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06/10/2018 Uma introdução rápida-e-safada para o aceleracionismo

Rafael Saldanha Follow
Jun 21, 2017 · 8 min read

Uma introdução rápida-e-safada para o
aceleracionismo — Nick Land
Tradução de um texto do Nick Land publicado
originalmente na revista Jacobite.

Dando continuidade ao nosso dossiê sobre o aceleracionismo, traduzimos


um texto recente que Nick Land escreveu com o objetivo de explicar de
maneira sumária o que ele entende pelo conceito.

Qualquer pessoa que está tentando entender o que pensa sobre


aceleracionismo precisa fazer isso logo. Isso é a própria natureza da
coisa. Ela já estava misturada com tendências que avançavam rápidas
demais quando começou a ter consciência de si, décadas atrás. Desde
então ela ganhou bastante velocidade.

O aceleracionismo é velho o su ciente para ter chegado em ondas, isto


é, insistentemente, ou recorrentemente, e a cada vez o desa o é mais
urgentes. Entre as suas previsões está a expectativa de que você estará
lento demais para lidar com ele coerentemente. Mas se você se

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atrapalhar com a questão que ele traz — por estar apressada — você
perde, talvez de uma maneira muito ruim. É difícil. (Para os nossos
propósitos aqui, “você” deve ser tomado como alguém que porta “as
opiniões da humanidade”.)

A pressão-temporal é, por sua própria natureza, um assunto difícil de se


pensar. Normalmente, enquanto a oportunidade para deliberar não é
necessariamente presumida, ela é ao menos — com enorme
probabilidade — tomada erroneamente como uma constante histórica
ao invés de variável. Se já houve em algum momento um tempo para se
pensar, re etimos, ainda há e sempre haverá. A probabilidade certa de
que o lote de tempo para tomadas de decisões está passando por
compressões sistemáticas permanece um tema negligenciado, mesmo
entre aqueles que estão explícita e excepcionalmente prestando
atenção à crescente aceleração das transformações.

Em termos losó cos, o problema profundo da aceleração é


transcendental. Ele descreve um horizonte absoluto — e um que está se
fechando. Pensar leva tempo, e o que o aceleracionismo sugere é que
estamos cando sem tempo para pensar isso até o m, caso ainda não
tenhamos feito isso. Nenhum dilema contemporâneo é considerado de
maneira realista até que ele tenha se dado conta de que a oportunidade
para fazer isso está rapidamente colapsando. Há de haver uma suspeita
de que se uma conversa pública sobre aceleração está engatinhando,
ela chega bem na hora em que está atrasada. A profunda crise
institucional que faz com que o assunto seja “quente” tem no seu centro
uma implosão da capacidade social de tomada de decisões. Fazer
qualquer coisa, a essa altura, levaria tempo demais. Então, pelo
contrário, as coisas cada vez mais simplesmente acontecem. Elas
parecem cada vez mais fora do controle, em um nível traumático, até.
Porque o fenômeno básico parece ser uma falha no freio, o
aceleracionismo é retomado mais uma vez.

O aceleracionismo liga a implosão do espaço de decisão com a explosão


do mundo — isto é, da modernidade. É importante, portanto, perceber
que a oposição conceitual entre implosão e explosão não faz nada para
impedir seu acoplamento real (mecânico). Armas termonucleares nos
fornecem os exemplos mais intensamente claros. Uma bomba de
hidrogênio se utiliza de uma bomba atômica como gatilho. Uma reação
de ssão desencadeia uma reação de fusão. A massa de fusão se in ama
ao ser esmagada por um processo de explosão (a Modernidade é uma
explosão).

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Isso descrito já é falar de cibernética, que também retorna


insistentemente, em ondas. Isso se ampli ca em um gemido, para
depois se dissipar num jargão sem sentido da moda, até a próxima
onda-explosão nos atingir.

