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Do tragico

201510 45171

1 [ 11rn] 1 11mm
11rn11m 111o
1756332
Aimagemsobrevivente

-
© l.es f.<lni o ns de M inuit, 1001
Títulooriginal: l' lmagesun•w.i:,tc. ITistc,ire.
le ta-,:.el temps d famimzes sel<m Ahy Warlmrg

Dirdtos adq uirk lo.s J)Jr.i o Brnsil por <.mm aponto Edito ra Ltda.

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l' cdil'lo, abril de 201J


Tir3gc;n:i: l.000 cxcmplares

l TPRRA TT ( ,\l:\trn;.,,Ao NA FO?l".Tf


SINlllCATCl NA<lONA I 1)()5f J)rTORr",_ nt lJ\'RO S . Rf

nss,¡ l>idi Ifo tK:r.mat1, G<:otg.i::s., 19S\


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Ri() Je; J:incim: C'.,m1, :1po n m, l Ol l,
.506 p. : il. ; 1 4,7 cm (Attc.Fi I ; ) )

i radur.iode: l "irna¡;e survi\'antc: hismicr Je l'31t et tcmp:.des fun


tOmes lcm Abr 'w.'lrl>l1t i:;
{n<lui l.,it, liot,:r:iíi:i
ISBN 97-8 8 S-7 SM-079-Q

l. W;itbutg.Aby, lS66 1929. l . Artee 61osolia. l. l irulo. 11.Serie.

H H16 <.1)(): ? (U
e l>U : 7.0 1
Surnário

l. A imagem-fantasroa:sobre, vencia das formas e impurezas do tempo 11

A anc morre, a 3.tte ren;1sce: ,.1 hjsró.ria rccomC(ja (d.. Vas,\ri{) Winckelm;;ton) t. )

W,uburg,noSS<> faorasm;i 15
As formas sobtevivem: a história S<' abre )1
N,.uhlcbL.,l, ou a a ntropologi a do tcmpó: \'Xl::irb urg corn Tylor 43
Destinos do evolucionismo, hcwrononi::is 51
Rcnascimc.nm e im pureza d o tc.mpo: W3rborg c·.o m Burckhard t S9
l.cbensfiihigeResl< : a sob re vivénda aJl.;.ta oniza a histó ria 67
O e xo rd sm <> da Nad1lebe11: (;orob ri c h e Pan o fsky 75
G e$d,idn lich Lcben: formas, for as e inconsd cntc do tempo 85
Notls 94

II. A imageni-páthos: linhas de frarura e fórmulas de intensidade 10S

51-smogr a fia dos wmpos movcntt<'.S l 07


Zei.tli nie:o historfa<lor beira os ;.'l.blsmos 11.S
A trag <:dfa d:.t cu kur ;,1: \Varhurg com Nk u sr hl 11 7
Pb snd dade do devir r fraruras n:1 histúria 137
r:.amo gramm, ou o ciclo dos co ntr m m pos 149
c..i. mpo e \ 1e k ulo dos movimemos so bn::vlvc:mes: :l J>at hos formel 167
E:n busca das fórmulas primitivas t77
os mcmonni.vos, clcs lot·ad os, rc"etslvo s: Warburg c.:om l>mwln 19.)
t...Ol'eogr a f j;¡das ioccns idadcs: a ninfa, o dcsc.:jo, o deh:ue 21
' Ot.1S L IO

!!l.A in1agem-sintoma:fósseis em roovi.menro e monragens de memória 241


'l pon to de vista do sintom.1: \X•'arb urg ein dfre<;-5.o 1 Fr<"ud .l.43
ktik des fefonstrums, ou :l crnno rc;ao ..:omo modelo 253
- m :1s imagcn.sso frcm de- rcm i nis <.·l'nd as 2.7 1
'1r,no1nhos, repeci 0cs, rccak amcntos e- poswr iori <lades 27.7
n: ,.oss:I, ou a da nc;a dos tempos e nterrad os 293
n.a casa de Binswangcr; co nstr u 0es da loucu ra , )15
Nacb/lihhmg, ou o conhcc:i.mcmo por inr<>rp<>ra<;ao 337
l>á empatia ao símhoJo: Vise.her, ( :arlyle, Vignoli ¡55
For<;ts si nto mát icas e formas simhólic 1s: \Varburg com Cassircr? ¡69
A mooragem- fo.emos1y1-e: q uadros, foguetcs, dctalhcs, intervalos J8.3
,,
Epílogo <lo¡x:srndor de perolas 4-
Notas 430

Nota bibliográfica 451


i,tdke bibliográfico 45.l
1. isr:l deilustra(Oes 499
"tul/ (athom(ii•e thy father /ies,
O/his bonesare e<>ml ,mide:
Thosc c1rc pearl.s lbat u.1t.'1'c his eyes,
Nothing of him tlmt Joth fade,
But ,loth su/fer tl scaMchange
Into somethi11g riel,muí strange.....

""Tru pa i está :.1cinco hra<;as .


Dos ossos n:1sce u cor;tl.,
dos olhos., pérolas ba 3s.
Tudo nd c é pcrcn:11;
mas cm algo pcrcgtino
(t::111.sfot ma--0 o mar de conrínuo.'

W.Shakespcare, A tempesr,,de, Ato 1, <:ena 2


· (trad. Carlos Alberto Nunc:s)

· vom Ein/luss der Anüke.


()fose (; escl;ichtc is miirchenha/t
to 1•ertellet1 /sic/
Gespenstcrgcsc'bkhu fiürj gan F.rwachs e.ne."

"Da influ futd a do Amigo .


Esta história é fabulosa
pa ra contar.
Hisrória de fama m:;as p tra g('.nte grand e."

A. Warhurg, /vln1311os ym.,(;rundbegriffe11


(2 de julho de 1929), p. J.
l. A imagem-fantasma:
sobrevivencia das formas
e impurezas do tempo
A arte morre, a arte renasce:
a história recome a (de Vasari a Winckelma nn)

Podemos pergunrar-nos se a histó ria da arte - a ordem do discurso assim de-


nominado, a Kunstgeschichte - realmente "nasceu" um dia. Digamos, pelo
menos, que ela nunca nasceu uma ez só,em uma ou até duas ocasioes que
marcassem "datas de nascimemo" ou poneos idemificáveis no continu rm z
crono lógico . Por t rás do ano 77 e da epístola dedicatória da História natural
de Plínio, o Velho já se perfila, como sabemos, rnda urna tradii;ao historiográ-
fü:a grega.' Por trás do ano 1550 e da dedicató ria das Vidas de Vasari perfila-
-se também, esedimenta-se,toda urna tra di<;a o d e crónicas m, elogios compos-
tos para os uomini illustri de cidades como Horcn,;a.1
Arriscamos isto : o discurso histórico nao "nascc" nu.oca. $empr e recomei;a.
Co nstatamos isto: a história da arre- a disciplina assim denominada - recome-
ra vez t1pós outra.Toda vez, ao que parece, que seu pró prio objeto é vivenciado
como mono... e como renascendo. Foi exatamentc o que se passou no século
XVI, quando Vasari baseou toda a sua empreitada histórica e es tét ica na cons -
ta ta c,i:io de uma morte da arte amiga: i•oraá ta del tempo,escreveu ele no proe-
mio de scu livro, antes de apontar a Idade Média como a grande culpada por
c-sse processo de esquecimento. Mas, como sabemos, essa mortt' teria sido
"salva", milagrosamente redimida ou resgarada por urn longo movimento de
rinascita q ue, grosso modo, comec;ou com Giotto e culminou com Michclange-
lo, rcconhecido como o grande genio desse. pr<Ktsso de rememorac;iío o u res- s
urr ei,;ao;. A pa rtir daí - a partir desse renascimento, ele próprio surgido de um
luto - paren· ter podidoexisti r a lgo a que se chama " história da arte"• (fig. 1).
Dois séculos depois, rudo recomec,:o u (com algumas diferei1, as substa nciais,
éclaro): num contexto que já nao era o do Rcnascimemo" humanista", mas o
da restaurac,:ao " neod ,íssica ", Winckelmann inv<mwu a história da arte (fig. 2).
Emenda-se: a história da arte nosentido moderno da palavra "história". His-
tória da artecomo proveniente dessa era das Luzes e, logo depois, da era dos
grand es sistemas - em primeiro luga r o hegelia nismo - e das üencias " positi-
vas" cm q ue Mkhel foucault viu em a ao dois princp í ios epistemicos con-
comirantes, o da analogía e o da su.cessilo: os fenómenos sistematicamenre
apreendidos conforme suas homologías, e estas, por conseguinte, interpretadas
como as "formas depositadas e fixas de uma sucessao que avan a de analogía

Aimagem sobrev1vente 13
l. <Jiorgio V-1..s ari, p.ro1Kb1, dofrontispkio de le. vite de' piit eaelle,rti
plttori, s(ulum e ard,itcttori, l1-o i:-c n a, 1S68 . Xiloguvu tdca lhc}.

em a nalogía» .' Winckelmann - q ue, infelizmente, Foucault nao comenta - re-


presentaría, no campo da culmra e da heleza, a virada epistemológica de uru
pensa rnento sobre a arte para a era - auténtica, já "cient ífica" - da história.•
A história de que se m'lta já era "moderna", já era "cicnrífica", no sentido
de ulr rnpassar a simples cronim de ripo pliniano ou vasariano. Visava a algo
mais fundamenta l, que Quacremere de Q uincy viria a desa ever l>e1n, em seu
dogio a Winckd mann, como uma análise dos iempos:
O douro \\ 1inch•1mannfoi o primt iro a rrazer o verdadeiroespírito <le o b-
se rva<;llo para este estudo; foi o primei.ro a se pcnnitir decompor a Antigui-
dade, analisar os rem pos, os povos, as t'S<'olas, os est ilos, as 11ua11ces de e s-
rilo; foi o primeiro a desbravar os cami11hos e fixar os marcos nessa rerra
incógnita; foi o primeiro que, ao classificar as épocas, abordou a hisr6ria
dos monwnenrns, co mparou os monumentosentresi e descobriu caraccerís-
ricas seguras, princípios de crícica e nm método que, rerifkando uma profu-
siío de erros, preparou a descoberm de uma profusao de verd;1des . Regres -

14 GeotgesOidi·Huberman
l. Johann J. Wilt<..kdmann,pmric;h.a do frontispió c>.,fl' (;cscMdJtc der Kunst
des Alu·rtlmms 11, l>resdeLl. 1764 .

sando cnfim da análise para a símese, conscguiu formar ,uu corpo com o
que nao passavade mu amomoado de destro,;os.'
A unagem é sígnificativa: enq u:into os "amontoados de destroc;os" co nri-
nuavam a se espalhar pelos solos e suhsolos da ltália e da Grécia, Winckel-
mann, ern 1764, publicou um livro - sua grande História da ,irte entre o,s .m
tigos - que, segundo a exprcssao de Quatremhe, "forrnou um corpo" com
<'SSC material disperso. Um corpo : uma retmiao organica de oh jcws cu ja ana·
comía e fisiología scriam corno que a r<'uniao dos estilos artístirns e sua ki
biológica de funcionamenco, o u seja, de evolu,iio. E tam bém um corpo: um
corp11s de conhecimenros, um org,111011 d e princípios. Ou até urn "corpo de
doutrina". Winckchnann teria inventado a história da arte, come<;ando por
construir, para além da simples rnriosidade dos anriquários, algo como um
método hiszórico.8 Desse ponto em diamc, o hisroriador da arte já naose con-
tentou em colecionar e admirar seus objetos: como esneveu Quatrernere, ele
aM lisou e decompós, exerceu seu espírito de observa,iio e de crít ica, d assifi-
coo, aproximou e comparou, "volmu da análise para a sínrese", a fim de
"descobrir as característicasseguras" que dariam a qoalquer analogia sua lei
de sucessiio. Foi assim qut' a hisrória da arte se const.it uiu como "corpo ,
como saber metódico e corno uma verdadeira "análisc dos tempos" .

A imagemsobrevi'lente 1)
A maioria dos comentaristas mostrou-se sensível ao aspecto metódico ou
doutrinal dc<.ssa co nstitu i<;ao . Winckelman.n fundou urna história da arte me-
nos pek) que d esco briu do que pelo que co nstruiu. É insuficiente fai er com qut
se sucedarn o Win<.:kd ma n n " u ítico e.srérico" das Re(/e.,:óe s sobre a imítarao
das ob ras gregas e o Winckelmann " his toriador" da História da arte entre
os antigos:• na o bá d úvida de que a "c rise esrérica " do Iluminismo c1ltrou
em a iío até na mar1eira como ele teve de recolh e r seu mate ria l a rq ueológico
de base.10
Nas exegeses dessa o bra tambémsentimosceno incomodo teórico ligado a
figura rn nt radiró ria q ue representaría, por um laáo, o fundador de urna histó-
ria e, por ourro, o zelad or de urna dout rina estética. Nao convém dizer apenas
que essa conrradi ao "é só aparente"." É preciso dizer que ela é constiruriva.
Como bem mosrrou Alex Pons, a História da úrte entre os antigos fundo u a
perspectiva moderna do conhecimenro sobre as artes visuais por meio de uma
série de paradoxos em que, constantemente,a posic;ao his tór ica Í? ted da por
po sru lados "eternos " , ou, i nversamente, em que as conccp oes ge ra is sao a ba-
ladas por sua própria h istoriciza a o." l.onge de deslegitimar a ini,i ativa his-
tó rica ins taur ada - nisso só um histo riador positivisra ou ingenuo acreditaría,
imaginando t1ma h is tó r ia q iw exrraísse seus pressupost0s apenas de seus pró-
prios o bjetos de-cstudo -, essas c:ont rad i,;óes fun da ra m-na, lite ra lme nte.
Como compreender essa trama de parado xos? Pa rece -me i nst1ficientc ou
até impossívelseparar,em Wínckelmann, "níveis de inrelig ibilidade" rao dife-
rentes q ue viessem a formar, no firn, urna gra nde pola rid ade co nrra d itó ria: d e
um lad o, a dout rina estética, a norma imemporal; de outro,a prátka histórica,
a "análisedos tempos". Essa divisa o, tom ada ao pé d a )erra, acabaría coman-
do incomprrensível a p ró pria ex pressa o " bist ória da a rte " . Pelo me nos é sen-
sível o carát<."r eminenteme nte pro b l emá tico d ess a expressao: que conce¡x;ao
da arte ela admite que se fa a his rória ? E q ue conce¡x;ao da bistória da admi-
te que apliq uemos as obras de arte? Trata-se de um problema árdoo, porque
rudo se susrenra, porq ue ll.OOa wmada de posi, ao quanro a um únicoekmento
incita a uma tomada de posi ao quanro a todos os demais: niio há histó ria da
arte sem urna filoso fía da h isrória - ain d a que es ponta nea, impensada - e sem
urna escolha de modelos tem porais; nao há hisró ria da arce sem urna filoso fía
da arce<:' sem u ma esco lha de modelos estéticos. Há que se te ntar identificar de
que modo, em Winckelmann, esses dois tipos de modelos t rabalham jumos .
O qoe ta lv<."z scja um modo de vira compreender rnelhor a dedicatória coloca-
da no final do prólogo da llistória d,1 arce ent re os antigos - " Esta hisrória da
a
arre,eu a dedico arte e ao tempo"- , cujo canítc."r quase tautológico preserva,
aos olhos do lciror, urna espécie de misrério .H

l<i GeorgesOld1·Hubt rm
' 11ni
::• : :• :.!·

Os livros , muitas vezes,sao ded icados aos monos. lnicialmeme,Winckelmann


a
dedicou s ua Histó rtti ,fo <1r te arce amiga, pois, a scu ver, fazia muirn tempo
que a arte amiga havia morrido. Do mesmo modo, dedico u scu livro ao cem-
po, pois, a seu ver, o hisrnriado r era aq uele que caminhava no tempo das coi-
sas passadas, isro ii, das coisas fa!ecidas. Ora, o que acornecc n o oucro excre -
mo do !ivro, após algumas <"e m enas de páginas em que a arte ami a nos é
rememo rada, reconst rnída - no sentido psíquico do termo - , n·posra numa
narrativa? Uma espécie de fo:ho tlo eircuirn depressivo num St'ntimem o de
perda irreparável e numa suspeica terr ível: será que issocuja his1ória acaba de
ser conrada nao resulta, simplesmeme, de urna ilusao fantasiosa , pela qua! esse
senrimenrn ou a própria p(-rda correm o risco de nos haver enganado?
Embora, ao reflerir sobre a des1ruic;áo da ane, eu tenha sentido o mesmo
desprn n que experimenraria um homemque, ao cscrever a hiscória d e scu
país, se vjssc ohrigado 1 descrever o pauoram:1 de sua ruína após have Ja
ll's tc rnunhado, nño p ude me Ímp'(dir dearnmpanhar o descino dasobras da
Antigui<ladc até onde minha vista póde a!can ar. Assim, urna a rnan rt' (·m
prantos fica parada a beira mar e acompanha com os olhos a cmbarca ao
que!he arrebata () amante' se m espe r-m<;a de reve-lo: em sua ilusao, da ere
ainda dis·,ernir na vela 4u1: se afasra a imagcm do objeco amado [das Bi/d
de; GclicbtenJ. ' fa! como essa amame, já nao possuímos, por assim diz.er,
senil<> a sombra do objeco de11ossosanseios [Schattenriss (... ) unscrer Wü11-
schc], mas a p('rda dele. aumenra nossosdesejos, e contemplamos s uas có -
pias (Kopien] om maís acen,ao do que faríamos mm os originais [Ur bil -
dcrll se estivessen1 em nosso podt..r. Quanto a isso, muitas vt·zcs .fü:.amos na
sirua<;a<> dos q ue, convencidos da existencia de fantasmas [Gespcnstcr],
imaginam ver alguma c:.o isa onde n5o há nada lwo nidJts is1]. ' "

Pág ina at c mori zame - sua beleza e sua poesia atemorizam - e radical. Se a
história da art<" r t'to me<;a nessa página, ela se define como tendo por objeto
um o bjeto decaído, desaparecido, enterrado. A arce antiga - a arte absolu·
taml'nte bela - reluz, pois, em seu prímeiro hisroriador moderno por uma
"at,sí:ncia categórica".11 Os próprios gregos, ao menos na suposi,;aode Win·
ckeltnann, nunca fri.e ram a história "vivatt de sua arte. Essa h istória e<>rn <:<;a,
re ve la sua primeira necessidade, no exato momento em que seu ob jeto é pen-
sado como objeto morro. 'fa! história será vivida , portanto, rnmo um trabalho
do !urn (H istór i,1da ,me emre os ,mtigos, trabalho do luto da arre amiga) e
uma evocapio sem esperanc;a da coisa perdida. Insistimos desde !ogo nesre
pomo: os fantasmas de que Winckelmann fa la jamais seriio "convocados" ou

Al.mage.m$obu•, ivcntc 17
mesmo " invocados" como for,;;a s - ainda - atuames. Nao seriio o equivalente
a "nada" existence o u arna! [nichts ist ]. R <.'pre se nta rn apenas oossa ilusao de
ó ptica, o tempo vivencia<lo ,d , o osso luto. Sua c-xistfo cia ( a ioda q u e especrralJ ,
sua so brev i venc ia ou sua reapa r i<;a o sim p k sment t· nao seriio contempladas.
Assim seria, pois, o hiStoriador mod('mo: algu6n qll<' c vo,:a o passado e se
<.'nrrist<.C
' (' com sua perda definitiva. Nao acredita em famasmas (em breve, no
correr do sé-culo XIX, já niio acredirar:i senifo e m " faros" ). É pessimista e usa
com frequencia a palavra l/11te.rg,111g, que significa ded ínio ou d ecadencia. De
foro, roda a sua iniciat iva pa rece organizar-se segundo o esquema temporal de
1
grandeza e dec,uiihtá,1."·Com certe1.a, seria preciso ressituar a empreitada win-
ckelmanniana no comexto de um "pessinúsmo hi -iórirn " característico <lo sé-
culo XVlll.11 O u desmcar aré que ponto as ideias de Winckelmann podem haver
inspirado, no <lomínio estético, in úmeros escritos nosr,ügirns so bre a "<lecaden
da da arte, ou o "vandalisn01 revoltH.:ionário'' ligadoas s uc.:essivas destru.ll;<,ts
de o h nis··primas da Anliguidade."' O modelo tempor .1I grande-za e de, adí!ná a
revelou- se tao pregnante, que ainch informaría a definic;ao da hisró ria da a rre rnl
wmo podemos c.'uco m n í-la, por exemplo, na Realb - ,, vclop:idie de Brockhaus:
" A histó ria da arte ú a rcprcsel)la -;'ioda origcJll, do c.k sc nvolvimcnro,da gran-
de1a e da decadencia das belas-:irres.",. Winckd mann nJo disser.i ourra coisa:

O objcro de urna hi.stór ia po ndera da da ar tt' é remonmr a s ua origcm [lf r-


s/mmg], acompanhar Séus progrtssos [W<1c h stumJ e varia,;oes [Verande-
r1111gJ a t é s ua perfei,;iio, e marcar sua decadencia IUnre.rg<1ng J e q ueda Jfü/lJ
aré sua cxrirn;üo {... ). 2)'

FsS<· t s q ucma tempo ral correspo nde, se presra rmos atenc;Jo , a dois tipos de
modelos rcúricos. O primciro é um mC1dclo 11t1tun1/ e, ma is pa rt icu larmeme,
biolúgico. Na frase de Winckclmann, a palavra \V,uhsrum <leve ser e m endida
c.·omo o " crcscimc nto" vegetal ou animal, e a palavra Veránderimg ra mbém
assume a c·.o nota :io vitalista implicada em roda ideia <le "muta \o". No fun-
do, o que Wi ckelmann entende por história da arte nfo está muiro distante
de urna história natur<li: sa be -se que ele leu a de Plírúo, é claro, mas também a
de Btúfon; assim como leu o tratado fisiolúgirn de J. G . Krüger e o manual de
medicina de Allen, e q uis, um dia - {: o q ue nos informa urna carta de <lczt m ·
hro de 1763 - , passar dos "esrudos sobre a An<."' pa ra os " esmdos sobre a
Narureza"." De rudo isso, Winckelmann dcvc ter tirado uma concep<;ao da
cie nc ia, h s,ré rica que se a rtic ulava nao apenas com os pro blemas de classifica -
t;áo típicos da epistemología do Iluminismo, mas rnmbém com um esquema
temporal ohviamenre biomórfico, estendido entr e progresso e declín,o, nasci-
me nro e decadencia, vida e morre.

IS GeorgesO!d
- l Huberman
A outra face dess,i rn nfigura<;a o teó rica é mais conhecida: é um modelo
i,de zl e , ma is pa rt ic ularmente, metafísico. Ele se c nr en de muito bem, portanto,
<·om a "auscnda" categórica de S<'u objeto: pensemos na célebre formula<;iio
de Sólon ·- o to ti en ei1Zai cita do por Aris ró reles - que posrula a morre prévia
daquilo de que se quer enuncfar a v<.'rdade , ou mclhor, a "q uididade" .' l Nesse
sent ido, poderíamos dizcr que o desaparecimenro da arte antiga funda o dis-
curso histórico que fala de sua q u id idade tílri ma. Segundo Winckelmann, por-
ranto, a hisró ria da arre r\ao se co menta em descre ver, classificar e da tar. Ali
o nde Quarreme,c de Quinc y fala de ¡
um simples movimento dt rernrno " da a
nálise para a s(mese Winckelma nn radicalizaría sua posi iio, d e mesmo, do ponto de
vista filosó fico: a histó ria da arte [die Gescbicbte der Kunst] d eve s er esc ri ta a fim
de que seja explicitada a essi'-ncia da arre [das WeseJ1 der Ktmst ].

A lústória da arte entre os amigos, 4 u,· ofere;;o ao público, nao é uma sim-
ples narmtiva (:ronológicadas revolm;&s por q ue da passou,.1 ,mo a pala-
vra " histó ria» [Gesduchtcl na sigmfica iío ma.is extensa que h,í na língua
grega,sendo mcu objetivo ofen·cer o resumo de um sistema ILehrgeb<1udej
de arte. (...) A historia da a rte ldie Geschicbte der K,m st ], uo se nti do mais
estriro, t', a hlstória do destino que cl(l vive11<: lmJ e n 1 rela iio as d iforcnt es
cir<.unstUndas das épocas, prinópaln1en1e cmrc os gregos e os rom:;-ln os. Nesre
livro, porém, eu me propus Gomo o bjetivo soh reruclo d isetitir a pró- priá
tSScnda da arte Idas \Vescn dcr Kzm st j."

Ao ler esse t(:xto, co ru prce nde-se que a historicidade da arre, tal como co·n
templada po r Winckelmanu, nao emerja exata meotc, como é com um supo r-se,
"de um compromisso que permiriria o historiador cnconrrar um campo no
interior ou .ii marge111 da norn1an.14;Tah ir dessa maneira é dar um crédito ex-
cessivo ao lugar do discu rso histó rico como tal. lo i maginar q ue urna histúria
só se torne normativa ao sair dela mesma, ao fon,:a r sua neut ralidade filosófica
"natural", ao trair, exn suma, sua 1nodéstia"natural", d iantr de puros ("shn-
a
ples fatos da observa<;iio. É desconhecer q ue ,1 norma é intt rna p róp ria na r-
ra ri va, o u ii mais simples descri iío ou men<;iio <le um ferlO meno q11<.' o hí sm -
riado r co osidere digno de ser pres('rvado. A narrativa hisrórirn, uem prec iso
d izer, é se mpre precedida, condicionada por uma no rma teórica so br<' a " es -
se n cia" de seu objeto. A histó ria da a rte é condicionada, portanto, pela norma
estétirn na q ual S<' deci de m os " bo ns obj ros» de sua narrativa, esses "bdos
objetos" rnja reuniao fo rma rá, no final, algo como urna esséttá,1d<1 arte.
Winckelmann tem razao, porramo, em reivindica r s ua his rória como um "
sistema» ll.eb rgebat1de J, oo se nr ido filosófico e do utrinal da pa lavra. Em
graus diferenres, sua em preitada faz eco as d<.' um Montesquieu, urn Vico, uro

A imagem:;obrevivente 19
Gibbon ou um Condillac." Essa rn ndí ao da história winckelmamúana, aliás,
foi pcrfeimmemereconhccida no século XVlll: Herder escreveu que "Winckel-
mann, com toda a (·ertcza, propos esse sistl:'ma 11,ehrgehiittde] g r a ndioso, ver-
dadeiro, eterno" como a mpreirada q uase plató n ica d e uma " análisc referenre
ao geral, aessend a da bdeza".' " Como pensador da historicidad/:', H e rd e r nao
rardou a indagar: "Será esse o o bjetivo da históri a? O objeti vo ,.k uma história
da arte? Nao bavení ourras formas possívcisde história?" Mas ele reconheceu
de bom grado a ncccssidade de urna hisró ria da arte que, alfo1 das mle,oes
históricas de Plínio, Pausánias ou Filósr raro, tivesse fundarnenrn ao teó rica: o
1
que ele chamou, acompanhando Winá clmann, de sistema históricor.
üu de "consrr w;ao idea l" .18 Ideal no sentid o d e te r sido inicia lmente con-
('eb ida para se harmonizar com o princípio metafísico por excclend a, com o
ideal de heleza, essa " essénciada arre" que os grandes artistas da Anriguidade
souberam p6 r em prática. O " belo ideal", como se sabe, constituí o ponto
cardinal de todo o sistema histórico winckelmanniano, bem como da c:-s, t"tica
neo cl:issica em gcral.:• F.le fornece a essem:ia e, porta nro, a norma. A história
da arte é apenas a histórfa de seu desenvolvimcnro e de seu declínio. Ek pare-
ce co nfirmar a filia iio sc, ula r do pensamemo estéti<:o a co rre me filosófica do
idealismo.1"
A palavn-1 " ideal" sugere que a f·ssf-nci..-:t - a q ui, a essencia da arte - é: mn
modelu: um modelo ,i alrnn¡-ar, conforme o " imperativocategórico" da beleza
d ,íssi<:a; ,11111 modelo, porém, dado como i11,11i11g, íic/ rn mo tal. É muito signifi
carivo que o ca pítu lo de(lica do por \Xlinckelmann a " csse ncia da arre" seja
mais consagrado aos desvíos que oosso espírito rem que fazer para se recorda r
da bcleza ideal das estáruas gregas:

Como o primeiro capímlodesrc livro ,: apenas uma imrodu ao, passo ago-
ra, depois <lesrns o bserva i:ies pr elimioam,, a prúpria esscncía da arte. (...)
Transporto-me cm ,·spírito, portamo, para o esrádio de Olímpia. U diviso
as c'Státuas deatletas de rodasas idadcs, carros de bronze cmn dois e quatro
cavalos, encimados pela imagem do vmccdor. l.á mms olhos sao atingidos
por urna multidfio de obras-primas! Quamas vezes minha imagina ii.o nao
se entrega a esse sonho pr,tzn oso? (...) Que m(' sc ja permitido foz<'r essa
vfagem imagináira a Élidal nao con01 um.a s imples imagem poédca, mas
como u111a rn nwmpla áo real dos objetos. E, de fato, esta fic ao adquire
um,i espécie de realidade c¡uando rcprcsemo para mim mesmo, rnmo exis-
tentes, 3S <-.st ítuus e os qnad.ros cujas descri<_¡<.>es o s amigos nos delxaram;.i

F.is a esr ra n heza: o ideal (- a p r cen di do, é rcconhecido através de uma con-
tcmpb , iio real dos objetos", como escreve Wincke lmann. Porém nao arravés

!O Geofge$O ld-t Huber m an


de urna contempla,;ao dos objeros reais. Estcs dr sap,u cccram, forarn subsüru-
ídos por cópias mais rardias. Resra m a penas as mcdia <;oes d o espi rito, em
b usca dcssc ponro fora do tempo que é o ideal. E, no cmanm, a mais necessá-
ria dcssas mediac;oes - a que é reconstirui,;ao tt"xtu al, n :s ta ura<;ao id e a l - será
realmente denominada hisrória d,1 arte. Urna história da a rre que é serva da ldcia,
aprL-senrada como a descri<;iio das transfonnac;oes,grande.zas e decaden- cias da
norma da arte: narnreza hela", "comorno nobre", "arquétipo espi- rim a l" no
d esenho dos corpos femininos, dnipe jados elegam es, e po r aí vai."
A lf istá ria da arte entre os antigos se rece, evidemememe, com consta ntes
a
apelos de retorno estética propo ta, uns dez anos ames, nas Reflexbes sobre
a imitil(tÍO das obras gregas.
Eis q ue nosso mvcmor da histúna da arre, nosso homem enlutado por seu
objero - pois q ue ele chora a rnorte das he\ezas amigas - , eis que nosso estera de
espírito sistemari.za do r, noss o h isto ri a dor q ue nao ac redita em fantasmas,
poe-se para doxalmcntc a construir os o bjetos aust·ntt:S de seu relato - ou,
an ('dita ck , de s ua c ienci,1- " re presentando-os para si mesmo como se eles
cxistissem", com base em velhas descri.;iit·s gr('gas e fa tinas a que ele se ve
o brigado a da,r r¿dito. Ei-lo, enfim, a nos asscsrar a "css'"ncia da a rre": elogio
por prind pio do "bom gosro" [de,· gute Gcsdnn11ck ), n, jc i<;üo a bsoluta de
"qualquer deformac;ao do co r po " , numa passagem espantosa das Re flexc)es
em que e le expressa seu horror as ''d ocnc;as venfa cas e fa o] ra 4 nitisrno deco r-
rente delas", esses males q ue ele supun ha desconhecid os dos gregos antigos.H
Corno se cssas coisas estivessen1 ligadas por mna obscura patologia conn1111,
W i nc kelmann exprime com igua l radicalismo sua re je ic;ao do p.ítbos, essa
doenc;a da alma que deforma os corpos e, porrnmo, estraga o idet1I, que pres supoe
a calma da gra ndeza e da nobrcza de espírito:

Quanto mais calma é a postu ra do corpo, mais ela é capaz de exp rimir o
vcr<lad ci ro caráter da alma: em rodas as posi,oes q ue se afastam nm ito do
repo11so a alma nao se acha no estado qut· lhe é próprio, mas se encomra
num estado de violenciae coer ao. Nesses esmdos de pabdo viok nra ela sr
reconhL-cCmais fad lmeme, mas, em cont rapartida, é no estado de re¡x>Uso
e h armonia 4ue ela é gra nde e nobre."

