador
da naf rezase dirige de imediato, logo com a primeira concepçãoe ainda de nos deter neste ponto com maior pormenor, embora sucintamente.
execuçãodo método, para esteterreno decisivo da realizaçãode conjunto indica- Este processo de transformação do método realizado de modo instinti-
da, ou seja, para aslórm /as, e, sob o título de "método científico-natural': "méto- vo, e não refletido na prática teórica, começa já na época de Galileu, e conduz,
do do conhecimento verdadeiro da natureza': para estemétodo artificial de alcan- num movimento imparável de progressoda formação, até um estádiosupremo
ça-las,de fundamenta-laspara toda a gente de modo logicamente concludente. E e, mesmo, a uma exorbitância da "aritmetização": até uma total "formalização'
é igualmente compreensível que tenha havido a tentação de nessas fórmulas e no universal. Isto acontece precisamente pelo progresso da formação e ampliação
seu sentido como fórmulas apreender o verdadeiro ser da própria natureza. da doutrina algébrica dos números e das grandezas, até uma "arzáZíse': "doutri-
Este "serzfídocomoJ3rmu/as" carece agora de um melhor esclarecimento, na das muZf@Zícídades" ou "logística" (palavras que se devem entender ora em
em especial no que se refere à perda de serzfídoque se dá inevitavelmente com sentido mais estrito, ora em sentido mais lato, posto que falta, infelizmente, até
a formação e exercício artiâcial dos métodos. As medições fornecem medidas hoje, uma designação unívoca para isso que, de fato, constitui um campo ma-
numéricas e, nas proposições gerais sobre dependências funcionais entre gran- temáticoúnico) universale, então,pzzramenfe Jorna/. Leibniz foi o primeiro,
dezas medidas, em vez de números defermírzados, fornecem números em geral, claramente muito à frente do seu tempo, a discernir e a reconhecer como tarefa
asseridosem proposições gerais que exprimem leis de dependênciasfuncionais. para o futuro a ideia universal, encerrada em si, de um pensar algébrico supre
Há, então, que considerar, neste ponto, o enorme efeito, num certo aspecto sa- mo, <45> de uma "mafhesís universaZís'lcomo a denominava, ao passo que só
lutar, num outro, funesto, dos modos de pe zoar e das símio/ízações algébricas no nosso tempo ela veio ao menos a aproximar-se de uma configuração siste-
que desde Vieta, ou seja,já antes de Galileu, se divulgaram na Modernidade. mática. Segundo o seu sentido completo e integral, ela nada mais é do que uma
EJnprimeiro lugar, elassignificam uma ampliação gigantescadas possibilidades !ógícaJormaZrealizada em todos os seus aspectos (ou a realizar infinitamente
do pensamento aritmético herdado nas antigas formas primitivas. Este se torna, na totalidade da sua essênciaprópria), uma ciência das.#gz4ras de senfídodo
agora, um pensar apriorístico livre, sistemático e inteiramente liberto de toda a "a/go em gera/" construtível num puro pensar,em generalidadepura-formal e,
efetividade intuível, sobre números em geral, correlações e leis numéricas. Logo sobre estabase, ciência das "mulf@/icídades" a ser construída sistematicamente
que é aplicado, com todas as suas ampliações, na geometria, em toda a matemá- como em si não contraditórias, segundo as leis formais elementaresda não con-
tica pura das âguras espaço-temporais, estasse tornam <44> inteiramente for tradição de tais construções; no seu ponto mais alto, é ciência do universo das

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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental EdmundHusserl
Segunda Parte ' A Elucidação da Origem da Oposição Moderna entre Objeüvismo Fisicalísta e Subjeüvismo.

multiplicidades" em geral imagináveis destemodo. "Multiplicidades" são,por aqui fora de circuito; deste modo, tal pensar é posto também fora de circuito na
conseguinte, fofaZídades co?npossít,eísem si de obyefos em gera/, as quais só numa
própria doutrina formal dasmultiplicidades, assim como na doutrina algébrica
generalidade vazia-formal são pensadas como "certas" e, na verdade, como de-
s números e grandezas que Ihe antecede; e, então, em todas as restantes apli-
ânidas por modalidades determinadas do algo-em-geral. Destacam-se,dentre cações da elaboração técnica, sem retornar ao sentido propriamente cientíâco;
elas,as denominadas mz4/f@/ícídades 'deÚrzídas",cuja deânição, por meio de um e, em consequência, também na aplicação à geometria, a matemática pura das
sistema completo de axiomas': confere, em todas as determinações dedutivas, âguras espaço-temporais.
aos objetos-substrato formais nelas contidos, uma totalidade especíâca,com a Em si, o progressoda matemáticaobjetiva em direção à sua logicização
qual, pode dizer-se, é co?zsfruídaa ídeí(zlormaZ-lógicade am "mundo emgeral" formal, e a autonomizaçãoda lógica formal, ampliada como análise pura ou
A "doufrí?zadas mu/flpZlcídades':em sentido privilegiado, é a ciência universal doutrina pura das multiplicidades, é algo de totalmente /egífímo,e mesmo ne-
das multiplicidades de$nídas.::
cessário;assimcomo a tecnicização,com a suaocasional perda total num pensar
meramente técnico. Tudo isto, porém, pode e tem de ser um método exercido e
g) O esvaziamentode sentido da ciência matemática da natureza pela compreendido emp/e?zacorzscíêncía.Mas isto só acontece se forem acautelados
tecnicização"
perigosos des/ízamenfosde sentido, fazendo com que permaneça sempre dis-
ponível, em ato, a doaçãode senado orÜí?záríaa partir da qual o método tem o
Esta ampliaçãoextrema da aritmética algébrica, ela própria já formal, sentidode <47> um contributo para o conhecimento do mzz/zdo; e, ainda mais.
embora limitada, tem de imediato, pelo seu caráter a priori, a sua aplicação em que ele seja liberto de toda a fradícíona/idade nquesfíonada que fez introduzir
toda a matemática pura "concretamente real"is na <46> matemática das "pu- momentos de obscuridade de sentido, já desde a invenção inicial da nova ideia
ras intuições'; e, assim, na natureza matematizada; mas, também, aplicação a si e do novo método.
mesma, aplicação à aritmética algébrica que Ihe antecede e, novamente, na sua O interesse predominante do pesquisador que descobre a natureza dirige-
ampliação, a todas as suaspróprias multiplicidades formais; ela está, então, des- se,conforme apresentamos,para aslãrmzz/as,alcançadase por alcançar.Quanto
ta maneira, referida a si mesma. Ao formar artificialmente a sua metodologia, mais longe a física avançou na matematização efetiva da natureza intuível, pre-
tal como tinha acontecidojá com a aritmética, a ]natemáticapura vê-se,assim, viamente dada ao modo do mundo circundante, tanto mais ela passou a dis-
automaticamente envolvida numa transformação pela qual ela se torna direta por de proposições matemático-científico-naturais, e, simultaneamente, quanto
mente uma arte; a saber, uma mera arte de, por meio de uma técnica calcula- mais formado estájá o seuinstrumento competente, isto é, a "nzaf/zesísumversa.
tória segundo regras técnicas, obter resultados cujo eíetivo sentido de verdade Zis':tanto maior é o domínio dos racíocírziosdedzzfí?osde novoslatos da natureza
só é alcançável num pensar objetivamente intelectivo'' exercido efetivamente quantificada para ela possíveis e, assim, também o das remissões às verificações
nos próprios temas. SÓestão aqui em ação aqueles modos de pensar e aquelas correspondentes a efetuar. Estascompetem propriamente aolz'sêcoexperimenta/,
evidências que são indispensáveis a uma técnica enquanto tal. Opera-se com bem como todo o trabalho de ascensão,a partir do mundo circundante intuí-
letras, sinais de ligação e relação (+, x, = etc.), e segundo as regras do ./ogo da vel e das experiências e medições nele a efetuar, até aos polos ideais. Osj'sacos
sua ordenação conectiva, de um modo que, de fato, em nada difere no essencial mafemáfícos, por sua vez, sediados na esfera do espaço-tempo aritmetizada ou,
do jogo de cartas ou de xadrez. O pensar or@ínárío que confere propriamente em simultâneo com ela, na maf/zesisuniverso/ísíormalizante, tratam asfórmulas
sentido a este procedimento técnico, e verdade aos resultados carretos (ainda físico-matemáticas que lhes são trazidas como configurações puras particulares
que seja a "verdade formal" própria da maf/zesíszznít,erga/isformal), está posto da maf/zesísformal, mantendo naturalmente invariantes as constantes que nelas
ocorrem como em leis funcionais da naturezalãfíca. Tomando conjuntamente
12
Cf. com maior exatidão acerca do conceito da multiplicidade definida, as "/dêem zu e/ner em consideração a totalidade das "leis da natureza, já demonstradas ou que es-
reinen Phãnomenologieund phãnomenologische Philosophie" \"\delas para uma fenome- tão a ser trabalhadas como hipóteses': elesretiram, com base em todo o sistema
nologia pura e filosofia fenomenológica"], 1913. p. 135 e segs.Sobre a ideia da "malhas/s
un/versa//s", cf. "Log/sebe Untersuchur7gen" ["]nvestigações Lógicas"], 1, 1900, reeditada em formal de leis desta maf/zesísde que dispõem, as consequênciaslógicas cujos
resultados os experimentalistas têm de assumir. Mas também realizam a elabo-
1913; e, principalmente, "Forma/e und trar7szer7denta/e
Log/r' ["Lógicaforma] e transcen-
denta["]. Ha]]e, Niemeyer, 1930. ração das possibilidades lógicas de novas hipóteses a cada passo disponíveis, as
13 NI.: Sachhalüg. quais têm, é certo, de ser compatíveis com a totalidade das hipóteses de cada vez
14 N:T.: Sachlich-einsichtig.
admitidas como válidas. Cuidam, assim, da preparação das formas das hipóte-

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Segunda Parte eA Elucidação da Origem da Oposição Moderna entre Objetivismo Fisicalista e Subjeüvismo

ses,formas que serão, a partir daí, como possibilidades hipotéticas, as únicas


Em relaçãoà geometria pura, Galileu era também herdeiro. A geometria
admissíveis para a interpretação das regulações causais a estabelecer doravante
/herdada e a maneira herdada da imaginação "intuitiva': do demonstrar, das cons-
de modo empírico, por observação e experimentação, em relação ao polo ideal
truções "intuitivas'; não era mais ízgeometria oregína/ que, nesta "intuitividade'
que lhes pertence, isto é, a leis exatas. <48> Mas mesmo os físicos experimentais
estava já esvaziada de sezzfído. A seu modo, também a geometria antiga era já
estão no seu trabalho permanentemente voltados para o polo ideal, para gran- uma Té2CVH,
afastada das fontes originárias da intuição efetivamente imediata e do
dezas numéricas, para fórmulas gerais. Estas estão, por conseguinte, no centro
pensar originariamente intuitivo, a partir de cujas fontes a denominada intuição
do interesse de foda a pesquisa cientíâco-natural. Todas as descobertas, tanto da
geométrica, isto é, a que opera com idealidades, começou por criar o seu sentido.
física antiga quanto da nova, são descobertas dentro do que se poderia chamar À geometria das idealidades precedeu a agrimensura prática, que nada sabiade
de mundo das 6rmulas ordenado à natureza.
idealidades. Tal operaçãopré-geoméfrícaera, contudo, para a geometria, funda-
O sentido de fórmula deste mundo reside em idealidades, enquanto toda
mento de sentido, fundamento para a grande invenção da idealização:incluía-se
a laboriosa realização a elas dirigida assume o caráter de um mero caminho para
aqui igualmente a invenção do mundo ideal da geometria, e da metodologia da
uma meta. E, aqui, há que tomar em consideração a influência da tecnicização, determinação objetivadora das idealidades por meio das construções criadoras da
acima caracterizada,do trabalho do pensar matemático-formal: a transforma-
existência matemática': Foi uma negligência ftlnesta que Galileu não tivesse per-
ção das suas teorias experienciais, descobridoras e construtoras, de um pen
guntado pela operação originariamente doadora de sentido, a qual, aquandocomo
sar eventualmentefigurador da maior genialidade,num pensar com conceitos
idealizaçãosobre o solo original de toda a vida teórica e prática o mundo ime-
transformados, com conceitos "simbólicos'l Assim se esvazia também o pensar
diatamente intuível(e aqui, em especial,sobre o mundo empiricamente intuível
puramente geométrico, bem como, na aplicação deste à natureza fática, o pensar
dos corpos) -, forneceu a conâguração geométrica ideal. Desde logo, ele não con-
cientíâco-natural. Uma tecnicização apodera-se, além disto, de todos os méto-
siderou o seguinte:o livre fantasiar transformador deste mundo e dassuasâguras
dos restantespróprios às ciências da natureza. E não é só que estes,em conse-
fornece tão só figuras empírico-intuíveis possíveis, e não as âguras exatas;que
quência, se "mecanizam': Pertence à essência de todo o método a tendência de
motivações e que nova operação eram requeridas pela idealização que só então
se perder numa união com a tecnicização. A ciência da natureza sofre, assim,
se mostrava como propriamente geométrica. Segundo os métodos geométricos
uma multíplice transformação e encobrimento de sentido. Toda a combinação herdados, estas operações não eram mais afívadas de modo vivo, e, ainda menos,
entre física experimental e física matemática, assim como o gigantesco traba- então,reflexivamenteelevadasà consciênciateórica como métodos interiormente
lho do pensar daí em diante efetivamente realizado, decorre num horizorzfede
produtores do sentido da exatidão. Podia parecer, assim, que a geometria, com
sentido fransáormado. É certo que existe até determinado ponto a consciência
um "intuir" apriorístico próprio, imediatamente evidente, e um <50> pensar que
da diferença entre Té%vTIe ciência, mas o estudo retrospectivo do sentido espe-
com ele lida, criaria uma verdade absoluta autónoma que, como tal, seria sem
cífico que a natureza adquiriu pelo método artiâcial cessademasiado cedo. Já
mais obviamente - aplicável. Permaneceu oculto a Galileu e aos tempos que se
não chegasequerlonge o suficientepara conduzir até o nível da ideia de uma Ihe seguiram o fato de que estaobviedade era uma ilusão conforme âzemos aci-
matematização da natureza, ideia que foi delineada pela meditação criativa de
ma notar nos seustraços fundamentais, comentando a interpretação do próprio
Galileu, até aquilo que Galileu e os seus seguidorespretendiam com esta mate-
pensar galilaico -, e que também o sentido da aplicação da geometria tem uma
matização, e que conferia sentido ao seu trabalho construtivo.
complicada conte de sentido. Precisamente com Galileu começa, então, a substi-
tuição da natureza pré-cientiâcamenteintuível pela natureza idealizada.
h) O mundo da vida como fundamento esquecido de sentido da ciên-
Deste modo, qualquer estudo retrospectivo ocasional (ou também "filosó-
cia danatureza
fico") dirigido ao sentido próprio deste trabalho artiâcial detém-se sempre na na-
tureza idealizada, sem conduzir radicalmente até o âm último que a nova ciência
Devemosconsideraragoracomo da maior importância uma <49> subs-
da natureza, com a geometria que dela é inseparável,crescendo a partir da vida
tituição, que estáem efetivaçãojá em Galileu, do único mundo efetivo, o que é pré-científica e do seumundo circundante, deveria desde o início servir; um âm
efetivamente devido à medida da percepção, do único mundo alguma vez expe
que, no entanto, reside ?zesfa ída, e a cujo mundo da vida tem de estar referido.
rienciado e experienciável o nossomundo da vida quotidiano - pelo mundo
SÓa estepoderia o homem que vive neste mundo, entre os quais o pesquisador da
matematicamente substruído das idealidades. Esta substituição íoi rapidamente natureza, dirigir todas as suas questões práticas e teóricas, só ao mu?zdoda vida,
transmitida aos seus continuadores, aos físicos de todos os séculos subsequentes.
nos seushorizontes ignotos infinitamente abertos se poderia ele referir teorica-

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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendenta Edmund Husser
Segunda Parte ' A Elucidação da Origem da Oposição Moderna entre Objetivismo Fisicalista e Subjeüvismo.

mente. Todo o conhecimento de leis só poderia ser conhecimento, a apreender ideias bem talhada, a das verdades denominadas objetivamente cientíâcas; isto é.
em termos de leis, de previsões sobre o decurso de fenómenos empíricos eíetivos por um método que precisaser executado(assim o esperamos)efetivamente,e até
e possíveis, os quais, com a ampliação da experiência, se delineiam para ele no ho- o singulm, e que precisa ser confirmado permanentemente, construímos, de início.
rizonte desconhecido por meio de observações e experiências sistematicamente determinadas induções numéricas em lugar dose/ena sensíveis,e6etivose possíveis,
indagadoras, e se conservam à maneira de induções. Assim, a indução conforme das âguras concretamente intuíveis do mundo da vida, e alcançámos exatamente,
o método cientíâco surgiu naturalmente a partir da indução quotidiana, mas isto assim, possibilidades de uma previsão dos acontecimentos concretos do mundo,
em nada altera o sentido essencial do mundo pré-dado como horizonte de todas intuíveis no mundo da vida, que ainda ou já não estão dados como eÊetivos;esta é
as induções com sentido. Encontramo-lo como o mundo de todas as realidades uma previsão que excede infinitamente asoperações da previsão quotidiana. <52>
conhecidas e desconhecidas. A ele, ao mundo da intuição efetivamente experien A roupagem de ideias da "matemática e ciência matemática da natureza':
ciadora, pertence a forma do espaço-tempo com todas estas figuras corpóreas a ou a roupagem dos símio/os, das teorias simbólico-matemáticas, abrange tudo
inscrever, nele vivemos nós próprios, segundo o nosso modo de ser somático's aquilo que, para os cientistas, assim como para os homens instruídos, subsfífz/Í o
pessoal.Mas não encontramos aqui nenhuma idealidade geométrica, nem o es mundo da vida e o mascara, como a natureza "objetivamente efetiva e verdadei-
paço geométrico, nem o tempo matemático com todas as suasfiguras. ra': A roupagem das ideias faz com que tomemos pelo verdadeiro ser aquilo que
Uma observaçãoimportante, embora tão triviall Mas estatrivialidade está é um método com o âto de, num progressosí/zfnÚnífz4m,melhorar,porprevf-
precisamente soterrada pela ciência exata já desde <51> a geometria antiga, precisa- sões"cienfz@cczs':as rudes previsões que, originariamente, são as únicas possíveis
mente por corça desta substituição, por uma operação metodicamente idealizadora, dentro daquilo que é efetivamente experienciado e experienciável no mundo da
disso que é imediatamente dado como eÉetividadepressuposta em toda a idealização, a roupagem das ideias faz com que o senfído pf'óprío do método, daslõrmzz-
dado numa cona'mação à sua maneira inultrapassável. Este mundo eÉetivamente /as,das "teorias" permaneça incompreendido,e que, no surgimento ingênuo do
intuível, eÉetivamenteexperienciadoe experienciável,no qual se joga, na prática, método, não sejalamais compreendido.
toda a nossa vida, permanece tal qual é, inalterado na sua estrutura essencial pró- Assim, o proa/ema róidícaZde saber como tal ingenuidade foi realmente
pria, no seu estilo causalconcretopróprio, o que quer que façamos,arüâcialmente possível enquanto fato histórico vivo, e continua a ser, de como pede algum dia
ou sem qualquer artifício. Ele, então, é muito pouco alterado por inventarmos uma surgir um método efetivamente orientado para uma meta de resolução sistemá-
arte particular, a arte geométrica e galilaica, chamada física. Que realizamos eÉeti tica de uma tarefa científica inânita, e que para isso apresenta resultados cons-
vamente por intermédio desta arte? Precisamente uma previsão que necessita ser tantes indubitáveis, e que tenha, então, através dos séculos, sido capaz de fun-
ampliada até o infinito. Podemos dizer em seu favor que toda a vida se assenta na cionar semcessarcom utilidade, sem que alguém lograsse uma compreensão
previsão, na indução. Da maneira mais primitiva, a certeza do ser de toda e qualquer efetiva do sentido próprio e da necessidade interior de tais realizações, jamais se
simples experiência é já indutiva. As coisas "vistas" já são sempre mais do que aquilo tornou algum dia consciente. Faltava, então, e continua ainda a faltar a evidên-
que delas "própria e eÊetivamente"vemos. Ver, perceber,:' é, na sua essência, um "ter cia efetiva, na qual o gerador-de-conhecimento possa dar-se a si mesmo justifi-
propriamente" unido a um propósito,:' um pré-signiâcar.Toda a prática, com os cação,não só daquilo que faz de novo, e de que trata, mas também sobre todas
seuspropósitos, implica induções, só que os conhecimentos indutivos usuais,e tam- as implicações de sentido que encerra, por sedimentação ou tradicionalização,
bém os expressamente formulados e "conservados"(isto é, as previsões), são "sem ou seja, sobre as pressuposições constantes das suas conâgurações, conceitos,
artifício': em contrastecom as induções artificiais "metódicas':a incrementar até o proposições ou teorias. Não se assemelhaa ciência a uma máquina que produz
infinito pelo método da física galilaica na sua capacidade realizadora. resultados manifestamente muito úteis e que, por isso, é sável, uma máquina
Na matematização geométrica e científico-natural ajustamos, então, ao mun com a qual qualquer um pode aprender a manejar corretamente, sem compre-
do da vida o mundo permanentemente dado como efetivo na nossavida concre- ender minimamente a possibilidade e necessidade interna de tais realizações?
ta no mundo -, na infinidade aberta de experiênciaspossíveis,uma roupagemde Mas poderia a geometria,poderia a ciência, ser antecipadamenteprojetada
como uma máquina, partindo de uma compreensão completa - isto é, cientíâca
15 N.T.: Le/b//ch. - no mesmo sentido? Não conduziria isto a um "regresszzs
i/z ínÚnífum"?
16 N.T.: Tratando-se da percepção em sentido especiflcadamente psicológico ou fenomenoló- Em conclusão: não setrata aqui de um problema que se encaixa na mesma
gico, optamos por traduzir 14/ahrnehmenpor "perceber' série <53> do problema dos instintos em sentido habitual? Não é este o proa/ema
].7 N.T.:Uor-haben. da rczzãooczz/fa que só quando se torna manifesta é que se sabe como razão?

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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental + Edmund Husserl
na entre Objeüvismo Fisicalísta e Subjeüvismo.

Galileu, o descobridor ou para fazer justiça aos seustrabalhos prepa'


ratórios: o descobridor consumado - da física e da natureza física é um génio
simultaneamente descobridor e encobridor. Ele descobre a natureza matemáti-
ca, a ideia metódica, desbrava o caminho para a inanidade dos descobridores
e das descobertas físicas. Descobre, perante a causaZídadeu zít'farsa/do mtítzdo
fnfuíveZ(como sua forma invariante), aquilo que desde então se chama a Zef
causal pura e simples, a "forma a priori" do "verdadeiro mundo" (idealizado e
matematizado), a "lei da legalidade exata': segundo a qual rodo o acorzfecerda
'natureza" idealizada - está necessariamentesugeífoa leis exafas. Tudo isto é
l um descobrimento-encobrimento, e tomamo-lo até hoje como a pura verdade.
E nada disto é principialmente alterado pela crítica "da lei causalclássica':que
sepretende filosoficamente arrasadora, por parte da nova física atómica. Porque
apesarde toda a novidade permanece,entretanto, parece-me, o que é princfPíaZ-
menfe esserzcíaZ:
a natureza em sí mafemáfíca, dada em fórmulas, interpretada
unicamente a partir das fórmulas.
Continuo também naturalmente a colocar Galileu, com foda a seríeda
de, no cume dos grandes descobridores da Modernidade, assim como admiro
«.«Ü$SEiUHn;iillÚ :n !::::

certamente, com toda a seriedade, os grandes descobridores da física clássica


e pós-clássica e as realizações do sez/pensar, que não são de todo realizações
meramente mecânicas,mas, de fato, ízZfamenfenotáveis. Isto em nada fica di-
minuído pelo esclarecimento apresentado dessasrealizações como Té2CVH, ou
pela crítica prítzc@ía/que mostra que o sentido próprio, originalmente ge
nuíno destas teorias dos físicos, e até mesmo as maiores teorias dos maiores
físicos, permaneceu ocu/fo, e não podia deixar de permanecer oculto. Não se
trata aqui de um sentido metafísico, lá colocado e fruto de especulação,mas
do que Ihe é próprio segundo a maíslorçosa evidência, o único sentido efetivo
destasteorias, em contrastecom o seu sentido de método,o qual tem a sua
compreensibilidade específica no <54> operar com aslórmu/as e na sua apli-
cação prática, a técnica.
SÓ quando estivermos muito mais avançados no esclarecimento do de-
senvolvimento histórico segundo as suas forças motrizes mais íntimas é que
se poderá mostrar de que modo o que aqui se disse é ainda unilateral, e a que
horizontes de problemas, conducentes a novas dimensões, não faz justiça, di-
mensões que só são abertas por um estudo acerca desse mundo da vida e do
homem como o seu sujeito.

i) Erros funestos que se seguem da falta de clareza sobre o sentido da


matematização

Com a reinterpretação matematizante da natureza por Galileu, fixam-se


também consequências perversas de grande alcance acerca da natureza que, de

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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental Edmund Husserl
SegundaParte' A Elucidaçãoda Origem da Oposição Moderna entre Objetivismo Fisicalistae Subjetivismo

defeito de carecer do processo sistemático a fim de realizar cognoscitivamente,


j) O significado fundamental do problema da origem da ciência mate
ou seja, como matemática explícita, todo o "existente" das figuras na forma mática da natureza
espaço-temporal. Em compensação, a respeito do existente em concreto na
naturezanão temos nenhuma evidência apriorística; temos de induzir toda a Assim como todas as obscuridades anteriormente indicadas, também es
matemática da natureza, para além da forma espaço-temporal, a partir dos fa- tas são <57> consequência da franiláormação da Jormczção oregínaríamenfe viva
tos da experiência. Mas não é a natureza em si inteiramente matemática, nem
de se/zfido, e da consciência da tarefa originariamente viva, a partir da qual surge
tem tampouco de ser ela pensadacomo um sistema matemático unitário, ou
o método no seu sentido particular em cada caso.Assim, o método produzido,
seja, de ser efetivamente exponível numa matemática unitária da natureza: pre-
o cumprimento progressivo da tareia, é, como método, uma arte ('té%vTI)que se
cisamente naquela que é a única a ser procurada pela ciência da natureza, e
herda, mas de que não se herda por isso, sem mais, o sentido efetivo. E, preci-
procurada como abrangidapor um sistema de leis "axiomático" quanto à for- samentepor isso, uma tareia e realização teórica como a de uma ciência da na-
ma, sistema cuja axiomática é sempre tão só uma hipótese e, por isso, jamais
tureza (e ciência do mundo em geral), que só pelas infinidades do método pode
efetivamentealcançável?<56> Por que não o é? Por que não temos qualquer dominar a infinidade da sua temática, e aquelas inânidades também só por meio
perspectiva de descobrir o sistema de axiomas específicoda natureza, como
de um pensar e fazer técnico, esvaziado de sentido uma tal tareia e realização só
um sistema de verdadeiros axiomas apoditicamente evidentes? Por que nos
pode ser e permanecer efetiva e originariamente com sentido se o cientista tiver
falta, aqui, de fato, a faculdade inata?
formado em si a capacidade de q esfionar 7efrospecfí?ame?zfeo senfído or@fnárío
Na figura de sentido da física e do seu método, âgura já mais ou menos
de todas as suas configurações de sentido e métodos: o sentido hisfóríco da insfí-
tecnicizada, em que perderam o seu sentido, a diferença em causaestava"total-
ftzíção írzaugzzraZ
do serzfído e, principalmente, o sentido de todas as /heranças de
mente clara": era a diferença entre matemática "pura" (apriorística) e "aplicada':
sentido, inadvertidamente transmitidas, nesta instituição inaugural e mais tarde.
entre "existência matemática" (no sentido da matemática pura) e existência de Contudo, o matemático, o cientista da natureza, no caso mais favorável um
realidades matematicamente âguradas (de que a figura matemática é, então,
técnico altamente genial do método ao qual ele deve as únicas descobertasque
um componente, como uma propriedade real). E, no entanto, mesmo um gê- busca é justamente, regra geral, de todo incapaz de levar a cabo tais estudos. Na
nio tão proeminente como Leibniz debateu-selongamentecom o problema de sua esfera efetiva de pesquisa e descoberta, ele não sabe de modo algum que tudo
apreenderno seu sentido correto uma e outra existência ou seja, de modo o que estes estudos têm de esclarecer carece ele mesmo de escZarecímenfoe, na ver-
universal, por um lado, a existência da forma-espaço-temporal, como pura-
dade, de esclarecimentocom vista ao interessesupremo determinante para uma
mente geométrica e, por outro, a existência da natureza universal matemática
filosofia e ciência, o interesse do conhecimento efetivo do próprio mundo, da pró-
com a sua forma faticamente real, e de compreender a correta relação mútua
entre ambas. pria natureza. E isto, na medida em que foi determinante na sua instituição origi
nária, é justamente o que seperdeu por uma ciência tradicionalmente dada, que se
O papel que estas obscuridades desempenharam para a problemática
tornou uma çé2CVH. Toda a tentativa, proveniente de um círculo de pesquisadores
kantiana dos juízos sintéticos a priori e para a sua separaçãoentre os juízos exterior à matemática ou à ciência da natureza de conduzi-lo para tais estudos, é
sintéticos da matemática pura e os da ciência da natureza não poderá deixar de
nos ocupar minuciosamente mais abaixo. recusada como "metafísica': O especialista que dedicou a sua vida a estas ciências,
A obscuridade fortaleceu-se ainda e transformou-se mais tarde com a no entanto - isto Ihe parece claríssimo -, não pode deixar de saber melhor aquilo
que no seu trabalho pretende e realiza. As necessidades filosóficas ("âlosófico-ma-
formação e permanente aplicação metódica da matemática pura formal. Con-
temáticas': "filosóâco-científico-naturais") despertadas também nestes pesquisa-
fundiu-se "espaço"e "multiplicidade euclidiana" definida de modo puramen-
dores,por motivos históricos que ainda seirão elucidar,<58> sãopor elespróprios
telormaZ; axioma eáefívo(a saber, no sentido antigo e usual do termo), como
suÊcientemente satisfeitas; mas, aânal, de tal modo que a dimensão inteira na qual
norma ideal de validade incondicionada apreendida na evidência do pensar importa perguntar não é em geral vista, nem por isso de todo questionada.
puramente geométrico ou também do pensar aritmético, puramente lógico, e
czxzoma"i?npróPrÍo- um termo que, na doutrina da multiplicidade, não de-
k) Característica metodológica da nossainterpretação
signa em geral juízos ("proposições"), mas formas de proposições, como partes
integrantes da definição de uma "multiplicidade" a ser construída formalmente
sem contradição interna. Para concluir, ainda uma palavra sobre o método que seguimos nas re
flexões tão intrincadas destes parágrafos que estão, na verdade, ao serviço do

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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental + Edmund Husserl
Segunda Parte e A EI Oposição Moderna entre Objeüvismo Físicalísta e Subjetivismo.

nosso propósito no seutodo. Os estudoshistóricos em que nos envolvemos para


chegar a uma autocompreensão tão necessária da nossa situação filosóâca exigi-
ram uma clarificaçãosobrea ordem do espú'ífomodem?zo e, assim em virtude
do signiâcado, que não se poderia sobrestimar, da matemática e da ciência ma-
temática da natureza-, sobre a origem destasciências.Isto significa: clarificação asslm como para o espírito.da humanidade europeia moderna em geral.
Do método faz também parte o seguinte: aos leitores, e em particular
da motivação originária e movimento do pensar que conduz à concepção da sua
ideia da natureza e, a partir daí, ao movimento da sua realização no desenvolvi- - itor instruído nas ciências da natureza, será perceptível 'e apareceráqua-
mento em ato da própria ciência da natureza.A ideia em questãoemergepela
primeira vez em Gaze/eu,por assim dizer, já pronta; assim, liguei ao seu nome
todas as observações (ou seja, idealizando/simpliâcando, de certa maneira, a si-
tuação), embora uma análise histórica mais exata tivesse de fazer justiça também
que compreende em si toda a vida real, inclusive a vida do pensar cientí6co, e
àquilo que, nos seus pensamentos,Galileu deve aos "predecessores'l(E, com
boas razões, continuarei a proceder do mesmo modo.) Em relação à situação que que alimenta, como a sua fonte, as formações artificiais de sentido - íàz parte
ele encontrou, como estanão poderia deixar de motiva-lo, e como o motivou, dessasdi6culdades, digo, ter de optar pela maneira de falar ingênua da vida,
segundo as suasconhecidas afirmações, algo sepode rapidamente estabelecer,e mas também maneja-la de modo apropriado, conforme é requerido para a evi-
dência das demonstrações. ' ' ' ' "''-' r
compreender, então, o início de toda doação de sentido da ciência da natureza.
Mas desde logo deparamo-nos com os deslocamentose velamentos de sentido Revelar-se-á progressivamente e, por fim, inteiramente, que o único ca-
minho possível para ultrapassar a ingenuidade âlosóâca que reside na '\;ienti-
das épocas posteriores a Galileu até às mais recentes.Porque também nós, que
realizamos o estudo, estamos sob a sua influência (e, posso pressupor, também íicidade" da âlosoâaobjetivista tradicional é o correto retorno à simplicidade
os meus leitores). Presos nela, não temos inicialmente nenhuma noção destes :ngênuai; da vida, mas numa reflexão que se eleve acima dela, revelação que
abrirá as portas à nova dimensão já repetidamente anunciada. ' '''v"-' H
deslocamentosde sentido: nós que, no entanto, julgamos todos saber tão bem o
ve acrescentar-seainda que, de acordo com o seu sentido, todas as
que "são" e o que realizam a matemática e a ciência da natureza. <59> Pois quem
nossas explicações só podem ser úteis para a compreensão na relatividade da
não o sabehoje em dia da escola?Jáa primeira elucidaçãodo sentido da origem
da ciência moderna da natureza, contudo, e do seu novo estilo metódico, torna sua situaçílo. e que a nossa expressão das dúvidas despertadas nas críticas apre-
perceptível algo sobre os deslocamentos de sentido posteriores. E elas manifesta-
mente influenciam ou, no mínimo, diâcultam mesmo a análise da motivação.
Estamos, então, numa espécie de círculo. A compreensão do início só
estudo, e servir para a nossa libertação. Todo o estudo a partir de fundamen-
pode ser alcançada por inteiro a partir da ciência dada na sua figura hodierna,
no olhar retrospectivo para o seu desenvolvimento. Mas, sem uma compreensão
do flzícío,este desenvolvimento, como desenho/vímenfodo senfído,é mudo. Não
nos resta senão o seguinte: temos de avançar e retroceder em "z©uezagzze";num
jogo recíproco,um tem de ajudar o outro. Uma clarezarelativade um lado traz
1;:ui :i:iunahP::;i!:?
alguma elucidação do outro, o qual, por seu turno, se reflete de novo sobre o
$ 10. .A ordem do dzza/esmona made/arídade doma/zanfe da cíê?leia da nafzíreza
lado contrário. No modo da observaçãohistórica e da crítica histórica, que têm
A racíorza/idade do mzzzzdo "more geomefrico" "'-- -''
de seguir ao longo da sequênciatemporal a partir de Gaze/ezz (e logo depois de
Descarnes),temos, então, de dar permanentes sa/fos /zisfórícosque não são digres-
sões, mas necessidades; mas eles o são se, conforme se disse, assumirmos aquela Uma base para a observação de tipo moderno da natureza está ainda por
tarefa do autoestudo, resultante da situação de "catástrofe" do nosso tempo, com ser realçada. Galileu, a partir do seu direcionamento do olhar para o mundo
da geometria, e a partir daquilo que empiricamente aparece e é i' ematizável,
a "catástrofe da própria ciência': Mas esta tareia diz respeito em primeiro lugar
ao estudo do sentido originário dasciências modernas e, antes de tudo, da ciên-
cia exata da natureza, uma vez que esta, conforme a temos de continuar a perse- 18 'Simplicidade ingênua", no original /Va/vftdt

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absfraí dos sujeitos como pessoasde uma vida pessoal,de todo o espiritual em axiomas e deduções?Não é de admirar que possamos encontrar já em l)escarfes
qualquer sentido, de todas aspropriedades culturais que, na prática humana, ca a ideia de uma matemática universal. É claro que também o peso dos êxitos te-
bem às coisas. Nesta abstração resultam as coisas puras corpóreas que, contudo, óricos e práticos, que começaram desde logo com Ga/i/eu, teve a esterespeito a
tomadas como realidadesconcretas <61> e na sua totalidade, se tornam temáti suainfluência. Em consequência,mundo efilosofia receberam,correlativamen-
cas como um mundo. Pode bem dizer-se que só com Galileu surge à luz do dia a te, uma feiçãocompletamentenova. O mundo tem de ser em si um mundo ra-
ideia de uma natureza como um murado de corpos reaZmenfeencerrado em si. A cional, no novo sentido da racionalidade, tomada da matemática e da natureza
par da matematização, demasiado apressadamente tornada uma obviedade, isto matematizadae, correspondentemente, a íilosoâa, ciência universal do mundo,
acarreta como consequência uma causalidade da natureza encerrada em si, em tem de ser construída como teoria moregeomefríco unitariamente racional.
que todo o acontecerestáprévia e univocamente determinado. É manifestamen
te preparado assim também o duízZismoque, em breve, emergecom Descartes.
Temos agora de aperceber que a concepção da ideia moderna da "natu- $ \ \. O dualismo: razão da inapreensibilidade dos problemas da razão, pressupor
reza':como um mundo de corpos encapsulado, real e teoreticamente encerrado to da especializaçãodas ciênciase alicerce da psicologia naturalÍstica
em si, traz consigo de imediato uma transformação completa da ideia do mun-
do em geral. Ele cinde-se, por assim dizer, em dois mundos: natureza e mundo No entanto, se a natureza racional cientíâco-natural é um mundo de
mental, dos quais este último, dado o modo da sua referência à natureza, não corpos que são:' em si, o que - na situação histórica dada - vale como ób
resulta certamente numa mundaneidade autónoma. Os antigos dispunham de vio, o mundo teria de ser em-si um mundo cirzdido,num sentido particular,
algumas investigações e teorias isoladas sobre os corpos, mas não de um mundo
desconhecidoanteriormente,cindido em naturezaem-si e num modo de ser
encerrado de corpos como tema de uma ciência da natureza universal. Tinham diferente dela: o ente:' psíquico. Isto não podia desde logo deixar de levantar
também investigaçõessobre a alma:9humana e animal, mas não podiam dispor gravesdificuldades, e já com respeito à ideia de Deus, validada pela religião, e
de uma psicologia em sentido moderno uma psicologia que só podia aspirar de modo nenhum abandonada. Não era Deus indispensável, como princípio da
a uma universalidade correspondente, a saber,a um campo a ela pertencente, racionalidade? Não pressupõe o ser racional, e já mesmo como natureza, para
do mesmo modo encerrado em si, porque tinha perante si uma natureza e uma ser de todo pensável, uma teoria racional, e uma subjetividade que a produz?
ciência da natureza universal. Não pressupõe, então, a natureza e, em geral, o mundo em-si, Deus, como a
A cisão e a transformação de sentido do mundo foram a consequência razão que é absolutamente em si? Junto ao ser-em-si, não é então privilegiado o
conceitual da modeZarídadedo método cíenfz@co-?zafz4raZ,
que foi de fato inteira serpsíquico,tomado como subjetividade que é puramente para si? Humana ou
mente inevitável no começo da Modernidade, ou, em outras palavras, no come- divina, trata-se da mesma subjetividade.
ço da racionalidade científico-natural. Na matematização da natureza tal como Sempre que os problemas da razão se faziam sentir, a separaçãodo psí-
foi concebida, como ideia e como tarefa, residia o fato de que a coexistência da quico levantava em geral crescentes diâculdades. <63> É certo que só mais tarde
totalidade infinita dos seus corpos na espaço-temporalidade, considerada em estasse tornaram tão prementes que vieram a se mostrar como o tema central
si, era suposta ser uma coexistência matematicamente racional; só que a ciência da âlosofia, em grandesinvestigaçõessobre o entendimento humano ou em
da natureza, como ciência indutiva, só podia, justamente, ter um acessoindu "Críticas da Razão':A força dos motivos racionalistas estava,contudo, ainda
tivo às conexõesem si matemáticas.Em todo caso,como ciênciaindutora do intacta e, em toda a parte, empreendia-secom plena conâança a elaboração,
matemático, e guiada pela pura matemática, ela possuíajá a mais elevadaracio- em todos os seusaspectos,de uma filosofia racionalista. Não inteiramente sem
nalidade. Não era inevitável que esta ciência se transformasse no modelo para êxito, no que se refere a conhecimentos indubitavelmente valiosos que, mesmo
todo o conhecimento autêntico; não tinha este, <62> se devia ser uma ciência quando "ainda não" correspondiam ao ideal, podiam ser justamente interpreta-
autêntica elevada acima da natureza, de seguir o modelo da ciência da natureza, dos como estádios prévios. O estabelecimentode cada nova ciência particular
ou melhor: o da matemática pura, porquanto talvez nos devesseser "inata': tam- era, então, eo Pso, conduzido pela ideia de uma teoria racional correspondente
bém noutras esferasdo conhecimento, a faculdade da evidência apodítica em e, respectivamente, de um domírzío rácio?zaZem si. A especialização da âlosofia

20 N.T.:Sefend
19 N.T.: See/e.O termo será traduzido, regra geral, por "mente", e só excepcionalmente por
alma 21 N.T.:Se/onde

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em ciências especiaistem, nestascondições, um sentido mais profundo, que se principialmente semelhante ao da natureza, e que se atribua à psicologia uma
prende exclusivamente à atitude moderna. As especializações dos pesquisadores progressão teórica, semelhante à da biofísica, que vai desde a descrição até à
antigos não poderiam resultar em ciências especiais no nosso sentido. A ciência explicação"teórica última. Isto, porém, independentementeda doutrina car-
da natureza de GaZÍZeunão surgiu por uma especialização. SÓas novas ciências tesiana das "substâncias"corpórea e mental separadaspor atributos fundamen-
que se seguiram especializaram, por sua vez, a ideia de uma íi]osoâa racional talmente distintos. Esta nafuraZízação do psíqzzicotransmite-se, através de Joh/z
motivada pela nova ciência da natureza,e dela receberamo seu impulso de l,ocde, a toda a Modernidade até aos dias de hoje. É significativa a expressão
progresso e de conquista de novos domínios: regiões particulares racionalmente imagética de Locke do whífepaper, da reDuZarasa, sobre a qual os dados mentais
encerradas no interior da totalidade racional do universo. vêm e vão, segundo certas regras, tal como os processos corpóreos na natureza.
Desde o início, logo que com Descarnesfoi proclamada a ideia da filosofia Em l,ocde, este naturalismo de uma nova espécie, fisicamente orientado, ainda
racional e a separaçãoentre espírito e natureza,já com o contemporâneode não está formado de modo consequente, ou seja, pensado até o fim como sen-
Descarnes,Hobbes,apresenta-senaturalmente, como a primeira exigência, uma sualismo positivista. Mas ele provoca rapidamente efeitos, de uma maneira de-
nova psicologia. Conforme já o indicamos, essaera uma psicologia de um estilo cisiva para o desenvolvimento histórico de toda a âlosofia. De qualquer modo,
inteiramente estranho ao passado,esboçadaconcretamente, num espírito racio- a nova psíco/ogía naturalista não era, desde o seu início, uma promessa vã, mas
nalista, como uma antropologia psicofísica. entra em cena, de modo notável, com grandes escritos e <65> a pretensão da
Não nos podemos deixar iludir pelo contraste usual entre empirismo e ra- fundamentação durável de uma ciência universal.
cionalismo. O naturalismo de um Hobbespretende ser um íisicalismo e, como todo Todas as novas ciências, imbuídas do mesmo espírito, parecem ter êxito
fisicalismo, segueprecisamente o modelo da racionalidade fisicalista.:: <64> e, acima de todas, também a metafísica. Onde o racionalismo âsicalista não
Isto é válido também para as outras ciências da Modernidade, as ciên- parecia seriamente realizável, como era o caso precisamente da metafísica, aí
cias biológicas etc. A cisão dualista, consequência da concepção fisicalista da recorria-se a paliativos obscuros, por meio da reutilização de conceitos esco-
natureza, provocou nelas uma formação sob a forma de disciplinas cindidas. As lásticos transformados. Aliás, embora fosse o motor do movimento, o sentido
ciências inicialmente orientadas, de modo unilateral, puramente para o corpó- diretor da nova racionalidade não era pensado com precisão na maior parte
reo, ou seja, as ciências biofísicas, foram, na verdade, obrigadas a apreender as dos casos.A sua explicação mais precisa íoi justamente uma parte do trabalho
concreções,de início descritivamente, a desmembrá-las e classiâcá-lasintuiti- do pensar filosófico até l,eíbníz e Christian WoeP Temos na Ética de Espi?zona
vamente; a perspectiva íisicalista da natureza, porém, tornava óbvio que uma um exemplo clássicode como o novo racionalismo naturalista acreditavapo-
Hsicalevada mais longe viria por fim "explicar" de maneira físico-racional todas der, "ordenegeomefríco': criar uma âlosoâa sistemática - uma metafísica, uma
estasconcreções.Assim, o florescimento das ciências biofísico-descritivas, prin- ciência das questõesúltimas e supremas,das questõesda razão, mas que era
cipalmente em virtude da ocasional valorização dos conhecimentos fisicalistas, também, no mesmo passo,ciência das questõesde fato.
era consideradocomo resultado do método científico-natural, interpretado in Contudo, é preciso compreender Espínosa corretamente no seu sentido
variavelmente de modo fisicalista. histórico. É um completo erro interpretar Espí/zonasegundoa aparênciasuper'
No que concerne ao mental,2' por seu lado, que é aquilo que resta após íicial do seu método de demonstração"geométrico': Começando como carte-
a colocação fora de circuito do corpo animal e, em primeiro lugar, do corpo siano, ele está de início naturalmente imbuído da convicção plena de que não
humano pertencente à natureza regionalmente encerrada, a modelaridade da só a natureza, mas a totalidade do ser em geral, tem de ser um sistema racional
concepção físicalista da natureza e do método cientíâco-natural fez com que, unificado. Isto era óbvio de início. O sistemamatemático da naturezatem de
compreensivelmente, já desde Hobbes, seja atribuído à mente um modo de ser estar contido no sistema total - mas, como parte de um sistema, não pode ser
autónomo. Por isso, não se pode entregar a física aos físicos, como se ela fosse
um sistema efetivamente completo, nem, por outro lado, abandonar aos espe'
22 Se me sirvo aqui, e com frequência, da expressão "fisicalismo", isto acontece exclusiva- cialistas da psicologia a formação de um sistema racional próprio ao elo psico-
mente no sentido geral, que se compreende pelo próprio curso das nossasinvestigações,
lógico do dualismo. Mas também o tema teórico de Deus, a substânciaabsoluta,
a saber, como os extravios filosóficos que resultaram de interpretações erróneas do verda-
deiro sentido da física moderna. A palavra não remete aqui, então, especialmente para o não podia deixar de fazer parte da unidade do sistema racional total. Espinosa
movimento fisicalista" ("Círculo de Víena" ou "empirismo lógico"). tem perante si a tarefa de descobrir o postulado sistema racional total do ente
23 NI.: Das Seelische. e, em primeira linha, as condições da sua pensabilidade unitária, e, então, tam

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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental Edmund Husserl
Segunda Parte ' A Elucidação da Origem da Oposição Moderna entre Objetivismo Fisicalista e Subjetivismo.

bém a de realiza-lo sistematicamente numa construção efetiva. SÓassim, pelo ser em progresso infinito - eíetivamente conhecido no seu "ser-em-si" integral.
ato de realiza-la, é demonstrada a eíetiva pensabilidade de uma totalidade <66> Mas disto também faz parte um outro progressopermanente:o da aproxima-
racional do ser. Antes disto, apesar da evidência que, dada esta atitude, residia ção ao ideal matemático do dado empiricamente intuível no mundo circundante
na modelaridade da ciência da natureza, tal pensabilidade é precisamentetão só da vida, designadamente pelo aperfeiçoamento da "subsunção" sempre somente
um postulado, cuja possibilidadenão estavade todo clara para o dualismo de aproximativa dos dados empíricos sob os conceitos ideais que lhes pertencem, o
substâncias fundamentalmente diversas, com a única absoluta e mais própria progresso da ação metódica a ser formada para tal, o reânamento das medições
substância acima delas. Tratava-se, é claro, para Espinosa, somente da generali- pelo aumento das capacidadesoperatórias dos seusinstrumentos etc.
dade sistemática - a sua Ética é a primeira orzfoZogíauniversal. Através dela, pen- Com o poder do conhecimento crescentee sempre mais perfeito do todo,
savaele, alcançar-se-ia o efetivo sentido de sistema para a ciência da natureza o homem conquista também um domínio sempre mais perfeito sobre o seu
atual e para a psicologia, a ser construída como paralela a essaciência, sentido mundo circundanteprático, domínio que se amplia num progressoinfinito.
sem o qual ambaspermaneceriam aíetadasde incompreensibilidade. Aqui se inclui também o domínio sobre a humanidade pertencenteao mundo
circundante real e, logo, também sobre si mesmo e sobre a co-humanidade, um
poder sempre maior sobre o seu próprio destino e, assim, uma "felicidade" a
S 1.2.Característica geral do raciortatismo .Êsicalista moderno:' felicidade pensávelpara o homem de modo em geral racional - sempremais
completa. Porque também com respeito aos valores e aos bens o homem pode
A filosofia, na sua origem antiga, pretendia ser "ciência': conhecimento conhecero verdadeiro em si. Tudo isto se situa no horizonte deste racionalis-
universal do universo do ente, não conhecimento quotidiano vago e relativo - mo como as suasconsequênciasque, para ele, são óbvias. O homem é, assim,
õóêcE masconhecimento racional: ê ttaTflFTI.No entanto, a âlosofia antiga não e6etivamente,a imagem de Deus. Num sentido análogo, tal como a matemática
alcança ainda a verdadeira ideia da racionalidade nem, em conexão com ela, a fda de pontos, linhas etc. inânitamente distantes, pode-se dizer aqui, em com-
verdadeira ideia da ciência universal tal era a convicção dos fundadores da Mo- paração: Deus é o "/comem ínÚnífamenfe disfarzfe': O filósofo, justamente em
dernidade. O novo ideal só foi possível na sequência do modelo da matemática correlação com a matematização do mundo e da âlosofia, idealizou-se matema-
e da ciência da natureza na sua figura moderna. Ele demonstrou a sua virtuali- ticamente a si mesmo e, simultaneamente, de certo modo, a Deus.
dade na velocidade entusiasmante da sua realização. Mas que é, então, a ciência O ideal moderno da universalidade e da racionalidade do conhecimento
universal da ideia moderna - pensada de modo idealmente completo - senão a signiâca, sem dúvida, um enorme progresso lá onde foi o seu berço: na mate.
cíêlzcíade furto? Esta, por conseguinte, é, para os filósofos, uma meta efetivamen mática e na física. Isto, naturalmente, segundo as nossas análises precedentes,
te realizável, embora situada no infinito realizável não para o indivíduo ou para desde que ele seja trazido a uma correta compreensão de si e permaneça livre de
a comunidade de pesquisadores neste momento, mas, sim, no progresso infinito todas astransformaçõesde sentido. Há na história do mundo um objeto mais
das gerações e das suas pesquisas sistemáticas. Julga-se inteleccionar apoditica- digno da admiração filosóâca do que <68> a descoberta de totalidades infinitas
mente que o mundo é, em si, uma unidade racional sistemática onde todos os de verdade, realizáveis num progresso inânito, puramente (como matemática
pormenores singulares têm de ser racionalmente determináveis até ao fim. A sua pura), ou em aproximações (como ciência indutiva da natureza)?E não é quase
forma de sistema (a sua estrutura essencial universal) é alcançável,e está para um milagre todo o trabalho de descoberta efetivamente realizado e desenvolvi-
nós de antemão pronta e conhecida, na medida em que é, em qualquer caso, do? A realização puramente técnico-teórica é um milagre, ainda que tenha sido
puramente matemática. Trata-se tão só de determina-la na sua particularidade, tomada, num sentido transformado, como a própria ciência. Mas o mesmo não
o que, lamentavelmente, só é possível por via indutiva. Este é o caminho cer- acontececom a questão sobre afé orzdepode ser estendida a modelaridade des-
tamente <67> infinito - para a sabedoria total. Vive-se, assim, na confortável tas ciências, e se não foram em geral insuficientes os estudosâlosóficos a que se
certeza de um caminho contínuo, do próximo para o distante, do mais ou menos devem o novo mundo e a nova concepção cientíâca do mundo.
c(mhecidopara o desconhecido,como um método infalível para a ampliação Por pouco que isto acontecesseem relação à natureza, mostrou-se (em-
dos conhecimentos, pelo qual tudo, a totalidade do ente, não poderia deixar de bora só nos tempos mais recentes)que a obviedade de que toda a ciência da na-
tureza é em última instância física as ciências biológicas, assim como todas as
ciências concretas da natureza, tinham, no progresso das pesquisas, de sedeixar
24 Cf.Anexo IV. dissolver cada vez mais na física íoi abalada, e de tal modo que estasciências se

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A Crise dasCiências Europeiase a Fenomenologia Transcendental Edmund Husser
Segunda Parte ' A Elucidação da Origem da Oposição Moderna entre Objetivismo Fisicalista e Subjeüvismo.

viram forçadas a reformas metodológicas. Mas isto não aconteceu,é certo, com O mais radical ceticismo anterior não tinha dirigido os seusataquescon-
base numa revisão principial dos pensamentos inaugurais da ciência moderna
tra essemundo, masfeito tão só valer a sua relatividade, com o fito da negação
da natureza, que se esvaziaram por meio de sua metodologização. da ê7tta flF e do mundo em si a ele âlosoÊcamente substruído. Nisto consistia
o seu agnosticismo.
Assim, entram agora em cena enigmas acerca do mundo de um estilo
$ 13: As primeiras di$culdades do naturalismo $sicatista na psicologia a ínapre- nunca antes imaginado, que condicionam um filosofar de espécie inteiramente
ensibilidade da subjetividade realizadora
nova, a saber, a espécie "gnosiológica': "racional-teórica" e, em breve, também
filosofias sistemáticascom uma definição de metas e um método de espécieto-
Muito antes disso fez-se,entretanto, sentir a diõculdade da matematiza-
talmente nova. Esta revolução, a maior de todas, denominou-se viragem do ob-
ção do mundo, e de uma racionalizaçãodela decalcadade modo pouco claro .jefÍvísmo cienf@co, moderno mas, também, o de rodas as.P/osoÚas dos mí/êlzíos
- isto é, de uma âlosofia orai/ze geomefrÍco - na psicologia nafzzraZísfamoderna. Interiores, em direçãoa um subjetivismo transcendente!.<70>
Pertenciam também ao seu domínio as atividades cognoscitivas e os conheci-
mentos racionais dos âlósofos, dos matemáticos, dos pesquisadoresda natureza
etc., nos quais as novas teorias surgiam como as suas configurações espirituais $ 14. Caracterizaçãopreliminar do objetivismo e do transcetldentalismo.O com
e que, como tal, traziam em si o sentido último da verdade do mundo. Tais
bate destasduas ideias como o serltido da história do espírito moderno
dificuldades fizeram com que surgisse já com Berre/ey e cume um cefícísmo
paradoxal, que era de fato sentido como um contrassenso,embora não propria- O característico do obyefivísmoé mover-se sobre o solo do mundo obvia-
mente apreendido como tal. Esseceticismo se dirigiu em primeiro lugar contra mente pré-dado pela experiência, e perguntar pelas suas "verdades objetivas';
o modelo da racionalidade, contra a matemática e a física, e procurou desvalo- por aquilo que, para essemundo, é incondicionalmente válido, válido para todo
rizar, como acções psicológicas, os seus conceitos fundamentais e o sentido dos o ser racional, segundo aquilo que ele é em si. Realizar isto universalmente é as.
seus domínios (o espaço <69> matemático, a natureza material). Já em Hume,
junto da episteme, da ráfia ou da filosofa. É, assim, alcançado o ente em última
esseceticismo íoi levado até o fim, até a erradicação de todo o ideal da filosofa, instância, para além do qual não faz mais nenhum sentido racional questionar.
da totalidade do gênero da cientificidade das ciências modernas. Foi afetado. O transcendentalismoaârma, pelo contrário, que o sentido do ser do
e isto é muitíssimo signiâcativo, não só o ideal âlosófico moderrzo,mas foda a
mundo da vida pré-dado é uma conúguraçãosuQeríva,realização da vida empí-
./i/osoÚado passado,toda a definição de tarefas de uma filosofia como cíé?leia rica pré-cientíâca. Nesta se constrói o sentido do mundo e a validade do seu ser,
urzíversaZ
oQeríva. Uma situação paradoxall Estava-seperante resultados bem- e, em particular, do mundo efetivamenteválido para aquele que em cadacaso
sucedidos ao mais alto grau, que se acumulavam diariamente e, no mínimo, de experiencia. No que concerne ao mundo "objetivamente verdadeiro': o mundo
uma longa série de novas ciências. Quem nelas trabalhava, ou quem as acompa-
da ciência, ele é uma conúguraçãode grau superior, com base no experienciar
nhava com atenção,vivenciava uma evidência de que nem ele nem ninguém e pensar pré-científicos, e nas suas realizações de validade respectivas. SÓum
- o podia privar. E, no entanto, todo estedesempenho, esta mesma evidência,
radical questionar restrospectivopeia subjetividade e, com efeito, pela subjeti-
tomada num certo novo direcionamento do olhar, e partindo da psicologia, em vidade em zí/rima ínsfáncía geradora de toda a validade do mundo com o seu
cujo domínio sedesenrolavaa açãoprodutora dos resultados,setinham torna-
conteúdo, em todos os seusmodos, científicos e pré-cientíâcos, bem como pelo
do inteiramente incompreensíveis.Mas isto não é tudo. Não foram afetadassó gue e o como das realizações da razão - só um tal questionar pode tornar com-
as ciências modernas e o seumundo, o mundo racionalmente interpretado, mas preensível a verdade objetiva e alcançar o sentido zí/fumodo ser do mundo. Ou
também a consciência e a vida quotidiana do mundo, o mundo pré-cientíâco seja,o primeiro em si não é o ser do mundo na suaobviedadeinquestionada,e
em sentido quotidiano, o mundo em cuja óbvia validade de ser:sse'levam a cabo
não se deve levantar a questão meramente sobre aquilo que objetivamente Ihe
a ação e o exercício do homem intocado pela ciência e, afinal, também a ação e pertence; o primeiro em sí é, ao contrário, czsab/efívidade e, na verdade, a sub-
exercício do cientista; e isto não só quando este retorna à prática quotidiana. jetividade como ingenuamente pré-doadora do ser do mundo e, depois, como
aquela que racionaliza ou, o que é o mesmo: que objetiva.
25 N.T.:Se/osga/tur)g. Há, aqui, no entanto, de antemãoa ameaçado contrassenso,posto que
parece antes de mais nada óbvio que esta subjetividade é o homem, ou seja, a

