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31/08/2018 arquitextos 133.

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133.07 ano 12, jul. 2011

Perspectivas e desafios para o jovem arquiteto no Brasil


Qual o papel da profissão?
João Sette Whitaker

133.07
sinopses
como citar

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original: português

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133

133.00
Ambiguity in literature
and architecture
A reading of
Shakespeare’s wordplays
against Palladio’s and
Michelangelo’s
architecture
Junia Mortimer
133.01
Conjunto Heliópolis I, arquiteto Luis Espallargas Gimenez (Habi/Sehab) Análise gráfica, uma
Foto Luis Espallargas Gimenez questão de síntese
1/4 A hermenêutica no
ateliê de projeto
Hilton Berredo e
Guilherme Lassance
133.02
Circuito Cultural
Em sua edição de setembro de 2010, a revista AU – Arquitetura e Sustentável da Cidade
Urbanismo, com a qualidade que sempre a caracteriza, nos apresentou 25 de Santo André
jovens arquitetos em destaque, que “devem ser os profissionais mais Pela via de penetração
representativos do Brasil nas próximas duas décadas”. da Área Urbana até a
Área de Proteção
A reportagem estimula uma reflexão mais aprofundada. Não sobre a Ambiental
qualidade dos profissionais escolhidos, evidentemente, todos de Maria Rosana Ferreira
indiscutível talento. Mas sobre a lógica que serve para parametrizar o Navarro
que se considera hoje, no Brasil, um “arquiteto” e, mais ainda, um 133.03
arquiteto cujo sucesso profissional sirva para representar a profissão. Programa Minha Casa
Não se trata aqui de questionar o excelente trabalho da revista, e menos Minha Vida: a (mesma)
ainda a qualidade admirável do trabalho desses jovens. A questão que política habitacional
coloco neste artigo é que a brilhante produção de alguns escritórios de no Brasil
arquitetura – cujo foco de atuação é bastante restrito ao reduzido Denise Morado
mercado da construção civil que (ainda?) se vale da arquitetura – não Nascimento e Simone
deve ser o único aspecto de representatividade do que seja o “sucesso” na Parrela Tostes
profissão. Há uma necessidade premente de iluminar também uma outra face
da arquitetura e do urbanismo, menos vistosa, menos evidente e menos 133.04
festejada, mas cuja importância é fundamental para tirar a profissão do Arranha-céus: evolução
complexo impasse em que se encontra. e materialidade na
urbanização mundial
Em outras palavras, cabe a questão: não seria hora de revermos nossos Carlos Cassemiro
ideais de sucesso profissional, que no Brasil parecem reduzir a questão Casaril, Ricardo Luiz
tão somente a uma arquitetura autoral – por vezes excelente – destinada Töws e Cesar Miranda
quase que invariavelmente aos estratos sociais de alta renda? Pois, em Mendes
que pesem exceções (1), não há como negar que é esse o perfil que 133.05
aparece, nitidamente e majoritariamente, quando percorremos o que se Salvar Brasilia
considera a atual produção arquitetônica “de sucesso” no nosso país. O Raúl Pastrana
que fez um colega arquiteto europeu tecer-me o seguinte comentário, não
isento de razão: “a arquitetura brasileira é fenomenal, mas aparece para 133.06

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nós como uma arquitetura apenas de casas chiques, e quando não, de Jardins Verticais – uma
prédios habitacionais e comerciais de luxo”. oportunidade para as
nossas cidades?
Esta espécie de endeusamento da arquitetura autoral de talento genial Carlos Smaniotto Costa
limita o horizonte de perspectivas dos nossos estudantes e lhes apresenta
como única alternativa um mundo de alta competitividade, angustiante, no
qual aparentemente alcançará o sucesso apenas um pequeno grupo de
eleitos.

Tal postura não é uma característica nossa, no Brasil, mas da arquitetura


em geral. A glorificação de alguns grandes nomes da arquitetura mundial,
que formam uma espécie de invejado jet-set da profissão, alimenta ainda
mais o fenômeno. Curiosamente, grandes nomes da arquitetura nacional
recentemente manifestaram publicamente seu temor face à “invasão” do
nosso mercado por parte desses papas da profissão, quando na verdade essa
é apenas a conseqüência de uma lógica que eles mesmos sempre ajudaram a
alimentar.

Além do mais, o festejo em torno da produção autoral, por natureza


competitiva, acaba por esconder uma maioria de profissionais de
escritórios, com produção significativa, que batalha arduamente para
sobreviver dignamente com a profissão da arquitetura, mas que esse funil
seletivo não colocou no olimpo dos “grandes arquitetos”. Por mais que se
queira, a avaliação do que é digno ou não de estar nesse altar não tem
como não carregar uma forte dose de subjetivismo.

Conjunto habitação de interesse social pelo MCMV, Rio Branco


Foto divulgação [Acervo LabQuapá FAU USP]

A alta competitividade e as poucas oportunidades de trabalho, decorrentes


do tamanho reduzido do mercado formal da construção, associado ao grande
número de profissionais (só na Grande São Paulo formam-se, provavelmente,
mais de 1000 arquitetos/ano) e ao desprestígio da profissão junto às
construtoras, fazem com que a vida desses escritórios não seja
propriamente fácil. Como me disse outro colega, “escritório de sucesso no
Brasil é aquele que não fecha”, e manter financeiramente suas estruturas
funcionais não é tarefa simples. Por isso, talvez, o alto grau de
informalidade que marca a profissão, tanto para os arquitetos quanto para
a mão-de-obra de construção contratada, e o uso abusivo de estudantes
estagiários de arquitetura como mão-de-obra barata, que não é
generalizado, mas bastante recorrente.

Uma bem intencionada exposição de arquitetura realizada em 2010 em São


Paulo, denominada “A boa arquitetura de uma geração” (2), levada aos
alunos da FAU Mackenzie durante uma semana no saguão principal da escola,
tinha como objetivo “estimular a reflexão sobre a importância do trabalho
desenvolvido por um grupo de 18 profissionais”, arquitetos-professores de
renome nacional e mundial, e sem dúvida importantes representantes de uma
geração que muito construiu e transformou as paisagens urbanas
brasileiras nas últimas décadas do séc. XX (embora tal geração não se
limite, evidentemente, a 18 arquitetos apenas). Ora, pela proposta da
mostra, era de se esperar que “estimular a reflexão” para um público de
estudantes significasse esmiuçar minimamente a volumosa produção desses
arquitetos, além de procurar explicar em mais detalhes seus pensamentos.
Porém, o que se apresentou resumiu-se a um painel com uma única foto de
uma obra, um croqui autoral, e uma frase, paramentada por uma estilosa
assinatura. Claro, pode-se argumentar que o intuito da mostra era apenas
o de estimular os estudantes a pesquisar mais a produção dessa geração.
Ainda assim, o que se sobressai da iniciativa acaba sendo, mais uma vez,
o endeusamento da arquitetura autoral, de 18 arquitetos eleitos, pela
qual um croqui, uma frase e uma assinatura parecem bastar para explicar o
que seja a boa arquitetura.

