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 LINGUÍSTICA

INTERACIONAL


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LETRAS|44



LINGUÍSTICA INTERACIONAL


ANA CRISTINA DE SOUSA ALDRIGUE


ROSEANE BATISTA FEITOSA NICOLAU


Apresentação

CaroalunodeLetras,

Você já se deu conta de que a interação verbal faz parte da nossa vida, de que a todo momento
estamosinter(agindo)comonossosfamiliares,colegas,jornalistas,escritoresetc.,buscandoconvencerouser
convencidos,sejaporumsimpleseͲmail,sejaporumacomplexafórmulamatemática?Vocêjásedeucontade
que vive numa corrente ininterrupta de comunicação com inúmeras peculiaridades que nos fazem ser
compreendidos, malͲinterpretados, contestados e que nos fazem visualizar quão rica e complexa é a
comunicação humana? Você já percebeu que a nossa interação é algo mais do que apenas transmissão de
mensagem,quequeremosinfluenciarequesomosinfluenciadospormeiodainteraçãoverbale,ainda,queé
por meio dessa interação que nos constituímos como sujeito? É sobre essa visão que trataremos nessa
disciplina:LinguísticaInteracional.

ALinguísticainteracionaléumanovavertentedaLinguísticaquevêalinguagemcomoumaatividadee
queconsidera,noprocessodeinteração,elementosqueatéentãonãoeramlevadosemcontapelosestudos
linguísticos,comocertasformaslinguísticasouextraͲlinguísticaseasituaçãoqueenvolveainteração.

Pararealizarmosnossosestudos,preparamosumroteiroque,inicialmente,nospossibilitaráumavisão
panorâmicadainteraçãonosdomíniosfilosóficosecientíficos,antesmesmodotermointeraçãoseradotado
nosestudoslinguísticos;depois,faremosumaleituradecontribuiçõessignificativasdeestudiososcomoMead,
Bakhtin, Vygotsky, Goffman, Gumperz, Austin, Benveniste, entre outros, que podem ser consideradas como
peçasͲchave para o surgimento de estudos recentes que tentam elaborar uma descrição do processo
interacional em variados contextos comunicativos e que levam em consideração o sujeito e as relações
interpessoais.

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Assim,orientandoͲnosporumavisãocronológicae,depois,porumavisãoinvestigativadosestudosda
linguagemnumadimensãointeracional1,organizamosoconteúdodessadisciplinaemquatrounidades:

UnidadeI–ESTUDOSINTERACIONAIS:DASREFLEXÕESFILOSÓFICASAOSESTUDOSCIENTÍFICOS

Nessaunidade,realizaremosumaleiturabrevedosprimeirosestudosinteracionais,aindaforado
domíniodaLinguística,ouseja,estudosdesenvolvidosporfilósofosepsicólogosetc.,queprovocaramuma
mudançadeparadigma:navisãodalinguagemedopensamento,quepassamaservistosdeforma
intersubjetiva.

UnidadeII–ESTUDOSBAKHTINIANOSEDESEUCÍRCULO:UMNOVOPENSARSOBREALÍNGUA

UnidadededicadaàscontribuiçõesdeBakhtineseucírculoqueimprimemumanovavisãoda
linguagemcomoumaatividadedimensionadanosocial,naqualosujeitoeu,historicamentesituado,se
constituipeloreconhecimentodoseuinterlocutor.

UnidadeIII–PRAGMÁTICAELINGUÍSTICAINTERACIONALPELOVIÉSDASOCIOLINGUÍSTICA
INTERACIONAL,PRAGMÁTICACONVERSACIONALEANÁLISEDACONVERSAÇÃO

UnidadevoltadaparaasteoriasdelinguistascomoGoffman,Gumperz,Austin,Searle,GriceeKerbartͲ
Orecchionniquesefocamnumadimensãointeracionalesocialdalinguagem,tecemgrandescontribuições
paraaformaçãodeumaLinguísticaInteracional.2

UnidadeIV–LINGUÍSTICAINTERACIONALPELOVIÉSDATEORIADAENUNCIAÇÃODEBENVENSITE

Comopropósitodecontinuarabordandoteoriasquecomungamdeumavisãodalinguagemnuma
dimensãointeracional,trataremosdascontribuiçõesdeBenveniste;agoranocaminhodaTeoriada
enunciaçãoͲdoestudodalinguagememsituação,dasubjetividadedalinguagemͲ,quevãoconfigurarum
novoquadroteóriconosestudoslinguísticos.

Esperamoscontarcomoenvolvimentodetodosvocêsnosentidodeconstruirmos,juntos,uma
aprendizagemcolaborativaesignificativa.

Boainteraçãonadisciplinacomtodosebonsresultadosnoaprendizado.


1
Estaúltima,citadaporKerbartͲOrecchionni(2005),queexpõedoiscaminhosdosestudosdainteração:a)odalinguagemcomoformadeagir,oque
originou a Pragmática e a Análise da Conversação, e b) o de que é na linguagem e pela linguagem que o homem se constitui como sujeito, o que
originouaLinguísticaEnunciativa.
2
Mesmoquedeformaabreviada,ilustraremosessascontribuiçõescomexemplos(cartum,tirinha,placadetrânsito,cartazpublicitário,poemaetc.),no
sentidodeobservarmosaaplicaçãodasteoriasexpostaspelosteóricoscitadosnestaunidade,oquenospermiteverorganizaçãosocialdodiscursoem
interaçãoeadinâmicadasinterlocuçõesemsituaçõesdiversasdeinteração.
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UNIDADE I


ESTUDOS INTERACIONAIS: DAS REFLEXÕES FILOSÓFICAS


AOS ESTUDOS CIENTÍFICOS



Nesta unidade, vocês terão uma visão dos primeiros estudos interacionais, fora do domínio da
Linguística,e,logoemseguida,ͲemoutrasunidadesͲfaremosumaexposiçãodosestudosinteracionaismais
recentes centrados nos precursores dessa visão, tais como Mead, Bakhtin, Vygotsky, Goffman, Gumperz,
Autin,Searle,Benveniste,entreoutros,quesevoltaramparaalinguagememusoequenospermitiramfalar
emumaLinguísticaInteracional.

Essesapontamentosnãosubstituemasobrasestudadas;apenasestabelecemumviésdeabordagem
deformadidáticaesistemáticadealgumasdiretrizesparaessadisciplinaqueseanuncia.

Breves refexões filosóficas sobre a interação



AntesdeserumobjetodeanálisecientíficanoséculoXXͲcomoveremosmaisafrenteͲ,ainteração
foi tema da reflexão filosófica no século XVIII. Faraco3, em Comunicação no Congresso Internacional
Linguagem e Interação, realizado em São Leopoldo – RS, no ano de 2005, expõe pesquisas que apontam as
primeirasconcepçõesinteracionistasfilosóficasecientíficasqueaquiserãoapresentadasdeformabreve.

Essas concepções partem de um movimento que se opõe a concepções centradas no sujeito que
encontrasuaplenitudeapenasemsimesmo,quereconhecesuaexistênciaporsieapartirdesi,queésenhor
do próprio conhecimento. Esse movimento surge, então, como uma rebelião contra o indivíduo tomado,
desde pelo menos o século XVI, de acordo com Faraco, como elemento axiomático, inquestionável, do
pensamento moderno. Temos como marco inicial desse movimento o slogan do filósofo alemão Friedrich
Jacobi(1743Ͳ1819)SemoTunãoháoEu.Istoé,oEuéimpossívelsemoTu.

Hegel(1770Ͳ1831),emsuaobraFenomenologiadoespírito(1808),apresentaumaformulaçãodessa
perspectiva interacionista na chamada “Dialética do reconhecimento”, que resumidamente seria a
consciênciaͲdeͲsipormeiodeumretornoasimesmoapartirdooutro.

Essaperspectivainteracionistaéretomadaporoutrosfilósofoscomoveremosaseguir.

3
LeiaotextodaComunicaçãodeFaraco,naíntegra,em:http://www.pucsp.br/isd/artigos/Interacao_e_Linguagem_Faraco.pdf.
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Filósofos e suas visões interacionistas


Ludwig Feuerbach (1804Ͳ1872) foi o filósofo alemão que elevou a interação, a priori, ao estatuto de
dimensão, condição transcendental da existência, substituindo a razão autoͲsuficiente por uma razão
relacionaleasubjetividadeisoladapelasubjetividaderelacional,efeitodarelaçãointersubjetiva.

MartinBuber(1878Ͳ1965),inspiradoemFeuerbach,escreveuolivroEueTu(natraduçãobrasileira),
no qual constrói uma espécie de ontologia da relação. Ontologia resumida em seu slogan com
intertextualidade bíblica: No princípio é a relação. Nessa obra, Buber afirma que a alteridade precede a
identidadeeédelaconstitutiva,daipseidade:MetornonarelaçãocomoTu.Portanto,aexistênciahumana
emergedodiálogo.Odiálogodeterminaapalavracomointeraçãoentrehomens,apalavranãoémaislogos;
elafundamentaaexistência.

Esse filósofo afirma que devemos à presença do Tu as nossas possibilidades existenciais. Toda e
qualquer função psíquica só se desenvolve, bem ou mal, na presença do outro. Ser reconhecido é a pedra
angulardaconstruçãodoEu:servisto,reconhecido,respeitado.

BuberafirmaqueohomempossuiacapacidadedeinterͲrelacionamentocomseusemelhante,ouseja,
aintersubjetividadee,ainda,determinaqueintersubjetividadeprecisaserrefletidaeanalisada.

Faraco,emComunicaçãocitada,debruçandoͲsesobreasafirmaçõesdeBuber,postulaque“Docaráter
constitutivo, estruturante da interͲrelação, decorrem os fundamentos de uma ética do interͲhumano. O Tu
tem o dever de reconhecer o Eu”. E complementa com uma citação de Bakhtin, de 1961, que converge em
pensamentocomoBuber,quandoafirmaedecertaformacomplementaque‘Amorteabsoluta–onãoͲser–é
oestadodenãoserouvido,denãoserreconhecido,denãoserlembrado.Sersignificaserparaumoutro,e,
pormeiodooutro,serparasimesmo.”

A intersubjetividade passa a ser, no estudo da comunicação verbal, um princípio fundamental. Ela
permiteacomunicaçãoeéalcançadapelacomunicação;éalgonegociadoedemonstraareflexibilidadedas
ações,i.e.,comoooutrorespondeaoquefoidito.

Bakhtin foi, dentre os filósofos que trataram da interação, quem mais avançou em termos de uma
análise da linguagem. No chamado Círculo de Bakhtin, existiu um encontro entre a reflexão filosófica e a
científicacentradanaintersubjetividade.Asreflexõesbakhtinianasserãoabordasmaisadiante,pornós,na
UnidadeII,dedicadaexclusivamenteaessefilósofoeaseuCírculo.



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Primeiros estudos científicos sobre a interação

A interação passou a ser objeto de estudo científico a partir do começo do século XX. Faraco
estabeleceaobradonorteͲamericanoGeorgeHerbertMead(1863Ͳ1931)comoumaespéciedemarcodesse
estudo. E sobre Mead nos diz que este recusou qualquer abordagem psicológica que tivesse como
fundamento o primado do indivíduo, uma vez que vê o indivíduo como efeito da interação, e que este não
podeseropontodepartidadasteorizaçõeseanálisespsicológicasesociais.
Seufocoera,portanto,aconstruçãodosujeitocomoefeitodainteração.NãohánaobraMente,Sef,
Sociedade, de Mead, como aponta Faraco, um estudo específico da linguagem na interação. Há, sim, o
reconhecimentodopapeldalinguagemcomoconstitutivadosprocessossociointeracionaisedaconstrução
dosujeito.

HebertBlumerclassificouopensamentodeMead,juntamentecomodeváriosfilósofosesociólogos
da época, como pertencente a uma linha de pensamento  denominada de Interacionismo simbólico em um
artigosobrepsicologiasocialpublicadaemoHomemeSociedadeem1937.

Ointeracionismosimbólicotemsidomuitoempregadoemestudosdasnovasformasdesociabilidade
que emergiram com a Internet, por pesquisas multidisciplinares, principalmente por parte da sociologia,
antropologiaepsicologia

Blumer sucedeu Mead no Curso de Psicologia Social, na Universidade de Chicago, e condensou as
ideiasdeMeademtrêspremissas:

a) o modo como as pessoas veem os objetos depende do significado destas coisas para elas.
b) este significado ocorre como resultado de um processo de interação social.
c) significados de objetos podem mudar com o passar do tempo.

Mead combateu o primado do indivíduo e o


Outrosgeneralizados
determinismo absoluto da estrutura ao afirmar que o social
Conjuntosdeações,representações,valores
nunca é um dado homogêneo, mas sempre heterogêneo. O eatitudesquecirculamnumadeterminada
social contém uma multiplicidade daquilo que ele chama de sociedade.

outrosgeneralizados.

ComplementandocomaspalavrasdeFaraco(2005):“Dessemodo,nenhumsujeitoficaconfinadonos
limites de um único outro generalizado, mas emerge de relações simultâneas ou consecutivas com vários
outrosgeneralizados,muitosdelesopostosentresi,contraditórios,conflitivos”.

OquemereceespecialdestaqueemMeadnodomíniodosestudosdalinguagem,conformeFaracoe
outrospesquisadoresdainteraçãonalinguagem,éasuaconcepçãodalinguagemnãocomoestrutura,mas
comoação–açãointersubjetivaque,comotal,seinternalizaesetornaaçãointrasubjetiva.

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SintetizandoasideiasdeMead,Faracodizque“nacomplexaviagemdenossaindividualização,somos
instadosaresponderao‘eusocial’internalizado,mas,tendodelidarcomaheterogeneidadeeseusconflitos,
cadarespostavaiternecessariamenteumcaráterespecífico,portantoimprevisível”.

ConformeFaraco(2005),ideiasemelhanteàdeMeadapresentaBakhtin(2002),quandoestedizque:
“ovirͲaͲseraxiológicodeumserhumanoéoprocessodeassimilarseletivamenteaspalavrasalheias”.Ou,em
outraformulação,namesmaobra,“deveͲseteremcontatambémaimportânciapsicológicaemnossasvidas
doqueosoutrosdizemsobrenóseaimportância,paranós,dacompreensãoeinterpretaçãodessaspalavras
alheias(a‘hermenêuticaviva’)”,ouseja,oprodutodomeuprocessamentododizer,dointerͲagirdos“outros
generalizados”.

Tambémaquiháoreconhecimentodopapelconstitutivodoqueosoutrosdizemdenósedopapel
ativodopsiquismonoprocessamentodessedizer.Emboranãohajaumdetalhamentodesseprocessopsíquico
por parte de Mead, é importante deixar em destaque, como ressalta Faraco, para não se perder de vista a
complexidadedopsíquico,opressupostodequeopsiquismotem–mesmoimersonadinâmicadainteraçãoe
delaemergindo–umaautonomiaeumaaçãoprópria.

Processo semelhante defenderá Vygotsky (1984) quando consolida sua teoria da cognição humana,
vista como uma atividade que se dá primeiro na interação que passa a ser considerada como a base da
construçãodoconhecimento.ParaVygotsky,odesenvolvimentocognitivodependedasinterações.Ouseja,
háumamudançaderotanopercursodapsicologiaapartirdavisãovygotskyana:oqueinteressa,agora,éo
homememinteraçãocomarealidade.Ospressupostosteóricosdessepsicólogosociointeracionistatêmdado
grandes contribuições no campo educacional, iluminam a
discussãosobreoaprendizado.

De acordo com Vygotsky, uma característica Zonadedesenvolvimentoproximal


essencial do aprendizado é a de apresentar vários Representaadiferençaentreacapacidadeda
processos de desenvolvimento que ocorrem quando a criançaderesolverproblemasporsiprópriaea
capacidadederesolvêǦloscomajudadealguém.
criança interage em seu ambiente de convívio, vivencia
Ouseja,teríamosuma"zonadedesenvolvimento
esse ambiente. Um dos princípios básicos da teoria de autoǦsuficiente"queabrangetodasasfunçõese
atividadesqueacriançaconseguedesempenhar
Vygotsky é o conceito de zona de desenvolvimento
porseusprópriosmeios,semajudaexternaea
proximal. “zonadedesenvolvimentoproximal”,que
Levandoesseprincípioparaaeducação,vêͲsea abrangetodasasfunçõeseatividadesquea
criançaconseguedesempenharapenassehouver
importânciadosprofessores,deseusconhecimentosede ajudadealguém.
suasexperiênciasnodesenvolvimentodoaprendizadoda 
criança.AideiadeZonadeDesenvolvimentoProximalé
degranderelevânciaemtodasasáreaseducacionaisenos

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partedeumprocessoem
fazverqueoaprendizadohumanoédenaturezzasocialeép mqueacrian
nçadesenvolve
seuintelecttodentrodaintelectualid
dadedaquelesqueacerccam(VYGOTTSKY,1984).

