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EDITORIAL

A CLÍNICA DO REAL

Quando ·da conferência de Colette Soler, "A Clfnica do Real"


na Clínica Freudiana, em 1987, nossa atenção centrava-se na psico-
se. "A Clfnica do Real" marcava o inicio de um trabalho que progre-
diria com um seminário sobre " De uma questão preliminar a todo
tratamento possível da psicose", texto de Lacan publicado nos Es-
~~. .
Fatalmente falar da Clfnica do Real implicaria numa dimensão
de tratamento à psicose ou, como Colette Solar precisa, da.Ciínica
do Real fora-da-transferência. .
Desde o início da psicanálise esta pergunta é feita - Há uma
resposta do psicanalista à psicose? É c~rto que Freud e Lacan,
de alg1,1m modo inauguram essa perspectiva. Freud ao colocar -a
·possibilidadede "uma futura psicoterapia das psicoses". Lacan pelo
viés de seu aforismo de que - o psicanalista não dever recuar
frente à psicose.
Se o pessimismo rondava Freud e até mesmo Lacan que passou
parte de sua clinicá dedicada ao psicótico, isso se devia, em parte,
à equivalência colocada entre a Clínica Psicanalítica e Clínica sob
Transferência. A estrutura neurótica é que permitiria situar a transfe·
rência no ponto em que o analisando colocaria o analista como
pivô, como Sujeito suposto saber. Essa é uma direção tomada por
C. Solar na "Clínica do Real".
É pelo Simbólico que tenta demarcar o conceito lacaniano de
Real, quando proçura vasculhar toda uma gama de sentidos que
2- Editorial

lhe corresponde. Ela vai buscar os aforismos de Lacan para subsi-


diar sua trajetória. O Real como o que retorna ao mesmo lugar,
o Real como o impossível, o não-sentido, o que é foracluído no
Simbólico retorna desde o Real. Definições que só se dialetizam
a partir da referência ao Simbólico, tomado como "aquilo que permite
fazer sentido'', isto é, que tenta responder à questão "do que isso
quer çjizer".
E tomando "as questões pelo sentido" que a psicanálise se
definiria corno uma prática inteiramente simbólica, mas que comporta
um elemento que lhe escapa. do Real.
O Real tomado desde o infcio, desde o início do interesse de
Lacan, de sua obra, a partir de sua tese sobre a psicose - a loucura
do sem-sentido.
O Real tomado desde a entrada em análise. em que a demanda
é feita· a partir do sofrimento de que o sujeito padece, "daquilo que
não se tem", que é inapreensível, que ainda não foi fustigado pela
palavra, pelo dizer. Ter o Real como causa, um Real aquém, enco-
berto por um acontecimento, um primeiro dizer, encobrindo esse
Real. O sofrimento para denominar esse Real, esse gozo, ainda
não delimitado pelo saber. pela enunciação.
A demanda feita a partir de um sofrimento coloca em jogo uma
clínica da psicose e da perversão.
O Real tomado a partir da transferência, na tentativa de fazer
passar do Real ao Simbólico. nesse momento, um modo de nada
querer saber do Real, ao tentar cobri-lo de sentido.
Finalmente o final de análise que a conferencista marca ser
para Lacan, "o modelo da clínica fora-da-transferênci.a" . Ela vai sina-
lizar três pontos ao final da análise: a identificação ao sintoma, o
atar o ato analítico, e o que chama semelhança que-vai se referenciar
na sublimação.
No final da análise, ao contrário da associação livre, ocorre
o limite da experiência, ''A passagem ao ato", não do ato de não
querer nada saber, fenômeno da psicose. O final da aná~se deve
produzir um sujeito .assegurado de um saber - da impossibilidade
da relação sexual. E o significante da relação sexual que não pode
se inscrever no inconsciente. Falta Um, é "foracluído" o significante,
A Mulher. Então, se não há relação sexual, não há sujeito sem
sintoma, na medida em que o sintoma supre essa ausência. O final
~e análise deve ser formulado corno uma identifiçação ao sintoma
Já que o sintoma é o nome do gozo que falta, A Mulher. •
·Então, desde o início, o ser falante sofre por ser sexuado. E
essa posição inicial que de~e ser levada à elaboração no decorrer
da análise, pela "realização do trabalho do Sujeito SUJ?OSlo saber",
mo!l1ento em que analista e analisante exploram o desfiladeiro lmagi-
náno através da fábrica de sentidos que é a associação livre. Neste
percurso ocorrem momentos de surpresa, provocados pelos "efeitos
de sentido" pelos "efeitos terapêuticos" em que o Real se impõe,
Editorial - 3