O caminho não é esse, embora se possa entender que a geração em questão


produziu em uma época em que o mercado da arquitetura, ainda muita
limitado, podia talvez se resumir à produção de algumas dezenas de
grandes profissionais. O problema está em reproduzir esse pensamento para
as gerações futuras, cujo universo de atuação é completamente diferente,
muito mais amplo, mais complexo, não cabendo mais apenas na prancheta de

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alguns grandes escritórios. Porém, nossos jovens continuam aprendendo que
este é o modelo a seguir.

Façamos uma verificação bastante simples: nas seis edições das duas mais
importantes revistas de arquitetura do país, as revistas AU e Projeto,
entre fevereiro e agosto de 2010, excetuando-se os números especiais
sobre Brasília, dos 69 projetos brasileiros apresentados (não foram
somados os oito projetos internacionais), temos dezesseis de residências
de alto padrão e 28 de estabelecimentos comerciais para o mercado de alta
renda, ou seja 63% do total. Fogem à regra dois estabelecimentos
industriais e, bom sinal, os 28 de edifícios públicos (museus,
bibliotecas, escolas, estações, etc.). Prova de que ao menos os projetos
institucionais de uso público ganharam espaço, e que os concursos para os
mesmos aumentaram. Porém, vemos apenas quatro referências (projetos ou
textos analíticos) a questões de urbanização, e somente um projeto – 0,1%
do total! – de habitação “econômica”, aquela voltada à classe média-
baixa. Não há nenhum projeto de habitação social (para renda abaixo de 3
salários-mínimos), nenhum projeto no âmbito do PAC Assentamentos
Precários em andamento, nenhum projeto do Programa Minha Casa Minha Vida
(MCMV), nenhum projeto de companhias públicas, de assessorias de
mutirões. Esse “mundo” da habitação de interesse social, da informalidade
urbana (generalizada), simplesmente parece não pertencer ao “mundo” da
arquitetura.

Conjunto do MCMV em São Paulo para o segmento econômico


Foto Helena Galrão Rios [LabHab]

Em outras palavras, o universo em que se coloca a atuação do arquiteto no


Brasil é fenomenalmente reducionista. Não seria hora de ampliá-lo?

Não estaríamos, ao exacerbar cada vez mais o culto à atividade


profissional autoral destinada à alta renda, correndo o risco de limitar
perigosamente nosso campo de atuação a um mercado que é estruturalmente
reduzido? Não estaríamos nos arriscando a repetir os erros do passado que
levaram nossa profissão a se distanciar da realidade urbana brasileira,
uma tragédia em que quase a metade da população sequer tem acesso à casa,
quanto menos à arquitetura?

Pois é disso que se trata: da constatação de que a arquitetura


brasileira, não obstante seu inegável sucesso internacional, fracassou no
seu papel social. É a única conclusão que se pode tirar ao olhar para um
país onde, em média, 40% da população urbana vive precariamente, sem
arquitetura nem urbanismo. Uma tragédia, que deveria tirar o sono dos
arquitetos. A arquitetura e o urbanismo, quando vistos como uma profissão
central na sociedade, que reflete e propõe a organização do território e
do espaço construído, tem uma vocação indiscutivelmente transformadora.
Porém, para além das boas obras de autores individuais, ela
indiscutivelmente não foi capaz de sustentar uma urbanização decente no
nosso país.

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Bairro de Massaranduba (Alagados), Salvador BA


Foto divulgação [Acervo LabQuapá FAU USP]

Não bastasse seu fracasso na construção de cidades mais justas, também no


universo da formalidade, da cidade legal, onde funciona o mercado
imobiliário de maior capitalização – e, portanto, o mercado dos
arquitetos – a arquitetura parece não ter mais muito o que falar. Apesar
das expectativas colocadas sobre os ombros da nova geração de escritórios
de arquitetura, parece que sua força para influenciar a produção em massa
do mercado da construção nas nossas cidades é extremamente limitada. Na
maior parte dos casos, a arquitetura parece ter-se reduzido a um
formalismo de fachada, que escamoteia por trás da falsa polêmica dos
estilos adotados (neoclássicos ou outras denominações) a negação de tudo
aquilo que se aprende na faculdade como sendo a “boa arquitetura”. A
arquitetura que impera é a da extrema verticalização capitaneada pelo
mercado imobiliário, a transfigurar sem culpa bairros tradicionais,
produzindo prédios isolados no lote, cercados e murados, que renegam a
rua e a cidade. A opção desenfreada pelo modelo do automóvel em
detrimento de sistemas de transporte coletivos – que a arquitetura
endossa alegremente – alimenta a oferta generalizada de unidades
habitacionais com às vezes mais de dez vagas de garagem (!), o que leva à
impermeabilização total do solo, afetando sem parcimônia a drenagem
urbana e o escoamento de águas. Os apartamentos oferecidos, por trás de
algum estilo sedutor, estão cada vez menos generosos, mais apertados,
menos ventilados, substituindo preciosos metros quadrados nas unidades
habitacionais por espaços coletivos no térreo, bem mais econômicos (para
as construtoras), sob o glamour das denominações da moda: espaços
gourmets, fitness-centers, etc. A lógica de construir condomínios murados
com equipamentos de lazer e até comércio, ao invés de se abrir para a
cidade, produz uma malha urbana segmentada, pouco fluida, e que vai aos
poucos aniquilando a possibilidade de espaços públicos de qualidade.
Praças, jardins e árvores para que, se é possível ter tudo isso de
maneira exclusiva, nas mini-cidades, ou cidadelas fortificadas, que se
tornaram os condomínios?

De quem é a culpa?

Mas antes de aprofundar essa discussão, vale uma observação: não se trata
aqui, de forma nenhuma, de “colocar a culpa” nos arquitetos de
escritórios, menos ainda nas revistas de arquitetura. Não há nenhum
problema – e é até muito positivo – que a produção arquitetônica de um
país tenha uma grande participação de escritórios voltados ao mercado
formal e de alta renda, com um enfoque mais autoral.

O problema está em alimentar a ideia de que a arquitetura autoral “de


sucesso” (por conseguir publicar projetos nas revistas), é a única faceta
da profissão digna de destaque, “a” atividade de referência na
arquitetura, e que o atendimento ao mercado de alto padrão é a única
alternativa para trilhar um caminho profissional de reconhecimento e
sucesso.

Tal visão, além do mais, transforma o limitado mercado dos escritórios em


um verdadeiro campo de caça de oportunidades rarefeitas. O predomínio do
mercado imobiliário que pouco atenta para a arquitetura e a alta
competitividade decorrente fazem com que mesmo no mundo dos escritórios,
a vida não seja simples. É comum ver arquitetos com anos de experiência
tendo, na prática, que pagar para trabalhar. Ou aceitando remunerações
pífias para poder exercitar a arquitetura. Isso não pode estar certo, e
alimenta ainda mais a necessidade de uma profunda revisão da percepção do
que é o nosso universo profissional.

