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MARCELO MIRANDA DE CARVALHO

Governador do Estado do Tocantins

MARIA AUXILIADORA SEABRA REZENDE Secretária Estadual da Educação e Cultura

ANTÔNIO BONIFÁCIO DE ALMEIDA Subsecretário

ISOLDA BARBOSA DE ARAÚJO PACINI MARTINS Diretora de Gabinete

JUCYLENE MARIA DOS SANTOS CASTRO BORBA DIAS Superintendente da Educação

AGUIFANEIDE LIRA DANTAS GONDIM Diretora de Educação na Diversidade

ZULMIRA GONZAGA CARDOSO Coordenadora da Educação de Jovens e Adultos

FRANCISCO GILSON REBOUÇAS PÔRTO JUNIOR Coordenador da Formação do Projeto Ressocialização Educativa no Sistema Prisional do Estado do Tocantins

Ética Profissional e Valores na Educação Prisional

Maria Rita de Cássia Pelizari Labanca Sandoval Antunes de Souza Gilson Pôrto Jr.

Palmas - Tocantins/2006

Autores/ Elaboração e Organização dos Conteúdos/ Revisão Literária

Maria Rita de Cássia Pelizari Labanca

Graduada em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas de Gurupi e mestre em

Ciencia de la Educación (Universidad Autónoma de Asunción). É professora da Academia

Estadual de Segurança Pública (TO) e professora da Universidade do Tocantins (UNITINS).

Sandoval Antunes de Souza

Graduado em Teologia e História e Mestre em Educação: Fundamentos da Educação – Educação

e Transformação Social (MFE – UEM/PR). Coordena o Grupo de Pesquisa Latters/CNPq: “Gestão

da Educação e Políticas Públicas” (UNITINS). Professor da graduação e pós-graduação da

Fundação Universidade do Tocantins (Unitins).

Francisco Gilson Rebouças Pôrto Junior.

Graduado em Pedagogia: Orientação Educacional, Especialista em Ensino de Filosofia e Mestre

em Educação: Estado, Políticas Públicas e Gestão da Educação (FE-UnB). Coordena o Grupo de

Pesquisa Lattes/CNPq Educação, Cultura e Transversalidade (UNITINS) e é pesquisador na linha

de pesquisa “Educação de Presos Adultos”, do Grupo de Pesquisa Lattes/CNPq Educação e

Cultura (PPGE-UnB). Atualmente coordena duas pesquisas nesse grupo sobre a temática:

Educação de Presos – perfil e análise da ação educativa e Mapeamento das condições laborais

para egressos do sistema prisional na cidade de Palmas (TO). E-mail: francisco.gr@unitins.br .

Ficha Catalográfica

Ética Profissional e Valores na Educação Prisional./ Módulo III - Elaboração: Sandoval Antunes

de Souza, Maria Rita de Cássia Pelizari Labanca e Gilson Pôrto Jr. – Palmas, TO: Secretaria

de Educação do Estado do Tocantins / Gerência de Educação de Jovens e Adultos, 2006.

100 p.: s/il.

1. Ética Profissional

I. Sandoval Antunes de Souza

2. Valores

3.

Educação de Jovens e Adultos

4. Formação Continuada

II. Maria Rita de Cássia Pelizari Labanca III. Gilson Pôrto Jr

CDU:374(81)

Os conceitos e opiniões emitidos são de exclusiva responsabilidade dos autores.

SECRETARIA DE EDUCAÇÃO E CULTURA DO TOCANTINS

Praça dos Girassóis S/N, Esplanada das Secretarias Palmas, Tocantins

Apresentação, ou para Introduzir uma conversa

O que me surpreende na aplicação de uma educação realmente libertadora é o medo da liberdade. Paulo Freire

Estar na prisão é uma situação transitória. Ser jovem e migrante é também uma condição precária numa perspectiva de educação vitalícia (particularmente para os jovens). A situação transitória de um condenado deve sempre ser levada em consideração. A educação na prisão deve permanecer em processo contínuo e não apenas focalizar a condição temporária de encarceramento.

Sendo assim, a relação do sujeito com o outro convoca-nos à reflexão ética. O “outro” se torna a referência para a ação, pois demanda uma relação de cuidado.

A violência é o reflexo do que se vive cotidianamente. Ao pensar nas condições históricas

nas quais o ser humano se organizou biológica e socialmente, podemos vê-los como um ser de violência, ou um “homo violens”: qualquer instante, por seus impulsos cegos e passionais viola o território do outro. Assim, para que o estágio de barbárie não prevaleça, instituições de formação como a família, a religião, e a escola, dentre outras, preparam formas de canalização e controle dos impulsos, preparando os seres para viverem no mundo para o exercício da liberdade, da solidariedade, da justiça, do respeito.

A tentativa de instauração da ação ética do sujeito no mundo contemporâneo baseia-se em

alguns princípios colocados como referência para que ele possa pautar suas ações e, consequentemente, tomar decisões. Há quatro princípios na ação ética do sujeito contemporâneo:

o da justiça, o da não violência, o da solidariedade e o da responsabilidade.

No princípio da justiça, o ideal inspira-se no respeito ao outro, que se iguala enquanto espécie, mas se diferencia enquanto singularidade. É através do senso de justiça, existente entre os homens, que a lei moral e a ética se objetivam. O sujeito exerce sua autonomia, tendo a liberdade como possibilidade de escolha, ao tomar decisões. O princípio da justiça pode se aliar ao da igualdade de condições de sobrevivência. Isto implica a exigência permanente de direitos e oportunidades sociais.

O princípio da não violência coloca a possibilidade de se respeitarem e preservarem as

diferenças. Gera uma atitude de reconhecimento do outro como um ser que pertence à espécie humana. Por não ser permitido violar sua integridade física e psíquica, é preciso aprender a não tornar o outro como objeto, uma coisa e a não usar a força como mecanismo de coerção. A ética abre campo aos sujeitos para a construção e o exercício da solidariedade ao próximo.

O princípio da solidariedade funda-se em um dever, mas não designa. O gesto de ser

solidário liga-se ao respeito à diferença, em que o ser humano aprende a perceber que o outro também pertence ao mundo. A ação solidária liga-se à construção do sujeito face a ideais democráticos e à cidadania. O principio da solidariedade consiste em expressar responsabilidade para com o outro, sem esperar reciprocidade.

O princípio da responsabilidade leva-nos a perceber no outro a condição humana, como

também abre uma possibilidade de se respeitarem às coisas que estão no mundo, pois essas se relacionam com o próximo. A responsabilidade pela natureza está em conceber no mundo um outro que difere do eu e necessita aprender que, além da convivência, é preciso preservar o que é de todos. Por isso, é preciso cultivar o respeito pelo outro em sua singularidade, para que se

concretizem os ideais de sobrevivência dos seres e a possibilidade de vivermos bem.

Diante dessas perspectivas, a educação através de práticas docentes em que as ações se processam mediadas por meios e fins éticos e com o objetivo de formar o caráter de seus alunos convida a construção de um mundo capaz de atender aos princípios da ética, a prática da liberdade e do dialogo.

A educação apresenta-se importante, quando é entendida como educação integral, quando pretende dar orientação e um sentido ao ser humano como um todo, pois ela perpassa transversalmente todas as dimensões da formação humana.

Sendo assim, educar é formar um ser capaz de lidar com o meio e com outros seres humanos, pois a afetividade acompanha o ser humano desde a sua vida intra-uterina, até a sua morte, se manifestando como uma fonte geradora de potência e energia, ela seria o alicerce sobre a qual se constrói o conhecimento racional.

Os autores

Unidade 1

Sumário

Pensando o Contemporâneo

9

 

Unidade 2

Investigando sobre Ética, Moral, Valores e Afetividade

13

 

Unidade 3

A

Ética Profissional e as Relações Sociais

28

Unidade 4

Os Valores Religiosos e a Ressocialização no Sistema Prisional

36

 

Unidade 5

O

Ambiente Carcerário e a busca por Ressocialização

48

Unidade 6

Educação e cidadania

60

 

Unidade 7

Educador, um ressocializador

65

Unidade 8

O Trabalho

72

Unidade 9

Ressocializador, O Agente Penitenciário

88

Unidade 10

Psicologia da Aprendizagem no sistema prisional

93

Objetivo Unidade 01 Pensando o Contemporâneo • Analisar os pressupostos da mentalidade hegemônica na sociedade

Objetivo

Unidade 01

Pensando o Contemporâneo

Analisar os pressupostos da mentalidade hegemônica na sociedade atual e as implicações para as relações no sistema prisional

A nossa realidade é, sem dúvida, pontuada por contradições e desafios que precisam ser

explicitados com o objetivo de se avançar nas relações sociais, em todos os aspectos e

possibilidades do viver humano. O professor César Nunes, na introdução ao texto Aprendendo a

Viver Juntos (2001, p.07) lembra que “o século XXI abre-se ao tempo e à história ainda marcado

pelos estigmas do século passado”. A acumulação de riquezas, a intolerância religiosa, os

relativismos éticos e morais, a mercantilização do sexo e da sexualidade, a massificação da

indústria cultural, os fanatismos, a solidão existencial, o avanço do econômico sobre todas as

manifestações da vida, on-line, ao vivo, são realidades vivenciadas pelas sociedades humanas e,

muito mais agora, marcam nosso modo de agir, pensar e significar a vida.

Quando se diz, portanto, que vivemos em uma sociedade de mercado, este termo tende a

funcionar como um slogan, que torna difícil descobrir o que se esconde por trás das palavras.

Quais as implicações de ser contra ou a favor do Estado do Bem Estar ou do Estado Mínimo?

Quais as implicações de ser a favor do mercado? A generalização do enfoque da palavra mercado

conduz à generalização dos modos de existência na contemporaneidade. A tendência atual da

economia mundial é de livre mercado, de estender e difundir o pensamento único, a verdade única,

o mercado único, o mundo único possível, a hierarquia de valores única, e isso torna evidente uma ideologia concreta que se pretende universal - tanto na fé quanto no poder do mercado é que a sociedade passa a ser pensada no final do século XX.

A educação visa melhorar a natureza do homem o que nem sempre é aceito pelo
A educação
visa
melhorar a
natureza do
homem o
que nem
sempre é
aceito pelo
interessado.
Carlos
Drummond.

Há um modelo ideológico que procura legitimar as “novas” ações na sociedade e desmerecer as demais. A idéia de uma nova ordem mundial, da hegemonia do mercado capitalista sem qualquer limite, entre outras conseqüências, leva à construção de um ser humano definido. O homem contemporâneo, no dizer de Santomé (2003) é o “homo economicus” que se traduz por uma racionalidade instrumental e pela busca calculada de benefícios que satisfaçam a si mesmo. O “homo economicus” das sociedades, entre elas, a capitalista, seria regido em suas ações pelo egoísmo, pela busca do seu proveito particular, de seus interesses privados. Esse homem tem uma essencial preocupação com o resultado dos intercâmbios comerciais e a medida é sempre procurar resolver as suas necessidades individuais.

Neste sentido, nos anos 90, a expressão homem na “pós-modernidade”, configura-se no “homo economicus”. Este homem vive um momento sócio-cultural caracterizado por um encadeamento de tolerância, indiferença, pluralidade, ambigüidade e relativismo, como conseqüência dessa forma de ser da sociedade. Por meio de intercâmbios mercantis e financeiros se move a economia, a política e a vida social dos grupos humanos. Esse modo de ser tem como resultante a incorporação passiva e acrítica do pensamento e da cultura dominantes.

Pérez Gómez (2001) apresenta algumas peculiaridades deste momento. Dentre eles a “perda de fundamento da realidade” (p.26, grifo do autor) na medida em que os critérios que

balizaram e balizam a modernidade se dissolvem. A certeza moral e científica, os padrões éticos dão lugar a construções sociais relativas e contingentes. Nesse processo, o discurso, a linguagem

e a imagem se tornam preponderantes. O imediato descontextualizado é o foco do interesse pragmático.

Também, esse autor identifica a “Perda de fé no progresso” (p.26, grifo do autor), na possibilidade de desenvolvimento ilimitado da sociedade. A maioria participa da impressão de que

a historia não conduz a nenhuma parte predeterminada, e as pessoas vivem um transitar errático e descontínuo que provoca tanto satisfação quanto sofrimento.

Outra característica, levantada pelo autor, seria a do “Pragmatismo como forma de vida e de pensamento” (p.27, grifo do autor). O pensamento e a vida cotidiana começam a ter as suas referências em um sentido cada vez mais pragmático de existência. A vida cotidiana se pauta na busca do prazer e da satisfação do presente, sem demasiada preocupação com fundamentos ou

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conseqüências. Um hedonismo exacerbado ligado ao aqui e agora se torna a tônica da sociedade, não importando em qual âmbito social o indivíduo se localiza.

Detecta, também, o “Desencanto e indiferença” (p.27, grifo do autor) como característica da atualidade. O ser humano, sem fundamento e sem horizonte definido, tem que aprender a viver

a incerteza e o sem-sentido teleológico do presente. Vive-se, assim, uma ética do vale-tudo, ao

limite do cinismo, aproveitar-se da injustiça em beneficio próprio. Tal maneira de viver se manifesta, como que em cascata, desde os grupos mais esclarecidos e privilegiados da sociedade até as camadas mais excluídas das relações sociais.

Discute, ainda, o discurso sistemático a favor da “Autonomia, diversidade e descentralização” (p.27, grifo do autor). Em todos os âmbitos da vida individual e coletiva, impõe-se

a exigência da autonomia, o respeito à diversidade e a conveniência da descentralização. A

diversificação e a descentralização atingem praticamente todos os aspectos da vida pós-moderna,

desde a economia até a afetividade. O homem contemporâneo vive a contradição, não apenas na questão do trabalho, isto é, da materialidade da sobrevivência cotidiana, mas, também, a imposição de uma autonomia nunca antes vista nas relações afetivas. O uso e aproveitamento do outro se tornam as bases do viver coletivo.

Não há saber mais ou saber menos. Há saberes diferentes. Paulo Freire

Registra, por último, a “primazia da estética sobre a ética” (p.27, grifo do autor). No momento em que a fundamentação racional, a base do saber é questionada, a linguagem, o discurso, a imagem se tornam proeminentes, as questões éticas, as grandes balisas do viver em sociedade, desaparecem diante do deslumbramento do sentido estético. As aparências, agora, ocupam todo o território das representações.

Uma das conseqüências dessa nova forma de viver, paradoxalmente ligada à afirmação das identidades culturais, do particular, é o desamparo individual, a passividade política, a desmobilização social.

A solidão se une às fantasias de poder. Há uma reprodução de relações marginais, na medida em que se vive também um universo ideológico de uma sociedade de consumo. Martins (1997:19-20) observa que: “A força da colonização do imaginário do homem comum, através do consumismo dirigido, conduz a uma nova desigualdade que gera dois mundos, uma sociedade dupla”. Este autor exemplifica dizendo que, por meio do toque de um mesmo botão da televisão, há a capacidade de se transportar, simultaneamente, tanto o favelado quanto o milionário, ao mesmo mundo fantasioso e colorido das ficções da comunicação de massa, apesar da desigualdade material.

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O avanço da tecnologia e da mídia globalizada favoreceu os imprevisíveis e incertos

comportamentos dos indivíduos na sociedade. Uma complexa rede de relações com inúmeros componentes contraditórios coloca o indivíduo como impotente no sentido da impossibilidade para interagir e produzir relações mais concretas. A vivência do descartável, da meritocracia, do pasteurizado define a não-permanência no espaço-tempo e limita a vontade ou ação dos indivíduos.

Outro comportamento atual tem a ver com um viver ético utilitarista. Há uma tendência de se pensar ou praticar a ética contemporânea como uma relação de meio-fim ou de custo-benefício. É crescente a noção de que os fins justificam os meios, que o importante é a finalidade da proposição, que é possível retirar das ações muitos benefícios, não importando tanto se estas ações possam produzir conseqüências indesejáveis para os demais, ou para a sociedade.

O que é ensinado em escolas e universidade s não representa educação, mas são meios para obtê-la. Ralph Emerson

A revolução da eletrônica, propiciando novos meios e formas de comunicação, novas

configurações do espaço e do tempo, também vem alterando os hábitos, os interesses, os modos de pensar, as formas do viver cotidiano. Palavras como “Vias de Informações”, “Infovias”, “Aldeia Global”, “Informações On-line”, começam a fazer parte do cotidiano de uma parcela significativa da população mundial. Os intercâmbios sociais passam a ser mediatizados pelos meios eletrônicos, pelo uso maciço da televisão que instrumentaliza a contemplação passiva dos cidadãos. A universalização das comunicações relativiza a cultura, as idéias, os hábitos, na medida em que a comparação e o confronto vão se delineando com rapidez, provocando choque e, ao mesmo tempo, indiferença. Nada é permanente.

Todas as instâncias sociais sofrem. O modelo familiar - que oferecia amparo, satisfação das necessidades, espaço para a comunicação, fortalecimento dos papéis e da identidade individual, agora, com a desregulação crescente da sociedade, da economia de mercado livre, da mobilidade profissional, do ritmo acelerado das mudanças no sistema de produção e consumo, da precariedade das formas contemporâneas de viver, faz com que haja uma desregulação da própria estrutura familiar. As redes de solidariedade familiar, atreladas à dificuldade de recompor os papéis tradicionais ou as redes de parentesco, resultam em um esfacelamento familiar, restando o individualismo como a única saída na complexidade da vida privada e anônima.

Todas estas questões afetam o nosso modo de viver! Queremos ser autores da nossa própria existência, queremos ser livres para responder por nossas ações! Temos uma razão para nos dirigir e inteligência que nos possibilitam escolhas. Porém a vida não é mais simples assim!

Quantas vezes temos que fazer escolhas! Um determinado momento nos obriga a escolher entre duas possibilidades ou mais, embora não queríamos tomar uma posição. Nossos atos, em muitas circunstâncias, são regidos por situações já presentes em nosso cotidiano.

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Objetivo Unidade 02 Investigando sobre Ética, Moral, Valores e Afetividade • Conhecer os conceitos básicos

Objetivo

Unidade 02

Investigando sobre Ética, Moral, Valores e Afetividade

Conhecer os conceitos básicos da ética, moral, afetividade e valores e sua aplicação nas relações sociais e educacionais.

Pense nas seguintes afirmações: “eu tenho uma moral inatacável”. “Observe como aquele sujeito tem um comportamento ético exemplar”. “Meus valores foram herdados do meu pai”.

Daí poderíamos perguntar: O que estas afirmações tem a ver com as idéias da unidade anterior? Você consegue perceber as contradições das posturas (posicionamentos) da realidade contemporânea! O que é Ética, Moral, Valores no mundo de hoje? Não vivemos em sociedades estáticas, portanto as mudanças e contradições são inerentes a esse processo natural de transformações constantes da vida em sociedade.

Um primeiro passo é investigar e entender o significado etimológico das palavras Ética, Moral e Valores, para uma reflexão sobre a sua aplicação e validade no mundo contemporâneo.

A Moral é uma palavra que vem da língua latina: mos-mores, significando costumes ou regras que determinam a vida. Dizemos, então, que é o conjunto de regras de conduta assumidas pelos indivíduos de um grupo social com a finalidade de organizar as relações interpessoais, isto é, normas e valores que orientam a vida do homem dentro da sociedade. A intenção da moral é definir o certo e o errado, o justo e o injusto, o permitido do proibido, o bem do mal. Quais ações e atitudes se devem adotar diante de situações que nos confrontam, afetam-nos diariamente!

Quantas vezes somos tomados pelo horror diante da violência: chacina de seres humanos, linchamentos, assassinatos brutais, torturas, genocídios, corrupção ativa e passiva e tantas outras coisas que nos deixam indignados. Quantas circunstâncias que trazem ira, raiva pela impotência que sentimos diante de uma injustiça como um inocente que é julgado e condenado enquanto que o verdadeiro culpado vive solto e impune! Por outro lado, quantas vezes somos levados por algum impulso incontrolável ou emoção forte (medo, ambição, orgulho, vaidade, etc.) e praticamos atos que, depois, sentimos vergonha, remorso, culpa. Gostaríamos de desfazer, voltar atrás e quem sabe agir de modo diferente.

Consulte

sites na

internet para

aprofundar

mais os

conceitos

estudados

nessa

unidade.

Todas essas questões dizem respeito ao nosso senso moral, isto é, a sentimentos e ações que expressamos diante das situações do mundo que nos cerca.

Da mesma forma, uma jovem que descobre que está grávida e percebe que seu corpo e seu espírito ainda não estão preparados para a gravidez, o que ela vai fazer? Ou um pai de família desempregado, com filhos pequenos e uma esposa doente recebe uma oferta de emprego, mas o empregador exige que ele cometa irregularidades que beneficiem a empresa. Ele deve ou não aceitar este emprego?

Estas e tantas outras questões dizem respeito à consciência moral, porque exigem que decidamos o que fazer que justifiquemos para nós mesmos e para os outros as razões de nossas decisões e assumamos todas as conseqüências, pois somos responsáveis por elas.

Vamos pensar de forma prática! Leia o relato abaixo:

“Eu estava absolutamente deprimido, arrasado, revoltados, destruído, descontente com a vida, e, para dizer a verdade, querendo encontrar uma forma de morrer que não fosse o suicídio. A razão mais forte do meu ódio para com a vida era o fato de ter sido abandonado por minha mulher, sem notícias dela e de meus filhos há um ano e meio. É verdade que não é fácil encarar as circunstâncias em que se dão as visitas da mulher e dos filhos no ambiente de

uma cadeia. É tudo muito humilhante, desde as revistas, as

ironias e a arrogância dos funcionários, até o contato com

outros presos.”