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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendenta Edmund Husserl
Segunda Parte ' A Elucidação da Origem da Oposição Moderna entre Objetivismo Fisicalista e Subjetivismo

subjetividade psicológica. O transcendentalismo amadurecido protesta contra o devir temporal em que nós próprios estamosinseridos fosseuma mera sequência
idealismo psicológico e pretende, ao contestar a ciência objetiva e?zquanfo
./idoso causal exterior, mas de discernir a partir de dentro. SÓassim teremos uma tarefa
./ía, abrir o caminho para uma cíentÚcídadede fíPOí?zfeíramente novo, uma cien- que nos é verdadeiramente própria; nós, que não só temos uma herança espi-
tiíicidade transcendental.A filosofia anterior não tinha nenhuma noção <71> de ritual, mas também que nada somos senão resultado histórico-espiritual. Não
um subjetivismo deste estilo transcendental. Faltavam os motivos efetivos para alcançámosesta tarefa pela crítica de um sistema qualquer, atual ou antigo, de
uma correspondente alteração de atitude, embora uma tal alteração fosse pensável alguma "visão do mundo" científica ou pré-cientíâca (que poderia ser, afinal,
a partir do ceticismo antigo e, precisamente, do seu relativismo antropológico. uma visão do mundo chinesa), mas somente a partir de uma compreensão críti-
A história da âlosofia inteira, desdeo surgimento da "gnosiologia"e ca da unidade completa da história da nossa história. Pois ela recebe unidade
das tentativas sérias de uma âlosofia transcendental, é a história das tensões espirituala partir da unidadee do impulso da tarefa,que buscaatingir uma
violentas entre a âlosofia objetivista e transcendental, a história das tentativas clareza satisfatória no acontecer histórico no pensar daqueles que âlosofam
permanentes de conservar e de formar numa nova Êgura o objetivismo e, por uns para os outros e uns com os outros de maneira supratemporal - atravésde
outro lado, das tentativas do transcendentalismo de dominar as diâculdades estádiosde obscuridade, até ser por âm inteiramente elaborada numa perfeita
implicadas pela ideia da subjetividade transcendental e do método exigido para clareza intelectiva. Porque ela não está aí apenas como objetivamente neces
tal. É de grande importância o esclarecimento da origem desta cisão interna do sária, mas como dada a nós, filósofos de hoje, somos precisamente aquilo que
desenvolvimento íilosóâco e a análise dos motivos últimos desta transforma- somos, como funcionários da humanidade âlosóflca moderna, como herdeiros
ção maximamente radical da ideia da íilosoâa. SÓesseesclarecimento fornecerá e depositários da direção da vontade que a atravessa,e o somos a partir de uma
uma intelecção do sentido maíspr(!fu?zdoque unifica todo o devir histórico-íilo- instituição inaugural que, contudo, é simultaneamente refundação e modifica
sóÊco da Modernidade: uma unidade de propósitos que vincula as gerações de ção da instituição inaugural grega. Nesta reside o começo fezes/ógíco,o verdadei-
filósofos e a direção de todos os esforços dos sujeitos individuais e das escolas. ro nascimento do espírito europeu em geral.
Trata-se,como tentarei mostrar aqui, de uma direção para umalorma./ina/ da Tal espéciede esclarecimentoda história por meio de uma questãore-
âlosofia transcendental - comolenometzoZogía-, na qual reside, como momen- trospectiva sobre a instituição inaugural das metas que vinculam a cadeia das
to conservado,:' alarma.#tza/ da psicologia, forma que erradica o sentido natu geraçõesfuturas, porquanto nelascontinuam a viver em formas sedimentadas,
ralístico da psicologia moderna. mas que podem ser sempre de novo despertas e criticadas numa renovada veta
lidade; tal espéciede questão retrospectiva pelos modos como metas, que per-
manecem vivas, trazem sempre outra vez consigo novas tentativas de alcançar
S 1.5.Re$exão sobre o método do nosso modo histórico de consideração as metas e, sempre de novo, a insatisfação e a necessidadede esclarecê-las,de
aperfeiçoa-lase de transfigura-las mais ou menos radicalmente isto, digo eu,
O tipo de considerações que temos a empreender, modo esseque deter- não é nada mais do que o verdadeiro autoestudo <73> do filósofo sobre aquilo
mina já o estilo dasindicaçõespreliminares, não é o de consideraçõeshistóri- que ele genuínamerzfe pretende, sobre aquilo que nele é vontade a partir e como
casno sentido usual. Importa-nostornar compreensívela feZeoZogia do devir a vontade dos seusantecessoresespirituais. Trata-se de tornar novamente viva,
histórico da filosofa, em particular da filosofia moderna, e, no mesmo passo, no seu sentido histórico oculto, o conceptualismo sedimentado que, como ob-
esclarecer-nos sobre nós mesmos, como seus portadores e seus colaboradores, viedade, é o solo do seu trabalho privado e a-histórico. Trata-se, no próprio
nos nossos propósitos pessoais. Procuraremos a compreensão da unídízde que autoestudo do filósofo, de levar simultaneamente mais longe o autoestudo dos
vigora em toda a definição histórica de metas, em todas as divergências<72> seus predecessores, e de despertar de novo não só a cadeia dos pensadores, a
e convergências das suastransformações, e, numa crítica permanente que tem socialidade do seu pensar, a sua comunidade de pensamento e de transformá-
sempre em vista a conexão histórica total como conexão pessoal,procuraremos las para nós num presentevivo, mas também, com base nesta u?zídadecompZefa
discernir, por fim, a única tarefa histórica que pessoalmentepodemos reconhe- presentificada,de exerceruma crítica resporzsáve/, uma crítica de uma espécie
cer como a nossa. Trata-se de discernir não a partir de fora, do fato, e como se o particular, cujo solo consiste nesta definição histórica e pessoal de âns, de rea-
lizações parciais e críticas recíprocas,e não nas obviedadesprivadas do 61ósofo
atual. Pensar por si próprio, ser um âlósofo autêntico na vontade de libertação
26 N.T.:.4ufgehoben. de todos os preconceitos, exige a intelecção de que todas as suas obviedades

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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental e Edmund Husserl

Segunda Parte ' A EI Oposição Moderna entre Objeüvismo Fisícalista e Subjeüvismo.

sãopressupostos,que todos os preconceitos são faltas de clareza devidas a uma


sedimentaçãotradicional, e não porventura juízos meramenteindecididos na $ L6. Descartes como instituidor original tanto da ideia moderna do raciottalismo
sua verdade, e de que isto é válido já para a grande tarefa, para a ideia chamada objetivista quanto ão motivo transcendental que o ultrapassa:'
filosofa': Todos os juízos com valor íilosó6co remetem para ela.
Um estudo histórico retrospectivo do tipo do que falamos é, assim, efeti-
vamente, um autoestudo da maior profundidade, orientado para uma autocom-
preensãodo que propriamente se quer e se é como ser histórico. O autoestudo
serve para alcançar uma decisão,e estasignifica aqui, naturalmente, a prossecu-
B
ção da tarefa mais própria, compreendida e esclarecidadoravante a partir deste
autoestudo histórico, e que é atualmente a nossa incumbência comum.
L Pertence,porém, segundo a sua essência,a toda a instituição inaugural
também uma instituição final, tarefa do processohistórico. Esta está realizada
quandoa tareia alcançoua clarezacompletae, assim,um método apodítico
que, a cada passo da realização, é uma transição permanente para novos passos,
que se revestem também do caráter de um êxito absoluto, isto é, apodítico. A
filosofa como tarefa linânita teria chegado, assim, ao seu começo apodítico, ao
seu horizonte de <74> prossecuçãoapodítica. (Seria,como é natural aârmar.
fundamentalmente errado subentender ao sentido maximamente principial do
apodítico, que aqui se anuncia, o sentido usual do apodítico, retirado da mate-
mática tradicional.)
Há que acautelar um erro. Todo filósofo histórico realiza os seusautoes-
tudos leva a cabo o seu debate com os filósofos do seu presentee do seu pas-
sado. Exprime-se sobre tudo isso, âxa, em tais discussões, o seu lugar propno,
cria, assim, para si mesmo uma autocompreensão sobre a sua própria ação, do
mesmo modo como as teorias que trouxe a público emergiram na consciência
daquilo quebuscava.
Contudo, por mais bem informados que estejamospela pesquisahistó-
rica acerca de tais "autointerpretações" (e mesmo sobre as "autointerpretações
de uma série inteira de Êlóso6os),nada aprendemos por isso ainda sobre aquilo
que,na unidade oculta da interioridade intencional que unicamenteconstitui a
unidade da história, em todos estesâlósofos, em última instância "se pretendia'l
Isto só setorna manifesto na instituição final, só a partir destasepode revelara
direção.unitária de todas as filosofias e de todos os filósofos, e somente a partir
dela pode ser alcançada uma elucidação que permite compreender os pensado-
res passados como eles mesmos jamais se poderiam ter compreendido
,-. L:. Isto torna claro que a verdade específica de tal "consideração teleológica
da história' não pode.jamais ser decisivamente refutada com recurso à citação
de testemunhos autobiográficos" documentais dos filósofos passados;pois ela
se se demonstra na ,evidência de um olhar crítico de conjunto que por detrás
dos 'fatos históricos': dos íilosofemas documentados e das suas aparentes diver-
gencias e aproximações, faz cintilar uma harmonia final de sentido.
27 Cf.AnexosV e VI

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matemático.Deve-seatentarbem para isto quandose fala do poder da ideia O conhecimento filosóâco é, segundo l)escarfes, aliso/ufamenfe/u?zdado;
moderna da filosofa, atuante em toda a Modernidade, através de toda a ciência eletem de repousar sobreum fundamento de conhecimento imediato e apodí-
e de toda a cultura, e pela primeira vez captada e apreendida de modo relativa tico que, na sua evidência, exclui qualquer dúvida imaginável. Cada passo de
mente firme por Descarnes. conhecimento mediado tem, pois, de adquirir tal evidência. O passarem revista
Mas l.)escarfesnão foi o patrono da Modernidade somente pela inaugura- das suas convicções anteriores, tanto as alcançadas quanto as recebidas, mostra
ção desta ideia. É, do mesmo modo, altamente notável que, nas suas Àfedífações Ihe que em toda a parte se anunciama dúvida ou possibilidadesde dúvida.
e, justamente,com o propósito de conferir ao racionalismo moderno e logo, Nesta situação, para ele e para qualquer um que queira seriamente âlosofar, é
eo Oso, também ao dualismo, uma fundamentação radical -, Descartes tenha inevitável iniciar com zzmaespéciede 'l?poc/zé"rízdícaZmenfecéfíca,que põe em
levado a cabo uma instituição inaugural de pensamentosque, nos seuspróprios questão o universo de todas as suas convicções anteriores, interdita de ante
efeitos históricos (que se seguiram como que numa teleologia oculta da histó mão qualquer uso das mesmas num juízo, qualquer tomada de posição sobre a
ria), estavamdestinados a destruir precisamente essemesmo racionalismo, pela sua validade ou não validade. Todo filósofo tem de proceder assim uma vez na
revelação do seu contrassenso oculto: exatamente os pensamentos que, como vida e, se não o fez, tem de proceder assim, ainda que já tenha a "sua âlosoâa':
alterna }'erifas,deviam fundar esseracionalismo,traziam em si um senfídopro- Com isto, perante a epoc/zé,esta sua âlosofia deve ser tratada como mais um
/undamenfe ocuifo que, uma vez trazido à luz, o erradicam completamente. preconceito.Esta "epoc/zécartesiana" é, de fato, de um radicalismo até então
inaudito, posto que abarca expressamentenão só a validade de todas as cíêlzcías
anteriores, sem excluir mesmo a matemática, a qual reivindica evidência apo-
S 17. O retorno de Descartes ao "ego copito". Explicitação do sentido da "epoché' dítica, como até mesmo a validade do mundo da vida, previamente dado, pré
cartesiana e extracientífico,ou seja,o mundo da experiênciasensível,semprepré-dado
numa inquestionada obviedade, e toda a vida do pensar por ele alimentada,
Consideremos o curso das duas primeiras À4edifaçõescartesianasde uma tanto a não científica quanto,por âm, também a vida cientíâca.Podemosdizer
perspectiva que faça ressaltar a sua estrutura geral o curso para o ego cogifo, que pela primeira vez é posto de maneira "crítico-gnosiológica" em causa o grau
para o ego das cogifafíonesde quaisquer cogifafa. O nosso tema é, então, esta mínimo de todo o conhecimentoobjetivo, o solo do conhecimentode todas
pergunta predileta dos examespara principiantes da âlosofia. Na verdade, resi- as ciências até então, <78> de todas as ciências "do" mundo: é posta em causa,
de nestas primeiras meditações uma profundidade que é tão difícil de esgotar a saber, a experiência em sentido usual, a experiência "sensível" e, correlati-
que o próprio Descarnesnão foi capaz de o fazer e o foi tão pouco que deixou vamente, o próprio mundo; este, como aquilo que nessa experiência e a partir
novamente se perder a grande descoberta que já tinha nas mãos. Ainda hoje, e, dela tem para nós sentido e ser, tal como é, para nós, na certeza inquestionada,
talvez, justamente só mesmo hoje, segundo me parece, todo aquele que pensa permanentementeválido, com tal e tal conteúdo de realidadessingulares,e só
por si próprio deveria estudar estasprimeiras meditações com grande aprofun- ocasionalmente,e em pormenores singulares, desvalorizado como duvidoso ou
damento, sem se deixar desalentar pela aparência de primitividade, pela aplica- como aparência nula. E a partir daí são também postas em questão todas as re
ção de antemão já conhecida dos novos pensamentos para a prova da existência alizaçõesde sentido e de validade fundadas na experiência. Reside aqui, de fato,
de Deus, paradoxal e fundamentalmente errónea, e por muitas outras faltas de conforme já mencionamos, o início histórico de uma "crítica do conhecimento';
clareza e ambiguidades - mas, então, não deveria tampouco satisfazer-se dema- que será,com efeito, uma crítica radical do conhecimento objetivo.
siado depressa com as próprias refutações. Há boas razões para dar agora lugar Deve mais uma vez recordar-se que o ceticismo antigo, começando com
à minha tentativa <77> de uma cuidadosa explicitação, tentativa que não repete Prof(4gorase GórXías,põe em questão e nega a episteme, isto é, o conhecimento
o que l)escarfes diz, mas recupera o que efetivamente reside no seu pensar; se- científico do ente-em-si, mas não vai além de tal agnosticismo, da negaçãodas
para-se, então, aquilo de que o próprio Descartes estava consciente, daquilo que substruções racionais de uma "íilosoâa" que, com as suas pretensasverdades-
certas obviedades, de resto muito naturais, Ihe esconderam ou âzeram substi- em-si, acreditapoder alcançare admitir um em-si racional. "O" mundo é,para
tuir aos seus pensamentos. Não se trata de meros restos da tradição escolástica, o ceticismo antigo, racionalmente incognoscível, o conhecimento humano não
não são preconceitos contingentes da sua época, mas obvíedadesm{/entres,cuja pode sair para além dos fenómenos subjetivo-relativos. A partir daí haveria,
superação só se pode tornar em geral possível por uma elucidação e por um é certo, uma possibilidade de conduzir o radicalismo mais além (como, por
pensar até ao âm daquilo que, nos seus pensamentos, é original. exemplo, a partir da ambígua proposição de Górgias "nada há"); mas nunca

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se chegou eíetivamente a isso. Ao ceticismo estabelecido de modo negativista Mas há ainda algo mais a acrescentar,e algo de especialmentenotável.
em termos práticos e éticos (políticos) faltou, igualmente, em todas as épocas Pela epoc/zé penetrei até aquela esfera de ser que, como sua pressaposíção abso-
subsequentes, o motivo cartesiano original: penetrar através do inferno de uma lutamente apodÍtica, <8Q> antecede principialmente todo o ente para mim imagi-
epoc/zé quasecética extrema até os portões do céu de uma filosofia absolutamen- rzáveZ
e as suas esferasde ser. Ou, o que para Descartes significa o mesmo: eu, o
te racional, e construir sistematicamenteesta mesma filosofia. eu-eíetuador da epoc/zé,sou o único absolutamente indubitável, que exclui prin-
Mas como é, então, que esta qoché deve realizar isso? Como deve ser cipialmente qualquer possibilidadede dúvida. Tudo o mais que ocorre como
ainda demonstrável um solo originário de evidências imediatas e apodíticas apodítico, como, por exemplo, os axiomas matemáticos, deixa decerto abertas
justamente por meio desta epoc;zé,que põe de um só golpe fora de jogo todo possibilidades de dúvida e, logo, também a pensabilidade da falsidade - esta só
o conhecimento do mundo, em todas as suasfiguras, até mesmo as da simples é excluída, e a reivindicação da apoditicidade só.é satisfeita na condição do êxi-
experiência do mundo e que, por isso, abi;e mão do ser do mundo? A resposta to de uma fundamentação mediata e absolutamente apodítica que a reconduza
reza: se excluo todas as tomadas de posição sobre o ser ou o não ser do mun- àquela evidência apodítica única, à qual, precisamente - se uma âlosofia deve
do, se me abstenho,<79> em relação ao mundo, de qualquer validade de ser, serpossível , tem de reconduzir todo o conhecimento científico.
não me õca, contudo, vedada, no interior desta Croché,foda a validade do ser.
Eu, o eu que leva a cabo a epoc/zé,não estou contido no domínio objetivo des-
sas tomadas de posição, mas, muito pelo contrário, se a levo a cabo de modo S \8. A autointerpretação errâttea de Descarnes: a fatsi$cação psicotogista do pt&ro
efetivamente radical e universal, estou principialmente excluído. Sou necessá ego alcançado pela "epoché":;
rio como aquele que a leva a cabo. Encontro precisamente aí o solo apodítico
buscado, que exclui absolutamente qualquer dúvida possível. Por mais longe Temos agora de dar voz a algo que propositadamente silenciamos até aqui.
que possa levar a dúvida, e se tentar eu mesmo pensar para mim que tudo é Vem, assim, à luz do dia uma ambiguidade ocz4/fanos pensamentos cartesianos;
duvidoso ou que, na verdade,de todo não existe,é absolutamenteevidente mostram-se duas possibilidades de apreender essespensamentos,de forma-los
que eu, no entanto, existiria, como aquele que duvida, aquele que tudo nega. e de lhes definir tarefascientíficas,possibilidadesde que só ama era de início
Uma dúvida universal suprime-se a si mesma. Assim, durante a Crochéuni- óbvia para Descarnes.Assim, o sentido das suasexposiçõesé faticamente (como
versal, está à minha disposição a evidência absolutamente apodítica "eu sou'l suas) unívoco; infelizmente, porém, esta univocidade advém do fato de que ele
Nesta mesma evidência está, porém, incluída também uma grande multiplici- não leva efetivamente a cabo o radicalismo original dos seus pensamentos,de
dade. Sum cogífatzs,esta asserçãode evidência reza, mais concretamente: ego que não sujeita realmente à epoc/zé(não "põe entre parênteses") todas as suas
cogífo cogífafa qua cogifafa. Isto abrange todas as cogífafíorzesisoladas e a sua opiniões prévias, o mundo como um todo ela advém do fato de que Descartes,
síntesefluente na unidade universal de uma cogifafío, nas quais o mundo e o esgotando-sena sua meta, não resgatou exatamente o mais importante do que
que dele a cada vez é por mim pensado, como cogífafum, teve e tem para mim tinha alcançadono "ego" da Croché,de modo a nele fazer puramente desdo-
validade de ser; só que, agora, não mais estou autorizado, como filosofante, brar um +ctuHá(etv âlosófico. Em comparação com o que poderia, muito em
a avalizar gnosiologicamente e a realizar simplesmente, de maneira natural, breve,resultar de tal desdobramento,tudo o que Descartestraz efetivamenteà
estasvalidades. No meu estado de Croché sobre todas elas - não posso mais luz como algo novo por mais original que seja e por mais vastos efeitos que
colaborar com elas.Resta-me,assim,toda a minha vida de atou,experiencian- acarrete - foi, num certo sentido, superâcial e, além disso, desvalorizado pela
te, pensante,valorizante etc., que continua, é certo, a decorrer, só que aquilo interpretação que recebeu. Admirado com esteego pela primeira vez descoberto
que nela estava perante os meus olhos como "o" mundo, como o que é e vale na epoc;zé,Descartespergunta-se, com efeito, a si mesmo, que espéciede eu é
para mim, tornou-se um mero 'Jefzõmeno"e, com efeito, no que diz respeito este, se é porventura o eu do homem, do homem sensivelmente intuível, o eu da
a todas as determinaçõesque Ihe pertencem. Todaselas,bem como opróprio <81> vida vulgar. Ora, ele exclui o corpo somático - juntamente com o mundo
mu?zdo, transformaram-se nasminhas "ídeae'l sãopartes constitutivas insepa- sensível em geral, também este é entregue à Croché - e assim se determina, para
ráveis das minhas cogifafíones, precisamente como suas cogífafa - na epoc/zé. Descartes, o ego como menu síve afzímus síl,e infe/Zecfzzs.
Teríamos, aqui, então, uma esferade ser absoZufamenfeapodífica colhe/uída no
título "ego'l e não porventura a mera proposição axiomática "ego cogffo" ou
sum cogitans' 28 Cf.Anexos Vll e Vlll

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Segunda Parte ' A Elucidação da Origem da Oposição Moderna entre Objeüvismo Fisicalista e Subjeüvismo

Aqui, porém, teríamos algumas perguntas. Não diz a epoc/zérespeito ao


Vê-se como é difícil perceber e avaliar uma alteração de atitude tão mau
todo dos meus dados prévios (os dados prévios daqueleque filosofa), ou seja,
ao mundo inteiro, com todos os homens, e a estesnão só no que se refere aos dita como a da epoc/zéradical e universal. De imediato, nalgum ponto irrom-
pe o "rzafzzraZ sensocomum': alguma coisa da validade ingênua do mundo, que
seus meros corpos? E, então, não diz ela respeito a mim mesmo como homem
íalsiâca o pensar de uma nova espécie que a epoc/zétorna possível e exige. (Daí
í/zfeíro, como aquele que para mim mesmo sou permanentemente válido na
provêm também todas as objeçõesingênuas de quase todos os meus contem-
posse natural do mundo? Não estáDescarnesaqui, com a diferença entre o que
porâneos âlosóâcos contra o meu "cartesianismo" e contra a "redução fenome-
é só sensivelmenteexperienciável e o que, como matemático, é assunto de um
nológica': para a qual preparei o terreno com esta exposição da epoc/zécarte-
puro pensar,já de antemãodominado pela certezagalilaica de um mundo de
siana.) Esta ingenuidade, que é quaseimpossível de erradicar, faz também com
corpos universal e absolutamente puro? Não é para ele já óbvio que a sensibi-
que durante séculosquase ninguém se tenha chocado com o caráter «óbvio" da
lidade aponta para um ente em-si, só que ela pode enganar, e que tem de haver
uma via racional para decidir acerca disso e para reconhecer o que é em-si, na possibilidade de inferênciasa partir do ego e da sua vida cogitativa para um
racionalidade matemática?Mas não é tudo isto posto de uma só vez entre pa- exterior'; e ninguém tenha seperguntado propriamente se,com respeitoa esta
esfera egológica de ser, poderia de todo ter sentido algum "exterior" - o que faz,
rêntesespela epoc;zée, além disso, até mesmo como uma simples possibilidade?
aliás, com que este ego se/a um paradoxo, o maior de todos os enigmas. Muito
É manifesto que, não obstante o radicalismo da ausência de pressupostos que
talvez dependadeste enigma e, para uma âlosoâa, talvez tudo dependa dele. Ao
exige, Descarnesbusca de antemão uma meta para a qual a ruptura até o "ego"
mesmo tempo, o abalo que o próprio Descarnesexperimentou com a descoberta
deve se mostrar como o meio. Ele não vê que, assumida a convicção da possibi-
deste ego talvez possa significar para nós, espíritos menores, o sinal de que algo
lidade da meta e deste meio, já abandonou esseradicalismo. Não basta o mero
aí se anuncia de verdadeiramente grande, de maximamente grande, algo que,
decidir-se à Croché,à abstençãoradical de todos os dados prévios, a toda a pré-
atravésde todos os erros e descaminhos, não podia deixar de um dia vir à luz do
validade do mundano; a Crochétem de ser e permanecer seriamente efetuada.
dia como o "ponto arquimediano" de toda a âlosoâa genuína.
O ego não é um residuum do mundo, mas a posição absolutamente apodítica,
Logo que entrou na história, o motivo moderno do retorno ao ego mani-
tornada possível somente pela epoché, pelo "põr entre parênteses" da validade
festou o seu poder interior <83> ao introduzir uma nova era na âlosoâa e, apesar
compZefado mundo, e a única posição assim tornada possível. A alma, porém,
de todas as falsificações e obscurecimentos, implantar nesta era um novo feios.
é o residuum de uma abstração prévia do puro corpo e, após esta abstração, pelo
menos aparentemente, um complemento deste corpo Mas (como não se deve
deixar de atender), estaabstraçãonão acontecena Croché,mas no modo de con-
S 19. O ittteressepremente de Descarnes
pelo objetivismo como/andamento da sua
sideração do pesquisador da natureza ou do psicólogo, sobre o solo natural do errónea autointerpretação
mundo pré-dado, do mundo que obviamente é.:9Ainda teremos de falar acerca
destas <82> abstrações e da aparência da sua obviedade. Basta aqui tornar cla-
As À4edífaçõesatuaram em Descarnese continuam historicamente até hoje
ro que, nas observaçõesque fundamentam as meditações as de introdução à
a atuar sob a forma nociva de uma substituição do ego pelo próprio eu mental,
Croché e ao seu ego ocorreu uma ruptura da sequência pela identiâcação deste
da imanência egológicapela imanência psicológica, da autopercepçãoegológica
ego com a pura alma. Tudo o que se adquiriu, a grande descoberta deste ego, é
pela evidência do "interior" psíquico ou "autopercepção': O próprio Descarnes
desvalorizado por uma substituição que é um contrassenso:uma pura alma não
acredita efetivamente poder, por meio de conclusões acerca do que transcende o
tem, na Croché,sentido absolutamente nenhum, a não ser como "alma" dentro
propriamente mental, demonstrar o dualismo das substânciasfinitas (por inter-
de "parênteses':isto é, como mero "fenómeno': assim como o corpo somático.
médio da conclusão inicial da transcendência de Deus). Do mesmo modo, julga
Mas não se deve perder de vista o novo conceito de "fenómeno" que surge pela
resolver o problema, significativo para a sua posição, que é um contrassenso-
primeira vez com a Crochécartesiana.
problema que retorna mais tarde, numa forma alterada, em Ka?zf:como podem
asconfigurações da razão geradas na minha razão (as minhas próprias "cZaraeef
dfsfírzcfaepercepfíones") - as da matemática e da ciência matemática da natureza
29 N.T.: Por razões de lateralidade, optou-se, sempre que possível, pela forma "que é", usada - reivindicar uma validade objetivamente "verdadeira': uma validade metafisi-
intransíüvamente, para traduzir se/ande, em detrimento de "existente", que, neste passo,
resultaria mais conforme ao uso português.
camentetranscendente?O sentido do que a Modernidade denomina teoria do
entendimentoou da razão,num sentido pleno, ou seja,a crítica da razãoou pro-

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blemática transcendental, radica nas À4edifízções


cartesianas.À Antiguidade não inteiramente por desenvolver: a í?zfencíolzíz/idade,a qual constitui a essência
conheceu nada de semelhante, visto serem-lhe estranhasa epoc;zécartesiana e da vida egológica. Um outro termo para ela é "cogifafío': por exemplo, o fer
o seu ego. Assim, começa com Descartes, de fato, um ./iZosojar de espécie írzteíra co?zscíenfemenfealgo, [de maneira] experiencial, pensante, senciente, vo]itiva
mente nova, que busca as suas fundamentações últimas no [domíniol subjetivo. etc.; pois toda cogffafíotem o seucogifafz4m.Cada uma é, no sentido mais
Mas que Descarnes,não obstante a sua fundamentação subjetiva, se tenha fixa vasto, <85> um presumir,'; e a cadauma pertence, então, algum modo da
do no puro objetivismo só se tornou possível porque a metas,que de início se certeza - certeza simplesmente, conjectura, considerar como provável, du-
mantinha por si mesma na epoc/zé,e funcionava como/undamenfo absoZz4fo do vidar etc.Em conexãocom estesestãoas diferençasentre conârmaçãoe su-
con/zecimenfo para as fundamentações das ciências objetivas (dito de modo uni- pressãoda confirmaçãoe, respectivamente,entre o verdadeiro e o falso. É
versal, da filosofia), parecia simultaneamente cofundada nestasmesmczsciências bem de ver que o problema que tem por título a intencionalidade abrange
objetivas, nomeadamente,na psicologia, como tema legítimo dessasciências. em si inseparavelmente os problemas do entendimento ou da razão. Ê certo
Não ficou claro para Descarnesque é impossível ao ego <84> - o seu eu, despojado que não se pode falar em Descarnesde uma efetiva posição do problema e tra
de mundo peia Croché,em cujas cogítafíonesfuncionais o mundo possui todo tamentodo tema da "intencionalidade'l Por outro lado, no entanto,pode-se
o sentido de ser que alguma vez possa ter para ele - ocorrer no mundo como caracterizartoda a pretendida fundação da nova õlosofia universal a partir
tema, uma vez que ft/do o que é mundo zoe, logo, também o próprio ser mental, do ego como uma "teoria do conhecimento'l isto é, como uma teoria sobre
o eu no sentido habitual, cria o seu sentido justamente a partir dessas.@nções. como o ego gera, na intencionalidade da sua razão (por atos da razão), co
Era-lhe, então, naturalmente inacessível a observação de que o ego, tal como nhecimento oyeíívo. Isto, em Descarnes,significa: conhecimento mefaÚsíca-
vem a ser descobertona epoc/zé como sendo para si;' mesmo,não é ainda "um" menfe transcendente ao ego.
eu, que pode ter fora de si outros ou muitos coeus.'' Permaneceu-lheoculto que
todas as diferenças tais como eu e tu, interior e exterior, só se "constituem" no
ego absoluto. Compreende-se, então, por que é que Descarnes, na sua pressa de $ 2 1. Descarnescomo ponto de partida para as duas linhas de desenvolvimento: a
fundamentar o objetivismo e as ciências exatascomo proporcionando conheci- do racionalismo e a do empirismo:'
mento metaâsicamente absoluto, não se propôs a far({áade quesfíotzarsistema-
ticamente o puro ego permanecendo consequentemente na epoc;zé - e aqufZo Seseguirmos agora as linhas de desenvolvimento que partem de Des-
que Ihe é próprio, como alas efaculdades, e o /ato de que ttestesfitos ejacutdades cartes,uma delas,a "racionalista':conduz através de Ma/ebr(znc/ze, Espírzosae
eZegera, como realização ínfenciona/. Posto que não se detém nisto, não se Ihe l,eibniz, pela escolawolfhana, até K2znt,o ponto de viragem. Nela atua impetu-
descortina a gigantescaproblemática de, a partir do mundo no ego,como "fenó- osamente e desdobra-se em grandes sistemas o espírito do racionalismo mo
meno': questionar retrospectivamente, de modo sistemático, em que realizações demo, tal como tinha sido implantado por Descarnes.
Aqui domina, assim,a
imanentes do ego, efetivamente identiâcáveis, o mundo recebeuo seu sentido e convicçãode poder efetivar com o método do "mos geomefrícus"um conheci-
ser. É manifesto que uma analítica do ego como menuera para e/eassunto para mento universalabsolutamentefundado do mundo, pensadocomo um "em-si'
a futura psicologia objetiva. transcendente.O empirismo inglês - embora também fortemente influenciado
por Descarnes- reage precisamente contra esta convicção, que a ciência mo-
derna tenha um tal alcance, que chegue até um "transcendente" e, ânalmente,
$ 2Q. A "intencionalidade" em DcscüTtes3: contra este mesmo "transcendente': Trata-se, contudo, de uma reação de tipo
semelhanteà do ceticismo antigo contra os sistemasda âlosoíia racional do
As À4edifaçõesfundamentadoras iniciais eram, por conseguinte, pro- seu tempo. O novo empirismo cético começa já com Hobbes.A crítica do en-
priamente uma peça de psicologia, nas quais há ainda que destacarexpres tendimento feita por l,ocdee as suascontinuaçõesmais imediatasem Berre/ey
samente,como um momento muitíssimo significativo, mas que permaneceu e cume têm, no entanto,para nós, um interessemaior, <86> em virtude do
enorme efeito que tiveram sobre a psicologia e a teoria do conhecimento. Esta
30 N.T.:Ftir s/ch.
31 N.T.:/Wít-/che 33 N.T.: verme/nen
32 Cf.Anexo IX. 34 Cf. Anexo X.

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Segunda Parte ' A Elucidação da Origem da Oposição Moderna entre Objeüvismo Físicalista e Subjetivismo.

linha de desenvolvimento é particularmente signiâcativa, porquanto é uma par no entanto, são elas mesmas cogifafiones na mente encapsulada, devem poder
te essencial do percurso histórico pelo qual o transcendentalismo de Descarnes fundamentar um ser extramental - é omitida ou desfocadaem Z,ocdepara o
(se assim pudermos já denominar a sua viragem original para o ego) que, psi- problema da gênesepsicológica dasvivências reais de validade e das faculdades
cologisticamente falsificado, busca elaborar-se por meio do desdobramento das respectivas. Que os dados sensíveis, subtraídos ao arbítrio da sua produção, são
suas consequênciasaté a consciência da sua insustentabilidade e, a partir daí, afecçõesdo exterior, anunciam corpos do mundo exterior, não constitui para ele
até um transcendentalismo mais autêntico e melhor consciente do seu verda- nenhum problema, mas é antes uma obviedade.
deiro sentido. A esterespeito, o principal e historicamente mais importante íoi a Particularmente nocivo para a psicologia e a gnosiologia subsequentes
autorrevelação do psicologismo empirista (de cunho sensualístico-naturalista) é o fato de l,ocdenão fazer uso da introdução cartesianaoriginal da cogífafío
como um intolerável contrassenso. como cogífízfio de cogífafa e, logo, da intencionalidade -, de não a ter reconhe
cido como tema (aliás, como o tema mais próprio das investigaçõesfundamen-
tadoras). Ele é cego para toda estadiferença. A mente é algo de encerrado, real
S 22. A psicologia naturatístico-gnosiológica de Locke por si, tal qual um corpo; no naturalismo ingênuo, assim, a mente é entendida.
então, como um espaço por si, na sua famosa imagem: como uma lousa, sobre a
A nova psicologia, exigida como correlato pela cisão da ciência pura da qual os dados mentais vão e vêm. Estesensualismo dos dados, em conjunto com
natureza, encontra - como sabemos - no desenvolvimento empirista a sua pri- a doutrina do sentido externo e interno, domina a psicologia e a gnosiologia
meira realização concreta. Esta se ocupa, então, de investigações intrapsicoló- desde há séculos, e até hoje ainda, sem alterar o seu 'sentido fundamental. i;o
gicas no campo da mente, doravante separada da corporeidade, assim como de obstante a luta frequente contra o "atomismo psíquico': No discurso de Locke,
explicações âsiológicas e psicofísicas. Esta psicologia serve, por outro lado, a é naturalmente inevitável a menção a: sensações,percepções,35representações
uma teoria do conhecimento que, em relação à cartesiana,é inteiramente nova de" coisas,ou crer "em-algo': querer "algo" e similares. Mas fica esquecido que,
e muito diferentemente configurada. Na grande obra de l,ocde, esteé, de início, nas percepções," naspr(5prias vivências da co/zscfê?zcía, reside, como fa/, aquilo
o verdadeiro propósito. Esta se apresentacomo uma nova tentativa de reali- que <88> nelas é consciente, ou seja, que a percepção, em si mesma, é percepção
zar precisamente aquilo que as .A4edifações
de Descarnesvisavam a realizar: uma de algo,"desta árvore'l
fundamentação gnosiológica da objetividade das ciências objetivas. A postura Como pode, então, a vida da mente, que é total e inteiramente vida da
cética deste propósito mostra-se desde o início em questõescomo a relativa à consciência,vida intencional do eu, que possui objetualidades como delascons-
extensão, ao alcance ou aos graus da certeza do conhecimento humano. l,ocde ciente, que delas se ocupa, conhecendo, valorizando etc. - como podem, numa
nada pressentedas profundezas da Crochécartesiana e da redução ao ego. Ele tal desatençãoda intencionalidade, os problemas da razão serem em geral abor-
toma simplesmente o ego como mente que, precisamente na evidência da ex- dados e seriamente pesquisados? E é de todo possível fazê-lo, tomando-os como
periência de si, conhece os seus estados,atos e faculdades interiores. SÓo que problemas psicológicos? Não se acham, por fim, por detrás dos problemas psi-
a experiência de si interna mostra, só as nossaspróprias "ideias" são dadas de
modo imediatamenteevidente.Tudo no mundo exterior é inferido.
blemas do "ego" da epoc/zécartesiana? Talvez estas questões não sejam pouco
Assim, o principal é a análise intrapsicológica, com <87> base puramen- importantes e possam dar antecipadamente uma orientação ao leitor que pense
l te na experiênciainterna - onde, porém, de modo inteiramenteingênuo,se
l por si mesmo. Em todo caso, são um indício daquilo que, nas partes seguintes
faz uso das experiências de outros homens e da apreensãoda experiência de deste escrito, se tornará um problema sério, e devem servir como caminho para
si como pertencente a mím, um ;comementre os homens, ou seja, é utilizada a uma âlosoíia a levar a cabo eÉetivamente"sem preconceitos'; uma íilosoâa que
validade objetiva das inferências acercade outros. Toda a investigação decorre, parte da mais radical fundamentaçãono levantamento dos problemas,no mé-
então, em geral do mesmo modo, como investigação objetivo-psicológica, e re- todo, num trabalho a executar sistematicamente.
corre mesmo ao fisiológico no mesmo passo em que, justamente, é toda essa Importa também dizer que o ceticismo de Locke, no que respeita ao ideal
objetividade que está em questão. racional de ciência, e a sua limitação do alcance das novas ciências (que devem
O problema de Z.)escarfespropriamente, o da transcendência das valida-
des egológicas (interpretadas como intrapsicológicas), entre as quais todas as 35 NJ.: Perzepüonen,Wahrnehmungen
maneiras de inferir do mundo exterior, a questão de como as validades que, 36 NI.: Perzeptíonen

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conservar o seu direito), conduz a um agnosticismo de uma nova espécie.Não é que acções as categorias do mundo pré-científico, simplesmente intuível, o da
negada,como no ceticismo antigo, a possibilidade da ciência em geral, embora corporeidade (a saber,a identidade dos corpos persistentes que pretensamente
sejam novamente admitidas coisas-em-si incognoscíveis.A nossaciência huma reside na intuição imediatamente experienciadora), bem como a identidade da
na está exclusivamente dependente das nossas representações e formações con-
pessoapretensamente experienciada. Dizemos algo como: "a" árvore ali adiante,
ceituais, por meio das quais podemos, com efeito, fazer inferências em direção
e dela diferenciamos os seus modos cambiantes de aparição." Mas nada de ima-
ao transcendente, ao passo que é por princípio excluída a aquisição de represen
nente à mente existe para além destes "modos de aparição'l Sãocomplexos de
raçõesapropriadas das próprias coisas-em-si, de representaçõesque exprimam dados, e sempre outra vez complexos de dados, regulados, "ligados" entre si, é
adequadamente a essência própria das mesmas. SÓpossuímos representações e
certo, por associação,pelo que se explica a ilusão de que algo de idêntico os ex-
conhecimentos adequados daquilo que pertence à nossa própria mente.
periencia. E o mesmo no que se refere à pessoa:um "eu" idêntico não é um dado,
<90> mas um amontoado de dados incessantemente cambiantes.A identidade
é uma ficção psicológica. Às ficções desta espécie pertence também a causali-
$ 23. Berkeley- A psicologia de David Hume como teoria .Êccionalistado conhe-
dade, a consequência necessária. A experiência imanente só exibe um post /zoc.
cimento: a "bancarrota" da $1oso$ae da ciências7 O propfer /zoc,a necessidadeda sequência, é uma substituição âctícia. Assim se
transforma, no Treafisede cume, o mundo em geral numa acção, assim como
As ingenuidades e inconsequências de l,ocde conduziram a uma rápida a natureza, o universo de corpos idênticos, o mundo das pessoasidênticas, e,
transformação do seu empirismo, que conduz a um <89> idealismo paradoxal
até desembocar finalmente num consumado contrassenso.O fundamento con- deste modo, também a ciência objetiva que os conhece na sua verdade objetiva.
Somos, então, forçados a dizer: razão, conhecimento, também os verdadeiros
tinua a ser o sensualismo e a aparente obviedade de que o único solo indubitável
valores, todos os puros ideais, mesmo os de espécie ética - tudo isto é ficção.
para todo o conhecimento é a experiência de si e o seu domínio de dados ima-
Trata-se, pois, de fato, de uma barzcarrofa do cora/zecímenfoobefívo. cume
nentes. A partir daí, BerkeZeyreduz as coisas corpóreas, que aparecem na expe-
acaba, n o fundo, num soZ@sismo.Pois como poderiam inferências de dados para
riência natural, aos complexosdos próprios dados sensíveisem que as coisas
dados ultrapassar a esferaimanente? É certo que Hume não levantou a questão,
aparecem. Não é pensável nenhuma inferência pela qual, a partir destes dados
ou em todo caso não disse uma palavra sobre o que se passa com a razão, a razão
sensíveis, se pudesse concluir para outra coisa, a não ser novamente para outros
de Hume, que fundamentou estateoria como verdade, que levou a cabo esta
dados semelhantes.SÓse poderia tratar de uma inferência indutiva, isto é, de-
análise da mente, que demonstrou essasleis da associação. Como é que "ligam
rivada de uma associaçãode ideias. Uma matéria que seja em si, um ')e ne sais
em geral as regras de ordenação conectiva associativa? Ainda que delas soubés-
qz40í':é, segundo l,ocde, uma invenção filosófica. É também signiâcativo que ele semos,não seria o próprio saber novamente um dado sobre a lousa?
dissolva o modo da formação de conceitos da ciência racional da natureza numa Como todo o ceticismo, todo o irracionalismo, também o de cume se su-
crítica sensualista do conhecimento.
prime a si mesmo. O gênio de fíume é tão espantosoquanto é lamentável o fato
fítíme prosseguenestestrilhos até o íim. Todasas categoriasda objetivi-
de que com ele não emparelhe um ef/zosfilosóâco de grandeza correspondente.
dade, tanto as cientíâcas quanto as pré-científicas, nas quais tanto a vida cien
Isto se mostra, ao longo de toda a sua exposição, no desvelo com que Hzzme
tíâca quanto a quotidiana pensam um mundo objetivo, externo à mente, são traveste em trajes suavesos seusresultados, que são contrassensos,e os reinter-
ficções. Em primeiro lugar, os conceitos matemáticos: número, grandeza, contí-
preta de modo inofensivo, sem deixar, no entanto, de retratar, ainda assim (no
nuo, figura geométrica etc. Eles são, diríamos /zós,idealizaçõesmetodicamente
capítulo conclusivo do l Volume do Treafíse),a gigantesca diâculdade com que
necessáriasdos dados intuitivos. No sentido de cume, contudo, são acções, as se defronta o âlósofo teórico consequente.Em lugar de enfrentar a luta com o
sim como, segue-sea conclusão, a matemática inteira, pretensamenteapodítica.
contrassenso, em lugar de desmascarar as pretensas obviedades sobre as quais
A origem destas ficções pode muito bem ser explicada psicologicamente (sc.
se assentameste sensualismo e o psicologismo em geral, para penetrar, então,
sobre o terreno do sensualismo imanente), a saber,a partir da legalidade ima- numa autocompreensãocoerente e numa genuína teoria do conhecimento, dei-
nente das associaçõese das relaçõesentre ideias. Mas também nada mais são do
xa-se estar no papel cómodo, que causa tanta sensação,do ceticismo acadêmico.

37 Cf.Anexos Xle Xll


38 N.T.:frsche/nungswe/sen

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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental Edmund Husser
da OposiçãoModerna entre Objeüvismo Fisicalistae Subjetivismo.

Com estaatitude, veio a sero pai de um positivismo débil ainda influente, que se
te inteira, com as suas "impressões"e "ideias': as suasfaculdadese leis de
desvia dos abismos filosóficos, <91> ou superficialmente os encobre, que se pa-
associaçãopróprias (como paralelo da lei da gravidade), pensadasde modo
cifica com os êxitos das ciências positivas e o seu esclarecimento psicologista.
análogo às físicas, gerava o mundo inteiro, o próprio mundo e não porventu-
nraapenasuma imagem - este produto, porém, era certamente uma simples
$ 24. O abalo do objetivismo, verdadeiro motivo .Rlosó$cooculto no contrassenso f cçao uma representaçãointeriormente montada e, a bem dizer, completa-
do ceticismode cume mente vaga. E isto é válido tanto para o mundo das ciências racionais quanto
para o da experíentia ?aga. " 'l

Façamos,por um momento, uma pausa.Por que signiâca o Treafísede Apesar do contrassensoque pudesseresidir em pontos particulares dos
Hzzme (perante o qual o Ensaio sobre o Erzfendímento Hz4mano é um lamenta. pressupostos,não se fazia sentir aqui uma verdadeoculta inescapável?Não
se anunciava aqui um modo fofa/mente novo de julgar a objetividade do mun-
vel enfraquecimento) um acontecimento histórico tão grande? Que aconteceu
do e todo o seu sentido de ser, assim como, correlativamente, o das ciências
então?O radicalismo cartesiano da ausência de pressupostos,com o fito de
objetivas, modo de julgar que atacava não o seu direito próprio, mas, com
reconduzir o genuíno conhecimento científico às fontes últimas de validade,
certeza, a sua reivindicação filosóâca e metafísica: a reivindicação de uma
e de fundamenta-lo absolutamente a partir delas, requeria reflexões subjeti-
verdade absoluta? Agora era ânalmente possível, e forçoso, compreender - o
vamente orientadas, requeria o retorno ao eu cognoscitivo na sua imanência.
que naquelas ciências tinha passado total e inteiramente despercebido - que
Por pouco que se quisesse aprovar a condução do pensamento por Descartes,
avida da consciênciaé vida prodzzfora,39correra ou incorretamente produ 'i ra
não era mais possível esquivar-se a esta exigência. Mas, depois do ataque
de sentido de ser; já o é como vida sensivelmenteintuinte e, ajorfíorf
cético, era possível melhorar o procedimento cartesiano, era ainda alcançável
a sua meta de fundamentar absolutamente o novo racionalismo filosóâco? A científica. l)escarfesnão se aprofundou no fato de que, tal' como o mundo
sensível o do quotidiano é cogífafz4mde cogífafíones sensíveis, e de que, as-
favor disto falava, desde logo, o gigantesco ímpeto com que se precipitavam
sim, também o mundo científico é cogífaf m de cogifafíones cferzfz@cas.Além
as descobertas matemáticas e científico-naturais. Assim, todos os que, por
disto, ele não observou o círculo em que se encontrava, quando, já na de-
pesquisa ou estudo, tomavam eles mesmos parte nestas ciências, estavam já
monstração de Deus, pressupâs a possibí//Jade de inferências que transcen-
de antemão segurosde que a sua verdade, bem como o seu método. traziam
dem o ego, no mesmo passo em que, pelo contrário, esta possibilidade deveria
em si o selo da validade definitiva e da exemplaridade. Mas agora o ceticismo
ser fundada somentepor aquelademonstração.Que o <93> mundo inteiro
empírico traz à luz do dia aquilo que, de modo não desenvolvido,residia já
pudesse ser ele mesmo um cogífafzím a partir da síntese universal multipla-
na consideração cartesiana fundamental, a saber, que o con/zecímenfoí?zfeiro
mente fluente das cogífafíorzes,e que, num estádio superior, a produção pela
do rtlundo, tanto o pré-científico quanto o científico, é um gzganfesco e?zzgma.
razão das cogifafíones cientíâcas sobre ela construíveis pudesse ser constitu-
Era Hcil seguir Descarnesno retorno ao ego apodítico, na interpretação do tiva para o mundo científico, tal pensamentoestavadele totalmente afastado.
mesmo como mente, na apreensão da evidência originária como evidência da
Mas não íoi ele tornado um pensamentonatural por Berre/ey e cume - dado
percepção interior'l Pois que poderia ser mais claro também do que o modo o pressuposto de que o contrassenso deste empirismo residia tão só numa
como l,ocdeilustrava, como um "w/zÍfepaper': naturalizando-a por tal modo,
certa pretensa obvíedade pela qual a razão imanente era de antemão elimina-
a realidade da mente separada e da historicidade interna que nela decorre, da
gêneseintramental? Mas poder-se-ia, então, <92> evitar o "ídea/esmo"berke- da? Da perspectiva da nossa exposição crítica, o obyeffvísmo"dogmáfíco" foi
profundamente aba/ado pela retomada e radicalização do problema cartesia-
/eya?zoe /zzzmeanoe, ânalmente, o ceticismo com todo o seu contrassenso?
no fundamental por Berre/ey e Hzzme: não só o oqefívfsmo mafemafíza/zfe,
Que paradoxosNada poderia deter a força própria, a crença na verdade das
ciências exatas,que cresciam rapidamente, inatacáveis nos seus resultados que entusiasmou os seus contemporâneos, e que atribui ao próprio mundo
próprios. E, no entanto, assim que se levou em conta que elas são resultados um em-si matemático-racional (que representamos,por assim dizer, sempre
da consciência do sujeito cognoscitivo, a sua evidência e clareza transfor- melhor nas nossasteorias mais ou menos perfeitas), mas o obyefivísmoem
gera/, que dominava há milênios. ' ''
maram-se num inconcebível contrassenso. Que em Descarnesa sensibilidade
ente gere imagens do mundo não era obstáculo; mas, em 13erke/ey,esta
sensibilidade gerava o própria mundo dos corpos e, em cume, gerava a men- 39 N.T.:Le/stendes

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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental Edmund Husser
Segunda Parte ' A Elucidação da Origem da Oposição Moderna entre Objeüvismo Fisicalista e Subjetivismo

$ 25. O motivo "transcendental"no racionalismo:a concepçãode Kart de uma técnica. Trata-se, nestes termos, disso que costumamos chamar de lógica, em-
filosofia transcendental bora numa delimitação tradicional muito estreita. <95> Podemos dizer, então,
com toda a correção (ampliando o seu sentido): trata-se de uma /ógícacomo
É bem conhecido como numa assume igualmente uma posição particular doufrí/za de /formas e como doufrí?za técnica, de universalidade máxima, em or-
na história pela viragem que causou no desenvolvimento do pensar kantiano. O dem à aquisição de uma âlosoâa racional.
próprio Kanf diz, nas suaspalavrasmuito citadas, que Hume o despertou do seu A direção temática era, em consequência, dupla: por um /ado, para um
sono dogmático e deu às suasinvestigações no campo da âlosofia especulativa universo sistemático de "leis lógicas': para o todo teorético das verdadesvoca-
uma outra direção. Era, então, a missão histórica de KZzfzfsofrer aqueleabalo do cionadasa funcionar como normas para todos os juízos que devem poder ser
objetivismo de que há pouco falei, e empreender, com a sua âlosoíia transcen- objetivamente válidos; pertence, aqui, além da lógica formal antiga, também
dental, a solução do problema de que Hzzmese tinha desviado? A resposta só a aritmética, a matemática analítica inteira e, logo, a "maf/zesísuníversa/ís" de
pode ser rzegatíva.Trata-se aqui de um subjetivismo transcendental de um novo Leibniz, bem como todo o a priori em geral.
tipo, o que começa com K2znte se transforma em novas figuras nos sistemas P07- outro /ado, a direção temática voltava-se para observações gerais
do Idealismo alemão. Kanf não pertence à linha de desenvolvimento que atua acercade quem julga como visando a uma verdade objetiva: como têm os que
continuamente desdeDescarnese passapor Locke; ele não é <94> o continuador julgam de fazer uso daquelas leis normativas, para que possa ocorrer a evidên-
de Hume. A sua interpretação do ceticismo de Hume e a maneira como reagea cia na qual um juízo se mostra como objetivamente válido; e, do mesmo modo,
ele sãocondicionadas pela sua própria origem na escolade WolR. A "revolução para os modos e tentações conducentes ao fracasso etc.
do modo de pensar" motivada pelo obstáculo de cume não sedirige contra o Era, então, manifesto que, em todas as leis "lógicas" em sentido lato, a
empirismo, mas contra o modo de pensar do racionalismo pós-cartesiano, cujo começar pela lei da não contradição, estava eo ipso contida a verdade meti!/bica.
grande completador foi l,eíbníz, e que encontrou em ChrÍsfía?zWoe#'asua expo- A teoria sistematicamenteelaborada dessasleis tinha por si mesma o significa-
sição escolar sistemática, a sua mais eficaz e mais convincente âgura. do de uma onfo/ogíazzniversa/.O que aqui aconteciacientificamente era obra
Que significa, em primeiro lugar, e tomado em toda a generalidade,o da razão pura a operar exclusivamente com os conceitos inatos à mente cog-
dogmafísmo"que Kant erradica? Embora as À4edítações continuem a influir noscitiva. Era "óbvio" que estesconceitos, que estas leis lógicas, as legalidades
sobrea íilosoâa pós-cartesiana, foi precisamente o radicalismo apaixonado que puras da razão,contêm em geral uma verdade metafísico-objetiva. Recordando
as move que não se transmitiu, todavia, aos continuadores de l)escarfes. Pron- Descarnes, recorria-se ocasionalmentetambém a Deus como garantia, sem se
tamente reconhecia-seaquilo que Descarnessó no questionamento pelas fontes preocupar com o fato de que a metafísica racional tinha antes de demonstrar a
últimas de todo o conhecimento queria fundamentar, e que achou tão difícil de existência de Deus.
fundar o direito absoluto, metafísico, das ciências objetivas, ou, tomado na sua Perante a faculdade do puro pensar, a priori, a faculdade da razão pura,
totalidade: da âlosofia como a única ciência universal objetiva ou, o que vem estavaa sensibilidade, a faculdade da experiência externa e interna. É certo que
dar ao mesmo, o direito do ego cognoscitivo de, em virtude das evidências que o sujeito, afetado "de fora" na experiência externa, tem, por meio desta,a certeza
sejogam na sua "menu': admitir as suasfiguras racionais como a natureza, com de objetos que o afetam, mas, para reconhecê-los na sua verdade, ele necessita
um sentido que as transcende. A nova concepção da natureza, como mundo en- da razão pura, isto é, do sistemadas normas em que essaverdadese explicita,
cerrado de corpos; as ciências da natureza referidas a este mundo; a concepção como a "lógica" para todo o conhecimento verdadeiro do mundo objetivo. Esta
correlativa de mentes encerradase a tarefa a ela referida, de uma nova psicolo- éaconcepção.<96>
gia segundo um método racional conforme ao modelo matemático, tudo isto se Ora, no que diz respeito a KZz?zf,
que já tinha sofrido influências da psi-
impôs. A filosofia racional trabalhava em todas as direções, o interesse dirigia- cologia empírica, foi-lhe feito por Hume sentir que, entre aspuras verdadesda
se para as descobertas, as teorias, para o rigor das suas conclusões, de acordo razão e a objetividade metafísica, abre-se um abismo de incompreensão, a saber,
com o caráter geral do método e da sua completude. Falava-semuito, então, e, como poderiam precisamente essasverdades da razão dar efetivamente conta
também, com generalidade científica, sobre o conhecimento. Mas esta reflexão do conhecimento das coisas. A racionalidade modelar das ciências matemáticas
cognoscitiva não era a reflexão fralzscerzdenfaZ,
mas práfíco-cogrzoscifíva,ou seja, da naturezatransformou-se num enigma. Que estasdeviam a sua racionalidade
uma reflexão semelhante àquelaque o agente exercenuma qualquer outra esfera de fato inteiramente indubitável, ou seja,o seu método, ao a priori normativo da
prática de interesses,e que se expressa nas proposições gerais de uma doufrína razão puramente lógico-matemática, que esta demonstrava nas suasdisciplinas