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Conjunto do segmento econômico em Manaus


Foto divulgação [Acervo LabQuapá FAU USP]

Se a “culpa” desse desvio das expectativas em torno da profissão não é


(somente) dos arquitetos e da imprensa, é porque esta é uma
responsabilidade coletiva. A extrema centralização em torno de um único
modelo profissional é apenas o reflexo de um processo social pelo qual a
profissão da arquitetura colocou-se em uma posição de elitização e de
afastamento da realidade urbana, como decorrência do longo período de
autoritarismo e de políticas econômicas de extrema concentração da renda.
A “culpa” é de cada um e de todos nós que reproduzimos ad infinitum essa
lógica social elitista e segregadora em todas as instâncias econômicas,
culturais e políticas e não só no âmbito urbano/arquitetônico. A culpa é
de toda a sociedade que considera “cidade” apenas a cidade do mercado, a
cidade oficial e formal. Que se recusa a enxergar o caos urbano e social,
o apartheid assustador dos bairros que não são “nobres”. A “culpa” é dos
governos, que atentam somente par essa cidade dos mais ricos, que
insistem em políticas para eles apenas, por exemplo construindo mais
viadutos, túneis e vias expressas exclusivas para os carros individuais
em detrimento de investimentos públicos para toda a população. A “culpa”
é também das universidades, que formam arquitetos orientados para uma
única perspectiva profissional e alimentam o culto à arquitetura autoral;
a culpa é das entidades representativas da classe, que pouco discutem a
democratização da profissão, e assim por diante.

É claro, se a culpa é de todos, por outro lado não se pode generalizar:


há arquitetos “autorais” que tentam de todas as formas entrar no campo de
atividades mais voltadas à democratização da cidade, mas se veem frente a
muros intransponíveis de burocracias, fisiologismos e impedimentos de
todos os tipos. Há arquitetos que fazem arquitetura social de qualidade
há muitos anos, mas não conseguem furar a força do pensamento dominante
que festeja outro tipo de arquitetura e desconsidera a moradia popular
como um problema dos arquitetos. Há números especiais das revistas
especializadas sobre habitação popular, embora raros, que mesmo que de
forma efêmera, trazem o problema à tona como para lembrar que ele é sim,
ou deveria ser, objeto da arquitetura.

Conjunto do segmento econômico em São Paulo


Foto Fernando Boari [LabHab]

A questão é que tais atitudes não são nem maioria, nem fáceis, porque
enfrentam um pensamento dominante que, seja conscientemente (o pior),
seja simplesmente por inércia (o menos pior), reproduz e divulga
permanentemente a visão da sociedade de elite, exclusivista e
segregadora. Em suma, o Brasil é um país exacerbadamente elitizado, que
precisa urgentemente começar a mudar essa situação. Suas cidades, que são
o reflexo no espaço dessa sociedade desequilibrada, também precisam
urgentemente mudar.

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Isso porque o Brasil está se transformando. Porém, paradoxalmente, o
crescimento econômico, tão festejado, muitas vezes escamoteia o
acirramento das tensões econômicas e sociais. Nas cidades, se não for
controlado, o crescimento acelerado significa, também paradoxalmente, o
aumento da destruição ambiental e dos problemas urbanos. Pois nosso
modelo de urbanização, que se intensifica neste momento de euforia de
crescimento, continua sendo o da impermeabilização das cidades, da
verticalização excessiva e não regulamentada nem planejada, dos grandes
condomínios fechados que renegam o espaço público e a cidade, dos
investimentos viários em detrimento do transporte público de massa, dos
sistemas de esgotamento e drenagem insuficientes, da ocupação
descontrolada das periferias, e assim por diante.

O resultado desse modelo, estranhamente, ainda choca os brasileiros a


cada ano, nas chuvas de verão, como se fossem novidade os desabamentos
que tragicamente, mas invariavelmente, se repetem sem que nada seja
verdadeiramente feito para evita-los. Nossas grandes cidades são
poluídas, imobilizadas pelos congestionamentos, vulneráveis às enchentes,
propícias à violência urbana pelo demasiado número de ruas ermas e
isoladas por muros intermináveis de condomínios, espaços abandonados,
praças esquecidas. Nossas cidades inspiram medo, elas são, por si só, uma
violência. Como lhes falta aquilo que chamamos de “arquitetura e
urbanismo”!

Conjunto do MCMV em São Paulo para o segmento econômico


Foto Helena Galrão Rios [LabHab]

Neste momento estratégico, em que parecemos alcançar a modernidade, mas


talvez sem perceber que talvez as cidades implodam antes dela chegar,
coloca-se uma dupla e antagônica possibilidade: a de, por um lado,
descobrirmos uma nova forma de fazer cidades, ou por outro, de continuar
a reproduzir e exacerbar cada vez mais o caminho da barbárie urbana. Os
arquitetos – como classe profissional coesa e socialmente atuante –
deveriam ter sim muito que opinar sobre o assunto.

A arquitetura no novo mercado “econômico” brasileiro

Alguns estudos recentes, dentre os quais se destacam os de Tânia Bacelar,


da UFPE, de Maria da Encarnação Esposito, da Unesp, e também uma
importante produção dos pesquisadores do IPEA, mostram que há uma mudança
ocorrendo na equação das migrações internas e na conformação das redes de
cidades, com um novo papel de protagonismo regional das cidades médias,
cuja população e PIB crescem mais do que as outras cidades brasileiras,
inclusive as metrópoles. Esse fenômeno se relaciona, ao que tudo indica,
com o crescimento substancial da chamada classe C, que teria passado
entre 2005 e 2010, de 62,7 milhões para 92,8 milhões de pessoas, ou um
aumento de 50% em cinco anos (3). Isso faz com que a produção do espaço
edificado nessas cidades esteja, por sua vez, em franco aquecimento,
sendo bastante focado ao atendimento das classes média e alta.

Porém, o que se publica e se difunde sobre a arquitetura brasileira


mostra uma preferência inegável para o que se faz nas grandes capitais,
com ênfase para São Paulo e Rio de Janeiro, e com pouca visibilidade para
uma eventual produção arquitetônica mais espraiada pelo conjunto do
território e nas cidades médias e pequenas. Devemos crer que o mundo da
arquitetura no Brasil não existe para além das fronteiras das nossas
maiores metrópoles?