(extraído do relato de um condenado pelo sistema penal – NEGRINI, Pedro ENJAULADO, Rio de

Janeiro: GRIPHUS, 2002, p.02)

Atividades para discussão

Professores, professoras e agentes prisionais como vocês construíram seus

conhecimentos no estudo dessa temática? Vamos ver o que conseguimos aprender? Então vamos

lá, colocar em prática nossas reflexões é um exercício!

Lembre-se de nossa dinâmica de trabalho:

1º Momento: Construção coletiva Vamos nos organizar em grupos de professores e agentes prisionais que trabalham no mesmo segmento da EJA. Cada grupo fará as anotações necessárias das discussões realizadas e das possibilidades resultantes nas discussões. Cada grupo sistematizará as observações em forma de um pequeno texto.

2º momento: Agora vamos aprender ainda mais com os outros! Cada grupo apresentará para os colegas as observações sistematizadas, tendo por base a teoria aprendida.

3° Momento: Relato de experiências. Esse é um momento reservado ao relato de outras experiências que os colegas professores e agentes prisionais já tenham vivenciado sobre a temática discutida que contribuam para tornar a aprendizagem mais significativa.

Questões norteadoras:

1 - Qual seria a nossa postura, enquanto educadores, diante de um relato como este?

2 - Quais seriam as atitudes mais adequadas no contexto ético e moral que deveríamos ter

para educar um indivíduo do sistema prisional que retrata esta visão de mundo e relações sociais?

3 – É importante procurarmos relacionar os nossos atos e ações aos conceitos de responsabilidade moral. Escreva três ações, atos, que você praticou, em algum momento não muito distante do seu cotidiano e, analise se você está sendo livre nessas ações.

4 – Na sua opinião, o que determina que um ato seja considerado moral ou imoral?

A Ética

Vem da língua grega ethos, significando modo de ser, a forma usada pela pessoa para organizar sua vida em sociedade. Assim, para que haja uma conduta ética é preciso que exista o agente consciente, isto é, aquele que conhece a diferença entre o bem e o mal. A ética se preocupa com a reflexão sobre as noções e princípios que fundamentam a vida moral. É o processo feito pela pessoa de transformar em normas/regras práticas os valores surgidos no grupo e na cultura em que vive.

Ética Moral:

Baseia-se em

princípios e

regras

morais fixas.

Ética Imoral:

Baseia-se na ética dos fins: “Os fins justificam os meios”.

Ética Amoral : Baseia-se nas circunstânci as. Tudo é relativo e temporal.

A exigência ética só pode ser pensada a partir da vida concreta de uma coletividade instituída: derivado de ethos, que significa costume, uso, o termo ethike designa o caráter, a maneira habitual de um indivíduo se comportar. Em uma palavra, a ética se refere à conformação, ou não, dos hábitos e comportamentos individuais aos usos e costumes que cada sociedade institui para si. E, de fato, cada sociedade se cria, criando os valores, as normas, os costumes, as práticas e os ideais que a regem. Esses valores, normas, costumes, práticas e ideais constituem- se, como já se disse tantas vezes, no verdadeiro cimento das sociedades.

Porém, O crescimento da violência urbana e a crise dos sistemas penitenciário, judiciário e policial são temas que ocupam um grande espaço no noticiário, no caso brasileiro, nos últimos anos. A crescente criminalidade e a impunidade têm como uma das conseqüências mais visíveis a sensação de insegurança e medo da população que, cada vez mais, busca mecanismos próprios de proteção: grades nas janelas, portas trancadas, carros blindados, armas de fogo e sistemas de segurança privada fazem parte do cotidiano de uma parcela da população que busca se proteger a todo custo.

Veja o relato do livro ENJAULADO, p. 88:

“Na rua há um confronto entre policiais e bandidos e esse confronto é uma briga de vida ou morte para ambos os lados. Morrem bandidos e morrem policiais. Sucede que os policiais

16

militares, que estão de serviço nas muralhas ou que entram nos

presídios compondo as tropas de choque, não fazem distinção

entre o bandido que usou armas na rua e o detento que está ali por

razões que não incluem qualquer violência, como por exemplo, o

não pagamento de pensão alimentícia. Para os policiais militares,

preso é tudo igual. É como se todos tivessem trocado tiros com

eles nas ruas, tivessem revidado às ações policiais, tivessem

matado colegas da corporação ou familiares desses mesmos

colegas.

Por razões que vêm das ruas, há um ódio intenso dos policiais

para com os bandidos e dos bandidos para com os policiais.

O ódio dos policiais aos presos é demonstrado nas revistas e nas

atuações das tropas de choque da PM quando os detentos estão

nas alas com as mãos na cabeça, sem roupas, pernas abertas,

cara voltada para a parede.

Atrás dos revistados passam os policiais militares de uma tropa de

choque e, nessa hora, eles se esquecem de qualquer resquício de

profissionalismo e aproveitam para tirar todas as suas diferenças

em relações aos presos, para externar todos os seus ódios, para

vingar os colegas e familiares que foram mortos por bandidos”.

Atividades para discussão

Professores, professoras e agentes prisionais como vocês construíram seus

conhecimentos no estudo dessa temática? Vamos ver o que conseguimos aprender? Então vamos

lá, colocar em prática nossas reflexões é um exercício!

Lembre-se de nossa dinâmica de trabalho:

1º Momento: Construção coletiva Vamos nos organizar em grupos de professores e agentes prisionais que trabalham no mesmo segmento da EJA. Cada grupo fará as anotações necessárias das discussões realizadas e das possibilidades resultantes nas discussões. Cada grupo sistematizará as observações em forma de um pequeno texto.

2º momento: Agora vamos aprender ainda mais com os outros!

Cada grupo apresentará para os colegas as observações sistematizadas, tendo por base a teoria aprendida.

3° Momento: Relato de experiências. Esse é um momento reservado ao relato de outras experiências que os colegas professores e agentes prisionais já tenham vivenciado sobre a temática discutida que contribuam para tornar a aprendizagem mais significativa.

Questões norteadoras:

1 - Como seria a aplicação da exigência ética neste contexto?

2 - Quais as formas possíveis para desarmar este confronto que parece inevitável nas

relações descritas acima?

3 - Qual o papel da educação como possibilidade de modificação desta realidade?

A reflexão ética já estava presente, no mundo ocidental, desde a Grécia Clássica quando

os filósofos procuram o fundamento moral de uma sociedade que desejava se distanciar dos

relatos míticos. Por exemplo, a ética de Aristóteles (século IV a.C.) vai exercer uma grande

influência no pensamento ocidental a partir da noção do “eudemonismo”. O verbo grego

eudaimonéo significa “ter êxito”, “ser feliz”. Portanto, para Aristóteles, todas as pessoas aspiram a

algum bem, dentre os quais o maior é a felicidade.

Sócrates (século V a.C.), dirigindo-se aos atenienses, segundo Chauí (2001, p. 166):

O essencial, com efeito, na educação, não é a doutrina ensinada, é o despertar. Ernest Renan

“indagava se eles tinham percepção do que era a consciência

moral e o sujeito ético. Interrogava a sociedade para saber se o

que ela costumava considerar virtuoso e bom correspondia

efetivamente à virtude e ao bem; e, por outro lado, interrogava os

indivíduos para saber se, ao agir, possuem efetivamente

consciência do significado e da finalidade de suas ações, se seu

caráter ou sua índole são virtuosos e bons realmente.”

O que caracteriza uma vida ética? Quem pode dizer que as suas próprias ações são

moralmente corretas? Para Wonsovicz (2001, p.16) um sujeito ético ou moral tem que preencher

alguns requisitos:

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capacidade de reflexão e de reconhecimento da existência do outros (consciência de si e

dos outros);

capacidade para dominar-se, controlar-se e também decidir e deliberar entre alternativas

(vontade, desejo, sentimentos, etc.);

ser responsável (assumir as conseqüências da ação e reflexão, respondendo por elas);

ser livre (conseguir autodeterminar-se, fazer as suas regras de conduta).

Atividades para discussão

Professores, professoras e agentes prisionais como vocês construíram seus

conhecimentos no estudo dessa temática? Vamos ver o que conseguimos aprender? Então vamos

lá, colocar em prática nossas reflexões é um exercício!

Lembre-se de nossa dinâmica de trabalho:

1º Momento: Construção coletiva Vamos nos organizar em grupos de professores e agentes prisionais que trabalham no mesmo segmento da EJA. Cada grupo fará as anotações necessárias das discussões realizadas e das possibilidades resultantes nas discussões. Cada grupo sistematizará as observações em forma de um pequeno texto.

2º momento: Agora vamos aprender ainda mais com os outros! Cada grupo apresentará para os colegas as observações sistematizadas, tendo por base a teoria aprendida.

3° Momento: Relato de experiências. Esse é um momento reservado ao relato de outras experiências que os colegas professores e agentes prisionais já tenham vivenciado sobre a temática discutida que contribuam para tornar a aprendizagem mais significativa.

Leia a relato descrito no livro “O Sistema”, Lopes 2000, p. 84:

A enfadonha rotina da cadeia tinha seqüência e, em mais um dia

de banho de sol, a triste paisagem era exatamente igual; agentes

penitenciários circulando de um lado para outro, um grupinho

disputando uma partida de futebol no campo de terra batida, um interno ouvindo rap numa altura insuportável, outro lendo jornal em que o forte era o noticiário policial, uma rodinha formada por homens que apostavam tudo o que tinham no jogo de ronda e internos deitados em bancos de cimento, simplesmente esperando a hora passar.

1 – o conceito de autodeterminação pode ser aplicado diante de um relato, que é comum aos presídios brasileiros?

2 – Como poderíamos discutir a idéia de “reconhecimento da existência do outro” dentro de um contexto ético nas relações prisionais?

Novamente a ética

As pessoas podem, diante do comportamento humano, da sociedade ter uma atitude passiva ou ativa. O sujeito ético não se submete aos acasos da sorte, à vontade e aos desejos de um outro, à tirania das paixões, mas obedece à sua consciência – que conhece o bem e as virtudes – e à sua vontade racional – que conhece os meios adequados para chegar aos fins morais.

Nesta perspectiva é que os filósofos da Antiguidade Grega e Romana consideravam a vida ética como um embate contínuo entre nossos apetites e desejos – as paixões – e a nossa razão. A ética, era concebida como educação do caráter tendo como objetivo a harmonia entre o caráter do sujeito virtuoso e os valores coletivos.

Ao olharmos para a história da filosofia, a ética, vista como um estudo ou reflexão sobre as ações humanas pode ser, para uma compreensão mais adequada dos problemas éticos, dividida em dois segmentos: geral e específico.

Podemos colocar dentro dos problemas gerais e fundamentais o que se refere à liberdade, consciência, bem, valor, lei, amor, morte, etc., enquanto que dentro dos problemas específicos o que se aplica às ações individuais que são os da ética profissional, da ética política, da ética sexual, bioética, etc.

Os Valores

A partir de uma propaganda veiculada na televisão na década de 1980, institucionaliza-se no imaginário popular brasileiro a idéia de que se deve levar vantagem em tudo. Todo mundo já ouviu falar do “jeitinho brasileiro”, muitas vezes aparentemente inocente e engraçado, e que é visto como sinal de esperteza. Furar a fila do ônibus, parar em fila dupla para pegar o filho na escola, colocar valores menores na nota fiscal, e tantos outros exemplos que poderiam ser dados, todos transgredindo padrões de comportamento. O “jeitinho” desconsidera as normas de vivência na sociedade e desconhece o dever ser dos nossos atos e comportamentos.

Daí a grande questão que chamamos da perda dos valores sociais. Afirmamos que as pessoas não sabem mais viver em sociedade porque seus valores estão invertidos. Mas o que é valor? O que são os valores?

Um primeiro aspecto a ser comentado é que os valores não são coisas, mas resultam das relações que os seres humanos estabelecem entre si e com o mundo em que vivemos. Por esta razão que, diante de pessoas e coisas, estamos constantemente fazendo o que chamamos de juízos de valor. Quando afirmamos, por exemplo, que uma moça não tem atrativos, é feia na nossa concepção, ou o oposto quando dizemos que ela é muito bonita, quando descrevemos uma borracha ou uma caneta como muito ruins, quando colocamos que João agiu com desprezo pelo fato de não ajudar naquela campanha da solidariedade do bairro, estamos fazendo juízos da realidade, porque dizemos que as coisas e as pessoas existem, mas também estamos fazendo juízos de valor porque as coisas e as pessoas podem provocar atração ou repulsa, avaliação estética, utilidade ou não, etc. Na medida em que atribuímos um valor a alguma coisa ou pessoa, significa dizer que não estamos indiferentes a ela. Podemos inferir então que, a não-indiferença é uma das principais características do valor. Porém não se deve esquecer que pelo fato dos valores não serem coisas, mas resultam das relações estabelecidas na sociedade, dizemos que os valores são em parte herdados da cultura onde estamos inseridos. Aranha, M. & Martins, M. (2000, p.273) afirmam que:

O mundo da cultura é um sistema de significados já estabelecidos por outros, de tal modo que aprendemos desde cedo como nos comportar à mesa, na rua, diante de estranhos, como, quando e

quanto falar em determinadas circunstâncias (

corpo e quando desnudá-lo, qual o padrão de beleza, que direitos e

deveres temos.

como cobrir o

)

21

A educação é um processo social, é desenvolvim ento. Não é a preparação para a vida, é a própria vida. John Dewey

Assim, a partir da valoração, as pessoas nos recriminam, nos elogiam, nos admoestam por

termos faltado com a verdade, sentimos remorso dependendo da ação que praticamos, estamos

sujeitos ao elogio ou a reprimenda, à recompensa ou à punição. Chauí (2001) discute essa idéia

ao dizer que a cultura nasce da maneira como os seres humanos interpretam a si mesmos e as

suas relações com a natureza. Nossa percepção sobre a origem cultural dos valores, sejam éticos,

do senso moral ou da consciência é relativa porque somos criados, educados para eles e neles

como se fossem naturais, existentes em si e por si mesmos.

A educação desenvolve as faculdades, mas não as cria. Voltaire

Observe o depoimento do texto ENJAULADO, p. 73:

“À medida que vai dando “vaciladas” outros presos vão lhe

“dando luz” (ensinando). Se ele não aprender logo é

melhor “caçar outro barraco”, para não morrer. As regras

mais simples são aquelas relativas à higiene e ao respeito

na hora da comida: não entrar de sapato ou de chinelo na

cela; tomar dois banhos por dia; não sair da cama nem

usar o banheiro enquanto outros estiverem comendo; ao ir

ao banheiro bater na parede, gritar “ao boi” e acender a

“teresa”.

As regras mais pesadas são: jamais “caguetar” qualquer preso ou pessoa da rua; não fazer

dívida que não possa pagar; não prometer nada que não possa cumprir; defender os “manos” do

barraco em qualquer circunstância; comprar com os companheiros do xadrez as brigas nas quais

eles se meterem. (

os outros tristes). Tem que agüentar “mulas” (piadas).

Não pode chorar de tristeza, porque vai “pesar” a cadeia dos outros (deixar

)

Atividades para discussão

Professores, professoras e agentes prisionais como vocês construíram seus

conhecimentos no estudo dessa temática? Vamos ver o que conseguimos aprender? Então vamos

lá, colocar em prática nossas reflexões é um exercício!

Lembre-se de nossa dinâmica de trabalho:

1º Momento: Construção coletiva Vamos nos organizar em grupos de professores e agentes prisionais que trabalham no mesmo segmento da EJA. Cada grupo fará as anotações necessárias das discussões realizadas e das possibilidades resultantes nas discussões.

22

Cada grupo sistematizará as observações em forma de um pequeno texto.

2º momento: Agora vamos aprender ainda mais com os outros! Cada grupo apresentará para os colegas as observações sistematizadas, tendo por base a teoria aprendida.

3° Momento: Relato de experiências. Esse é um momento reservado ao relato de outras experiências que os colegas professores e agentes prisionais já tenham vivenciado sobre a temática discutida que contribuam para tornar a aprendizagem mais significativa.

Questões norteadoras:

1 - Os valores prisionais podem ser comparados com os valores da sociedade como um

todo?

2 - Os valores comuns devem ser aplicados com rigor dentro da realidade prisional?

Compare esta discussão com o texto de Denise da Conceição Maia: “A FALTA DE

QUALIFICAÇÃO PROFISSIONAL COMO UM DOS FATORES NA REINCIDÊNCIA DO PRESO”.

Monografia de Pós-Graduação da Universidade Federal do Paraná (Orientador: Milton C. Mariotti,

Curitiba – 2003)

“A vida carcerária tem no seu cotidiano a destruição social do

preso, que o submete a um ambiente degenerativo, estimulante, e

reprodutor da violência, sendo pedagógico não para a reeducação,

mas para a constituição do comportamento violento”.

Na prisão eles seriam “pacificados”, “reeducados” “ressocializados”

e estimulados a uma vida de virtudes por meio de exercícios

cotidianos nas atividades laborativas. A idéia, que se vê no

trabalho do homem encarcerado, a varinha de condão que

desintegra o monstro da criminalidade e transforma o bandido num

polido ou minimamente disciplinado trabalhador,

O trabalho é entendido como o meio pelo qual se pode construir a

identidade do homem honesto, que mesmo pobre é um honrado

trabalhador, em

contraposição ao “vagabundo” e consequentemente ao criminoso,

alem disso o

trabalho é visto como um ingrediente fundamental de acréscimo de pena privativa de liberdade. Não se admite que alguém cumpra esse tipo de pena sem trabalhar como uma forma de compensação ao ônus que causa a sociedade”.

3 – Que valores você identifica na fala desta autora e que podem ser resgatados para a transformação do sistema prisional?

4 – O trabalho pode exercer com êxito esta função (de resgate da cidadania)?

Há uma expressão que diz assim: “a realidade de hoje é que amamos as coisas e usamos as pessoas”. Você percebe a inversão de valores? As coisas que deveriam ser usadas são reverenciadas (amadas) em nossa sociedade, enquanto que as pessoas que deveriam ser amadas são usadas, descartáveis, em qualquer situação. Esta postura tem uma relação direta com os valores pragmáticos que estão presentes no cotidiano das pessoas, principalmente nos meios midiáticos.

A Afetividade

Normalmente, quando pensamos no que caracteriza a natureza humana, a resposta mais comum é a racionalidade. É verdadeira a resposta, mas incompleta! Somos seres de desejos, afetos, emoções, que também retratam a nossa humanidade. Aranha, M & Martins, M. (2001) afirmam: “A razão é importante por fornecer os meios para compreender a realidade, solucionar problemas, projetar a ação e reavaliar o que foi feito. As atitudes ligadas ao impulso, a energia, a vibração vem do desejo. É este que põe o mundo humano em movimento”.

O desejo surge à medida que os seres humanos estabelecem relações entre si. Os sentimentos e emoções nos afetam independentemente de nosso consentimento.

Wallon (1968) defende que, no decorrer de todo o desenvolvimento do indivíduo, a afetividade tem um papel fundamental. Tem a função de comunicação nos primeiros meses de vida, manifestando-se, basicamente, através de impulsos emocionais, estabelecendo os primeiros contatos da criança com o mundo. Através desta interação com o meio humano, a criança passa de um estado de total sincretismo para um progressivo processo de diferenciação, onde a afetividade está presente, permeando a relação entre a criança e o outro, constituindo elemento

essencial na construção da identidade. Da mesma forma, é ainda através da afetividade que o indivíduo acessa o mundo simbólico, originando a atividade cognitiva e possibilitando o seu avanço. São os desejos, as intenções e os motivos que, em um primeiro momento, vão mobilizar a criança na seleção de atividades e objetos. Para este autor, o conhecimento do mundo objetivo é feito de modo sensível e reflexivo, envolvendo o sentir, o pensar, o sonhar e o imaginar.

Almeida (2005), referindo-se a Wallon coloca que a afetividade é um domínio funcional,

cujo desenvolvimento é dependente da ação de dois fatores: o orgânico e o

que inicialmente é determinada basicamente pelo fator orgânico passa a ser fortemente influenciada pela ação do meio social.

A afetividade

Para Ballone (2003), A afetividade compreende o estado de ânimo ou humor, os sentimentos, as emoções e as paixões e reflete sempre a capacidade de experimentar sentimentos e emoções. Assim, podemos afirmar que a Afetividade é quem determina a atitude geral da pessoa diante de qualquer experiência vivencial, promove os impulsos motivadores e inibidores, percebe os fatos de maneira agradável ou sofrível, confere uma disposição indiferente ou entusiasmada e determina sentimentos que oscilam entre dois pólos, a depressão e a euforia. Desta forma, a Afetividade é quem confere o modo de relação do indivíduo à vida e será através da tonalidade de ânimo que a pessoa perceberá o mundo e a realidade. Direta ou indiretamente a Afetividade exerce profunda influência sobre o pensamento e sobre toda a conduta do indivíduo.

A educação do homem começa no momento do seu nascimento; antes de falar, antes de entender, já se instrui. Jean Jacques Rousseau

A Afetividade valoriza tudo em nossa vida, tudo aquilo que está fora de nós, como os fatos e acontecimentos, bem como aquilo que está dentro de nós (causas subjetivas), como nossos medos, nossos conflitos, nossos anseios, etc. A Afetividade valoriza também os fatos e acontecimentos de nosso passado e nossas perspectivas futuras.

Podemos descrever esta influência quando percebemos as possíveis mudanças na relação de afetividade das pessoas no cotidiano. Os afetos expansivos são considerados por alguns autores como afetos agradáveis. Isso, em contraposição aos afetos depressivos, considerados como desagradáveis. A tonalidade afetiva dos estados expansivos é de prazer, confiança e felicidade, daí a denominação de afetos agradáveis. O estado expansivo do humor pode aparecer como reação emocional a alguma vivência muito agradável, uma espécie de reação vivencial eufórica a uma experiência da realidade. Ao contrário, os afetos depressivos se revelam por um sentimento de mal-estar, de abatimento, de tristeza, de inutilidade e de incapacidade para realizar qualquer atividade.

