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;Husserlconsideraque a ciênciafm pane integrante da origem e do desti- no da humanidade europeia. Por
;Husserlconsideraque a ciênciafm pane integrante da origem e do desti-
no da humanidade europeia. Por esta razão, a crise das ciências europeias,
muito mais do que uma crise epistemológica, é uma crise espiHtual e exis-
tencial da Europa. No entanto, dadasa crescenteeuropeizaçãodasoutras
humanidades e a cientificização e tendencial modernização de todas as
outras culturas, a crise europeia é, além disto, uma crise da humanidade
como um todo. Na medida em que a palavra êzúls significa originalmente
escolhaou decisão,tratava-se,no momento histórico que a Europa viveu
naquelesanos,de decidir acercado sentido da Europa e da humanidade.
ltatava-se de saberse a humanidade europeia fracassadaperante o ideal
da ciência, que é a sua deânição como humanidade de matrb grega, e que
a distingue entre asoutras culturas historicamente situadas. Ou se, pelo
contrário, a humanidadeencontraria os meios de levarà prática o ideal da
c\ênch. 'SÓassim sedecide seo \ecosque,com o vmscimentoda $1oso$a
grega, se tornou ini.atoà humanidade europeia, o \e\os
.] querer
ser uma humanidade a parir
de uma razão $1os6jica,e de sópoda ser
comotal, é um meradetido histórico-fático,uma aquisiçãoacMental
de uma humanidade acidental
[.
.].
Diogo FalcãoFerrer
Diogo FalcãoFerrer

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190 H972( Edmu, m,dHu,ssert A CASE DAS A. CIENCHS EUROPEUS E A
190 H972( Edmu, m,dHu,ssert A CASE DAS A. CIENCHS EUROPEUS E A

Edmu, m,dHu,ssert

A CASE DAS A. CIENCHS EUROPEUS E A FENOMENOLOGH rSCENDENiAL
A CASE DAS
A.
CIENCHS EUROPEUS
E A FENOMENOLOGH
rSCENDENiAL

T]

Uma Introdução à Filosofia Fenomenológica
Uma Introdução à Filosofia Fenomenológica
Edmund Husserl nasceuem Prossnitz.em 1859, na região da Morávia, então parte do Im- pério Austro-Húngaro.De
Edmund Husserl nasceuem Prossnitz.em
1859, na região da Morávia, então parte do Im-
pério Austro-Húngaro.De família judaica,Hus-
serl estudou em escolapública na vizinha cidade
alemã de Olmüu. Posteriormenteestudou física
matemática,astronomiae filosofia nasuniverso.
dades de Leipzig, Berlim e hiena
Em hiena doutorou-se em Filosofia em 1882.
com a tesesobre a]eoda da\eüação dosCálculos
+eitràge zur Tbeorie der Vaüatiottsrecbnung]
Em 1883, em cena, Husserl passou a estudar
com Franz Bretano e, como o mestre, desenvol-
veuaversãoàlinha orientadaexclusivamentepela
crença no fato psicológico como fundamento de
todo conhecimento. O ideário de Brentano acer.
ca de uma psicologia descritiva tcvc significativa
abrangênciae influência sobre Husserl
. ACUSEIHS
No círculo de admiradores de Brentano
espargta-seo espírito iluminista da tolerância re-
ligiosa e da filosofia racional. Husserl seinscreve
como um de seusseguidores,e na Vienade
]887
CIENCHS EUROPEUS
EA FENOMENOLOGH
converge-seao luteranismo e casa-secom Mal-
TRANSCENDENTAL
vine todaavida Steinschneider,sua dedicadamulher por
Após muitos anosexplorando estudos sobre
hlosofia lógico-matemática,Husserl tornou-se
professor orientador na Universidade de Fribur-
go, em 1916,o que significou um renascimen-
to 61osóâco. Neste ponto,
Husserl desenvolve
a basede sua filosofia fenomenológica,com o
ensaio sobre a "FenomenologiaPura,Área de
m=;:=:=lU:zz=z«'".;
Com o advento da Primeira Guerra. Husserl
identifica o colapso da civilização europeia cal'
cada até aqueles áureos tempos no ideário da
cultura, da 61osofiae da ciência. Com o efeito
desagregadosda guerra, Husserl repensa a
fundamentaçãoepistemológca de sua 61osoíia
fenomenológica.Dará\ante, ele empreende a
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www.forenses;l;iil;rsitaria .com br
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Ç O GENl Grupo Editorial Nacional reúne as editoras Guanabara Koogan, Santos, Roca, Ü AC
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O GENl Grupo Editorial Nacional reúne as editoras Guanabara Koogan, Santos, Roca,
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AC Farmacêutica, Forense, Método,
LTC,E.P.U.e Forense Universitária, que publicam
nas
áreascientíâca, técnica e profissional.
Essas empresas, respeitadas no mercado editorial, construíram catálogos inigualáveis,
f
com obras que têm sido decisivas na formação acadêmica e no aperfeiçoamento de
várias geraçõesde profissionais e de estudantesde Administração, Direito, Enferma
gem, Engenharia, Fisioterapia, Medicina, Odontologia, Educação Física e muitas outras
ciências, tendo se tornado sinónimo de seriedade e respeito.
(
b
Nossa missão é prover o melhor conteúdo científico e distribuí-lo de maneira flexível e
conveniente, a preços justos, gerando benefícios e servindo a autores, docentes, livrei-
ros, funcionários, colaboradores e acionistas.
Nossocomportamento ético incondicional e nossaresponsabilidadesocial e ambiental
são reforçados pela natureza educacional de nossa atividade, sem comprometer o cres-
cimento contínuo e a rentabilidade do grupo
» Edmun,dHusserl A CASE DAS A. CIENCUS EUROPEUS E A FENOMENOLOGH TRANSCENDENTE Uma Introdução à
»
Edmun,dHusserl
A CASE DAS
A.
CIENCUS EUROPEUS
E A FENOMENOLOGH
TRANSCENDENTE
Uma Introdução à Filosofia Fenomenológica
De acordo com o texto de Husserliana VI
Editado por
Walter Biemel
Tradução de
Diogo FalcãoFerrer
Diretor cientíâco
<=
Pedro M. S. Alves
UJ
Revisor técnico-ortográfico
para adaptação
da língua portuguesa falada no Brasil
Marco Antõnio Casanova
-' ;;;=o
.J
Aprovada pelos Arquivos-Husserl
de Lovaina
<=
Phainomenon
Clássicos de Fenomenologia
g
Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa
$ «, FORENSE UNIVERSITÁRIA Rio de Janeiro
$
«,
FORENSE
UNIVERSITÁRIA
Rio
de Janeiro
Fenomenologia g Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa $ «, FORENSE UNIVERSITÁRIA Rio de Janeiro

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uu$1HglHR$ili$Wll:B :iiiiiii:j INDICEGERAL As reclamaçõesjdevem ser feitas até noventa dias a partir da compra e
uu$1HglHR$ili$Wll:B
:iiiiiii:j
INDICEGERAL
As reclamaçõesjdevem ser feitas até noventa dias a partir da compra e venda com nota fiscal (interpretação
Traduzido de
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::U=Z'giZ:=;='=!H==i'KiÍIÍ""««'«'.'.
p"""'"'''p. ''« ;;-''"".;« '''
Apresentaçãoda Tradução Portuguesa
xl
Martinus NijhoHPublishers, The pague, 1954.
Primeira Parte
)
UIHill H$H$;1H:lHl: Ei::::i::u:u:w
A CAUSEDASciÊNciAS
COMO EXPRESSÃODA CRisE RADicAL DA VIOA DA nu-
l
l
A
Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental
ISBN 978-85-309-3509-2
' '-------w-,--'u'
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2
Direitos exclusivosda presenteedição para o Brasil
CoPyrljgAf © 2012 by
FORENSEUNIVERSITÁRIA um seloda EDITORA FORENSELTDA.
Uma editora integrantedo GEN l Grupo Editorial Nacional
Travessado Ouvidos, 11- 6' andar i0040-040 - Rio deJaneiro- RJ
4
7
3543-0770
3543
0896
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8
Tels.: (0XX21)
- Fax; (0XX21)
10
bilacpinto@grupogen.com.brl wwwgrupogen.com.br
12
Segunda Parte
:H=SZI'B$:EHl;\u:j: : : '.=Jrs: f
:":nhU=HV.=.==1:ã::::T'T":"'":"--;:
15
$ 8. Á origem da ideia modem?zada u zfversaZldade(üzcürzcza na fru/ieáormação da /nafemáfica
15
$9 4mafematfzaçãoga/fZalcadanatureza
16
a) 4 'keomeírlapura"
17
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:!u el'n111'Hilll-1111'«l«;';:
21
I'edição
- 2012
26
3)
A motivação da concepçãogalilaica da natureza
Editado
por: \Malter Biemel
29
Tradutor: Diogo FalcãoFerrer
e) O «,áí«
«nÚ,«- íí,á
d. àpór«e .ie«f@c.-«af«r.Z/a«d.«-'",./ .
32
Diretorcientífico:PedroM. S.Alves
f)
Oproa/ema do senfído de .lõrmu/a" da ciência da Pzafzzreza .
33
Revisor técnico-ortográfico:
Marco Antânio
Casanova
36
CIP - Brasil. Catalogação-na-fonte
'
38
42
45
H96c
45
Husserl,Edmund, 1859-1938
\Q. A origem da dualismo na modelaridade dominante da ciência clanatureza. A raciana-
cidadedomundo"maregeometrico
47
O dualismo: razão da inapreensibitidade dosproblemas da razão, pressupostoda esse
cialização das ciências ealicerceda psicologia naturalística ' "'
1"ç aposto aa espe
49
$12.Característicagera!doracionalismo.Hsicalistamodertto
Tradução de; Díe Krfsfs der europdfschen WisseP7sc#aÚenund die franszendenfa/e Pãdnomenologfe
'
e Eirzlefüng in diephdnamerzoiogisc/zePhf/osopAfe
\3.Asptimeirasdi$culdadesdortat'"' '----'" ' ''' ' ' ' ' ''' '''''
52
Apêndice A-:-J:
da subjetividade realizadora
listo
Jisicalistana psicologia: a inapreensibilidade
Contém glossário Alemão-Português
ISBN 978-85-309-3509-2
'
54
1.Filosofa moderna. 2. Ciência - Filosofia. 3.Fenomenologia.4. Transcendentalismo.1.Biemel,Walter. 11.Título.
lllw«};«;z ;/:: *Zi#Úii:'l!"1111?if
55
11-7008.
CDU:190
56
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59
A Crisedas Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental e Edmund Husserl Índice Gera 60 $\7.
A Crisedas Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental e Edmund Husserl
Índice Gera
60
$\7. O retornode Descartesao "egocopito".Explicitação do sentidoda "epoché"cartesiana
$ 36. Comopode o muttdo da vida tornar-se o tema de uma ciência,apósa "Croché"das
S \8. A autointerpretação errónea de Descartes:alfalsi$caçãopsicotogistado puro egoalcatt
ciências objetivas? Distittção de princípio
entre o "a priori"
lógico-objetivo
e o "a priori
63
çadopela "epoché'
do mundo da vida
112
$ 19. O interessepremente de Descarnespelo objetivismo como.fundamento da sua errónea
$37. As estruturas maisformalmetlte gerais ciomarido da vida: coisa e mundo,por um lado,
65
aufoilzferprefação.
115
consciência
da coisa, por outro
.
66
$ 20. A "inferzciotzalidade"
em Descarnes
S 38. Os dois modos possíveisjündamentais
de tornar temático o muttdo da vida: a tomada de
S2 1. Descarnescolho porLtodepartida para as duas linhas de desetwolvimertto: a do raciotta
atitude direta natural ingénuaea ideia de uma atitude consequentereFexivasobreo como
67
!isco e a do empirismo
117
do modo subjetivo de doaçãodo mundo da vida e dos abetos do mundo da vida
68
S22. A psicologia naturatístico-gnosiológica de Lacre
$ 39. A especi$cidadeda 'epoché"transcettdental como alteração total da atitude natural da
$ 23. Berkeley
A psicologia de David Hume como teoria .Racionalistado conhecimento:a
120
70
"bancarrota" da$!osoÓae da ciência.
$ 24. O abalo do objetivismo, verdadeiro motivo Jitosó$cooculto tio contrassensodo ceticis
S4Q.As di#culdades do sentido genuíno da eletivação da "Croché"tola!. A tentação de com
preettdê-la erroneamente como uma abstenção,a ser realizada passoa passo,de todas
72
mo
de cume
asvalidadosparticulares
121
S 25. O motivo "transcendental"tío racionalismo: a concepçãode Kart de uma Jilosolia
S 4 \ . A
"Croché"
transcendental
genuína
possibilita
a "redução
tratiscendetítat"
a descoberta
74
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
123
e a pesquisa da correlação transcendental entre o mundo e a consciência do mundo.
79
S 26. Discussão prévia do
conceito, para ttós, orietttador, de"transcendental"
$ 42. A tarefa da ittdicação cottcreta de caminhos para üma execuçãoefetiva da redução
124
transcendental.
.
.
.
$ 27. A Jiloso©a de Kart
e dos seus seguidoresda perspectiva do nossoconceito diretor de
80
125
$ 43. Caracterização de uma rzovavia para a redução, em confrasfe com a "via cartesiana'
transcendente!".A tanga de uma tomada deposição crítica
Terceira Parte
A CLARIFICAÇÃO DO PROBLEMATRANSCENDENTALE A FUNÇÃO CORRES-
S44. O mundo da vida como tema de um interesseteórico, determinado por uma 'epoché;
universal em relaçãoà efetividade das coisasdo muttdo da vida
S45. Início de uma explicitaçãoconcretadas daçõesda intuição sertsívetpuramentecomo tat .
126
128
129
PONDENTEDAPSICOLOGIA
83
$46.O
S47. Indicação de outras direçõesde pesquisa:osfenómenos subjetivos.Mndametüais da sineste
sia, da mudança de validade, da consciêttcia dehorizonte e da comunidade da experiência
131
A. O caminho para a âlosoâa transcenderítal fenomenológica a partir da questão retros
pectiva acerca do mundo da vida pré-dado
83
$ 48. Todo o ente, de quahuer sentido e região,como índice de um sistema subjetivo de cor-
134
83
relações
$ 28. O "pressuposto"tido explícito de Kart: o mundo da vida circundantedado comoóbvio.
S29. O muttdo da vida é acessívelcomo um domínio dejertõmettos quepermattecem "anõ-
S49. Conceitoprévio da constituição trattscendentalcomo "constituição original de sentido".
A limitação exemplar das análisesefetuadas; indicação de horizontes mais vastos de
nz/nos
90
explicitação.
$ 30. A ausência de um método ínfuifívo-mosfrafivo como razão das construçõesmíticas de
S50. Primeira subordinação de todosos problemas de trabalho aos títulos: ego
"copito'
92
H
139
'togifafum'
S3\ . Kart
e a insu#ciêrtcia da psicologiade então.A opacidade da diferença entre sübjetivi-
141
S51. A tareánde uma 'b?zfologfado muradoda vida'
dade
transcendental
e a mente
.
.
94
142
$ 52. Emergem incompreensibilidades
paradoxais.
A necessidade de trovas rePexões radicais
.
.
S 32. A possibilidade de uma verdade escondida na .Rtoso$atrarlscetidental de Kart: o problema
de uma "nova dimensão". O antagonismo entre 'vida superficial" e "vida pro@nda'
$ 53. Os paradoxos da subjetividade humana: o simultâneo ser sujeito para o mundo e ser
96
146
objeto
no mundo
.
.
.
.
.
98
S33. O problema do "mundo da vida" como uma parte do problema gera! da ciência objetivo .
149
$ 54.A
100
$ 34. Exposição do problema de uma ciência do muttdo da vida
149
a) Nós. como homensecomo sujeitos em última irtstâttcia
100
a) O@rença Cafreciência oyetiva eciência em geral.
b) O eu comoeü originário constitui o meu horizonte do outro trariscendetltalcomo
b) A utilização das experiêrzcfasrelativas ao s©eíto para asclé?leiasoqefívas ea ciência
150
cossujeitoda intersubjetividade transcendental constituinte do marido
102
dessas experiê
zcias
S 55. A correção de princípio da nossa abordagem inicial da "epoché" pela redução da mesma
103
c) Será que o relativo ao sQeito é objeto da psicologia?
153
ao ego absolutamente único e em última instãtlciajuncionat
.
.
d) O muttdo da vida como universo da intuitividade prirtcipial - o muttdo "objetivo
103
mente
verdadeiro"
como
substrução
"lógica"
principiatmerite
não
intuível.
.
.
.
155
e) As ciências oqetívas como conúguraçõessuqetivas - como conúgz'raçõesde uma
B. O caminho para a filosofia transcendental fenomenológica a partir da psicologia .
S 56. Caracterização do desenvolvimento.Rios(5©codepois de Kart sob o palito de vista da
praxis particular, a praxis lógico-teorética,pertencenteelaprópria à concreçãocompleta
luta entre o objetivismolisicalista
e o "motivo transcendental" sempre novamente anui
do mz4/zdoda
-
105
155
Ú
J) O problema o mundo da vida, não como um problema parcial, mas comoproblema
161
$ 57. A separaçãofunesta entrejiloso©a
transcenderltate psicologia
107
filosófico
zl zíversaZ
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
S 58. Geminação e distinção da psicologia eda .Rtoso$atranscendental.A psicologiacomo o
110
S 35. Analítica da "epoché" traltscettdental. Primeiro palito: a "Croché" da ciência objetivo
165
campodecisivo.
VI
vtl

l

A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental e Edmund Husserl S59. Arlálise da
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental e Edmund Husserl
S59. Arlálise da mudattça de atitude, da atitude psicológicapara a atitude transceridenfal.A
169
psicologia
"antes" e "depois" da redução lfenomenológica.(O
problema
do "apupo".)
$ 6Q.A razão do lfracasso da psicologia: os pressupostosdualistas eJisicalistas
171
$ 61. A psicologia na tensão entre a ideia da ciência (objetivístico-$1osójica)e o proceder
:mpírico: a incompatibilidade das duas direçõesda pesquisapsicológica(a pesquisapsi-
colísicae a "psicologia a partir da experiência interior") .
S62. Discussãoprévia do contrassensoda equiparação principiamdas mentese dos corpos
comorealidades: referênciaà diferença de princípio da temporalidade, da causalidadee
da individuação nas coisasda natureza e na mente.
173
174
$ 63. Questionabilidadedos cottceitosde "experiênciaexterior" e "interior". Por que não
pertence até aqui ao tema da psicologia a experiência da coisa corpóreodo mundo da
vida, como experiência de algo "meramente subjetivo"?.
$64. O dualismo cartesiano como.fundametttodo paralelismo - Do esquema:ciência descri-
177
179
tiva eciênciaexplicativa,sóestájust$cado o aspectomaisjormal-geral.
$ 65. Exame da correçãode um dualismo empiricamentejundado pehjamiliarização
com o
procedimentofálico dospsicólogoseFsiólogos
181
$ 66. O mundo da experiência geral; a sua tipologia regional e as abstraçõesuniversais nela
possíveis:a "natureza" como corretato de uma abstração universal,o problema da "abs
tração complementar'
183
S67. O dualismo das abstraçõesfutidadas na experiência. O contirLuadoefeito histórico da
abordagem empírica(desde
Hobbes até Wundt). Crítica do empirismo dos dados
186
$68. A tarefa de uma explicitação pura da cottsciênciacomo tal: aproblemática universal da
interlcionalidade. (O ensaio de Bretttatio de r(;forma da psicologia.)
188
$ 69. O método psicológicofuridamentat
da "reduçãojenomenológico-psicológica".
(Primeira
característica: 1. 0 ser referido intencional e a "epoché"; 2. estádios da psicologia descri-
tiva; 3. estabelecimettto do "observador desinteressado".)
190
S70. As d$culdades da abstraçãopsicológica. (Osparadoxos do "objeto intettciottal",
ojenâ-
meno itttencional originário do "sentido'.)
$ 71. O risco da compreensãoerrada da "universalidade" da 'epoché"jertomenológico psico
195
!ógica. A sigtiiBcação decisiva da compreensão carreta
197
$ 72. A relaçãoda psicologia transcertdentatcom ajetlomenologia transcendental como o
acessogettuíno ao puro autoconhecimerito.Abattdotto de$rlitivo do idem!objetivista nas
cíêlzcías da me?zfe
208
214
$ 73. Conclusão:A ftosa$a como automeditação humalla. Autoefetivação da razão
Textos Complementares
A.TRATADOS
.
221
Ciênciada Realidadee Idealização A Matelnatizaçãoda Natureza
221
Atitude Científico-Natural eAtitude Científico-Espiritual. Naturalismo, Dualismoe Psico
logra Psicofísica
232
A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia
249
B.ANEXOS
Anexol ao $ 9
Anexoll ao$9a
284
Anexo111aoS9a
292
Anexo
IV
ao $ 12
314
Vlll
284 Anexo111aoS9a 292 Anexo IV ao $ 12 314 Vlll Índice Geral Anexo V aos $$
Índice Geral Anexo V aos $$ 16 e sega. 318 Anexo VI aos $S 16
Índice
Geral
Anexo
V aos $$
16 e sega.
318
Anexo VI aos $S 16 e sega.
328
O PercursoOrigittat da I' Meditação
337
Anexo Vll
ao S 18
337
Anexo Vlll
ao $ 18
339
AnexoIX aoS20
342
Anexo X ao $$ 21 e sega.
343
AnexoXI aoS23
AnexoXll ao$23.
AnexoXlll àCrise,111A
355
357
358
Prefácio à Continuação da "Crise'
Anexo XIV ao $ 28 .
358
369
A Reação do Empirismo
Anexo XV ao $ 28.
contra o Racionalismo
369
373
AnexoXVI ao$29
378
Anexo XVll
aos $$ 33 e segs.
380
AnexoXVlll ao$34
384
AnexoXIX ao$34e
387
AnexoXX ao S39
.
389
Atitude Natural e"Epoché".A "Efetuação"da Validadedo Mundo
Qual a EfetuaçãoInibida
na "Epoché'
389
AnexoXXI aoS46
393
Attexo de Fina sobre oProblema do "Inconsciente'
393
Anexo
XXll
ao $ 62
.
.
.
395
AnexoXXlll ao$65
400
AnexoXXIV ao$ 73
403
AnexoXXV ao $ 73
408
AnexoXXVI aoS73
419
Estádiosda Historicidade. Historicidade Primeira .
419
Anexo XXVll
421
Anexo
XXVlll
ao $ 73
ao $ 73 .
425
AnexoXXIX
430
Esboço de Fina para a Continuação da "Crise'
430
Glossário Alemão-Português
433
lx
APRESENTAÇÃO DA TRADUÇÃO PORTUGUESA 1.Acercado Zexfo Proibido de qualquer atividade pública na Alemanha nazi,
APRESENTAÇÃO DA TRADUÇÃO PORTUGUESA 1.Acercado Zexfo Proibido de qualquer atividade pública na Alemanha nazi,
APRESENTAÇÃO DA TRADUÇÃO PORTUGUESA 1.Acercado Zexfo Proibido de qualquer atividade pública na Alemanha nazi,
APRESENTAÇÃO DA TRADUÇÃO PORTUGUESA
1.Acercado Zexfo
Proibido de qualquer atividade pública na Alemanha nazi, Husserl 6oi
convidado a proferir, em 7 de maio e em novembro de 1935,conferênciasem
Viena e em Pragasobreo tema da "Filosofa na Crise da Humanidade Euro-
peia':O texto da conferênciadeViena foi publicado pelaprimeira vezem 1954,
incluído no volume VI da Husser/{aníz.As conferênciasde Praga,por suavez,
serviram de basea Husserl para a redação de A Crise das CiênciasFÍ/os(ocase
a Fenómeno/agiaTranscendenfaZ:Uma Introdução à Filosofia Fenomenológica.
Esta foi a obra derradeira
e o testamento
filosófico
de Husserl, que a fez publicar
em Belgrado, em 1936,na RevistaP/zíZosop/zfa- testamentoque contém um
último esforço crítico contra os contrassensosfilosóâcos que, no entender do
autor, impedem o acessoao verdadeiro sentido da filosofa.
Desta primeira edição constavam somente as partes l e 11,ou seja,até o
parágrafo 27. Husserl viria a adoecer e morrer em 1938, ainda antesda catástro-
fe maior da civilização europeia que se seguiria, sem poder publicar as partes lll
A e 111B, ou redigir outras partes que estariam projetadas. Na suaforma atual, a
Cf-isedas Ciências Europeias e a FenomenoZogía Transcendenfa/ foi trazida à es
tampa somenteem
1954,editada por Walter Biemel, como o volume VI da IJus-
ser/iarza. As partes l e ll (parágrafos l a 27) correspondem
ao texto publicado
em
1936,em Belgrado, cujo manuscrito não foi encontrado pelo editor. Da parte lll
(parágrafos28 a 72), não foi encontrado o original redigido em estenograâapor
Husserl, mas somente a cópia passadaa limpo por Eugen Fink e anotada pelo
autor, cópia que serviu de baseà edição de Walter Biemel. Essacópia chegou a
ser enviadapor Husserl aoeditor. Pretendendo
fazer ainda alteraçõesde monta,
Husserl pediu, contudo, o manuscrito de volta, não tornando a envia-lo.
O volume da Husser/íarzaque ora apresentamos em tradução portuguesa
inclui(1) a totalidade do texto tal como publicado em 1936(partesl e 11),(2) as
partes 111A e 111B conforme a cópia de Eugen Fink, com acréscimos de Husserl,
(3) o texto da conferênciade 1935,em Viena, sobre'%.Crise da Humanidade
Europeia" e (4) uma seleção,feita por Walter Biemel, de diversos outros manus
critos de investigação datados entre 1926 e 1938. Dois dessesmanuscritos, pela
sua extensãoe completude, surgem agrupados com a conferência de Viena, e
classiâcadospelo editor como "Tratados Independentes'l Os restantessãoapre-
sentados como Anexos. O parágrafo numerado 73, que antecede imediatamente
os textos complementares e que seapresenta como conclusão da Crise das Cíên-

l

A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental ' Edmund Husserl Apresentação da Tradução
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental ' Edmund Husserl
Apresentação
da Tradução
Portuguesa
elasFÍ/osó/ocasé também um manuscrito independente que o editor considerou,
por razõesde conteúdo, apropriado para funcionar como fecho da obra.
2
4
Obra
repetidamente que a intenção da Fenomenologia transcendental é,pelo contrá-
rio, a de fornecer os meios para uma reflexão e uma responsabilidadeintegrais
pelo significado da humanidade que domina e usaa técnica. Trata-se,aânal, de
ver para que servea ciência, para onde nos conduz, quais assuaslimitações, de
onde provém, por que ecomo setransformou em técnica, com assuasvirtudes.
Husserl considera que a ciência íaz parte integrante da origem e do destino
deâciências e consequentes riscos.
da humanidade europeia. Por esta razão, a crise das ciências europeias,muito
mais do que uma criseepistemológica,é uma crise espiritual e existencialda Eu
ropa. No entanto, dadas a crescenteeuropeizaçãodas outras humanidades e a
Mas trata-se também de saber,em segundo lugar, se a humanidade, po-
dendo encontrar um solo comum onde se radicar, saberá conduzir-se "no es-
forço infinito
de autonormatização por meio desta verdade e genuinidade da
cientiíização etendencial modernização de todas as outras culturas, a crise euro-
peia é, além disto, uma crise da humanidade como um todo. Na medida em que a
palavra "krÊls" significa originalmente escolha ou decisão,tratava-se, no momen-
humanidade':: Husserl toma partido na decisão, muito atual, de saber se a razão
ou alguma forma do que se possa chamar razão - pode e deve reivindicar vali-
to histórico
que a Europa viveu naqueles anos, de decidir
acerca do sentido da Eu-
ropa e da humanidade. Tratava-se de saber se a humanidade europeia fracassada
dade como solo comum de toda a humanidade, ou se a razão âlosóâca, o princi-
pal produto europeu, é somente um fenómeno histórico localizado, um aciden-
te cultural que em nada se distingue de todas as outras peculiaridades locais. Na
peranteo ideal daciência, que é a suadefinição como humanidadede matriz gre-
gae que a distingue entre asoutras culturas historicamente situadas.Ou se,pelo
contrário, ahumanidadeencontraria os meiosde levar àprática o ideal daciência.
verdade, a questão é a de saber se o solo em que as humanidades
estão radicadas
é o da sua nação, da sua raça, da sua cultura, idioma ou religião específicos, ou
quaisquer outras particularidades, segundo os acidentes históricos e potências
"SÓassim se decide se o feios que, com o nascimento da fUosoâa grega, se tornou
fáticas,ou sehá um outro solopara a humanidade regular a suavida. Trata-se
inato à humanidade
europeia, o feios de
.] querer ser uma humanidade
a partir
de saber"se a humanidade europeia transporta em si uma ideia absoluta, não
de uma razãofilosóâca,e de só poder ser como tal, é um mero delírio histórico
sendo um tipo antropológico meramente empírico':'
e, por conseguinte, se a
fático, uma aquisição acidenta] de uma humanidade acidenta]
.]:''
existência de um solo comum à humanidade, idealizado pela razãoíilosóâca, é
Na "razão filosófica': conforme a entende Husserl, está implicado mui-
maisdo que um "delírio histórico-fático':
to da história humana. No impulso, originalmente Êlosófico,da ciência e da
autorreflexãodo homem decidiram-se,e continuam a decidir-se,traços fun
Husserl pretende que o verdadeiro solo da humanidade estápresente no
ideal filosóâco do entendimento na razãoe pela razão. A crise dasciências eu-
damentais da história do Ocidente. Isto é assim em especial sob a forma da Mo-
dernidade e da Contemporaneidade, que partiram do impulso originariamente
ropeias e respectiva civilização, transformadas e submetidas a técnicas cegas,
deve-seà perda dessesolo. A ciência tecnicizada funciona como uma máqui-
grego, íilosóâco e europeu do saber científico
embora saibamos hoje que esse
na'
sem atençãoa qualquer outra fonte de signiâcação vital. A perda do solo
impulso, no seu estadonascente,foi partilhado por algumasoutrasculturas -,
que depois se torna matemático e técnico, e que incluiu também, a cada passo,
o concurso do esclarecimento e da autorreflexão teorético-cognoscitivos. Uma
parte da crise retratada na obra deriva justamente da inadequação desta última
autorreflexão perante o êxito galopante dasciênciaspositivas. Em virtude dessa
inadequação, as ciências perderam rapidamente o seu fundamento
de sentido.
A crise retratada por Husserl é, nestes termos, uma decisão acercado sen-
tido da história europeia e humana em dois níveis. Em primeiro lugar, trata-se
comum da suagenuína radicação é a ruína da humanidade e, por isso,"os ver-
dadeiros combates do nosso tempo, os únicos significativos, são os combates
entre a humanidade já arruinada e a que ainda se mantém radicada, e que luta
por essaradicação,ou por uma Dova;'s Essanova radicação correspondea uma
nova racionalidade âlosófica, esboçadapela Fenomenologia transcendental.
Dado este quadro da situação,a problemática da Crise das CíêzzcfasEzz-
ropeíase a FenomenologiaTrarzscerzdenfa/pode ser exposta num esquemasim-
ples: (1) a apresentaçãodo diagnóstico da crise; (2) a busca da sua etiologia; e
de saber se é possível uma fundamentação última da razão e da ciência por ela
(3) as propostas da sua superação.
produzida. Em casonegativo, a ciência é uma mera simbologia e técnica cegas,
àsquais não subjaz nem deve subjazer nenhuma inteligência acerca da verdade,
2
Loc. cit.
do significado e da finalidade do seu uso. Ao longo da obra, Husserl acentua
3
P.14,/nora.
4
V.p.52,/nora
l P. 13,/n/}a
5
P.13,/nora.
Xll
Xlll