Para o aceleracionismo, a lição crucial era essa: Um circuito de


feedback negativo — como um governador de uma máquina a vapor ou
um termostato — para manter algum estado de um sistema no mesmo
local. Seu produto, na linguagem formulada pelos ciberneticistas
losó cos franceses Gilles Deleuze e Félix Guattari, é a
territorialização. O feedback negativo estabiliza um processo ao
corrigir utuações e, assim, inibindo desvios para além de uma gama
limitada. A dinâmica é posta a serviço da xidez — um equilíbrio, ou
um estado, em um nível mais alto. Todos os modelos de equilíbrio de
sistemas e processos complexos são assim. Para delimitar a tendência
contrária, caracterizada como uma errância, fuga ou escape auto-
impelido, D&G cunharão o inelegante mas in uente conceito de
desterritorialização. A única coisa sobre o qual o aceleracionismo
realmente falou é a desterritorialização.

Em termos socio-históricos, a linha da desterritorialização corresponde


a um capitalismo descompensado. O esquema básico — e, claro, em até
certo ponto com altas consequências já atualmente instalado [to some
real highly consequential degree actually installed] — é um circuito de
feedback positivo, dentro do qual a comercialização e a
industrialização se excitam mutuamente em um processo de fuga
[runaway process] , de onde a modernidade extrai seu gradiente. Karl
Marx e Friedrich Nietzsche estão entre aqueles que conseguiram
delimitar aspectos importantes dessa tendência. Na medida em que o
circuito se fecha aos poucos, ou é intensi cado, ele exibe uma crescente
autonomia ou automação. Ele se torna mais rigidamente auto-
produtivo (o que é apenas o que “feedback positivo” já diz). Pelo fato de
que ele não recorre a nada além de si próprio, ele é inerentemente
niilista. Ele não tem nenhum sentido concebível fora da sua auto-
ampli cação. Ele cresce para poder crescer. A humanidade é seu
hospedeiro temporário, não o seu mestre. Seu único propósito é si
mesmo.

“Acelerar o processo”, recomendaram Deleuze e Guattari em O Anti-


Édipo de 1972, citando Nietzsche para reativar Marx. Ainda que
demorasse quatro décadas para que o “aceleracionismo” fosse
nomeado como tal, de maneira crítica, por Benjamin Noys, ele já estava
lá, em sua totalidade. Vale a pena citar na íntegra a passagem completa

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(como ela seria, repetidamente, em todas as discussões aceleracionistas


subsequentes):

Mas haverá alguma via revolucionária? — retirar-se do mercado


mundial, como Samir Amin aconselha aos países do terceiro Mundo,
numa curiosa renovação da “solução econômica” fascista? Ou ir no
sentido contrário, isto é, ir ainda mais longe no movimento do
mercado, da descodi cação e da desterritorialização? pois talvez os
uxos ainda não estejam su cientemente desterritorializados e
su cientemente descodi cados, do ponto de vista de uma teoria e de
uma prática dos uxos com alto teor esquizofrênico. não retirar-se do
processo, mas ir mais longe, “acelerar o processo”, como dizia
Nietzsche: na verdade, a esse respeito, nós ainda não vimos nada. (p.
318)

O objetivo de uma análise do capitalismo, ou do niilismo, é fazer mais


disso. O processo não deve ser criticado. O processo é a crítica, se
retroalimentando, na medida em que se intensi ca. O único caminho
para frente é através, o que signi ca ir mais fundo.

Marx tem o seu próprio “fragmento aceleracionista” que


surpreendentemente antecipa a passagem de O Anti-Édipo. Ele diz em
seu discurso em 1848 “Sobre a questão do livre comércio”:

Em geral, hoje em dia o sistema de proteção é conservador, enquanto o


sistema de livre comércio é destruidor. Ele desfaz velhas nacionalidades
e leva o antagonismo dos proletários e da burguesia para um ponto
extremo. Em suma, o sistema de livre comércio precipita a revolução
social. É apenas nesse sentido revolucionário, cavalheiros, que eu voto a
favor do livre comércio.

Nessa matriz aceleracionista embrionária, não há distinção a se fazer


entre a destruição do capitalismo e a sua intensi cação. A
autodestruição do capitalismo é o que o capitalismo é. “Destruição
criativa” é o seu todo, além, apenas os atrasos, compensações parciais
ou inibições. O Capital revoluciona a si mesmo mais intensamente do
que qualquer “revolução” extrínseca poderia. Se a história subsequente
ainda não justi cou essa característica para além de qualquer dúvida,
ela ao menos simulou tal justi cação em um nível enlouquecedor.