Ballone (2003) descreve ainda que, os afetos depressivos, da mesma forma que os afetos expansivos, podem aparecer como uma resposta a situações reais, através de uma

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reação vivencial depressiva, quando diante de fatos desagradáveis, aborrecedores, de

frustrações e perdas.

Diante do que foi exposto, evidencia-se a presença contínua da afetividade nas interações

sociais, além da sua influência também contínua nos processos de desenvolvimento cognitivo.

Nesse sentido, pode-se pressupor que as interações ocorrem no contexto escolar, na

vivência prisional e outras áreas das relações sociais, e que também são marcadas pela

afetividade em todos os seus aspectos. Pode-se supor, também, que a afetividade se constitui

como um fator de grande importância na determinação da natureza das relações que se

estabelecem entre os sujeitos e os diversos objetos de conhecimento, bem como na disposição

das pessoas diante de atividades propostas e que devem ser desenvolvidas com o objetivo de

mudanças, transformação da sociedade.

A construção da uma sociedade onde a ética, os valores, a afetividade, a moral são

relevantes, passam pela consciência de que o ser humano é sempre um valor em si e por si, como

também, segundo Heerdt (2000), é preciso ter consciência do real para poder superá-lo e construir

parâmetros de eticidade em nossa sociedade tão desumana e excludente.

Atividades para discussão

Professores, professoras e agentes prisionais como vocês construíram seus

conhecimentos no estudo dessa temática? Vamos ver o que conseguimos aprender? Então vamos

lá, colocar em prática nossas reflexões é um exercício!

Lembre-se de nossa dinâmica de trabalho:

1º Momento: Construção coletiva Vamos nos organizar em grupos de professores e agentes prisionais que trabalham no mesmo segmento da EJA. Cada grupo fará as anotações necessárias das discussões realizadas e das possibilidades resultantes nas discussões. Cada grupo sistematizará as observações em forma de um pequeno texto.

2º momento: Agora vamos aprender ainda mais com os outros! Cada grupo apresentará para os colegas as observações sistematizadas, tendo por base a teoria aprendida.

3° Momento: Relato de experiências. Esse é um momento reservado ao relato de outras experiências que os colegas professores e agentes prisionais já tenham vivenciado sobre a temática discutida que contribuam para tornar a aprendizagem mais significativa.

Questão norteadora:

1 – Conhecer e conhecer-se é condição essencial para ter relacionamentos sadios e

equilibrados. É uma tarefa que não termina nunca, pois, embora a pessoa se conheça sempre

mais a cada dia, nunca se conhecerá totalmente. Diante desta idéia, são os valores que podem

fundamentar a necessidade de relacionamentos no âmbito educacional dentro do sistema

prisional?

Unidade 03 A Ética Profissional e as Relações Sociais Objetivo • Compreender que a ética

Unidade 03

A Ética Profissional e as Relações Sociais

Objetivo

Compreender que a ética profissional e a identidade dos educadores e agentes prisionais deve pautar as relações nos sistema prisional.

A Ética Profissional

Aquino (2005) define que a ética profissional são princípios da conduta humana, diretrizes no exercício de uma profissão, estipulando os deveres que devem ser seguidos no desempenho de uma atividade profissional.

Podemos afirmar que no profissional ético persistente a aspiração de amoldar sua conduta, sua vida, aos princípios básicos dos valores culturais de sua missão e seus fins, em todas as esferas de suas atividades. Conjunto de normas pelas quais o indivíduo deve orientar seu comportamento na profissão que exerce.

Um dos aspectos importantes da ética profissional é quando você pode perguntar a si mesmo: Estou sendo bom profissional? Estou agindo adequadamente? Realizo corretamente minha atividade? Existem atitudes que não estão descritas nos códigos de todas as profissões,

mas que são comuns a todas as atividades que uma pessoa pode exercer. Por exemplo, atitudes de generosidade e cooperação no trabalho em equipe, uma postura pró-ativa, ou seja, não ficar restrito apenas às tarefas que foram dadas a você, mas contribuir para o engrandecimento do trabalho são situações ligadas a uma postura ética no trabalho, em qualquer trabalho que a pessoa exerça.

Por outro lado, podemos perguntar que leva um profissional a não ter ética? O que faz um profissional agir sem escrúpulos, caráter, justiça e bom senso?

O ambiente corporativo sempre esteve recheado de pessoas que, em benefício próprio ou de outros, agem com total falta de profissionalismo e imparcialidade. Ficamos incrédulos quando nos deparamos com estas pessoas que agem por pura maldade, vaidade, inveja e incompetência. Lembre, quantas vezes você vivência situações como:

- A do chefe que promove a funcionária mais bonita

- A do colega de trabalho que está mais interessado em puxar o tapete de alguém

- A do setor de compras que aprova um orçamento porque o prestador de

serviços é seu parente, amigo ou compadre

- A do candidato que é escolhido somente porque foi indicado pelo irmão do gerente

Todo o homem recebe duas espécies de educação: a que lhe é dada pelos outros, e, muito mais importante, a que ele dá a si mesmo. Edward Gibbon

Muitas. A todo o momento, se deixarmos a ingenuidade do lado, perceberemos pessoas corrompidas, que deixaram de acreditar em si próprias e preferiram entrar no perigoso jogo do mundo corporativo.

Ainda que a realidade retratada acima não é incomum, ser um profissional ético nada mais é do que ser profissional mesmo nos momentos mais inoportunos. Portanto, se nossa opção é ser uma pessoa ética, devemos seguir um conjunto de valores. Ser ético é proceder sem prejudicar os outros. Podemos pensar em algumas características básicas (comuns) de como ser um profissional ético é ser bom, correto, justo e adequado. Além de ser individual, qualquer decisão ética tem por trás valores fundamentais. Eis algumas das principais características:

1. Ser honesto em qualquer situação.

2. Ter coragem para assumir as decisões - mesmo que seja contra a opinião alheia.

3. Ser tolerante e flexível - deve-se conhecer para depois julgar as pessoas.

4. Ser íntegro - agir de acordo com seus princípios

5. Ser humilde - só assim conseguimos reconhecer o sucesso individual

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O texto abaixo é um comentário do Código de Ética Profissional - CONFEA (Conselho

Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia), de novembro de 2002. O texto de forma

sistematizada, coloca elementos que podem aplicados a qualquer profissão e devem ser

estudados para uma melhor compreensão do profissional ético e coerente em sua profissão.

Ao pensar na necessidade da identidade das profissões, este código diz no seu artigo 4

que, “as profissões são caracterizadas por seus perfis próprios, pelo saber científico e tecnológico

que incorporam, pelas expressões artísticas que utilizam e pelos resultados sociais, econômicos e

ambientais do trabalho que realizam”. Esta noção dos resultados sociais, econômicos e

ambientais é um desafio permanente para o profissional que atua, seja como educador ou agente

prisional, dentro do sistema prisional, portanto, afirma o código: O objetivo das profissões e a ação

dos profissionais volta-se para o bem-estar e o desenvolvimento do homem, em seu ambiente e

em suas diversas dimensões: como indivíduo, família, comunidade, sociedade, nação e

humanidade; nas suas raízes históricas, nas gerações atual e futura.

Atividades para discussão

Professores, professoras e agentes prisionais como vocês construíram seus

conhecimentos no estudo dessa temática? Vamos ver o que conseguimos aprender? Então vamos

lá, colocar em prática nossas reflexões é um exercício!

Lembre-se de nossa dinâmica de trabalho:

1º Momento: Construção coletiva Vamos nos organizar em grupos de professores e agentes prisionais que trabalham no mesmo segmento da EJA. Cada grupo fará as anotações necessárias das discussões realizadas e das possibilidades resultantes nas discussões. Cada grupo sistematizará as observações em forma de um pequeno texto.

2º momento: Agora vamos aprender ainda mais com os outros! Cada grupo apresentará para os colegas as observações sistematizadas, tendo por base a teoria aprendida.

3° Momento: Relato de experiências. Esse é um momento reservado ao relato de outras experiências que os colegas professores e agentes prisionais já tenham vivenciado sobre a temática discutida que contribuam para tornar a aprendizagem mais significativa.

Elementos norteadores:

Leia o artigo abaixo do Código do CONFEA e estabeleça uma discussão no grupo sobre quais parágrafos podem ser aplicados nas relações entre os educadores e os educando do sistema prisional.

Dos princípios éticos

Toda a educação se reduz a estes dois ensinamentos:

aprender a

suportar a

injustiça e

aprender a

suportar o

aborrecimento.

Ferdinando

Galiani

Art. 8º - A prática da profissão é fundada nos seguintes princípios éticos aos quais o profissional deve pautar sua conduta:

Do objetivo da profissão

I - A profissão é bem social da humanidade e o profissional é o agente capaz de exercê-la, tendo como objetivos maiores a preservação e o desenvolvimento harmônico do ser humano, de seu ambiente e de seus valores;

Da natureza da profissão

II - A profissão é bem cultural da humanidade construído permanentemente pelos conhecimentos

técnicos e científicos e pela criação artística, manifestando-se pela prática tecnológica, colocado a

serviço da melhoria da qualidade de vida do homem;

Da honradez da profissão

III - A profissão é alto título de honra e sua prática exige conduta honesta, digna e cidadã;

Da eficácia profissional

IV - A profissão realiza-se pelo cumprimento responsável e competente dos compromissos profissionais, munindo-se de técnicas adequadas, assegurando os resultados propostos e a qualidade satisfatória nos serviços e produtos e observando a segurança nos seus procedimentos;

Do relacionamento profissional

V - A profissão é praticada através do relacionamento honesto, justo e com espírito progressista

dos profissionais para com os gestores, ordenadores, destinatários, beneficiários e colaboradores

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de seus serviços, com igualdade de tratamento entre os profissionais e com lealdade na competição;

Da intervenção profissional sobre o meio

VI - A profissão é exercida com base nos preceitos do desenvolvimento sustentável na intervenção sobre os ambientes natural e construído e da incolumidade das pessoas, de seus bens e de seus valores;

Da liberdade e segurança profissionais

VII - A profissão é de livre exercício aos qualificados, sendo a segurança de sua prática de interesse coletivo.

O que vocês acham? Na seqüência, observe que a ética profissional deve ser entendida também na relação dos deveres profissionais. Ao olhar para esta questão educadores e agentes prisionais atuar, por meio de seus saberes para o bem da humanidade, construir conhecimentos que possam harmonizar os interesses pessoais aos coletivos.

Observe, se a profissão é de livre exercício, naturalmente é dever do profissional identificar-se e dedicar-se com zelo à profissão; ter a motivação adequada; desempenhar sua profissão ou função nos limites de suas atribuições e de sua capacidade pessoal de realização, como também, empenhar-se junto aos organismos profissionais no sentido da consolidação da cidadania e da solidariedade profissional e da coibição das transgressões éticas.

Portanto, afirma Edinilson Rodrigues da Rocha na monografia:

“A MOTIVAÇÃO DO

AGENTE PENITENCIÁRIO PARA O TRABALHO”. CURITIBA – 2003:

educação é inimiga da sabedoria, porque a educação torna necessárias muitas coisas das quais, para
educação é
inimiga da
sabedoria,
porque a
educação
torna
necessárias
muitas
coisas das
quais, para
sermos
sábios, nós
deveríamos
ver livres.
Luigi
Pirandello

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A motivação é a mola propulsora das realizações humanas. Para haver um bom rendimento de um profissional em qualquer área, é necessário que o mesmo esteja motivado. O profissional, em qualquer atividade, motivado, trabalha de modo a obter um rendimento no que faz, conseguindo atingir os objetivos pré- determinados. No departamento Penitenciário, a motivação do profissional de segurança, o Agente Penitenciário, é de suma importância, pois, o mesmo está, não só fazendo a segurança do interno, do estabelecimento penal e da

sociedade, como também fazendo parte do processo de reeducação e reinserção social do apenado. O agente é o principal personagem no Sistema para a efetivação de tal objetivo.

O professor Marcos Rolim em:

ROLIM, Marcos. Prisão e ideologia:limites e possibilidades para a reforma prisional no Brasil. Site do Curso de Direito da UFSM. Santa Maria-RS. Disponível em:

<http://www.ufsm.br/direito/artigos/execucao-penal/prisao-ideologia.htm>. Acesso em :

02/09/2006

Conduz uma discussão sobre os valores prisionais que devem ser observados no contexto dos presídios. Observe a sua opinião:

Os presídios constituem uma esfera determinada, orientada por regras, valores e praxes específicas que precisam ser reconhecidas e identificadas. Tais regras, valores e praxes não guardam, rigorosamente, nenhuma relação de pertinência com o conteúdo da sentença judicial condenatória ou com os propalados objetivos da "ressocialização" dos condenados. Antes disto e verdadeiramente, as regras, valores e praxes operantes no sistema constituem os marcos da vida prisional como que em contraste - e muitas vezes em flagrante oposição - às normas, virtudes e condutas valorizadas socialmente entre os cidadãos. Afirma-se, então, os termos do paradoxo prisional: como é possível conceber a reintegração à sociedade, eliminando a sociabilidade do preso? Como é possível prepará-lo para a vida em liberdade, se suprimimos, na prisão, a possibilidade da ação livre?

Boa educação não está tanto no fato de não derramar molho sobre a toalha de
Boa
educação
não está
tanto no fato
de não
derramar
molho sobre
a toalha de
mesa, mas
em não
perceber se
outra pessoa
o faz.
Anton
Tchekhov

Seria preciso ver os internos e condenados, primeiramente, como seres humanos e, portanto, como sujeitos portadores de direitos, reconhecendo o fenômeno da cidadania ali onde ele tem sido tradicional e solenemente ignorado. Ato contínuo a esta disposição elementar, seria preciso saber, em cada detalhe, dos mecanismos concretos pelos quais a instituição prisional se afirma destruindo a autonomia dos indivíduos e negando-lhes a condição de humanidade que caracteriza a condição dos seres livres.

Em países como o Brasil, o fato de alguém ter cumprido uma pena de prisão -

independentemente da natureza do crime praticado - é motivo para que esta pessoa nunca mais

alcance uma posição no mercado formal de trabalho – o que equivale a dizer que os “excluídos”

serão impulsionados objetivamente na direção de soluções ilegais de sobrevivência. Muitas vezes,

a simples notícia da prisão é motivo suficiente para que inclusive familiares do condenado sejam

demitidos.

Admitir que devessem existir espaços de liberdade dentro de um presídio pressupõe que

aos internos seja possível a tomada de um conjunto de decisões – ainda que restritas pelos

marcos de suas sentenças. Isso é apenas uma forma de dizer que as regras disciplinares e a

própria noção de disciplina devem estar a serviço da ressocialização e não da sujeição dos

internos. O que elas devem estimular é a responsabilidade, não a docilidade; a compreensão de

valores, não sua imposição heterônoma. Para que isto seja possível, todos aqueles que lidam

com os internos; vale dizer: que mantém contato permanente e profissional com eles, devem ser

definidos como técnicos de ressocialização e não como carcereiros. Os mesmos valores devem

orientar os programas específicos de educação prisional de tal forma que a sala de aula possa

re-construir, tanto quanto possível, um ambiente típico de aprendizagem o que não se fará sem

que esse espaço seja fundado pela liberdade. Se os alunos-presos não tiverem a chance de falar

o que desejam, se não puderem questionar seu professor, se não houver esse tipo de interação

básica e o desenvolvimento de laços de confiança não há mesmo como se falar em processo

pedagógico. Sobre este tema, Reuss (1999), Apud Rolim, assinala que:

Educação é aquilo que a maior parte das pessoas recebe, muitos transmitem e poucos possuem. Karl Kraus

Habilidades sociais e necessárias para a convivência não podem ser aprendidas em um ambiente onde a possibilidade de praticá-las esteja distanciada ou tenha sido removida dos indivíduos. Elas só podem ser aprendidas em ambientes caracterizados pelas principais tendências da sociedade e as classes de aula dentro de uma prisão devem, no mínimo, reproduzir algo disto.

(Reuss, Anne. “Prison(er) Education”. The Howard Journal, vol. 38, 1999, pp: 113-127).

Um processo educacional dentro de uma instituição de privação da liberdade será, por

outro lado, marcado por diferenças substanciais. Entre seus desafios específicos, parece claro

que ele deverá estar voltado para o objetivo de reforçar a auto-estima dos apenados e lhes

permitir a construção progressiva de uma nova identidade. Por óbvio, os educadores habilitados

para este tipo de trabalho deverão possuir uma formação específica, o que, infelizmente, nunca

foi objeto de preocupação no Brasil; nem do Poder Público, nem dos cursos de pedagogia.

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Atividades para discussão

Professores, professoras e agentes prisionais como vocês construíram seus

conhecimentos no estudo dessa temática? Vamos ver o que conseguimos aprender? Então vamos

lá, colocar em prática nossas reflexões é um exercício!

Lembre-se de nossa dinâmica de trabalho:

1º Momento: Construção coletiva Vamos nos organizar em grupos de professores e agentes prisionais que trabalham no mesmo segmento da EJA. Cada grupo fará as anotações necessárias das discussões realizadas e das possibilidades resultantes nas discussões. Cada grupo sistematizará as observações em forma de um pequeno texto.

2º momento: Agora vamos aprender ainda mais com os outros! Cada grupo apresentará para os colegas as observações sistematizadas, tendo por base a teoria aprendida.

3° Momento: Relato de experiências. Esse é um momento reservado ao relato de outras experiências que os colegas professores e agentes prisionais já tenham vivenciado sobre a temática discutida que contribuam para tornar a aprendizagem mais significativa.

Questões norteadoras:

1 - Descreva os principais valores da ética profissional que podem ser aplicados no

trabalho prisional.

2 - É possível ser profissional no sistema prisional brasileiro de nossos dias?

3 - Você concorda que os agentes prisionais/educadores necessitam de conhecimento

dos valores sociais, construídos pela sociedade, para aplicá-los no seu cotidiano?

Unidade 04 Os Valores Religiosos e a Ressocialização no Sistema Prisional Objetivo • Compreender como

Unidade 04

Os Valores Religiosos e a Ressocialização no Sistema Prisional

Objetivo

Compreender como os valores religiosos são importantes para o processo de ensino-aprendizagem.

Os Valores Religiosos

Quando pensamos os valores éticos da religião, especialmente do cristianismo, temos que ter em mente que a ética no Novo Testamento tem um caráter parenético (proclamação e exortação) para o viver em sociedade. Suas normas não são extraídas de um “logos” que governa o mundo ou de um reino de idéias, mas de premissas peculiares ao próprio cristianismo cujo fundamento é a fé numa revelação da “vontade de Deus”, na qual estão comprometidos todos os fiéis. Os valores e normas do cristianismo estão sempre condicionados à premissa fundamental de que na cruz e a ressurreição de Cristo se realizou o evento decisivo para a salvação de todo o mundo.

Nesta perspectiva é que devem ser pensados os valores cristãos:

Envolvimento Pessoal

John Donne, um poeta do século XVII, citado por Bartlett (1955, p.218) faz a seguinte afirmação:

Nenhum homem é uma ilha, inteira em si mesma; todo homem é uma parte do continente, um pedaço do

território (

pouco, pois estou envolvido com toda a humanidade; e,

portanto, não mandes perguntar por que é que o sino está dobrando; ele dobra por ti.

a morte de qualquer homem me diminui um

)

Há uma grande dificuldade em nossa geração de entendermos a necessidade de interrelação para a nossa própria sobrevivência. Estamos nos distanciando uns dos outros, cultivando um estilo de vida independente, em que não precisamos uns dos outros. O envolvimento pode ser definido com “ser participante”, ter uma relação bem próxima, “estar incluído”.

A educação

criou

uma vasta população capaz de ler, mas incapaz de reconhecer o que vale a pena ser lido.

G. Trevelyan

(

)

No âmbito da religião podemos desdobrar a necessidade de envolvimento pessoal, primeiro com Deus, implicando em um caminhar diário com Cristo, pela fé. Em segundo lugar, nosso envolvimento com os membros da família. No âmbito do cristianismo há normativas claras para honrar pai e mãe, por exemplo. Em terceiro lugar nosso envolvimento com outras pessoas como forma primordial de harmonia dentro da sociedade.

No Novo Testamento existem muitas exortações para que os cristãos rompam com

qualquer forma de isolacionismo. “O amor seja sem hipocrisia

outros com amor fraternal

perseverantes; compartilhai as necessidades dos santos; praticai a hospitalidade; abençoai aos

que vos perseguem, abençoai e não amaldiçoeis.” (Romanos 12:9,16).

regozijai-vos na esperança, sede pacientes na tribulação, na oração

Amai-vos cordialmente uns aos

O envolvimento conduz à responsabilidade. “Ninguém é uma ilha!” Aprendemos a ser responsáveis uns para com os outros. Entendemos que alguém se interessa por nós, que existem pessoas que não estão indiferentes às nossas mazelas, lutas e dificuldades.

Integridade

Afirma-se que a integridade é o coração do caráter. A integridade tem a ver com exemplos de ética elevada no modo como as pessoas se conduzem e nas responsabilidades que detêm. No âmbito do cristianismo a integridade deve levar as pessoas a avaliar as coisas segundo as

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Escrituras, buscando justiça onde necessário, procurando ter conduta, palavras e atitudes piedosas.

A integridade pode ser medida no teste da adversidade, mas também no teste da prosperidade. Não existe nada como a adversidade para nos mostrar se somos realmente fortes ou fracos, onde a nossa integridade é colocada em xeque. Suportamos bem as adversidades? As dificuldades? Porém, no teste da prosperidade também encontramos um grande desafio para uma vida de integridade. Quantas vezes o querer mais, o acostumar-se ao que é melhor nos leva a renegar certos valores, a esquecer aspectos morais e a deixar de lado a ética profissional. Tanto em um caso como no outro corremos o risco de tornar-nos mesquinhos, invejosos e incomodados com as situações que se nos apresentam no dia a dia.