A realidade que se expressa na atuação crescente dos organismos de


representação de classe em regiões antes menos visíveis no cenário
arquitetônico, mostra que sim, a atividade arquitetônica está em
desenvolvimento, acompanhando o aquecimento do mercado e o crescimento
das cidades médias. Porém, ela não está conseguindo colocar-se como um
ator relevante nesse processo: quem acompanha o cenário da construção
pode verificar o domínio do mercado imobiliário, com pouca ou nenhuma
atenção para a arquitetura, transferindo para as cidades médias as mesmas
metodologias “predadoras de cidade”, verticalizantes “a qualquer custo”,
focadas sobretudo no lucro e não na perspectiva de uma alternativa urbana
mais humana. É comum ver em cidades médias e pequenas a chegada da
“modernidade” traduzida pelo simples aparecimento de prédios, de pobre

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arquitetura, que não estabelece relação com os processos construtivos,
pouco adequada à nossa tradição e que busca ornamentação em elementos
formais importados. Ao mesmo tempo, cidades do porte de Joinville ou
Guarulhos tem menos de 20% de cobertura de esgoto, a canalização de
córregos e a impermeabilização do solo continuam predominando, políticas
para os automóveis em detrimento do transporte público são a regra,
bairros exclusivos que segregam os mais pobres ainda ditam a conformação
do espaço urbano. Em suma, reproduz-se pelo país o desastre urbano e
ambiental que são nossas grandes cidades. E a arquitetura, como se coloca
frente a isso?

Nesse processo que se intensifica, e apesar do esforço louvável de cada


vez mais gente, a arquitetura, tradicionalmente bastante menosprezada
pelo mercado, tem visíveis dificuldades em impor um novo padrão
qualitativo de reflexão sobre o urbano. Mas este não deveria ser um novo
e fértil campo de debates, de posicionamentos e de possibilidades para a
profissão, inspirando uma mobilização dos profissionais para a
popularização de uma produção arquitetônica generalizada e
profissionalmente organizada? Que não seja reprodutora, na escala das
cidades menores, de uma dinâmica já gasta e um tanto omissa, limitada à
opção entre a “não-arquitetura” do mercado imobiliário ou a elitizada
arquitetura “de grife”, quando esta consegue a duras penas “furar” o
mercado, mas acaba compactuando, mesmo que involuntariamente (mas nem
sempre), com esse modelo?

É importante entender que o aquecimento da produção imobiliária destinada


às classes médias não surgiu do nada, mas decorre de algumas
transformações econômicas recentes, nas quais em regra geral os
arquitetos, aliás, também pouco se implicaram, enquanto uma categoria que
deveria ter o que opinar sobre o assunto. Pode-se dizer, grosso modo, que
tais mudanças começaram em 2006, com a modernização da legislação para o
setor de investimentos imobiliários, destravando alguns gargalos
históricos, e com decisões governamentais específicas que colocaram no
mercado, somente naquele ano, cerca de R$ 8 bilhões para crédito
imobiliário oriundos da poupança (4). Além disso, a Lei de Alienação
Fiduciária, e a Lei de Incorporação Imobiliária (ou Lei de Patrimônio de
Afetação), deram segurança ao mercado, que evidentemente se reaqueceu,
atraindo inclusive investidores externos. Por fim, a queda na taxa de
juros elevou sensivelmente a oferta de crédito imobiliário, embora esta
ainda seja no Brasil extremamente tímida em relação aos patamares dos
países desenvolvidos, dada a característica restritiva do nosso mercado,
extremamente concentrador da renda.

Em decorrência disso, o mercado imobiliário brasileiro iniciou pela


primeira vez um importante movimento no sentido de ampliar sua produção
para faixas de renda intermediária, já que a sua tradicional e quase que
exclusiva faixa de atuação, a fatia AAA do mercado, de alta renda,
tornara-se subitamente pequena para tanto crédito disponível. Muitas
construtoras abriram então subsidiárias para atuar no que passaram a
chamar de segmento “popular” ou “econômico”, embora ele esteja muito
longe da população de baixa renda, mas se refira a uma mercado capaz de
pagar entre R$ 80 mil e 120 mil por um imóvel residencial.

No mesmo embalo, no ano de 2009, em resposta à crise econômica mundial, o


Governo Federal lançou um programa inédito de financiamento habitacional,
o Programa Minha Casa Minha Vida (PMCMV), com o ambicioso objetivo de
produzir um milhão de casas. O programa tinha a intenção declarada de
aquecer a atividade da construção civil, e por isso foi moldado para
atender preferencialmente essas construtoras privadas do mercado
“popular” (5).

O volume de produção atual decorrente do programa é significativo. Pode-


se dizer sem medo que o país há anos não via tal movimentação na
construção civil, e nunca certamente tão maciçamente voltada a essas
faixas de renda. Segundo alguns dados disponíveis, já são mais de 150 mil
unidades habitacionais construídas. As obras contratadas ultrapassam as
500 mil unidades, repartidas entre as faixas de 0 a 3 salários-mínimos
(cerca de 55%) e de 3 a 10 (os outros 45%). O que é novo é o fato de que
uma boa parcela destas, cerca de 37% estão situadas na região Norte, uma
proporção equivalente ao Sudeste, o que ratifica a desconcentração da
produção que apontamos acima. Outro dado que corrobora a afirmação sobre
o novo papel das cidades-médias é que nelas se localiza cerca de 25%
dessa produção (6).

O Programa Minha Casa Minha Vida dá às construtoras, como dito, um papel


central: acima de 3 salários mínimos, são elas que incorporam,
diretamente vinculadas à instituições financeiras privadas, que acessam
os créditos do programa. Nas faixas de 0 a 3, as prefeituras passam a ter
um papel importante, assim como a Caixa, já que são elas que definem os
empreendimentos, eventualmente (ou muitas vezes) cedem a terra, e
intermedeiam os empréstimos da Caixa. Mas mesmo neste caso são as
construtoras as responsáveis pela construção dos conjuntos. E a
observação empírica dessa produção mostra que mais uma vez estas não
parecem lembrar-se – salvo poucas exceções – da existência e da
importância dos arquitetos, em qualquer que seja a faixa de renda. A
qualidade arquitetônica e urbanística não foi incorporada à produção
desse mercado “popular” privado, dentro ou fora do âmbito do Minha Casa
Minha Vida. O que se vê são conjuntos enormes, monótonos pela repetição
infinita de tipos habitacionais, com um padrão construtivo de baixa
qualidade arquitetônica.

Um estudo realizado pelo LabHab-FAUUSP e pela Fundação Gerdau, ainda


inédito, denominado “Produzir casas ou construir cidades: desafios para

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um novo Brasil urbano”, levantou o estarrecedor cenário do boom da
construção civil ligado ao novo “segmento econômico”. Nele, mostramos que
nos empreendimentos verticalizados, as construtoras optam por tipologias
em “H” ou outras variações trazidas da habitação social da época do BNH,
com a mesma pouca qualidade construtiva e arquitetônica, dando-lhes certo
“glamour” de mercado, graças à utilização de cores permitidas pelos novos
materiais de revestimento, ou ainda ao uso dos mesmos equipamentos que
seduzem os empreendimentos de alto padrão: espaços gourmets, fitness
centers e afins. Economizam-se preciosos metros quadrados em cada
unidade, para em troca gastar uns trocados em um fogão ou algumas
máquinas de ginástica; erguem-se muros com cercas elétricas, colocam-se
guaritas, tudo para criar um sentimento de ascensão social que dinamize
as vendas. O questionável padrão urbanístico dos bairros ricos passou a
servir de modelo na proliferação dos novos bairros de classe média.