l

11

'\ Edmund Husser Apresentação da Tradução Portuguesa A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia
'\
Edmund Husser
Apresentação da Tradução Portuguesa
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental
(1) O díaXrzósfíco.A crise é uma crise dos fundamentos dasciências:falta
uma compreensãodas suasbasese do seusignificado. É uma crisúdã'filosofa,
o denominado psicologismo.' A Fenomenologia transcendental não pede, por
isso, deixar de começarjustamente por uma crítica ao Psicologismo, conforme
desencaminhada, segundo Husserl, numa floresta de contrassensos, ceticismos
elaborada nos Pro/egómenosà l,ógíca Pzzra,de 1900. Estas falsas interpretações,
eirracionalismos.
É,também, uma crise existencial dacivilização europeia, que
objetivistas e dualistas,que confundiram a mente com uma substância objetiva
abandonou a suamatriz filosófica. É ainda, e finalmente, uma crise da subjetivi
e culminaram no psicologismo, impediram uma efetiva autocompreensãoda
subjetividade humana, e não foi por isso possível compreender a fonte de senti-
dade, do ser sujeito em geral. Se ser sujeito envolve a capacidade de conhecer-se
do de todas as ciências.
e julgar-se reflexivamente na sua atitude perante o mundo e si mesmo, então
uma filosofa que nunca encontrou, por diversos acidenteshistóricos, os meios
de uma compreensãoadequadado sujeito é o espelho de uma subjetividade
aporétiça e desencaminhada.O motivo de A
Crise das CíêlzcíasEuropeias e a
(3) Propostas feóricózsrefzovadas.Husserl apresenta a Fenomenologia
transcendental numa perspectiva de unidade. As inovações que aparecemna
Crisedas CiênciasEuropeiasdevem ser, segundo o autor, entendidas como ex:
renome?zoZogíaTralzscendenfa/é que a crise, que já vinha de trás, chegou, no
presentede Husserl, a uma "escaladaviolenta': perante a qual a Fenomenologia
tensões e aprofundamento da intenção originária da Fenomenologia. Assim,
sob aforma da referida "nova radicação" para asciências epara a ideia da âloso-
fia, é exposta uma racionalidade definida, na continuidade do seutrabalho an-
se apresenta como restituição da fonte primeira de toda a significação.ó
(2) A efíoZogía.A necessidadede buscar ascausasda crise contemporâ
terior, segundo uma redescoberta das próprias
bases a priori
da constituição
da
nea conduz Husserl a um estudo (i.e., a uma questão retrospectiva e reflexiva
pelo sentido, que Husserl designa"Besízznz4ng")histórico-sistemático
acercadas
intencionalidade. Paraalém do ego transcendental, como única fonte desentido
para toda a íilosoâa eciência ejá largamente tematizado em outras obras, como
dificuldades e desenvolvimentos filosóficos que,no passado,conduziram ao re-
IS Ideias para uma Fenomenologia Transcendental e Filosofa Fenomenológica,
ferido extravio da ideia da filosofia e da compreensãoda subjetividade.Esse
de 1913, ou as À4edífações Cízrfesíalzas, de 1929, novos temas e conceitos
são
estudodo sentido parte da deânição do ideal da ciência como íilosoíia. Husserl
percorre o modo como a arteda agrimensura setransforma em técnica e ciência
geométrica por uma crescenteidealização até à Modernidade, quando a reali-
dadeconstruída matemática e geometricamente substituiu, como um ser em si,
a realidade de onde partiu, numa figura de pensamentoque Husserl denomina
introduzidos. O mais conhecido dentre elesé o de mundo da t,ída, que parece
disputar agora com o ego transcendental o lugar de fonte originária de sentido.
O mundo davida é entendido como o horizonte pré-científico
a toda e qualquer idealização cientíâca. Trata-se do mundo
de sentido prévio
da coxa, relativo
aospropósitos e fins humanos,da intuição sensívelnão "substruída"por cons-
"substrução':Aquilo
que era somente um método, uma técnica de produção
truções idealizadas. Compõe-se de teleologias, de corpos, e corpos somáticos,
teórica, transformou-se na realidade em si. O culminar desteprocesso coincidiu
causalidades,signiâcaçõese indutividades próprias da praxis humana. Toda a
com a âlosofia de Descartes,que aparececomo figura bifronte, inaugural da Mo-
dernidade. Se,por um lado, foi o genial iniciador do caminho para uma correta
ciência, pelo contrário, vive dasuspensão,da epoc/zédestemundo pré-científico.
A condição da iluminação objetiva do mundo pela ciência é o obscurecimento
interpretação da subjetividade segundoas exigênciasda ideia mais autêntica da
filosofia, por outro lado deu também início a um dualismo funesto que, através
devárias modificações,desembocouno contrassensopsicologista.As duaspos
do seu signiâcado relativo ao sujeito. Mas esta relatividade é, pelo contrário,
constitutiva do mundo da vida. Ora, o mundo não é uma hipótese em nenhum
sentido,mas estrutura transcendental a priori, o que quer dizer, inultrapassável.
sibilidadesessenciaisda Modernidade - o descobrimentorefletido do sentido
A intencionalidade do ego transcendental manifesta-se, em última instância,
do ser e a tentação da substituição dessesentido pela tecnicizaçãoe objetivação
como estrutura do mundo da vida. Deste mundo da vida fazem parte outras
de tudo - estavam desde logo reunidas no pensamento cartesiano. O dualismo
mente-corpo cartesianocomeçoupor isolar a objetividade científica de tudo
o que fosserelativo ao sujeito; essedualismo procurou em seguidaelaborar,
estruturas fundamentais de sentido, como a do corpo somáfíco, a da ilzfersub-
jefivídade, a da Zíngz4agemou a da comz4nídadede cíenfisfascomo constitutivos
de uma racionalidadenão mais unilateralmente encurtada como objetivismo
com os empiristas britânicos, uma psicologia objetiva, como sea mente pudesse
ser tratada com um estatuto análogo à ciência objetiva dos corpos físicos;para
fisicalista ou substrução idealizada. Sea crise da ciência é "a perda da suasigni-
ficação para a vida': o restabelecerda suasigniâcação para a vida deveconsistir
acabar por tentar atribuir
funções teorético-cognoscitivas
de fundação das ci-
no reatar da ligação da ciência, pela filosofa, com as evidências originariamente
signiâcativaspara a vida. E essasselocalizam no mundo da vida, da intersub-
ências objetivas à ciência objetiva que trata da subjetividade, a psicologia, com
7
V.p.450,/n/ra
6 P.14 e 15,/nora.
xv xtv
xv
xtv
l l 11 Edmund Husserl A Crisedas Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendenta Apresentação da

l

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l l 11 Edmund Husserl A Crisedas Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendenta Apresentação da Tradução
Edmund Husserl A Crisedas Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendenta Apresentação da Tradução Portuguesa
Edmund Husserl
A Crisedas Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendenta
Apresentação
da Tradução
Portuguesa
jetividade ou do corpo. O sentido transcendental a priori destenovo campo
jetivas de construção de corpos físicos ou químicos e fazer previsõesde acordo
da racionalidade é, segundo Husserl, que "nenhum homem imaginável, e por
mais transformado que o pensemos, poderia experienciar um mundo noutras
com isso - nada disto explica coisa alguma, mas necessitade explicação. A única
explicação efetiva é tornar transcendentalmente
compreensível:'io A "antologia
maneiras de doação, a não ser na relatividade incessantemente mutável, por nós
do mundo da vida" assimesboçadaconsistena descriçãoque permitirá tornar
em geral circunscrita, como um mundo previamente dado navida da suacons-
ciência e em comunidade com a suaco-humanidade;'8
Mas,aointegrar o mundo da vida como elementodesentido fundamental,
Husserl acabou,então,por ficar presoà situaçãono mundo concreto como hori-
zonte último, à relatividade situacional, antropológica ou outra, que sempre re-
compreensível, como estrutura transcendental, a partir da teleologia da razão
que setorna explícita atravésdahistória, até o modo como seconstitui necessá-
ria e fundadamente o ego na suaconcretude mundana.
A. Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental é um
cusou? Ficou em causao "privilégio
absoluto da razão objetiva" que defendia em
1901,na sua I' InvestigaçãoLógica, perante a necessáriarelatividade ao sujeito
de todo o mundo davida? É possívelfazer ainda um último esforçoreflexivo que
dê à Fenomenologia um acessonão meramente factual à relatividadeinerente ao
mundo da vida, ou seja,uma descrição universalmente válida para a relatividade
estudo transcendental-histórico que visa a tornar compreensível a crise, exis-
tencial e histórica, bem como os fundamentos necessariamentefilosóâcos das
ciências europeias. A obra culmina os esforços fenomenológicos para definir
a fonte da significaçãodos modos da intencionalidade do ego puro. Perantea
crise europeia, uma coisa é clara: "não podemos prosseguir seriamentecom o
nosso âlosoíar como até aqui't''
A resposta,para Husserl, não poderia estar
do mundo da vida?Como relativizar maisuma vezestehorizonte último e inul-
em substituir o jugo da razão europeia que, apesardos descaminhos, deve ser
trapassável de relatividade? Husserl projeta na Crise das CiênciasEzropefas uma
'ontologia do mundo da vida': uma ciência eidética deste objeto especíâco, que
o jugo da responsabilidade perante a
humanidade, por um outro, porventura
atenda,na suaevidência própria, à sua relatividade ao sujeito do mundo como
maispesadoainda, mas em levar até o fim a responsabilidade inerente aessara-
cionalidade. A tarefa era para Husserl, então, a de encontrar uma racionalidade
fenómeno. A nova questão da Fenomenologia será a racionalidade da história e,
apropriada para tornar compreensíveisos fenómenos significativos da existên-
como se disse,a do corpo, da intersubjetividade ou da comunidade de investi-
gação.A Fenomenologia busca agora uma racionalidade finalmente última, ou
seja,que não seabstraia do horizonte mais vasto de sentido, o mundo da vida.
cia humana, sem abandonar a responsabilidade de uma filosofa
preocupada
com a fundamentação última das suasteses.Esteesforço anal de alargamento
e
aprofundamento da Fenomenologia em direção à história, ao problema do
Visado é então um conhecimento integral da intencionalidade
mais vasta de to-
eventualsentido universal da racionalidade europeia e a um questionamento
das, a do homem concreto, histórico
e social nas suas evidências específicas.
sem restrições- em parte explícito, em parte implícito
acercado valor das
Como entende Husserl a integração desta relatividade mais radical no
prometooriginariamente eidético da Fenomenologia, projeto essedotado da sua
evidência própria? Também esta relatividade deve ser eideticamente descrita
e compreendida ao seu nível de evidência fenomenológica adequado. Para o
filósofo, "toda evidência é o nome de um problema, excetoa evidência fenome-
filosofias relativistas e irracionalistas, conduziu a temas e problemas que setor-
naram centraispara o século XX, e continuam vivos ainda hoje.
A
Crise das Ciências E ropeías persegue, à maneira
fenomenológica,
uma
verdadeira diabética da Au!/klãrung. Trata-se de indagar se é assim e de iluminar
os motivos
historicamente esquecidospelos quais "sempre a razão terá de setor
nológica, depois de seter clarificado reflexivamente a si mesma e demonstrado
nar o sem-sentido, a benfeitoria uma praga':': A resposta para esteenigma histó-
como
evidência última;'9 Mas esta evidência última caracteriza a âlosoâa não
como esfera de certezas absolutas, mas como prometode compreerzsãodo sentido
rico, que pareceser comum tanto à razãoeuropeia quanto aoirracionalismo em
geral, não passa,segundo Husserl, pela renúncia foz4fcourt à ideia europeia da
num horizonte infinito. Assim, "é,naturalmente, um erro risível, embora infeliz-
mente habitual, querer combater a fenomenologia transcendental consideran-
razão, mas pela aprendizagem, por ela, dos novos territórios
próprios da relativi-
do-'a como um "cartesianismo': como se o seu "ego cogíro" fosse uma premissa
ou esferade premissas,a partir da qual fossem,com absoluta"segurança':de-
dade, que sãoinerentes ao mundo da vida eaos temas a ele associados.Especial-
mente no momento da crise da razão "é de qzzaZquerma?leira rzecessáríoo esfzzdo
ja questão reflexiva ao sentido, "Besírzrzzzng"l, para que nos encontremos:':'
duzidos os restantes conhecimentos
[
] . Não importa
assegurar a objetividade,
mas compreendê-la 1
1.Deduzir
não é explicar. Prever, ou conhecer formas ob-
lO
Ibidem.
11 P. 14,inÍra
8 P.168,/nora.
12
P.4,/nora.
9 P.192-193,fr7fra.
13 P.510,//lira
XVI
XVll
A Crisedas Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental Edmund Husser 3. Sobre a Tradução A
A Crisedas Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental
Edmund Husser
3. Sobre a Tradução
A tradução para a língua portuguesa que trazemosagora a público segue
a edição da HusserZiana,volume Vl: Edmund Husserl, Díe Krisís der ezzropãís-
;hen Wissenscha$enund die transzendentalePhãnomenologie.Eine Einleitung
ín díep/zãnomeno/ogísc/zePhí/osop/zie,org. por Walter Biemel, 2. Auflage, Haag.
Martinus Nijhoa, 1962.A tradução procura um compromisso entre a legibilida-
dee a literalidade. Julgamosque em quasetodos os casosfoi possível encontrar
uma via sem sacrificar essencialmentenem a língua portuguesa, nem o pensa-
mento, a escrita e o estilo do autor. Em diversaspassagensde maior dificuldade
socorremo-nos do auxílio das seguintes traduções: Edmund Husserl, Z,aCrise
des Scíences Ezzropéennesef /a P/zénoméfzoZogíeZranscendanfaZe. Traduzida
do
alemão por Gérard Granel. Paras:Gallimard, 1976;e Edmund Husserl, 77zeCrí-
dsolfEuropea?zScíencesand TranscendentalP/zenomeno/OXy.An Introduction to
Phenomenological Philosophy. Traduzida por David Carr. Evanston:Northwes-
tern Univesity Press,1970.
A terminologia íoi bastantemelhoradacom o auxílio do Doutor Pedra
Alves, a quem dirijo o respectivo agradecimento. Ao Doutor Pedro Alves deve-
se também a tradução incluída nestevolume da conferência de Viena ':A Crise
da Humanidade Europeia e a Filosofia':
As notas de rodapé acrescentadaspelo tradutor estãoassinaladascom as
iniciais N.T. Sãoasnotascom asconsideraçõesestritamente indispensáveispara
a boaleitura da tradução
Completa a tradução um Glossário Alemão-Português, onde reunimos
diversos termos técnicos, peculiaridades que se revelaram necessáriaspara a
tradução ou termos de tradução menos fácil ou menos óbvia.
xv l ll
(& <1> PRIMEIRA PARTE A CRISEDAS CIÊNCIAS COMO EXPRESSÃODA CRISE RADICAL DA VIDA DA HUMANIDADE
(& <1>
PRIMEIRA
PARTE
A CRISEDAS CIÊNCIAS COMO EXPRESSÃODA CRISE
RADICAL DA VIDA DA HUMANIDADE EUROPEIA
S \ . Há efetivamente, em face de seus constantes êxitos, uma crise das ciências?
S \ . Há efetivamente, em face de seus constantes êxitos, uma crise das ciências?
Tenho de estar preparado para que, neste local dedicado às ciências, já
o título destasconferências A crise das ciências europeias e a Psicologiai sus-
cite objeções
Épossível
falar seriamente de uma crise pura e simples dasnos-
sas ciências? Não será este discurso, muito
ouvido hoje em dia, um exagero?
A crise de uma ciência não diz nada menos que o seguinte: a sua cienti6cida-
de genuína, todo o modo como ela deâniu a sua tarefa, e, para isso, formou a
suametodologia, se tornou questionável. Isto
pode convir à filosofia, que sevê
ameaçada em nosso presente de sucumbir ao ceticismo, ao irracionalismo
e ao
sticismo. O mesmo pode ser válido para a psicologia, enquanto ainda tiver
aspiraçõesfilosóficas, e não quiser ser simplesmente uma das ciênciaspositivas
entre outras.Mas como sepoderia íal'arpropriamente, e com toda a seriedade,
de uma crise das ciências em geral, ou seja, também das ciências positivas' entre
elas,de uma crise da matemática pura, ou das ciências exatasda natureza' que
nunca podemos deixar de admirar como modelos de cientiâcidade rigorosa e
maximamente bem-sucedida? É certo que estas ciências se mostraram como
mutáveis quanto ao estilo geral do seu arcabouço teórico e de sua metodologia
sistemática. SÓrecentemente elasromperam uma paralisia que, neste aspecto,
as ameaçavasob o título de física clássica,como a supostacompletude clássica
do seuestilo há séculosconservado.Mas signiÊca<2> entãoo combatevito-
rioso contra o ideal da física clássicae, do mesmo modo, a controvérsia ainda
a decorrer em torno de uma genuína forma de construção da matemática pura
conforme ao seusentido, que a física e a matemática anteriores não eram ainda
científicas,ou que elas,embora acometidasde certa falta de clarezaou obs-
curidades,não adquiriram, no seu campo de trabalho, intelecções2evidentes?
Não serãoestasintelecçõesobrigatórias também para nós, que' nos libertámos
dessesantolhos?E a partir daí, senos colocarmos na posição dos clássicos,não
poderemoscompreender totalmente como foi nela que surgiram todas asgran
l
Este era o título inicial do ciclo de conferências de Praga
2
N.T.:"E/ns/chten".Na falta de melhor opção portuguesa, traduzimos "E/nsfchr' por "inte-
lecção",não obstante perder-seem boa medida a ressonânciavisual ("9chr')
queo termo
a emão possui. No que concerne aos termos derivados de "f/r7s/cht'l veja-sea nota da p.
<b>tntra.
'
possui. No que concerne aos termos derivados de "f/r7s/cht'l veja-sea nota da p. <b>tntra. ' l