Integridade tem a ver, também, com ser fiel em seu trabalho, desempenhar as suas atividades sem negligência como também ser honesto nas suas relações com os demais colegas de serviço, isto é, ser uma pessoa de excelente atitude.

Atitudes

Em muitas circunstâncias, a decisão mais importante que se pode tomar no cotidiano, é a atitude pessoal. Ela pode ter maior peso do que o nosso passado, a nossa formação educacional, nossa conta no banco, nosso sucesso ou fracasso. Portanto, quando temos uma atitude certa, não existem barreiras elevadas demais, nem vale por demais profundo, nem desafio insuperável. As questões do cotidiano podem ser superadas quando temos atitudes que conduzem ao crescimento pessoal e das pessoas que nos cercam. No contexto cristão há uma exortação constante na Bíblia

para que “tenhais o mesmo amor, sejais unidos de alma, tendo o mesmo sentimento

Nada façais

por partidarismo ou vanglória, mas por humildade, considerando cada um os outros superiores a si mesmo”. (Filipenses, cap. 02)

Atitudes positivas, que denotam humildade, no sentido de altruísmo, podem gerar situações que firmam os valores e os relacionamentos e produzem alegria na vida das pessoas. Por isso, uma atitude certa, correta, fruto de convicções que não são negociadas podem transformar muita situações que parecem adversas para a maioria das pessoas. Observe o que Paulo, na Carta aos Filipenses, cap. 4 diz: “Finalmente, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento.

Senso de Justiça

No contexto bíblico, no Antigo Testamento há a idéia clara de que as pessoas necessitam de um senso de justiça porque Deus é justo! Há uma expressão bíblica que diz: “Afim de que se chamem “carvalho de justiça”. Significa dizer que os cristãos devem pautar a sua vida por um senso de justiça, não porque se achem justos, mas porque Deus é justo.

Esta relação de justiça vai além do senso comum, do viver em sociedade ou das normativas do Estado. O cristão deve atuar no sentido de promover a justiça porque a vê como uma ordenação divina sobre a sua vida e a sociedade.

Segundo Gallert, Mansanera e Porto Jr (Apostila 01, unidade 01, página 16), para Vygotsky (2003) “o desenvolvimento e a aprendizagem acontecem pela mediação com a cultura, história, ou seja, objetos e/ou signos lingüísticos”. Neste sentido, a realidade prisional deve ser explicitada para que as ações no âmbito da educação tenham resultados adequados. Portanto, na medida em que, dentro do sistema prisional, as pessoas passam por um processo de transformação, de mudanças no seu comportamento devido à relação que se estabelece com a religiosidade, uma nova mentalidade se torna a norma de vivência dos presidiários.

A vida deve ser uma constante educação. Gustave Flaubert

Na página 17, afirmam os autores Gallert, Mansanera e Porto Jr.(2006) que a autonomia é um método de construção do saber, uma pedagogia da descoberta, é dar ao educando a possibilidade de construção do conhecimento a partir de temáticas diversificadas. Uma das temáticas possíveis é a religiosidade.

Esta mentalidade, resultante dos preceitos bíblicos, provoca no presidiário a necessidade de fé, perdão, comunhão, oração, leitura da Bíblia decorrentes da nova relação com Deus e que tem conseqüências no seu comportamento cotidiano e, portanto, muda os seus valores éticos e morais.

A compreensão desta mudança é fundamental para que o educador/agente prisional possa utilizar este processo como um espaço pedagógico, de ensino-aprendizagem. A oportunidade que se configura para a alfabetização, através dos cânticos religiosos, da necessidade de leitura da Bíblia para uma compreensão da fé professada, deve ser explorada didaticamente dentro do processo educativo, e como incentivo para que o interno seja motivado ao aprendizado.

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Atividades para discussão

Professores, professoras e agentes prisionais como vocês construíram seus

conhecimentos no estudo dessa temática? Vamos ver o que conseguimos aprender? Então vamos

lá, colocar em prática nossas reflexões é um exercício!

Lembre-se de nossa dinâmica de trabalho:

1º Momento: Construção coletiva Vamos nos organizar em grupos de professores e agentes prisionais que trabalham no mesmo segmento da EJA. Cada grupo fará as anotações necessárias das discussões realizadas e das possibilidades resultantes nas discussões. Cada grupo sistematizará as observações em forma de um pequeno texto.

2º momento: Agora vamos aprender ainda mais com os outros! Cada grupo apresentará para os colegas as observações sistematizadas, tendo por base a teoria aprendida.

3° Momento: Relato de experiências. Esse é um momento reservado ao relato de outras experiências que os colegas professores e agentes prisionais já tenham vivenciado sobre a temática discutida que contribuam para tornar a aprendizagem mais significativa.

Questões norteadoras:

1 – Os valores religiosos têm importância para a educação no sistema prisional?

2 – A regeneração (mudança interior) proposta pela religião pode ser aproveitada no sentido de

desafiar os internos para a educação, sem que os mesmos mudem os seus relacionamentos

dentro do sistema prisional?

Pluralidade Religiosa no Presídio

É preciso compreender que nem a repressão policial conseguiu impedir a difusão de

determinados credos religiosos por todo esse imenso país. E por se tratar de um país que recebeu

tantos imigrantes, é natural que tenha desenvolvido uma fantástica pluralidade religiosa.

A prisão é um ambiente onde é possível encontrar o enfrentamento entre diferentes forças

sociais. E você quanto docente, não deve contribuir para o sucesso de uma ou outra dessas forças

em luta.

O educador através de sua prática, do dialogo deve possibilitar o desenvolvimento de cidadãos capazes de decidir e agir com autonomia e consciência naquilo que se refere à vida da sociedade.

É importante edificar um ambiente tranqüilo de convivência pacífica entre os credos que

desenham esse mosaico de pluralidade religiosa, procurando contornar as situações em que se manifestam a intolerância e o preconceito religioso.

É papel do educador proporcionar àqueles que, por ignorância ou desinformação a respeito

das outras ordens religiosas, podem nutrir-se de intolerância e preconceito, algum tipo de reflexão sobre essas questões religiosas.

Um sistema de legislação é sempre impotente se, paralelament e, não se criar um sistema de educação. Jules Michelet

Necessário é, que você perceba que apenas boa intenção não é suficiente para garantir o respeito à liberdade religiosa num país como o Brasil. É preciso que exista muita reflexão, muita ponderação e muito diálogo.

Atividade

Professores, professoras e agentes prisionais como vocês construíram seus conhecimentos no estudo dessa temática? Vamos ver o que conseguimos aprender? Então vamos lá, colocar em prática nossas reflexões é um exercício!

1-Considerando a realidade brasileira em relação à pluralidade de religiões, analise as afirmativas abaixo.

I- Os alunos apenados devem ser tratados da mesma maneira, independente da religião de cada um.

II- Atividades de reflexão, com a possibilidade de diálogo, talvez seja a fórmula para trabalhar a religião com os detentos.

41

III- Os alunos devem ser tratados de forma diferenciada, de acordo com a religião de cada um.

IV- Criar sistema de segregação religiosa, com alguns alunos considerando que “os outros” são privilegiados.

São corretas as afirmativas:

a) I e IV

b) I, II e III

c) I e II

d) I e III

2- Agora, ao final desse módulo vamos elaborar um memorial reflexivo, para registrar o ocorrido durante os estudos, é importante que você aponte suas ações e reações, sentimentos, impressões, interpretações sobre os temas desenvolvidos no módulos e compreendidos por você. Vamos dar uma colher de chá! Abaixo segue um extrato do texto “Para uma “Arqueologia” da memória educacional” de Gilson Porto Jr. que dá sugestões de construção de um memorial:

“Para uma “Arqueologia” da memória educacional”

A proposta de elaboração e análise individual/coletiva 1 da memória educativa, tem como eixo central a concepção de que, a identidade do professor/pesquisador e/ou futuro professor/pesquisador 2 vai se formando ao longo de sua trajetória como aluno nos diferentes contextos em que se vivenciou e compartilhou de experiências. Nesse sentido Gadotti (2004:11) afirma:

“Muitas vezes me perguntava se é importante lembrar o que fizemos, refletir sobre nossa própria experiência, lembrar nossa vida na escola como alunos e depois como educadores. Encontrei uma resposta a essa preocupação em Duccio Demétrio. Ele sustenta que tratar os temas de nossos estudos de forma autobiográfica suscita e cria memória, permitindo criar novos futuros e novos sentidos para nossas vidas. Segundo ele, o método autobiográfico é muito apropriado para a formação intelectual do educador. E precisamos

1 Entendo aqui que, apesar da memória ser algo individual, isto é, processar-se na individualidade e subjetividade do indivíduo, ela é fruto da relação com o outro, ou seja, é construída na alteridade e nas relações estabelecidas. Uma boa discussão sobre a temática da subjetividade e alteridade está no clássico produzido por KIERKEGAARD, Sören. O

desespero Humano. São Paulo: Editora Martins Claret, 2002.

2 KENSKI, Vani Moreira. Eu, Pesquisadora. In: LINHARES, Célia, FAZENDA, Ivani e TRINDADE, Vitor. Os Lugares dos Sujeitos na Pesquisa Educacional. Campo Grande, MS: Ed. UFMS, 1999, p. 363-385.

 

formar os novos educadores para que as escolas do futuro tratem mais do amor, da dor, do projeto de vida, da morte, do cotidiano das pessoas, da afetividade. As pessoas têm medo de encontrar-se consigo mesmas, de escutar o seu próprio silêncio, inclusive porque a escola não deu importância a esses temas”. 3

Muitas dessas experiências, que a escola “não deu importância”, resultaram em crenças acerca do processo ensino-aprendizagem escolar que tendem a se reproduzir em sua prática escolar. Algumas ‘acertadas’ – baseadas numa “prática” do educador – outras ‘certeiras’, num sentido de arremessado contra o discente (criança, jovem ou adulto).

O que propomos é uma arqueologia – para parafrasear Michel Foucault – da memória educacional que cada indivíduo tem, que você individualmente e coletivamente foi construindo ao longo dos anos. Esse trabalho é bem semelhante ao que venho desenvolvendo no curso de Pedagogia do CEULP/ULBRA com alunos a cerca de 2 anos, utilizando o Diário de Bordo 4 .

Mas o que é memória? Segundo Abbagnano (2000:657) memória vem do latim

memoria e significa “a possibilidade de dispor dos conhecimentos passados

por

conhecimentos passados é preciso entender os conhecimentos que, de qualquer modo já estiveram disponíveis, e não simplesmente conhecimento do passado” 5 . Daí, diferencia a memória – utilizando aportes existentes desde a filosofia clássica com Platão e Aristóteles – em dois tipos de memória: uma retentiva (‘conservação de conhecimentos passados que,

por serem passados, não estão mais a vista’) e outra recordação (‘possibilidade de evocar, quando necessário, o conhecimento do passado e de torná-lo atual ou presente’).

Neste sentido, num primeiro momento propõe-se uma volta ao passado de tal forma que, na memória – recordação – do tempo 6 , sejam resgatadas pessoas, processos e/ou episódios e situações dessa experiência vivenciada, identificando questões pedagógicas

3 GADOTTI, Moacir. Os Mestres de Rousseau. São Paulo: Cortez, 2004. 4 Não na forma, já que utilizaremos outra metodologia, mas no exercício dissertativo-interpretativo que se exige na elaboração do diário de bordo. Para exemplos da utilização como metodologia vide ALMEIDA, S. e PORTO JR, F. G. R. Construindo um Diário de Bordo: O Conhecimento Refletido e Fundamentado na Dialética. Palmas, TO: Anais da IV Jornada de Iniciação Científica do CEULP-ULBRA, 2004, pp.511-513; SOARES, E., DIÓGENES, M. E. B. e PORTO JR, F. G. R. Por Mares Antes Nunca Navegados: O Diário de Bordo. Palmas, TO: Anais da IV Jornada de Iniciação Científica do CEULP-ULBRA, 2004, pp.382-383 e SOUZA, M. J. A. e PORTO JR, F. G. R. Navegando no Diário de Bordo: A Avaliação da Aprendizagem e a Auto-Avaliação em Questão. Palmas, TO: Anais da IV Jornada de Iniciação Científica do CEULP-

ULBRA, 2004, pp.505-507.

5 ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2000.

6 Referimos-nos aqui aos vários ‘tempos’ – o escolar, o biológico, o epistemológico, o histórico, etc. Um excelente texto que discute a origem e desenvolvimento da temática do tempo está em HARTOG, François. Os Antigos, O Passado e O Presente. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 2003.

que, se por um lado, permearam seu passado como aluno produzindo efeitos em sua condição de sujeito-aprendiz, por outro, possivelmente podem vir a permear e/ou integrar sua prática docente.

A arqueologia dos processos pedagógicos, insere-se portanto numa concepção que

leva em conta a dimensão histórica do sujeito-professor e das relações do seu processo de

formação. Quando os professores iniciam sua carreira, não estão fazendo a sua estréia no mundo escolar e muito menos inaugurando a sala de aula. Estes possuem uma formação adquirida “ambientalmente” que lhes permitem construir teorias “implícitas” acerca do processo pedagógico em sua sala de aula que, de certo modo, determinam suas opções teórico-metodológicas.

O registro deste material histórico-pessoal é riquíssimo no sentido do processo de

construção e (re)construção de sua identidade como professor. Propõe-se para tanto, ir fundo nesta recuperação e leitura, uma leitura a ser clareada por conhecimentos advindos do saber filosófico-sociológico e educacional. Para tanto, as discussões realizadas em torno das teorias da sociedade darão o arcabouço teórico necessário para compreensão de possíveis elementos constitutivos da identidade docente. ( )

Ao pensarmos na construção/reconstrução desse percurso, uma espiral poderia bem representar ‘visualmente’ essa memória, sendo uma etapa superior a outra em grau de aprofundamento e experimentação do ato pedagógico:

6 5 4 3 2 1
6
5
4
3
2
1

Sendo que na base (item 1) você tem seu ingresso na vida escolar – no instituinte 7 – seja na pré-escola ou creche (ambientes formais ou não formais); no item 2, você teria a conquista das primeiras letras e palavras, isto é, seu processo de aquisição do letramento e alfabetização 8 ; no item 3, fase seguinte do processo de escolarização, você teria as primeiras experiências escolares no Ensino Fundamental (antigo 1º grau); no item 4, você experimentou o processo de ensino e aprendizagem no Ensino Médio (antigo 2º grau) e a sua opção por um curso universitário; no item 5, o ingresso na Universidade, a construção do ser ‘universitário’, ‘licenciado’ ou ‘bacharel’; e o item 6, o retorno a escola no papel de professor e/ou suas percepções como futuro professor.

Exercitando o memorial Neste sentido, propomos que percorra cada etapa da espiral, detendo-se inicialmente em sensações visuais relacionados ao espaço físico da escola e da sua sala de aula, professores e colegas. Concentre-se depois em episódios e sensações significativas ligadas a esse ambiente. Vá fazendo anotações pontuais.

7 Para lembrar Cornelius Castoriadis em seu livro A instituição imaginária da Sociedade. Uma análise da obra de Castoriadis, principalmente com respeito às categorias ‘instituição e autonomia’ está em CÓRDOVA, Rogério de Andrade.

Instituição, Educação e Autonomia na obra de Cornelius Castoriadis. Brasília: Editora Plano, 2004.
8

Uma sugestão de leitura sobre os diversos ‘sentidos’ atribuídos à alfabetização na história da educação brasileira está em MORTATTI, Maria do Rosário Longo. Os Sentidos da Alfabetização. São Paulo: Editora da UNESP / COMPED/INEP, 2000.

É

possível

que

inicialmente

você

recorde

apenas

pinceladas

deste

processo,

incluindo fatos e nuances afetivas marcantes, tais como;

 
 

O professor de que, mais ou menos, gostou;

 

As disciplinas com que mais simpatizou ou aquelas em que sentiu grande dificuldade;

Os conteúdos aprendidos fácil e prazerosamente ou com sofrimento;

As atividades nas quais nem sentia o tempo passar e outras monótonas e intermináveis.

Então na medida em que a arqueologia do seu processo escolar for se aprofundando, procure identificar de forma mais sistemática, em cada estágio da espiral, ou em alguns deles, determinados “ingredientes” deste processo:

 

Que você aprendeu (que tipos de conteúdos, os mais ou menos interessantes, etc )

Como esses conteúdos foram ensinados/aprendidos (metodologia)

As relações professor-aluno e o clima vivido em sala de aula (comunicação, estilos e posturas dos professores que marcaram positivamente/negativamente)

Como se processava a avaliação (modalidade/freqüência)

 

Como se sentia na “pele” de aluno (alegria, medos, regras, cobranças, etc )

Relação família-escola-sociedade (como sua família se envolvia ou não com as questões da escola)

Após a identificação e o relato comentado dos aspectos indicados, sugerimos que, tentando distanciar-se um pouco da situação de sujeito do processo, tente analisar seu discurso, problematizando alguns aspectos essenciais do relato, trazendo-os para o presente, tais como:

 

Que produto sou eu dessa interação de tantos anos com tantos modos de ensinar?

Que relação existe entre o que me foi ensinado e como me foi ensinado e os meus procedimentos e posturas em sala de aula?

Como é que, depois de tudo o que vivi durante o processo de minha formação, tornei-me e/ou pretendo tornar-me professor?

Como percebo e vivencio hoje os papéis do professor e do aluno a partir das experiências escolares anteriores?

Uma pergunta comum a quem escreve, centra-se no método. Qual e como utilizar? Para facilitar o processo de escrita, sugiro a utilização da Metodologia Estudo de Caso desenvolvido pela Harvard Bussiness School e adaptado pelo SEBRAE 9 que, entre outras coisas, aponta como necessário na construção do ‘caso’, para nós, memorial:

 

a) Introdução: onde se identifica o(s) protagonista(s), o período da abrangência e as incertezas e/ou problemáticas envolvidas na construção de um memorial.

b) Antecedentes: nessa parte você apontará sua construção arqueológica da recordação, apontando condicionantes e fatores que contribuíram para a formação de professor, através do vivenciado.

c) Desenvolvimento: nessa parte você relacionará o vivenciado com as teorias da sociedade e currículo que discutimos durante o curso. Lembre- se que outro (no caso o professor) estará lendo sua produção e, principalmente nessa parte, as argumentações deverão estar bem claras.

d) Conclusão: essa é a parte final do seu memorial (na estrutura da metodologia caso). Aqui você deverá tecer suas considerações finais e, realizar o esforço de entender ‘como’ e por que você tornou-se ou está tornando-se professor.

Lembre-se que o objetivo é estruturar e analisar a luz das teorias da sociedade e do currículo a sua vivência como parte da prática pedagógica. Não se preocupe tanto em errar, já que ele está presente na formação do conhecimento e, com ele crescemos 10 .

Não existe limite de laudas para o seu texto. Lembre-se que pode pesquisar e/ou anexar imagens (fotos, filmes) da sua trajetória que ajudem a reviver.

9 O Guia Passo a Passo da Metodologia para o Desenvolvimento dos Casos de Sucesso do SEBRAE/2003 está disponível no site www.sebrae.com.br no link “casos de sucesso”. 10 TRINDADE, Vitor Manuel. O Papel do Erro na Formação do Conhecimento em Educação: Algumas reflexões. In:

LINHARES, Célia, FAZENDA, Ivani e TRINDADE, Vitor. Os Lugares dos Sujeitos na Pesquisa Educacional. Campo Grande, MS: Ed. UFMS, 1999, p.53-57.

Objetivo Unidade 05 O Ambiente Carcerário e a busca por Re ssocialização • Discutir o

Objetivo

Unidade 05

O Ambiente Carcerário e a busca por Ressocialização

Discutir o papel da educação no âmbito do sistema carcerário como elemento Fundamental para a ressocialização dos apenados.

Há uma grande crise no sistema penitenciário brasileiro - medida pelo alto índice de

reincidência criminal, pela superlotação e pelo tratamento desumano dispensado à pessoa presa,

conseqüência das deficiências da vida carcerária a que os presos estão submetidos.

Representadas, principalmente, pela ociosidade, considerada elemento agravante do

desenvolvimento de planos criminosos que visam atingir à sociedade. Daí porque a violência

tornou-se um dos grandes problemas que hoje desafiam a sociedade moderna, que por sua vez

busca defender-se, além desta, dos surtos originados também em seu próprio meio.

As prisões, atualmente, não recuperam. Sua situação é tão degradante que são

rotuladas com expressões como sucursais do inferno, universidades do crime e depósitos de

seres humanos. O encarceramento puro e simples não apresenta condições para a harmônica

integração social do condenado, como preconizada na Lei de Execução Penal. Punir, encarcerar

e vigiar não bastam. É necessário que se conceda à pessoa de quem o Estado e a sociedade

retiraram o direito à liberdade o acesso a meios e formas de sobrevivência que lhe proporcionem

as condições de que precisa para reabilitar-se moral e socialmente.

Define-se a pena de prisão como sendo um recolhimento temporário suficiente ao preparo

do indivíduo para o retorno ao convívio social. Neste sentido é que a Lei Penal prevê o

desenvolvimento de condições para que, separado da família, dos amigos e de outras relações

socialmente significativas, o preso possa refletir sobre o ato criminoso e corrigir o desvio de seu

curso.

Contudo, na prisão, o preso deve sofrer mais que o castigo definido pela justiça para

pagar pelo crime cometido, esquece-se que o confinamento é a punição máxima que um

indivíduo pode ter. O tratamento dispensado à pessoa presa é sempre punitivo e de concessão,

são anuladas a capacidade de iniciativa, a estima e o pouco que resta de valores morais e éticos.