AsideiasdeVyggotskyeBakhtinforamaapreendidasesãoutilizad
daspelosed
ducadoresno
oBrasil:com
moo
conceito dee “zona de desenvolvim
mento proximal”, de Vyygotsky, e a
a visão de liinguagem na formação da
consciênciadoindivíduo,proposta porBakhtin,mudandoo
osrumosdo
osestudosdaalinguagem edapsicolo
ogia
daeducação,deixando dededicarͲͲseaoestudodalíngua deformaesstruturaleaoestudodo
obiológicoedo
mente para voltarͲse àss interpretaçções do meio social e cultural em que vivem os
psicológico respectivam
indivíduos,levandoàed
ducaçãoumaaperspectivaainovadoraetransformaadora.

Apráticapedaggógicaquevêêaeducação
onessapersp
pectivaprivillegiaumameetodologiaq
que:

1. propõe
e atividades cuja resolução seja uma
a relação dee ajuda, de busca que não
n
consista em dar a ressposta prontta, mas em saber fazerr perguntas desafiadora
as e
orientadass;
2. trata o erro como uma respostta, para a qual
q o aluno
o ainda não desenvolveu
u as
habilidade
es suficientes;;
3. trata o conteúdo de go de que o aluno deve se
e cada discipllina como alg s apropriar por
meio de attividades ade
equadas, con
nsiderando os
o diversos tip
pos de intera
ações da criança
como meio
o, seu conteúdo subjetivo,, sua história de vida;
4. propõe
e trabalhos diversificados,, uma vez qu
ue a Zona dee Desenvolvimento Proxim
mal
pode varia
ar de aluno para
p aluno;
5. cria forrma de obserrvar e avaliarr adequadas ao desenvollvimento pote
encial;
6. enfatiza
a o diálogo, o debate, a troca
t de idéia
as, a particip
pação.
O conceito
o de intera
ação trabalh
hado por Vy
ygotsky e B
Bakhtin resu
ultou no sóccio-
interacionismo.

Sóciointteracionism
mo
Correspondeaumaadinâmicanaqualodiscursodoo outrocausaamodificaçõ
õesnaform
madepensare
agir,inteerferindono
omodocom
moaelaborraçãoeaap
propriaçãod
doconhecimmentoseco
onsolidam.


Na perspectiva sociointeraccional,alinguagemévisttacomoumsistemade usoscujasregrasenorm


mas
sãopartesiintegrantesd
dasociedadeeedaculturra.Suanaturrezaéessenccialmenteso
ocial,ouseja,alinguagem
mé
vistacomoumsistemadesímbolosconstruídossocialecultu
uralmente.

O uso
u da linguaagem é deteerminado po
or sua nature
eza dialógicaa, no sentido
o de que qu
uem a usa deeve
considerar aqueleaqueemsedirigee.Énesseseentidoqueto
odosignificadoédenaturezainteracional,istoéé,é
construídoconjuntamentepelosparticipantesd
dodiscurso.

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Vyggotsky(1984))eBakhtin(2
2002)destaccamovalorffundamentaldapalavracomoomod
domaispuro
ode
interação social.
s  Amb
bos desenvolveram em suas obras uma profun
nda afinidade da psicanálise com uma
u
concepção ampliada dee linguagem
m, ressaltand
do o papel da
d palavra do
d outro. Assim podemo
os dizer quee as
nossas palaavras se basseiam em palavras
p do outro. As crianças
c se apropriam
a das palavrass dos pais, por
d
exemplo,paaratransform
maremͲnaseempalavraspessoais.

AfirrmaBakhtin//Voloshinov (2002)que,paraumfalantenativo
o,aspalavrassnãoseaprresentamco
omo
um item de dicionário
o, mas como
o parte das mais diverssas enunciaçções dos locutores A, B
B ou C de sua
comunidadee e das múltiplas
m enu
unciações de
d sua próp
pria prática linguística. Em síntese, as palavvras
apresentam
mͲsecarregad
dasdeumseentidoviven
ncial,ideológgicoeculturaalqueéatuaalizadoacad
damomento
ode
uso.

Concluind
do

Apartirdesses pensamento
os,ocorreum
mamudançaadeparadigm
ma:oquein
nteressa,ago
ora,éohom
mem
em interaçãão com a realidade. A linguagem e o pensamen
nto, constitu
utivos do homem, passam, assim, a ser
apresentadosdeformaintersubjetivvanumacon
ncepçãointe
eracionaldallinguagem.

Ago
oraé
co
om Ͳ Apósaaleituradeessabreveeexplanaçãossobreaspriimeirascontribuições
dadasp
porfilósofosepesquisaadoresparaaosestudossdainteraçção,
vo
ocê sugerim
mosaelabo
marcarramopercu
oraçãodeum
ursotraçado
mGlossárioo comtermo
oacimaequ
oseexpresssõesque
uepoderãoserretomaadosnos
capítulo
osseguintes,taiscomo o:interação
o,subjetivid
dade,
intersu
ubjetividade e,outrosgeeneralizados,interacionismosimb bólico,
cognitivvo,zonade edesenvolvvimentopro oximal,sociiointeracion
nismo,entre
outros.

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2



UN
NIDAD
DE II

ESTUDOS BA
AKHTIN
NIANOS S E DE SEU
S CÍR
RCULO:
UM
M NOVOO PENSSAR SOBRE A LINGUA
L AGEM


Trattaremos ago
ora dos posstulados teó
óricos que sustentam
s g
grande partee dos estud
dos linguísticos
centrados,n
nesteiníciod
deséculo,naainteraçãoeequeforamapresentado
osporBakhtineseuCírculo.

quenãonos propomos, nestaunidad


Valeesalientarq de,aestudaarBakhtine aprodução deseuCírcu
ulo,
mas nos seervir de algu
umas de suaas ideias. Ficca evidente aqui a advertência de que resgataaremos apenas
algumas lin
nhas desse pensamento
p de grande dimensão, com
c o intuitto de contrib
buir para um
m despertar da
questãodainteraçãonaalinguagem..


Bakhtin e seu círculo: visão marxista


m d linguaggem
da

Em suas obras Marxismo e a linguagem e Estética da
e filosofia da d criação veerbal, Bakhtiin e seu círcculo
desenvolvem uma filossofia da linguagem de base marxista quando or às duas orientações do
o, ao se opo
n época, o subjetivism
pensamento vigentes na mo idealista e o objetivvismo abstraato, expõe a
a existência do
carátersóciioͲhistóricod
dalinguagem
m,consideran
ndooenuncciadocomop
produtodeu
umainteraçãoverbal.


SUBJE
ETIVISM
MO IDEA
ALISTA

Visíveelnopensam mentohumbo oldtiano,trabalhacomaaidéia


deummaenunciaçããomonológiicaisolada,eemqueoato ode
signifficarédecriaaçãoindividu
ual,supervalorizandoestteseu
aspeccto.Apercep pçãodalínguua,destacorrrente,resum
meͲsea
uma““atividadem mental”,quesematerializzasobaform made
atosddefalaindiviiduais,naquualidadedepprodutoacabbado
(“ergo on”),naqualidadedesisstemaestáveel(léxico,
gramática,fonéticca),queseaapresentacomoumdepó ósito
inertee,abstratamenteconstru uídopeloslinngüistasemvista
desuaaquisiçãop práticacomooferramentaaprontaparaao
uso.((Weedwood,,2002).


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OBJET
TIVISMO
O ABSTR
RATO

Repreesentadopeelopensam mentosaussu urianoe


desennvolvidopeelosestruturralistas,redduzalinguaggema
umsiistemaabsttratodeform mas.Porpeensaremsee
distin
nguirdosprrocedimento osdafilologgiatradicion
nal,
essaccorrente,naaverdade,ssófazreiterráͲlose
perpeetuáͲlos,ao oabordarunnicamenteaaprodução
indiviidualdosfaalanteseaodesenvolveerumconsttruto
teóriccoabstrato,,homogêneeo,impossívveldeverifiicação
empíírica(“lalan
ngue”)ouosistema.

Ambas visões pecam


p pela mesma faltaa. Segundo Bakhtin/ Vo
olochinov (s//d), em Disccurso na vid
da e
a arte, ao analisar
discurso na a essaas visões, po
or via literária, tentaͲsee descobrir o todo pelaa parte, pois a
totalidaded
doartísticoo
oudequalqu
uerformação
olinguístican
nãoselocalizanemnom
materialnem
mnaspsiquessde
quemcriao
oudequem contempla acriação,m
masnaformaaespeciale momentâneeadeinterͲre
elaçãoentreeos
interlocutorrespresenteesnamateriaalidadelinguística.

 macrerqueestamosdiantedeumaatesequeaapresentaum
Essaasafirmaçõeesnoslevam manovalógica,
umnovosisstemadepeensarfilosófiico,queenteendeohomemcomoum
mserdelingguagemcujaaconsciênciaase
constróialim
mentandoͲseedesignosssociais,emm
meioàsrelaçõessociointeeracionais(FFARACO,200
01,p.114).

A constituuição da liinguagem

Apartirdeumaaconcepção
osocialdoho htineseuCíírculoformulamsuaprópriaconcepçção
omem,Bakh
em como uma
de linguage u atividade dimensio
onada no social.
s Na liinguagem, o os socialmente
os indivíduo
organizados,nelaepo
orela,constiituemͲse.O importante,,paraBakhttin,nãoéo enunciado,o
oproduto,m
mas
sim a enunciação, que envolve elementos linguísticos em uma realidaade extraverbal em que está inseridoo
horizonteespacialdosinterlocutorees–dasituaçãoimediataaaocontextomaisampllo–acomprreensãocomum
eaapreciaçção.

Alíngua,paraB
Bakhtin,éum
mfatosocial,cujaexistê dananecesssidadedacomunicaçãoq
ênciasefund que
está sempre ligada às estruturas sociais.
s A co
omunicação é aqui ente
endida tamb
bém como uma
u relação de

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4



alteridade, na qual o sujeito “eu” se constitui pelo reconhecimento do seu interlocutor, o “tu”, ou seja, o
reconhecimentodesisedápeloreconhecimentodooutro(MARTINS,1990).

Bakhtin expõe um modo de tratar a linguagem, sem a necessidade de separáͲla, como os estudos
linguísticos de até então, que a tratava como unívoca, quase imutável, perfeitamente codificada, sempre
idêntica a si mesma, apenas reiterável. Tal visão é tratada pelo “‘método formal’, diferentemente de uma
linguagem‘criativa’(dinâmica,plurívoca,aberta,sempreadaptávelàsrealidadesdainteração)”,mostrandoo
dialogismocomocaráterunificantedetodasasatividadeslinguageiras,bemcomonãoasseparandodosseus
sujeitosreaiseconcretos,comumolharaomesmotempocompreensivoeabrangentedoserhumanoede
seufazersócioͲcultural.

Combasenessaexposição,abreͲseocaminhoparaumnovopensarsobrealinguagem,partindoagora
doseucaráterdialógico,queassumeocomando.Istopermiteumareflexãodiferentesobreosproblemasde
linguística,filosofiadalinguagem,psicologia,daestética,deteorialiteráriaedacultura.

ParaBakhtin/Volochinov(1999,p.127),a“línguacomoumsistemaestáveldeformasnormativamente
idênticaséapenasumaabstraçãocientíficaquesópodeserviracertosfinsteóricosepráticosparticulares”,
nãodandocontadoqueotextodefinecomo“realidadeconcretadalíngua”.

O que seria essa realidade concreta da língua? Esta pergunta levantada em Marxismo e Filosofia da
Linguagem é a grande questão de Bakhtin quando se trata da passagem do sinal reiterável para o
acontecimento único, não reiterável, do evento das palavras, sua “vida concreta”.  Essa visão transpõe o
abismo entre a representação abstrata do mundo, desprovida de sujeito, e a vida concreta da palavra,
inseparáveldosujeitosituado.

O conceito de signo e o problema da significação



NosprimeirosescritosdeBakhtinjáseencontramimportantesconsideraçõessobrealíngua,sobreo
processode significaçãodapalavraesobreaenunciação.Emparticular, todarealizaçãoconcretadalíngua
contémumaentonaçãovalorativaquedeveserconsiderada.

Com base nessa afirmação, Bakhtin deixa claro que a palavra ou o signo linguístico apresenta três
faces:

1. seu aspecto de conteúdo,


2. seu aspecto palpável-expressivo e
3. a entonação da palavra, onde se encontra o sujeito situado e o ato realizado.

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Osignoseexprressaporsuaaentonação
o,propriedad
dedapronún
ncia,queé““umaatitude
evalorativa em
objeto,sobreoqueédeesejávelouin
direçãodoo modo,colocaͲoemdireçããodoqueain
ndesejávelnele.Dessem nda
estáparaserdisseminaadonele,tornaͲseumm
momentoconstituintedo
oeventovivvoemprocesso”(BAKHTTIN,
s/d,p.50).

nhum conteeúdo pode ser dito seem que se exista nelee um tom emocionalͲvvolitivo, o que
Nen q
correspondeaovaloraffirmadoparaaaquelequeediz,poraqu
uelequepen
nsaoconteúd
do.

O signo,
s para Bakhtin,
B faz parte de uma realidad
de, reflete e e. Essa visão de
e refrata esssa realidade
signo, como já tanto mencionadaa, vem opo
orͲse à de Saussure.
S Paara este, o signo funciiona como um
olodalíngua oficial,com
sinal/símbo moumaentid
dadedecontteúdoimutávelquenão poderefletiirnemrefrattar,
resumindoͲͲse a um insstrumento téécnico. Nestta concepção
o, não é vistto caráter id
deológico do
o signo, de sua
oaconsciêncciamedianteaencarnaçããomateriale
naturezaintterͲindividuaalqueserelaacionacomo emsignos.

O signo, na visãão bakhtiniaana, é fruto de umacad


deiaideológgica,só podee aparecere
emumterre
eno
dual,socialm
interindivid menteorganiizado,oque deaumaunidadesocialemqueestamosinserid
ecorrespond dos
edaqualnuncadeixam
mosdefazerparte.Ossiggnosemerge
emdoprocessodeinteraaçãoentreu
umaconsciên
ncia
individualeeumaoutra..Aprópriacconsciênciaindividualesstáimpregnaadadeconteeúdoideológgico(semiótiico)
(BAKHTIN/V
VOLOCHINOV
V,2002).

õe à ótica saussuriana, que oculta, em sua vissão estruturralista, os faatos
Bakkhtin/Volochinov se opõ
sociaiseideeológicos.Baakhtin/Volocchinov(1999)dizquenão ocomsinal:
osepodeconfundirsigno


Signo
o:Decodificado:comvaalorlinguísttico;ideológgico;unidad
desocial

Sinall:Identificado:semvallorlinguísticco;etapado
osigno


ParaaBakhtin,enquantoum
maformalingguísticafor apenasum sinaleforp
percebidape
elointerlocu
utor
como tal, esta
e forma não terá ne d aquisição da
enhum valorr linguístico. Até mesmo nas primeeiras fases da
o contexto, já constitui um signo.  “O
linguagem, a sinalizaçãão não existe, pois a forma já é orientada pelo
elemento que
q torna a forma lingu
uística um signo
s não é sua identid
dade como sinal, mas sua
s mobilidaade
específica; da mesma forma quee aquilo qu
ue constitui a decodificação da fo
orma linguíística não é
é o
mento do sinal, mas sua compreensão da
reconhecim d palavra no seu sentido paarticular (....)”.
(BAKHTIN/V
VOLOCHINOV
V,1999,p.94
4).Nessacittação,percebeͲsequeBakhtin,confformeobservvaTezza(20
003,
p.194Ͳ5),co
oncentrasuaaatençãoso
obreapassaagemdosinaalparaosigno,quando acompreen
nsãodapalaavra
LETRAS|566



nãoseconffundecomaasuameraid
dentificação..Osinalseriaumaetapaadosigno,n
naqualsere
estringiuàvisão
saussurianaa.
ParaaoCírculod
deBakhtin,o
osignodeSaaussureéoo
objetodeesstudodasciêênciasnaturaais,enquanttoo
signo,anunciadoemMarxismoeFillosofiadalin ertenceaoesstudodasciêênciashumanasenãopo
nguagem,pe ode
do ao estudo de um sisstema abstrato de relaçções formaiss. A visão estruturalista da língua não
ser resumid n
fornecetod
dasascondiççõesparasuaainterpretaçção,fatorese
externosdevvemserconssiderados.
Bakkhtin/Volochinov (1999) expõe que para se obsservar e com
mpreender o
os fenômeno
os linguístico
os é
necessário,antesdetud
do,voltarͲseeparaasesfeerasdasrelaaçõessociais,éprecisoverosinterlocutoresemseu
própriomeiiopara,desttaforma,alcançarasigniificação.