l

l

A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental e Edmund Husserl ise Radicalda Vida
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental e Edmund Husserl
ise Radicalda Vida da Humanidade Europeia
des descobertas,definitivamente válidas, bem como a plenitude dasinvenções
técnicasque tão grande motivo deram para a admiração dasgeraçõespreceden-
tes?A física sempre fot e continua a ser uma ciência exata, sqa ela representada
por um Newton, um Planck, um Einstein ou por quem quer que sejano ftlturo.
Ela permanece ciência exata,ainda que tenham razãoos que achamque nunca
se poderá esperar ou buscar uma âgura absolutamente última para o estilo de
construção detida
ateorética
Algo de similar é manifestamenteválido também paraum outro grande
grupo de ciências que costumamos
incluir
nas ciências positivas, a saber, asciên'
das concretasdo espírito, como quer que seconsidere a suacontroversa remis-
são ao ideal de exatidão das ciências da natureza - uma questionabilidade que
também já aÉeta,aliás, a relação das disciplinas biofísicas (as ciências "concretas"
da natureza) com as disciplinas das ciências da natureza matematicamente exa-
tas. Não estáem questãoo rigor da cientiâcidade de todas estasdisciplinas,à
evidência das suasrealizações' teóricas e dos seusconcludentes resultados du-
radouros. SÓnão estaremostalvez tão certos em relaçãoà psicologia, na medida
em que pretende ser a ciência fundamental abstrata,explicativa em sentido últi-
mo
para as ciências concretas do espírito. Mas, se se considerar o seu manifesto
atrasoquanto ao método e aosresultados,' como um desenvolvimento natural.
mente mais lento, também ela,de um modo muito geral, poderá ser admitida.
Em todo caso,não pode deixar de ser reconhecido o contraste da "cientificidade'
destesgrupos de ciências em relação à "não cientiâcidade" da âlosofia. Assim,
reconhecemos de antemão uma certa justiça ao protesto interior inicial <3> dos
cientistas, seguros do seu método,
contra o título
destas conferências.
2.A reduçãopositivista da ideia deciênciaa uma mera ciênciadejatos.A
:íaciênciacomoperda da sua sigtt$cância para a vida
crise
Todavia, a partir de uma outra perspectiva, a partir, designadamente, dos
lamentos gerais sobre a crise da nossa cultura e do papel que nela é atribuído às
ciências, talvez surjam motivos para submeter a cienti6cidade
de todas as ciências
a uma crítica séria e mzzffo necessária, sem por isso abandonar o seu sentido pri-
meiro de cientificidade,
inatacável na correção das suas realizações metódicas.
Queremos, de fato, empreender a alteração indicada de toda a perspec-
tiva da observação.Ao leva-la a cabo, depressairemos perceber que a questio-
nabilídade de que a psicologia padece, não só nos nossosdias, mas há séculos
-
a "crise" que Ihe é própria -, tem um
signiâcado central para o aparecimento
5
3
N.T.
Leistungen'
V.nota
à p. <26> i/tara.
N:T3 "Bes/nnung". Em alguns contextos, mas não em todos, o termo "Bes/nnung" admitiria
4
N.t
Leistungen'
V.nota à p. <26> /rtfra.
tamos-sor "estudo"
çao . A nm de manter a uniformidade da terminologia da obra, op-
2
3
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental Edmund Husserl Primeira Parte e A
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental
Edmund Husserl
Primeira Parte e A Crisedas Ciências como Expressão da Crise Radicalda Vida da Humanidade Europeia
mundo, e a existência humana nele, ter na verdade um sentido, se as ciências só
Deus.A filosofia <6> como teoria não liberta somente o investigador, mas todo
admitirem como verdadeiro aquilo que é destemodo objetivamente verificável,
se a história não tiver mais nada a ensinar senão que todas as âguras do mundo
espiritual, todos os vínculos de vida que a cada passomantêm o homem, os
aqueleque seja formado âlosoíicamente. À autonomia teórica segue-sea prá-
tica. No ideal que guia o Renascimento, o homem antigo é aqueleque se forma
intelectivamente' numa razãolivre. Isto implica, para o "platonismo" renovado:
ideais, as normas, se formam e voltam a se dissolver como ondas fugazes,que
sempre assim foi e será,que a razão sempre terá de se tornar o sem-sentido, a
benfeitoria, uma praga? Seráque podemos nos satisfazer com isso, será que po-
demos viver neste mundo, cujo acontecer histórico não é outra coisa senão um
importa não só conâgurar-se a si mesmo eticamente, mas conâgurar de novo
todo o mundo humano circundante, a existência política e social da humanida-
de, a partir da razãolivre, a partir das intelecçõesde uma âlosoâa universal.
De acordo com estemodelo antigo, que seimpõe deinício aosindivíduos
encadeamento
interminável
<5> de ímpetos ilusórios
e amargas decepções?
e em círculos restritos, deve surgir novamente uma filosofa
teórica, que não
deve ser recebida cegamente de um modo tradicional,
mas como algo de novo a
S3. A futldametttação da autonomia da humanidade europeiapela nova concep-
ção da ideia de .Êloso$ano Renascimento
partir de uma investigaçãoe de uma crítica próprias.
Deve-sesublinhar aqui que a ideia de âlosoâa transmitida pelosantigos
não é o conceito escolarque nos é habitual, o qual apenasengloba um gru-
po de disciplinas; estaideia altera-se substancialmente, é certo, logo após a sua
Nem sempre a ciência compreendeu a suaexigência de uma verdade rigo-
recepção,mas formalmente mantém, nos primeiros séculosda Modernidade,
o sentido de uma ciênciaom?zí-e/zgZobanfe,a ciência da totalidade do ente.As
rosamentefundada no sentido daqzieZaobjetividade que domina metodologica-
mente asnossasciênciaspositivas e que,atuando muito paraalém delas,confere
a um positivismo filosófico marcado pela visão de mundo um suporte e uma
ciências no plural, todas asciências que serãoum dia fundadas e todas as que
já estão trabalhando, são apenas ramos não autónomos da filosofa
una. Numa
divulgação universal. Nem sempre asquestões específicasda humanidade estive-
ram banidas do domínio da ciência, e nem sempre foi colocada fora de considera-
ção a sua referência interna atodas as ciências, mesmo àquelasem que o homem
ampliação ousada,e mesmo arrebatada,do sentido da universalidade, que já se
inicia com Descartes,esta nova filosofia não aspira a nada menos que abraçar,
com rigor cientíâco,todas asquestõesque têm em geralsentido na unidadede
não é o tema (como nasciências da natureza). Enquanto as coisassepassaram
demodo diferente, aciência pede reivindicar um significado paraa humanidade
europeia que se configura, desdeo Renascimento,de um modo completamente
novo, e mesmo, como sabemos,o signiâcado condutor destanova configuração.
Porque elaperdeu estacondução,porque sechegou a uma alteraçãoessencial,à
um sísfemafeóríco,numa metodologia de intelecçãoapodítica e num progresso
infinito, mas racionalmente ordenado, da pesquisa. Uma construção única de
verdadesdefinitivas, ligadas teoricamente, que continua a crescerinânitamen-
te de geraçãoem geração,devia assim responder a todos os problemas que se
pudessem pensar - problemas de fatos ou problemas da razão, problemas da
temporalidade
ou da eternidade.
restrição positivista da ideia de ciência
compreendê-lo, segundo os seusmoti-
vos mais pr(Z/findos, é de importância
para a intenção destas conferências.
O conceito positivista de ciência, no nosso tempo, é, então
considerado
No Renascimento,como bem sesabe,a humanidade europeia leva acabo
em si uma inversão revolucionária. Ela vira-se contra o seu modo de existir
historicamente -, um corzceítoresidzíaZ.Ele deixou cair todas as questõesque
se tinham incluído nos conceitos, ora estritos, ora alargados,da metafísica,en-
tre asquaistodasasquestõesque,de um modo pouco claro, são chamadasde
até então, contra o modo de existir medieval, desvaloriza-o e passaa querer
configurar-se livremente de um modo novo. A humanidade antiga é o modelo
admirado. No Renascimento,busca-sereproduzir em si estetipo de existência.
Que apreendea humanidade europeia, no homem antigo,como o essen-
cial? Após alguma hesitação,o essencialnão é senãoa forma de existir "filosófi
' questões supremas e últimas':
Vistas mais exatamente, estas, e todas aquelas que
foram em geral excluídas, <7> recebem a sua unidade indissolúvel ao conterem,
sejaexplicitamente, sejaimplicitamente no seu sentido, osproblemas da razão
- da razão em todas
as suasâguras particulares. Ela é explicitamente o tema nas
cd': o dar-selivremente a si mesmo, a toda a suavida,
assuasregras,a partir da
razão pura, a partir da âlosoâa. A filosofia teórica é a primeira coisa.Tem dese
operar uma observaçãodo mundo que sejarefletida, livre dos vínculos do mito
e da tradição em geral, um conhecimento universal do mundo e do homem
6 N.T.: "E/ns/chtfg". Seria de considerar a opção "inteligivelmente".
Optou-se, contudo, por
verter "E/ns/chr'por "intelecção",e os seusderivadospor termos da mesmafamíliaem
detrimento de "inteligível" ou "inteligibilidade". igualmente legítimos como pares de "in-
numa absolutaausênciade pressupostos
reconhecendoânalmente, no pró-
telecção". A opção por "intelectivo", "ínteleccionável" ou "intelecüvidade"
valor específico do termo "E/ns/chr' em Husserl.
faz ressaltar o
prio mundo, a razão e teleologia que nele residem, e o seu princípio supremo:
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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendenta
EdmundHusser
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disciplinas do conhecimento (a saber, do conhecimento verdadeiro e genuíno,
$ 4. O /racassoda nova ciência,de início bem-sucedida,e o seu motivo não
do conhecimento racional), do valor verdadeiro e genuíno (dos valores genuínos
enquanto valores da razão), da ação ética (do agir verdadeiramente bom, o agir a
partir da razão prática); a razão é, assim, um título para ideias eideais "absolutos';
esclarecido
Ora, se a nova humanidade, animada e agraciada por essealto espírito,
'eternos'; "supratemporais':
válidos
"incondicionalmente':
Se o homem
se torna
um problema "metafísico'; um problema especiâcamente filosófico, ele está em
não resistiu, isso só pede ter acontecido por ela ter perdido aquela crença entu .
siasmante no seu ideal de uma filosofia universal e no alcance do novo método.
questãocomo ser racional; e, sea suahistória estáem questão,é porque se trata
do "sentido': da razão na história. O problema de Deus contém manifestamente
E assim aconteceuefetivamente. Verificou-se que este método só podia atuar
com resultados indubitáveis nas ciências positivas. As coisas eram diferentes
o problema da razão "absoluta" enquanto fonte teleológica de toda a razão no
mundo, do "sentido"do mundo. Naturalmente,também a questãoda imortali-
na metafísica,ou seja,nos problemasfilosóficos em sentido particular, apesar
de também aqui não ter havido falta de inícios esperançosos,aparentemente
dade éuma questão da razão,como não o é menos a questão da liberdade. Todas
estas questões "metafísicas': tomadas de um modo
alargado, as questões que no
discurso usual sãoas especiâcamente filosóâcas, ultrapassam o mundo enquanto
bem-sucedidos. A filosofia universal, na qual estesproblemas - de modo muito
pouco claro - estavam ligados às ciências de fatos, assumiu a forma de filosofias
sistemáticas impressionantes que, infelizmente, não se reuniam, mas se desalo-
universo de meros fatos. Ultrapassam-no precisamenteenquanto questõesque
têm o sentido da ideia de razão. E todas elas reivindicam uma maior dignidade
javam entre si. Mesmo que ainda no século XVlll
sepudesseestar convencido
da possibilidade
de chegar a uma unificação, a uma construção
que se ampliasse
em face das questões acerca de fatos, as quais estão abaixo delas também na or-
teoreticamente de geração em geração e, com a admiração geral, permanecesse
dem do questionamento. O positivismo, por assim dizer, decapitaa filosofia. Já
na ideia antiga de âlosoíia, que encontra a sua unidade na unidade inseparável
inabalável perante qualquer crítica, tal como foi incontestavelmente o casonas
ciências
positivas
esta convicção era insustentável por muito tempo. A crença
de todo o ser,estavacovisadauma ordem do ser plena de sentido e, por isso,
no ideal da âlosofia e do método, que guiava os movimentos desdeo início da
também dos problemas do ser. Deste modo, coube à metaHsica,à ciência das
questõessupremase últimas, a dignidade de rainha das ciências, cujo espírito
unicamente proporciona o sentido último a todos os conhecimentos,aosconhe-
Modernidade, começaa oscilar; e isso não, por exemplo, pela simples razão
exterior de que cresceuenormemente o contraste entre osconstantesinsucessos
da metafísica e o ininterrupto
e cada vez mais impressionante
avolumar
<9> dos
cimentos de todas as outras ciências. Também isto foi assumido pela filosofia de
resultadosteoréticos e práticos dasciênciaspositivas. Tal contraste atuou tanto
maneira renovada,sendoque esta atéacreditou ter descobertoo verdadeiro mé-
todo universalpelo qual teria deser possívelconstruir uma âlosoíia sistemáticaa
sobre os que estavam de fora do movimento
como sobre aqueles cientistas que,
culminar na metafísica, decididamente como p/ziZosop/ziaperennis.
Compreendemosa partir daí o impulso que animava todos os empre
endimentos científicos, mas também os empreendimentos das meras ciências
de fatos de nível inferior, impulso que, no século XVl11, <8> que se chamava a
si mesmo de século âlosófico, infundiu em círculos cadavez mais alargados o
no empreendimento especializadodas ciências positivas, se tornaram cada vez
mais especialistasnão filosóâcos. Mas também nos investigadores completa-
mente imbuídos do espírito âlosófico, interessados,por isso,principalmente pe-
las questõesmetafísicassupremas, instalou-se um sentimento de fracassocada
vez mais agudo, e, nestes,por moffvosmais profundos, embora completamente
obscz4ros,motivos que levantavam um protesto cada vez mais ruidoso contra
entusiasmo pela âlosoíia e por todas as ciências singulares como suasramifica-
as obviedades' profundamente
enraizadas do ideal dominante. Chega, então, a
ções.Daí aqueleímpeto ardente para a ilustração,' aquelezelopor uma reforma
âlosófica do ensino e dasformas da existência social e política da humanidade
longa época de uma luta apaixonada, que se estende desde cume e Kant até os
nossosdias, para aceder a uma autocompreensãodas verdadeiras razõesdesse
inteira, que torna tão digna de louvor estaera do iluminismo, tantasvezesde-
fracasso de séculos;naturalmente, uma luta que se desenrolou numa pequena
preciada. Possuímosum testemunho
imperecível
deste espírito no magnífico
minoria
de vocacionados e eleitos, enquanto a massa dos restantes encontrou e
hino de Schiller e Beethoven 'Ã Alegria'l Hoje só podemos compreender este
hino com sentimentos dolorosos. Não é pensávelum maior contraste em rela-
continua
a encontrar
rapidamente
a sua fórmula
para se tranquilizar
a si e aos
seusleitores.
ção à nossasituação atual.
Bildung'
8 N.T.:Não obstante alguma repulsa linguística,o uso do substantivo abstrato "obviedade
para traduzir "Se/bstverstãnd//chke/r',revelou-se como a solução menoscomprometedora
dasimultânea lateralidadee legibilidade do texto.
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$ 5. O ideal da .Êtoso$auttiversal e o processoda suadissoluçãoittterna
então, a medieval
e
a antiga, se quer renovar
radicalmente
por meio
de sua nova
Uma estranha mudança de todo o pensar foi a consequência necessária.
A âlosoíia tornou-se ela mesma um problema e, compreensivelmente,em pri-
meiro lugar soba forma da possibilidade de uma metafísica,o que aíetava,como
sedisseacima, o sentido e a possibilidade implícitos em toda a problemática da
razão. No que respeita às ciências positivas, elas estavam aí desdelogo como
filosofia, e unicamente por meio dela. Assim, a crise da filosofia significa a crise
de todas asciências modernas enquanto elos da universalidade âlosóâca, uma
crise inicialmente latente, mas que emerge depois cada vez mais à luz do dia.
crise da própria humanidade europeia em todo o sentido da suavida cultural.
em toda
a sua "existência':
O ceticismo em relaçãoà possibilidadede uma metafísica,o desmoro-
namento da crençanuma filosofa universal como condutora do novo homem,
inatacáveis.Contudo, o problema de uma metafísicapossívelabrangiaeo 4'se
também o da possibilidade das ciências de fatos, as quais tinham na unidade
inseparávelda Êlosofia o seu sentido referencial, o seu sentido como verdades
para simples domínios do ente.9Seé a razão cognoscenfeque defermí/zaaqzz{/o
que é o erzfe,serãoseparál,eisa razão e o erzfe?A pergunta basta para tornar de
significa precisamente o desmoronamento da crença na "razão': entendida tal
como os antigos contrapunham à coxa a qlsfeme. É ela que <11> a tudo aquilo
que supostamente é, a todas as coisas, valores, fins, confere em última instância
um sentido, a saber,a sua referência normativa àquilo que, desdeos inícios da
âlosofia, era designado pela palavra verdade
verdade em si - e, correlativa-
antemãocompreensívela indicaçãode que o processohistóricotem, no seu
mente, pela palavra ente
6vzoç óv. Assim, cai também a crença numa razão
todo, uma figura muito estranha, que só é visível por meio de uma explicitação
aliso/ufa" a partir da qual o mundo tem o seu sentido, a crença no sentido da
da mais íntima motivaçãooculta: não a âgura de um desenvolvimentounifor-
história, no sentido da humanidade,na sua liberdade, nomeadamentecomo a
me, de um crescimento contínuo de aquisiçõesespirituais permanentes <10>
ou de uma transformação dasâguras espirituais, dos conceitos,das teorias ou
dos sistemas,a explicar pelas situaçõeshistóricas acidentais. O começo, como
í?zsfífuíçãoínaugz4raZda Àfodernfdade.pZosó/íca,por assim dizer, e de todas as
capacidadede o homem prover à suaexistência humana individual e geral um
sentido racional.
suas linhas de desenvolvimento,
é feito por um ideal defermínado
de zzma./i/oso
Seo homem perder estacrença, então isto não significa outra coisasenão
que: ele perde a crença "em si mesmo': no ser verdadeiro que Ihe é próprio, de
que ele não dispõe semprejá, com a evidência do "eu sou': mas apenastem e
./ia anil,farsa/e de um método que Ihe pertence. No entanto, em vez de poder de
fato produzir efeitos,esteideal experimenta uma dissoluçãointerna. Estadisso-
lução motiva novas configuraçõesrevolucionárias mais ou menos radicais, em
pode ter sob a forma da luta pela sua verdade, por se fazer a si mesmo verdadei-
ro. ,Em foda a Barre o ser verdadeiro é uma meta ideal, uma tarefa da episfeme,
da "razão': contraposta ao ser meramente suposto que, na coxa, é inquestiona-
contraposição às tentativas da sua prossecução e da sua renovada consolidação.
velmente "óbvio'l
No fundo, qualquer um
conhece esta diferença, que se refere
Assim, o problema do ídea/genuí?zode uma filosofia universal e do seumétodo
genuíno torna-se agora, autenticamente, a mais íntima força impulsionadora
à sua verdadeira e genuína humanidade, assim como já na quotidianídade a
de todos os movimentos filosóficos históricos. Mas isso quer dizer que todas
asciênciasmodernasentraram finalmente numa crisepeculiar, sentidade um
verdade tampouco Ihe é estranha como meta, como tarefa: apesar de, aqui, ape-
modo cadavez mais enigmático, a propósito do sentido em que foram fundadas
como ramos da âlosoíia e que continuaram depois a transportar em si. É uma
crise que não atinge as ciências especializadasnos seusresultados teoréticos e
nasde modo singular e relativo. A filosofa ultrapassa, porém, estafigura prévia
que foi a da filosofia antiga na sua primeira e originária fundação inaugural,
porquanto apreendea ideia excessivade um conhecimento universal, referido
ao todo do ente, e a põe como a suatarefa. Entretanto,
é precisamente na ten
práticos, masque abala,contudo, de um lado ao outro, todo o seu sentido de
tativa do seu cumprimento
e isto se torna sensíveljá na contraposição entre
verdade.''Nãose trata aqui dos assuntospertencentes a uma forma especialde
cultura, a "ciência" ou a "âlosofia': enquanto uma entre outras formas de cultura
os sistemasantigos - que a obviedade ingênua desta tarefa se transforma pro
gressivamente numa incompreensão. Cada vez mais a história da âlosoíia, vista
da humanidade europeia.Pois a instituição originária da nova âlosofia é, con-
forme seadiantou, a instituição inaugural da humanidade europeiamoderna,
de dentro, assumeo caráter de uma luta pela existência, a saber,como luta de
uma filosofia que vive na suatareia de uma âlosoõa que acredita ingenuamen-
enquanto humanidade que, em contraste com a humanidade que existira até
te na razão
contra o ceticismo que a nega ou empiricamente desvaloriza. O
ceticismo faz incessantementevaler o mundo de fato vivenciado,o mundo da
9 N.T.:"defende". A opção "existente", que pemíüría uma melhor leitura em português,foi
recusada por razões de lateralidade, e por se considerar o termo "ente" naturalizado na
linguagem filosófica.
experiência eíetiva, como algo onde não se pode encontrar nada da razão e das
suasideias. A própria razãoe o seu"ente" tornam-se cadavez mais enigmáticos,
ou seja,a razão- enquanto razão que, a partir de si, dá sentido ao mundo que
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Transcendental e Edmund Husserl
céticas- ou melhor, entre asnão filosofias que apenasconservam a palavra, mas
é <12> e,visto do lado contrário, o mundo,
como o que é a partir da razão; até
não a tarefa - e asíilosoíias efetivasainda vivas. Contudo, a vitalidade destas
que,por fim, o problemado mundo quevem à tona conscíenfemetzfe,e o proble-
ma do mais profundo vínculo essencialda razãoe do enteem geral,o enÜma de
consisteem lutarem pelo seugenuíno e verdadeiro sentido e, assim,pelo senti-
do de uma humanidade genuína. Trazer a razão latente à autocompreensãodas
fados os enigmas, precisou se tornar um tema genuíno.
suaspossibilidades e tornar assim Compreensível:' a possibilidade de uma me-
O nosso interesse só incide aqui na Modernidade âlosófica. Mas esta não
tafísica enquanto verdadeira possibilidade
tal é o único caminho para trazer
é um mero fragmentodo fenómenohistórico acimaindicado,o maior fenóme-
no histórico de todos: a humanidade em luta pela suaautocompreensão(pois
uma metafísica,ou uma âlosofiauniversal, ao curso trabalhosoda efetivação.
SÓassim se decide se o fe/osque, com o nascimento da filosofa
grega, setornou
tudo estácontido nesta expressão).A Modernidade filosóâca - enquanto nova
instituição da filosofia com uma nova tarefa universal e, ao mesmo tempo, com
o sentido de um renascimento da filosofia antiga é antes, simultaneamente,
uma repetição e uma transformação universal de sentido. Nisto, ela tem-se por
vocacionada para iniciar um novo tempo, completamente segurada sua ideia
de âlosofia e do seumétodo verdadeiro; segura,também, de ter superado,pelo
inato àhumanidadeeuropeia,o feiosde - no movimento infinito da razãolaten-
te até a manifesta, e no esforçoinfinito
de autonormação por meio destaverda
de e genuinidade da humanidade - querer ser uma humanidade a partir deuma
razão filosóâca, e de só poder ser como tal, é um mero delírio histórico-fático,
uma aquisição acidental de uma humanidade acidental, no meio de muitas ou
trás humanidades e historicidades; ou se antes não irrompeu na humanidade
seu radicalismo de um novo começar, todas as ingenuidades anteriores e, assim,
todo o ceticismo. Contudo, inadvertidamente acometida das suaspróprias in-
grega,pela primeira vez, aquilo que, na humanidade enquanto tal, se definiu,
segundoa sua essência,como erzfe/équía.::A humanidade em geral é, segundo
genuidades, o seu destino, no caminho de um paulatino autodesvelamento, mo-
a
sua essência,ser homem em humanidades ligadas generativa e socialmente,
tivado por novos combates,é o de ter de procurar, antesde tudo o mais, a ideia
definitiva da âlosofia, o seuverdadeiro tema, o seuverdadeiro método, o de ter
dedescobrir, antesde mais nada, os verdadeiros enigmas do mundo, pondo-os
e,
se o homem é ser racional (anima/ rafíonale), ele só o é na medida em que
toda a suahumanidade é uma humanidade racional quer orientada de forma
latentepara a razão, quer abertamente orientada para a enteléquia que chegou
no trilho
da decisão.
a si mesma, que se tornou manifesta para si mesma e que, doravante, corzduzírá
Nós, h.omens do presente, que surgimos
neste desenvolvimento,
encontra-
conscíenfemenfe,numa necessidadeessencial,o devir da humanidade. A flloso
mo-nos em meio aograndeperigo .denos afundarmos no dilúvio céticoe, assim,
de deixarmos escapara nossaverdadeprópria. Estudando-nos nestaurgência, o
fia, a ciência,
seria, então,
o movimento
hísfóríco
da revê/anão
da razão
zzníversaZ,
<14> "í/lata" como faZ ã /lume?zídade.
nosso olhar -retorna até a história na nossa humanidade de hoje. SÓpoderemos
conquistar aautocompreensãoe,assim,uma solidezinterior medianteo esclare-
cimento do seusentido de unidade, o qual Ihe éinato desdea suaorigem, com a
tarefa
reinstituída que, como força propulsora, move
as tentativas filosóficas.
Seria efetivamente assim, se o movimento até hoje ainda não concluído
setivessemostrado como a enteléquia cujos puros efeitos decorreram de modo
genuíno e certo, ou sea razão setivesse,de fato, tornado manifesta para si mes-
ma, de um modo plenamente consciente, na forma que é própria da suaessên-
cia, isto é, na forma de uma filosofa universal, que continua a vir a ser numa
intelecção apodítica consequentee que, num método apodítico, atribui-se a si
$ 6. A história da Jiloso$amoderna como combatepelo sentidodo homem
mesma aspróprias normas. SÓassim estaria decidido se a humanidade europeia
transporta em si uma ideia absoluta,não sendo um tipo antropológicomera
Seconsiderarmos o efeito do desenvolvimento filosófico dasideias sobre
a humanidade no seu conjunto (a que não faz pesquisafilosóÊca), teremos de
dizer o seguinte:
SÓa compreensãointerna da mobilidade da filosofia moderna, de Des-
mente empírico como a "China" ou a "Índia"; e, novamente, se o espetáculoda
europeizaçãodetodas as humanidadesestrangeirasanuncia em si avigência de
um sentido absoluto, pertencente ao sentido do mundo, e não um sem sentido
histórico dessemesmo mundo.
cartes<13> até ao presente,una em todas assuascontradições, possibilita uma
Estamos agora certos de que o racionalismo do século XVlll,
o seu modo
compreensão deste mesmo presente. Os verdadeiros combates do nosso tempo,
de querer adquirir a radicação requerida à humanidade europeia, foi uma ín-
os únicos significativos, são os combatesentre a humanidadejá arruinada e
a que ainda se mantém radicada, e que luta por esta radicação, ou por uma
nova. Os autênticos combatesespirituais da humanidade europeia enquanto tal
10 N.T.: "E/ns/chtfg". V. nota à p. 31 supra
11
N.T.:"Ente/echfe'
decorrem como combatesentre as./i/osoÚas,designadamente entre asfilosofias
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da Humanidade Europeia
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental + Edmund Husserl
gerzzzidade.Mas seráque com esteracionalismoingênuo,e, pensadode um
nosso verdadeiro ser próprio,
enquanto filósofos na nossa íntima vocação pes-
modo consequente, mesmo contraditório,
está abandonado o sentido genuíno
do racionalismo?E quanto ao esclarecimentosério dessaingenuidade,desse
contrassenso,e quanto à racionalidadedo irracionalismo,tão louvadoe que
soal, traz em si, ao mesmo tempo, a responsabilidade pelo verdadeiro ser da
humanidade, o qual só é': na medida em que é ser dirigido a um feiose, se de
fado puder ser eíetivado, só o pode ser pela filosofia por rzós,seformos seria-
seesperade nós?SeIhe devemosdar ouvidos, não terá elede nos persuadir,
l mente âlósoíos. Há aqui - neste "se" existencial
um recuo? Se não houver,
que
como irracionalismoa considerare fundamentarracionalmente?Não seráa
suairracionalidade, afinal, uma racionalidade mesquinha e má, pior que a do
racionalismo antigo?Não seráaté uma "razão preguiçosa" a queloge da luta por
devemos fazer para <16> poder acreditar, nós, que acredífamos?Nós, que não
podemos prosseguir seriamente com o nosso filosofar como até aqui, âlosofar
esseque nos permite esperar filosoâas, mas não a filosofa?
O nossoestudohistórico inicial não sótornou clara paranós a situação
uma clarificação
dos dados últimos,
e das metas e caminhos
que a partir
deles se
delineiam, de um modo em última instância e verdadeiramenteracional?
Mas basta;apressei-merapidamente em tornar sensívelo significado in-
comparável envolvido num esclarecimentodos mais profundos motivos da cri-
se em que a Êlosoâae a ciência modernas já desdemuito cedo entraram, e que,
numa escaladaviolenta, seestendeaté o nosso presente.
fática do presentee a suaindigência como um fato simples, mas também nosre-
cordou que, segundo a meta que a palavra "filosofia" indica, segundo os concei-
tos, os problemas e os métodos, somos ;herdeiros do passado. É claro (e que mais
nos poderia aqui ajudar?) que é necessário um penetrante estudo retrospecfívo
histórico e crítico, para, antes de q aísquer decisões, cuidarmos
de uma autocom-
<1.5> S 7. O propósitodas investigaçõesdesteescrito
preensãoradical: e isto por meio de uma pergunta retrospectiva por aquilo que
originariamente e alguma vez sequis como âlosoâa, eque assimcontinuou a ser
atravésdetodos os filósofos eâlosofias que historicamente estiveramem comu
nhão; mas isto sob a consideraçãocrítica daquilo que, na fixação da meta e no
Mas nósmesmos,filósofos destetempo presente,o que podem, o que pre-
cisam signiâcar para nós estudos do tipo dos que acabamosde levar a cabo?
Queríamos ouvir aqui somente um discurso acadêmico? Podemos regressar
simplesmente ao trabalho interrompido, aos nossos"problemas âlosóficos : ou
método, exibe aquelagetzuí?zídadeú/rima da ofegam que, uma vez contemplada,
constrangeapodífícamerzfea vontade.
É de início pouco claro como isto deve ser efetivamente levado a cabo e
o que deve autenticamente querer dizer, em última instância, a apoditicidade
que decide sobre o nosso ser existencial como filósofos. No que se segue,quero
seja, à continuação
da construção
das nossas filosofias
próprias? Podemos fazê-
lo seriamente, perante a perspectiva
segura de que a nossa filosofia, assim como
a de todos os que no presente e no passadoconosco são filósofos, apenasterá
a sua fugaz existência efémera, entre a flora das filosoÊas que sempre de novo
nascem e morrem?
Precisamenteaqui residea miséria que nos é própria, a todos nós que não
tentar indicar os caminhos que eu próprio trilhei, cuja viabilidade e solidez ex-
perimentei aolongo de décadas.Caminharemos, então, doravante em conjunto,
armados com a atitude do espírito mais extremamente cética, mas que não sela
antecipadamentenegativista. Tentaremos perfurar a crosta dos "fatos históri-
cos" superâciais da história da filosofia, questionando, mostrando, testando o
somos filósofos literatos, mas que, educados pelos genuínos filósofos do grande
seusentido interior, a sua teleologia oculta. Paulatinamente anunciar-se-ão nes-
te caminho possibilidades,de partida quasedespercebidas,mas que progres-
passado,vivemos da verdade, e só vivendo assim estamose queremos estar na
nossaverdadeprópria. Enquanto filósofos destetempo presente,caímos,no en-
tanto, numa lamentável corzfradíçãoexistencial.Nãopodemosdeixar perder-se a
sivamente se impõem, possibilidades de orientações completamente novas do
olhar, apontando para novas dimensões. Despontarão perguntas nunca antes
crença na possibilidade da íilosoâa como tarefa, ou seja,na possibilidade de um
conhecimento universal. Como Êlósofos seriamente, sabemo-rios vocacionados
feitas, mostrar-se-ão campos de trabalho nunca pisados, correlações nunca ra-
dicalmente compreendidas nem captadas.Estasobrigarão, por fim, a transfor-
mar,no seu fundo essencial,o sentido completo da filosofia tal como ele,por
para estatarefa. E, contudo, como manter a crença, que só tem sentido na refe-
rência à única meta que nos é comum a todos, a âlosoíia?
entre todas as figuras históricas, vigorava como "óbvio': Com a nova tarefa e o
Tambémjá percebemos,do modo mais geral,que o filosofar humano e
seu solo apodítico universal, demonstra-se a possibilidade práfíca <17> de uma
os seusresultadospara a existência humana no seuconjunto não têm de modo
nova filosofia: por meio da ação.Mas também se mostra que toda a Êlosoâado
nenhum o signiâcado de meros âns culturais privados ou, de qualquer outro
modo, limitados. Somos, então, no nossofilosofar
como poderíamos ignorá-
12 Afim de preservaro usoautónomo dos verbos "ser" e "existir", optamos por manter o ter
mo "é" mesmo num uso intransitivo, onde em português seria mais natural empregar"existe
lo
/ufzcionáríos
da zunia cidade. A responsabilidade
inteiramente
pessoal pelo
12
13
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental. Edmund Husserl passado,embora de modo inconsciente,
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental.
Edmund Husserl
passado,embora de modo inconsciente, estavaintimamente orientada para este
novo sentido de âlosoâa. Nesta perspectiva, torna-se compreensível e claro, em
particular, o trágico fracasso da psícoZogiamoderna; torna-se compreensívela
sua existência histórica na contradição de (no sentido que historicamente ad-
quiriu) ter tido de reivindicar ser a ciência filosófica fundamental, no mesmo
passo em que daí resultavam consequências manifestamente contraditórias, as
consequências do chamado "psicologismo':
rei guiar, não doutrinar, tão só mostrar, descrevero que vejo. Não
reivindico mais do que, em primeira linha perante mim mesmo e só então tam-
bém perante os outros, poder ídar segundo o meu melhor sabere consciência,
como alguém que viveu até ao fim o destino de uma existênciafilosóâca em
toda asuaseriedade.
14
de uma existênciafilosóâca em toda asuaseriedade. 14 (» <18> SEGUNDA PARTE mação da matemática
(» <18> SEGUNDA PARTE
<18>
SEGUNDA
PARTE
mação da matemática derna da universalidade da ciência em meio à transfor- Ü
mação da matemática
derna da universalidade da ciência em meio à transfor-
Ü
Segunda Parte ' A Elucidação da Origem da Oposição Moderna entre Objetivismo Fisicalista e Subjeüvismo
Segunda Parte ' A Elucidação da Origem da Oposição Moderna entre Objetivismo Fisicalista e Subjeüvismo
A Crise das Ciências Europeias e
a Fenomenologia Transcendental ' Edmund Husserl
motiva à realidade.
Ora, na mafemczfização ga/ÍZaíca da natureza,
é esta mesma
inanidade. é encerradaem si e sistematicamente uniâcada e que, partindo de
conceitos eproposições axiomáticos, permite construir com univocidade dedu-
tiva qualquer âgura imaginável que sepossainscrever no espaço'Estáà partida
decidido, de modo unívoco e em todas as suasdeterminações,o que idealmente
'existe" no espaço geométrico. O nosso pensar apodítico, segundo conceitos,
proposições, raciocínios ou demonstraçõesque progridem por etapasaté o inâ-
nito, limita-se a "descobrir" aquilo que, à partida, já é, na verdade, em si.
natureza que é idealizada sob a orientação da nova matemática; ela torna-se -
em termos modernos - também uma multiplicidade matemática.
Qzza/o sentido desta mafemafízação da naf
reza, como reconstruímos
o
curso do pensamentoque a motivou?
O mundo é pré-cientiâcamente dado, na experiência sensívelquotidiana,
de modo subjetivo-relativo.
Cada um de nós tem as suas aparições, e estasvalem
A concepção desta ideia de tala totalidade ínÚnífa e racional de ser, com
almaciênciaracional qz/ea domírzasistematicamente,é o que é novo e inaudito.
E concebido um mundo infinito, aqui um mundo de ídea/idades,um mundo tal
cujos objetos não são acessíveisao nosso conhecimento como que por acaso,
de modo isolado e incompleto, mas que um método racional, sistematicamente
unificado alcança num progresso inânito até alcançar cada objeto finalmente
segundoo seu ser-em-si integral.
para cada um como aquilo que efetivamente é. Interiorizamos há muito, nas
nossasrelações recíprocas, esta discrepância entre as nossasvalidades do ser.
Não julgamos por isso, todavia, que haja muitos mundos. Cremos necessaria-
mente no mundo, com as mesmascoisas que, contudo, nos aparecemdiversa-
mente. <21> Não temos nada mais do que a necessária ideia vazia de coisas que
sãoobjetivamente em si?Não
há, nas próprias aparições,um conteúdo que atri-
E assim é, não só no que concerne ao espaçoideal. Ainda muito mais longe
dos antigos estavaa concepçãode uma ideia similar, mas mais geral (posto que
originada por abstraçãoformalizadora), isto é, aideia deuma mafemátícalormaJ.
SÓnos alvoresda Modernidade começa a conquista e descobertapropriamente
dita dos horizontesmatemáticos infinitos. <20> Despertam os alvoresdaálgebra,
buímos necessariamenteà verdadeira natureza? Aqui pertence, pois - descre-
vo, sem tomar propriamente posição, a "obviedade" que motiva o pensamento
galilaico -, tudo o que, na evidência da absoluta validade universal, a geometria
pura e, em geral,a matemática da forma espaço-temporal pura ensinam acerca
daspurasâguras nela idealmente construíveis.
Merece uma cuidadosa interpretação aquilo que residia nesta "obviedade'
da matemática dos contínuos, da geometria analítica. Com a audácia e originali-
dadepróprias da nova humanidade seráa partir daí, em bem pouco tempo, ante-
c pado o grande ideal de uma ciência oniabrangente, racional nestenovo sentido,
deGalileu, assimcomo nasposteriores obviedadesque seIhe acrescentarampara
motivar a ideia de um conhecimento matemático da natureza no seunovo senti-
do. Observamos que Galileu, o filósofo natural e "pioneiro" da física,não foi ain-
da um físico no pleno sentido atual; que o seu pensar não se move ainda, como o
ou sqa, a ideia de que a totalidade infinita do ente em geralé,em si, uma unida-
de total racional, que precisaria ser regida correlativamente, e sem resíduo,por
do nosso matemático e físico matemático, numa simbologia estranha à intuição,
e que não Ihe podemos imputar aquilo que para nós, em resultado de Galileu e
uma ciência universal. Muito
antesde estaideia estarmadura, ainda só como um
do desenvolvimento histórico que se Ihe seguiu, se tornou "coisas óbvias'l
pressentimento obscuro ou semiobscuro, ela foi já determinante para o desenvol-
vimento subsequente.As coisasnão seforam satisfeitas,em todo caso,pela nova
a) A "geometria
pura'"
matemática. O seu racionalismo depressa se alastra para a ciência da natureza,
e cria para esta a ideia, inteiramente
nova, da ciência matemáfíca da tzatureza: a
ciência galilaica,conforme, com justiça, íoi há muito denominada. Tão logo esta
Consideremos em primeiro lugar a "geometria pura': a matemática pura
das figuras espaço-temporais em geral, dada a Galileu como tradição antiga, e
enceta o passo de uma realização bem-sucedida, transforma-se também toda a
compreendida num desenvolvimento progressivo vivo
ou seja,tal como em
ideia daâlosofia (comociênciado universo,do entecomoum todo).
geral existe ainda para nós, como ciência de "idealidades puras': e, por outro
lado, em permanenteaplicaçãoprática no mundo da experiênciasensível.O
intercâmbio entre teoria apriorística e empina nos é tão familiar que estamos
S 9. A matematização
galilaica
da natureza'
habitualmente inclinados a não distinguir o espaçoe asfiguras espaciais,de que
Para o platonismo, o real possuía uma mefhexísmais ou menos perfeita
no ideal. Isto oferecia à geometria antiga possibilidades de uma aplicaçãopri-
a geometria fala, do espaçoe das âguras do espaçona efetividade da experiên
cia, como seelasfossemo mesmo.Mas sea geometria deve ser entendida como
2 Cf. Anexos ll e lll
1 Cf. Anexo l
17
16
Segunda Parte ' A Elucidação da Origem da Oposição Moderna entre Objetivismo Fisicalistae Subjetivismo A
Segunda Parte ' A Elucidação da Origem da Oposição Moderna entre Objetivismo Fisicalistae Subjetivismo
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental ' Edmund Husserl
o fundamento do sentido da física exata,temos, aqui, e em geral, de ser muito precisos.
o fundamento do sentido da física exata,temos, aqui, e em geral, de ser muito
precisos. Para esclarecera formação do pensamento de Galileu teremos, por
isso, de reconstruir não só o que conscientemente o motivou. Seráigualmente
<22> instrutivo elucidar, além disso, aquilo que implicitamente estavacontido
partir da práticado aperfeiçoamento,ao avançar-selivremente no horizontedo
aperfeiçoamento"sempre novamente" ímagináve/, em toda a parte sedelineiam
./igz4ras-limite em direção
às quais, como polos
invariantes
jamais
alcançáveis,
na imagem da matemáticaque o guiava, embora no direcionamento dos seus
a série de aperfeiçoamento a cada momento converge. Interessadospor estas
âguras ideais e, por conseguinte, ocupados em determina-las e em construir
novas a partir
das já determinadas,
somos "geâmetras'l
E, no que respeita à es-
interesses Ihe permanecessevedado, como pressuposição de sentido encoberta
que não pede, naturalmente, deixar de se integrar na suafísica.
Ao dirigir um olhar abstrativo para asmeras âguras espaço'temporaisno
mundo circundante intuível, experienciamos "corpos" '
não corpos geométri-
co-ideais mas, precisamente,os corpos que eíetivamente experienciamos, com
o conteúdo que é efetivamente um conteúdo de experiência. Por mais arbitra-
fera maisvasta, que abrangetambém a dimensão do tempo, somos,do mesmo
modo, matemáticos dasfiguras "puras': cuja forma universal é a própria forma
espaço-temporal coidealizada. Em lugar da prática real - seja na ação ou na
consideração de possibilidades empíricas relativas aos corpos efetivos e real-
mente possíveis temos agora uma práfíca idem/de um "puro pensar" que se
mantém exclusivamente no domírzío daspzzras.#guras-Zímífe.Estessão métodos
riamente que os possamos transformar pelo pensamento no interior
da fantasia,
de idealização e construção, já há muito
formados historicamente
no exercício
as possibilidades livres, num certo sentido "ideais': que assimalcançámos,não
são de todo
as possibilidades
geométrico-ideais,
não são as "puras" figuras ge-
da comunicaçãointersubjetiva,que setornaram aquisiçõesusuais-disponíveis
com asquais sepode sempreelaboraralgo de novo: um mundo inõnito e, no
ométricas que sepodem inscrever no espaçoideal - os "puros" corpos, asretas
entanto,fechado em si, de objetualidades' ideais como campo de trabalho. As-
"puras': os planos
"puros':
as restantes figuras
"puras"
e os movimentos
e de-
sim como todas asaquisiçõesculturais resultantesdo trabalho humano, estes
formações que ocorrem nasfiguras "puras'l O espaçogeométrico não significa,
assim,um espaçoporventura fantasiado e,genericamente,não significa de todo
métodos permanecem reconhecíveise disponíveis mesmo sem que a formação
do seu sentido tenha de ser semprede novo tornada explícita; com basena
o espaçode um mundo, como quer que sepossafantasia-lo
(imagina-lo).
.A
fantasiasó pode transformar figuras sensíveisnovamente em figuras sensíveis.
E tais âguras, seja na realidade efetiva, seja na fantasia, só sãopensáveisnuma
incorporação sensível,por exemplo, pela linguagem e pela escrita, sãosimples-
mente apreendidos de modo aperceptivo e operativamente tratados. Funcio-
nam de maneira semelhante os "modelos" sensíveis, entre os quais se contam,
gradualidade:do mais ou menosreto, plano, circular etc.
As coisasdo mundo circundante intuível estão,pois, em geral e segundo
todasas suaspropriedades,dentro da oscilaçãodo que é meramentetípico; a sua
identidade consigo mesmas,o seu ser-igual-a-si-mesmase perdurar temporaria-
mente na igualdadesãouma mera aproximação,assimcomo o seuser igual a ou-
em particular, os sinais no papel constantemente empregados durante o tra-
balho e, quando se aprende a ler, os sinais impressos no manual de estudo e
outros similares. Assim como outros objetos culturais (o alicate, a broca etc.),
<24> são compreendidos,
"vistos"
simplesmente
nas suas propriedades
cultu-
rais especíâcas,sem que aquilo que conferiu a estaspropriedades o seusentido
tras. Isto interfere em todas asalterações e nas szzasigualdades e alterações possíveis.
O mesmo é válido tambémpara asfiguras abstratamenteapreendidasdos corpos
próprio se tenha de tornar novamente intuitivo.
Sob esta figura de aquisições há
empiricamente
intuíveis e das suas relações. Esta gradualidade caracteriza-se como
uma gradualidadede maior ou menor perfeição.Na prática, também aqui, como
de resto, há um]grau]
simplesmente perfeito, no sentido de que o interesse especi'
muito compreendidas, ossigniÊcados,por assim dizer sedimentadosnasincor
porações, são usados na prática metódica dos matemáticos. E tornam, assim,
possível um lidar espiritual, no mundo geométrico, com objetualidades ideais.
(A geometria representaaqui para nós, em qualquer caso,a matemática inteira
ricamente prático nele se satisfazplenamente.
No entanto, com a mudança dos in-
da espaço-temporalidade.)
teresses,aquilo que para um interesseé plena e precisamente satisfatório não mais
o é para um outro, pelo que é estabelecido um limite à capacidade técnica normal
Nestaprática matemática, contudo, alcançámosaquilo que nos é vedado
na prática empírica: "exafídão"; porque, para asâguras ideais, seabrea possibi-
de aperfeiçoamento, à capacidade, por exemplo, de tornar o reto ainda mais reto
ou o plano ainda mais plano. <23> Com a humanidade, porém, progride também
b técnica, bem como o interessepelo que é tecnicamente mais refinado; e o ideal da
lidade de defermírzá-Zasem identidade absoluta, de conhecê-las, de modo abso-
lutamente idêntico e metodicamente unívoco, como substrato de características
determináveisde modo absolutamenteidêntico e metodicamenteunívoco.E
perfeição desliza,assim, sempre mais além. Por isso temos também semprejá um
horizonte aberto de melhoramento ímagítzável,a conduzir sempre mais além.
Semaprofundar aqui mais asconexõesessenciais(o que nunca foi feito
sistematicamente,ede modo nenhum é fácil), compreenderemosdesdejá que a
3 N.T.:Gegenstdnd//chkeíten. Reservamos "objeüvidade"
para trad uzir Obyeküv/tât
19
18
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental + Edmund Husser ' l Segunda
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental + Edmund Husser
'
l
Segunda Parte + A Elucidação da Origem da Oposição Moderna entre Objetivismo Fisicalista e Subjetivisma
cadascomo universalme só disponíveis, e segundosoperaçoeseoemiarlnnver"
<26> b) O pensamento fundamental da física galilaica: a natureza como
==;==L:::;::":=;:::=:=:à=L;=:=:==:=ãE:======;=1
«-'«'-'.
«,'.«;''''
l
1:=E==lr.i:::=:=m :n: :
Ú R:iliRHIB:U:HIW::
relações existentes (ou a descobrir)
entre eles e outras âguras corpóreas, deter-
;:1:
1
=i==:=i=i:!=:X===i='=':==.::1;: :
' 1:r:.:::":.:,l=1=,1'C;,!=:lp'l=='=='':;:':='s:::.ii::,,'::::!.:;=.T::
início em esferas limitadas (por exemplo, na agf'imensura), depois, então, para
l
Ihorleitura,optar-sepor "operação"comonestecasoou "resultado«po"nta- parame-
novas esferasde figuras. Assim se compreende que, após ter despertado a busca
l
tarte.quercaçãor';m'nte aoooortuguês"realização",o originalalemãoLefstungnãotem
Segunda Parte ' A Elucidação da Origem da Oposição Moderna entre Objetivismo Fisicalista e Subjetivismo
Segunda Parte
' A Elucidação da Origem da Oposição Moderna entre Objetivismo Fisicalista e Subjetivismo
EdmundHusser
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental
Faz também parte da concreção dos corpos sensivelmente intuíveis, do
Na sequência das observações históricas a partir de Galileu, <27> assumirá um
seu ser na experiência
efetiva e possível, que eles, na mutabilidade
própria
da sua
interesse para nós essencial saber por que era inevitável
a urgência de uma inver-
essência, estejam ligados. As suas alterações quanto
à posição espaço-temporal,
sãodo olhar, e a "origem" do conhecimento tornar-se o problema capital.
Vemos aqui como a geometria, tomada na ingenuidade da evidência a
à constituição da suaforma e do seupZenum,não são contingentes-arbitrárias,
mas empiricamente dependentesentre si de maneiras
sensivelmentef@ícas.
priori
que mantém em movimento todo o trabalho geométrico normal, deter-
mina o pensamentode Galileu e o conduz até a ideia de uma física que aparece,
Tais referências dos acontecimentos corpóreos uns aos outros são momentos
próprios da í/zfuiçãoempírica quofídíana; são experienciadas como aqui/o que
então, pela primeira vez,no trabalho da suavida. Assim, a partir do modo como
a geometria, num entendimento prático, proporciona desdehá muito tempo
uma determinação unívoca dentro de uma esferado mundo circundante sensí-
vel, tradicionalmente recebida, Galileu dissepara si mesmo: onde uma tal me-
todologia sedesenvolveu,ultrapassamostambém a relatividade dasconcepções
confere coperfezzçaaos corpos qzzesão em conyulzro, simultânea
e sucessivamen
te, ou como o qz4e/@aentre si o seuser e ser-assim.Com frequência, mas não
sempre, estasligações real-causais, com as suasarticulações, vêm-nos ao encon
tro de modo determinado
na experiência.
Onde este não é o caso, e algo de novo
e surpreendente acontece,perguntamos de imediato pelo porquê, e buscamo-lo
subjetivas,essencialao mundo empírico-intuível. Poisdestamaneira adquiri-
em redor, nas circunstânciasespaço-temporais.As coisasdo mundo intuível
mos uma verdadeidêntica não reiafiva, da qual qualquer um que sejacapaz de
compreender e empregar essemétodo pode se convencer.Recolz/tecemosaqui,
(tomadas sempre tais como existem aí intuitivamente
para nós, na quotidianei-
então, tlm enteproprfamenfe verdadeiro - embora somentesob a forma de
uma
dadedavida, e para nós valem como efetividades) têm, por assim dizer, os seus
'hábífos': comportam-se de modo semelhante sob circunstâncias tipicamente
aproximação semprecrescentedesdeo dado empírico em direção à figura geo-
métrica ideal que funciona como polo orientador.
Entretanto, toda esta matemática pz/ra tem que ver com os corpos e o
mundo corpóreo numa mera absfração,a saber,somentecom as./igz4rasabsfra-
fas na espaço-temporalidade e, além disso, com estasapenasenquanto figuras-
semelhantes.Se tomarmos o mundo intuível no seu todo, na particularidade
fluente em que ele para nós simplesmente existe, então o mundo intuível tem
para nós também, como um todo, o seu"hábito': a saber,o de continuar como
foi usual até aqui. Assim, o nosso mundo circundante empiricamente {nfuh'e/
tem fado um esfíZoempírico. Como quer que pensemos este mundo transforma
limite puramente "ideais't Contudo, as figuras empíricas,efetivase possíveis,
do pela fantasia,ou nos representemoso curso futuro do mundo naquilo que
nos são dadas em concreto, em primeiro
lugar
na intuição
empírica
sensível,
tem de desconhecido, "como ele poderia ser': nas suaspossibilidades: represen-
meramentecomo 'formas" de uma "matéria': de um p/enumssensível;ou seja,
tamos tal curso necessariamenteno estilo em que até aqui temos e tivemos o
com aquilo que seapresenta nas chamadas qzía/idades"espec@cas"dossentidos,'
mundo.
<29>
Disto
podemos
tomar
consciência
explícita
na
reflexão
e ?zzlma
cor, som, odor e similares, em gradaçõespróprias. <28>
5
N.T.:FEI//e.Propomoso termo latino p/enfim para traduzir o termo alemão Fii//e,cujo sig
nificado Husserl define logo em seguida. O termo português "preenchimento"
estará, com
livre vaz'caçãodessaspossíbí/andes.Podemos, então, fematízar o estilogera/ í?z
variarzfeem que este mundo intuível persiste no fluxo da experiência total. E
vemos precisamente assim que, em geral, as coisas e os seusacontecimentos
não surgem nem decorrem arbitrariamente, mas estão ligados a priori por esse
algumas exceções,reservado para traduzir E/:ft}//ur7g,enquanto plural de "plenitude", "as
plenitudes", pareceu-nosestilisticamente poucofeliz.
estilo, pela forma invariante do mundo intuível; vemos,em outras palavras,que,
por meio de
uma regz4/anãouniversal causal, todo o ente,serzdoem conyurzfo?zo
6
É uma má herança da tradição psicológica desde os tempos de Locke que às qua//dados
sensíve/sdos corpos efeüvamenteexpor/enc/idos no mundo circundante quotidianamente
mz4ndo,tem uma coperte?zçageral,imediata ou mediata, na qual o mundo não
é uma mera totalidade,mas uma unicidade, um lodo (embora inânito). Isto é
intuível -- as cores, as qualidades táteis, os odores, as temperaturas, os pesos etc., que são
perceb/dos nos próprios corpos, precisamente como as suas propr/idades -- sejam invaria-
velmente substituídos os "dados dos sentidos". Os "dados das sensações", a que indiferen-
evidente a priori, por menos que se experienciem efetivamente as ligações cau-
ciadamente se chama também do mesmo modo qualidades sensíveise que, pelo menos
em geral, delas não são de todo diferenciadas. Quando se percebe aqui uma diferença(em
vez de se descrever em profundidade essa diferença, o que seria assaznecessário), <28n>
é chamadaentão a desempenhar o seu papel a opinião fundamentalmente errada de que
os "dados das sensações" são os dados imediatos. E usa-se,então, substituir de imediato,
ao que a e]es corresponde nos próprios corpos, o [elemento] ü'fico-matemático, cujas fon-
propriedadessão efetivamente percebidos. E, quando os designamoscomo p/ena fFi}//enj
de figuras, então tomamos também estasfiguras como "qualidades" dos próprios corpos,
e também como "qualidades" sensíveis, só que, como CEiaOTjçàKatvâ, não têm a refe-
rência aos órgãos dos sentidos que unicamente lhes pertencem, como acontececom os
tes de sentido ora cuidamosde investigar.Trazendofielmente à expressãoa experiência
CEiaOTjzàIÕta.
efetiva, falamos aqui, e sempre, de qua/idades, de propriedades dos corpos que nestas
23
22

