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Inflamação na obesidade e seus recursos ergogênicos

O Diabetes Mellitus (DM) é definido como um distúrbio metabólico caracterizado por


hiperglicemia, em decorrência de defeitos na ação e/ou secreção de insulina. O DM tipo 2 (DM2)
é a forma mais comum de manifestação da doença, sendo responsável por cerca de 90-95% dos
casos. A obesidade, hábitos alimentares inadequados e inatividade física são fatores que
predispõe o DM2, pois contribuem para um círculo vicioso de aumento do estresse oxidativo,
inflamação crônica e diminuição da sensibilidade à insulina.

Devido ao precário controle metabólico, em longo prazo, pacientes com DM2 podem
desenvolver, além de alterações no metabolismo energético, lesões e disfunções nos tecidos
muscular e neural, e nas células beta pancreáticas. Nesse contexto, aminoácidos como a leucina
e glutamina, demonstram ser extremamente importantes para a manutenção da massa
muscular e normalização da função mitocondrial,e por ter a função de otimizar o balanço
nitrogenado e manter a síntese proteica muscular, além de ser uma fonte energética importante
para os macrófagos, linfócitos e demais células do sistema imunológico.Estudos conseguem
demonstrar que num modelo de célula beta pancreática humana, a suplementação de alanil-
glutamina é capaz de aumentar a secreção de insulina, mesmo quando essas células são
submetidas a um ambiente altamente inflamatório (condição semelhante ao que ocorre no
DM2). O indivíduo obeso apresenta uma inflamação persistente do tecido adiposo,
provavelmente resultante da ativação crônica do sistema imune. Nesse tecido gorduroso ocorre

aumento da produção e da secreção de mediadores inflamatórios,

especialmente a interleucina-6 (IL-6), o fator de necrose tumoral-alfa (tnf-α) e a

proteina C-reativa. O tnf-α, em conjunto com a produção aumentada de leptina e resistina, tem
um desempenho importante na patogenia da resistência à insulina. A obesidade foi inicialmente
reconhecida como uma condição de inflamação crônica de baixo grau no começo da década de
1990, quando se constatou o aumento da expressão do gene que codifica para a citocina pró-
inflamatória, denominada fator de necrose tumoral-alfa (TNF-α), no tecido adiposo e a redução
da sensibilidade à insulina em roedores submetidos a um protocolo de obesidade induzida pela
dieta.

Posteriormente, outras pesquisas verificaram que a obesidade está diretamente relacionada a


alterações nas funções endócrinas e metabólicas do tecido adiposo.

Em indivíduos obesos, esse tecido aumenta a capacidade de síntese de moléculas com ação pró-
inflamatória (denominadas adipocitocinas ou adipocinas), como a enzima óxido nítrico sintase
induzível (iNOS), a proteína C reativa, o fator de transformação do crescimento-beta (TGF-β), a
proteína quimiotática para monócitos (MCP-1), o angiotensinogênio, o TNF-α, a interleucina-6
(IL-6) e a leptina.

A resposta inflamatória promove, por um lado, o aumento da síntese de diversas adipocinas com
ação pró-inflamatória e, por outro, a redução da concentração plasmática de adiponectina, que
apresenta ação anti-inflamatória.

Esse processo reduz a expressão gênica de moléculas de adesão em células endoteliais: a


liberação de TNF-α a partir de monócitos e a proliferação de células da musculatura lisa. Verifica-
se forte correlação entre a redução da concentração plasmática de adiponectina e o aumento da
resistência periférica à ação da insulina.

A redução da gordura corporal resulta em aumento da concentração plasmática de


adiponectina, em redução da resposta inflamatória e, como consequência, em diminuição da
resistência periférica à ação da insulina.

Na obesidade, verifica-se que o aumento de macrófagos no tecido adiposo, em particular no


tecido adiposo visceral, é inicialmente precedido pela migração de monócitos do sangue para
esse tecido em indivíduos obesos, cujas células, quando presentes no tecido adiposo visceral,
diferenciam-se em macrófagos.

Esse aumento do processo de quimiotaxia de monócitos, a partir do sangue para o tecido


adiposo visceral, é mediado pela MCP-1, sendo que o receptor para essa proteína, denominado
CCR2, é expresso em monócitos presentes no sangue periférico e em macrófagos teciduais.