Os signosforjam ntextodepráticassócioͲͲcomunicativvas,sempre prenhasde determinações


mͲsenocon
ideológicas,, que se maanifestam, por os signos. É impossível descartar as condições de
p sua vez, nos próprio
produçãodessaspráticaasquepresccindiramde constituição
odessessign
nos.Nesseprrocesso,osssignosarrasttam
determinaçõ
consigoasd õeseconteúdosdesuaggêneseede seudevir,emgeral,maisoumenosdesconhecid
dos
dos sujeitoss que deles se servem. Como não há linguage
em neutra, não
n há igualmente linguagem única e
assimsefundaodialog
gismo.
Asiignificação,n
navisãode BakhtineseeuCírculo,n
nãopertenceeàsformas linguísticase
enquantosin
nal,
tomadas de forma iso
olada, desco uco está fixada na meente dos intterlocutores. A
ontextualizada, tampou
oéconstituíd
significação dapelo/noco
ontexto(BAK
KHTIN/VOLO
OCHINOV,19
999;2002).

A palavra,
p a caada contextto, ganha no
ovas significcações, a paartir de um acento aprreciativo. Niisto
resultanossentidoqueapalavrapaassaater,isttoé,podem
mosdizerque
eumapalavrrapodeadquirirdiferen
ntes
sentidosco
onformeaen
ntonaçãoexxpressivaque
efoidadaa ela,oquesseriaonível maissuperfficialdoacento
apreciativo.

Ao abordarasiggnificação,B
Bakhtin/Volo
ochinovdizaaindaquea ciênciaque temporobjetivodarconta
dasignificaçção,precisaseorientareemduasdireeções:

a) uma voltada
v para
a o significado contextual e
b) outra voltada para
a o significad
do no sistema
a da língua.

Apaartirdaí,eledistingue


Tema
Otemacorresponddeaosentid
do,queresuultadauniãoentreosinterlocutorresesóserrealizano
processo
odecomprreensãoativva,queseriaaasignificaaçãounitáriaadeumaenunciação.Otemaé
determiinadotanto
opelasform
maslingüísticcas,quanto opeloselem
mentosnãovverbaisdassituação.


LETRAS|5
57


Significaação
Asignificação,diferrentementeedotema,d
deveserenttendidacommoreͲinterááveleidêntticacadavez
queéreepetida,elanãoquerd
dizernadaeemsimesmaa,elaéapeenas,empotencial,apossibilidadee
designifficar.


Háumarelação
oentreotem
maeasignificação:“nãohátemasem
msignificaçãão,eviceͲverrsa.Alémdissso,
é impossíveel designar a
a significação
o de uma palavra isolad
da (...) sem fazer dela o
o elemento de
d um temaa...”
(1999, p. 12
29). O tema, por sua veez, “deve apo e certa estabilidade da significação, caso contráário
oiarͲse sobre
perderiaseuelocomoqueprecedeeeoqueseggue,ouseja,eleperderiaa,emsuma,o
oseusentido
o”.(Idem).

Éprecisoconsid uagememseufuncionamentoefetivvoeconsideerararelaçããodialógica nas


deraralingu
delinguagem
atividadesd m,mobilizand
doamateriaalidadelinguísticadosdisscursos,trattandodosen
ntidocomoaalgo
(re)construíídonumasittuaçãoconcrretadeenun
nciação.Ato
odapalavra éconferida umamobilid
dadeespecíffica
(BAKHTIN/V
VOLOCHINOV
V/,1999),em
mfunçãodo
ocontextoe dasituação decomunicação.Aparttirdessavisããoe
de acordo com Ribeiro
o (2003), po
odemos conccluir que a significação
s é determinaada sempre em função do
contexto,teendoaspalavrastantasssignificaçõesquantosforremosconteextos.

Paraa Bakhtin, os signo


os não ap
penas refleetem o mundo,
m mas também o refrattam
(BAKHTIN/V
VOLOCHINOV
V,1999).Paraestavisão eumnovoccaminhoentrrepalavrae aquiloque sua
o,hásempre
significação
oadquirenum
mprocessod
dialógico.Isssoocorreem
mfunçãodeumconfronttodeinteresssessociais,d
dos
índices de valores em uma dada comunidadee, que se utiliza de um
m único e m
mesmo signo
o ideológico de
comunicaçãão.“Estaplu
urivalênciaso
ocialdosign
noideológico
oéumtraço
odemaioriimportância..Naverdadee,é
este entrecruzamento dos índicees de valorres que torna o signo vivo e m
móvel, capaaz de evolu
uir”
VOLOCHINOV
(BAKHTIN/V Vp.46).

O entendiment
e o e o estudo desse pro
ocesso ideoló
ógico, que se materializa no linguísttico, tornam
mͲse
possíveis, como
c afirma Bakhtin, no terreno
o da filosoffia da linguagem. A p presentada por
proposta, ap
Bakhtin/Volochinov em onta Faraco (2003), é de
d Linguagem como apo
m Marxismo e Filosofia da d lançar baases
novalinguística,cujamattériaseriaalíngua,com
parauman mouminstrumentoracio
onalevivodaasociedade..

Osssignosaponttamparaum
marealidadequelhesée
externa.Estãoenvoltoseemumaatmo
osferasociallde
discursos,q
queseconsttituipelasvo
ozessociais. Essesignosserealizade modorefratado,constituindodiverrsas
interpretaçõ
ões, as refraações, que são, por sua vez, condiçõ
ões necessárrias a esse ssigno, pois não é possíveel a
significação
osemarefração,apartirrdeumadad
daorientação
odialógicaprópriadetod
dodiscurso.

É por meio da operação de


d reflexão e refração simultânea
s nos signos que ocorre o processo de
o.Comoexp
significação põeFaraco(2003,p.50):Assignificaçções(...)são
oconstituídaasnadinâmicadahistóriiae

LETRAS|58
8



estão marcadas pela diversidade de experiências dos grupos humanos, com suas inúmeras contradições e
confrontosdevaloraçãoeinteresses.

Entendemosquearefraçãocorrespondeàdiversidadeeàscontradiçõeshistóricasdossereshumanos.
TrataͲsedeumconjuntodemúltiplosdiscursossociais,denominadaporBakhtin(1999)devozessociaisque
deveserentendidocomoaformaemqueumgruposocialrepresentaomundo,asuarealidadepormeiodo
processodesignificaçãodosenunciados.Todosigno,todoenunciadoencontramoobjetoaquesereferem
envoltoporumaatmosferasocialdediscursos,constituídospelasvozessociais.

A partir do conceito de dialogismo, tão caro a Bakhtin, pôdeͲse traçar uma teoria do discurso, na
qualaconsciênciaindividualéumfatosócioͲideológicoeseconstitui de umaexperiêncianoprocessode
comunicação, a partir do social. Compreender o discurso seria vêͲlo como objeto, produzido a partir de
determinados condicionamentos históricos em relação dialógica com outros discursos. Assim o dialogismo
passaaseraprimeirapreocupaçãodoestudiosodotextoedodiscurso.



O discurso verbal, o extraverbal e o enunciado concreto

Qualquer discurso verbal “nasce de uma situação pragmática extraverbal e mantém a conexão mais
próximapossívelcomestasituação”,formandoumaunidadeindissolúvel.Aotomarodiscursoverbalisolado,
como fenômeno linguístico, “não pode, naturalmente, ser verdadeiro ou falso, ousado ou tímido”. O
extraverbal integraͲse ao verbal, ou enunciado, “como parte constitutiva essencial da estrutura de sua
significação”(BAKHTIN/VOLOCHINOV,S/d).

O enunciado é uma unidade real, determinada pela alternância dos interlocutores. Segundo
VOLOCHINOV/BAKHTIN(1999),hátrêsfatoresqueenvolvemoenunciadoesuaenunciação:

a) o horizonte espacial comum dos interlocutores;


b) conhecimento e a compreensão da situação por parte dos interlocutores; e
c) a avaliação comum dessa situação.

Essesfatoresintegramasituaçãodecomunicaçãoqueporsuavezfazpartedeumacorrentemaior,
ininterruptadacadeiadecomunicação.
Umenunciadoconcreto,conformeBakhtin/Volochinov(s/d),comoumtodosignificativocomporta:
aquilo que é percebido, o verbal, ou realizado em palavras, e o que é presumido, o que está revelado no
verbal. A parte presumida resulta de um fenômeno puramente social, de um horizonte comum a todos,
materializandoͲse em atos sociais regulares e essenciais que unem os interlocutores no momento da
LETRAS|59


enunciação. Neste inteervalo o “eu” realizaͲse verbalmente sobre um “nós” tornaandoͲse um ato interatiivo.
macomoossignificadosããodeterminaadosporesssainteração.
Tantoaform

q distinguee um enunciado de outro, que pode ser concreetamente idêntico, é a conexão
O que c com
m o
contexto exxtraverbal. Este
E que pode ser imed
diato ou não
o quando see expande no espaço co
omo no tem
mpo.
Nestecaso,ohorizonteepresumidopodeabarcaardesdefam ocasinteiras.Há
míliaanaçõess;desdediass,anosaépo
também o caso da en
ntoação, quee transportaa o discurso
o verbal parra além de suas fronteiras. É ela que
q
estabeleceumeloentreeodiscursoverbaleoco
ontextoextraaverbal.

Portanto, no en
nunciado esttá instaurado um enuncciador e os interlocutorees com quem
m o enunciador
nstituir certaa relação. A
pretende in A ideia de que
q o enuncciado possui um sentido fixo fora de contexto
o é
insustentávvel. Além dissso, os enun
nciados posssuem marcas que as prrendem à sittuação da enunciação,
e t
tais
como:oam odaenunciação,ocotextoeossaberesanterioreesàenunciação(MAINGUENEAU,20
mbientefísico 001,
p.26Ͳ27).O ambientefíísicodaenun
nciaçãodeteerminadono
opróprioenu
unciado.Occotextoque correspondeeàs
sequênciasverbaisqueenvolvemoenunciado.E,ossaberesanteriores,,tudoqueco
olaboraparaaaformação
odo
enunciado,desdeoseuformatoaseusantecedentessociolinguísticos.

Relações dialógicass, plurilingguismo e plurilingui


p ismo dialoogizado

Asiituaçãodeenunciação,cconformeBaakhtin,estáccondicionadaaaodiálogo
osejaqualfo
oroproduto
odo
discurso. São as diferenças que se verificam
m no diáloggo entre o locutor e o
o interlocuto
or diretamente
envolvidos, entreofalaanteeosisteemalinguístico,noqual assentaodiscursoedo
oqualderivaaoseudiscu
urso
particular, entre
e aquelee e o contexxto imediato
o, povoado por
p uma multiplicidade de linguagen
ns ou discurrsos
diferentemeenteacentuaadoseideolo
ogicamentesaturados.

Para Bakhtin (2000),


( a viida é dialóggica por natureza. Viveer significa participar de
d um diálo
ogo
o: interrogam
ininterrupto mos, respon
ndemos, con
ncordamos etc.
e Neste processo
p dialógico, o ho
omem particcipa
com os olhos, o lábios, os gestos; com todas as suas ações. PondoͲsee todo na p omem entra no
palavra, o ho
ógicodaexisttênciahumana.
tecidodialó

ConcepçõesdeDiáálogo
Sentido
oestrito:Aiinteraçãoveerbalentreinterlocuto
ores,oprinccípiofundad
dordalinguagem.
Sentido
oamplo:Od
diálogoentrreoutrosdiiscursos,constituindoaasignificaçãão.


LETRAS|60
0



Ao tratar do discurso como objeto de estudo, Bakhtin aponta para duas diferentes concepções do
diálogo(BAKHTIN/VOLOCHINOV,1999,p.109).

O dialogismo tem por objetivo efetivo as relações dialógicas, ou seja, todas as relações que
envolvemoprocessodeinteraçãodalinguagem,sóqueestásubordinadaà“ideologiadocotidianoeaos
sistemasideológicosconstituídos”(BAKHTIN/VOLOCHINOV,1999,p37e118Ͳ121).Acercadisso,temͲseque,
nos discursos, falamͲse vozes diversas que espelham a compreensão de classe ou segmento de classes do
mundoemumdadomomentohistórico.

Esse caráter dialógico da linguagem, em Bakhtin, não está apenas presente nas relações entre um
enunciado e a palavra de outrem. Está também nas relações do enunciado consigo mesmo (ressalvas
internas), relações estas que possam gerar significação de resposta, considerando as posições avaliativas,
sendoasrelaçõesdialógicasconstitutivasporíndicessociaisdevalorentrepessoas,socialmenteorganizadas,
oquegeramconsensos,mastambémtensoscombatesdialógicos,poistodaenunciaçãoefetiva,sejaqualfora
suaforma,contémsempre,commaioroumenornitidez,aindicaçãodeumacordooudeumdesacordocom
alguma coisa. (...) encontramͲse numa situação de interação e de conflito tenso e ininterrupto.
(BAKHITN/VOLOCHINOV.1999,p.107).

Visto dessa forma, o diálogo, que era estudado no seu aspecto composicional de estruturação
discursiva,passaaservistocomoumespaçodelutasentreasvozessociais,apartirdeforçasquebuscam
centralizarasvozes,numplurilínguismoconvergente.Jáasforçasdescentralizadorascombatemoprocesso
de centralização das ideias, por meio de processo dialógicos, tais como a polêmica explícita ou velada, a
hibridaçãoouareavaliação,asobreposiçãodevozesetc.

Todo enunciado correlacionaͲse com o “jáͲdito”, provocando respostas as mais diversas, num
dialogismosemfim,numacorrenteininterruptasobumaduplaorientação:

a) como um processo de interação, em que o locutor se volta para seu interlocutor na


interação face a face ou não; e,

b) como um processo de constituição em que o discurso se constitui por meio de outros


discursos, numa relação interdiscursiva.

EssaconcepçãodedialogismoaproximaͲsedasteoriaspragmáticas,dodiscursoedotexto.Quandose
afirmatambémqueéimpossívelumaformaçãoindividualsemalteridade.Istomostraoquantoéooutroque
delimitaeconstróioespaçodeatuaçãodo“eu”nomundo.

Seosdiscursosfalamvozesdiversas,quemostramacompreensãoquedadaclasseousegmentode
classetemdomundo,emumdadomomentohistórico,osdiscursossão,pordefinição,ideológicos,marcados

LETRAS|61


porcoerçõeessociais.Deessemodo,o
odiscursoé disseminado
oporestasccoerçõessocciaiseestáassentadosobre
vozessociaiisquecorresspondemafo
ormaçõesideológicas.

Essaa dialogia su
urge para deesignar “o complexo das relações dialógicas,
d a dinâmica do
os signos e das
significaçõees,entendidaascomoserrealizandoreesponsivame
entedemodosimilaràs réplicasdeu
umdiálogoface
a face” (FA 3, p.70). TraataͲse de um
ARACO, 2003 m fenômeno
o próprio a qualquer discurso, quando o discu
urso
presente see encontra com
c o discurrso de outreem e travam
m uma viva e
e tensa interação. Confo
orme o próp
prio
Bakhtin,nemalinguístiica,tampouccoaestilísticca,debruçaramͲsesobreeasemânticaa,asintaxee
eacomposiçção
desta dialogicidade interna do disccurso.  Conh
hecer a estrrutura do discurso, sua sintaxe e su
ua semântica é
compreendercomoessadialogicidaadeserealizaaefunciona..

A sintaxe discursiva comprreende os processos de estruturaçãão do discurrso. A semân
ntica discurssiva
dependedeefatoressocciaiseabarcaaosconteúd
dosquesãoiinvestidosno
osmoldessintáticos.Od
discursoveiccula
qualquerco queestádetterminadopeelotodoenu
onteúdo,sóq unciativoeid
deológicoqueoconstituii.

Aspecttosdadialo
ogicidadede
e“tododize
er”

Tododizernãopodedeixardeseorientaarparao“jáádito”:todoenunciadoéumarép
plica,
oͲseaformaaçõesdiscursivasanterriores.Vivemosnumacorrenteininterruptad
filiando de
comunicação.
Tododizeréorientadoparaaaresposta:o
oenunciadooesperacontinuamentteumarépllica,
mindoͲsesempreemau
presum uditóriosoccial(BAKHTIN,1999,p..112Ͳ3)
neo,éumaarticulaçãodemúltiplaasvozes
namentedialogizado:ééheterogên
Tododizeréintern
sociais.


Bakkhtintrazocconceitodep mo,comoressultadodeu
plurilínguism umaestratificcaçãointern
nadeumadaada
palavrasdessseautor:em
língua;detaalhadanasp mdialetossocciais,maneirrismosdegrrupos,jargõe
esprofissionais,
linguagens de gêneros,, fala das geerações, dass idades, das tendências, das autorridades, doss círculos e das
modas passsageiras, das linguagens de certos dias e messmo de certtas horas, n
no seu mom
mento histórico,
osnoromancce(eemquaalqueroutrotexto,nono
introduzido ossocasoop
publicitário),,pormeiodosdiscursossdo
discursosdossnarradoress,dosgênero
autor,dosd osintercalad
dosetc.Cadaadiscursopeermiteumexxercíciodeu
uma
variedaded dialogizadas..
devozessociiaissempred

Plurilíngguismodiallogizado
oqualalíngguaviveeseeformaeseetransform
Meiono ma,éplenod
deconteúdoemarcadoporum
acentoiindividual.