O q ue fora proposto nas Refle.x¡¡es como um postulado geral seria rccon-


d uzido, na 1listóriada t1rte, para o plano espedfico da arte grega. Em vez de
dízer "é preciso" (ponro de vista da norma), Winrkd rna1111 cootenrn-se desde
entao cm csc rever que os g regos " tin ha m o cos tu tnt' de". O pomo de vista é
ª h istórico", po r cr rrn. Masé a mesma essencia que se exprime, ou, eu deveria
dizer, qHe se declara nele:

A imagem sobrevj'lt'nte 2J
Num e nourro sentido, a cxprc:-ssao muda os trasos do rosto e a disposic;ao
do rnrpo; altera, por rnnseguimc, as fom1as que consriruem a heleza. Ora,
q uant<> m;1for é ess.a aJrerar5v, mais da é prejudiciaJ 3 be-Jna. Sc.t::m>d(> esta
n msider<1c;ao, ti nha-se o costume de observar, como urna das máximasfun-
damentais da arte, a imposi ao de uma postura tra nquila as figuras, por-
que, segundo a opiniao de PJadio, o repouso da alma era visto <:o rno um
estado inten n('diário entre o prnzer e a dor. Por isso é que a tranqmlidadc é
a sirua<;io rnais convcnkn t<: 3 beleza, tal como o 6 uo mar: u experiC'ru.:ia
mostra qlle os homensnlais ht·los c;m, c;·,ommnenre, as rnaneiras mais suaves
e o melhor cará ter. (... ) Além disso, a ser enidadeno homem e nosanimais é
um estado que nos permiteexamina r e conhe, ·er a na rureza e as qualidades
deles:/: por isso que só descobrimos o fundo dos rios e do mar quando a igua
est..l. (."-alma e se m agirac.;ao. D<·corr<· desta observac;üo, portanto., que é
somente na calina que o artista po<lc cons<:guir cransmíClr l essenciamesrna
d a a n e Idas \Vcscn da Ku11st ]."

Basta esta entrada no assunro, ao que me par..-cc, p ara ca prarmos a natu reza
emincntc, n cmc pro bk mática do momerno dr pensamcnto representado pela
Histária da arte e11tre os mzt igos e por s ua heranc;a. No li vro elabora-se um
sistema, porém esre falha constantemente na hora de se fechar: coda vez que
sao afirmadas uma cese ou u ma resohi, ,io te<írica , a co mradi, ao nao tarda a
surgir. Assim, \X1inckclma nn reivindica a histó ria da arre contra os simples
julgamenroscalcados no gosro, mas a norma estética nao para de embasar cada
passo de sua narrariva histórica. Assim, ele .reivindica a história co,no urna o
bjeriva <;ao ra cional dos " restos" do passado, porém uma s ub jetiva .lo
poderosa - " rranspo rro-me em espírito para o <.'stá dio de Olímpia" - niio para
de guiar s ua escrita do uta. A hisrória da a rce pro movida por Winckehn ann
oscila o tempo codo entr<.' a cssf nt-ia t• o devir. Nela, o passado hisiórico é in-
ventado e descoherto na mesma medida.
Que fazer ,oro essa evidemia: ? flizem, desde <i narr e mc re dt Q uinc:y, e se
diz até hoje, que Winckd mann inventou a hist<'iria da a rte , no sentido mo-
derno da express.lo. Nao haverá nisso mais uma .:omradi iio? Será que o so
t:iólogo das imagens, o icon61ogo, o arqueólogo que utiliza o rnicrosct>p io
e le rri\rüco ou o conservador de museu familiarizado mm a náliscs especrro-
mérricas ainda se embara¡;am com csscs problemas filosó ficos? O esraruto
da história da arte como disciplina "cient ífica" par<"C<' tao sóli d o, que já nao
vemos ,om d are,A de que heran a seríamos dt,vedoresem cal mundo de pen-
samento. M,L (: l·om um i¡,'Ilorar -se acé mesmo a heran,;a de que se é deposi-

l.l Gf:or9e:;Oidi Hvbcrman


tário. Que nó de problemas essa Hi.stória d,1 ,irte entre os antigos continua a
nos oforccer'
Trata -se de u1n nó t ríp lice, um nó t res vezes atado, que o próprio título de
Winckelmann 1nduz e impoe: nó da histárui (como podernos consrruí -la, escre·
vf -la ?), nó da arte (como podemos distingtú-la, olhá-la ?) e nó da Anriguidade
(como podemos rememorá-la, resrabelece-la ?). Ou sistema " de Wind ,elmann
deceno nao é filosófico no sentido estriro e, por n mseguinte, nao pode iden·
tificar-se com a lgo como uma construc,:ao dialética. Mas existe urna noc,:ao
capita l, urna pala vra que mantém unidas as tres lac;adas donó. Palavra mági-
ca, de cerrn modo: resolve todas'as comradic;oes, o u mclhor, faz ,om q uc-
passem desper,·ebidas. É a palavra imita,,1u. Ela constituí a mola lll<:'Stra, a
<lo bra<l ic,:a, o cixo grac,:as ao qu al rodas as difrren,as S<' u1wm, wdos os ahis·
moss,fo transpostos.
Na ,·onclus.io de sen livro, citada acíma, l6 \Vinckd mann pareccu ca var um
abismo: abismo dcprcssivo, liga<lo a pcrda da arre antiga e ao re10rno impos-
sível d esse " o b jeto amado", abis mo sepa rando o lum do desejo IWunsch l,
abismo separando os origina is" [Urbit.t erJ da es ta ruá r i a grega e suas "có-
pias " romanas [Kopie11¡. Mas, em ouuos pomos desua obra - a come<;a r pe las
11. efle.-.:,,cs , é cla ro - , a imita ,fo lan a uma pomesobreesses abismos. A imita-
'ªº do s a mi gos, praeicada pelo areisra neoclássico, eem por virru<le rea nimar
o desejo para além do luto. Cría um vínnilo entr<· o original e a nípia, de tal
sorce que o idc,11, a "essencia da arte,,, pode como que rtvin·r, atravessaro
a
tem po. É gra,as im i ta, iio que a " a usencia c:ncgórica" da artegrcga,sq¡un<lo
a expressiio de Alex Potes, roma-se capaz d<- url\ renasc-imemo, ou até ,k mna
"presern;a intensa». ,...
P o is é jusramm te de- presen<;a e presente que se erara: o presenee da imita-
<;iio faz "reviver urna origern perdida" '$e, desse modo, resrnbelece na origcm
uma presen<;a a t.iva, atual. Isso só se revela possível porqu e o objeto da imira-
<;ao oilo é um objero, e sirn o prúprio ideal. Ali onde a verrente depressiva da
histó ria winckelmanniana fazia da arte grega um ohjeto de luto, impossível de
a tingir - .. já niio possuímos, por assim dizer, senao a sombra do objeto de
n.o ssos anseios" '1-, um.a verrenre maníaca, se n1e arrevo a dizé-lo, fará dessa
arte um ideal ,z etzpturar., o imperativo caregórit:o da "esse"ncia da arte", o
único ca paz de permitir a imita¡:,io dosantigos.lm ita<;ao , como bcm sabemos,
é um conceito altamente paradoxal. Mas se\! paradoxo é justamente- o quc-
permiriu a \Vinckd ma nn a famosa piri1era: Pa rn nós, o único meio de nos
tornannos grande , l:', st- poss ívd, iui.o.li.távcis, é im¡rar os anrigos."-1º
Foi uma fac,:anha cousidtrávd, e suas cor\sc q uencias rambé m o scri·a m. ºfo-
c a ra m na p ró pr ia es t ru t ura, na a rq11ireru ra temporal de roda essn i11iciariva : a

Aimagemsobrevi-1ente .U
hiscória da arte construída por \Vinckelmann acaharia redu1.indo o tempo na-
tur.1./ da \le r:inderung ao tempo ideal da \\7ese11 der Ktmst. Foi um modo de
possihilicar a coexistencia do esquc:-rna "vida e morre", "i;randeza e decaden-
da", como projern intelectual de um " renascimemo " ou uma restaurac;ao
" neod ássicos". Insisrimos no ckmemo crucial desse esfon;o hercúleo: a imit<1-
¡-ao só permitía esse ren,zsdmento imitando o ide,1/. Co mo nao reconhecer aí,
recmú iguraclas, mas renovadas, as rr2s " pala vras mágicas" fundamemais do
idealismo vasariano ?" Como nao reconhecer, na redu ao do tempo natural ao
rempo ide.al, o qut cria a própria ambivalencia do conceito humanista de imi-
rnc;iio' Por outro lado, teria sido possível a unit,ic;ao ,;1odcmz<1 do s amigos ini-
mitá1,eis $COl o meio-termo que n mstitui, para o próprio Winckelmann, a imi-
ca,ao renascentist<1- po r Rafad, cm primeiro lugar - desses mesmos amigos?
O que era nó (a solu,;ao st at rapalha) coma-s e cm,lo fcchamento (a sol u, ao
se impoe). O nó da Antiguida de se desfaz ao se trazcr de volta uma Jlo<;íio de
idea l; o nó da arce se dt'sfa;,, ao se rcsgatar uma ideia de imita <;iio; o nó da his-
tória se desfaz ao se resgaiar nma ideia de Rrnascimenro. Assim j,í fora cons-
truída a história htunanista de Vasari. Assim recome ou a histó ria neodássica
de Winckelmann. Mas refo,;a mos a pcrguma de Herder: "Será esse o o bjetivo
da história? O objetivo de uma his túria da arre? Nao haverá omras formas
possíveis de história?""
Precisemos os desafios aruais da pergnnta, diame de urna heran a winckel-
mannfana rao un an im en1enre reivin dicada. Prixmáro, qu an to a "a náHse dos
tempos": nao h.a veria um tempo das imag cns <JU<' nao fosse " vida e mone"
nem " grande1.a e decadencia", tampouco esse " Renasó n1cnto " idt al cujos
valores de uso os hisrnriadores nao param de transformar para seus próprios
fins? Nao haver ia um tempo p,1ra os f,mt<1smas, uma reapari ao das imagens,
urna "sobrevivencia" [N,1chlcben] que nao estivcsse submctida ao modelo de
transmissaopressuposro pda "imita, ao" [N.1cb,1Jm1u1t¡:] d as obras amigas por
obras mais recemes? Nao haveria um tempo pam <1 memóri.a das imagens -
um obscuro jogo emre o recalcadoe scu eterno retorno - que náo fosse o
proposto por essa histó ria da a rte, por essa narra tiva? E, quanro a arte em si:
nao haveria um "corpo" de imagcns que estapasseas dassificac;oes inscau ra - da
s no século XVIII? Nao haveria o m t ipo de se tnelha n<,:a que nao fosse o
imposrn pela "imitai,;ao do ideal , coma rejeic;iio do páthos que ela pressupoe
em \Vinckelmann' Nao havcria um tempo p,zr,1 os sintom<1s na hiscória das
imagens da arre' Tení essa história realmente " nascido" algum dia '

14 Gc:org e sOidi-Uuberman
Warburg, nossofantasma

Um s<.'cu lo e mrio depois de Wiuckelruann compor sua mon umental llistória d.:z
arte entre os antigos, Aby W , arbu rg p ublirnu, nao ern Dresden, ,uas tm
Hamburgo, um texto minúsculo - na verdade, o resumo de urna co nferencia
e m cinco ¡»íginase meia - so br't " Dürer e a Amiguidade ita lia na" .4' A imagem
que abria esse texto nao era a de urna ressurrei,;ao crista, como em VasMi
(fig. 1), nema de uma glória olúupica, como em Wiuckelma nn (fig. 2), mas a
de tm 1 despedac;a me mo humano, passional, viok nto, cristalizado em seu mo-
mento de imensidade física (fig,. . ).
A dissimetria entre esses momenros do pensa mento sobre a bistória, a arre
e a Amiguidade parece basrame radical. Emseu rexto cuno- que ornpa menos
cspa, o que urna única Vid,1 de Vasari - , ral como em coda a s ua o bra publicada
- que orn pa menos espa,o do que a simples História da arte - , Wa r bu rg de-
compos, dcsconsrruiu sub-reptician eme rodos os modelos cpistemicos em uso
na hiStória da an c vasariana,e vinckelmanniaua. Desconsrruiu, por conseguiu-
te, o q ue a arual história da arre aiuda torna por seu mome1101 inici eírico .
'\ % r burg s ubstituiu o modelo natural dos t·i:closde "vida e morre", "grandeza
e decadencia" , por 1un modelo dct:ididamente nao narural e simbólico, um mo-
delo cultur<1l da hiStória , no qua! os tempos já nao eram calcados ern estágios
biomórficos, mas se cxprimiam por estratos, bloc.:os h íb r idos, r izo mas, comple-
xidades específicas, retornos frcq uenremtme inesperados e o bjetivos semp re
frustrados. Warburg su bsrimiu o modelo ideal das "renascen<;as" , d as " bo a s
itnita \'.Ües" e das " se renas belezas"amigaspor um modelo{t111r<1sma/ da his tória,
no q ua! os tempos já nao se ca lcavam na transmissao acadcnúc·a dos sa beres,
masseexprimiam poro bsessoes,"sobreviv2:nd as",remane"nc ias , l'<'-aparü;óes das
formas. Ou seja, por nao-saberes, po r irreflexoes, por inconscientt'S do tempo.
F.m última análist\ o modelo fantasmal de que falo e.ra um modelo psíquico, no
semido de q ue o pomo de vista do psíquico nao seria um retom o ao ponto de
vista do ideal, mas a própria possibilidadede sua decomposi<;iio teórica. Tratava-
· se, pois, de um modelo sintomal, no qua!o dcvir das formas devia ser analisado
como um conjun ro de processos tt'nsivos - t<."n s i o nados, por exemplo, entre
vonrade de idenrifica ao e imposi ao de altera, ao, purifica<;ao e hibrida<;ao,
nonllill e patológico, o rdem e caos, t nu;osde ('vi<lii.nát e tr a<;os de ir r e flcxiio.

Aim;,gcm sobrevivcnte 25

t Albn:cht Düre t, A murJ<• d .e O , jeu, 1494. Tlm::i so b re p tpc:1. 1 bmbwso, Ku11sthallc.
Foto: lns 1itu t o W:i.rhu rg.

T udo isso fola de forma muito abrupta e m uito s ucinra, ad mito. Será preci-
so tornar a parrir do come o parn construir essa hipórese de leitu ra . Mas urna
coisa era preciso dizer de imedia ro: corn \Xlarhurg, a ideia de arre e a idcia de
lústó ria passaram po r uma rcvira volta dec isiva. Depois dele, já nao esta mos
diante da imagcm e ditmte do tempo, como ames. l <>davia, a hisró ria da anc
com e le niio '\ :ome a", no senr id o de mua refunda<;ao sist<'mática que ra lvez
civéssemos o dir eito de espera r. Co m ele, a história da arre se inq uiera sem
(·essar, a históri,1 d.i ,1rre se perturba, o que é um modo de dir.er, se nos lem-
brarmo s da li ao benjaminia na, que ela toca numa orígem. A hisró ria da arte
segundo Warburg é jusramenre o conrrário de um come o a hsolu ro, de uma
rábula rasa: é, ames, um rnrbilhao no río da disd plina, um rurhílhao -· urn
momento-agitador - depois do qua! o curso das t:oísas se haverá desviado
profundamrote, o u até tra nstornad<>.
Mas t>ssa me s ma profundidade parece difícil de transparecer ainda hoje.
· 1emei em outro trabalho caracterizar cen as linhas de tensao que, na histó ria
da d iscipl ina e em scu esrado arna!, puderam criar obstáculo ao reconhecimen-
to dessa revíra vo lra. 44 Acrescent<."mos a essa impressao t<'na z: \Varlmrg é nossa
1
obsessáo, está para a história da arre como escaria um fantasma nao redimido
- um dibuk' - para a casa que habiramos. E obsess1io? É algo ou alguém que
volra sempre, sob revive a rudo, reaparece de tempos cm tempos, enuncia urna
a
verdade q uanto orígem. F. algo ou alguérn que nao conseguimos esquecer.
Mas que nao podemos reconhecer co m clareza.

:;, ..- :
\Varburg, nosso fantasma: em algum lugar dent ro de 116s, mas cm nós ina-
prtensívd, desrnnhecido. Quando ele morreu, em 1929, os necrológios que
!he foram <kdicados - na pena de eruditos presrigíosos como Erwin Pauofsky
0 11 Ernst Cassirer - manifesta ram o'grande respeiro devido aos anccsi rais im-
porta ntes." Ele foi rcconhecido comoo pai fundador de uma disciplina consi-
derável, a íconologia, mas s ua obra log<> se a paga ría p o r t rás do t ra b al h o tao
maís claro e distinto, tiío mais sis temá tico e tra nq ui liza dor d e Pa no fsky...
Desde entao, Warbnrg vagueia pela hist ó ri,i da arte como faria um ancestral
inco n fessável - sem que jamais se diga o q ue nao n mviria confessar o u o que
co nviria renegar nele -, um pai fanrns márico da ico nologio.
Por que fa ntasmátíco? Primeiro porq ue nao sahemos por onde s<."g urá-lo.
Em se-u necrológio sobre Warburg, Giorgio Pasquali escreveu, em 19.l0, que o
historia dor, durant<." a vida, "já desaparecía arrás da instimi a o que havia c ria-
do" em J:-lamburgo, a famosa Ku lmrw issensc hafrlic he Biblíothek Warburg,
que, dcpois dt seu exílio, precipitado pela amea<;a na zista, pode so breviv<'r e
revivrr em Londres.•' Para informar quem fora ou o que fora Warburg, .Emst
Gombrích - a quem tcria cabido um pro jeto de obra inicialmenre concebido
por Gerrrud Hing - decidiu «·digir urna "biografot intd en ual" , vo lunraría-
meme autocensurada qua mo aos aspe,ws p,sí¡ u.icos da h is ró ria e da p erso na -

• N a mito!ogia jud:i<i":i um famasm:J, ou ;ilm:i pc-n.'.l<.b, que.se :1pc-.,st,..1 do <.OCpo de um.a JX'SSOl vi-·.a.
IN.T.J

A image m s o b 1e v1vertt 17
lic.lad <' <lC' W;irburg." Essa dcósiio niio deixou de cer urna "elabora ao" meio
desencarnada de urna obra em que a dimensiio do pJthos , ou aré do pa cológi-
co, rt vd a -se t>SSt>n c ia l, canto no plano dos o bjetos escudados q uamo no do
olhar voltac.lo pa ra eles. Edga r Wind cricicou severamente essa remomagem
pudica, essa eduk ora ·a o que Gombrich fez:•• niio se separa um ho nwm e.Jeseu
páthos - e.Je s uas eruparias, suas pacologias -, nao S(" S('para N iccz s c h <> e.Je s ua
lournra nem Warburg dessas perdas de si que o deixMam por quasec inco anos
en tr e os muros de um hospital psiquiárrico. O perigo s imétrico existe, <: claro:
o ck neg lige nciar a obra rn nstruída empro!de umfascínio du vidoso por um
dest ino di gno de u m ro ma nce noir.'º '
Oucrn (;ausa desse caráter famasmát ico p re nde-se a nossa impossibilidade,
ainda boje, de distinguir os limites exatos da obra warburguiana. Como uro
corpo espectral, essa obra conrinua sem comornos definíveis: a inda nao en-
comrou seu corpus. Ela assombra cada livro da hibliotec-a - e acé mda inter-
valo ente<· os livros, em razao da famosa "leí da boa vizinhan,;a" que Warburg
havia instituido cm sua d assi fica, ao H - , mas, acima de rudo, manifesta-se no
imenso la birinto dos ma nuscri ros ainda inédims, as anora.;oes, es boc;os, es q ue-
mas, diários e correspondencia que Warburg maJ11inha inc-a nsavelmcntc, scm
joga r nac.Ja fora, e que os edirores até hoje nao so uheram reunir de maneira
ponc.lcra da, a tal ponto (: desoorteame o seu aspecro "caleidoscópico" ." Na
.ig n o ra ncia de tal massa de texto s -- alguns dos quais tinham tun propósito
explícito de funda ao, como os Grundlegcndc Bmcbstiicke zc11 cincr m oni sti-
schen l<unscspsychologie, <le 188 8-1905, e os Allgemeine Tde 1m. de 19 27 - ,
todas as nossas r<'flex/iesso bre Warhurg ficam presas a urna ttrta in<lecisao.
Escrever bo je so bre essa obra é acó ta r que nossas próprias hipóteses de leimra
se jam um dia mo dificadas 0 11 qucstiouadas por mna parte inesperada desse
corpus fltttuünte.
Po rém, isso nao é nido. O aspecto famasmático desse pensamento prende-
• se a urna cerceira razao, ainda mais fundamemal: mua mzilo de estilo, nao de
época. l.er Warburg apresenta a dificuldade de ver se mesclarem o rirmo da
mais exte nuante ou mais inesperada erudi :io - c-omo a e111r ada em c-ena, em
meio a urna a nálise dos afreseos renascentistas do palácio Schifanoia, em !'er-
ra ra, de um astrólogo árabe do século IX, Albumasa r" - e o ritmo quase
baudelairiano dos foguc t es: ideia s que se fu ndem, pensamemos inseguros,
aforis mos, permuta oes das pala vras, ex peri men ca a o de conceiros... cudo que
Com brich considera a <.:onca <.<:'rt a para aborrecero " kitor mmkrm, », q ua ndo
é precisarnenre a modernid ac.Je de Warbltrg que já se assinala nesse tra \;O.,.

2.8 Georges Oidi·Huberman


De omk, d<' qu<"lugar e <le que tempo nos fala esse fantasma? Seu vocabulário
bebe alternadamente nas fomes do romamismo alemao <' <le Carlyle, do posi-
tivismo e da filosofia nietzschiana. Ek manifcsta, em momentos alternados, a
preocupa ao meticulosa com o detalhe históri<'O e o sopro inseguro da inspi-
ra ao profética.O próprio Wa rhurg fa!ava <le seu estilo como scndo urna
«sopa de enguias [A,1/s11penstil]:11 imaginemos uma rnassa <le corpos sn pe-
anres, reprilianos, em algum lugar entr<' as pcrigo sa s circunvolu oes do / A<>-
rnonte - que obsedaram Warburg durant<.' a vida inteira, niio menos que as
serpentes postas na horn pelos índios que de tamhém esrudou (fig. .37) - e a
massa informe, sem pt' nem rnbc(a, Je urn pensa mento sempre avesso a se
"cortar , isrn é, a d<>fi nir para si mesmo urn come o e urn fim.
Acrescememos a isso que o próprio vocabulário de Warburg parece fadado
a condi,;ao de espe<,ro: Gombr ich obscrvou q ue as palavras rnais imporrames
dessc lé xico- como bewcgtes J.eben, Pmhosf<>rmel, Nacb/e/1e11 - e r a m difíceis
de transpor para o ingli's.'' Seria mais conveniente dizer que a histó ria da arte
anglo-saxonica do após-guerra, essa história da art<! que tin ha uma enorme <lí-
vida para comos imigra mes alemaes," exeKeu so bresi mesma um tra balho de
remincia ii lfogua filosófica alema. Fantasma nao redimido de (·erra tradic;ao fi.
!ológica e filosófica, Warburg vagou por uma época amhíguae inapreensível:de
um lado, ele nos fala ,x partir de um passado que os "progressos da disciplina"
parecem haver rornado obsolero. Eniespecial,(- carac,eristicoque o vocabulário
da Nachleben - a "sobrevivencia", esse conceico crucia l de roda a empreirada
warburguiana - trnha caído wmplcramentc em des uso e nao ce nha sidoobjeco,
q uando pon•(·ntura (,ó tado, de nenhuma crítica episcemológica co nsequeme.
Por omro lado, a o bra warburguiana pode ser !ida como um texto proféri-
co e, mais exatamente, como a proiccia de um saber por t!Ír. Roben Klein, em
1964, cscrcvcusohre Warhurg: "[Fiel <·riou urna disciplina que, ao contrário
de ramas outras, existe, mas niio tem oome.» ,i Rt·tomando essa fórmula, Gior·
gio Agamhen mosrro u como a "c ienó a" visada por essa obra escava "nao
.?ind a fu ndada" - cra <;o que designa menos urna falha da raóonalidadc que a
:roibi ao conside rá vcl e o valor pertur bador dessa idcia das imagcns." War-
burg dizia a sen pr6prio respeiw que ele menos fora frito para existir do q itt
Jnªf "persiscir [e u diria insistir] como urna hda lemhran a" .6º F. bem esse o
semido da palavra Nach/ebcn, esse t<'rmo do " pós-viver": Wll ser do passado
que nao para de sobre,·iver.Num dado momento, seu retorno em oossa me-
,;iória t0rna-se a pró pria urgencia, a urgencia a nacrónica do que Nietzsche
...ha rnou de inat ual ou intempesti[lo.
Assim seria Warburg nos dias amais: um sobreviveme urgente para a his-
ória da anc. Nosso dil>u k. O famasma da nossa disciplina, falaod-o nos a
um tempo de seu (nosso) passado e de seu (nosso) futuro. <iuesriio passada:
devemos alegra r-nos como rrabalho filológico que, sobrctudo na Alem a nh a,
prende-sehá alguns anos a obra de Warhurg."' <iuestao futu ra: as coisas siio
mais delicadas, evidentemente- uma vez reconhecido o valor de "impulso" da
obra warburguiana,61 as leitu ras poem -se a divergir. Nao apenas a hemn- a
do "método warburguiano" tem sido quesrionada desde os primeiros mo-
mel\tos de sua wloca,ao em pnitica; ' como ramhém a atual mulriplicac;ao
d e refer&ncias a cssesuposto "m rodo" propordona Lima verdadeira vertige m.
Warburg to rna-se snperespecrral no t"xato momento em que cada um come, a
a invod -lo como o samo prore1or das mais diversas e.scolhas teóricas: santo
protetor da hisró ria da s mentalidades, <la história social da arte e da micro-
· hisrória;" sanro proteror da bermencutica;6 5 santo protetor de uro suposto
anciformalismo;"·sanco proreror de um chamado " pós-mo<lcrnismo retromo-
ck m o";•• santo protetor da New Arr Hisrory, ou até g rnndt a.liado da crí tica
feminista...68

30 Cleorg e-sDldi·Huberm;:in
As for massobrevivem: a história se abre

O cerro é que, como escreveu Ernsr Gombrich - mas como pode ele niio se
scnrir visado por sua pró pria frase? - , "o {arual] fascínio exercido pela hera n.;a
<le Wa r burg rambém pode ser vist<> como síntoma de cerra insarisfa\i¡\o" com
a hisrória da arre ral como é prari<.:ada desde o fün da Segunda Guerra Mun-
dial!' Em s ua (-poca, o prúprio Warburg havia manifcsrado csse ripo <le i nsa-
tisfai;ao, nutra man<-ira dt' expressar urna e xig,t·r cia a inda nao elaborada. Em
1888, q ua ndo tinha apmas 22anos, de j,í fu s tiga va, em seu di,írio íntimo, a
histúria da arte p¡lra "ptsimas c.:ultas", a bi.stú ria dn artt· "t·stetizante>" dos que
se comemavam em avaliar as o bras figura tivas em te rmos de bdeza; já entao
convocava para uma KutistwissensdJaft, uma "ciencia da arre-" específica,e
escreveu que, um dia, seria riio inútil falar em imagens q11anro é inútil pa ra um
niío médico tecer comenrários sobre uma simomatologia- . q' .5"17 1/ fS-
E foi rambém por "aversiio a h is có r ia da arte esreriza nte" [iisthetisierende
Kunstgeschichte] que Warburg se l'embro u de haver partido subirnmenre, em
1923, para as S('r ras do Novo- léxico·,. Ao longo de toda a vida, ele exigiría
do saber sobre as imagensumquestionamemomuito mais radical do que toda
a "curiosidade voraz" dos at ribuicionistas - como Morelli, Venturi, Berenson
- , os q uais q ualificou de "admiradores profissionais"; <lo mesmo modo, exigi-
ría muito mais que o vago estet ismo dos discípulos (q uando vulgares, isto ",
burgueses) de Rus kin o u Wa lter Pater, ou até de Burckhar<lt o u N ietzsd 1e;
ass irn, cvocou corn sarcasmo em scus cadc rnos de nocas o " turista s uper·ho·
mem cm fé rias de Páscoa", que vai visitar Flo rern;a "com o 1/.aratustra no
bolso do casaco": '
Para responder a essa insarisfat;iio, Warburg pos em ¡mít ica um constante
deslocamento - d esloc a mento no pensar, nos pomos de visrn filvsóficos, nos
campos <le s a ber, nos períodos histó ricos, nas hierarquías c ulm r,1is, nos lugares
geográficos. O ra, esse próp rio desloca mento continuo u a fazer dele um fantas-
ma: em sua época - e boje ma is <lo que n un<:a - , Warburg foi o fogo-fátuo, ou
melhor, o atr,wcssa-paredcs da históri,1 d,1 arte . Já e nt iio, seu deslocamenro
pan, a história da artt·- para a erwli<;Uo r as in1agens t'In g(·ral - resultara de
um proccsso crítico', m rdai;i\o ao cspa o familia r: um mal-esta r na bmguesia
nego<'ia nre e na o n odn xia judail'a." Mas sobretudo S('U dcslornmento atraués
da /umíria da arte, em sua orfa e mais alim, criaría na própría disciplina um
violento processo crítico, wna crise e urna ve rdadeira desnmstrur,io das f0', 11-
te.iras disciplinares.
Esse processo já se faz sentir nas cscolhas do jovem Warhurg,suas escolhas
de esrud,UltC enrre 1886 e 1888. Ele scguiu os ensinamentos de 3rq ueólogos
clássicos - em codos os sentidos do termo - , como Reinhard Kekulé von Stra-
donitz (cm cujas aulas desc:obriu a estética do l.aocoonte e fez, em 1887, sua
primeiríssima aoálise de uma P,1thosform <?I) ou Adolf Michaelis (com qucm
esrudou os frisos do Pan non).' ' Foi aluno de Car! Justi, q ue o inicio u na filo-
sofia dássica e em Winckelmann, assim como tm V' chísquez e na pintura fla-
mcnga. Em contra partida, emusiasmou-se coma filologia " antropológica" de
Hermann Usener, mm todos os problemas filosó ficos, emográfirns, psicológi-
cos e históricos que ela arrastava em sua esteira. Depois, nas confr rt ncias de
Ka rl Lamprecht so bre a história vista ro mo uma " psicología so6 al" , ele en -
controu alguns funda mentosde sua futura metodolo gía,·.
Do lado do Renascimemo, os (·nsinamenros de Riehl eTbodc - que fizera do
descnvolvimemo artístico italiano urna co nsequencia do <'Spiriro franciscano,
relegando:10 segundo plano o retorno da Amiguidade pagá - maisserviram de
contrapomo: • Porém, 1lubert Jaoitschek o fez co mpreender a imporrancia das
1eoria:s da arte - a de Dante, a de Alberri - , bem corno o pa pel da s prtítirn:s so-
ciais ligadas a quak¡uer ptodm;ao figurativa.-,- Q uanto a August Schmarsow, ck
simplesmcntcinióo u Wadiurg no Jerreno f/ore11ti 1ui, se assim posso dizer: foi
in loco que o jov<m · historiador cursou seusestudos sobre Donatd lo, Botticelli
ou a relac;ao entre o gótico e o renascentista na l'loren<;a d o Qua ttroccnto, re-
mas que boje reconhccemos, todos eles,como cminememente warbu.rg uia nos.'S
Alén1 disso, Schmarsow defendía mna K,m st w issenschaft decidida mente
aberta as questoes antropológicas e psicológicas. Elaborou um conceico espe-
cífico da comWlica,ao visual e da " informa,ao " 1Verstii11d igu11, I, mus sobre
tudo compreendeu o pa pel fundamemal do qm,· -ra ch.amado, na época, de
" lingnagem dos gestos": retomando, para além dt> I. ess in g, a problemática
cxpressiva do Laocoonte, tcmou elaborar uma teoría da empatia corporal das
imagcns, mdo isso enunciado a partir do binomio da " mímica" IMimik] e da
"plástica" [Plastik ].79 Ncssas con di<;óes, fic a re mos menos ad mirados de ver o
jo vem Warbu.rg pa ss a r da a m iga Psicomaquia para a leirnra el(· W undt, d
Botticelli para cursos de medicina, ou até pa ra um curso sobre as probabilida-
des, no qua!, em 1891, ek fr z uma cxposi, iio so bre "Os fundamentos lógicos
dos jogos de azar".'º
Mais do que um sa berem fonna ao, foi ames mu sabi,r em mm , imento que
aos po neos se consriruiu, pela a<;iío - a pa re ntemente errática - de todos esses

U G.eo rges D i d i- Hu b cr mo n
d eslocamentos metodológicos. Nascido cm 1866 , Warburg fazia parte de urna
gera):io prcsrigiosa de historiadores da arte (Émile 2\blc nasceu cm 1862;
Adolph Goldschmidt, em 186.l; l leinrich \Viilfflin, em 1864; Berna rd Beren-
son, cm 1865; Julius rnn '><.hlosser, em 1866; 21\a x J. friedl:rnder, em 18&7 ;
Wilhelm Voge, em 1868 et'<.) - , mas sua posi(iio episth nica e institucional o
diferencia em rer mos absolutos. Em 19()4, qunndo se aproxima,·a dos quarcn
ra anos, ele foi uproYado mais uma v,·, no exame para um cargode prok ssor
em Bonn; semilúcido, semiangustiadn, ele havia e-scrito cm 1897: " L>e ó di de
uma n-z por 1odas que nao fui feíto para ser Pril'atdozent."" Depois disso,
viria a dcdinar de propostas de .:átc:d ras e m Bresb u e Halle e, em geral, de
qualquer cargo público, recusando-se, por exemplo, a representar a ddega ao
alema no Co ngresso lntcrnacional de Roma (1912), do qual n nha sido um dos
mais ativos pm mo1o res. Ele ,·in a a permanen·r como pesq11isad,>r prÍ!•<1do -
emendendo-se a expressao ern codos os sentidos possíw is - , um pesquisador
cujo próprio pro¡et<>, a "cifocia scm nome", nao podía sarisíazer-sc com fe-
chamemos dis<·iplinares e ou tros a rran jos a<'ade micos.
l'oi essa, pois, a ins:uisfa.;ao imcial: a t1•rritork1liwriio do sabn- sobre <1s
im<1ge11s. Em 1912, ao cond uir sua rnmu1úca,;ao no Congresso de Ro ma so bre
os temas astrológicos dos afrescos de i'rancesco del Cossa, rm f erra ra, \X1a r-
burg plei1eou - segundo S<'US próprios termos - urna "abertura" da disciplina:
Ao arriscar aqui esta tcnmtiva parcial c pro\'isória, minha intCCT<;:io foi plci-
1car um ala rg;unenro metódico das fronteiras de nossa dcncia da anc (rinc
met/Jodiscl,e Gre.::erweiierung 11nserer K1111sttl'issmscl,,1ftl (... ).8;