Além disso, a expressão da MCP-1 correlaciona-se positivamente à adiposidade, sendo a sua


expressão gênica maior no tecido adiposo visceral quando comparada ao subcutâneo.

O conjunto de fatores compreendendo a síntese de adipocinas, quimiocinas e citocinas;


hipertrofia de adipócitos; hipoxia (deficiência de oxigênio) no tecido adiposo e endotoxemia
devida ao aumento da concentração sanguínea de LPS leva a uma maior infiltração de
macrófagos no tecido adiposo.

A disfunção endotelial está associada a diversas alterações vasculares, como a aterosclerose,


hipertensão arterial, hiperlipidemia e diabetes mellitus, que têm em comum a resistência à
insulina (RI). Citocinas são proteínas de baixo peso molecular, com diversas funções metabólicas
e endócrinas, que participam da inflamação e resposta do sistema imune. Várias dessas citocinas
são consideradas como fatores de risco independentes para doenças da artéria coronária e
cerebrovascular. As principais fontes de citocinas (adipocinas) são os tecidos adiposos
subcutâneo e visceral. Assim, aumento da massa de tecido adiposo está associado com
alterações da produção de adipocina com aumento da expressão de fator de necrose tumoral
alfa (TNF-alfa), interleucina 6 (IL-6), inibidor do fator ativador de plasminogênio 1 (PAI-1), e
diminuição da expressão de adiponectina no tecido adiposo. A condição pró-inflamatória
associada a essas alterações sugere ligação entre RI e disfunção endotelial no estágio inicial do
processo de aterosclerose, em indivíduos obesos e em pacientes diabéticos tipo 2. A redução da
massa de tecido adiposo, por redução de peso associada a exercício físico, reduz TNF-alfa, IL-6 e
PAI-1, aumenta adiponectina, e melhora tanto a sensibilidade à insulina quanto a função
endotelial. A interação entre adipocinas e insulina no controle da função endotelial será
discutida, bem como o conceito de que a alteração da secreção de adiponectinas na RI e/ou
obesidade piora a função endotelial, além de diminuir ainda mais a sensibilidade à insulina.

GORDURA SUBCUTÂNEA – A gordura subcutânea se localiza logo abaixo da camada mais externa
da pele. Esta é a que você pode beliscar com os dedos. A gordura subcutânea cobre os músculos
abdominais e se você tem muita, não será capaz de ver os seus músculos abdominais. Em
comparação, a gordura visceral está localizada entre os órgãos dentro do corpo. Você não pode
agarra-la, embora ela vá fazer o estômago ficar protuso se você tiver muito. Há evidências de
que os homens tendem a ter mais gordura visceral do que as mulheres, as quais tendem a ter
mais gordura subcutânea. Uma vez que as mulheres atingem a menopausa, elas começam a
desenvolver mais gordura visceral.

GORDURA VISCERAL – A gordura visceral fica por trás da parede abdominal e os órgãos que
rodeia, no interior da cavidade peritoneal. A gordura visceral afeta negativamente a saúde,
aumentando a inflamação nos órgãos. Em parte, porque ele libera substâncias chamadas
adipocinas, que são proteínas de sinalização celular que aumentam a pressão arterial e
influenciam a insulina. A gordura visceral, também diminui a quantidade de adiponectina no
corpo, um hormônio essencial para a queima de gordura que ajuda a acelerar o metabolismo, o
que significa que existem mais triglicéridos ao entrar na corrente sanguínea. A combinação da
diminuição da sensibilidade à insulina, hipertensão e triglicérides elevadas, muitas vezes pode
resultar em aterosclerose, colesterol elevado LDL (o tipo mau) e é um fator importante para o
desenvolvimento de diabetes.

Adiponectina x Adipocinas – A adiponectina é secretada a partir de tecido adiposo ou gordura


subcutânea e ajuda na absorção de glicose e sensibilidade à insulina. Tem efeitos anti-
inflamatórios que suportam a pressão sanguínea saudável e função cardíaca. Diabéticos e
pessoas com sobrepeso têm níveis mais baixos de adiponectina, o que significa que quanto mais
gordura você tem, mais gordura você vai ter. Como mencionado acima, adipocinas são liberadas
pela gordura visceral e incluem IL-6 e TNF-a, o que levanta pressão sanguínea, diminui a
sensibilidade à insulina e causam inflamação.

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