deixando em aberto o vazio de sua presença. Arrodeá-lo, circundá-lo


para que se possa limitar seu campo, essa cumplicidade, analista
e analisante devem levar até o final da análise, armando-se para
que esse lugar de exclusão possa ser revelado e suportado, na
impossibilidade de se alcançá-lo.
É esse sentido dado à clínica psicanalítica, a partir do Real,
que permite a Colette Solar considerar mais de perto as implicações
de uma ctrnica do Real fora-da-transferência, exemplificada na psico·
se de Schreber, em Joyce, no',"sintoma perverso de Gide", tomados
de Lacan e Freud. O "sintoma" aí como inanalizável. não correlato
ao Sujeito suposto saber. ·
Se a clínica da psicose, da perversão, a clfnica fora-da-trans-
ferência permanece um campo em aberto, a conferencista não deixa
qe questionar. a partir de Lacan, a psicanálise, a clínica do Real.
E realmente possível através da construção de cadeias intermináveis
-de significantes, ascender ao Real? Não estaríamos reduzidos a uma
grande construção imaginária, a um delfrio a dois? Questão colocada
por Lacan quando se interroga sobre "o Real que pode ser atingido
pela operação do Sujeito suposto saber".

Maria Luiza Miranda


CASOS CLÍNICOS

M DE MULHEW
Jardelina Bacellar

M. 33 anos. assist~nte social há 6 anos fo4 encaminhada por


um psiquiatra que lhe atribuía um possível diagnóstico de paranóia.
A paciente chega não aceitando a separação recente, quando o
marido vai morar oom outra mulher.
Desde as primeiras entrevista&. M. falava do que se tornou o
ponto central durante todo esse tempo: a sua sexualidade, o .fato
de todos perceberem que ela não continha os seus desejos sexuais,·
principalmente por mulher. Descrevia isso dizendo que as mulheres
percebem que ela é homossexual porque lhe ficam provocando,
mostrando as pernas. os seios. Ela se perturba com isso "dá muitas
bandeiras''. Angustia-se por não poder evitar de olhar e sabe que
deixa também essas mulheres constrangidas. Não sabe dizer ao
certo·que sensações em si própria a visão do corpo de uma mulher
lhe provoca, porque diz nunca ter sentido vontade de ir pra cama
com nenhuma. nunca se apaixonou e nem oonsegue fazer nenhuma
fantasia.
A sua vida profisSional estava bastante complicada. Trabalhava
numa clínica onde se achava perseguida pelas pessoas, incompreen-
dida. Achava-se ridicularizada. humilhada, que todos a achavam bur-
ra e com anormalidades sexuais.

• Apresenraclo na Reuniáo Clínica da CF no mês de-maio de 1989.