l

EdmundHusserl A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendenta Segunda Parte ' A Elucidação
EdmundHusserl
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendenta
Segunda Parte ' A Elucidação da Origem da Oposição Moderna entre Objeüvismo Fisicalista e Subjetivismo
saisparticulares, por pouco que delasseconheça pela experiência anterior e por
pouco que elasesbocemda experiência futura.
precisamente por ser construível
ex datas no seu ser-em-si
objetivamente
verda-
Esteestilo causaluniversal do mundo circundante intuível faz com que
deiro, pelo seumétodo que não é somente postulado, mas efetivamente criado
eapoditicamente produtivo.
nele sejam possíveis h@ófeses,induções, previsões com respeito ao que no pre
Em segzzndolugar: ocorrendo em conexão com
a arte da medição e, do-
sente,no passadoe no futuro é desconhecido.Na vida cognoscitiva pré-cientí-
fica, porém, estamos,apesarde tudo, no aproximativo e fPíco. Como seria pos-
ravante a conduzi-la, a matemática
descendo agora do mundo das idealidades
novamente para o mundo empiricamente intuível
mostrou que sepode alcan-
sível uma '.pZosoÚa': um conhecimento cíenfz@codo mz4ndo, se as coisas ficassem
çar universalmente,
rias coisas do mundo
ílzfzííl,eZ-({áefívoe, com efeito, segundo
imersas na vaga consciência da totalidade em que o mundo nos é coconsciente,
como horizonte de toda a mudança de interessese temas de conhecimento mo
o aspectoque unicamentea interessacomo matemáticadasfiguras(em que
todas as coisas tomam necessariamente parte), um conhecímelzfoo@eflvamenfe
mentâneos?Podemostambém, é certo, como semostrou acima, refletir tema-
real de uma espécieinteiramente rzova,a saber,referido aproxfmafívamerzfeàs
ticamente sobreesta totalidade do mundo e apreender o seuestilo causal. Mas
com isso ganhamos somente a evidência
da generalidade vazia de que todo o
suaspróprias idealidades. Todas as coisas do mundo empiricamente intuível
têm, no estilo do mundo, corporeidade, sãoresexfensae,experienciadasem co-
acontecer experienciável,em toda a parte e em todos os tempos, é causalmente
determinado. E quanto à causalidade defermínada em cada caso, no mundo,
locações' alteráveis que, consideradas
a cada vez como um todo, <31> têm a sua
como o feixe em cada caso determinado de ligações causais que torna concretas
colocação completa e, nestas, os corpos singulares os seus lugares relativos etc.
Em virtude da matemática pura eda arte prática da medição, pode-se criar, para
todas as ocorrências reais em todos os tempos? Conhecer o mundo "íilosofica
mente': demodo seriamente científico, só pode ter sentido, esó é possível,sese
tudo o que é assimextensional no mundo dos corpos, uma previsão indutiva de
um f@o fnfeíramenfe
}zovo,pode-se, a saber, "ca/chiar"
com necessidade conclu-
puder descobrir um método de consfr ir sistematicamente,de certo modo por
dente, a partir de ocorrências de figuras a cada vez dadas e medidas, a ocorrên-
antecipação, o mundo e a infinidade
das suas causalidades, a partir
do exíguo
cia de âguras desconhecidase inacessíveisà medição
direta.
.Ageomefría ídea/,
material que, de cadavez, é só relativamente registrado na experiência direta, e,
estranha ao mundo, torna-se, assim, "aplicada"
e, então, num certo aspecto, um
<30> não obstantea infinidade, conÚrmarde modo concludenteestaconstru-
método universal de conhecimento de realidades.
ção. Como isto seria pensável?
Aqui, porém, oferece-se-nos a mafemáfíca como mestra. Com respeito às
Mas não sugerejá estaespéciede objetivação,exercitadasobreum as
pecto do mundo abstratamente limitado,
seguinte?
o pensamento, a questão e a suspeita
figuras espaço-temporais,elajá tinha aberto o caminho, e, na verdade, de duas
maneiras. Em primeiro /usar: pela sua idealização do mundo dos corpos, a mate-
Não terá algo de semelhante de ser possível para o mundo concreto? Não se
mática criou, quanto ao seuâgurativo espaço-temporal, objetividades ideais. A
partir da forma geralindeterminada jprópria do] mundo circundante,a forma
tinha já - como Galileu -, em virtude do retorno do Renascimentoà âlosofia
antiga,a convicçãofirme da possibilidade de uma íilosoâa, de uma episteme
espaço e tempo com a multiplicidade
das âguras empírico-intuíveis
que neles se
podem inventar, ela construiu pela primeira vez um mundo ob/Crivoem sentido
próprio; a saber,uma totalidade infinita de oQefuaZídadesideaismetodicamente
produtora de uma ciência objetiva do mundo, e não se mostrou já acima que a
matemática pura, aplicada à natureza, preenche completamente o postulado da
episteme na esfera das suasfiguras: não tinha de estar já delineada para Galileu
determináveis,paratoda a gente,de modo inteiramentegerale unívoco.Ela
a ideia de uma nafz4rezacorzsfrzzfivamenfe defermífzáveZ, da mesma maneira, em
mostrou, assim,pela primeira vez, que uma infinidade de objetos,' pensados
todosos outros aspectos?
de modo subjetivo-relativo
e só numa vaga representação geral, é (:abril,amenfe
pensáveZ,por um método a priori oniabrangente, de modo oqerívamente defer-
mi lavei e como em sí defermí fada; mais precisamente: como uma infinidade de
objetos decfdfda de início como em si determinada em todos os seus objetos e
em todas as propriedades erelações dos mesmos. É pensável disse eu; a saber,
Mas há um outro modo de isto ser possível que não seja pela extensão
do método da medição, em aproximaçõese determinações construtivas, a todas
aspropriedades reais e relaçõesreal-causais do mundo intuível, a tudo o que é
experienciável em experiências particulares? Mas como se pode satisfazeresta
antecipaçãogeral,e como sepoderia transforma-la no método praticável deum
conhecimento concreto da natureza?
7 N.T.:Geger7stãnden.Nãose encontrou infelizmente em português equivalentes para a dis-
Hnção entre Gegensfand e Obyekt,sendo ambos traduzidos por "objeto". Somente nos ter-
mos derivados foi possível manter a distinção (v. nota à p. <23> supra).
8
NI.: Koilokaüonen
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EdmundHusserl Segunda Parte ' A Elucidação da Origem da Oposição Moderna entre Objetivismo Fisicalista e
EdmundHusserl
Segunda Parte ' A Elucidação da Origem da Oposição Moderna entre Objetivismo Fisicalista e Subjetivismo
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendenta
A
dÚcu/ande reside aqui em que precisamente os plena materiais, nas
dos plena. Os corpos do mundo empírico-intuível são, segundo a estrutura do
mundo que apriori lhes pertence,de tal espécieque cadacorpo tem a suaexten-
são - em termos abstratos - própria,
mas que todas estas extensões são âguras
na extensãoinfinita, única e total do mundo. Como mundo, como configuração
ser tratadas dírefamentecomo as próprias figuras. Do
total de todos os corpos, ele tem, então,
malorma
fofas abrangendo rodas aslor-
mas, e esta é ídealizáveZ e domírzáveZpor construção da maneira acima analisada.
Ora, pertence também à estrutura do mundo que todos os corpos têm
cada um as suas qualidades
específicas. Contudo,
as conâgurações
qualitativas
meiaspuramente fundadas não são análogas das./iguras espaço'temporais,rzão
estão ordenadas a umalorma
do mundo própria delas. As figuras-limite
destas
qualidades não são idealizáveis em sentido análogo às figuras espaço'temporais,
assuasmedições("avaliações")não sedeixam referir a idealidadescorrespon'
dentesde um mundo construível,objetivado já numa idealidade.Assim, tam-
pouco tem o conceito de "aproximação"
um sentido análogo ao da esfera mate-
matizávelde figuras: o de uma realizaçãoobjetivadora.
No que concerne à mafemafízação "índírefa" desseaspecto do mundo
c) O problema da matematizabilidade dos "plena"
quenão tem em si nenhuma forma do mundo em si mesmamatematizável,tal
matematização só é pensávelno sentido em que as qualidades especificamente
sensíveis("plena") experienciáveis nos corpos intuíveis, juntamente com as./i-
A
questão é agora sobre o que possa signiâcar uma mafemafízação ítzdirefa.
guras que essencialmente lhes pertencem, estãoreXz4Zarmenfeirmanadas de uma
maneira muito particular. Seperguntarmos o que está a priori predeterminado
pela forma do mundo universal, na sua causalidadeuniversal, e perguntarmos,
das qualidades
especificamente
sensíveis dos corpos
então, pelo
estilo geral invariante
do ser, a que obedece o mundo intuível na sua
Também estasqualidades se apresentam em gradações e, de certo modo,
incessante mudança, então está, por um
lado, predeterminada <34> a Jorna
a todas as gradações,
pertence-lhes
igualmente
a medição
a "ava-
espaço-femporaZ,como abrangendotodos os corpos em relação àfigura, eaquilo
que a ela pertence a priori
(antes da idealização); e, também, que./igzíraslãfícas
exigem a cada vez pZenalãfícos em corpos reais, e vice-versa; e, assim, que vigora
esta espéciede causalidade geral que vincula momentos de um concreto, que só
de modo abstrato são separáveis, mas não na realidade. Além disso, como um
todo: vigora uma causalidade concreta u?zíversaZ.Nela é necessariamente anfe-
horizorzfe ínÚrzífame zfe aberto e, por isso, também
a multiplicidade
infinita
das
de "qualidades
específicas
dos
sentidos':
em contra-abstração
universal
O que consfifzíi a 'kxafídão"? Manifestamente nada mais do que o que
causalidades particulares não pode ser ela própria dada, mas somente horizon-
talmente antecipada. Estamos assim, de qualquer modo e a priori, certos não só
de que a totalidade do mundo corpóreo, no aspecto em que écompostos pelas fi-
guras, exige, em geral, um aspecto depZena que atravessatodas as õguras, como
também de que qz4aZqzzeraZferação,diga ela respeito ao momento da.#gura ou
do pZenum, decorre segundo alguma causalidade - imediata ou mediatamente