LETRAS|62
2



oseremeteàrealidadeheterogêneaadalinguageemeàmultiplicidadedelínguassociais.
Oplurilingüismo
1999, p112):  (...) cada geração, em
No dizer dee Bakhtin (1 m cada umaa de suas caamadas sociiais, possui sua
linguagem; alémdisso, cadaidadettemseu‘falaar’,seuvocabulário,seu sistemade acentuaçãoparticular,q
que,
porsuavez,,variamsegundooutrosfatoresdeeestratificação
o.

Em suma, toda produção discursiva


d repousa sobre d produção de
nguismo e o ambiente de
e um plurilin
todo enuncciado é o plu o. Bakhtin (1999, p. 85) alerta que aa Filosofia da Linguagem
urilinguismo dialogizado m, a
LinguísticaeeaEstilísticaa,paraservirràstendênciascentralizaadoras,ignoravamoplurrilinguismod que
dialogizadoq
personifica asforçasceentrífugas,deescentralizad
doraseestraatificadoras. Edizainda que:emcad
damomento
oda
ncia históricca, a linguaagem é graandemente pluridiscurssiva. DeveͲse isso à coexistência
sua existên c de
contradiçõeessócioͲideo
ológicasentrrepresenteeepassado,e
entrediferen
ntesépocas dopassado,,entrediverrsos
grupos sóccioͲideológico
os, entre correntes, esscolas, círcu
ulos, etc., etc.
e Estes “falares” do plurilingüissmo
entrecruzam
mͲsedeman
neiramultiforme,forman
ndonovos“falares”sociaalmentetípiccos.(BAKHTIN,1999,p.98)

é importantee guardar a idéia de que a linguaggem não é uma realidaade


Desssa visão baakhtiniana, é
monológicaa, isolada, ou m nenhuma de suas instâncias. No
o única, em o Romance como em outros
o gêneeros
discursivosutilizamͲsed
doconhecim
mentodaslinguagens,do mo,quesãopontosdevvistaespecíficos
oplurilinguism
domundo,formasdesuainterpretaaçãoverbal,perspectivasreferenciaiis,semânticaaseaxiológiccas.Portanto
o,a
“linguagemnãoéumm 1999,p.113ͲͲ4).
meioneutro”(BAKHTIN,1

Concluind
do

Com
mficouevideente,resgataamosapenasalgumaslin
nhasdopen
nsamentodeeBakhtin,qu
uecontribuírram
paraformaççãodeumanovaLinguíssticaquecon
nsidera,além
mdoaspecto
odialógicodaalinguagemnoprocesso
ode
interação verbal,
v o asp
pecto sócioͲh
histórico. A língua, na obra
o de Bakh uraͲse como um espaço de
htin, configu
interaçãoentresujeitosssócioͲhistorricamentesittuados.

Agoraé
com Éoportunattambémaelaaboraçãodeu umGlossárioocomtermossͲchavedaso obrasde
BakhtineseuCírculo, visstosnestaunidade,tendocomoobjetivvoafixaçãod dessestermoosa
você partirdavisããodeBakhtin
n.Entreostermosquevão ocomporessseGlossárioeestariamo
conceitodellínguaelingu
uagem,signo o,temaesign eridade,enunciado,
nificação,alte
enunciação,diálogo,diallogismo,plurrilinguismo,eentreoutros..

LETRAS|6
63


UN
NIDAD
DE III

PRAG
GMÁTIC
CA E LIN
NGUÍSTTICA INTERACIIONAL PELO VIÉS
V DA
A
S
SOCIO LINGUÍÍSTICA INTERA
ACIONAAL, PRAG
GMÁTICA
C
CONVEERSACIOONAL E ANÁLIISE DA CONVE ERSAÇÃ
ÃO



Nesstaunidade,veremosalggumasteoriaslinguísticassqueconceb
bemadimen
nsãointeracionalesociallda
linguagem, oseupapellconstitutivo
onocursod
dasrelações dialógicaseenaconstruçãodossentidos.E,com
mo
intuito de observarmos
o s a aplicação
o das teorias expostas pelos
p teórico
os citados nessa unidade, ilustrarem
mos
essas contrribuições com
m exemplos (cartum, tirrinha, placa de
d trânsito, cartaz publiicitário, poem
ma etc.), o que
q
nos permitee ver organização social do discursso em interaação e a din
nâmica das interlocuções em situações
diversasdeinteração.
A partir
p dessa visão
v interaccional da lín
ngua(gem), o
o uso da língua em situ
uações concretas, com sua
s
funçãosóciioͲcomunicaativaeaspecctoscognitivvoscomeçarramasesob
bressairemrrelaçãoàanáliseimanen
nte,
puramente formal das estruturas da
d língua, ou dos linguísticcos se deslocca da estrutura
u seja, o focco dos estud
abstratadalínguaparaousoqueossfalantesdeelafazem.

Essaa mudança é denominaada de “virada pragmática” que foii impulsionada tanto po
or Wittgensttein
comoporA
Austin(MARCUSHI,2008
8)e quevem
mintensificarasabordaggensinteracionistasdeiinvestigação
oda
linguagem em
e uso e do
os processoss sociais quee motivam a
a produção dos
d enunciad
dos verbais, resultando em
umalinguísticainteracio
onal.

Pragmáática
Otermo o“pragmática”foiintroduzidopo orCharlesM Morris,em1
1938,quand doapresenttouostrês
ramosddeestudod daSemióticaa:sintaxe,ssemânticaepragmáticaa.Nasuavisãoapragm máticaéa
partedasemióticaaquetratad darelaçãoeentreossignnoseosusuuáriosdosssignos(ARM
MENGAUD,
2006,11 1).EssavisããodeMorriséretomad dae,àsvezes,contestaadapormuitosestudioosos.Levisoon
noseulivroPragm matics, tentaareͲdefinirotermocon nsiderandoasuacomp plexidade.P
Paraeste
estudiooso,osestud dospragmááticosdevem msevoltarparaoproccessodeprooduçãodalíínguaede
seusprodutores,n nãodandoeexclusividad deaoprodutofinal,commovinhaseendofeitoppelosestudoos
dalíngu
ua(gem)até éentão.


A pragmática,
p d forma geeral, correspo
de onde ao esttudo da língu
ua relacionaado a fatores contextuaiis e
discursivos,, tendo com
mo foco dee análise oss usos e nãão as form
mas. Conform
me Francis Jacques (ap
pud
LETRAS|64
4



UD,2006),osestudosprragmáticosd
ARMENGAU devemabord
daralinguaggemcomofeenômenosim
multaneamente
discursivo,ccomunicativoesocial.

Arm
mengaud(2006)expõequeparaapragmáticaintteressa:osa ocontextoe
atosdefala,o eodesempen
nho
omelhor,éaatravésdos atosdefala
dofalanteeedoouvintee.Explicando aqueseperrcebequea linguagemn
não
serveapenaasparareprresentarom
mundo,masttambémparrarealizaraçções;falarétambémagir.Ocontexttoé
importantenavisãopraagmáticaporrqueéatravésdelequeosatosdefaalasãoemitiidos;envolve
etudooqueese
precisasabeerparaentendereavaliaaroqueédito.Porfim,odesempenhoquecorreespondeàre
ealizaçãodoato
emcontexto,considerandoacompeetênciacomunicativado
ofalanteedo
oouvinte.

mo afirma Tavares (20


Com 007), para atingirmos um entend
dimento e compreensãão integral do
comportam
mentodalingguagem,devemostercomobaseoe
estudodapraagmática,nu
umadimensããointeracion
nal,
uaçõesatípiccas,podeserrestudadaecompreendida.
poiselanossfazverquealíngua,meesmoemsitu

A dimensão intteracional teem sido trataada por várias disciplinaas linguísticaas: análise da
d conversaçção,
sociolinguísstica interacional, análisee do discurso, linguísticaa textual, teo
orias da enu
unciação, entre outras que,
q
ligadasàpragmática,vããoseoporàvisãoimaneentedalínguae,consequ
uentemente,,constituirumnovoquadro
teórico.QuadroquefoiantecipadoporBakhtin,apartirdeumaconstattaçãodequeenãosepod
dedeterminaaro
umenunciad
sentidodeu dosenãoselevaemcon
ntaainteraçããoverbal.

Morato (2004),, em seu artigo


a “O in
nteracionismo no camp
po lingüístico
o”, ressalta a significattiva
osestudoslinguísticosaapartirdaco
mudançano onstruçãodo
ocampoden nteracional”,no
nominado“LLinguísticaIn
qualalingu
uagemnãop
podeserpen
nsadaemteermosdeforrmasdalíngua,masde umaexperiê
ênciadiscurssiva
individual que
q se form
ma e se desenvolve em
m uma inte
eração consttante e con
ntínua com os enunciad
dos
individuais dosoutros. Essanovalinguísticasurrgedeume
esforçoplurid
disciplinarco
omvistasao
oentendimento
das relaçõees entre ind
divíduos e so
ociedade. Morato
M (2004
4) diz que, ao pensar em interacio
onismo, som
mos
levados a uma
u visão única ao relaacionar indivvíduo e socie
edade. Esta estudiosa n
nos leva a ve
er que existtem
“interacioniismos” e “in
nteracionismos”, isto é, há diferente
es visões nass teorias doss estudos intteracionais que
q
usam esse mesmo róttulo. Dada essa pluralidade, o intteracionismo
o circula em
m áreas que
e vão além da
Linguística,comoasociologia,antro
opologiaetc..

LinguístticaInteracional
Configu
uraͲseumco onjuntodequestõesliggadasatodootipodeproduçãolingüísticaq queé
consideeradamaterrialinterativvo:práticas,,estratégiasseoperaçõ
õeslinguageeiras,dinâm
micasdetroccas
converssacionais,coomunicação overbalenãoͲverbal,cconstruçãodevalorescculturais,attividades
osfalantes,normaspraagmáticasquepresidem
referenciaiseinferrenciaisreallizadaspelo mautilizaçããoda
linguageem(Morato o,2004)


LETRAS|6
65


Nãopodemosdesconsiderarquealinguageméprofundamentedeterminadapelomomentohistórico,
pelascontradiçõessociaisepelosconflitosideológicosdeclassessociais,degerações,degênero,degrupos
étnicos etc. DeveͲse conceber a língua como um conjunto aberto e múltiplo de práticas sociointeracionais,
oraisouescritas,desenvolvidasporsujeitoshistoricamentesituados.

Alínguavivasóexistenocontextodasrelaçõessociais,constituindoͲse,ossujeitosealinguagem,
nosmúltiplosdiscursosevozesqueaintegram.Alinguagemcomo"código",comosistema(estático)éposta
delado,emproveitodainteraçãodiscursivacomoponte,lançadaentreaspessoas,socialmente,envolvidas.

Vivemos em uma corrente ininterrupta de comunicação na qual a linguagem e o pensamento,
constitutivosdohomemdevemservistoscomonecessariamenteintersubjetivos.Bakhtin(1999)consideraa
interaçãoarealidadefundamentaldalinguagemenosdizqueosindivíduosnãorecebemalínguaacabada,
pronta para ser usada, “eles penetram na corrente da comunicação verbal, ou melhor, somente quando
mergulhamnessacorrenteéquesuaconsciênciadespertaecomeçaaoperar”.(BAKHTIN,1999,p.108).

CaminhaͲse,assim,paraumredimensionamentodaLinguística,cujoobjetodeestudoéalinguagem
em uso; de forma simples, passaͲse a pensar o fenômeno linguístico não apenas como língua, no nível de
construçãosintáticadefrasesedaconstruçãodeestruturasmorfossintáticas,mascomolinguagem,comoseu
contexto,intençõeseatitudesquevisaaumaaptidãoparaacomunicaçãoeeficácianainteração.

Primeiros estudos da linguagem em uso

Nessa nova dimensão linguística, a noção de interação surge como categoria de análise a partir da
década de 60 do século XX.  Nos anos de 1960, os primeiros passos foram dados pelos linguistas Bally e
Jakobson;Ballyfoioprimeirolinguista,segundoTeixeiraeFlores(2005),aformularumraciocíniodirecionado
para a enunciação. Bally constrói uma análise fundamentada na presença da enunciação no enunciado. Ao
retomarasnoçõesdedictum(aestruturasemânticadafrase)edemodus(reaçãodeumsujeitomodaldiante
do dictum), tidas como fundamentais em sua Linguistique Générale et Linguistique Française, mostram  a
presençadeumsujeitoedeumverbomodalnoenunciado.RomanJakobsonquesevoltaparaosfenômenos
comunicacionais juntamente com os trabalhos desenvolvidos por Dell Hymes e, em seguida, por Gollfman e
JohnGumperz.Aanáliseinteracionaldevedarcontadosfenômenosdinâmicoseemergentedoprocessoda
interação.

ParaMorato(2004),apartirdosestudosdeHymeseGumperzacercadalinguagemcomvistasparao
contextosocial,osestudoslinguísticosvoltamͲseparaosfenômenoscomunicacionaiscontribuindo,comisso,
paraosurgimentoeformaçãodeumaLinguísticaInteracional.

LETRAS|66



Dell Hymes, em
m 1966, intrroduz o con
nceito de co
ompetência comunicativva, em reaçãão à noção de
competência linguísticaa de Chomssky. Esta é definida
d porr Chomsky como
c uma interação mental de fala e
audiçãobasseadaouforrmuladaporrregrasgram
maticais.ParraHymes,o conceitodeecompetêncciachomskyaano
ontaquestõeesdevariaçããodalíngua.Então,Hymespropôsessseconceito,,queincluin
nãodavaco nãosóasreggras
quepresideemaformaçãodassenteenças,mastambémasnormassociaiseculturaissquedefinemaadequaçção
dafala.Desssaforma,esteestudiosoincluiano
oçãodeadeq
quaçãonoâmbitodaco
ompetência; demonstran
ndo,
assim,suap ocomousorrealdalínguapelofalantte,emsuasinterlocuções,enquantosersocial.
preocupação

CompettênciaComu
unicativa
Habilidaadenãoapeenasdeemp
pregarasreegrasgramaaticaisdeum
malínguaco
omoobjetivodeformar
sentenççasgramaticcalmenteco
orretas,masstambém,ddesaberqu uando,ondeeeparaquê
êusarestass
sentençças.


 Ousuáriodalín
nguaapresen
ntaessashab
bilidadesquaando:

  a) conhe
ece a gramáttica e o vocab
bulário da lín
ngua alvo;
b) apren
nde as regra
as do falar; sabe
s como atuar nos dive
ersos tipos d
de conversas podendo asssim
os ou solicita
fazer pedido ações, pedir desculpas,
d ag
gradecer e co
onvidar de fo
orma apropria
ada.
c) reconhece a realid
dade social, suas
s relaçõess com as outras pessoas e os tipos de
e linguagem que
q
podem ser usados para
a cada ocasião particular, sendo cap
pazes de inte
erpretar tantto sentenças escritas qua
anto
faladas no contexto
c em que
q são usad
das ou produ
uzidas.

Hym
mes(1972)aapresentaqu
uatrotiposd
decompetên
nciasparateestarseum enunciadoé
écomunicatiivo:
possibility, denominad
da compettência gram
matical; fea
asibility, deenominada competênccia discursiva;
appropriateeness, deno
ominada competência sociolinguísttica; e attestedness, denominadaa competên
ncia
pragmática(CANALE;SW
WAIN,1980)).
nale e Swain
Can n (1980) e Canale
C (198
83), preocup
pados em co
omo se processa a aqu
uisição de uma
u
segundalíngua,retomamoconceito
odecompettênciadeHymesepropõ
õemosseguintescomponentes:

a) Co
ompetência Gramatical
G - conhecimento
c o do léxico, da
d sintaxe e da
d semântica
a de uma líng
gua;

b)Com
mpetência Só
ócio-Linguísticca - adequaçção comunica
ativa ao conte
exto consideerando os participantes e as
regras de in
nteração neccessárias a um
m discurso;

c) Com
mpetência Discursiva - ênfase na habilidade de pro
oduzir discurrsos com coessão e coerên
ncia;

d) Co
ompetência Estratégica
E - soma de todas
t as esttratégias que
e podem seeu usadas po
or um usuário
linguístico nas
n situaçõess em que a comunicação
c verbal falha
a. Algumas destas
d estratéégias são: ap
proximação dos
d
falantes, re
epetição de frrases, ênfase
e nas palavra
as principais,, pedido de ajuda,
a mímicca, substituiçã
ão de conceittos
problemáticcos ou compllicados, aban
ndono e/ou substituição
s de
d uma frase os.
e já iniciada, dentre outro

LETRAS|6
67


 Os pressuposto
osparaessa novapropostadeCanale eSwain(1980)eCan
nale(1983)incluem,den
ntre
outros, a comunicação
o baseada nas interaçções interpe
essoais e so
ocioculturais, as ações humanas e
e o
ntodemund
conhecimen do.