Seria rnrrem, porém muito incom pleto,compreender csse pleito como uma
cxigeocia de "interdisciplinaridade" ou como a amplia o filosófica de uu1
pontode visra sobre a imag·tm, para al(-m dos prob lemas facrua is e estilísrk os
qur o hisrnriador da arte rradidonal formula a si mesmo. É fa10 quc a ,·ontade
de \Xlarburg scmpre foi conciliar a /m'ornp,1 ·Jo (ilológi<'a (donde a prudí'ncia
e a w mpctencia que ela prcssupiie) ,·om a preoc,1p<1fiio filosófica (donde o
rism ou mesmo a impertinencia que ela supoe). f>oréro há mais do que is.o: a
exigencia warhurguia na quanm ii história da :lr!e dccorre de urna postura
muito precisa a rc-speito de cada um desses dois1ermos, "arte e " história" .
\Varburg, c rcio, semia-se insarisfeiro com a 1errit0 riali a, ao do sa ber sobre
as imagens porque rinha c neza de duns coisas, pdo rut'nos. Primeiro, nao fi-
camos dumte d<1 imag(•m col)lo diante de algo cujas fronceir as c xatas nao po-
demos rrar;ar. O conjumo das c{)Or de nadas positl\·as - amor, daia, récnica,
iconografía et<·. - niio basta, evidcmementc. Urna ima¡:em, toda imagem, re-
sulta dos movime nros prov1so ria men1csedimentados ou cristalizados oda.
Esses ruovimenros a arravessam de fora a fora, t cada qual tcm uma crajecó ria
- histó rica , a m ropo lóg ica, psicológica - que parte de longe e continua além
dela. Eles nos obrigam a pensá-la como um momento energético ou dinamk o,
ainda que ele seja específico em sua estnnura.
O ro, isso traz urna conseq uencia fundamental para a história da arte, que
Warhurg enunóou nas palavras imediatamcme posteriores a seu " pleito":
fa·amos diame da imagem como diame de um tempo complexo, o tempo pro-
visoriameme configu rado , dina mico, desses próprios n,ovime mos. A conse-
quenóa - 011 o desafio - de umu a larga' memo met{xlico
1
das frome iras" niio é
omra scniío uma destcrrirnrializ,u;ao da imagem e do tempo que exprime sua
historicidadc. lsso significa, daramcmc, que o tempo da imagl71l n,fo é o tem-
po d,, histúria c m geral, o tempo que Warburg destacou, nesse pomo , atra vés
das "car go rias universais" da evolu ao. Ta rcfa urgente (intempes tiva, ina-
tual}? Para a histúria da arte, crarava-se de rd unda r "sua própria rcoria da
cvolm;ao", sua pró pri a reoria do tempo - que \;X u burg r t htcionava a urna
"psicolog ia histórira":
Até aqui, a insuficeiilda das ct trgoriasuniversais para pensara evou l <;ao im-
pediu a hisujria da '1!te d(' p<'>r St:u$ m.1reriais á <lisposi iio <la " pskologia his-
rórirn da txpressiio humana" lhist,m scbel'syhologie des menschlid,en. Aus-
drw·ks j, a qL>al, de resto,ain<la está por ser e.scrirn. Nossa jovem disciplina (...)
tatcia cm1ueio a esquc1 natismos da hisróri t políticae teorías sobre o génio, 3
procura desua própriateoríada evolu ao [ihrc ,,,gene l:11tw 1ckungslehre).' '
Agora seria pre c iso po d er segu ir Wa r burg trn s ua tentat iva Je " a tr.wessar
pa n-des" , de " desendausurar" a inu1gem e o tcm,po que ela camcga - m1 q ue
a ca.rrcga. Seguir seu movirnento org:inko equivaleria, rarefa acachapame, a
nao omitir nada. Mas podemos ao menos iniciar esca empreitada de crítica
episre mol<Íg ica int e r roga n do-nos sobre a maneira ou maneiras pelas quais
Warburg pi'>s <'lll .rno vimemo e dcslocou « história da arte. .Mais llllla vez, per·
.:ehemos (JU(' tudo aq ui é urna qursülo de estilo - <'Stilo de pensamento, <k
decisao, de saber-, on seja, urna ques rao de tempo, Je anda me m o .

Urna p rimeira maneira de J eslc)car as coisas é leva( o tempo necessário, retar-


d<tr . Em Florenc;a, Warburg já " rerardou" a histó ria <la a rre: precisou levar 11111
ciutro tem po que nao o t<'mpo vasa ria no das " bisrúr ias" aurnglorificadoras e
o tempo hegeliano <lo "se nrido universal da histi,ria". Criou um tipo infufü o
de rela, ao entre o particular e o universal. Para isso, atravessou e revolveu os

N Gc-orgc-sOidi Huherman
campos tradicionais da própria ame: como já nao lhe bastasse o Museu dos
ü fícios, dccidiu mergulhar no mundo s,·m hierarquía do Archil'io, co,n s uas
inúmeras ricordanze privadas, sens livros de comabilidadc, seus testamentos
ern carró rio... Assim, urna notificac;ao do pagame nt<J de um <'X-voto, feito em
1481 no próprio rosto do <loador, ou as últimas vonrades de um hurgues flo-
rentiuo to rnara m-se,a seu ver, uma verdadeira matéria - matfria móvcl e ili-
mitada - para reinventar a história do Renascime mo. 84 lima história que já
podemos dizer fantasmal, no sentido de que nela o arquivo t co nsiderado um
vestíg io material do ru nlúr dos mop-os: \Xlarburg escreve n que, para ele, com
os "documentos de arquivos dedfrados", trarava-se de "resg,nar o timbre
dessas vozes inandíveis" [den unborbaren Stinmt<?n wieder Klang(arbe zu11er-
leih e11I - vozes dos desapa recidos, mas vozes dcitadas, ainda redobradas na
grafía simples ou nas construc;oes particulares de wn diário ínrimo do Quat-
troccmo, exnmado do A.rchit,io.' 5
As própr ias imagens, nessa ópt ica de retorno de fantasmas, viriam a ser
consideradas rnmo aquilo gne sohrevive de uma ili11amica e mna sedimenta·
ao a ntropo lógicas !Ornadas parciais, virtuais, por terem sido, em la.rga medi -
da, destrnídas pelo tempo. A imagcm - a comescar por a queles re tra tos <le
banqueiros florentinos, que Warbnrg intcrrogava com pan icula r fervor - de-
\•eria ser co nside rada, ponamo, nmna primeirn apro xima,;iio, o que sohrcllillc
de tmw poJmlarcio de f,mtasmas. Fanrasmas cujos tra<;os mal sao visíveis, po-
rém se disseroinam por roda parte: nurn horóscopo da data do nascimenro,
nnma carta comercial, numa guirlanda de flor.-s ( justa meme aquela de que
Ghirlandaio tirou sen apelido), no detalhe de uma moda do vestuário, urna
fivela de ci.nto, urna cirrn nvolu ao particular de um coque femi,iíno...
Essa d issemina<;ao a mro po lóg i ca reqner, evidence-mt me, que se mult ipli-
qutm os pontos de visrn, as a bo rdagens, as comperencias. Em l-lamburgo, a
impressionante Kulturwissenschaft!iche Bibliothek \Xiar hu rg é que vir ia a as-
s umir o enca rgo - infin ita mente pacieme, sempr<' a mpliada e novamente em
obras - desse deslocamento epistemológico. Imaginada por Warburg desde
! 889 e- erguida entre 1900 e 1906, essa bibliotr(·arn nstituiu urna espécic dr
opus magnum em que seu autor, emhora secundado por r rir . Saxl, provavel-
meme se perdía tamo quanw (onstruía sen "espa o de pensamento IDenke .s-
raum].86 Ncsse espa<;o r izo máti,'.o- que, em 1929, abarcava 65 mil volumes - ,
a história da an rnmo disciplina academka foi posta a prova d.- urna deso-
riema ao organizad a: em mdos o pontos em que havia (ronteiras entre disci-
plinas, a bihlio tcca procurava estabd<'c<'r lig,l<;iies.8'
Mas esse espa o ainda era a wúrking library de u,ua "cit'ncia sem nome":
biblioteca de tmb,zlho, portanro, mas também bjhlioreca 0 11 trabalho. l.\iblio -

A tmi gem sobrevivetne )5


teca que Fritz Saxl disse muiro bem ser, ames de qualquer outra coisa, um es-
pa1o de questócs, um lugar para documenta r pro blemas, urna rede complexa
em rnjo "ápice" - faro extremamente significativo para o nosso propósiro -
encomra va-se a questiío do tempo e da história: "Trata·S('de uma biblioteca
dl' q ucstóes, <.' S<.'u caníter específico consiste justamente em que sua classifica -
i,:áo obriga a entrar nos problemas. No ápice lan der Spítzel da biblioteca en-
contra-se a se,ao de filosofía da história." 8'
Salvarore Senis, num a rtigo admiráve!, rern nst it uiu os modelos práticos
dcssa biblioteca- a come<;ar pela biblio teca univei:sirá ria de fatrasburgo, onde

\Varburg fora cstudancc -, bem <·orno o , o m ex to teó rico dos d ebat es sobre a
dassificac;ao do saber no firn do $l"ntlo XIX. Ern especial, ele rerra<;ou as me·
ra morfos es d e um q uestionameoto inccssantc dos percursos e " locais" da bi-
blioteca , em fu rn;ao da maneira como ennn experimentados por Warburg os
problemas fundamm tais assinalados por expressoes cruciais, tais como Nach-
lebcn dcr Antíke (sob rev ive ncia da Am ig uidade), Ausdrnck (express iio) ou
Mnem nsyne.i•
Compreendemos melhor em q ue sentido uma bibliotera assirn co ncebida
podia prod uú r cfcitos de deslocamento. Urna ati md e heurística - isto f, urna
expe riencia de pr nsamemo nao pre<-cdida pe lo a xioma de se u resultado - guia-
va o trabalho incessame de sua rern mposic;ao . Co mo organizar a inrc rdisc ip)i -
na rid ade? Isso pressupunha, mais urna vez., a d ifícil co n jUI1<;ao das engrena-
gens filológi.:as mm os graos de areia filosóficos . Pre ssnp u nha a implanta <;a o
de urna verdadeira arqueología dos s,1/>er<!S liga d os ao que ho je chamamos de
"ciencias humanas", uma arqueolo11,ia teórica, já cenrrada na dupla questao
das formas e dos símbolos.••
Mas, ao mesmo l(:rJlpo, impunha -se a espécie de sirna,ao ,zporétirn gerada
por tal iniciativa. A p rincípio, essa cinha sido mna empreitada de um homem
só e de um único w1ivcrso de q uestóes: é omito escranho - ainda bojest pode
semi-lo nas prareleiras do Instituto Warburg, '(rn Londrts - usa r um in.stru-
memo de tra balho que leva a tal pon w a marca dos dedos de seu construto r.
Se a bihlioreca de Warburg rC$ist e ta o bcm ao tempo,<: porque os fantasmas
das perguntas formuladas por ele nao encontrara m conclusa.o nem repouso.
Ernst Cassircr escrcvnl, em sc u clogi,1 f únebre ao historiador, mna página
magnífica sobre o caráter ,1urático de uma hiblio1eca ao mesmo tempo tao
particular e rilo aberra, " habitada'' por " configura óes espiricuais or igina is ,
como se exp rim iu Cassirer, das quais parecía emergir, espectral e ainda "sem
nome", uma possível arqueologid da cultura!' Mas é inegável que essa estra·
nheza traz algo como um estigma da a po ría: Warburg multiplicou as liga óes
a
entre os saberes, ou seja, ent re as res pos tas possíveis sobrcd tcrm ina, ao in-
sana das imagens - e·, nessa mulriplic- c;ao, {: pro v,ivel que ccnha sonhado nao
escolher, adia r, nilo co rta r nada, invesrir o t(·mpo para levar tu<lo em co nside-
ra, ao: Joucur a. Como se orienrar num né, <le pro b lemas? Co mo s e orie m a r na
"s opa de e n guias" do d etermi nismo das imagens?
l lá ourra maneira de formular a pergunra, de deslocar as coisas. Ourro
estilo, ourro a ndamenro. É perder, ou melhor,fingir que se esrá perden<lo te m -
p o . É ag ir de forma o blíqua, po r imp ulso. f:bifurcar de repenre. Nao a dia r
mai.5nada. Ir direm ao cncomro das diferen<;as. É parrir para o campo. Nao
que o Archivio ou a bib liorcca Sl'jam puras a bsrrac;oes , na o -rerre nos : ao con -
trário, csscs rt ser varúrios de sa ber' <:' c i iliza<;ao re üne m grnndt número de es-
rrams, dos qua is é possível seguir, justameme - de um arquivo a ourro, de uin
campo de saber a o urro - , os mv vim entos do terreno . Mas bifurcar é outra
coisa:é niv z,er-sc e,n dire·tlo ao tme110, ir ao local> nce irar a experiencia exis-
tencial das pergumas q ue alguém formula a si mesmo.
Trata-se, na verdadc, de experimentar cm si um deslocarnenro do po nt o de
vista: deslocar a pr6pria posi ao de sujeito , a fim de pod er oferecer meios para
des.loca r a de fini ao do o b jeto. Para sua víagern ao Novo México, Warburg
invocou razoes que d<.' mesmo q ualificou de« romam k as" (der Wi/fo zum
Rom,mtischen j, acirna de rudo um intenso sc·ntimento em rcla iío inanidade a
da civiliza, ao mode rna [die Leerheit der 7.ivilisativn ] q ue ele observou na
costa leste dos Esrados Unidos, du¡ a nre uma viagern com a família; mas ele
rambém evocou razoes propriamemc "ciemíficas" [zu r \Visscnschaftl, liga d as
a su a " a vcrsao a his ró ria da arre ,-stetiza nre" e asua b usca de uma "ciencia da
arte" [Kunstwissenscb,1fi l que S,' abrisse para o campo simbólico - ou, corno
ele di ia c ntao, cultural - cm gtral [ Kulturw issenscba fr]_n
Fmbora a "viagem indígena» d<.' Warburg tenha sido cstudada com f requ <'n-
cia," a qu<.'stilo de saber o que d e b,us: ou nela, exaramcmc - e o q u<:<:nco nt rou
- , p erma n ece a t(- cerro pomo em suspenso. Se concorda nnos em reconhecer a
irnporrancia merod olúgica de ta l deslocam<lnlc> - para além das palestras per·
plexas, as vezes c hocad as, que fa riam dele o ato puramente negarivo e deslo m -
do de um hisroria do r da arre em plena crise mora l - , p recisa re mos nos pcr¡ un·
tar que tipo de ohj<ito \Var bu rg rerá encontrado d urante essa viagem: q ut> ti p o
de objeto propício para d cslornr <> ob¡ew "«rtc" <.:Ontido na pró pria expressao "
histú ria da arre " . Pergu lltemos, simetricameme, que tipo de tem po Warburg rerá
expcrimentado por lá q ue fosse propíáo par« dcslocar ,1 " bisióri«", tal como
csra cosru ma ser ente ndida na expressiio " histór.ia da arre .
Q ue tipo de o bjero, enrao, Warburg enconrro u nessecampo de experiencia'
Alguma coisa que, provavclmenR ·, ainda perma necia - era o ano de 189.S -
ino minada. Algo que era imagem , mas rambém ,1to (co rpo ral, social) e símbo-

Alma9emso!:ircvivcnte 37
/op( síq u<i '.O, cul tural). Uma "so pa de enguias" teórica, em sum
a. Urnamon·
wa do d e se rpent cs - o mesmo que fer vilhava como ato no ritual de üraibio,
mesmo que dardejava como símbolo em relámpagoscelestes (fig. 37 e7.,- 76 ),
o mesmo, ainda, que amivessava comoimagem a visao de esralacrit<.S 'r e pit lia-
n.is do Novo México, ou as cspirais de um retáhulo barrm:o diante do qual
r e zavam algLuis índios em Acoma.""
O problema s usL·ita do p o r essa "concre ao'' de atos, irnagens <.' smí bo lo s
n ao .-saber se Warburg buscava urna parid,1deou urna disparidade emr eal, iio
a seus objetos de tr a balho ocidentais, florentinos, renascenrisras . Sre á qu e ele
es rava lá para estabdecer uma aualogia como Reuascimenro, com suasfes ta,s
suas reprcsenra & s de Apolo e da scrpente Pírnn, seus elementos dionisíacose
pagaos, como pens:, Peter l\urke?91 Ou esraria lá para experimentar w11a com-
p le ta im •t· rs ao do ponto de vista ocidental e d ássico, como pensa Sigrid Wei-
gel>"' A rcs pos1 a deveria se r dialérica: era na " incorpora iio visivel dacs rr-a
nheza", segundo a expressaode Alessandro Dal l.ago,'1 que \Varburg busacva,
com ccrreza, urna base nao rnnnmi e arquerípica, mas di(erenci,1l e com¡,,ia r t -i
"ª comas polaridades manif<"stadas, scg11ndo ele, por todo fenomenocultural.
Mas por que esse objeto era propício para d«slocar o objeto " arte" 1rad ic oi -
nalmc-nre visa do pela disciplina da hisrória da arte? Por niio ser um objeto,ju s-
tamc nre, e sim um complexo - ou um amontoadq, Wll conglomerado, umr -i
zoroa - de relarcies. Foi essa, sem dúvida, a razao principal do compromisso
apaixonado qu<" \Varburg manifesrou, d uranre roda a vida, mm as qeus otes
a nrropolúgicas . Ancorar as imagense as obras <k a rre no campo das quesroes an t
ropo ló gic a s foi uma primeira maneira de deslocar, mas ramb(·r n de orientra
a hits ó r ia da anc para seus pró prios " problemas fundamenraís".Como hsito-
r ia do r , \Va rburg - a semd han,;a de Burckha rdt, antesdek-recuso u-sea colocar
essesp ro blemas no plano dos fundamt'ntos, t:omo reriam feíto Kam oul lege l.
nun ciar os «problemas fundamenrais" nao era procurar cxtrair a /ei grcal o u
E
a e ssencia de uma faculdade huma.n,i (prod, 11i.r imagcns) ou de wn campo do
sa ber (a história das ,1.rre.s visuais). Era multiplicar as singularidades pen ien ntes,
era, em suma, ampli,1r o campo fenomi 1n.irnde nma disciplina até entiío fixada
em seus objetos - dcsprezando as rela oes insta uradas por esses ohjeros, ou
pelas quais eles enuu instaurados- como um fetichista emseus sapato.s

:,:. ::• :,;.

A a ntropología, portanto, dcslocou e desfamiliarizou - inq uietou - a histró ia


da arte. Nao para dispcrsá-la numa intn disciplinaridade eclétit a e sem ponro de vi s
ta, mas para abri-la a srus próprios "problemas fundameotaistt, q ue, cm

18 <ieorgc-S()idi ·Hubermal'\
g ra nde parre, cominuavam no nao pensado da disciplina. Trarava-se de fazcr
jusr i<;a a exrrema com p foxi da de das rela<;oes e derermi na<;óes - ou melhor,
sobredetermina,bes - de que as imagens se constimíam, bem como de refor-
mular a especifiddcide das rela<;óes e d o tnzbalbo formcil de que as imagens
eram constitutivas. É perfeiramenre esrúpid<> - e feito com basrante frequencia
- só ver em Warburg um pesquisador de "fa tos" históricos e "conreúdos"
iconológicos, um s uposto anriformalista, incapaz de diferenciar a imagem em sC-
rie e a o bra-primasingular.O que ele tentou - e o projeto fina l, Mnemosyne,
atesta -o de fo rma evidente - fui, antes, recolucaro ¡,roblem<1 do estilo, esse
pto bk ma d<' a r ra n jos e efick ia s (o rrnais, scmpr<' con juga n d o o <.'Studo filoló-
gico do caso singular com a abordagem antropológica das rd a<;o<·s que tor·
nam essas singularidades o peratórias, cm ttrmos históricos e culturais.s•
Seria necessário mn livro imeiro para avaliar com precisao o que Warburg
rcria podido cnconrrar, na antropología de sua época - um campo vasro, con-
cernenre a esrndos espe..:ia lizados de cipo ecnográfico, bem como a grandes
sistemasde inspiraqiio filosófica - , que se prestasse a tra nsformar sua atit udc
de historiador da arre.99 Em especial, seria preciso reconsriruir o co nsid c rá vcl
impacto do pensamento de Henna nn Usener,rn jas a ulas \Varburg freque1\ro1,
em Bonn, entre 1886 e 1887, e cujo projero de uma " morfologia das ideias
relig io sas" imprimiu marcas profun da s na metodolo¡;ia warburguiana.""' Ele
havia a bordado os mitos da Anrig1iidade, ral como Warburg logo viria a fazer
com os afrescos do Renascimento; ligava a investiga, ao filológica - detalhes,
especificidades,singularidades - aos probkmas mais fm1damenrnis da psico lo-
g ía e d a a ntropología;ao t·studar, po r cxemp lo, as formas da mC-tr,it a gn,ga , de
o fazia para pensá-la como um sinmma de cult ura global; buscava remanes
cenóas até na música medieval; tenta,·a, recipr<>CMllClllC, a bo rdar os at<Js de fé
em geral comoformas das ,¡uais e ra scmprc necessá rio, cm cada casocspccífi-
co, tornar-se o filólogo."'1
Também poderíamos buscar os emprésrimos que \Varburg tomou da anrro-
pologia das imagens - urna a nrropologia muito geral - remada por Wilhelm
Wundt em sua giganresca V o/ker psycbologie .'º' Ou ent iio seguir as pegadas
das referencias warburguianas a Lud en Lévy-Bruhl, ao serem evocadas a "lei
de panicipa<;ao", a "so brevivencia dos monos" ou a ideia de causalidade na
"mentalidade primitiva" .'º' Mas o que importa \'sdarecer nao é apenas o que
Warburg dcve a a ntrop o log ía de sua t'pot:a. Tamb{·rn{: preciso fazer a pergun·
ra inversa: o que a antropologia <:'m gc rnl e a antropologia histórim em parti-
cular devema uma abordagem desse tipo?
Por diversas razoes - razoes antes de rudo históricas, sem dúvida , liga das
aos longos a nos dos dois confütos mundiais'º' - , a escola francesa dcu mostras

AimagemsobteVJV1?n:e !9
de um <lcsco nh eó m e nto especial <lessa tra di <;ao a le m a . Hcr ma nn Usen<'r - q u,:
Mauss, no e nra mo, lia com muita a ren,;ao"" - permaneceu ignorad o por Jean-
-Pierre Vemant ou Ma rcel Detienne. '"' Q uamo a Warburg, ele foi negligencia-
do n:lo a penas pelos historiadores da arte posicivis tas , como também pelos q ue
cram r,ece pti vo s ao e s rrn ruralismo'º ' o u até pelos melhores da escota dos An-
nales. Assim, Jacqucs Le Goff atribu iu generosamente a Ma rc Bloc h a C)(clu s i-
v id a d e da " funda<;ao da a nt ro po logía lús ró rica; a lf,o disso, observando que
Os reis t<1u111<lturgo s nao com po rtava m m ais que uma dezena de páginas -
bem po uco ana líticas - de um "dossié iconográfico" , eleconduiu que "a reno·
va<;ao da his rór ia da arteé uma das prioridades da 'pesq uisa histórica arual".'º'
Rck-r Warhurg amalmeme exige uma invcrsao de perspectiva. Sua maneira
muito particular e radi<:al d e p ra tic a r a hi sró ri.a da arre, de abri-la, teve como
efeito, ao que me parece, rcfazcr as perguntas da a nrropologia histórica - a q ue
ele herdou, em cspc,;ial, de Jacob Bur<:khardt e Herma nn Usener -, a partir de
a a
um ponto de vista relativo efid cia simbólica das imagcns. Nilo caoc h is t ó -
ria d a art<' " renova r-se" com bas e em " novas" queStoes, form uladas pela dis-
ciplina histórica, a respeito do imaginário;' º"cabea próp r ia discip lin a h istó ri-
c a reco nheccr que, numdado momento de sua história, o " pensam ent o·pilo to",
a " novidade", vcio de uma refk xiio específica so bre os poderes da imagem.
Para \Xlarb urg, de fato, a imagem constinúa uro " feno meno ant ropológico
rotal", uma cristaliza4,ao e u ma condensa4,iio pa rti cularm ente significativas do
que era uma "cultura" IKultlir] n um momento de sua história. É isso que é
preciso compreender, de imediato, na ideia que \Xlarburg prezava de uma "for·
4,a rnirnpoética da imagem fdie mythenbildende Krafr im Bil,i¡."º E foi por
isso que ele nao vivenc:iou nenhuma contradi<;iio " disciplina r" ao orientar seus
esrndos para as "fórmulas paté ticas" do Renascimemo - as Pathosformeln ,
csses gestos intensificados na reprcst nta ao pelo recurso a fórmulas visuais da
Anriguidad(·dássica -, pau pesquisas so bre as rnún i'>1ssociais, a coreogra fia,
a moda no vcs1uário, as c:ondurns fes tivas ou os cúdigos de cnmprimentos
e sauda ñes.111
Em s uma, a imagern nao dcvia ser díssod ada do ugir global dos mcmbros
de urna socicdade. Nem do saher próprio de urna época. Tampouco, é claro,
do crer: aí reside o utro elemcmo essencial da invcn4,iío wa r burguiana, q ue foi
ahrir a história da arte para o "continente ne-gro " da eficácia mágica - bem
como litúrgica, jurídica ou política - das imagcns:

(.,.) uma das verdade ira tarefas da história da arte JK1mstgeschirl,tcl é,


com feito, fazcr cmra r 110 c¡uadro de urn estudo histórico ap rofundado
essas (·ria óes saídas das regioes mal esdarccidas da literatura de propagan-
da polírico-religios.:1; na verdade, e.ssa é a única maneira de captar cm toda
a sua ext<·nsao uma das quesroes mais importantes da pesquisa científica
sohr(' ;,s dviliza9oes e os estilos (eme dcr /i,111f1t{ragcn dcr stile1fors,·hende,1
K11/ttt.nl'isse,1sd,aft ] ( . . .), e de rearar oferecer-lhe uma resposra.' "

O dcslizarnento do vocahul:írio é significat ivo : pass a mos de uma história da


arte IKu nstgesc/Jicht e] para uma d é,ncia da cultura [Kulturu,íssensd1a ft ], a qua!
, ao mesmo tempo, abre o campo dos objetose cncerra o enunciado dos problemas
fundameotais. A K1111stgeschicbte relata, po r exemp lo, qu e m u ge-
nero das belas- a rres chamado " rá rati>" s urgiu no Renascimenw gra, as a
vi-
tó ria humanista do indivíd uo e ao prog resso das técn icas rn.i.méticas; mas a
K11/t11m•issensch,lft d e Wa rb urg conta rá outra hisró ria, de ,1cordo com o tem·
po hem rna is comple xo de mn novo <:rui.amenro - um em rela am rn to, uma
sobredetenninac.r-.Jo - entre a rnagi a antiga e paga (re1na nesce ncias <la 111wgo
romana ), a li turgia me d ie.val e c risra (prá t ica de ex -vo ms so b a forma de dí-
gies) e d ados artís ticos e inreleccuais próprios do Quam ocenro; com isso, o retrato
se transfigurará aos nossos olhos, 1ornand <>-S<' o su p o rt e a orropo lóg ico de uma
"forr;a mito pot't ica " da qu a! a hisrória da arte vasariana se mostra ra incapaz d<'
da r co ma. ' "
Assim, a Kmrstw issensch1,ft, ciencia da arte" ardememcmc desejada por
Warburg nos anos da juven m de, assum iu a forl!la d,·11111 qucs tiona menro es-
pecífico so bre as image ns no q uad ro - inespecífico, aberto a perder de vista - de
uma K11/t urwis sensdJ<1{t." 4 Era nece.ssário abrir o campo d os o b jetos passí-
veis de imeressar ao h.isroriador da arre na medida em que a o bra de a rte já
nao era vista como um objetoencerrado em sua própria história, mas como o
pomo de cnconrro dinamico - Walter Benjamín aca baría falando em fulgu ra-
fo - de ins ta ncias históri<:as heterogeneas e sobre.determ in ada s . Em seu art igo
ma¡-,istra l sobre o conceirn warburguiano de K11/t 11rwis se11scbaft, Edgar Wind
escreveu que roda tentativa de desvincula r a imagem (inclusive a rrís rica ] de
seus lm;os com a religiao e a poesía, o c ulto e o d ra ma, i co mo retira r-lhe seu
próprio sangue lli/eb/ood ]" . " ' Co ntniriando qualquer ideia de uma história
a utóno ma das irnagens - o que nao significa que se devam ignorar as esp.-cif-i
cidadcs formais -, a K11/t11rwisse nschu ft de \Varbur g aca bo u, po rranro, por
almr o tempo <l<-ssa históría. Ao manda r grava r cm letras maiúsculas a palavra
grega co rrespondente a mem úria J Mnem osyne l no a lto da porta de sua hiblio-
reca, Wa rb urg indic,m ao visirante que ele estava entrando no território de
outro tempo.

A im.;gem sotue•1
ve
i nte 41
Nachleben, ou a ant ropologia do tempo:Warburg com Tylor

Esse outro tempo tem por nome sobre viveucia" jNachleben]. Con h ece mo s
a ex p r essa o -chave, a misteriosa palavra de ordem de toda a empreirada war-
burguiana: Nach/cbetz der Antike. f' ase é o " problema fundamental", do q ual
a pesquisa a rquivística e a biblio teca renraram reunir todos os mare ria is, a fim
de comp reender suasscdimenra oes e as movimcma<;i\esde t<:'rre n os . "" É ta m-
bém o problema fundamental que Warburg ren ro u co nfro nta r no próprio
campo - e no tempo cnrtíssimo - de sua experiencia indígena. Assim, a nt<:S '
de imerroga rmos a id eia de so brevivencia no co nrex w de uma ªcienda da
culrura" , pacientemente elaborada por Warbu rg a partir das imagens da Anri-
guidad e e do mundo ocidemal mo derno , par en · o por tuno simarmos a emer-
gencia experimenral dessa pro blemática no terreno ponrual e "d esloca do" da
viage m ao territó rio dos hopis. A fum;ao teó rica e h<:'urí rica da a nt ro pología
- sua ca paá d ade de desterr ito ria lízar os campos do sa ber, de reint roduzir a
diferen a nos o bjetos e o anacro nis o na hist<íria - só fa rá apar('CCr isso com
mais da reza.
A "so breviven6 a" , que Warburg invocou e inte rrogou duramea vida intei-
rn, é, de iníd o , um co nceiro da a nt ropología anglo-saxóitica. Quando, em
1911,J ulius von Schlosser - amigo de Warburg e, em nmiros ponros, próximo
de sua problemática1.1' - recorreu a " sobrevi ve nc ia" da s pní tic as figurativas
ligadasacera, nao empregou o vocab ulá rio t spo nra neo <k: sua p ró p ria lí ngua:
nao escreveu Nachlebetz, rampouco Fortle/>en ou Überleben. Escreve u sur-
1, i ,,al, em ingles, como as vezessoía arnmccer a \Varburg.'" Indício significa- tivo
de urna cira ao, tun empréstimo, um deslocamcoro co nceitual: o que é
citado por Schlosser - o qm', ames dele, Warburg tomara emprestado, deslo-
cara - nada mais é que a surz,ival do gra nde etnólogo briranico Edwa.rd B.
Tylo r. Ao dcixa r su bita me nt c a Europa e se dirigir ao Novo México, Warburg,
em 18 95, nao fez urna "viagem aos arquétipos", [1 journey to the archet y pes j,
co mo ac reditou Fritz Saxl, mas lUlla "viagem as so brevivencias"; e seu refew
ren c ia l teó ric o nao foi James G.h azer, como rambém es,: rcvcu Saxl," 9 mas
Edwai:d B. Tylor.
Aoque eu saiba,os comentar istas de Warburg nao prestaram aren<;ao a cssa
fome anrropológica. Quando muiro, consideraram apenas as diferen as. ErnSt

Aimagemsobn:vi•,c,ntc 4.3
Gombr ich, por exemplo, afirmou q u<' a "ci,·ucia da cult ura" reivindicada por
Tylor nao poderia ser bem vista por um discíp ulo d<' Burckhardt que:- se preo · c
upava, a,:ima de tudo, com a arre ita liana... w> No enranro , essa «ciencia da
cultu ra" [science of rnlturej imperou na aberrura de um livro a tal ponto capi-
tal - C11/tu r.1 primitit•,1, publica do em Londres em 1871 - que a etnología, no
fim do século XIX, aca bo u sendo comumenre chamada de "a ciencia do Sr.
Tylor".121 A nowriedad<" de um livro, mesmo imenso, como uesre caso , dcccrto
nao basta para garantir eu status de fome reórica. O pomo de enmaro c mrc a
K11/tt1rwissensd,t1(tde \Xiar burg e a ciénciad,¡ e.u/tura deTylor reside, so brem-
do, no estabelecime nro de ,nn vínculo partit·ula}entre história e m ztro pologia.
Ambas, com efeito, rinham o projero de superar a eterna oposi,ao - da qual
Lévi-Stra uss, um século depois, ainda faria a consrara ao crítica''" - entre o
modelo de evolu ao que roda história exige e a espécie de imemporalida de
que comumeme se at ribuí a a mropologia. Warburg abriu o campo da hist6 ria
da anc a antropo l ogia, nao apenas para que nele fossrm reco nhcci<los no vos
objews a csrudar, mas também para abrir seu tem po. T)•lo r, por sua vez, ten·
cionava proceder a uma opera<;iio rigo rosa menre simétrica: corner;ou por afir-
mar que o problema fundamental de wda "ciencia d,1 c ultura» fs cienceof
mlture] era o st·u "desenvolvimento" (detd o pment of m lture f; que esse desen-
volvimenro nJo c:-ra rcdutívd a uma leí de evolu ao formulávd com base no
modelo das ciencias natl1rais;1H e q ue a etnología nao podía compreender o
que significava "cultura", a nao er fazendo hist6ria e aré arqueología:
(...) qua ndo alguém prornra perccber as leis gerais do movirncnto intelec-
tual fe rnlrural em geralf, encomra uma vanragem pr:itica em fazer suas
pes<¡u isas ern relíq uias ciradas da Amigui<la<le ftttnon g ú nliquúr i,m relics] e
que ho j(' só tíim uol pequen<> ínreresse.'"