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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendenta Edmund Husserl
Segunda Parte ' A Elucidação da Origem da Oposição Moderna entre Objeüvismo Fisicalista e Subjetivismo

uma racionalidade pura inatacável, isso era seguro. A ciência da natureza não tos que, segundo o ser e o não ser, segundo o ser constituído assim ou de outro
é, com certeza,puramente racional, na medida em que precisada experiência modo, devem poder ser cognoscíveis em verdade objetiva, ou seja, cientifica
externa, da sensibilidade; mas tudo o que nela é racional deve-o à razão pura e mente, então o mundo fenomênico intuível tem de ser já uma configuração das
à sua normação;" só por seu intermédio pode haver experiência racionalizada. faculdades da "pura intuição" e da "pura razão': as mesmas faculdades que, na
No que toca à sensibilidade, por sua vez, assumiu-se em geral que esta fornece lógica ou na matemática, se exprimem num pensar explícito.
tão só os meros dados sensíveis da sensação,exatamente como resultado da Em outras palavras, a razão tem uma maneira dupla de funcionar e de se
afecçãoa partir de fora. E, no entanto, fez-se como se o mundo da experiência mostrar. t/ma maneira é a sua autoexplicitação, automanifestação sistemática
do homem pré-científico - a experiência ainda não logicizada pela matemática no livre e puro matematizar, na atividade das ciências matemáticas puras. Ela
fosseo mundo pré-dado pela mera sensibilidade. l pressupõe aí a formação da "pura intuição': que pertence ainda à sensibilidade.
cume tinha mostrado que tínhamos ingenuamente introduzido causali- O resultado objetivo de ambas as faculdadesé a pura matemáticacomo teo
dade nesse mundo, e julgado apreender, na intuição, uma sequência necessária. ria. A outra maneira é a da razão que funciona ocultamente em permanência,
E o mesmo é válido para tudo o que faz dos corpos do mundo circundante quo- racionalizando sempreos dados sensíveise tendo-os semprejá racionalizado.
tidiano coisasidênticas, com propriedades, relaçõesetc. idênticas (como de fato O seu resultadoobjetivo é o mundo dos objetos sensivelmenteintuível o
o explicou largamente Hzzmeno Treafíse,que permaneceu desconhecido para pressuposto empírico de todo o pensar científico-natural, como o pensar que
Kanf). Dados e complexos de dados vão e vêm, a coisa alegadamente apenas normaliza conscientemente a empíría do mundo circundante pela razão ma-
experienciada de modo sensível não é algo de sensível que persiste através dessa temática manifesta. Assim como o mundo intuível de corpos, também o mun-
mudança. O sensualista explica-a, por isso, como uma ficção. do científico-natural (e, assim, <98> o mundo a ser conhecido cientiâcamente
Ele substitui, di-lo-emos nós,as percepções, que nos colocam frente aos de modo dualista) é, em geral, uma configuração subjetiva do nosso intelecto,
olhos coisas(as coisasdo quotidiano), por meros dados dos sentidos.Por outras sendo que o material dos dados sensíveisderiva de uma afecçãotranscendente
palavras:não se observa o fato de que a mera sensibilidade,referida a meros por "coisas em si': Estas são principialmente inacessíveis ao conhecimento (ob-
dados da sensação, não pode dar conta de nenhum objeto da experiência. Logo, jetivo-científico). Porque, segundo esta teoria, a ciência humana, como uma
não se dá conta de que estesobjetos da experiência remetem para uma realiza- realização vinculada à combinação das faculdades subjetivas "sensibilidade" e
ção espiritual oculta e deixa ao mesmo tempo de considerar o problema sobre 'razão" (ou, como diz Kanf aqui, "entendimento"), não pode explicar a origem,
de que espécie de realização se trata aí. <97> Ela tem, desde logo, de ser uma tal a "causa" das multiplicidades fáticas dos dados sensíveis. Os pressupostos úl-
que torna a experiência pré-científica capaz de ser cognoscível pela lógica, pela timos da possibilidade e da efetividade do conhecimento objetivo não podem
matemática ou pela ciência matemática da natureza numa validade objetiva, ser objetivamente cognoscíveis.
isto é, numa necessidadeadmissível e vinculativa para qualquer um. Sea ciência da natureza setivesseconsiderado como um ramo da filosofia,
Kant, porém, diz para si mesmo: sem dúvida, as coisasaparecem,mas da ciência última do ente e, com a sua racionalidade, acreditado poder conhecer
unicamente porque os dados sensíveis,já ocultamente tomados em conjunto de o ente em si para além da subjetividade das faculdades do conhecimento, então
determinadas maneiras por formas a priori, são logicizados nessatransforma a cÍêrzcíao@efíva,como realização que permanece na subjetividade, divorcia-se,
ção - sem que a razão que, como lógica, se tornou manifestamente matemática, para K2zrzf,da s a feoría./Í/osó/Ícaque, como teoria da realização que se efetua
tivesse sido questionada e chegado a uma função normativa. Ora, é esta [fun- necessariamentena subjetividade e, assim, como teoria da possibilidade e do
çãol quase lógica uma contingência psicológica; pode, se disso fizermos abstra- alcance do conhecimento objetivo, descobre a ingenuidade da.#ZosoÚaprefensa-
ção, uma matemática, uma lógica da natureza em geral ter uma possibilidade mettte racional da natureza-em-s{.
de, com meros dados sensíveis,conhecer objetos? É bem conhecido como esta crítica é, para Karzf, entretanto, só o início
Tais são, se vejo bem, os pensamentos intimamente diretores de Kant. de uma âlosofia, no sentido antigo, do universo do ente, ou seja,que se estende
De fato, Kant procura mostrar, então, num procedimento regressivo,que, se a também atéo em-si racíorza/menteincognoscível como, sob o título de Crífíca
experiência comum é efetivamente experiência de abetos da rzaf reza, de obje- da razão prática e Crífíca da JaczzZdadede julgar, não só limita as pretensões
filosóficas, mas acredita poder abrir vias para o em-si "cientificamente" incog-
noscível. Não precisamos entrar aqui neste ponto. O que nos interessa agora é
40 N.T.:/Vormferur7g.
que - em termos de generalidade formal Kanf, em reação ao positivismo dos

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Segunda Parte ' A Elucidação da Origem da Oposição Moderna entre Objetivismo Fisicalista e Subjeüvismo

dados de IJame conforme Kanf o compreende - projeta uma grande âlosofia, Ka?zf, porém é fácil de ver -, assume tantos pressupostos "Óbvios" como
sistematicamente construída, de uma nova espéciee, no entanto, cientíâca, na válidos, os quais, em sentido humiano, estão incluídos neste enigma do mundo,
qual a viragem cartesianapara a subjetividade da consciência atua sob a forma
que nunca chegou até estemesmo enigma. A sua problemática inteira estápre-
de um subjetivismo transcendental. cisamente sobre o solo do racionalismo que desde Descarnes,através de l,eíbníz.
Como quer que se considere a verdade da filosofa kantiana, sobre a qual corre até Wo/ü
não precisamos aqíü ajuizar, não podemos esquecer <99> que cume, conforme Desta maneira, através do principal problema orientador e determina-
Kanf o compreende, não é o verdadeiro Hz4me. dor do pensar kantiano, o da ciência racional da natureza,procuramos tornar
Ka?ztfala do "proa/ema h míano't O que é que move efetivamente o pró- compreensível a posição de Kant perante a sua circunstância histórica, de difícil
prio cume? Iremos encontra-lo se transformarmos a teoria cética de cume, a interpretação.Aquilo que nos interessaem particular - dito, em primeiro lu-
sua afirmação total, de volta no seu problema, ampliando-o nas consequências
gar, numa generalidade formal - é que, em reação ao positivismo dos dados de
que não encontram, na teoria, a sua expressãototalmente acabada,embo- Hume que, no seuficcionalismo, desisteda filosofia como ciência, surgeagora,
ra sejadifícil de admitir que um gênio com o espírito da espéciede Hume pe/a primeira vez desde Descarnes, uma grande âlosofia científica sistemática .
não tivesse visto as consequências que não retirou expressamentenem tratou mente construída, que se pode denominar suyerívísmo fra/zsce?zdenfa/.
teoricamente. Se procedermos assim, encontraremos nada menos do que o
problema universal:
Como se pode tornar compreensívela obvíedade ingênzzada certeza do S 26. Discussão prévia do conceito, para nós, orientador, de "transcendental
mundo em que vivemose, além disso,tanto a certezado mundo quofídíano
como a das co?zsfruções feór cas eruditas com base neste mundo quotidiano? Gostaria de fazer desdejá notar que o termo './iZosoÜafrarzscendenfa/"se
Que é isto, no seu sentido e validade: "mundo objetivo': ser objetivo ver tornou, então, desde Kant, usual, também como nome geral para filosoâas uni-
dadeiro ou, igualmente, verdade objetiva da ciência, se, desde Hume (e, no que versais, cujos conceitos se orientam pelo tipo da filosofa kantiana. Eu mesmo
concerne à natureza, já desde Berkeley),é universalmente visto que o "muzzdo': sirvo-me da palavra "transcendental': no senfído mais /afo, para o motivo origi-
com todo o conteúdo com que, sempre e em cada caso,o mundo vale para mim, nal - que discutimos acima com minúcia - que, por intermédio de l)escarfes, é
é uma validade originada na subjetividade e - falando a partir de mim, isto é, de doador de sentido para todas as âlosoâas modernas, motivo que em todas elas
quem em cada caso filosofa originada na mí/zha subjetividade? procura, por assim dizer, vir a si mesmo, lograr a pura e genuína deânição da sua
A ingenuidade do discurso sobre a "objetividade" que deixa inteiramente tarefa e a sua influência sistemática. Este é o motivo do questionar retrospectivo
fora de questão a subjetividade que experiencia e que conhece, a subjetividade pelas fontes últimas de todas as formações cognoscitivas, de todo o estudo de si
realizadora de modo efetivamente concreto, a í/zgenuídadedo cientista da na mesmo e da sua vida cognoscitiva por parte daquele que conhece, vida cognos-
tureza ou do mundo em geral, que é cego para o fato de que todas as verdades citiva essana qual todas as conâgurações científicas para ela válidas acontecem
por ele objetivamenteadquiridas e que o próprio mundo objetivo (tanto como teleologicamente, são conservadas como aquisições <lOl> que se tornaram e
mundo quotidiano da experiência quanto como mundo cognoscitivo conceitu tornam livremente disponíveis. Operando radicalmente, esteé o motivo de uma
al, de nível superior), o qual nas suas fórmulas é o substrato, é a conúguraçãoda filosofa universal, fundada puramente a partir desta fonte, ou seja, dotada de
sua própria vida, configuração surgida nele mesmo - tal ingenuidade não é mais uma fundamentação última. Esta fonte tem o nome de ezz-mesmocom a minha
possível, é claro, logo que a vida se coloca no foco da visão. E não tem esta liber- vida cognoscitiva inteira, e6etivae virtual, e, por fim, com a minha vida concreta
tação [da ingenuidades de ser atribuída àque]eque seriamente se aprofunda no em geral. Toda a problemática transcendentalgira em torno da relação deste
rreafíse, e que, após a descoberta dos pressupostos naturalistas de Hzzme,toma
meu eu - o "(lgo" - com aquilo que, em primeiro lugar, é obviamente tomado
consciência do poder da sua motivação? por ele: a minha mente; e gira, então, por sua vez, em torno da relação deste eu
Mas como é apreensívelestesuyefívísmo maxfmametzferadical, <100> e da minha vida da consciência com o mundo, de que sou consciente e cujo ver-
que torna subjetivo o próprio mundo? O enigma do mundo, no seu sentido dadeiro ser conheço nas minhas próprias configurações cognoscitivas.
último e maisprofundo, é o enigma de um mundo cujo ser é sera parfír da rea- Este conceito mais geral de "transcendental" não é, naturalmente, atestávelde
lização sz4byefí?a,
e isto na evidência de que uma outra realização não é de todo modo documental; não se pode alcançar pela interpretação imanente dos sistemas
pensável - este, e não outro, é o problema de cume. singulares e pela sua comparação. Ao contrário, é um conceito adquirido por meio

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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental + Edmund Husserl l Segunda Parte ' A Elucidação da Origem da Oposição Moderna entre Objeüvismo Fisicalista e Subjetivisma

do cíenfz@co-posífívoé uma ilusão, e que as suas realizações são ilusórias, mas a de

3,":.Z':;=;1:
: 'Ti;ZT=:='==;.;Z:=.r:;='««.". m=======ZU'=m==::ÚH :
realizaçõesda ciência positiva e, correlativamente, o verdadeiro sentido de serdo
Retornando a Katzt, também o seu sistema é muito corretamente carac-

l $ 1HI
mundo objetivo - como um sentido justamente subietivo-transcendental.

1 HW$ 1 ""'';=T=:=T==.::=1:=:1=: ::;eHsm.«-:

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(» TERCEIRA PARTE

<105>A CLARIFICAÇÃO DO PROBLEMA TRANSCENDENTAL E


A FUNÇÃO CORRESPONDENTEDA PSICOLOGIA

A. O caminho para a íilosoíia transcendental fenomenológica a partir da


questão retrospectiva acerca do mundo da vida pré-dado:

S 28. O "pressuposto"não explícito de Kart: o mundo da vida circundante dado


coz7zoóbvios

Kant está seguro de que a sua âlosoâa viria derrubar o racionalismo domi-
nante pela demonstraçãoda insuficiência dos fundamentos deste racionalismo.
Censura-lhe, com razão, a omissão de questões que, segundo Kant, devem ser
as fundamentais. Censura-lhe, nomeadamente, o fato de não aprofundar jamais
a estrutura subjetiva da nossa consciência do mundo antes do e em meio ao co-
nhecimento científico e, em consequência,de jamais questionarcomo o mundo
que, sem mais nos aparece,como homens e como cientistas, nos vem a ser cog
noscível a priori; ou seja, o fato de não questionar como é possível a ciência exata
da natureza,para a qual a matemáticapura e o restantea priori puro é, incondi-
cionalmente e para todo o ser racional (todo aquele que pensa racionalmente), o
instrumento de todo o conhecimento objetivo válido.
Mas Kant não tem, por seu turno, nenhuma ideia do fato de que o seuâ-
11 losofar se apoia sobre pressupostos inquestionados e de que as descobertas,sem
dúvida grandes, que se encontram nas suasteorias, só lá se encontram de modo
velado, e de que, por isso, não são resultados acabados, tampouco quanto as pró-
prias teorias não <106> são teorias acabadas,não têm a forma da cientiíicidade
definitiva. O que Kant oferecerequer um novo trabalho e, antes de mais, uma
análise crítica. Um exemplo de uma grande descoberta - ou, antes, de uma mera
pré-descoberta refere-seà naturezada dupla função do entendimento que, por
um lado, seexplicita em leis normativas numa explícita autoconsideraçãoe, por
outro, é o entendimento ordenador oculto, isto é, ordenador como entendimen
to constitutivo para a figura de sentido "mundo circundante intuível': que per-
manentemente vem a ser e prossegue, mutável, no devir. Esta descoberta não se
poderia jamais fundar efetivamente à maneira da teoria kantiana, como resulta
do do seu método meramente regressivo,e nem sequer tornar-se perfeitamente

1 Cf.Anexo XIII.
2 Cf.AnexosXIV e XV
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental ' Edmund Husserl
Terceira Parte ©A Clarificação do Problema Transcendental e a Função Correspondente da Psicologia

compreensível. Na "Dedução transcendental" da primeira edição da Críffca da


mudança dos modos de aparecer (por exemplo, as perspectivas, as aparições' de
razão pura, Kant se lança em uma fundamentação direta, que procura descer
proximidade e distância), nos quais o mesmo objetivo se expõe como ele mes-
até as fontes originárias, mas tão só para de novo a interromper sem chegar ao
mo presente.Vemos isto na mudança da atitude. Dirigido diretamente ao objeto
problema propriamente dito da fundamentação, problema esseque precisa ser
e ao que Ihe é próprio, o olhar percorre as aparições até o que continuamente
aberto por esta perspectiva pretensamente psicológica.
aparecena sua unificação contínua o objeto, na validade de ser do modo "ele
Começamos as nossasreflexões mostrando que as problematizações kan-
mesmo presente': Numa atitude reflexiva, não temos um só, mas um diverso;
tianas da crítica da razão têm um solo inquestionado de pressupostosque co-
o próprio decurso das aparições é agora temática, e não o que nelas aparece.
determinam o sentido das suamquestões. Ciências, a cujas verdades e a cujos
A percepçãoé o modo originário da intuição, e/a expõe em originalidade pri-
métodos Kant atribui efetiva validade, tornam-se problemáticas e, com elas, mordial, ou seja,no modo da própria presença.Temos,ao lado deste,outros
também as esferaspróprias de ser a que se referem. Tornam-se problemáticas modos da intuição que têm em si mesmos, conscientemente, o caráter de modi-
por força de certas questões que coenvolvem a consideração da subjetividade
âcações deste autopresente "ele mesmo aí': São presentiâcações,' modificações
cognoscitiva e encontram a suaresposta por meio de teorias acercada subjetivi
da presentação;s elas tornam conscientes modalidades do tempo, por exemplo,
dade transcendental-formativa, das realizações transcendentais da sensibilida-
não o estar-aí-ele-próprio, mas o ter-estado-aí-ele-próprio, ou o <108> futuro, o
de, do entendimento etc., e principalmente das funções do eu como "apercepção
estará-aí-ele-próprio. As intuições presentificadoras "repetem" - em certas mo-
transcendental': As realizações,tornadas enigmáticas, da ciência matemática da
diâcações que lhes são próprias - todas as multiplicidades de aparições em que
natureza e da matemática pura (no nosso sentido alargado), como o seumétodo
o objetivo se expõe segundo a percepção: a intuição rememoradora, por exem-
lógico, devem tornar-se compreensíveis por intermédio destas teorias, mas con
plo, mostra o objeto como ele-próprio-tendo-sido-aí, na medida em que repete
duziram igualmente a uma reinterpretação revolucionária do próprio sentido
a perspectivaçãoe restantesmodos de aparição, mas em modiâcações conforme
do ser da naturezacomo mundo da experiênciapossívele do conhecimento
a memória. Ela é, então, consciente como perspectivação passada,como curso
possível e, por conseguinte, de modo correlativo, também à reinterpretação do passado de "exposições de" subjetivas, nas minhas anteriores validades do ser.
sentido especíâco da verdade das ciências em questão.
Podemosaqui esclarecer,na sua justificação muito limitada, o discurso
É claro que, nas problematizações kantianas, o mundo circundante quo-
acercado mundo dos sentidos,do mundo da intuição sensível,do mundo sen-
tidiano, onde <107> todos nós, e também eu que, em cada caso, âlosofo, de ma
sível das aparições. Em todas as confirmações da vida natural dos interesses, da
neira consciente, existimos, se encontra de antemão pressuposto como existente;
vida contida puramente no mundo da vida, o retorno à intuição "sensivelmente
o mesmo vale para as ciências, como fatos da cultura deste mundo, com os seus
experienciadora desempenhaum papel proeminente. Pois tudo o que se expõe
cientistas e teorias: também elas existem no mundo circundante quotidiano.
no mundo da vida como coisa concreta tem, obviamente, uma corporeidade,
Em termos do mundo da vida, somos nele objetos entre objetos, como estando ainda que não seja um mero corpo, como, por exemplo, um animal ou um ob-
aqui e ali, na certeza simples da experiência, antes de quaisquer verificações
jeto cultural, ou seja,que tenha propriedadesespirituais,psíquicasou outras.
cientíâcas, sejam elas fisiológicas, psicológicas, sociológicas etc. Somos, por ou-
Contudo, se atendermos somente à pura corporeidade das coisas,então é ma-
tro lado, sujeitos para este mundo, a saber,como os eus-sujeitos a ele referidos nifesto que esta só se expõe, segundo a percepção, no ver, no tatear, no ouvir
de modo teleologicamente ativo, que o experienciam, consideram, valorizam, etc., ou seja, nos aspectos táteis, acústicos e semelhantes. Nisso está óbvia e ine.
para quem este mundo circundante tem somente o sentido de ser que as nos
gavelmenteimplicado o nosso corpo somático,que não falta jamais ao campo
sas experiências, os nossos pensamentos, as nossasvalorizações etc., em cada
perceptivo, com os seus "órgãos de percepção" correspondentes (olhos, mãos,
caso Ihe conferiram, e segundo os modos de validade (a certeza, a possibilidade,
ouvidos etc.). Estesdesempenham aqui, conscientemente, um papel constante
eventualmente a aparência do ser etc.) que de fato realizamos, como os sujeitos e, com efeito, funcionam no ver, no ouvir etc., em conjunto com a mobilidade
das validades, e de que dispomos e trazemos em nós como aquisiçõeshabituais egoica' que lhes pertence, a chamada anestesia. Todas as sinestesias, todo o "eu
anteriores, como validades de tal ou tal conteúdo, de novo arbitrariamente atu
alizáveis. Isto, é certo, em múltiplas alterações,enquanto "o" mundo se mantém
l
3
como sendo de modo unitário, corrigindo-se somente no seu conteúdo. NI.: Erscheinungen
4 N.T.: UergegenwârHgungen
É manifesto que se distingue na evidência a mudança do conteúdo do 5 N.T.:Gegenwãrtigung
objeto percebido, como a alteração ou o movimento nele mesmo percebidos, da 6 N:T.:fchlichen.

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A Crise dasCiências Europeiase a Fenomenologia Transcendenta Edmund Husserl Terceira Parte ' A Clarificaçãodo Problema Transcendental e a FunçãoCorrespondente da Psicologia

movo': o "eu faço': estão interligados na unidade universal, onde a paralisação Limitamos a reflexão à consciência perceptiva das coisas, à percepção
sinestésicaé um modo do "eu faço': É, então, manifesto que as exposições de própria delas <llO> e ao meu campo de percepção.Aqui, única e exclusiva-
aspectosdo corpo que a cada vez aparece à percepção e as sinestesiasnão são mente o meu corpo somático pode ser percebido, nunca um corpo somático
processosa decorrer lado a lado, mas, muito pelo contrário, combinam de tal estranho na suacorporalidade somática : mas somentecomo corpo [físico].
modo entre si que os aspectos só possuem sentido de ser, só possuem a validade Encontro-me no meu campo perceptivo egologicamente no domínio dos meus
de aspectos do corpo, na medida em que, por meio do pâr-em-jogo desta ou órgãos e, do mesmo modo, em geral em tudo o mais que egologicamente me
daquela sinestesiaparticular, são continuamente exigidos pelas sinestesias,pela pertence, nos meus atos-eu e faculdades. Mas, posto que os objetos do mundo
situação global sinestésico-sensível em qualquer das suas modificações ativas da da vida, se exibem o seu ser próprio, fazem-no necessariamente como corporei-
sinestesiaglobal, <109> e porque preenchem tal exigência de modo adequado. dade, mas não por isso como meramente corpóreos, então, em todos os objetos
Assim, pertence fundamental e essencialmentea toda a experiência dos que para nós existem, estamos sempre somaticamente presentes, mas não só
corpos a sensibilidade, o funcionar ego-ativo do corpo somático e dos órgãos assim; segundo a percepção, se se trata de objetos do campo perceptivo, então
dos sentidos. A sensibilidade não decorre conscientemente como um mero cur- também nós <estamos> no campo, assim como, sob modiâcação, estamosem
so de apariçõesde corpos, como seestesunicamente em si, por si e pelassuas todo o campointuitivo e,consequentemente,também em todo o camponão in-
fusões fossemaparições de corpos. Mas só o são,conscientemente, em conjunto tuitivo, posto que podemos obviamente "tornar representável" qualquer [coisa]
com a somaticidade em funcionamento sinestésico,ou com o eu que funciona não intuída que tenhamos diante de nós' (só que, com frequência, temporaria-
aqui numa atividade e habitualidade específicas.O corpo somático, de maneira mente obstruída). "Somaticamente"não quer dizer, é claro, somente"corpó-
totalmente suí ge/zeros,
está em permanência no campo da percepção, de modo reo': mas a palavra remete para estafunção sinestésicae, desta maneira própria,
inteiramente imediato, num sentido completamente único, justamente no senti- egológica, e, em primeira linha, ao funcionamento que vê, que ouve etc., de que
do indicado pela palavra órgão (aqui, no seu sentido original): aquilo pelo qual ainda fazem parte obviamente outros modos egológicos (por exemplo, erguer,
sou, como eu da afecção e das ações, de maneira totalmente única e imediata, carregar,chocar etc.).
onde vigoro' sinestesicamentede modo totalmente imediato, articulado em ór- Todavia, a egoidade somática não é, obviamente, a única egoidade, os
gãos particulares, nos quais, em sinestesias correspondentes, domino ou estou seusmodos não são todos separáveisentre si; eles constituem, apesar de toda
capacitadoa dominar. E estedominar, apresentadoaqui como funcionamento a mudança, uma unidade. Somos, então, assim, concretamente somáticos, mas
em todas as percepções dos corpos, o sistema completo da sinestesia,disponí- não só assim, eus-sujeitos completos, em cada caso como o eu-o-homem com
vel e familiar à consciência,é atualizado em cadasituaçãosinestésica,é conti- pleto no campo perceptivo etc.; e, do mesmo modo, por mais distante que seja
nuamente ligado com a situação do aparecer dos corpos, a situação do campo concebido, no campo da consciência. Assim, como quer que o mundo, enquan-
da percepção. À multiplicidade de aparições nas quais um corpo é perceptível to horizonte universal, enquanto universo unitário dos objetos existentes,;seja
como em cada caso este, um e o mesmo, correspondem propriamente às sines- consciente, nós, em cada caso o eu do homem, e todos nós, em relação mútua,
tesiasque Ihe pertencem, em cujo fazer-decorrertêm de ocorrer as aparições no vivermos em relação mútua no mundo, pertencemos precisamente ao mun-
correspondentemente correqueridas, para que possam em geral ser aparições do que, exatamente neste "viver em relação mútua'l é o nosso mundo, o mundo
11 deste corpo, expositores dele em si, como este corpo nas suas propriedades. que para nós vale como ser segundo a consciência. Vivendo na consciência des-
Assim, os corpos e o corpo somático são, segundo a percepção, essen- perta do mundo, somosem permanênciaativos sobre o fundo do ter-mundo
cialmente diferentes; o corpo somático, a saber,como o único corpo somático passivo, somos, por isso, afetados por objetos pré-dados no campo da consciên-
efetivamente perceptivo, o meu corpo somático. Como surge a consciência, em cia, voltamo-nos para estes ou para aqueles objetos segundo os nossos interes-
que do mesmo modo o meu corpo somático adquire a validade ontológica de ses,ocupamo-nos ativamente deles de diferentes maneiras; elessão,nos nossos
um corpo entre os outros, como, por seulado, certos corpos do meu campo per- atos,objetos "temáticos': Como exemplo, veja-se o explicitar observador das
ceptivo vêm a valer como corpos somáticos, corpos somáticos de eus-sujeitos propriedadesdo que perceptivamenteaparece;ou veja-seo nossoagir sumari-
'estranhos': estas se tornam, então, questões iniludíveis. zador, referencial, <ll 1> ativamente identificador e diferenciador; ou ainda o

8 N.T.: Uorschwebende
7 N.T.: Wa/ten 9 N.T.:Se/erlden

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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental ' Edmund Husser
Terceira Parte + A Clarificação do Problema Transcendental e a Função Correspondente da Psicologia

nosso valorar ativo, o nosso esboço de propósitos, a nossa efetivação ativa das
Se, em particular, considerarmo-nos como os cientistas, aqueles que
vias e metas propostas. faticamente aqui nos encontramos, então corresponde ao nosso modo de ser
Como sujeitos de atos (eus-sujeitos), estamos orientados para os objetos particular como cientistaso nossofuncionamento atual de acordo com o pen-
temáticos em modos do estar-orientado primário e secundário e, eventualmen- sar cientíâco, levantando e respondendo teoricamente a questõesreferentesao
te, outros ainda além destes. Neste trato com os objetos, os próprios atos são não
mundo da natureza ou do espírito, e este não é, em primeiro lugar, mais do
temáticos. Mas somos capazesde refletir ulteriormente sobre nós mesmos e a
que um ou outro lado do mundo da vida de antemão experienciado,ou já de
nossa atividade respectiva, pelo que estase torna, então, temático-objetiva num algum outro modo pré-científica e cientificamente consciente e válido. Os ou-
novo agir em funcionamento vivo, o qual, por sua vez, é agora não temático. tros cientistas são, pois, cofuncionais, adquirem e detêm as mesmasverdades
A consciênciado mundo está,assim,num movimento constante,o mun- em comunidade teorética conosco e, nos atos que devem ser levados a cabo em
do é permanentemente consciente num conteúdo qualquer de objetos dentro comum, estão conosco numa unidade de discussão crítica, com o âto de uma
do curso mutável dos modos diversos (intuitivamente, não intuitivamente,
uniâcação crítica. Ou podemos também, por outro lado, ser para os outros me-
determinada ou indeterminadamente etc.), mas também no curso mutável da
ros objetos, assim como eles também podem sê-lo para nós; podemos, em lugar
afecçãoe da ação, de tal modo que existe sempre um domínio completo da da relação mútua da unidade do interesse teorético comum realmente impulsio
afecção, e que os objetos, que neste domínio afetam, ora são temáticos, ora não nador, estudar-nos mutuamente por observação, tomar conhecimento dos atou
o são; objetos entre os quais estamos nós próprios que, é inegável, pertencemos do pensar e do experienciar, bem como eventualmente dos restantesatos, como
continuamente ao domínio afetivo, funcionando em permanência como sujei- fatos objetivos, mas "desinteressadamente': sem coefetivação, sem aprovação ou
tos de atos, mas só ocasionalmenteobjetivamente temáticos como objeto da reprovação crítica.
ocupação com nos mesmos. É claro que isto é o mais óbvio de tudo. Há necessidadede se falar, e com
Isto não vale obviamente só para mim, o eu em cada caso singular, mas, tanto pormenor, sobre tais coisas?Na vida, certamente não. Mas tampouco en-
no viver em relação mútua, temos Qmundo em relação mútua dado como para quanto âlósoío?Não se descobreaqui um domínio, aliás infinito, de va/idades
nós sendo válido, mundo essea que também pertencemos,na relação mútua, de ser sempre mais vastas e mais acessíveis, mas jamais questionadas, e não são
como mundo para todos nós, como o que é pré-dado neste sentido de ser. E, elas pressupostos consfanfes do pensar científico e, acima de tudo, do pensar âlo
em permanentefuncionamento na vida desperta,estamostambém em funcio- sóâco?Mas não se trata aqui, nem se poderia tratar alguma vez, de avaliar estas
l namento mútuo segundo múltiplas maneiras do considerar comum, na relação validades ontológicas na sua verdade objetiva.
mútua dos objetospré-dados, do pensar,valorar, tencionar e agir em relação Fazemparte de todo o pensarcientífico e de todo o questionamentofi-
mútua. E aqui também se torna, assim, temático estecurso mutável da temática, losófico obviedades previamente disponíveis, que o mundo existe,'' que existe
onde a subjetividade nós, que de algum modo funciona em permanência, se sempre previamente, e que qualquer correção possível <1 13> de uma opinião,
torna objetivamente temática, pelo que também os atos, nos quais ela funciona, seja uma opinião sobre a experiência ou uma outra qualquer,pressupõejá o
setornam temáticos, não obstante sempre com um resíduo que permanecenão mundo que é, a saber,como um horizonte de entes-válidosem cadacasoindu-
temático, por assim dizer, na anonímia, designadamente,as reflexões que nesta bitáveis e, nestes, um qualquer conteúdo conhecido e indubitavelmente certo,
temática são funcionais.io <1 12>
com o qual entra em contradição o que tenha eventualmente sido desvalorizado
como nulo. Também a ciência objetiva só levanta questões sobre o solo deste
10 É claro que toda a aüvidade e, consequentemente, também esta aüvidade reflexiva cria mundo que de antemãoe em permanência é, a partir da vida pré-científica.
as suasaquisiçõeshabituais. Observando, adquirimos conhecimento habitual, familiarida- Assim como toda a praxis, também a ciência objetiva pressupõe o seu ser, mas
de com o objeto que é para nós nas suas propriedades anteriormente desconhecidas propõe-sea meta de converter um saber pré-científico, incompleto na suaex
e <112n> assim, também, o autoconhecimento pela auto-observação. Na autovaloração
tensão e estabilidade, num saber completo segundo uma ideia correlativa que,
e nos propósitos e ações referidos a nós próprios e aos nossosco-humanos, alcançámos
é certo, reside no infinito, do mundo que é firmemente determinado e das
igualmente autovalores e fins dirigidos a nós próprios, como as nossasvalidadesduráveis
habituais. Contudo, todo o conhecimento em geral, todas as validades axiológicas["Wer- verdades idealmente cientíâcas ("verdades em si") que predicativamente o ex-
fge/tungen"] e fins em geral, na medida em que são adquiridos na nossaatividade, são
simultaneamente propriedades duráveis de nós próprios como eus-sujeitos, como pessoas,
encontráveis na atitude reflexiva como constituintes do nosso próprio ser. 11 N.T.:/st

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A Crise dasCiências Europeiase a Fenomenologia Transcendental e Edmund Husser
Terceira Parte e A Clarificação do Problema Transcendental e a Função Correspondente da Psicologia

plicitam. Efetivar isto num passo sistemático atravésde graus de completude, porventura meras facticidadesde processospsicoflsicos dos dados sensoriais.
com um método que torne possívelum progredir constante,estaé a tarefa. mas processos espirituais que, como tal, exercem essencial e necessariamente a
Há diversos modos da praxis para o homem no seu mundo circundante, função de constituir âguras de sentido. E fazem-no a cada vez a partir do "ma-
entre os quais um modo tardio e único no seu gênero: a praxis teórica. Ela tem terial" espiritual que sempre se mostra novamente, necessária e essencialmente.
os seus próprios métodos profissionais, é a arte das teorias, da descoberta e cer como figura espiritual, como figura constituída, assim como toda a figura nova
tiâcação de verdadescom um novo sentido ideal, estranho à vida pré-científica, é chamada a tornar-se material, ou seja, a servir para a formação de figuras.
o sentido de uma certa "validade definitiva" e universal. Nenhuma ciência objetiva, nenhuma psicologia que tenha, entretanto,
Apresentamos, assim, mais uma explanação de uma parte das "obvieda pretendido ser ciência universal do subjetivo, nenhuma âlosofia tornou alguma
des': agora com o íim de tornar claro que, em relação a todas as múltiplas pré- vez temático estedomínio do subjetivo ou tampouco o descobriu efetivamente.
validades, ou seja, a todos os "pressupostos" do filósofo, levantam-se questões Tampouco a filosofia kantiana que, contudo, pretendia retroceder até as condi-
de uma nova dimensão acercado ser, dimensão que depressase tornará alta- çõessubjetivas de possibilidade do mundo objetivamente experienciável e cog-
mente enigmática. Trata-setambém de questõessobre o mundo que obviamen noscível. Este é um domínio subjetivo inteiramente encerrado em si mesmo, que
te é continuamente pré-dado à intuição; mas não são questõespróprias daquela é, à sua maneira, que funciona em todo o experienciar, em todo o pensar, em
praxis e 'téXvtl chamadaciência objetiva, não sãoas da arte de fundamentar e todo o viver e, por isso, que está em toda a parte indelevelmente presente sem,
ampliar o domínio das verdades objetivamente cientíâcas acercadeste mundo contudo, ser jamais apreendido pelo olhar, jamais apreendido e compreendido.
circundante, mas trata-se de questõessobre como o objeto respectivo, pré-cien Mas será que a filosofia cumpre o seu sentido fundador original, como
tiâcamente verdadeiro e, então, cientificamente verdadeiro, se relaciona com ciência universal e <115> de fundamentação última, caso deixe este domínio
tudo o que é subjetivo que, em toda a parte, se declara concomitantemente nas âcar na sua "anonímia"? Pode ela fazê-lo, pode fazê-lo uma ciência qualquer que
obviedadesprévias.<114> pretenda ser um ramo da õlosofia, que não poderia em consequênciatolerar
nenhum pressuposto, nenhuma esfera fundamental de ente sob si, da qual nin-
guém saiba alguma coisa, que ninguém questione cientificamente, que ninguém
S 29. O mundo da vida é acessívelcomo um domínio dejenõmenos quepermane- domine cognoscitivamente?Chamei às ciências ramos da filosofia quando, pelo
ce/n 'ünõnz7Hos"''
contrário, é uma convicção corrente que as ciências objetivas, positivas, são au-
tónomas, autossuíicientes em virtude do seu método, que se pretende comple-
Se,filosofandocom Kant, sem no entantopartirmos do seucomeçopara tamente fundamentador e, por isso, modelar. Mas não irá, por fim, o sentido de
avançar no seu caminho, questionarmos retrospectivamente tais obviedades (de unidade teleológico que atravessa todos os ensaios de sistema de toda a história
que o pensamentokantiano, como o pensamentode qualquer outro, faz uso da filosofia fazer irromper a intelecção de que a ciência em geral só é possível
como obviedades inquestionadas disponíveis); se tomarmos consciência delas como filosofia universal, e de que esta, em todas asciências, é uma única ciência,
como "pressupostos" e lhes reconhecermos um interesse próprio universal e te unicamente possível como uma totalidade de todos os conhecimentos? E não
órico, abrir-se-ão, então, para nós, perante a nossa admiração crescente, uma implica isto que todas elasassentavamsobre um único fundamento, um funda
inanidade de fenómenos sempre novos, de uma nova dimensão, que só vêm mento que precisa ser antes de tudo cientificamente pesquisado? E pode este,
à luz por meio de uma penetração consequente até as implicações de sentido pergunto eu, ser outro senãoprecisamente o fundamento daquela subjetividade
e de validade dessasobviedades; uma inanidade de fenómenos, posto que se anónima? Isto, contudo, só se podia e só se pode inteligir se se questionar, por
mostra, ao prosseguir-se nesse caminho, que cada íenâmeno alcançado neste fim e de modo inteiramente sério, o que é óbvio, aquilo que todo o pensar,toda
desdobramento de sentido, dado, em primeiro lugar, como sendo no mundo a atividade vital pressupõeem todos os seusfins e realizações;e se,num questio-
da vida e como óbvio cadafenómeno assim alcançadotraz, em si mesmo,já namento consequente do seu sentido de ser e de validade, se perceber a unidade
implicações de sentido e de validade cuja explicitação conduz, por sua vez, a inabalável da conexão de sentido e de validade que atravessa todas asrealizações
novos íenâmenos etc. Sãofenómenos sem restrição, puramente subjetivos, não do espírito. Isto diz primariamente respeito a todas as realizações do espírito
que nós, homens,enquantopessoasindividuais, produzimos no mundo, como
realizações culturais. A todas estas realizações precedeu sempre já uma realiza-
12 Cf.Anexo XVI
ção universal, que toda a praxis humana e toda a vida pré-científica e científica

90 91
T
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental EdmundHusser
Terceira Parte ' A Clarificação do Problema Transcendental e a Função Correspondente da Psicologia

pressupõem já, e cujas aquisições espirituais estas têm como o fundo perma- transcendental, a da temporalização. Mas como podemos chegar a um sentido
nente para o qual as suaspróprias aquisições são chamadasa confluir. Iremos claro em relação a conceitos de algo que é subjetivo e transcendental algo a
compreender que o mundo que para nós é, num fluxo permanente de mudança partir do que se constitui o mundo cientificamente verdadeiro como 'aparição"
dos modos de doação, uma aquisição espiritual universal, que se formou': e objetiva <1 17>, se não se pode dar à "percepção interior" ainda um outro sen-
que continua se formando como unidade de uma figura espiritual, como uma tido além do psicológico? Como o podemos fazer, se não é um sentido efetiva-
configuraçãode sentido - como figura de uma subjetividadefuncional última mente apoditico <que>, por âm, fornece o solo para a experiência (como o ego
universal. Pertence, entretanto, <116> essencialmente a esta realização consti cogífo cartesiano), numa experiência que não é a experiência científica kantiana.
tuidora do mundo o fato de a subjetividade se objetivar a si mesma como sub- e não possui a certeza do ser objetivo no sentido da ciência, porventura da físi-
jetividade humana, como conteúdo do mundo. Toda a consideraçãoobjetiva do ca, sendo, no entanto, uma certeza efetivamente apodítica, como a de um solo
mundo é consideração a partir do "exterior" e apreende somente "exteriorida- universal, o qual e ânalmente demonstrável como o solo último apoditicamente
des':objetividades.A consideraçãoradical do mundo é a consideraçãointerior necessário de toda a objetividade cientíâca e que a torna compreensível?Aqui
sistemáticae pura da subjetividade que se "exterioriza" a si mesma no exterior. tem de ser encontrada a conte de todos os conceitos cognoscitivosúltimos, a
Tal como a unidade de um organismo vivo que se observa e desmembraa partir fonte para .intelecções essencialmente gerais, onde todo o mundo objetivo se
de fora, mas que só se pode compreender se se remontar até as suas raízes es- torna cientiâcamente compreensível,e onde pode chegar a um desenvolvimen-
condidas, perseguindo sistematicamente, a partir do seu interior, e em todas as to sistemático uma filosofa que repousa absolutamente em si.
suas realizações,a vida âguradora que nelas pulsa e a partir delasse eleva. Mas Talvez uma crítica mais aprofundada mostrasse que Kant, embora se
não é isto tão só uma imagem, e não é afinal o nosso ser humano e a vida da tenha voltado contra o empirismo na sua concepção da mente e da esfera de
l
consciência que Ihe pertence, com a sua problemática do mundo, maximamente tarefas que incumbem a uma psicologia, permanece dependente precisamen-
profunda, o lugar onde se decidem todos os problemas do ser interior vivo e da te desseempirismo, e que, para ele, vale como mente a mente pensada como
exposição exterior?
naturalizada, e como componente do homem psicofísico situado no tempo da
natureza, da espaço-temporalidade.Ora, o transcendental subjetivo não podia
certamenteser o mental. Mas pode porventura identificar-se a percepçãoin-
S 30. A ausência de um método intuitivo-mostrativo como razão das construções terior efetivamente apodítica (a autopercepção reduzida ao efetivamente apo-
míticas de Kart dítico) com a autopercepção daquela mente naturalizada, com a evidência da
tábula rasa" e dos seusdados, ou mesmo das suas faculdades, como as forças
Ouvem-se queixas sobre a obscuridade da âlosofia kantiana, sobre a im- que Ihe são atribuídas segundo a natureza? Uma vez que compreende a percep-
possibilidade de apreender as evidências do seu método regressivo, das suas "fa- ção interior segundo este sentido empirista, o psicológico, e, prevenido pelo
culdades': "funções" ou "formas":' transcendental-subjetivas, sobre a diâculda- ceticismo de Hume, rejeita qualquer recurso à psicologia, entendendo-a como
de de compreender o que é propriamente a subjetividade transcendental, como contrassenso e perversão da problemática genuína do entendimento, Kant en-
se dá a sua função, a sua operação, como, por seu intermédio, pode ser tornada vereda pela sua formação mítica de conceitos. Kant veda aos seus leitores a
compreensível toda a ciência objetiva. De fato, Kant cai numa espécie de dis- transposição dos resultados do seu procedimento regressivo em conceitos in-
curso mítico, cujo sentido literal aponta, realmente, para o subjetivo, mas para tuíveis e qualquer tentativa de levar a cabo uma construção progressiva a partir
um modo do subjetivo que não podemos, por princípio, tornar dedutível, nem de intuições originárias e puramente evidentes, procedendo por passosisolados
em exemplos fáticos, nem numa genuína analogia. Se o tentamos fazer com o eÊetivamenteevidentes. Os seus conceitos transcendentais têm, por isso, uma
sentido intuitivamente traduzível para o qual as palavras apontam, situamo- obscuridade totalmente característica < 118> que, por razõesprincipiais, jamais
nos, então, na esfera humana pessoal, mental ou psicológica. Recordamo-nos, se deixa transpor para a claridade, jamais se pode conduzir até uma formação
então,da doutrina kantiana do sentido interno, segundo a qual tudo o que se de sentido direta e criadora de evidência. ' "-'
pode mostrar na evidência da experiência interna é já formado por uma função A coisa seria totalmente diferente quanto à clareza de todos os concei-
tos e problematizações se Kant, não como um filho do seu tempo, totalmente
13 N.T.:Geworden. vinculado pela sua psicologia naturalista (como âgura decalcadada ciência da
14 N.T.:Formungen. natureza e como seu paralelo), tivesse apreendido de modo eíetivamente radi-

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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendenta Edmund Husserl Terceira Parte e A Clarificação do Problema Transcendental e a Função Correspondente da Psicologia

cal o problema do conhecimento a priori e da sua função metódica para um Este desenvolvimento crescente,em parte, como é manifesto, bem-sucedido,
conhecimento objetivo racional. Para isso, necessitaria de um método regres- em parte pleno de esperançasna busca de ciências particulares racionais,foi
sivo essenciale fundamentalmentediverso do seu, que assentasobre aquelas subitamente interrompido. Acumulavam-se os enigmas na construção de uma
obviedadesinquestionadas,de um método que não raciocinassede modo mi- dessasciências, a psicologia, o que punha em causa a âlosoíia inteira.
ticamente construtivo, mas que inferisse de modo completamenteintuitivo; A psicologia de Locke com a ciência da natureza de Newton perante si
e intuitivo desde o início e em tudo aquilo que conclui, ainda que o conceito - encontrou temas particularmente interessantes no lado meramente subjetivo
de intuitividade tivessede sofrer uma ampliaçãoessencialem facedo conceito das aparições (lado que desde Galileu era malvisto), e justamente em tudo aqui-
kantiano de intuitividade, e ainda que, a partir de uma nova atitude, a intuição lo que,partindo do lado subjetivo, era danoso à racionalidade:a falta de clareza
perdesseem geral o seu sentido habitual. Seria necessárioadmitir somente em dos conceitos, a imprecisão do pensar judicativo, as faculdades do entendimen-
geral a autoexposição original, exclusivamente na nova esfera do ser. to e da razão em todas as suasfiguras. Tratava-se, no entanto, de faculdades do
É preciso questionar de modo totalmente sistemático exatamente essas homem para realizaçõesmentais e, precisamente,para aquelasque deveriam
obviedades,que constituem, não só para Kant, mas para todos os filósofos, para criar a ciência genuína e, assim, uma verdadeira vida prática da razão. Perten-
todos os cientistas, um fundamento para os seus resultados cognoscitivos, fun ciam, então, a estecírculo também as questões acercada essênciae da validade
damento silencioso, vedado mesmo às suasmediações mais profundas. Impor- objetiva do conhecimento puramente racional, do conhecimento lógico e ma
ta, então,prosseguir em direção a uma abertura sistemática da intencionalidade temático, o conhecimento científico-natural e metafísico na sua especificidade.
viva em vigor neste fundamento e nele sedimentada por outras palavras, é Mas não era isto, considerado de modo tão geral, efetivamenteexigido? Era
11

necessáriauma análise genuína, isto é, uma "análise intencional" do ser espiri- sem dúvida correto e louvável que Locke assumisseas ciências como realizações
11
tual na suaabsolutaespecificidadeúltima, e daquilo que seformou no espírito e mentais (ainda que possa ter dirigido o olhar demasiado para o que acontece
a partir do espírito, análise que não pode ser substituída por uma análise real,'s na mente individual) e em toda a parte levantasse as questões acerca da origem,
pela psicologia dominante, de uma mente pensada naturalisticamente, estranha posto que, de fato, as realizações só podem ser compreendidas a partir da ação
à essência do espírito.:' <1 19> realizadora. Mas isto aconteceu em Locke com uma superficialidade, numa
confusão sem método e, aliás, num naturalismo que produziu os seus efeitos
diretamente no íiccionalismo de cume. <120>
S 3\ . Kart e a insu$ciência da psicologia de então. A opacidade da diferença entre Assim, Kant não podia obviamente recorrer sem mais à psicologia de
subjetividade transcendental e a mente Locke.Mas era por isso correto deixar cair o questionamentode Locke na sua
generalidade- o questionamentopsicológico gnosiológico?Não tinha cada
Para tornar compreensível o que aqui se quer concretamente dizer, e elu- uma dasquestõesinspiradas por Hume de ser entendida inicialmente, de modo
cidar a situação opaca, característica de toda aquela época histórica, façamos totalmente correto, como questão psicológica? Se a ciência racional - se a rei-
uma reflexão que pertence certamente a um sentido do processo histórico que vindicação das ciências puramente a priori de validade objetiva incondicionada
só muito mais tarde se preenche. e, logo, como o método possível e necessário das ciências factuais racionais se
O ponto de partida pré-dado de todos os enigmas cognoscitivos foi o de- torna problema, então teria de ser antes do mais considerado (conforme subli-
senvolvimento de uma filosofia moderna segundo o seu ideal específico de sa- nhámos acima) que a ciência é, em geral, uma realização humana, de homens
ber racionalista (que se alargasistematicamente nas suasciências particulares). que seencontram a si mesmos de antemão no mundo, no mundo da experiência
geral, uma entre outras espéciesde realizações práticas, realização que se dirige
15 N.T.:Real. a conâguraçõesespirituais de uma determinada espécie,denominada teórica.
16 Isto, contudo, não foi assim desde o início. O mais natural para Kant, que via o mundo Como toda a praxis, também esta, no seu sentido próprio, que é consciente ao
quotidiano como o mundo da consciência humana, era o percurso através da psicologia, próprio agente,se refere ao mundo da experiência pré-dado e nele igualmente
mas de uma psicologia que trouxesse efetivamente à palavra as vivências subjeüvas da
se inscreve. Dir-se-á, então, que o que é incompreensível no surgimento de uma
consciênciado mundo, tal como se mostravam nas vivências. Isto teria sido possívelse as
indicações semanaisde Descartes acerca dos "cog/tala qua cogítata", em lugar de terem realização espiritual só pode ser esclarecido por meio de explicaçõespsicológi-
ficado desatendidas pela filosofia dominante lockiana, tivessem sido levadas a germinar cas,e mantém-se,por conseguinte,no mundo pré-dado. Ao contrário, se,em
como psicologiaintencional. suaindagaçãoe em seu método regressivo,Kant também faz uso, com efeito,

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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental EdmundHusserl
Terceira Parte ' A Clarificaçãodo Problema Transcendental e a FunçãoCorrespondente da Psicologia

do mundo pré-dado, ainda que construa uma subjetividade transcendental por


plano é uma mera projeção. Tudo aquilo de que os homens, tanto os cientistas
meio de cujas funções transcendentais veladasé formado o mundo da experiên-
cia, segundo uma necessidade inviolável, Kant cai, então, na dificuldade inerente quanto todos os outros, podem ter consciência na suavida natural no mundo, ao
ao fato de que uma peculiaridade da mente humana (que pertence também ao experienciar, conhecer, pretender na prática ou agir, como um campo de objetos
mundo e é, por isso, concomitantemente pressuposta) leva a cabo e tem de ter do mundo exterior, como os objetos a que se referem os seus fins, objetos que
são meios, processos da ação ou resultados finais, bem como, por outro lado,
levado a cabo a realização de uma formação coníiguradora de todo essemundo.
Mas, logo que di6erenciamosentre estasubjetividade transcendental e a mente, também na consideração de si, como a vida espiritual que neles funciona - tudo
caímos num misticismo incompreensível. isto permanece na "superfície" <122> que, no entanto, e embora inadvertida-
mente, é somente a superfície de uma dimensão de profundidade inânitamente
mais rica. Mas isto é em geral válido, quer se trate da vida meramente prática no
$ 32. A possibilidade de uma verdade escondida na $1oso$a transcendente! de sentido habitual, quer de um experienciar, pensar, tencionar, agir etc., teórico
Kart: o problema de uma "nova dimensão". O antagonismo entre "vida super$- ou cientíâco, de dados empíricos, pensamentos, metas do pensar, premissas ou
resultados científicos verdadeiros.
cial" e "vida profunda
O esquema de explicação deixa, no entanto, algumas questões prementes
Se, no entanto, uma verdade deve caber à teoria kantiana, uma verdade em aberto. Por que pede a formação das ciências positivas, puramente à "su-
que se possa tornar efetivamente inteligível, como é <121> de fato o caso, então perfície': aparecer durante tanto tempo sob a âgura de um enorme êxito? Por
isto só seria possível na medida em que as funções transcendentais - pelas quais que se anunciaram tão tarde, dada a necessidadede transparência integral das
devem encontrar o seuesclarecimento as incompreensibilidades em questão de realizações metódicas, as incoerências, mesmo as incompreensibilidades, nas
um conhecimento objetivamente válido pertencem a uma dimensão da espi- quais nem mesmo a mais integralmente exata das construções da técnica lógica
trouxe consigo alguma melhora? Por que não conduziram a resultados consen-
ritualidade viva que, em virtude de impedimentos muito naturais, não podiam
deixar de permanecer por milênios vedadas à humanidade, mesmo aos cientis- suais sérios, cientificamente necessários, as tentativas mais recentes de um apro-
fundamento "intuicionista" que, de fato, atingiam já a dimensão mais elevada,e
tas, embora seja, no entanto, possível, por um método de abertura apropriado,
torna-la cientificamenteacessível,como um domínio de evidênciateórica e ex- todos os esforçosde clariâcação a partir dele? É que não se trata justamente de
periencial. Que esta dimensão tenha permanecido oculta durante milênios, e, meramente dirigir o olhar para uma esferaaté aqui tão só não observada,embo-
mesmo quando alguma vez se íez sentir, jamais tenha despertado um interesse ra acessível,sem mais, à experiência teórica e ao conhecimento empírico. Tudo
teórico habitual e consequente,pode encontrar a sua explicação (e encontrará) o que é experienciável deste modo é objeto e território de conhecimento posi-
pela demonstração de um antagonismo especíÊcoentre o acessoa essadimen- tivo possível, reside à "superfície': no mundo da experiência efetiva e possível,
da experiência no sentido natural do termo. Compreenderemos em breve com
são e as restantes ocupações, no sentido de todos os interesses que constituem a
vida humana no mundo normal e natural. que dificuldades extraordinárias fundadas na essência da coisa mesma - se
confrontou o esforço metódico de aproximação efetiva à esferada profundida-
Uma vez que se deve tratar aqui de funções espirituais que exercem assuas
realizaçõesem todo o experienciar e em todo o pensar, aliás, em todas e quais- de, em primeiro lugar à possibilidade da sua autoapreensãopura no seu modo
específicode experiência; e, assim, tornar-se-á claro quão vasto é o antagonismo
quer ocupaçõesda vida humana no mundo, de funçõespelas quais o mundo
entre a vida de uma superfície "patente" e a vida de uma profundeza "latente
empírico tem para nós em geral sentido e validade como horizonte permanente
Desempenha aqui, de resto, um papel constante o poder dos preconceitos his-
de coisas,valores, propósitos práticos, obras etc. existentes,seria, então, perfei-
tamente compreensível que a todas as ciências objetivas faltasse justamente o tóricos, em primeiro lugar dos que a todos nos dominam desdea origem das
ciênciaspositivas modernas. Pertenceà essênciade tais preconceitos, incutidos
saber do que é mais principial: nomeadamente, o saber daquilo que unicamente
desde a escola nas mentes infantis, exatamente estarem ocultos nos seus efeitos
podia em geral conferir sentido e validade às conâgurações teóricas do saber
reais. Em nada os altera a vontade geral abstrata de não ter preconceitos. <123>
objetivo e, assim,a dignidade de um sabera partir do fundamento último.
Mas estassão as menores dificuldades em comparação com aquelasque
Este esquema de um esclarecimento possível do problema da ciência ob-
jetiva relembra-nos a conhecida imagem, de /íeZmho/fz, dos seres planos que sefundam na essênciada nova dimensãoe da suarelaçãocom o campo da vida
não têm nenhuma ideia da dimensão da profundidade, na qual o seu mundo de há muito familiar. Em nenhum lugar é tão longo o caminho que leva das
necessidadesconfusamente anunciadas até o propósito dotado de metas deter

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Terceira Parte A Clarificaçãodo ProblemaTranscendental e a FunçãoCorrespondente da Psicologia
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental ' Edmund Husserl

no seu todo. Contudo, uma nova humanidade, surgida precisamente na Grécia (a


minadas, das indagações vagas até os primeiros problemas a trabalhar - com os
humanidade filosófica, científica), se viu levada a reconfigurar a ideia teleológi-
quais unicamente começa a elaboração da ciência propriamente dita. Em ne- ca'; "conhecimento" e "verdade" da existência'P natural e a conferir à nova forma
nhum lugar se levantam com tanta frequência da escuridão, contra quem avan-
da ideia de "verdade objetiva" uma dignidade mais elevada,a de uma norma para
ça, fantasmas lógicos revestidos da âgura do conceptualismo há muito familiar
todo o conhecimento. Com referência a ela emerge,por âm, a ideia de uma ciên-
e atuante, como antinomias paradoxais, como contrassensoslógicos. Em ne-
cia universal, que abrange todo o conhecimento possível na sua infinidade, a ideia
nhum lugar é, por conseguinte, tão grande a tentação de descarrilamento numa
arrojada condutora da Modernidade. Tendo isto presente, um esclarecimento ex-
aporética e disputa lógica, e de felicitar-se muito, então, pela sua própria cienti-
plícito da validade objetiva e de toda a tarefa da ciência exige manifestamente que
Êcidade,enquanto o verdadeiro substrato de trabalho, os próprios fenómenos,
se comecepor indagar acercado mundo pré-dado. Esteé naturalmente pré-dado
se escapam para sempre ao olhar.
a todos nós, como pessoasno horizonte da nossaco-humanidade,ou seja,em
Tudo isto se confirmará agora quando, deixando a referência a Kant, se
cadaconexão real20com o outro, pré-dado como "o" mundo, o universal-comum.
âzer a tentativa de conduzir quem tenha vontade de compreender por um dos
Ele é, então, conforme expusemospormenorizadamente, o solo permanente de
caminhos que eu efetivamente segui, o qual, como caminho efetivamente feito,
validade, uma fonte constantemente pronta de obviedades a que recorremos sem
seoferecetambém a todo o momento como caminho novamentetrilhável; ca-
mais, como homens práticos ou como cientistas.
minho que a cada passo permite pâr à prova e renovar essamesma evidência
Se este mundo pré-dado deve tornar-se um tema especíâco e, é claro,
justamente como apodítica: a evidência da possibilidade de trânsito, sempre à
para veriâcações científicas responsáveis,então isto exige uma particular cau-
vontade repetível, e de continuação em experiências e conhecimentos sempre
tela na sua consideração prévia. Não é fácil alcançar clareza acerca de que tipo
de novo veriâcáveis.
de tarefas especificamente cientíâcas, ou seja, universais, se devem definir sob
o nome de mundo da vida, e em que medida deve daqui resultar algo de filoso-
ficamente significativo. Levanta diâculdades já o mais elementar entendimento
S 33. O problema do "mundo da vida" como uma parte do problema geral da
do seu sentido de ser especíâco,sentido que ora deve ser apreendido de modo
ciência oéyefívaz7
mais lato, ora mais estreito.
O modo como chegamosaqui ao mundo da vida como um <125> tema
Tendo presente as elaborações anteriores, lembremo-nos do fato admi-
científico fá-]o aparecer como um tema auxi]iar ou parcial dentro do tema com-
tido de que ciência é uma realizaçãoespiritual humana que, historicamente e
pleto da ciência objetiva em geral. Quanto à possibilidade dos seus resultados
também para todo aquele que a estuda, pressupõe a saída do mundo da vida
circundante intuível, dado de modo universal-comum como existente,mas que objetivos, esta se tornou incompreensível em geral, ou seja, em todas as suas
figuras particulares (as ciências positivas particulares). Se a esterespeito ela se
pressupõe também, continuamente, no seu exercício e prossecução:este mundo
transforma num problema, temos então de sair do seu exercício próprio e de as-
circundante na particularidade da sua autodoação para o cientista. Parao físico,
sumir uma posição acima dela, adquirindo uma perspectiva geral sobre as suas
por exemplo, esteé o mundo circundante onde ele vê os seusinstrumentos de teorias e os seus resultados na conexão sistemática dos pensamentos e asserções
medição, ouve o seu bater ritmado, <124> avalia as grandezasque vê etc.:onde
se sabe a si mesmo contido antes do mais, com toda sua atividade e todos os predicativas, e também, por outro lado, sobre os atou da vida realizados pelos
cientistas que trabalham em relação mútua, os seus objetivos, a sua determina-
seus pensamentos teóricos.
çãoem cada casodas metas e a sua evidência determinante. E aqui precisamente
Se a ciência levanta e responde questões, estas questões são desde o come-
torna-se também problemático o recurso sempre novamente bem-sucedido, e
ço, e continuam necessariamentea sê-lo, sobre o solo, o conteúdo deste mundo
feito de diversasmaneiras gerais,do cientista ao mundo da vida com os seus
pré-dado, no qual estájustamente contida toda a praxis vital, sua e de outros.
dados intuíveis sempre disponíveis, a que acrescem as suas asserçõessimples-
Neste mundo, o conhecimento desempenhajá, como conhecimento pré-científi-
mente adaptadas a cada vez a essesdados, levadas a cabo como uma pura des-
co, um papel permanente, com as suasmetas que ele, no sentido em que asvisa,
alcançade modo que é em média satisfatório para tornar possível a vida prática
18 N.T.:Zweck/dee
19 N.T.:Base/n.
20 N.T.:,4ktue//en
17 Cf.Anexo XVll