Gofffman(1972)),sociólogo americano,eestudouain
nteraçãosociialeadefiniiucomooen
ncontroded
dois
oumaisato
oresqueexeercemumaiinfluênciareecíproca.Atrravésdeseusestudosa relaçãolíngguaesociedaade
passaaservistaapartirrdousodaffalaemconteextossociaissespecíficos..

Esseesociólogoffazumconvvitenoseuteexto“Asituaaçãonegligeenciada”(IN::GARCEZ;RIIBEIRO,2002
2)a
pesquisadores–linguisttas,sociolingguistas,antropólogos,so
ociólogos–aaobservara situaçãosoccialengendraada
nacomuniccaçãofacea face.ParaG
Goffman(200
02)a“falaé
ésocialmenteeorganizadaa,nãoapenaasemtermo
ode
quemfalap
paraquemfalaemuma língua,masstambémco
omoumpequenosistem
madeaçõesffaceafaceq
que
sãomutuam msuma umeencontrosoccial”.Dessasscolocaçõesde
menteratificcadaserituaalmente govvernadas,em
Goffman su
urgem alguns dos fundamentos da Sociolinguíst
S tica Interacio
onal no quee diz respeito
o, sobretudo
o, à
analisedacconversaçãojuntamentecomoasno
oçõesdecontextoedeco
ompetênciacomunicativvadeHymes.

Sociolin
nguísticaIntteracional
Éumateeoriafundam
mentadanoddiscursoqueseocupadaaatividadeoueventodefala,termoq
que
correspo umconjuntodeesquemaasemrelaçãoa
ondeaum“cconjuntoderelaçõessociaisrealizadaassegundou
algumprropósitocom
municativo”((FIGUEROA,1994,p.13).


Valee ressaltar também


t os estudos
e de Austin,
A Searrle e Grice no
n quadro daa teoria da Sociolinguísttica
interacional,noquedizzrespeitoàp
pragmáticaeeàsteoriasssobreosatossdefala;com
motambémJohnGumpeerz,
quedevolveeuumaSociolinguística interacional,,reconhecid
dacomoum paradigmad
distintodaq
queapreced
deu,
ou seja, da visão sociolinguística laaboviana.  Gumperz
G (apud FIGUERO
OA, 1994) intteressaͲse, sobretudo,
s p
pelo
nto de como
conhecimen o o comportamento cria interpretaações, de co
omo as inten
nções individ
duais levam ao
mento linguísstico e de como o su
comportam ucesso da comunicação
c o está relaccionado ao conhecimento
sociolinguísstico.

No tópico segu


uinte veremo
os algumas contribuiçõe
es desses teeóricos da so
ociolinguísticca interacion
nal,
deteóricosq
bemcomod que,trabalhaandotambém
mcomainte
eraçãoverbaal,enquadram
mͲseemouttrasteorias.

Estudo da
a linguageem na dim
mensão inteeracional:: pragmática interaccional

 Essees novos esstudos da linguagem naa dimensão interacionaal abrem caminho paraa dois tipos de
investigação
o,segundoK
KerbartͲOreccchionni(200
05):

LETRAS|68
8



1. da linguagem em situação, cujo interesse está voltado para fenômenos observáveis durante o
processo de atualização linguística; precisamente, para as modalidades de inscrição, no enunciado,
dos enunciadores - tanto emissores quanto destinatários - presentes no processo, isto é, “para o
funcionamento do que se convencionou chamar, de acordo como Benveniste, a ‘subjetividade da
linguagem’ objeto da Linguística (ou pragmática) da Enunciação;” e
2. da linguagem encarada como forma de agir sobre o contexto interlocutivo e que permite a realização
de um certo número de atos específicos”, chamados de “atos de linguagem”, “atos de discurso”,
“atos de fala”, de forma geral, atos realizados por meio da linguagem.

Essas últimas investigações desenvolveramͲse em meio a um movimento interdisciplinar ainda nos
anos de 1960, originando a Pragmática conversacional e Análise da conversação pautadas na preocupação
com a descrição da ação e por uma visão comunicacional de linguagem (MARATO, 2005). E as primeiras,
denominadas de as Teorias da Enunciação (ou Linguística da Enunciação) voltadas para as relações entre
linguagem em uso e o sujeito, centrandoͲse, principalmente, nas marcas do sujeito no enunciado e na
enunciação e na construção do sentido. O conceito de enunciação, conforme Maldidier e Robin, no artigo
Discursoeideologia:basesparaumapesquisa(1994),éatentativamaisimportantedosestudoslinguísticos
das teorias da enunciação de ultrapassar os limites da linguística da língua e se volta para a linguagem
assumidaporumsujeito,osujeitodaenunciação.

A Análise da Conversação, numa perspectiva atual4, está voltada para a descrição das interações
verbais,eseconstróiapartirdosenfoquespsicológico,etnoͲsociológico,linguísticoefilosófico.Oobjetode
estudodaAnálisedaConversaçãosãoosprocessosconversacionais.NessaanálisefocaͲsenasconversações
ditasnaturais,eemelementosnãoapenasverbais,masentonacionais,paralinguísticosecontextuais.

Mesmo sendo vocacionada para o estudo da coͲprodução discursiva dos atos interlocutórios, do
diálogoedalinguagememação,faceaface,aconversaçãopodeserestudadaemoutrassituaçõescomo,por
exemplo, mediada pela internet ou ainda em palestras, debates e pronunciamentos públicos ou em textos
comoocartumdapáginaseguinte.

NestecartumdeQuino,mostraͲseumasituaçãodecomunicaçãoemqueaspessoasinteragempela
linguagemverbal–representadapelosbalões.Oquechamaanossaatenção,nessecartum,équeumfalante,
nocasoohomemquefalanomicrofone(primeiroquadro),modificaavisão,aopiniãodeumgrupoapartirdo
seu discurso, de sua fala (quadro central); embora a sua mensagem não coincida com o seu pensamento
verdadeiro (último quadro), este criou uma imagem na mente do grupo sensibilizandoͲos e envolvendoͲos
com suas colocações. Este cartum nos mostra a ação da linguagem que se constrói a partir de elementos
verbais, mas que também pode ser construído por outros elementos entonacionais, paralinguísticos e
contextuais.


4
Nosseusprimeirosestudos,aAnálisedaconversaçãonãoincluíatraçosdeordementonacional,paralinguísticaemsuasanálises.
LETRAS|69



Fonte:Quino.InGente.Lisboa.DomQuixote,1991

Breve síntese dos estudos: da Sociolingüística Interacional à Pragmática Conversacional

Sabemosqueexistelínguaporqueexistemfalantesequeosfalantesexistememfunçãodeaçõesde
linguagemeessasaçõesprocedemdeinterações,ouseja,anossanaturezahumananãonospermiteescapar
da interação; a interação, como a linguagem, é parte constitutiva da nossa natureza social. A partir dessa
constatação, determinados estudiosos voltamͲse para o processo interacional, tomando a interação como
umadascategoriasdeanálisedosfatosdelinguagem,enãoapenasolócusondealinguagemacontece.Esse
procedimentotemtrazidocontribuiçõessignificativasparaaciênciadalinguagem.Éoqueveremosapartirde
agora.

LETRAS|70



Contribuiçõe
ões de Goffmaan e Gumperz
rz

Con
nforme Garcez e Ribeiro
o (2010), a noção
n de en
nquadre (ou frame), intrroduzida por Bateson, mas
m
desenvolvid
daporGoffm
mannoartigo
oAnálisedeenquadres,édefundam
mentalimporrtânciaparaacompreensão
do discurso
o oral e parra a análise da interaçãão verbal; num enunciado pode seer compreen
ndido sem uma
u
referência à
à metamenssagem do en
nquadre quee de forma simplificada
s correspondee às instruçõ
ões dadas pelo
p
falanteparaaqueoouvintepossae
entenderam
mensagem.ParaGoffmaan,atodoinstante,naco
omunicação,,os
participanteesestãopropondooum
mantendoenq eorganizamodiscursoeeosorientam
quadres,que memrelaçããoà
situaçãointteracional.

Frameo
ouenquadre
Designaoquadrod doqualosp
participanteesdeumain
nteraçãofacceafacefazzemparteeemuma
atividad
dedefala.


De formageral,,osquadrinh
hosrepresen
ntamumgên
nerobastanttepropíciop
paraaanálisedeinterações
edemudan
nçasdeenqu
uadre,umavvezqueamu
udançadeco ntoeosurgimentodeno
omportamen ovosenquad
dres
revelaramssituaçõessoccioculturaiseecontextuaisquepodem osverbalenãoͲ
mserobservvadasatravéésdoscódigo
mopodemos observarnaatirinhaquesegue,Hagaarsecoloca comoguerreeiro(noprim
verbal.Com meiroquadro
o)e
suamulher ocolocacomodonoͲdeeͲcasaqueteemqueajudarnasativid
dadesdoméssticas(nosegundoeúltimo
quadro).


Fonte:Haggar,deDikB
Browne.In:TTirinha:asínttesecriativadeumgêneerojornalísticco


nquadre”,afirmaqueoffalantepodeeoperarnum
Batesonalémdeintroduzir otermo“en menquadreq
que
nia, brincadeira, provoccação etc., gerando
sinaliza iron g um
ma significaçãão contráriaa ao que esstá explícito no
discurso.Veejamosoexeemploseguin
nte:

LETRAS|7
71



F
Fonte:LuísFe
ernandoVerííssimo.Asco
obras.OEstaadodeSãoPaulo.


NattirinhaperceebeͲsequefflecha(quadrro2)colocaͲͲsecomonããoͲmachista,emfunçãodaperguntaade
Shirlei.Poréém,noquad
droseguinte (quadro3), Flechanosle
evaacrer,(n
nafala:“Aliáás,Típica”),q
queémachissta.
Issogeraum
mnovoenqu
uadre.

O enquadre
e é um
u conceito
o de naturezza psicológicca que captaa o grau de ambivalência presente nas
comunicaçõ
ões,suasfun
nções,bemccomoasrelaaçõessutisdesubordinaçãoentreassmensagenss.Osenquad
dres
operamdeformaanaló
ógicaaumam quadro,quedelimitaparaondeoob
molduradeq evedirigiroseu
bservadorde
CEZ;RIBEIRO
olhar(GARC O,2002).

Gofffman (apud
d GARCEZ; RIIBEIRO, 2002
2) acrescentta, à teoria dos
d enquadrres, o conce
eito de footiing,
comooutraaformadefaalarsobreum
mamudançaanosenquad
dres,umam
mudançanoaalinhamento
oqueadotam
mos
de nós messmos e paraa com os ou
utros, expressso na mane
eira de lidarr como a prrodução e re
ecepção de um
enunciado.Istoemfunççãodospapééissociaisqu
ueassumimo
oscomofilho
o,namorado
o,pai,professsoretc.,som
mos
submetidoss a um alinh ma tomada de postura de acordo com os vários enquad
hamento, ou seja, a um dres
oprocessodeinteração.
possíveisno

Footing
Represeentaoalinhaamento,ap
posiçãodoffalanteemrelaçãoaoo
ouvinte,bemcomoarrelaçãodessse
falantecconsigopró
óprioecomo
odiscursoeemconstruççãonomommentodainteração.


Com
mo exemplo,, poderíamo a tirinha de Hagar, vista acima que, em função da fala da sua
os retomar a
novaposturaa,adedonoͲͲdecasa.
mulher,Haggarésubmettidoauman

Ofaalanteestácconstantemeentesubmetidoaoalinhamentoeà tomadaden
novaposturaa,cadavezq
que
mudaoenq
quadramento
odesuainteeraçãocom outrosfalan
ntesoumesm
moquandoaassumepapé
éis,sendoesstas
mudançasccaracterísticaaspermanen
ntesenaturaaisdafala.

LETRAS|72
2



Apartirdoconceitodefooting,omomentodafalapassaaserobservadoapartirdolugar,doquando,
dapostura,daposiçãodofalantediantedoouvinte.Ofootingpodesofreralteração,modificação,negociação
outrocaemmeioàsinterações.

Em grande parte, a mudança de footing está relacionada à linguagem, porém há casos em que
aparecerão apenas pistas e marcadores paralinguísticos para revelar a mudança. Os marcadores
paralinguísticos são compreendidos contextualmente e, por isso, inseremͲse nas pistas de contextualização
propostasporGumperz(1982).

Nolivro“Discursestrategies”,Gumperzdenominadeconvençõescontextualizadas“pistasdenatureza
sociolinguísticasqueutilizamosparasinalizarosnossospropósitoscomunicativosouparainferirospropósitos
conversacionais dos interlocutores” (GARCEZ; RIBEIRO, 2002) e evitar malͲentendidos. Desta forma, os
participantes de uma conversa contam com inferências sobre o contexto, objetivos interativos e relações
interpessoaisparaproduzirenquadresemquepodeminterpretaroqueestáocorrendocomasituação.

Para o autor, os sinais verbais e nãoͲverbais utilizados por falantes e ouvintes em interação
determinam as pistas de contextualização, e as define como “traços linguísticos que contribuem para a
sinalizaçãodepressuposiçõescontextuais”.Aspistasdecontextualizaçãosãomuitoimportantesnaindicação
demudançadefootingseparaadeterminaçãodeenquadres.Sãoessaspistasqueindicamnossasintenções
comunicativas ou nossas inferências com relação a nosso interlocutor. Elas estão agrupadas da seguinte
forma:

1. Linguísticas: alternâncias de código, de dialetos e de estilo.


2. Paralinguísticas: pausas, tempo de fala, volume de voz e sinais culturalmente
estabelecidos.
3. Pistas prosódicas: entoação, acento e tom.
4. Pistas não vocais: direcionamento do olhar, posturas e gestos etc.


Vejamosumexemplodepistaparalinguísticanatirinhaquesegue.


Fonte:LuizFernandoVeríssimo.Ascobras.In:SeDeusexistequeeusejaatingidoporumraio.
LETRAS|73


Nessatirinha,percebemosque,apósaperguntadacobrinhaparaacobraadulta,háumapausa,ou
seja,umelementoparalinguísticodeterminanteparaacompreensãodafalanoquadroseguinteeúltimoque
éoderesposta.

ConformeGarcez;Ribeiro(2002),Gumperz(1982),noseumodeloteórico,destacaalgunspontosao
privilegiarodiscurso,noprocessodeinferênciaconversacional:

1) a contribuição da pragmática no estudo das implicaturas conversacionais, na compreensão dos


processos inferenciais compreendidos em sequências de conversas espontâneas e em situações não idealizadas.

2) a necessidade de entendermos a contextualização a partir de uma compreensão das forças ilocutórias


contidas na elocução, isto é, dos atos de fala.

3) a contribuição dos analistas de conversação sobre o efeito da sequencialidade nas construções


discursivas face a face.

4) o processo inferencial é de natureza sugestiva, nunca assertiva baseado em pressuposições.

Gumperz ((apud GARCEZ; RIBEIRO, 2002) apresenta ainda a idéia de que a diversidade linguística é
mais do que uma comportamento social e cultural; é um recurso comunicativo nas interações verbais
rotineiras.Assuasreflexõestêmexercidograndeinfluêncianosestudosdousodalinguagememáreasquese
voltamparaanoçãodecontexto,intersubjetividadeecompreensãomútua.

Goffman(apudGARCEZ;RIBEIRO,2002)centraseusestudosnadescriçãodecomoalinguagemocorre
emalgunscontextossociaisecomoelaassumeumsentidoeumaestruturaemtaiscircunstâncias.Oenfoque
deGoffmanarespeitodeinteraçãosocialcomplementaodeGumperzsobreinferênciaconversacional,uma
vezquedescreveaformaeosignificadodoscontextossociaiseinterpessoaisquefornecemaspressuposições
paraadecodificaçãodosignificado.

OsestudosdeambossãorelevantesparaaLinguísticaInteracional,aoelegeremosocialeainteração
com o outro, como o palco da competência comunicativa, e é nesse movimento discursivo, considerando o
contextosocial,queodiálogovaisendotecidoeosparticipantesseconstituemenquantosujeitosativos.

Contribuições de Austin e Searle e os atos de fala




Austin e Searle entendiam a linguagem como forma de ação e, assim, passaram a refletir sobre os
vários tipos de ações humanas que se realizam através da fala. A partir desses estudiosos, a linguagem é
concebidacomoumaatividadeconstruídapelosinterlocutores,ouseja,éimpossíveldiscutirlinguagemsem
LETRAS|74



consideraroatodelinguagem,oatodeestarfalandoentresi–alinguagemnãoéassimdescriçãodomundo,
masação5.

Assim, surge a Teoria dos Atos de Fala proposta por Austin (1990) e desenvolvida por Searle que é
sustentada pela visão de que uma mensagem verbal é raramente uma mera transmissão literal e direta de
informação.Explicandodeformasimples,osatosdefalapodemser“diretos”,quandosediz“apaguealuz”,
porexemplo;mas,podemser“indiretos”,quandoaintençãodointerlocutornãoestáexplícita.Porexemplo,
seointerlocutordiz“estáfrioaqui!,podeestápedindoparaalguémfecharaporta.Apartirdessepontode
vista a linguagem passa a ser o lugar onde uma comunidade linguística pratica atos, mas também exigem
reações.