War hurg deceno naodevia renegar esse princípio merodológíco da inatua·


lidade: o que faz sentido numa cultura, muitas vezes, é o símoma, o nao pen-
sado, o anacr6nico dessa culmra. Eis-nos já 110 tempo fant,1smal da.s sobr ez•i-
11en cias. Tylor o introduziu teo ricamem e, 110 comec;o de Cultura primitiZ1t1,
cons ratando que os dois modelcls <:om:orrentes do "desenvolvimemo da cultu-
ra'' - a "teoria do progresso" e a "reo ria da degeneresct'nda" - pediam que
fosscm dialctizados, ent rela, ados um corno outro. O resultado seria um 11á de
tem110 di fícil de dccifrar, pois nele se cruzariam incessantcmentc movimentos
de evolu iío e movimentos resisremes a e vo lu,;iio. '" No espa<;O ca vado por
esse cruzam.cnto logo aparecería,como di fere1á1 al dos dois estatutos tempo-
rais co111radit6rios, o CorKciro de .st1rvival. Tylor !he consagrnria uma parre
essencial de seu esfor o de fundac;iio teór ica.

44 Geot!)t-$ ()idi Hubcrman


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4. Poo{::is d e fle<h as<le obs idi ana.Méx.ic.<>. p(-i: histúria. tgundo E. B. Tylor,
Anahuac,l oJ1dres, iS6 l. p. 96 .

Mas a pa lavra havia surgido em sua pena, como que esponraneamente,


num outro contexto, nwna ourra remporalidade de experiencia: num dcsloca-
mento. Mais precisamente, numa viagem ao México. E ntre mar o ,:- junho de
1856, Trlor havia cruzado o México a cavalo, feito observa<;oes e tomado
milhares de notas. Publicou em 1861 o diário dessa viagem - s11a ve rsao do s
. '
Tristes trópicos - , no q ua! encraram em cena, alternadamente,como que para
surprcsa dele mesmo, mosquitos e piratas, aligá to res e padres m iss iooá rios,
t rá fico de cscra vos e v<·stígio s a s tc c a s , igre jas barrocase cosnunes indígenas,
rrernores de re rra e 11s0 de a rmas de fogo, normas de etiq ueta ii mesa e manei-
ras de fa2.er comas, o bjetos de museu e combates de rua...'16 AnaJmac é um
livro fasciname, porque assisü ruos ao asso mbro cont ú\uo do a utor: assombro
anee a idcia de que uma mesma experiencia, cm um mesmo local e um mesmo
momento, pudesse veicular essc ncí de t1.n,1a o11ismos , essa mistura de coisas
passadas e <:ois a s p rese ntes. Assim, as festas da Seman a Santa no :V(éxico a m-
alii.avam n 1mcmo ra, 6es heterogeneas, semin istas e semipagas; o mercado
indígena de Grande atualizava um sistema de numera, ao que Tylor acreditava
que s<Í p o deria encontrar nos manuscritos pré-colombianos; e os ornamenros
dos amigos facoes sacrificiais aproximavam-se dos encontrados nas esporas dos
¡,aquero s mexicanos.. .11' (fig. 4- 5) .
Dianre de rudo isso, Tylo r teria descoberro a e xtrema varicda <le e a ve rtigi -
nosa complexidade dos fatos culturai s (o q ue rnmbém se scnrc ao p<-r corrcr
Frazer), mas re ria igualmente descoberto algo ain<la mais perrur bador (qu<"
nunca senrimos ao ler t razer): a ,1r,io 11e rti gi 11os, 1 do rempo na atualidad<', na
" superíície" presente de wna dada cultura. Essa vertigem se expressa, inici al -

Aimagemsobrevivente 45
S. Agu1lhócs p:n.; hriga.s d<'galo. !\6J :-1.,· o, século XIX. uodo F. S.
Tr l<>r, Anahu.ac, l.cmdtc!>, 1 86 1, p . 2 S4.

menre> na intensa S( ns 1'jÜO - evidente t'm s i, porfan menos óbvia ero suas
consequenóas metodo lógicas - de que o presenre se tece de ,míltiplvs p,1ssa-
dos.É por isso que o etnólogo, aos olhos de Tylor,<leve fazer -sc histo riad or de
cada uma de Sllas o bserva<;oes . A complcxidade " horizonta.l" do <¡lle e le ve
deco r re, antes de mais nada, de urna compkxidade verrical - paradigmárica
-do tempo:

Prog.rcsso, dcgrada<;ao, sobrevivencia, rcvivt Cncfa, modifica<;3o l progress,


degrad1,tio 11, sitrviz,al, ret1it1tzl, m odi fic.ztic m], u u.Jo l sso sito formas pelas q
uais se ligam as pa rres da complexa rede da nvili7,a ao. Basca urua olha - de
la para os dctalhes banais lt ril'ürl detailsj da nossa vida cotidiana para nos
levar a disringuir ('rn q ue medida somos criadores e em que medida só
fazcrnos transmitir e modificar a hera n a dos séculos anteriores. Aquele que
só conhecc s ua própria época é incapaz<l,• se dar coma do que véiquan-
do, simplesmente,olha em volm em S(' \l quan o. Aq, u há wna madressilva
da Assiria, a li, a flor-de-lis de Aujou; uma cornija com moldura a moda
grega contorna o teto; o estilo Luís XV e o estilo Regencia, ambos da mes-
ma famílb, compartilham a decora ao do espclho. Transformados, desto-
cados o u mutilados {mm sformed, shi fte,i , or mutilated], esscs elementos
ar tístkos a inda guardam em si, plen,mwnw,a marca de sua história [still
c,trry t/Jeir history¡,Iafo/y s111m ped11po11t/Jmr[; e se, nos objetos mais anti.
gos, a hisrória é ainda mais difícil de lcr, nao devemos concluir <lisso que
eles n:io a rem.1! 3

É cara , erístico que esse exemplo de sobrcviv ncia - um dos prinieiros ofe-
recidos em C:ultur.z primitim - diga respcito aos elementos formais de mna
ornamenta<;iio, as pa la vras primitivas" de q ualquer i<lei a de estilo.129 É igua l-

46 Geot ge s Didi-Huberman
mente característico q ue essa sol>rev ivi:n cia das formas seja expressa em rer-
rnos de mna chancela lstamp l. Dize r que o presence t raz a marca <le m últiplos
passados é falar, antes de mais nada, <la indes rrurib ilida de de uro.a m a rca do
rempo - ou dos tempos - nas pró prias formas de nossa vida arual. Assim,
Tylor fata da " tenacidade das sobrevivfocias" [t he stre 11gtb uf thcse sur,uir a ls )
pe l as q u a is, o urra metáfora, " os velhos há bitos conservam suas raízes nwn solo
revolvido pM urna no va c ultura ". ' 'º Ele tam bém co mpa ra a tenad dade das
sobrevivcncias a " u m rio q ue, havendo escavado uro leiro para si, corred nele
dura nte séculos" . É um modo de exp ressar,semprc cm termos de marca, o que
' ,
ek chama de " permanencia da cultu ra" ( pcrmanence of rnlture)."'
E is k va n rad o, po n a nro, um " pro blema fundame ntal" em q ue \Varburg
bem poderia reconhecer sua própria inrermga<;a o so bre a " permane ncia" , a
tenacidade das formas amigas na longa durac;ao da hisró ria da arre ocidental.
Masisso nao é rudo. Tal permanencia poderia ter-se expressado - como mui-
ras vezes fez, no séc.:ulo XIX, em algumas ant ropologias filosó ficas- em tccmos
de "essencia da c ulruca". O imeresse funda menta l do pensamento tylo ria no
nesse ponto, assim comosua proximi<lade da abordagem warburguiana, pren- de-
se a um complemento decisivo: a " permanencia da cultura" miose exprime como
uma essencia, um cra o g loba l o u um a rquétipo, mas, ao cont rário, como um
síntoma, um trn<;o de excec;ao, uma coisa destocada. A umt1cidade das sob rcv
ivcnc ias, sua própria " fo c;a" , como diz Tylor, nasce na tenuida,te de coisas
minúsculas, s upérfluas, ridículas ou a no.rmais. A so brevivencia, como tal,
reside no simoma recorrenree na briucadeira, na parologia da língua e no
inconscienre das formas. Por isso Tylor se debrusou so bre as brincadeiras e os
brinquedos infanris{arcos, arirad eiras, ma traca s, jogo de encame ou ba- ralhos:
sohrevivencias de antigas prátícas muiro sérias, de guerra0 11 a divin ha - c;ao ), a
ss im c o mo Wa rb urg se deb ru<;a ria, ccn:ipos depo is, so bre as pr át icas fes rivas
do Renascimcnt o. Tylor imerrogo u os rra, os de linguagern, os dita do s ou p ro vé
rbio s e as formas de sauda,,ii<,"z ra l como quis faz<·r Warburg, mais
ta rde, co m r<'speiro a <:iviliza<;iio florrn tina.
Mais que tudo, porém, Tylor iot<'r<:'sso u-se pelas so brevi,·focias so b o a n-
gulo mais esped fic() das superstiróes. A pró p ria defin i, ao do conceito anrro-
pológico foi inferida po r ele do sentido tradicional d<' su p<:rst iti o e m latim:

Poderfamos, nao scrn razao, aplicar a rais fatos a qualifica,áo de su¡u:rsti-


¡:,io, urna qualifica ao que seria legítimo estender a urna profusa.o de sobre ·
vi vencias. A ('tirno lo gia da palavra superstif,io, que origina.lml'nt e pa rece
haver significado o que persistede eras antigas, toma -a per feicamenw a pro-
priada para exprimir a ideia de sobrevivencia. Hojc, t nt.reranto, esse termo
implica urna censura (...). Par" a ciencia etnográfica,é indispensável imro·
duzír urna palav ra e.o rno sobrcz,iz.,é-ncia, <lesc inadasimplesmemea designar
o fato hisr6rico.n1
É compreensível, portanm, que a análise das sobrevivencias cm Cultura
primiti11a rn lmine mun longo t·apírulo dedicado a magia, a as t rolo gía e a codas
as suas formas apar("nt a da s. 114 ( :01110 niio pensar nesse auge da Nachleben der
Antike que é cons1ituído, em Warburg, pela análise das manipula o<S ' astroló-
gicas nos afrescos de Ferrara, ou nos próprios c-sc r irns de Martinho Lutero?' "
Nos dois rnsos - ainda nao estamos falando de Rreud - , sao a folha na cons-
ciencia, a incou c ao na lógica, o comrasscnso da argumenta iio que, a cada
vez, abre:m 11<1atualidade de11m(.,tohistóricua brecha de.suas sohre 1•it1enci11.s.
T ylor, ant<'S de Warburg e Fretid, adrnirava nos " detalhes bana.is" ft ri 11ial de-
tail.sl a ca paci dad e de darem s,·ntido - ou rnelhor, de gerarem sinroma, o que
d<' tamhém chamava de l,mdmarks ¡ma rcos] - a s ua próp ria insignificancia.
Ames de Warburg e d,·scu interesse pelo " animismo" das efígies votivas, Tylor
- enrre omros, é v<"rdade - ce mara criar urna teoría geral desse poder dos sig-
no,s. ,. Anres de \Varburg e de seu fascinio pelos fcnomenos expressivos d o
gesrn, Tylor - igualmente enrre omros - 1emara uma reo ria da " linguage m
emoc ional e imita riva" [emotion,,/ ,md imitatíve langu<1g e m]. Antes de War-
burg e Freud, de havia reivindica do a s ua maneira.a li .io do sintoma - absur-
do, lapso, doen a, lo ucura - como via privilegiada de acesso aos tempos ver-
liginososdas sohrevivencias. Seria a uia do sintoma a melhor mancira de ouvir
a 11oz dos fantasmas?

Ta lvez red amem que, no curso deste <·srudo consagrado ao q ue chamei de


sobr(wiz,éncias do antigo estado social, e que l o restos enfraquecidos da
cultura das primeiras eras, (...) cscolhi nlllitos exemplos rd erentesa coisas
que esriio em desuso, ,·oisas sem valor, frívolas, ,. at(·de urn a bsurdo q ue
oferece perigos e d<· uma influcnt"ia niim. Jifa s preferí propositalmemeesse
tipode provas, dcpois de ter podido assegurar-m<·,por ruinhas pesquisas,de
quamas wzcs nos sucede rer que. agrade,er aos loucos. Nada é roais curioso
q ue ver, emboracontinuemosna superfície do assunto, quamo devemos it
burrke, ao cspírito conservador ( xa.ge r3do, 3 supcrsti ao o bstinada , na
prescrva áo dos vestígiosda hist6ria da nossa cspfrie, vesrígios de quesn ia
precipita do apagar, sen> o menor remorso, o utilitarismo pd tico.ns

Enrre famasma e sinroma, a ideia de sobrevivf nc.:ia se ria, no campo das cien-
cias históricas e antrop ológicas, tuna expressao específica do mstm.rn War

4$ GeorgesOidi·Huberm.an
burg, n>mo sabemos, imeressava-se pelos vcscígio s di, Amiguidade d áss.ica:
vestígios que náo t ram redmíveis a exist¿ncia o h jeta l de resros materiais, mas
.J1nda ass im s ubsistia m nas formas, nos estilos, nos comporrnmen rns, na psi-
q ue. Podemos comprecndcr facilmenre seu inreresse pelas suwim /s de T ylo r.
E, u pri meiro lugar, d as design a vam uma re,zlidade negativa - justa me1teaque-
ta que apa rece numa cultura como um refugo, algo fora de época ou fora de
uso (os b,Jti florentinos, por cxemplo, resremunha rnm, no século XV, uma
prárica já isolada do presente e das preocupa,óes " modernas que ftmdaram
.J arte renascentista). Em segun do lugar, as sobrevívéncias, segLtndo Tylor, d e-

s,gna va m urna rea,/id u fe ,nasc,mutli: algo persistía e atestava um estado desa -


pa recido da sociedade, porém sua própria persisti:ncia era acompanhada de
urna modífica<;ao essen cial - mudan<;a de estatuto, mudan<;a de significa <;ao
( di zer q ue o arco e a flecha das guerras amigas sobreviveram como brinquedos
mfamis (- diz er, evidentemente, que s(·u status e s ua significac;ao se modifica-
ram completamente).
Nisso, a análise das sobrevivencias se evidencia como a análise de manifes-
ra oes simomais e fanmsmais. Elas designam urna re11lidc2de dei11trus.io, a inda
q ue tcnnc ou até insensível, c por isso dcsig nam rambém uma r,,a/idad e espe/'-
:ral: a sob revi vencia astrológica aparecería como um " fantasma" n<) di scurso
d e L utero, um fantasma cuja efic,k ia \Varhurg podía reconhecer atra vés de sua
narureza de inrruso e de imrusiio - de simoma - na argumenra,;ao lógica do
pregador da Reforma.''"' Nao é de admirar que a fortuna crítica das s11r11fva/s
rylorianas tcnha concernido, inid alment<·, ao s f<-n i'>m <·no s da ff : es s e conceito
encontraría no campo da história das rd igik< s as s uas mai.s numt-rosas a plica-
oes.' 41 Alguns estudos arqueológicos dt> longa dura,;iio, amecipando se ao
que André l.eroi-Gourhan viria a chamar de "e,;tereó üpos técnicos", terimn
sabido, aind a assim,abordar a história dos objews so b o J ugnlo da survival. 141

Atmagemsobtevlvente 49
Destinos do e volucionis mo: heterocronias

É for oso constatar, emreramo, que a ideia de sohrevivencia nunca receben


ruttito boas críticas - e niio apenas na histúria da arre. Na época de Tylor, acu-
sava-se a sim1i1,al de ser mn conceito nmito e;trut,mil e absrrato, urn conceim
que escapava a qualq uer e-xaridiío e qua lquer verifica,áo facruais. A obje<_a; o
pos i rivisrn consistía em perguma r: co mo voces fazem pa ra datar urna so brevi·
,'éncia?Hl Isso equivalía a comprccnde r muiro mal wn conceiro que se desrina-
va, justamente,a qualificar tun lipo nao " hisrórico , no sentido rriviale factual,
de remporalidade. Hoje, a s1t1Z1i11a/ mais seria acusada deser llll l conceitonmito
pouco e.stmtu ral: u m conceito, resumindo, marcado pelo selo woluáonista. E,
por isso, fora de época e fora de uso: em suma, um velho fantasma ó entificista
caractcrísrico do século XIX. lsso é o que se acredita poder inferir de uma an-
iro pologia moderna que, de Marce[ Mauss a C!audt llvi-Strauss, t<'ria produ-
zido a reoriema,ao necess:ríia de conceitos etnológicos excessivamente marca.-
dos pelo essencialismo (,l la fr azer) ou pelo empirismo (a /,¡ Malinowski).
;.fa s, ao destacar as linhas crítil·as,perccbemosque as coisassilo mais com-
plexas, com nuanccs maiorcs do que parccem. O que está em causa náo é a
iiObre vivi'ntia em si, e s im um valor de uso que !he teriam dado algu ns em ó-
¡ttafos anglo-saxoes do firn do século XIX. Ma uss, po r exemplo, nao hesitava
•¡¡i rev iindicar esse termo: o tncciro capítulo de seu Ensaio sobre ,l dáditia se
m itula "Soh revivcncia dos priocípios !onde se instítui a "troca de dádivas"!
-us formas de direito amigas e nas economías a.migas».144 No texto, ele expli·
.:..ou que os princípiosda dádiva e da rnmradádiva valia m como "sob revivcn-
aas" para o hisroriador e para o etnólogo:
(...) eles tem ,un valor sociológico geral, pois nos pn mitem w mpreender
um momento da evolu,;iiosocia l. l'orém bá mais. Eles também tém akance
na história social. lnstitui,;oes desse tipo realm(:ntc fomcccram a transi,ao
para11o ssasformas, nossas formas pr6prla de- <lirtito e dt econornia. Po-
dem servir para explicar bistoricamcnrc nossas prúprias sociedades. A mo-
ral a prática das trocas usadas pelas s,x:icd ad es que precederam imediata-
meme as nossas ainda guardam vestígo i s mais ou menos importantes de
t0dos os princípiosgue aca bamos de analisar (no q uad ro das chamadas
socieda d es "p rimitlvas"). 14 '

A. im:ig cm 'So'brcvivcntc ) 1
Nomro pomo, Mauss d 1cgaria a estendc,rc1idefa de sobrevitlÍi11d<1 as próprias
scx·iedades ''primicivas":

(...) nao há sod edade conhedda que nao ec nha ern luído. Os homens mais
primiti vos tém atrás de si mn passado imcnso; a tradi ao difusae a sobrc-
vivt'm:ia , p<>rt 1nto, desenlpenham um papel, m.esmo entre cles .146

Esse era um modo de dizer: nao só as sociedades "primirivas" tt'm histó ria
- o q u<·al g w1snegaram durante muito tempo, como atesra a expressáo "povos
sem hist ó ria" - , como tamb(,m <'SSa história é tiio comp lexa quamo pode ser a
nossa.Também é fe irn de t rnnsm issoes co nscienres; " t ra di <;i'>es d ifusas", '<o rno
escreveu Mauss., "I1m bémse constituí - ainda que, na falca de a rq uivos escri-
tos, isso seja difk il de analisar - m ema inreraqao, on nó, de temporalida de s
heterogeneas: um nó de anacronismos. Quando Mauss critica o uso das sur-
11iz1,1/s , porramo, nao é para questiona r essa é'.o mplexidade dos modelos do
tempo. É, ao conmí rio, para refuea r o ei•olucionismoerno!úgk o como uma
simplificac;ao dos modelos temporais. Assim, qua ndo hazer desaevr as sur-
11i, 1t1/s da " .imiga nmfusáo entre religiao e magia" , Ma uss res ponde que "a
hipó eesc <i: rnuito po urn e xplicativa" - a hipótcsc, entenda-se,de urna confusao
enrre magia t· religiao, que teria sido seguida pd a autonomiza<;ao da s egunda,
tnais racional, mais n1oral, n1ais "evoluíJa", <.'"m s uma.14•
Mauss Lambém criticou com perspid cia o que continua a S(·r a outrn ann a-
dilha a ucial d e qualquer análisc das sobrevivencias , a qua! poderfamos ,ha
mar de ,1rqueti pismo. Fsre leva na o a s implifica<;iio dos modelos do tempo,
mas a sua nega<;i\o pura e s im ples,a sua dilui<;ao num essencialismo da cult u-
ra e da psique. A grande aseú, ia dtssa armadilha é o chamarizconsrituído pd a
percep<;iio analúg,ca . Q na ndo as semdhan<;as se rornam pseudomor fismos, q
uando servem, ainda por cima, para d<;>s tacar urna significa.;iiogeral e atem-
poral, {-daro que a sur11iu<1/ torna -se u ma mit ifica<;ao, um obmk ulo e pisremo--
lóg ico.· "1 De s t aca mos desde j,i q ue a N<1,-hlehen warhmguiana potll' ser imer-
pretada e usada para tais fins, aq uí e ali. Mas o esfor o filológiw de Warburg,
sua percep<;ao das singularidades, sua rem ativa constante de puxa r to dos os
fios, de idenrifi<:a r (:a da pequeno decalhe - mesmo quando sabiaque os fios lhe
esca pavam, que tinham sido rompidos, corriam pelos suhso l.os - , rudo isso
afosca a N<1cbleben de qu,,lq ut-r ess'l ncialismo. A ana mnese sint<>m, 1', decid-i
danwme,niio tem na da a ver com a gerwraliza<;áo ,m¡ue t í pi<"<l.
A críri,:a de l.évi Srrauss, no capítulo imrodurório de A11t m polog1<1 cstr ut u-
rul, parece bem mais dura. É mais radical, mas, por isso mesmo, mais parcial e, ve-,,
po r o utra, porradora de inex,ni,d<' e s, s, · naode uma suspeira de má-fé. Lh i-
-Srrausscomer;a seguindo os passos de Mauss: n itirn o arquetipísmo e sua utili-

51 Cieo rg e-s Oidi·Huberman


za ao errónea de analogías substancializadas, de pseudomorfismos de uso uni-
versal.1• 9 Ora,éo própríoTylor q uem \ ".Ü buscar seus vestígíos. O arco e a,fl -cha
n5o forrna in uma "espécit", como dizia Tylor, num linguajar c·.ak ado no elo
biológico da reprodw,:iio, po rque, "entre dois urensílíos idénticos, ou enrre do ís
ute ns ilios diferentes, mas d(' formacao próxima q uamo possível,existe e exis1irá
sempre urna descontinuidade radical, que provém do fato de que um niio saiu
do o utro, mas cada ,tmdeles brmou de um siStema de representa<;ao" ." º
Nme-se de passagem que Warburg teria subscrito essa primeira afirma, ao
sem hesitar: trata va-s e de coloca r a1 or ga ni1.ac;ao dos s ímbolos na posi<;ao •
de
estrutu ra fundadora do mundo empírico.
Lévi-Stra uss deu urn passo suplemcnmr - e menos prudemc - ao dizer que
os esmdos provenientes de urna problemádca das sobre vivend as " nao nos
ensmam nada sobre os processos (... ) inco nsciemestraduzidos em experiencias
concr<.,tas" , o que eJe n1esmo invalidou, algumas púgu,as adianre, ao reservar
pa ra Tylo r um lugar quase íu ndador na avaliac;ao da nanu eza inconscicJ1tc
do s feni\menos rn leti vos" .151 Mas Tylo r, a scu ver,conr inua ria a ser aq uclc que
pra ticava uma etnología desprovida de qualquer preocupa iio h istó rica: has -
ro u-111(' cirar uma breve passagem de Rese.,rrt h es imo the l:<' 1rly Iii sto rv of
1ankind [Pesquisas sobre a bistória primitiva da huma nidade j (1865), sctu
scq ue r presrar atem;ao ao título d_o livro, e sobrerudo sem reconhcccr q ue, sc·is
.roos depois, Tylor desenvolvera, em Cultur,1 primitim, urna reflcxao sobre a
hisrnricidade das sociedades primit ivas que, ded did,unente, Lévi-Strauss qu e-
n a at rib uir wücamenre a franz Boas.u• Em 1952, o autor da An.tropologi,i
estrutuy,:¡/ viria a enunci ar sobre a histo ricidade " fora do :ilcance" dos povos
pnmitivos uma tt se que foi uma par.Hrasc totalmente inconsciente das passa·
,;ens tyloria nas citadas adma.•H
Tudo isso dc, xa ina lterada a quc·Stao de fundo: ainda se trata de saber o que
, ,gnifü·a "sohrevivéncía". E, para come<;ar, trata-se de saber cm que esse con-
. e,w decorre ou n,fo da dourrina evolucionista - em que sentido <' para que
".'!t'o pósiros. Qua ndo, no sét imo eapítttlo de seu livro Pesquisas sobre ,i história
mmiti·11,i da b1111u111i,i.1de, dedic a d o ao " l) ('senvolvimenm e ded ínio <la c ivili-
n ,;ao", Tylor colore seu texto com referénó as a Darwin, o propósito (, d a ra-
meme polemico: n <'SSC rnomcnrn, ele precisa joga r a evo lu<;ao humana contra
destÍJ.1ai;ao di vina, 011 se ja, A origem d,1s espécies co ntra a própria Bíhlia.'"
'."tecisa n ,a hilirar a " reo ria do des,'iwolvime nto " e o po nto de visra da espéót
, 't)ntra as teorías re ligiosas da degenerescencia e da visa.o do pceado o riginal.;' ' l

rnpoe-se urn esd a recimentosuplernenrar: no momenro ern que Tylor entrn "teSSe
jogo de referencias, o vocabulá rio da s1mw,zl ainda niio foi elaborado.
• !esrno que o debate sobre a ('volu,;i'io co nstitua seu horizonte e pistemológico

Almagemsobfc-vivcnt S3
geral, a ideia de sobrcvivenciase co11sm1irá em1ylor de um modo cbramcme
independente d,,s dourrinas de Darn-;n e de pencer.'"' Enquamo a sek <;.io
nawral falava de " sobrc\'h·end a do mais apto" [suw i t•al of the {ittest[,garan- tía
de novid.ide biológci a, Tylor ¡1hordo11 a sohrcv,vi'nda pelo angulo inverso dos
ek·memos cuhurais mais "inaptos e unpróprios" l•mf,t, in appropriatcl,
portadores de um passado acabado e ni'io de um futuro evolutivo.,,.

:..• ::• ,-;,

Em sttma, as sobrevivencais nao passam de sinromas portadores de desork·n-


ta ao temporal: nao sao, em absoluto, as prcmiss.1s de uma teleología cm
curso, d(· qualquer "sentido evolutivo . Deceno atl"Stam um c-s tado mais o ri-
ginário - e r("<"a k ad o -, mas nao dizem nada sobre a evoluc;ao como tal. Sem
dú«ida ti.'m "alor diagnóstico, mas nao tém nenhum "alor de prognóstieti.
Reco rde mos, en fim, que a teoría da cultura, segundo T¡-lor, <'ra tau pouco
dccorreme de urna biología quanto de uma tcologb: para ele, os "sd vag¡' ns
nao ,·ram os fóssets de urna humanidade origin,\ria, tampouco os degenerados
de urna semdhan -.i com Deus. Sua teoria ,·isava, antes, a um ponto de vista
l,istórim e filolágim ,' 1 o que· hem nos moscra o imeressc de que pode cer-se
revesudo aos olhos de Warhurg.
llma coisa (, certa: o conceito warburguiano de sobrcvivend a [N, 11· /J/ebc11]
conheceu suas prtmtiras aproxima,ocs num campoepisc&mico ligado aos o b-
jetos da antropologi:1 e ao horizonte gcral das teorías evolucionisrns. Nisso,
afirmo u Ernst Combrich, Warburg continuaria a ser um "homcm do século
XIX··; uisso, ele cond uiu, sua hisc6ria da arte permanecería envellwcida, ul-
trapassada <·m seus modelos teórirns fundamentais.i<• Ess.i é urna simplifica-
"lio brutal, nao d<-sprovida de má-fé. Na melhor das bipÓt('ses, a testa a difkul-
dade <'.<Hu que dq,aranun os iconol ogis ta s da segunda ge.r.1<;iio quanto ugest:io
de uma berJn<;a decididamente fantasm:ítica dcmais para ser "a plicávcl como
tal. Na pior, cssa simplifica<;i.\o visa a tomar a fechar as vías teóricas aberras
pela própria idcia dt Nacl,lebcu.
Um Warbur¡«; evolucionis ta": o que quer dizcr isso? Que ele !eu ll arwin?
Quamo a isso, nao há a menor sombra dr dú,·ida. Que de rei"indicou urna
"idcia de progn•sso" nas artt'S e adorou urn ''modelo co11ri n uísrn" do re1n-
po ?""' Nada é mais falso. Lembremos, para com r, quea domrina da e,·olu-
\'aO introdu,.iu a quest,fo do tempo nas ci ncb s da vida, para além da 1011¡:a
dura <;iio cósmica", corno a chamou Georges C:ang uilhem, com que Jaman:k
ainda coostruía seu arcabou,o de pensamemo. Mas levantar a qu(·srao do tempo
j,í era kvantar a qucst,io dos t1m1po s, istoé, dasdiferentes modalidades

i 4 GC'<!19es Oidi Hubem n


= porais manifestadas, por ex<'mplo, por 1m1 fóssil, um ernbriao ou um órgao
rudimcntar."'' Patrick Ton, por outro lado, mostrou que cni abusivo idemifi·
c.1r a filosofía de Herbert Spencer- cssa q ue vem espomancamcotc a lcmbrao-
q uando se pron uncia a palavra "evolucionismo"- coma teoria darwiniana
da evolw;ao biológica: a segunda é wn transformismo bioecológico d o dc v.ir
dasespécies vivascomo sujeiras a varia,ao; a primeira é uina do ucrin a, ou até
uma ideologia do se mi<lo d a hisrória, c,1jas cond usóes - disseminadas nas
d asses dirigentes e nos meios indusrria is do século XIX - se opoem,em muiros
3Specros, as <la Origem d,is es pédes.'"'
O piv<> do mal-entendido pr0\1ém justa mente <la ideia de sobrevivénchi.
Somente na quima edi,ao de seu livro Darwin fez imervir a expressao spence-
nana " so brtvivencia do mais apto» [su rlfiml of the fittes t ); os episremólogos de
ho jc só vctm confusao teórica na associa,ao <lessas dua s palav ras (q ue Tylor,
co mo vimos, dissocio u criteriosamente). Falar dessa maneira, com efci-
to, é rc<luzir a sclc ño a s o bre vivenc.:ia: os mais aptos, os rn ais fortes so hrevi-
ve m aos omros e se multip lica m. A ideia de q ue ess,1 lei possa conrernir ao
mundo históricoou culrural é de Spencer, niío de Darwin, que via na civiliza·
,;ao, antes, uma forma de nos opormos a sele ao natural - de nos "desadap·
rarmos".'"' Nesse sentido, \Varburg foi darwinista, sem dúvida , mas nao evo-
lucionista no seneido spenceriano.
Nele, a Nachleben s6 tem semid·o ao tornar complexo o tempo histórico, ao
rcconh<'t·er no mundo da cultura temporalida<les específicas, nao namrais. Ba-
S<'a r urna história da arte na "sele"ªº natural" - por elimina.,:ao s ut·essiva dos
estilos mais fra,os, viudo essa elimina,iio a <lar ao fu turo sua perfenibilidade
e, a his t ó ri a, sua td cologia - <',com certeza, algodiamttralmenteoposto ao seu
projeto fundamenral e aos seus modelos de tempo. A forma sobre, vente, no
sentido de Warburg, nao sobrevive triunfalmcnrea mortc de suas wncorrenres.
Ao conrrário, ela sobrevive, cm re rmos sinro maise fanmsmais, ;, su,1 pró¡>ria
morte: desaparece num ponto da hist6ria, reaparece muito mais ta rde, num
momento em qtte talwz nao fosse esperada, tendo sobrevivido, por conseguin-
te, no limbo ainda mal definido de urna "memória coletiva". Nada está mais
distante dessa ideia do que o sisremarismo "sintético" e autorirário de Spence r,
seu suposto "<larwinismo social".164 Em contrapanida, é possÍ\•el levancar as
liga ik s entre <'SSa ickia de sobr<'vivfocia e cc·ttos enunciados <larwinianos re-
la tivos a co mplexidade e :i iotrica ao pa(ado:xal dos tempos biológicos.
A Nc1cblebe11, de sse poo ro de vista, poderia ser comparada - o que nao
significa assimilada - aos modelos de ternpo que consritue,n si.o.toma, precisa·
mente, na evolu ao, on seja, que criam o bstáculo a todos os <S ' <¡ ucrnas conti-
nuístas de adapta<;iio. Os teó ricos da evolu iio falaram em " fósseis vivos",

Aim.a9e m sol>tevivenre )S
esses ser'<S p e rfeita meme a nac r,ü, irns da sohrevivcncia.16 ' l'alaramde "dos
pred idos ," essas for mas inrernwd iá rias entre esrádios amigos e est-Jdios rece-n
res d e va ria<;il.O.' 66 No <.:o nceito de "rttrocesso", recusaram...st a opor u ma evo
167
lw ; ao " posit iv a" a uma regressiio " nt gariva". Assim, falaran, náo apenas de "
formas panc ri\nicas" - fússeis vivos ou formas sobrcvivenm,, ou sejao, r-
ga n i smo s enconcrados cm esrado fóssil po r coda p,1rre q ue eran, rido s ,:orno
desa p ar ecidos, mas d e re pent e eram desrnbertos, em cerras condio es, no es-
tado de organismos vivos168 -, m as ta mhém em " herer ()(.'ro nias", esses esrados
parado xais do s,·r vivoem que se cmnbinam fases hett; roegncasd ed escn vo lv -i
mento.'" Q uando a a<;ao normal da sele ao narural e das mura<;oesgen é ricsa
n áo pc·nn iria co m preen d,·r a forma<;iio de um a no va c,spécie, eleschcgar.am aré
a. folar de ('monstros pronüssores", organisrnos "nao comperirivos", porén1
capazes de gerar mna linhagem evolut iva rad k a lmeme d iverge nte, o riginal. ""
A s ua maneira, a Nachleben war hurguia no só nos fala, com cfrito, de" fós- sc-
is vivos" e forinas "rcrrogresslvas". Fala-nos, simt de hetcrocnmias, ou de
"monsrros promissores" - rn mo a porca prodigiosa de Lands(·r, com do is co r-
pos e o iro paras, que Warburg reria comcnrado, com base numa gravurad e
l)ürer, pelo prisma do que deno minou d(' uma "regiao dos monm os proÍL'tic os"
( Region der wahrsagende.11 Monsrra ].' " ' Mas rambém comprcend emos oma -l
-entendido4 ue pode ser induzido pelo adjetivo "evolucionista" a propósiwd e
m ua obra raoexperimental - ríio inqttit·tae heurística - quanto a de \Varburg.