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Terceira Parte A Clarificaçãodo Problema Transcendental e a FunçãoCorrespondente da Psicologia
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental e Edmund Husserl

mão segundo a sua tipologia mais geral?À vida pré-científica basta certamente
crição segundo o mesmo modo de juízo pré-científico próprio das asserções esteconhecimento e a sua maneira de conduzir o desconhecido até o conheci
ocasionaisno meio da vida prática quotidiana. Assim, o problema do mundo da
mento, de modo a adquirir conhecimento ocasional com base na experiência
vida, ou de como ele funciona, e não pode deixar de funcionar para o cientista, é
(que se confirma a si em si mesma, excluindo, assim, a aparência) e na indução.
tão só um tema parcial no interior do todo referido da ciência objetiva. (A saber,
Este conhecimento é suficiente para uma praxis quotidiana. Mas, se algo mais
um tema ao serviço da sua fundamentação completa.)
pode e deve ser realizado, se deve ser produzido um conhecimento "científi
É, contudo, claro que, antes da questão geral da sua função para uma
co': que outra coisa pode estar em questão senão aquilo que a ciência objetiva
fundamentação evidente das ciências objetivas, faz todo o sentido para os ho-
tem em vista e faz?Não é o conhecimento científico, como tal, conhecimento
mensque nele vivem a questãoacercado sentido do ser próprio e constante
deste mundo da vida. Estes não têm sempre interesses cientíâcos, e mesmo os "objetivo"- dirigido a um substratocognoscitivoválido paraqualquerum em
cientistas não estão invariavelmente em trabalho cientíâco; e, como a história generalidadeincondicionada? E, no entanto, paradoxalmente, mantemo-nos fi-
éis à nossa afirmação, e exigimos que <127> não se substitua aqui, por força da
ensina, não houve sempre no mundo uma humanidade que vivesse habitual-
tradição secular em que todos fomos educados, o conceito da ciência em geral
mente ligada aos interessescientíâcos longamente instituídos. Houve sempre já
pelo conceito tradicional da ciência objetiva.
para a humanidadede antesda ciência um mundo da vida, tal como estetam- O título "mundo da vida" torna possível, e requer talvez tarefas cientíâcas
bém prossegue no seu modo de ser após a ciência. Assim, é possível levantar-se
diversas, embora entre si essencialmente relacionadas, e talvez pertença mesmo
o problema do modo de ser do mundo da vida em si e por si, colocarmo-nos à cientiíicidade genuína e completa que todas elas, segundo a sua ordem de
inteiramente sobre o solo destemundo simplesmenteintuível e deixar fora de
fundamentação essencial,só podem ser tratadas em conjunto, e não porventura
consideraçãotodas as opiniões ou conhecimentos objetivo-científicos, para
uma delas,a tarefalógico-objetiva (estarealizaçãoparticular dentro do mundo
ponderar, então, <126> que tarefas "científicas': ou seja, que precisam ser resol-
da vida), por si só, enquanto as outras não sãode todo cientificamente trabalha
vidas de modo universalmente válido, se levantam em geral a seu respeito. Não
das;ou seja,nunca se questiona cientificamente a maneira como o mundo da
poderia isto oferecer um grande tema de trabalho? Não se abre,então, por fim,
vida funciona em permanênciacomo plano de fundo, como as suas múltiplas
com aquilo que inicialmente surge como um tema cientíÊco-teóricoespecífico,
validades pré-lógicas são fundamentadoras para as verdades lógicas, as verda
aquela "terceira dimensão'l vocacionada assim desdelogo a engolir o tema intei:
desteóricas. E talvez a cientificidade, que estemundo da vida, como tal e na sua
ro da ciência objetiva (juntamente com todos os outros temas da "superfície")?
universalidade, exige, seja uma cientiíicidade específica, justamente não lógico-
Isto não pode deixar inicialmente de parecer estranhoe inacreditável,muitos
objetiva, e que, como a cientificidade fundamentadora última, o seu valor não
paradoxos se irão anunciar, mas também resolver. Impõe-se aqui e tem de ser
seja o de uma cientificidade menor, mas superior. Mas como deve ser efetivada
ponderada antes de tudo a concepção correta da essênciado mundo da vida e o
estacientiâcidadede um gênerointeiramente outro, a que sesubstituiu até aqui
método para um tratamento "científico" que Ihe sejaadequado,tratamento no
a cientificidade objetiva? A ideia da verdade objetiva é, em todo o seu sentido,
qual deveâcar fora de questãoa cientiíicidade "objetiva'l
determinada de antemão pelo contraste com a ideia de verdade da vida pré e ex
tracientífica. Esta tem a sua fonte de confirmação última e mais funda na "pura'
experiência, no sentido acima indicado, em todos os seus modos, na percepção,
S 34. Exposição do problema de uma ciência do mundo da vida2:
na recordaçãoetc. Estaspalavras têm, no entanto, de ser efetivamenteenten-
didas tal como a própria vida pré-científica as compreende, sem que se possa,
a) Diferença entre ciência objetiva e ciência em geral
por conseguinte,introduzir nenhuma interpretação psicofísicaou psicológica,
Não é o mundo da vida o mais bem conhecido de tudo, o que é sempre a partir da respectiva ciência objetiva. E, principalmente, para antecipar desde
já algo de importante, não se pode recorrer aos "dados da sensação" fornecidos
já óbvio em toda a vida humana, o que na sua tipologia nos é semprejá familiar
de modo pretensamente imediato, como se fossem esteso que imediatamente
pela experiência? Não são todos os seushorizontes de desconhecimento hori-
caracteriza os dados puramente intuitivos do mundo da vida. O que é efetiva-
zontes de conhecimentos meramente incompletos, a saber,conhecidos de ante-
mente primeiro é a intuição "meramenterelativa ao sujeito" da vida no mundo
pré-cientíâco. É certo que o "meramente" tem para nós, como uma antiga he
21 Cf.Anexo XVl l l rança, o tom desprezado da ÕÓêcE. Na própria vida pré-científica, ela nada tem

101
100
.40.z'.{4S
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendenta Edmund Husserl
Terceira Parte e A Clarificação do ProblemaTranscendental e a Função Correspondente da Psicologia

<128> certamente de desprezível; ela é aí um domínio de boa confirmação, a da questão. No entanto, enquanto o cientista natural estádesta maneira objeti
partir dela dispõe-sede conhecimentospredicativos bem confirmados, assim vamente interessado e em atividade, o relativo ao sujeito não funciona para ele
como de verdades certas, conforme exigido pelos próprios propósitos práticos porventura como uma transição irrelevante, mas como aquilo que é em última
da vida que determinam o seu sentido. O desprezo com que todo o "meramente instância fundamentador da validade de ser teórico-lógica para toda a confir-
relativo ao sujeito" é tratado pelo cientista que persegue o ideal de objetividade maçãoobjetiva, ou seja,funciona como fonte de evidência, fonte de confirma-
moderno em nada altera o seu modo de ser próprio, assim como em nada altera ção. As medidas, as marcações da escala vistas etc. são empregadas como sendo
o fato de que esse"meramenterelativo ao sujeito" tem de ser suficientemente efetivamente, e não como ilusões; o que é e6etivo no mundo da vida, como ente
bom para o próprio cientista sempre que a ele recorre e tem irremediavelmente válido, é, por conseguinte, uma premissa.
de recorrer.
c) Seráque o relativo ao sujeito é objeto da psicologia?
b) A utilização das experiências relativas ao sujeito para as ciências
objetivas e a ciência dessasexperiências A questão acercado modo de ser deste subjetivo ou acercada ciência que
o tem de tratar no seu universo de ser é normalmente encerrada pelo cientista
As ciências estão construídas sobre a obviedade do mundo da vida, por da natureza com o endossoà psicologia. Mas aqui, onde de novo está em causa
quanto a partir dela fazem uso daquilo que, em cada caso, é necessário para o ente do mundo da vida, não se pode fazer substituir-se a ele o ente no sentido
os seusfins. Contudo, utilizar o mundo da vida desta maneira não quer dizer da ciência objetivo. Porque aquilo a que, desde há muito e, em qualquer caso,
conhecê-lo cientificamente a ele mesmo no seu modo de ser próprio. Einstein, desdea fundação do objetivismo moderno do conhecimento do mundo, se cha-
por exemplo,serve-seda experiênciade Michelson e dassuasconfirmaçõespor ma psicologia, tem obviamente, qualquer que seja a psicologia historicamente
outros pesquisadores,com aparelhosque são cópias dos de Michelson, com ensaiadaque admitamos, o sentido de uma ciência "objetiva" do subjetivo. Nas
tudo o que lhes compete quanto a medições, constataçõesde coincidências etc. nossas reflexões ulteriores teremos de fazer objeto de discussões minuciosas o
Não resta dúvida de que tudo o que entra aqui em funcionamento (pessoas, problema de como tornar possível uma psicologia objetiva. O contraste entre a
aparelhagens,salasde institutos etc.) também pode, por sua vez, tornar-se tema objetividade e a subjetividade do mundo da vida tem, contudo, de ser desdejá
no sentido habitual de indagações objetivas, no sentido das ciências positivas. apreendido com toda a exatidão, como um contraste determinante para o senti-
Seria, porém, impossível para Einstein utilizar uma construção teórica, psico- do fundamental da própria cientiâcidade objetiva, e de ser certificado contra as
lógico-psicofísicado ser objetivo do Sr. Michelson, mas ele utilizou somente fortes tentações para a sua substituição. <130>
o homem enquanto objeto da simples experiência, acessívela ele bem como a
toda gente no mundo pré-científico, homem cuja existência nesta vida e nestas d) O mundo da vida como universo da intuitividade principial - o
atividadese produçõesno mundo comum da vida é semprejá um pressuposto mundo "objetivamente verdadeiro" como substrução "lógica" prin-
para todas as experiências de Michelson respeitantes a indagações,propósitos cipialmente não intuível
ou produções científico-objetivas de Einstein. Este é, naturalmente, o único
mundo universal-comum da experiência, no qual também Einstein e qualquer Independentemente do que aconteça com a realização ou com a possi-
pesquisador se sabe, como homem e também durante toda a sua atividade de bilidade da realização da ideia da ciência objetiva no que concerne ao mundo
pesquisa.Este mundo, precisamente, e tudo o que nele ocorre, utilizado segun- espiritual (ou seja, não só no que concerne à natureza) deverá afirmar-se: esta
do as necessidadesdos fins científicos e outros, tem, por outro lado, impresso ideia da objetividade domina a ní ersífasinteira das ciências positivas da Mo
para todo o cientista natural na <129> sua atitude temática perante a sua "ver- dernidade e o sentido da palavra "ciência" no uso corrente da linguagem. Re-
dade objetiva': o selo: "meramente relativo ao sujeito'l O contraste com este últi- side nela, nestes termos, desde logo, um naturalismo, tal como este conceito é
mo determina, conforme dissemos,o sentido da deânição "objetiva" de tarefas. retirado da ciência da natureza galilaica, de modo que o "verdadeiro" científico,
Este "relativo ao sujeito" deve ser "ultrapassado"; pode e deve-se ordena-lo a um o mundo objetivo, é de antemão pensado sempre como natureza, num sentido
ser-em-si, a um substrato para "verdades em si" lógico-matemáticas, das quais lato da palavra. O contraste entre o subjetivo do mundo da vida e o "objetivo" do
é possível aproximar-se em sempre novas e melhores abordagenshipotéticas, mundo "verdadeiro" reside, então, no fato de que esteé uma substrução lógico
justificando-se sempre por meio da conârmação a experiência. Este é um lado teórica, a substrução de algo principialmente não perceptível, principialmente

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A Crise das C ências Europeias e a Fenomenologia Transcendental. Edmund Husserl

respondente da Psicologia

não experi=idaise de- seu ser-si-mesmo próprio, ao passo que o subjetivo do


eíetiva experienciabHidade.2z o e em qualquer coisa, precisamente pela sua

âlã='==;:=';
HS w::à.:==;=::
:::i U:gUSHI XH
22

23
)i:T.: Veranschaulichungen
24 Cf.Anexo XIX

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105
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental Edmund Husser
Terceira Parte + A Clarificação do Problema Transcendental e a Função Correspondente da Psicologia

virtude deste enraizamento, a ciência objetiva tem uma permanente referência mos as metas "práticas" em sentido extracientíâco, ou práticas sob o título de
de sentido ao mundo onde vivemos sempre, também como cientistas, e, então,
teoréticas'; eo Pso copertencentes à unidade do mundo da vida, posto que as
também à comunidade universal dos cientistas - ou seja,tem uma referência ao tomamos unicamente na sua concreção inteira e completa? ' '
mundo geral da vida. Porém, como uma realização de pessoas pré-científicas, Mostrou-se, porém, por outro lado, que asproposições, as teorias, o ediíl
singulares e associando-senas atividades cientíâcas, a ciência objetiva também
cio doutrinal inteiro das ciências objetivas são conÊguraçõesadquiridas, a par-
pertence, então, ao mundo da vida. As suas teorias, as conâgurações lógicas, tir de certas atividades, pelos cientistas ligados no seu trabalho conjunto ou,
nao sâo, é certo, coisas no mundo da vida, como pedras, casasou árvores. São
mais exatamente:a partir de uma construção contínua de atividade$ cujos
totalidades lógicas <133> e partes lógicas de elementos lógicos últimos. Nos resultados ulteriores sempre novamente pressupõem os resultados das ativida-
termos de Bolzano: são "representaçõesem si': "proposições em si': conclusões des anteriores. E vemos, além disso, que todos essesresultados teoréticos têm
onstrações "em si'; unidades ideais de signiâcado cuja idealidade lógica o caráter de validados para o mundo da vida. Como tais, essesresultados cons-
determina o seu [e/os"verdade em si':
tantemente acrescentam o seu conteúdo ao mundo da vida e são de antemão a
Esta idealidade, no entanto, como qualquer idealidade, não altera em nada
ele pertencentes, a ele como horizonte de realizações possíveis da ciência em
o fato de que as teorias são conÊgurações humanas, essencialmente referentes surgimento. O mundo da vida concreto que, simultaneamente, é o solo funda-
a atualidades e potencialidades humanas, pertencentes, assim, a essaunidade mentador para o mundo "cientificamente verdadeiro" e o compreende na sua
concretado mundo da vida cuja concreçãovai mais longe, por conseguinte,do prõpna concreção universal - como se deve compreendê-lo, como fazer justiça
que a concreção das "coisas': Isto é justamente válido, de modo correlativo, para sistematicamente,isto é, numa cientiâcidade adequada,ao modo de ser onia-
as atividades científicas, para as atividades experienciadoras, para as que cons- brangente do mundo da vida, que se anuncia tão paradoxal?
troem as conâgurações lógicas "com base" na experiência, atividades nas quais Levantamos questões cujas respostas esclarecedoras não são de modo ne-
asconfigurações ocorrem sob a figura originária e nas modificações originárias, nhum facilmente acessíveis.O contrastee a unidade incindível envolvem-nos
nos cientistas particulares e na relação mútua dos cientistas: como origem das exmoque nos embaraça em diâculdades sempre mais penosas. A para-
proposições, das demonstrações etc., tratadas todas elas em comum. doxal referência mútua entre o "mundo objetivamente verdadeiro" e o "mundo
Chegamos a uma situação desconfortável. Se õzemos o contraste com da vida" torna enigmático o modo de ser de ambos. O mundo verdadeiro em
todo o cuidado necessário,temos, então, as duas coisas: o mundo da vida e o
qualquer sentido,inclusive também o nosso próprio ser, no seu sentido, se torna.
mundo científico-objetivo, numa mesmarelação.O saberdo mundo cientííico-
assim,um enigma. Nas tentativas de chegar à claridade e perante os paradoxos
objetivo "funda-se" na evidência do mundo da vida. Ele é dado de antemão ao que emergem, apercebemo-nossubitamente da falta de fundamento de todo o
trabalhador científico e à comunidade de trabalho como solo. No entanto. em- nosso âlosofar atéaqui. Como podemos nos tornar agora eíetivamenteHósoíos?
bora sejaconstruído sobre estesolo, o edifício é novo, é um outro. Sedeixarmos
Não podemos nos furtar à força que nos motiva, é-nos aqui impossível
de estar imersos no nosso pensar científico, aperceber-nos-emos de que os cien-
esquivar-nos com aporias e argumentações, por meio de um exercício que abor-
tistas são homens e, como tais, partes constituintes do mundo da vida, para nós de Kant ou Hegel, Aristóteles ou Tomas de Aquino. <135>
sempre existente, continuamente pré-dado, e a ciência inteira se insere, então,
Juntamente conosco, no mundo da vida o meramente "relativo ao sujeito': E f) O problema o mundo da vida, não como um problema parcial, mas
quanto ao próprio mundo objetivo? E quanto à hipótese do ser-em-si, referida, como problema filosófico universal
em primeiro lugar às "coisas" do mundo da vida, os "objetos'; os corpos "reais'l
os animais, as plantas e também os homens reais na "espaço-temporalidade
É claro que, para asolução do enigma que ora nos inquieta, estáem ques-
do mundo da vida - todos estesconceitos não mais são compreendidospelas tão uma nova cientificidade, não uma cientiâcidade matemática e, de modo
ciências objetivas, mas tal como na vida pré-científica?
algum, uma cientiâcidade lógica em sentido histórico, nenhuma que pudesse
Não é esta hipótese que, apesar da idealidade das teorias científicas, tem
ter atrás de si já uma matemática,lógica ou logística prontas, como norma já
validade atual para os sujeitos científicos (os cientistas como homens), zzmadas
disponível, dado que elas próprias são ciências objetivas no sentido aqui pro-
hipóteses e propósitos práticos entre os muitos outros que <134> constituem a blemático; e, dado que estão incluídas no problema, não poderiam ser pressu-
vida dos homens no seu mundo da vida - o mundo que lhes é a cada momento
postas como passíveis de serem utilizadas à maneira de premissas. Em primeiro
conscientemente pré-dado como disponível? E não são todas as metas, mes-
lugar, enquanto apenasse contrasta, só se cuida da confrontação. Assim, pode-

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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental e Edmund Husserl
Terceira Parte
A Clarificaçãodo ProblemaTranscendental e a FunçãoCorrespondente da Psicologia

na parecer que não é necessáriaoutra coisa além da cientiâcidade objetiva, da


mesmamaneira como a vida prática quotidiana tem as suasreflexões racionais. para o esclarecimento desta concreção, bem como de todas as outras aquisições
particulares e gerais, e não precisa para tal de nenhuma ciência. É exatamente da atividade humana, tem em primeiro lugar de ser levado em consideração o
mundo concreto da vida e, na verdade, de acordo com a universalidade efeti-
assim: fatos familiares, assumidos sem pensar, em lugar de serem formulados
vamente concreta na qual ele abarca atual e horizontalmente todas as suas ca-
como fato.sfundamentais e pensados inteiramente como tema próprio do pen-
madasde validade adquiridas pelos homens para o mundo da sua vida comum
sar a saber,há uma dupla verdade: por um lado, as verdadesias situações l

quotidianas práticas, verdades relativas, é certo, mas, conforme já o salientamos, e,por âm, na qual as referiu como um todo a um núcleo mundano que precisa
ser analisado em abstrato: o mundo das experiências simplesmente intersubje-
sao precisamentejquelas que a prática, nos seus propósitos, em cada caso pro-
tivas. E certo que não sabemosainda como o mundo da vida se torna um tema
cura e necessita.Por outro lado, as verdades científicas e a sua fundamentação
independente, total e completamente autónomo, como ele deve tornar possíveis
reconduzem precisamente a verdades da situação,mas de um modo que o mé-
asserçõescientíficas que, como tal, se bem que de uma maneira diferente da
todo científico, segundoo seusentido especíâco,não é afetadopor isso, posto
que também ele pretende utilizar e não pode deixar de utilizar exatamente estas das nossasciências,têm de ter a sua "objetividade'! uma validade necessária
mesmas verdades. a atribuir de modo puramentemetódico,que nós, e qualquerum, podemos
Poderia assim parecer - se nos deixarmos arrastar pela ingenuidade não veriâcar - com essemesmo método. Somos aqui absolutamente principiantes e
pl=sada da vida também na transição da praxis do pensar pré-lógico para a pra- não temos nenhuma lógica chamada aqui à normalização; não podemos senão
refletir,:s aprofundando-nos no sentido, ainda por desdobrar, da nossa tarefa,
xis lógica, para a praxis cientíâco-objetiva - que uma temática específicaintitu-
lada "mundo da vida" seria um exercício intelectualista, derivado de uma am- <137> não podemos mais do que, com um cuidado extremo pela ausênciade
!ao própria da vida moderna, a ambição de tudo teorizar. Tornou-se, porém, preconceitos, cuidar da pureza de misturas estranhas na nossa tarefa (para o que
visível que estaingenuidade no mínimo não é satisfatória, que aqui se anunciam já fizemos algo de importante); e, a partir daí, como em qualquer tarefa de uma
nova espécie, o método tem de se nos impor. A clarificação do sentido da tarefa
mcompreensibilidades paradoxais, que se anuncia uma pretensa superação das
relatividades meramente subjetivas pela teoria lógico-objetiva que, no entanto é a evidência da meta enquanto tal; e pertencem também essencialmente a esta
evidência os "caminhos" possíveis até a meta. A complexidade e a dificuldade
como praxis teorética do homem, pertence ao meramenterelativo ao sujeito,
e que, simultaneamente, não pode deixar de ter <136> as suas premissas, as das reflexões prévias que ainda temos pela frente justiâcar-se-ão por si mesmas,
suasfontes de evidência no relativo ao sujeito. A partir daí é já certo que todos não só dada a magnitude da meta, como também pela essencialestranhezae
os problemas da verdade e do ser, todos os métodos, hipóteses ou resultados pelo risco dos pensamentos necessáriosque aí entrarão em ação.
para 51stes
imagináveis - seja para mundos empíricos, sejapara supermundos Assim, o problema pretensamente simples dos fundamentos das ciências
metafísicos - só podem adquirir a sua clareza última, o seu sentido evidente ou objetivas, ou o problema, que alegadamenteé parte do problema universal da
ciência objetiva, mostrou-se, de fato (como já ficou advertido) propriamente
a evidência do seu contrassenso por intermédio desta hipertrofia alegadamente
intelectualista. Entre eles, então,'também estão todas as questões últimas, com como o problema, e o problema mais universal. Pode-sedizer também, com
sentido legítimo ou como contrassensos, no exercício recentemente tornado tão isto, que ele ocorre primariamente como pergunta acerca da relação entre o
audível e fascinante da "metafísica renascida'l pensarcientífico-objetivo e a intuição; ou seja, entre o pensar lógico, por um
Por meio desta última série de considerações tornou-se compreensível
lado, como pensar de pensamentoslógicos; por exemplo, o pensar físico das
para.nós, numa intelecção prévia, a dimensão, o signiâcado universal'e autóno- teorias físicas ou o pensar puramente matemático, onde a matemática tem o seu
mo do problema do mundo da vida. Peranteessemundo, o problema do mundo lugar como sistemadoutrinal, isto é, a matemáticacomo teoria. Do outro lado,
óbjetivamente verdadeiro': assim como o problema da ciência lógico-objetiva contudo, temos o intuir e o intuído antes da teoria, no mundo da vida. Surge
por mais e melhores que sejam as razões com que estesproblemas sempre de aqui a aparênciainextirpável de um puro pensar que, como puro, é indiferente
novo se nos imponham -, aparece,então, como problema de interesse secun- à intuição e tem já a sua verdade evidente e, mesmo, a sua verdade acercado
dário e mais específico. Ainda que as realizações 'particulares da nossa ciência mundo; estaé a aparência que torna questionáveis o sentido e a possibilidade,
objetiva da Modernidade possam não ser compreendidas, não se pode duvidar o "alcance"da ciênciaobjetiva.Aqui, mantêm-seem exterioridademútua as
que são uma validade para o mundo da vida, produzida por atividadesparti-
culares, e que pertencem também à sua concreção. Assim, em qualquer caso, 25 N.T.:Uns bes/nnen

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Terceira Parte ©A Clarificaçãodo Problema Transcendental e a FunçãoCorrespondente da Psicologia

intuições e o pensar,determinando-se em geral a espécieda "teoria do conheci-


vos, a <139> todas as definições de fins e de todas as ações que nos sejam próprias
mento'; como teoria da ciência efetivada numa duplicidade correlativa (ciência,
como cientistas objetivos ou também tão somente como desejososde saber.'
então, sempre segundo o único conceito de ciência de que se dispõe: ciência
Nesta epoc/zé,contudo, as ciências e os cientistas não desapareceram para
objetiva). Contudo, na medida em que o título vazio e vago da intuição, em lu- nós, que a exercitamos. Continuam a ser aquilo que anteriormente em qualquer
gar de ser algo de reduzido e de valor subordinado perante o lógico, esteo valor
casojá eram: fatos na conexão de unidade do mundo da vida pré-dado; só que,
supremo onde alegadamente se tem já a verdade genuína, se transformou no em virtude da epoc/zé,não funcionamos como cointeressados,como colabora.
problema do mundo da vida, e na medida em que, num aprofundamento sério, dores etc. Estabelecemosem nós tão só um particular direcionamento habitual
crescem enormemente a dimensão e a dificuldade desta temática, ocorre aqui a do interesse, numa determinada atitude profissional, à qual pertence um certo
grande transformação da "teoria do conhecimento': da <138> teoria da ciência,
tempo de trabalho'l Como noutra parte, também aqui se mostra o seguinte:
na qual a ciência,como problemae como realização,acabapor perder a sua quando atualizamos um dos nossos interesses habituais, e desempenhamos, en-
autonomia e se tornar um mero problema parcial. ' tão, a nossa atividade profissional (na execuçãodo trabalho), temos uma con-
O que dissemos também concerne, é claro, à lógica, como a doutrina a
tenção jprópria] da epoc/zéem relação aos nossos outros interesses vitais que, no
priori das normas de todo o domínio "lógico" - lógico, no sentido dominante,
entanto, persistem e continuam a nos ser próprios. Cada um tem "o seu tempo':
segundo o qual, então:a lógica é uma lógica da objetividade rigorosa, das verda- e, ao alterna-los, dizemos, então, algo como "é agora o momento de iniciar a
des lógico-objetivas. Não se consideram as predicações e asverdades dispo níveis sessão, de passar à votação': ou algo similar.
antes da ciência, nem a "lógica" normativa dentro desta esfera das relati\cidades.
Em sentido estrito denominamos a nossa "proâssão" ciência, arte, ser-
nem tampouco a possibilidade de indagar o sistema dos princípios a priori nor- viço militar etc.; contudo, como homens normais, estamos permanentemente
mativos para .esta lógica, adaptada ao mundo da vida de modo puramente des- (num sentido lato), simultaneamenteem muitas "profissões"(atitudes de inte-
critivo A lógica objetiva tradicional é, sem mais, suposta como norma a priori resses):somos simultaneamente pais de família, cidadãos etc. Cada uma dessas
também para esta esfera de verdade relativa ao sujeito. " proâssõestem o seu tempo de exercício atualizador. Coordena-se, assim, com
os restantes interesses da vida ou profissões, também este interesse proâssional
recentemente estabelecido,a cujo tema geral se chama "mundo da vida': e tem
$ 35. Analítica da "epoché"transcendental.Primeiro ponto: a "epoché"da ciência
ob/efíva ' '' o "seu tempo" respectivodentro do tempo pessoalúnico, ou seja,tem a forma
dos tempos proâssionais.
Estacomparação da nova ciência com todas as profissões "civis': e mesmo
Reside na natureza especíâcada tarefa que se nos impõe que o método
com asciências objetivas, signiâca uma espéciede trivialização, de um desprezo
de acessoao campo de trabalho da ciência moderna - no qual unicamentesão da grande diferença de valor que pode em geral haver entre as ciências. Assim
dados os problemas de trabalho dessaciência - articula-se numa diversidade de
entendida, esta concepção foi muito bem-vinda à crítica pelos modernos filó-
passos que têm cada um deles, de uma nova maneira, o caráter de uma epoc/zé, sofos irracionalistas. Numa tal concepção, parece que deve ser estabelecido um
da suspensão de validados natural-ingênuas e, em todo caso de validades que já novo interesse puramente teórico, uma nova "ciência'; com uma nova técnica
estão em efetivação. A primeira epoc/zénecessária, o primeiro passo metódico,
profissional, exercida porventura como um jogo intelectualista jogado de modo
Ja entrou no nosso campo de visão pelo estudo prévio já realizado. É necessária,
altamente ideal, ou como uma técnica intelectual de grau elevado ao serviço
contudo, uma formulação expressamente universal. É manifestamente necessária.
das ciências positivas, útil a elas, <140> as quais, por sua vez, têm o seu único
antes de tudo o mais, a epocbéem relação a todas as ciências objetivas Isto não
valor real na utilidade para a vida. Somosimpotentes contra assubrepçõesdos
quer dizer uma mera abstraçãosua,porventura à maneira de uma transformação leitores e ouvintes apressados,que acabam por só ouvir aquilo que querem, mas
simulada,pelo pensamento,da existênciado homem contemporâneo,como se
estessãotambém para o filósofo a massaindiferente do público. Os poucos para
nada da.ciencia nele existisse. Visa-se, muito pelo contrário, a uma epoc/zéde qual- quem sefala compreenderão tal suspeita de maneira mais contida, especialmen-
quer coe6etuação.dosconhecimentos das ciências objetivas, epoc/zéde qualquer te depois do que já dissemos em lições anteriores. Irão em todo caso esperar
tomada de posição crítica, interessada na sua verdade ou falsidade, mesmo no para ver até onde o nosso caminho os conduz.
que concerne à sua ideia diretora de um conhecimento objetivo do mundo. Em Há boas razões para termos sublinhado tanto o que mesmo a atitude do
suma, efetuamos uma Crochéem relação a todos os interessesteoréticos objeti- "fenomenólogo" tem de profissional. É algo de primordial na descrição da epo-

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11... 1 1 acerca dos objetos incondicionalmente válida Dará tndns n. l {pit.. ...+;.H.
11-. 1 dcerci] dos objetos incon(hcionalmente valida pam todos os sujeitos, partindo

1%l:H
iH&P:z !=z=.lr:!f''nKL= i =ia;lE
chegamos.então.anrnminha,].,;Ân,.;..l.;..:... r'-.. l.n :- - =:1; .'

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do que nos é permanentemente válido como mundo da vida, uma espécie particular de l A diâculdade desaparece, contudo, assim que refletimos sobre o fato de

manas,etudoistoresidenoâmbito
universaldomundodavida,
paraondeconfluemtodas l como mundo da vida, tem já pré-cientificamenteas "mesmas"estruturas que
as realizações,e a que pertencem todos os homens, atividades e faculdadesrealizadoras.
E óbvio que o novo interesse teórico pelo mundo universal da vida exige, no seu própria
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental EdmundHusser
Terceira Parte + A Clarificação do Problema Transcendental e a Função Correspondente da Psicologia

as ciências objetivas, com a sua substrução (que, pela tradição dos séculos, se distinção principial entre o mesmo e o a priori objetivo que, de imediato, se nos
tornou uma obviedade) de um mundo existente "em si': determinado em "ver substitui àquele. A primeira epoc/zéde todas as ciências objetivas efetua precisa-
dados em si': pressupõem como estruturas a priori, e que elas sistematicamente mente estadistinção, <144> se compreendermos aquela também como a epoc;zé
desdobram em ciências a priori, em ciências do /ocos, das normas metódicas de todas as ciências a priori objetivas e a complementarmos pelas considerações
universais a que se tem de vincular todo o conhecimento do mundo que é "em que acabamos de fazer. Essasconsiderações mesmas trazem-nos, além disso, a
si objetivo': Pré-cientificamente, o mundo é já mundo espaço-temporal; é certo intelecçãofundamental de que o a priori universal do grau lógico-objetivo - o
que, em relaçãoa estaespaço-temporalidade,não se fala de pontos matemáticos das ciências matemáticas e de todas as restantes ciências a priori no sentido
ideais, de retas ou planos "puros'l tampouco de continuidade matematicamente habitual funda-se num universal ízpriori em si anterior, precisamente o do
inânitesimal, da "exatidão" pertencenteao sentido do a priori geométrico. Os puro mundo da vida. SÓcom recurso a este a priori, a desenvolver numa ciência
corpos que nos são bem conhecidos no mundo da vida são eíetivos, mas não apriorística própria, podem as nossasciências apriorísticas, as ciências lógico-
corpos no sentido da física. O mesmo se passacom a causalidadeou com a infi- objetivas alcançar uma fundamentação eíetivamente radical, seriamente cientí
nidade espaço-temporal. O categorial do mundo da vida <143> tem os mesmos âca, que elas, neste estado de coisas, incondicionalmente reclamam.
nomes, mas não se preocupa, por assim dizer, com as idealizações teóricas e Podemostambém dizer a favor disto: a pretensalógica inteiramente autó-
substruções hipotéticas do geõmetra e do físico. Já o sabemos: os físicos, ho- noma que os logísticos modernos acreditam poder elaborar - até mesmo sob o
mens como os outros, vivendo no mundo da vida com o saberde si, no mundo título de uma âlosoâa verdadeiramente científica - a saber,como a ciência uni-
dos interesseshumanos,têm sob o título de físicauma espécieparticular de versal a priori fundamental para todas as ciências objetivas -, não é mais do que
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+ii questõese (num sentido vasto) de propósitos práticos, dirigidos às coisasdo uma ingenuidade. A sua evidência dispensa a fundamentação científica a partir
mundo da vida, e as suas"teorias" são os resultados práticos disso. Assim como do a priori universal do mundo da vida, que ela permanentemente continua
outros propósitos, os interesses práticos e a realização dos mesmos pertencem a pressupor, sob a forma de obviedades jamais formuláveis cientiõcamente de
ao mundo da vida, pressupõem-no como solo e enriquecem-no pela sua ação, e, modo universal,jamais reconduzíveis a uma universalidade científica essencial.
assim, também isto é válido para a ciência, como propósito e prática humanos. Esta lógica não pode se transformar numa ciência até que exista esta radical
E a esta pertence, como se disse, todo o a priori objetivo no seu necessário estar ciência fundamental. Antes disso, ela paira sem fundamento no ar e é, como até
remetido a um correspondentea priori do mundo da vida. Esseestar remetido aqui, tão ingênua que nem sequer se apercebeda tarefa que incumbe a qualquer
é o de uma fundamentação de validade. Aquilo que a configuração de sentido lógica objetiva, a toda a ciência apriorística em sentido habitual: a saber,pesqui-
e a validade de ser de nível superior do a priori matemático e de todo o a priori sar como ela própria sedeve fundamentar, ou seja, fundamentar não mais "logi
objetivo produzem é uma certa operação idealizadora, com base no a priori do lamente': mas por meio de uma recondução até o a priori universal pré-lógico,
mundo da vida. Este último teria, então, em primeiro lugar, na sua especiâcida- a partir do qual todo o lógico, o edifício completo de uma teoria objetiva revela,
de e pureza, de ser definido como tema científico e, subsequentemente, deânida segundo todas as suas formas metodológicas, o seu sentido correto, pelo qual,
a tarefa sistemática, de como sobre esta base e em que modos de uma nova con- então, se deve unicamente também reger toda a lógica.
figuração de sentido é produzido o a priori objetivo como um resultado teórico No entanto, esteconhecimento ultrapassa o interesse pelo mundo da vida
mediato. Seria, então, necessária uma distinção sistemática entre as estruturas que agora nos move, para o qual só importa, como se disse, a distinção princi-
universais: a priori universal do mundo da vida e universal "objetivo" a priori pial entre o a priori lógico-objetivo e o a priori do mundo da vida; e, na verdade,
e, então, também uma distinção entre as indagações universais acercado modo a âm de poder conduzir no curso de uma reflexão radical <145> a grande tarefa
como o a priori "objetivo" se funda no a priori "relativo ao sujeito" do mundo da de uma pura doutrina da essência do mundo da vida.
vida ou, por exemplo, como tem a evidência matemática a sua fonte de sentido
e de.jure na evidência própria do mundo da vida.
Embora o nossoproblema de uma ciência do mundo da vida se tenha S 37. As estruturasmaislormalmente gerais do mundo da vida: coisae mundo,
já separado do problema da ciência objetiva, esta reflexão tem para nós o seu por um lado, consciênciada coisa,por outro
interesse particular, porquanto, condicionados desde a escola pela metafísica
objetivista tradicional, não temos de início absolutamentenenhum acessoà Quando, num livre olhar em torno, buscamos o geral-formal, o que no
ideia de um a priori universal puro do mundo da vida. Carecemosantes de uma mundo da vida permaneceinvariante em todo o curso mutável dasrelatividades,

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mantemo-nos involuntariamente presos àquilo que unicamente determina na como um ente,:' como um objeto, mas numa unicidade singular, para a qual o
vida, para nós, o sentido de se falar em mundo: o mundo é o todo dascoisas,das plural não tem sentido.Todo o plural e todo o singular dele destacadopressu-
coisasque, num duplo sentido (segundoo lugar no espaçoe o lugar no tempo), poe'
m o horizonte do mundo. Esta diferença dos modos de ser de um objeto no
se distribuem "localmente" sob a forma espaço-temporal do mundo, ele é o todo mundo e do próprio mundo prescreve manifestamente, a cada um, modos de
dos "o?zfa" espaço-temporais. Assim, residiria aqui a tarefa de uma ontologia do consciência correlativas fundamentalmente diferentes.
mundo da vida, entendida como uma doutrina concretamente geral da essência
dessesofzfa. Para o nosso interesse no contexto atual, basta tê-lo indicado. Em
vez de nos deixarmos estar aqui, preferimos avançar para uma tarefa que, como S 38. Os dois modospossíveisfundamentaisde tornar temático o mundo da vida:
se verá, é muito maior e, na verdade, que também a abarca. A íim de aplanar- a tomada de atitude direta natura! ingénua e a ideia de uma atitude consequente
mos o caminho para esta nova temática que, não sendo embora uma temática re#exivasobre o como do modo subjetivo de doação do mundo da vida e dos ob-
ontológica, diz também essencialmenterespeito ao mundo da vida, adiantemos, jetosdo mundoda vida
como homens despertos, vivos no mundo da vida (logo, obviamente dentro da
epoc/zéde toda a mistura de cientiíicidade positiva), uma consideraçãogeral. Esta [caracterização] maximamente universal da vida despertanão é, po-
Essa consideração geral terá simultaneamente a função de evidenciar uma rém, senão o enquadramento formal onde são possíveis as diferenças dos mo-
diferença essencial nas maneiras possíveis em que o mundo pré-dado, o universo dos de efetivaçãodessavida, na medida em que, em qualquer caso,estatem o
õntico, pode se tornar para nós tema. O mundo da vida é na presentificaçãodo mundo pré-dado e, nestehorizonte, objetos que são dados. Isto constitui, então,
que âcou repetidamente dito -, para nós, que nele vivemos despertos, existindo aquelesdiversos modos, assimpodemos dizer também em que somos despertos
sempre já de antemão, o "solo" para toda a praxis, tanto teórica quanto extrateó- para o mundo e para os objetos no mundo. O primeiro modo, o modo natural-
rica. Paranós, que somos despertos, sujeitos continuadamente e de algum modo mente normal que, não por razõescontingentes,mas essenciais,tem incondi-
praticamente interessados,o mundo é pré-dado como horizonte, não por uma cionalmente de ser o primeiro, é o dos objetos diretamente dados em cada caso,
vez, ocasionalmente,mas sempre e necessariamentecomo campo universal de ou seja, dados no horizonte da vida inserida no mundo, e isto numa perma'
toda a praxis eíetiva e possível. A vida é permanentemente viver na certeza do nente normalidade ininterrupta, numa unidade sintética que atravessatodos os
mundo. Viver desperto é ser desperto para o mundo, ser constante e atualmente atos. Essavida diretamente normal, dirigida a objetos em cada caso dados,quer
"consciente"do mundo e de si mesmo como vivendo no mundo, vivenciando <147> dizer: todos os nossos interessestêm a sua meta em objetos. O mundo
efetivamente, realizando eíetivamente a certeza do ser do mundo. Esta está aí pré-dado é o horizonte que abrange, em fluxo constante, todas as nossasmetas,
pré-dada, em qualquer caso,<146> da maneira como em cada caso são dadas todos os nossosfins, passageirosou duradouros, precisamente tal como de ante-
coisassingulares.Subsiste,porém, uma diferença fundamental na maneira da mão os "abarca" implicitamente uma consciência intencional de horizonte. Nós,
consciência do mundo e da consciência do objeto (num sentido maximamente os sujeitos, não conhecemos na vida normal una e ininterrupta quaisquer metas
vasto,mas puramente referenteao mundo da vida), enquanto,por outro lado, alcancem mais longe, não temos, aliás, sequer uma representaçãode que
uma e outra constituem uma unidade inseparável.Coisas,objetos (entendidos pode haver outras. Podemos também dizer que todos os nossos temas, teóricos
semprepuramente como no mundo da vida) são "dados" como válidos para nós e práticos, residem semprena unidade normal do horizonte da vida "mundo'l
em cada caso (num qualquer modo da certeza do ser), mas, principialmente, Mundo é o campo universal para onde estão dirigidos todos os nossos ates de
apenas de ta] modo que são [para nós] conscientes como coisas, como objetos no experiência, de conhecimento ou de ação. Dele provêm, a partir dos objetos em
horízonfe do mundo. Cada um é algo, "algo a partir" do mundo que é para nós cada caso já dados, todas as afecções, que se transformam, a cada vez, em ações
em permanência conscientecomo horizonte. Essehorizonte, por outro lado, só é Pode. no entanto, haver ainda uma outra espécie, inteiramente diversa, da
consciente como horizonte para objetos que são, e não pode ser atual sem objetos vida despertadotada de consciênciado mundo. Esta residiria numa modificação
conscientes em particular. Cada um tem os seus modos possíveis de variação do da consciência temática do mundo, que rompe com a normalidade do viver imerso.
l valer, da modalização da certeza do ser. Por outro lado, o mundo não é existente:' Voltemos o nosso olhar para o fato de que, em geral, para todos nós, o mundo e os
objetos não são só pré-dados, num mero ter como substrato das suas propriedades,

27 N.T.:Se/end 28 N.T.:Sefendes

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mas que eles (e tudo o que é onticamente visado) se nos tornam conscientesem como ação e resultado da ação etc., dizem respeito a alguma coisa no horizonte
modos de aparição, em modos de doação subjetivos, sem que atendamos propria- do mundo. Isto é válido mesmo para as aparências,as ineíetividades,dado que
mente a isso e, na maior parte [dos casos], sem que tenhamos de todo notícia disso. tudo o que é caracterizado sob quaisquer modalidades do ser está novamente
Figuremos, então, isto como uma nova direção universal do interesse, estabeleça- referido ao ser efetivo. O mundo tem, certamente, de antemão, o seguinte senti-
mos um interesseconsequenteuniversal pelo como dos modos de doação e pelos do: o todo das efetividades que "efetivamente" são, não das meramente visadas,
próprios orzfa;não diretamente, mas enquanto objetos no seu como, precisamente duvidosas, questionáveis, mas das e6etividades efetivas que, como tal, só têm a
no direcionamento exclusivo e constante do interesse para o modo como, no curso sua efetividade para nós no movimento constante das correções, das transpor
mutável das validades relativas, das aparições ou intuitos subjetivos, surge para nós mações de validades - como antecipaçõesde uma unidade ideal. <149>
a validade una e universal mundo, o mundo: ou seja, o modo como surge para nós Em lugar de permanecermosnestemodo do "viver simplesmenteinse
a consciênciapermanente do existir universal, do horizonte universal de objetos rido no mundo': ensaiemosaqui uma mudança universal de interesse,na qual
reais, eíetivamente existentes,:9cada um dos quais, mesmo quando é destacada precisamente se torna necessária a nova expressão "ser pré-dado" do mundo,
mente consciente como simplesmente existente,só é assim conscienteno curso porquanto este é o título para estatemática dos modos da pré-doação, temática
mutável das suascaptações,modos de aparição ou modos de validade relativos. essaque, embora dotada de uma outra orientação, é igualmente universal. Nada
Nesta viragem total do interesse, levada a cabo numa nova coerência, mais nos deverá interessar além desta alteração subjetiva dos modos de doação,
fundada por meio de uma decisão particular da vontade, observamos<148> dos modos de aparição, dos modos de validade habituais, os quais, em perma-
que inumeráveis tipos de singularidades, nunca antes tematizadas, bem como nente curso e incessantementeimersos em ligação sintética no fluir, produzem
a consciência una do "ser" simples do mundo.
#

sínteses,numa totalidade sintética inseparável,nos são proporcionadas, perma-


nentemente produzidas por horizontes de validades que se estendem intencio- Entre os objetos do mundo da vida encontramos também o homem, com
nalmente, que seinfluenciam mutuamente sob a forma de conârmações perma- todo o seu agir e empreender humanos, as suas ações e paixões humanas, nos
nentes de existência, ou também de elisões supressoras e outras modalizações. E seusvínculos sociais particulares, vivendo em comum no horizonte do mundo e
l próprio da totalidade sintética, na qual se pode tornar próprio para nós algo que sabendo-senele. Assim, a nova orientação universal dos interessestem também
antes era completamente desconhecido, jamais discernido, e ser captado como de ser levada a cabo, de uma só vez, para tudo isto. Um interesse teoricamente
tarefa de conhecimento o seguinte: a vida universalmente produtora, na qual o uno deve dirigir-se exclusivamentepara o universo do subjetivo, onde o mundo,
mundo como sendo para nós permanentemente uma particularidade fluente, o em virtude da sua universalidade de realizações sinteticamente vinculadas, che
mundo que vem constantemente a ser para nós de modo "pré-dado" chega a ter- ga à sua simples existência para nós. Este subjetivo múltiplo decorre incessan-
mo; ou também: a vida em que descobrimos então, primariamente, que e como temente na vida do mundo natural-normal, mas nesta permanece constante e
o mundo, enquanto correlato de uma universalidade pesquisávelde produções necessariamente oculto. Como, com que método pode ser ele desocultado? Ele
sinteticamente vinculadas, alcança o seu sentido de ser e a sua validade de ser pode ser exibido como um universo, encerrado em si, de uma pesquisa teórica
na totalidade das suasestruturas ânticas. autónomae coerentementemantida, revelando-secomo a unicidadetotal da
Não temos, contudo, de entrar mais detalhadamente numa explicitação subjetividadeem última instância funcional-realizadora, que deve responder
de tudo aquilo que pode aqui ser temático. Essencial para nós é agora a diferen pelo serdo mundo - do mundo para nós, como o nosso horizonte vital natural?
ça da dupla temática, duplamente considerada como uma temática universal. Seesta é uma tarefa justificada, uma tarefa mesmo necessária,então a sua exe
A vida natural, interessadapré-científica ou cientificamente,te(trica ou cução significa a criação de uma ciência especificamente nova. Como ciência
praticamente, é vida dentro de um horizonte universal não temático. Este é jus sobre o solo do mundo, esta, em contraste com todas as ciências objetivas até
tamente o mundo pré-dado na naturalidade, como o que é sem cessar.Assim, aqui delineadas, seria uma ciência do como universal da doação prévia do mun-
imerso no viver, o termo "pré-dado" é desnecessário:não é necessáriaqualquer do, ou seja,daquilo que constitui o seu ser-solo universal para toda e qualquer
referência ao fato de que o mundo é para nós eíetividade constante.Todo o ques objetividade.E isto significa a criação, nisto coimplicada, de uma ciência dos
tionar natural, todas as metas teóricas e práticas como tema, como sendo, como fundamentos últimos, a partir dos quais toda a fundamentação objetiva haure a
sendo talvez, como prováveis, como questionáveis, como valor, como propósito, suaverdadeira força, a força da sua doação última de sentido. <150>
Com uma motivação histórica, o nosso caminho de interpretação da pro-
29 N.T.:Se/enter. blemática que sejoga entre Kant e Hume conduziu-nos, então, ao postulado do

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esclarecimento do "ser-solo» universal do mundo pré-dado para todas as ciências de natural, uma alteração na qual não mais vivemos como até aqui como homens
objetivas e, conforme resultou por si mesmo, do "ser-solo" em geral para toda a da existêncianatural na efetivaçãoconstante da validade do mundo pré-dado
praxis objetiva: conduziu-nos, assim, ao postulado desta ciência universal, de mas, pelo contrário, abstemo-nos permanentemente dessa efetivação. SÓassim
nova especie,ciência da subjetividade pré-doadora do mundo. Temos agora de podemos alcançar o tema transformado, de uma nova espécie,"pré-doação do
ver como podemos realiza-lo. Conforme observamos, aqueleprimeiro passoque mundo como tal": o mundo pura e totalmente, de modo exclusivo, como aquele
nos pareceu de início ajudar, aquela epoc/zépela qual tivemos de dispensar todas que e faZcomo na vida da nossa consciência tem sentido e validade de ser, e os
as ciências objetivas como solo de validade, já não é de modo nenhum suficien- adquire em figuras sempre novas. SÓassim podemos estudar o que é o mundo
te. Na efetivação desta Croché,estávamos manifestamente ainda sobre o solo do como solo de validade da vida natural, em tudo o que nele se propõe e dispõe e,
mundo; ele está agora reduzido ao mundo da vida para nós pré-cientificamente correlativamente, o que em z2/rima ínsfá?zcia é a vida natural e a sua subjetivida-
válido; não fazemos uso, como premissas, de absolutamente nenhum saber pro- de, ou seja,puramente como a subjetividade que aí funciona como efetivadora
11 veniente das ciências, e só podemos levar em conta as ciências à maneira de fatos de validade. A vida que realiza a validade do mundo, validade própria da vida
históricos, sem uma tomada de posição especíâca sobre a sua verdade. natural do mundo, não se deixa estudar na atitude desta vida natural do mundo.
Isto em nada âca alterado,entretanto, por um olhar em torno, interessa- Ela necessita, por isso, de uma alteração fofa/, de uma epoc/zézírziversaZ,
de uma
do no mundo intuível pré-cientíâco, e por uma atenção às suasrelatividades. De espéciecompletame?tte única.
certo modo, a ocupação com elas pertence mesmo, ininterruptamente, à temáti-
ca objetiva, pertence designadamente aos historiadores, que têm de reconstruir
os mundos da vida circundantes mutáveis dos povos e das épocas de que em S 40. As di$culdades do sentido genuíno da efetivação da "epoché" total. A tenta
+

particular se ocupam.Em tudo isto, o mundo pré-dadoé válido como solo, e ção de compreendo-la erroneamente como uma abstenção, a ser realizada passo a
não está ainda transposto para o universo de que agora se trata, o universo do passo, de todas as validades particulares
que é puramente subjetivo como uma conexão universal autónoma.
O mesmo acontece se tornamos temáticos todas as épocas e povos e, ânal- A universa]idade da epoc/zé em re]ação à vida natura]-normal completa
mente, o mundo espaço-temporal inteiro, na unidade de um olhar em redor sis- tem, de fato, uma especiâcidade incomparável e, enquanto tal, desde logo, as
temático, com uma atençãoconstante, porém, à relatividade dos mundos da vida suasincertezas. Não úca de início claro como ela pode ser levada a cabo, para
circundantes de cada homem, povo ou época na sua mera facticidade. É claro que seja capaz do resultado metódico que dela é esperado e que, na sua genera-
que o mesmo que é válido para um olhar em redor para um mundo isoladamen- lidade, requer ainda clarificação. Oferecem-se, aqui, conforme nos iremos con-
te é igualmente válido para esteolhar o mundo sob a forma de uma síntesereite- vencer, atalhos tentadores, isto é, maneiras de compreender a eíetivação <152>
rada de mundos da vida espaço-temporalmente relativos. Eles são considerados da epoc/zéque não conduzem certamente à meta conforme se pode tornar já
cadaum como um elo, e,então, num estádio mais elevado,um mundo circun- de antemão evidente.
dante e uma época de cada vez, sendo cada intuição particular uma validade de A íim de alcançar uma representaçãode como é eíetivável estaalteração
ser,seja no modo <151> da efetividade, sejano da possibilidade. Logo de início, total, consideremos outra vez o modo da vida natural-normal: movemo-nos
cada intuição pressupõejá outras como dotadas de validade objetiva, pressupõe nela numa corrente de experiências,juízos, valoraçõesou resoluçõessempre
sempre já para nós, os observadores, o solo geral da validade do mundo. novas. Em cada um destes atou, o eu está dirigido a Duelos do seu mundo cir-
cundante, ele está com eles de um modo ou de outro ocupado. Eles são aquilo de
que se está consciente nestes mesmos atos, ora simplesmente como efetividades,
S 39. A especi$cidadeda "epoché" transcendental como alteração total da atitude ora em modalidades da efetividade (por exemplo, como possíveis, duvidosos
naturalda vidaso etc.). Nenhum destes atos, e nenhuma das validades neles contidas é isolada-
mente, eles implicam necessariamente, nas suas intenções, um horizonte infini-
Como pode, então, o ser pré-dado do mundo da vida tornar-se um tema to de validades inatuais, cofuncionais numa mobilidade corrente. As múltiplas
autónomo e universal? Manifestamente, apenas por uma a/geração fofas da atitu- aquisiçõesda vida atavaanterior não são sedimentaçõesmortas. Mesmo o plano
de fundo permanentemente coconsciente, mas momentaneamente irrelevante,
30 Cf. Anexo XX que permanece totalmente inadvertido (por exemplo, no campo perceptivo),