Em 2013, Nick Srnicek e Alex Williams buscaram resolver essa


intolerável — até “esquizofrênica” — ambivalência em seu “Manifesto
por uma política aceleracionista”, que buscava precipitar um
“Aceleracionismo de esquerda” especi camente anticapitalista,

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claramente demarcado contra a sua abominável sombra


“aceleracionista de direita” pró-capitalista. Esse projeto,
previsivelmente, obteve mais sucesso em reviver a questão
aceleracionista do que puri cá-la ideologicamente de forma
sustentável. Foi apenas ao estabelecer uma distinção completamente
arti cial entre capitalismo e a aceleração tecnológica moderna que se
poderia desenhar qualquer fronteira. A chamada implícita era por um
novo leninismo sem a NEP (e retirando elementos para efeito de
ilustração das experiências utópicas de tecno-gerenciamento no
comunismo chileno).

O Capital, em sua mais própria auto-de nição, não é nada além do fator
social de aceleração abstrata. Seu esquema cibernético positivo o
esgota. A fuga consome a sua identidade. Qualquer outra determinação
é descartada como um acidente em algum momento do seu processo de
intensi cação. Já que qualquer coisa que pode consistentemente
alimentar a aceleração socio-histórica vai necessariamente, ou
essencialmente, ser capital, a perspectiva de qualquer “Aceleracionismo
de esquerda” sem ambiguidade ganhar qualquer ímpeto pode
tranquilamente ser deixada de lado. O aceleracionismo é simplesmente
a autoconsciência do capitalismo, que mal começou. (“nós ainda não
vimos nada.”)

No momento em que escrevo, o Aceleracionismo de esquerda parece ter


se desconstruído rumo a políticas socialistas tradicionais e a tocha do
aceleracionismo foi passada para uma nova geração de jovens
brilhantes pensadores que pregam um “Aceleracionismo Incondicional”
(nem R/Acc. [aceleracionismo de direita], nem L/Acc.
[aceleracionismo de esquerda], mas U/Acc. [aceleracionismo
incondicional]. Suas identidades na internet — e suas ideias de uma
forma não facilmente extraível — podem ser encontradas por meio da
peculiar hashtag #Rhetttwitter.

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Enquanto blockchains, logísticas de drones, nanotecnologia,


computação quântica, computação genômica e a realidade virtual nos
inundam, banhadas em densidades crescentes de inteligência arti cial,
o aceleracionismo não vai a lugar nenhum, salvo mais mais para dentro
de si mesmo. Ser apressado pelo fenômeno, ao ponto de uma paralisia
institucional terminal, é o fenômeno. Naturalmente — o que signi ca
dizer inevitavelmente — a espécie humana vai de nir esse
acontecimento terrestre de nitivo como um problema. Enxergar ele já
é dizer: Precisamos fazer algo. Para o qual o aceleracionismo só pode
responder: Você nalmente está dizendo isso agora? Talvez deveríamos
começar? Em suas variantes mais frias, que são as que acabam sendo
vitoriosas, ele acaba rindo.

Nick Land é um escritor independente que mora em Shanghai.

Nota:

#Accelerate: The accelerationist reader da Urbanomic, ainda permanece


de longe introdução mais abrangente ao aceleracionismo. O livro foi
publicado em 2014, porém, e muito já aconteceu desde então.

A entrada na Wikipedia sobre “Accelerationism” é curta, mas de uma


excepcionalmente alta qualidade.

Para o “Manifesto for an Accelerationist Politics” de Srnicek e Williams,


ver aqui.

. . .

Textos do dossiê:

1. Muitos materialismos: entre a virada especulativa e o


aceleracionismo — Maikel da Silveira

2. Aceleracionismo: como uma loso a marginal previu o futuro em


que vivemos? — Andy Beckett

3. Uma introdução rápida-e-safada para o aceleracionismo — Nick


Land

p.s.: uma outra tradução desse texto pode ser encontrada aqui. No
momento em que traduzimos esse texto nós não sabíamos da sua
existência, mas ainda assim, no site podem ser encontradas muitas
outras traduções para textos do Nick Land.

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