Assim, vendem-se apartamentos de menos de 50m² por cerca de 100 mil


reais, dando à população que antes nunca imaginaria ter casa própria a
realização de um sonho, a sensação de se estar vivendo “como os ricos”. O
que poderia ser bom torna-se, porém, exageradamente caro, com um padrão
estético mais do que questionável. Pior, a maioria das construtoras
“carimba” um mesmo projeto indiscriminadamente em qualquer região, sem
nenhuma preocupação com a adequação climática, topográfica, etc.

Foto divulgação [Acervo LabQuapá FAU USP]

Nos empreendimentos horizontais, geralmente situados em regiões menos


urbanizadas ou nas periferias distantes das grandes metrópoles (pelo
menor custo da terra), chama a atenção a reprodução infindável de
casinhas de duas águas, aquelas que exemplificaram por décadas a má
produção habitacional pública, agora realizada pelo setor privado (porém
com importante financiamento público). Pouca variedade tipológica,
nenhuma inventividade construtiva que possa alterar a sensação de
repetição e de se morar em um pombal. Custa-se a acreditar que seja
oferecida a alguém a compra de um imóvel idêntico às centenas de
vizinhos, alguns a poucos metros da porta de entrada. Porém, nosso quadro
habitacional ainda é tão dramático e o acesso à casa tão restrito que
muitas vezes essa é, para o comprador, a realização de um sonho e a
possibilidade de acesso à uma vida melhor, pela qual, aliás, paga-se
bastante caro. Se ainda a questão fosse apenas a falta de diversidade e a
mesmice do projeto, em uma excelente implantação, respeitosa do relevo,
com praças e equipamentos, arborização abundante e facilidades de
comércio, esse problema talvez impactasse menos. Porém, o que se vê é a
opção por implantações com abuso de movimentação de terra (muito
impactantes ambientalmente), ou em planícies infinitas e áridas, longe da
cidade, com uso somente residencial, sem oferta de serviços nem de
equipamentos em quantidade e qualidade necessárias e, é claro, sempre
muradas.

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Empreendimentos horizontais em Campinas SP, o novo


segmento econômico do mercado da construção civil
Foto divulgação [Acervo LabQuapá FAU USP]

Empreendimentos horizontais em Campinas SP, o novo segmento econômico do


mercado da construção civil
Foto divulgação [Acervo LabQuapá FAU USP]

O programa Minha Casa Minha Vida também incentiva – ao menos no texto,


porque na prática nada se concretizou – empreendimentos que proponham a
reabilitação de edifícios vazios em áreas centrais. Uma rápida conta, já
comprovada em vários exercícios de faculdade, mostra que os custos de
compra e reabilitação desses edifícios cabem perfeitamente na equação de
financiamento do programa, para faixas de renda entre 5 e 10 salários-
mínimos. Uma proposta interessante se considerarmos que no Brasil há
cerca de 5 milhões de unidades habitacionais vazias, para um déficit
habitacional de cerca de 6 milhões, e mais ainda quando observamos que na
Europa cerca de 50% da atividade da construção civil é de reforma e
reabilitação. Lá, porém, desde o pós-guerra o mercado da construção, o
que inclui os arquitetos, estabeleceu condições para que se desenvolvesse
essa vertente importante da arquitetura e da construção. Uma vertente que
envolve a participação dos arquitetos em questões de sustentabilidade, de
adequação das técnicas construtivas, dos materiais, e assim por diante. E
mais uma vez, pergunta-se: qual o nosso avanço nessa discussão? O mercado
refuta sistematicamente a prática de retrofit alegando seu alto custo, os
arquitetos pouco se importam com uma faceta da profissão que dá pouco
retorno à obra autoral, mas que poderia ser socialmente muito
transformadora. Eis mais um exemplo de campo de atuação a ser aberto, e
ao qual a profissão mantém-se – salvo exceções, como sempre – afastada.

A pergunta que nos cabe é a seguinte: onde está arquitetura em tudo isso?
Para além da festejada arquitetura brasileira dos escritórios autorais, a
profissão não deveria ser parte atuante na linha de frente desse processo
de urbanização que assistimos? Exigindo a realização de projetos, a
discussão de qualidade, incentivando novas tecnologias, a
industrialização construtiva com qualidade, etc? Porém, temos que admitir
que nossa profissão, até agora, está alienada disso tudo. Saudosos
tempos, quando em 1963, o Seminário Nacional de Habitação e Reforma
Urbana, contando com a participação de grandes arquitetos, fora capaz de
pautar as políticas habitacionais e urbanas do país.

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Conjunto habitacional Carl Legien, Pankow, Alemanha, 1928-1930. Arquitetos


Bruno Taut e Franz Hilinger
Foto Doris Antony [Wikimedia Commons]

Mas, hoje, o quadro é de uma profunda alienação às perspectivas


desafiadoras que a atual conjuntura oferece, mesmo quando se trata de uma
produção profissional de grande qualidade. Pior, a alternativa à boa
arquitetura autoral é a da submissão aos ditames do mercado e seus
imediatismos comerciais. Porém, mesmo a nossa escola “moderna”,
supostamente herdeira e reprodutora da arquitetura “de qualidade”, talvez
não tenha percebido o quanto se distanciou dos desafios que o próprio
modernismo se colocou, quando do seu surgimento: o de responder à demanda
maciça por moradias na Europa. Sérgio Ferro, em seu clássico artigo
“Arquitetura Nova”, define a arquitetura moderna como aquela que mostre
capacidade de levantar propostas para "o atendimento de um progresso
esperado e de necessidade coletivas". A arquitetura deveria então
adiantar-se ao porvir da sociedade, refletindo e oferecendo soluções
arquitetônicas e construtivas que respondam ao cenário futuro. Pergunta-
se: é isso que se vê em face da implosão construtiva que o Brasil vive?

Unité d'Habitation, Berlim. Construída para a International Exhibition


(Interbau) de 1957. Arquiteto Le Corbusier
Foto Manfred Brückels [Wikimedia Commons]

Não foi à toa, portanto, que o modernismo europeu já nos anos vinte, e
posteriormente no Pós-Guerra, elegeria a habitação social como o
principal desafio para mestres da arquitetura como May, Gropius, Le
Corbusier e tantos outros. Não havia vergonha nem hesitação em colocar a
profissão à frente da necessidade de produzir, em uma conjuntura
econômica de construção do capitalismo industrial de consumo de massa e
do bem-estar social, as moradias que tal momento demandava. "De Ledoux a
Le Corbusier, são constantes as sugestões que avançam sobre tempo",
aponta Ferro. O que pensariam esses mestres ao ver no nosso país,
reconhecido internacionalmente por perpetuar o modernismo, a sua
profissão alienada do desafio de responder a um déficit de seis milhões
de moradias e a cidades com metade de sua população vivendo na
informalidade? A arquitetura brasileira estaria acima de toda essa
reflexão, para permitir-se ficar distante das transformações que o país
passa?