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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental © Edmund Husserl
Terceira Parte ©A Clarificação do Problema Transcendental e a Função Correspondente da Psicologia

funciona concomitantemente segundo as suasvalidades implícitas; embora mo- uma atitude acima da vida universal da consciência (subjetiva individual e inter
mentaneamente não atualizadas,todas estasestão numa permanente mobilida- subjetiva), na qual o mundo está"aí" para aquele que vive ingenuamente imerso,
de de modos imediatos ou mediatos de vigília e de modos de afecçãosobre o como inquestionadamente disponível, como universo da disponibilidade, como
eu, transitando, eventualmente, para a apercepçãoatavae intervindo, em termos o campo de todos os interesses vitais, adquiridos e recém-fundados. Todos estes
de validade, na conexão dos atos. Assim, o que a cada vez é ativamente cons estão de antemão postos fora de ação pela epoc/zé e, assim, está posta fora de ação
ciente e, correlativamente, a posse ativa de consciência, o ativo estar dirigido a totalidade do viver naturalmente imerso dirigido às efetividades "do" mundo.
para, estar ocupado com, permanece sempre circundado por uma atmosfera Obviamente, esta epoc;zé,a "transcendental': é visada - e se deve atentar
de validades mudas, ocultas, mas cofuncionais, por um horízonfe vivo onde o também para isto como uma atitude habitual, a que nos decidimos de uma vez
eu atual pode também voluntariamente se situar, ao reativar aquisições antigas, por todas. Ela não é, por conseguinte, de modo nenhum um ato ocasional que
ao captar conscientemente ocorrências aperceptivas," transformando-as em in- permanece contingente e singular nas suas repetições. E é de novo válido tudo o
tuições. Assim, em virtude desta /zof'izonfaZfdadeem permanente curso, toda a que <154> dissemos da epoc/zéanterior, quando a comparamos com as atitudes
validade efetuadasimplesmente na vida natural do mundo pressupõe semprejá proâssionais: no seu "tempo profissional': ela põe, de fato, "fora de jogo" todos
validades, fazendo remontar, imediata ou mediatamente, até um subsolo neces-
os restantes interesses, mas não abre mão do seu modo de ser enquanto é o nos-
sário de validades obscuras, embora ocasionalmente disponíveis, reativáveis, as so modo de ser (ou seja, o nosso modo de ser como o dos "interessados"), como
quais constituem todas entre si, e juntamente com os aros propriamente ditos, se renunciássemos a ele ou puséssemos em causa também a sua continuação etc.
uma única conexão vital inseparável.
Não se deve, porém, tampouco esquecero que ficou dito como protesto contra
Estareflexãoé signiâcativapara a clarificação do modo de efetivaçãoda uma equiparação desvalorizadora com outras proâssões,e sobre a possibilidade
epocbéuniversal. Vemos, nomeadamente, que esta <1 53> não pode conduzir à da alteração radical da humanidade inteira por meio desta epoc/zé,que atinge a
meta como uma abstenção da efetivação que precisa ocorrer em passosisolados. profundidade filosófica da humanidade.
A abstenção da eíetivação de validades isoladas (como, por exigências te
oréticasou práticas,acontecenum comportamentocrítico) cria somentepara
cada uma um novo modo de validade sobre o solo natural do mundo; e a coisa S41. A "epoché"transcendental
genuíttapossibilitaa "reduçãotranscendental"
-a
não se torna melhor se, por uma decisão universal antecipada, quisermos exercer descoberta e a pesquisa cla correlação transcendental entre o mundo e a consciên
uma abstenção da eíetivação de modo isolado, mesmo que até ao infinito, a saber, cia do mundo
para todas as validades, próprias e estranhas, que a partir de agora se ofereçam.
E, todavia, possível, em lugar desta universalidade da abstençãoem pas- Nós, que hoje filosofamos, levamos a termo de fato a epoc/zécomo uma
sos isolados, uma maneira inteiramente diversa da epoc/zéuniversal, a saber, alteração da atitude que, não contingentemente, mas de modo essencial, a pre-
aquela que põe cora de ação, de um só golpe, a efetivação completa que atravessa cedia, a atitude do ser-aí humano natural, ou seja, da atitude que, em toda a sua
a totalidade da vida natural do mundo e o entretecido inteiro (latente ou ma- historicidade, jamais tinha sido interrompida na vida e na ciência. Mas é neces-
nifesto) das validades, a efetivação que, como "atitude natural" una, constitui sário, então, que se torne verdadeiramente inteligível que não se trata somente
precisamente o "simples': o "direto" viver imerso. Por intermédio da abstenção de uma abstenção habitual sem significado, mas que com ela o olhar do filósofo
da efetivaçãoque inibe estemodo de viver num curso até aqui ininterrupto, é setorna pela primeira vez de fato inteiramente livre e, antesde mais nada,livre
alcançada uma transformação completa da totalidade da vida, um modo de vida do vínculo interior mais forte e mais universal de todos e, por isso, mais oculto,
inteiramente novo. E alcançada uma atitude acima da pré-doação de validade do o vínculo da pré-doação do mundo. Com esta libertação, e nela, é dada a desco-
mundo, acímczda infinidade do entrelaçamentodasfundaçõesocultasdas suas berta da correlação universal, inteiramente encerrada em si e absolutamente au-
validades sempre novamente sobre outras validades, acima da corrente inteira
l tónoma, do próprio mundo e da consciência do mundo. Neste último aspecto,é
l do múltiplo, sinteticamenteunificado, onde o mundo tem, e ganha semprede visada a vida da consciência da subjetividade realizadora da validade do mundo,
novo, conteúdo de sentido e validade de ser. Noutras palavras,temos, assim, da subjetividade que, nas suas aquisições duráveis tem, em cada caso, mundo,
e também, que sempre de novo ativamente se configura. Resulta a conclusão,
que deve ser apreendida na sua máxima extensão: a correlação absoluta do ente
31 N1.: Apperzeptive Einfãlle.
de qualquer espéciee sentido, por um lado, e a subjetividade absoluta, por ou

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-'iaTranscendental
' EdmundHusserl Terceira Parte e A Clarificação do Problema Transcendental e a Função Correspondente da Psicologia

tido e da validade do ser. modos determinados como esta"gera" o mundo em si como sentido de ser -
funciona concomitanten7Éy.:
'e, pela epoc;zé,aquele como trazer na evidência à luz do dia, sem inventar nem construir miticamente?
'lo <155> pensar, Sesefala aqui de uma nova espéciede cientiíicidade, de uma nova espéciede
\ acima do mundo questionar teorético e de decidir as questões, então o solo tem também de estar
,4etivas, assim como preparado para estequestionar. As questõesnaturais acercado mundo têm o seu
/no mundo e de toda a solo no mundo pré-dado, como o mundo das experiências reais;: e possíveis.E,
ze prosseguir - enquanto assim,o olhar que a epoc/zéliberta tem também, à sua maneira, de ser um olhar
,dos seus interesses, - toda experienciador.O resultado da mudança total de atitude tem de consistir em
,recusa-se a levantar questões que a infinidade da experiência efetiva e possível do mundo se transforma na in
'ser, questões de valor, questões unidade da "experiência transcendental" efetiva e possível, na qual pela primeira
.o ser válido, ser útil, ser belo, ser vez o mundo e a sua experiência natural são experienciados como "fenómeno':
6 estãopostos fora de jogo. O mun- Por onde começar, como ir mais além? Como, tateando inicialmente de
/6 como era antes e ainda é para mim, modo concreto, sepodem alcançar os primeiros resultados, mesmo que de início
zío, válido nos modos sempre subjetivos, sejam somente material para novos estudos, nos quais chega à clareza integral o
/'durante a epoc/zélevada a cabo de modo método para um trabalho continuado sistemático,bem como o sentido próprio e
/relato da subjetividade para ele doadora de puro de todo o nosso empreendimento e daquilo que é inteiramente peculiar des-
k:ujavalidade ele em geral "é': ta nova cientiíicidade? As nossasreflexões seguintesirão mostrar o quanto isto é
,Ãa "concepção': uma "interpretação" atribuída ao necessário,lá onde não mais nos movemos sobre o solo mundo familiar, mas pela
meta c( '8b 3el.., toda a opinião sobre "o" mundo tem o seu solo nossa redução transcendental estamos tão somente no portão do reino nunca
e
Úpoc/zéremovi precisamente este solo para mim, estou antespisado da "mãe do conhecimento"; irão mostrar o quão grande é a tentação
oréti( ,Óum sentido inteiramente szzígenerís,setornou, então, de uma autocompreensão errónea e, finalmente, o quanto depende, até ao fim, da
cada:. Zno. clarezado autoestudo o verdadeiro êxito de uma filosofa transcendental.
nãq,.'
ur
P áa indicação concreta de caminhospara uma execuçãoefetiva da $ 43. Caracterizaçãode ma nova t'la para a redução,em conf7'asse
com a "via
JscetzdelzfaZ cartesiana
J
.JPmo pode, então, ser tornada mais concretamente compreensívela rea- Queremos proceder aqui de tal modo que, começando de novo, e a partir
..idindicada - denominamo-la "redução transcendental -, possibilitada pela da pura vida natural no mundo, levantemos a questão pelo como da <157> pré-
.d:/zée as tareias cientíâcas que assim se abrem? Como pode ser tornada mais doação do mundo. Compreendemos a questão da pré-doação do mundo ini-
..d)ncretamentecompreensível esta realização de uma redução "do" mundo ao cialmente tal como ela se oferece, inteiramente compreensível a partir da atitude
fenómeno transcendental "mundo': e, assim, ao seu correlato, a subjetividade natural; a saber,como pré-doação do mundo das coisas que são,3sna mudança
transcendental, em cuja "vida da consciência': e a partir dela, o mundo para permanente dos modos relativos da doação: o mundo essencialmentetal como,
nós simples e ingenuamente válido já antes de qualquer ciência ganha e sempre em toda a vida no seu curso natural, é para nós sempre o que é obviamente,
ganhou o seu sentido inteiro e a sua validade de ser? Como tornar mais con- sendo num p/enzzminesgotável de sempre novas obviedades que, no entanto, se
cretamente compreensível o fato de que a redução da humanidade ao fenóme- submetem em permanência à mudança das aparições e das validades subjetivas.
no "humanidade'l coincluída na reduçãodo mundo, íaz conheceraquelacomo Assim, tornamo-lo agora coerentemente temático, como solo de todos os nos-
uma <156> auto-objetivaçãoda subjetividadetranscendental,a todo tempo sos interesses, dos nossos propósitos vitais, entre os quais as ciências teoréticas
funcional em última instância e,por conseguinte,"absoluta"?Como setornará
possível, graças a esta epoc;zé,mostrar esta subjetividade no seu realizar, na sua 32 N.T.:,4ktue//er
33 N.T,:Se/enter.
'vida da consciência" transcendental, que se estende até os subsolos ocultos, nos

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Terceira Parte e A Clarificação do Problema Transcendental e a Função Correspondente da Psicologia

e objetivas formam somenteum pequeno grupo. Mas este,agora,semabsolu-


vida humana no mundo e, com efeito, precisamente para a maneira como Ihe é
tamentenenhum privilégio, ou seja,não mais tal como motivou anteriormente
própria esta função "solo" geral. Posto que buscamos em vão na literatura inves-
o nosso questionamento. Deste modo, o nosso tema não é agora o mundo sim-
plesmente, mas o mundo exclusivamente como em permanência pré-dado no tigaçõesque nos pudessemservir como trabalho preparatório - investigações
que tivessem apreendido estatareia como a de uma ciência própria (certamente
curso mutável dos modos de doação.
uma ciência singular - da desprezadabóia, que deveria finalmente reivindicar
Abrem-se, então, deânições sistemáticas de tarefas de uma nova espé- a dignidade de um fundamento para a ciência, a êltta'tÚBTI) -, então temos nós
cie, que progressivamente se ampliam, dentro de uma Croché universal que se próprios de começartotalmente de novo. Como em todas as tarefasiniciais de
oferecede início de modo totalmenteóbvio como necessidade
imediata. Na
uma nova espécie,.nasquais nem sequer uma analogia pode servir de orientação,
execuçãosistemática da Crochéou da redução assim entendida, mostra-se, en-
isto aconteceinevitavelmente numa certa ingenuidade. No começo está a ação.
tretanto, que esta, em todas as suas deânições de tarefas, carecede uma clarim
Ela torna mais bem determinado o propósito ainda incerto e, simultaneamente,
cação e transformação de sentido, se é que a nova ciência deve poder ser levada
torna-o sempre mais claro ao ter êxito na execuçãode partes dessepropósito.
concretamente a cabo e sem contrassenso ou, o que é o mesmo, se é que ela
deve efetivamente operar a redução até os fundamentos absolutamente últimos, Posteriormente (mas em segundo lugar), é necessária a reflexão metódica que
delimita expressamenteo sentido geral e o alcance da possibilidade de atingir
evitando os contrassensosda intromissão inadvertida de representaçõesnatu um tal propósito, e daquilo que já se conseguiu alcançar.
raia ingênuas. Alcançámos, assim, mais uma vez em sua generalidade, a epoc/zé
Pretendemosobservar,então, concretamente,o mundo da vida circun-
transcendental já antes introduzida na exposição até aqui, mas agora não só dante na sua desprezadarelatividade, e, segundo todos os modos da relativida-
enriquecida pelas várias intelecçõessignificativas elaboradasno caminho até
de que Ihe são essencialmentepróprios, <159> o mundo onde intuitivamente
1..1ii o presenteponto, masnuma autocompreensão principial, que conferea este
caminho e à própria epoc;zéo seu sentido e valor último. vivemos, com as suas realidades, mas tal como se nos doa em primeiro lugar na
simples experiência, também nos modos como estas realidades, quanto à sua
Observo, e/z passa?zf, que o caminho muito mais curto para a epoc/zé
validade, ficam por vezes em suspenso (suspensas entre o ser e a aparência etc.).
transcendental, apresentado nas minhas /delas para ma Jenomelzo/orlap ra A nossa tareia exclusiva é a de apreender este estilo, exatamente este "fluxo hera -
epara uma./iZosoÚalenomenoZógica," caminho essea que chamo de via <158>
clítico" meramente subjetivo, aparentementeinapreensível. Não é o nosso tema,
Cartesiana"(a saber,pensadacomo adquirida pelo mero aprofundamento re-
por.conseguinte, se as coisas, as realidades do mundo, são e o que são (o seu ser
flexivo na epoc/zécartesianadas 7Wedífações
e pela sua purificação crítica dos
efetivamente e o seu ser efetivamente assim segundo as suaspropriedades, rela-
preconceitos e erros de Descartes), tem a grande desvantagem de que conduz, é
ções,vínculos etc.), nem tampouco o que o mundo efetivamente é, considerado
certo, como de um salto já até o ego transcendental. Este, dado que falta necessa-
riamente toda a explicação prévia, conduz a visão até um aparente vazio de con- na sua totalidade, o que, tomado na generalidade,Ihe cabeporventura como
legalidade estrutural a priori, ou segundo "leis da natureza" fáticas - nada de
teúdo, onde se está de início perdido acerca do que se possa ter ganho com isso
semelhante é o nosso tema. Excluímos, por conseguinte, todos os conhecimen-
e, igualmente, sobre como a partir daí se pode alcançar uma nova ciência funda-
tos, todas as conârmações do verdadeiro sentido e de verdades predicativas, tal
mental, de uma nova espéciedecisiva para a filosofia. Sucedem-se,por isso, com
como sao necessáriaspara a praxis da vida ativa (as verdades de situação); mas
demasiada facilidade, conforme mostrou a recepção do meu /delas, e logo desde
também todas as ciências, sejam elas ciências verdadeiras ou aparentes, com os
o início, as recaídas,aliás muito tentadoras, na atitude natural ingênua.
seusconhecimentos sobre o mundo, tal como ele é "em si': na "verdade objetiva':
E também claro que, na presenteesfera temática, não tomamos parte em ne-
nhum dos interessesque põem em marcha qualquer prática humana, uma vez
s a4. O mundo da vida como tema de tlm interesseteórico, determinado por uma
que esta, em virtude da sua radicação no mundo já existente, permanece tam-
epoché"universal em relaçãoà efetividade das coisasdo mundo da vida
bém cointeressadano ser verdadeiro ou não ser das coisascom que se ocupa.
Comecemos o nosso novo caminho dirigindo agora um interesse teórico Isto envolve, por conseguinte, uma espéciede epoc/zéuniversal que serve
consequentee exclusivo para o "mundo da vida" como o "solo" universal da aqui unicamente para isolar o tema das investigações seguintes, de cujos possí-
veis resultados não temos ainda, de resto, nenhuma representação. Este tema foi
originariamente motivado pela necessidadede elucidar as realizaçõesevidentes
34 N.T.: Volume 111
da Husser/fama.
das ciências positivas. Desta motivação já nos libertámos. São agora necessárias

126
127
'nomenoiogia
transcendental
' EdmundHusser

da Psicologia
sepode tornar essetema uma tarefa
'har

\
tância.Algo de semelhante seria elaborável em relação à proximidade e à dis-

áaçõesda intuição sensívelpura-

.ág==':: =::=;:=== P

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S 46. O "a priori" universal da correlação

35 N.T.: FÜ//e.Optou'se por não ate/lum.ao termo um sentido técnico neste passo. Nos contex-

:; :l:H:Z=:;-"'"'""''-.
128

129
a Fenomenologia Transcendental . Edmund Husserl

e da Psicologia

11

1!

l ll l;l
iliãlH $ í zz;!uz%uz
l

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38 N].: Die Pràsentatíon, die Gegenwãrügung.

39 Cf. O Anexo de Fink sobre o "inconsciente" (Anexo Xxl).


130

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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental e Edmund Husser
Terceira Parte ©A Clarificação do Problema Transcendental e a Função Correspondente da Psicologia

mente, há que acrescentar; a saber, somente quando, pondo em jogo as minhas


Desta maneira, o mundo continua sempre a ser percepcionado na nossa
sinestesias, vivendo exposições codecorrentes como copertencentes, mantém-
se a consciência da coisa única em presença atual, expondo-se multiplamente \lida, na vida desperta em cada caso minha,'o mundo concorre sempre para
uma unidade da minha vida perceptiva da consciência. No entanto, e isto é
como ela mesma. Porém, ao questionar o que está contido nesta pertença das
digno de nota, de tal modo que nem sempretem lugar, singularmente,um
exposiçõesda coisa às sinestesiasmutáveis, reconheço que nela se joga uma decurso coerente das multiplicidades previamente delineadas que a consci-
conexão"se então"intencional oculta: as exposiçõestêm de decorrer segundo
ência da simples existência das coisas em questão fornece. Com frequência,
certas consequências sistemáticas; no curso do percepcionar, elas são indicia-
não se mantém a certeza do ser em que assenta a certeza prévia <166> de, no
das, assim, segundo as expectativas, como curso de um percepcionar coerente.
progresso da percepção e num dirigir arbitrário da sinestesia, trazer as mul.
As sinestesiasatuais residem, então, no sistema da capacidadesinestésica,em
tiplicidades adequadas coerentemente a um decurso que as preenche, e, no
correlação com o qual está o sistema das sequências possíveis que coerentemen-
te Ihe pertencem. Esteé, por conseguinte, o plano de fundo intencional de toda entanto, continua sempre a manter-se uma coerência na percepçãoco/np/efa
a certeza simples do ser da coisa apresentada. do mundo e, com efeito, por meio de uma correção cofuncional propriamen-
As vezes, contudo, ocorre a ruptura desta coerência: o ser transforma- te constante. Aqui se devem incluir, por exemplo, aquelas correções que, em
se em aparência,ou, também, em ser somenteduvidoso, em mero <165> ser todo o ver mais de perto, determina melhor e assim igualmente corrige o que
possivelmente, ser provavelmente, ser aparência mas não aparência iníqua etc. foi visto de longe. (Por .exemplo,o vermelho à distância homogêneo mostra-
se, de perto, manchado).
A aparência resolve-se, então, por meio de uma "correção': por alteração do
Em lugar de pesquisar mais além na esferadas nossas próprias intuições,
sentido em que a coisa tinha sido percepcionada. É fácil de ver que a alteração
orientemos, entretanto, a nossa atenção para o fato de que não estamos isola-
do sentido aperceptivo tem lugar pela alteração do horizonte de expectativa
das multiplicidades antecipadas como normais (isto é, a decorrer coerente- no curso contínuo do nossopercepcionardo mundo, mas que nestetemos
também conexão com outros homens. Cada um tem as suas percepções, as suas
mente); como, por exemplo, se se viu um homem, e depois, ao apreendê-lo, presentificações, as suas coerências, desvalorizações das suas certezas em meras
tem de ser reinterpretado como um manequim (que visualmentese expõe
como um homem). possibilidades, dúvidas, questões, ilusões. No 1,íverem re/anão mzífua,porém,
cada um pode tomar parte na vida do outro. Assim, o mundo não é, de todo.
Não só na coisa singular, mas já em qualquer percepção deve, no entan-
existente somente para o homem isolado, maspara a comunidade humana e, na
to, fazer-senotar algode inesperadamentediversiâcadonestaorientaçãodos
verdade, isso é assim já pelo tornar-se comum da simples percepção.
interesses.O singular consciente não é nada por si só; a percepçãode uma
Nestetornar-se comum tem também lugar uma permanente mudança de
coisa é a sua percepção num campo de percepção E como a coisa singular só
validade numa correção recíproca. No compreender mútuo, as minhas experi-
tem sentido na percepção por meio de um horizonte aberto de "percepçoes pos-
enciase aquisiçõesempíricas entram com as dos outros numa conexãosimilar à
síveis':na medida em que o que é propriamente percepcionado"aponta" para
das séries de experiência dentro da vida da minha experiência, e da vida da ex-
uma multiplicidade sistemática de apresentaçõesperceptivas possíveisque co-
erentemente Ihe pertencem, a coisa tem novamente um horizonte: em face do periência em cada caso própria; e, novamente, de tal maneira que resulta como
horizonte interior': um "horizonte exterior': precisamentecomo coisa de um normal, grossomodo, o acordo intersubjetivo da validade em relaçãoaos por-
campode coisas;e isto aponta,por âm, paratodo o "mundo comomundo da menores e, em consequência, uma unidade intersubjetiva na multiplicidade das
validades e daquilo que nelas é válido; mostram-se, além disso, e com bastante
percepção'l A coisa é uma no grupo completo de coisas eíetivamente percep-
frequência, discordâncias intersubjetivas, mas surge, então, no trato mútuo e na
cionadas em simultâneo, mas este grupo não é, para nós, conscientemente,'o
crítica, seja de modo silencioso e mesmo inadvertido, seja explicitamente, uma
mundo: o mundo expõe-senele,ele tem para nós semprejá, como campo mo-
mentâneo de percepção, o caráter de um excerto"do" mundo. do universo das uniâcação que, no mínimo - como é certo de antemão para toda a gente -, é
uscetível de ser alcançada. Tudo isto acontece de tal modo que, na consciência
coisas das percepções possíveis. Este é, então, o mundo em cada caso presente;
de cada um e na consciência da comunidade, que se tornou adulta e abrangente
ele está, em cada caso, a expor-se para mim por intermédio de um núcleo de
na sua conexão, o mesmo e único mundo <167> chega à validade constante, e
presençaoriginal" (com o que é designado o caráter subjetivo contínuo do que
permanece contin uamente como o mundo, em parte já experienciado, em parte
é atualmentepercepcionadoenquantotal), assimcomo por meio dassuasvali-
dades de horizonte interiores e exteriores. como horizonte aberto dasexperiênciaspossíveisde todos: o mundo, como o
horizonte universal, comum a todos os homens, de coisas efetivamente existen-

132
133
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental. Edmund Husser

Psicologia

tes " Cada um, como sujeito de experiências possíveis,tem as suasexperiências,


os seus aspectos [das coisas], as suas conexões de percepção, as suas mudanças
de validade, as suas correções etc., e cada grupo particular de relacionamento
tem, por sua vez, os seusaspectoscomuns etc. Se compreendemoscomo as
coisasda sua experiência aquilo que para cada um é a cada vez válido, o que é
visto por ele, e experienciado no ver como simplesmente existente e existente

lil! zili üi; :sç:i:


conforme ele do mesmo modo o sabe) em relação mútua,' atual e potencial.
Cada um sabe que ele e os seus companheiros estão referidos, numa conexão
atual, às mesmas coisas da experiência, de tal modo que cada um deles tem
aspectos,lados, perspectivas diversas etc., mas a cada vez a partir do mesmo
sistema completo de multiplicidades que cada um tem consciente para si como
as mesmas (na experiência atual da mesma coisa), permanentemente como ho-
rizonte da experiência possível dessacoisa. Se,no que respeita ao como dos mo-
dos de aparição,.nosorientarmos para a diferençaentreas coisas"originalmente

If'l $B ::siu IH:ii#n


ção transforma-se, para cada um, numa mera "representaçãode" "aparição do
ente .....-uno. A partir da síntese, assumiram ' o novo '"'
objetivo
H.» ,... '' ' -r-''v-
sentido de "aparição
de': como aquele em que doravante são válidas. 'A" própria coisa é, a bem dizer,
aquuo que ninguém tem como eíetivamente visto, uma vez que, pelo contrário,
prossegue setnpre em movimento, prossegue sempre, com 'efeito, consciente-
para toda a gente, como unidade da multiplicidade infinita aberta de
expenencias e coisasda experiência mutáveis, próprias e alheias. Os cossujeitos
experiênciasão,então,também eles,para mim e cadaum, um hor fonte
inÊnito aberto de homens que se podem encontrar e, então, entrar em conexão
atual comigo e entre si. <168>

tido Tocoro ettte de qtlalquer serltido e região, como índice de um sistema subje-

Neste aprofundamento exclusivo das multiplicidades dos modos subje-


l tivos çie aparição em,que o mundo nos é dado, ilumina-se-nos já sempre, mais
uma vez - embora, a bem dizer, só tenhamos tomado em consideração o mundo
da percepção e, dentro deste, unicamente o corpóreo -, a intelecçãv"ueque não
40 N.T.:Se/ande.

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135
Í Terceira Parte ' A ClariHcação do Problema Transcendental e a Função Correspondente da Psicologia
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental e Edmund Husser

integral, com muitos estádios,da subjetividade particular, não da subjetividade


universalidades essenciais,num enorme sistema de verdades a priori de uma isolada, mas do todo da intersubjetividade posta em comunidade de realização.
Mostra-se sempre de novo que, começando pelo visível superficial, as maneiras
de aparição das multiplicidades formadoras da unidade são novamente unida
des de multiplicidades mais profundas, unidades estas que as constituem por
meio de aparições, de tal modo que somos reconduzidos a um horizonte obscu
maneiras de dação experienciadoras, efetivas e possíveis,cada uma das quais é ro, a descobrir constantementeatravésde uma indagação retrospectiva metódi-
uma aparição deste ente único, de tal modo que cada experiência eíetivamente ca. Todos os estádios e estratos pelos quais se entrelaçam as sínteses intencionais
concreta é um curso de maneiras de dação, curso que preenche continuamen- que se estendem de sujeito a sujeito formam uma unidade universal da síntese.
te e de modo concordante a intenção experienciadora, efetivado a partir desta
Por eles surge o universo representativo, o mundo que e tal como viva e <171>
multiplicidade total ': Mas estamesmamultiplicidade, como horizonte dos de- concretamenteé dado (e como o que é pré-dado para toda a praxis possível).
cursos potencialmente ainda a efetivar perante os <170> decursos aguas, copa:r"
Falamos,a esterespeito, da "constituição intersubjetiva" do mundo, compreen-
vence a toda a expenencia e à intenção que nela atua. Para o sujeito particular.
dendo, então, aí o sistema completo das maneiras de dação, que permanecem
esta intenção é o cogüo cujo cogitatum e, segundo o qz4ee o como (entendidos ainda tão ocultas, mas também os modos de validade egoicos;por meio destes,
ido mais amplo), as maneiras da dação que, por sua vez, trazem em sl a se os desocultarmos sistematicamente, o mundo para nós existente se tornará
exposição':como a sua unidade, um e o mesmo ente. compreensível, compreensível como uma configuração de sentido a partir das
intencionalidades elementares.O seu ser próprio não é mais do que o funciona-
mento conjunto de configurações de sentido, o "constituir" de um novo sentido
$ 49. Colzceítoprévio da constíft4íçãotratzscenderzfaZ
como 'tonstífz4Íçãooriginal na síntese. E o sentido não é jamais outra coisa senão sentido em modos de va-
de sentido". A limitação exemplar das análises eÓefuadas; indicação de }zorizofztes
lidade, ou seja, referido aos eus-sujeitos como intencionadores e efetuadores de
mais vastosde explicitação validade. A intencionalidade é o título para a única e genuína explicação, para
o único e genuíno tornar compreensível. Reconduzir às origens e às unidades
A amplitude com que tudo isto deve ser,compreendido (a que sempr: intencionais da constituição de sentido isto fornece uma compreensibilidade
novamente se relativizam os conceitos de "ente': "maneiras de dação'l "sínteses"
tal (o que é certamente o caso ideal) que, uma vez alcançada, não mais resta
etc.) pode ser depreendida do fato de que se trata de uma realização intencional nenhuma questão com sentido. Qualquer retorno sério e genuíno de um "ente
pronto" às suasorigens intencionais fornece, porém, no que tange aos estratosjá
41 descobertos e ao esclarecimento do que aí é produzido, uma compreensão que,
embora somente relativa, até onde se estende é uma compreensão efetiva.
O que tratamos de modo mais exemplar foi, é claro, somente um começo;
em primeiro lugar tão só um começo do esclarecimento do mundo da percep-
ção o qual, bem vistas as coisas,também não é mais do que um "estrato'tO
mundo é mundo espaço-temporal, a cujo sentido próprio de ser, como mundo
da vida, pertence uma espaço-temporalidade (a espaço-temporalidade "viva';
não a lógico-matemática). A focagem no mundo da percepção (e este não é,
manifestamente, um começo ao acaso)fornece, no que concerne ao mundo, so-
mente o modo temporal presente, o qual remete ele mesmo horizontalmente aos
modos temporais passadoe futuro. A recordação, antes de tudo o mais, exerce
a função intencional para a formação de sentido do passado - se âzermos abs-
tração de que a própria percepção, como "corrente estável': só é constituída,
conforme revela uma análiseintencional profunda, porquanto o agora estável
tem um horizonte de dupla face,diversamenteestruturado, sob o título inten-

137
136
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental Edmund Husserl Terceira Parte
tal e a Função Correspondente da Psicologia

cional de contínuo de retençõese protensões. Estasprimeiras prefigurações da


temporalização e do tempo mantêm-se, contudo, completamente ocultas. Na
recordação fundada sobre elas, <172> temos um passado - um passado presente
- representativo em intuitividade originária. Também ele é um "ente': também
ele tem as suasmultiplicidades de maneiras de dação, as suas maneiras de chegar
originariamente, como a cada vez passado, à autodação (à evidência imedia-
ta). Do mesmo modo, a expectativa, a antecipação, novamente com o sentido
de uma modificaçãointencional da percepção(por isso, o futuro quer dizer: o
presente que há de chegar),': é a formação originária de sentido onde se gera o
sentido do ser do vindouro como tal - numa estrutura mais funda, que se pode
revelar mais exatamente. Isto designa o começo de novas dimensões da tempora-
lização, ou do tempo com o seu conteúdo temporal - para não falar (porque aqui
não se poderá esclarecerisso) em que toda a constituição do ente, de qualquer
espécie e estádio, é uma temporalização que confere a sua forma temporal a cada
sentido próprio de ente no sistema constitutivo, enquanto todos estestempos só
chegam sinteticamente à unidade de um tempo por meio da sínteseuniversa]
oniabrangenteem que o mundo é constituído. Refira-seainda um ponto: para
o esclarecimento da realização das síntesesintencionais, é preferível, como solo
para o esclarecimento de grau superior das sínteses discretas, o esclarecimento
das sínteses contínuas (como, por exemplo, o das sínteses contidas na corrente
una da percepção). Dou como exemplo a identiâcação de algo percepcionado
como o mesmo que, de acordo com a recordação,já antes existia. O reconheci- S 5Q.Primeira si+bordinação de todos os problemas de trabalho aos títulos: ego
mento, a sua explicitação pela recordação contínua e as correspondentes análises
mais profundas destas"obviedades" - tudo isto conduz a difíceis investigações.
Aqui, como noutros pontos, só podemos assentar o pé no que está mais
próximo. Entretanto e, uma vez que na mudança de atitude própria à epoc/zé,já
se chegou longe o bastante para ver como intencionalidade aquilo que é puramen-
te subjetivo na sua pura conexão própria encerrada em si, e que já se chegou, então,
a conhecê-lo como função formadora do sentido do ser -, o que já ficou elaborado
poderia tornar compreensívelque o interesseteórico crescetambém rapidamente
e, de etapaem etapa,numa admiração crescente,depara-secom o conjunto a per-
der de vista de problemas a trabalhar que emergem e de descobertassigniâcativas
que há aqui a fazer. É certo que depressa nos atormentam <173> diâculdades ex-
traordinárias para conservara pura postura do espírito e para nos orientarmos no
mundo desconhecido, onde de nada serve nenhum dos conceitos, das maneiras de
pensar e dos métodos cientí6cos que têm o seu solo no mundo natural, tampouco
quanto os conceitos, as maneiras de pensar e os métodos lógicos das ciências ob-
jetivas, assim como para efetivar um pensar de uma nova espéciee, contudo, cien

42 N.T.: Não foi possívelmanter em português o sentido linguístico da defininção do "futuro' 43 N.T.: Grc/nd
j"Zukunft") como "vindoura"("künRig"). 44 N.T.:/?ee//.

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139
l A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendenta Edmund Husserl
Terceira Parte e A Clarificaçãodo Problema Transcendental e a FunçãoCorrespondente da Psicologia

próprio e, em seguida,num tema muito abrangente,a saber,à suamaneira como


o seu futuro à sua frente. Como temporalizado, o eu agora atual também pode,
o (;áefz4adorídênfíco de todas as vaZídades,como o eu intencionante, como aquele entretanto, relacionar-se com o seu eu passado, não mais de agora, justamente,
que, no curso mutável das maneiras multiescalonadas de aparição, está "através dialogar com ele e critica-lo, como a outros.
delas" orientado para o polo de unidade, ou seja, para a meta por ele buscada (o Ora, tudo se complica logo que se pensa que só na intersubjetividade a
seu propósito), o que é mais ou menos clara e distintamente pré-visado, e que, subjetividade é o que é: eu funcionalmente constitutivo. Isto, para o ponto de vista
fase a fase, sendo e vindo a ser se preenche - preenchendo a sua intenção. Disto
eu': tem o significado de novos temas:a sínteseque especificamentediz respeito
faz parte, simultaneamente, que o eu - como o polo eu - tem continuamente a ao eu e ao outro eu (cada um deles puramente como eu), a síntese-eu-tu e, igual-
função de conservar, de modo tal que, explicitando ativamente o objeto nas suas mente, mas mais complicada, a síntese-nós.Isto, de certa maneira, é novamente
propriedades (nas suas "entidades"'s particulares, dentro das quais ele é, na sua uma temporalização, a saber,a temporalização da simultaneidade dos polos eu,
particularidade), não deixa que se afunde em um nada aquilo que, no progresso
ou, o que vem dar no mesmo,.a constituição do horizonte pessoal(puramente
do percepcionar, âca a cada vez originariamente explicitado e que, embora não egoico), onde cada eu se sabe. É a sociabilidade universal (a "humanidade': neste
percepcionado, ele conserva preso no visar. Tudo secentra no polo eu, e também sentido), como "espaço" de todos os eus-sujeitos. Mas é claro que a sínteseda
a modalização das certezasdo ser, o "elidir" como aparência, o estar em atitude intersubjetividade diz respeito a tudo: o mundo da vida intersubjetivamente idên-
de decisão perante incertezas, perante a dúvida etc. Por outro lado, as afecções
tico para todos serve como "índice" intencional para as multiplicidades de apari-
dirigem-se ao polo eu, atraem o eu mais ou menos urgentemente, motivam even-
çõesque, ligadas na síntese intersubjetiva, <176> são aquilo que, através de todos
tualmente a sua dedicação e uma atividade própria. Isto, e coisas semelhantes,
os eus-sujeitos (e não porventura cada um meramente por meio das suas multipli-
sãoindicadores para as análisesaprofundadas particulares do eu como polo eu. cidadesindividualmente próprias), estáorientado para o mundo comum e para as
No discurso cartesiano temos, assim, três rubricas: ego - cogífafío - co
suas coisas, como campo de todas as atividades etc. ligadas no nós geral.
girafa. O polo eu (e o que da sua identidade Ihe é próprio), o subjetivo, como
aparição em ligação sintética, e o polo objeto são, para as análises, diferentes
direções do olhar, e a elas correspondem maneiras diferentes da rubrica geral da S 5 1. A tarefa de uma "antologia do mundo da vida:
intencionalidade: direção a algo, aparição de algo e algo, objetivamente <175>
como isso que, nas suas aparições, é unidade, e a que, através destas, se dirige a Em tudo isto vigora, porém e isto torna possível a cientiâcidade, a des-
intenção do polo eu. Embora estasrubricas sejam inseparáveisentre si, é preciso crição, a verdade fenomenológico-transcendental -, uma tipologia fixa que, con-
a cada vez perseguir momentaneamente uma delas e, na verdade, mantendo a forme já se disse, é uma tipologia essencial que deve ser abarcada metodicamente
ordem na direção oposta à que era natural na abordagem cartesiana. O primeiro
como puro a prí07'í.E aqui digno de nota, e âlosoficamente muito importante, o
é o mundo da vida simplesmentedado e, na verdade,antes do mais tal como fato de isto dizer respeito também à primeira das nossasrubricas, ao mundo da
se dá, existente segundo a percepção como "normal': simples e ininterrupto na
vida constituído como unidade através de todas as relatividades, e, apesar delas, ao
pura certezado ser (ou seja,isento de dúvida). Com o estabelecimentodo novo universo dos objetos do mundo da vida. O mundo da vida poderia, a bem dizer,
direcionamento do interesse e, assim, na sua rigorosa Croché,o mundo da vida sem qualquer interesse transcendental, ou seja, na "atitude natural" (em termos
torna-se uma primeira rubrica, í?zdice,./iocondutor intencional para o questio- transcendentais e filosóficos: na atitude ingênua, anterior à epoc/zé),tornar-se tema
namento retrospectivo das multiplicidades das maneiras de aparição e das suas
de uma ciência própria de uma ontologia do mundo da vida puramente como
estruturas intencionais. Uma nova direção do olhar, no segundo estádio da re-
mundo da experiência (isto é, como o mundo intuível, uniâcada e consequente-
flexão, conduz ao polo eu e ao que é próprio da sua identidade. Aponte-se aqui
mente coerentena intuição empírica e6etivae possível).E nós, pela nossa parte,
somente o mais universal da sua forma, como o mais importante - a sua tem que levamos a cabo até aqui permanentemente a nossa reflexão sistemática na
poralização própria, que o constitui como um eu durável nas suasmodalidades mudança de atitude da epoc/zétranscendental, podemos a todo momento restituir
temporais: o mesmo eu que é agora presente em ato é, em cada passado que é a atitude natural e, nesta,indagar pelasestruturas invariantes do mundo da vida.
o seu, de certo modo um outro, precisamente o que era e, logo, que agora não
O mundo onde sevive, que assumeem si sem mais todas as configura-
é, e, todavia, na continuidade do seu tempo, é um e o mesmo, que é, foi e tem
ções (mesmo as das ciências objetivas como fatos culturais, na abstenção de
tomar parte nos seusinteresses),estácertamente referido, no curso mutável das
45 N.T.: /st-he/ten.
relatividades, à subjetividade. Mas, como quer que ele mude e como quer que

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l
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendenta Edmund Husserl Terceira Parte e A Clarificação do Problema Transcendental e a Função Correspondente da Psicologia

seja corrigido, conserva a sua tipologia essencial legal, à qual permanece vincu ráter somente preliminar, uma pletora de conhecimentos manifestamentemuito
fada toda a vida e, assim,toda a ciência, cujo "solo" ele é. Ele também tem, então, estranhosque, numa perfeita certificação metódica, significariam uma reconíigu-
uma ontologia, que precisa ser criada a partir da pura evidência. ração radical de toda a nossa consideração do mundo. Para essa certificação, é re-
Acerca da possibilidade e do significado de uma tal ontologia do mundo querido um estudo dirigido ao solo dos pressupostos últimos onde está radicada
da vida sobreo solo natural, ou seja,fora do horizonte transcendentalde inte- toda esta problemática, ou seja, a partir do qual as suasdecisõesteóricas criam,
resse,já falamose ainda iremos falar num outro contexto.<177> Temosde ter em última instância, o seu sentido. Depressa nos enredamos aí, contudo, em gran-
sempre em mente que o sentido de uma ciência a priori próprio desta "ontologia" desdificuldades,em paradoxosinesperados,de início insolúveis,que põem em
estáem contraste frontal com o da tradição. Não podemos jamais perder de vista questãotodo o nosso empreendimento. E isto não obstante as evidênciasque se
que a filosofia moderna, nas suas ciências objetivas, é orientada por um conceito nos oferecem e a que não podemos sem mais renunciar. Pode ser que só a nova
construtivo de um mundo em si verdadeiro, substruído em forma matemática, ao questão retrospectiva acerca do solo destes conhecimentos(em contraste com
menos em relação à natureza. O seu conceito de uma ciência apríorí, finalmente, a questão retrospectiva acercado solo dos conhecimentos objetivos) con.duzaa
de uma matemática universal (lógica, logística), não pode, por isso, ter a dignida- uma clariâcação do seu verdadeiro sentido e a delimita-lo, então,de modo ade-
de de evidência eíetiva, isto é, de uma intelecção essencial criada a partir de uma quado. No tema da correlação, tínhamos constantemente o mundo e a humani-
autodaçãodireta (intuição empírica), a que ela gostaria de recorrer para si. dade como a subjetividade intencionalmente geradora, em comunidade, da rea-
Se após esta recordação retornarmos à atitude transcendental, à epoc/zé, lização da validade do mundo. A nossa Croché(a que determina a temática atual)
então o mundo da vida transforma se,no nosso contexto transcendental âlosó vedou-nos qualquer vida natural no mundo com os seus interessesmundanos.
fico, no "fenómeno" meramente transcendental. Ele permanece aí, na sua essên- A epochédeu-nos uma posição sobre ela. É-nos interdito qualquer interessepelo
cia própria, o que era,mas mostra-se,então,por assim dizer,como mero "com ser, pelo ser efetivo ou pelo não ser do mundo e, assim, qualquer interesse teórico
ponente" da subjetividade transcendental concreta e, correspondentemente, o dirigido ao conhecimento do mundo, mas também qualquer interessepratico no
seu a priori como um "estrato" no a priori universal da transcendentalidade. É sentido corrente, na sua vinculação às pressuposições das suasverdades de situa-
certo que palavras derivadas da mundaneidade natural, tais como "componen- ção;e não só para nós mesmos(os que filosoíamos), é-nos interdita uma ativação
te" e "estrato': são perigosas, e têm, por isso, de ser atendidas na sua necessária dos nossos interessespróprios, mas também todo o tomar parte nos interesses
transformaçãode sentido.Dentro da epoc/zé,somoslivres para dirigir o nosso do co-humano, porque também aí estaríamos,ainda que mediatamente,interes-
olhar, consequentemente e de modo exclusivo, para este mundo da vida e para as sadosna eíetividade existente.Nenhuma verdade objetiva, seja em sentido pré-
suas formas essenciais ízpriori; por outro lado, em orientações correspondentes cientíâco, seja em sentido cientíõco, nenhuma certiâcação do ser objetivo entra
do olhar para os correlatos constitutivos das suas "coisas" e das formas de coisas: jamais no nosso círculo de cientificidade, quer como <179> premissa,quer como
11 para as multiplicidades de maneiras de dação e as suas formas essenciais corre- conclusão.Poderíamos encontrar aqui uma primeira d@cu/date. Não fazemos,
lativas. Mas, então, também para os sujeitos e comunidades de sujeitos em tudo assim,também ciência, não estabelecemos
verdadesacercado verdadeiro ser?
isto funcionais, segundo as formas essenciaisegoicas que lhes são próprias. Na Não enveredamos pelo perigoso trilho da dupla verdade? Pode haver, ao lado da
alternância destasatitudes parciais mutuamente fundadas, onde as atitudes sobre verdade objetiva, ainda uma segunda, a verdade subjetiva? É claro que a resposta
os íenâmenosdo mundo da vida têm de servir como ponto de partida, a saber, será: este é, precisamente, o resultado da pesquisa na Croché,resultado estranho,
como âos condutores transcendentais para as atitudes correlativas de nível supe- mas evidente e, em última instância, apenas explicável através da nossa reflexão
rior, efetiva-se a tarefa universal de pesquisa da redução transcendental. <178> atual, que a vida do natural objetiva do mundo é somente uma maneira parti-
cular da vida permanentementeconstitutiva do mundo, da vida transcendental,
de tal modo que a subjetividade transcendental, imersa de tal maneira no viver,
$ 52. Emergem incompreensibitidadesparaducais. A necessidadede novas repe- não se torna conscientedo horizonte constitutivo e não o pode jamais advertir.
lões radicais Ela vive, por assim dizer, "perdidamente" nos polos de unidade, sem advertir as
multiplicidades a elespertencentesessencialmenteconstitutivas, para o que seria
A primeira inspeção da problemática pura da correlação aberta pela mu- necessáriauma completa mudança de atitude e reflexão. A verdade objetiva per-
dança de atitude da vida no interesse natural pelo mundo, para a do observador tence exclusivamenteà atitude da vida no mundo, vida essanatural-humana. Ela
'desinteressado':forneceu, embora numa certa ingenuidade e, por isso, com ca- provém,originalmente, da necessidadeda praxis humana, como propósito de

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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental Edmund Husser
Terceira Parte e A e a Função Correspondente da Psicologia

certificar o dado como simplesmente existente (o polo do objeto antecipado na termo. Muito pelo contrário, na medida em que toma como tema específicoeste
certeza do ser como perdurável), perante as modalizações possíveis da certeza.
ser-fim como tal, esteter como termo e viver imerso dirigido a metas na vida do
Na mudança de atitude da epoc/zé,nada se perde, nenhum dos interessese fins
mundo, em relação ao subjetivo que nisso vigora, o sentido do ser ingênuo do
da vida no mundo, e tampouco dos âns cognoscitivos.SÓque, para todos eles, mundo em geral transforma-se para ele no sentido de um "polissistema de uma
são mostrados os seuscorrelatos essencialmentesubjetivos, por intermédio do subjetividade transcendental': que "tem" mundo e, nele, realidades,assim como
que é realçado o sentido de ser completo e verdadeiro do ser objetivo e, assim,
ela justamentetem polos, constituindo-os. Isto é manifestamentealgo de fun.
de toda a verdade objetiva. A âlosoíia, como ciência oQefiva universal e toda damentalmente diverso da transformação, contida no próprio mundo, de "âns
a filosofa da tradição antiga foi uma tal ciência -, com todas as ciências obje derradeiros" em "meios': em premissaspara novos âns mundanos. < 181>
uvas, não é, de todo, uma ciência universal. Ela só traz para o seu círculo de O que aqui fica dito pressupõe que se torne totalmente clara a nossa ma-
pesquisaos polos constituídos do objeto, permanecendo cega perante o ser e a
vida completa e concreta que transcendentalmente os constitui. Mas, conforme
ficou dito, apesarde termos isto seguro como verdade, importa primeiramente
levar a cabo uma clariâcação última de sentido.
Emerge, então,uma segunda dificuldade. A epoc/zéem relação a todos os
interesses vitais naturais humanos parece ser um abandono completo deles (este
é, de resto, o erro muito <180> frequente da epoc;zé
transcendental). Mas, se isto
fosse entendido assim, não haveria pesquisa transcendental. Como poderíamos
fazer da percepção e do percepcionado, da recordação e do recordado, do ob-
jetivo e da conârmação do objetivo de qualquer espécie,entre os quais a arte,
a ciência ou a âlosofia um tema transcendental, sem viver coisas semelhantes,
exemplarmente e, até mesmo, com evidência total? Assim é, de fato. De certo
modo, também o âlósofo tem, então, na epocbé,de "viver naturalmente" a vida
natural e, no entanto, a epoc/zéprovoca uma enorme diferença, porquanto altera
toda a maneira da temática,transfigurando, assim,por conseguinte,a meta do
conhecimento em todo o seusentido de ser.Na simples vida natural, todos os
fins fêm o sezztermo "no" mundo, e todo o conhecimento fem o seu termo no
ente efetivo que certiâca a confirmação. O mundo, que é o universo aberto, o
horizonte dos "termos': campo universal do ente, que toda a praxis pressupõe
e sempre novamente enriquece nos seus resultados. Assim, o mundo é o todo
do obviamente coníirmável, existe "aí" a partir do apontar a meta, e é solo para
o sempre renovado apontar para o ente: para o ente "efetivo': Na epoc/zé,re-
tomamos, todavia, à suQerívídadejá dotada de mundo, para a qual em última
instância se aponta que tem resultados, que tem mundo a partir de metas e pre
enchimentos antigos, e retomamos às maneiras como ela, pela sua "metódica
oculta interior tem mundo, "gerou" e conâgurou o mundo. O interessedo feno-
menólogo não tem como meta o mundo pronto, o agir exteriormente nele com
propósitos, agir que é ele mesmo algo de "constituído': O fenomenólogo leva a
cabo toda a espécie de praxis, efetivamente ou numa recompreensão4ó mas não
de tal modo que o "âm" a preencher pela praxis seja para ele o âm visado como

46 N.T.:/Vachverstehen.

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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental Edmund Husserl
Terceira Parte e A Clarificação do Problema Transcendental e a Função Correspondente da Psicologia

de realizações individuais e intersubjetivas, ou seja, a forma essencial completa


da subjetividade realizadora" transcendental em todas as suas figuras sociais. elemento subjetivo do mundo e, também, dos seus modos de aparição. Um
O fato é aqui o da sua essência, só é determinável através da sua essência, e não conceito geral do subjetivo, porém, abrange tudo na Croché,seja o polo eu e o
é de modo algum empiricamente documentável por meio de uma empíria indu universo dos polos eu, sejam multiplicidades de aparições ou polos objetos e
universo dospolos objetos.
uva, num sentido análogo ao da objetividade.
A dificuldade reside, porém, exatamente aqui. A intersubjetividade uni-
versal onde se resolvetoda a objetividade, todo o ente em geral, não pode mani-
$ 53. Os paradoxos da subjetividade humana. o simultâneo ser sujeito para o festamente ser outra senão a humanidade que, inegavelmente, é ela própria uma
parte constituinte do mundo. Como pode uma parte constituinte do mundo.
mundo e ser objetono mundo
a sua subjetividade humana, constituir o mundo inteiro, a saber, constituí-lo
como a sua configuração intencional? Como pode constituir o mundo uma
Levanta-se agora, entretanto, uma dificuldade efetivamente séria, que
conõguração sempre já formada e que assim prossegue, da conexão universal
afeta toda a definição da nossatarefa e o sentido dos seusresultados,e obri-
ga a reconfigurar ambos. Em virtude do nosso método atual da epoc/zé,todo da subjetividade intencionalmente realizadora - como a sua configuração in-
tenciona[, pe]a qual eles, os sujeitos realizadores em relação mútua'devem ser
elemento objetivo se transforma em subjetivo. Isto não pode manifestamente
somente partes constituintes da realização total?
querer dizer que, por intermédio da epoché, o mundo existente e a represen-
tação humana do mundo são postos um perante o outro e, sobre o solo do O constituinte sujeito do mundo engole, por assim dizer, o mundo in
tenroe, assim,também a si próprio. Que contrassensolOu não se tratará an-
mundo que óbvia e efetivamente é, se pergunta pelo subjetivo, ou seja, pelos
processos mentais dos homens, nos quais estesadquirem experiência do mun tes de um paradoxo resolúvel com sentido, e mesmo necessário,que deriva
do, opiniões quotidianas ou científicas acerca do mundo e as suas respectivas necessariamenteda constante tensão entre o poder da obviedade da atitude
imagens do mundo': sensíveis ou inteligíveis. A nossa cientiâcidade não é a objetiva natural (o poder.do common senso) e a atitude que se Ihe opõe, do
observador desinteressado"?Esta última atitude deve certamente ser levada
do psicólogo. Por meio da Crochéradical, é posto fora de jogo todo o interesse
pela efetividadeou não efetividadedo mundo (em todas as modalidadese, a cabo de modo totalmente radical, posto que está em permanente risco de
logo, também todo o interessepela possibilidade, pensabilidade,bem como mal-entendidos. Além disso, o fenomenólogo não dispõe, de modo algum, so-
pela decidibilidade das mesmas). Não se fala aqui, por conseguinte, de nenhu- mente pela realização da epoc/zé,de um horizonte de novos propósitos a atin-
ma psicologia cientíÊca nem das suasindagações.Para estas,o mundo, por gir, obviamente possíveis;não seabre imediatamente à sua frente um campo
elaspressuposto como obviamente efetivo, é o solo; a nós, a Crochéretirou-nos transcendental de trabalho, previamente formado com uma tipologia óbvia. O
precisamenteestesolo. E, na pura atitude correlativa que ela cria, o mundo, o mundo é o único universo de obviedades pré-dadas. <184> O fenomenólogo
objetivo, torna-se ele próprio um particular subjetivo. Nesta atitude, o "subje- vive de antemão no paradoxo de ter de considerar o óbvio como questionável,
como enigmático e, a partir daí, de não poder ter nenhum outro tema cien-
tivo" relativiza-se ainda mais, de maneira paradoxal, como se segue.O mundo
(denominado, dada a mudança de atitude, como "fenómeno transcendental") é tífico senão este: .transformar a obviedade universal do ser do mundo - para
ele o maior de todos os enigmas - numa compreensibilidade. A insolubilidade
de antemão tomado somente como correlato das aparições e dos intuitos subje
tivos, < 183> de atou e faculdades subjetivos nos quais ele tem permanentemen dos paradoxos assim desenvolvidos signiâcaria que uma epoc/zéefetivamente
te, e continua sempre novamente a adquirir, o seu sentido mutável de unidade. universal e radical não é em geral realizável, nomeadamente,com o âto de
Se a questão retrospectiva acerca do mundo (que tem já o modo de ser simples uma ciência a ela rigorosamente vinculada. Se o não interesse e a epoc/zéfos-
de uma unidade de sentido) prossegue, então, para as formas essenciais destas sem meramente os do psicólogo, aos quais, enquanto se movem sobre o solo
suas "aparições e intuitos': então estesvalem como os seus "modos subjetivos do mundo, ninguém levanta objeção, então aquilo que das nossas evidências
de dação'l Se, em consequência, numa nova reflexão e questão retrospectiva, é eÉetivamentesustentável reduzir- se-ia a intelecções objetivo-psicológicas de
o polo eu e todo o egoico que Ihe é especíâcose tornam tema da pesquisa essencias,muito embora de um novo estilo. Mas podemo-nos satisfazer, po-
da essência, então estes se chamam, num sentido novo e ainda mais elevado, demos contentar-nos com a mera fatualidade de que os homens são szzPííos
para o mu/zdo(para o mundo que para elesé conscientementeo seumun.
47 N.T.: Le/stenden. V. n. à p. 26 supra. do) e, simultaneamente, objetos neste mundo? Podemos, como cientistas, nos
contentar dizendo que Deus criou o mundo e os homens nele, que os dotou

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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendenta Edmund Husserl

Terceira Parte e A C e a Função Correspondente da Psicologia

de consciência e de razão, isto é, da faculdade do conhecimento, que culmina


num conhecimento científico? Isto pode, sem dúvida, ser verdade na ingenui- S 54. A resolução dos paradoxos

dade que faz parte da essênciada religião positiva, e permanecerpara sempre


uma verdade, ainda que o âlósofo não se possa dar por satisfeito com esta Nós, como homens e como sujeitos em última instância funcional-
ingenuidade. O enigma da criação, bem como o do próprio Deus, é um consti-
tuinte essencialda religião positiva. Parao filósofo, no entanto,reside na "sub-
jetividade no mundo como objeto': no "sujeito conscientepara o mundo': e na
relação entre os dois, uma questão teorética necessária,a saber,compreender
como isto é possível. A epoc/zé,na medida em que nos colocou na atitude aci-
ma da correlaçãosujeito-objeto copertencente ao mundo e, assim,na atitude
da corre/anãosqeíto-oqefo frarzscendenfaZ, leva-nos a conhecer em autoestu-
do: que o mundo que para nós é o nosso mundo, segundo o seu ser-assim e o
seu ser, cria o seu sentido de ser total e completamente a partir da nossa vida
intencional, numa tipologia czpriori demonstrável de realizações demons-
trável, e não argumentativamente construída ou imaginada num pensamento
místico. <185>
Não se resolverão assim as fundas dificuldades que aí residem se depres-
sa se desviar o olhar e se furtar ao esforço do questionamento retrospectivo e
das investigações; ou se das oâcinas dos íilósoíos antigos, porventura de Aris-
tóteles ou de São Tomas, tomam-se argumentos e se constrói, então, um jogo de
argumentaçõese refutações lógicas. Na epoc/zé,a lógica e todo o a priori, bem
como toda a demonstração âlosófica de honrado estilo antigo não são grande
proteção - mas também elas se mostram como uma ingenuidade sujeita à epo-
c/zé,como toda a cientiíicidade objetiva. Por outro lado, o que é essencialmente
próprio da âlosofia que se inicia neste radicalismo fenomenológico-transcen-
dental é que ela, conforme já se disse, diferentemente da âlosoâa objetiva, não
tem de antemão pronto um solo de obviedades, mas exclui principialmente um
solo com algum sentido semelhante (ainda que diverso). Ela tem, por conse
guinte, de começar sem solo. Mas logo adquire a possibilidade de criar para si
mesma, pelas suas próprias forças, um solo, a saber, na medida em que, num
autoestudooriginal, toma possedo mundo ingênuo, transformado num fenó-
meno ou num universo de fenómenos. O seu curso inicial é, necessariamente.
de modo semelhante ao que se efetivou acima num esboço grosseiro, um curso
de experiência e pensamento numa evidência ingênua. Ela não tem nenhuma
lógica e metodologia cunhada de antemão, e só por meio de autoestudos sem-
pre novos pode alcançar o seu método e, mesmo, o sentido genuíno das suas
realizações.O seu destino (que será semdúvida compreendido retrospectiva-
mente como uma necessidade essencial) é o de se enredar sempre de novo em
paradoxos derivados de horizontes que permaneceram por questionar, ou até
inadvertidos e que começampor seanunciar de modo cofuncional em incom-
preensibilidades.