c@adoo fato de que o mundo intuível só pode ser intuído como mundo nzzm

9 N.T.:Adendado tradutor. 27
9 N.T.:Adendado tradutor.
27
suasgradaçõespróprias as qualidades "especíâcas"dos sentidos - que com- pletam concretamente os momentos
suasgradaçõespróprias as qualidades "especíâcas"dos sentidos - que com-
pletam concretamente os momentos espaço-temporais das figuras do mundo
corpóreo, tzãopodem
mesmo modo, também estas qualidades, tudo o que constitui a concreção do
mundo sensivelmenteintuível, têm de valer como manifestaçãode um mundo
objetivo': <32> Ou, antes,tem de permanecer válido; porque (tal é a maneira
de pensarque motiva a ideia da nova física), atravésde todas astransforma-
ções das apreensõessubjetivas, se estende sem cessar a certeza, que a todos nós
vincula, de um mesmo mundo único, da efetividade em si; todos os momentos
dasintuições experienciais manifestam algo dessemundo. Ele é alcançável para
o
nosso conhecimento objetivo, se se tornam precisamentematematizáveisde
modo índírefo aqueles momentos que, como as qualidades sensíveis,são abstra-
ídos e não são elesmesmos diretamente matematizáveispela matemática pura
da forma espaço-temporal e dassuasfiguras particulares possíveis.
Consideremos em primeiro lugar a razãopz'(:fundaque torna princ4'ía/-
menteímpossíve/uma mafemafízaçãodírefa (ou um análogo deuma construção
aproximativa)
assim como
liação" da "grandeza" do calor e do frio, da asperezae da lisura, da clareza eobs-
curidade etc. Mas aqui não há uma medição exata, um incremento da exatidão e
dos métodos de medida. Quando nós, homens dehoje, falamos de medição, de
grandezas de medida, de métodos de medida ou simplesmente de grandezas, já
semprequeremos normalmente dizer medidas "exatas':referidas já a idealida-
des;assimcomo senostorna difícil levar a cabo o necessárioisolamento abstra-
tivo dos plena: ou seja,considerar a título de ensaio, por assimdizer, o mundo
corpóreo exclusivamente segundo o "lado" daspropriedades que cabem sob o
título
perante aquelaspropriedades apresentadaspelo mundo universal dasfiguras.
acima expusemos: medição empírica num incremento de precisão,mas sob a
orientação de um mundo de idealidades <33> já de início objetivado por idea-
lização e construção, e de certas conâgurações ideais particulares, ordenáveis às
escalasdemedida respectivas.E podemos agora elucidar o contrastenuma pala-
vra. Temos uma sólorma ulziversaZdo mundo, não dzzas,uma só geomefría,não
uma geometria dupla, a saber,uma geometria dasformas e também uma outra
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A Crisedas Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendenta EdmundHusser Segunda Parte ' A Elucidação da
A Crisedas Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendenta
EdmundHusser
Segunda Parte ' A Elucidação da Origem da Oposição Moderna entre
Objetfvismo Fisicalistae Subjetivismo.
mas,precisamente,exigindo-a. Até aí chega,conforme sedisse,a antecipação a
priori
indeterminadamente
geral.
Com isto não sediz, contudo, que a fofa/idade da franlláormaçãodasqua-
guntar como pôde ele chegar ao pensamento de que tudo o que nas qualidades es-
pecíâcas dos sentidos seanuncia como real tem de ter o seu índice mafemáfico em
ocorrências da esferadasâguras, sempre pensada já obviamente como idealizada.
lidades do pZenum, nas suasalterações e não alterações, sucede segundo regras
e de que a partir
daí tem de se obter a possibilidade
<36> de uma matematização
causais de tal modo que este aspecto abstrato inteiro
do mundo este/a depen-
:lente, de modo uno, do que causalmente sucede no aspecto do mundo
[composto]
índirefa também no seu sentido integral, a saber, que tem assimde ser possível
(embora indiretamente, e por um método indutivo particular) construir ex dafís
peias.#guras.Em outras palavras: não é a priori inteleccionável o fato de que
uma alteraçãoqualquer experienciável dequalidades específicasdos corpos in-
tuíveis, imaginável na experiência e6etivae possível, dependa causalmente de
ocorrências no estrato do mundo abstrato das âguras, de que ela tivesse, por
e, assim, determinar, objetivamente, todas as ocorrências do lado dose/ena. A to-
talidade da natureza infinita,
como urz/verso concreto da ca sa/idade - isto residia
nesta estranha concepção -, tornou-se uma mafemáfíca ap/içada szzigenerís.
assim dizer, a sua imagem corresporzderzfeno domírzío das./iguras, de tal modo
Mas respondamos em primeiro lugar à questão sobre o que, no mundo
dado e já matematizado à maneira limitada antiga, poderia incitar ao pensa-
mento fundamental de Galileu.
que cada alteração completa da totalidade
dos
p\ena tivesse a sua imagem corres-
pondente causal na esferadas$guras.
Assim posto, este pensamentopoderia parecer temerário. Mas tomemos
d) A motivação da concepçãogalilaica da natureza
agora a já ancestral idealização da forma espaço-temporal, efetivada (em vastas
esferas,embora de modo nenhum completamente) há milênios, com todas as
06ereciam-se aqui oporfunídades, muito tênues, é certo, para diversas ex-
suas âguras, assim como com as alterações e âguras de alterações a elas respei-
tantes. <35> Nela estava contida, como sabemos, a idealização da arte da medida
não só como arte de medir, mas como arte de construções empiricamente causais
periências,embora desconexas,dentro da totalidade da experiênciapré-científi-
ca,asquais sugeriam algo como uma quantiíicabilidade indireta de certasquali-
dades sensíveis e, assim, uma certa possibilidade
de caracteriza-las
por meio de
(onde obviamente, como em toda a arte, também cooperavam raciocínios de-
dutivos). A posição e tematização teóricas das idealidades e construções puras
conduziram à geometria pura (que abrangeaqui, entretanto, a matemática pura
grandezase medidas numéricas. Jáos antigos pitagóricos estimularam a obser-
vação da dependência funcional da altura do som em relação ao comprimento
da
dasfiguras em geral); resultou mais tarde (conforme recordamos) - pela inversão
que se tornou compreensível
a geometria aplicada:a arte prática da medida
cordaposta em vibração.Eram, naturalmente,também de conhecimentogeral
muitas outrasconexõescausaisde espéciesemelhante.No fundo, residiamem
todos os processosconcretosintuíveis do mundo circundante familiar depen-
guiada pelas idealidadese pelas construções com elasidealmente realizadas,ou
seja,uma objetivação do mundo corpóreo
relevantes.Ao recapitularmos tudo isto, o
concreto-causalnasesferaslimitadas
pensamentoque antes abordamos, e
dências facilmente assinaláveis de acontecimentos jao nível dos] p/ezzapara com
doutrosnla esferadas figuras. Mas faltava em geral um motivo para conferir uma
orientação analítica ao entrelaçamento das dependências causais.Na suavaga
que inicialmente
parecia quase extravagante, perdeu a sua estranheza e assumiu
indeterminidade,
estasnão podiam suscitar interesse. Mas não era assim lá onde
de imediato
para nós - em virtude
da nossa formação
escolar científica prévia - o
caráterdo óbvio. O que experienciamosna vida pré-cientíâca como cores,sons,
temperaturas, como peso nas próprias coisas, causalmente como radiação de ca-
lor de um corpo, que aqueceos corpos em redor, e coisassimilares, isto manifesta,
éclaro, "âsicamente": vibrações sonoras, vibrações de temperatura, ou seja,puras
ocorrências do mundo dasfiguras. Esta indexação universal é, então,hoje tratada
como obviamente fora de questão. Mas, se retornarmos a Galileu, aquilo que so-
assumiam o caráter de uma determinidade que as tornava apropriadas para a
indução determinante; e isto nosreconduz à medição dosp/e/za.Nem tudo o que
visivelmente se alterava em conjunto no lado das âguras era mensurável pelos
métodos de medida antigos já formados. E estava, além disso, ainda longe de tais
experiênciaso caminho paraa ideia, e a hipótese universal de que todas asocor-
rênciasespecificamentequalitativas apontam como índices para constelaçõesde
figuras e acontecimentos que lhes correspondem de modo determinado. Mas
mente setornou óbvio pela suaação não poderia ser óbvio já para ele,o criador
da concepção, que tornou em geral a física pela primeira vez possível. Paraele, só
era óbvia a matemática pura e a antiga maneira usual de aplicar a matemática.
não demasiado longe para os homens do <37> Renascimento, inclinados por
toda a parte para ousadasgeneralizações,e entre os quais hipótesescorrespon-
dentemente excessivasencontravam de imediato um público receptivo. A mate-
Senos ativermosagora puramente à motivação de Galileu, tal como íoi de
fato inaugural para a ideia moderna da física, tem de se nos tornar clara a esfra-
mática, como domínio de conhecimento (e de técnica, sob a sua instrução) ge-
nuinamente objetivo, estavapara Galileu, ejá antes dele, no foco do interesseque
}zheza que, na situação da época, residia no seu pensamento
fundamental,
e per-
move o homem "moderno" para um conhecimento filosófico do mundo e uma
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EdmundHusserl A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental Segunda Parte e A Elucidação
EdmundHusserl
A Crise das
Ciências Europeias
e a Fenomenologia Transcendental
Segunda Parte e A Elucidação da Origem da Oposição Moderna entre Objetivismo Fisicalista e Subjetívismo
ídea/ízaçãodo mzzndo,concreta e, por isso, dupla, que residia na hipótese galilai prática racional. Tem de
ídea/ízaçãodo mzzndo,concreta e, por isso, dupla, que residia na hipótese galilai
prática racional. Tem de haver métodos de medida para tudo aquilo que abran-
gem, na sua idealidade e aprioridade, a geometria ou a matemática das figuras. E
o mundo concreto inteiro terá de serevelar como matematizável e objetivo, se se-
guirmos aquelasexperiências singulares e medirmos efetivamente tudo o que Ihe
ca, estavatambém dado que era óbvia uma catzsaZídadeexala universala qual,
naturalmente, não se obtém por indução a partir da identificação de causalida-
des singulares, mas que precede todas as induções de causalidades particulares
e as conduz
-
o que
já é válido
para a causalidade
intuível
concreta
geral, a qual
é atribuível como pressuposto da geometria aplicada, ou seja,se construirmos os
métodos de medida correspondentes. Seassim fizermos, o lado das ocorrências
especificamente qualitativas tem índírefame?ztede se comafemafizan
Na interpretação do caráter óbvio, para Galileu, da aplicabilidade universal
constitui a forma do mundo concreta intuível, em contrastecom ascausalidades
da matemática pura, deve-seobservar o seguinte.Em qualquer aplicaçãoà na-
tureza intuitivamente dada, a matemática tem de abandonar a suaabstraçãodo
pZenzzmintuível, no mesmo passoem que deixa, no entanto, intocado o que nas
figuras(nas figuras espaciais,durações,movimentos ou deformações)é idealiza-
singulares em particular experienciáveis no mundo circundante da vida.
Esta causalidade universal ídea/ízada abrange todas as figuras ep/ena fáti-
cos na suainfinidade idealizada. É manifesto que, se asmedições que precisam ser
levadasa cabo na esferadasâguras devem fornecer determinações objetivas,os
acontecimentos no lado do tambémpZenum têm de sermetodicamente questiona
dos. <39> As coisas e acontecimentos em cada caso totalmente
concretos, ou seja,
asmaneirascomo osplena e figurasfáticos estãosujeitos à causalidade,têm de se
do. E realiza-se, assim, num certo aspecto, uma coídeízlízaçãodo p/enfim
sensível
submeterao método.A aplicaçãoda matemáticaaosplena da âgura realmente
correspondente. A ínÚrzídadeextensiva e intensiva, que era substruída com a ide-
alização dos íenâmenos sensíveispara além de todas as possesda intuição efetiva
dados têm, já por força da suaconcreção, pressupostos causaisque devem come-
- a partibilidade e divisibilidade ílz nÚnítum,assimcomo tudo o que pertence ao
contínuo matemático -, significa uma substrução deiníinidades
paraas qualida-
çar a ser determinados. Como sedeve efetivamenteproceder para isso,como se
deveregular metodicamenteo trabalho a realizar inteiramente dentro do mundo
intuível; como, nestemundo onde a idealizaçãohipotética introduziu inõnidades
desdo p/enfim, eopso cossubstruídas.Assim, todo o mundo dos corposconcreto
ainda desconhecidas, se deve fazerjustiça, pelos dois lados, à causalidade dos da-
é carregado com infinidades, não só da figura, mas também dosp/ena. Mas há que
fazer aqui a nova observaçãode que ainda não estádada com isto aquela"matema-
dos corpóreos faticamente apreensíveis,e como a partir deles,sempre segundo
métodos de medida, se hão de inferir as infinidades ocultas; como resultam daí,
tizabilidade indireta" que constitui a concepçãopropriamente galilaicada física.
na esfera das figuras, índices sempre mais perfeitos para o pZenum qualitativo
dos
Tendo chegado até aqui, só se adquiriu por ora um pensamento geral ou,
expressocom precisão, uma /zípótesegeral: domina, no <38> mundo intuível,
uma indutívídade uníl,farsa/,anunciada naquelasexperiênciasquotidianas, mas
corpos idealizados;como os próprios corpos, como concretos,se tornam deter-
mináveis, por meio de aproximações,segundo todas as suasocorrências ideais
oculta na sua inanidade.
Para Galileu, esta indutividade universal não era certamente entendida
como /zlpófese.De imediato, uma física era para elequasetão certa quanto a ma-
temática pura e aplicadaaté então.EstaIhe desenha,também, do mesmo modo,
o passometódico darealização(uma realizaçãocujo êxito tem, aosnossosolhos,
possíveis:tudo isto era assunto de descoberta na /z'fica. Por outras palavras: era
assunto de uma apaixonada prática depesquisa, e não, porventura, de um estudo
sistemático que aprecedessesobre aspossibilidades de princípio, sobre os pressu-
postos essenciaisde uma objetivação matemática que devessepoder determinar
de fato o concreto real no entrelaçamento da causalidade concreta universal.
A descobertaé uma mistura de instinto e método. Mas deverá perguntar-
necessariamente o significado da conÚrmação da /zzpófese- esta hipótese que de
todo não é óbvia com respeito à estrutura fática inacessível do mundo concreto).
seseuma tal mistura pode ser filosofia ou ciência em sentido rigoroso, se,em
Tratava-se, assim, para ele, antes de mais nada, de obter métodos de grande alcan-
ce,e sempreaperfeiçoáveis,de formar efetivamente,para além do que tinha até
então sido faticamente feito, todos os métodos de medida formados como possi-
bilidades ideais na idealidade da pura matemática; ou seja,por exemplo, de medir
velocidadesou acelerações.Mas também a própria matemática pura dasfiguras
carecia de uma formação mais rica no que respeita à quantificação construti-
va - o que posteriormente conduziu à geometria analítica. Tratava-se,então, de
sentido último, e no único sentido que nos pode servir para uma compreensão
do mundo e autocompreensão,uma tal mistura pode ser um conhecimento do
mundo. Como descobridor, Galileu pretendia realizar diretamente a suaideia,
pretendia formar métodos de medida para os dados mais próximos da experi-
ência geral; e a experiência efetiva mostrou (naturalmente, por uma metodo
logra que não foi radicalmente esclarecida) o que era a cada vez exigido pela
suaantecipaçãohipotética; ele encontrou conexões efetivamente causaisque se
deixavam exprimir matematicamente em "fórmulas'l
apreender por tais meios auxiliares a causalidade universal ou, poderíamos dizê-
lo, de apreendersistematicamentea indutividade
universal específicado mundo
É certo que, na atividade eíetiva de medir os dados intuíveis da experiên-
empírico pressupostona hipótese.Há que observar que, com a nova espéciede
cia, só seadquirem grandezase os seusvaloresnuméricos, <40> empiricamente
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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental + Edmund Husserl Segunda Parte '
A Crise das
Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental +
Edmund Husserl
Segunda Parte ' A Elucidação da Origem da Oposição Moderna entre Objeüvismo Fisicalista e Subjeüvismo
inexatos. Porém, a arte da medida é em si também uma arte de levar sempre mais
essência da ciência da natureza, é a priori
o seu modo
de ser, ser /z@óteseafé ao
longe a "exatidão"da medição na direçãode um aperfeiçoamentocrescente.E
uma arte, não como um método pronto para fazer algo acabado,mas, símuZfarzea-
mente, zzmmétodo de melhorar sempre novamente o seu método, pela invenção de
meios técnicos (por exemplo, instrumentais) sempre novos. Em virtude da refe-
rência do mundo à matemática pura, como o seu campo de aplicação, o "sempre
inÚnífo,e afé ao inÚnifo conÚrmação.Nestestermos, a confirmação estánão só,
como aconteceem toda a vida ativa, expostaà possibilidade do erro, nem requi-
sita correções ocasionais. Há aqui, em cada fase do desenvolvimento científico
natural, uma ação metódica e uma teoria inteiramente correta, da qual o "erro"
estájá excluído.Newton, o ideal do pesquisadorexato da natureza,diz ";zypo-
novamente" adquire, no entanto,o sentido matemático do írzínÚnífum,e, então,
fhesesnon ./i/zgo': e nisto está também incluído
que não se engana nos cálculos
toda a medição recebeo sentido de uma aproximação aum polo, decerto inalcan-
çável, mas ideal idêntico, a saber, de aproximação
a uma configuração
determina-
e que não incorre em erros metódicas. Assim como em todos os singulares,em
todos os conceitos,proposiçõesou métodos que exprimem uma "exatidão':uma
da dasidealidades matemáticas ou a uma das conâgurações a elaspertencentes.
idealidade, esconde-seo ín inÚnífum, como forma permanente da indutividade
O método inteiro tem de antemãoum sentidogeral,por maisque a cada
característica,que a geometriaprimeiramente
trouxe ao mundo histórico, o mes
vezselide com o fático-individual. Por exemplo,não setem de antemãoem
vista a queda livre deste corpo, mas o fático individual,
é um exemplo dentro
da
típica completa concreta da natureza intuível, coincluído de início na suainva-
riância empiricamente familiar; e isto se transpõe naturalmente para a atitude
idealizadora matemática galilaica. A matematização indireta do mundo que se
mo í?zínÚnífum seescondetambém na ideia total de uma ciência exata;e, com
isto, tal como se escondejá na ideia da matemática pura, também o fazna ideia
total da física. No progressoinânito das teorias corretas, agrupadasrespectiva
mente sob o título de "ciência da natureza de uma época': temos um progresso de
hipóteses que são, todas elas,hipóteses e conârmações. No progresso reside um
perâla, então,como oqetívação metódicado mundo í/zfuíve/forneceJórmuZas
rzuméricasgeraisque, uma vez encontradas,podem servir, na sua aplicação,
aperfeiçoamentocrescente;tomado no seutodo, para a ciência da naturezaintei-
ra, nele reside que esta sempre vem mais a si mesma, até o seu verdadeiro
sentido
para levar a cabo a objetivação fática nos casosparticulares subsumíveis. As
"definitivo': que ela oferecesempre uma "representação"melhor daquilo que é a
fórmulas exprimem manifestamente conexões causaisgerais, "leis da natureza';
leis de dependências reais sob a forma de dependências "funcionais" de valores
numéricos.:' O seu sentido próprio reside, então, não em puras conexões de va-
'verdadeiranatureza':Mas esta <42> não reside porventura no infinito, como
uma pura reta. Como "polo" infinitamente
distante, a verdadeira natureza é tam-
lores numéricos (como se fossem fórmulas em sentido puramente aritmético),
mas naquilo que a ideia galilaica de uma física universal, com o seu conteúdo
altamente complexo, como seirá mostrar, prescreveucomo uma tarefa que cabe
bém uma ínÚnídadede feorím, e só é pensávelcomo confirmação, ou seja,como
referida a um processoínÚnifo deaproximação /zísfóríca.Isto bem pode ocupar o
pensarfilosófico; mas remetepara questõesque não sepodem aqui ainda apre
ender e que não pertencem ao círculo daquilo que agora em primeiro lugar nos
à humanidadecientífica,e que é fornecido no processoda suarealizaçãona
deve ocupar: importa-nos
antes esclarecer integralmente,
tal como se mostravam
física bem-sucedida, como processo da formação de métodos particulares e de
na suamotivação, a ideia e a tareia de uma física que, como física galilaica, deter
fórmulas
e "teorias"
matemáticas
por eles cunhadas. <41>
l
minou desdea suaorigem a âlosoâa moderna, e esclarecertambém aquilo que,
como tradicionalmenteóbvio, a influenciou; aquilo que permaneceu,por isso,
e) O caráterconârmativo da hipótesecientífico-natural fundamental
como pressuposto de serzfído não esc/arecido ou que posteriormente
se Ihe juntou,
transformando o seuverdadeiro sentido em algo depretensamenteóbvio.
Segundo a nossa observação - que ultrapassa, de resto, o simples problema
A
este respeito não é necessárioentrar mais concretamente nos primór-
do esclarecimentoda motivação galilaica e da ideia e tarefa de uma física daí re-
dios da encenação da física galilaica e da formação dos seus métodos.
sultantes -, a ideia galilaica é uma /zzpófese,e uma hipótese, aliás, de uma espécie
nofáveZ;e a ciênciada naturezareal,confirmadaao longodos séculos,é uma
f) O problema do sentido de "fórmula"
da ciência da natureza
conârmaçãode uma espéciecorrelativamente notável.Notável:porqz4ea ;zPófese
permattece também, apesar da con$rmação, ainda e sempre hipótese;a conforma-
Há, aqui, porém, ainda algo de importante para o nosso esclarecimento.
ção (a única para ela imaginável)
é um curso ínÚnífo de conÚrmações. É a própria
A
realização:: decisíl'a pela qual, de acordo com o sentido global dos métodos
10
N.T.:No original,Zah/en
11
N.T.:Le/sfung
32
33
.ao.zVIS

l

A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental. Edmund Husser Segunda Parte ' A
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental.
Edmund Husser
Segunda Parte
' A Elucidação da Origem da Oposição Moderna entre Objetívismo Fisicalista e Subjetivismo
cientíâco-naturais, se tornam possíveissem mais, numa ordem sistemática, determinadasprevisõespara além da
cientíâco-naturais, se tornam possíveissem mais, numa ordem sistemática,
determinadasprevisõespara além da esferadas intuições imediatamente ex-
perienciáveis e dos conhecimentos empíricos possíveisdo mundo da vida pré-
cientíâco, é a ordenação eáefí?adas ídea/idades mafemáfícízs,de início
substru-
ídas hipoteticamente numa generalidade indeterminada, mas que têm de ser
ainda demonstradasna sua determinidade. Seainda se têm estasidealidades
vivas no seu sentido original, então bastará dirigir um simples olhar temático
para estesentido, a íim de apreender assériesde incremento dasí/zfzíções(que
valem doravante como aproximações) indicadas pelas quantidades da coorde
nação funcional (em poucas palavras: pelas fórmulas) ou, seguindo estasindica-
ções,atualizar de modo vivo essasséries.E o mesmo em relaçãoà própria coor
denaçãoque se exprime nasformas funcionais, segundo a qual <43> sepodem
desenhar as regularidades
empíricas que podem ser esperadas do mundo da vida
práfíco. Em outras palavras: uma vez na posse das fórmulas, tem-se, então, já de
início, aprevisão, pretendida para a prática, do que há para se esperar na certeza
empírica, no mundo intuível da vida concretamente efetiva,onde o jelementol
matemático é somenteuma prática especial.A matematização,com asfórmulas
por ela alcançadas, é, então, a realização decisiva para a vida.
A partir destasconsideraçõescompreende-se que o interesseapaixonado do
pesqzzísadorda naf rezasedirige de imediato,logo com a primeira concepçãoe
execuçãodo método, paraesteterreno decisivo da realizaçãode conjunto indica-
da, ou seja,para aslórm
/as,e, sob o título de "método científico-natural': "méto-
do do conhecimento verdadeiro da natureza': para estemétodo artificial de alcan-
ça-las,de fundamenta-laspara toda a gentede modo logicamente concludente.E
é igualmente
compreensível
que tenha havido
a tentação de nessas fórmulas
e no
seusentido como fórmulas apreender o verdadeiro ser da própria natureza.
Este "serzfídocomoJ3rmu/as" carece agora de um melhor esclarecimento,
em especial no que serefere àperda de serzfídoque se dá inevitavelmente com
a formação e exercício artiâcial dos métodos. As medições fornecem medidas
numéricas e, nasproposições geraissobre dependênciasfuncionais entre gran-
dezas medidas, em vez de números defermírzados,fornecem números em geral,
asseridosem proposições geraisque exprimem leis de dependênciasfuncionais.
Há, então, que considerar, neste ponto, o enorme efeito, num certo aspecto sa-
lutar, num outro, funesto, dos modos de pe zoare das símio/ízaçõesalgébricas
que desde Vieta, ou seja,já antes de Galileu, se divulgaram na Modernidade.
EJnprimeiro lugar, elassignificam uma ampliação gigantescadaspossibilidades
do pensamentoaritmético herdado nasantigasformas primitivas. Estesetorna,
agora,um pensar apriorístico livre, sistemático e inteiramente liberto de toda a
efetividade intuível, sobrenúmeros em geral, correlaçõeseleis numéricas. Logo
que é aplicado, com todas as suasampliações, na geometria, em toda a matemá-
tica pura das âguras espaço-temporais,estassetornam <44> inteiramente for
34
malizadas de modo algébrico com um propósito metódico. Surge,então, uma 'arifmefízaçãoda geomefriíz':uma
malizadas de modo algébrico com um propósito metódico. Surge,então, uma
'arifmefízaçãoda geomefriíz':uma aritmetização de todo o domínio das puras
âguras(das retas,dos círculos, dos triângulos, dos movimentos, das relações
de lugar ideais etc.). Eles são pensados idealmente como mensuráveis de modo
exato, só que as próprias unidades ideais de medida têm um sentido de grande
za espaço-temporal.
De certo modo, estaaritmetizaçãoda
geometria conduz como que por
si mesma ao esvazíamenfodo seusenado. As idealidades efetivamente espaço-
temporais, tal como originalmente seexpõem no pensar geométrico sobo título
usual de "intuições puras': transformam-se, por assim dizer, em puras figuras
numéricas, em configurações algébricas. No cálculo algébrico faz-se automa-
ticamente retroceder, ou abandona-semesmo por completo, o significado ge
ométrico; calcula-se, e só no âm se recorda que os números deviam significar
grandezas.Não secalcula, porém, "mecanicamente" como nos cálculos numéri-
cos habituais; pensa-se,inventa-se, fazem-se eventualmente grandesdescober-
tas - mas com um sentido insensivelmente deslocado, "símbó/íco':Daí advém,
mais tarde, um deslocamento metódico inteiramente consciente - uma transi-
ção metódica, por exemplo, da geometria para a análise, tratada como ciência
autónoma, e uma aplicação à geometria dos resultados nela alcançados. Teremos
ainda de nos deter neste ponto com maior
pormenor, embora sucintamente.
Este processo de transformação do método realizado de modo instinti-
vo, e não refletido na prática teórica, começajá na época de Galileu, e conduz,
num movimento imparávelde progressoda formação,atéum estádiosupremo
e,mesmo, a uma exorbitância da "aritmetização": até uma total "formalização'
universal. Isto aconteceprecisamentepelo progresso da formação e ampliação
da doutrina algébrica dos números e das grandezas,até uma "arzáZíse':"doutri-
na das muZf@Zícídades"ou "logística" (palavras que se devem entender ora em
sentido mais estrito, ora em sentido mais lato, posto que falta, infelizmente, até
hoje, uma designaçãounívoca para isso que, de fato, constitui um campo ma-
temáticoúnico) universale, então,pzzramenfeJorna/. Leibniz foi o primeiro,
claramente muito
à frente do seu tempo,
a discernir
e a reconhecer como tarefa
para o futuro a ideia universal, encerradaem si, de um pensar algébrico supre
mo, <45> de uma "mafhesísuniversaZís'lcomo a denominava, ao passoque só
no nosso tempo ela veio ao menos a aproximar-se de uma configuração siste-
mática. Segundoo seusentido completo e integral, ela nada mais é do que uma
!ógícaJormaZrealizada em todos os seusaspectos(ou a realizar infinitamente
na totalidade da sua essênciaprópria), uma ciência das.#gz4rasde senfídodo
"a/goemgera/" construtível num puro pensar,em generalidadepura-formal e,
sobreestabase,ciência das"mulf@/icídades"a ser construída sistematicamente
como em si não contraditórias, segundoasleis formais elementaresda não con-
tradição de tais construções; no seuponto mais alto, é ciência do universo das
35
EdmundHusserl A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental Segunda Parte ' A Elucidação
EdmundHusserl
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental
Segunda Parte ' A Elucidação da Origem da Oposição Moderna
entre Objeüvismo Fisicalísta e Subjeüvismo.
multiplicidades" em geralimagináveisdestemodo. "Multiplicidades" são,por
aqui fora de circuito; destemodo, tal pensar é posto também fora de circuito na
conseguinte, fofaZídades co?npossít,eísem si de obyefosem gera/, as quais só numa
própria doutrina formal dasmultiplicidades, assimcomo na doutrina algébrica
generalidade vazia-formal
são pensadas como "certas" e, na verdade, como de-
s números e grandezas que Ihe antecede; e, então, em todas as restantes apli-
ânidas por modalidades determinadas do algo-em-geral. Destacam-se,dentre
elas,asdenominadas mz4/f@/ícídades'deÚrzídas",cuja deânição,por meio de um
sistema completo de axiomas': confere, em todas as determinações dedutivas,
aos objetos-substrato formais nelas contidos, uma totalidade especíâca,com a
cações da elaboração técnica, sem retornar
ao sentido propriamente
cientíâco;
e, em consequência,também na aplicação à geometria, a matemática pura das
âguras espaço-temporais.
qual, pode dizer-se, é co?zsfruídaa ídeí(zlormaZ-lógicade am "mundo emgeral"
A
"doufrí?zadasmu/flpZlcídades':em sentido privilegiado, é a ciência universal
Em si, o progressoda matemáticaobjetiva em direção à sua logicização
formal, e a autonomizaçãoda lógica formal, ampliada como análisepura ou
doutrina pura das multiplicidades, é algo de totalmente /egífímo,e mesmone-
das multiplicidades
de$nídas.::
g) O esvaziamentode sentido da ciência matemática da natureza pela
tecnicização"
cessário;assimcomo a tecnicização,com a suaocasional perda total num pensar
meramente técnico. Tudo isto, porém, pode e tem de ser um método exercido e
compreendido emp/e?zacorzscíêncía.Mas isto só aconteceseforem acautelados
perigosos des/ízamenfosde sentido, fazendo com que permaneça sempre dis-
ponível, em ato, a doaçãodesenado orÜí?záríaa partir da qual o método tem o
Esta ampliaçãoextrema da aritmética algébrica,ela própria já formal,
sentidode <47> um contributo para o conhecimento do mzz/zdo;e, ainda mais.
embora limitada, tem de imediato, pelo seucaráter a priori, a sua aplicaçãoem
toda a matemática pura "concretamente real"is na <46> matemática das "pu-
ras intuições'; e, assim, na natureza matematizada; mas, também, aplicaçãoa si
que ele sejaliberto de toda a fradícíona/idade nquesfíonada que fez introduzir
momentos de obscuridade de sentido, já desdea invenção inicial da nova ideia
e do novo método.
mesma, aplicação à aritmética
algébrica que Ihe antecede e, novamente, na sua
O interesse predominante do pesquisador que descobre anatureza dirige-
ampliação, atodas assuaspróprias multiplicidades formais; elaestá,então, des-
ta
maneira, referida a si mesma. Ao formar artificialmente a sua metodologia,
tal como tinha acontecidojá com a aritmética, a ]natemáticapura vê-se,assim,
automaticamente envolvida numa transformação pela qual ela se torna direta
mente uma arte; a saber, uma mera arte de, por meio de uma técnica calcula-
se,conforme apresentamos,para aslãrmzz/as,alcançadase por alcançar.Quanto
mais longe a física avançou na matematização efetiva da natureza intuível, pre-
viamente dada ao modo do mundo circundante, tanto mais ela passou a dis-
por deproposições matemático-científico-naturais, e, simultaneamente, quanto
mais formado estájá o seuinstrumento competente, isto é,a "nzaf/zesísumversa.
tória segundo regras técnicas, obter resultados cujo eíetivo sentido de verdade
Zis':tanto maior é o domínio
dos racíocírziosdedzzfí?osde novoslatos da natureza
é alcançável num pensar objetivamente intelectivo''
exercido efetivamente
quantificada
para ela possíveis e, assim, também
o das remissões às verificações
nos próprios temas. SÓestão aqui em ação aqueles modos de pensar e aquelas
correspondentes a efetuar. Estascompetem propriamente
aolz'sêcoexperimenta/,
evidências que são indispensáveis a uma técnica enquanto tal. Opera-se com
letras, sinais de ligação e relação (+, x, = etc.), e segundo as regrasdo./ogoda
bem como todo o trabalho de ascensão,a partir do mundo circundante intuí-
vel e das experiênciase medições nele a efetuar, até aospolos ideais. Osj'sacos
sua ordenação conectiva, de um modo que, de fato, em nada difere no essencial
do jogo de cartas ou de xadrez. O pensar or@ínárío que confere propriamente
mafemáfícos, por sua vez, sediados na esfera do espaço-tempo aritmetizada ou,
sentido a este procedimento técnico, e verdade aos resultados carretos (ainda
que seja a "verdade formal"
própria da maf/zesíszznít,erga/isformal), está posto
em simultâneo com ela,na maf/zesisuniverso/ísíormalizante, tratam asfórmulas
físico-matemáticasque lhessãotrazidas como configurações purasparticulares
da maf/zesísformal, mantendo naturalmente invariantes asconstantesque nelas
ocorrem como em leis funcionais da naturezalãfíca. Tomandoconjuntamente
12 Cf. com maior exatidão acercado conceito da multiplicidade definida, as "/dêemzu e/ner
reinen Phãnomenologieund phãnomenologische Philosophie" \"\delas para uma fenome-
nologia pura e filosofia fenomenológica"], 1913.p. 135e segs.Sobre a ideia da "malhas/s
em consideraçãoa totalidade das "leis da natureza,já demonstradas ou que es-
tão a ser trabalhadas como hipóteses': elesretiram, com baseem todo o sistema
formal de leis desta maf/zesísde que dispõem, as consequênciaslógicascujos
un/versa//s", cf. "Log/sebeUntersuchur7gen" ["]nvestigações Lógicas"], 1,1900,
reeditada em
resultadosos experimentalistas têm de assumir. Mas também realizam a elabo-
1913; e, principalmente, "Forma/e und trar7szer7denta/eLog/r' ["Lógicaforma] e transcen-
denta["].
Ha]]e, Niemeyer, 1930.
ração das possibilidades lógicas de novas hipóteses a cada passo disponíveis, as
13 NI.: Sachhalüg.
quais têm, é certo, de ser compatíveis com a totalidade
das hipóteses de cada vez
14
N:T.: Sachlich-einsichtig.
admitidas como válidas. Cuidam, assim, da preparação das formas das hipóte-
36
37
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental Edmund Husserl Segunda Parte eA Elucidação
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental
Edmund Husserl
Segunda Parte eA Elucidação da Origem da Oposição Moderna entre Objetivismo Fisicalista e Subjeüvismo
ses,formas que serão, a partir daí, como possibilidades hipotéticas, as únicas
Em relaçãoà geometria pura, Galileu era também herdeiro. A geometria
admissíveis para a interpretação das regulações causais a estabelecer doravante
/herdada e a maneira herdada da imaginação
"intuitiva':
do demonstrar, das cons-
de modo empírico, por observaçãoe experimentação, em relação ao polo ideal
truções "intuitivas'; não era mais ízgeometria oregína/que, nesta "intuitividade'
que lhes pertence, isto é, aleis exatas. <48> Mas mesmo os físicos experimentais
estava já esvaziada de sezzfído. A seu modo,
também
a geometria
antiga era já
estão no seutrabalho permanentemente voltados para o polo ideal, para gran-
dezasnuméricas, para fórmulas gerais.Estasestão,por conseguinte, no centro
uma Té2CVH,afastadadasfontes originárias da intuição efetivamente imediata e do
pensar originariamente intuitivo,
a partir de cujas fontes a denominada intuição
do interesse de foda
a pesquisa cientíâco-natural.
Todas as descobertas, tanto da
geométrica, isto é, a que opera com idealidades, começou por criar o seu sentido.
física antiga quanto da nova, sãodescobertasdentro do que sepoderia chamar
À geometria dasidealidadesprecedeu a agrimensura prática, que nada sabiade
de mundo das 6rmulas
ordenado à natureza.
O sentido de fórmula deste mundo reside em idealidades, enquanto toda
idealidades.Tal operaçãopré-geoméfrícaera, contudo, para a geometria, funda-
mento de sentido, fundamento para a grande invenção da idealização:incluía-se
a laboriosa
realização a elas dirigida
assume o caráter de um mero caminho
para
aqui igualmente a invenção do mundo ideal da geometria, e da metodologia da
uma meta. E, aqui, há que tomar em consideração a influência da tecnicização,
acima caracterizada,do trabalho do pensarmatemático-formal: a transforma-
ção das suasteorias experienciais, descobridoras e construtoras, de um pen
determinação objetivadora das idealidades por meio das construções criadoras da
existência matemática': Foi uma negligência ftlnesta que Galileu não tivesseper-
guntado pela operação originariamente doadora de sentido, a qual, aquandocomo
sar eventualmentefigurador da maior genialidade,num pensarcom conceitos
idealizaçãosobreo solo original detoda avida teórica e prática
o mundo ime-
transformados, com conceitos "simbólicos'l
Assim se esvaziatambém
o pensar
diatamenteintuível(e aqui, em especial,sobreo mundo empiricamente intuível
puramente geométrico, bem como, na aplicação deste ànatureza fática, o pensar
dos corpos) -, forneceu a conâguração geométrica ideal. Desde logo, ele não con-
cientíâco-natural. Uma tecnicização apodera-se,além disto, de todos os méto-
dos restantespróprios às ciências da natureza. E não é só que estes,em conse-
quência, se "mecanizam':
Pertence à essência de todo
o método
a tendência
de
se perder numa união com a tecnicização. A ciência da natureza sofre, assim,
uma multíplice transformação e encobrimento de sentido. Toda a combinação
entre física experimental e física matemática, assim como o gigantesco traba-
lho do pensar daí em diante efetivamente realizado, decorre num horizorzfede
sentido fransáormado.É certo que existe até determinado ponto a consciência
siderou o seguinte:o livre fantasiartransformador destemundo e dassuasâguras
fornece tão só figuras empírico-intuíveis possíveis,e não as âguras exatas;que
motivações e que nova operação eram requeridas pela idealizaçãoque só então
se mostrava como propriamente geométrica. Segundoos métodos geométricos
herdados,estasoperações não eram mais afívadas de modo vivo, e, ainda menos,
então,reflexivamenteelevadasà consciênciateórica como métodosinteriormente
produtores do sentido da exatidão. Podia parecer,assim, que a geometria, com
um "intuir"
apriorístico
próprio,
imediatamente
evidente, e um <50> pensar que
da diferença entre Té%vTIe ciência, mas o estudo retrospectivo do sentido espe-
com ele lida, criaria uma verdade absoluta autónoma que, como tal, seria sem
cífico que a natureza adquiriu pelo método artiâcial cessademasiado cedo. Já
mais
obviamente - aplicável. Permaneceu oculto a Galileu e aos tempos que se
não chegasequerlonge o suficientepara conduzir até o nível da ideia de uma
Ihe seguiram o fato de que estaobviedade era uma ilusão
conforme âzemos aci-
matematização da natureza, ideia que foi delineada pela meditação criativa de
Galileu, até aquilo que Galileu e os seusseguidorespretendiam com esta mate-
matização,e que conferia sentido ao seutrabalho construtivo.
ma notar nos seustraços fundamentais, comentando a interpretação do próprio
pensar galilaico -, e que também o sentido da aplicação da geometria tem uma
complicada conte de sentido. Precisamente com Galileu começa, então, a substi-
h) O mundo da vida como fundamento esquecido de sentido da ciên-
cia danatureza
tuição danatureza pré-cientiâcamenteintuível pela natureza idealizada.
Destemodo, qualquer estudoretrospectivo ocasional (ou também "filosó-
fico") dirigido ao sentido próprio deste trabalho artiâcial detém-se sempre na na-
tureza idealizada, sem conduzir radicalmente até o âm último que a nova ciência
Devemosconsideraragoracomo da maior importância uma <49> subs-
tituição, que estáem efetivaçãojá em Galileu, do único mundo efetivo, o que é
efetivamente devido à medida da percepção, do único mundo alguma vez expe
da natureza,com a geometria que dela é inseparável,crescendoa partir da vida
pré-científica e do seumundo circundante, deveria desdeo início servir; um âm
que,no entanto, reside?zesfaída, e a cujo mundo da vida tem de estarreferido.
rienciado e experienciável o nossomundo da vida quotidiano -
pelo mundo
SÓa estepoderia o homem que vive neste mundo,
entre os quais o pesquisador da
matematicamentesubstruído das idealidades.Estasubstituição íoi rapidamente
natureza, dirigir
todas as suasquestões práticas e teóricas, só ao mu?zdoda vida,
transmitida
aos seus continuadores,
aos físicos de todos os séculos subsequentes.
nos seushorizontes ignotos infinitamente abertos se poderia ele referir teorica-
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todos os séculos subsequentes. nos seushorizontes ignotos infinitamente abertos se poderia ele referir teorica- 38 39
Edmund Husser A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendenta Segunda Parte ' A
Edmund Husser A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendenta Segunda Parte ' A
Edmund Husser
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendenta
Segunda Parte
' A Elucidação da Origem da Oposição Moderna entre Objetivismo
Fisicalistae Subjeüvismo.
mente. Todo o conhecimento de leis só poderia ser conhecimento, a apreender
ideias bem talhada, a das verdades denominadas objetivamente cientíâcas; isto é.
em termos de leis, de previsões sobre o decurso de fenómenos empíricos eíetivos
epossíveis,os quais, com a ampliação da experiência, se delineiam para ele no ho-
rizonte desconhecido por meio de observações e experiências sistematicamente
por um método queprecisaser executado(assimo esperamos)efetivamente,e até
indagadoras, e se conservam à maneira
de induções. Assim, a indução
conforme
o método cientíâco surgiu naturalmente a partir da indução quotidiana, mas isto
em nada altera o sentido essencial do mundo pré-dado como horizonte de todas
o singulm, e que precisaser confirmado permanentemente, construímos, de início.
determinadas induções numéricas em lugar dose/ena sensíveis,e6etivose possíveis,
das âguras concretamente intuíveis do mundo da vida, e alcançámos exatamente,
assim, possibilidades de uma previsão dos acontecimentos concretos do mundo,
intuíveis no mundo da vida, que ainda ou já não estão dados como eÊetivos;esta é
as induções com sentido. Encontramo-lo como o mundo de todas as realidades
uma previsão que excedeinfinitamente asoperações da previsão quotidiana. <52>
conhecidas e desconhecidas. A ele,ao mundo da intuição efetivamente experien
A roupagem de ideias da "matemática e ciência matemática da natureza':
ciadora, pertence a forma do espaço-tempo com
todas estas figuras corpóreas a
ou a roupagemdos símio/os, das teorias simbólico-matemáticas, abrange tudo
inscrever, nele vivemos nós próprios, segundo o
nosso modo de ser somático's
pessoal.Mas não encontramos aqui nenhuma idealidade geométrica, nem o es
aquilo que, para os cientistas, assim como para os homens instruídos, subsfífz/Í o
mundo da vida e o mascara, como a natureza "objetivamente efetiva e verdadei-
paço geométrico, nem o tempo matemático com todas assuasfiguras.
Uma observaçãoimportante, embora tão triviall Mas estatrivialidade está
ra': A roupagem das ideias faz com que tomemos pelo verdadeiro ser aquilo que
é um
método
com o âto de,num progressosí/zfnÚnífz4m,melhorar,porprevf-
precisamente soterrada pela ciência exata já desde <51> a geometria antiga, precisa-
sões"cienfz@cczs':as rudes previsões que, originariamente,
são as únicas possíveis
mente por corça desta substituição, por uma operação metodicamente idealizadora,
disso que é imediatamente dado como eÉetividadepressuposta em toda a idealização,
dado numa cona'mação à sua maneira inultrapassável. Este mundo eÉetivamente
dentro daquilo que é efetivamenteexperienciado e experienciável no mundo da
a roupagem das ideias faz com que o senfído pf'óprío do método, daslõrmzz-
intuível, eÉetivamenteexperienciadoe experienciável,no qual sejoga, na prática,
toda a nossavida, permanece tal qual é, inalterado na sua estrutura essencialpró-
pria, no seuestilo causalconcretopróprio, o que quer que façamos,arüâcialmente
/as,das "teorias"permaneça incompreendido,e que, no surgimento ingênuo do
método, não sejalamais compreendido.
Assim, o proa/ema róidícaZde sabercomo tal ingenuidade foi realmente
possívelenquanto fato histórico vivo, e continua a ser,de como pede algum dia
ou sem qualquer artifício. Ele, então, é muito pouco alterado por inventarmos uma
surgir um método efetivamente orientado para uma meta de resolução sistemá-
arte particular, a arte geométrica e galilaica, chamada física. Que realizamos eÉeti
vamente por
intermédio desta arte? Precisamenteuma previsão que necessitaser
tica de uma tarefa científica inânita, e que para isso apresentaresultadoscons-
tantes indubitáveis, e que tenha, então, através dos séculos, sido capaz de fun-
ampliada até o infinito. Podemos dizer em seu favor que toda a vida se assenta na
previsão, na indução. Da maneira mais primitiva, a certeza do ser de toda e qualquer
cionar semcessarcom utilidade, sem que alguém lograsseuma compreensão
efetiva do sentido próprio e da necessidade interior
de tais realizações, jamais se
simples experiência é já indutiva. As coisas "vistas" já são sempre mais do que aquilo
que delas "própria e eÊetivamente"vemos. Ver, perceber,:' é, na sua essência, um "ter
tornou algum dia consciente.Faltava, então, e continua ainda a faltar a evidên-
propriamente" unido a um propósito,:' um pré-signiâcar.Toda a prática, com os
seuspropósitos, implica induções, só que os conhecimentos indutivos usuais,etam-
cia efetiva,na qual o gerador-de-conhecimento possadar-se a si mesmo justifi-
cação,não só daquilo que faz de novo, e de que trata, mas também sobretodas
asimplicações de sentido que encerra, por sedimentação ou tradicionalização,
bém os expressamente formulados
e "conservados"(isto
é, as previsões), são "sem
ou seja, sobre as pressuposições constantes das suas conâgurações, conceitos,
artifício': em contrastecom asinduçõesartificiais "metódicas':a incrementar até o
infinito
pelo método da física galilaica na sua capacidade realizadora.
Na matematização geométrica e científico-natural
ajustamos, então, ao mun
proposições ou teorias. Não seassemelhaa ciência a uma máquina que produz
resultados manifestamente muito úteis e que, por isso, é sável, uma máquina
com a qual qualquer um pode aprender a manejar corretamente, sem compre-
do da vida
o mundo permanentemente dado como efetivo na nossavida concre-
ender minimamente
a possibilidade
e necessidade interna
de tais realizações?
ta no mundo -, na infinidade aberta de experiênciaspossíveis,uma roupagemde
Mas poderia a geometria,poderia a ciência, ser antecipadamenteprojetada
como uma máquina, partindo de uma compreensãocompleta - isto é,cientíâca
- no mesmo sentido? Não conduziria isto a um "regresszzsi/z ínÚnífum"?
15
N.T.:Le/b//ch.
Em conclusão: não setrata aqui de um problema que se encaixa na mesma
16
N.T.:Tratando-se da percepção em sentido especiflcadamente psicológico ou fenomenoló-
gico, optamos por traduzir 14/ahrnehmenpor "perceber'
N.T.:Uor-haben.
série <53> do problema
dos instintos
em sentido habitual? Não é este o proa/ema
].7
da rczzãooczz/faque só quando se torna manifesta é que se sabe como razão?
40
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A Crisedas Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental + Edmund Husserl na entre Objeüvismo Fisicalísta
A Crisedas Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental + Edmund Husserl
na entre Objeüvismo Fisicalísta e Subjeüvismo.
Husserl na entre Objeüvismo Fisicalísta e Subjeüvismo. l Galileu, o descobridor ou para fazerjustiça aos