E a arquitetura na cidade informal?

Pois se o mercado – entenda-se aquele setor da economia capaz de


contratar os serviços de arquitetos – está se ampliando, mesmo que a
arquitetura brasileira não pareça ter assimilado a importância do
processo (que a indústria da construção civil e o mercado imobiliário,

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quanto a eles, já assimilaram), isso não quer dizer que tenhamos, na
outra face da moeda, resolvido a tragédia estrutural das nossas cidades,
resultante do próprio subdesenvolvimento.

Florestan Fernandes defendia que o Brasil dá recorrentemente saltos


“modernizantes” que nos levam a um novo patamar econômico sem que,
entretanto, tenhamos superado com isso os desequilíbrios estruturais da
etapa anterior. Porém, criam-se a cada salto “mitos da modernização”, que
servem para legitimá-los, mesmo que, para ocorrer, tais avanços tenham
que alimentar-se do aprofundamento do atraso e da miséria. Como mostrou o
sociólogo Francisco de Oliveira, o moderno no Brasil alimenta-se do
atraso, e assim parece ocorrer nas dinâmicas urbanas. O crescimento das
cidades médias, a euforia do boom de urbanização, é uma pseudomodernidade
que se alimenta da continuidade da urbanização desigual e socialmente
segregadoras, que elegeu a não-democratização do solo urbano, a
proliferação dos anti-urbanísticos condomínios fechados de luxo, a
verticalização de forte impacto ambiental, a opção preferencial pelo
automóvel, ou ainda a periferização da pobreza como seus atributos
principais. Muito embora, nas aparências, essa euforia do crescimento se
alimente de “mitos modernizantes” como a Copa do Mundo, os Jogos
Olímpicos, pontes estaiadas, escolas de dança e outras fontes luminosas,
às vezes com projetos urbanos e arquitetônicos de grandes estrelas do
jet-set internacional, muito vistosos como factoides eleitorais, mas
pouco estruturantes da cidade e, sobretudo, raramente democráticos na sua
concepção. As decisões de investimentos públicos nesses projetos são
feitos em gabinetes, raramente com participação dos cidadãos, e as
audiências públicas têm se tornado cada vez mais peças de teatro sem
nenhum efeito. A falta de concursos públicos e a recorrência da prática
de projetos urbanos e de equipamentos contratados por vias pouco claras
ainda é, infelizmente, praxe, inclusive na maior cidade do país.

Não podemos esquecer, portanto, que embora estejamos assistindo a uma


ebulição no mercado imobiliário de classe média, nossas cidades ainda
são, hoje em dia, caracterizadas pelas periferias auto-construídas e
precárias. E nessas periferias, não há arquitetura, não há urbanismo.
Como já dito, nesse aspecto nossa profissão, quando vista em seu conjunto
e não na ação de alguns grupos tão batalhadores quanto minoritários –
dentro do governo ou em pequenos escritórios –, deve aceitar seu absoluto
fracasso. Mesmo que, na sua vertente autoral, sempre frequentasse as mais
festejadas premiações internacionais. Mas como podemos falar em cidades
“globalizadas”, por causa de seus prédios em alumínio e fachadas de
vidro, em um país em que muitas delas, e das grandes, sequer têm metade
da sua população servida por algo tão básico como o saneamento?

Pergunta-se: esses desafios – o da construção de casas de qualidade para


os que se amontoam em periferias auto-construídas, o da urbanização
dessas periferias com qualidade, integrando-as à cidade “que funciona”, o
da estruturação de sistemas de mobilidade urbana democráticos e
eficientes, o da provisão generalizada de saneamento ambiental – não
deveriam ser os temas prioritários de discussão da arquitetura
brasileira?

Capa da revista Veja, edição 1684, de 24 de janeiro de


2001

Porém, a cidade informal ainda aparece mais do que tudo como um incômodo.
Assim sentenciava já em 2001 a revista Veja (Edição 1684, de 24 de
janeiro) ao estampar em sua capa um desenho em que um pequeno e colorido
grupo de casas arborizadas e prédios “de arquitetos” (dentre os quais se
reconhece o Copan e o Edifício Itália) aparecia envolto por uma massa
cinzenta de casebres, sob um título bastante revelador: “O cerco da
periferia: os bairros de classe média estão sendo espremidos por um

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cinturão de pobreza e criminalidade que cresce seis vezes mais que os
centros das metrópoles brasileiras”.

A seguir o raciocínio, restaria concluir que para desfazer-se dos pobres


que, na terrível visão da revista, além de se reproduzirem demais, são
também criminosos (pobreza e criminalidade aparecem na frase naturalmente
associados), talvez o mais fácil fosse simplesmente mandar explodir a tal
periferia. Tomando o cuidado, é claro, para não acabar com toda ela, pois
senão quem iria servir e fazer funcionar a cidade formal colorida, verde,
urbanizada e cheia de projetos arquitetônicos, e os que nela habitam por
terem tido a sorte de nascer do “lado certo” da nossa sociedade cindida?
Ninguém, porém, contestou o tamanho da monstruosidade estampada nessa
capa. Nem mesmo os arquitetos, afinal, os principais envolvidos na
discussão das cidades.

Triste constatação de uma sociedade cujo “andar de cima” sequer se digna


a assumir alguma responsabilidade sobre um desequilíbrio estrutural que
está levando à implosão das nossas cidades. Muito pelo contrário, prefere
culpar os pobres, por um cenário decorrente essencialmente de dois
fenômenos: a histórica concentração da renda, por um lado, e a segregação
sócio-territorial, por outro, que transpõe para o território os efeitos
da desigualdade econômica. Se a primeira causa pode ser imputada a
políticas econômicas mais amplas, a segunda, em compensação, é de
responsabilidade dos arquitetos e urbanistas.

Porém, ao invés de assistirmos a uma mobilização cidadã por parte de toda


a classe de arquitetos-urbanistas para erradicar tais desequilíbrios
urbanos, o que se vê são prefeituras criando rampas e bancos
antimendigos, arrasando favelas ou construindo muros para segregá-las. O
que se vê é um padrão urbano do “andar de cima” que preconiza condomínios
fechados e o isolamento atrás de muros, guaritas e cercas eletrificadas.
A tranquilidade e o bem-estar da família de classe-média brasileira está
na busca de soluções que exacerbam a fratura social e estimulam uma
fragmentação digna do apartheid sul-africano, e que só poderá gerar – se
já não tiver gerado – a barbárie em nossas cidades.