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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental Edmund Husser
Terceira Parte e A Clarificação do Probl nção Correspondente da Psicologia

os outros falam, que eles mesmos conheceram etc. Trata-se, por conseguinte, da
mesmo que seria o "ego" na reinterpretação e aperfeiçoamento crítico da con.
dissolução da obviedade do "aí está um homem, neste círculo social de pessoas
cepção de Descartes, se por equívoco se chama propriamente "eu': não obstante
bem conhecidas entre si etc:: nas suasquestionabilidades transcendentais.
sela um equívoco conforme à essência,uma vez que, quando o denomino na
Ora, mas os sujeitos transcendentais,isto é,Juncíonaispara a constituição
reflexão não posso dizer senão: eu o sou, eu, que exerço a Croché,que questiono,
do mundo, são os homens? A epoc/zétornou-os, entretanto, "fenómenos': de tal
como Éenâmeno,o mundo que agora é para mim válido segundo o ser e o ser
modo que o filósofo na epochénão tem nem a si nem aosoutros /homensem va-
assim, com todos os seushomens, dos quais estou tão completamente seguro;
lidade de modo direto-ingênuo, como homens, mas, precisamente, apenas como
assim,eu, que estou acima de todo o ser aí natural que para mim tem sentido. e
;fenómenos': como polos do questionamento retrospectivo transcendental. É ma
sou o polo eu da vida transcendental respectiva, na qual o mundo em primeiro
niíesto que cada eu só é aqui tomado em consideração, segundo a consequência
lugar tem para mim sentido puramente como mundo: sou o eu que, tomado na
radical da epoc/zé,
puramente como polo eu dos seusatos, habitualidades e facul-
sua concreção completa, abrange tudo isto. Isto não quer dizer que as nossas
dades e, a partir daí, como dirigido, "através" das suas aparições, das maneiras da
evidências anteriores, já declaradas como transcendentais, eram ilusões,' e (]ue
sua dação, até aquele que aparece na certeza do ser, até ao polo objeto respectivo
:lao se justiâca que, no entanto, se tenha de falar de uma intersubjetisridade
e ao seu horizonte polar: o mundo. A tudo isto pertencem, então, outras questões
retrospectivas em todas estasdireções da reflexão. Em concreto, cada eu não é transcendentalconstitutiva do mundo como "mundo para todos" intersubjeti-
vidade na qual novamente entro, mas agora como "um" eu transcendental elltre
um mero polo eu, mas eu em todas as suas realizações e aquisições por realização, os outros e, então, de "todos nós" como transcendental-funcionais
incluindo o mundo que é válido como sendo e como sendo assim.Na epoché,po-
O método estava,todavia, errado, se consistia em saltar imediatamente
rém, e no puro olhar para o polo eu funcional e, a partir daí, para o todo concreto
da vida e das suas configurações intermédias e finais, não se mostra, eo ipso, nada para a intersubjetividade transcendental, e em saltar por cima do eu originário,
do ego da minha apor/zé,que jamais pode perder a sua unicidade e indeclina-
de humano, a mente ou a vida mental, não se mostra o homem real psicofísico -
bil dade pessoal. Isto só aparentemente contradiz o fato de que ele se faz para
tudo isto pertence ao "íenâmeno': ao mundo, como polo constituído.
si mesmo - por uma realização particular que Ihe é constitutivamente própria
.transcendentalmente declinável; e assim, que ele constitui a intersubjeti\cidade
b) O eu como eu originário constitui o meu horizonte do outro trans-
transcendental a partir de si e em si, intersubjetividade em que ele se conta, en-
cendental como cossujeito da intersubjetividade transcendental
tão, meramente como um elo privilegiado, a saber,como eu <189> dos outros
constituinte do mundo

Não podemos, porém, estar satisfeitos e âcar presos aos paradoxos. O


nosso procedimento ingênuo não era, de fato, inteiramente correto, e, em verda-
de, dado o autoesquecimentode nós mesmos, os que filosofamos; ou, dito mais
claramente: ezzlevo a epoc;zéa cabo, e ainda que existam vários eus, e mesmo que
efetuem comigo, em comunidade real, a epoché,todos os outros homens, com
toda a sua vida de atos, estão para mim, na minha epoc/zé,incluídos no fenóme-
no do mundo que,na minha epoc/zé, é exclusivamenteo meu. A Crochécria uma
<188> solidão âlosóíica szzígeneris, a qual é a exigência de fundo para uma silo
soba efetivamente radica]. Nesta so]idão, não sou um jindivíduo] singular que,
por alguma teimosia, ainda que teoreticamente justiâcada (ou por acaso,por
ventura como um náufrago), se separada comunidade da humanidade, à qual,
no entanto, se sabe ainda pertencente. Eu não sou um eu, que continua ainda
a ter em validade natural o seu tu e o seu nós, e a sua comunidade universal
48 N.T.:Gele/7wart.
de cossujeitos. A humanidade inteira, e toda a separação e ordenação dos pro- 49 N.T.:Prãsenz.
nomes pessoais, tornou-se, na minha Croché, fenómeno, conjuntamente com o 50 N.T.:Gegenwãrüg
privilégio do eu homem entre os outros homens. O eu que na qoc/zé alcanço, o 51 N.T.:Frase/7fes.

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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental ' Edmund Husserl Terceira Parte e A Clarificação do Problema Transcendental e a Função Correspondente da Psicologia

leva a cabo uma realização na qual ele constitui uma modalização de .si mesmo $ 55. A correção de princípio da nossaabordagem inicial da "epoché"pela redução
como existente (no modo passado). A partir daqui, é preciso perseguir o modo da mesma ao egoabsolutamente único e em última instância .funcional
como o eu atual, o eu que decorre permanentemente presente, se constitui na
autotemporalizaçãocomo duradouro atravésdos "seus" passados.Do mesmo Foi por isso necessária,perante a primeira abordagem da Croché,uma
modo, o eu atual, o eu duradouro da esferaprimordial duradoura,constitui segunda, ou seja, uma reconfiguração consciente da mesma pela redução ao ego
em si um outro como outro. A autotemporalizaçãotem a sua analogia,por.as. absolutocomo, em última instância,o único centro funcional de toda a consti-
sim dizer, por despresentiíicaçãos:(por recordação), na minha desapropriação" tuição.Isto continua a determinar todo o método da fenomenologiatranscen-
(a intropatia, como uma despresentificaçãode grau superior - a despresenti- dental. De antemão, está o mundo, que permanece sempre previamente dado
íicaçãoda minha presençaoriginária numa presença.originária meramente e indubitável na certezade ser e na autoconârmação.Ainda que não o tenha
presentiâcada).s' Um "outro" eu chega, assim, em mim,,à validade de ser, como "pressuposto" como solo,eleé, no entanto,para mim, o eu no cogito,válido a
copresente, e com as suas maneiras de conârmação evidente que, como é mani- partir de uma permanenteautoconârmação,com tudo o que ele é para mim,
festo. diferem totalmente das de uma percepção "sensível'l ora objetivamente justificado no seu pormenor, ora não, e também com todas as
Somente a partir do ego e da sistemática das suasfunções e realizações ciências, artes, com todas as figuras e instituições sociais e pessoais, porquanto
transcendentais pode ser demonstrada a intersubjetividade transcendental e a esteé precisamente o mundo que para mim é o mundo efetivo. Não pode, por
suacomunidadetranscendental,nasquais,a partir do sistemafuncional dospo- isso, haver realismo <191> mais forte, se esta palavra não diz mais do que: "es-
los eu, o "mundo para todos" e para qualquer sujeito se constitui como mundo tou certo de que sou um homem que vive neste mundo etc., e disto não duvido
pil

para todos«E só por estavia, pelo progressonuma sistemáticaessencial,pode minimamente'l Mas compreender esta"obviedade" é, precisamente,o grande
ser também alcançadauma compreensão última para o fato de que cada <190> problema. O método exige, então, que o ego questione retrospectivamente, de
eu transcendentalda intersubjetividade (coconstituidor do mundo, pelas vias modo sistemático, a partir do seu fenómeno concreto do mundo e, assim, que
indicadas) tem necessariamentede ser constituído no mundo como homem se conheça a si mesmo, ego transcendental, na sua concreção, na sistemática
dos seus estratos constitutivos e das suas fundações de validade indizivelmente
e que, por conseguinte, cada homem "traz em si um eu transcendental' , não
como uma parte real ou um estrato da sua mente (o que seria um contrassenso), entrelaçadas. O ego é dado apoditicamente na ação da Croché, mas como uma
mas na medida em que, por intermédio do autoestudo fenomenológico, cada "concreção muda': Ela tem de ser trazida à explicitação, à expressãoe, na ver-
um é uma auto-objetivação identiâcável do eu transcendental correspondente. dade, numa "análise" intencional sistemática, questionando retrospectivamente
Mas cada homem que leve a cabo a epoché poderia reconhecer o seu eu último, a partir do fenómeno do mundo. Neste procedimento sistemáticoadquire-se,
funcional em todo seu agir humano. A ingenuidade da primeira Crochétinha, em primeiro lugar, a correlação do mundo e da subjetividade transcendental,
como amos de imediato, como consequênciaque eu, o "ego"que filosofa, na objetada na humanidade.
medida em que me apreendo como eu funcional, como polo eu de atos e reali- Mas impõem-se, então, novas questões a propósito desta humanidade:
zaçõestranscendentais, de um salto e sem fundamento e, por isso, injustifica- são também os loucos objetivações dos sujeitos em causa para a realização da
damente, atribuía à humanidade onde me encontro a mesma transformação na constituição do mundo? E, além destes,as crianças, e também aquelasque têm
subjetividade transcendental funcional que eu sozinho tinha levado a cabo em já alguma consciência do mundo? Mas estas aprendem somente do homem
mim Apesar da falta de justificação metodológica, residia nisso alguma verda normal maduro, que as educa,o mundo no sentido pleno do mundo para to
de. Em todas as circunstâncias, pelas mais fundas razõesfilosóficas, que não se dos, ou seja, o mundo da cultura. E os animais? Emergem aqui os problemas
poderão pormenorizar, e não só por razões metódicas, não pode, porém, deixar das modificaçõesintencionais, pelas quais pode e tem de ser atribuída a sua
de ser feita justiça à absoluta unicidade do ego e à sua posição central para toda maneira de transcendentalidade,precisamente como "analogias" de nós, a todos
aconstituição. estessujeitos de consciência que não são cofuncionais para o mundo no nosso
sentido até aqui(e para sempre fundamental) - isto é, para o mundo que tem
verdade a partir da "razão': O sentido desta analogia irá também expor, assim,
um problema transcendental.Isto se estende,é claro, até o domínio dos pro-
52 N.T.: Ent-Gegenwartigung
53 N.T.:Enf-Fremdung. blemas transcendentais que abarcam, por íim, todos os seres vivos, na medida
54 N.T.:Vergegenwàrtígte. em que, ainda que indiretamente, mas de modo conõrmável, têm algo como

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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental © Edmund Husserl
Terceira Parte
A Clarificaçãodo Pr tal e a FunçãoCorrespondente da Psicologia

'vida" e também vida em comunidade em sentido espiritual. Emergem aqui, em


diversos estádios,em primeiro lugar para o homem e, por âm, universalmente,
os problemas da generatividade, os problemas da historicidade transcenden
tal, as questões transcendentais retrospectivas acerca das formas essenciaisda
existência humana na sociabilidade, em personalidades de <192> ordem su-
perior, acerca do seu significado transcendental e, por conseguinte, absoluto;
emergem, além disso, os problemas do nascimento e da morte e da constituição
transcendental do seu sentido como acontecimentos no mundo, assim como o
problema dos sexos.No que concerne, ânalmente, ao problema hoje tão trata- previsões de acordo com isso - nada disto explica coisa alguma, mas necessita
do do "inconsciente" - o sono sem sonhos, o desmaio e o mais que da mesma ae expncaçao. A única explicação ,efetiva é tornar transcendentalmente compre-
maneira ou semelhante se possa contar sob estetítulo -, trata-se, em qualquer
caso,de acontecimentos do mundo pré-dado, e caem, então, obviamente sob a
problemática transcendental da constituição, justamente como o nascimento e a
morte. Como ente no mundo universal comum, todos estes,e outros similares,
têm as suas maneiras de conârmação de ser, de "autodação" que, precisamente,
é uma "autodação" particular que, para o ente dotado de tal particularidade, é
originalmente criadora do sentido de ser. As questõesconstitutivas apropriadas
ao ente com um tal sentido, assim como com qualquer outro sentido, devem,
nestes termos, levantar-se na Croché absolutamente universal.
E claro, segundo isto tudo, que não há nenhum problema imaginável com
sentido da filosofa até hoje, e nenhum problema do ser em geral imaginável,
que a fenomenologia transcendental não tenha alguma vez, no seu caminho, de
alcançar. Entre eles estão também os problemas que a própria fenomenologia
levanta, numa reflexão superior, ao íenomenólogo: os problemas da linguagem,
da verdade, da razão fenomenológica, e não só os problemas correspondentes
da linguagem, da verdade, da ciência e da razão,em todas as suasfiguras, cons
tituídos na mundaneidade natural.
Compreende-se, assim, também o sentido da exigência de uma apoditici-
dade do ego e de todos os conhecimentos transcendentais adquiridos sobre este
fundo transcendental. Alcançado o ego, perceber-se-á que se está numa esfera <194>B. O caminho para a filosofia transcendental fenomenológica
de evidência, para além da qual é totalmente sem sentido querer questionar. a partir da psicologia
Todo o usual apelo a outra evidência, na medida em que com ela se pretendia
interromper um questionamento retrospectivo mais além, não era, pelo contrá- $.56. c'='ll=Tç'.d. '"'"«'«jm'"*. .#/"ó#" dep.í. d' &«* ' p"*' "'
rio, teoricamente melhor do que um apelo a um oráculo no qual se revela um «o"m'nfe «:.ncíad. '"':'P'í"/í;t« e ', "«:ofÍ" f"«s««de«f«/".;mp"
deus. Todas as evidências naturais de todas as ciências objetivas (sem exclusão
das da lógica e da matemática formais) pertencem ao domínio das "obviedades
(iue, na verdade, têm o seu plano de fundo de incompreensibilidade.Toda a
evidência é o nome de um problema, exceto a <193> evidência fenomenológi-
ca, depois de se ter clariâcado reflexivamente a si mesma e demonstrado como
evidência última. É, naturalmente, um erro risível, embora infelizmente habi-
tual, querer combater a fenomenologia transcendental considerando-a como

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Terceira Parte e A Clarif:icação do Problema Transcendental e a Função Correspondente da Psicologia
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental e Edmund Husserl

total destaque: são os representantes dos desenvolvimentos pré-formados nas senvolvimento da âlosofia não podia deixar de tomar de modo a chegar à âgura
metódica de preenchimento na qual unicamente poderia ser cientíâca, ou seja,
teorias que esboçaram,dotados de um sentido de unidade, e que partiram des-
ser na autocompreensão efetiva do sentido da sua tarefa, no espírito da filosofia
tes autores, das suas novas deânições universais de metas. Todo grande filósofo
que trabalha na validade última, que trabalha numa evidência apodítica do seu
continua a ter efeitos, a ter influência em todas as épocashistóricas posteriores.
solo, das suas metas e do seu método. Esta âgura de preenchimento só poderia
Mas nem todos trazem um motivo que confere unidade a uma sequência tem-
aceder à efetividade histórica como resultado do autoestudo mais radical, sob a
poral e, eventualmente,conclui um sentido de desenvolvimento, nem todos tra- forma de um começar inicial, de uma primeira aquisição da tarefa esclarecida,
zem um motivo que atua como força impulsionadora e incumbe uma tareia que
do solo apodítico e do método de acesso a ele, de um primeiro começo e de um
não pode deixar de ser cumprida e, com o seu cumprimento, de levar até o fim a
trabalho que põe eíetivamente as mãos à obra e questiona as próprias coisas.
época do desenvolvimento histórico. Na âlosoíia da Modernidade tornaram-se
Como filosofia transcendental fenomenológica <196> (mas exclusivamenteno
para nós signiâcativos,como tais representantes:l)escartes,que delineia uma
sentido aqui delineado), isto se tornou, então, agora um começo efetivamente
viragem perante todas as filosofias precedentes, cume (com justiça deveria pro- vivo. Ouso,doravante,dizer: estãodeânitivamente assinaladoscomo uma "in-
priamente nomear-se também BerkeZey)e - despertado por Hume - Kart que,
genuidadetranscendental" não só o naturalismo íisicalista moderno, como toda
por suavez, determina as linhas de desenvolvimento das filosofias transcenden-
a âlosoâa objetivista, sejado tempo passadoou ainda por vir.
tais alemãs. (Vê-se, de resto, nesta série, que não são os criadores dos maiores
A nossatarefa não está, entretanto, preenchida. Nós mesmos e os pensa-
sistemas, e espiritualmente mais poderosos, que são chamados, enquanto tal,
mentos que tivemos necessariamente de formar para trazer a uma ressonância
à colação, posto que ninguém fará equiparar a esterespeito cume e BerkeZeya
genuína os pensamentos do passado, ressonância na qual, nomeadamente, se
Ka?zf ou, entre os mais tardios, a HegeZ).
tornou evidente o seu direcionamento, como figuras germinais, para uma Êgura
Levamos a cabo, na primeira série de lições, uma análise mais profunda
anal, nós mesmos, digo, pertencemos, então, à mesma unidade da historiada
dos motivos do filosofar cartesiano que continua a determinar todo o desenvol-
de.Cabe-nos, por conseguinte, também ainda a tarefa de explicitar com sentido
vimento moderno. Por um lado, dos motivos que se anunciam nas suasprimei'
os desenvolvimentos da filosofia até nós mesmos e a nossa situação contempo
rasÀ4edífaçõese, por outro, dos motivos que com elasestão em íntimo contraste:
rânea.Isto mesmo é o que deixa perceber, conforme iremos em breve compre-
<1 95> a ideia íisicalista (ou matematizante) da âlosoâa, segundo a qual o mun-
ender, a referência à psicologia no título destas lições. A consumação da nossa
do, na sua concreção integral, traz em si um ser objetivo verdadeiro sob a figura
tarefa não requer um pormenorizar das diversas âlosofias e correntes particula-
do ordo geomefrícus e, em ligação com isto (o que precisa ser aqui especialmente
res da época subsequente. Bastará uma caracterização geral, na verdade, a partir
de realçado), que estemundo, no "em-si" metafísico que Ihe é atribuído, é um
da compreensão alcançada da historicidade precedente.
mundo dualista de corpos e espíritos. Isto caracterizou a filosofa do raciona-
O objetivismo filosófico de cunhagem moderna, com a sua tendência
lismo objetivista na época das luzes. Ensaiamos, então, a análise da situação fisicalista e o seu dualismo psicologista, não está morrendo, isto é, a este res-
hume-kantiana e só a pudemos finalmente elucidar ao penetrar nos seus pres'
peito está-secompletamenteno "sono dogmático'l Por outro lado, os que dele
supostos, onde chegamos a questionamentos específicos, estranhos à própria
foram despertosforam-no em primeiro lugar, com total predominância, por
época e, num pensar sistematicamente prosseguido, tornamos para nós claro,
J<anf.Surge então aqui a corrente dos idealismos transcendentais alemães,de
num esboçoprovisório, o estilo de uma filosofia transcendentalefetivamente
rivados da filosofia transcendental de Kant. Neles mantém-se e renova-se, aliás,
científica; "efetivamente científica': a saber,que trabalhe de baixo para cima em
com uma força particular, sob a nova âgura da consideração transcendental
passos singulares evidentes e, assim, de fato ultimamente fundada e fundadora.
do mundo, o grande ímpeto que tinha antes animado, a partir de Descarnes, a
Procurou-se tornar, então, completamente inteligível que somente uma tal íilo-
filosofia objetivista. Também esteímpeto não durou muito, apesarda enorme
soâa, numa tal indagação retrospectiva até o último fundamento pensável no
impressãoque o sistema de HegeZprovocou por algum tempo, e que Ihe parecia
ego transcendental, pode preencher o sentido inato à íilosoâa desde a sua fun-
prometer para sempre a hegemonia. A impetuosa e crescentereação que se íez
dação inaugural. Nas suas figuras iniciais imaturas, nos ingleses e em Ktznf, por
sentir logo assumiuo sentido de uma reaçãocontra toda e qualquerâlosofia
pouco que estesfornecessemfundamentações científicas sérias,e, por mais que transcendental deste estilo e, embora esta não tenha morrido inteiramente, as
Ht4mese tenha retirado para um débil ceticismo acadêmico,a filosofa transcen-
tentativas<197> subsequentes
de um tal filosofar perderama suaforça original
dental, tomada como um todo, não significa, por conseguinte, um desvio, nem, e a vivacidade do seu desenvolvimento.
de todo, "um" dos caminhos possíveis,mas o único caminho de futuro que o de-

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No que concerne ao crescimento da filosofia objetivista, ela manteve-se depoisde Hzzmee de Kanf. A seu lado, corre a linha de desenvolvimentodas
de certo modo como o desenvolvimento crescente das ciências positivas. Visto filosofiastranscendentais,e não só das que derivam de Kanf. Acresceainda a
mais de perto, contudo, estenão era de todo um crescimento filosófico. Recor- série de âlósofos transcendentais que devem as suas motivações a um efeito
do a transformação de sentido que estas ciências sofreram com a sua forma- continuado ou, como na Alemanha, a um efeito renascido de cume. Na Ingla-
ção como ciências particulares e pela qual acabaram por perder inteiramente terra, menciono em especialJ.S. Mill, que, no tempo da grande reaçãocontra as
o grande sentido que nelas antes vivia de serem ramos da filosofia. Já falamos filosofiassistemáticasdo idealismo alemão,exerceuna própria Alemanha uma
sobre isto, mas é aqui muito importante, para o esclarecimento da situação sur- forte influência. Na Alemanha surgiram, todavia, muitas tentativas sérias de
gida no séculoXIX, entrar em pormenores acercadeste ponto. Dasciências com uma fi[osofia transcendentaldeterminada essencialmentepelo empirismo in-
aquele único sentido genuíno surgiram, insensivelmente, artes notáveis de uma glês (Sc/zlíppe,.4ve?zarízzs),
as quais, entretanto, com o seu pretenso radicalismo,
nova espécie, que se ordenavam às outras artes de nível superior e inferior, como nem de longe igualavam o original, o único que pode ser útil. A renovação dos
as belas-artes,a arquitetura, bem como as artes de nível inferior. Tornaram-se empirismos positivistas gemina-se,inadvertidamente, com os renascimentos
ensináveis e aprendíveis nos seus institutos, nos seus seminários, coleções de das filosoâas mais antigas e, especialmente, as transcendentais, favorecidas pela
modelos ou museus. Podia-se nelas exibir habilidade, talento, mesmo gênio urgência sempre crescente dos motivos transcendentais. No retorno a estas silo
- por exemplo, na arte de inventar novas fórmulas, novas teorias exatas para sofrastranscendentais, e numa transformação crítica predeterminada por mo-
prever o curso dos fenómenos da natureza, para fazer induções de um alcance tivos positivistas, espera-sechegar novamente a uma âlosoâa autónoma. Como
impensável nos tempos anteriores. Ou, também, na arte de interpretar docu- cume e Bef'ke/ey,
tambémKa?zfrevive - um Kalzf multicolorido pelas<199>
mentos históricos, de analisar línguas gramaticalmente, de construir conexões multiplicidades das interpretações ensaiadas e das transformações do neokan-
históricas etc. Em toda parte há grandes gênios pioneiros que despertam a mais tismo. Kant é reinterpretado também empiristicamente, na medida em que as
alta admiração da co-humanidade, e amplamente a merecem. Mas a arte não é tradições históricas se misturam em entrelaçamentos e criam uma atmosfera
a ciência, cuja origem e intenção irrenunciável são alcançar, pela elucidação das quasefilosóâca para todos os cientistas, uma atmosfera de uma "teoria do co-
fontes últimas de sentido, um saber daquilo que eíetivamente, e no seu sentido nhecimento" de todo não aprofundada e pensada por si mesma, mas de que em
último, é compreendido. Uma ciência radicalmente sem pressupostos e capaz geral muito se fala. Ao lado de Kant, todos os restantes idealistas tiveram, então.
de fundamentação última, ou filosofia, não é mais do que uma outra expressão o seu renascimento, e até mesmo um neofriesianismo pede aparecer como esco-
para isso. Aquela arte teórica tem, porém, a peculiaridade de que, tendo partido la. Em toda parte observamos como a confusão se tornou insuportável, quando
da filosofia (embora de uma filosofia incompleta), tem um sentido fechado que, levamos em conta o rápido crescimento da cultura, da erudição e da literatura
a partir dela, pertence a todos os produtos da arte, sentido que não se pode in- civil internacional no século XIX. Sempre mais se espalhava uma disposição cé-
terrogar a partir da mera técnica metódica e da sua história, mas que só o âlóso- tica que paralisava interiormente a energia filosófica, mesmo daqueles que per-
fo efetivo pode despertar e que, na sua genuína profundidade, somente < 198> o severavamna ideia de uma âlosofia científica. A história da filosofia substitui-se
filósofo transcendental pode desdobrar. Assim, na arte teórica estáefetivamente à âlosoíia, ou a filosofia se torna uma visão pessoal do mundo até que se possa
contido, embora dificilmente acessível,um conhecimento cientíâco. mesmo, por fim, fazer da necessidadevirtude: a âlosofia não poderia desempe-
já falamos sobre isto nas nossas discussões sistemáticas, mostramos o que nhar uma outra função na humanidade em geral além de, como suma da cultu-
é requerido para adquirir um conhecimento a partir dos seus fundamentos últi- ra pessoal,esboçar uma imagem do mundo correspondente à individualidade.
mos, e que tal conhecimento só sepode adquirir no contexto universal, e jamais Apesar de o abandono da ideia genuína da âlosoâa, embora nunca leva-
como "ciência especial" ingênua e tampouco, é claro, no preconceito do objeti- da até à clariâcação radical, não ter acabado por se impor, a diversidade quase
yismo moderno. A tão deploradaespecializaçãonão é, em si, uma falta, posto inabarcável das filosoâas teve a consequência de que ela não mais se articula
que na âlosofia universal, assim como em qualquer disciplina especial,é neces- em direções científicas que, trabalhando seriamente em conjunto, discutindo
sária a formação de um método conforme à arte. É, porém, funesta a separação cientificamente entre si em crítica e resposta,conduzem no trilho da eíetivação
da arte teórica em relação à filosofa. Entretanto, ainda que os meros especialis- da ideia comum da ciência una, como de certo modo o fazem as direções'da
tas fizessem esta cisão, houve entre eles, e ao seu lado, aqueles que continuaram biologia ou da matemática e física modernas, mas contrastam entre si, por assim
filósofos, que continuaram a tratar asciências positivas como ramos da õlosoíia, dizer, segundo uma comunidade de estilo estética,análoga às "tendências" e
e assim se manteve válida a proposição de que a filosofia objetivista não morreu Correntes" nas belas-artes. É ainda de todo possível, na cisão das filosoâas e da

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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental e Edmund Husserl
Terceira Parte e A Clarificação do Problema Transcendental e a Função Correspondente da Psicologia

l sua literatura, estuda-las seriamente, avalia-las criticamente no sentido de obras


S 57. A separaçãofunesta entre#losoÚa transcendental e psicologia
de uma ciência e manter uma unidade do trabalho? As âlosofias surgem efeito,
mas não se tem de dizer honestamente, surtem efeito como impressões,"esti- Retomemos aos tempos em que o homem e o filósofo moderno ainda
mulam': movem o espírito como poesias, despertam "ideias" mas não o fazem acreditavamem si mesmose na âlosoâa e, situadosna motivaçãotranscen-
<200> de maneira semelhante (ora num estilo mais nobre, mas também, infe- dental, lutavam por uma nova filosofia com a seriedade responsável de uma
lizmente, com tanta frequência num outro estilo) às muitas novidades literárias vocação interior absoluta que percebemos através de cada palavra do verda-
do dia? Podemos reconhecer aos âlósofos os mais nobres propósitos, podemos
deiro âlósofo. Mesmo depois da chamada derrocada da filosofia hegeliana,em
estar mesmo plenos de uma õrme convicção do sentido teleológico da história, que culminou a linha de desenvolvimento definida por Kant, esta seriedade
e reconhecer um signiÊcado também às suas configurações - mas é este signi- conservou-seainda durante algum tempo (embora enfraquecidana sua força
ficado o que íoi historicamente confiado como tarefa à filosofa, não é, muito original) na âlosofia que reagiu contra ela. Mas por que não se chegou a uma
pelo contrário, quando seretrocede para um tal filosofar, abandonadoum ou- unidade do desenvolvimento íilosóâco transcendental através de todas as rup-
tro sentido, supremo e o mais necessário de todos? Já aquilo que tratamos na turas? Por que não conduziu a autocrítica e a crítica recíproca, naquelesque
crítica e na explanaçãodasevidênciasnos dá o direito de levantar estaquestão, ainda estavam animados pelo antigo espírito, a uma integração dos resultados
não como uma questão de disposições românticas, posto que queremos exata- concludentesna unidade de um edifício de conhecimentoque só podia ser
mente reconduzir todo o romantismo a um trabalho responsável,mas como
aperfeiçoado permanentemente pela crítica, pela correção e pelo reânamento
uma questão pela consciência cientíâca que nos chama a um estudo universal e metodológico sempre renovados, crescendo progressivamente de geração em
radical, que -' levado a cabo numa autorresponsabilidade suprema ' se tem de
geração?Acerca disto deve-se notar em geral, antes de mais nada, o seguinte:
transformar ele mesmo numa verdade efetiva e mais alta. um proceder de espécie absolutamente nova, como o de uma âlosoâa transcen-
Quase não necessitaser dito, depois do que foi apresentadona primeira
dental, para o qual faltava obrigatoriamente qualquer orientação por analogia,
série de lições, o que esta situação de fato signiâcou forçosamente para.a miséria só poderia pairar à maneira de uma antecipação instintiva. IJma obscura insa-
existencial da humanidade europeia, que - pois este foi o resultado do Renas- tisfação com o tipo de fundamentação para toda a ciência até então eclodiu em
l
cimento, que determinou todo o sentido da Modernidade - quis criar a ciência novos problemas e em teorias que trouxeram consigo uma certa evidência de
universal como o órgão para alcançar um novo enraizamento e para se trans- êxito nas suas soluções,apesarde muitas diâculdades, de início inadvertidas
formar numa humanidade a partir da pura razão. Mas não podemos furtar-mos ou, por assim dizer, silenciadas. Esta primeira evidência pode sempre esconder
aqui a tornar compreensível o manifesto fracasso da grande intenção da paulati- ainda em si mais do que muitas obscuridades profundamente imersas, sobretu-
na efetivação da ideia de uma "phíZosophía peretznís': de uma verdadeira e genuí- do sob a forma de pressuposiçõesinquestionadas que se pretendem totalmen-
na ciência universal a partir de uma fundamentação última. E temos, ao mesmo te <202> óbvias.Historicamente, no entanto, tais teorias iniciais continuam a
tempo, de justificar também o atrevimento com o qual - conforme já se pode servir de auxílio, as obscuridadestornam-se mais sensíveis,as pretensasob-
prever a partir das exposiçõescrítico-sistemáticas - podemos ainda ousar (ago- viedades são questionadas, as teorias consequentemente criticadas, e isto cria
ra e neste tempo) fazer um prognóstico favorável para o desenvolvimento futuro o impulso para novas tentativas. Além disso, uma filosofa transcendental não
de uma filosofia entendida como ciência. O racionalismo da época do iluminis-
pode jamais, por motivos essenciais(que se elucidam sem mais a partir das
mo está já fora de questão, não mais podemos seguir os seus grandes filósofos, nossasexposiçõessistemáticas), sofrer a transformação insensível numa mera
nem os do passadoem geral. A sua intenção, porém consideradano seusenti- TeZvfl,e, assim,um esvaziamentopelo qual aquilo que veio a ser artificialmente
do mais geral -, não pode jamais morrer em nós. Sublinho novamente: a verda- encerra ainda um sentido oculto, que só transcendentalmente pode ser revelado
deira e genuína filosofia e ciência e o verdadeiro <201> e genuíno racionalismo, em toda a sua profundidade. Compreendemos, assim, que a história da âloso-
são um só e o mesmo. Realiza-los,em contraste com o racionalismo do período
âa transcendentalteve de começar por ser uma história de tentativas sempre
do iluminismo, que se achaenfermo de um contrassensooculto, permanecea novas de conduzir a filosofa transcendental somente ao seu começo e, acima
nossa tarefa própria, a menos que tenhamos substituído a ideia inextinguível da de tudo, a uma autocompreensãoclara e correta daquilo que ela propriamente
âlosofia, como a ciência universal e capaz de fundamentação última, pela ciên- pode e tem de querer. A sua origem é uma "virada copernicana': a saber,um
cia particular e pela ciência degradada a uma técnica, a uma xeXvÚ, ou seguido afastamento principial do tipo de fundamentação ingênuo-objetivista. Sabemos
à moda das degeneraçõesda filosofia em exercíciosirracionalistas. que a âlosoâa transcendental aparece numa âgura originária, como semente,

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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental Edmund Husser
Terceira Parte e A Clarificaçãodo Problema Transcendental e a FunçãoCorrespondente da Psicologia

na primeira das .4{edífaçõescarfesÍanas,como ensaio de uma fundamentação sugerir que o sentido extraordinariamente profundo das teorias transcendentais
absolutamente subjetivista da filosofia a partir do ego apodítico, mas que isto traz consigo diâculdades de compreensão correspondentes as quais seria muito
se dá de modo pouco claro, ambíguo e pervertendo de imediato o seu sentido
cómodo contornar. É tão certo que uma filosofia transcendental, em geral e por
genuíno. A nova etapa, a reação de Berre/ey e de Hzíme contra a ingenuidade fi- uma necessidadeessencial,levanta necessariamente diâculdades extraordiná-
losóâca da exatidão matemático-científico-natural, não conduziu ainda ao sen- l
rias à compreensão do homem natural - o do common serzse- <204>, ou seja,
tido genuíno da virada copernicana requerida tampouco quanto, outra vez, a todos nós, posto que temos irremediavelmente de nos elevar do solo natural
o novo começo de Kant - de fundar para sempre uma âlosofia transcendental até à região transcendental. A inversão total da postura natural da vida, numa
sistemática num espírito rigorosamente científico. Ktzrzfnão atingiu um começo outra postura "não natural': levanta as maiores exigências que se podem pen-
eíetivo, que precisava ser alcançado por uma libertação de todas as tradições sar à decisão e consequência filosóâcas. O entendimento humano natural e o
cientíâcas e pré-cientíâcas. Ele não avança até a subjetividade absoluta, consti objetivismo a ele preso irão perceber qualquer filosofa transcendental como
tuinte de todo o ente no seu sentido e validade, e até o método, alcançando-a em
uma extravagância, a sua sabedoria como uma insensatez inútil, ou interpretá-
sua apoditicidade e questionando-a e apoditicamente explicitando-a. A partir la-ão como uma psicologia que a todo custo pretende não o ser. Ninguém ver-
daí, a história desta âlosoâa foi necessariamente a história de uma contínua luta
dadeiramente receptivo à âlosofia se assustaalguma vez com dificuldades. O
precisamenteem torno do sentido genuíno e claro da inversãoe do método de homem moderno, todavia, como o homem cunhado pela ciência, requer uma
trabalho transcendentais a levar a cabo, ou, expressode outro modo: a luta pela clarezaintelectiva que, conforme é corretamente indicado pela imagem do ver,
liK genuína "redução <203> transcendental': As nossasreflexões críticas sobre Karzf requer, a cada passo do caminho, uma evidência do "ver" das metas e dos ca-
J já mostraram claramente o perigo das evidências, impressionantes mas pouco minhos. Por mais longo que seja ainda o caminho, e ainda que necessite,como
claras ou, se assim se quiser, do transparecer das evidências puras, ao longo tra-
na matemática, de vários anos de estudo esforçado, isto não assustaquem tem
balho, sob a forma de antecipaçõesvagas, com questionamentos sobre um solo na matemática o interesse da sua vida. As grandes filosofias transcendentais não
pouco claro (o das "obviedades"),e assim se tornou já compreensíveltambém satisfazem a necessidade científica de uma tal evidência e, por isso, as suas vias
como foi Kant conduzido para uma formação mítica de conceitose para uma do pensar foram abandonadas.
metafísica com um sentido perigoso, hostil a qualquer ciência genuína. Todos Assim, retornando ao nosso tema, poderemos então dizer, sem sermos
l os conceitos transcendentais de K2znf,o do eu da apercepção transcendental, mal compreendidos:se a incompreensibilidadeque se mostrou da filosofia do
das diversas faculdades transcendentais, da "coisa em si" (que subjaz aos cor- iluminismo racionalistacomo ciência "objetiva"provocou a reaçãoda âloso-
pos e às mentes), são conceitos construtivos, que resistem principialmente a âa transcendental, então a reação contra a incompreensibilidade das filosoâas
uma clariâcação última. Isto é válido ainda em maior medida para os sistemas transcendentaisensaiadasnão poderia deixar de conduzir além delas.Mas
idealistas posteriores. Aqui residiu a razão para as reações,de fato necessárias, deparamo-nos, então, com a questão: como se pode compreender que um tal
contra estessistemas,contra toda a suaespéciede âlosoíar.É certo que um estilo se pudessede todo formar e reproduzir em grandes filósofos e nas suas
aprofundamento com boa vontade num tal sistemanão podia negar inteira filosoâas, no desenvolvimento da filosofia moderna, animada pela vontade da
mente a força e a pujança das suas formações de pensamento. E, no entanto, a ciência?Estesâlósofosnão eram de modo nenhum algo como poetasde con-
sua incompreensibilidade final despertava uma profunda insatisfação em todos ceitos. Não lhes faltava de todo o sério querer criar a filosofia como ciência de
aquelesque se tinham formado nas grandesnovas ciências.Ainda que estas fundamentação última, por mais que se pudessetransformar o sentido da fun-
ciências, segundo o nosso esclarecimento e tudo o que dissemos, ofereçam uma damentação última. (Pense-se,por exemplo, nas enérgicas explicações de Fichte
evidência meramente "técnica': e ainda que a âlosoâa transcendental jamais se nos esboçosda suaDoufrí/za da Ciézzcía,ou nas de Hegel no "Prefácio" da sua
possatornar uma tal Te%vfl,também ela é uma realizaçãoespiritual que tem a Fenómeno/ogía do <205> EsPírffo.) Como se deu que tenham permanecido vin-
cada passo de ser clara e compreensível, de ter a evidência do passo que deu e culados ao seu estilo mítico de formações de conceitos e a uma interpretação do
do seu solo; e, assim (em termos formais), para ela é válido o mesmo que para mundo em antecipaçõesmetafísicas obscuras, e não tenham podido romper até
toda a ciência exercitada artiâcial e tecnicamente evidente, como a matemáti- uma conceitualidade e método cientificamente rigorosos, e que cada sucessor
ca. De nada serve aqui querer explicar a incompreensibilidade das construções na âleira kantiana tenha outra vez concebido uma nova filosofia deste estilo?
transcendentaispor meio de uma teoria da necessidadede tais incompreensi- Residia no sentido proprio da âlosofia transcendental o fato de ela ter surgido
bilidades esboçada no mesmo espírito; e, novamente, de nada serviria querer a partir de reflexões sobre a subjetividade da consciência, na qual o mundo - o

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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendenta Edmund Husserl
Terceira Parte ' A Clarificação do Problema Transcendental e a Função Correspondente da Psicologia

cientíâco bem como o quotidiano-intuível vem para nós ao conhecimento, A primeira resposta a estasquestõesdiz-nos que a filosofia transcenden-
à sua validade de ser, e que assim se viu obrigada a formar uma consideração tal (e também a que buscasseum qualquer outro estilo), além do cuidado pe-
do mundo puramente espiritual. Mas se ela tinha algo em comum com o es- rante o psicologismo, tinha motivos suficientes para não esperar qualquer au-
piritual, por que não se voltou para a psicologia, tão diligentemente praticada xílio da psicologia. Isto residia na própria psicologia e no descaminho fatal que
desde há séculos?Ou, se esta não Ihe era suâciente, por que não formou uma Ihe foi imposto pela peculiaridade da ideia moderna de uma ciência objetivista
psicologia melhor? É claro que se responderá que o homem empírico, o ser universal moregeomefricoe, dentro desta, pela ideia do dualismo psicofísico.
psicofísico, pertence, quanto ao corpo e quanto à mente, ao mundo constituído. No que se segue,pretendo tentar mostrar (por mais paradoxal que esta tese
Logo, a subjetividade humana não é a subjetividade transcendental, e as teorias possa parecer neste ponto) que precisamente esta via fdsificadora do sentido,
psicológicas do conhecimento de um l,ocde e dos seus seguidores eram adver- via que assentavasobre a psicologia e que até hoje a impediu de compreender
tências sempre renovadas contra o "psicologismo': ou seja,contra qualquer uti- a sua tarefa própria, tem a principal culpa de que a âlosoâa transcendental não
lização da psicologia para fins transcendentais. Para isso, porém, teve a filosofia tenha encontrado nenhuma saída para a sua situação penosa e que, por isso, se
constantemente de carregar a sua cruz da incompreensibilidade. A diferença tenha atolado com os seus conceitos e construções que dispensavam por com-
entre a subjetividade empírica e a transcendental permaneceu irremediável e, pleto e totalmente a criação a partir da evidência originária, conceitos e cons-
entretanto, permaneceu também irremediável, embora incompreensível, a sua truções com que interpretava as suasobservaçõesempíricas, em si, aliás, muito
identidade. Eu mesmo, como eu transcendental, "constitua" o mundo e sou, valiosas. Se a psicologia não tivesse fracassado, então ela teria produzido um
simultaneamente,como mente, eu humano no mundo. O entendimento que trabalho mediador necessário para uma âlosoâa transcendental que pusesse
prescreveao mundo a sua lei é o meu entendimento transcendental, e este me concretamente as mãos à obra, <207> livre de todos os paradoxos. A psicologia
forma segundo essasleis, o mesmo que, no entanto, é a minha faculdade men- fracassou,porém, porque já na sua fundação originária como psicologia de uma
tal, a do filósofo. O eu que se põe a si mesmo, de que fala Fic/zfe,pode ser algum nova espécie,ao lado da ciência da natureza moderna, negligenciou questionar
outro senão o de FÍchfe?Se isto não deve ser um verdadeiro absurdo, mas um o único sentido genuíno da tarefa que Ihe é essencialcomo ciência universal
paradoxo resolúvel,como poderia algum outro método nos ajudar à claridade do ser psíquico. Muito pelo contrário, deâniu a sua tarefa e método a partir do
alémdo questionamentoda nossaexperiênciainterior e de uma análisesub- caráter modelar da ciência da natureza e, respectivamente, da ideia condutora
sequente no seu âmbito? Se se fala de uma "consciência transcendental" em da filosofia moderna como ciência universal objetiva e, por isso, concreta - uma
geral,se não possoser eu, como estesingular-individual, o portador do <206> tareia que parece,aliás, inteiramente óbvia dentro da motivação histórica dada.
entendimento constituinte da natureza, não tenho de perguntar como posso Tão afastadaandou qualquer dúvida a esterespeito que somente por volta do a-
ainda ter, acima da minha autoconsciência individual, uma consciência geral, nal do século XIX se tornou ela um tema íilosóâco. A história da psicologia não
transcendental-intersubjetiva?A consciência da intersubjetividade não pode, e, por Isso,propriamente mais que uma história de crises. E tampouco podia a
por conseguinte,deixar de se tornar um problema transcendental;mais uma psicologia auxiliar o desenvolvimento de uma filosofia transcendental genuína,
vez, contudo, não se consegue divisar como ela pode se tornar um problema, a porquanto isto só era possívelapósuma reforma radical na qual a partir do
não ser por intermédio de um questionar-me a mim mesmo, e isto novamente mais profundo autoestudo fossem claramente deânidos a sua tarefa e método
na experiência interior, a saber,segundo os modos da consciência nos quais al- essenciais.E isto porque a execuçãoconsequente e pura desta tarefa não podia
canço e tenho outrem e uma co-humanidade em geral, e como se deve compre- deixar de conduzir, por si mesma, e necessariamente,até uma ciência da sub-
ender que posso distinguir em mim entre eu e outrem e atribuir-lhes o sentido jetividade transcendental e, por tal modo, à sua transformação numa filosofa
de "meus semelhantes'l Pode a psicologia manter-se indiferente a isso, não tinha transcendental universal.
de ser ela a tratar de tudo isto? As mesmas questões, ou semelhantes, dirigem
se, assim como a Kanf, a todos os seus seguidores, que muito se perdem numa
obscura metafísica ou "mítica': Deveria, entretanto, pensar-se que somente após $ 58. Geminaçãoe distinção da psicologia e da .Êloso$atranscendertta!.A psicolo
a elaboração de um conceito científico da nossa razão humana e das realizações gia comoo campodecisivo
humanas, assim como da humanidade, ou seja, somente a partir de uma psico-
logia genuína, sepoderia também adquirir um conceito científico de uma razão Tudo isto setornará compreensível se, para a elucidação da relação difícil,
absoluta e das suas realizações. e mesmo paradoxal, entre a psicologia e a filosofa transcendental fizermos uso

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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental EdmundHusser
Terceira Parte . A Clarificação do Problema Transcendental
da Psicologia

das nossasobservaçõessistemáticas,pelas quais tornaremos claro o sentido e o


método de uma âlosoâa transcendental radical e genuína. Já não temos quais-
quer dúvidas de que uma psicologia científica de cunho moderno - indepen-
dentemente de qual dos muitos esboços da mesma desde l/obbes e Z,ocdetome-
mos em consideração jamais tomará parte nos resultados teóricos que incum l
bem à âlosoíia transcendental, jamais poderá fornecer-lhe quaisquer premissas.
<208> A tarefa posta pela psicologia moderna, e por ela assumida, era a de ser a
ciência dasrealidadespsicológicas, dos homens e dos animais, como seresunos,
articulados, porém, em dois estratos.Todo o pensar teórico se move aqui sobre
o solo do mundo empírico obviamentepré-dado,do mundo da vida natural,
e o interesseteórico estátão só especialmentedirigido para um dos aspectos
reais, para as mentes, ao passo que o outro é entendido como já conhecido, ou
ainda a conhecer mais além, quanto ao seu ser em si objetivamente verdadei-
ro, pelas ciências exatas da natureza. Para o âlósofo transcendental, contudo, a
objetividade real inteira, a objetividade científica de todas as ciências efetivas e
possíveis,mas também a objetividade pré-científica do mundo da vida com as
suas "verdades de situação" e a relatividade dos seus objetos existentes,ss tornou-
se,então, o problema, o enigma de todos os enigmas. O enigma é justamente a
obviedade na qual para nós o "mundo" é constante e pré-cientificamente nome
para uma inanidade de obviedades indispensáveis a todas as ciências objetivas.
Na medida em que eu, o que âlosofo, refeitocom pura consequênciasobre mim,
como eu constantementefuncional no curso mutável das experiênciase nos
intuitos que dela resultam,como o eu que nelestem consciênciado mundo
e deste conscientemente se ocupa, questionando em todos os seus aspectose
correntemente pelo que e como das maneiras de dação, dos modos de validade
e das maneiras da concentração sobre o eu, apercebo-me de que esta vida da
consciênciaé, do princípio ao íim, vida intencionalmenterealizadora,na qual
o mundo da vida, com todos os seusconteúdos mutáveis de representações,'em
parte ganha de novo, em parte sempre já ganhou sentido e validade. Resultado
constituído é, neste sentido, toda a objetividade real, mundana, também a dos
homens e dos animais e, então, também a das "mentes': O ser mental, bem como
a espiritualidade objetiva de qualquer espécie(como as comunidades e culturas
humanas), assim como a própria psicologia, pertencem aos problemas trans-
cendentais.Querer tratar de tais problemas sobre o solo ingênuo-objetivo e com
o método das ciências objetivas seria um contrassenso circular. <209>
A psicologia e a filosofa transcendental estão também. de maneira ca-
rac,terística e inseparável, geminadas entre si a saber, por força da geminação,
para nos nao mais enigmática, mas esclarecida,da diversidade e identidade en-
tre o eu, a vida e a realização do eu psicológico (ou seja,humano, mundanizado

55 N.T.:Se/andem

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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendenta Edmund Husserl
Terceira Parte ' A Clarificação do Problema Transcendental e a Função Correspondente da Psicologia

de estudar a realizaçãotranscendental a partir da qual e na qual tenho "mundo': a obra sistemática fundamental para o ceticismo, foi pouco estudado; o empi-
então tenho também de reencontrar posteriormente essarealizaçãonuma análise rismo inglês, isto é, a teoria do conhecimento psicologistaao estilo de Locke,
interior psicológica, recolhida, no entanto, novamente numa apercepção,ou seja, continuava, aliás, a proliferar como uma vegetaçãoluxuriante. Assim, a õlosofia
apercebidacomo real-mental, referida realmentesóao corpo somático real.s' transcendental, com os seus questionamentos inteiramente novos, tinha sem-
E inversamente: um desdobramento psicológico radical da minha vida pre também de combater tal psicologismo. Mas disto não mais trata a nossa
aperceptivae do mundo que nela aparece,no como do aparecerparticular (ou questão, posto que não se dirige aos naturalistas filosóficos, mas aos âlósofos
seja,da "imagem do mundo" humana) não poderia, na transição para a atitu- efetivamente transcendentais, entre os quais os próprios fundadores dos gran-
de transcendental, deixar de assumir de imediato um significado transcenden- des sistemas.Por que não se ocuparam de todo da psicologia nem tampouco da
tal, tal como agora, num estádio superior, tenho também permanentemente em psicologia analítica a partir da experiência interior? A resposta já indicada, que
linha de conta, para a apercepção objetiva, a realização doadora de sentido a requer mais explanações e fundamentações, reza: a psicologia desde Locke, em
partir da qual o representardo mundo tem o sentido do ente real, do humano todas as suas figuras: e mesmo quando quis ser psicologia analítica a partir da
mental, da vida psíquica minha e de outros homens, da vida, onde cada um tem experiência interior': falhou em sua tarefa especíÊca.<212>
as suas representações do mundo, <21 1> e se encontra como sendo no mundo, A õlosofia moderna inteira, no sentido originário de uma ciência universal
de fundamentação última, é, segundo a nossa exposição, pelo menos desde K2znfe
como nele representantee nele agindo segundo âns.
Esta consideração,para nós tão imediata, embora careçaainda de uma cume, uma única luta entre duas ideias de ciência: a ideia de uma filosofa objeti-
vista sobre o solo do mundo previamente dado, e a de uma filosofa sobre o sola) da
fundamentação mais profunda, não seria acessívelantes da redução trans-
cendental;mas,apesarde toda a falta de clareza,não se fez sempresentir subjetividade transcendental absoluta - esta última, como algo de uma espéciehis-
i dl
tórica inteiramente inédita e estranha, que irrompeu com Berre/ey,filme e Kbrzf.
fortemente a geminação entre a psicologia e a filosofia transcendental? Este
A psicologia participou constantemente deste grande processo de desen-
foi, de fato, um tema que constantementecodeterminou o desenvolvimento.
vols,imento e, como vemos, em diversas funções, ela é, aliás, o verdadeiro campo
Por isso, tem de parecer de início surpreendente que a filosofa transcenden-
dasdecisões.E o é precisamenteporquanto, embora numa outra atitude e, assim,
tal não tenha feito desde Karzf absolutamente nenhum uso reais: da psicolo-
com uma outra tareia, tem como tema a subjetividade universal que, nas suas
gia que, no entanto, desde os tempos de l,ocde, pretendia ser psicologia com possibilidades e efetividades, é só zzma.
base na experiência interior. Pelo contrário, toda a filosofia transcendental
que não se desencaminhava de modo empírico-cético via mesmo a mais leve
mistura de psicologia como uma traição ao seu verdadeiro propósito e tra-
$ 59: Análise da mudança de atitude, da atitude psicológicapara a atitude trens
vou uma luta constantecontra o psicologismo,uma luta que pretendiae não :endetttall.A psicologia "antes" e "depois" da reduçãojenomeriológica. (O proble
poderia deixar de resultar em que ao filósofo não era de todo lícito cuidar da ma do "afluxo".)
psicologia objetiva.
E certo que querer tratar de problemas teórico-cognoscitivosde modo Retom amos aqui o pensamento que antecipamos como situado já para nós
psicológico permaneceu, mesmo depois de cume e de Karzf,uma grande tenta transcendental-filosoficamente, e como aquele que nos aproxima desdelogo da
ção para todos aquelesque não conseguiam ser despertos do seusono dogmáti- ideia de um caminho possívelda psicologia para a filosofia transcendental.Na
co. Apesar de K2znf,cume continuou incompreendido; o Treatíse, precisamente psicologia: a atitude ingênua-natural implica que as auto-objetivações humanas
da intersubjetividade transcendental, pertencentes essencial e necessariamente
56 N.T.: Real. ao conteúdo do mundo para mim e para nós constituído como pré-dado, têm
57 Se, a partir de mim, compreendido como ego, aprendo a esclarecero modo como os outros inegavelmente um horizonte de intencionalidades transcendentais funcionais
homens só são homens para si mesmos, e só têm para sí o mundo permanentemente váli- macessívelatravésde qualquer reflexão, inclusivamente a científico-psicológica.
do como o mundo onde vivem com os outros e comigo, e se aprendo como, em realizações
Eu, este homem" e, do mesmo modo, "os outros homens" isto designa sempre
da objetivação do mundo e de sl, em última Instância são também sujeitos transcendentais,
deverá, então, dizer-se:aquilo que o meu esclarecimentotranscendental fornece a respei- uma autoapercepção e apercepção de outrem que, com todo o psíquico que dela
to das auto-objetivações transcendentais dos outros, tenho de atribuir ao seu ser humano, Êazparte, é uma aquisição transcendental, que muda no curso da sua particula-
ao seu ser a apreciar psicologicamente. ridade, a partir das funções transcendentais contidas na ingenuidade. É unica-
58 N.T.:Ree//en. mente pela ruptura da ingenuidade segundo o método da redução transcendental

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orrespondente da Psicologia

que sepode questionar retrospectivamente a historicidade transcendental, <213>


a partir da qual deriva em última instância a realizaçãode sentido e de validade
destasapercepçoes.Na ingenuidade intacta, onde se mantém toda a psicologia,
toda a ciência do espírito, toda a história humana, eu, o psicólogo, estou, como
toda a gente, na efetuação simples e constante das autoapercepções e apercepções
de outrem. É certo que posso aí refletir tematicamente sobre mim, sobre a minha
vida mental e a de outros, sobre as minhas apercepções mutáveis e as de outros,
posso também recordar-me, posso,como cientista do espírito, põr, por assim di-
zer,a história tematicamente em andamento como recordação comunitária, posso
e6etivarno interesse teórico, pela observação, autopercepçoes e autorrecordações
e,através do meio da intropatia,s9 posso valorar autoapercepçõesde outrem. Pos-
so perguntar pelo meu desenvolvimento e pelo de outros, seguir tematicamente,
por assim dizer, a história da recordação comunitária, mas toda a regerão deste
género mantém-se na ingenuidade transcendental, é a efetivação da apercepção
transcendentalmente pronta, por assim dizer, do mundo, pela qual permanece to-
talmente fechado o correlato transcendental: a intencionalidade funcional(atual e
sedimentada), que é a apercepção universal, constitutiva para asapercepções par-
ticulares respectivas, que lhes doa o sentido de ser de "vivências psíquicas deste
e daqueleshomens': Na atitude ingênua da vida no mundo só há, precisamente,
o mundano: os polos objetivos constituídos, mas não compreendidos como tal.
Como qualquer ciência objetiva, a psicologia estávinculada ao domínio do pré
cientificamente já dado, ou seja,àquilo que é descritível, nomeável, asserívá na
língua geral; no nosso caso, estávinculada ao psíquico exprimível na língua da
nossa comunidade linguística (apreendido do modo mais vasto: a comunidade
linguística europeia). Porque o mundo da vida o "mundo para todos nós" -é
idêntico ao mundo sobre o qual se pode em geral falar. Toda nova apercepção, S 6Q. A razão do fracasso da psicologia: os pressupostosdualistas e$sicalistas
através de uma transposição perceptiva, conduz essencialmente a uma nova tipo -
âcação do mundo da vida e, no intercâmbio [comunitáriol, a uma denominação
que rapidamente aflui à linguagem corrente. O mundo, em consequência,é sem-
pre já o mundo empírico, e em geral(intersubjetivamente) explicitável e, simulta-
neamente,o mundo linguisticamente explicitável.
Com a ruptura da ingenuidade pela mudança transcendental-fenomeno
lógica <214> de atitude, intervém, todavia, uma mudança signiâcativa também
para a própria psicologia. Como fenomenólogo posso, é certo, a cada momento
retornar à atitude natural, à simples efetivação dos meus interessesvitais teóri-
cos ou outros; posso estar novamente em ação como sempre estive,como pai de
família, como cidadão,como funcionário, como "bom europeu" etc.,precisa-
mente como homem na minha humanidade, no meu mundo. Como sempre - e,
no entanto, não completamente como sempre,pois não posso jamais recuperar

59 N.T.:f/n$tih/ung. A psicologia não podia deixar de fracassar porque a sua tarefa, a de pes-
quisa da subjetividade concreta integral, só podia ser alcançada por um estudo
170
171
T

A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental 8 Edmund Husserl Terceira Parte e A Clarificação do Problema Transcendental e a Função Correspondente da Psicologia

radical, totalmente sem preconceitos, que não poderia, então, deixar de abrir as for denunciado como um contrassenso, não haverá nenhuma psicologia que
dimensões transcendentais-subjetivas. Para isso, eram manifestamente necessá- sejaciência do eíetivamentemental: justamente daquilo que originariamente
rias consideraçõese análisesdo mundo pré-dado semelhantesàs que realizamos tem sentido a partir do mundo da vida, sentido a que a psicologia - de modo
numa lição anterior, acercade Ka?zf." Se,nestas,o nosso olhar foi em primeiro semelhantea qualquer ciência objetiva - está inegavelmente vinculada. Não es-
lugar orientado peloscorpos nas suasmaneiras de pré-doação próprias do mun- panta, por isso, que Ihe.tenha estadovedado aquele constante desenvolvimento
do da vida, nas análises aqui requeridas, dever-se-ia partir das maneiras como progressivoexibido pelo seu modelo admirado, a ciência da natureza,e que
as mentessão pré-dadas no mundo da vida. Um questionar originariamente re-
fletido dirige-se agora ao seguinte: o que, e como, são as mentes - em primeiro em sempre novas crises.Vivenciamos, assim, precisamente uma crise da psico-
lugar, asmenteshumanas- no mundo, no mundo da vida, ou seja,como 'ani- logia que ainda há <217> poucos anos, como psicologia internacional institu-
mam" corpos próprios físicos, como estão localizadas na espaço'temporalidade, cional, estava plena da certeza solene de se poder finalmente equiparar à ciência
como cada uma delas "vive" mentalmente na medida em que tem "consciência da natureza. Não que o seu trabalho fosse infrutífero. Diversos fatos dignos de
do mundo onde vive e tem consciência de que vive; como cada uma delas não nota referentes à vida da mente humana foram descobertos com objetividade
experiencia o "seu" corpo <216> de modo algum como um corpo': part.ocular científica. Mas era ela só por isso seriamente uma psicologia, uma ciência em
mas, de uma maneira totalmente única no seu gênero,como "corpo somático;" que se aprendia algo acerca da essência própria do espírito - acentuo de novo:
como um sistema dos seus "órgãos" que ela (no seu domínios; move egoicamen- não acerca de uma essência mística "metafísica': mas acerca do ser em si e para
te=como ela assim "intervém" no seu mundo circundante consciente ao modo do si que, entretanto, é acessívelao eu pesquisador-reflexivo por meio da chamada
"eu empurro': "movimento': "levanto" isto ou aquilo etc. A mente "está; é certo, percepção "interior" ou "autopercepção"?
no" mundo, mas isto quer dizer que ela está à maneira dos corpos, e que, se
os homens são experimentados como reais no mundo com corpos somáticos
e mentes, tem e poderia ter esta realidade dos homens, assim como a dos seus $ 61. A psicologia na tensão entre a ideia da ciência (objetivístico-Pios($ca) e o

próprios corpos somáticos e mentes, um sentido igual ou mesmo somente seme- proceder empírico: a incompatibilidade das duas direções da pesquisa psicológica
lhante ao dos meros corpos? Por mais que o corpo somático humano seja con- (a pesquisa psicofísica e a "psicologia a partir da experiência interior")
tado também entre os corpos, ele é, contudo, "corpo somático" - ."o meu corpo ,
Qualquer empina científica tem o seu direito originário e também a sua
que eu "movo': no qual e por intermédio do qual eu "domino'! "corpo" que eu
dignidade. Considerada por si, contudo, nem toda ela é já ciência no sentido
' animo't Sem ponderar sobre este estado de coisas profunda e efetivamente sem
mais originário e inalienável, cujo primeiro nome era âlosofia; e, assim, tam-
preconceitos, o que depressa nos leva longe, não se captou de todo o que é essetz-
cíalmenfepróprio a uma mente como tal (a palavra "mente" entendida de modo pouco no sentido da refundação da filosofia, ou ciência, desde o Renascimento.
totalmente não metafísico mas, muito pelo contrário, puramente no sentido da Nem toda a empina científica surgiu como função parcial de uma tal ciência.
mais originária dação do psíquico própria do mundo da vida) e, assim, tampouco E, no entanto, só se pode chamar eíetivamente científica se satisâzer estesen-
nuíno substrato último para uma ciência das "mentes': Em vez disso, a psi- tido. SÓse pode falar da ciênciaonde, dentro do todo incindível da âlosofia
universal, se faz gerar uma ramificação da tarefa universal de uma ciência par
cologia começou com um conceito de todo e por completo .não originariamente
criado da mente, mas com um conceito derivado do dualismo cartesiano, que ticular em si una, em cuja tarefa particular, como ramo, atua a tarefa universal
numa fundação originariamente viva da sistemática. Não é uma empina qual-
Ihe tinha sido posto na mão por uma ideia anterior, construtiva de uma natureza
quer exercitada por si que é já uma ciência neste sentido, por maior utilidade
corpórea e de uma ciência matemática da natureza. Assim foi a psicologia de
prática que possa ter, e por maior técnica metódica conârmada que nela possa
antemão carregada com a tarefa de ser uma ciência paralela e.com a concepção:
vigorar. Ora, isto diz respeito à psicologia porquanto ela historicamente, num
.amente - o seu tema - é algo de real num sentido igual ao da natureza corpo'
impulso constante para preencher a sua determinação como ciência filosófica
rea, o tema da ciência da natureza. Enquanto este preconceito de séculos não
e, logo, científica, permanece embaraçada em obscuridades sobre o seu sentido
11 60
61
Cf.$$ 28 e sega
N.T.:Kõrper.
justo, até sucumbir, por üm, às tentações<218> de elaboraçãode uma empina
psicofísica ou, melhor, psicoâsicalística rigorosamente metódica, e crê, então,
62 N.T.:l.eíb. ter preenchido já o seu sentido como ciência na segurança conârmada dos seus
63 N.T.: \4/a/ten. métodos.Trazeristo para o ponto central do interesseda psicologia - como "o

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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental e Edmund Husser
Terceira Parte
o Correspondente da Psicologia

lugar das decisões"em vista de uma configuração correta de uma filosofia em


geral -, e elucida-lo em toda a sua motivação e alcance é, perante a psicologia
especializada presente, o nosso assunto, o assunto dos âlósofos.
Nesta direção da busca originária de uma cientiâcidade, digamos, "filo-
sófica': surgiram sempre novamente, e logo depois do início cartesiano, motivos
de insatisfação. Faziam-se sentir tensões entre a tarefa historicamente recebida
desdeDescarnes,por um lado, de tratar as mentes metodicamente, exatamente do
modo como os corpos, e como ligadas com corpos, enquanto realidades espaço-
temporais - ou seja, pretender pesquisar fisicamente o mundo da vida inteiro,
como "natureza"num sentidoalargado e,por outro lado, a tareia de pesquisar
as mentes no seu ser em si e para si por meio da "experiência interior" - a experi-
ência interior primordial da própria subjetividade do psicólogo e, numa media-
tidade intencional, na via da "intropatia" igualmente dirigida para o interior (sc.
para o interior das outras pessoastemáticas). Ambas as tareias pareciam obvia-
mente ligadas, metódica e materialmente, e, no entanto, não queriam conciliar-
se. A Modernidade tinha-se delineado desde o começo no dualismo das subs-
tâncias e no paralelismo dos métodos do mos geometrícus,ou poderá também
dizer-se: no ideal metódico do fisicalismo; por mais vago, por mais empalidecido
que resultassena transposição, e por pouco que tivessechegado mesmo tão só
a um começo honesto de uma execução explícita, produzir um conhecimento
metódico do psíquico era, todavia, determinante para a concepção de fundo do
homem como realidade psicofísica, e para todas as maneiras de pâr a psicologia
em marcha. O mundo era, por isso, visto de antemão "naturalisticamente': como
mundo de duplo estrato de fatos reais, regulado por legalidadescausais;por con-
seguinte, também as mentes eram vistas como anexos reais aos corpos somáticos
físicospensadosde modo científico-naturalmente exato,é certo que com uma
outra <219> estrutura da dos corpos físicos, não res exfe/zsae,e, no entanto, reais
num mesmo sentido que estes e, nesta ligação, deviam ser pesquisadas também,
precisamente no mesmo sentido, "leis causais": ou seja, em teorias por princípio
da mesma espéciedas da física, modelar e simultaneamente fundadora.