Nas prisões, a (re)educação é fundamental. Importantíssimo é o papel da educação na

ressocialização dos presos, pois a educação tem a função de ajudar a pessoa a ter outra visão de

mundo, ver que é possível buscar outras formas de inserção na sociedade. A educação também

abre portas, as pessoas que não têm acesso à educação, significativamente, têm muito mais

dificuldades no acesso ao mercado de trabalho.

Lidar com indivíduos encarcerados implica, muitas vezes, lidar com pessoas movidas pela

revolta e pela vingança, pois a perda, seja ela de qualquer natureza, por si só constitui um fato de

difícil aceitação,por isso o processo educativo faz-se necessário, numa sociedade formada por

diferentes culturas e forte crença religiosa, a fim de buscar a melhoria da pessoa presa, para que

ela retorne diferente ao convívio social.

Sessenta anos atrás, eu sabia tudo. Hoje sei que nada sei. A educação é a descoberta progressiva da nossa ignorância. Will Durant

Nesse espaço, o trabalho educacional implica metodologias diferenciadas, já que o

conceito de educação vai além da instrução escolar sistematizada e a clientela apresenta uma

estrutura emocional e moral danificada, pelos sentimentos de revolta, de injustiça.

O primeiro contato da pessoa presa com a educação normalmente não resulta da vontade

de estudar. Na realidade, suas ações giram em torno da busca de liberdade. Este é seu objetivo

imediato. Ela busca, na realidade, um contato com o mundo exterior. Quer ser notado pelos

agentes de custódia, quer ser visível. Por outro lado, a educação é a única forma pela qual o

preso tem contato com o mundo exterior. Esse contato se dá por meio dos professores, visitantes

e autoridades. Ele está sempre em busca de alguém que o ajude a sair do cárcere.

É complexo esse trabalho, mas a educação pode contribuir para as pessoas se

desenvolverem e buscar alternativas para a sua reinserção na sociedade. O desenvolvimento de

atividades durante o encarceramento, que ocupe de forma construtiva o tempo ocioso do detento,

permite criar condições de reformular sua visão de sociedade, trazendo-lhe esperança de

terminar mais cedo seu confinamento e melhorar sua vida carcerária promovendo sua reinserção

social.

“Fácil é julgar pessoas que estão sendo expostas pelas circunstâncias. Difícil é encontrar e refletir sobre os seus erros,

49

Atividades

ou tentar fazer diferente algo que já fez muito errado.” (Carlos Drummond de Andrade)

Professores, professoras e agentes prisionais como vocês construíram seus

conhecimentos no estudo dessa temática? Vamos ver o que conseguimos aprender? Então

vamos lá, colocar em prática nossas reflexões é um exercício!

Lembre-se de nossa dinâmica de trabalho:

1º Momento: Construção coletiva

Vamos nos organizar em grupos de professores e agentes prisionais que

trabalham no mesmo segmento da EJA.

Cada grupo fará as anotações necessárias das discussões realizadas e das

possibilidades resultantes nas discussões.

Cada grupo sistematizará as observações em forma de um pequeno texto.

2º momento: Agora vamos aprender ainda mais com os outros!

Cada grupo apresentará para os colegas as observações sistematizadas,

tendo por base a teoria aprendida.

3° Momento: Relato de experiências.

Esse é um momento reservado ao relato de outras experiências que os

colegas professores e agentes prisionais já tenham vivenciado sobre a temática

discutida que contribuam para tornar a aprendizagem mais significativa.

Leia o poema abaixo:

Cidadania

É dever de povo.

Só é cidadão

Quem conquista o seu lugar

Na perseverante luta

Do sonho pela noção.

É também obrigação:

A de ajudar a construir

A claridão na consciência

De quem merece o poder.

Força gloriosa que faz

Um homem ser para outro homem

Caminho do mesmo chão,

Luz solidária e canção. (Mello, Thiago. Poemas preferidos, pelo autor e seus leitores Rio de Janeiro:

Bertrand Brasil, 2001, p.256)

1-

Após ler e refletir sobre o poema percebe-se a necessidade de o Estado considerar que o processo da construção da cidadania ocorre a partir de quatro bases. Indique essas bases.

2-

O processo de construção da cidadania a partir das quatro bases que você citou acima, tem como referência dois elementos fundamentais que são

a) Consideração dos outros e a participação efetiva dos indivíduos na relação Estado e educação.

b) Respeito aos outros e participação efetiva dos indivíduos na sociedade privada.

c) A neutralidade do estado diante das relações sociais; solidariedade para com os outros.

d) Diálogo, buscando saídas coletivas; a garantia dos direitos individuais para o cidadão.

3-

De acordo com o pensamento educacional de Paulo Freire, a educação busca esclarecer, libertar e emancipar o indivíduo, resultando em um processo que deve levá-lo a conhecer sua realidade concreta, possibilitando-lhe uma visão crítica em relação às suas reais condições de vida. Com base no texto, coloque V se as afirmativas forem verdadeiras e F se as afirmativas forem falsas.

( ) A educação como prática de liberdade deve ser capaz de levar o indivíduo a emancipar-se da opressão.

( ) Por meio de uma educação emancipatória, os homens devem refletir sobre o

mundo, transformando-o.

( ) A educação é definida pela liberdade e, para o sujeito chegar a essa liberdade, é

preciso que ele reflita sobre sua realidade concreta.

( ) A educação libertadora exigi do professor uma postura crítica diante dos alunos, mas não em relação ao mundo.

Educação uma possível solução

Conforme Aurélio (1986) define, educação é “o ato ou efeito de educar; processo de desenvolvimento da capacidade física, intelectual e moral da criança e do ser humano em geral, visando à sua melhor integração individual e social”. A educação é um processo social que se desenvolve como um sistema, através do qual se busca o ato de provocar ou produzir mudanças comportamentais naqueles indivíduos que se encontram nessas atividades.

Educar visa influenciar a aprendizagem de alguém, buscando a formação de indivíduos para uma sociedade. O ato educativo é um procedimento cuja intenção envolve o desenvolvimento de uma personalidade integrada, na qual o individuo é visto como uma totalidade, por isso é necessário incluir no seu processo os traços afetivos, os cognitivos e os volitivos.

O estudo em geral, a busca da verdade e da beleza são domínios em que nos é consentido ficar crianças toda a vida. Albert Einstein

De acordo com os Anais da Conferência Mundial sobre Ensino Superior (1998), a educação é um dos pilares fundamentais dos direitos humanos, da democracia, do desenvolvimento sustentável e da paz, e que deve ser acessível a todos no decorrer da vida.

Acredita-se que a educação tem o papel ressocializador, não como um fator secundário na remição dos presos, mas sim, como um instrumento poderoso no resgate da dignidade humana dessas pessoas.

O direito à educação nas Unidades Prisionais está previsto na Lei de Execução Penal, garantindo aos presos o acesso ao conhecimento, de modo a facilitar o retorno ao convívio social

e o acesso ao mercado de trabalho.

As ações de ressocialização seguem o princípio de que a educação é uma das bases da cidadania.

Os presos devem ter oportunidade de acesso ao conhecimento, transmitido de forma dinâmica e moderna, através de práticas pedagógicas construtivistas que utilizam métodos participativos em que são trabalhadas as individualidades. Faz-se necessário utilizar uma linguagem prática, incentivando a participação nos trabalhos individuais e em equipe com o apoio dos educadores.

Mais do que o aprendizado formal, os presos devem ser estimulados como cidadãos, desenvolvendo o espírito cooperativo e a auto-estima. Considerando, ainda, que o desempenho de atividade física (trabalho) ou mental (educação) na prisão é direito-dever do condenado, dada

a sua natureza pedagógica, é fator de incentivo, evita a ociosidade e inibe conflitos ‘intra muros’.

52

Fica patente a importância da educação para os detentos, nos nossos dias, dada a competitividade do mercado de trabalho, haja vista que, sem ter acesso à educação formal, dificilmente, alguém consegue emprego. E, não raro, condenados presos há anos saem da prisão sem saber ler ou escrever, sendo incerto o seu futuro e, provavelmente, retornam às penitenciárias.

Rios (2001, p.30) diz que para falar de educação enquanto fenômeno histórico e social, é preciso falar também sobre a cultura, na medida em que se pode afirmar que “educação é transmissão de cultura”. Cultura é um conceito chave a ser considerado ao se estabelecer a relação entre educação e sociedade; não há sociedade sem cultura e não se fala em cultura sem a referência a uma relação social. Pode ser conceituada por muitos como erudição, acúmulo de conhecimentos, atividade intelectual; diz-se que alguém “é muito culto” quando domina um certo tipo de saber privilegiado. Entretanto, o trabalho de alguns cientistas sociais e antropólogos contribuiu para dar ao conceito uma conotação mais precisa; “cultura, é na verdade, tudo o que resulta da interferência dos homens no mundo que os cerca e do qual fazem parte. Ela é a resposta humana à provocação da natureza e é ditada não por esta, mas pelo próprio homem. Cultura, para Di Giorgi, (1990, p.130) constitui-se no “ato pelo qual ele vai de homo sapiens a ser humano”.

Assim, todos os homens são cultos, na medida em que participam de algum modo da criação cultural, estabelecem certas normas para a sua ação, partilham valores e crenças. Tudo isso é resultado do trabalho. Por isso não se fala em cultura sem falar em trabalho, intervenção intencional e consciente dos homens na realidade, elemento distintivo do homem dos outros animais.

É fundamental chamar a atenção para isso caso se procure associar o conceito de cultura

ao conceito de saber e esse procura eliminar deste a significação inadequada de conhecimento refinado.

Educação e Prisão

A educação varia de um lugar para outro, de um tempo para outro, conforme os tipos de

sujeitos que cada sociedade deseja formar. Analisemos o que diz Paulo Freire:

“Enquanto categoria abstrata, instituição em si, portadora de uma natureza imutável da qual se diga é boa, é má, a escola não existe. Enquanto espaço social em que a educação formal, que não é toda educação, se dá, a escola na verdade não é, a escola está sendo historicamente. A compreensão do seu estar sendo,

porém, não pode ser lograda fora da compreensão de algo mais abrangente que ela – a sociedade mesma na qual se acha”.(1980.p.7)

Ao dizer que a escola “não é uma categoria abstrata”, Paulo Freire afirma que a escola, a educação tem de ser vista em relação estreita com a sociedade que faz parte. Ela será boa, se for capaz de cumprir os objetivos que essa sociedade espera dela, de realizar as funções forem atribuídas.

Dessa forma, a educação desde a alfabetização até o ensino médio no próprio ambiente prisional, deve ter como objetivo principal preparar esse ser humano para a vida livre.

Ao tomarmos conhecimento desse objetivo primeiro, é importante que a sala de aula seja o espaço privilegiado para trabalhar as atitudes, comportamentos e sentimentos para a construção de valores morais, éticos e de cidadania, com vistas aos convívios familiar, social e profissional, tanto na vida prisional quanto, no futuro, em sociedade livre.

Eduquem as

crianças e

não será

necessário

castigar os

homens

Pitágoras

Inicialmente o desinteresse pela educação é visível, pois a maior parte da população carcerária nunca freqüentou a escola ou tem baixa escolaridade. Mas fugindo da ociosidade chegam à sala de aula. O interesse pelos estudos cresce de forma lenta.

Nesse

processo,

o

papel

do

professor

é

imprescindível,

o

diálogo

aberto

estabelecendo relações afetivas fortalece o processo de ressocialização.

O professor proporcionando atividades que levam os presos a participar, pensar, agir e contornar as situações apresentadas pode levar esses alunos a interessarem por atividades educacionais.

Educação e Valores

Desde a idade moderna, quando Deus deixou de ser tanto o fundamento indiscutível das normas morais quanto o ponto de referência para as decisões morais do homem, a busca incessante de novas formas de legitimação tornou-se preocupação constante.

A preocupação ética tornou-se universal e está presente em todos os âmbitos da vida humana. Tal universalização deve-se ao próprio desenvolvimento da racionalidade moderna que, ao estabelecer uma relação intrínseca entre as dimensões teóricas (científicas) e as dimensões práticas (éticas), fez com que ambas sempre estejam presentes na própria matriz de qualquer conhecimento.

54

Há uma curiosa ambigüidade entre o discurso ético que se dissemina e ocupa todos os espaços e a efetiva importância que se dá à ética no campo prático. Embora educação e ética estejam relacionadas desde os primórdios de nossa civilização, esta discrepância entre a teoria e a prática também sempre foi muito nítida. Ao mesmo tempo em que todos reconhecem a importância da relação entre ética/moral e educação, tanto nas famílias, nas instituições sociais, na mídia e também na própria escola, o tratamento dispensado à ética denota antes menosprezo que apreço.

Nessa multicultural, fortalecida pelo curso da globalização e da mobilidade social, em que partilham espaço múltiplas visões de homem, de vida e de mundo, veio agravar ainda mais este desnorteamento da educação . Há tantas disparidades que a todo o momento nos encontramos à porta do relativismo. Não só as diferenças culturais de nível macro, como as existentes entre o primeiro e o terceiro mundos, mas também as de nível micro, existentes no interior das sociedades entre os vários grupos sociais, culturais e étnicos exigem formas diferenciadas de educação ética.

Para Kant, o homem é um ser inacabado que tem em si uma disposição para o bem, que precisa ser desenvolvida. Já que o mal aparece quando permitimos que a natureza se desenvolva desregradamente, a educação moral consiste no cuidado de encaminhar as disposições naturais para o bem, mediante regras. O processo educacional deve submeter a natureza humana a regras por meio da disciplinação, da cultivação, da civilização e da moralização.Esta função não pode ser cumprida pelo professor que transmite informações,mas pelo educador que educa para a vida. “O bom professor”, assim Annemarie Pieper resume o pensamento de Kant, “deve estar, ele mesmo, comprometido com a idéia de liberdade, a qual é ao mesmo tempo o objetivo de sua atividade educativa na medida em que almeja transformar o educando num cidadão esclarecido, maduro, autônomo, capaz de auto determinar-se e responder por seus atos” (2003, p. 143). A educação ética só pode realizar-se como a indicação de uma ‘capacidade’ cuja realização só é

possível a partir da liberdade de cada um.

Ensinar é

aprender

duas vezes.

Joseph

Joubert

A educação, não só os conteúdos os conteúdos que o educando vai assumindo ao longo do processo de aprendizagem que têm influência sobre sua formação moral, mas também o comportamento dos educadores que se encontra ao abrigo das categorias da moralidade. Estes dois aspectos – o conteúdo assimilado pelos educandos e as atitudes dos educadores – revelam tanto a mediatividade ética da pedagogia quanto a mediação moral da educação.

Dessa forma a educação deve ser compreendida como um modo de práxis social, na qual o educador deve ele próprio assumir compromissos políticos, colocando seu engajamento ao debate público para motivar os educandos a se engajarem também na luta pela melhoria das

condições sociais.

55

Do ponto de vista educacional, o professor deve levar os seus alunos a refletir sobre quais são os valores com os quais podem sentir-se comprometidos e responsáveis. A tarefa educativa fica reduzida ao estímulo da reflexão pessoal e do esclarecimento pessoal dos alunos. Cada indivíduo é responsável pela construção de sua própria vida e, no que se refere aos valores de ordem pública e social. Por isso é necesário apontar que atuar como uma pessoa moralmente adulta implica assumir a sua responsabilidade sem esperar dos demais respostas nem soluções para os próprios conflitos de valores.

Para essa prática é importante levar em consideração que o ser humano não é um ser moral por natureza, mas precisa ser educado para a moralidade. O comportamento do ser humano é egocêntrico, sempre visando às necessidades pessoais, buscando sempre a vantagem própria, instintos e desejos. Para neutralizar esse comportamento é imposta a exigência moral do reconhecimento em grau de igualdade, das necessidades dos outros seres humanos.

Durkheim afirma que moral não precede a realidade, mas deriva dela e a expressa, afirma que não se pode construir uma moral completa e impô-la à realidade, e sim, é preciso observar a matéria para dela inferir a moral. Dissociada dos fatos parece não relacionar-se a coisa alguma.

O mundo não é, o mundo está sendo. Paulo Freire

Ainda segundo Durkheim (2003.p.35), “a moral não é um sistema de regras abstratas que as pessoas trazem gravadas na consciência ou que são deduzidas pelo moralista no isolamento de sua sala. É uma função social, ou mais que isso, um sistema de funções formado e consolidado sob a pressão das necessidades coletivas.

O ser humano conflita-se no campo da moral por ter uma natureza ambivalente, tanto é

ser individual quanto social. Assim, o sujeito não é livre para tomar suas decisões de acordo com

a sua consciência. A consciência deve submeter-se às normas e valores vigentes na sociedade. Agir moralmente significa agir em conformidade com as normas estabelecidas em sociedade.

Conforme Durkheim (2003, p.24) “moral e direito são apenas hábitos coletivos, padrões constantes de ação que se tornam comuns a toda uma sociedade. Em outras palavras, são como

a cristalização do comportamento humano”. Dessa forma, a educação tem o papel de estimular a

reflexão pessoal sobre a própria vida, no que se refere aos valores de ordem pública e social. Mostrando que atuar como uma pessoa adulta é assumir a responsabilidade sem esperar dos

outras respostas ou soluções para os próprios conflitos de valores.

O valor não é algo estático que possa ser conhecido e depois conservado. Ele depende

das experiências e do processo de amadurecimento dos sujeitos, logo a formação moral é um

processo complexo que obriga diversos aspectos, desde a incorporação das convenções sociais até a formação da consciência moral autônoma. As formas de aquisição de tais requisitos incluem

a reflexão e as atitudes pessoais até os sentimentos e comportamentos que são estimulados pela educação.

56

A educação moral abrange a educação corporal, a educação intelectual, a educação

afetiva, a educação artística, é a orientação do ser humano como um todo.

O educador deve contribuir para formação de um sujeito consciente e autônomo, capaz

de decidir, de tomar atitudes que preservem tanto os interesses individuais quanto sociais,

possibilitando à pessoa pressa, através das atividades educacionais, a participação, pensar por

si só, respeitar o direito do outro, socializar-se.

Educação, o caminho para ressocialização

livre

é

"educar é libertar. Só quem é

opções"

capaz

de

fazer

(Amador Aguiar)

A prisão surgiu no fim do século XVIII com o objetivo de servir como punição, para

transformar os indivíduos enclausurados. Esperava-se que os presos refizessem suas existências

isolados da sociedade para depois serem levados de volta a ela, mas ledo engano, em sua

maioria os presos não se transformavam.

Segundo Foucault(1987), a prisão mostrou-se em sua realidade e em seus efeitos visíveis

como grande fracasso da prática penal. Constata-se que o indivíduo que deixa o cárcere, volta a

cometer crimes piores do que o anterior. Onde fica a recuperação social? Na penitenciária.

Estranhamente ao esperado, a prisão parece tornar o preso ainda mais nocivo ao convívio social.

A educação nos sistema penitenciário deve preocupar-se prioritariamente em desenvolver

a capacidade crítica e criadora do educando, capaz de alertá-lo para as possibilidades de

escolhas e a importância dessas escolhas para sua vida e consequentemente a do seu grupo

social. Instrumentalizar o educando para que ele firme compromisso de mudança com sua

história de mundo.

Onde há uma grande vontade de aprender, haverá necessariam ente muita discussão, muita escrita, muitas opiniões; pois as opiniões de homens bons são apenas conheciment o em bruto. John Milton

É através da educação que o preso amplia a consciência crítica, regata a auto-estima,

incentiva e possibilita o exercício pleno da cidadania. O tempo não pode parar no presídio, e para

que isso não aconteça, o tempo de estudos no cárcere deve ser validado, permitindo a

continuidade dos estudos em qualquer escola, após o cumprimento da pena.

Ressocializar é criar mecanismos e condições para que o indivíduo retorne ao convívio

social, para que possa reintegrar na vida profissional, ou seja possa viver uma vida normal.

A legislação brasileira assegura ao apenado tratamento humanizado e individualizado,

voltado a reinserir o indivíduo na sociedade através da educação, da profissionalização e

57

tratamento, mas na verdade, os Estados ainda não conseguiram criar mecanismos para cumprir essa legislação.

O contato com a sociedade é fundamental, portanto o indivíduo deve continuar tendo contato coma a família para não perder o vínculo com o mundo exterior. O estudo além de ser um direito assegurado, é uma ferramenta à ressocialização do detento. A educação na prisão viabiliza melhor formação profissional e uma melhor convivência social, tanto dentro quanto fora do presídio.

A auto- satisfação é inimiga do estudo. Se queremos realmente aprender alguma coisa, devemos começar por libertar-nos disso. Em relação a nós próprios devemos ser 'insaciáveis na aprendizage m' e em relação aos outros, 'insaciáveis no ensino'. Mao Tse- Tung

Educação e Reconstrução

A educação pode ser vista como mecanismo de reconstrução das relações sociais, quando produz mudança, uma mudança que não diz respeito apenas ao fato de o indivíduo subir na hierarquia social, mas na mudança de relações sociais mais amplas.

Assim, o trabalho do educador deve permitir a compreensão dos fatores gerais que caracterizam uma realidade social mais ampla. Para isso, o professor precisa preocupar-se com uma formação sólida do aluno, essa formação diz respeito tanto ao domínio de conteúdos específicos, quanto ao domínio dos processos de ordem econômica, social, política e cultural.

Sendo a sociedade o lugar de inserção social dos indivíduos, e para compreender os processos que se realizam nesse local e com os seres humanos, pode-se analisar a sociedade sob a perspectiva das classes sociais, como fez o Marx; da ação social como fez Weber; ou as solidariedade social como fez Durkheim. Já que a educação existe em todas as sociedades e é um meio de tornar os indivíduos membros da sociedade.

De acordo com as idéias de Marx, deparar-nos com uma visão totalizadora da realidade social, o que nos poderia oferecer a tentação de uma teoria capaz de dar conta das múltiplas complexidades do real.

