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Por uma história política – René Rémond, org.

Capítulo 11 – Aline Coutrot

Pág. 331 – As ligações íntimas entre religião e política durante muito tempo foram desprezadas
pela história do político, que se interessava sobretudo pelas relações entre as Igrejas e o Estado
e pelos períodos de crise. (...) Hoje, as forças religiosas são levadas em consideração como fator
de explicação política em numerosos domínios. Elas fazem parte do tecido do político,
relativizando a intransigência das explicações baseadas nos fatores socioeconômicos.

“A história religiosa não é mais estritamente eclesiástica ou apologética, ela se estende a todos
os domínios da vida religiosa e de suas expressões culturais e sociais, apreende a permanência
e a mudança da Igreja numa sociedade em transformação” citação 3

Pág. 334 Em que o religioso, particularmente o cristianismo, pode interessar à história do


político? O que há de comum entre a religião, que propõe a salvação no além, e a política, que
rege a sorte dos homens nesta terra? (...) o pensamento liberal considera a religião como uma
questão de ordem estritamente privada, e os autores da Lei de Separação se empenharam para
que ela voltasse a sê-lo.

Como corpos sociais, as Igrejas cristãs difundem um ensinamento que não se limita às ciências
do sagrado e aos fins últimos do homem. Toda a vida elas pregaram uma moral individual e
coletiva a ser aplicada hic et nunc; toda a vida elas proferiram julgamentos em relação à
sociedade, advertências, interdições, tornando um dever de consciência para os fiéis se
submeter a eles. Definitivamente, nada do que concerne ao homem e à sociedade lhes é
estranho, mesmo que de uma época para outra a insistência em certos preceitos tenha
eclipsado outros.

Mas se é fácil compreender que as intervenções das autoridades religiosas, exprimindo-se em


nome de vários milhões de fiéis, têm uma influência política e não podem ser ignoradas pelo
Estado, a influência específica dos crentes não é evidente.

Pág. 335 No entanto, o religioso informa em grande medida o político, e também o político
estrutura o religioso.

A política não para de impor, de questionar, de provocar as Igrejas e os cristãos, a título


individual ou coletivo, obrigando-os a admitir atos que os comprometem perante si mesmos e
perante a sociedade.

Pág. 336 Historiadores e sociólogos estabeleceram correlações bastante estreitas entre prática
religiosa e atitudes políticas. Podemos nos espantar que o simples praticante, que tem como
único alimento o culto ou a missa semanal, seja modelado pelo ensinamento da Igreja a ponto
de nele se inspirar em suas condutas sociais e políticas.

A própria missa semanal, ou o culto, é carregado de influência em função de seu efeito repetitivo
e sua valorização afetiva. (...) A homilia, os cantos, a prece universal são assim atualizações da
mensagem que reúnem os crentes na sua vida quotidiana. (...) sob a luz do ensinamento sobre
a unidade em Cristo, eles adquiriram a certeza de que a paz entre os homens, a reconciliação e
a união eram valores supremos, diante dos quais o combate político, que implica confronto e
lutas, aparece como um mal, um lugar onde se “sujam as mãos”. 17
Os cristãos adquirem um sistema de valores muito profundamente interiorizado que subtende
suas atitudes políticas.

Pág. 338 A fé teocêntrica, submissão a um Deus todo poderoso, dá ao crente o sentimento da


sua fragilidade. Ele se insere numa ordem natural que é preciso respeitar, ligada à estabilidade
da sociedade fortemente estruturada por imagens paternais e familiares. O prolongamento de
uma tal atitude no domínio político se deixa adivinhar. Esse tipo de crente será levado a preferir
os regimes que se apoiam numa figura de autoridade indulgente, será atraído pelos sistemas
hierárquicos nos quais cada um tem seu lugar sem tensões nem rivalidades.

Pág. 339 Se o princípio da direita é a hierarquia natural e o princípio da esquerda é a


fraternidade, vemos as afinidades que os cristãos podem manter com uma ou outra dessas
grandes tendências da vida política francesa.

Pág. 344 Enquanto as declarações episcopais são uma constante da história da Igreja, uma nova
forma de expressão organizada dos cristãos apareceu no século XX: os movimentos leigos. Sem
dúvida, os séculos passados conheceram uma multiplicidade de obras dirigidas por notáveis e
de associações de caridade, mas os movimentos confessionais são de uma outra natureza.
Criados e animados por leigos, mesmo que pastores e capelães exerçam neles uma função
importante, são representativos das aspirações espirituais e humanas de seus membros. Os
movimentos como tais são lugares de formação total, particularmente cívica, extremamente
rica pois que ela se encarna em ações concretas desenvolvidas em comunidades. Suas
atividades, que em geral não comportam engajamentos políticos, a não ser em períodos
excepcionais, ultrapassam em muito o quadro de seus membros; são com frequência
reconhecidos como corpos representativos pelos poderes públicos.