$ 62. Discussão prévia do contrassenso da equiparação principiar das mentes e dos


:orpos como realidades:referência à diferença de princípio da temporalidade, da
:ausalidade e da individuação nas coisas da natureza e na mentem;

Esta equiparação principial entre corpo e mente no método naturalístico


pressupõe obviamente a equiparaçãoprincipial mais originária dos mesmos na
sua dação empírica pré-científica no mundo da vida. O corpo e a mente desig-

64 Cf.Anexo XXll 65 NI.: Reell und real.


66 N.T.:/nexistenz.

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Terceira Parte e A Clarificaçãodo Problema Transcendentale a Função Correspondente da Psicologia
A Crise dasCiências Europeiase a Fenomenologia Transcendental e EdmundHusserl

que é, determinado como este, um substrato de propriedades "causais" na sua


espiritual, eles são "in-corporados" pelo modo como "têm" corporeidade.mesmo
Estão essência própria espaço-temporalmente localizado." <222> Assim, se se retirar
aqui e ali de maneira imprópria e são coextensos aos seuscorpos Do a causalidade,o corpo perde o seu sentido de ser como corpo, a sua identiâca-
modo indireto têm também o seu ter sido e o seu ser futuro no espaço'tempo dos
bilidade e diferencialidade como individualidade física. O eu, porém, é "este'
corpos Cada um só experiencia a incorporação das mentes originariamente em e tem individualidade em si e a partir de si mesmo, não tem individualidade a
si. SÓno meu corpo somático, a saber,no meu vigorará' imediato constante - e partir da causalidade. E certo que, por meio da somaticidade corpórea, ele pode,
unicamente neste corpo -, experimento o que constitui essenciale propname:te
na sua posição no espaço corpóreo, e deve, como posição imprópria, em relação
a somaticidade. SÓele me é dado originariamente no seu sentido de "órgão': e
ao seu corpo somático físico, ser diferenciável para qualquer outro, e, assim,
como articulado em órgãos parciais; cada um dos seus membros somáticos tem a
para toda a gente. Contudo, a diíerenciabilidade e identiâcabilidade para toda a
propriedade de que nele posso, em particular, imediatamente vigorar: ver com os gente na espaço-temporalidade, com todas ascondicionalidades psicofísicas que
olhos. tocar com os dedos etc., ou seja, posso vigorar para um perc'ber qualquer,
entram, então,em jogo, não Ihe dão a mínima contribuição para o seu ser como
tal como ele precisamente se encontra destasmaneiras. É manifesto que somente
erzsperse.Como tal, ele tem de antemão em si a sua unicidade singular. O tempo
assim tenho percepções e, na sua sequência, as restantes experiências de objetos
e o espaço não são para ele princípios de individuação, ele não conhece nenhu-
do mundo Todo o restante vigorar e, em geral, toda a referência do eu ao mundo
ma causalidade natural que, segundo o seu sentido, seja inseparável da espaço-
é assim mediada. Por meio do "vigorar" corpóreo, sob a forma de chocar,levan-
temporalidade; a sua atuação é o vigorar egoico, e isto acontece imediatamente
tar, <221> resistir e semelhantes, atuo, como eu, a distância, primariamente so-
por intermédio dassuassinestesias,como vigorar no seu corpo somático,e só
bre o elemento corpóreo dos objetos do mundo. SÓexperiencio o meu ser eu em
t. mediatamente (posto que estetambém é um corpo) sobre outros corpos.
wgor como eíetivamente ele mesmo, essencialmente próprio, e cada um somente
o seu. Todo estevigorar decorre em modos do "movimento'; mas o "eu movo
do vigorar (movimento tocando, batendo as mãos) não é nele mesmo um movi- S 63. Questionabilidadedos conceitosde "experiênciaexterior" e "interior". Por
mento espacial,corpóreo que, como tal, qualquer outro pudesseperceber.O meu que não pertence até aqui ao tema da psicologia a experiência da coisa corpóreo
+.

corpo, em particular porventura a parte do corpo "mão': move-seno espaço;o do mundo da vida, como experiêttcia de algo "meramettte subjetivo" ?
agir em vigor da "sinestesia" que está incorporado em unidade com o movimento
corpóreo também não reside no espaçocomo um movimento espacial,mas está O absurdo principial de querer considerar seriamente homens e animais
aí só índiretamente colocalizado. Unicamente a partir do meu vigorar original-
como realidades duplas, como vínculo entre duas realidades de espéciesdiver-
mente experienciado, como a única experiência original da somaticidade como
tal, possocompreenderum outro corpo como corpo.somático,onde um outro
eu vigorando se incorpora, ou seja,possocompreendê-lo.demodo medindo e, 70 Emtermos do mundo da vida, nada mais se diz assim a não ser que um corpo como tal,
l no entanto, numa mediaçãode uma espécietotalmente diversada localização com o seu sentido empírico explicitável nas suas propriedades essenciais próprias, acarreta
de antemão ser no seu ser assim sob "circunstâncias" particulares. Em primeiro lugar: per-
imprópria, onde aquela se funda. SÓassim pertencem para mim outros eus-su- tence à estrutura mais geral do mundo da vida que o corpo tem, por assim dizer, os seus
jeitos fixamente aos "seus" corpos, e estão localizados aí e ali no espaço'tempo e, hábitos de ser no seu ser assim, que ele é de um tipo conhecido ou, se é para nós "novo".
por conseguinte,impropriamente existentes'8nesta forma dos corpos, ao passo de um tipo cognoscível,no qual as propriedades explicitáveis têm uma pertença típica.
que eles mesmos e, assim, as mentes em geral, consideradas de modo pura e pro' Mas pertence também à forma típica do mundo da vida o fato de que os corpos têm a sua
priamente essencial,não têm nela de todo nenhuma existência." relaçãomútua, em coexistência(antes de mais nada num campo de percepção particular)
e em sucessão -- ou seja, têm uma tipologia espaço-temporal permanente universal. Reside
Como outra consequência,também a causalidade- senos mantivermos
nestaüpología que qualquer corpo a cada vez experienciado não só existe em geral neces-
no mundo da vida, que funda o sentido originário do ser - tem um sentido sariamente em conjunto com outros corpos, mas também que existe como tipicamente
por principio inteiramentediferente sesefala de causalidadena naturezaou de pertencente a esta tipologia, entre [outros] tipicamente copertencentes, numa forma típi-
causalidade" entre mental e mental, e entre corpóreo e mental. Um corpo é o ca da pertença conjunta que decorre numa tipologia de sucessão. Por isso, cada um "é" as-
sim como é, sob "circunstâncias"; a alteração de propriedades <222n.> de um remete para
alteraçõesde propriedades noutro. Isto, porém, tomado grosso modo e relativamente, tal
67 N.T.:Wa/ten. como cabe essenciale propriamente ao mundo da vida; não sefala de modo algum de uma
68 N.T.:/nexistenf. causalidade "exata", que remete às substruções idealizadoras da ciência.
69 N.T.: Ex/stenz.

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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental e Edmund Husserl
Terceira Parte ©A Clarificação do Problema Transcendental e a Função Correspondente da Psicologia

sas, equiparáveis quanto ao seu sentido de realidade, e querer, assim, pesquisar


que tudo no mundo da vida é, manifestamente, algo de "subjetivo"? Pode <224>
também asmentespelo método científico-corpóreo, ou seja,de modo natural- a psicologia, como ciência universal, ter um outro tema além da totalidade do
causal,existindo espaço-temporalmente como corpos - resultou na pretensaob- subjetivo? Não ensina um estudo profundo - que não esteja naturalisticamente
viedade de um método a conâgurar de modo análogo ao da ciência da natureza.
ofuscado - que todo o subjetivo pertence a uma totalidade indecomponível?
Ambos, aquele absurdo principial e esta pretensa obviedade, condicionaram,
como consequênciaconceitual, o falso paralelismo da experiência"interior" e
"exterior': Estes dois conceitos permaneceram obscuros no seu sentido e função $ 64. O dualismo cartesiano comojurldamettto do paralelismo Do esquema: ciên
(na sua função científica para a física, a psicologia ou a psicofísica).
cia descritiva e ciência explicativa, só estájust$cado o aspectomaislormal-geral
As experiências são pensadas em ambos os lados como levadas a cabo
numa função <223> teórica: a ciência da natureza deve assentar sobre a expe- No sentido da ciência da natureza galilaica, a natureza físico-matemática
riência exterior, a psicologia sobre a experiência interior; na primeira é dada a é a natureza objetivamente verdadeira; essanatureza deve ser a que se anuncia
naturezafísica, nesta,o ser psíquico, mental. A experiência psicológica torna-se, nas aparições meramente subjetivas. É nestes termos claro, e já o apontamos
assim, uma expressãoequivalente para a experiência interior. Ou, mais exata- anteriormente, que a ciência exata da natureza não é a natureza efetivamente
mente: o mundo que é simplesmente antes de toda a psicologia e teoria, coisas, experienciada,a natureza do mundo da vida. É uma natureza surgida a partir
pedras, animais ou homens existentes,é efetivamente experienciado. Isto é ex- da idealização, da ideia hipoteticamente substituída à natureza e6etivamente in
perienciado na vida naturalmente imersa como o "aí" simplesmente perceptual tuída.': O método do pensar da idealização é o fundamento para todo o método
(como presenteque simplesmenteé, certo do ser) ou, do mesmo modo, sim- científico-natural (puramente científico-corpóreo) de invenção de teorias e fór-
plesmente como "ter sido" segundo a recordação etc. Pertence já a esta vida mulas "exatas':assim como para a sua aplicação retrospectiva dentro da praxis
natural uma reflexão possível e, ocasionalmente,necessária.A relatividade salta, que se move no mundo da experiência efetiva.
então, aos olhos, e o que é em cada caso válido como simplesmente existente Reside,assim,aqui a resposta- suficiente para o curso do pensar neste
\ transforma-se,na particularidade dos seus modos de dação na própria vida, momento - à questão levantada: por que não é a natureza do mundo da vida,
numa "aparição meramente subjetiva"; e, com efeito, chama-se aparição em re- estemero elemento subjetivo da "experiência exterior'; contada na psicologia
lação ao uno que, ao se olhar para o curso mutável de tais "aparições': como o tradicional como experiência psicológica, mas esta é contraposta à experiência
'próprio ente': se vai corrigindo embora também em novas relatividades. E, exterior? O dualismo cartesiano requer o paralelismo entre menu e corpzzse a
do mesmo modo, no que toca às outras modalidades da experiência e das suas execução da naturalização nele implícita do ser psíquico; e, assim, ele também
modalidades temporais correlativas. exigeo paralelismo das metodologias requeridas. É certo que residia na maneira
Setrouxermos a uma renovada e viva clarezaisto que já foi cuidadosamen- como foi retomada a geometria completa dos antigos que a idealização inteira-
te pensado num outro contexto, levanta-se, então, a questão: por que não figura mente determinante do seu sentido foi quase esquecida, e que, do lado psíquico,
todo o mundo da vida corrente, desdeo início de uma psicologia,como "psí- essaidealização não era requerida, nem era sentida a sua necessidade como rea-
quico" e, com efeito, como o psíquico primeiramente acessível,como o primeiro lização adequada ao psíquico levada efetivamente a cabo de maneira originária.
campo da explicitação em tipos de fenómenos psíquicos imediatamente dados? Aliás, teria de se ter mostrado que ela nada tinha a procurar deste lado, uma vez
E, correlativamente: por que não se chama experiência psicológica à experiência que <225> não sepodia falar aqui de coisascomo perspectivae sinestesias,de
que traz à daçãoestemundo da vida efetivamentecomo experiência,e em uma medição ou de um análogo da medição.
especial no modo originário da percepção - que apresenta as coisas meramente O preconceitode que o método [deve ser] o mesmo produziu a expec
corpóreas mas, num pretenso contraste com a experiência psicológica, é chama- tativa de que - efetivando-o numa modiâcação correspondente se chegaria
da antes de "experiência exterior"? É claro que resultam diferenças na maneira da a uma teorização e a uma técnica metodológica sólidas, sem considerações
experiênciado mundo da vida, conforme experienciamospedras,rios ou mon- metodológico-subjetivas mais aprofundadas. Era, todavia, uma esperançavã.
tanhas, ou se, refletindo, se experimenta o nosso experienciar disso e a restante A psicologia não se tornou jamais exata, o paralelismo não era efetivamente
atividadeegoica,própria ou de outrem, como o vigorar no corpo somático,por realizável e - como compreendemos - por razões essenciais. Pois ao menos isto
exemplo. Isto pode fazer uma diferença significativa para a psicologia, e condu-
zir a problemas difíceis; mas será que isto altera o que quer que seja no fato de 71 Cf.$ 36

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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental ' Edmund Husserl
TerceiraParte e A Clarificaçãodo Problema Transcendental e a FunçãoCorrespondente da Psicologia

já podemos dizer aqui, embora muito houvesse a fazer ainda até a tão necessária
cias) é um contrassenso.Assim, não é mais possível uma psicologia descritiva
clarezaúltima em todos os aspectos,assim como em nome da compreensão da
que seja análoga a uma ciência descritiva da natureza. De modo algum, e tam-
razão pela qual cada uma das figuras em que a psicologia moderna dualista e
pouco segundo o esquema:descrição e explicação, pode a ciência das mentes
psicoâsiológica (ou psicofisicalista), durante largos períodos, pede conservar a
orientar-se segundo a ciência da natureza, dela receber conselho metodológico.
aparênciade uma execuçãometódica bem dirigida, conservandoa convicção Ela só pode se orientar pelo seu próprio tema, assim que o tenha trazido à sua
de êxito continuado como ciência do psíquico efetivamente adequadaàs fontes clarezaprópria e essencial.Permanece [válida a noção,] maximamente formal-
- ou também: para compreender por que a empíría psicofísica, inteiramente le-
geral,de que precisamentenão seopera com conceitos nominais vazios, que não
gítima e completamente indispensável, não pede valer como a via e a realização
nos movimentamos no vago, mas que criamos a partir da claridade, a partir de
de uma psicologia genuína,que façajustiça à essênciaprópria do psíquico.Em
uma intuição efetivamenteautodoadora ou, o que é o mesmo, a partir da evidên-
qualquer caso, podemos desde já dizer, a partir de razões inteligíveis:': o mental,
cia,ou seja,aqui, a partir da experiênciaoriginária do mundo da vida e do que é
considerado pura, própria e essencialmente,não tem uma natureza, e tampouco propriamente essencial ao psíquico, e unicamente a partir daí. Resulta daí, como
algum em si pensável em sentido natural ou um em si espaço-temporalmente
em toda a parte, um sentido aplicável, e indispensável, de descrição e de ciência
causal, idealizável e matematizável, não tem nenhuma lei à maneira das leis da
descritiva, assim como, num grau superior, de "explicação" e de ciência explica-
natureza; dele, em contraste com a ciência da natureza, não há quaisquer teorias
tiva. A explicação, como realização de grau superior, não signiâca, então, mais
com uma semelhanteretrorreferencialidadeao mundo da vida intuível, quais-
do que um método que ultrapassao domínio descritivo <227> realizávelpela
quer observaçõese experimentosde função para uma teorização,semelhante intuição eíetivamente experienciadora. Isto acontece com base no conhecimen-
à ciência da natureza não obstante, todas as autocompreensõeserróneas da
to "descritivo" e como método científico, segundo um procedimento inteligível,
psicologia empírico-experimental. Mas, dado que faltava a intelecção principial,
k que se verifica, em última instância, nos dados descritivos. Neste sentido formal-
manteve-se em vigor a herança histórica do dualismo, com a naturalização do
geral, existe, para rodas as ciências, o grau fundamental necessário da descrição,
mental, embora numa obscuridade tão vaga, que nem sequer pede surgir a ne- e o grau mais elevado da explicação. Isto só pode, porém, ser tomado como um
cessidade de uma elaboração originariamente genuína do dualismo das ciências
paralelismoformal, e tem de encontrar o seu preenchimento de sentido em cada
exatas,em ambos os lados, conforme exigido pelo seu sentido.
ciência, a partir de fontes essencialmente próprias, e o conceito da veriâcação
Assim, permaneceu sempre pronto também o esquemaóbvio cíêrzcíades-
última não pode ser de antemão falsificado, por assim dizer, como na física, por
crifíva e teórico-explícafíva<226> - a propósito da psicologia, reencontramo-lo
se assumir como proposições ultimamente verificadoras quaisquer proposições
fortemente acentuado em Brenfano e DÍZfhey como em geral no século XIX, das esferas especiâcamente físicas (ou seja, matematicamente idealizadas).
no tempo dos esforçosapaixonadospara finalmente produzir uma psicologia
rigorosamente cientíâca, apresentável ao lado da ciência da natureza. Não que
remos com isto dizer, porém, que o conceito de uma descrição pura e de uma
$ 65.Exame da justeza de um dualismo empiricamentejundado pelajamiliariza
ciência descritiva e, em consequência, até mesmo a diferença entre método des-
;ão com o procedimento .lático dos psicólogos e .Êsiólogas7:
critivo e explicativo não pudesseencontrar na psicologia absolutamente nenhu-
ma aplicação; tampouco quanto negamos que se deva diferenciar entre a pura
Se a descrição é assim compreendida, então ela tem de poder caracteri-
experiência de corpos e a experiência do mental, do espiritual. Importa-nos tor-
zar o começo da única psicologia originariamente correta, da única psicologia
nar criticamente transparente o preconceito naturalístico ou, mais exatamente,
possível.Todavia, depressase mostra que, como em toda parte, mas especial-
físicalista, de toda a psicologia moderna até as suas raízes últimas, por um lado,
mente aqui, a claridade, a evidência genuína, tem um preço elevado.Antes de
no que se refere ao conceito de experiência, jamais esclarecido, que orienta as
mais nada, conforme já foi apontado, as razões de princípio contra o dualis-
descrições,e, por outro, <no que se reíere> à maneira das interpretações parale
mo, contra a duplicidade de estratos que falsifica desde logo o sentido puro
las e coespecííicasdo contraste entre disciplinas descritivas e explicativas.
da experiência do mundo da vida, contra a pretensa coespeciíicidade, no mais
Já se nos tornou claro que uma psicologia "exata"em analogia à física (ou intimo sentido da sua realidade,da realidade(no mundo da vida) do ser físico
seja, o paralelismo dualístico entre as realidades respectivas, métodos ou ciên- e psíquico, as razões contra uma coespeciâcidade da temporalidade e da in-

72 N:T.:Einsichügen. 73 Cf.Anexo XXl l l

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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental e Edmund Husserl
Terceira Parte ©A Clarificação do Problema Transcendental e a Função Correspondente da Psicologia

dividualidade - estasrazões de princípio são orientadas de modo demasiado


Elas têm de ser ultrapassadas na medida em que a âlosoíia existe precisamente
filosóâco, demasiado principialmente para que pudessem em geral exercer uma
para arrancar todos os antolhos da praxis e, em particular, da prática científica,
influência durável sobre os psicólogos e cientistas do nosso tempo e, até mes- para despertar novamente o propósito verdadeiro e próprio da ciência, e mesmo
mo, sobre os "âlósoíos'l Estamos cansados das argumentações de princípio que para salvar aquilo que a ciência (e, aqui, a psicologia) deveria eÉetivarcomo o
não conduzem, no entanto, a nenhum consenso; escuta-se,então, desde cedo, seu sentido inato. Não nos podemos, por isso, furtar a questionar o solo mais
somente com meios ouvidos e conta-se antes na força das realizações indubi-
geral sobre o qual se originam, para a psicologia, como para qualquer ciência
táveis alcançadasnas grandes ciências empíricas, nos seusmétodos efetivos, no
objetiva, as suas tarefas possíveis, ou seja, precisamente o solo da experiência
seu trabalho efetivo na experiência, é claro, na experiência em cada caso carac-
geral, sobre o qual trabalham as ciências da experiência e ao qual fazem apelo,
terística de seu domínio, <228> os físicos, na experiência física, os biólogos, na se, - recusando toda a "metafísica" - reivindicam tão só seguir as inatacáveis
biológica, os cientistas ligados às ciências humanas, na experiência cientíâca do exigências da experiência.
campo das ciências humanas. É certo que elas se chamam com justiça ciências
empíricas. Se não nos ativermos às reflexões em que se exprimem sobre o seu
método e trabalho - ou seja,em que filosofam (como porventura nos habituais
$ 66. O mundo da experiênciagera!; a sua tipologia regional e as abstraçõesuni-
discursos acadêmicos de ocasião), mas ao método e trabalho efetivos, é então
versaisneh possíveis:a "natureza" como corretato de uma abstraçãouniversal, o
certo que nestes recorrem sempre finalmente à experiência. Se nos situarmos, problemada "abstraçãocomplementar
t. contudo, nesta experiência, ser-nos-á objetado - ela própria mostra de imedia
to, no que concerne ao corpóreo e ao espiritual - que a perversa interpretação Começamoscom uma reflexão geral onde repetimos somenteo que já
' . '
dualística é coassumida no pretendido sentido da experiência, e justifica os pes dissemos antes, mas com um maior aprofundamento, para podermos aqui, a
quisadoresa satisfazero dualismo fundado propriamente de modo puramente partir de uma clarezaoriginariamente viva, dizer algo de decisivo acercadas
empírico, e a operar com a experiência interna e externa, com a temporalidade, questõessuscitadas.Sabemosjá que toda a produção teórica da ciência objetiva
a realidade e a causalidade tal como o fazem: por mais insistentemente que o
m lugar sobre o solo do mundo pré-dado - o mundo da vida -, que ela pres-
filósofo possa falar de um contrassenso principial, não consegue impor-se con-
supõeconhecimento pré-científico, e a sua reconfiguração adequada.A simples
tra o poder da tradição. Ora, estamoscertamente muito longe de prescindir das experiência em que o mundo da vida é dado é o fundamento último de todo o
nossaspróprias objeções,justamente porque elasse diferenciam nitidamente de
conhecimento objetivo. Dito correlativamente: este mesmo mundo, pré-cien-
todo o argumentar com conceitos historicamente recebidos e não questionados tiâcamente existente para nós como o mundo (originário) puramente a partir
novamente segundo o seu sentido mais original, e porque foram precisamente experiência, fornece-nos de antemão, na sua tipologia essencial invariável,
levantadas a partir das fontes mais originárias, tal como não poderá deixar de todos os temas científicos possíveis.
convencer qualquer exame da nossa exposição. Entretanto, o procedimento das
aqui à consideraçãoem primeiro lugar o mais geral deles:que o
ciências empíricas no seu trabalho, o sentido e os limites das suas razões não rso é pré-dado como um universo de "coisas'lNeste sentido mais vasto.
sãoassim explicitamente clarificados e, em particular, no que toca à psicologia, coisa e uma expressãopara o ente em última instância, "aqueleque tem" pro-
o nosso tema atual, não é clarificado o seu procedimento sempre psicoâsioló
priedades, relações,. ligações últimas (onde o seu ser se explicita), ao passo que
gico o seu direito e, novamente, as suastentações, e isto em todas as formas
ele mesmo não mais é "tido" desta maneira, mas é exatamente aquele que em
metódicas primitivas dos tempos antigos, assim como também nas mais alta- última instância "tem" - em poucas palavras (mas de modo totalmente não me-
mente desenvolvidas, desde a segunda metade do século XIX. Não é claramente tafísico) - o substrato <230> último. As coisas têm a sua tipiâcação concreta
salientada a necessidadeda separação entre a experiência dos corpos e a ex- respectiva,que se manifesta nas "palavras principais" de uma língua particular.
periência do espírito e, novamente,o direito, feito valer de antemão a partir
Toda a tipiâcação particular, porem, é abarcada na mais geral de todas, a tipi-
daí, de admitir no psíquico igualmente a experiência dos corpos, tal como ela ficação "regional': Na sua generalidade fática permanente ela é a determinante
tem um signiâcado constante, mesmo para o psicólogo, ou seja,de tornar a sua da praxis na vida, e é só como essencialmente necessáriaque ela sobressaipor
universalidade oniabrangente. Isto envolve certamente dificuldades paradoxais. meio de um método de pesquisateorética das essências.Falo aqui de diferen-
Dificuldades que um bom trabalho, bem-sucedido nas suasrealizações,pode ças como: coisas viventes e sem vida; no círculo dos viventes, o animal, isto é,
pâr de lado, <229> mas que uma filosofia universal não pode desconsiderar. não só dotado de um impulso, masvivendo permanentemente também em atos

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egoicos,em contrastecom o que vive meramentesegundoo impulso (como as manifestamente da mesma maneira, para o reino animal? Com isto, então, as-
plantas). Entre as coisas animadas distinguem-se os homens, e tanto mais que sim parece, o procedimento das ciências da espiritualidade social e da espiri-
somente em relação a estesos simples animais têm o seu sentido de ser, como tualidade coisiâcada's (das ciências humanas enquanto ciências do espírito)
modificações suas. Entre as coisas sem vida salientamos as coisas humanizadas, também estaria de antemão ordenado. Se,como ensina a abstraçãocorrelativa,
que têm signiâcado a partir do homem (por exemplo, sentido cultural) e, além o homem (e assim também todo o real animador' é um real de duplo estrato,
disso, de maneira modificada, as coisas que apontam, da mesma maneira, para dado como tal na experiênciapuramente do mundo da vida, na experiência
o sentido da existência animal, em contraste com as que, neste sentido, são sem pura, então é obviamente exigido para a ciência regional do homem, em pri-
significado. Ê claro que tais distinções e agrupamentos mais gerais são,a partir meiro lugar, aquilo que se denomina psicologia individual, em contraste com
do mundo da vida, como o mundo da experiênciaoriginária, determinantes a psicologia social. Os homens concretos na espaço-temporalidade do mundo
para as distinções dos domínios científicos, assim como, em virtude da conexão têm assuasmentes,distintas de modo abstrato,distribuídas pelos corpos que,
e engrenagem internas dasregiões, sãodeterminantes para as conexõesinternas na observaçãopuramente natural dos corpos, formam um universo observável
das ciências. Por outro lado, abstraçõesuniversais abrangentesde todas as con- em si como um todo. As próprias mentes, em virtude da incorporação, são uma
creções codeterminam, simultaneamente, temas para ciências possíveis. Este exterioridade mútua, ou seja, não formam no seu próprio estrato abstrato um
caminho só a Modernidade seguiu, e é precisamente o que está para nós aqui universo paralelo como um todo. A psicologia só pode, por conseguinte, ser
em questão.A ciência da naturezada Modernidade, estabelecendo-se
como fí- ciência da generalidade das mentes si zguZares e isto acontece pela maneira
sica, tem a sua raiz na consequente abstração, pela qual ela só quer ver corporei- como estassão determinadas na sua essênciaprópria pela conexão psicofísica,
dades no mundo da vida. Cada "coisa" "fem" corporeidade, apesar de, como um por meio da sua coordenação na natureza geral. <232> Esta psicologia indivi
homem ou uma obra de arte, não ser meramente corpórea, mas somente,como dual tem, então, de ser o alicerce para uma sociologia e, do mesmo modo, para

todo o real, "incorporado': Numa tal abstração, levada a cabo com consequência uma ciência da espiritualidade coisificada (a cultura como coisa) que aponta no
universal, o mundo reduz-se à natureza abstrata-universal, a qual é o tema da seusentidopróprio para o homem como pessoa,ou seja,para a vida dasmen-
ciência pura da natureza. SÓaqui a idealização geométrica criou o seu sentido tes. Tudo isto é analogicamente transponível - exatamente até onde a analogia
possível pela primeira vez e, depois, toda a restante teorização matematizante. alcança para os animais, as sociedadesanimais ou o mundo circundante em
Ela repousa sobre a evidência da "experiência externa': que é também, na verda- signiâcado especiâcamente animal.
de, uma experiência abstrativa. Dentro da abstração<231> a idealização mate- Com esta reflexão, que remonta até o solo da empina do mundo da vida,
mática tem, contudo, a sua forma essencialde explicitação, as suasrelatividades, ou seja,à fonte de evidência a questionar em última instância, não fica justiâ-
as suas maneiras de motivar a idealização etc. cado o dualismo tradicional entre a corporeidade e a espiritualidade mental e,
E quanto às mentes humanas? Os homens é que são experienciados em respectivamente,o vínculo dualístico entre a âsiologia como ciência da cor-
concreto. SÓapós a abstração da sua corporeidade - dentro da abstração uni- poreidadehumana (e também animal) e, por outro lado, a psicologia como a
versal que reduz o mundo a um mundo de corpos abstratos - surge a questão ciência do "lado mental" do homem? E, mais do que isso, em relaçãoà tradição
que agora se oferece de modo tão óbvio, sobre a "contraparte'j" ou seja, sobre a racionalista de Descarnes,que influenciou também o empirismo, não é o dua
abstraçãocomplementar. Depois que a "parte" corpórea passoua copertencer à lismo assim até mesmo melhorado, a saber,liberto de toda a substrução meta-
tarefa geral da ciência da natureza e encontrou aí o seu tratamento teórico ide- física, porquanto nada mais pretende ser do que a expressãofiel daquilo que a
alizador, a tarefa da psicologia passou a caracterizar-se como "complementar própria experiência ensina?Dada a maneira como a "experiência" é entendida
submeter precisamente o lado mental a um tratamento teórico correspondente, pelos psicólogos, pelos íisiólogos e pelos físicos, tal não é certamente o caso e,
numa correspondente universalidade. Será que, como quase poderia parecer, em relação ao sentido orientador do seu trabalho, corrigimos antes uma autoin
sem quaisquer objeções, ou seja, efetivamente sobre o mero solo da experiência terpetação muito usual. O cientista da natureza mantém um resíduo metafísico
do mundo da vida e sem qualquer ingerência metafísica, a ciência dualista do ao tomar a natureza como concreta, e não ver a abstração em que a sua natureza
homem se acharia fundamentada e à psicologia estaria atribuído o seu sentido é conâgurada como tema científico. Cabe, assim, também às mentes algo de
originário? Assim, em primeiro lugar, para o domínio dos homens, e, depois,
75 N.T.:Versach//chfen.
74 N.T.:Gegense/te. 76 NI.: Animalisch Rede

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uma substancialidadeprópria, embora não autónoma, uma vez que, como a de estar" passivos. Este fluxo de "vivências psíquicas" é o que é experienciado
. ..:...].
atitude .h.t.advn
abstrativa dn
do mental. A esfera
na mental. A esfera da
da presença
presença das
dasvivências
vivências psíquicas
psíquicas de
de
experiência ensina, o mental só pode ocorrer no mundo em ligação com corpos
Tivemos, porém, de dar este passo antes de poder levantar outras questões, que um homem só por ele mesmo, como a sua "percepçãointerna': é direta e pro-
priamente percepcionada (e, como se chega mesmo a julgar, <234> numa par'

ÇI l;l:HU:: ::
agora se tornam importantes. Tivemos, em primeiro lugar, de auxiliar a empina r'..- ''..J]Â,.,-;. .nndíti.-n): nç
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dos ntitrns.
outros sósó ao
ao modo
modo da
da exoeriência
experiência mediata
mediata

sua operação anónima, a saber, a "abstração" descrita. Somos, assim, mais réis
% da "intropatia':" Assim é, pelo menos quando não se reinterpreta este modo da
à empiría do que os psicólogos e os cientistas da natureza; cai por terra o último experiência como uma inferência, conforme foi uso corrente.
resto da teoria cartesiana das duas substâncias, na medida em que abstrações Entretanto, tudo isto não é de modo nenhum tão simples e óbvio como des-
de há séculos íoi admitido sem maiores considerações. Uma psicologia a partir da
justamente não são "substâncias'1 <233>
abstração paralela, com base numa "percepção interna': paralela à percepção ex-
terior e na restante experiência psicológica, deve, porém, ser seriamente posta em
1 11 $ 67. O dua/esmodas absfrações /untadas na experiência O co?zfínuadoefeito questãoe, assim concebida, é mesmo uma impossibilidade de princípio Isto diz
histórico da abordagem empírica (desdeHobbesaté Wundt). Crítica do empiris- ===:=;: =:==='=;===';==1;='=:;;=: ;L;:L=
mo dos dados como às ciências do homem, que se reportam puramente à intuição empírica.
Historicamente, cabe considerar aqui a psicologia empírica e o sensualis-

11.,..1 Mas há então que perguntar aqui o que é que tem e permanece efeti- mo que se tornou dominante desde os tempos de Hobbes e de Locke, sensua-
ll$ii l vamente com sentido nesta Zestratiâcação" no homem e nas ciências e que, lismo que arruinou a psicologia até os nossos dias. Alegadamente com base na

l:tl l '2".::!;'!'FE'',!":T':.:T::='=.1='1:=1=,il:U='='1==:=.=: experiência,nestaprimeira figura do naturalismo,a mente,como uma esfera


real de dadospsíquicos, resolve-sepor si na unidade encerradade um espaço

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não âzemos uso da nossa primeira crítica deste dualismo, da nossa referência

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de consciência. A equiparação ingênua destes dados da experiência psicológica
com os dados da experiência corpórea conduz a uma reificação dos mesmos;

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antes indicadas.
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o permanente olhar para a ciência da natureza modelar conduz à apreensão
dos dados da experiência como átomos mentais, ou complexos de átomos, e à
paralelizaçãodas tarefas em ambos os lados. As faculdades mentais ou, como
sepreferirá dizer mais tarde, as disposições psíquicas, tornam-se arzálogasdas
Forçasfísicas, títulos para propriedades meramente causaisda mente, sejam as
que lhes pertencem como propriamente essenciais, sejam as surgidas da ligação
Retomemos a referida abstração que irá muito em breve revelar as suas
111 dificuldades. Tomemo-la, de modo inteiramente simples e natural, como um causalcom o corpo somático em qualquer caso,dos dois lados numa apreen'
são semelhante de realidade e causalidade. É certo que já em BerkeZeye Htime
diferente direcionamento do olhar e do interesse,com base na experiência con-
anunciam-se as desconcertantes dificuldades de uma tal interpretação da men-
creta do homem.E óbvio que podemosconsiderarno homem meramentea
:] 1. . i... ...=- .B- ;n+arocc'D lln:latPrnl í)ll ílí) naesmo mo(ios te, que obrigam a um idealismo imanente que absorve um dos membros do "pa-
sua corporeidade, e ter, assim, um interesse unilateral ou, do mesmo modo,
:=1.=ili:T=:1==:1::,
1::=:.=i;=i=':'::.'=;:'=.:i:=.
.i;,=='i'-'«« ralelismo'l Até o século XIX. contudo, isto não altera em nada o modo eíetivo de
trabalhar da psicologia e da fisiologia que seguem pretensamente a experiência.
entre experiência (e, em primeiro lugar, percepção) "exterior" e "interior" pa-
rece também clara sem outras considerações, dotada de um direito inviolável, <235> O naturalismo "idealista" da âlosoâa imanente daqueles seguidores de

assim como também a cisão do próprio homem em dois lados ou estratos reais. l,ocdedeixou-se facilmente transpor para a psicologia dualista. As diÊculdades
gnosiológicasque tanto se faziam sentir no ficcionalismo de Hz4mesuperavam-
À questão sobre o que pertence ao lado psíquico e, neste, o que é, então, o puro
se - precisamente através da "gnosiologia': Estas eram reflexões atraentes, mas,
dado da percepçãointerna, responder-se-áda maneira usual:trata-se de umc
no que concerne ao verdadeiro radicalismo, infelizmente evasivas, com o fito de
pessoa, de um substrato de propriedades pessoais, de disposições psíquicas (la
culdades,hábitos) inatas ou adquiridas. Isto, porém, remete para uma "vida dí
77 NI.: Zustãndíichkeiten.

l consciência" fluente, para um decurso temporal no qual emerge em particular,


=.i=iTi=.r=,:=i.=';= ;i ;; :=.:i:'==i« 78 N:T.: Einfilhlung.
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das suas folhas, cheiro as suas flores" etc.; ou "recordo-me dos meus tempos
justificar retrospectivamente aquilo que de qualquer modo já se íaz no esforço
de escola':"estou desolado com a doença de um amigo" etc. Nada mais encon-
natural de seguir a evidência da experiência. Assim, a aquisição sempre crescen-
tramos aí senão "consciência de..;' consciência no sentido mais lato, ainda a
te de fatos empíricos manifestamente valiosos assumea aparência de um sen-
tido filosoficamente compreensível.Temos uma amostra de tais interpretações pesquisar em toda a sua amplitude e nos seus modos.
gnosiológico-metafísicas nas reflexões de Wu/zdf e da sua escola, com a doutri- Esteé o lugar para reconhecero extraordinário mérito de 13renfanopor
ter dado início, no seu ensaio de reforma da psicologia, a uma investigação dos
na dos "dois pontos de vista" e a valorização teórica da experiência geral única
numa dupla "abstração':Esta doutrina aparenta estar a caminho de superar toda caracteresespecíâcosdo psíquico (em contraste com o físico), e indicado a in-
tencionalidade como um dessescaracteres;assim, a ciência dos "fenómenos psí-
a metafísica tradicional e de conduzir a uma autocompreensão da psicologia
e da ciência da natureza mas, na verdade, é somente o naturalismo empírico quicos" tem por toda parte algo em comum com vivências da consciência. La-
dualista reinterpretado como um naturalismo monista com duas facesparalelas mentavelmente, ele permaneceu no essencial preso aos preconceitos da tradição
naturalística, que ainda não estão superados quando os dados mentais, em lugar
ou seja, uma transformação do paralelismo espinosista.De resto, a psicologia
vinculada ao dualismo empírico, nesta maneira de justificação própria a Wundt de seremapreendidoscomo sensitivos(seja do "sentido" externo ou interno),
tanto quanto nas maneiras de justicação de outros, permanece em meio à in- sãoaprendidoscomo dados de uma espéciesingular de intencionalidade ou,
terpretação naturalista dos dados da consciência segundo a herança de Locke, por outras palavras, quando o dualismo, a causalidadepsicofísica continua váli-
da.Inclui-se aqui também a sua ideia de um psicologia descritiva como paralelo
o que não impediu, porém, de falar de representação,vontade,valor e posição
da ciência descritiva da natureza, <237> conforme mostra o procedimento pa
de fins como dados da consciência, sem levantar radicalmente a pergunta sobre
ralelo - com a definição da tarefa de classiâcaçãoe análise descritiva dos fenó-
como, a partir de tais dados, e da sua causalidade psíquica, deve ser compreendi-
rll J;l menos psíquicos inteiramente no sentido da velha interpretação tradicional da
da aquela atividade da razão que é o pressuposto de todas as teorias psicológicas,
correlação das ciências da natureza descritivas e explicativas. Nada disto teria
como realizações suas, no mesmo passo em que devem, ainda assim, ocorrer
nessasmesmasteorias como um resultado entre outros resultados. sido possível se Brentano tivesse alcançado o verdadeiro sentido da tarefa, ou
seja,o de pesquisara vida da consciênciacomo intencional e, com efeito, an-
tes de tudo mais, uma vez que estava em causa a fundamentação da psicologia
$ 68. A tarefa de ilha acplicitação pura da consciênciacomo tat: a problemática como ciência objetiva sobreo solo do mundo pré-dado. Assim, só formalmente
deâniu como tarefa uma psicologia da intencionalidade, e não teve para a mes-
universal da intencionalidade. (O ensaio de Bretttano de reforma da psicologia.)
ma absolutamentenenhum ponto de aplicação.O mesmo é válido para toda a
sua escola, que continuou, então, de modo consequente, assim como o próprio
A primeira coisa a fazer é aqui superar a ingenuidade que faz da vida
Brentano, sem admitir o que era decisivamente novo nas minhas /nvesfegações
da consciência, na qual e pela qual o mundo é para nós <236> o que é - como
universo de experiência efetiva e possível, - uma propriedade real do homem, l,ógícas(embora estastenham sido influenciadas pela sua exigência de uma psi-
real no mesmo sentido da sua corporeidade;ou seja,segundo o esquema:no cologia dos fenómenos intencionais). A sua novidade não consiste de modo ne
mundo temos coisas de diversas particularidades, entre as quais também coisas nhum nas meras investigações ontológicas, as quais atuaram, de modo unilate-
ral, contra o sentido mais íntimo da obra, mas nas investigaçõessubjetivamente
tais que experienciam, conhecem racionalmente etc., o que está fora delas. Ou, o
que vem dar no mesmo, a primeira coisa a fazer e, com efeito, antes do mais na dirigidas (principalmente a V' e VI' do 2' volume de 1901),onde pelaprimeira
experiência de si reflexiva imediata, é tomar a vida da consciência, inteiramente vez é feita justiça aos cogítafa qua cogífafa como momentos essenciais de toda a
sem preconceitos, tal como ela aí se dá, de modo inteiramente imediato, como vivência da consciência, tal como é dada na genuína experiência interior, e que
ela mesma. AÍ não se encontra de todo, em doação imediata, dados de cores, imediatamentedominam, então,por inteiro, o método da análiseintencional.
Assim, a "evidência" (este recalcitrante ídolo lógico) é pela primeira vez tomada
de sons e outros dados de "sensações': de sentimentos, da vontade etc.; e, logo,
nada do que intervém na psicologia tradicional como aquilo que, obviamente, como problema, liberta da primazia da evidência cientíâca e ampliada como
uma universal autodação original. Na síntese de diversos atos num só ato é des-
é de antemão imediatamente dado. Mas encontra-se antes, como já Descarnes
o encontrou (abstraímos, é claro, dos seus restantespropósitos), o cogífo, a ín- coberta a genuína sínteseintencional, pela qual, num modo singular de ligação
fe/zcíona/idadenas âguras familiares, como tudo o que no mundo ambiente é entre um sentido e outro, resulta não um mero todo, uma ligação cujos elos são
sentidos [diversos] , mas um único sentido onde eles mesmos, plenos de sentido,
efetivo, linguisticamente cunhadas:"vejo uma árvore que é verde; ouço o rumor

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l e Edmund Husser
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendenta

o seu percepcionar, pensar, valorar etc. à sua propria essência. Assim, para alcan-
estão contidos. Já se anuncia aí também a problemática da correlação, e nesta çar o tema puro e próprio da "psicologia descritiva" requerida é necessário um
obra residem, então, de fato, os primeiros alvores, é certo que muito incomple- método exercido de modo inteiramente consciente que neste contexto, como
tos, da "fenomenologia't <238> método da psicologia - denomino redução JenomenoZóglco psicológica. (Deixa-
mos ainda em aberto a sua relação com a redução transcendental.) .
Como psicólogo,estou ingenuamentesobre o solo do mundo intuitiva-

l ll l iX lnü
mente pré-dado. Nele, estão dispostas as coisas, os homens e os animais com as

ZIZÍÇZH suas mentes. Pretendo, então, num exemplo e, depois, na generalidade, explici-
tar o que é, em concreto, essencialmentepróprio de um homem, puramente no
seu ser espiritual, mental. Fazem parte da essência própria da mente todas as in-
tencionalidades, por exemplo, as vivências do tipo do ' percepcionar': justamen-
te como aquelas e tal qual a pessoa que serve de exemplo as.leva a cabo, e sempre
l
de modo td que nada é admitido que ultrapassea essênciaprópria da pessoa,
da "mente" No percepcionar, ela está consciente do percepcionado. Contudo,
tenha o percepcionaro modo de um ato observador-explicitadorou o modo
do ter passivamente consciência do plano de fundo inadvertido do que é direta-
observado, ao menos o seguinte é claro: o que quer que se passequanto
ao ser ou o não ser do percepcionado, ainda que a pessoaque percepciona s.:
iluda a seu respeito, e, ainda que também eu, o psicólogo, ao recompreender,':
me iluda e acompanhe sem mais a crença no percepcionado - isto tem de per.
manecerpara mim, como psicólogo, fora de questão. Nada disto pode aceder à
descrição psicológica da percepção. Quer se trate de ser ou de aparência, isto em
nadaaltera o fato de que o sujeito em causaefetua, por exemplo, uma percepção,
que tem, de fato, a consciência: "esta árvore aí'l que leva a cabo, então, aquela
simples certeza que pertence à essência do percepcionar, precisamente a da sim-
ples existência.83 Assim, toda a asserção eíetiva e imediatamente descritiva sobre
pessoas sobre eus-sujeitos, tal como são dados simplesmente à expe.ciência,ul-
trapassam necessariamente o que é puramente próprio à essência destes sujeitos.
SÓpor via do método característicoda epoc/zépodemos alcança-lopuramente.
Estaé uma Crochéda validade, abstemo-nos, <240> no caso da perce1lção,da
coefetuação da validade efetuada pela pessoa que percepciona. Somos livres de
fazê-lo. Não se pode, sem mais, e arbitrariamente, modalizar uma validade, não
se pode transformar a certezaem dúvida, em negação,ou tampouco o agrado
em desagrado,o amor em ódio ou o desejo em aversão.Mas podemo-nos abster,
sem mais, de toda a validade, ou seja, podemos, para todos os efeitos, não leva-la
a cabo. Mas a este respeito haverá mais a ponderar. Cada ato, para a pessoa que
atua. é um estarcerto ou uma modalidade do ser certo (ser duvidoso,ser pro'
vável, ser nulo), com um conteúdo respectivo. Ao mesmo tempo, porém, este

79 N.T.: Ree//. 82 N.T.: /Vachverstehen


80 N.T.:Rea/es. 83 N.T.: l)aseins
81 N.T.:Rea/er
191
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ser certo ou, como também dizemos,ter em validade,tem também diferenças considerada como uma conexão própria puramente intencional. Cada mente,
essenciais, por exemplo, certeza do ser, diferente de certeza do valor e, por s=a todavia, está também intencionalmente vinculada na comunidade com outras,
vez. ambas diferentes da certeza prática (porventura a de um propósito),.e cada isto é, numa conexão essencialprópria, puramente intencional e internamente
uma tem as suasmodalidades. Temos, além disso, diferenças nas validades dos encerrada: a da intersubjetividade. Isto ainda nos virá a ocupar. Mas aquilo que
atos por implicação de outros atos e das validades próprias nestes implícitas, por aqui nos confronta como em geral digno de nota é esta maneira dupla de os
exemplo, pela consciência de horizonte que circunda cada ato. ..;hori- sujeitospoderem ser tematizados; é o fato de exibirem propriedades essencial-
rFaçamos abstração do fato de que, já no conceito de consciência de mente correspondentes, numa dupla atitude, por mais diversas que sejam estas
zonte'l na intencionalidade do horizonte, estão contidos modos muito diversos atitudes:por um lado, a referênciadaspessoas,de modo puramenteinterior,
de uma intencionalidade que, no sentido habitualmente mais restrito da pala- às coisasque Ihe são conscientes,que são intencionalmente válidas para elas
vra é "inconsciente' mas que se pode, no entanto, mostrar ser covivenciada dentro do mundo para elasintencionalmente válido. Por outro lado, o ser em
e, mesmo, de diversas maneiras cofuncional, modos que têm,as suas propnas relaçãoreal das pessoas,como realidadesno mundo real, com as coisasdeste
modalidades de validade e as suaspróprias maneiras de transforma-las. Acres- mundo. A psicologia puramente descritiva tematiza as pessoasna atitude pura-
cem. além disso, ainda, conforme se mostrará numa análise mais exata, inten- mente interior da epoc/zé,e isto fornece o seu tema: a mente.
cionalidades 'Inconscientes'l Destas fariam parte os abetos recalcados do amor, Tomamos aqui o conceito de uma psicologia descritiva de modo natu
da humilhação, dos "ressentimentos" e as condutas por eles.inconscientemente ralmente tão amplo quanto o de outras ciências descritivas, que não se ligam,
motivadas etc , que são ingeridas pela recente "psicologia das profundezas" (e é claro, aos meros dados da intuição direta, mas que retiram também as suas
não nos identiâcamos, por isso, com as suasteorias). Também estestêm os seus conclusões sobre aquilo que não é realizado por nenhuma intuição efetivamente
modos de validade (certezas de ser, certezas de valor, certezas voluntárias e as experienciadora como <242> efetivamente sendo, mas que tem de ser represen'
suas modificações modais), e para todos eles cabe, então, considerar prega' tável em intuições analogicamente modiâcadas. Assim, a geologia e a paleonto-
mente aquilo que, a título de exemplo, tornamos claro para a percepção.Com o logia são "ciências descritivas'l não obstante tratarem de períodos climatéricos
fito de uma psicologia pura, o psicólogo não pode jamais covalidar as validades da Terra nos quais as intuições analógicas dos seresvivos [a que se referem as
das espécies mais diversas, das pessoas que constituem o seu tema, ele não pode suasl induções não podem, por princípio, ser representadaspara a experiência
em geral tomar, nem ter nenhuma posição própria quanto a elas durante a sua possível.O mesmo é válido, é claro, para uma psicologia descritiva. Também
'''" õv- ''-'-'' "'" ite e de antemão, ela tem o seu domínio de diversos fenómenos psíquicos só muito indiretamen-
pesquisa;eisto,universalme . .. <241> no.aue concerne a todas
..---.....G'.
rs intencionalidades nelas ainda desconhecidase para ele ocultas nas profun- te acessíveis.O imediatamente experienciável tem, porém, precedência. Ora,
dezasda sua vida, naturalmente também sem tomar em consideraçãosepara a psicologia descritiva só alcança em geral o seu tema dissemos graças a
uma epoc/zéuniversal da validade. Encontra decerto os seus primeiros pontos
a própria pessoa,em sentido particular, elassão conscientesou inconscientes
Isto abrange todas as habitualidades, todos os interesses que duram tempora de aplicação nas intencionalidades reais;s que sobressaem na atitude natural, os
modos de conduta do homem no agir e no conter-se. E assim, ao se abster da
riamente ou que dom nam avida inteira. De antemão,e de uma vez por todas-
covalidade, apreende nestas intencionalidades em primeiro lugar um "interior'
o psicologo w'tém-se, na sua vida profissional, e no seu tempo profissional, de
Com isto, porém, ainda não se chega assim à psicologia efetivamente descriti-
qualquerõ'star cointeressado"nos interessesdaspessoaspor lii tematizadas.Se
fossecontra isto, abandonaria o seu tema. As suas intencionalidades, nas quais va; ainda não se atinge deste modo o seu campo de trabalho puro e encerrado
as pessoas(puramente mentais) são em si mesmase para si mesmas aquilo que em si, uma "pura mente': o universo encerrado em si das pu;as mentes no seu
sao.o seu"referir-se a si" e ser referido imanentes próprios tornar-se-iam, então, encerramento próprio essencial e inteiramente intencional. Para tal, é necessá
referencialidades reais" entre essaspessoase os objetos do mundo de quaisquer ria de antemão a Croché universal do psicólogo. "De um só golpe': ele tem de
pâr como sem efeito a totalidade das covalidades nas validades que explícita
gêneros exteriores a elas, em cujas reíerencialidades reais elas estão implicadas.
'' A psicologia descritiva tem, contudo, o seu tema específico no que é pu- ou implicitamente as pessoas tematizadas efetuam; e estas são todas as pessoas
ramente essencial às pessoasenquanto tais, como sujeitos de uma vida em si em geral. Porque a psicologia deve ser a ciência universal das mentes, o paralelo
exclusivamente intencional que, em particular, como mente singular, deve ser da ciência universal dos corpos, e, assim como estaé de antemão ciência numa