Em Weber que esta discussão pode aprofundar-se em temas nos quais será preciso, a partir da superação do entendimento de que há somente uma visão possível da "verdade", perceber, dentro do registro da ciência social, a existência de pontos de partida baseados em diferentes valores, construindo diferentes discursos que, ainda que não passíveis de conciliação, demonstrem os pontos de aproximação e de afastamento por onde a realidade se constrói de forma mais problematizada. Portanto, Weber centra sua atenção na ação social, que é construída a partir do indivíduo.

Já a construção de Durkheim do primado do social, como realidade sui generis, de natureza diversa daquela natureza presente nas consciências individuais: a possibilidade de um

58

tal entendimento, de que o indivíduo se encontra frente a forças de coação exteriores a ele, pode ajudar a problematizar alguns aspectos presentes na discussão do tema proposto da construção "legítima" de políticas públicas.

Durkheim parte não dos indivíduos, mas da sociedade mesma como um ente sui generis, portadora de uma estrutura coercitiva capaz de exercer uma pressão coercitiva e modeladora sobre os homens, uma vez que a entende como exterior aos indivíduos. Vê na sociedade um instrumento de ordenamento das relações sociais, estabelecendo regras de uma conduta dos indivíduos na sociedade.

Assim Durkheim define fato social:

É um fato social toda maneira de agir, fixada ou não, suscetível de exercer sobre o indivíduo uma coerção

que é geral no conjunto de uma dada

sociedade tendo, ao mesmo tempo, uma existência própria, independente das suas manifestações individuais (Durkheim, 1978, pp. 92)

exterior

(

)

Durkheim Valoriza a solidariedade social a partir da racionalidade individual, obedecendo às normas corretamente definidas e capazes de prevenir estados de anomia como os determinados por um individualismo puramente utilitário, que enfraquece os laços sociais. Outra vez a idéia de finalidade se apresenta em Durkheim, como finalidade moralizante e aperfeiçoamento universal da sociedade, responsável pela manutenção e reprodução da sociedade

Esse modelo desperta no homem o gosto pela vida comunitária, e nessa perspectiva o professor, enquanto autoridade moral, cria nos adultos o sentimento de vinvulação e de pertença a sociedade.

A escola é um edifício com quatro paredes e o amanhã dentro dele. George Bernard Shaw

A contraposição de visões de mundo tão divergentes é importante para que, ao deparar- se com os problemas existentes na realidade social, possamos enfrentá-los com uma clareza que permita definir um caminho coerente, a partir de opções fundamentadas, cujas conseqüências sejam assumidas pelo sociólogo. Não é à toa que a temática clássica de indivíduo e sociedade ressurge a cada momento quando empreendemos este "olhar" sobre o real, e nossa estratégia deve ser suficientemente capaz de esclarecer e "compreender" os fenômenos que se nos apresentam.

59

Objetivo Unidade 06 Educação e cidadania • Refletir sobre noção de cidadania, e a conquista

Objetivo

Unidade 06

Educação e cidadania

Refletir sobre noção de cidadania, e a conquista de direitos está associada ao indivíduo sujeito a deveres, mas sobretudo detentor de direitos

A expressão “direitos humanos” é uma forma de mencionar os direitos fundamentais da

pessoa humana. Esses direitos são aquelas necessidades que são iguais para todos os seres

humanos e que devem ser atendidas para que a pessoa possa viver com a dignidade que deve

ser assegurada a todos os seres humanos.

A vida é essencial às pessoas humanas, mas também, são as necessidades

fundamentais: a alimentação, a saúde, a moradia, a educação, etc. Uma pessoa não vale mais

que a outra, ou não vale menos que a outra, pois todas tem as mesmas necessidades.

È claro que, quando se fala de igualdade de todos os seres humanos não se quer dizer

de igualdade física, em intelectual ou psicológica. Cada pessoa é única, tem sua individualidade,

sua personalidade, seu modo próprio de ver e de sentir as coisas.

A noção de cidadania, a conquista de direitos está associada ao indivíduo sujeito a

deveres, mas sobretudo detentor de direitos, é reivindicada para todos os indivíduo,

indistintamente a partir do século XVIII.

Ao final da Segunda Grande Guerra, foi necessário lembrar aos povos que todos os

homens são iguais e livres em dignidade. Hoje, através da educação difunde-se para todo o

mundo que os homens são iguais, têm os mesmos direitos, independente de estar livre ou não,

da classe social, do sexo, etc.

Não queremos com isso “defender os bandidos”, mas sim, mostrar que mesmo esses homens, que não cumpriram com seus deveres, t~em as mesmas necessidades daqueles cumpridores dos deveres.

Na

sociedade

atual

existe

uma

grande

contradição:

expressos por lei, e a efetivação desses direitos.

o

reconhecer

esses

direitos

A Declaração dos direitos humanos (1048) é um instrumento norteador da luta pelos

direitos do homem e da luta contra a opressão, assim os ideais de cidadania se constituíram com

base em demandas por aquilo que chamamos direitos civis: direito à vida, à liberdade, de ir e vir,,

à autonomia do pensamento; direitos políticos: votar e de ser votado, de expressar livremente

seus interesses, suas bandeiras políticas; direitos sociais: direito de participar da distribuição da riqueza produzida.

Aqui, no Brasil, no final do século XIX, a liberdade era tolhida, a grande parte da população era escrava, não gozava do direito à liberdade. Somente em 1988, foi respeitado o direito político, direito do voto. E falando em direitos sociais, até hoje são desrespeitados, pois a maioria da população brasileira vive abaixo da dignidade humana, sem nenhum direito social garantido.

Assim, não é difícil perceber que a Educação, em vez de direito, continua sendo um privilégio de alguns.

Aponta-se a educação como pré-requisito para se conquistar a cidadania. Entende-se que

a cidadania é uma conquista, e desde o século XVIII, a luta pela cidadania é uma constante e se nem todos atingiram o status de cidadão é porque as contradições da realidade não permitiram.

É preciso entender como se estruturam as relações de poder, sejam elas de poder

econômico, político, cultural e ideológico para identificar os fatores que têm impedido que a construção da cidadania aconteça.

Como afirma T.H.Marshall:

O direito à educação é um direito social de cidadania genuíno porque o objetivo da educação durante a infância é moldar o adulto em perspectiva. Basicamente, deveria ser considerada não como o direito da criança freqüentar à escola, mas como o direito do

) A educação

cidadão adulto ter sido educado. (

61

Acredito que

somente

uma pessoa

que nada

aprendeu

não modifica

suas

opiniões.

Emil Zatopek

é

(Marshall, 1967:73)

pré-requisito

necessário

da

liberdade

civil

Como já vimos, a educação é pré-requisito para se entender os fatores que impedem a construção da cidadania, então, por que não oportunizar ao preso a educação?

Já que segundo a lei 9.394/96 – LDB, em seu primeiro artigo diz que a educação acontece em outros espaços que não a escola. Desse modo, abrir espaço para levar a educação para o presídio é contribuir para a formação dos indivíduos, como forma de permitir a integração social e a construção da cidadania, desse ser humano marginalizado.

O importante da educação não é o conhecimento dos fatos, mas dos valores. Dean William Inge

Grades?! As grandes não prendem, não!

O que prende um homem é a falta de instrução,

conhecimento, ética, compreensão.

Ah educação! Ah educação!

Direito de todos os homens livre, os presos não? Como entender as contradições,

a proclamação da cidadania

e a falta da sua efetivação. Ah educação! Ah educação

Capaz de transformar o homem em cidadão,

a educação,

(Denise Sodré)

Conforme a temática abordada no poema, na realidade as grades, a cadeia, ou se querem a prisão não é capaz de isolar tanto o homem como negar-lhe o direito à educação. A construção de sua cidadania está presa à educação, ao saber crítico, ao desenvolvimento de habilidades essenciais para o convívio em sociedade que só através da educação o homem tem acesso.

62

Atividades

Professores, professoras e agentes prisionais como vocês construíram seus

conhecimentos no estudo dessa temática? Vamos ver o que conseguimos aprender? Então

vamos lá, colocar em prática nossas reflexões é um exercício!

Lembre-se de nossa dinâmica de trabalho:

1º Momento: Construção coletiva Vamos nos organizar em grupos de professores e agentes prisionais que trabalham no mesmo segmento da EJA. Cada grupo fará as anotações necessárias das discussões realizadas e das possibilidades resultantes nas discussões. Cada grupo sistematizará as observações em forma de um pequeno texto.

2º momento: Agora vamos aprender ainda mais com os outros! Cada grupo apresentará para os colegas as observações sistematizadas, tendo por base a teoria aprendida.

3° Momento: Relato de experiências. Esse é um momento reservado ao relato de outras experiências que os colegas professores e agentes prisionais já tenham vivenciado sobre a temática discutida que contribuam para tornar a aprendizagem mais significativa.

Questões norteadoras:

1- Entender o que são direitos humanos e a luta pela cidadania é entender como se

estruturam as relações de poder econômico, político, cultural ou ideológico. Pensando em

direitos humanos e cidadania, analise as afirmativas e marque V (verdadeiro) e F (falso)

(

) A escola tem se revelado como lugar mais eficaz para a difusão dos direitos do cidadão.

(

) No Brasil, os direitos sociais não são respeitados, haja vista que milhões de brasileiros

vivem abaixo da linha da dignidade.

( ) A tarefa da educação é difundir que todos são iguais, têm direitos iguais, e que exercer a

cidadania é um direito de todos.

(

) A cidadania é dada, não é conquistada.

2-

Leia o 1º artigo da LDB.

“A educação abrange os processos formativos

que desenvolvem na vida familiar, na convivência

humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais.”

Analise o texto do artigo e comente em algumas linhas.

• Objetivo Apontar deliberada situações desafiadoras. o ensino e como no planejada Unidade 07 Educador,

Objetivo

Apontar

deliberada

situações desafiadoras.

o

ensino

e

como

no

planejada

Unidade 07

Educador, um ressocializador

uma

intervenção

processo

ensino

educacional/pedagógica,

criando

aprendizagem,

Os presos são homens, são cidadãos, que devem ser atendidos nas suas reais necessidades, esse deve ser o pensamento, desse homem ou dessa mulher que se prontifica a fazer esse trabalho, educar, ressocializar.

O educador precisa ter a postura de motivador, incentivador para despertar no

apenado a vontade de provar para as pessoas que podem ser úteis à sociedade e que a força humana existente nas prisões podem ser canalizadas para a construção de algo que possa contribuir para o processo interação e ressocialização.

O fato de o professor mostrar que acredita nos presos, ser humano capaz, eleva

a auto-estima, fazendo com que eles sintam-se valorizados por poderem opinar, sugerir,

falar e participar do processo.

É preciso proporcionar aos alunos condições de aprendizagem não só para o

trabalho em sala de aula, mas também, para que eles aprendam a ler criticamente o

mundo social.

A educação consiste em um processo que se faz no contato do homem com o

mundo, e o dialogo é a base para superar qualquer relação vertical entre educador e educando.

Diante disso, o processo do conhecimento não pode ser um ato de “doação”, do educador, mas sim, uma comunicação produtiva e dialogada entre ambos.

Esse homem ou mulher que está à frente da sala de aula no presídio, pode contribuir para o processo de construção da cidadania social, pode contribuir para a construção de um ser humano melhor.

Essa reflexão aponta para a necessidade de um educador como fator de transformação social, e como prática de liberdade, emancipação, sempre tendo como referência a relação educador/sociedade.

O ensino é uma intervenção educacional/pedagógica, deliberada e planejada no processo ensino aprendizagem, criando situações desafiadoras e propondo problemas que estimulem e orientem os alunos na construção e reconstrução de conhecimentos.

Não se pode ensinar nada a um homem. Pode-se apenas ajudá-lo a encontrar a resposta dentro dele mesmo. Galileu Galilei

No dia-a-dia do professor, cada situação de ensino aprendizagem é única, e não há “receitas”. O trabalho deve ser pensado em relação á totalidade do ser humano, além de ensinar conteúdos, o professor tem que interagir com os alunos na perspectiva de ajudá-los a crescer em todos os aspectos, desenvolver valores, aprender buscar e aprender a avaliar informações e oportunidades de desenvolver seus potenciais, ajudá- los a vencer seus medos e ansiedades, tornando-os confiantes e seguros de suas possibilidades.

Outro fator importante para uma boa prática docente, é aceitar as diversidades dos alunos, valorizar e respeitar suas especificidades. O professor deve demonstrar competência, capacidade de tomar decisões e de agir diante de situações que nunca são inteiramente iguais a quaisquer outras.

Assim o educador deve apresentar a capacidade de improvisar e para isso é importante ter conhecimentos práticos, teóricos e experenciais, de modo agir de acordo com o contexto e tomar decisões certas às suas especificidades.

Atividade

Professores, professoras e agentes prisionais como vocês construíram seus conhecimentos no estudo dessa temática? Vamos ver o que conseguimos aprender? Então vamos lá, colocar em prática nossas reflexões é um exercício!

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Lembre-se de nossa dinâmica de trabalho:

1º Momento: Construção coletiva Vamos nos organizar em grupos de professores e agentes prisionais que trabalham no mesmo segmento da EJA. Cada grupo fará as anotações necessárias das discussões realizadas e das possibilidades resultantes nas discussões. Cada grupo sistematizará as observações em forma de um pequeno texto.

2º momento: Agora vamos aprender ainda mais com os outros! Cada grupo apresentará para os colegas as observações sistematizadas, tendo por base a teoria aprendida.

3° Momento: Relato de experiências. Esse é um momento reservado ao relato de outras experiências que os colegas professores e agentes prisionais já tenham vivenciado sobre a temática discutida que contribuam para tornar a aprendizagem mais significativa.

Questões norteadoras:

1- Leia o texto

Ensinar é aprender

“ Por que ensinar é mais difícil do que aprender?

A razão é porque aquele que ensina deve possuir uma maior soma de conhecimentos e

tê-los sempre a sua disposição. Ensinar é mais difícil do que aprender por significar “o fazer

aprender”.

Quem ensina de verdade, nada mais faz que aprender o próprio aprender. Por

isso mesmo, é que sua ação muitas vezes desperta a impressão de que junto dele propriamente

não se aprende nada.

(Heidegger, 1967:69)

Agora que você leu o texto, reflita e explicite as relações entre a ação docente e a reflexão no

processo de aprendizagem.

.

Estratégias Educacionais

Estratégias Educacionais O Teatro Há muito que a pedagogia se serve do teatro. Aristófanes já o

O Teatro

Há muito que a pedagogia se serve do teatro. Aristófanes já o fazia em 414 a.C. quando lançou As aves, peça com críticas ainda hoje atuais aos jovens e ao sistema educacional. Se tomarmos a Grécia como ponto de partida do desenvolvimento do teatro, encontraremos que, por ocasião da colheita das uvas, eram promovidas homenagens a Dionísio, deus do vinho, da fertilidade, da fonte da vida e do sexo. Durante os festejos anuais, formavam-se procissões e cortejos, ao som de canções improvisadas entoadas por jovens em giros dançantes. Surgem nessas manifestações os primeiros registros do uso coletivo do canto, da dança e da representação. Este é, para muitos, o berço do teatro que nasce como forma coletiva de arte, utilizando-se de várias linguagens.

O teatro, por sua forma de "fazer coletivo", possibilita o desenvolvimento pessoal não apenas no campo da educação não-formal, mas permite ampliar, entre outras coisas, o senso crítico e o exercício da cidadania. a utilização dos recursos da linguagem teatral possui alto poder de fixação de conceitos e grande teor lúdico e contribui para atrair o interesse e curiosidade dos alunos, criando um ambiente favorável à aprendizagem

Através do teatro, da representação, o preso tem a oportunidade de compreender e discutir sobre seus atos e as conseqüências deles, e ainda, por meio dessa arte pode expressar seus sentimentos.

Artes Plásticas

arte pode expressar seus sentimentos. Artes Plásticas A abordagem que orienta o trabalho é a da

A abordagem que orienta o trabalho é a da aprendizagem ativa, priorizando a descoberta, o lúdico, o compromisso com o trabalho e, sobretudo, ampliar o âmbito de relações da criança.

As artes plásticas são ferramentas importantes no processo educativo, pois despertam habilidades não conhecidas, e o preso tem oportunidade de expressar seu mundo, seu cotidiano, seus medos, seus sentimentos.

Nessas atividades o preso eleva a auto-estima e muitas vezes passam a produzir e comercializar seus quadros, o que pode garantir seu sustento após o cumprimento da pena.

Oficinas de leituras

As oficinas de leitura criam oportunidades para que todos descubram o prazer de ler. E que este prazer torne-se ferramenta no desenvolvimento pessoal de cada um. Aprimorando o desempenho da habilidade de comunicar-se, tanto com os outros como consigo mesmo. Desenvolvendo a postura crítica do indivíduo através de vivências que mostrem que as palavras são fontes inesgotáveis de informação, significados e emoções.

Através do livro, essa pessoa priva da liberdade, tornar-se-á livre vivendo as aventuras de Dom Quixote de La Mancha. Através das histórias de Cervantes, o leitor detento poderá realizar seus desejos mais íntimos e nobres.

Ou quem sabe, aprender com a história de Davi e Golias a enfrentar como a que está vivendo, com coragem, perseverança, resistência.

situações difíceis,

Pode-se disser que ler é

mergulhar

num mundo paralelo onde posso reencarnar os

meus heróis e com eles amar, sofrer, chorar, sorrir

Além de tudo, a informação é a base da cidadania, do desenvolvimento pessoal e da consciência universal e está cada vez mais ao alcance das pessoas. Mas até que ponto as pessoas sabem o que fazer com ela? Ler bem e entender o que se lê é a base da formação de qualquer cidadão com opiniões próprias e embasadas. É imprescindível que os indivíduos percebam seu papel dentro de suas comunidades, e o livro pode abrir esse espaço de compreensão.

Estudo dirigido

O estudo dirigido destina-se à assimilação de conteúdos. O professor deve selecionar um bom texto sobre o tema abordado. Os textos são entregues aos alunos que inicialmente, realizam um estudo individual, registrando suas dúvidas e os pontos que consideram mais relevante.

As perguntas do professor são elaboradas de tal maneira que ao mesmo tempo estimulam a compreensão do conteúdo pelo aluno e ajudam a desenvolver suas habilidades intelectuais como as capacidades de aplicação, de análise e síntese.

Num segundo momento, os alunos se reúnem em pequenos grupos para debater as questões mais polêmicas, avaliar o texto, bem como o trabalho realizado, enquanto são desenvolvidas, também, habilidades de comunicação e de argumentação e atitudes e habilidades de cunho social.

Atividades

Professores, professoras e agentes prisionais como vocês construíram seus

conhecimentos no estudo dessa temática? Vamos ver o que conseguimos aprender? Então

vamos lá, colocar em prática nossas reflexões é um exercício!

Lembre-se de nossa dinâmica de trabalho:

1º Momento: Construção coletiva Vamos nos organizar em grupos de professores e agentes prisionais que trabalham no mesmo segmento da EJA. Cada grupo fará as anotações necessárias das discussões realizadas e das possibilidades resultantes nas discussões. Cada grupo sistematizará as observações em forma de um pequeno texto.

2º momento: Agora vamos aprender ainda mais com os outros! Cada grupo apresentará para os colegas as observações sistematizadas, tendo por base a teoria aprendida.

3° Momento: Relato de experiências. Esse é um momento reservado ao relato de outras experiências que os colegas professores e agentes prisionais já tenham vivenciado sobre a temática discutida que contribuam para tornar a aprendizagem mais significativa.

Questões norteadoras:

1-

Leia o texto abaixo.

O

pensar a partir dos problemas é uma atividade de reflexão e mediante essa atividade, situamos

o ser humano no mundo e o compreendemos nesse lugar incomodo da dúvida.

Agora que leu, faça uma reflexão e escreva um pequeno texto sobre a prática do docente no

ambiente prisional, pautando-se de atividades a partir dos problemas que são apresentados.

2-Leia o poema de Bertold Brecht.

Nunca digam – isso é natural

Diante dos acontecimentos de cada dia,

Numa época em que corre o sangue

Em que o arbitrário tem força de lei,

Em que a humanidade se desumaniza.

Não digam nunca: Isso é natural

A fim de que nada passe por imutável.

Conforme o autor, as modificações da realidade, do mundo externo parecem estar provocando no interior das pessoas mudanças. Pensando nisso, e procurando entender o poema, coloque V para as afirmativas verdadeiras e F para as afirmativas falsas.

( ) Encarar algo como natural é uma maneira de nos conformarmos.

( ) Temos a tendência a considerar como natural e aceitarmos o que é corriqueiro em nossa cultura.

(

) Não há nada indiscutível, suspeitrar, indagar, ou criticar não é desconsiderar.

(

) A inquietude é uma virtude, devemos conformar com o que é apresentado no dia-a-dia.

3-Leia o trecho da letra da música de Wagner Tiso e Milton Nascimento para responder a questão.

Já podaram seus momentos Desviaram seu destino Seu sorriso de menino Quantas vezes se escondeu Mas renova-se a esperança Nova aurora a cada dia E há que se cuidar do broto Pra que a vida nos dê flor e fruto.

Comente em algumas linhas o que o professor deve trabalhar, como deve ser sua postura com esse aluno preso (aprendiz) para que ele seja capaz, através dos conhecimentos adquiridos, transformar de forma real o seu mundo intra-muros e extra-muros.

Objetivo Unidade 08 O Trabalho • Compreender o trabalho como valor social e que confere

Objetivo

Unidade 08

O Trabalho

Compreender o trabalho como valor social e que confere dignidade Ao ser humano em todas as situações concretas da sua existência

Etimologicamente falando, trabalho vem do latim vulgar tripalium, que era um instrumento formado por três paus aguçados, com o qual os agricultores batiam o trigo, as espigas de milho, o linho, para rasgá-los, enfiá-los, etc. Na maioria dos dicionários modernos, no entanto, a palavra tripalium (três paus) é atribuída a um instrumento de tortura utilizado pelos romanos a fim de subjulgar os cristãos.