Dessaforma,acompreensãodeumatodefalaexigeaomesmotempooprocessamentodoqueédito
explicitamente e a capacidade de ir além deste significado para perceber plenamente a intenção do
interlocutornocontextodado.

Em outras palavras, quem escuta deve ser capaz de, simultaneamente, compreender o significado
literalenãoliteraldamensagem,oqueointerlocutordizeoquepretendedizer.Bakhtin(Volochinov)emsua
obra Discurso na vida e discurso na arte, traz à tona essa questão quando diz que “discurso é diretamente
vinculadoàvidaemsienãopodeserdivorciadodelasemperdersuasignificação”.

Colocandooatodefalacomoaunidadebásicadacomunicaçãolinguísticahumana,naobraQuando
dizeréfazer,Austin(1992)seopõeaoprivilégioatribuídoaosenunciadoschamadosporelede“constativos”
quesãoaquelesquedescrevemourelatamumestadodecoisas.Naprática,sãoosenunciados,comumente,
denominadosdeafirmações,descriçõesourelatos,comonosseguintesexemplosrespectivamente:Eupratico
esporte;Onossoplanetaéazul;Acanetacaiuetc.

Austinseinsurgecontraessavisãodequeasafirmaçõesserviamapenasparadescreverumestadode
coisas, e que, portanto, eram verdadeiras ou falsas, visão meramente descritiva da língua, mostrando que
certasafirmaçõesnãoservemparadescrevernada,massimpararealizarações.Partindodoprincípiodeque
“dizerpodeserfazer”,Austinreconheceuosenunciadosperformativose,depois,estabeleceoconceitodeato
ilocucionário.


5
 EstavisãodeAustineSearleserá,aqui,apenasretomadaͲumavezquejáfoivistanadisciplinaPragmática(volume6)Ͳ,comoo
caráterdeapenascomporoquadrodateoriasqueformaaLinguísticaInteracional.
LETRAS|75


Enunciados performativos

Os enunciados performativos não descrevem, não relatam, nem constatam absolutamente nada, e,
portanto,nãosesubmetemaocritériodefalsosouverdadeiros.Massãoenunciadosquerealizamumaação
(daíotermoperformativo:overboinglêstoperformsignificarealizar).

Exemplificando:quandoojuizdiz:“Declaroabertaasessão”,nãoestáinformandosobreaaberturada
sessão, masabrindo a sessão.  Nos seus primeiros estudos o foco de interesse de Austin são os enunciados
performativoseoqueodiferedosatosconstativos.Depois,Austinpercebequeosconstativosseriamcasos
particulares dos performativos, ou seja, os enunciados constativos são enunciados performativos sem
explicitaçãoclaradaaçãoquerealizamouajudamarealizar,sãoosperformativosprimários.

Embora os performativos não sejam analisáveis de acordo com os parâmetros verdadeiros e falsos,
Austin afirma que esses atos devem ser pensados e descritos segundo critérios de felicidade e infelicidade.
Para que a ação corra bem, para que o enunciado performativo seja bem sucedido, devem ser satisfeitas
determinadascondições.

A partir dessa visão Austin aponta critérios que precisam ser satisfeitos para que um enunciado
performativosejabemͲsucedido,denominandoͲosde"condiçõesdefelicidade”.


Condições de Felicidade

Condições a que uma enunciação performativa deve satisfazer para que possa constituir uma ação
correta,feliz,ouseja,paraqueaaçãoporeladesignadasejadefatorealizada.

ParaqueumenunciadoperformativosejabemͲsucedidoépreciso,ainda,queascircunstânciassejam
adequadas.Umenunciadoperformativopronunciadoemcircunstânciasinadequadassimplesmentefracassa.
Assim,porexemplo,seumfaxineiro(enãoojuiz)dizDeclaroabertaasessão,operformativonãoserealiza
(isto é, a sessão não se abre), porque o faxineiro não tem poder ou autoridade para abrir a sessão. O
enunciado é, portanto, nulo, sem efeito. Assim para ter efeito, o falante do ato performativo deve ter
autoridadeparaexecutaroato.

Outra condição para osucesso do enunciado performativo é a circunstância em que as palavras são
proferidas.Conformeoexemploacima,seojuizdeclaraabertaasessãoemsuacasa,operformativonãose
realiza,porquenãoestásendoenunciadonacircunstânciaapropriada.

LETRAS|76



Mais tarde, Austin percebe que a diferença apontada por ele, inicialmente entre os enunciados
constativo e performativo, vai perdendo força e, ao final, ele chega a se perguntar se não há uma dose de
constatividade nos enunciados performativos e se não há uma dose de performatividade nos enunciados
constativos.Porém,agrandecontribuiçãodeAustinéconsiderartodoenunciadoumato,umatodefala,que
podemudarasituaçãosocialdaspessoasenvolvidas.

Aoconcluirquetodososenunciadossãoperformativos(porque,nomomentoemquesãoenunciados,
realizam algum tipo de ação), Austin retoma o problema em novas bases, e identifica três atos ou ações
linguísticas simultâneas que se realizam em cada enunciado: o locucionário, o ilocucionário e o
perlocucionário.
Ato locutório – Ato de dizer algo
Ato ilocutório – Ato que se realiza no dizer algo
Ato perlocutório – Ato que se realiza com o dizer algo

Austin, então, postula que todo ato de fala é ao mesmo tempo locucionário, ilocucionário e
perlocucionário. Assim, quando se enuncia a frase Eu prometo que irei à igreja hoje, há no ato de enunciar
elementoslinguísticosquecompõemafrase,omateriallinguístico.Éoatolocucionário.
Paralelamente, no momento em que se enuncia essa frase, realizaͲse o ato de promessa. É o ato
ilocucionário: o ato que se realiza na linguagem Ͳ fruto de longa reflexão austiniana sobre a dicotomia
performativo/constativo.

 Quando se enuncia essa frase, o resultado pode ser de agrado ou de desagrado. TrataͲse do ato
perlocucionário:umatoquenãoserealizanalinguagem,maspelalinguagem.

TodasessasnoçõessãoretomadasesistematizadasporSearle,primeiramenteemsuasobras:Speech
acts (1969) e depois em Expression and meaning (1979). No entanto, há divergência de pensamento entre
AustineSearlearespeitodalinguagemcomorepresentaçãodoreal.Paraoprimeiro,alinguagemconstituio
real;paraosegundo,elaéapenasoespelhodarealidade.

Searle retoma e reformula o pensamento de Austin. Para aquele, o falante realiza três atos ao se
comunicar: o ato proposicional (que corresponde à referência e à predicação, isto é, ao conteúdo
comunicado),oatoilocucional(quecorrespondeàsintençõesdofalante,oqueestepretendecomsuafala)e
oatoperlocutório(relacionadosaosefeitosdessafalaesuasconsequênciasparaosouvintes).

Vejamosnessatirinhaquesegue,precisamentenoprimeiroquadro,oatoproposicionaleilocucional
de Helga ao se dirigir ao esposo oferecendoͲlhe café. Porém Hagar interpreta como se ela estivesse
perguntando se era café o que havia no bule. O comportamento linguístico de Hagar não corresponde ao
esperado;eleafastaaconversadeumcontextoerespondeaumafraseisolada,oqueresultanapossibilidade

LETRAS|77


deduplaͲinterpretação.Essatirinhatratadeumaperguntaquefoilidacomapresençadeumainterpretação
inesperada,maspossível,oquecorrespondeaoatoperlocutório.


Fonte:EmartigodeLucianaAmgartenQuitzau:
VestibularUnicamp:umanovapropostadeavaliaçãoemlínguaportuguesa.

A pragmática austinoͲsearliana tem influenciado estudos posteriores a aprofundar as questões que
envolvem a análise dos diferentes tipos de discurso. Com efeito, os Atos de Fala são, hoje, uma fonte
inesgotáveldetrabalhostantonaáreadaPragmáticaquantonaáreadaLinguísticaemgeral,bemcomoem
outrasáreasdeestudoslinguísticos.Paramuitos,aobradeAustinconstituiuumverdadeiromarcodivisordos
estudos linguísticos, inaugurando uma nova concepção de linguagem: uma concepção performativa e
pragmática de uso da linguagem, rompendo, assim, com uma longa tradição de estudos linguísticos,
caracterizadaporumaconcepçãomeramentedescritivadalinguagem.

É importante salientar que a Teoria dos Atos de Fala, como demonstra KerbratͲOrecchioni (2005),
apresentaͲsecomo“entidadesabstrataseisoladas”destacadasdocontextoedeoutrosatosqueantecedem
ou precedem esse atos no encadeamento discursivo. KerbratͲOrecchionni (2005, p.69) salienta que “na
comunicação,osatosdefalafuncionamemcontexto(sendoemparticularassumidosporlocutoresquetem
características próprias) e no interior de uma sequência de atos que não são encadeados ao acaso. É sobre
essesaspectosqueascorrentespragmáticasque sedesenvolveramnocampointeracionistavãosecentrar,
sem,contudo,abandonaranoçãodeato,dequefalaréagirsobreooutro,oumelhor,interagir,umavezque
nodesenvolverdetrocascomunicativas,osparticipantesexercementreelesinfluênciasdenaturezasdiversas.
Como podemos perceber, no cartum que segue em que as pessoas mudam de ponto de vista, ou seja, são
influenciadaspelohomemquefalanopalco.


Grice e as máximas conversacionais

Outromodeloteóricoquevemreforçarasteoriascentradasnainteraçãoverbal,tendocomopontode
partida os atos de fala, é proposta por Henry Paul Grice6, que se interessa, sobretudo, pela questão do


6
LembramosqueesteconteúdojáfoivistonadisciplinaPragmática,masnãopoderiadeseraquicitado,umavezquefazpartedoquadronasteorias
queformamalinguísticainteracional.
LETRAS|78



significado dos enunciados linguísticos. A pragmática conversacional griceana parte de um princípio geral
denominado de cooperação que determina que os interlocutores devam mostrarͲse cooperativos,
contribuindoparaaconstruçãodosentido.

ParaGrice“aosecomunicarem,aspessoasaderemacertasregrasdeconduta,relativasaomodocomo
osparticipantesdeumaconversafazemsuacontribuiçãoconversacional”.Aspessoasaderemaessasregras
de conduta visando à eficácia da comunicação e a continuidade da interação verbal, assim, perguntam e
respondem,esperamavezdefalar,esperarafaladooutroetc.

Para Grice, as conversas são verdadeiros esforços cooperativos realizados por meio de estratégias ou
máximas que correspondem à quantidade, à qualidade, à relevância e ao modo como é transmitida a
mensagem. Tratemos de forma breve das máximas de Grice apenas para visualizar a contribuição desse
teóricoparaaLinguísticaInteracional,umavezquejáasconhecemosnadisciplinaPragmática.

a)AmáximadaquantidaderefereͲseaonúmerodeinformaçõesdadasnamedida,nemdemaisnemde
menos,pelolocutorparaoseuinterlocutor.Vejamosduassituaçõesemqueháquebradestamáxima:

SituaçãoA

Se alguém perguntar: - Que são "máximas conversacionais"?


Alguém pode responder: - Consulte um dicionário de Pragmática.

Háumaquebranamáximadequantidadepornãoserdadaumarespostasuficienteasolicitação,oqueleva
aimplicarqueparasuarespostaseradequadamenterespondidadeveͲsepesquisaremlivros.



SituaçãoB

Alguém pergunta: - Você me ama?


Alguém responde: - Eu gosto de estar em sua companhia.

Nessasituaçãoarespostavaialémdarespostaquesupostamenteseriaum“Não”.

b) A máxima da qualidade corresponde à verossimilhança das informações, ou seja, o interlocutor
precisa acreditar que a informação transmitida é verdadeira. Vejamos a seguinte situação em que a quebra
destamáxima:

Alguém pergunta: O professor João Pedro é bom?
Alguém responde: O João Pedro é uma fera em pragmática.
LETRAS|79


Nesta situação há quebra da máxima de qualidade por não ser dada a resposta necessariamente
verdadeira. No entanto, levandoͲse em conta o princípio de cooperação, estas sentenças são perfeitamente
compreensíveis. Nesta situação aparece uma metáfora que não é literalmente verdadeira, o professor João
Pedro não é uma fera. Porém, a quebra dessa máxima de qualidade leva quem responde a implicar na sua
repostaqueoprofessormencionadoémuitobomprofessordepragmática.

c)Amáximadarelevância(oudarelação),quedizrespeito,comoédeseesperar,àpertinênciada
informação ao contexto. Vejamos uma situação em que há quebra dessa máxima: A namorada diz ao
namorado:ͲVocêvaimedarumaaliançadecompromissonodiadosnamorados?ONamoradodiz:ͲPuxa!
Como está quente hoje. Na situação de diálogo acima, o namorado "desconversa" e foge da pergunta da
namorada não obedecendo à máxima de relevância. Mas, como supomos que mesmo assim ele está
cooperando,anamoradaélevadaaimplicarqueonamoradonãosónãolhedaráumaaliançadepresente
comonãoquernenhumtipodecompromissosériocomela.

d)Amáximadomodo,queserefereao"como"sedáainformação,ouseja,amensagemnãodeve
ser obscura, ambígua, prolixa ou desordenada. Vejamos um exemplo de ambiguidade, ou seja, de duplo
sentidonasituaçãoquesegue:

Alguém diz: - Essa enfermeira parece ser eficiente.

Alguém complementa: - Sem dúvida, ela é muito boa.

Oduplosentidocriadopeloadjetivo“boa”proporcionaumaquebranousoconvencionaldostermose
expandeaspossibilidadesdecompreensãoemfunçãodocontextoqueenvolveasituação.

 Grice estabeleceu a inferência como outro requisito necessário para a eficaz compreensão da
mensagem. As inferências correspondem, na visão griceana, à utilização do conhecimento do sentido literal
das palavrasacrescido a outros conhecimentos (do contexto, de mundo). Em outras palavras, as inferências
auxiliam o leitor a perceber o sentido real do texto; podeͲse mesmo dizer que “fazer inferências” é ler as
entrelinhas,éiralémdasimplespalavraescrita,ésituáͲlanocontextoenomundo.

ConformeaóticadeGriceeseuPrincípioCooperativo,ofalantepodesercooperativo,namedidaem
que se utilize das máximas, ou nãoͲcooperativo ao desobedecêͲlas e exigir, assim, que o ouvinte faça
inferênciasespecíficasparachegaràspossíveisimplicaturas.

Esseprocessodeinferênciastemumpapeldemuitaimportânciaparaacompreensãodoouvinte,pois
oajudaachegaraosentidorealdotexto,vistoqueosentidorealouaintençãodofalantenemsempreestá
implícitanaspalavrasescritas,masimplícitanasentrelinhas.

LETRAS|80



Contribuições de Kerbrat-Orecchioni


KerbratͲOrecchioni (2005) chama atenção para situações que fogem da visão simples e limitada da
teoriadosatosdefalaquandodizque,noprocessodetransmissãodeumaintençãoilocutiva,hámaisdoque
essaintenção,mesmoquesofisticadapelasformulaçõesindiretaseparafundamentarmelhordáasseguintes
situações:

1. em que um ato é constituído por vários locutores.


Porexemplo:

- Uma vez eleito, ele deve aumentar o salário mínimo.

- e o salário dos funcionários públicos

Vejamos outro exemplo na tirinha que segue em que Haroldo tem sua fala complementada pela de
Calvinnoúltimoquadro.


Fonte:AhoradaVingança.AsaventurasdeCalvineHaroldoporBillWatterson.

b)emqueodestinatárioécoletivo,heterogêneo,porexemplo:PresidentedaRepúblicafazendoum
pronunciamentonaTV,edizendoqueaordemserámantidacusteoquecustar.Nessecaso,pormeiodessas
palavras,eleaomesmotempoconformeosbonscidadãoseleassumeumcompromissoeconformeosmaus,
fazumaameaça.

Vejamosoutroexemplobeminteressantededestinatáriocoletivo,notextodeJôSoares:Infidelidade
emquelocutortravaumaconversacomosuaamanteportelefonenafrentedesuaesposa.

LETRAS|81


Personagens:
Ele – Marido; Voz de mulher – A outra; Calada – Esposa

(Cenário: uma mesinha com um telefone. Marido sentado de um lado e esposa do outro. Os dois lêem o jornal. Telefone
toca, ele atende.)

Ele – Alô?

Voz de mulher – Ah, é você? Ainda bem, eu já liguei duas vezes e foi a tua mulher que atendeu.

Eu tive de desligar.

Ele – Bom dia, Horácio... Não, não é incômodo nenhum, a gente tem de preparar a reunião do sindicato, Horácio...

Voz de mulher - Você não pode falar? Tua mulher está aí do lado?

Ele – Exato Horácio... O problema todo é esse.

Voz de mulher – Mas não dá pra falar mesmo?


Ele – Não, Horácio, e esse é o problema da reunião...

Voz de mulher – Tá bom, tá bom... Deixa que eu falo. Olha, amanha à tarde dá pra gente se encontrar. Você consegue?