85 N.T.:Rea/en
84 N.T.:Rea/e

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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental Edmund Husserl Terceira Parte ' A Clarificação do Problema Transcendental e a Função Correspondente da Psicologia

epoc;zé"universal, numa posição profissional habitual e previamente estabele- <244> necessidade desta inversão radical, a decisão de observa-la numa conse
cida de, numa abstração, só pretender pesquisar o corpóreo nas suasconexões quência consciente e, além disso, a intelecção de que somente por meio de uma
essenciaispróprias, assim também a psicologia. Nestes termos, também ela re- tal psicologia descritiva poderia uma psicologia em geral preencher o seu sen
quer a sua atitude habitual "abstrativa': A sua epoc;zéatinge todas as mentes e, tido próprio de ciência e fazer justiça ao sentido correto da temática psicofísica
logo, também a própria mente do psicólogo: aí reside a abstençãoda coefetu numa limitação apropriada do seupróprio sentido correto.
açãodas suaspróprias validades,exercidascom referênciaao real do mundo
objetivo, à maneira da vida natural-quotidiana como psicólogo.O psicólogo
estabelece em si mesmo o "espectador desinteressado" e pesquisador, de si mes- S 70. As di$culdades da abstração psicológica. (Os paradoxos do "objeto intendo
mo, bem como de todos os outros, e isto de uma vez por todas, o que quer dizer, nal", ojenâmeno intencional originário do "sentido".)
para todo o "tempo proâssional" do trabalho psicológico. <243> A epoc/zétem,
no entanto, de ser levada a cabo de modo eíetivamente universal e, por isso, ra- Não é tão simples para a psicologia quanto para a ciência da natureza,
dical. Não pode ser tomada porventura como uma epoc/zéao serviço da crítica, que alcança o seu tema numa abstração universal que precisa ser efetuada sobre
tudo o que é espiritual, alcançar o seu tema por meio de uma abstraçãocontrá-
l sejaela auto ou heterocrítica, crítica teorética ou prática. Tampouco pode ser
tomada, num propósito filosófico geral, como uma crítica universal da experi- ria, a ser efetuadasimplesmente sobre todo o meramente corpóreo. O caminho
ência, das possibilidades de conhecimento de verdades em si para um mundo para a sua autocompreensão é, mesmo depois de reconhecida a Crochécomo
objetivamente existente; e, é claro, não pode igualmente ser tida como uma Cro- necessária,entravado por diâculdades extraordinárias e, mesmo, por estranhos
chécético-agnóstica. Em todas estasresidem tomadas de posição. O psicólogo, paradoxos que, cada um por sua vez, terão de ser esclarecidos e ultrapassados.
porém, repetimos, enquanto tal, e no interior da sua pesquisa,não pode tomar Isto nos deve ocupar em seguida. No topo, está a diâculdade paradoxal do ob-
nem ter posição, nem assentir,nem recusar, nem se manter problematicamente .fetoinfencíotza/enquanto ta/. Atendemos à questão: o que resultou de todos os
em suspensoetc., como se também tivesse algo a dizer quanto às validades das objetosna "consciência"dos sujeitos, conscientesem diversos modos de vali-
pessoas por ele tematizadas. Até ter adquirido esta posição como séria e cons- dade,que eram postos como sendo realmente (ou possivelmente sendo ou não
cientemente estabelecida,não alcançou ainda o seu tema efetivo, e, logo que sendo) antes da epoc/zé,se é que deve estar inibida, na Crochédo psicólogo, a
a infringe, já o perdeu. SÓ nesta posição tem ele o mundo "interior" essencial tomada de posição perante quaisquer destas posições? Respondemos: a epoc/zé
unitário, absolutamente encerrado em si dos sujeitos, e a unidade completa uni- liberta precisamenteo olhar, não só para as intenções que decorrem na pura
versal da vida intencional como o seuhorizonte de trabalho: na originalidade vida intencional (as "vivênciasintencionais"), mas também para o que ela em
primordial da sua própria vida e, a partir dela, ele tem os coviventes e as suas vi- si mesma, no seu próprio conteúdo-qzía/e, põe em cada caso em validade como
das,e, assim,cada vida se estendeintencionalmente, com a sua intencionalidade o seu objeto, e para a maneira como o faz: em que modalidades de validade e
própria, até a vida de cada um dos outros e todas, de maneirasdiversamente modalidades de ser, em que modalidades subjetivas de tempo, perceptivamente
próximas e distantes, estão entrelaçadasnuma vida comum. Ao psicólogo, no presente, passadosegundo a recordação, isto é, tendo sido presente etc.; com
meio desta vida, mas na sua atitude de "observador desinteressado': é tematica- que conteúdo de sentido, com que tipo de objetos etc., com que intenção e re
mente acessívela cada vida intencional, conforme a vive cada sujeito, ele mesmo presentatividade intencional como tal, e esta, então, no "como dos seus modos
e cada comunidade particular de sujeitos são tematicamente acessíveis as efeti- de doação': se torna, na <245> esfera dos atos, um tema prolífico. Isto conduz
vações dos atou,üagir perceptivo e de qualquer outro modo experienciador, os muito em breve à ampliação cautelosados conceitos e problemas correlativos.
intuitos cambiantes do ser, os da vontade etc. Assim, ele tem em geral como o Assim, a frase das minhas /deíaspara umalenomefzo/ogia pura apara uma
seu tema mais próximo e fundamental a pura vida atava das pessoas e, logo, em ./iZoso$aJenomenoZógíca que, retirada do contexto da exposição lá apresentada
primeiro lugar, a vida da consciência em sentido estrito. É, por assim dizer, o da epochéfenomenológica, poderia causar escândalo, é inteiramente correta: de
lado superficial deste mundo do espírito que se Ihe torna inicialmente visível, e uma árvore, pode-se dizer simplesmente que arde, uma árvore percepcionada
só progressivamente se abrem as profundezas intencionais; mas, por outro lado, enquanto tal" não pode arder; é, a saber, um contrassenso asserir isto acerca
é também somente no trabalho prévio da experiência que se abrem o método e dessaárvore; porque, então, se pretende que um componente de uma pura per-
a conexão sistemática das coisas. É certo que foi necessária toda a longa história cepção, que só é pensável como momento essencialmente próprio de um eu-
da filosofia e das suas ciências, até que pudesseser motivada a consciência da sujeito, faça algo que só tem sentido para um corpo feito de madeira: arder. O

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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental + Edmund Husser Terceira Parte e A Clarificação do Problema Transcendental e a Função Correspondente da Psicologia

;epocizé"universal, numa posição proâssional habitual e previamente estabele- <244> necessidade desta inversão radical, a decisão de observa-la numa conse-
cida de, numa abstração,só pretender pesquisar o corpóreo nas suasconexoes quência consciente e, além disso, a intelecção de que somente por meio de uma
essenciaispróprias, assim também a psicologia. Nestestermos, também ela re tal psicologia descritiva poderia uma psicologia em geral preencher o seu sen-
quer a sua atitude habitual "abstrativa': A sua Crochéatinge todas as mentes e, tido próprio de ciência e fazer justiça ao sentido correto da temática psicofísica
logo, também a própria mente do psicólogo: aí reside a abstençãoda coefetu- numa limitação apropriada do seu próprio sentido correto.
ação das suas próprias validades, exercidas com referência ao real do mundo
objetivo, à maneira da vida natural-quotidiana como psicólogo. O psicólogo
estabelece em si mesmo o "espectador desinteressado" e pesquisador, de si mes- S 70. As d$cutdades da abstração psicológica. (Os paradoxos do objeto intendo
mo, bem como de todos os outros, e isto de uma vez por todas, o que quer dizer, nal", ojenâmeno intencional originário do "sentido".)
para todo o "tempo profissional" do trabalho psicológico. <243> A epoc/zétem,
no entanto, de ser levada a cabo de modo efetivamente universal e, por isso, ra- Não é tão simples para a psicologia quanto para a ciência da natureza,
dical. Não pode ser tomada porventura como uma epoclzéao serviço da crítica, que alcança o seu tema numa abstração universal que precisa ser efetuada sobre
sejaela auto ou heterocrítica, crítica teorética ou prática. Tampouco pode ser tudo o que é espiritual, alcançar o seu tema por meio de uma abstraçãocontrá-
tomada, num propósito filosóâco geral, como uma crítica universal da experi- ria, a ser eíetuadasimplesmente sobre todo o meramente corpóreo. O caminho
ência, das possibilidades de conhecimento de verdades em si para um mundo para a suà autocompreensãoé, mesmo depois de reconhecida a epoc/zécomo
objetivamente existente;e, é claro, não pode igualmente sertida como uma Cro- necessária,entravado por diâculdades extraordinárias e, mesmo, por estranhos
ché cético-agnóstica. Em todas estasresidem tomadas de posição O psicólogo, paradoxos que, cada um por sua vez, terão de ser esclarecidos e ultrapassados.
porém, repetimos, enquanto tal, e no interior da sua pesquisa,não pode tomar Isto nos deveocupar em seguida.No topo, estáa dificuldade paradoxaldo ob-
nem ter posição, nem assentir, nem recusar,nem se manter problematicamente .feto ínfencíona/ enquanto fa/. Atendemos à questão: o que resultou de todos os
em suspensoetc., como se também tivesse algo a dizer quanto às validades das objetosna "consciência"dos sujeitos, conscientesem diversosmodos de vali-
pessoaspor ele tematizadas.Até ter adquirido estaposição como sériae cons- dade, que eram postos como sendo realmente (ou possivelmente sendo ou não
cientemente estabelecida,não alcançou ainda o seu tema efetivo, e, logo que sendo) antes da epoc/zé,se é que deve estar inibida, na epochédo psicólogo, a
a infringe, já o perdeu. SÓnesta posição tem ele o mundo "interior" essencial tomada de posição perante quaisquer destas posições? Respondemos: a epoc/zé
unitário, absolutamente encerrado em si dos sujeitos, e a unidade completa uni- liberta precisamente o olhar, não só para as intenções que decorrem na pura
versal da vida intencional como o seu horizonte de trabalho: na originalidade vida intencional (as "vivênciasintencionais"), mas também para o que ela em
primordial da sua própria vida e, a partir dela, ele tem os coviventes e as suas vi- si mesma, no seu próprio conteúdo-qua/e, põe em cada caso em validade como
das,e, assim,cada vida se estende intencionalmente, com a sua intencionalidade o seu objeto, e para a maneira como o faz: em que modalidades de validade e
própria, até a vida de cada um dos outros e todas, de maneiras diversamente modalidades de ser, em que modalidades subjetivas de tempo, perceptivamente
próximas e distantes, estão entrelaçadas numa vida comum. Ao psicólogo, no presente, passado segundo a recordação, isto é, tendo sido presente etc.; com
meio desta vida, mas na sua atitude de "observador desinteressado':é tematica- que conteúdo de sentido, com que tipo de objetos etc., com que intenção e re-
mente acessível a cada vida intencional, conforme a vive cada sujeito, ele mesmo presentatividade intencional como tal, e esta, então, no "como dos seusmodos
e cada comunidade particular de sujeitos são tematicamente acessíveisas efeti- de doação':se torna, na <245> esferados atos,um tema prolíâco. Isto conduz
vaçõesdos atos, üagir perceptivo e de qualquer outro modo experienciador, os muito em breve à ampliação cautelosados conceitos e problemas correlativos.
intuitos cambiantes do ser, os da vontade etc. Assim, ele tem em geral como o Assim, a frase das minhas Ideíaspara umalenomelzo/OXíapura apara uma
seu tema mais próximo e fundamental a pura vida atava das pessoas e, logo, em .#ZosoÚaJe?zomelzoZógícaque, retirada do contexto da exposição lá apresentada
primeiro lugar, a vida da consciência em sentido estrito. É, por assim dizer, o da Croché fenomenológica, poderia causar escândalo, é inteiramente correta: de
lado superficial deste mundo do espírito que se Ihe torna inicialmente visível, e uma árvore, pode-se dizer simplesmente que arde, uma árvore percepcionada
só progressivamente se abrem as profundezas intencionais; mas, por outro lado, enquanto tal" não pode arder; é, a saber, um contrassenso asserir isto acerca
é também somente no trabalho prévio da experiência que se abrem o método e dessaárvore; porque, então, se pretende que um componente de uma pura per-
a conexão sistemática das coisas. É certo que foi necessária toda a longa história cepção,que só é pensável como momento essencialmente próprio de um eu-
da âlosoâa e das suas ciências, até que pudesseser motivada a consciência da sujeito,façaalgo que só tem sentido para um corpo feito de madeira:arder. O

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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendenta Edmund Husserl
Terceira Parte ' A Clarificação do Problema Transcendental e a Função Correspondente da Psicologia

psicólogo, na medida em que se mantém numa descrição pura, tem como úni-
que pertence, então, a todas as ciências que se ocupam do psíquico (ciências
cos objetos simplesmente os eus-sujeitos e o que "nestes" mesmos eus-sujeitos psicofísicas,biológicas).
(mas, então, só atravésdaquela epoc/zé)é experienciável como o seu imanente
O psicólogo tem-na a partir da sua esferaoriginal, que para ele não é,
próprio, para, então,setornar tema de um trabalho científico subsequente.To-
porém, jamais isolável. Com a intropatia da sua esfera original de consciência, e
davia, ele não encontra aí somente, em toda parte, intenções, mas, correlativa- com aquilo que dela deriva, como um conteúdo que nela jamais falta, ele detém
mente, nelas contidos, numa maneira essencial e inteiramente sz4igeneris do já, por menos que possa inicialmente atentar para isso, um horizonte universal
estar contido': encontra, então, os "objetos intencionais': Estes não são partes intersubjetivo.
reais8' da intenção, mas são nela visados, é a cada vez visado o seu sentido, e isto
A epocbé,como um requisito fundamental explicitamente metódico, só
em modalidades que só têm sentido para coisas tais como o "sentido': Sobre o
poderia, naturalmente,ser um assuntode uma reflexão subsequentede quem
que é visado nos intuitos, o que é consciente nas vivências conscientes,o que é
já, numa certa ingenuidade, e a partir de uma situação histórica, está, por assim
intencionado nas intenções simples palavras, que numa psicologia fenomeno- dizer, envolvido na epoc/zé,e já seapropriou de uma parte deste novo 'Imundo
lógica têm de ser empregadoscom uma significaçãomuito lata - não se pode interior'; de certo modo de um campopróximo a ele,com um horizontelon.
meramente falar, mas, muito pelo contrário, têm de ser metodicamente tema gínquo obscuramente delineado. Assim, só quatro anos depois da conclusão
de trabalho psicológico. Uma coisa é a espécieda psicologia dos dados. Mesmo dasInvesfegações lógicas chegou [o autora à consciência expressa,e mesmo as-
cume (e como o poderia evitar?) fala de impressões de, percepções de árvores,
sim ainda imperfeita, do seu método. Contudo, assim se originaram também
de pedras etc., e assim também a psicologia até hoje. Precisamenteassim, com
os problemas extraordinariamente difíceis, que se referem ao próprio método,
a cegueirapara o estar contido aí dentro*' intencional ou, como a linguagem à epocbé, à redução,.à sua <247> compreensão fenomenológica própria e ao seu
diz também inversamente, o ter em algo o sentido," fechou-se a possibilidade extraordinário significado âlosóâco. ' ' '
da análise efetivamente intencional; e, na direção oposta, a temática da sínte Antes de passar ao tratamento destas dificuldades e, assim, ao pleno de-
se intencional isto não diz nada menosdo que o tema inteiro da pesquisa senvolvimento de sentido da epoc/zée redução psicológica, precisamos nos de-
psicológica essencialmente própria, ou seja, a pesquisa psicológico-descritiva. ter ainda expressamentena diferença que, segundo toda a exposição anterior,
Na vida extrapsicológica,é hábito estar-sevoltado ora <246> para o agir e o é óbvia, a diferença do uso entre estasduas palavras. Na psicologia pum, isto é'
sofrer pessoais, ora para o seu "sentido" (para isso, onde se "tem o sentido"); e descritiva no verdadeiro sentido, a epoc/zéé o meio para tornar tematizável e ex.
também, na esfera das ciências, temos em determinadas restrições de interes- perienciável na sua pureza essencialprópria os sujeitos que são experienciados
ses a temática da explicitação do sentido, como, por exemplo, na filologia, na e que se experienciam a si mesmos na vida natural do mundo como estando
sua permanente reflexão e questionamento retrospectivo sobre aquilo que, no
em relaçõesintencionais reais'Pcom os objetos mundanos reais. Assim, para o
seu discurso, quem se serve das palavras tem em vista, sobre o que era o seu observador psicológico absolutamente desinteressado,tornam- se "Éenõmenos"
intuito experienciante, pensante,prático etc., o que tinha em mente (a que sen- num sentido específico novo - e esta transformação chama-se aqui redução
tido visava). Mas só se obtêm problemas puramente psicológicos, embora não fenomenológico-psicológica. ' '' '''' ' "-x
isoladamente, quando nada mais se pretende ver com uma coerência universal
[senão o sentidos, nada mais se pretende perseguir em todos os seus modos
subjetivos e na concreção universal da vida doadora e detentora de sentido, e na
S71 . O risco da compreensão errada da "universalidade" da "epoché"jenomenoló.
sua síntese oniabrangente de todas as doações de sentido e de todos os sentidos. bico-Psicológica.A sign$cação decisiva da compreensão correra
Por outras palavras, só aquele que vive na epoc/zéuniversal e atravésdela tem
o horizonte universal da pura "vida interior': da vida intencional como produ- Passamosagora a considerar alguns pontos fundamentalmente essen-
tora e detentora de sentido, tem também a eíetiva e genuína problemática da ciais,a âm de iluminar, por diferenteslados, o sentido profundo da epocbée
intencionalidade, absolutamente encerrada em si, insisto a da psicologia pura da reduçãoe, consequentemente,da própria psicologia pura. Ela tem, de fato,
profundidades e conduz a paradoxos para que um psicólogo sem outro objetivo
86 N.T.:/?ee//e. além de uma ciência objetiva da mente não poderia estar preparado A nossa ex-
87 N.T.:Darfnr7ense/n.
88 N.T.:Etwas-fm-S/nn-haben 89 N:T.:intentlonal-realen

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Terceira Parte ' A Clarificação do Problema Transcendental e a Função Correspondente da Psicologia
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental e Edmund Husserl

qualquer modo, a seu lado, uma psicologia "explicativa"(tal como era já o ponto
posição irá leva-lo talvez a pâr à prova o sensualismo naturalista da sua psicolo- de vista de Brentano e Dylthey no anal do século passado). O principiante (e todo
gia da consciência, e reconhecer que uma psicologia efetiva carece de uma epo
psicólogo de instituto é aqui, pela suaformação, principiante) irá de início opinar
õlzé universal É certo que ele irá de início opinar que, apesar de não a proclamar
que, no que toca à psicologia pura, se trata somente de um complexo limitado de
expressamentecomo método, silenciosamente exercejá a epoché,:naorientação tarefas, de uma disciplina auxiliar útil, mas secundária. Esta opinião funda-se, em
para o nnanente-próprio das pessoasque, sob o título de descriçõesda percep'
parte, na necessidadede começar com os modos do comportamento do homem,
ção interior, ou da experiência ou intropatia interiores, põe fora de circuito no
e na consideração de que estes,como relações reais, carecem de uma redução ao
seu verdadeiro ser ou não ser as realidades exteriores a elas. Ele admitirá talvez
que nelasé intramental. Aparece assim como óbvio que uma necessáriaredução
que estemodo natural-ingênuode se dirigir para o "ser-interior" do homem, universal significa de antemão precisamente a decisão de reduzir invariavelmente,
que não é também, de modo nenhum, estranho à vida pré-científica, <248> não de modo isolado, todos os modos de comportamento do homem que ocorrem na
basta, e que somente pelo método consciente da epochéuniversal pode o puro
experiênciado mundo e, assim,o psíquico, o agir e sofrer humanos, que seexpri-
ser em si e para si de um sujeito tornar-se, na sua integral concreção,campo
mem já na linguagem geral; ou, grosso modo: trata-se de descreverde maneira
temático. SÓquando pus fora de circuito todo o extrapsíquico,todo o mundo cientíâca, eventualmente com auxílio da experimentação, o psíquico contido na
válido na vida psíquica - assim terá ele de ver e dizer para si - e o universo
esfera dos atos na sua tipologia empírica, em cujo sentido sempre se exprime tam-
puramente psíquico é para mim um mundo fechado, tornar-se-á evidente para bém a causalidade psicofísica. Isto, porém, com o objetivo de se alcançar, então, de
mim, ou tornar-se-á forçosa a evidência de que está contido na essência prõpna
modo inteiramente científico-natural, raciocínios indutivos e, assim,de penetrar
dopsíquico que eleévisarobjetos etc. .. . . ... -. mais além no reino obscuro do inconsciente, de exprimir, com a formação de
E Teço, então,universalmente uma intencionalidade múltipla fluente e, por
novos conceitos, os análogos e as modificações dos atos propriamente experienci-
isso. um mundo fluente-válido como tal: mas não de tal modo que uma coisa
K
áveis.Isto do lado psíquico. Com respeito ao lado oposto, o da physfs, surgem os
qualquer não psíquica seria posta efetivamente como mundo. O psicólogo con problemas psicofísicos,entrelaçadoscom os problemas puramente psicológicos.
cordará talvez ainda se acrescentarmosaqui que foi a orientação psicoâsiológica
1.1E
\ Há aqui algo a objetar a isto? De algum modo se hesitará, se âzermos aqui notar
a prevalência da procura da descoberta de causalidades ou de condicionalidades
que sob o título "modos de comportamento" há finalmente que incluir todas as
psicofísicas, que íez até aqui os psicólogos preferirem os dados da sensação,e--l e
representações,percepções, recordações, expectativas, mas também todas as in-
rão os deixou questionar pelo seu lugar descritivo no contexto intencional e pelo
tropatias, e ainda todas as associações,e também as modificações dos atos, que
seu sentido que só a partir daí se pode determinar. Ele poderá acabar por admitir
devem ser de fato descritivamente seguidas nos seusobscurecimentos e sedimen-
que algo de importante se encontra aí: a temática da intencionalidade, como um tações,bem como todos os instintos e impulsos, para não ídar dos "horizontes"?
título de conelações. E este, com efeito, é o ponto capital no sentido de toda a nos-
Em todo caso,apesarde todo o seu propósito de uma descrição imanen-
sa exposição que tem de ser asseguradopara podermos começar.Somente pela te, a redução universal é <250> compreendida como universalidade da redução
epoc/téuniversal é visto como um campotemático especíRcoaquilo que é propna' individual. E acresce,além disso,algo de muito importante. O caminho do psi-
mente a pura vida do eu: uma vida intencional, como ser aíetado,nessaintencio-
cólogoé o caminho que vai da observaçãoexterior para a observaçãointerior;
nalidade pelos objetosintencionais que aparecem,válidos, nestavida intencional,
logo, da exterioridade do homem e dos animais para o seu ser e viver interior. O
como um estar dirigido para eles, deles estar ocupado de múltiplas maneiras. To
mais natural é, assim - para conferir à universalidade psicológica o sentido pa-
dos os "com-o-que" desta ocupação pertencem elesmesmosà imanêncla pura, e ralelo ao da universalidade científico-natural do mundo -, pensar a execução da
têm de ser descritivamente apreendidos nos seusmodos puramente.subjetivos,
redução universal de tal maneira que ela deve ser exercida particularmente em
nas suasimplicações com todas as mediatividades intencionais lá residentes.
cada sujeito, de cada vez acessível pela experiência e pela indução e, com efeito,
Os hábitos de pensar de uma tradição centenária não são, porém, tão fáceis
em cada um deles, então, em relação às vivências particulares. Como seria isto
de ultrapassa, e amem-sevaler mesmo quando expressamenteforam renegados. de outro modo possível?Os homens estão uns fora dos outros, sãorealidades
O psicólogo manterá, então, interiormente que toda esta psicologia descritiva é
separadas e, logo, as suas interioridades mentais estão também separadas.
uma disciplina não autónoma, que pressupõe a ciência natural .dos corpos e é' A psicologia interior só pode, por conseguinte, ser psicologia individual,
<249> simultaneamente, um estádio prévio para uma ciência explicativa da natu-
psicologia da mente singular, e todo o resto é assunto para a pesquisa psicofí-
reza psicoâsiológica ou, eventualmente, psicofísica. E, se devêssemos admitir para
sica; e o mesmo no reino animal, bem como, ânalmente, para toda a série dos
ela uma existência autânorna como psicologia descritiva pura, então ela exigiria de

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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental e Edmund Husserl Terceira Parte ©A Clarificaçãodo Problema Transcendental e a FunçãoCorrespondente da Psicologia

seres orgânicos, se houver razões para admitir que todo ser orgânico tem, em se torna paulatinamente visível uma verdadeira infinidade de fenómenos des-
geral, o seu lado psíquico. Tudo isto parece francamente óbvio. Tomar-se-á, en- critivos e, na verdade, com a mais forte e incondicionada de todas as evidências.
tão, em parte como um enorme exagero,em parte como uma absurdidade, seeu com a evidência desta única e genuína "experiência interior
disser que a epoc/zébem compreendida na sua universalidade altera totalmente Isto parece, é certo, um grande exagero, mas só para o principiante preso à
todas as representações que se pudesse alguma vez fazer da tarefa da psicologia, tradição, o qual, começando com as experiências da atitude-exterior (da atitude
e revela tudo o que acaboude ser consideradoóbvio como uma ingenuidade sujeito-objeto natural antropológica, a atitude psicomundana), julga de início
que se tornará necessáriae definitivamente impossível tão logo sejam a epoc;zé tratar-se de uma <252> mera "puriâcação" óbvia da contaminação por pressu-
e a redução no seu sentido pleno efetivamente compreendidas e efetuadas. A posiçoesreais, no mesmo passo em que o conteúdo mental da experiência é es-
psicologia fenomenológica abre-se, segundo o seu sentido, em diversos está- sencialmentejá conhecido e exprimível efetivamente na linguagem vulgar. Mas
dios, porque a própria redução fenomenológica e isto pertence à sua essência esteé um erro fundamental. Seisto fossecorreto, bastaria então explicitar ana-
só gradualmente pode revelar o seu sentido, os seus necessáriosrequisitos liticamente o conceito de experiência, tomado da experiência geral do homem
interiores e o seu alcance. Cada novo estádio requereu novas reflexões, novas como sujeito pensante, senciente e agente, como vivenciando prazer e desprazer
meditações, as quais só foram por seu turno possíveis pela autocompreensão e e coisassimilares; mas esteé, por assim dizer, só o lado exterior, a superfície de
pelo resultado produzido pelos outros estádios. Ou, como costumava exprimi- psíquico, aquilo que dele no mundo exterior se objetivou. É como a criança que
lo, a redução fenomenológica precisou, para alcançar o seu horizonte total, de tem, é certo, experiência das coisas como coisas, mas nenhuma ideia das suas

e uma "fenomenologia da redução fenomenológica'l No entanto, <251> já para o


primeiro estádio, onde ainda se está no nível dos sujeitos individuais, e os resul-
estruturas interiores que faltam ainda inteiramente nas suasapercepçõesdas
as. Assim, também ao psicológo, que não o seja no sentido fenomenológico
tados da ciência biológica e psicofísica têm de se manter no estado de questões tornado possívelpela verdadeira epoc/zé,e que não aprendeupor isso a com-
em aberto, é válido que o seu sentido só com muito esforço pode ser elaborado, preender o superâcial como tal e a questionar as suas enormes dimensões de
e que ele não é obtido já, sem mais, a partir das reduçõesbehavioristas, com as profundidade, fitam todas as apercepçõespropriamente psicológicas e, então,
quais necessariamente se começou." todas as possibilidades de levantar questões propriamente psicológicas, como
Com estaprimeira redução ainda não se alcançou o essencialmentepró- as questões a serem trabalhadas que têm de ter um horizonte de sentido já pre-
viamente delineado.
prio da mente. E pode, então, dizer-se que a autêntica Crochéíenomenológico-
psicológica é uma atitude artiâcial inteiramente estranha a toda a vida natural, Assim, a alegada "purificação" ou, como se diz com mais frequência: o
mas também aos psicólogos do passado. Pois para o que é essencialmente pró- esclarecimento dos conceitos psicológicos': só torna, então, acessível o psíquico
prio aos eus-sujeitos,para o seu [elemento] mental em geral, faltava o campo de em geral, só traz pela primeira vez à visibilidade o seu ser próprio em geral, e
experiência necessário para a descrição cientíâca, assim como a tipologia do que tudo o que lá "reside': se se penetrar além das intencionalidades de superfície,
se conhece bem, que apenasa repetição pode produzir. A "percepção" interior, até às intencionalidades interiores que as constituem. SÓ aí se aprende, então, a
no sentido da genuína psicologia e da experiência psicológica em geral, entendi- compreender em geral o que diz a análise psicológica e, inversamente, a síntese
da como percepção das mentes segundo o seu próprio ser puro, é tampouco algo psicológica, e que abismos de sentido as separam daquilo que a partir das ciên-
de imediato e corriqueiro, alcançável já por uma simples epoc;zéinicial do come- cias da atitude exterior se poderia entender por análise e síntese'
ço, que ela não era de todo possível antes da introdução do método específico da Aquela primeira epoc/zéé, certamente, o começo indispensável de uma
epoc/zéfenomenológica. Por isso, quem assumiaa atitude fenomenológica tinha experiênciapuramentemental. Mas importa, então, demorar junto ao pura-
de começar por aprender a ver, tinha de ganhar prática, e somente nessa prática mente mental com um olhar em volta penetrante e, com uma obstinada conse-
adquirir uma conceitualidade tosca e vacilante, que ia sendo depois sempre me' quência, apoderar-se do que Ihe é propriamente essencial. Tivesse o empirismo
Ihor determinada, do que em si e nos outros é propriamente essencial.SÓassim honrado melhor o seu nome com uma tal «adesãoà experiência pura". e nao
teria podido falhar a redução fenomenológica, nem teriam jamais conduzido as
suasdescrições.adados e a complexos de dados, nem tampouco permanecido
90 Façoaqui naturalmente abstração dos exageros dos behavioristas, os quais operam em
vedado o mundo do espírito <253> na sua especificidade e infinita totalidade
geral somente com o lado exterior dos comportamentos, como se o comportamento não
perdesse assim o seu sentido, precisamente aquele que Ihe é conferido pela intropatia, Não é paradoxal que nenhuma psicologia da tradição tenha atéhoje logrado dar
pela compreensão da "expressão' uma interpretação efetiva sequer da percepção, e nem sequer do tipo particular

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Terceira Parte e A Clarificaçãodo Problema Transcendentale a Função Correspondente da Psicologia
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental e Edmund Husser

dadesda interpretação mais imediata da universalidade em que a epoc/zé


tem de
da percepção dos corpos, ou da recordação=da.expectativa,da "intropatla' ou ser levada a cabo são, na verdade, erros de autocompreensão.É fundamental-
de algum outro modo da presentificação?9'E, além disso, que tampouco tenha mente erróneo julgar em geral que, por se partir dos modos de comportamento
conseguidodar uma descriçãointencional da essência.do juízo ou, do mesmo do homem em re]açãoao mundo circundante real, e da sua redução singular ao
modo, de alguma outra classetípica de atos, nem um esclarecimento das sínteses psíquico, a redução universal consiste, então, na atitude de purificar universal e
da consonância e da discordância (nas suas diversas modalizações)? Não é pa- redutivamente todas as intencionalidades que ocorrem singularmente, e ocupar
radoxal que não se âzessea mínima ideia dos múltiplos e difíceis problemas de se, então, com essespormenores singulares. É certo que, ao refletir na minha
trabalho escondidosem cadauma destasrubricas?Não sedispunha do campo autoconsciência,encontro-me como vivendo no mundo de tal modo que sou
de experiência, não se tinha elaborado a esferapsicológica especíâcade fatos, o afetado por coisas singulares, ocupo-me de singularidades e, assim, a redução
campo das descriçõesa seremfornecidas; não se estava de todo na experiência fornece sempre representações singulares, sentimentos singulares, atou singula
efetivamente psicológica, experiência que oferece o psíquico de modo inicial- res.Mas não posso,então, esquecer,tal como a psicologia dos "dados sobre uma
mente não analisado, e que de modo indeterminado, por meio do seu horizonte tábua da consciência': que esta "tábua" tem consciência de si mesma como tá-
de expenencia interior e exterior, delineia o que precisa ser intencionalmente bua, que está no mundo e está consciente do mundo: estou sempre consciente de
mostrado Para que servia, então, a exigência de uma psicologia descritiva, feita coisassingularesdo mundo, enquantome interessam,movem, perturbam etc.
or vezes tão enfática e repetidamente, enquanto não se tinha reconhecido a mas nisso continuo sempre a ter a consciência do próprio mundo, como aquele
necessidadeda epochee redução universais, pelasquais unicamente se pode ad- em que eu mesmo estou, apesar de ele não existir como uma coisa, aíetando-me
quirir o substrato das descriçõese das análises intencionais e, em consequencia, como uma coisa ou, num sentido semelhante,como objeto das ocupações.Se o
um campo de trabalho? Não posso senão negar que a psicologia tenha até aqui mundo não me fosseconsciente como mundo, mesmo que não o possa ser re
usadoefetivamenteo solo ie uma psicologia pmpriamente dita. SÓquando
presentativamente consciente como um objeto, como poderia eu abranger refle-
existir uma tal psicologia, será possível avaliar os diversos e, sem dúvida, muito xivamente o mundo <255> no olhar, e põr em jogo o conhecimento do mundo,
valiosos fatos da psicofísica e da psicologia que nela se apoia segundo o seu con elevando-me, entretanto, acima do simples viver diretamente, sempre dirigido
tendo eíetivamente psicológico, esclarecendo, dos dois lados, os elos de relação às coisas?Como estou eu, como estamostodos permanentementeconscientes
das regulamentações empíricas. do mundo? Quer atentemos ou não para isso, cada coisa que experimentamos e
Tão grande é o poder dos preconceitos que a epoc/zée,aredução transcen- com as quaistemos de algum modo de lidar e nós mesmos, se refletirmos sobre
dental já estão desde há décadas expostas, em diversos estádios de desenvolvi- nós -, dá-se a si mesma como coisa no mundo, como coisa no campo respectivo
mento, sem que tenha sido alcançado mais do que transcrições, na velha psico' de percepção,campo que se dá, entretanto, como um mero setor perceptivo do
logra, deão'madoras do sentido dos prim'aros resultados da desc'ição genuína mundo. Podemostomar atenção a isto, e questionar no interior deste horizonte
mente intencional. As nossasreflexões seguintes mostrarão o quão seriamente permanente do mundo; e fazemo-lo, aliás, constantemente.
se deve tomar, para tais transcrições, a expressão da deformação .do sentido, A redução psicológica tem, assim,de reduzir, num só passo,a consciência
<254> reHexões que - espero ', originadas numa meditação amadurecllda até
da coisa singular e do seuhorizonte mundano e, do mesmo modo, toda a redu-
o âm possibilitarão uma profunda transparência e clareza. Vencer-se-á, além ção é redução universal do mundo.
disso, a diâculdade que afeta um "díscours de Ja méthode" tal como o que aqui se
Isto é para a psicologia um a priori; não é concebível um psicólogo que,
esboça, na medida em que as investigações concretas de décadas que estão por ao questionar pelo psicológico, não tenha já a sua consciência do mundo, que
detrás dele não podem atuar como suporte, pois que também os escritos publi- não estejajá em atuaçãodesperta com objetos que não podem deixar de in
cados só poderiam exercer um verdadeiro efeito a partir de uma compreensão
troduzir, juntamente consigo,o seu horizonte mundano, e que, ao representar
efetiva, certamente sempre muito difícil, da redução. O nosso próximo percurso
outros, não os pudesserepresentar de outro modo senão precisamente como
tornará em breve muito claro o motivo por que isto é dito aqui, apesarde a redu- a si mesmo, como homens na consciência do mundo que, simultaneamente, é
ção ser, nesses escritos, introduzida como redução transcendental filosó6ca ,l autoconsciência: consciência de si mesmo como sendo no mundo.
- A nossa tarefa seguinte, muito urgente para o esclarecimento do sentido Isto, e talvez ainda muitas coisas semelhantes, faz, então, parte do início,
autêntico da epoc;té é agora a de trazer à evidência o fato de que aquelasobvie- do primeiro estabelecimentode uma psicologia, e seria erróneo ignora-lo, como
se um físico que inicia uma doutrina dos corpos ignorasse que à essênciados
91 N.T.:Vergegenwãrtígung

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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendenta EdmundHusserl
TerceiraParte ' A Clarificaçãodo Problema Transcendental e a FunçãoCorrespondente da Psicologia

corpos pertence a extensão. Mas é certo que aquilo que na fundamentação de


um método físico se seguepor si: observar as estruturas a priori, deixar-se con sedeve alcançar como fenómeno reduzido da psicologia interna, ou seja,àquilo
que se deve desde o início ter em vista como tema psicológico. Mas temos de
duzir por elas, transforma-las, pois, em fundamento metódico, como um siste-
ma científico de normas, como matemática - isto, quando se tratava de fundar ser ainda mais exatos. O psicólogo <257> terá naturalmente por si mesmo, e de
uma psicologia, e não obstante toda a aparente analogia com a física, levantava início em si mesmo, de levar a cabo a epoc/zée a redução; ele tem de partir da sua
extraordinárias e singulares dificuldades. Aquilo que no método físico é relati- original experiência de si e da consciência do mundo que Ihe é originalmente
própria: a apercepção de si mesmo como homem, ao qual ele de cada vez atribui
vamente fácil, isto é, levar a cabo a abstração universal da natureza e, na idealiza-
ção, dela se apoderar matematicamente, envolve aqui, onde se deve iniciar uma tudo o que Ihe atribui - ser estehomembom, ou estepecador,e todo o resto
que ele alegadamenteé -, tudo isto, na medida em que ele se torna observador
abstração contrária e onde a consciência do mundo e de si deve setornar o tema
universal, e por fundas razões,consideraçõesmetódicas prévias difíceis. <256> desinteressado de si mesmo, perde toda a validade coeíetuadora, enquanto essa
mesmaapercepçãode si próprio, com toda a validade e o que é válido, se torna.
A psicologia, ciência universal das puras mentes em geral nisto consiste
a sua abstração - carece da Croché, e tem de início, para todas as mentes, de re- enquanto tal, fenómeno, de tal modo que absolutamente nada se pode perder.
duzir a sua consciência do mundo, cada uma em particular, nas suas partícula Disto tudo ele tem uma consciênciaoriginal que, reduzida, é o seu ponto de
res consistências e modalidades. Faz parte disto a apercepção de si de cada um,
partida; eincluindo aqui a suaconsciênciado mundo na particularidade fluente
com o sentido das validades, com as habitualidades, os interesses, as maneiras e na sua historicidade, com tudo o que, conforme ao mundo, ele visa de espaço-
de pensar etc., que cada um a cada vez atribui a si próprio, com as suas experi-
ências, os seusjuízos que a cada vez leva a cabo etc., cada um destes segundo a para ele é válido, ele não dispõe de nenhum outro (um outro não tem, para ele,
de todo nenhum sentido) - torna-separa ele um mero fenómeno.
maneira como a si mesmo aparece e é visado, e ao mesmo tempo visado tam-
bém como sendo no mundo; tudo isto deveser reduzido. No entanto, tal como na experiência de si, ele tem de ter levado a cabo a
Não podemos, porém, negligenciar a questão:como tem cada um [de epoc/zétambém na expe.riência de outrem9; e, de antemão, em toda a experiência
l nós] consciência imediata do mundo, enquanto tem autoapercepçõescomo este possível de outrem; todos os homens se tornam puras mentes, eus-sujeitos de
homem? Vemos aí, então,logo novamente como um czpriori, que a autoconsci- apercepçõesde si e do mundo, que só se podem tornar temáticos puramente
ência e a consciência de outrem são inseparáveis; é impensável, e não porven- segundo a correlação da validade e do que é válido. Mas consideremos, então,
tura como um mero fato, que eu seja homem num mundo, sem que eu seja um que cada um, no seu comércio com os outros, tem na sua consciência do mundo
homem. Não é preciso que esteja alguém no meu campo de percepção, mas os simultaneamente a consciência de outrem na particularidade deste outrem; con-
outros homens são necessárioscomo efetivos e conhecidos, e como horizon- sideremosque, de maneira admirável, a suaintencionalidade se estendeaté à do
te aberto de encontros possíveis. Sou, faticamente, numa presençaco-humana outro, e, inversamente, consideremos que a validade do ser própria e alheia94se
e num horizonte aberto de humanidade, sei a mim mesmo faticamente num liga ao modo da concordância e da discordância, que sempre e invariavelmente,
contexto generativo, numa corrente de unidade, de uma historicidade na qual por correção recíproca, acabapor vir ânalmente à validade uma consciência con-
este presente é, da humanidade e do mundo que Ihe é consciente, o presente cordante do mesmo mundo comum, com as mesmascoisas,as mesmasque um
apreendede um modo, o outro, de outro modo. Qualquer consciência do mun -
histórico de um passado histórico e de um futuro histórico. Posso, sem dúvida,
accionar e livremente transõgurar a "consciência do mundo': mas estaforma da do é desde logo já consciência e, com efeito, ao modo da certeza do ser, de um e
generatividade9:e da historicidade é inabalável,bem como a forma, que me per- do mesmo mundo para todos, para todos os conhecidos e desconhecidos,para
todos os sujeitos que se possam encontrar, os quais têm todos de ser de antemão
tence como eu-singular, do meu presente original da percepção, como presente
de um passadorecordado e de um futuro previsível. É certo que é uma questão elesmesmos sujeitos no mundo; eu, a partir de mim, e cada outro, a partir de
em aberto saber até onde, no seu conteúdo, se estende estea priori, como se deve si, tem o seu mundo dotado de orientação, mundo que pressupõe outros <258>
ele formular em leis rigorosas e fixas, por assim dizer, como uma ontologia da como a partir de si tendo ele mesmo outros, os quais têm também, por sua vez,
consciência do mundo e de si; trata-se, no entanto, em todo caso, de uma ques outros, que são assim, nas mediatividades da conexão intencional, pressupostos
tão que diz respeito ao sentido da Crochéuniversal, e concerne àquilo que nela como sujeitos de uma apercepçãocomum do mundo, enquanto cada qual tem

93 NJ.: Fremderfahrung
92 N.T.: Generatív/tàt. 94 N.T.:Fremde

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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental e Edmund Husser TerceiraParte ' A Clarificaçãodo Problema Transcendental e a FunçãoCorrespondente da Psicologia

em si a sua própria apercepçãode si. E isto, numa transformação que flui inces- existente,9'no íenâmeno universal comum "mundo': num "mundo para todos
t santemente, a qual é também permanente transformação da correção recíproca. os sujeitos efetivos e possíveis': dos quais nenhum se pode furtar à implicação
Noutros termos, cada um de nós tem o seu mundo da vida, visado como o mun- intencional pela qual pertence de antemão ao horizonte de cada sujeito.
do de todos. Cada um tem-no com o sentido de um polo de unidade de mundos Vemos assim, com surpresa, julgo eu, que, na pura eficácia da ideia de uma
subjetivo-relativos visados que, na transformação da correção, se transformam psicologia descritiva que pretende trazer à linguagem o essencialmentepróprio
em meras aparições do mundo, do mundo da vida de todos, da unidade inten- às mentes, é levada necessariamente a cabo a transformação da epoc/zé e da re-
cional continuamenteconservada,num universo de singularidades,de coisas. duçãofenomenológico-psicológica
na Crochée na reduçãofranscenderzfais;
e
Este é o mundo, um outro mundo não tem para nós de todo nenhum sentido; vemos que não âzemos aqui, nem poderíamos ter feito, mais do que repetir, nos
na Croché, ele torna-se fenómeno, e o que resta, então, não é uma pluralidade de seustraços fundamentais, as mesmas considerações que tínhamos apresentado
mentes separadas,cada uma reduzida à sua pura interioridade, mas: assim como antes,com um interesseinteiramente diverso - não no de uma psicologia como
há uma única natureza universal, como uma conexão de unidade encerrada em ciência positiva, mas no de uma filosofia universal e, por isso, transcendental.
si. assim há também uma única conexão mental, uma conexão integral de todas Mas repete-se, assim, então, também a necessidade de pensar até o fim a
as mentes, unidas todas, não exterior, mas interiormente, a saber,pelo entrela- correção deste modo mais imediato da Croché e da redução. Buscando também
çamento intencional da comunidade da sua vida. Cada mente, reduzida à sua na psicologia a cientiíicidade objetiva, consideramos os homens precisamente
interioridade pura, tem seu ser para si e em si, tem a suavida própria original. E, como as outras coisasno mundo, também para eles a objetividade significa pâr
no entanto, pertence-lhe ter a sua particular consciência do mundo de maneira fora de circuito tudo o que é meramente subjetivo e, logo, também nós mesmos
própria original e,com efeito,na medida em que tem experiênciasde intropatia, como a subjetividade funcional, de cujo funcionamento provém em geral o sen-
consciência experiencial de outros como tendo mundo, e tendo o mesmo mun- tido de ser mundo. Como psicólogo, admito por isso de bom grado que, mesmo
do, isto é, apercebendo-seem apercepçõesparticulares próprias em reflexões dirigidas já à construção intencional do mundo, tenho, por meio
Assim como todo eu-sujeito tem um campo original da percepção, num do modo experiencialda intropatia, outros como efetividadesexistentes,com
horizonte a ser aberto numa livre atividade que conduz a campos de percepção os quais sei simplesmente que me encontro <260> em comunidade. Mas, se
$l

semprenovos, semprede novo delineadosde modo determinado-indetermi- exerço a epochéredutora sobre mim e a mirzhaconsciência do mundo, também
nado, assim também cada um possui o seu horizonte de intropatia, o horizonte os outros homens juntamente com o mundo em geral - caem sob a epoc;zé,e
da suacossubjetividade,a ser aberto por meio de trato direto e indireto, com o são,então, para mim tão só fenómenos intencionais. Assim, a redução radical
encadeamento dos outros, cada um reciprocamente outro, que sempre de novo e completa conduz ao ego absoZz4famenfe zízzícodo psicólogo puro, de início em
pode ter outros etc. Isto significa, contudo, que cada um tem o mundo orientado absoluto isolamento que, como tal, não possui mais a validade de si enquanto
de tal modo que possui um núcleo de dados relativamente originais e, com efei- homem, nem vale como sendo realmente no mundo, mas que é o puro sujeito
to, como núcleo de um horizonte, que é um nome para uma intencionalidade da sua intencionalidade que, pela redução radical, é intencionalidade universal
complicada e, apesarde toda a indeterminidade, participante da validade e an- e pura, com todas as suasimplicações intencionais. Este é o ego apodítico, que é
tecipadora. <259> Isto quer dizer, porém, que na intencionalidade viva fluente apoditicamente, nas suasintencionalidades em si mesmo apoditicamente con-
em que consiste a vida de um eu-sujeito, à maneira da intropatia e do horizonte tidas e acessíveis.E se entre estasse deve identificar e isto essencialmente-o
de intropatia, cada outro eu está já de antemão intencionalmente implicado. Na ser em comum com outros sujeitos como os egos implicados de outros, e iden-
epoc/zéuniversal que eíetivamente se compreende a si, mostra-se que não há tificar, assim, a diferenciação entre eu e outro, então uma das tarefas capitais
para as mentes,na sua essênciaprópria, de todo, nenhuma separaçãoexterior da psicologia puramente intencional é a de, por via da redução progressiva da
mútua. O que na atitude natural-mundana da vida no mundo prévia à Croché é, validade do mundo, tornar compreensívela função subjetiva e pura por inter-
por meio da localização das mentes nos corpos somáticos, uma mútua exterio- médio da qual o mundo, como "mundo para todos nós': é, a partir de mim, o
ridade, transforma-se, na epoc/zé,numa pura interioridade intencional mútua. ego,o mundo para todos, com o respectivo conteúdo. A universalidade vazia da
Assim se transforma o mundo, o simplesmente existente9se, nele, a natureza epochénada esclarece ainda, mas é tão só o portão de entrada, cuja transposição

96 N.T.:Se/ande
95 N.T.:Se/onde

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TerceiraParte ' A ClariHcaçãodo Problema Transcendental e a FunçãoCorrespondente da Psicologia
A Crise dasCiências

sou o meu tema exclusivamente como ego transcendental, segundo tudo o que
nisso está intencionalmente implicado. Nada há aqui de objetividade <262>
simplesmente,masobjetividade, coisas,mundo e ciênciasdo mundo (incluin-
do. então,todas as ciências positivas e âlosoíias) como fenómenos meus, como
fenómenos do ego transcendental. Todas as validades de ser que eu possa levar
a cabo e, como pesquisador transcendental, pretenda levar a cabo referem-se a
mim mesmo, mas, precisamente por isso, também às "intropatias': percepções
de outrem efetivase possíveisque ocorrem entre as minhas intencionalidades
originais. Em virtude da redução, os outros se transformam, de homens para
mim existentes, em alteregos para mim existentes, com o sentido de ser de im-
plicaçõesintencionais da minha vida intencional original. Inversamente,tam -
bém é válido: neles estou implicado, com toda a minha vida original, e todos
eles,do mesmo modo, entre si. O que, então, cientificamente digo digo-o de
mim e para mim, mas assim também, paradoxalmente, para todos os outros
:=.q===g:=3H===:==1=;==:!Z=:T;;:=; como transcendentalmente implicados em mim e entre si.
objefívísta nas ciências da mente A pura psicologia não conhecejustamente senão o subjetivo, e admitir aí
como existentealgo de objetivo é já dela ter aberto mão. A inânita pesquisa
psicológica,como pura e transcendental, diz respeito a este entrelaçamento in-
tencional dos sujeitos e da sua vida transcendental, e realiza-se necessariamente
segundoa âgura que se orienta ao meu redor. Mas de tal modo que delimito a
minha esfera original (a da "primordialidade") na autoconsideração egológica e,
no seu entrelaçamento, revelo as síntesese implicações intencionais nos seus
estádiosde modificação intencional; enquanto, metodicamente, ao modo de
uma Crochédentro da epoc/zé,ponho fora de validade todas as minhas intropa
tias, e as conservo tão somente como vivências minhas, alcanço as estruturas
essenciais de uma vida originária. Se ponho a intropatia (de acordo com os seus
correlatos intencionais de validade na "coefetuação") como válida, estas estrutu-
ras tornam-se estruturas essenciaisde todo o alterego para mim imaginável, e
levantam-se, então, os problemas do universal comum e das suas formas parti-
culares essenciais, colocados pela intropatia - precisamente as mesmas formas
que surgem objetivadas na observação natural do mundo, a saber, como família,
povo, comunidade de povos e, a partir daí, como estruturas essenciaisda histo-
ricidade humana; aqui, contudo, reduzidas, elas fornecem as estruturas da es
sênciada historicidade absoluta, a saber, <263> as estruturas de uma comuni-
dadetranscendental de sujeitos que, vivendo em comunidade intencional nestas
formas mais gerais como formas particulares a pr orí, tem em si o mundo como
correlato intencional de validade, e cria sempre mais além formas e estádios
semprenovos de um mundo cultural. Isto posto sistematicamenteem marcha,
com os mais estritos de todos os métodos imagináveis, exatamente os da subje-
tividade que medita apoditicamente, e apoditicamente se explicita a si mesma, é
precisamentea filosofia transcendental; e, assim, a psicologia pura nada é, e

209
208
dental e Edmund Husserl Terceira Parte ' A Clarificação do Problema Transcendental e a Função Correspondente da Psicologia
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcen

mostra por intermédio da redução,e que a psicologia pura nada mais é senão
a via infinitamente árdua do genuíno e puro autoconhecimento; inclui-se aqui,
entretanto, o conhecimento do homem, como conhecimento do seu verdadei-
ro ser e vida egológico ou mental e, consequentemente, também o conheci-
mento do mundo; esteé, então, o verdadeiro ser do mundo, que nenhuma ci-
ência positiva, por mais bem-sucedida que seja, pode, por princípio, algum dia
alcançar.O que estasciênciasdenominam conhecimento do mundo éo conhe-
cimento das coisas do mundo, dos seus gêneros e espécies,das suasligações e
separações, das suas alterações e permanências, das suas leis do ser que perdu-
ra no curso das alterações, da sua estrutura e formas mais abrangentes, e da sua
regularidade, a que todo ser das coisas estávinculado. Todos os seus conheci-
mentos, contudo, todas as suas perguntas e respostas, todas as suas hipóteses e
confirmações estão,ou movem-se, sobre o fundo do mundo previamente dado;
o mundo é a pressuposição permanente, e a questão é tão só o que ele é, o que
Ihe cabe no curso das induções do conhecido para o desconhecido. <265> O
mundo não é uma hipótese no único sentido em que as hipóteses têm sentido
para a ciência positiva, por exemplo, como hipóteses sobre a estrutura da Via
$ Láctea - todas as hipóteses da positividade são precisamente hipóteses com
basena "hipótese" mundo, para a qual seria um contrassenso buscar uma fun-
damentação,no mesmo sentido científico positivo. De fato, só a partir da psi-
1'
cologia transcendental ou filosofa podemos ver e compreender o que falta
aqui, como inquirição da "hipótese" mundo, o que é, e o que requer coloca-la
em questão.Completamente não temáticos, esquecidosde certo modo, esta-
mos todos nós como os sujeitos funcionais, em cujo funcionamento, e a partir
de cujo funcionamento há para nós mundo, estamosfora de validade em cada
conteúdo particular que em nós recebe e doa sentido. Não se pode dizer que a
subjetividade funcional tenha já há muito sido descoberta, desde Locke, sob a
forma da teoria empírica do conhecimento. Porque ou era psicologia da posi-
tividade, e falava do homem como os sujeitos funcionais, pressupondo então o
solo do mundo e movendo-seem círculo, ou colocava estesolo efetivamente
em questão,como Hume, que nisto foi muito mais radical do que Kant, preci-
pitava-nos, então, num solipsismo e um ceticismo paradoxais e, de qualquer
modo, numa cruel incompreensão do ser do mundo. A razão disto tornou-se
evidentepara nós. Anunciou-se em geral o problema da validade do solo do
mundo como mundo, que é o que é a partir do conhecimento efetivo e possível,
a partir da subjetividade efetiva e possivelmente funcional. Mas havia que ul
)

trapassarenormesdificuldades, não só para iniciar o método da epoc;zée da


redução, como também para trazê-lo à sua integral autocompreensão, e desco-
brir, assim, pela primeira vez, a subjetividade absolutamente funcional. Não
como subjetividade humana, mas como aquela que se objetiva a si mesma na
subjetividade humana, ou inicialmente nesta.

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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental ' Edmund Husserl Terceira Parte ' A Clarificação do Problema Transcendental e a Função Correspondente da Psicologia

Como reconhecemos,então, é uma ingenuidade permanecer na con- mundo; não respondeele à definição de uma tarefa da psicologia do homem e
cepção antropológica mundana da correlação sujeito-objeto, e interpretar dos animais, por analogia com a cientíâco-natural?
erroneamente as explanações fenomenológicas dos meus primeiros escritos As antigas tentaçõesretornam novamente e, fazendo abstraçãodas obje
como explanações desta correlação. Isto significa estar cego exatamente para çõesprincipiais com que introduzimos a questãoda causalidadee da localiza-
os grandes problemas do paradoxo de que o homem e, na sua comunidade, a ção, deve aqui dizer-se antes de mais nada que somente por meio da absoluta
humanidade, é subjetividade <266> para o mundo e, simultaneamente,nele ausênciade pressupostos,alcançadapelo insuperável radicalismo da integral
deve ser objetivamente mundano. O mundo para nós existente é o que na nossa epoc/zétranscendental, se torna possível uma efetiva libertação das tentações
vida humana tem sentido, e que para nós ganha semprenovamentesentido e tradicionais, e isto signiâca que só então, na posse da totalidade do subjetivo em
validade. Isto é verdade, e também que, para nós homens, o nosso próprio ser, que estão intencional e objetivamente contidos o homem, as comunidades de
quanto ao conhecimento, precede o ser do mundo, mas não por isso segundo homens interior-intencionalmente ligados e o mundo onde vivem, se está capa-
a efetividade do ser. Todavia, a correlação transcendental entre o mundo, na citado a ver e a pesquisar sistematicamenteo que designamos o como dos mo-
vida transcendental constituinte da subjetividade, e o próprio mundo em cons- dos de dação. Precisamente assim se poderia descobrir o fato de que cada dado
tante delineamento e verificação como ideia-polo na comunidade de vida da mundano é dado no como de um horizonte, que nos horizontes estão implícitos
intersubjetividade transcendental, não é a correlação enigmática que decorre outros horizontes e, por fim, que cada dado mundano traz consigo o horizonte
no próprio mundo. Na concreçãoda intersubjetividadetranscendental,no seu do mundo, e só assim é conscientecomo mundano. William James,até onde
vínculo universal da vida, residem o polo e o sistema dos polos singulares a que sei, íoi o único que prestou atenção no fenómeno do horizonte, sob o título de
se chama mundo, incluído, como representatividade intencional, do mesmo ./}ífzges;mas, sem a compreensão fenomenologicamente adquirida, como pode-
modo como numa qualquer intenção se encontra incluída a sua representati- ria questionar a representatividade e as implicações intencionais? Mas, se isto
vidade, como simplesmente inseparável da sua concreção relativa. Nenhuma acontecer,se a consciência do mundo for liberta da sua anonímia, então está
discussão sobre o idealismo e o realismo chegou ainda, até hoje, à consciência já realizadaa ruptura para o transcendental.E se isto acontece,e é alcança-
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do verdadeiro problema que, buscado, mas não encontrado, reside por detrás do o campo transcendental de trabalho como o campo da subjetividade total e
de todasas teorias do conhecimento,para não falar na compreensãoda re universal, então, no retorno à atitude natural, agora não mais ingênua, resulta
dução transcendental,no seu difícil sentido de portão de acessoao genuíno algo de assinalável,isto é, que as mentes dos homens, com o progresso da pes
conhecimento de si e do mundo. quisafenomenológica,entram num movimento notável do seu conteúdomen-
Levantar-se-nos-á agora, entretanto, ainda a questão sobre como a psico- tal próprio. Pois cadanovo conhecimento transcendentalse transforma numa
logia pura que, com a subjetividade transcendental, abandonou o solo do mundo necessidade essencialpara um enriquecimento do conteúdo da mentehumana.
pode ser útil propriamente ao psicólogo no seu trabalho positivo precisamente Como eu <268> transcendental, sou, é certo, o mesmo que na mundaneidade é
sobre essesolo. Não Ihe interessa o transcendental, mas a interioridade existente o eu humano. O que na humanidade me estava encoberto descubro na pesquisa
no mundo; interessam-lhe o homem e as comunidades humanas que ocorrem transcendental. Ela mesma se mostra como um processo mundano-histórico,
no mundo e, quando ele fala da vida da mente e das propriedades de uma.pes: porquanto não só enriquece a história da constituição do próprio mundo com
soa, e levanta ou levantaria questões semelhantes para as comunidades, ele só uma nova ciência, como enriquece também o conteúdo do mundo em todos
visa àquilo que no mundo realmenteocorre, visa ao que sejoga no homem real os aspectos;todo mundano tem o seu correlato transcendental, com cada nova
e na sua consciência de si humana, por meio da experiência de si sem precon' descobertaexistem para o pesquisador do homem, o psicólogo, novas determi-
ceitos e, relativamente a outros, por meio do experienciável pela experiência naçõesdo homem no mundo. Nenhuma psicologia positiva que não disponha
de outrem. Para tal, basta o primeiro estádioda epoclzée da redução,que não da psicologia transcendental já em operação pode descobrir jamais tais deter-
reconhecemos ainda, num autoestudo mais elevado, como a Crochée redução minaçõesdo homem e do mundo. Tudo isto é evidente e, no entanto, paradoxal
pl'opriamente transcendental, ou como a principal Os homens, no seu <267> para todos nós, que fomos educados nos velhos hábitos de pensamento seculares
agir e abster-sehumanos, estão referidos a realidades que são válidas para eles e, em parte, milenares. Mostra-se-nos assim, de uma nova maneira, a diferença
mesmos, mas o psicólogo não pode deixar covaler aquilo que eles tomam por profunda, abissal,entre a matemática, entre qualquer ciência a príarí do mundo,<