6 - · Jardelina Bacellar

No ínício do tratamento M. aumentou sua ansiedade e sua de·


pressão dizendo que estava com Aids. a partir da constatação de
um problema ginecológico. Chorava multo e se achava plenamente
convencida disso. ·
Devo salientar que até hoje essa idéia de ser portadora de Aids
lhe ocorre, produz o mesmo quadro depressivo e isso acontece sem-
pre que vai para a cama com um homem.
. . ' ' '
. O relacionamento com os homens fora a fantasia com Aids
não chega a colocar pra ela alguma grande questão. As circuns-
tâncias com que vai para cama com eles não são muito complexas,
não lhe implica muito, nunca se apaixonou por nenhum. Tem medo ·
apenas da facilidade com que aceita suas propostas. ·
Quanto ao seu ex-marido, lhe desagradava muito a idéia de
ter outra mulher. Recusava-se a separar legalmente para não perder
o nome dele. Acha que ele teve suas razões, pois ela não ligava
para ele, não o valorizava e não achava um bom partido. Aliás é
a única coisa que fantasia em relação a um homem com quem
ficaria: rico, bonito, inteligente e branco.
Entre os homens com quem transou, encontra-se um bissexual
e um tio paterno, fato que ela relata sem muito realce.
Filha de pai branco, de olhos azuis com mulher escura, M. tam-
bém escura, embora bonita e sempre bem arrumada, nunca aceitou
essa idéia. Detesta seu corpo, sua co.r, seu cabelo, suas pernas,
seus seios, sua barriga. Faz ginástica, tratamento estético porque
diz que isso fará com que as pessoas lhe dêem. um reconhecimento.
Fascina-se por mulheres bonitas, roiras, olhos azuis, charmosas,
inteligentes e seguras de si. Segundo ata, a segunda mulher do
marido aproxima-se disso.
Depois de separada, embora tenha um apartamento, M. volta
para a casa dos pais. Tem dois irmãos (um alcoólatra e outro toxicô-
mano) e uma irmã a quem delega uma forte função de maternagem
para sua única filha de sete anos. Isso faz com que essa irmã tenha
uma forte ascensão sobre ela e sua filha e também ul]la relação
de grande dependência, apesar de sentir uma certa piedade por
ela: alguém que não trabalha, não f~ nada e se junta à mãe pra
fazerem carga ao pai, pelo fato dele ter outras mulheres. Diz que
na infância as pessoas diziam que elas eram homossexuais e faziam
par. O fato do pai ter outras mulheres não a aborrece muito, não
faz nenhuma crítica a ele. Durante muito tempo acha que estava
querendo transar com ele. Passa a ficar deprimida porque disse
q~e ele percebeu, adoeceu, e que iria morrer para culpa dela. Numa
v1agem de negócios que ele fez, tinha certeza que era pra fugir
dela.
Q~ando mais nova, durante muito tempo teve um relacionamento
de am1zade com uma mulher que depois soube ser amante do pai.
M. de Mulher - 7

Em relação à mãe muito pouco diz sobre ela. É alguém que


lhe desagrada muito, que faz parceria com a irmã para criticá-la
e constrangê-la. Acha-a desagradável quando bebe e tenta me pas-
sar a idéia de que se trata de uma alcoólatra.
Quando se acha que está muito mal, procura um psiquiatra
e toma ansiolfticos e anti-depressivos. As sessões de M. são sempre
carregadas de muita angústia.
Durante muito tempo fica presa de um discurso linear de que
as pes~as fazem isso e aquilo com ela ~e que se e.kpõe muito,
de que todo mundo percebe suas fraquezas, e principalmente porque
é homoSsexual.
Nesses momentos me solicita muito, pede conselhos, opiniões
e diante do meu silêncio fica a repetir pra si mesma certos manda·
mentps: eu devo ser assim, fazer isso, aquilo etc.
E muito ligada a livros, revistas e outros textos que tratem de
coisas do ponto de vista da psicologia.
De vez em quando, toma como exemplo algum personagem,
algum ator, artista etc, como modelo e ponto de refrexão para alguma
co1sa, ou como exemplo a esperança de que pode chegar até onde
fulana chegou. Depois de perfodos de tormenta M. se acalma, diz
estar bem com o fato de ser homossexual e que tem mais de aceitar
isso.
A ginástica pas_sou a ser prQblemática PQrque diz que o professor .
"vive a curtir" com 'a cara dela, porque já "descobriu" tudo.
Numa das últimas sessões diz ter feito durante o fim de semana
um curso sobre sexologia e a partir de uma conferência dada por
uma médica de nome Jardelina acha que não é homossexual, mas
tem uma conduta homossexual. Relata um sonho em que o professor
de ginástica tem relações sexuais com uma aluna, na frente de
todas como se fosse uma aula. Ato contínuo, me confessa que ultima-
mente deu pra se masturbar, fazendo a seguinte fantasia: um casal
tendo relaQOes sexuais, vê bem o pênis do homem penetrando na
mulher, mas não vê a vagina desta. Imagina que o homem está
dizendo algo para a mulher que ela não sabe bem o que é, não
consegue explicar, mas é Isso que faz a mulher gozar. E depois
que na fantas1a, essa mulher goza, ela também goza na masturbação.
Tem período que sua postura no divã tem algo de regressivo,
falando para a parede, riscando-a com os dedos, sempre falando
desdtl um lugar que me parece impregnado de imaginário.
As vezes fala de como também lhe perturbo. Tem medo de
olhar pra trás e ver minhas pernas. Diz que faço um tipo que agrada
homens e mulheres, me acha meio exótica no meu modo de vestir
e sempre procura imaginar onde compro minhas roupas para poder
comprar igual. .
O diagnóstico de M. me colocou muitas dúvidas. Durante um
~empo acreditei tratar-se de uma psicótica e ainda hoje quando suas
8- Jarde~na Barcellar