Ele – Bom, tem de haver uma certa estratégia, Horácio...

Voz de mulher – ela está bem aí do teu lado?

Ele – Exato! Exato! Você não pode nem imaginar quanto!

Voz de mulher – Já entendi. Então me responde só por sim ou por não se você está livre amanhã.

Ele – Sim! Amanhã, todo mundo na reunião sindical, inclusive eu e você. Você não pode faltar Horácio.

Voz de mulher – Então a gente se vê amanhã. A que horas?

Ele – Mas eu não posso dizer isso na frente da assembléia, você não vê, Horácio? Há! Há! Há! Há!

Voz de mulher - Então eu vou dizendo as horas e você vai me dizendo se pode. Que tal às 2 horas?

Ele – Não, Horácio. Eu acho que a gente pode conseguir uma quantia mais alta da diretoria.

Voz de mulher – Que tal 2 e meia?

Ele – Muito mais do que isso!

Voz de mulher – Três horas?

Ele – Isso. Eu acho que é um número razoável. Nem tanto ao mar nem tanto à terra.

Voz de mulher – E onde é que a gente se encontra?

Ele – Ah, isso eu não posso dizer. Como é que você quer que eu diga isso, Horácio?

Voz de mulher – Claro. Então eu digo. Que tal a gente se encontrar no Motel Cascata?

Ele – Não dá. É muito...É muito...como é que eu vou dizer isso? É muito...

LETRAS|82



Voz de mulher – Muito perto da tua casa?

Ele – Exato! Exato!

Voz de mulher – E que tal o Motel do Xamego?

Ele – Tem um problema. Aliás, sempre teve esse problema.

Voz de mulher – Ah, não dá pra entrar com o carro sem ser visto?

Ele – Pois é. Exato, Horácio...

Voz de mulher – Então, o que é que a gente faz? Eu não aguento mais te ver assim, sempre morto

de medo da tua mulher.

Ele – Ah, isso não. Ninguém pode duvidar da minha coragem política.

Voz de mulher – Voce morre de medo dela mesmo.

Ele – Eu? Horácio, não me faça rir.

Voz de mulher – Eu queria ver você aí, na frente dela, com esse riso imbecíl!

Ele – Bom, não começa, porque eu sou homem de ir até o fim. Horácio! Você não me conhece!

Olha que eu rompo! Eu rompo com o sindicato, Horácio!

Voz de mulher – É, no telefone você é muito valente. Olha, adeus, viu? Pra sempre! (desliga)

Ele – Isso mesmo! Inclusive eu só volto a tratar desse assunto dentro do momento oportuno e do quadro político bem
definido! E não quero mais conversa, Horácio! (bate o telefone) Ora! Onde é que já se viu? (vira-se para a esposa, que
continua calada, lendo) É o Horácio.

Ela está louca essa mulher!

Jô Soares, publicado na Revista Veja, 22/09/1993.


Tratandodaorganizaçãosequencialdosatos,KerbratͲOrecchioninosdizque“osatosdelinguagemse
definem por seu valor ilocutório, o qual é por si só portador de certas virtualidades de encadeamento” e
considerandoqueosatossãofeitosparaagirsobreoutroetambémfazercomqueooutrofaça,produzaum
determinadoato,essapesquisadoraapresentaalgunssistemasdeexpectativasesperadas:

1. se locutor A cumprimenta um interlocutor B, espera-se que B retribua o cumprimento.


2. Se A faz uma pergunta a B, espera-se que B responda a essa pergunta.
3. Se A acusa B, espera-se que B reaja desculpando-se ou defendendo-se.

A partir desses sistemas de expectativas, constataͲse que, numa força comunicativa, todo ato de
linguagemrealizadofazsurgirumparadigmadeencadeamento.Oestudodessefenômenolinguísticotemsido
uma das tarefas da Pragmática Interacionista por meio de diversos modelos de análise da enunciação e da
conversação.

LETRAS|83




Concluind
do

percebeͲsequeoslinguistas,tendocom outrasáreasdeconhecim
mosuporteo mentoesevvoltandoparraa
fala, para a
a linguagem
m em uso, têm
t construíído teorias que favorecceram a forrmação de uma
u linguísttica
interacionale,consequentemente, aoentendim
mentodalinguagemnum
madimensão
oqueultrapaassaoestud
doe
aconcepção
oestruturalistadeumalínguacentraadanocódiggo.

Agoraé
A
com
Seriaperttinente,apóssaexplanaçãodessaunidade,realizarumlevantammento
você emformaaesquemado osautoresqu mdestacadosesuas
ueaquiforam
contribuiçõesparaoddesenvolvimeentodaumaLinguísticainnteracional.

LETRAS|84
4



UNIDADE IV

TEORIA DA ENUNCIAÇÃO DE BENVENISTE




Com o propósito de estudar a língua em uso, em atividade, no processo de interação – objeto da
linguística interacional Ͳ mencionado por um viés enunciativo, selecionamos, dentre outras, a Teoria da
Enunciação, de Émile Benveniste, por essa enfatizar a relação línguaͲhomemͲsociedade, incluir em suas
questões a subjetividade na língua e, por fim, contribuir para o estabelecimento de um pensamento sobre
enunciaçãonalinguagem.

MesmocentrandonossaatençãonateoriadeBenveniste,várioslinguistasͲBally,Jakobson,Bakhtin,
Ducrot, AuthierͲRevuz, entre outros – contribuíram ou vem contribuindo para o avanço dos estudos da
linguagemnocampodaenunciação.


Contribuições de Benveniste

AteoriadaenunciaçãodeBenvenistetemporbaseacorrentedepensamentoestruturalsaussuriana.
IstosejustificaumavezqueBenvenistefoiumdiscípulodeSaussure.Dessaforma,écaracterizadacomouma
teoria da enunciação de base estruturalista. No entanto, os estudos linguísticos benvenistianos afastamͲse
dessa sua origem teórica. Isto levou alguns teóricos da linguagem a dizerem que Benveniste “ultrapassou”
Saussureou“continuou”asideiasdeixadasemabertopelomestregenebrino.OobjetivomaiordeBenveniste,
formuladopordiversasvezesemsuaobra,étentariralémdopontoondeSaussureparounaanálisedalíngua
comosistemasignificante.

Centraremosnossaatenção,apartirdeagora,nosestudos,nascontribuiçõesqueBenvenistedeixou.
Nasreflexões,discussõesqueprovocoue,evidentemente,namudançadepensamentoquesuasidéiasvieram
aocasionarparaaciêncialinguística.

AspectosquemerecemdestaquenaobradeBenvenisteequeaquiserãotratados:

a) a língua enquanto exercício da linguagem.


b) a definição de “enunciação” como objeto de análise.
c) a concepção de um aparelho formal da enunciação.
d) consideração da tríade eu-aqui-agora.
e) a irrepetibilidade da cena enunciativa,
f) a singularidade do homem na língua.

LETRAS|85


A língua enquanto exercício da linguagem

AlínguanaobradeBenveniste,diferentementedoquepropõeSaussure,aparecerelacionadaàfala.
Dajunçãodasnoçõesdelínguaefalae,consequentemente,deumanovaconceituação,surgeumnovomodo
de ver a linguagem, o da Linguística da Enunciação. Assim, o entendimento de língua de Benveniste se
distanciadoentendimentodelínguadeSaussure.

Para Benveniste (1989), em A forma e o sentido na linguagem e em Semiologia da língua, existe a
língua, como semiótica e a língua, como semântica que são, na verdade, duas espécies e dois domínios do
sentidoedaforma.Aformanosemióticodizrespeitoaosignificante,entendidocomoo“aspectoformalda
entidade chamada signo” (BENVENISTE,1989, p. 225). O sentido no semiótico diz respeito às relações de
oposições com os outros signos da língua, pois, no semiótico, “ser distintivo e ser significativo é a mesma
coisa”(BENVENISTE,1989,p.228).

O sentido no semântico “se realiza na e por uma forma específica, aquela do sintagma, pelo
agenciamentodepalavras,porsuaorganizaçãosintática,pelaaçãoqueelasexercemumassobreasoutras.
Tudo é dominado pela condição do sintagma, pela ligação entre os elementos do enunciado destinado a
transmitir um sentido dado, numa circunstância dada” (BENVENISTE, 1989, p. 230). Diferentemente do
semiótico,quesedefineporumarelaçãodeparadigma(BENVENISTE,1989,p.230).Aformanosemânticodiz
respeito à organização sintagmática e o sentido diz respeito à ideia decorrente dessa sintagmatização.
Enunciaréumprocessodesemantizaçãodalíngua,étransformaralínguaemdiscurso.

Em suma, na língua, conforme Benveniste, há o sentido e a forma, o semântico e o semiótico, com
funçõesdistintasdecomunicaredesignificar,respectivamente.Osemânticoéalínguaemuso,descriçãoe
raciocínio,nãomaisosignificadodosigno.ParaBenveniste,essaformadesignificaréalínguacomotrabalho
social.Assim,esteautorvêalínguanoseiodasociedadeedaculturaporque,paraele,osocialédanatureza
dohomemedalíngua.

Enunicação como objeto de análise



NotextoAparelhoformaldaenunciação,Benvenisteparte,maisumavez,dadescriçãolinguísticada
formaqueerafeitaemsuaépoca,ecolocaseuobjetivodeestudaroempregodalínguadistintodoemprego
dasformas.Oempregodalínguaéummecanismorelativoatodaalínguaatravésdaenunciação,daqualo
discursoéumamanifestação.MasodiscursonãoéafaladeSaussure,queBenvenisteinterpretacomosendo
a produção do enunciado. A partir disso, há o estabelecimento de duas linguísticas, a das formas e a da

LETRAS|86



enunciação. Benvenistee, contrastando com a Linguística centrada naa forma, de Saussure, traz
t de voltaa o
sentidoe,aatravésdeum
mametodolo
ogiadeanálisedaforma,,estabeleceumnovodo
omínio:ododiscurso.

Enunciaação
Aenuncciação“éestecolocareemfuncionaamentoalínnguaporummatoindiviidualdeutilização”,ou
seja,enunciaréusaaralíngua.Estaserved entoparaolocutornomomentod
deinstrume deproduzirro
enunciado(Benven niste,1970,p p.82)


A enunciação
e é a conversãão da línguaa em discursso. Deve serr entendida como o ato
é o de produziir o
enunciadoeenãocomo otextoproduzido.Éesteatodeprroduzirumeenunciadoe nãootextoproduzidoq
que
Benveniste elege como seu objeto de estud
do. E a parrtir dessa afirmação,
a p
partindo de manifestações
individuais, ele busca no
n interior da
d língua os caracteres formais
f da enunciação,
e isto é, a universalidade do
processodeeenunciação
o.

 nstrumento de que os falantes se utilizam paara enunciarr e produzirr o discurso
A lííngua é o in o. A
mseuquadroformal,éu
enunciação,definidaem umprocesso
odeapropriaação:ofalan
nteseapropriadoapareelho
formaldalínguaeseen
nuncia.Oato
odeapropriaaçãoestabeleceofalanteeemseudiscurso.

Ao seapropriarrdoaparelho
oformal,olocutorreferreetornasiggnificantesaaspalavrasvvaziasdalínggua,
colocandoͲsse na posiçããode locutor e instauran
ndo o interlo
ocutor, o esspaço e o tempo em seu
u discurso. Pela
P
noçãodeen
nunciaçãoasssimdefinidaa,hálinguisttasqueconssideramaen
nunciaçãocomooqueficcoufaltando
ono
Cursodelin
nguísticageraaldeSaussure;sobretud
do,quandose
efaladaaussênciadeum
ma“linguísticcadafala”.

A partir
p dessa nova
n abordaagem, Benveeniste propõ
õe que se ulttrapasse a n
noção saussu
uriana do siggno
comoprincíípioúnico,d
doqualdepeenderiasimultaneamente
eaestruturaaeofuncion
namentoda língua,eind
dica
caminhosparaessaultrrapassagempormeiodaanáliseintraalinguísticaeetranslinguísstica:

Análise
eintralinguíística
Permiteeaaberturaadeumanoovadimensããodesignifficância,ad
dodiscurso,quedenom
mina
semânttica,emopo osiçãoàdosigno,asem
miótica.

Análise
etranslingüística
Permiteeaelaboraççãodeumametassemânticaquesseconstruirrásobreasemânticada
enunciaação.


LETRAS|8
87


Aparelho formal da enunciação e o processo enunciativo

Benvenistedefineoaparelhoformaldaenunciaçãocomoumdispositivoqueaslínguastêmequeé
disponibilizadopelaestruturamesma dalíngua paraaatualizaçãoqueolocutorfazdosistemano usopara
proporsecomosujeito.Oaparelhoformaldeenunciaçãoincluilínguaefala,éumacondiçãodaexistênciade
ambas.AlínguacomportaafalaeviceͲversa,dessaformaBenvenisteseopõeaSaussurequevêafalacomo
elementooponentedalíngua.

A enunciação de Benveniste busca realizar uma Linguística da linguagem, quando, ao incluir no seu
escopolínguaefala,incluitambémlinguagem.Admitidoesseraciocínio,oobjetodalinguísticadeBenveniste
aparececomonãoredutívelàlínguacomosistema,mastambémnãoidentificadoàfalacomoousoindividual
dosistema.ParaBenveniste,deveͲsepartirdosfatosdafalaparaatingirosistemadalangueequenestaestá
contidoousoqueaquelapromove.IssoéperceptívelemváriaspassagensdaobradeBenveniste.

No artigo A forma e o sentido na linguagem, Benveniste diz, para que um signo exista, é necessário
queelesejaaceitoeserelacionecomosdemaissignos.Ouseja,apalavraconsideradasignifica?Arespostaé
sim,ounão.Sesim,tudoestáditoeregistreͲse;seénão,rejeitemoͲla.Porexemplo:“Chapéu”existe?Sim.
“Chaméu”existe?Não.(1989,p.227).

ParaBenveniste“énousodalínguaqueumsignotemexistência;oquenãoéusadonãoésigno;e
foradousoosignonãoexiste.Assim,chegaànoçãodeusodalínguaNãoháestágiointermediário;ouestána
língua,ouestáforadalíngua,‘tertiumnondatur’”(1989,p.227).

Oprocessoenunciativopodeserestudadosobdiversosaspectos,conformeBenveniste(1989):

a) Da realização vocal da língua. Por realização vocal da língua entende-se tanto à realização oral quanto à escrita;
b) Da conversão individual da língua em discurso – semantização da língua. A conversão da língua em discurso
constitui um ato operacional de transformação do signo (nível semiótico) em palavra (nível semântico);
c) Da manifestação individual da língua – apropriação do aparelho formal da enunciação pelo locutor. Por meio de
indicadores de subjetividade, como pronomes, advérbios, adjetivos e outras estratégias e recursos que também são
mobilizados pelo locutor para marcar sua presença no discurso.

Subjetividade e intersubjetividade: a visão dialógica da linguagem




Alémdedardestaqueànoçãodesentidonalinguagem,Benvenisteevidenciouanoçãodesujeitoapartir
de um modelo de análise da língua especificamente voltado para a enunciação. A enunciação é feita entre

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interlocutores,queseutilizamdeelementosdoaparelhoformal,istoé,entreumeue umtu,emumaquiͲ
agoraquelhessãoparticulares.

ÀBenvenisteéatribuídooméritodeterdadoaessesujeitoumlugarnateorialinguística.Olugardo
sujeitoéodalínguaemuso,osemântico.Asubjetividade,nateoriadaenunciaçãodeBenveniste,emergede
umprocessodeintersubjetividadeͲdeumhomemfalandocomoutrohomem.Porisso,falardesubjetividade
é falar de linguagem, uma vez que “não atingimos nunca o homem (sujeito) separado da linguagem”. É na
linguagemepelalinguagemqueohomemseconstituicomosujeito.

Ao concretizar o ato de produção dos enunciados, o locutor mobiliza a língua, dandoͲlhe sentido,
atravésdasformasqueutilizounodiscurso.Alémdisso,aoenunciar,olocutor“eu”instauraautomaticamente
o “tu” diante de si,o que pressupõe uma visão dialógica da língua. É esta visão dialógicaque está presente
quandoBenvenistevemafirmarqueoquecaracterizaaenunciação,emgeral,éarelaçãodiscursivaqueexiste
entreosinterlocutores.

Tantona TeoriadaenunciaçãodeBenvenistequantonospostuladosdeBakhtin, todo“eu”constrói


seudiscursoreguladoporum“tu”.Sendoassim,todaseleçãolexical,todaconstruçãosintática,oempregode
maioroumenorformalidadenodiscursodependedarelaçãoqueo“eu”estabelececomotu.Tomandocomo
exemploumaconversadeumamãe(oeudiscursivo)comoseufilhodequatroanos(otudiscursivo)sobrea
necessidadededormircedo,paraacordarbemdispostoparairàescola.Ficaclaroqueodiscursodamãeserá
reguladopelaavaliaçãoqueelafazdotudodiscurso,nessecasooseufilhodequatroanos.Sendoassim,toda
faladeveseremfunçãoedeacordocomoessesujeitoͲdestinatárioeesseexpedienteque,segundoaTeoria
daEnunciação,éusadoemtodotipodediscurso.