Para delinear o obietoinaudito e a nacró nico de s ua busca, \Xlar b ur g p roced c u, na


verdadc, como todos os pioneirns: fez uma momagem sumária de um sis t<.·' ma
de e m p rk rimo s h c rer ogeneos, que dcsvio u de todos os demais pela si mp l es
"boa viziuhall(;a" . Erns t (;ombrich revclou - mas também superesrimo u - o
uso que ele fez do evolucionismo hetn odo xo d<:' 11 10Vignoli." 1 Ora, essa
fome positivista dcve ser situada do lado do romantismo de Carlyle, por exem·
plo: nela Warburg beben ourros argwucnros a favor do questionamento d,, bistória
induzido por todo rcconhecimenro dos icno menos de so hrevivenci a. Ca rl yle
nao influenciou Warburg a penas no plan<> da " filosofía do símb ol o"
- e do v es tuário - q u(· encontramos nesse livro esrranhíssimo queé Sartor
Resartus, ao q ual R-rtmos de vo lcar. N o me s mo contexto , ele esb o <;o u m ua
verdad,·ira filosofía da histó ria, em diálogo com todo o pensamenro al em íi:o
Lessi n g, J lerd er , Kant, $chiller t·, é daro, Goerhe.1 3 '
Foi urna filosofía da disrá ncia (a histó ria como aquilo que nos p<>e e rn co n-
t at o c o m o lo ngínquo ) e da ,' x pe riénc ia (a hisr ória como fílosofia ensinad a
n ncía); foi nma filosofía da t'isJo dos tempos, simultane mente profé-
r= os pectiva; foi uma crfrica da hisrória prudente, um elogio da histó ria
u;.;i; foi uma reo ria dos "sinais dos rempos" [signs o( Times] que o pr ó-
Y rl yle definiu como " hiperbólico•assintórica , semprc a p roc ura de li-
· es e profundidades dcsconhecidos. Enquamo a histó6 a, no sentido banal,
'.!Ta reconhecida como sucessiva, narrat iva e linear, Carlyle falou do tempo
"Om o mn curhilhao feítode ams e blocos [so /ids] inúmerose simulrancos, q ue
aca bou chamando de "caos do ser" [cbaos of Being]. 114
)-;iioé irrelevante saber que Wilhd m Dilthey, em 1890, comemou essa filo-
ioOrta da história em relas-ao ií sua própria "crírica da razao histórica".'" Por
..::1minhoscxrremamenrediferentes- divergentes em muiros pom os - , Ca rlyle
Dilthq puderam fornece, ao jovcm Warburg al ns ins rrumemos con cei-
-lis destinadosa const ruir aos pou, os o modelo rempora l de sua própria
tttrwissen schaft em forma iio." " A a bertura anrropol6g,ca da his tó ria da
i.ITe só podía modificar seus próprios csqtJrn ws de imeligihil idadc, SC\ls pró-
n os dererminísmos. Como quer que fosse, WarhtJrg viu-se pa rticipa ndo de
:na polemica que, naquck final do século XIX, opós os historiadores posiri-
ll$tas ou " es p ecia lis ras" aos defensores de uma Kulturgescbidne ampliada,
•.us <·o mo Salomon Rcinach o u Henri Berr, ua Frnn a, e, na Alemanha, Wi-
helm Dilthey ou Karl Lamprecht, o própr:io professor de Warhurg.
Que podemos condui. desse jog<Íde emprésrimos<· quesróes debatidas se·
c.io que o evolucionismo produi iu emao sua própria crise, sua própria crírica
m e rna? Rcconhecendo a necessida<le de ampliar os moddos rnnónicos da
l.:stóricr- mod elos narrarivos, modelos de conrinuidade remporal, modelos de
,lS"Sun ao o bjttiva- , dirigindo-sc aos poucos para uma reo ria da mcmória das
Jormas - uma teoría feita de saltos e larcncias,de sobre\'Ívénciase anac ronis-
.i os, de q uereres e inrn nsd e mes -, Aby Warburg efetuou nma ruptura decisiva
-om as próprias ideias de '' prog resso" e " dcscnvo lvimrn to '' histó ricos. J og o u
, evolucionismo conrra de mesmo. Desconst ruiu-o pelo simples reconheci-
mento desses fenómenos d,, so brevivencia, dos casos de NacMcben q ue agora
precisamos temar retomar em s ua clabora<;,fo específ ica.

Aimagem sobrevh,el'lt )7
nascimento e impureza do tempo: Warburg com Burckhardt

.uburg ela borou a ideia de N,1chlebe11 n um contexto histórico pre<:iso , aquc-


.pe foi o campo quase exclusivo d,e scus esmdos publicados: o Renascimen-
rm primeiro lugar o iralia no (Bottít·clli, <i hirlandaío e Francesco del Cossa,
tam bém Po)i.ziaoo e Pico della Mirandola ), de pois o flamcngo e o ale mao
.an ling, Van de r Go es, D ürer, bem como I.utero ou Melancton). l loje ror-
..os a nos dehrm;a r sobre essa idéia porque ela nos parece rrazer urna li ao
nea aprnpriada para - refundar , por assim dizcr, alguns grandes pressu-
·os de nosso saber sobre as imagens em geral. Jl,,fas n ao co n vé m esquccer-
- que foi no comrxro do Rcnascimemo, <1m p,1rtfrul.ir, que Warburg for-
...;ou o problema. Nao podemos exigir dele algo que nunca prometen (foi o
_ rez Gom bricb ao crnsurá-Jo, po r exemplo, por 1er falado de so breviven-
esquecendo a Idade Média" ).177 O valor gcral da Nach/ebe11 res ulta de
!eirura e, portamo, de urna interprera ao de Warburg: recrma apenas a
-ms a bilidade ,k nossa própr ia c; < 11Stru ao.
-' wdo caso, atrihuamos a Warburg 1,mgos to - s mile sub-reptício - pela
,<:a<;ao : acaso nao é provocador fa1er com que se c1Komrcm, na m('sa de
.:!lo do hiswriador-filóso fo, dois conceiros tao difcr('mes quamo "sobre-
.e.u" e " renascimenro" ?É certo que a palavra Rcnaissance, em alemao,só
....l!a propósito do período rustó rico: nao designa espomancamenre,como
ncés ouitaliano,um proct:sso que a expn•ssiio Nad,leben der Amike ta
o a incLLmbenciade designar. Mas persiste a irnpressaode que o con-
mue as duas palavras comém algo irritante. '!e remos de constatar que,
neuo, nenhuma das duas poderia sair imune de ral <:ontaro: o Rcnasc i-
como idade áurea na hisrória das artes, tcve de perder algo de su¡i pu-
.Jesua completude. Invc rsa menre, a sobrevivencia,como pn K'<SSOo bsc u-
f:\'Olw;ao, rev<:- de p e rde r algo de seu t0q ue prim itivo ou pré-histórico.
_.as po r q ue esse contexto? Por q11,· o Re nascimento ? Po r que, ern parricu-
...,.come, ado ou recome<;a do - pe nso na tese de Warburg sob re &micelli,
--nmeiro rrahalho publirndol'• - pelo Renascimento ital.iano? Pr imeiro
z foi exatameme nele que come ou ou rccomei;ou a hisrória da arte,
...b:lda como saber: Warburg e Wolfflin, antt'S de Panofsky, 1e ria m rein-
----> a disciplina da hisrória da a rte, reto rnando ,is condi ·óes Jmmm1.istds,

Aimagemsobrc.,,i•v tnt C' )9


isw é , rcnascemis ras, de urna ordcm do discurso que nem sempre existira
corno mi. Para um jovem estud ioso do fim do século XIX, entrar no Renasci-
menro - entrar na hisrória da arie pd,, via T(·al do Renascimenro- <'ra rambém
enmzr n.um11 polí!mirn tecírirn sobre o próprio esraruro, o estilo e os <lesafios
do disc urso histó rirn em eral.
Essa po lemica remonra a .Jules Michelet, algumas de cujas n' k·bres formu-
la<;oes esho,;aram pda primeira vc7. uma ideia p ro priamente histórica e inrer-
pretativa do Renascimento: " dcscoherra do mundo e do hornemn, "advento
de u1ua no va ane", "livre expaosao da fanrasia", n torno a Ant ig uidade con -
cebido co nlO "um a pelo as for as vivas"n etc. lcn't<·mos relativizar o que rais
formulai;oes tem ho je de ba nalizado, ou mesmo de rnntestável:quan<lo War-
burg cursou as ca<lei r as de Henry Thode, na universidade de Bonn, ét provável
que tcnha ouvido uma centena de r<'criminai;oes a esse Renascimcnro " moder-
no", essencialmcntc pcrccbido corno o momento de i,wen,,fo de um,1 moral
, 1nticrista . Re<·rimina oes mmos dirigidas ao p ró prio Mi cl,ck t do que aos <lois
pensadores alemaes responsáveis por levar rais formulac;oes a s uas conscq ufo -
cias extremas: Jacoh Burckhardt e Friedrich Nierzsche.'"' A polemica, suspti·
tamos, nao rnnc·ernia a p enas ao esrnroto crisr.io ou nao do Renascirnenro
italia no, owsao próprio estatuto do conhecimenro histórico, de sua.sambi oes
filosóficas e ant ropológicas. No co rat;a o d cssa pole rnica, roda a questiio da
nova Kult urgeschicthe foi colocada por Nicrzs<·he ; Burckhardt.
F. daro que, emre as aulas " franciscanas" de Thode ,, os escritos "moder-
nos" de Burá hardt, \X1a r burg nao ht·sirou nein por um insranre. Nao vemos o
nornc do primeiro citado urna única vez nos Ges11mmelte Schri(Un, ao passo
que a influencia do seg undo é reivindicada por toda parre.181 Basta um único
exemplo para deixar claro esse cont raste: em scu a rtigo de I902 sobre o retra-
to florentino, Warburg parriu justamente de urna iconografia franciscana - a
Cunftrmar,io da ·regra de Sao Francisco, rep resentada por Giorro n,1 igre ja <le
Santa Croce <" por Ghirlandaio na de S,uita Trinid - , o q ue to rna ainda mais
flagrantt> a ausencia de qualqucr referencia a T hode."º Na verdade, Warburg
simplesmeme silencio usobre o fatode q ue s ua interpreta, Jo antropológica do
ciclo de Ghirlandaio ,onrradizia ponto por pomo o esquema proposto por
Thode em seu livro so hre o Renascimemo. lnvcrsamenre, o mesmo texto , o -
rne<;a com urna vibranre r<·ivindica, iio teórica dominada pela a utoridade d{'
Burckhardt:

Jaeob Burckhardt, pioneiro cxemplar l11urbi ldli cherPfadfituier], a briu para


a de ncia o domínio da n drura do Renascim.·tnto / Kulw r der f ,m,nssancel e
o d ominou com seu g<'nio\ p oré-m nunca pensou em explorar <:orno tirano

60 GcorgesOidi,Huberman
egoísta a regia.o lL1,11d] que acabara dedescobrir; ao contráílo,sua abncga-
ao cientíiica lwisse.nsd1aftliche Selbstvcrleugmmg] foi tal que, en1 vez de
atacar o problema da história da c1viliza,;ao preservando sua unidade (.Ei11·
heitlichkeitlt, a o s edumra no pla110 da arce, ek o dividiu em várias parces ap
a rent e meure nao relacionadas lin mehrere clusserlichu 1izusd11111zenh iin·
gendc 1 eile ], a füu d,, explorar e descrever cada uma delas com soberana
sere 1i1da dc. fan A m /tum do Renascimento, ele expos primeiro a psicología
do indivfduosocial, sein considerar as artes plásdcas;depois, cmC icreone,
co ntemou-sc em propor urna "iilid a,;ao ao prazer das obras de ,u re". (...)
Conscíos da prrsonalidadesuperio de Jacob.Burckhardt, nem por isso dr·
v(·mos hesitarem avan<;ar pelo caminhoque ele nos apontou.Ull

Esse "ca minho" l/l,1/m] er.i de tnna exigencia memdo lúgica extrm
e ma e nte
d ifícil de s ustentar. Mas teria colocado a " abn.:-ga, ao" de Warbru -g sua
S el1l st 11erleugmmg, como escreveu nessa passagem - a a ltura da que ele re,o-
n heceu em Burckhardt. Trara-s,· de um a arirudc quase estoica. Por um lado,
rem-s e q ue rccoohecer a unidade [Einheit licb/«1i1] d e toda cultura, sua ogr na -i
c ida de fundamenral. Mas, por ourro, o sujeito se rec usa a ded ará-la, ade fi-
n-í la, a t er a prcrensao de apree nde-la como tal: deixa as coisas cm seu l'Stdao
de d iv i s;'io ou de ·'d esmomagt·m" IZc,r/eg ttng]. Co mo Burckhardr, Warb rug
sempr e se n-cuso u a fechar urna sínt<'sc, o que e r a um modo de sempre admi
o momento de concluir, o momento hegeliano do saber absoluro. Po r isso
{p: re ciso levar a "abnega<;iio" , ou a mo désti a episte1nolúgica, aré o recon h-c:
ci.menro de que um pesquisado r isolado - um p1011eiro - só po de e deve tra-
b,1/h,zr ,·0 111 si11gul.zridac fos , como cscrevcu Warburg muiro bem, M m em sa
p íg, in a, jo ga ndo com o par:idoxo de uma " história sintética", m.is feita de
" esrudos pan it:ula res", ou seja, de esmdos de caso nao hicrarquizados :
Mesmo após sua morre, esS<' es p<"cia lisra !Burck,b u dtl, esse erudito r,mial,
apar ece * no s n,mo um investigador incanslvd ; cm suas Con.trb i ui f<1 esp tria
,1 /sJi túri .z da arte 1w Jtália, a briu mais um rerct ir,o,, uninho empíricopara a
cl'der a uma história sintética da civiliza ao lsyn thellsc:/Je Kult11rgeshci th-
te j: nao re.wou diantr da tarda de estudar cada obra de arreem panicular
[d1, s e.inzelne Ku nstwerk ] em sua rda, ao direta m m o ambient'( de sua
pé oca, para apreender com o causalidad<·s" as ex igtncias intelcctuai s e
práticas tJ¡¡ vida real [das wirklid1t? l.eb e.111s.' '
Também Wolfflin - o outro grande " reinvcnror" da histúria da arte no sé-
cu ol XX - admirava em Burckhardt o mestr<' que foi capaz de construirmn a
" hi st ó ria s i s re mática" e m que o " siste ma nunca foi definido, isw é,f echa do,
esquema tizado, simp lificado. Em Burckha rdt, a " sensibilidade a obrain d iv -i

A imagem:;Qbfevivente 61

-
dua l" semp re veio em primeiro plano, deixa ndo roda condnsao em aberto.' '
O ra, ninguém melhor do que \'l?a rb urg para execurar - se é que o verbo co n-
vém aq uí- essa rarefa parado xa], que em seu rexro é bem expressa pelo verbo
zerlegen, " decompor . N o rnmpo da hisrória da arte, ninguém terá 0L1Sado
a
rilo bem q uanto ele viajar por <'SSa a,iá/ise infinita das singularidades, q ua! a
falta de fechamento desras fazia passar, abusivamenre, por " imperfeira" ou
" inaca ba da .
A modéstia ,. a a bnega ao t xi bidas por Warbu.rg <lia nt e do " mo m u n enrn"
h isrú rico erig ido po r Rur<'k h a rd t olio sao fingidas ncm protcx:ola,<."S.186 1'-1as
iss o nao sig nifica que a reht ao enrre a s d uas obrasscjade pura filia) íio: em
suas anora)oes pessoais, Warburg mostro u-se com umente mais <:rítico, mais
propício ao de b,H<' e ,'t opo s i<; iio. '8' T,u n bém é pre ciso dizer q ue o vornbul:frio
fondamenrnl de Warburg - o da Nad,lebe11, o d a s Pathosformeln ou da teo ría
da "expressao" IAusdruck J - nao fa7. pa rt<' dos remas co m:eim ais próp rios de
Burckhardc. l'or oucro la d o , nao po d e mos nos impedir de achar que os famo·
sos Nothk.isten de Warburg - seus fichários de cart0l.'S multicorcs - sao como
que a enca rna ·a o volum{-1r ica dos M,1teri<1/e11 q ue Rurc khardt havia reunido
a
coro viseas re d a, ao de um a Históri a.du arte do R<masá m e nt o, s cmpr e pe n -
de nt e , jama is pu blicada (fig. 6-7). De <¡uak¡ucr modo , vale a pm a id ent ificar
o q ue, no grande histo ria do r bas ilec nsc, po de ter s,' rvid o as intu i ocs e co ns-
truc;íks do jo vem Wachurg.

-· - :;-

Ent ra r na hisc<'.>ria da arte pda " via real" do Renasci.memo florentino signifi-
cava, em 1902 (no es,n do so bre o r('trnto ), ass im co m o em 189.l (no estu do
so bre Bon icelli), romar posi)ao cm rela iio ao pró prio co nceiro criad o p or
Ru.rckhardt ao longo de seu livro-rio, A cultur,, do Renascnnento 11c1 Ttiílic1.Jss
Tecera m -se inco nrá veis co mentá rios soh rc o s ,c mas ,. as wscs ,·onridos nesse
livro. Sa udar am -se s ua a udácia, sua inspira ) au ,. S(·u movimrn rn genia l";
ad rniro u-sc sua maneira de reunir um material histórico exrrao rdinariamenre
rico e po limo rfo. Os co menta ristas campouco se privaram de su bmeter o b je- a
<;ao cr ít ica cada terna céle bre: a o posi,;ao entre !dad<: M(·dia e Rc nascime m o,
a primazia da ltália, o "desenvolvimenro do indivíd uo" . 18• lndc pcndenremen-
te de mdas as críticas, o Jiv ro co nrinuava a dominar o dcb,nc histú.rico sobre
a ideia de Renascimento.190 Mas ta mbém se fez dcssc " do mínio" csmagador
um argumento a favor do fato de Burá ba rd r ha ver criado, com sua uhra-
prima, um Renas cimento mítico, mitificado, cu¡o culto acaha ria prod uzindo
o q ue Hein rich Mann condenou coma expressao Renascimento histéri(,o. .,

62 G o, gesOidi-Huberman
1,r -r"-1 _ ,,.,. -
;, A- k ..-,.e.a..· .,,..,.,.,.¡,,t C-lf /, j
- - - - , - 'lt,
"!J:1/.fÁ J'.-!±'¼_¿..- \.(.('' ,df:- 'Q...
• 111
«
' tl. f-:"- ....{-r, / ,, /;.J..

<,. Jawh Burckh,1rdt, csb<>,;<><lo projt'to Kunst d!•r Rcnaissano:. 10 d.c ag.osw
de 18 58. Tima sohrc p;1,pel. lk1.silt"ia, Ja<.ob Bun.kh:udt Archiv. Fow:Jacob
.Buc,kh::lrdt Au.hiv.

7. Aby \'Carburg, Nothkiisten.Londtcs, hl til uto \X1arb urg. Foto: lnstimto


\X·tat burg.

Se(: fato que exisre um m ito do Re11<1scime11to, ra l miro f intrinsec:o it pró -


?ri d cultura renascenrisra - e couhe a 13urckhardt analisá-lo como tal. O "de-
senvolvimruto do indivíduo" decorre, provavclmeme, de uma estrutura míti-
w, ou, pdo rnenos, de uma esrrutura ideológica e política.'" Nem por isso
de txou de produzir efeims de conhccimemo ,. dr ,·stilo, efeiros de verdade e de
bísrória: se o "individuo " 6 um miro do Rcnasó nwuro, pelo menos gero u essas

A imagem!.Obrevivcnte 63
realidad('S fascinam<·s qul' sao os retratos florentinos do Q uattr ocemo. 1'01
exa ca meme & í que Warburg pan iu: a nalisa r um mim, decompo-lo em seus
efeiros estéticos, era ao mesmo tempo a qu ila ta r smt fecu ndidade (como "cien
cía do concreco") e desconscruí-lo (como nmjunto de famasias).
A a nálise burckha r<lcia n,i, portanto, ni\o int <'r<S
' sava a Warb urg por algu -
mas gene ra lidades, das qua is o Renasó menro, como n1ltura ou como período,
pudesse sair coralmenre puro e conccituahneme " armad o", como Arena emer-
gindo da cabe<;a de Ze tL . Burck hard t havia de fato reconh(x:ido um "d esen-
volvimeuto do indivíduo na lt á lia renascenrisra, má,5 es se " dese nvolvimcmo"
eocomrava sua ('Stra nha n md usao numa ,.mJlis dos síntomas e chistes, das
paródias (' difama<;6es - otmos ramos obsr:íc ulos a um modelo t rivialmente
evoluc:ionisra dos q uais o indivíduo, desde franco Sacchcni até Aret.n i o, t<'ri a
sido um.a vírima incessa nre; assim, Burckhardt falou do "desenvolvimcnto do
indivíduo" na.o <.:omo ú puro progresso de un1aeniancipnc;üo, mas tambl·m
como um desem,o/z,imento de sua própria pert1ersid<1de.1 91
Podemos cirar dessa a nálisc duas interpreta oes muiro diferentes. A p rime i-
ra é moralis ta : seguc o modelo "grnodeza e decadencia" dos pessimismos do
século XVIll.194 1.an, a urna po nte - legíti ma - t nt rc Burckhard t e Schopen-
hauer.191 Mas , e nfati za nd o a remát it·a do ded ínio, acaba vendo em Burckhardc
a pe nas mu id eó logo sa ud os isra, um a ntidemocrata precursor do Kult11rpessi-
a
mismus mo da de Spengler, ou a cé um 7cl¡¡Jor das '" revo lu<;fü'Sconservador_as
que, na Ak manha, preparar am o advenro do nazism,o. ,,.; A ou rra inte rpr<.'ta á o
é cstrurnral: Jiga -se rnais a identificar os modos de {tmcionamento da históri,1
do que os julgamcntos sobre" história.Tem a vanragem - que \Xlarburg paH·ct·
haver comprccodido perfeitame nte - de se r dia lética e, por isso, cpistcmologi-
cameme fecunda. Q uando Burck hard r co ndenou a "cultura moderna" e sua
incapacidade de rn mpreender a Antigu idade",w niio proferiu propriamcmc
um julgamenro " reacionário" , mas pos o de<lo , de for ma cr íti ca, n o pro b le ma
mais gt ra l da rela<;iio entre mua cnlrura e s ua memór ia: urna <-Wtura que re ca l-
ca su,1 própria memória, suas próprias sobrcvivfocias, t:stá tao fadada impo- a
tencia q uamo urna <,tlrura imobilizada na pe rpf nrn com mora<;ao de seu pas-
sado. Walr<'r Brnjamin, ao q ue me pa rece, pensava da mesma maneira.•1i
O " d esenvo lvim ento do in divíduo" no Rcnascimc nto trazia em si , po r-
ranro, o descni1u li1imentv de scus sintontus, suas perversidades, suas ntgati..
vi da d es . O q ue co nd uir <lcss a pro posi ao ? Uma visiio moralista fala ria cm
"declínio" , em no me de uma pureza que nao se sabe muiro bem se deveria SC(
situada, como em Winckelmann, na ¿poca do simples milagre grego" . Uma
visaoestrurural compreenderia que o tempo - q ualquer tempo de que se trate,
o da Anrigu idade ou o do Renascimcmo - é im puro. Foi a parti r de ta l inter-

64 GC'orgc s Oid -i H u berman


preta ao, crcio, que to do o tra balho de \Xla r burg pode come,;ar, utilizando o
que, nas análises de l\urckhardt, podia construir urna ntx;áo incisiva de5-5a
unpureza do tempo: construir, em suma, a base teórica da sobrevivencia".

Logo de inkio Burckhardt havia de,·idido dar a medida de urna rnm plexidade
temporal própria do Renascimemo; seri.1 imp ossívcl - <: h istorica mente nefas-
to - res um í-la na bela dencia de um Leo nardo, no angclismo de tim Rafael ou
' , '
na gcniali dadt' de um Mk helangelo. Meio século ames queh <.'ud definisse s ua
" regra fundamental" da nao omissao, Burckhardt <.'SCreveu que o hisro6ador
nao devia "excluir nada do que perrence ao passado" :1'>9 as lac·unas, os conti-
nentes negros, as comrammiva,;oes, as abcrra,;ocs, tudo fazia parte de s ua
busca. Eis por que o famoso "desenvolvimento do indivíduo" <leve ser pensa -
d o com o que Burckhardt cha mou de uma " mesda de supersri oes amigas e
modernas",!'' ' caracrerísrica da ltália renascemista (sabernos q ue \Varburg fa-
ria urna análise semelhanrc da Alcmanha de Lutero e Meliincton). Enquanro
Ro ben Klein via em Bur,·khardt "alguma oposi<;ao enrre as duas oriema.;oes
do Renasd mento" - o espírito posilivo da "d escoberta do home m e do mun- do "
e o espírito {tmtasioso das fic 9es l!Sotéricas' º' - , fica ría mos t<'ntados a
reco nhec('r algo t·omo uma clarivide ncia dialética, urna idei<l da s Umsoes e
polaridades que \v'arburg reria sisrematiiado por coma própria em cada nívd
de análise.
Nessas condi oes, nao vemos como a famosa "re5-51irrei ,io da Ant ig·uida-
de""" poderia ser pensada segundo a rempo ralidade de ttm reto rno puro e
simplesdo mesmo{o mesmo "i deal de beleza", por exemplo). Foi sua rela ao
- fatalmenre anac:r<5ni<·a - com as especificidades do preseme e do local, a
ltália do século XV, q ue deu a esse retorno sua voca<;ao para as di/ere.nías, as
compkxidades, as metamorfoses.' º' O en.conno do tempo longo das so brcvi-
ve ncias - nao era assim que l\urckhardt as chamava; ele dizia: "(...) essa Ami-
guidade fizcra sentir sua inflnencia desde longa data" - m m o tempo breve das
decisóes estilísticas que fez do Renascimento nm frnomeno riio co mplt-xo.204
Eis po r q ue Bu.rck hardt, a propósito do conctito histórico do rena ft r¡• lrr -
nasc e r] -· anorado <'.(>rn essa forma verbal, em frances, num manuscrito de
1856- , teria podido descrever um verdadeiro movimcnto dialético entre o
tempo-cortedo que ele chamo,1de " retomada" do passado amigo e o tempo-
-turbilh,io dos "restos vitais" [leben s fiibige Reste ] que ti oha m permanecido
latentes, em certo senrido eficazes, bem no amago da '' longa interrup, ao" que
os mamivera nfo percebidos.io< A Amiguidade nao é um " pum o bjeto do

Aimagem!.Ob, tv w ent e. 65
temp o " que retome tal e qual, ao ser convocada: f um grand<.' movirnento de
ter renos, urna vibra iio surda, uma harmonía 4 ue atravessa wdas as camadas
históricas e todos os níwis da cultura:
A h is t ór ia do mundo amigo, pelo menos a dos povos'<uja vida sep ro lo n gou
nano ss>a é como uro acorde funda1n emalqot' ainda OU\.;mos ressoar,inces·
sante rnent e, através Ja rnassa dos conherímcotos humanoso. c.
C:onscquentemerm.", será menor o nosso es panto por encomram r os na pt'ná
deBur ckhan lc uma proposi<;iio tiio radical - e escan,dalosa, aos olhos dosde-
votosest ét i cos d o Renascimento - q uamo esra: "0 Renascimento nao 1criou
nenhum estilo organico próptio" ¡kcin teigener org,mischer (...}St in. • : Que
que r d iz er ísso? Quer dizt·rque o Renascimenro é impuro, tanm em seuses -ti
lo s a rtís ctio s quanto na t'< mporalidadccomplexa de suas idas e viudasemre o
prescme vivo e a Amiguidade rememorada. Nao podernos imga in ar, no sf-culo
XIX,L tmacr ít ica mais aguda do historicismo (em bus,:.a da unidadede tem po}
1
e do esteticismo (em busca da unidade de esúlo). °"
O Rcuascimemo é impuro. Warburg nunca se cansaría de aprofundare de cons t
ruir - gra,;as aos rnnceiros espedfirns <le Nac/1/eber1 e Pa1hosforme-l
essao bsc rva,;ao . O Reuascimento é impuro : cal se ria, calvez, seulim i et a res- p
e i ro de qua lque r idea l, e rnl era, po1ú n, sua vitalidade.l'oi o 4ue Warburg
cscrevcue, x arnmcnre em 1920: a "mistura de elcmemos hecerogeneos " [M -i
s dnmg heterogcner F.lemente) deu norne ao que havia de" vir al" !so elbens-
kr¡¡{tigl na "rn.ltura do Renascirncnro IKulw r der Rcmai ss,mcel..woEle no·
meouo c arácer " híb rido" do estilo floremino !Mischsiilj."1° lssoi rnplciava
uma constame dialérica de "rens6es" e "co mprom issos", deca l sorrequ e a cultura
n·nascenrista acabaría por se aprcsemar, aos olhosdo his roria dor,
como um verdadeiro "organis1no enigmátjco":
Quando rnaen iras co ntraditórias de rnnccher a vida ll.ebcnsansch,,uugn l
l an c;am os mcmbros isolados da sociedade e.m enfrentamemos mortasie
inspiram neles urna paid: o unilareral, elascausarn, irresistivelmemeo, de : -lí
n oi l Vcrfalllda sod edade;no cmanto, ao mesmo tempo,sao ior as I K r iift e l
q ue ívaoreccm o desabrochar da mais elevadacivilizac;ao (... ). Nesscetrreno
eres ,<'a flord a cultura do Renascimento florentino. Asqualidades totalm en-
tehc tc rgo e ne1s, (heterogcne J-:igenscha{etn j do idealista nwdievael cr si ato,
cavalhe ir escoe romamico, ou a inda clássic,o, platonizancc, por um lado, e
do pragmático rnercador errusco, paga.o e volcado para o mundo ex tenro, por
oucro, impregnam o homemda Floren a dos Mcdici e nele se unem para
formar um organismo enigmático fein rJtsdha(ter Org,mismus1, do atdo de
1 11
u rna energ ía vital 1Lcbenscnergie\primiria, porém harmnoio .sa