O curioso é que, no bojo de tantas transformações, hoje a arquitetura


social, vinculada à produção pública, historicamente desprestigiada pela
profissão, é quem está dando lições sobre como avançar no campo da
produção de moradia para a população de baixa renda, oferecendo
alternativas – embora ainda pontuais – de melhor qualidade do que o que
produz o novo “mercado econômico” privado. Por mais incrível que pareça,
em um país em que “habitação social” sempre remeteu ao horror dos
conjuntos habitacionais do BNH, a arquitetura pública de interesse social
hoje está muito à frente do mercado, embora ainda haja longo caminho a
percorrer.

Isto sem dúvida decorre da corajosa insistência e do know-how adquirido


pelos pequenos grupos que, há anos, tentam avançar nessa área, seja de
técnicos dentro das prefeituras – com todas as dificuldades impostas por
uma máquina engessada para os objetivos sociais –, seja das chamadas
“assessorias técnicas de mutirão”, que desde a constituição de 88
iniciaram um lento, mas sólido trabalho de reconstituição da prática da
arquitetura para os menos favorecidos. A “arquitetura social”,
normalmente tão desprestigiada pelos próprios pares na profissão (quantas
vezes não ouvi colegas desaconselhando alunos a fazer projetos de
habitação social por isso não ser “arquitetura”), hoje foi capaz de
estabelecer um padrão de produção com muito mais qualidade do que está
fazendo o novo “mercado econômico”.

Em São Paulo, no final da década de 1980, a realização sistemática de


concursos de arquitetura para habitação social provocou uma inflexão na
qualidade dessa produção, graças à entrada em cena dos arquitetos. No Rio
de Janeiro, o IAB local se destacava já nessa época por promover a
discussão em torno da questão da habitação social, assim como cidades
como Recife, Santo André, Diadema, ou Porto Alegre, que implementavam,
antecipadamente até ao Estatuto da Cidade, a prática da urbanização de
seus bairros precários.

Assim, acumulou-se importante conhecimento, com inovações tecnológicas,


como a introdução da alvenaria autoportante, da argamassa armada (que em
alguns casos gerou até certa industrialização do processo construtivo,
notadamente com as experiências de Lelé), do uso de estruturas metálicas.
Os conjuntos Copromo, em Osasco-SP, ou União da Juta, em São Paulo,
projetados pela assessoria Usina e ambos construídos em regime de mutirão
com autogestão, através de convênios com a CDHU-SP, ainda na década de
1990, ou a produção da assessoria Cearah Periferia, na mesma década nas
imediações de Fortaleza CE, são exemplos diversos e marcantes, entre
muitos, dessa inflexão qualitativa, que todo aluno de arquitetura deveria
conhecer, tanto quanto os projetos autorais nacionais ou internacionais
que normalmente inundam seu repertório de estudos.

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Conjunto Habitacional Copromo, Osasco SP. Projeto Usina / Centro de trabalhos


para o ambiente habitado e construção por mutirão autogerido
Foto João Sette Whitaker Ferreira

É claro que algumas mudanças estruturais na política habitacional


brasileira contribuíram para isso, como a criação do Ministério das
Cidades e da Secretaria Nacional de Habitação, a aprovação do Estatuto da
Cidade, a formação dos conselhos e fundos municipais, estaduais e federal
de habitação, e assim por diante. Ainda assim, embora o Estatuto tenha
dado condições para que os municípios implementassem instrumentos de
combate ao déficit habitacional, à retenção especulativa da terra e à
organização territorial segregadora, nossa sociedade – e nela, os
arquitetos-urbanistas – ainda não soube, ou não quis, fazer frente ao
desafio e hoje, passados quase dez anos, praticamente nenhum município do
país aplicou de forma consistente, maciça e sistêmica um conjunto de
instrumentos que tenha efetivamente alterado a equação da segregação
sócio-espacial.

Uma das dificuldades que se imputa recorrentemente ao Minha Casa Minha


Vida vem, aliás, justamente dai: não adianta responsabilizar o programa
por alavancar a ocupação de periferias distantes com mais e mais
conjuntos habitacionais sofríveis, em razão do preço da terra mais
barato, se a prerrogativa de gerir a ocupação do território é dos
municípios e estes, desde 2001, pouco ou nada fizeram para aplicar os
instrumentos do Estatuto da Cidade que poderiam, por exemplo, dar-lhes
condições de fazer estoques de terra em áreas mais centrais para hoje
destinar à habitação social no âmbito do Minha Casa Minha Vida.

Mas se no campo do planejamento estamos ainda estagnados sobre o avanço


que representou o Estatuto, no campo da arquitetura há avanços concretos,
mesmo que ainda pouco expressivos quantitativamente. É inegável a
melhoria de qualidade nos projetos da CDHU de São Paulo, por exemplo, que
desenvolve importante discussão interna sobre a qualidade construtiva e
arquitetônica. A CDHU, aliás, lançou em 2010 o “Habitação para todos”,
importante concurso de tipologias para habitação social, que agora
desenvolve para construir. O IAB-SP desde 2008 estabeleceu em sua
premiação bi-anual a categoria “habitação de interesse social”,
reconhecendo a importância da mesma para a profissão. O Rio de Janeiro
destacou-se em 2011 por lançar o concurso “Morar Carioca”, para projetos
de urbanização de favelas, o que a Prefeitura de São Paulo fez também, na
sequencia.

Aliás, é alentador que em todos estes concursos, houve uma numerosa e


entusiasmada adesão dos escritórios de arquitetura, alguns até daquele
promissor grupo citado no início deste texto. O que mostra que os
arquitetos, mesmo aqueles preocupados com uma arquitetura de perfil mais
autoral, são sensíveis a esses novos desafios impostos por nossa trágica
realidade urbana.

Com o advento do “PAC-Urbanização de assentamentos precários”, uma


política pública federal enfrenta pela primeira vez de frente e
maciçamente a questão da urbanização de favelas, como se vê no Rio, no
Morro do Alemão. Em Manaus, um programa do Governo do Estado, o Prosamin,
vem enfrentando também com certo sucesso e qualidade arquitetônica e
urbana a situação precária dos igarapés da cidade.

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Conjunto Habitacional Prosamin, Arquiteto Luiz Fernando Freitas – Cooperativa


de profissionais do Habitat, Manaus AM
Foto João Sette Whitaker Ferreira

O avanço nesse campo da arquitetura deveria ser visto com atenção pela
classe dos arquitetos-urbanistas, pois se trata justamente de uma mudança
que não resultou da ação de um ou outro arquiteto, mas sim de uma
mobilização institucional que envolveu governos, movimentos sociais,
técnicos do funcionalismo público, e também evidentemente, engenheiros e
arquitetos. Assim, vale o alerta: não se trata de fazer uma arquitetura
autoral aplicada a situações de precariedade ou na periferia, acreditando
que assim a “boa arquitetura” se generalizará. Mesmo porque, como já
dito, foi a experiência acumulada por quem trabalha na área, à sombra do
glamour da profissão, que está ditando os avanços que apontamos. Como diz
a urbanista Erminia Maricato, o Brasil é hoje um dos países que mais
exporta conhecimento na área da urbanização de assentamentos precários,
porém o espaço que essa produção tem no nosso próprio meio acadêmico não
só é mínimo, como desvalorizado. Prefere-se, de fato, buscar “soluções”
de arquitetos e universidades de países centrais, que aportam por aqui
com muita festa e com receitas que pouco se aplicam à nossa realidade. O
que vem de fora é sempre melhor, assim dita a cultura das “idéias fora do
lugar” tão acalentada por nossas elites.