O trabalho é um fazer do homem. Só o homem trabalha, de todas as espécies animais. Porém, por outro lado, alguns povos da Antigüidade tinham o trabalho como algo impuro, indigno e desprezível. O trabalho não era uma atividade digna do homem livre. Cabia aos escravos as tarefas diárias, ou melhor, o trabalho.

A sociedade era dividida em animal laborans e o animal rationale. Acreditava-se, na época, que o animal laborans era, realmente, uma das espécies animais que viviam na Terra, na melhor das hipóteses a mais desenvolvida.

Progredindo na história, chegaremos à Idade Média, época essa em que o trabalho era visto como servidão. Onde os homens punham-se sob a proteção dos senhores da terra, prestando-lhes homenagens. È bom lembrar que a atividade produtiva era análoga às da

Antigüidade Grega ( ou Clássica ). O que diferenciava uma da outra é que, na Idade Média, o trabalho era visto como um bem. Árduo, mas um bem.

Através da Reforma Protestante, Calvino prega que o homem deve viver o cristianismo no mundo através de uma moral rígida de simplicidade, trabalho e honestidade, desse modo, o sucesso no trabalho e nos negócios deverá ser, através de uma nova ética religiosa do trabalho. O Calvinismo revoluciona à medida que associa sucesso e trabalho com a benção divina.

No século XVIII, o inglês Adam Smith, afirma que a riqueza não tinha origem no mercantilismo, mas do trabalho, e também afirmou que para o trabalhador ter um pensamento mais ágil era necessário investir na educação básica, o que contrária os interesses da nobreza e do clero.

E Chegamos assim, a percepção de Karl Marx que identifica o trabalho não só como fonte de todo valor, mas principalmente o seu caráter social.

história do Homem e sua relação com o Trabalho - a

concepção de trabalho sofre muitas transformações (social, política, religiosa, econômica, etc) através dos séculos, da mesma forma como o mundo sofre transformações de todas as ordens.

Nessa pequeno passeio pela

Trabalho como valor social

Trabalho hoje é encarado como valor social e projeção da personalidade humana, mas nem sempre foi assim, no passado era uma forma de punição. Somente pobres e escravos trabalhavam; os ricos dedicavam-se ao ócio.

O trabalho como valor social tem pouco tempo. Tal honra de cidadania adquire-se com a Revolução Francesa (1789). Foi, pois a burguesia, a sua vitória, que trouxe com ela o trabalho como valor social.

Já no século XVI, Lutero havia defendido o trabalho como valor social e se insurgido com o pouco valor social que lhe era atribuído. Mas é com a Revolução Francesa que será reabilitado o trabalho.

Voltaire, no Cândido, descore aquilo que serve à sua personagem, ao descobrir que é pelo trabalho que se alcança a felicidade, daí aquele final “é preciso cultivar o nosso jardim”. Mas Voltaire também diz “O trabalho afasta de nós três grandes males: o tédio, o vício, e a necessidade”. Sobre ele próprio e o seu trabalho dizia Voltaire que “o trabalho é muitas vezes fonte de prazer, lamento os que vivem acabrunhados ao peso do seu ócio”.

Daí para cá o trabalho nunca mais deixou de ser um valor. Ouve-se dizer a toda hora “ O rapaz é boa pessoa e muito trabalhador”. O fato de ser trabalhador valoriza o rapaz dá a ele a idoneidade necessária para participar das relações sociais.

Marx e os marxistas também sempre valorizaram o trabalho, elevando-o até valor absoluto.

O trabalho confere a dignidade ao ser humano, constituindo-se em equívoco vislumbrá-lo apenas em sua dimensão econômica, desumanizada. Até na questão do desenvolvimento de um país, o fator mais relevante, dentro de uma lógica humanística, é a qualidade de vida dos cidadãos e não apenas percentuais de crescimento e localização topográfica em lista numérica de países mais fortes economicamente.

Princípios do valor social do trabalho e da dignidade da pessoa humana

A Constituição Federal é um marco instrumental de mudança de paradigma social porque adota valores que norteiam toda a interpretação das leis e imprime ao aplicador do direito uma nova tônica. Esta tônica é voltada para a satisfação dos interesses garantidos nos preceitos constitucionais, conferindo-lhes o valor axiológico e pragmático concretos, de modo a favorecer que os direitos se efetivem.

No art. 1º da Constituição de 1988 (CF/88) encontramos a dignidade da pessoa humana e o valor social do trabalho como fundamentos de construção da sociedade brasileira, concebida inserta no Estado Democrático de Direito. O trabalho é compreendido como instrumento de realização e efetivação da justiça social, porque age distribuindo

A qualidade intrínseca e distintiva de cada ser humano que o faz merecedor do mesmo respeito e consideração por parte do Estado e da comunidade, implicando, neste sentido, um complexo de direitos e deveres fundamentais que assegurem à pessoa tanto contra todo e qualquer ato de cunho degradante e desumano, como venham a lhe garantir as condições existenciais mínimas para uma vida saudável, além de propiciar e promover sua participação ativa e co-responsável nos destinos da própria existência e da vida em comunhão com os demais seres humanos.

O Trabalho, Produção que Liberta

Hoje, a nova ameaça do Homem é, de novo o trabalho, ou melhor, a falta dele. Com a globalização o mundo não tem mais fronteiras e os processos de trabalho estão em franca fase de mudança e reconceituação.

É quase impossível imaginar a vida sem o exercício constante do aperfeiçoamento

emocional e intelectual que o trabalho proporciona aos indivíduos.

O trabalho é um instrumento de crescimento, permite ao homem sonhar, desejar, ter

idéias. Sendo assim, pode-se afirmar que o trabalho permite a efetivação da liberdade de ação e pensamento, é através do trabalho que o homem se torna livre.

Através do trabalho nos tornamos seres sociais na medida em que aprendemos estabelecer relações com pessoas diferentes, de origens diversas, com costumes e histórias variados, que possibilitam o nosso crescimento intelectual e a solidificação do caráter. Logo o exercício do trabalho é fundamental na vida de qualquer ser humano.

É o trabalho que faz os homens saberem; é ele que faz os homens serem. Ele é, na

verdade, a essência do homem. E a idéia de trabalho não se separa da idéia de sociedade na medida em que é com os outros que o homem trabalha e que cria a cultura. Quando o indivíduo produz algo, tanto intelectualmente quanto manualmente, aumenta a sua auto-estima, pois ele ocupa a mente dele e executa algum tipo de atividade que o faz pensar e produzir algo para si e também para as outras pessoas.

Para Foucault (2004), o trabalho dentro dos presídios não objetivava profissionalizar o indivíduo, mas sim ensinar a virtude do trabalho. Não se preocupava em reeducar o delinqüente, e sim agrupá-los e utilizá-los como instrumentos econômicos ou políticos.

O trabalho nas penitenciárias inicialmente propunha-se mais a proteção social e à

vingança pública, por isso os prisioneiros eram remetidos aos trabalhos penosos e insalubres.

Nos dias atuais, descartado o trabalho penitenciário como pena, tem-se o trabalho como eficaz ferramenta para a reinserção social. Segundo Falconi (1998, p.71) o hábito do trabalho traz novas perspectivas e expectativas para o preso, que pode visualizar uma nova forma de relacionamento com a sociedade.

Se o trabalho tem na vida dos indivíduos um papel paradoxal, servindo aos olhos da sociedade para testar a idoneidade daquele que dele sobrevive, por que privar o detento de trabalho? Por que negá-lo essa ferramenta tão importante para a reintegração?

Falando-se especificamente de presidiários, é preferível que essas pessoas produzam e estudem a ficarem ociosos e aglutinados, sem perspectiva de melhoria em suas vidas. Uma pessoa com a mente ocupada em aprender algo, como por exemplo, escrever o seu nome, conhecer a história do Brasil e do mundo, raciocinar para resolver um problema de matemática, ler um bom livro e “viajar” para outros lugares do mundo, utilizando o livro como o instrumento

dessa viagem, e também, podendo trabalhar na produção de objetos, roupas, móveis e outros

utensílios, na plantação de alimentos e com esse trabalho ser remunerada, com certeza, não

pensará, naquele momento, em crimes, e sim conhecerá assuntos novos, raciocinará e adquirirá

novos conhecimentos os quais, muitas vezes, nunca pensou que existissem, e ainda tem a

possibilidade de ter uma remuneração, que futuramente os manterá no exercício da vida social

extramuro.

O trabalho é a aplicação da energia do homem para o bem da humanidade. O homem,

no trabalho, é capaz de modificar a própria natureza, colocando-a a serviço de todos nós.

Atividades

Professores, professoras e agentes prisionais como vocês construíram seus

conhecimentos no estudo dessa temática? Vamos ver o que conseguimos aprender? Então

vamos lá, colocar em prática nossas reflexões é um exercício!

Lembre-se de nossa dinâmica de trabalho:

1º Momento: Construção coletiva Vamos nos organizar em grupos de professores e agentes prisionais que trabalham no mesmo segmento da EJA. Cada grupo fará as anotações necessárias das discussões realizadas e das possibilidades resultantes nas discussões. Cada grupo sistematizará as observações em forma de um pequeno texto.

2º momento: Agora vamos aprender ainda mais com os outros! Cada grupo apresentará para os colegas as observações sistematizadas, tendo por base a teoria aprendida.

3° Momento: Relato de experiências. Esse é um momento reservado ao relato de outras experiências que os colegas professores e agentes prisionais já tenham vivenciado sobre a temática discutida que contribuam para tornar a aprendizagem mais significativa.

Questões norteadoras:

1-O trabalho é o principal fator de reajustamento social, nessa perspectiva o trabalho é

essencial ao preso. Em relação ao trabalho nas penitenciárias, são verdadeiras as

afirmativas:

I – O trabalho representa um dever social e condição de dignidade

humana, com finalidade educativa e produtiva, conforme definido na lei de

Execução penal.

II- O trabalho é uma forma de punição, uma forma de alienar e disciplinar

o apenado.

III- O trabalho é um caminho para a liberdade já que oportuniza ao preso

a reinserção social e no mercado de trabalho.

a) Apenas II

b) I e III

c) Apenas III

d) I e II

2- O trabalho nos torna seres sociais na medida em que, entramos em contato com outros indivíduos e, pouco a pouco, aprendemos a estabelecer relações com pessoas diferentes, com idéias e opiniões muitas vezes divergentes das nossas. Na perspectiva da vida prisional, qual a contribuição do trabalho como instrumento de ressocialização e reinserção social?

3- A idéia de que o trabalho dignifica o homem foi otimamente expressa por Gonzaguinha na música “Guerreiro Menino”, lançada por Fagner em 1983, pense e comente a importância do trabalho para o homem.

“Um homem se humilha/ Se castram seu sonho/ Seu sonho é sua vida/ E a vida é o trabalho/ Sem o seu trabalho/ Um homem não tem honra/ Sem a sua honra/ Se morre, se mata/ Não dá pra ser feliz.”-

O Trabalho e as Emoções

O ser humano é um ser que tem emoções; e, emoção refere-se a estados como alegria,

amor, orgulho, divertimento, que agradam; e estados desagradáveis, como a raiva, o ciúme, o

medo, aflição, vergonha, etc. As emoções permeiam toda a vida humana, em casa, nas ruas, nas

As emoções são um fenômeno humano tão

escolas, nas oficinas e também nas

importante que é estudado por quase todas as ciências. Sejam elas sociais ou não.

A emoção

tanto

pode

debilitadora. (Hebb, 1971: 200)

ser

construtiva

como

destrutiva;

tanto

fortalecedora

como

Todos estes estados possuem pontos em comum. Todos eles constituem estados de motivação e vigilância. Esses estados (que por sua vez geram comportamentos) produzem emoções que podem afetar gravemente os processos que controlam a conduta organizada. (Hebb, 1971: 201)

Para avaliar as emoções humanas, os psicólogos avaliam examinam um ou mais componentes: o elemento subjetivo (cognições, sensações), comportamento e/ou fisiologia. Os estudos de outros animais limitam-se à medida dos elementos comportamentais fisiológicos.

Não há como pensar em emoções misturadas, elas não estão apenas misturadas umas às outras; elas estão ligadas aos motivos, a partir do nascimento. O atendimento a uma necessidade, digamos fome, muitas vezes se associa a sentimentos específicos (felicidade e prazer, por exemplo). As emoções geram motivos e comportamento. A raiva, por exemplo, é acompanhada muitas vezes por um desejo de ferir. (Linda Davidoff, 1983: 438).

Satisfação no trabalho é um “sentimento agradável que resulta da percepção de que nosso trabalho realiza ou permite a realização de valores importantes relativos ao próprio trabalho”.

O trabalho tem o objetivo fazer com que as pessoas sentam-se mais úteis e importantes, bem como dá- lhes mais autonomia, responsabilidade e reconhecimento, e esse processo gera emoções , que por sua vez, geram comportamentos positivos.

Ao tirar o direito ao trabalho do homem afeta-se sua vida particular, de sua família, seu

relacionamento com outras pessoas, atitudes e crenças, pois o não-trabalho tira-lhe sua identidade, ou seja, tudo que diz respeito ao seu modo de viver e à s suas emoções.

Outro problema ocasionado pela ociosidade, que pode vir a modificar as atitudes do sujeito em relação ao convívio social é quanto ao clima organizacional no ambiente prisional, a abstinência ao trabalho gera pode atitudes negativas por parte do indivíduo, por não estar satisfeito com as normas, regras e políticas organizacionais exercidas.

Afetividade a Base das Relações

No mundo atual, os valores e regras que sustentam o equilíbrio do indivíduo na sociedade

são constantemente negados e violados, o que dificulta terrivelmente as relações sociais. Diante desse cenário, perguntamos como fica a afetividade? O que chamamos de afetividade?

Afetividade é

a capacidade, a

disposição do ser humano de ser afetado pelo mundo

externo/interno por sensações ligadas a tonalidades agradáveis ou desagradáveis.

A afetividade compreende o estado de ânimo ou humor, os sentimentos, as emoções e as paixões e reflete sempre a capacidade de experimentar sentimentos e emoções. A Afetividade é quem determina a atitude geral da pessoa diante de qualquer experiência vivencial, promove os impulsos motivadores e inibidores.

Desta forma, a Afetividade é quem confere o modo de relação do indivíduo à vida e será através da tonalidade de ânimo que a pessoa perceberá o mundo e a realidade. Direta ou indiretamente a Afetividade exerce profunda influência sobre o pensamento e sobre toda a conduta do indivíduo.

Assim, o estado psíquico global com que a pessoa se apresenta e vive reflete a sua Afetividade. Tal como as lentes dos óculos, os filtros da afetividade fazem com que o sol seja percebido com maior ou menor brilho, que a vida tenha perspectivas otimistas ou pessimistas, que o passado seja revivido como um fardo pesado ou, simplesmente, lembrado com suavidade. Interfere assim na realidade percebida por cada um de nós, mais precisamente, na representação que cada pessoa tem do mundo, de seu mundo.

Podemos pensar na Afetividade como o tônus energético capaz de impulsionar o indivíduo para a vida, como uma energia psíquica dirigida ao relacionamento do ser com sua vida e o humor necessário para conferir uma determinada valoração às vivências. A Afetividade colore com matizes variáveis todo relacionamento do sujeito com o objeto, faz com que os fatos sejam percebidos desta ou daquela maneira e que desperte este ou aquele sentimento.

Afetividade nos Contextos Psicológico e Educacional.

A indissociação entre pensar e sentir nos obriga a integrar nas explicações sobre o raciocínio humano as vertentes racional e emotiva dos conceitos e fatos construídos. Partimos da premissa de que no trabalho educativo cotidiano não existe uma aprendizagem meramente cognitiva ou racional, pois os alunos e as alunas não deixam os aspectos afetivos que compõem sua personalidade do lado de fora da sala de aula, quando estão interagindo com os objetos de conhecimento, ou não deixam "latentes" seus sentimentos, afetos e relações interpessoais enquanto pensam.

Jean Piaget (1896-1980), em um trabalho publicado a partir de um curso que ministrou na Universidade de Sorbonne (Paris) no ano acadêmico de 1953-54, "Les relations entre

l'intelligence et l'affectivité dans le développement de l'enfant", o autor nos advertiu sobre o fato de que, apesar de diferentes em sua natureza, a afetividade e a cognição são inseparáveis, indissociadas em todas as ações simbólicas e sensório-motoras. Ele postulou que toda ação e pensamento comportam um aspecto cognitivo, representado pelas estruturas mentais, e um aspecto afetivo, representado por uma energética, que é a afetividade.

De acordo com Piaget, não existem estados afetivos sem elementos cognitivos, assim como não existem comportamentos puramente cognitivos. Quando discute os papéis da assimilação e da acomodação cognitiva, afirma que esses processos da adaptação também possuem um lado afetivo: na assimilação, o aspecto afetivo é o interesse em assimilar o objeto ao self (o aspecto cognitivo é a compreensão); enquanto na acomodação a afetividade está presente no interesse pelo objeto novo (o aspecto cognitivo está no ajuste dos esquemas de pensamento ao fenômeno).

Nessa perspectiva, o papel da afetividade para Piaget é funcional na inteligência. Ela é a fonte de energia de que a cognição se utiliza para seu funcionamento. Ele explica esse processo por meio de uma metáfora, afirmando que “a afetividade seria como a gasolina, que ativa o motor de um carro mas não modifica sua estrutura”. Ou seja, existe uma relação intrínseca entre a gasolina e o motor (ou entre a afetividade e a cognição) porque o funcionamento do motor, comparado com as estruturas mentais, não é possível sem o combustível, que é a afetividade.

Na relação do sujeito com os objetos, com as pessoas e consigo mesmo, existe uma energia que direciona seu interesse para uma situação ou outra, e a essa fonte energética corresponde uma ação cognitiva que organiza o funcionamento mental. Dessa forma, as relações afetivas que despertam o interesse do ser humano para as coisas, as pessoas, que orienta seus atos. Portanto, todos os objetos de conhecimento são simultaneamente cognitivos e afetivos, e as pessoas, ao mesmo tempo que são objeto de conhecimento, são também de afeto.

Conforme as idéias de Piaget, a construção de valores são pertencentes à dimensão geral da afetividade no ser humano e, assim eles ssão construídos a partir de uma troca afetiva que o sujeito realiza com o exterior, com objetos ou pessoas. Eles surgem da projeção dos sentimentos sobre os objetos que, posteriormente, com as trocas interpessoais e a intelectualização dos sentimentos, vão sendo cognitivamente organizados, gerando o sistema de valores de cada sujeito. Os valores se originam, assim, do sistema de regulações energéticas que se estabelece entre o sujeito e o mundo externo (desde o nascimento), a partir de suas relações com os objetos, com as pessoas e consigo mesmo.

busca compreender as

emoções a partir da apreensão de suas funções, e atribuindo-lhes um papel central na evolução

da consciência de si. Em suas postulações concebe as emoções como um fenômeno psíquico e social, além de orgânico.

Henri Wallon (1879-1962), filósofo, médico e psicólogo francês,

Assim Piaget e Wallon mostra-nos, em seus escritos, compartilhar da idéia de que emoção e razão estão, intrinsecamente, conectadas (1986). Na perspectiva genética de Henri Wallon, inteligência e afetividade estão integradas: a evolução da afetividade depende das construções realizadas no plano da inteligência, assim como a evolução da inteligência depende das construções afetivas. No entanto, o autor admite que, ao longo do desenvolvimento humano, existem fases em que predominam o afetivo e fases em que predominam a inteligência.

Assim

Piaget e

Wallon mostra-nos, em seus escritos, compartilhar da idéia de que

emoção e razão estão, intrinsecamente, conectadas (1986).

Também comunga com as idéias de Piaget e Wallon, o neurologista Antônio R. Damásio, em sua notável obra O erro de Descartes (1996), postula a existência de uma forte interação entre a razão e as emoções, defendendo a idéia de que os sentimentos e as emoções são uma percepção direta de nossos estados corporais e constituem um elo essencial entre o corpo e a consciência.

Preocupado em articular as emoções com os processos cognitivos - "emoções bem direcionadas e bem situadas parecem constituir um sistema de apoio sem o qual o edifício da razão não pode operar a contento" -, Damásio rompe também com a idéia cartesiana de uma mente separada do corpo. Como ele mesmo apontou, talvez a famosa frase filosófica - Penso, logo existo- devesse ser substituída pela anti cartesiana - Existo e sinto, logo penso.

Diante disso podemos disser que, quando estamos felizes, preparamos nossas "cabeças" para analisarmos e compreendermos as necessidades e problemas dos demais, elaborando estratégias de ação mais solidárias e generosas. Os mesmos resultados nos indicam também que os estados emocionais influenciam nossos pensamentos e ações tanto quanto nossas capacidades cognitivas. Assim, ao sermos solicitados a resolver problemas, a forma como organizamos nosso raciocínio parece depender tanto dos aspectos cognitivos quanto dos aspectos afetivos presentes durante o funcionamento psíquico, sem que um seja mais importante que o outro.

O comportamento e os pensamentos humanos se sustentam naindissociação - de forma

dialética-,de emoções e pensamentos, de aspectos afetivos e cognitivos

meio social e cultural criamos sistemas organizados de pensamentos, sentimentos e ações que mantêm entre si um complexo entrelaçado de relações. Assim como a organização de nossos pensamentos influencia nossos sentimentos, o sentir também configura nossa forma de pensar. Assim, acreditamos que pensar e sentir são ações indissociáveis.

Nas interações com o

No cenário da educação: a busca por uma escola que ressocialize precisa ter em mente que: "Nenhum ser humano nunca nasceu com impulsos agressivos ou hostis e nenhum se tornou agressivo ou hostil sem aprendê-lo."