66 Geor9es Oid1·Huberman
!e bensf iihige Reste: a sobrevivencia anacroniza a história

O Rena,;, imento í: impuro - a sobrel'Ívénci.iseria a maneira warhurguiana de


denominar o modo temporal dcssa impureza. Apesar de disc reta, a exprtssao
resros vitais" [fobensfiihige Reste 'l em Burá hardt parece-me decisiva para
compreender,acima do próprio Warburg, o paradoxo - e a necessidadc - de
tal ideia. Ti:.ua-se do pa rado xo de uma energía residual, de um vestígio de vida
passada, de uma rnorte por pouco evitada e quase co11tín ua, {tmtasma/, cm
suma, que dá a cu ltura triunfa lmente chamada de " Renasó rnent o " seu pro-
prio prindpio de t•itulidade. :\fa s de que vitalidade, de que rcmporalidadc se
rrara, exatamenre? F.m q ue a sobrevivencia irnpoe um modo espccífa:o, funda-
mental, de w mpreender a " vida das formas" e as "formas do tempo" que essa
vida xibc?
Nossa hipótese de leitura será que, para além da cvoca,ao bun:k har dtiana
dos "restos virais" , a Nad,Ieben d. e \Varhurg fornece um mod elo tk tempo
pr6prio das imagens, um modelo de amicmnismo que rompe niio apenas com
as filia, oes vasarianas (esses romances familiares) e comas nostalgiaswincke-l
niannianas (essas ek gias do ideal), m,1s também com todas as suposi.;oes us u-
ais so hre o senrido da hisr6 ria . Assim, segundo Warhurg, a N.zchleben im ro -
d uz roda urna teo ría da hisrória: é no cotejo com o hegelianismo, no final das
comas, que devernos julga r ou avaliar tal <.:oncei rn.' "
Constatamos, para come,ar, que o próprio \'Uar burg via na "sohreviveucia
da Antiguidade um " problema cap ita l" [ ff au ptproblemJ parn toda a sua
pesquisa. Foi o q ue accsra ram seus colaboradorese amigos mais íruimos, rnmo
Fritz SaxJlll ou ainda Jacques Mcsnil:

A biblioteca fundada em Hamburgo pelo pm frssor Warburg distingue-se


entre wdasas bibliotecaspor nfo ser ,:cmsagradaa um ou vári<ls rninpos do
saber humano, por nao <-ntr;iren1nenJrumadascategor ías habituais, taneo
gera,is ¡ uamo locais, e sirn ter sido formada,d assificada e orientada com
vistas a s o! U<;iio de um prohlcrna, ou mdbor, de um vasto con junro de pro·
blemas co nexos. fa se problema f,¡i o que preornpou Aby Warhurg desde a
juvcnmde: o que realmente reprcscncava a Anrig,tidadc·parn os bomensdo
Renascimcnto? Qual era sua significa iio para eles? Em que domínios e por
q ue caminhos da haviaexercidosua influencia? As pergumas assim formu-

Aimagem sobfc•i,vcntc 67
lada.s nao eram, para de, uma quesraoapenas artística e füerária. O Renas·
cimento n:io eVú(.'Oll em seu espirito so1nente a ideia de un1 est ilo, .mas tam
bém e prindpalrnc me a ideia de uma m iwra, o pwhlerna da sohrevivencia
e do renascimento do amigo era um problema tamo religioso e social qua n·
ro artís tko.11"

A arna! d assifica,,io da llihlioteca Warbu rg a tes ta rambém uma obsessao,


cada se.,;ao importante, ou quase, come a com uma su bst,;iio so bre a "sobre
vivencia da Antiguidade" - sobrevivcncia dos deuscs ant igos, dos sa beres as·
rrológicos, das formas lire rá rias, dos ttmas hgurativosetc. Os volumes de
conlerencias IVortrage der Bibliothek \Varburgl, publicados enrre 1923 e 1932
por Fritz Saxl, rambém rrazem a marca constante dtssc problema: a s imples
aberrura do primeiro volume, vemos lado a lado um anigo sohre Dürer como
intérprete da Ant iguidadc (por Gustav Pauli) e um cstudo de Hellmut Rincr
sobre as sobrcvivencias bek-ní stic as na magia árabe, a famosa conferencia de
Emsr Cass irer so bre o <eo nceito de "forma simbólica" e um ensaio de Ado lph
Goldschmidr so bre "A so brevivencia das formas amigas na ldadc Média"
JDas Nachleben der m,tik<m rormen im Mítt el,1/ter j." ' Todo o csfon,o hiblio-
gnífico do Ins tituto Warburg final mente conver giría para a edi<;ao de dois
vohnnes consagrados a penas ao problema da sohrcvivencia da Antiguidade."•
Mas será que o prvblema era tao novo assim? O neodassicismo de \Xiin -
ckelmann e scus seguidores já nao tinha projerado a Ant iguidadc [Altertuml
aré mesmo no preseme vivo JG« genwartl dos ho mens do século XIX?"· Ernst
Gombrich insisriu na influ nó a de um rexto de Anton Springer - o primciro
capítulo de seu livro Bildcr atts der ncueren Kw zstg es d Jichte, pub licado em
1867 - sobre "A sobrevivéncia da Antiguidade na ldade Média" IDc1s Nacl,-
[c/,i.,n d«r Antike im lv!ittelalter): na rnarge m de urna passagem em que Sprin·
gt:r íalava do amigo drapeado como um " instr um ento perfeito dt ('xpress.io",
Warburg indicou seu nssendn1n e lo c:om um lacOnico "Bravo"..?. 13
Com certeza, Warhurg tinha um (·onhecimen ro muíro preciso de roda a li
teramra histórica relativa ao problema da " rrndi fo am iga ". Mas essc conhe-
cimemo, do nosso ponto de vista, marca ainda mais fortcmenre a diferen a q
ue devia separar sua própria idcia da N,1cbleb en de todas as que, soh diversas
denomina,iks, podiam cirrn lar ern sua época."' Emao,,·m que podia a sobre
vivfocia, sc¡,'lnl do Warburg, romper com todas as que a haviam precedido, ou
que lhe eram co memporancas? Es.5cnicalmeme, ern nJo ser passíi,el de super-
posif J O a nenlmma pcriodi z,,rJohistórica. A Nachl<'ben de Springcr simplifi-
cava a hisró ria, periodiw ndo-a: permitía mant<'r uma Ami gu idade " dimin uí-
da" em suas sobrevivenciasmedievais, em oposi i'ío a Anriguidade " triurú al"

l'í GeorgesDidi·H vbctmon


do Renascimemo. A Nad1/eben de Warburg era uro rn nceito t'Strutu ra l. D izia
respeiro ramo ao Rena scimenro q uamo aldade Média: "Cada período tero o
Renascimento da Amiguidade que merece" (jede Zcit hat die Rcnaissancc dcr
Antike, die sie11erdiem],escreve u.110 Mas poderia ter afirmado, simetricamen-
re, que cada período tinha as so brevivencias q ue merecía, o u roclhor, q u<' lbc
er a m necess,friase, em cerrosentido, que !he eram csrilisticamcntc su bjaccmes.

1
A sobrcvivencia segundo Warburg niio nos oferece nenhuma possibilidade de
simplificar a história: impüe urna dcsoriema ao remível para qua!guer veleida-
de de periodiza a o. É uma ideia transversal a qualquer recorre c ronológico.
DeS(:rtve unz out ro Umzpu . Assim, desorienta, abre> rorna mais complexa a
h1stória. Numa palavra, ela a anacrcmiz,1. lm poe o paradoxo de que as coisas
mais antigas as ve.zes vCm depois das 1.·oisas 111.enos <-1ntig< is; assim, a astrologia
do t ipo indiano - a mais remota que existe - encomrou um valor de uso na
Itália do século XV de/JOis d e ter sido supla ntada e tornada obsoleta pelas
astrologias grega, árabe e medieval.' 1'F.sse Linico t xt mplo, lo ngamentt u('Sen-
volvid o por \'i'arburg, mosc..a co mo a so brevivénc ia desnortcia II bistóritt,
como cada período é cccido por scu pr6prio nó de antiguidades, anacronis
mos, presentes e propensoes para o· futuro.
Por que o saber medieval sobrcvivcu cm Leonardo da Vinci' Por que o
gótico setentrional so bre, veu ao Rcnascimenro clássico > Jádizia Michelec que
a ldade Média era "ainda mais difícil de macar por já estar morra há nmito
,empo "." 1 Sao as coisas morras bá muito cempo , com cfci co , q ue assombram
com maior efidóa - da maneira mais pcrigosa - a nossa memória: quando faz sen
horóscopo, a dona de casa de hoje continua- a ma n ip ula r os nomes de deu- ses
aotigos, nos quais, supOe-se, ninguém mais ere. A so brevivencia, porranto,
abre a hist,íria - o que era ,1 vomade de Warburg quando ele falava de urna
" bisrória da a rre no sentido mais a mplo [woh/ zwn kl ob,1<:htw zgsgebiet der
Ktmstgeschichte im weiteste11 Simrej: uma histó ria da arte aberra para os pro-
blemas a nt ropológicos da s upersri ao , da transmissao das crcm;am s. Urna
bisró ria d a arte info r mada pela "psicologia da cultura tt pela q ua! Warburg
come ara a se apaixonar jumo a Hermann llsentT e Karl l.amprccht.
Na medida mesma em que amplia o campo de seus o bjrws, de suasaborda-
gens, de seus modelos temporais, a so brcvivt ncia toma complexa a históri11: li-
be ra urna espét-ie de " margem de indetr m úna iío" na correla, ao his tó rica d os
fenó menos. O dcpois quase se libe rt a do antes, quando se une ao "ames do
antes" famasmático que so brt vive: co mo na obra de Remhrandr, qualificada

Almag-em sobrevivente 69
por Warburg de "mais amiga e mais d ássica" - mais ovidiana, em suma - que
a de algufm como Amonio Tcm pesta, que a preccMu na histó ria.'24 A forma
quase se liberta do cometid o, como nos afrescos de Ferra ra, nos quais a esrrutu-
ra renasccnrista - a pos i.;ao recíproca das figuras, a própria referéncia astrológi-
ca - coexiste com urna iconografía ainda medieval, beráldica e ca valheiresca. l.5
a
Co nsrarnr isso é nos rendcrmos evidencia dt q ue as ideias de tradiyiio e
transmissJo tcm uma rn mplcxi <la dc a te mo r iza ntc: siio histó ricas (lda dc Mit·
dia, Renascimcnto), mas sao ramhém a nacronicas (Rm ascimem o da lda de
Média, Idade Médja. do Renascimenro ); sáo feítas de processos conscientes e
procrssos inconscienres, de csquecimenws e redescoherras, de inibi, oes e des-
rmi 6c-s, de assimilaqoes e inversoes de sr ntido, de suhlima oes e altera<;ocs -
termos que se encoutram todos no próprio Warburg."" Bastará o d eslocamen-
ro da perspectiva, no qua!se dialeriza o modelo hisrÍ>rico do ren,1sctmc11to e o mo
d elo a na.:ronico da sobre¡,Íl1é11ci<1, para que a própria ideia de urna rrans-
missao no tempo se rornc problemática. Ainda mais que essa complexidade,
para Warhurg, nao deixava de l(T urna referencia o bstinada com uma antro-
polo, gi1 apoiada nas quesroes conjuntas da cren a, da aliena<;ao, do saber - e
da imagem, {,claro:

Na perspe,'.tiva da evo,l u ao 1\Vtmde/] das imagrns dessas <.Üvindad es, inid al-
menre transmitidas, <lepois esqueridas e re,k scoberias[iiberlicfcrt, t·erscbol-
len 1md wi ederm , tdecktl, a his tória da Amiguidad e ,mcrrra conhecimemos
aind,a nexplorados para uma história do pensam,·nro antropomórfico e de
s ua signi lica a o lein.e Gesrhic/Jtc dcr B.-deutung der ,mtlm,pomorphisti-
schett V etikweise]. ( . .. ) Desse ponto de vista, as imag,·ns e as palavras [fli /.
de,· e Worte] de que se tratou aqui - uma p<·quena parre daq uilo de que
podcríamos ter disposto - deve1user consideradas documen tos de arq uivos
ainda inexplorados, c¡ue atesr.un a trágica história da lib<-rdade de pe n sa-
mento (die lrag,sche. Ge.schichte dcr í>cnkfreihcit] do euro pe u mod<'rno.
Tamhém fizemos questiio d<·" mosrrnr, t·om a ajuda de wn csrudo positivo,.
rnmo é possívcl rnd horar a metodología da ciencia das civíliza,oes [kult ur-
u'ÍSs,msd1tt{tlicbc Me.tbode], liga ndo a hisrória da art e e as <'iencias r<'ligiosas
[die Vcmiipfimg """ Kunstge.schichte muí Religionsu,iscsnschaftl.21'

Por s er t<,cida de longas dura,;oes e de momenms críticos, de latencias sem


idade e ressu.rgend as a hrup ras, a sob revivencia acaba por awu:roniz,zr a his-
tória. Corn da, cai por ce rra q ualq uer no<;ao cro nológica de d ura, ao. Em
primeiro luga r, a so breviveucia <111acroni:w o presente: d es m em e com vio l ncia
as <·vid e nci as d o Z eitgeist , essc "cspírito de época" eru que tantas vezcs se
bascia a definir;ao dos es tilos a rrísticos . Warburg gostava de citar esta frase de

70 GeorgesOkli-t-lvbt rma n
Cocthc: "O que chamamos espírito dos tempos [Geis t der Zeite11I nada mais
é, na realidade, que o espírito do hononível historiador em quem esse tempo
se reflete..." Com isso, a grande-za de mu an ista ou de uma obra de anc era
reconhecida por Warburg - ao , ont rário do que quer nos fozer crer a leirnra
sociológica muitocomum da obra dele - conforme sua capaddade de rcsisté11-
c.ia a esse espírito, a esse "tempo de época".228
Em segundo lugar, a sobrevivfocia anaaoniza o passado: se o Rcnascimcn-
ro foi analisado por \Varburg como um "tempo impuro", é rnmbém porque o
passado em que ele convocou s u7s "for,;as vivas" - a Amiguidade d ássica ·-
nao tinha em si nada de urna origem ahsoluca . Por conseguince, a origcm for-
ma, ela mes ma, uma ccrnporalidade imp ura de hibrida,&,s e sedimc nrnr;iics, de
prmensoes e perversoes: nos ciclos piccóricos do pahício Schifanoia, o que
sobreviveé tun modelo orienral da ast rología em que as formas gregas, rnais
amigas, já haviam co nhecido um longo processo de a lcera, ao . A pa rci r do
momento em que o historiador da an:e corre o risco de reconhecer as longas
dura<;:iks q ut esrao em a<;ao nos monumentos arrísricos do Renasó menco - foi
assim que Warburg a presencou em conjunto urna o bra de Rafael e o a rco de
Consta ntino, em Roma, separados um do ourro por 1.200 anos"' - , ele corre
também, muirn logicamence, o risco do anacronismo: chamamos a isso urna
dcrisao de rrn mnet-er o anacronismo amante na própria evoluciio hisrórica.
É que a sobrevivencia realmt:nc"e abre urna bredia nos modelos usuais da
evolu iio. Neles derecra parndoxos, ironias do destino <·mudan as nao recilí-
neas . Ela ,macroniza o futuro, ao m.esmo ce mpo cm q ue é reconhecida por
\lifa r burg como urna "forqa formadora para a emergencia dos estilos" [,zls
stilbi/dende Macht]."" Que Lutero e Melancron revelem intrrcsse pelas " so-
brevivencias de prácicas misteriosas da religiosidadepaga" [an den (ortleben-
den mystcrióscn J>r,lktiken heidnischer Religiositatl, cis aí algo qut·, com ccr-
ceza, "parece muico parado xal para nossa concep ao retil ínea da hiscúria "
(geradlinig denk1mde G eschichtsau ff(lSsung f.rn Mas vejamos o que juscificava
plenamente a reivindica fo de Warburg de um modelo do cempo específico
para a hisrória das irnagcns: o que ele chamava, como vimos, de uma pesquisa
de "sua própria ccoria da evolu ao" Libre e1ge11e f ntwicklungsleb re)."'

Eis-n os uro pouco mais bem armados para compreender os panidoxos de um.a
história das imagens co ncebida rnmo uma história de f,mt,;is m as - sobr t>viven-
cias, latencias e apa ri oes misturadas com o desenvolvimento mais manifesto
dos períodos e estilos. Urna das formula oes mais impressionantes de War·

A imagemsobreviventt-
hurg, datada de 1928, um ano ames de sua morte, terá sido definir a história
das imagens que ek praticava como urna " histó ria de fa ntasm as para gente
gra nde" IGes penstergeschich te fiir ganz Erwa,·hsene ).l'' Mas de q uem, de
on de e de quando sao esses fantasmas? Os adminíveis textos de Warburg so-
bre o retrato - s ua Jn('Sda de precisa<> a rq ueológica e empatia melancólii:a -
a a
indu, em pronrameute ideia de que esses fantas mas con<:emem insis ti.'ncia,
ñ sobrcwit,éncia de tuna pósR1norte.
No momento em que trabalhava com ret ratos da família Sassetci (uma fa-
mília <le ha nq ut·iros, como a dele mesmo), Aby Warb urg escrcveu ao irmiio Ma x
• 1
urna carta emocto nantc, na qua!tenro u descrever-lhe por que todo o sen
rrabalho de arquivo, apesar de "árido" leine trockene Arbeitl, niíodeixava de
ser " incrivd mrntc inreressame" Jcolossal 111terresantl, pois devolvía a urna espfrie
de vida, ou aré de palpitai;ao,essas " imagens fantasmáticas" [scl,emen- hafte
Bilde.rl ,.k seres desaparecidoshavia muito tempo.rn A pa rtir d isso, po- d emos
comprct:nder melho r a " vivacida dc" par ado xal dos retra tos flo re ntinos (ou scja,
s11a rela c;ao física com a mo rre) e, por conseguime, se11 po de roso
" a nimismo" (isto {-, sua rela,;ao psíquica com o inanimado).rn Acaso nao foi
nos s,m:ófagos, esscs porra-joias da morre, que os artistas do R('nascimento, de
Nicola Pisa110 a Dona te Uo e o urros mais, f'(TS(:rura ra m as fóm m las clássi cas
para re presenta r a pró pria vida, essa "vida cm movimento " q ue so brcvi -
via, como que fossiliz.zida, no mármore dos vestígios romanos?H"
Mas isso nao é rudo. Os famas mas dessa hisrória das imagens rambém vem
d(' um pas sa do incoativo: sao a sobreiiivfocia de um pré.-nascimen to . Sua aná-
l ise dever ia nos msinar algodt·risivosobre o que Warburg chamava dr "forma-
,;ao de um es ti lo", sua m o rfoge nesc. O modelo da Nachlcbe11, portamo, nao
conceme a nas a wna busca dos desaparecimenros: busca, a ntes, o d ememo
fo·cundo dos desa pa recimcutos, o que nd es deixa marcas e, por conscg11ime, rorna-
se passívd de lernbran a, retorno, 011 até " re nascimenro" . Essa se r ia, episre mol
og icamemc falando, a redefinic;ao do mod el o bio mó rfico da evolm;ao.
Vida, morree renascimemo, progresso e ded ínio, 011se ja, os mo de los po s-
tos em circulaa o a pa rtir de Vasari, já na o bas tam pa ra dcscrevt'r a hisro ri-
cidade síntoma! das imagens. Darwin, é claro, havia passado por isso. Sua
análise das " aparic;o<·s a, ·i d enra is " - verda d e iros simomas ou m,d cstc1res da
woh1,cio - art iculara admira velmcru<· a "regressao dos caracteres perdidos"
<:om o rema das " la tencias" pelas qua is sobrevivía a estrn ru ra bioló gica do
"anccrsral co rnu n1"':

' l<>da via, <·oco nrrnmos un1 cas o c.Jikrente nos p ombos, isco <.\ a apari<;fio
ad drn1a l, em todas as rac;as , ck uma colora, ,io azul-ardúsia, das duas foi-

-:2 Gcoi gesDidi·Hubcrman


xas negras sobre as asas,dos flarn: os brancos com uma harrn na
exrremida- de da cauda, cujas penas sao, junco da hase, t
xrernao1emedchruadas de
brnnco. Como esres diferentes sinais constituc:n1 um caráter do ancestral
comum, o torcaz, ninguénic<>n testaria,<'reio, que este scja um caso de rc-
gressao, e nao urn.;,1 varia<;rio nova (...). Sem d1ívida, é muito surprccn.denre
que reapare a m carat'tcres, dt pois de haverem desaparecido por um grande
nÚIJlero de gera<;ocs, cente nas, ialvez. (... ) N uma rn9a q ue nao tcnha sido
cruzada, mas na qua! os dois ,mcestraís dr origem renham perdido algtws
caracteres que o an<.·estral comu m poss\Úa, a tendencia a haver mua regrcs-
sao para esse c,lráter perdido p'oderia, segundo tudo o que nos é possível
saber, transmitir-sede modo mais ou menos vigorosodurante- um nún1ero
ilimitado de gera9óes. Quando um <-.ará ter perdido reaparet·e nurfü\ ra a
após grande uúmc-ro de gerac;oes,a hipúrese mais prováveJ n ao {: que o in-
divíd uo afetado venha subitamcme a se assemelhar a um ancestral do quaJ
se separa por muims centenasdegerac;Oes, mas que o <.:aráter em questio já
se encomrasse em estado larenre nos indivíduos de cada gera ao suc.:essiva e
enfim se houw ssc desenvolvido soh a in.fluencia de condi oes favoráveis cuja
natun·zadesconheetmos.i u
O exorcismo da Nachleben: Gombrich e Panofsky

Antes de nos interrogar sobre as condi oes pelas q uais, na história da art e,
uma forma amiga pode tornar-secapaz dt·sobrevivencia em alguns casos(' de
rem1scime11to e m ourros, tememos s'ituar o próprio destino dessa problemárica
na b.istória da dis cipli na. Será q ue a Nad,leben de Warburg foicompreendd i a'
Por alguns, ce rtameme. Pela mainstre,.im,< certarncme nao. Ve jamos alguns
exemplo s.
Q uandú J ulius von Schlosser publico u História do retrato de cera, em
1911, ficou claro que o vocabulário da sohrevivencia - to mado ('mpresrado de
Tylor, mas sobrerodo de War burg, de quem Schlosser era amigorn - tinha
Jberto a única vía teórica possívd para compreender o fenfüncrw ma is estra-
oho da escultura de cera, ou seja, sua longa dura(,"ao, su a res is tcoü a a hi s tó ria
dos esti los, s ua c a pacidade de sobrrviversem evoluir de forma significativa.' "
Sc:hlosse r co mpreendia q u<"a hisrória das imagens nao rinha nada de " hisrória
".'!:3ru r a l" e e ra , s im, urna eláho rai¡;a), urna " co nstru <;iio merndológica" lein
.,..ethodischesPriipar,it) que esca pa va as le is do "e volucionismo" banal, o que
srificaria, no fim do livro, sua críric'á inapelávelas "pretensoes teleológicas"
Je tipo vasa riano .140
Sein dúvida, Schlosser deixou em estado bruto - mais por modéstia, ali,ís,
do que por ignorancia - cerro número de problemas teóricos ineremes ao mo-
llc:lo da so br,c ·ivencia. Mas urna ideia forre comc\;ou a ganha r co rpo: a de que
.i arte ten-t his t<)ria ,'1S inzagens, por sua vez, té.11: sobrev il1i?ncias que as "desM
-.lss ifica m", desligam-nas da <"sfr r a habitual e.lasobras de arre.Sua pennanen-
u tem como contrapar tida o de s prew que !hes vota mua história "ck vada" IS
11
"estilosartísricos". • É por isso que a Históri,1 do retr,.ito de tera,durante
"'li.U,Os anos, foi mais louvada por antropólogos que por historiadores da arre.
f provável que Edgar Wind, na qucsrao dos modelos de tempo, nunca
:rnha arriscado a escolhas reóricas tao radicais, tao exploratórias quamo
dr Warhurg e Schlosser. Mas emendeu rnuito bcm que a palavra sobrevi-
"IC'--7 devia ser usada para alétn da " metáfora biológica" banal: "Q uando

.wrmte dominontc",c-m lngll :s no original. {N.T.]

A imagemsobf(!vive-ntc:- 75
falamos da 'sohrevivencia da Anriguidade"' , escrcveu em 1934, "entende-
mos por isso que os símbo los cria do s pelos amigos continuara m a exercer
seu poder sobre sucessivas gera,<',es; mas o que e ntendemos pela pa la vrn
'co ntinuar'?" Wind t rato u de apo nrar que a sohreviv<'ncia pressup11nha um
conjunto de o pera<;óes em que entravam em acordo o esquecimemo, a trans-
forma, ao do sentido, a lemhran<;a provocada, a recorda ao inopinada etc.,
devendo essa n >mplexidade lembrar-nos o cará1cr mltur«I, nao naturnl, da
tcmpora lida de cm questao.1" Wind critico u aí nao apenas a " hisró ria imanen-
1e de Wiilfflin, mas tamb(-m a " rn m in uidadc histórica" [his t orie,¡ / cont im ,it y )
em geral, que ignora algo de que toda sobrcv'ivent:iaé pak o: um jogo de pau- sas"
e "crises" , de "sa lto s" e "retornos periódicos" )pi,riodic.rez,i,rsions], de rudo
que forma na.o wna narrativa da histó ria, mas urna meada da memé>ria [memory-m
nem o syneJ. Nao urna sucessiio de fatos artísticos, mas uma teoría
da complexidade simhólicaJ"'
Era im possível ser mais daro guamo ii crítica do historicismo comida na
própria hipótese da sobrevivencia. Ccn.rud Bing assinalou muito b<.'m a si tua·
,ao para d o xal de Warburg na epistemología das ciencias históricas (neio que
pod,r' iamos tecer um comentário análogo a propósito de Michcl Foucault):
por um lado, sucedia-lhe ser incompk to, parcial ou até <"q uivocado quanto a
certos fatos histórin >s; por outro, sua bip ór se sobre a m("111ó r ia - o tipo espe-
dfü:o de memória que a Nachleben pressupoé - reria modificado em profon-
didade a própria compr<.'<.n' sao do que é um fenome no histórico. Significati va-
mente, Gertrud Bing insistiu na maneira pela qual a Nachleben t ransfonn,1
coda a nossa idc ia d e t ra di <;ao: já nao se trata de um río comínno, no qua! as
coisas scriam simpksment<.' tr a n s mitidas da cabeceira para a foz, mas de urna
dialética tensa, um drama <.'OC<.'nado entre o ni rso do rio e seus pré>p r ios redc-
tno inhos...·!.tt \ XlaJter l!enjarnin, mais urna ve,z n >n sta tamos, nao se afasrou 1nu i-
to dessa maneira de pensar a histoticidade.l4'

-!· - : X-

Mas (- preciso dizer que essa li,;iio foi pouco seguida. Muitas vczes, o historia-
dor prefere nao correr o risco de se cnga,1ar: um faro cxarn, a seus olhos, vale
bem mais qtte uma hipót(·seÍIKcrta po r na rureza. Chamemos ,sso de modf stia
científica - O\J o chamemos de rnvardia, ou até de pregui<;a filosófiól. Pior que
rudo: um ódio positivis ta por qualq uer " teoría". Em 1970, Gomhrk h q uis
concluir sua biografía com o que chamou de mna " perspectiva, ao" da obra
warburguia na: nefa se intui mna estranha vonrade de "matar o pai", tun dese-
jo certeiro de que o {tmtasm,1 - como o próprio Warburg se definira em J924

76 Geor9es Didi·tiuberman

-
- 11Jo 110/rassc mais. E que, com ele, a sobrc11i11éncia, hipótese "ultra passada",
deixasse um pouco o scu eterno r<:>to m o n as ideias dissimuladas dos hisco- n
ado res da arte.,.,
Para chegar a esse fon, duas opera é'ies teríio sido neC<S'Sárias . A primeira
co nsisriu em itzl'illidar a estruhJra dialétit:a da sol>rez,iz,§nci,1, isto é, em negar
que t1111 rirmo duplo, feíto de sobrez,ii•éncias e r(l1u1sá111,mtos, organizasse - e
comasse im pura, híh(ida - qualquer rempora lida de das irnagens. Para ramo,
Gombrich nao hesitou em alegar que a N,ichlehen de Warburg, afina! de con-
ras, podia rcduzir-se símplesmenre a c hama da reui11a/."' A segunda opera ao
consistiu em i11Vc1id ,1r ,1 estnmm1 Jnacrfmirn da sohre11ive n cia:para isso, bas-
co u voltar a Springer e re-periodizar a distin, ao entresobrevivcncia e rcnasci-
:nemo. Ou seja, reduzí-la, pura e simplesmenre,a uma distin ao cronológica
entn' ldade Média e Renascimenro. Assim, Gom brich aca bou distínguindo a
o bscura"tenacidade" das sobrevivencias medicvais e a " flcxibilidade" ínven-
,ri, a das ünita r;oes all',mtica, que só um Renascimemo digno desse nome po-
deria ter produzido a partir do século XV.1s4
Dese nredar as meramorfoses da so brevivencia equivalería, 1ar<·fa estafa me,
refazer roda a história da disciplina depoís de Warburg. Assina k mos apt>nas os
referenciais mais ma rcantt'S. No início da década de I920, Adolph Go lds-
chmidc pu blicou, no prirnl'iro volume das Vortriige der Bibliothck \V.1rlmrg,
um artigo sobre "A sobrevivcncia das formas amigas na Idade Média": aten-
tando de imediato para o paradoxo da NacMeb<·n - a bso l utamenre indicacivo
de uma "vida continuada" 1Weiterleben] e de uma "mortl' continuada " [\Vei-
te rsterben l - , Go l dsch midt tentou estender ,z ld11de Métlia o que War burg ha-
vía identificado em Botticelli, apo ntando, em especial, o papel expre.ssivo do
dra peado na arte bizamina.149 Vinre anos depois, Jcan $('znec viria a invocar a
so brcvivencia dos deuses amigos" como um argumento de pt'rturba, ao c ro-
nológica, mais u1u,1 vez destinada a mostrar, na interferénci.i entre Idade Mé -
dia e Ren.isámento, a :ampliw dc do campo das sobrevivencias:
A rradicional antítes.- entre ldade Média e Renasciruemo se a1cnua a m dida
queconhecemos melhor um e ourro: a prirueira afigurn-se menos sornbriae
menos estática, o St'gundo, rnt·nos brilhante e menos súbito. P<'rce bemos,
sobretudo,que a Amiguidade paga, longede -renascer'' na ltália do século
XV,1i11ha so brevivido na cultura e na arte medieval; os próprios deuses nao
ressuscitaram, pois llllllCa huvlam <l(:saparc c ido da memória e da imagina-
r;áo dos homens (... ). A diferen a dos estilos rambém nos impede de perc-e-
ber essa cominuidade da rradis:ao, poisa arte iraliana dossénilos XV e XVI
reveste-se de velhossímbo los de uma bel<'za jovc111. Mas a <lívida do Renas-
cimento para com a ldade :lédia estt\ inscrita nos textos. Tentaremosm.os-

A imagemsobreviVe-nte 77
tra r c o mo, a tra vés de quais vicissitudes, rransmiriu-se de sérnlo para século
a beran9 a mi to grá fica da Antiguidade e co rno, no declínio do Cinq uecen to,
os grande.s tratados so bre os d <'US'{S, nos quais se afünentadam o humanis-
mo e a an c <lt t oda a fa 1topa, co nrinuararn a :ser tr ibutários das compila,oes
da !dad,· Mé<lia , co mpletame nt e impregnado s do es pir ito desra.""
Mas CSS<' tipo de homenagem a lii;ao warbu rguia na e a i m pureza do tem po
dils im agens constituí apenas urna JJÚnoria, como se há de con,sr u ar. Sence-se
po r to da parte a vomad<' de de finir uma periodiza, Jo d,1 his tória da arte q ue
se ja ca da vez ma is cla ra e d is tint a, isto é, css¡uc1¡1á tica e sa risfaró ria para o
espírito. Em suma, a o pera<;ao inva lidant<' que Go m br ic h ex p rimí a com ta nta
cl a reza se ria post ,l cm p rá rica, de maneira mais suh -rep rk ia, em roda urna s -
rie de desloca menros te6ricos pelos quais a Nad ,leben foi puxada para esq ue-
mas tcmpo rais - e modelos <le d ete rminismo - que sua hipó rese tivera a vin u-
de de q uestionar. Assim, a so brevivi'ncia foi atra ída pa ra a ideia intem po ra l de
arq ui ti po, o u para a ideia de áclM eternos, isso para explicar - corn pooco
esfor o - a mist ura de "cont ifluidades" e " va riac,oes " pd as q ua.is a hi stória das
im a ge ns é inevi ta vel memc marcada ." '
Puxou-se a so brevivfocia para o lado mais positi vista dos rc,stos m at eriais
da Antig1údade, ou da questao mais geral das fon t esm. Ela ta mhém foi pnxa-
da para o lado mais " formalista" das in flué.ncias." ' Depo is , pa ra o la d o das
t radi{ól!s iconogr á ficas' " e, em geral, das permm zc n cias indiscuríveis em q ue
cen os gé neros artísticos da Am igui dadc se maotivc nim a té a é poca moder·
na.155 Tu<lo isso, po r fim, virou para o lado das teoríassociais da aceita¡-iio, do
" gosto pelo an rigo" , da imira<;a o ou da s im p les " re ferencia" as " normas esti-
líst icas" d a Anrig uidade." ' Co nsiderado o bsolet0 ou empregado rnmo palavra
para rodos os fins, e, de qualq ucr modo, despido de s ua significa<;a o teó r i ca , a
N, 1chleben w a r bnr gu ia na <le ixo u de ser disl'tttidu. Isso nao significa que tenha
sid o assi m ilada , m ui to pelo rn nrrário. Diríamos, antes, q u<' foj exorcizada pela
p ró pria disciplina q ut lh,· devia o rn nceiro histórico de impureza do rempo -
mas q ue aca baría po r ccnsud -lo por isso.