l

Galileu, o descobridor ou para fazerjustiça aos seustrabalhosprepa' ratórios: o descobridor consumado - da física
Galileu, o descobridor
ou para fazerjustiça aos seustrabalhosprepa'
ratórios: o descobridor consumado - da física e da natureza física é um génio
simultaneamente descobridore encobridor. Ele descobrea natureza matemáti-
ca, a ideia metódica, desbravao caminho para a inanidade dos descobridores
e dasdescobertasfísicas. Descobre, perante a causaZídadeu zít'farsa/do mtítzdo
fnfuíveZ(como sua forma invariante), aquilo que desdeentão se chama a Zef
causal pura e simples, a "forma
a priori"
do "verdadeiro
mundo"
(idealizado
e
matematizado), a "lei da legalidade exata':segundo a qual rodo o acorzfecerda
'natureza" idealizada - está necessariamentesugeífoa leis exafas.Tudo isto é
um descobrimento-encobrimento, e tomamo-lo até hoje como a pura verdade.
E nadadisto é principialmente alterado pela crítica "da lei causalclássica':que
sepretende filosoficamente arrasadora, por parte da nova física atómica. Porque
apesardetoda a novidade permanece,entretanto, parece-me,o que éprincfPíaZ-
menfe esserzcíaZ:a natureza em sí mafemáfíca, dada em fórmulas, interpretada
unicamente a partir das fórmulas.
«.«Ü$SEiUHn;iillÚ!:::: :n
Continuo também naturalmente a colocar Galileu, com foda a seríeda
de, no cume dos grandes descobridores da Modernidade, assim como admiro
certamente, com toda a seriedade, os grandes descobridores da física clássica
e pós-clássica e as realizaçõesdo sez/pensar, que não são de todo realizações
meramente mecânicas,mas, de fato, ízZfamenfenotáveis. Isto em nada fica di-
minuído pelo esclarecimento apresentado dessasrealizações como Té2CVH,ou
pela crítica prítzc@ía/que mostra que o sentido próprio, originalmente ge
nuíno destasteorias dos físicos, e até mesmo as maiores teorias dos maiores
físicos, permaneceu ocu/fo, e não podia deixar de permanecer oculto. Não se
trata aqui de um sentido metafísico, lá colocadoe fruto de especulação,mas
do que Ihe é próprio segundo a maíslorçosa evidência, o único sentido efetivo
destasteorias,em contrastecom o seu sentidode método,o qual tem a sua
compreensibilidade específica no <54> operar com aslórmu/as e na suaapli-
cação prática, a técnica.
SÓquando estivermos muito mais avançadosno esclarecimento do de-
senvolvimento histórico segundo as suas forças motrizes mais íntimas é que
sepoderá mostrar de que modo o que aqui se disseé ainda unilateral, e a que
horizontes de problemas, conducentes a novas dimensões, não faz justiça, di-
mensões que só são abertas por um estudo acerca dessemundo
da vida e do
homem como o seusujeito.
i) Erros funestos que se seguem da falta de clareza sobre o sentido da
matematização
Com a reinterpretação matematizante da natureza por Galileu, fixam-se
também consequências perversas de grande alcance acerca da natureza que, de
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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental Edmund Husserl SegundaParte' A ElucidaçãodaOrigem
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental
Edmund Husserl
SegundaParte' A ElucidaçãodaOrigem daOposiçãoModerna entre Objetivismo Fisicalistae Subjetivismo
defeito de carecerdo processosistemático a fim de realizar cognoscitivamente,
ou seja,como matemática explícita, todo o "existente"das figuras na forma
j) O significado fundamental do problema da origem da ciência mate
mática da natureza
espaço-temporal. Em compensação, a respeito do existente em concreto na
naturezanão temos nenhuma evidência apriorística; temos de induzir toda a
Assim como todas as obscuridadesanteriormente indicadas,também es
matemática da natureza, para além da forma espaço-temporal, a partir dos fa-
tos da experiência. Mas não é a natureza em si inteiramente matemática, nem
tas são <57> consequência
da franiláormação da Jormczção oregínaríamenfe viva
de se/zfido, e da consciência
da tarefa originariamente viva, a partir da qual surge
tem tampouco de ser elapensadacomo um sistemamatemáticounitário, ou
o
método no seu sentido particular em cada caso.Assim, o método produzido,
seja,de ser efetivamente exponível numa matemática unitária da natureza: pre-
o
cumprimento progressivoda tareia, é,como método, uma arte ('té%vTI)que se
cisamente naquela que é a única a ser procurada pela ciência da natureza, e
procurada como abrangidapor um
sistemade leis "axiomático" quanto à for-
herda, mas de que não seherda por isso, sem mais, o sentido efetivo. E, preci-
samentepor isso, uma tareia e realizaçãoteórica como a de uma ciência da na-
ma, sistema cuja axiomática é sempre tão só uma hipótese e, por isso, jamais
tureza (e ciênciado mundo em geral), que só pelas infinidades do método pode
efetivamentealcançável?<56> Por que não o é?Por que não temos qualquer
perspectiva de descobrir o sistemade axiomas específicoda natureza, como
dominar a infinidade da sua temática, e aquelas inânidades também só por meio
de um pensar e fazer técnico, esvaziado de sentido uma tal tareia e realização só
um sistema de verdadeiros axiomas apoditicamente evidentes? Por que nos
falta, aqui, de fato, a faculdade inata?
Na figura de sentido da física e do seu método, âgura já mais ou menos
tecnicizada, em que perderam o seusentido, a diferença em causaestava"total-
mente clara": era a diferença entre matemática "pura" (apriorística) e"aplicada':
pode ser e permanecer efetiva e originariamente com sentido seo cientista tiver
formado
em si a capacidade de q esfionar 7efrospecfí?ame?zfeo senfído or@fnárío
de todas as suasconfigurações de sentido e métodos: o sentido hisfóríco da insfí-
ftzíção írzaugzzraZdo serzfído e, principalmente,
o sentido
de todas as /herançasde
entre "existência matemática" (no sentido da matemática pura) e existência de
realidades matematicamente âguradas (de que a figura matemática é, então,
um componente, como uma propriedade real). E, no entanto, mesmo um gê-
sentido, inadvertidamente transmitidas, nesta instituição inaugural e mais tarde.
Contudo, o matemático, o cientista da natureza, no caso mais favorável um
técnico altamente genial do método
ao qual ele
deve as únicas descobertasque
busca
éjustamente, regra geral, de todo incapaz de levar a cabo tais estudos. Na
nio
tão proeminente como Leibniz debateu-selongamentecom o problema de
apreenderno seu sentido correto uma e outra existência
ou seja,de modo
sua esfera efetiva de pesquisa e descoberta, ele não sabe de modo algum que tudo
o que estesestudos têm de esclarecer carece ele mesmo de escZarecímenfoe, na ver-
universal, por um lado, a existência da forma-espaço-temporal,como pura-
dade,de esclarecimentocom vista ao interessesupremo determinante para uma
mente geométrica e,por outro, a existência da natureza universal matemática
com a sua forma faticamente real, e de compreender a correta relação mútua
entre ambas.
O papel que estas obscuridades
desempenharam para a problemática
kantiana dos juízos sintéticos a priori e para a sua separaçãoentre os juízos
filosofia e ciência, o interesse do conhecimento efetivo do próprio mundo, da pró-
pria natureza. E isto, na medida em que foi determinante na sua instituição origi
nária, éjustamente o que seperdeu por uma ciência tradicionalmente dada, que se
tornou uma çé2CVH.Toda a tentativa, proveniente de um círculo de pesquisadores
exterior à matemática ou à ciência da natureza de conduzi-lo para tais estudos, é
sintéticos da matemática pura e os da ciência da natureza não poderá deixar de
nos ocupar minuciosamente mais abaixo.
recusada como "metafísica': O especialista que dedicou
a sua vida a estas ciências,
no entanto - isto Ihe parece claríssimo -, não pode deixar de saber melhor aquilo
A obscuridade fortaleceu-se ainda e transformou-se mais tarde com a
que no seu trabalho pretende e realiza. As necessidades filosóficas ("âlosófico-ma-
formação e permanente aplicação metódica da matemática pura formal. Con-
temáticas': "filosóâco-científico-naturais") despertadas também nestes pesquisa-
fundiu-se "espaço"e "multiplicidade euclidiana" definida de modo puramen-
dores,por motivos históricos que ainda seirão elucidar,<58> sãopor elespróprios
telormaZ; axioma eáefívo(a saber, no sentido antigo e usual do termo), como
suÊcientemente satisfeitas; mas, aânal, de tal modo que a dimensão inteira na qual
norma ideal de validade incondicionada apreendida na evidênciado pensar
importa perguntar não é em geralvista, nem por isso de todo questionada.
puramente geométrico ou também do pensar aritmético, puramente lógico, e
czxzoma"i?npróPrÍo- um termo que, na doutrina da multiplicidade, não de-
k) Característica metodológica da nossainterpretação
signa em geral juízos ("proposições"),
mas formas de proposições, como partes
integrantes da definição de uma "multiplicidade"
a ser construída formalmente
Paraconcluir, ainda uma palavra sobre o método que seguimos nas re
sem contradição interna.
flexões tão intrincadas destesparágrafos que estão,na verdade, ao serviço
do
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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental + Edmund Husserl Segunda Parte e
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental + Edmund Husserl
Segunda Parte e A EI
Oposição Moderna entre Objeüvismo Físicalístae Subjetivismo.
nossopropósito no seutodo. Os estudoshistóricos em que nos envolvemospara
chegar a uma autocompreensão tão necessária da nossa situação filosóâca exigi-
ram uma clarificaçãosobrea ordem do espú'ífomodem?zoe, assim
em virtude
do signiâcado, que não se poderia sobrestimar, da matemática e da ciência ma-
temática da natureza-, sobrea origem destasciências.Isto significa: clarificação
asslmcomo para o espírito.da humanidade europeia moderna em geral.
Do método faz também parte o seguinte:aos leitores, e em particular
da motivação originária e movimento do pensar que conduz à concepção da sua
ideia da natureza e, a partir daí, ao movimento da sua realização no desenvolvi-
- itor instruído nas ciências da natureza, será perceptível 'e apareceráqua-
mento em ato da própria ciência da natureza.A ideia em questãoemergepela
primeira vez em Gaze/eu,por assim dizer, já pronta; assim, liguei ao seunome
todas as observações (ou seja, idealizando/simpliâcando,
de
certa maneira, a si-
tuação), embora uma análise histórica mais exata tivessede fazerjustiça também
que compreende em si toda a vida real, inclusive a vida
do pensar cientí6co, e
àquilo que, nos seuspensamentos,Galileu deve aos "predecessores'l(E, com
que alimenta, como a suafonte, as formações artificiais de sentido - íàz parte
boas razões, continuarei
a proceder do mesmo modo.) Em relação à situação que
dessasdi6culdades, digo, ter de optar pela maneira de falar ingênua da vida,
eleencontrou, como estanão poderia deixar de motiva-lo, e como o motivou,
mas também maneja-la de modo apropriado, conforme é requerido para a evi-
segundoas suasconhecidasafirmações, algo sepode rapidamente estabelecer,e
dência das demonstrações.
'
'
'
'
"''-'
r
compreender, então, o início de toda doação de sentido da ciência da natureza.
Revelar-se-á progressivamente e, por fim, inteiramente,
que o único ca-
Mas desdelogo deparamo-nos com os deslocamentose velamentosde sentido
minho possível para ultrapassar a ingenuidade
âlosóâca que reside na '\;ienti-
dasépocasposteriores a Galileu até às mais recentes.Porque também
nós, que
íicidade" da âlosoâaobjetivista tradicional é o correto retorno à simplicidade
realizamos o estudo, estamos sob a sua influência
(e, posso pressupor, também
:ngênuai; da vida, mas numa reflexão que se eleve acima dela, revelação que
os meus leitores). Presosnela, não temos inicialmente nenhuma noção destes
deslocamentosde sentido: nós que, no entanto,julgamos todos sabertão bem o
abrirá asportas à nova dimensão já repetidamente anunciada.
' '''v"-'
H
ve acrescentar-seainda que, de acordo com o seu sentido, todas as
que "são" e o que realizam a matemática
e a ciência da natureza. <59> Pois quem
nossasexplicaçõessó podem ser úteis para a compreensão na relatividade da
não o sabehoje em dia daescola?Jáa primeira elucidaçãodo sentido da origem
da ciência moderna da natureza, contudo, e do seunovo estilo metódico, torna
sua situaçílo. e que a nossa expressão das dúvidas despertadas nas críticas apre-
perceptível algo sobre os deslocamentos de sentido posteriores. E elasmanifesta-
mente influenciam ou, no mínimo, diâcultam mesmo a análiseda motivação.
Estamos, então, numa espécie de círculo. A compreensão do início só
pode ser alcançadapor inteiro a partir da ciência dada na sua figura hodierna,
estudo, e servir para a nossa libertação. Todo o estudo a partir de fundamen-
no olhar retrospectivo para o seu desenvolvimento. Mas, sem uma compreensão
1;:ui :i:iunahP::;i!:?
do flzícío,este desenvolvimento, como desenho/vímenfodo senfído,é mudo. Não
nos resta senão o seguinte: temos de avançar e retroceder em "z©uezagzze";num
jogo recíproco,um tem de ajudar o outro. Uma clarezarelativade um lado traz
alguma elucidação do outro, o qual, por seu turno, se reflete de novo sobre o
lado contrário. No modo da observaçãohistórica e da crítica histórica, que têm
$
10.
.A ordem
do dzza/esmona made/arídade
doma/zanfe da cíê?leia da nafzíreza
A racíorza/idadedo mzzzzdo "more geomefrico"
"'-- -''
de seguir ao longo da sequênciatemporal a partir de Gaze/ezz(e logo depois de
Descarnes),temos, então, de dar permanentes sa/fos/zisfórícosque não são digres-
Uma basepara a observação de tipo moderno da natureza está ainda por
sões, mas necessidades; mas eles o são se, conforme
se disse, assumirmos
aquela
tarefa do autoestudo, resultante da situação de "catástrofe" do nosso tempo, com
ser realçada.Galileu, a partir do seu direcionamento do olhar para o mundo
da geometria, e a partir daquilo que empiricamente aparecee é i' ematizável,
a "catástrofe da própria ciência': Mas esta tareia diz respeito em primeiro lugar
aoestudo do sentido originário dasciências modernas e,antesde tudo, da ciên-
cia exata da natureza, uma vez que esta, conforme a temos de continuar a perse-
18 'Simplicidade
ingênua",
no original /Va/vftdt
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EdmundHusserl A Crisedas Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental Segunda Parte ' A Elucidação da
EdmundHusserl
A Crisedas Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental
Segunda Parte ' A Elucidação da Origem da Oposição
Moderna entre Objetivismo Fisicalista e Subjetivismo
absfraí dos sujeitos como pessoasde uma vida pessoal,de todo o espiritual em
qualquer sentido, detodas aspropriedades culturais que, naprática humana, ca
bem às coisas.Nesta abstração resultam as coisas puras corpóreas que, contudo,
axiomase deduções?Não é de admirar que possamosencontrar já em l)escarfes
a ideia de uma matemática universal. É claro que também o peso dos êxitos te-
óricos e práticos, que começaramdesdelogo com Ga/i/eu, teve a esterespeito a
tomadascomo realidadesconcretas<61> e na suatotalidade, setornam temáti
cascomo um mundo. Podebem dizer-se que só com Galileu surgeà luz do dia a
suainfluência. Em consequência,mundo efilosofia receberam,correlativamen-
te,uma feiçãocompletamentenova. O mundo tem de ser em si um mundo ra-
ideia de uma natureza como um murado de corpos reaZmenfeencerrado em si. A
par da matematização, demasiado apressadamente tornada uma obviedade, isto
acarreta como consequência uma causalidade da natureza encerrada em si, em
cional, no novo sentido da racionalidade, tomada da matemática e da natureza
matematizadae, correspondentemente,a íilosoâa, ciência universal do mundo,
tem de ser construída como teoria moregeomefrícounitariamente racional.
quetodo o acontecerestáprévia e univocamente determinado. É manifestamen
te preparado assimtambém o duízZismoque, em breve, emergecom Descartes.
Temos agora de aperceber que a concepção da ideia moderna da "natu-
$ \ \. O dualismo:
razão
da inapreensibilidade
dos problemas
da razão,
pressupor
to da especializaçãodas ciênciasealicerceda psicologia naturalÍstica
reza':como um mundo de corpos encapsulado,real e teoreticamenteencerrado
em si, traz consigo de imediato uma transformação completa da ideia do mun-
do em geral.Ele cinde-se, por assim dizer, em dois mundos: natureza e mundo
mental, dos quais este último, dado o modo da sua referência à natureza, não
resulta certamente numa mundaneidade autónoma. Os antigos dispunham de
No entanto, se a natureza racional cientíâco-natural é um mundo de
corpos que são:' em si, o que - na situaçãohistórica dada - vale como ób
vio, o mundo teria de ser em-si um mundo cirzdido,num sentido particular,
desconhecidoanteriormente,cindido em naturezaem-si e num modo de ser
algumas investigações e teorias isoladas sobre os corpos, mas não de um mundo
encerrado de corpos como tema de uma ciência da natureza universal. Tinham
também investigaçõessobrea alma:9humana e animal, mas não podiam dispor
de uma psicologia em sentido moderno uma psicologia que só podia aspirar
a uma universalidade correspondente, a saber,a um campo a ela pertencente,
do mesmo modo encerrado em si, porque tinha perante si uma natureza e uma
ciência da natureza universal.
A cisão e a transformação de sentido do mundo foram a consequência
conceitual da modeZarídadedo métodocíenfz@co-?zafz4raZ,que foi de fato inteira
mente inevitável no começo daModernidade, ou, em outras palavras,no come-
diferente dela: o ente:' psíquico. Isto não podia desdelogo deixar de levantar
gravesdificuldades, e já com respeito à ideia de Deus, validada pela religião, e
de modo nenhum abandonada.Não era Deus indispensável, como princípio da
racionalidade?Não pressupõe o ser racional, e já mesmo como natureza, para
ser de todo pensável, uma teoria racional, e uma subjetividade que a produz?
Não pressupõe, então, a natureza e, em geral, o mundo em-si, Deus, como a
razão que é absolutamente em si? Junto ao ser-em-si, não é então privilegiado o
serpsíquico,tomado como subjetividade que é puramente para si? Humana ou
divina, trata-se da mesma subjetividade.
ço da racionalidade científico-natural.
Na matematização da natureza tal como
Sempreque os problemas da razão se faziam sentir, a separaçãodo psí-
foi concebida,como ideia e como tarefa, residia o fato de que a coexistênciada
quico levantava em geral crescentes diâculdades.
<63> É certo que só mais tarde
estasse tornaram tão prementes que vieram a se mostrar como o tema central
totalidade infinita
dos seuscorpos na espaço-temporalidade, considerada em
si, era suposta ser uma coexistência matematicamente racional; só que a ciência
da natureza, como ciência indutiva, só podia, justamente, ter um acessoindu
tivo àsconexõesem si matemáticas.Em todo caso,como ciênciaindutora do
da âlosofia, em grandesinvestigaçõessobre o entendimento humano ou em
"Críticas da Razão':A força dos motivos racionalistas estava,contudo, ainda
intacta e, em toda a parte, empreendia-secom plena conâança a elaboração,
matemático, e guiada pela pura matemática, ela possuíajá a mais elevadaracio-
nalidade. Não era inevitável que esta ciência se transformasse no modelo para
todo o conhecimento autêntico; não tinha este,<62> se devia ser uma ciência
autêntica elevada acima da natureza, de seguir o modelo da ciência da natureza,
em todos os seusaspectos,de uma filosofia racionalista. Não inteiramente sem
êxito, no que se referea conhecimentos indubitavelmente valiosos que, mesmo
quando "ainda não" correspondiam aoideal, podiam ser justamente interpreta-
dos como estádiosprévios. O estabelecimentode cada nova ciência particular
era, então, eoPso, conduzido pela ideia de uma teoria racional correspondente
ou melhor: o da matemáticapura, porquanto talvez nosdevesseser "inata': tam-
bém noutras esferasdo conhecimento, a faculdade da evidência apodítica em
e, respectivamente, de um domírzío rácio?zaZem si. A especialização da âlosofia
20 N.T.:Sefend
19 N.T.:See/e.O termo serátraduzido, regra geral, por "mente", e só excepcionalmentepor
alma
21 N.T.:Se/onde