No campo da educação, os conteúdos relacionados à vida pessoal e à vida privada das pessoas podem ser introduzidos no trabalho educativo, perpassando os conteúdos de matemática, de língua, de ciências, etc. Dessa forma, o princípio proposto é de que tais conteúdos sejam trabalhados na forma de projetos que incorporem de maneira transversal e interdisciplinar os conteúdos tradicionais da escola e aqueles relacionados à dimensão afetiva.

Um bom caminho para a promoção de tal proposta é lançar mão do emprego de técnicas de resolução de conflitos no cotidiano das salas de aula, principalmente se os conflitos em questão apresentarem características éticas que solicitem aos sujeitos considerar ao mesmo tempo os aspectos cognitivos e afetivos que caracterizam os raciocínios humanos.

Para justificar tais princípios nos pautamos em idéias como as de Moreno (2000), especialmente quando afirma que: "os suicídios, os crimes e agressões não têm como causa a ignorância das matérias curriculares, mas estão freqüentemente associados a uma incapacidade de resolver os problemas interpessoais e sociais de uma maneira inteligente." A autora nos leva a refletir sobre o fato de que os conteúdos curriculares tradicionais servem - mesmo que não somente -, para "passar de ano", ingressar na universidade, mas parecem não nos auxiliar a enfrentar os males de nossa sociedade ou os conflitos de natureza ética que vivenciamos no cotidiano.

Montagu afirma que nenhum ser humano torna-se agressivo ou hostil sem aprendê-lo, temos de admitir que, se vivemos momentos de intensa violência, em algum momento da história, tal violência foi, por nós, construída, aprendida. As relações e os conflitos interpessoais do cotidiano, com os sentimentos, pensamentos e emoções que lhes são inerentes, exigem de nós autoconhecimento e um processo de aprendizagem para que possamos enfrentá-los adequadamente.

Os conflitos que acontecem continuamente em nossas vidas, em nossa sociedade devem ser transformados pelo educador em instrumentos valiosos na construção de um espaço autônomo de reflexão e ação, que permita aos alunos e alunas enfrentarem, autonomamente, a ampla e variada gama de conflitos pessoais e sociais.

Nesta perspectiva, consideramos, por um lado, que os sentimentos, as emoções e os valores devem ser encarados como objetos de conhecimento, posto que tomar consciência, expressar e controlar os próprios sentimentos talvez seja um dos aspectos mais difíceis na resolução de conflitos. Por outro lado, a educação da afetividade pode levar as pessoas a se

conhecerem e a compreenderem melhor suas próprias emoções e as das pessoas com quem interagem no dia a dia.

A proposta educacional para o ambiente prisional integra o aprender a somar, a conhecer a natureza e a se apropriar da escrita, e conhecer a si mesmos e a seus colegas, e as causas e conseqüências dos conflitos cotidianos. Trabalhando dessa maneira, por meio de situações que solicitem a resolução de conflitos, a educação atinge o duplo objetivo de preparar os seres humanos para a vida cotidiana, ao mesmo tempo que não fragmenta as dimensões cognitiva e afetiva no trabalho com as disciplinas curriculares.

Moreno (1998) afirma que

"Integrar o que amamos com o que pensamos é trabalhar, de uma só vez, razão e sentimentos; supõe elevar estes últimos à categoria de objetos de conhecimento, dando-lhes existência cognitiva, ampliando assim seu campo de ação."

Trabalhar pensamentos e sentimentos - dimensões estas indissociáveis - requer dos profissionais da educação a disponibilidade para se aventurarem por novos campos de conhecimento e da ciência.

Trabalhar a afetividade consiste em poder fazer com que o ser, jovem ou adulto receba de nós o contato físico, verbal, a relação de cuidados, mas isso também implicará conflitos, envolvendo amor e raiva.

Em qualquer espaço deve haver uma relação de afeto, pois é isso que ajudará a construir um ser humano psicologicamente saudável. O ato de cuidar é maravilhoso - é o sentimento que vai tornar o outro importante. A família e o professor, educadores que são, devem entender que têm uma missão: construir um ser humano, mesmo que não seja uma criança mais.

As emoções revelam-se como o elo entre o indivíduo e o ambiente físico, tanto quanto entre o indivíduo e outros indivíduos. Estes laços interindividuais iniciam nos primeiros dias de vida e se fortalecem a partir das emoções, antes mesmo do raciocínio e da intenção. No dia a dia, os educadores percebem a importância dos laços afetivos no processo de educação, e ressocialização.

Nessa fase de sua vida, apesar de todas as transformações ocorridas, ele, o aluno preso, precisa se reconhecer como ser importante, capaz de desenvolver valores e respeitá-los na sociedade, tendo direitos e respeitando dos direitos dos outros, ocupando espaço e respeitando o espaço do outro. Ser que conhece melhor suas possibilidades, suas limitações, seus pontos fortes, suas motivações, seus valores e sentimentos, o que cria a possibilidade de escolhas mais

adequadas nas diferentes situações de vida. Ser adulto significa ter desenvolvido uma consciência moral: reconhecer e assumir com clareza seus valores e dirigir suas decisões e escolhas de acordo com eles.

É essa definição de valores e compromissos com eles que marca o fim de uma fase

conturbada, cuja característica primordial foi a luta por essa definição. Com maior clareza de seus valores, o jovem ou adulto estará mais livre e com mais energias para voltar-se para o outro, para fora de si, em condições de acolher o outro solidariamente e a continuar a se desenvolver com ele. Esse é um indicador de amadurecimento: conseguir um equilíbrio entre "estar centrado em si"

e "estar centrado no outro", um equilíbrio nas direções para dentro — conhecimento de si — e para fora — conhecimento do mundo. Daí a importância do professor ter condições para o acolhimento do outro, de seus alunos .

Afetividade e aprendizagem

O prazer de aprender mobiliza positivamente nossa afetividade, enquanto a disciplina, em

si, nada tem de prazeroso. Assim, estamos sempre movidos pela “pulsão de saber”. Isso se aplica tanto as coisas cotidianas quanto as grandes descobertas da ciência. Portanto, pode-se afirmar que a curiosidade é amiga do saber, da aprendizagem.

Por isso, pode-se afirmar que a pulsão de saber é parte de nossa vida psíquica, sujeita à dinâmica do inconsciente, ela está enredada nas astúcias do desejo e da inventividade, assim está ligada aos sentimentos e emoções, o que escapa a lógica.

Portanto, a aventura do saber inclui, pois a chamadas rupturas epistemológicas, a quebra de paradigmas, as revoluções científicas. Ela é a fonte de prazer que3 envolve o corpo e a alma,

a imaginação e a sensibilidade do sujeito que busca um novo conhecimento.

Conquanto lidar com a afetividade desse aluno preso, não é apenas lidar com suas produções cognitivas racionais. Assim, para fazer com que aconteça o aprendizado não podemos buscar só o saber acadêmico, mas tudo que integra o cotidiano, o qual está esse aluno afetivamente e politicamente implicado.

Atividade

Professores, professoras e agentes prisionais como vocês construíram seus

conhecimentos no estudo dessa temática? Vamos ver o que conseguimos aprender? Então

vamos lá, colocar em prática nossas reflexões é um exercício!

Lembre-se de nossa dinâmica de trabalho:

1º Momento: Construção coletiva Vamos nos organizar em grupos de professores e agentes prisionais que trabalham no mesmo segmento da EJA. Cada grupo fará as anotações necessárias das discussões realizadas e das possibilidades resultantes nas discussões. Cada grupo sistematizará as observações em forma de um pequeno texto.

2º momento: Agora vamos aprender ainda mais com os outros! Cada grupo apresentará para os colegas as observações sistematizadas, tendo por base a teoria aprendida.

3° Momento: Relato de experiências. Esse é um momento reservado ao relato de outras experiências que os colegas professores e agentes prisionais já tenham vivenciado sobre a temática discutida que contribuam para tornar a aprendizagem mais significativa.

Questões norteadoras:

1- O emocional está presente mesmo quando tomamos decisões de forma inteligente e

racional.

Somos seres vivos, mentais, corporais, emocionais e não é possível dissociar esses

elementos quando falamos do ser humano.

Se na penitenciária, lidamos com presos, seres humanos, por que muitas vezes esquece-se

da afetividade? O que faz com que isso aconteça? Comente.

2- Você, como ser humano, tem sempre as mesmas reações? Não. Acho que sua resposta

foi esse não.

Sabemos que as fontes e instrumentos de conhecimentos são traiçoeiros. Dependendo de

se estar com medo ou confiante o mesmo objeto pode parecer temível ou não. Dependendo

da situação em que se está, as mesmas coisas podem ser irritantes para os que sofrem e

agradáveis para os que estão bem. Analisando esse ponto de vista, pode-se que todos têm reações distintas em momentos distintos. Pensando assim, como deve ser a relação da equipe que trabalha na prisão, com o apenado.

3- Vamos, agora, pensar na música de Chico Buarque, O que será que será?

O que será que será

Que andam suspirando pelas alcovas

Que andam sussurrando em versos e trovas Que andam combinando no breu das tocas Que anda nas cabeças, anda nas bocas Que andam acendendo velas nos becos Estão falando alto pelos botecos

E gritam nos mercados que com certeza Está na natureza Será que será

O

que não tem certeza nem nunca terá

O

que não tem conserto nem nunca terá

O

que não tem tamanho

O

que será que será

Que vive nas idéias desses amantes Que cantam os poetas mais delirantes Que juram os profetas embriagados Que está na romaria dos mutilados Que está na fantasia dos infelizes Está no dia-a-dia das meretrizes No plano dos bandidos dos desvalidos Em todos os sentidos, será que será

O

que não tem decência nem nunca terá

O

que não tem censura nem nunca terá

O

que não faz sentido

O

que será que será

Que todos os avisos não vão evitar Porque todos os risos vão desafiar Porque todos os sinos irão repicar

Porque todos os hinos irão consagrar

E

todos os meninos vão desembestar

E

todos os destinos irão se encontrar

E mesmo o padre eterno que nunca foi lá Olhando aquele inferno vai abençoar

O

que não tem governo nem nunca terá

O

que não tem vergonha nem nunca terá

O

que não tem juízo

Observe que a música lembra o impulso livre, as emoções, junta a ousadia e a criatividade. Aponta para essa “bomba” que são as relações afetivas do ser humano. Analise e comente em algumas linhas a letra da música, pensando nas relações afetivas e no seu papel de educador /ressocializador .

4-Faça um pequeno texto narrando uma experiência em que o desejo de saber e a curiosidade impulsionaram, prazerosamente e criativamente, uma atitude vivenciada no presídio.

Unidade 09 Ressocializador, o Agente Penitenciário Objetivo • Analisar que a reeducação é fundamental e

Unidade 09

Ressocializador, o Agente Penitenciário

Objetivo

Analisar que a reeducação é fundamental e para isso na penitenciária todos os envolvidos no processo precisam dispensar à pessoa presa um tratamento que não anule a capacidade de iniciativa, a estima e o pouco que resta dos valores morais e éticos.

A sociedade sofre ameaça e a insegurança cresce, quando a cadeia não cumpre seu objetivo de correção do apenado, correção moral e social.

Por isso, reeducação é fundamental e para isso na penitenciária todos os envolvidos no processo precisam dispensar à pessoa presa um tratamento que não anule a capacidade de iniciativa, a estima e o pouco que resta dos valores morais e éticos.

Sabemos que lidar com indivíduos encarcerados implica lidar com pessoas movidas pela revolta e pela vingança, por isso requer mais compreensão, mais condição de dignidade humana.

Dessa forma o agente penitenciário é um personagem importante no processo de ressocialização do preso, por isso precisa permanecer altivo, calmo e cumprir sua missão quando estiver diante de situações que não correspondem a sua expectativa.

Essencial é atentar para o fato de que atitudes construtivas e atitudes com ética classificam o agente penitenciário como agente social, capaz de colaborar com a sociedade na solução dos problemas de segurança.

Falando em ressocialização, depende-se de todos os envolvidos no processo para se ver resultado desse trabalho. Todos que convivem com o recluso face a face, precisam estar imbuídos de um sentimento de valor inestimável: a solidariedade.

Solidariedade, sentimento esse que faz um ser humano diferente, faz prestar socorro ao outro ser humano que precisa de apoio, amparo e do auxílio de outros, semelhantes ou não.

Assim, é preciso analisar, refletir sobre as palavras de Kahil Gibran, “ È belo dar quando solicitado; é mais belo, porém, dar por haver apenas compreendido”. O agente está ali, precisa compreender o outro, apesar de ter errado, de ter ferido as normas de uma sociedade, continua sendo um ser humano, merece ser compreendido.

Sendo o homem um ser social, só é capaz de produzir conhecimento a partir de seu contato com o mundo, mediado por outros homens num processo contínuo de ação-reflexão- ação.

O agente penitenciário ajudará o recluso a delinear perspectivas para resgatar sua identidade e reconstituição moral. Ele realiza um importante serviço público de alto risco, por salvaguardar a sociedade civil contribuindo através do tratamento penal, da vigilância e custódia da pessoa presa no sistema prisional durante a execução da pena de prisão, ou de medida de segurança, conforme determinada pelos instrumentos legais. Para exercer satisfatoriamente o seu trabalho é necessário que apresentem um perfil adequado para o efetivo exercício da função, pois um engajamento e um compromisso para com a instituição a que pertençam.

Deve ter atitudes estratégicas e criteriosas, para corroborar com mudanças no trato do homem preso, e realizá-las em um espírito de legalidade e ética. Ter a humildade de reconhecer a incapacidade a respeito dos meios capazes de transformar criminosos em não criminosos, visto que determinados condicionantes tendem a impedir essa metamorfose, parecendo provável que algumas delas favoreçam o aumento do grau de criminalidade das pessoas. (Thomphson, 1980)

O papel do agente está ligado a sua conduta, já que o ser humano deve ser considerado em sua totalidade e não numa visão fragmentada. E para isso, esse profissional deve ser capacitado e valorizado, a fim de exercer suas práticas profissionais visando a definição do seu papel no que se refere a melhorar a segurança pública, a vigiar e socializar. È imprescindível compreensão, a consciência de que sua função não se restringe apenas á segurança do homem preso, mas que exerce uma função social legítima e indispensável.

Faz-se necessário que o Agente Penitenciário reconheça as contradições inerentes à própria função; as possíveis orientações que variam conforme os pressupostos ideológicos de cada administração, pois, devem transcender a estas questões a fim de contribuir para a promoção da cidadania e assumir definitivamente como protagonista de seu papel de ordenador social.

Conforme Thompson(1980 p.40) descreve sobre o antagonismo em que vive o agente no seu dia-a-dia de trabalho com o preso, quando tem que tratá-lo como indivíduo único, mas contá-

lo, como um objeto; respeitá-lo como um ser dotado de prerrogativas inalienáveis, dentre as quais ressalta o direito a intimidade, porém revistar-lhe, frequentemente, o cubículo, remexer-lhe os objetos pessoais e vistoriar as roupas, inspecionado-o, até no mais íntimo do corpo; desconfiar dele e fechá-lo à chave.

Para o profissional que está mais próximo com apenado, é necessário as seguintes atitudes de condutas profissionais: aptidão que é uma disposição nata, um dom natural de lidar com as pessoas; honestidade, pois precisa ser parte exemplar da instituição e ter conduta impecável; conhecer com clareza ações próprias de seus direitos, deveres e prerrogativas; responsabilidade para apresentar-se com entendimento ético e determinação moral; iniciativa para ser capaz de propor ações e principiar conhecimentos; disciplina para observar os preceitos ou normas de forma natural; lealdade para com os seus compromissos e honesto com seus companheiros; equilíbrio emocional com ações comedidas e prudentes; autoridade que não tenha apenas direito ao poder, mas que tenha o encargo de respeitar as leis com competência indiscutível; liderança para conduzir o grupo; flexibilidade para estar sempre com destreza, bom senso a serviço do bem comum; empatia para colocar-se sempre no lugar do outro, antes de uma decisão importante; comunicabilidade para comunica-se de forma expressiva e franca; perseverança para ser firme e constante em suas ações e ideais.

O bom trabalho do agente depende de integração com a direção, podendo assim, manter a tranqüilidade no local de trabalho. O agente toma para si a responsabilidade de manter o preso dentro da penitenciária, garantir a ordem entre os presos e agentes, mas um problema que aparece para a execução desse trabalho é a falta de planejamento com a finalidade comum. Pode-se dizer que o trabalho é feito da melhor forma possível, mas sem a preocupação de indicar metas e objetivos a serem atingidos a médio e longo prazo.

As escolas penitenciárias apresentam uma grande preocupação em formar uma especificidade profissional para este agente, pretendendo subsidiar mais este profissional na busca de uma prática mais eficaz.

Nesse sentido, faz-se necessário o investimento efetivo no capital humano que desempenha suas funções diretamente com os presos, fazendo assim, uma incursão na trilha da ressocialização.

Como se observa, é preciso propiciar ao agente penitenciário, cursos de capacitação que

oriente para um melhor e mais eficaz atendimento ao homem preso, já que , é através do trabalho

desse profissional que convive com o apenado diariamente

que a ressocialização terá início.

Atividade

Professores, professoras e agentes prisionais como vocês construíram seus

conhecimentos no estudo dessa temática? Vamos ver o que conseguimos aprender? Então

vamos lá, colocar em prática nossas reflexões é um exercício!

Lembre-se de nossa dinâmica de trabalho:

1º Momento: Construção coletiva Vamos nos organizar em grupos de professores e agentes prisionais que trabalham no mesmo segmento da EJA. Cada grupo fará as anotações necessárias das discussões realizadas e das possibilidades resultantes nas discussões. Cada grupo sistematizará as observações em forma de um pequeno texto.

2º momento: Agora vamos aprender ainda mais com os outros! Cada grupo apresentará para os colegas as observações sistematizadas, tendo por base a teoria aprendida.

3° Momento: Relato de experiências. Esse é um momento reservado ao relato de outras experiências que os colegas professores e agentes prisionais já tenham vivenciado sobre a temática discutida que contribuam para tornar a aprendizagem mais significativa.

Questões norteadoras:

1- Em relação a função do agente penitenciário, são verdadeiras as afirmativas.

I - O agente penitenciário deve desenvolver com os apenados uma

comunicação aberta, propiciando situações favoráveis para manter a ordem no ambiente prisional.

II-

O agente penitenciário deve contribuir de forma significativa na reinserção do apenado, e que tampouco pode omitir-se quando se trata de oferecer contribuições, sejam elas através de críticas

ou sugestões para a resolução dos problemas inerentes ao cárcere.

III-

O trabalho do agente penitenciário restringe apenas á segurança do homem preso.

IV-

O agente penitenciário deve oferecer um eficaz atendimento ao apenado, buscando atribuir ao trabalho disciplinar, um caráter educativo.

a) I, II e IV

b) I, III e IV

c) Apenas II e III

d) Apenas IV e II

2- Podemos afirmar que em toda relação é importante que aja o sentimento de solidariedade, pois ela fortalece o elo entre as pessoas, a compreensão de compartilhar sem perdas. Há um provérbio chinês que diz: “Fica sempre um pouco de perfume nas mãos de quem oferece rosas”. Comente em algumas linhas o provérbio chinês, fazendo uma relação com o trabalho do agente penitenciário.

Objetivo Unidade 10 Psicologia da Aprendizagem no Sistema Prisional • Pensar as relações existentes na

Objetivo

Unidade 10

Psicologia da Aprendizagem no Sistema Prisional

Pensar as relações existentes na perspectiva de alteridade dentro do Sistema prisional.

Imagine-se perdido em um deserto. Desespero? Impossível sobreviver? É, mas longe dessa ficção, no real isso acontece. Pense em pessoas esquecidas pela família, pelos amigos, pelo poder público, sem laços de convivência, sentindo-se sem proteção, abandonadas. Esse estado de exclusão acontece com muitas pessoas no presídio, independente de sua classe social, de sua escolarização ou mesmo de sua idade.

Vamos falar dessas pessoas que vivem “à margem” do convívio social, os detentos. Esse tipo de isolamento talvez seja o mais dramático, pois os indivíduos, mesmo vivendo no meio de seus semelhantes, experimentam uma solidão forçada, sejam eles, jovens, adultos ou idosos.

Na verdade, a vida em sociedade é uma contingência humana. O homem cria a sociedade e esta, por seu turno, permite o desenvolvimento e a sobrevivência daquele. A sociedade é uma realidade determinada pela necessidade que o homem tem de viver entre semelhantes. Com acerto, já destacara ARISTÓTELES que o homem para viver isolado, à margem da sociedade, haveria de ser um bruto ou um Deus.

Assim, deve o homem à sociedade, ademais, sua autoconsciência. Nela está presente a figura do "outro", que testemunha e afirma a sua existência. Portanto, é impossível vivermos isolados, mesmo quando estamos fisicamente sozinhos, estamos dialogando mentalmente afetivamente com alguém, parentes, amigos ou inimigos, que está longe. Este diálogo imaginário

acontece com os prisioneiros isolados numa cela, mas acontece também com outras pessoas que estão sozinhas.

A vida em sociedade nos coloca sempre em relação com os outros, em situações

específicas. Isso, aponta para a formação de grupos e subgrupos que apresentam maneiras distintas de comportamentos. Assim, cada um de nós pertence, ao mesmo tempo, a diversos grupos. E com cada um desses grupos temos elementos distintos de identificação.

É sabido que o homem precisa estar em convivência com o outro, pois desde que nasce vive em grupos que servem de referência, que dão apoio material, afetivo, intelectual ou espiritual, tais com a família, a escola, os espaços de trabalho, de lazer, de reflexão e de participação social. Dessa forma, cada um estrutura sua identidade singular e social.

O convívio em grupo nos dá duas coisas importantes: elementos de identificação (valores,