O grande padre exorcista do nosso dibuk nao foi o urro - ,. acaso podcríamns
d uvidar disso? - scnao Erwin Panoisky. Ainda q u(· da boca para fora, o pr6-
prio Gombrid1scr.ia o h r igad o a a dmi tir: foi principalmente com Panofsky q ue
urna " perspcctiva ao" da obra warhurguiana csta bcleceu, para gera oes de
hist0 riado res da a rre, a invalida, ao da Nachleben, st u ritua l reó r ico d e exor ·
c is m o. " ' Já e m l '.12 1- a penas q uinze anos depois da co nferencia d e Wa r b urg

78 Geo,9« o;4,., H berman


so bre " Dürer e a Amiguidade iraliana" -, Panofsky publicou o artigo " Dürcr
e a A,n.igui da de d áss ica" , parecido demais no título para nao ter sido um rival
sec reto." ' Nele, a problemática da sobrcl!ívéncia, apesar de w das as homcna-
gens de praxe, já ceden luga r a urna pro blemfoca da in fluencia, e a g uest,io do
paté tico , liga da como podia estar, em Warburg, ao dionisíaco oierz.schiano,
ceden luga r a urna problemárk a da ti pifica¡:,io e do " meio- rermo", gue vieram
a poiar algumas referencias ao "belo idt>a l" t'm Ka m e na retóricad ássica .' "
No necrológio esn ito por Panofskycm 1929,, 1 expressao c rucial do Haupt-
problem de Warburg, a expressiio Nachleben der Antike, nao aparece uma
única vez: em luga r de t0da "sohrevivehcia", já nao se rrara senao de " heran- a" IE
rb te i l des Alterrnms) e de " hisrória da aceita .i o" da Anriguidade [Rezef1-
tionsgeschichte der Antike ].16º Depois, unindo esfon;os com Frirz Saxl, gue já
renrava histo riá zar o máximo possível - em si, uma rentaríva legítima - os es-
quemas co11ce in 1a is warburguianos,"' Panofsky publico u em 1933 , no boletim
cienrífico do Merro polican Museum de Nova York, um lo ngo a rtigo so bre "A
mirologi a d áss ica na a rt e medieval". Foi sua primeira p u blica ao importante
em ingles,161 seu visto de entrada para um novo conrexro inrelecrual e ins riru-
cio na l q ue transforma ría se u exilio (a fuga da Ale ma nha naúsra) em imp.:rio
(sua incomescá vel domina\¡fo sobrt a história da a rre n o meio universirá rio ).
É possível - e, aré certo ponto, pertinemc - lcr cssc an igo como um prolon-
gamento dos rra ba lhos de Warburg' so bre a "sobrevivcncia d os d euses a nti-
gos" : Pa nofsky e Saxl .:omenrarnm-se, ap a rentemente, em aplicar a ideia da
Nachlcben a um campo cronológico em que o próprio Warburg nao havia
tni balhado dirctamenre. Desde o co me o, portanto, rescrvou-sc um lugar para
a sobreviviincia, um luga r q ue "rcprovaria" - porém, parcialmeme - o ponto
de vista da hiscória vasariana:

Os primei ros italianos a escreveremsobre a história da an e, como Ghibeni,


Alberri e, so brerudo, Giorgio Vasari, pe nsavam que a a rre d:íssica rinha
sido abandonada no início da era crisra e só havia volcad o a to na quando,
nos séculos XIV e XV, secviu d,· hase para o gue se cosrurna cha ma r de
Renascirnento. (...) Pensa ndo dessamancira, rais escritores esrava m simnl-
taneamenre cenos e errados. Errados no sentido de que exisriam inúmeros
la<;os e nrre a ldade Média e o Rcnaséimenro (...). As concep oes clássicas
persisdram duranr,· roela a I<lade Média lcillssirnl rn n(e ptions s11rvit1ed
thr ouglu m t tb e Middle Ages¡: concep;oesliterárias, filosóficas, ciencíficas e
a rtísticas. Elas fora m de especial imporrancia depois de C.'arlos Magno, em
cujo reinado um reflorescimenroclássico fd assim l rcviva{J foi decidido c
implemencado em quase codos os ca mpos rn lrurais. Mas csst s p6meiros
autores esravam cercos no sencido d e gue as formas artísticasem que as
cnocep <;oes d ássirns haviam persistid o [pcrsisted] d urante a Jdadc Média
e ram tornlmcme diferentes de nossas ideias atuais sobre a Anit gu ida de,
id ,·ias qlle nao aparecerama mes do Renascimemo, em scu verdade iro sen-
tidoI "Rc naissan cee,.itz its tr1<e sensel de r-e nasd mcnto da Am igtJid ad ,e«_
[ ,,
/ ritr h " of antú¡uityl como fenomcno histórico lx-m definido fasa we-lide-
fined his to rical¡,himomenonJ. 1 6 l
1.ogo se presseme que essa introd u<;ao n o ass un ro implica niio só um p ro ·
lo n gamn 1t o, mas tambérn urna biíurca iio ou até urna possível itwersiío da visao
warburguia na, da qual, no entamo, Pa nof ky (·Saxl se afirmam"segu -i
dores " 1 (<1 /lou,crs ].1 ., O que é p ro lo ngado ? A ideia gcral de urna bipoalr iza ,;i\o
enrre sol>re11111bzá<1 e r e1u1scim en t() . O que é inven ido ou a ba ndo nad o' O teor
<s: tru tu r al ou sincrOnico, o teo r nao cronológico - e, ero síntese, ana,cr)n ico - desse
ritmo duplo. Desse ponto em <lia nte as ,oisas se separam com m a is niti- dezno
valor e no tempo: elasse hierarquizame se periodizam. A sol1reviv é 1á1a
pa ssa a ser a c<1t e goriain ferior da história da arre, que faz da Idad eMé d ia um
p e ríodo <le " c o nveni;oes" a rtísticas , de " degeneras-il.o p ro gressiv a" [g r t1da11 l
deg eneration ] das normas d ássicase, por fitu, dt:> la menr:ível " dissociai;a"o en
tre from a e comeúdo: "(...) o es pírito medieval lé] incapaz de realizar(..). a m 1
ida de da forma e do tenia chíssicos [í, zt a p,1blc ()f realizing... the 1m it y of
classirnl form ,md dass1c<1l sub ject mattcrl"."" .
O r cna sám en lCJ se to rnará - ou melbo r, voltará a se romar - a categoría
su perior da história da ar te que faz do Quattr ocento e do Cinq ueccmo um
per í odo de auge aró stico, de a utenticidadearqueológica e, portanto,de pureza
es tiíl st ica ... Q uase chegaríamos a dizer, ao ler Panofsky e Sa xl, que oRenas ó-
me nto "em ts ·u verdadeiro scnrid o" , o Renascime nto como " feon menoh is t-ó
ricob e m dd inido" , teria sido o ímico período que viu nascer umhome .rn
vcrdadeiro e " livrc". Il vre, uotada rnenre, <los fa rdos simbólicos ou das rnn-
v<'.n oes figurativas:
( . . )a rcitn eg ra, ao de t<·tru1s mirológicos d ássk os quese realizou no Rem1s-
cim e nrot a n
t o foi o motor quanto foi urna característica da evolma;. o geral
qu e de sembocou na d,·scoberra do horocm como umser natural, despojad o
desua capa pmtetora de simbolismoe convenciúmtlismo, (1 rutturt1, l / cign
stri/1{1ed o{his protccti11g « w1 1r of sym /,oli sm and cmwention,zlityJ.' 6 "
Talvez nem toda s as renso<:S se ja m afasrndas (Panofsky e Saxl evocma, ne srs
sem i d o , a C o ntr a - Reforma, ou seja, o fi111do Renascunemo), mas( u· nicamen-
t t a ·' harmonía d ássica" que se arrib ui o privilé<6 io de, no tempodo Renas d-
m t nro in its trtte sense, haver superado as crises arrísricase culn1rais queos te
mpos de sobrevivencia haviam atestado pela falta, pela negativ.a" "

80 GeorgesOidi-Uu rman
Resrava apenas urna dificuldade co nceirual a reso l vt-r: o renascimcmo o pu· ·
nha-sc a so brevivencia em dois planos que nao podiam se corroborar com
-.acilidade. A opos i ao bicrárquica niio rn in<:idi a fatalmence com a s ucessiio
, ro nológic,1. Panofsky teria encomrado uma solu ao eficaz ao disti nguir d uas
-vdens cacego riais dife re nces na palavra ren.1scimento: uma ordem sincronica,
que de chamou aquí de "renova,ao [remwation], e o " feno mtno hisrórico
bem defüúdo" q ue é o Renasdm.ento. O que se havia chamado de " Renas-
cimcnto carolíngio nao passava, para Panofsky,de luna " renovai;ao". Só fo¡
toma do "em seu verdadeiro sentido" o Renascimcnto <los séculos XV e XVI.'"'
Qua nro asohrevivencia,ela ficaria'asombra de sua indetermina ao rd ativa.
A pa rti r de 1944, Panofsky d 1amou de re11ascence [re nascen, a], palavra de
tradu ao d ifícil para o frances, o que havia des ignado ar é e nr,10=<o m o re rmo
re11 ov,1rJo .1•6 O siste ma se fcd1aria em 1960 com Re11asdme11tu e re11,1scimen-
tos na arte ociaenral, livrosaídod.-co nferenciasproferidas em 1952 e, pormn-
m, longamente amadurecido durante oito anos consecutivos. Panofsky reire-
ro u com veemencia qllc a "renova ilo" carolíngia e, de modo geral, todos os
momentos de " proto -humanismo" que a Jdade ]v'lédia h,wia co nhecido n ada
tinham de "r<'nasci menros" no sentido cstrito: <'ra m apenas rc11asan¡-<1s, mo·
memos par6 ais de "retorno a Antiguidade" J ·0
Assim, é compreensívd que, para resolv<'r o problema iunda mental enun-
c iado no início, ou seja> a rda ao e rre ,·onti1111idade e mudaru;a na história,
Panofsk y ren ha instaurado urn quadro de imeligibilidade par<'cido, por sua
e$trut ura rernária, com a famosa distinc;ao "se miológica ", enunciada na intro-
du<;a'o dos Ensaios de iconologi,1, <."Utre "ten1a prirrnirio'\ " ten\a convend o-
nal" e "significa<;iío int rí nseca"m. Por isso uma hierarquía em tres termos
passa a organizar toda a " teoría do tempo histórico" st-gundo Panofsky: ,io
ápice cnrn ncra-se o Renascimento, cuja inicial maiúscub indica a cemra lidade
cronológica e a dignidade intempora l. lima dignidade que Panofsky qualifica
por expressoesquase hcgdia nas : "a urorrea li,.a iio" , "co nsci<:mi za.;ao", "inte
gra, ao :i rcalidade", "fenommo toral" erc.1' 1 O Rrnascimemo, para l'auofsky
- Vasari teria razao, porranto, ele que dir.ia a mesma coisa - , era o despertar
da arte para sua própria consciencia, ou seja, para sua própria hisró ria e s ua
p,ópria " realiw ao" ou significa<;ao idea l.
Para antec ipar isso, há diferentes "renova<;Ots" parcia is, ou renasccnc;as,
qu,', na longa dura áo medieval, abalaram a hisrória das formas como ou1ws
tarlCOS mo mentos de redespertar pa ra o d assicismo/ ' 1 Por último, exisre o
fundo de sono do qua!se desvincubm todos esses momentos. Panofsky hesira
em nomeá-lo, em lhc dar um esraruto teórico; mal chtga a falar, numa virada
de página, em " período de incuba,;ño"r,. Mas está danl quenao se trata de

Aim:>gem so bte•1vient1: 81
outra coisa senao a sohrevit•{mda wa rbu rguiana . ,\s ú ltimas frases de Re11'1-$
ci11zento e renascitnentos op<>Cm sig n ificarivan1erne o "fantasma an o redimi-
do " dessa sobrevivcncia ii a lma enfon ressus<:irada - ideal, imangível, pui:-a,
imorcal, oniprescnte - do c:la ssiris mo ,11/'a11ti ca:
A lda<le Méclia ba, a dc.ixado insepulta a Amiguidade (zmb uriedJ e procu- r
<1v,a alternadamrm :e, fazer reviver e exorcizar seu cad lvC;'r. O Renascitnen· to
cborou sobre seu túmulo e tentou re,;suscitar-lhe a alma [rcsurrert its
sou /l. N um momen to qm·. o destino quis rorn3r favonível., cons (·guiu faze
-lo. Por isso o rnnceito medieval de Antiguída.dee;ra tiio concreto e, ao
mesmo tempo, ta<> incompleto e deturpado [so incompleie a,u{ disiorted ],
ao pass o q u e o com .·.e i to moderno, que se fonnou progrtssi vamente aol on- go
dos últimos ues ou quarro séculos, é grande e coereme, mas, digamos,
abstrato [tonsistent but ... abstmct l. Por isso as renova,;ñesmcdievais foram
cransit6rias, enquanto o Rcnasdmcnto foi permanente. Asalu1.as ressuscita-
das siio int ;m
_ gívcis, rnas tel11 a vamagen1 da i1nona lidadee da onipresen <;a
fimmortality and 011mjprese11ce 1
• ¡- ¡.

t como se ness.1s frases ouvíssemos o eco das duas exalrn iies simétricas -
idea lis ta s, u ma e omra - <l um Vasari e um Winck elmann... Morte aos fm a as ·
mas errantes e sohreviV('mes!Vivan1 ,is almas ressu.sciiadas ,. imortais! O que
aí se ,'xpressa i· nma escolha estC-tica, com ccrreza. Ou um,a ·scolha fanrnsmá ·
tcia. Nesse senrido, (- lc?,ítima. Porém a parece, m·sse momrnro, num discurso
da verdade que pretende fundar a história da am· como ciencia oh j,·tiva . Teve
como efeito orientar esta última para o esmdo de fenomenos histó ricos brm
definidos" lwell-defined hiswric,1/ phm omc, w j, e náo p,1ra o tempo inceno
<las sobre vi\'en cias. (;uardou as ideias imortais e jogou fora todos os fama-s
mas de imagens. Quis renmhecer no Renascimcmo um wmpo sem impurcws,
um pn íodo-padriio em qu,· foram k·gíveis a ho mogeneidade, a " reintegrnao "
das formas e dos cont(·údo.s Renunciou, portanto, a inrui ao wa rburguia na
fu ndamemal.
V<,ritas filia temporis, diz o amigo provérbio. "• Mas a quesrao, para o his·
roriador, é saber exatarnc nte de q ua! tempo - ou tempos, no plural - a verdade
é " filha . Como discípulo de \X/arbu rg, Panofsky cvmerou por reconhccer a co
mplexida<lc do anacronismo do tempo das imagens:11u111 texro do período
alcmao sobre "O problema do tempo histórico", nao por acaso,ele tomou um rx
cmp lo medieval para introduzir a dif,culdadc reórica que, na hisrória da
arce, íe incre nre a q1mlqm-r modelo de evolu<;áo:
Em que outro lugar seniio Rein1s,com efeiro, um conjunto de cscnlruras
proporciooa um espetáculo de tamanha riquc,a? Num tecido ele in fi nira

81 Ge<>rgesOidi Uub<'nn an
iridescCncia,é <:omo se vísseroos os mais diversos fios ora se cntrela<;an· m,
ora formarcm un1a trama rigorosa, ora se afastarem, para nao se- unin:m
nunca mais. Por isso só, a d iferen :1de q ualidade, em parce considerávd , já
nos proíhe supor que renha ha\·ido urna linha evolmi,•a única. Alt m disso,
porém, as diierences dir oes estilísictas se mpre se desenvolveram no mes-
mosemido, imerpenetraram-se igualmeme e cominuaram a existir umas ao
lado das o utras, a despeito de todos os vaivéns entrec ruzados. (...) Ao qu,·
parece, essa infinita variedade de "siste mas de referencia" que o historiador
1cm díante de si, mima etapa prímária, e que w nstirui um mundo, equiva le
a um caos monstruoso que é, poP assim dizer, impossível de ordena r. ,(.. )
Acaso niio nos enco ntra.ni.os enr3o <li"1nte de urn mundosem nenhmna ho-
mogeneidad(', no qual coahiram sistemas de referencias cristalizados, segm1-
do os tt m1os de Simmel, nurn isolamento "que se basta a si mesmo e numa
singularidade irradonaf?.? 7

Porrnnro, Panofsky r('almcnte come,;ou - com War burg - por reconhecer a


impureza do tempo. Mas tcria acab,tdo po r <·x t ir pá · la , res o lvé- l a, i ncluí-la
nu m esq uema ordenado qul' reatou a a_mhi iio CSl<'tic a das e ra s d oura da s ( o
Re nascimento é uma delas), l)('nt co rno o orn bi c;iio histó6rn dos " períodos de
referencia". F.sse texto <le.> 193 1 termina C()m a tspcran a de que uma "crono- logía"
das esculturas de R('ims possa mn <lia escla rece r e hie ta rqui za r a nmlri-
t
plicida de dos sistemas de rcfcr ncia cstiHsticos .F 8 um modo de exp rimi r 111n
desejo do hisroria<lor idealista ou positivisrn: de que os tem¡x,s, uma vez ana-
!tsados, voltem a se to rna r " puros" , de que as so brevivencias se d imincm lo·
gica mcnre da histó ria, ta l co mo a lia seria elimina da de um b()m.vinho. Mas
será q ue issoé sequer possível?Só mesmo vinhos ideais - os vin hos s<·m sa b or
- é q ue podem nao ter nenhuma tia, podem ser íse mo s dessa impureza q ue, d<.'
c e rca maneica, !hes dá estilo e t'ida.
Geschichtlíches Leben: formas, for as e o inconsciente do tempo

De Warburg a Panofsky, porranro, uma palavra cai no esquecimento: a pala


vra Nachleben, "sobrevivencian. E con1 ela, <.:om s ua inlpureza esscn<:ial, cai
tuna segunda palavra nd a contida: Í,ebfm, a " vida " . Pa nofsky,nao há dúvi<la,
t er ia querido compretnder a simples " significac;ao" [m ea ning ] das imagens.
Warburg, por sua vez, também quería c·ompreender a "vida" delas, essa " for-
a" ou "poder" IKmft , M,,chtj impessoal dt que as vczcs ck fofa, mas que
sistt11u1ticar m'ntC renuncia a definir. De onde tcrá extraído essc vocabulário
tao po11co a xiomatizado, mas tao impo rtante? Antes de rudo, de Burckhardt,
em qnem ele se comprazia em reivindicar a busca - co ncenwnte ao papel dos
espetáculos efemeros na c·ultura visual renascentisrn - de urna " verdadeira
passagem da vida para a arte" [ei tt w,1hrer Oberg,mg úllS dem Leben i11 die
Kun.st ]. m Assim como para Burckhardt, a ane nao era, para \Varburg, uma
simplesquest:io de gosto, massim1Ut1a questao 11it al. Tampourn a história era
para ele uma simples questao cronol6gica, mas antes um remoinho, um deba-
te da " vida" na longa dura¡;ao das culturas.
Para \Xla r burg, a hisrória das irnag<·ns foi o que já tinha sido para l\urckhar-
dt (por(-m nao foi mais, a partir de Panofsky): 11ma " quest:iode vida" e, já que
ncssa "vida" a mortt" é o n ip rese n te, <.k "so brevidas", de sohrevivt n<.'ia s. O
biomorfismo que se exp ressa aí niio tem mais nada a ver como de um Vasari,
0 11 mesmo o de um \Vinckd mann. É que a " vida" de que se erara nao funciona
sem o elemento n,io natural que é exigido, em Burckhardt e Warburg, pela
ideia de cultura; também nao funciona sem o elemento de impurew exigido,
em cada um deles, pela própria ideia de tempo histórico. Esbocemos uma l'a·
racterizai;ao dessa enigmática " vida": ela pode ser apreendida, ao que me
pare(:(', ao mesmo tempo corno um jogo de fm1i;ol.'S (qm'exige urna a bordag<-m
antro pológica), como um jogo de formas (qui.'exige urna aho rdagcmmorfoló-
gica) e, por firn, corno um jogo de fori;as (q u<.'<.'xige urna a b,1rdagcm dinilmica
o u ene rgética).
A " vida" é um ;ogo de fun ·é,es po r ser a vida de uma cultura. ls_o nao es-
ca pou aos primeiros leirores de Burckhardt, cuja antropología filosófica era
!ida nos tennos ainda vagos da "alma" 011 do "esrado íntimo da consciencia
de um povo". Émile Gebharr escreveu em 1887:

A;m, gcmsob,cvivcntc 8S
É ;\ a lma italiana q ue ek perguma pelo scg redo do Renascimenro.Por meio
da palavra cult1m1, quis cxpressar o esrndo íntimo da conscei ncia de um
povo. í>ara de, todos os fatos im p-0rta nt('Sdtssa história - a política, a e m-
dis-.lo, a ;.un); a m.oral, o prazer, a religiao, a superstic;ño - manifestam a
1
a,ao de algumas forfüS ,,;,,as (...). "'

Sabemo s que a Kultttrgeschichte de Burckhardt foi re\'iSitada pela hisrória


scx:ial,m assim como a Kulturwissenscl,aft de Warburg foi revisitada pela ico-
nología panofskiana e pela hisró ria social da arte;algumas de suasamhiguida- des
deixaram de existir (e é bom que se ja assim), mas com elas se foram tam - bm
algumas de s uas grandes hipóres es teóricas, de suas ,irticulufo es crític<1s mais
pertinentes. Indiquemos algumas que Warburg, de modo rnais o u menos explícito,
viria a retomar por coma própria.
A ¾vida" como jogo de fun oes, para Burckhard t, ,1 p rincípio nao é a dos
fatos nem a dos sistemas: {: pr eciso falar da ¾vida" e de seu movimemo co n-
creto na cultura porqul' a histó ria positivista rende a derrubar tudo, arrastan- do-
o em dire<;iio ao enunciado do faro cronológico, enq uanto a história idea- lisra -
a d e H egel, em primeiro lugar - rende, pm sua vez, a fazer rudo al,ar-se para o
enunciado de- ve rd a d es d e masiado absrnuas. Em , 1rnbos os casos, o pr6prio
t,·mpo é desencarnado, quando se q ul'r simplificar, isro é, negar sua
complexidade. A " vida como cultura" seria, diferentemente, urna artic:u,la áo
crí.t ic a destinada a romper o dilema esquemático e, portamo, trivial da histó·
ria-narurezae- da h isró r ia - idcia:
A hist6ria é outra coisa que nao a natureza [die Gcs<'/Jichtc ist ,zber et:ws
andere.s als die Natur]; s ua maneira de produzir, de fazer n:lSCer e perecer, é
dik rcnte. (...) Utn instinto primordial impele a narurez,1a criar de acordo com
urna lógicaorganicade infinitas variedad<"S <lecspédes, que comportam u.ma
gr a nde similitude de indivíduos. A vari,·dade (no interior da t·spécic
humana , é verdade) emí longe de ser tao grande na história; aquí nüo, h í
limites claros, mas indivlduos que se dlfercm:fam, is\o í-,que sedescnvolvem
ao se opor. A nat urezal'ria de mna vez por t0das alguns ripos (invertebrados
e vertebrados, fanerógamo e criptógamos etc.}; num povo, a()contrár.io, ()
organismo menos represPnta um tipo doque um produto em form , a;ao. (...)
Rrn,mciamos igualnwme a wda sistemática [wir uc,-ichte.n ferne, r 111( a/les
Systetntiti.st he J, nao t( ndoa pretensüo de destacarideias gerais da história
universal;vamos nos limirar a observar e a csrabelecer cortes nas dim;ocs
mais variadas, q uercndo evitar sobremdo a exposi i\o <k um a filosofía da
história. (.,.) Hegd fala ero " metas de sabedoria eterna" e erige suas refle-
xoes nwna teodiceia, alk cn;ando-se na ideia do elememo afirmativo que
subordina, domina e supr ime o elemento negativo. (... ) Ora , nao somo s

X6 Geoig csDi di•H1Jb e rma n


in icia dosnos designios da eterna sabedoria. Essa concep<;ao arrojada de um
plano providencial leva a erros, já queas próprias premissas sao inexa tas.182

Com essa dupla recusa, J\urckhardt ent ro u na " rerceira via" de uma nova
reda<;iio da história.w Uma rcda,;ao cujas esc()lhas fundamcma is Warburg
teria d etivamente ampliado: ser filólogo para alétn dos faws (porque os fatos
valem primciro pelas q uestóes fundamentais que poem em prática), ser filóso·
fo p,m1 a lém dos sistemas (porque as questoes fundamemais valc m primeiro
por suas implementa ocs singulares na hisrória). Seria esta a "ccrceira via":
uma recusa das teleologías e dos pessimismos a bsolutos, um reconhecimento,
pelo menos, da "existencia" [Dasán, Lebenl histórica das culruras, isco é, de
s ua co mplexidade. Burckhardt chegou a dizer que a história a utent ica era de·
mrpada tanto pelas "idcias" provenientes de " teorías pre·,onccbidas" quanro
pela própria "crnnologia"... poisa histúria é esse esfor<;o de- co n hecimemoque
nos desaloja de nossa incapaódadc <\ssendal de "compreender o variado, o
acidm tal" ltmse reUnf.ihigkcit des Verstd11dnisses fiir d<1s Bume, Zu fiilligc).16'
Assim se instaura urna estrnnha dialética dos tempos, que nao necessita do
"bem" nem do " mal", nem d,' " inícios" (a fonte onginária de qu,• rndo deriva-
ría) nt tn de " fins" (o sentido da hisrória para o qual mdo convergiría). Nao
necessi1<1 de nada disso para e-xpr essa r a n >111pk xidade - a impureza - de sua
"vida". F.la é feita de rizomas, reperioes, síntomas. A histó ria local - 0 11 patri-
ótica, ou racial - \he é cstrnnha, pois ela nao comém a ideic, das rda,;ocs e das
diferen as. A histó ria universal já nao (: seu objeto . Burckhardt renuncia de
antemiio a pwcurar uma fómmla g ral parn o " sistema" de todos esses rizomas.

Os filósofosda história, o brigadosa criar hipótescssobre ,is origens, dew·


riam, por conseguinre, ram m fa1..c.: r es timativassobre o futuro. Emcontra-
partida, po,k mos prescindir dessas teoriassobre os primórdios, e ninguém
pode nos exigir um ensino escatológico. (...) Os problemas da influencia do
Sol,.do d ima, (...) cratados a guisa deimrodu, o p(·los filósofos da histórb,
nao nos dii m respéito; por isso osrwgligenciaremospor n impleto, do mes-
mo modo que todas as trnrias cúsmicas e raciais, • geografía dos eres rnmi -
nentes antigosetc. Em todas asd i nc-ias , exce ro na histbria, pode-se come<;"'ar
pelo comr o. É q ue as idcias que fazemos do passado, na maior pan, do
tempo, sao ,·onstru oes do nosso espirito ot> simples reflexos, como veremos
a propósito do Estado. O q ue é válido para um povo ou urna ra,;a rarnmen-
ce o é para o utros, e o queacreditamos ser wn estado iniá tl nunca passa de
um estágio já muito evo luído. {...) O carátcr mais acessível da história local
provém de uma ilus:lo deóptica, de uma diligenó a mais acc-ntuada de uossa
parte, que pode ser acompanhada por uma grandecegueira."'