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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendenta Edmund Husserl Segunda Parte ' A
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendenta
Edmund Husserl
Segunda Parte ' A Elucidação da Origem da Oposição Moderna entre Objeüvismo Fisicalistae Subjetivismo
em ciênciasespeciaistem, nestascondições, um sentido mais profundo, que se
principialmente semelhante ao da natureza, e que se atribua à psicologia uma
prende exclusivamente à atitude moderna. As especializaçõesdos pesquisadores
antigos não poderiam resultar em ciências especiaisno nosso sentido. A ciência
da natureza de GaZÍZeunão surgiu por uma especialização. SÓas novas ciências
progressãoteórica, semelhante à da biofísica, que vai desdea
descrição até à
explicação"teórica última. Isto, porém, independentementeda doutrina car-
tesianadas"substâncias"corpórea e mental separadaspor atributos fundamen-
que se seguiram especializaram,por sua vez, a ideia de uma íi]osoâa racional
talmente distintos. Esta nafuraZízação do psíqzzicotransmite-se, através de Joh/z
motivada pela nova ciência da natureza,e dela receberamo seu impulso de
l,ocde, a toda a Modernidade
até aos dias de hoje. É significativa
a expressão
progresso e de conquista de novos domínios: regiões particulares racionalmente
encerradas no interior
da totalidade racional do universo.
imagética de Locke do whífepaper, da reDuZarasa, sobre a qual os dados mentais
vêm e vão, segundo certas regras, tal como os processos corpóreos na natureza.
Desde o início, logo que com Descarnesfoi proclamada a ideia da filosofia
Em
l,ocde,este naturalismo de uma nova espécie,fisicamente orientado, ainda
racional e a separaçãoentre espírito e natureza,já com o contemporâneode
não está formado de modo consequente, ou seja, pensado até o fim como sen-
Descarnes,Hobbes,apresenta-senaturalmente, como a primeira exigência, uma
nova psicologia. Conforme já o indicamos, essaera uma psicologia de um estilo
inteiramente estranho aopassado,esboçadaconcretamente, num espírito racio-
nalista, como uma antropologia psicofísica.
Não nos podemos deixar iludir pelo contrasteusual entre empirismo e ra-
sualismo positivista. Mas ele provoca rapidamente efeitos,de uma maneira de-
cisiva para o desenvolvimento histórico de toda a âlosofia. De qualquer modo,
a nova psíco/ogía naturalista
não era, desde o seu início,
uma promessa vã, mas
entra em cena, de modo notável, com grandes escritos e <65> a pretensãoda
cionalismo. O naturalismo de um Hobbespretende serum íisicalismo e, como todo
fisicalismo, segueprecisamente o modelo da racionalidade fisicalista.:: <64>
fundamentação durável de uma ciência universal.
Todas as novas ciências, imbuídas do mesmo espírito, parecem ter êxito
Isto é válido também para asoutras ciências da Modernidade, asciên-
cias biológicas etc. A cisão dualista, consequência da concepção fisicalista da
natureza, provocou nelas uma formação sob a forma de disciplinas cindidas. As
ciências inicialmente orientadas, de modo unilateral, puramente para o corpó-
reo, ou seja, as ciências biofísicas, foram, na verdade, obrigadas a apreender as
e, acima de todas, também a metafísica. Onde o racionalismo âsicalista não
parecia seriamente realizável, como era o caso precisamente da metafísica, aí
recorria-se a paliativos obscuros, por meio da reutilização de conceitos esco-
lásticos transformados. Aliás, embora fosse o motor do movimento, o sentido
diretor da nova racionalidade não era pensado com precisão na maior parte
dos casos.A suaexplicação mais precisa íoi justamente uma parte do trabalho
concreções,de início descritivamente, a desmembrá-las e classiâcá-lasintuiti-
vamente; a perspectiva íisicalista da natureza, porém, tornava óbvio que uma
Hsicalevadamais longe viria por fim "explicar" de maneira físico-racional todas
estasconcreções.Assim, o florescimento dasciênciasbiofísico-descritivas, prin-
cipalmente em virtude da ocasional valorização dos conhecimentos fisicalistas,
do pensar
filosófico
até l,eíbníz
e Christian
WoeP
Temos
na Ética
de Espi?zona
um exemploclássicode como o novo racionalismo naturalista acreditavapo-
der, "ordenegeomefríco': criar uma âlosoâa sistemática - uma metafísica, uma
ciência das questõesúltimas e supremas,das questõesda razão,mas que era
eraconsideradocomo resultadodo método científico-natural, interpretado in
também, no mesmo passo,ciência das questõesde fato.
Contudo, é preciso compreender Espínosa corretamente no seu sentido
variavelmente de modo fisicalista.
No que concerne ao mental,2' por seulado, que é aquilo que resta após
a colocação fora de circuito do corpo animal e, em primeiro lugar, do corpo
humano pertencente à natureza regionalmente encerrada, a modelaridade da
concepção físicalista da natureza e do método cientíâco-natural fez com que,
histórico. É um completo erro interpretar Espí/zonasegundoa aparênciasuper'
íicial do seu método de demonstração"geométrico':Começandocomo carte-
siano, ele está de início naturalmente
imbuído
da convicção plena de que não
só a natureza, mas a totalidade do ser em geral, tem de ser um sistemaracional
unificado. Isto era óbvio de início. O sistemamatemático da naturezatem de
compreensivelmente, já desde Hobbes, seja atribuído
à mente um modo de ser
estar contido no sistema total - mas, como parte de um sistema, não pode ser
autónomo. Por isso, não sepode entregar a física aosfísicos, como se ela fosse
um sistema efetivamente completo, nem, por outro lado, abandonar aosespe'
22 Se me sirvo aqui, e com frequência, da expressão"fisicalismo", isto acontece exclusiva-
mente no sentido geral,que se compreende pelo próprio curso das nossasinvestigações,
cialistas da psicologia a formação de um sistema racional próprio ao elo psico-
a saber, como os extravios filosóficos que resultaram de interpretações erróneas do verda-
deiro sentido da física moderna. A palavra não remete aqui, então, especialmente para o
movimento fisicalista" ("Círculo de Víena" ou "empirismo lógico").
23 NI.:
Das Seelische.
lógico do dualismo. Mas também o tema teórico de Deus, a substânciaabsoluta,
não podia deixar de fazer parte da unidade do sistema racional total. Espinosa
tem perante si a tarefa de descobrir o postulado sistema racional total do ente
e,em primeira linha, ascondições da suapensabilidade unitária, e,então, tam
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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental Edmund Husserl Segunda Parte ' A
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental
Edmund Husserl
Segunda Parte ' A Elucidação da Origem da Oposição Moderna entre Objetivismo
Fisicalista e Subjetivismo.
bém a de realiza-lo sistematicamente numa construção efetiva. SÓassim, pelo ato de realiza-la, é demonstrada
bém a de realiza-lo sistematicamente numa construção efetiva. SÓassim, pelo
ato de realiza-la, é demonstrada a eíetiva pensabilidade de uma totalidade <66>
racional do ser.Antes disto, apesar da evidência que, dada esta atitude, residia
na modelaridade daciência da natureza, tal pensabilidade é precisamentetão só
ser
em progresso infinito
- eíetivamente
conhecido
no seu "ser-em-si"
integral.
Mas disto também faz parte um outro progressopermanente:o da aproxima-
çãoao ideal matemático do dado empiricamente intuível no mundo circundante
da vida, designadamente pelo aperfeiçoamento da "subsunção" sempre somente
um postulado,cuja possibilidadenão estavade todo clara para o dualismo de
aproximativa dos dados empíricos sob os conceitos ideaisque lhes pertencem,o
substâncias fundamentalmente diversas, com a única absoluta e mais própria
progressoda açãometódica a ser formada
para tal, o reânamento dasmedições
substância acima delas. Tratava-se, é claro, para Espinosa, somente da generali-
dade sistemática - a sua Ética é aprimeira orzfoZogíauniversal. Através dela, pen-
pelo aumento dascapacidadesoperatórias dos seusinstrumentos etc.
Com o poder do conhecimento crescentee sempremais perfeito do todo,
savaele, alcançar-se-ia o efetivo sentido de sistema para a ciência da natureza
atual e para a psicologia, a ser construída como paralela a essaciência, sentido
sem o qual ambaspermaneceriam aíetadasde incompreensibilidade.
o homem conquista também um domínio sempremais perfeito sobre o seu
mundo circundanteprático, domínio que se amplia num progressoinfinito.
Aqui seinclui também o domínio sobrea humanidade pertencenteao mundo
circundante real e,logo, também sobre si mesmo e sobrea co-humanidade, um
poder sempre maior sobre o seu próprio destino e, assim, uma "felicidade" a
S 1.2.Característica geral do raciortatismo .Êsicalista moderno:'
felicidadepensávelpara o homem de modo em geral racional - sempremais
completa. Porque também com respeito aosvalores e aos bens o homem pode
A filosofia, na sua origem antiga, pretendia ser "ciência': conhecimento
universal do universo do ente, não conhecimento quotidiano vago e relativo -
conhecero verdadeiro em si. Tudo isto sesitua no horizonte desteracionalis-
mo como assuasconsequênciasque,para ele, são óbvias.O homem é, assim,
õóêcE masconhecimento racional: ê ttaTflFTI.No entanto,a âlosofia antiganão
alcançaainda a verdadeira ideia da racionalidade nem, em conexão com ela, a
verdadeira ideia daciência universal
tal era aconvicção dosfundadoresda Mo-
e6etivamente,a imagem de Deus.Num sentido análogo, tal como a matemática
fda de pontos, linhas etc. inânitamente distantes, pode-se dizer aqui, em com-
paração: Deus é o "/comem ínÚnífamenfedisfarzfe': O filósofo, justamente em
dernidade. O novo ideal só foi possível na sequência do modelo da matemática
correlação com a matematização do mundo e da âlosofia, idealizou-se matema-
e da ciência da natureza na sua figura moderna. Ele demonstrou a suavirtuali-
dade na velocidade entusiasmante da sua
realização. Mas que é, então, a ciência
universal da ideia moderna - pensadade modo idealmente completo - senãoa
cíêlzcíade furto?Esta, por conseguinte, é, para os filósofos, uma meta efetivamen
ticamente a si mesmo e, simultaneamente, de certo modo, a Deus.
O ideal moderno da universalidade e da racionalidade do conhecimento
signiâca, sem dúvida, um enorme progresso lá onde foi o seuberço: na mate.
mática e na física. Isto, naturalmente, segundo as nossasanálisesprecedentes,
te realizável, embora situada no infinito
realizável não para o indivíduo ou para
desde que ele seja trazido
a uma correta compreensão
de si e permaneça livre de
acomunidade de pesquisadores neste momento, mas, sim, no progresso infinito
todas astransformaçõesde sentido. Há na história do mundo um objeto mais
das gerações e das suas pesquisas sistemáticas. Julga-se inteleccionar
apoditica-
digno da admiração filosóâca do que <68> a descoberta detotalidades infinitas
mente que o mundo é, em si, uma unidade racional sistemáticaonde todos os
de verdade, realizáveis num progresso inânito,
puramente (como matemática
pormenores singulares têm de ser racionalmente determináveis até ao fim. A sua
forma de sistema (a sua estrutura essencialuniversal) é alcançável,e está para
nós de antemão pronta e conhecida, na medida em que é, em qualquer caso,
puramente matemática. Trata-setão só de determina-la na suaparticularidade,
o que, lamentavelmente, só é possível por via indutiva. Este é o caminho
cer-
pura), ou em aproximações(como ciência indutiva da natureza)?E não é quase
um milagre todo o trabalho de descoberta efetivamente realizado e desenvolvi-
do?A realizaçãopuramente técnico-teórica é um milagre, ainda que tenha sido
tomada, num sentido transformado, como a própria ciência. Mas o mesmo não
acontececom a questão sobreafé orzdepode ser estendida a modelaridade des-
tamente <67> infinito
- para a sabedoria total. Vive-se, assim, na confortável
certeza de um caminho contínuo, do próximo para o distante, do mais ou menos
c(mhecidopara o desconhecido,como um método infalível para a ampliação
dos conhecimentos,pelo qual tudo, a totalidade do ente, não poderia deixar de
tasciências, e senão foram em geral insuficientes os estudosâlosóficos a que se
devemo novo mundo e a nova concepçãocientíâca do mundo.
Por pouco que isto acontecesseem relação à natureza, mostrou-se (em-
bora só nos tempos mais recentes)que a obviedade de que toda a ciênciada na-
tureza é em última instância física
asciênciasbiológicas, assimcomo todas as
ciências concretas da natureza, tinham, no progresso daspesquisas, de sedeixar
24 Cf.Anexo IV.
dissolver cada vez mais na física
íoi abalada, e de tal modo que estasciências se
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A CrisedasCiênciasEuropeiase a FenomenologiaTranscendental Edmund Husser viram forçadasa reformas metodológicas. Mas
A CrisedasCiênciasEuropeiase a FenomenologiaTranscendental
Edmund Husser
viram forçadasa reformas metodológicas. Mas isto não aconteceu,é certo, com
basenuma revisãoprincipial dos pensamentosinaugurais da ciência moderna
da natureza, que se esvaziaram por meio de sua metodologização.
$ 13: As primeiras di$culdadesdo naturalismo $sicatista na psicologia ensibilidade da subjetividade realizadora a
$ 13: As primeiras di$culdadesdo naturalismo $sicatista na psicologia
ensibilidade da subjetividade realizadora
a ínapre-
Muito antesdisso fez-se,entretanto, sentir a diõculdade da matematiza-
ção do mundo, e de uma racionalizaçãodela decalcadade modo pouco claro
- isto é, de uma âlosofia orai/ze geomefrÍco - na psicologia nafzzraZísfamoderna.
Pertenciam também ao seudomínio as atividades cognoscitivase os conheci-
mentos racionais dosâlósofos,dos matemáticos, dos pesquisadoresdanatureza
etc., nos quais as novas teorias surgiam como as suasconfiguraçõesespirituais
e que, como tal, traziam em si o sentido último da verdade do mundo. Tais
dificuldades
fizeram
com que surgisse já com Berre/ey e cume
um
cefícísmo
paradoxal, que era de fato sentido como um contrassenso,embora não propria-
mente apreendido como tal. Esseceticismo sedirigiu em primeiro lugar contra
o modelo da racionalidade, contra a matemática e a física, e procurou desvalo-
rizar, como acções psicológicas, os seusconceitos fundamentais e o sentido dos
seus domínios
(o espaço <69> matemático,
a natureza material).
Já em Hume,
esseceticismo íoi levado até o fim, até a erradicação de todo o ideal da filosofa,
da totalidade do gênero da cientificidade das ciências modernas. Foi afetado.
e isto é muitíssimo signiâcativo, não só o ideal âlosófico moderrzo,mas foda a
./i/osoÚado passado,toda a definição de tarefasde uma filosofia como cíé?leia
urzíversaZoQeríva. Uma situação paradoxall Estava-seperante resultados bem-
sucedidosao mais alto grau, que seacumulavam diariamente e, no mínimo, de
uma longa série de novas ciências. Quem nelas trabalhava, ou quem
as acompa-
nhava com atenção,vivenciava uma evidência de que nem ele
nem ninguém
- o podia privar. E, no entanto, todo estedesempenho, esta mesma evidência,
tomada num certo novo direcionamento do olhar, e partindo da psicologia,em
cujo domínio sedesenrolavaa açãoprodutora dos resultados,setinham torna-
do inteiramente incompreensíveis.Mas isto não é tudo. Não foram afetadassó
asciênciasmodernas e o seumundo, o mundo racionalmente interpretado, mas
também a consciência e a vida quotidiana do mundo, o mundo pré-cientíâco
em sentido quotidiano, o mundo em cuja óbvia validade deser:sse'levamacabo
a ação e o exercício do homem intocado pela ciência e, afinal, também a ação e
exercíciodo cientista; e isto não só quando este retorna à prática quotidiana.
25
25

N.T.:Se/osga/tur)g.

Segunda Parte ' A Elucidação da Origem da Oposição Moderna entre Objetivismo Fisicalista e Subjeüvismo.
Segunda Parte ' A Elucidação da Origem da Oposição Moderna entre Objetivismo Fisicalista e Subjeüvismo.
O mais radical ceticismo anterior não tinha dirigido os seusataquescon- da ê7tta flF e do
O mais radical ceticismo anterior não tinha dirigido os seusataquescon-
da ê7tta flF
e do mundo em si a eleâlosoÊcamente substruído. Nisto consistia
o seuagnosticismo.
Assim, entram agora em cena enigmas acerca do mundo de um estilo
nunca antes imaginado, que
condicionam
um filosofar
de espécie inteiramente
nova, a saber, a espécie"gnosiológica': "racional-teórica" e, em breve, também
filosofias sistemáticascom uma definição de metase um método de espécieto-
talmente nova. Esta revolução, a maior de todas, denominou-se
viragem do ob-
.jefÍvísmo
cienf@co,
moderno
mas, também,
o de rodas as.P/osoÚas dos mí/êlzíos
Interiores, em direçãoa um subjetivismo transcendente!.<70>

tra essemundo, masfeito tão sóvaler a sua relatividade,com o fito da negação

$ 14. Caracterizaçãopreliminar do objetivismo e do transcetldentalismo.O com bate destasduas ideias como o serltido
$ 14. Caracterizaçãopreliminar do objetivismo e do transcetldentalismo.O com
bate destasduas ideias como o serltido da história do espírito moderno
O característico do obyefivísmoé mover-se sobreo solo do mundo obvia-
mente pré-dado pela experiência, e perguntar pelas suas "verdades objetivas';
por aquilo que,para essemundo, é incondicionalmente válido, válido para todo
o ser racional, segundo aquilo que ele é em si. Realizar isto universalmente é as.
junto da episteme, da ráfia ou da filosofa.
É, assim, alcançado o ente em última
instância, para além do qual não faz mais nenhum sentido racional questionar.
O transcendentalismoaârma, pelo contrário, que o sentido do ser do
mundo da vida pré-dado é uma conúguraçãosuQeríva,realização davida empí-
rica pré-cientíâca. Nestaseconstrói o sentido do mundo e a validade do seuser,
e, em particular, do mundo efetivamenteválido para aqueleque em cadacaso
experiencia. No que concerne ao mundo "objetivamente verdadeiro': o mundo
da ciência, ele é uma conúguraçãodegrau superior, com base no experienciar
e pensar pré-científicos, e nas suasrealizaçõesde validade respectivas.SÓum
radical questionarrestrospectivopeia subjetividadee, com efeito,pela subjeti-
vidade em zí/rima ínsfáncía geradora de toda a validade do mundo com o seu
conteúdo, em todos os seusmodos, científicos e pré-cientíâcos, bem como pelo
gue e o como das realizações da razão - só um tal questionar pode tornar com-
preensívela verdade objetiva e alcançar o sentido zí/fumodo ser do mundo. Ou
seja,o primeiro em si não é o serdo mundo na suaobviedadeinquestionada,e
não se deve levantar a questão meramente sobre aquilo que objetivamente Ihe
pertence; o primeiro em sí é, ao contrário, czsab/efívidade e, na verdade, a sub-
jetividade como ingenuamente pré-doadora do ser do mundo e, depois, como
aquelaque racionaliza ou, o que é o mesmo: que objetiva.
Há, aqui, no entanto, de antemãoa ameaçado contrassenso,posto que
pareceantes de mais nada óbvio que esta subjetividade é o homem, ou seja,a
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55
Edmund Husserl A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendenta Segunda Parte ' A
Edmund Husserl
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendenta
Segunda Parte ' A Elucidação da Origem da Oposição Moderna entre Objetivismo Fisicalista e Subjetivismo
subjetividadepsicológica. O transcendentalismo amadurecido protestacontra o
idealismo psicológico e pretende,ao contestara ciência objetiva e?zquanfo./idoso
./ía,abrir o caminho parauma cíentÚcídadede fíPOí?zfeíramentenovo,uma cien-
tiíicidade transcendental.A filosofia anterior não tinha nenhuma noção <71> de
um subjetivismo desteestilo transcendental. Faltavam os motivos efetivos para
devir temporal em que nóspróprios estamosinseridos fosseuma mera sequência
causal exterior, mas de discernir a partir de dentro. SÓassim teremos uma tarefa
uma correspondente alteraçãode atitude, embora uma tal alteraçãofossepensável
que nos é verdadeiramente própria; nós, que não só temos uma herança espi-
ritual, mas também que nada somos senão resultado histórico-espiritual. Não
alcançámosesta tarefa pela crítica de um sistema qualquer, atual ou antigo, de
alguma "visão do mundo" científica ou pré-cientíâca (que poderia ser, afinal,
a partir do ceticismo
antigo e, precisamente, do seu relativismo antropológico.
A história da âlosofia inteira, desdeo surgimentoda "gnosiologia"e
uma visão do mundo chinesa), mas somente a partir de uma compreensão críti-
ca da unidade completa da história da nossahistória. Pois ela recebe unidade
das tentativas sérias de uma âlosofia transcendental, é a história das tensões
violentas entre a âlosofia objetivista e transcendental, a história das tentativas
permanentes de conservar e de formar numa nova Êgura o objetivismo e, por
outro lado, das tentativas do transcendentalismo de dominar as diâculdades
espirituala partir da unidadee do impulso da tarefa,que buscaatingir uma
clarezasatisfatória no acontecer histórico
no pensar daquelesque âlosofam
implicadas pela ideia da subjetividade transcendental e do método exigido para
tal. É de grande importância o esclarecimento da origem destacisão interna do
desenvolvimento íilosóâco e a análise dos motivos últimos desta transforma-
uns para os outros e uns com os outros de maneira supratemporal - atravésde
estádiosde obscuridade, até ser por âm inteiramente elaborada numa perfeita
clareza intelectiva. Porque ela não está aí apenas como objetivamente neces
sária, mas como dada a nós, filósofos de hoje, somos precisamenteaquilo que
somos, como funcionários
da humanidade âlosóflca moderna, como herdeiros
ção maximamente radical da ideia da íilosoâa. SÓesseesclarecimento fornecerá
uma intelecçãodo sentidomaíspr(!fu?zdoque unifica todo o devir histórico-íilo-
e depositários da direção da vontade que a atravessa,e o somosa partir de uma
instituição inaugural que, contudo, é simultaneamente refundação e modifica
sóÊco da Modernidade:
uma unidade
de propósitos
que vincula
as gerações de
ção da instituição inaugural grega. Nesta reside o começofezes/ógíco,o verdadei-
filósofos e a direção de todos os esforços dos sujeitos individuais e das escolas.
ro nascimento do espírito europeu em geral.
Trata-se,como tentareimostrar aqui, de uma direção paraumalorma./ina/ da
Tal espéciede esclarecimentoda história por meio de uma questãore-
âlosofia transcendental - comolenometzoZogía-, na qual reside,como momen-
to conservado,:' alarma.#tza/ da psicologia,forma que erradica o sentido natu
ralístico da psicologia moderna.
trospectiva sobrea instituição inaugural das metas que vinculam a cadeia das
geraçõesfuturas, porquantonelascontinuam a viver em formassedimentadas,
mas que podem ser sempre de novo despertas e criticadas numa renovada veta
lidade; tal espéciede questãoretrospectiva pelos modos como metas,que per-
manecem vivas, trazem sempre outra vez consigo novas tentativas de alcançar
S 1.5.Re$exão sobre o método do nossomodo histórico de consideração
as metas e, sempre de novo, a insatisfação e a necessidadede esclarecê-las,de
aperfeiçoa-lase de transfigura-las mais ou menos radicalmente
isto, digo eu,
O tipo de consideraçõesque temos a empreender, modo esseque deter-
não é nada mais do que o verdadeiro autoestudo <73> do filósofo sobreaquilo
mina já o estilo dasindicaçõespreliminares, não é o de consideraçõeshistóri-
que ele genuínamerzfe pretende, sobre aquilo que nele é vontade a partir
e como
casno sentidousual.Importa-nostornar compreensívela feZeoZogiado devir
histórico da filosofa, em particular da filosofia moderna, e, no mesmo passo,
esclarecer-nos sobre nós mesmos, como seusportadores e seuscolaboradores,
nos nossos propósitos pessoais. Procuraremos a compreensão da unídízde que
avontade dos seusantecessoresespirituais. Trata-se de tornar novamenteviva,
no seusentido histórico oculto, o conceptualismo sedimentado que, como ob-
viedade, é o solo do seu trabalho privado e a-histórico. Trata-se, no próprio
autoestudo do filósofo, de levar simultaneamente mais longe o autoestudo dos
vigora em toda a definiçãohistórica de metas,em todas asdivergências<72>
seuspredecessores, e de despertar de novo não só a cadeia dos pensadores, a
e convergênciasdas suastransformações, e, numa crítica permanente que tem
sempreem vista a conexão histórica total como conexão pessoal,procuraremos
discernir, por fim, a única tarefa histórica que pessoalmentepodemos reconhe-
cer como a nossa.Trata-sedediscernir não a partir de fora, do fato, e como seo
socialidadedo seupensar,a sua comunidade de pensamento e de transformá-
las para nós num presentevivo,
mas também,
com base nestau?zídadecompZefa
presentificada,de exerceruma crítica resporzsáve/,uma crítica de uma espécie
26
N.T.:.4ufgehoben.
particular, cujo solo consiste nesta definição histórica e pessoalde âns, de rea-
lizaçõesparciais e críticas recíprocas,e não nas obviedadesprivadas do 61ósofo
atual. Pensarpor si próprio, ser um âlósofo autêntico na vontade de libertação
de todos os preconceitos, exige a intelecção de que todas as suas obviedades
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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental e Edmund Husserl Segunda Parte '
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental e Edmund Husserl
Segunda Parte ' A EI
Oposição Moderna entre Objeüvismo
Fisícalista e Subjeüvismo.
sãopressupostos,que todos os preconceitos sãofaltas de clarezadevidas a uma
sedimentaçãotradicional, e não porventura juízos meramenteindecididos na
$ L6.Descartes como instituidor
original tanto da ideia moderna do raciottalismo
objetivista quanto ão motivo transcendentalque o ultrapassa:'
sua verdade, e de que isto é válido já para a grande tarefa, para a ideia chamada
filosofa': Todos osjuízos com valor íilosó6co remetem para ela.
Um estudo histórico retrospectivo do tipo do que falamos é, assim, efeti-
vamente,um autoestudo damaior profundidade, orientado para uma autocom-
preensãodo quepropriamente sequer e seé como ser histórico. O autoestudo
servepara alcançar uma decisão,e estasignifica aqui, naturalmente, a prossecu-
çãoda tarefa mais própria, compreendida e esclarecidadoravante a partir deste
autoestudohistórico, e que é atualmente a nossaincumbência comum.
B
L Pertence,porém, segundo a sua essência,a toda a instituição inaugural
também uma instituição final, tarefa do processohistórico. Esta está realizada
quandoa tareia alcançoua clarezacompletae, assim,um método apodítico
que, a cada passo da realização, é uma transição permanente
para novos passos,
que se revestemtambém do caráter de um êxito absoluto, isto é, apodítico. A
filosofa como tarefa linânita teria chegado,assim, ao seu começo apodítico, ao
seu horizonte de <74> prossecuçãoapodítica. (Seria,como é natural aârmar.
fundamentalmente errado subentender ao sentido maximamente principial do
apodítico, que aqui seanuncia, o sentido usual do apodítico, retirado da mate-
mática tradicional.)
Há que acautelarum erro. Todo filósofo histórico realiza os seusautoes-
tudos leva a cabo o seu debatecom os filósofos do seu presentee do
seupas-
sado. Exprime-se sobre tudo isso, âxa, em tais discussões, o seu lugar propno,
cria, assim, para si mesmo uma autocompreensãosobre a sua própria ação,do
mesmo modo como as teorias que trouxe a público emergiram na consciência
daquilo quebuscava.
Contudo, por mais bem informados que estejamospela pesquisahistó-
rica acerca de tais "autointerpretações" (e mesmo sobre as "autointerpretações
de uma série inteira de Êlóso6os),nada aprendemos por isso ainda sobre aquilo
que,na unidadeoculta da interioridade intencional que unicamenteconstitui a
unidade da história, em todos estesâlósofos, em última instância "sepretendia'l
Isto sósetorna manifestona instituição final, sóa partir destasepode revelara
direção.unitária de todas asfilosofias e de todos os filósofos, e somentea partir
dela pode ser alcançada uma elucidação que permite compreender os pensado-
res passados como eles mesmos jamais se poderiam
ter compreendido
,-. L:. Isto torna claro que a verdade específica de tal "consideração teleológica
da história' não pode.jamais ser decisivamente refutada com recurso à citação
de testemunhos autobiográficos" documentais dos filósofos passados;pois ela
se se demonstra na ,evidência de um olhar crítico de conjunto que por detrás
dos 'fatos históricos': dos íilosofemas documentados e das suas aparentes diver-
gencias e aproximações, faz cintilar uma harmonia final de sentido.
27 Cf.AnexosV e VI
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A Crisedas Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental ' Edmund Husserl Segunda Parte ' A
A Crisedas Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental ' Edmund Husserl
Segunda Parte ' A Elucidação da Origem da Oposição Moderna entre Objetivismo Fisicalista e Subjetivismo
matemático.Deve-seatentarbem paraisto quandosefala do poder da ideia
O conhecimento filosóâco é, segundo l)escarfes, aliso/ufamenfe/u?zdado;
moderna da filosofa,
atuante em toda a Modernidade,
através de toda a ciência
eletem de repousarsobreum fundamento de conhecimentoimediato e apodí-
e
de toda a cultura, e pela primeira vez captada e apreendida de modo relativa
mente
firme
por Descarnes.
tico que, na sua evidência, exclui qualquer dúvida imaginável. Cada passo de
conhecimento mediado tem, pois, deadquirir tal evidência. O passarem revista
Mas l.)escarfesnão foi o patrono da Modernidade somentepela inaugura-
dassuasconvicções
anteriores, tanto as alcançadas quanto as recebidas, mostra
Ihe que em toda a parte seanunciama dúvida ou possibilidadesde dúvida.
ção desta ideia. É, do mesmo modo, altamente
notável que, nas suas Àfedífações
e, justamente,com o propósito de conferir ao racionalismo moderno e logo,
eo Oso,também ao dualismo, uma fundamentação radical -, Descartestenha
levado a cabo uma instituição inaugural de pensamentosque, nos seuspróprios
efeitos históricos (que se seguiram como que numa teleologia oculta da histó
ria), estavamdestinadosa destruir precisamenteessemesmo racionalismo, pela
revelaçãodo seu contrassensooculto: exatamente os pensamentosque, como
Nesta situação,para ele e para qualquer um que queira seriamente âlosofar, é
inevitável iniciar com zzmaespéciede 'l?poc/zé"rízdícaZmenfecéfíca,que põe em
questão o universo de todas as suasconvicções anteriores, interdita de ante
mão qualquer uso dasmesmas num juízo, qualquer tomada de posição sobrea
suavalidade ou não validade. Todo filósofo tem de proceder assim uma vez na
vida e, senão o fez, tem de proceder assim, ainda que já tenha a "sua âlosoâa':
Com isto, perante a epoc/zé,esta sua âlosofia deve ser tratada
como mais um
alterna }'erifas,deviam fundar esseracionalismo,traziam em si um senfídopro-
preconceito.Esta "epoc/zécartesiana"é, de fato, de um radicalismo até então
/undamenfe ocuifo que, uma vez trazido à luz, o erradicam completamente.
inaudito, posto que abarcaexpressamentenão só a validade de todas ascíêlzcías
anteriores, sem excluir mesmo a matemática, a qual reivindica evidência apo-
dítica, como até mesmo a validade do mundo da vida, previamente dado, pré
S 17. O retorno de Descartes ao "ego copito". Explicitação do sentido da "epoché'
cartesiana
e extracientífico,ou seja,o mundo da experiênciasensível,semprepré-dado
numa inquestionada obviedade, e toda a vida do pensar por ele alimentada,
tanto a não científica quanto,por
âm, também a vida cientíâca.Podemosdizer
Consideremos o curso dasduas primeiras À4edifaçõescartesianasde uma
perspectiva que faça ressaltar a sua estrutura geral
o curso para o ego cogifo,
que pela primeira vez é posto de maneira "crítico-gnosiológica"
em causao grau
mínimo de todo o conhecimentoobjetivo,o solo do conhecimentode todas
para o ego das cogifafíonesde quaisquer cogifafa. O nosso tema é, então, esta
pergunta predileta dos examespara principiantes da âlosofia. Na verdade, resi-
asciências até então, <78> de todas as ciências "do" mundo: é posta em causa,
a saber, a experiência em sentido usual, a experiência "sensível"
e, correlati-
de nestas primeiras
meditações uma profundidade
que é tão difícil
de esgotar
que o próprio Descarnesnão foi capaz de o fazer
e o foi tão pouco que deixou
novamente seperder a grande descoberta que já tinha nasmãos. Ainda hoje, e,
vamente, o próprio mundo; este,como aquilo que nessaexperiência e a partir
dela tem para nós sentido e ser, tal como é,para nós, na certeza inquestionada,
permanentementeválido, com tal e tal conteúdo de realidadessingulares,e só
talvez, justamente só mesmo hoje, segundo me parece, todo aquele que pensa
por si próprio deveria estudar estasprimeiras meditações com grande aprofun-
damento, sem se deixar desalentar pela
aparência de primitividade,
pela aplica-
ção de antemão já conhecida dos novos pensamentos para a prova da existência
ocasionalmente,e em pormenores singulares,desvalorizado como duvidoso ou
como aparência nula. E a partir daí sãotambém postas em questãotodas as re
alizaçõesde sentido e devalidade fundadas na experiência. Resideaqui, de fato,
conforme já mencionamos, o início histórico de uma "crítica do conhecimento';
de Deus, paradoxal e fundamentalmente errónea, e por muitas outras faltas de
que será,com efeito,uma crítica radical do conhecimento objetivo.
clareza e ambiguidades - mas, então, não deveria tampouco satisfazer-se dema-
siado depressa com as próprias refutações. Há boas razões para dar agora lugar
à
minha tentativa <77> deuma cuidadosa explicitação,tentativa que não repete
o
que l)escarfesdiz, mas recupera o que efetivamente reside no seupensar; se-
Deve mais uma vez recordar-seque o ceticismo antigo, começando com
Prof(4gorase GórXías,põe em questãoe negaa episteme,isto é,o conhecimento
científico do ente-em-si, mas não vai além de tal agnosticismo, da negaçãodas
substruções racionais de uma "íilosoâa" que, com as suas pretensasverdades-
para-se, então, aquilo de que o próprio Descartes estava consciente, daquilo que
certasobviedades, de resto muito naturais, Ihe esconderamou âzeram substi-
em-si, acreditapoder alcançare admitir um em-si racional. "O" mundo é,para
o ceticismo antigo, racionalmente incognoscível, o conhecimento humano não
tuir aos seuspensamentos. Não se trata de meros restos da tradição escolástica,
não sãopreconceitos contingentes da suaépoca,mas obvíedadesm{/entres,cuja
superaçãosó se pode tornar em geral possível por uma elucidação e por um
pode sair para além dos fenómenos subjetivo-relativos. A partir daí haveria,
é certo, uma possibilidade de conduzir o radicalismo mais além (como, por
exemplo, a partir
da ambígua proposição de Górgias "nada há"); mas nunca
pensar até ao âm daquilo que, nos seuspensamentos, é original.
61
60
A Crisedas Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental EdmundHusserl Segunda Parte ' A Elucidação da
A Crisedas Ciências Europeias e a Fenomenologia
Transcendental
EdmundHusserl
Segunda Parte ' A Elucidação da Origem da
Oposição Moderna entre Objetivismo Fisicalista e Subjetivismo
Mas há ainda algo mais a acrescentar,e algo de especialmentenotável.
se chegou eíetivamente a isso. Ao ceticismo
estabelecidode modo negativista
Pela epoc/zépenetrei
até aquela esfera de ser que, como sua pressaposíção abso-
em termos práticos e éticos (políticos) faltou, igualmente, em todas as épocas
lutamente apodÍtica, <8Q> antecede principialmente
todo o ente para mim imagi-
subsequentes, o motivo cartesiano original:
penetrar através do inferno de uma
epoc/zéquasecéticaextrema até osportões do céudeuma filosofia absolutamen-
te racional, e construir sistematicamenteesta mesma filosofia.
Mas como é, então, que esta qoché deve realizar isso? Como deve ser
rzáveZe assuasesferasdeser. Ou, o que para Descartessignifica o mesmo: eu, o
eu-eíetuador da epoc/zé,souo único absolutamente indubitável, que exclui prin-
cipialmentequalquer possibilidadede dúvida. Tudo o mais que ocorre como
ainda demonstrávelum solo originário de evidências imediatas e apodíticas
justamente por meio destaepoc;zé,que põe de um só golpe fora de jogo todo
apodítico, como, por exemplo, os axiomas matemáticos, deixa decerto abertas
possibilidades de dúvida e,logo, também a pensabilidade da falsidade- esta só
é excluída, e a reivindicação da apoditicidade
só.é satisfeita na condição do êxi-
o conhecimento do mundo, em todas as suasfiguras, até mesmo as da simples
experiência do mundo e que, por isso, abi;emão do ser do mundo? A resposta
reza: se excluo todas astomadas de posição sobre o ser ou o não ser do mun-
to de uma fundamentação mediata e absolutamente apodítica que a reconduza
àquela evidência apodítica única, à qual, precisamente - se uma âlosofia deve
do, seme abstenho,<79> em relação ao mundo, de qualquer validade de ser,
serpossível
, tem de reconduzir todo o conhecimento científico.
não me õca, contudo, vedada, no interior desta Croché,foda a validade do ser.
Eu, o eu que levaa cabo a epoc/zé,não estoucontido no domínio objetivo des-
S \8. A autointerpretação
errâttea
de Descarnes: a fatsi$cação psicotogista do pt&ro
sastomadas de posição, mas, muito pelo contrário, se a levo a cabo de modo
efetivamente radical e universal, estou principialmente excluído. Sou necessá
rio como aqueleque a leva a cabo. Encontro precisamente aí o solo apodítico
buscado, que exclui absolutamente qualquer dúvida possível. Por mais longe
que possa levar a dúvida, e se tentar eu mesmo pensar para mim que tudo é
ego alcançado pela "epoché":;
Temos agora de dar voz aalgo que propositadamente
silenciamos atéaqui.
duvidoso ou que,na verdade,de todo não existe,é absolutamenteevidente
Vem, assim, à luz do dia uma ambiguidade ocz4/fanos pensamentoscartesianos;
mostram-se duas possibilidades de apreender essespensamentos,de forma-los
e de lhesdefinir tarefascientíficas,possibilidadesde que só ama erade início
que eu, no entanto, existiria, como aquele que duvida, aquele que tudo nega.
óbvia para Descarnes.Assim, o sentido das suasexposiçõesé faticamente (como
Uma dúvida universal suprime-se a si mesma.Assim, durante a Crochéuni-
suas) unívoco; infelizmente, porém, esta univocidade
advém do fato de que ele
versal, está à minha disposição a evidência absolutamente apodítica "eu sou'l
Nesta mesma evidência está,porém, incluída também uma grande multiplici-
dade. Sum cogífatzs,esta asserçãode evidência reza, mais concretamente: ego
não leva efetivamente a cabo o radicalismo original dos seuspensamentos,de
que não sujeita realmente à epoc/zé(não "põe entre parênteses")todas as suas
opiniões prévias, o mundo como um todo
ela advém do fato de que Descartes,
cogífo
cogífafa qua cogifafa. Isto abrange todas as cogífafíorzesisoladas e a sua
síntesefluente na unidade universal de uma cogifafío,nas quaiso mundo e o
esgotando-sena sua meta, não resgatou exatamenteo mais importante do que
tinha alcançadono "ego"da Croché,de modo a nele fazer puramentedesdo-
que dele a cada vez é por mim pensado, como cogífafum, teve e tem para mim
brar um +ctuHá(etv âlosófico. Em comparação com o que poderia, muito em
validade de ser; só que, agora, não mais estou autorizado, como filosofante,
breve,resultarde tal desdobramento,tudo o que Descartestraz efetivamenteà
a avalizar gnosiologicamente e a realizar simplesmente, de maneira natural,
estasvalidades. No meu estado de Crochésobre todas elas - não posso mais
luz como algo novo
por mais original que seja e por mais vastos efeitos que
acarrete - foi, num certo sentido, superâcial e, além disso, desvalorizado pela
colaborar com elas.Resta-me,assim,toda a minha vida de atou,experiencian-
te, pensante,valorizante etc., que continua, é certo, a decorrer,só que aquilo
interpretação que recebeu. Admirado com esteego pela primeira vez descoberto
que nela estavaperante os meus olhos como "o" mundo, como o que é e vale
na epoc;zé,Descartespergunta-se, com efeito, a si mesmo, que espéciede eu é
este, se é porventura
o eu do homem,
do homem
sensivelmente
intuível,
o eu da
para mim, tornou-se um mero 'Jefzõmeno"e, com efeito, no que diz respeito
a todas asdeterminaçõesque Ihe pertencem. Todaselas,bem como opróprio
mu?zdo,transformaram-se nasminhas "ídeae'lsãopartesconstitutivas insepa-
<81> vida vulgar. Ora, ele exclui o corpo somático - juntamente com o mundo
sensível em geral, também este é entregue à Croché - e assim se determina, para
Descartes, o ego como menu síve afzímus síl,e infe/Zecfzzs.
ráveis das minhas cogifafíones,precisamente como suas cogífafa - na epoc/zé.
Teríamos,aqui, então, uma esferade ser absoZufamenfeapodífica colhe/uída no
título "ego'l e não porventura a mera proposição axiomática "ego cogffo" ou
28 Cf.AnexosVll e Vlll
sum cogitans'