SegundoBenveniste(1989),oquecaracterizaaenunciaçãoéaacentuaçãodarelaçãodiscursivacomo
parceiro, seja este real ou imaginário, individual ou coletivo. Isso configura a enunciação, o do diálogo. Os
interlocutores alternam as funções, caracterizandoͲse como parceiros e protagonistas na situação de
enunciação.Isso,naverdade,vaicriarumarelaçãointersubjetivaentreaspessoasdoenunciado.

Cadavezqueoindivíduotomaalínguaelhedávida,deacordocomateoriaenunciativa,esseatoé
cadavezúnicoenãorepetível.Essaconstataçãoévistacomoairrepetibilidadedacenaenunciativa,ouseja,
cada vez que a língua é enunciada têmͲse condições de tempo (agora), espaço (aqui) e pessoa (eu/tu)
singulares.Édaordemdorepetívelapenasaorganizaçãodosistemadalíngua.

Analisandoaapropriaçãodasformasdalínguapelolocutor,oqualotransformaemsujeito,podeͲse
perceberquealínguaétomadacomoinstrumentoparaaconstituiçãodoeuetambémdotunalinguagem,
nãoservindoapenasparaacomunicação.

Assim, Benveniste traz à tona a questão da subjetividade e da intersubjetividade nos estudos
linguísticos,abrindoumanovaperspectivaparaaspesquisassobrealinguagem,quedeixoudeservistacomo

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meiodetransmissãodemensagensentrefalantes,epassouasero"espaçoondeohomemseconstituicomo
sujeito".Ouseja,osujeitoéocentrodoatodeproduçãodalinguagem.

NoartigoDasubjetividadenalinguagem,Benveniste(PLGI)questionaecriticaanoçãodelinguagem
queserveunicamentecomoinstrumentodecomunicaçãoaohomem,quandodizque“Falardeinstrumentoé
pôr em oposição o homem e a natureza”, mostrando que não se pode mais conceber a linguagem e o
indivíduo dessa forma.  Na verdade, essa concepção deixa o indivíduo à margem da linguagem. A proposta
entãoéumaideiadelinguagemquedêaoindivíduoostatusdesujeitoeassimdeveserporque“éumhomem
falandoqueencontramosnomundo,umhomemfalandocomoutrohomem,ealinguagemensinaaprópria
definiçãodohomem”(1976,p.285).

Dessaforma,asubjetividadeéentendidacomo“acapacidadedolocutorparaseproporcomosujeito”
(1976, p.286). Essa proposição como sujeito tem como condição a linguagem. “É na linguagem e pela
linguagemqueohomemseconstituicomosujeito;porquesóalinguagemfundamentanarealidade,nasua
realidadequeéadoser,oconceitodeego”(286).

A subjetividade é determinada pela pessoa e o seu status linguístico. Ela é percebida, conforme
Benveniste, materialmente em um enunciado através de algumas formas (dêixis) que a língua empresta ao
indivíduoquequerenunciar;equandoofaztransformaͲseemsujeito.Asmarcaslinguísticas,quetêmopoder
deexpressarasubjetividade,sãoospronomeseoverbo.Benvenisteintegraessasduasclassesdepalavrasna
categoriadepessoa.

Categorias de pessoa, tempo e espaço




Benveniste (1976) em A natureza dos pronomes faz uma apreciação sobre o comportamento dos
pronomeseuetu,instaurandoacategoriadepessoa,ouseja,aspessoasdodiscurso.Benvenisteafirmaque
os pronomes não devem ser mais considerados como uma “classe unitária”, quando se refere à forma e à
função.Elediferenciaoaspectoformaldospronomes,pertencenteàpartesintáticadalíngua,dofuncional,
considerado característico da instância do discurso, ou seja, da enunciação; em suma, os pronomes se
configuramemumaclassedalínguaqueoperanoformal,sintáticoenofuncional,pragmático.Sendoassim,
os pronomes devem ser entendidos também como fatos de linguagem, pertencentes à mensagem(fala), às
categorias do  discurso e não apenas como pertencentes ao código (língua), às categorias da língua, como
consideravaSaussure.Paraencontraretentarentenderosujeitoesuasrepresentaçõesnateoriaenunciativa
deBenvenisteénecessáriopartirdacategoriadepessoa.

Em torno da pessoa, organizamͲse os outros indicadores, porque a enunciação é o lugar de
instauraçãodosujeitoeesteéopontodereferênciadasrelaçõesespaçoͲtemporais,aenunciaçãoéolugardo
ego,hicetnunc.EsseautorconsideraeuͲtucomoasautênticaspessoaemoposiçãoaele–anãoͲpessoa.As

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pessoaseuͲtusecaracterizamcomocategoriasdediscurso,masessaspessoassóganhamplenitudequando
assumidas por um alguém na instância discursiva. Essa tomada é sempre única, móvel e  reversível,
representandoa(inter)subjetividadenalinguagem.

Aterceirapessoa(anãoͲpessoa,“ele”),paraBenveniste(1989), éuma categoriadalíngua, quetem


referência objetiva e seu valor independe da enunciação, declarando, portanto, a objetividade. A oposição
entre os participantes do diálogo e os nãoͲparticipantes resulta em duas correlações: personalidade e
subjetividade.
a) correlação de personalidade (pessoas eu e tu opõem-se à não pessoa ele)

b) correlação de subjetividade (opõe-se eu – pessoa subjetiva – a tu – pessoa não subjetiva)

Taiscorrelaçõesseestendemaospronomesnopluralque,nessateoriabenvenistiana,significammais
queapluralização.Explicandomelhor,Benvenisteafirmaqueospronomespessoaisnopluralnãoexpressam
somenteplural.Éocasodenósevósquenãopodemsignificarplural,porquenãodemonstramarepetiçãoda
mesmapessoa.Nocasodonós,nãohásomadediferentespessoasenãohárepetiçãode“eus”;nocasodo
vós,nosentidocoletivooudecortesia,nãohásomadevários“tus”.Esseteóricodestaquesomenteaforma
“eles”indicaverdadeiropluralpornãotermarcadepessoa.

Ainda no campo posicional do sujeito decorre a referência a outras classes de pronomes Ͳ os
indicadoresdadêixisͲdemonstrativos,advérbios,adjetivos,queorganizamasrelaçõesespaciaisetemporais
emtornodosujeitotomadocomopontodereferência.Assimessasformastambémsãoreconhecidascomo
índicesdesubjetividade.

Aintersubjetividadenãoserestringesomenteàcategoriadepessoa,masconcernetambémàsnoções
de tempo e espaço, referência atribuída na e pela enunciação. O ato enunciativo é responsável pela
instauração da noção de espaço (aqui) e de tempo (agora) da enunciação. O locutor mobiliza diversas
estruturas para exprimir, de forma mais exata, o tempo em que se situa determinado evento em relação à
instânciaenunciativa,sendoatemporalidadeumelementoimportantenodiscurso.

DeacordocomBenveniste(1989),“atemporalidadeéproduzidanaepelaenunciação”.Eleacrescenta
queacategoriadopresentecoincidecomomomentodaenunciação,istoé,“opresenteformalnãofazsenão
explicitar o presente inerente à enunciação, que se renova a cada produção de discurso e, a partir deste
presente contínuo, imprime na consciência o sentido de uma continuidade que denominamos de “tempo”
(Benveniste, 1989, p.85). Assim, a partir do presente se instauram as outras categorias de tempo: passado
(retrospecção)efuturo(prospecção).SegundoBenveniste,dasformaslinguísticasreveladorasdaexperiência
subjetiva, nenhuma é mais rica do que as que exprimem tempo: “a temporalidade humana com todo seu
aparato linguístico revela a subjetividade inerente ao próprio exercício da linguagem”; que pode ser

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denominado detempolinguístico,ouseja,dotempoligadoaoexercíciodafalaͲotempododiscursoͲum
tempopresentequeéreinventadoacadanovoatoenunciativo.

Os verbos juntamente com os pronomes e os indicadores da dêixis são formas da língua e aspectos
fundamentaisnodiscursoparaentenderaconstituição,osentidoearepresentaçãodasubjetividade.

Benvenisteestabeleceuaenunciação,odiscursocomoobjetodalinguísticaeintegrouareferênciana
enunciação.EmOaparelhoformaldaenunciação,areferênciaaparececomoparteintegrantedaenunciação.
Éaprimeiravezque,emLinguística,areferênciaéincluídanofuncionamentodialógicodalíngua.

O conceito de referência, em Benveniste, não remete ao mundo ontológico, mas ao próprio ato de
enunciação. A partir de então, o sentido depende do contexto situacional, que envolve a realidade física e
social e os interlocutores agindo nesse contexto. Explica esse linguista que a referência é a situação de
discursooudofatoaqueelasereportaequenósnãopodemosjamaispreveroufixar(BENVENISTE,1989,p.
231).

Análise de fatos de língua dentro do referencial enunciativo

 Flores(2001,p.58)afirmaque“qualquerfenômenoquejátenhasidoestudadoporoutraslinguísticas
poderecebero‘olhar’dalinguísticadaenunciaçãobastaque,paraisso,sejacontempladocomreferênciaàs
representações do sujeito que enuncia, à língua e a uma dada situação”. A partir dessa constatação, Flores
apresentapossibilidadesdeestudosnodomínioenunciativoconsolidandoaexistênciadeumaLinguísticada
Enunicação.

Há,nocampodosestudosenunciativos,interesseporfenômenoslinguísticoscujadescriçãoimplique
referencia ao ato de produzir o enunciado, ou seja, interessa no processo (a enunciação). Entretanto, o
processo enunciativo só pode ser analisado a partir das marcas que se deixa no enunciado. Uma vez que
enunciação é uma instância pressuposta que está na origem de todo e qualquer enunciado; ela não é um
observávelemsi.

Aenunciaçãonãoéumníveldaanáliselinguística;elasemarcaemtodososníveis.Dessaforma,oque
sepodeobservarsãoasmarcasdaenunciaçãonoenunciado.Qualquerfenômenolinguísticodequalquernível
(sintático,morfológico,fonológicoetc.)podeserabordadodopontodevistaenunciativo(FLORES;TEIXEIRA,
2005). Como exemplo,     vejamos a análise de Flores (2008, p. 107Ͳ108) em que  esse  linguista analise a
presençadopronomeninguémnaperspectivaenunciativa:

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Ninguém,nemosmédicos,nemamulher,nemopresidentedaRepúblicaseatrevemaobrigarCovas
adeixarocargoporqueseconscientizaramdequeissoequivaleriaaeledeixaravida(ZeroHora,22/11/2001).

DeacordocomFloresopronome“Ninguém”édefinidopelolocutordotextoacimacomo:osmédicos,
a mulher e o Presidente da República. Logo, esse pronome não é um pronome indefinido como reza a
gramática,umavezquequandosepassardalínguaaodiscurso,ossignos–que,nouso,setransformamem
palavras–seatualizam,assumindoumsentidoparticular,muitasvezesnãoidentificadonagramáticaporsero
atoenunciativosingulareirrepetível.

Ao analisar um texto tendo como suporte teórico a Teoria da Enunciação benvenistiana, é preciso ter
presentequeoobjetivodoestudodetextosnessaperspectivanãoéabuscadequemdisseeporquedisse,
istoé,dafontedodizer(locutor)edasrazõesqueolevaramadizer.Duasquestõesdevemserfocalizadas:

1. O que foi dito

2. Como foi dito

É na sintagmatização do texto que se desvelam as intenções do sujeito. Cada enunciado manifesta uma
referênciaúnica,assim,nãopodemoslimitaraanáliselinguísticaàscategorizaçõespropostaspelagramática
tradicional,poisalgunsusosserãoinusitadosnaenunciação.

Vejamos, agora, algumas marcas da subjetividade, da relação euͲtu, do tempo, do espaço e do
referente nesse eͲmail recebido pela Revista Você S.A. e divulgado na revista Veja como propaganda da
editoraAbril.

From:MarceloRibeiro

Sent:20defevereirode200019:11:15

To:vocesa@Abril.com.br

Prezadosamigos,

AVOCÊSAéumaSENHORArevista.Parecelerospensamentosdagente.Quandoestavapensandoemcriar
algum serviço na internet, a VOCÊ publica a história das grandes sacadas e seus jovens autores. Quando
estava atrás de publicar sobre como montar um business plan, voilá( perdoeͲme se está sendo errado,
entendaͲsevoalá),eisquesurgeumaediçãocomumamatériasobreoreferidoassunto.Paradaroempurrão
de ânimo final, traça um perfil dos maiores executivos brasileiros e suas práticas. Não que eu seja contra
mudanças,masnãopossodeixardeusaroclichêSEMUDARESTRAGA.Êtarevistaporreta.

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Podemosobservaralgunsindicadoresdesubjetividade,quemarcamoufazemreferênciasàpresença
dosujeito,pormeiodapessoaeu(explicitaouimplícita):verbosnaprimeirapessoa,nofinaldotextoem“Não
queeuseja...”.Porém,mesmoquandofazusodaterceirapessoa(nãoͲpessoa,paraBenveniste),olocutornão
deixa de exprimir seu ponto de vista em relação ao que enuncia ao interlocutor, isto é, o uso da língua é
sempre subjetivo; como exemplo do texto acima: “Para dar o empurrão de ânimo final, traça um perfil dos
maioresexecutivosbrasileirosesuaspráticas.”

Há marcas também nesse texto de relação euͲtu na presença do vocativo “prezados amigos” que
nesse caso está direcionado aos que fazem a revista, visível no endereçamento “To: vocesa@abril.com.br”
mas por funcionar como publicidade na revista onde foi publicado, dirigeͲse a um outro “tu”, no caso, os
leitoresdarevistadaAbril.

Nomomentoemqueoeutomaapalavra,eleinstauradiantedesiuminterlocutor(ouinterlocutores),
portantoaintersubjetividadeestánousodalínguaemqualquerinstânciacomunicativa,masnemsempreela
estámarcadaformalmente.

Numaanáliseintralinguística,dentrodeumaperspectivaenunciativa,nãosepodeperderdevistao
conjunto,ouseja,todososelementos,desdeaseleçãolexicaleasestruturassintáticas,otempoverbal,que
estãorelacionadasaoconjuntodafaladosujeitoenunciador.Éatravésdousodopresentedoindicativo,por
exemplo, que indica concomitância com o momento da enunciação (agora), que o locutor introduz seu
discurso,ouseja,iniciaseuscomentáriossobreasmatériasdarevista,expondoargumentosqueembasamseu
pontodevistaarespeitodelanomomentodaenunciação.Éapartirdotempopresentequeolocutorinstaura
opassadoesefazaretropecçãointroduzidapelaconjunçãotemporalquando:“Quandoestava...”,anarração
dasexpectativasdolocutorqueforamatendidaspelarevista.

Oespaçodaenunciação,emqueseinsereodiscurso,éoespaçodomundodosnegócios,mundoem
que o “eu”, o “tu” e a revista estão inseridos. O quadro teórico enunciativo supõe também o processo de
referenciaçãocomopartedaenunciação,istoé,aomobilizaralínguaedelaseapropriar,olocutorestabelece
uma relação com o mundo via discurso, e o alocutário coͲrefere no diálogo, único e irrepetível realidade
linguística.

Oreferente,dessaenunciação,sãoasmatériasouartigosdarevista,apresentadosaoalocutáriopelo
”filtro” do sujeito enunciador. É através da semantização – transformação da língua em discurso Ͳ, que o
locutor estabelece uma relação com o mundo e seus interlocutores. A linguagem, constitutiva da relação
sujeito/mundo,trazmarcadaemsimesmaessarelação,nocomofoidito.

Conclusão

Em uma breve abordagem (Unidades 3 e 4) sobre as teorias que podem ser enquadradas na Linguística
Interacional, observamos que essas elegem, a sua maneira, a inter(ação) como condição sine qua non de
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princípioexxplicativoparaosfatosd
dalinguagem
m.Ouseja,m
mesmotend
doconceitos,,objetosem
métodoshá um
denominador comum entre essas teorias: a inter (ação)) pela linguagem. O qu
ue caracteriza a teoria de
enunciação de Benven
niste, tratad
da nesta un
nidade, é a
a abordagem
m do funcionamento enunciativo
e na
linguagem,considerand
doosujeitoq
queenuncia..

Agorraé
comm Quuetalconheecermosum mpoucomaaisdasteoriasenunciattivasquese evoltamparra
voccê asrelaçõesenntrealinguaagememusoeosujeitoequevemestabelecendoum
peensamentossobreaenu unciaçãonalinguagem?Paraisso,vocêdevelerolivro
InttroduçãoàLinguísticadaEnunciaação,deFlo
oreseTeixeiiraefazeru
umquadro
nópticodessasteoriascomoseusautoresecontribuiçõees.
sin




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