PAC Urbanização de favelas, Morro do Alemão, Rio de Janeiro. Arquiteto Jorge


Mario Jauregi
Foto Gabriel Leandro Jáuregui

A questão, portanto, é repensar a forma de atuação do arquiteto, pois as


demandas sociais podem mudar concepções de formas e conteúdos espaciais,
e dar um novo sentido à profissão, em seu papel histórico. Há atualmente
no Brasil uma nova lei, a da Assistência Técnica, que garante às famílias
com renda de até 3 salários mínimos o direito à assistência técnica
pública e gratuita para projeto, construção ou reforma de suas moradias,
e com isso prevê a organização da atuação dos arquitetos, por parte das
prefeituras, para atender de forma sistemática e organizada a demanda da
cidade informal. Os arquitetos, entenda-se os IABs, as faculdades de
arquitetura, os escritórios, deveriam estar completamente submergidos por
este desafio (como vêm fazendo, vale observar, a Federação Nacional dos
Arquitetos e os sindicatos estaduais) que representa uma enorme
oportunidade de ampliação do mercado de atuação, sobretudo para nossos
jovens recém-formados.

O que dizer, então, da enorme oportunidade de mudança que se coloca com a


próxima criação do CAU? Teremos um órgão que irá reproduzir, com alguma
melhoria, as lógicas e preocupações historicamente sustentadas pelos
CREAs, claramente voltadas quase que exclusivamente à regulação da

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prática profissional, ou aproveitaremos a oportunidade para repensar, de
maneira tolerante, solidária e democrática, o papel da nossa profissão na
construção do nosso país e fazer uma verdadeira refundação da arquitetura
brasileira?

Não é preciso insistir no quanto tal discussão é fundamental para nossos


estudantes de arquitetura. Aqueles mesmos que se sentem angustiados em
face de um mercado que às vezes lhes parece tão restrito e competitivo.
Pois fica claro que a arquitetura e o urbanismo são formações
complementares extremamente amplas. Cabe aos cursos de arquitetura
promover essa aproximação com a realidade e, conseqüentemente, uma
sensível ampliação do campo profissional. Um arquiteto que queira fazer
frente aos desafios que o Brasil hoje lhe apresenta deve ser um bom
projetista, sem dúvida, mas deve entender da história econômica e social
da nossa formação nacional (para compreender as causas dos problemas que
enfrentará), deve transitar pelo campo da legislação urbanística, deve
conhecer aspectos básicos de engenharia ambiental, deve saber de economia
urbana, e assim por diante. Deve tornar-se um cidadão, um ser político
capaz de colocar-se ativamente nas discussões sobre nosso futuro, em
especial no que diz respeito ao ambiente construído. Se recebessem tal
formação, as perspectivas profissionais dos nossos recém-formados, não só
em escritórios, mas em instituições públicas, governos, ONGs, tornar-se-
iam muito mais instigantes e diversas.

A arquitetura brasileira não pode conformar-se em apontar apenas dois


caminhos: ou da arquitetura da “alta costura” (7) e grande qualidade,
destinada ao mercado de alta renda, ou o da arquitetura “de mercado”
conformada a uma mediocridade ditada pelos interesses imobiliários. O
urbanismo brasileiro não pode continuar a ser reprodutor de práticas
segregadoras e exclusivistas. O humorista norte-americano George Carlin
dizia que o ímpeto ecológico de “salvar o planeta” tem um problema
conceitual: a Terra, que já sobreviveu a movimentos tectônicos e
cataclismas, estará muito bem por mais milhões e milhões de anos, mesmo
que vire uma rocha desértica. Não serão alguns sacos plásticos e latas de
alumínio que a farão desaparecer. Quem está em perigo, isto sim, somos
nós, pois não sobreviveríamos ao desastre das nossas próprias ações.
“Salvemos-nos”, deveria ser o slogan. Pois o raciocínio vale para nós,
arquitetos e urbanistas: “salvem as cidades”, será essa a verdadeira
preocupação? Nossas urbes podem sobreviver por anos, porém em um cenário
à la Blade Runner, recortadas por muralhas eletrificadas, sem saneamento,
com espaços públicos abandonados à própria sorte, milícias armadas a
fazer a segurança. O que a Veja aponta como um cerco está se tornando a
realidade; como lembra Ermínia Maricato, a pobreza urbana não é mais
exceção, mas a regra. “Salvemo-nos a nos mesmos”, esse deveria ser o
caminho para o novo Brasil urbano. E os arquitetos teriam muito o que
dizer a respeito, caso se conscientizem que não podem, mais uma vez,
deixar passar o bonde da história.

notas

1
Exceções como os recentes concursos para urbanização de favelas, no Rio de
Janeiro, ou de Habitação Social, em São Paulo, às quais estes mesmos jovens
arquitetos muitas vezes, e felizmente, se agarram na busca salutar de conseguir
alguma outra alternativa de atuação.

2
Exposição apresentada na Panamericana Escola de Arte e Design, e organizada
pela mesma, em parceria com o Arquiteto Siegbert Zanettini.

3
Cetelem/BNP Paribas, publicado em
http://g1.globo.com/Noticias/Economia_Negocios/0,,MUL1558939-9356,00-
CLASSE+C+GANHOU+MILHOES+DE+PESSOAS+EM+CINCO+ANOS+DIZ+PESQUISA.html

4
A resolução 3177 do Banco Central, de 8 de março de 2004, obrigara as
instituições financeiras a aplicar efetivamente – já que esse dinheiro
costumava ficar no BC – porcentagem do Fundo de Compensação das Variações
Salariais (FCVS, 2%) e do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE – a
caderneta de poupança) em empréstimos imobiliários. Também exigiu dessas
instituições que cumprissem acordo anterior para liberar em parcelas o saldo do
FCVS acumulado desde 1996.

5
Com significativos fundos e facilitação de crédito, o programa beneficia o
mercado de renda média, mas também, pela primeira vez nessa escala, a classe de
renda muito baixa, abaixo de 3 salários-mínimos, oferecendo nesse caso
importantes e inéditos subsídios.

6
O que revela um dos desafios que o MCMV deve enfrentar, já que é nas grandes
metrópoles que se concentra a quase totalidade do déficit habitacional e da
demanda por moradia de interesse social.

7
Excelente nome dado pelo arquiteto Rodrigo Vicino, quando meu aluno.

sobre o autor

João Sette Whitaker Ferreira, arquiteto-urbanista e economista, mestre em


ciência política e doutor em urbanismo, é professor da Faculdade de Arquitetura

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