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EdmundHusser A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental Segunda Parte ' A Elucidação
EdmundHusser
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental
Segunda Parte ' A Elucidação da Origem da Oposição Moderna entre Objeüvismo
Fisicalistae Subjeüvismo
Aqui, porém, teríamos algumas perguntas. Não diz a epoc/zérespeito ao
Vê-se como é difícil perceber e avaliar uma alteração de atitude tão mau
todo dos meus dadosprévios (os dadosprévios daqueleque filosofa), ou seja,
dita como a da epoc/zéradical e universal. De imediato, nalgum ponto irrom-
ao mundo inteiro, com todos os homens, e a estesnão só no que se refere aos
seusmeros corpos? E, então, não diz ela respeito a mim mesmo como homem
í/zfeíro,como aquele que para mim mesmo sou permanentemente válido na
possenatural do mundo? Não estáDescarnesaqui, com a diferença entre o que
é só sensivelmenteexperienciável e o que, como matemático, é assuntode um
puro pensar,já de antemãodominado pela certezagalilaica de um mundo de
corpos universal e absolutamente puro? Não é para elejá óbvio que a sensibi-
pe o "rzafzzraZsensocomum': alguma coisa da validade ingênua do mundo, que
íalsiâca o pensar de uma nova espécieque a epoc/zétorna possível e exige. (Daí
provêm também todas as objeçõesingênuas de quasetodos os meus contem-
porâneos âlosóâcos contra o meu "cartesianismo" e contra a "redução fenome-
nológica': para a qual preparei o terreno com esta exposição da epoc/zécarte-
siana.)Estaingenuidade, que é quaseimpossível de erradicar, faz também com
que durante séculosquaseninguém se tenha chocado com o caráter«óbvio" da
lidade aponta para um ente em-si, só que ela pode enganar, e que tem de haver
uma via racional para decidir acercadisso e para reconhecero que é em-si, na
possibilidade de inferênciasa partir do ego e da sua vida cogitativa para um
exterior'; e ninguém tenhaseperguntadopropriamente se,com respeitoa esta
racionalidadematemática?Mas não é tudo isto posto de uma sóvez entre pa-
esfera egológica de ser, poderia de todo ter sentido algum "exterior"
-
o que faz,
rêntesespela epoc;zée,além disso, até mesmo como uma simples possibilidade?
aliás, com que este ego se/a um paradoxo, o maior de todos os enigmas. Muito
É manifesto que, não obstante o radicalismo da ausênciade pressupostosque
talvez dependadesteenigma e, para uma âlosoâa, talvez tudo dependa dele. Ao
exige, Descarnesbusca de antemão uma meta para a qual a ruptura até o "ego"
deve se mostrar como o meio. Ele não vê que, assumida a convicção da possibi-
mesmo tempo, o abalo que o próprio Descarnesexperimentou com a descoberta
deste ego talvez possa significar para nós, espíritos menores, o sinal de que algo
lidade da meta e destemeio, já abandonou esseradicalismo. Não basta o mero
decidir-se à Croché,à abstençãoradical de todos os dadosprévios, a toda a pré-
validade do mundano; a Crochétem de ser e permanecerseriamente efetuada.
aí se anuncia de verdadeiramente grande, de maximamente grande, algo que,
atravésde todos os erros e descaminhos,não podia deixar de um dia vir à luz do
dia como o "ponto arquimediano" de toda a âlosoâa genuína.
O ego não é um residuum do mundo, mas a posição absolutamente apodítica,
Logoque entrou nahistória, o motivo moderno do retorno ao egomani-
tornada possível somente pela epoché, pelo "põr entre parênteses" da validade
festou o seu poder interior
<83> ao introduzir
uma nova era na âlosoâa e, apesar
compZefado mundo, e a única posição assim tornada possível.A alma, porém,
de todas as falsificações e obscurecimentos, implantar
nesta era um novo feios.
é o residuum de uma abstração prévia
do puro corpo e, após esta abstração, pelo
menos aparentemente, um complemento
deste corpo
Mas (como não
se deve
deixar deatender), estaabstraçãonão acontecena Croché,mas no modo de con-
sideraçãodo pesquisador da natureza ou do psicólogo, sobre o solo natural do
mundo pré-dado, do mundo que obviamente é.:9Ainda teremos de falar acerca
S19. O ittteresseprementedeDescarnespelo objetivismo como/andamento da sua
errónea autointerpretação
destas <82> abstrações e da aparência da sua obviedade. Basta aqui tornar cla-
As À4edífaçõesatuaram em Descarnese continuam
historicamente
até hoje
ro que,nas observaçõesque fundamentam asmeditações asde introdução à
Croché e ao seu ego ocorreu uma ruptura da sequência pela identiâcação deste
ego com a pura alma. Tudo o que se adquiriu, a grande descoberta deste ego, é
a atuar sob a forma nociva de uma substituição do ego pelo próprio eu mental,
daimanência egológicapela imanência psicológica, da autopercepçãoegológica
pela evidência
do "interior"
psíquico
ou "autopercepção':
O próprio
Descarnes
desvalorizado por uma substituição que é um contrassenso:uma pura alma não
tem, na Croché,sentido absolutamente nenhum, a não ser como "alma" dentro
acredita efetivamente poder, por meio de conclusões acerca do que transcende o
de "parênteses':isto é, como mero "fenómeno':assimcomo o corpo somático.
Mas não se deve perder devista o novo conceito de "fenómeno" que surgepela
primeira vez com a Crochécartesiana.
propriamente mental, demonstrar o dualismo dassubstânciasfinitas (por inter-
médio daconclusãoinicial da transcendência de Deus). Do mesmo modo, julga
resolver o problema, significativo para a sua posição, que é um contrassenso-
problema que retorna mais tarde, numa forma alterada, em Ka?zf:como podem
asconfigurações da razão geradasna minha razão (as minhas próprias "cZaraeef
dfsfírzcfaepercepfíones")- as da matemática e da ciência matemática da natureza
29 N.T.:Por razões de lateralidade, optou-se, sempre que possível, pela forma "que é", usada
- reivindicar uma validade objetivamente "verdadeira': uma validade metafisi-
intransíüvamente, para traduzir se/ande,em detrimento de "existente", que, neste passo,
resultaria mais conforme ao uso português.
camentetranscendente?O sentido do que a Modernidade denomina teoria do
entendimentoou darazão,num sentido pleno,ou seja,a críticada razãoou pro-
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EdmundHusser Segunda Parte ' A Elucidação da Origem da Oposição Moderna entre Objeüvismo Fisicalistae
EdmundHusser
Segunda Parte ' A Elucidação da Origem da Oposição Moderna entre Objeüvismo Fisicalistae Subjeüvismo
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendenta
blemática transcendental, radica nasÀ4edifízçõescartesianas.À Antiguidade não
conheceu nada de semelhante,visto serem-lhe estranhasa epoc;zécartesiana e
inteiramente por desenvolver: a í?zfencíolzíz/idade,a qual constitui a essência
da vida egológica. Um outro termo para ela é "cogifafío': por exemplo, o fer
co?zscíenfemenfealgo, [de maneira] experiencial, pensante, senciente, vo]itiva
o seu ego. Assim, começa com Descartes, de fato, um ./iZosojar de espécie írzteíra
mente nova, que busca as suasfundamentações últimas no [domíniol
subjetivo.
etc.; pois toda cogffafíotem o seucogifafz4m.Cadauma é, no sentido mais
vasto,<85> um presumir,'; e a cadauma pertence, então,algum modo da
Mas que Descarnes,não obstante a suafundamentação subjetiva, se tenha fixa
do no puro objetivismo só setornou possível porque a metas,que de início se
mantinha por si mesma na epoc/zé,e funcionava como/undamenfo absoZz4fodo
certeza - certeza simplesmente, conjectura, considerar como provável, du-
vidar etc.Em conexãocom estesestãoasdiferençasentreconârmaçãoe su-
pressãoda confirmaçãoe, respectivamente,entre o verdadeiroe o falso.É
con/zecimenfo para as fundamentações
das ciências objetivas (dito de modo uni-
bem de ver que o problema que tem por título a intencionalidade abrange
versal, da filosofia), parecia simultaneamente cofundada nestasmesmczsciências
objetivas,nomeadamente,na psicologia, como tema legítimo dessasciências.
em si inseparavelmente os problemas do entendimento ou da razão. Ê certo
que não sepode falar em Descarnesde uma efetiva posição do problema e tra
Não ficou claro para Descarnesque é impossível ao ego <84> - o seu eu, despojado
de mundo peia Croché,em cujas cogítafíonesfuncionais o mundo possui todo
o sentido de ser que alguma vez possa ter para ele - ocorrer no mundo como
tema, uma vez que ft/do o que é mundo zoe, logo, também o próprio ser mental,
tamentodo temada "intencionalidade'lPor outro lado, no entanto,pode-se
caracterizartoda a pretendidafundaçãoda nova õlosofia universala partir
do egocomo uma "teoria do conhecimento'listo é, como uma teoria sobre
o eu no sentido
habitual,
cria
o seu sentido
justamente
a partir
dessas.@nções.
como o ego gera, na intencionalidade da sua razão (por atos da razão), co
nhecimento oyeíívo. Isto, em Descarnes,significa: conhecimento mefaÚsíca-
Era-lhe, então, naturalmente inacessível a observação de que o ego, tal como
menfe transcendente ao ego.
vem a serdescobertona epoc/zécomo sendoparasi;' mesmo,não é ainda "um"
eu, que pode ter fora de si outros ou muitos coeus.'' Permaneceu-lheoculto que
todas as diferençastais como eu e tu, interior e exterior, só se"constituem" no
$ 2 1. Descarnescomo ponto de partida
para as duas linhas de desenvolvimento: a
ego absoluto. Compreende-se,
então, por que é que Descarnes,na sua pressa de
do racionalismo e a do empirismo:'
fundamentar o objetivismo e asciências exatascomo proporcionando conheci-
mento metaâsicamenteabsoluto, não se propôs a far({áade quesfíotzarsistema-
ticamente
o puro
ego
permanecendo
consequentemente
na epoc;zé- e aqufZo
Seseguirmos agora aslinhas de desenvolvimento que partem de Des-
cartes,uma delas,a "racionalista':conduz atravésde Ma/ebr(znc/ze,Espírzosae
que Ihe épróprio,
como alas efaculdades, e o/ato de que ttestesfitos ejacutdades
l,eibniz, pela escolawolfhana, até K2znt,o ponto de viragem. Nela atua impetu-
eZegera, como realização ínfenciona/. Posto que não se detém nisto, não se Ihe
descortina a gigantescaproblemática de, apartir do mundo no ego,como "fenó-
meno': questionar retrospectivamente, de modo sistemático, em que realizações
imanentes do ego,efetivamenteidentiâcáveis, o mundo recebeuo seusentido e
ser.É manifesto que uma analítica do ego como menuera para e/eassuntopara
osamente e desdobra-se em grandes sistemas o espírito do racionalismo mo
demo,tal
como tinha sido implantado por Descarnes.Aqui domina,assim,a
convicçãode poder efetivar com o método do "mos geomefrícus"um conheci-
mento universalabsolutamentefundado do mundo, pensadocomo um "em-si'
a futura psicologia objetiva.
transcendente.O empirismo inglês - embora também fortemente influenciado
por Descarnes- reage precisamente contra esta convicção, que a ciência mo-
derna tenha um tal alcance,que chegue até um "transcendente" e, ânalmente,
contra este mesmo "transcendente': Trata-se, contudo, de uma reação de tipo
$ 2Q. A "intencionalidade"
em DcscüTtes3:
semelhanteà do ceticismo antigo contra os sistemasda âlosoíia racional do
seu tempo. O novo empirismo cético começajá com Hobbes.A crítica do en-
As À4edifaçõesfundamentadoras iniciais eram, por conseguinte, pro-
priamente uma peça de psicologia, nas quais há ainda que destacarexpres
samente,como um momento muitíssimo significativo, mas que permaneceu
tendimento feita por l,ocdee assuascontinuaçõesmais imediatasem Berre/ey
e cume têm, no entanto,para nós, um interessemaior, <86>em virtude do
enorme efeito que tiveram sobrea psicologia e a teoria do conhecimento. Esta
30 N.T.:Ftirs/ch.
33
N.T.:verme/nen
31 N.T.:/Wít-/che
34 Cf. Anexo X.
32 Cf.Anexo IX.
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l l A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental ' Edmund Husserl Segunda

l

l

A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental ' Edmund Husserl Segunda Parte '
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental
' Edmund Husserl
Segunda Parte ' A Elucidação da Origem
da Oposição Moderna entre Objeüvismo Físicalista e Subjetivismo.
linha dedesenvolvimento é particularmente signiâcativa, porquanto é uma par
no entanto, são elasmesmas cogifafionesna mente encapsulada,devem poder
te essencial
do percurso
histórico
pelo qual o transcendentalismo
de Descarnes
fundamentar um ser extramental - é omitida ou desfocadaem Z,ocdepara o
(se assimpudermos já denominar a suaviragem original para o ego) que, psi-
cologisticamente falsificado, buscaelaborar-sepor meio do desdobramento das
suasconsequênciasaté a consciência da sua insustentabilidade e, a partir daí,
até um transcendentalismo mais autêntico e melhor consciente do seu verda-
problema da gênesepsicológica dasvivências reais de validade e dasfaculdades
respectivas. Que os dados sensíveis,subtraídos ao arbítrio da sua produção, são
afecçõesdo exterior, anunciam corpos do mundo exterior, não constitui para ele
nenhum problema, mas é antesuma obviedade.
deiro sentido. A esterespeito,o principal e historicamente maisimportante íoi a
autorrevelaçãodo psicologismo empirista (de cunho sensualístico-naturalista)
Particularmente
nocivo
para a psicologia
e a gnosiologia
subsequentes
é o fato de l,ocdenão fazer uso da introdução cartesianaoriginal da cogífafío
como um intolerável contrassenso.
como cogífízfio de cogífafa
e, logo, da intencionalidade
-, de não a ter reconhe
cido como tema (aliás, como o tema mais próprio das investigaçõesfundamen-
tadoras). Ele é cego para toda estadiferença. A mente é algo de encerrado, real
S 22. A psicologia naturatístico-gnosiológica
de Locke
por si, tal qual um corpo; no naturalismo ingênuo,assim,a menteé entendida.
então, como um espaçopor si, na sua famosa imagem: como uma lousa, sobre a
A nova psicologia, exigida como correlato pela cisão da ciência pura da
qual osdados mentaisvão evêm. Estesensualismo dos dados,em conjunto com
natureza, encontra - como sabemos- no desenvolvimento empirista a suapri-
meira realização concreta. Esta se ocupa, então, de investigaçõesintrapsicoló-
a doutrina do sentido externo e interno, domina a psicologia e a gnosiologia
desde há séculos, e até hoje ainda, sem alterar
o seu 'sentido fundamental.
i;o
gicas no campo da mente, doravante separada da corporeidade, assim como de
obstantea luta frequente contra o "atomismo psíquico': No discurso de Locke,
explicações âsiológicas e psicofísicas. Esta psicologia serve, por outro lado, a
uma teoria do conhecimento que, em relação à cartesiana,é inteiramente nova
é naturalmente inevitável a menção a: sensações,percepções,35representações
e muito diferentemente configurada. Na grande obra de l,ocde,esteé, de início,
de" coisas,ou crer "em-algo': querer "algo" e similares. Mas fica esquecidoque,
naspercepções," naspr(5priasvivênciasda co/zscfê?zcía,reside, como fa/, aquilo
o verdadeiro propósito. Estase apresentacomo uma nova tentativa de reali-
que <88> nelas é consciente, ou seja, que a percepção,
em si mesma, é percepção
zar precisamenteaquilo que as.A4edifaçõesde Descarnesvisavam a realizar: uma
fundamentação gnosiológica da objetividade das ciências objetivas. A postura
cética deste propósito mostra-se desdeo início em questõescomo a relativa à
de algo,"desta árvore'l
Como pode, então, a vida da mente, que é total e inteiramente vida da
consciência,vida
intencional do eu, que possui objetualidades como delascons-
extensão, ao alcance ou aos graus da certeza do conhecimento humano. l,ocde
ciente, que delas se ocupa, conhecendo, valorizando
etc. - como podem, numa
nada pressentedas profundezas da Crochécartesiana e da redução ao ego. Ele
toma simplesmente o ego como mente que, precisamente na evidência da ex-
periência de si, conhece os seusestados,atos e faculdades interiores. SÓo que
tal desatençãodaintencionalidade, os problemas da razãoserem em geral abor-
dados eseriamente pesquisados?E éde todo possível fazê-lo, tomando-os como
problemas psicológicos?Não se acham, por fim, por detrás dos problemas psi-
a experiência de si interna mostra, só as nossaspróprias "ideias" são dadasde
modo imediatamenteevidente.Tudo no mundo exterior é inferido.
Assim, o principal é a análiseintrapsicológica, com <87> basepuramen-
te na experiênciainterna - onde,porém, de modo inteiramenteingênuo,se
blemas do "ego" da epoc/zécartesiana? Talvez estas questões não sejam pouco
importantes e possam dar antecipadamente uma orientação ao leitor que pense
por si mesmo. Em todo caso, são um indício daquilo que, nas partes seguintes
faz uso das experiências de outros homens e da apreensãoda experiência de
desteescrito,se tornará um problema sério, e devem servir
como caminho para
si como pertencente a mím, um ;comementre os homens, ou seja,é utilizada a
uma âlosoíia a levar a cabo eÉetivamente"sem preconceitos'; uma íilosoâa que
validade objetiva dasinferências acercade outros. Toda a investigaçãodecorre,
parte da maisradical fundamentaçãono levantamentodos problemas,no mé-
então, em geral do mesmo modo, como investigação objetivo-psicológica,
e re-
todo, num trabalho a executar sistematicamente.
corre mesmo ao fisiológico
no mesmo passo em que, justamente, é toda essa
Importa também dizer que o ceticismo de Locke, no que respeita ao ideal
objetividade que está em questão.
racional de ciência, e a sualimitação do alcancedas novas ciências (que devem
O problema de Z.)escarfespropriamente, o da transcendência das valida-
des egológicas (interpretadas como intrapsicológicas), entre as quais todas as
maneiras de inferir do mundo exterior, a questão de como as validades que,
35
36
NJ.: Perzepüonen,Wahrnehmungen
NI.: Perzeptíonen
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A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental ' Edmund Husser Segunda Parte '
A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental ' Edmund Husser
Segunda Parte ' A Elucidação da Origem da Oposição Moderna entre Objeüvísmo Fisicalista e Subjeüvismo.
conservar o seudireito), conduz a um agnosticismo de uma nova espécie.Não é
negada,como no ceticismo antigo, a possibilidade da ciência em geral,embora
sejamnovamente admitidas coisas-em-siincognoscíveis.A nossaciência huma
na está exclusivamente dependente das nossasrepresentações e formações con-
que acções ascategoriasdo mundo pré-científico, simplesmente intuível, o da
corporeidade (a saber,a identidade dos corpos persistentes que pretensamente
reside na intuição imediatamente experienciadora), bem como a identidade da
pessoapretensamenteexperienciada.Dizemos algo como: "a" árvore ali adiante,
ceituais, por meio das quais podemos, com efeito, fazer inferências em direção
e dela diferenciamos
os seus modos cambiantes
de aparição."
Mas nada de ima-
ao transcendente, ao passo que é por princípio
excluída a aquisição de represen
raçõesapropriadas daspróprias coisas-em-si, de representaçõesque exprimam
nente à mente existe para além destes"modos de aparição'l Sãocomplexos de
dados,e sempre outra vez complexos de dados, regulados, "ligados" entre si, é
adequadamente a essência própria das mesmas. SÓpossuímos representações e
conhecimentos adequados daquilo que pertence à nossa própria mente.
certo,por associação,pelo que se explica a ilusão de que algo de idêntico os ex-
periencia. E o mesmo no que serefereà pessoa:um "eu" idêntico não éum dado,
<90> mas um amontoado de dados incessantemente cambiantes.A identidade
é uma ficção psicológica. Às ficções desta espéciepertence também a causali-
$ 23. Berkeley- A psicologia deDavid Hume como teoria .Êccionalistado conhe-
cimento: a "bancarrota" da$1oso$ae da ciências7
dade, a consequência necessária.A experiência imanente só exibe um post /zoc.
O propfer /zoc,a necessidadeda sequência,é uma substituição âctícia. Assim se
transforma, no Treafisede cume, o mundo em geral numa acção,assim como
As ingenuidades e inconsequências de l,ocde conduziram a uma rápida
transformação do seu empirismo, que conduz a um <89> idealismo paradoxal