Aimagemsobreviv ntt r.
Essa reflexao so bre as rela,¡iíes do lc,c.11e do global na o s,' da va, em Bur-
ckhardr, sem uma rcflexao so bre as rl'la<;iíes do deuir e da estilbilidade: a
" vida" da his rória nao .- a penas um jogo espa ó al de aco mecimento s indivi-
duaise comext= is. Étarnhém, com cer teza , um jogo d o tt>mp o, a dia lfo ca d o que
se modific¡i e do q ue resiste a mud<1r .' 8" Ser h ist or ia d o r, pa ra B ur ckha rd r, na<.>
sig nifica apenas compor a narrativa das coisas que mudam ao se suct·de-
rcm: é prt>CÍS<'> sobrerudo "analisar a influencia recíproca, coosrante <' progre s-
s iva (...) do elemento móvel [Beu,egte s J nas fo r a s está vd s [St,1/Jiles]" .1"- Nis-
so, a " vida " da his tó ria realnwnre decorre de uma morfo /ogi,z: da Í? um jogo
de form,zs, se eme nd crmos po r " form as" a cr istahza i,;áo s en sível d ta l d ia léti -
ca ou u¡nfluencia reciproca".
(...) como o tempo sempre arrasra cm sua estcira as formas (die Fonmw ]
q ue sao o esteio da vida espiritual ¡dasgcistigc Leben], a p ri meira tarda do
historiado r scrJ separar os dois aspectos, cm suma identicos, da,s oisas. F.le
mostrará, primeiro, qm· todas as manifosrac;Oes do cspírito, scja cm que
donúo io for, tem \1m lado históri, o !cine geschichtlid1e Seitcl q ue as faz
parecen:m pass.ag<'lr-as, limicadas e condicionadas por urna rcalidadequ<'
nos escapa, e, segundo, que todos os even tos tr-m um lado espirit ual [cine
gcistig(' Sei1el pelo qual participam da imo nalid<1dc. O e spír it o é mmável,
mas nao é cfcmero.1 ll8

:;. :(• :·

r o i o campo dacultura que Burckhardt - como historiador,c unropólogo, n¡¡o


como filósofo- visou com a palavrn cspírito. Ames, pois, qu't Warhurg tivessc
que reivindicar o stattts de " psico -his to ria dor" , Burckhardt já hav ia pensa do
a Kulturgeschichte como uma mor(oiogicz, o u até urna est<iti ca das "formas
psíquicas" da cultura. Era uma questao cenm, 1 para todo o seu projetoh is ór
a
rico, ele recon/J,'<:Cu, mas nao moda " roltlÍllltÍCO•fa lltaSiosa" [ni, · /,t et u •a
a
romantisch-ph,m.tistischl , po ré m ma ncira como se observaría o " maravilh o·
so processo da metamorfose de uma crisálida" [,z/seinem u,1md ers,zme 11 Pro-
iess''º " V«r pttppungenl.189 Por isso Burd diard r op de enchn scus cad eroos
com tod as css as anorn ocs vis uais (fig. 8): a cultura de urna época sima-se em
s uas fontes escritas e nos acomecimcotos de sua histó ria, mas ta mbém em scus
quadms, seus ornamencos a rquitcto nicos, seus detalhes do vesmário, suas
pa.isagc ns remoldadas pelo hommi, s ua imagina<;ao herá l d ica , o u e m s uas fi-
guras mais marginais, como os grorescos, por t xen1plo1. 91l
T i-ve-se uma compreensáo n11üro pred ria dr Bu rckha rd r q uando se qnis
ir.npu rnr sua estetizar,fo da história a uma fra q ueza episremológica, a uma

SS Ge-ofges Didi·Hubcrm,>n
S.Jacol:, But<.khardt, Fsmlumzs de M1ms!er, ,. 1S. 5. l·olhcwdedescnhos cxtrJ-.ído
dé um:1,n lc ao intitulada l lltertludl :c-.r. & siJ(3'i , JarnbBurdchardt An.hiv. Foco:
J3cob Rurckhardt·An.hiv.

excenr ri.cidade de ama me da arte, a urna inconst·¡(uencia disciplina r do hist0-


riador stricio se11s1<. Burckhardt nao esteriza a his tó ria como quem se deixasse
levar por urna <"mbriaguez ,k esq uécime nto: simpk s meme reconhec<:' - Ii,ao
considerável - que a artim/Qfiio 1em poral da rela , iio ('ntre devir e estabiJida de,
e nt re Gcscbicbte e Typus, é uma articula,Zio fonnal, a cxecu,ao de um " pro·
cesso da meramorfose de urna crisálida" . Assim, há que se " ts tetizar" rwcessa-
ria meme a história: a Kultur, seg undo Burckhardt, comoque ocupa o lugar da
raziio na hisrória", egundo Hegem l. Nao há hísró ria possíve l sem nma his-
rória da culrnra, e nao bá histó ria da cultura sem uma his1óri, 1 da arle a b<."rta
a s ressonJncias ant ropológicas e morfológicas <la s imagc ns.m Tard a qne Bur-
c kha r<lr cerrameme deixou em consrrw;áo. 'farda que \'l;la rbu rg e Wii lfflin,
cad a qua!ii sua maneira, q uiscram prolongar, se rüfo con cl uir.
Q ue a rarefa do Júsroriador esrcja centra lmente fadada a ,una ccrta mor-
fología necessária - cu ja paisagem crítica conviria desenhar, um dia, desde
Got the aré Cario (;inzburg, por cxemp lo - é o que e xp lica ramhém o forre
reorvisual do vocah ulário teórico burckha rdria no: nele se constara urna recusa
, ·mienta, um recuo diante do a priori de Kant e da "especula<¡ao " de Hegd, e
urna reivin dica, a o s imétrica, pa ra o his toria do r, do "oUiar", <la "co nrempl a-
,;:ao" IAnscha,mng ] ou da "imaginac;iio" l l'lum tasie l." ' Para Burckhardr, a
rusr<ír ia se co ris tr uía menos como uma narrativa do que como um "quadro"
Btld ]: "lmagens, quadros, é isso que dese jo" [Rilder,'Iizble,zux, das ist's was

A image.m ()brcvivcm:e .89


ich miicbtel, cscreveu ele já em J8 44 , muna forrnula ao que Warh u rg re t-o
mou por cunea própria, ames mesmo de po-la em prárica nas pranchas de sen
arlas Mnemosy11e.:.. Co mo na o ver, ent re o mros exemplos possíveis, que o
cla ro-escuro, mesmo como escolha cromática, exprime urna forma do tempo
em que o present e da histór ia (o de Mamegna, por exemplo) afirma seu
próprio rusta nciamc m o arqueológico, seu pró prio anac ronismo, sua própria
voca ao para fazcr com q ue sobrevivam - como fancasmas - as figuras da
Antiguidade?295
Porranto, nao há história possívcl sem urna morfología das "fo,mas do
tempo". Mas o raciocínio ficaria inco mpleco sem ' este esd a red mento essencial:
nao há morfologi 11, ou aná l ise das formas,se m urna dinJmirn, ou análised sa
{cm;us. O mi tir isto é red uzir a morfología - o que vemos com frequcncia - ao
cscabelecimcnro de tipo logias estéreis. É supor que as formas sao reflexos de
um tem po, quando das sao, ames, os restos - risívc is ou s ublimes - de um
conflito ern a ao no tempo. Ouseja, de um ¡ogo de (<m; us. Esta seria, portan-
to, a re rceira c aruc re rística da "vida" segundo Rurckhardt: a dinamica do "t ipo "
[Typusl e do "d est nvolvimento" IErttwickl zm _g- j constirni o "fenómeno capita l"
[ll au prpbiinonum ] da hist ória . Tra ra-se de um fenómeno tens.ivo e
oscilató rio, produror de complexidades aremorizantes:

A a,ao desse fenómeno capirnl !die Wlirkung d<'s Ha11ptphiinome11s} é a


própria vida histúrica Idas g«schh-htlid,c J.ehenl, t·om sua diversidad,· com-
plexa, seu.s <lisfarn·s, sua líberdadc e seu <"ercea rne nto; ora ela assumc o ro
to da multida.o, ora o do indivíduo; seu humor oscila do otimismo ao
pessiroismo; ela cria e destrói os Estados, os m itos, as civiliza óes; as vezes,
a bando na ndo-sea impulsos e a fantasia, é mu grande mistério para si mt·s-
ma; outras vez<·s, ésustentada e acompanhada pela simples refkxao, ernho- ra
at o rmentada, cm cenos dias> por presscntimen{os do que se n::;ilizará
num funiro <listantez. 9 <,,

Falar de " vida histórica" [geschid Jtliclu.<s L.eben ], porramo, é procura r


com preender o tempo como um jogo de " fon;as" [Kriifte, Miich te] ou de " po ·
rencias " (J'ote11zenj de onde decorrem, esclarece Burckhardr, " todos os ri p os
de formas de vida ll.e be11s{ormen j" ." ' Noutro ponto, ele escreve: " Devemos
nos limi car a constatar as diferemes for as (J'otenzenj que surgcm de maneir:t
simultanea o u sucessiva, e a descreve-las ob jetivame nte." '98 l\fas é uma taref::
árdua, porque uma (<m;a scm pre te ndt a se esquivae é difícil r o nsmrá- la q uan
do é muiro violenra e onipreseme, e difícil constará-la q uando é muito virtua.
("em potfoó a" ) e invisívem l. Essa dupla significa ao da p,ila vra potfmá11 -
forqa manifesra e forc;,i la reme - nada tem de anedó rica: da impéie pelo meno!'

90 Gc:or9e$ Oidi-Uu rman


c.:
r..i..
du as consequencias, duas bifurca,;oes que modificam profu nda menre nossa
.:;,aneirn de conce r a hisroricidade.
A primeira implica uma dialética do tempo - jusrarnente a que tenram<ls
--
·:-
:zpreeJJder na ideia de síntoma. l'e/3 leirur;1 de Burckbardc, ,•ssa dialérica fun - E
..:10na a maneira de um dcbare sempre reiniciado emre "laténcias" /Lrte11zen/
-crises" /Krisen/. Nii.o há temp<l his rórico, de foro,sem um jogo de latencias:
• •..) desconhecemos compleramenre o que chamamos de for,;as h11enres [/a- lnl
te Kriiftel, materiais ou morais, do mundo , e nao somos capazes de pres- senrir
os imprevisíveis rnm,ígios <:S ' piriruais que podem transformá-lo subita- meme.
•00 Essa co ndi<;ao, hisróricá e coleriva, encontra seu correspoudence psíqu ico e
individual no faw de que "no homem, nunca sucede urna única faculdade esta r
ariva por v<-z; rodas estao sernpre ativas jnnras, mesmo que uma t rabalhe mais
dehilmente que as omras e ame só no inconsciente [im Unbewu ssten ] do ind
ivíduo" _""
Ora, toda latencia procura a brir caminho para a su¡>('rfície dos e ventos: a
"cú,st " [ Krise ) denominaría, em Burckhardt, essa maneira parricLLla r menre
eficaz que o tempo tcm de fazer surgir - por COlltratcm po, por síntoma - sua
própria potencia. Pelo m<·nos doiscapítulos das Considerarties sobre a história
sao inteira meme dedicados a essa qucst1io.>02 E em roda parte impoe-sc a ob·
serva ao dialética da rdac;ao, muito difícil de se analisar, entre formas fo:as e
forc;as que as fazem vacilar,ou entre for,;as dominantes e formas que as fazern
fracassar:
Na história , a q ueda é scmpre preparada por urna desimegra iio interna,
um esgotamento. Basta enrfo um peque,10 abalo t'Xt e rno para que rudo
desmorone. (... ) Urna c rise que exploda por llm mot ivoqualquer hcneficia-
-se do impulso geral dcsencadeado por numerosasnutrascatL as; oenhuma
das testemunhas é capaz de discernir q ue forc;a acabará levando a mdhor'º. '

A práti ca da hiscó ria, em Burckha rdt, equivale a uma análi.se nao de fatos que
se sucedem no rempo, mas de uma esp<.'cie de inconsciente do tem po: s uas
larencias, suas catásrrnk s. A história warburguiana das i.magens paree;: ha·
ver ex1raído as co nseq11e ncias dessa decisiio metodológica: fazer da histú ria
uma sintomatologia ou at(- uma p,,tologia do tempo, a qual seria um e rro
reduzirmos a um simples pcss i mismo moral, ainda que o elcnwmo trágico
seja reconhecido nda em roda partt. Foi primeiramente em termos morfológi-
cos e dinamicos que Burckha rdt quis fala r das "ca tástro fes ou das " doen,as"
do tempo:

Alm.agemsobrevi\'ente 91
(Oh is to r iad or dcve analisar todas as for9asl para passar a análiseda ni -
fluencia recíproca,constante e prog ressiva delas, particulannenceado e le-
mm tom óvel {a cultura) nos dois poderes estávds (Esrado e rcligai .o j Em
segu ida, cts udaremos os mnvimenmsacekrados do proccsso hisútr cio {t -ri
ses ,. revoh1 ñes, rompimenmse rea,oes), e depois o fenómeno dea bso n ;ao
p a rcial ou intermitente,a frrmenta ao simultanea de todas as outrsn formsa
da vida. as rupmras e as rea,oes, para enfim passar ao que poder ía mos
c hamar d ,· c ie ncia <las pe n urba ocs [Snmnlehre: 1eoria das tem pestade]s.
. .{. ) Tom amoscomo pomo de partida o único elemen to i,m a rhívd que pode
pr est ar -se a se melham.: cstudo: o ser humano,com1suas dores, suas m a b-i ·
,;i">ees suas obras, tal como d e foi, é e scmpreserá. Por isso, cm certame d- i
da n, os sas considcra,o,-s teriio um ca.r-í.t e r patoló,gi :o [pat/1()/ogisc.hJ'º'
Ain da será preciso falar de urna dialfo ca do tempo? Sirn, se q uiserm os en-
tc 11der p o r esset e r mo um processo mais tensivo que r<.'so l ut i vo, maiso bs id io -
na le s t di mcmado que linea r e o rientado. A diá lérica dos " poderes ersávc si"
[Stabilesl e do " elemento móvel" IBc:wegt es] re r á pn, du zi d o uma rc í dca p r-o
fun da do h isto ricismo: só fa,. to rnar complexos, multiplicar ou desnortear os
modelos do tem po que Burt-khardt denomina aqui de " n ises"," revolu oes ." "ru p
tu ras", "rea,;Oes", ""ahso n ; Oes pa rciais ou intermitenres" , ' '"efrm n
t ra ·
<;eos " , " pert urba<;oes" ... e a lista seria infind.íve l. Fah1r de um" i nconscien1e "
[ Un bewus ts es ] o u de oma "pamlogia" é a firmar, al<'m disso, que a dialérica em
ac;ao demonsrra apenas" impurew e o anaa m zismo do tempo. Essa ser ia a
s eugn da li<;a o, a s eg unda consequencia de urn,a 1bordagem morfolgó ica e d i-
námica da história: o tempo libera síntomas <', com ele.s, faz os f1.ntasms<1
ag riem. Ot e mpo, em Burckha rdt, já é mn rempo da id6a obsedantt', dah ibn- da
c;ao , d o a na c:roui smo; nessa condi<;a <>, a nrecipa dirn amente as" sob erv iven ·
cias t v;mrhurg uia.nas.
A ssim, Burckhardt fala da culrura ocidental como sendo um domín io ilin u -
ra do , " impregnado da s tra di , oes de rodos os tempos, todos os povso e rod as
as c iv il íza oes tt. l<>S Assim, constara que " nao há limites claro»s a reco1thecer
nda, que o "organismott <le roda cultura nao passa de um perpérou "pro du ro
em forma,5o", um " processo marcado pela influencia dos co.nrras tcse das
a fni ida des". A conclusao é qu " na história, rudo é chcio de basradr i a (B <2s-
tardtum1 , como se esra fosse ind ispensável a frc und,a ao I Be fmcht zmg ] dOII'
gran d ts acomec imentos espirituais".306
Ora, essa impure:t.a nao é apenas sincrém ' ica: afera o pró prio temop, sec
r itm o, seu dcscnvolvimento. Burckhardr afirma que nao convém conrarco c;
pe r ío do s, separar a hisrória em "ida des da , h una nida de", mas simcons at =
"Uln nllil<l' n> infin it o de enca.rna<;Ocs sncessivas" que presu s póem "'rtans t or

9l G corge'iD1d-1Hubc1man
maqoes", e porramo, " imperfeio cs" - como urna mistura, difícil de analisar, de
" dcs tr uiqoes" e de algo que convém chamar de "so brevivencias" . ;o• Bur- ck
hardr toca mais de perro na Na,·hleben quando rejcira q ualqucr pcrio d iza-
<;fo hierárquica da história entre barbárie e ciz,i/iwf,io - ta l como Warburg se
recusaría, tempos depois, a fazcr urna scpara<;ao nítida entre ldade Média e
Renascimemo:

p11ssagem da /,arbáric para ,1 ávi/iza-


(...) nao nos é possh-d rnme<;ar pela
s·iio. Tamo num caso quanto no outro,as idt iass...io por den1ais imprecisas.
(...) O emprego dessas palavras, afiz,ta l, é urna qucsráo de senrimemo pes-
soal: de minha parte,considero harháric engaiolar pássaros. Oesde o come-
<;o, conviria deixar de lado alguns usos que remontam a noitedos tempos e
subsistem em estado de fósseis aré urna época d,, alta civiliza<;áo, p or moti -
vos ialvcz religiosos o u polízico s, co mo alguu s sacrifícios humanos. (... ) ' \
in1erosos elementos t·ukura1s, talvezprovenienets de a)gum povo esque-
cído , wminuam a viver inconscientemente (/ebt aud, ,mbcwusst iueiter]
co mo uma hcranc;a secret a e sao t ra nsmitidos no próprio sanguc- da h uma
ni<ladc . Convém sempre levar em coma esse at'résrimo inconscientede pa-
trimOni<>s c ulturais lunbewu.sstes Aufsu11nnieren von Kulturres.u/ta tenJ, ta n-
!O nos povos quanto nos in<livíd uos. Esse a escimenro e essa pcrda IWa,hsen
tmd Vergehenj o bedecem as leis soberanas e insondáveis da vida (ho here uner
gründ lkhe 1.ehensgeseh :el .w
g.

Na mesma página, Bu rckhardt usou a ¡nila vni Weite:rleb e n , q ue significa


subsistt'nd.,a e, já enrao, «sobrevivencia". Esrava aberro o <.:am.inho pa ra se
o mprcendcr o que significava Nuch/ehen - e, com essa "so brevida" , estava
Jberto,o ·aminho para se comp reender o tempo comocsse j<><.;o im p uro, tenso,
es.se d eba te de la rénc ias e vio le nc ias q ue podemos chama r, com· warbu rg, de
, ,da" [LC1benl das imagens .

A imagem sobf ivcritc.- 93


Notas

1 (,.f. Plínio, o Velho, XXXV, p. -r..27 ("lnmxlu i u" do trndutor) .


Ct. J. von hlosscr, 1914h, p. 140-151 e 211-2 U. R. .Krauthr.imcr, 1919, p. 49-6J.( l . l:.mturli,
19 76, p. 1.75-298. (A cxprt"ss:io.:ul ltali:1,w siplifit·a l,on:ens ilustres. (N.T.). J
1 •<• V;t$"..lri, 1Si 0 156S lt p. 41-6-4.
• C f. c.. Didi Hube,m,rn,1990;,1, p. (15 • 10 3 .
\ M . Fo u ca uh, 1966, p. 230.
" Cf. C:. J usti, 1 98. \'('... W1czcoldt, 191 1, I.. p. 5 1 1 :... w. Frnst, 198 4, p. 2 55-260 • .H. rn n Eincm,.
19 86 , p. . 15 326. H. <.... ceba, 19S6, p. 199 -313 . F.1faskcH, 199 t, p. 83 -99, J .-R. famio n, I9 9 J,
p. 19-5 1 16. A. tlous, l994, p. S e passim. f , Dfr uho t, .lOOO.
A. <.... Q mtt r C"m i; rc de:Quin()\ 17'16,p. 10 ).
11 J.J. \'Qin('krlm.ann, 176 4, I, p. Xll XX"TI, onde\Vi.aC"kc:lm..1nn fustigouos -ciogiosger:iis" dosesc<:ras
e os ..falsos prind pint-'' d0$;intiqu:irfos que o havh1m precedido. bte asrcbliOCs mais<.u mplc-
).3S - dcssa .:it q\ 1oolozkl n.asccmc <·.u m a pr,h k u dos -antiq u:írios,d . A. Momigfümo, 1950, p. 6i -
l06; M. K,ifer, 1986, p. 46 -49; M . Fan« lli. J991; A. Schnapp , 199 1, p. !l l - H \. Ct.
S. How at d, l 9 ':>0 _. p. 16 1 1"4
'.
"' C.f.G.1'.forpu 1g<)· T :tgliabuc, 1994, p. 77 92. M. f sp1gn<;, 1 995 , p. 1.n 1.)8, qud nsi::t.c, u nnr azao,
no c.nd tcr liter:ir'io o u acé liag uístic.:o , t mo <.lU tmo cs rérk o, dcss1 <.'onstt w ;ao.
11 f..Po mmicr, 199 4, p. 11e 12..
e•. A. Po tts_, 1 9 94 , p . 2 1 - 11 e .H -32. lb i d .. 1 98 2... p. 377 ---40 7. Ouua abord:.1g c m dessa " di\1sao" t:-
of«t<'ida por W. Oavis, 19 93, p. .l.57 l 6 S.
t\ Cf. F. Pomrnic(, 19_4, p. 17-18.
1" J.J.\'vind d mMlo,1i 64 , n, p. 515-) 16.
1' :\ . Pons1 199 1, p. l l·ll .
'" lbid., t994, p. 8 e:50 54.
1"' <1. l L \i )"VC:t bc-rg, 19S S.

'* <.f. ?. T. Decho.7ellc, 1S.>4 .


,., Litado C: rn mcmado por H. l) ill)', 1979, p. 80.
!íl í-J. WitK.kd mann, 1764, l, p. Xl Xll.

= • Cf. W. l.cpc:nies, 1986, p. 1 1 1· 1.l7 . í:. Pomu u cr, ) 99 4 , p. 14--15. B. Vouilloux, 1996, p.; 8 4 .)9 7.
•· C f. P. Auhc:nqu e, 1962, p-. 460 - 4 7 6.
?> J. j. \t' in, kcl t'(l3nn, 174, 1, p. Xl.
!• f:. Pommitr, 1994, p. 12.
l' Cf. A. Pom, 1994, p. l., -46.
" J.C..Herd,er 1778, p. l7 e 4l.
" lbid., p. 42 e 47.
!t lhi<l., p . 48. So bre o e nsaio d e, Hcrd et, t. •t.(..s:::t:b:.1., 1 9 85. p. 50 71 . Sobre os spccrns cspe,c·.u l:1
ti11o· s d o co n cd to \v ind. :d manniatlO <.le bis1óri1.d . ih id•. l 986, p.1.99, 3.H.
" Cf. J. Erk·hsen, 198 0. A. Pons, 1994, p. 14.H S l.
m Cf . M..Fmhsch, 1989, p. 97 113.

94 Gt o,ges Oidi-Huberman
n J. ). \X'imkdmann, 1764.,1, p. 341. .H J .
"' JbiJ ., 17.SS, p. ll - lJ .
Jhid., p. 1 i:;. z1 . A e x )tcssao"bom gosto" d:i :m linosuas primc1.tíssil:nas pal:1vra.s.
l4 Jbid•. p. )6.
Jhid., 1764. J, p, 415 4 16. Acü11tinu:1 :io do rexw (p. 416--434) é dcdkada a" d et.f nl-ia d :15,figums'
- s.ohretudo dasd::in\ :3t'ioas: .. e3 um3 n ít ic:i. is - p,Jixücs\'lofcnrns".
u J. .f. Wim:kdmann, 1764,·n,p. 515 516,
A. Pnns, 199 1. p. 11 12.
" M. fri e&, 198 6, p. 8 7- 9 7 .
r- J.J. \'\;'inc:kd m :rn n, 17 6 4 , n, p. 516 .
" Jd., 1755, p. 16.
· Cf.C. Didi-ll ubcnn:1,n, J99()a, p. 89 94.
., J. e_;_ Herde r, 1778, p. 41.
• > A . Wa rburg, 1906, p. 12-.l 13 ) (1ra<l. , p . 159 - 16 &).

• Cf. G. l>idi Hubcm).:m, l 4J94, p. 40\ -4 U. Jd., 1996<. p. 14. ·16 3. [J., l'J9Sb p. 7 10.
E. ('35-.irc:r. 19 2.91. p. SJ -S9. r . f\rnofsky, 191.9, ). 148 l5l.\ '. W:.,t1.wlJ, ! >JO, p. 191· ,WO.
• Ct. W. S. Hcd S' (hct, 1967, p . 2.B-180. U. Kulte rmann, 't J? l, p. l. ll -.216. G. Bj_tin. J9S6, p. .215
21ft (lJl.lC dcdi<.a qua!t uca lillh as a \'('3.rburg nas <,50 p:íginas de seu fivrn ). Sobre a sone crítica -
mclhol'.'- de 'i.''(arburg 1i-a ltá li a, <'.l. ( ) . Ag:o 'ti, 198 5. p. ;9 . )0 .
(, . Pasqu:111, 1930, p. 484.
f_ H. liombrich, 1970, p. 8 10. A hiogr:1fo1.m;.1is "pcsso;,11" de F. G:-rnia Slovin, 19().S, ¿ pou <·.o
co nti;ivel.
E. \X'ind, 19 7 1, p. 106 -1 1!.
(;f.M. Wairnkc, 1994, p. 1l6.
Cf. f. s -txl, 1944, p. .H S- B S. No pro j(.'to inkfo l dos Gesammcltc S,hri/tm (.'Jll 19.U , Saxl h,wia
imaginado publicar o c u:ilogo d;.1. bibliotcc\ como UJ)la "obta" tornl,o11eHe e.la autor i::, dt.: Warhurg.
E. H. Gombrkh, Pi701 ) . J .
A. \Xlarburg, ti>n , p. 178 (trad . p. 203 ).
E. f!. Go mhri, h, 19 70, p, 67··68 ,
m:h, 2.4 de novc mbro de 1.906 (d t.tdo por I. H.
A. '°''arbur& T.1geh Go111hcid1, 1970, p. l 4) .
f H. C omhr ic:h, 1970 , p. 16 17 .
U. E.l'anofsky, 195 1, p. ll l -3% . <- f isl« , 1969, p. .S44 -6l 9.
R. K lcin, 1970, p. 224.
<,. Agamb<n, 198 4, p. 9 -4 l .
0. G. Bing, 1% 0, p. 101. Id., 1%5, ¡,. 300. lJ ., 1%/,, p. lX XXXI.
l'.ir.--i uma bibJiogt3fia cxau:tiiv.1, cf. n . Wuttkc 1998.
'--L D.\Xiutt kc, 1977. iVf. "' rnk(\ 1980a, p. 113·186. C. H. Láñtb ucr, 19$1, p. 67-71. H. Bte·
amp 1991 . p. 1--6.
G, .Sing, 1965 , p. 30 0--30 1: " l\'<',n b\1(Sf (: <.)bsc:urcddo pclo tam•1.11ho do legado." Um:i ".so<·.i ul o
u" da cscola warburgui.11)3, rrmim pouco convinccmc. foi temoda por G. Vestuti, 199 4.

revi-.•ente
A im c:m sob 95
M C:f. G. G¡nlbwg, 1966, p. J9..9(,. P. Cas:tdn uovo, 19 77, p. 7-9, J. Sia Josux .kt, 19 81, p. 2·. 4 l
M. Pod m, 1982, p. 15/1-168. P. Burl«', 199 1, p. 39 44.
"' ('f. G. Syamkon, J980, p. 1l -26 .
M Cf. E. Plmo, 1987, p. 9 J 10 7. íd., 1990 , p. J1 14. O a uror tt<.'res, e nta - scrnprc <lt: form:1 t:quiH
> l
l <l.:1 - quc Warbutg " p1ssm, .:1legrcm em po r cima d.i modcroidadc:, scm lh c;dirit,il' urn só olhar- (p.
10).
(,., Ib id., p. U. Id., 1992, p.17---42..
r.iCf-. M. h-crscn, 1991, p. l:Sl 287. (<l., 199 ;, p, ) 4 1 553 .
4" t'.
.. H. Gumh rich, l970, p. vii (prd dc1
0 cdJ,-ao d e- 1 986).
" , c:J.rt ;) <le; .
-o A. \'C.'.lrb Wó J e agos to de l S SS { c-irntla <."ltl ih id., 1p. ) -40 ).
71
f<l., ( 923b, p..l°) 4,
r- lcl , c:m.n a Adolph ( ioldschm.idt, j,g<>Sto d e 1 9 0 l (o rada tm ibid•. p. 1 11 e 143).
" Cf. A. 1. 1cye 198S,¡,, 4, 5 45!. R. C:hcrnow, 199l, p.60-61.ll i 123,194· 19 , 1 204-201, 28
2S8. B. Rod e , , 1997. SohH a bistOria da familia \'<'arhurg, d . t:.l.m m U. fa rr cr, 19i 4, J, Atr
198 1 , <U'',,,/,wg, 19SS.
Ct F. l-f. Gumbri,·h, 1970, p. 37· 38 e \ S- Sn.
H füid., p, }.": 3 }.
1
lbid., p. 17
. t: )84 0.
.,., Cf. H. J:mi1s.c:hek , LS 77 , 1 8 7 9 { onde sao cst ud:.1d :.1s as (.ólld1 ot'S th rnmandka e e.fo mcc:r.n:r1
p. 1• 2 7 e 7.l -99 ) e 1S9L
1
• Cf. A. Schmarsow, 1886, 1921 <: 19 l i.
' Id., IR99, p, 5. 7 79 (" Mimik und Pla<tik" ), 1907a, 1907 b e -rJl 9.
111
Cf. F.. Jl. Gvmbr it h, l 97 0, p. .55-56 . ,A •isJo ofoteüb por Comhrk b sobre;1 form o imt le'th. tli
de \''(,.irburg loi t ritH:sd3 e co mplc:m rn t J3 por F. Wi11J 1 19 71, p. t 1! -113, r po r F. (;i llx.r,, 19-:.
p•. 81- 39 1 fqw: dc.'it::ico u tl i n fl ut'1l 1a tk Dilt hc)' ).
111
A.. Wa r h nrt, Tagebud;, ll de ja11('iro <le 181)7 (d ta do por F.. J f. (,o m brk h, 197, 0 p. 9S).
8 A. Watburg., 1 '>12, p. 185 (tnuJ.p. 215).

" lbid., p. '8S (tr;:id. 'J· l.1 5}.


" l<l., l 90 h , p . 90 ( erad. p. 12' ). Id., 190 7b. p. u -16 3 (erad. p. H,7- 196 ).
" Id ., 1901 • , p. 69 (trad. p. !0 6 ).
111
• Cf. F.$ 1xl, 1930b, p. 3J. J H 4. 1d., 19 44, p. Jl.5 -338. C. H. L:incbu c r 1984. . cu is . 19SS, p. 11.
17t. f l. OWy, 19 9, 1 p. 125 -140 .·y: von S toc.kha usci>, 199 2 . e ·. B rosi us, 199 t M. Oiérs {o rg.), 199'1
R. DrommC"l'c-, 199 5, p. 14--IS. N. .Maun, 1?95 , p . l l0-.117. X>bn: o pa pd - c.oas id c r:h-d - dc Fra
xl, cf. c.;, Bing, 19 17, p. 1-46 .
s ? C t . A . BJunt, 1938, n:io pagmado.
a11 F.S:tx1, 1923, p. tJ.10.
1
' S.Scttis, l9 S,S p. 1l S- 16 -i, A evolu .io <la ptó pria d ass itic: 1< -i<> l );u t-'<:c co mo um jogo de pt: rr.::lll
ta i;ñcs cint e c.,s u m cc i ms d e im ág t>m (Bi /J ), p.ala, •ra ( W(m ), 1 0 (11..:,,dhmg ) e or icnrac;.io (Orzor.
lienmg),

"'° <J. M. Jesing.h:iu$Cn-1..auste r, 1985. O. Wunkc (oig.). t989.


'' F.. Cassin:r, t9l a, p. 54.
,: A. W.1rh urg, 19..Bb, p.1.)4.

96 GeorgesDid1·Hvbé1man
º•I d,. 1 92k . Cf. F. Sáxl. 1929-19, 0, p. 325-330. A. D,l lago, 1984, p. 6,79 1. C. >Jaber, 1988,
p. 88- 97 . P. Rurke, 1991, p. 3-9 44. J(. Forster, 199 1, p. J1-.>7. id. , 1996, p.5- 24. - S<ms. 1993,
- 15$. F. Jan..--:hcn., 1993, p. 87-112. S. W't-igel, 19 9,5
p. l.W p. , 1 \5 -153. P. -A. lv
t ic hau d . 1998 :i,
p. 169 -2,1 l.
t,,I Cf.P...A. Michaú<l, 1998 11, íig. 66 68, 70 e SO-S >.
- <.,( . P. Burke, 1991, p. 41•
.. Cf. S. \X'cigd , l 99S . p. 1 H- 1H.
•• Cf. A.l>;il i.ogo, 198 4 , p. 84 S6.
• Cf. <.,, Pi.ng, 1960 , p. lOt,.
" C. f A.!)al lago, 1984, p. 67-91. Y. Maikun1o, 1985, p. ó-SS. K. Fomcr, 19%, p.1- 24.
10[) · . ssi, 19 81, p. 6 ) -91. \X<j.rbt1rgó ta Use-ner:::né c.--m seus
t..f E. I f. G o rubrich, 1970, p. 28-30. M. i\1
t rnb.t.lhos<lús,mos 1'920: d. A. W:u b u.q;, 1910, p. l.68 (trad. p. 186).
1 (.:f.H.U S<."nCt , 1 882, 1 887,
ISS9 , 1896, 1904. 19 11- l9 U . Súbrt Usencr, d. notada o:u..'T<ltR'. 8<)(c:,{i
1982, p. 23-42. A. Momigliano. ! 982, p. 33-48. Id., 1984, p. 2332 44.
c e (, W. Wundt , 19 08 . p . ) 109 { a rce e: psicologl.3 <l:i Pl;,w tasit). l d., 1910 ,, p 78-J l l (i m 1gcm e
a1üinismo) . C . ).1. Sc hncider, 1990.
lltlC i. 1..1.év-y Bruhl,1 9 10, p . <,S 11 0 (a "Jei de pan i,·ipa,ao" ) e )Sl -4.U (sobrc.vivt:rt( ia d os mutto.s)

Id., 19 22, p. 17·46 {lóg.i -:i p cimitiv;l). .Id., 192 7, p. 29 1-J .27.
ce Cf., notadamcntc:,, (> F n Ulc td , 19 4 .
· Cf. \ !. Ma uss, 18 9&, 1900, 1904, 190.I,
J . P. Vem:m
t , 197 5, p. 5-34. l\1, . Dcticnne, 198 ). {..f. R. Di Don Ho, 19$ 2, p. l l-3 .21 8.
Cf. G. () id i -1 lu bt"n na n, l()98b, p, 7-1O.
J. 1 1:: Goff,1 983 , p. ii e )ocvii. P;U';.'l urna lc:ituta p;;ir:ilda de ?vforc: Bloch e Ah)·Wa.rbuq;.d. .lJ Raulff,
1991a, p. 167-178.
C!. J. L. Gof(, 1lJ85, p. j-xxi.
A . \'Varb o.tg, 190 1 (<..it j.dOpor L H. (,ombr ich, 1970, p. 15.3).
Esesasp c:c:m o oipr csc nte- dóS tr;;ib.'llhos de Warb utg pc:rm.lll<'(ct l dcsco nh('(ido na fr:ul<;a, ca.notpel
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muit<J.S vcz_('S nos (;S('.:t . (•••> :.t hjstúria desscs povos nos é tota.lmcmc dcsc:ollhccida e, cm uz.1o
da falta ou d:1 pobrcz:.1 das tntdi oes otais e <los vestigios arq u<"-<>!6gico$, fi<:a para sc-mprc for-J. de
ak -1nct-. Ncm p<>r isso podcm0$¡,-ood uir que n:io exista."
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1
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!(,t C.fMf>dsol e j. f'hHU)\ 1996, p. l.714-l.7 l':'
i .; ( .f . <:. kl, ,.illcrs, J996h, p. l..21,5 2.1 17 q ue d:í o cxc mplo do axolode (o qu:il, pcrmanc.::codo J u
ra1uc :.1vid:.1 i ntcira como fan·:1capa7 de se repmduú lr C..: 10 m C$.olOcempo, uia.n¡;3 e ;idulro) e fa.la
<.fo ritmo s <lifcrcnc iad os, ;1i:clcra Oes u u rct.:ir<l:imt'.'nmsdo dcsc n\'o l\'inlt':nto, qut siio alrt m :ida mcn -
(C d e-11ool.Ula <los "'ntotcnias". - progC11cses", "peramo rfo.,..c::;", "hipcrmorfoses"' ett·.. Cf. igual.mcnrc
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1
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rw r, Ca rl),'le J8.B - (S >4, p. _;7 4,() A <"(ligtafr d CS$l livro é um:i célebre paSSágt:m de Goc.'thc ro ·
breo tempo: "O tempo é m.inh:i hcran <;a, mcu ca.mpoé o tempo" IDie le.it ist Mtt n \'t'nncichtn;'$$,
mein Ackcrist,üe 7.eitJ. Id., 1Sl 9, p. 16 -S l . Id., 1830, p. S3 95. l<l., 18 lJ . p. 167- 176 , C f. A.J Li
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102 Geor9es Oid i Huberm an


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