idéias de perseguição aparecem confesso que isso me volta ao pen-


samento. No entanto, ela própria se desmente e acha que seu proble-
ma é que não se aceita homossexual. De que se assumisse seus
desejos a vida lhe seria mais fácil.
Num outro período achava-a alguém inanalisável, isto é, alguém
que se daria melhor com outro tipo de tratamento que não fossê
a psicanálise. O recurso extremo que ela fazia ao imaginário me
fazia pensar que tinha limitações intelectuais. Ou seja, surgiu um
significante da transferência: M. era burra, significante esse tomado
emprestado do seu próprio discurso, chegando a me confundir com
as demais pessoas que participavam da queixa de M. •
_Quando aceitei pensar na idéia da histeria, ao mesmo tempo
que ISSO se tomava Claro, ao mesmo tempo me perguntava porque
demorou tanto eu poder pensar nisso. E me veio então a questão
da feminilidade e seu enigma.
Antes de M. dizer-se homossexual, algo da ordem do irreversível
tinha já se colocado para ela: a· falta radical do Outro. "uma falta
abissal, de uma palavra-ausência de uma palavra furo, perfurada
em seu centro por um buraco, deste buraco onde todas as outras
palavras teriam sido enterradas" 1 •
Diante do inominável, do fracasso de todas as suas tentativas
identificatórias, uma mãe que não lhe diz nada, uma irmã que se
deu pior na vida que ela, um pai que mesmo com outras mulheres
nunca lhe apontou em qual delas estava· seu desejo, um pai que
faz filhos homens alcoólatras, toxicômanos, filhas infelizes.,. que não ·
a faz semelhante às mulheres possíveis de serem desejadas, M.
escolhe uma identidade homossexual como seu úhimo recurso.
Ser homossexual para ser alguma coisa.
Acreditar-se homossexual é poder também tamponar e deixar
de fora, esse buraco, esse impossfvel de ser significado;·é (;9nfortante
acreditar que lhe basta apenas um significante: o signi~icante fálico.
E se impedir de ir adiante e defrontar-se com o impossível de res-
ponder.
A identificação do seu corpo feminino é "fundamentalmente frágil
e precária, sempre ameaçada de se romper numa hiãncia e sempre
expelimer)tada como algo surgido de um artifído'Q. Isso faz com
que para que sua im~ possa revestir e erotizar o Real do seu corpo.
ela encontre uma saída qualquer possfvel, mesmo que essa saida
seja "faça-se homem".
Tomando o caminho tão já conhecido pela Elizabeth V. R. ê
Dora, como o pai dessas mulheres, o pai de .M. é apontado corno
responsável, não ajuda em nada a assentar sua identidade feminina.
Sua insígnia paterna além da identificação fálica nada mais lhe
dá. Em relação ao desejo de M. pelo pai posso pensar duas coisas:
ou este desejo de querer ter relaç6es com o pai é o seu último
recurso de fazê-lo potente, eficaz, é pedir-lhe um olhar que reconheçé:l .
M. de Mulher - 9

em algum lugar do seu ser uma palavra que lhe nomeie de mulher,
ou esse pai branco, de olhos azuis encama ele próprio a condição
de uma posslvel feminilidade, seu mistério, como as mulheres que
ela denomina como realmente mulheres.
t.acan3 nos diz que uma identificaçâo imaginária s6 se fi_xa co_mo
semelhança do sujeito se puder se apoia~ ~bre um traço,stmbóhco,
" traço unário", espécie de significante m1n1mo que o SUJeito apanha
do Outro para arrumar sua identidade.
Como a função da brancura da Sra. K para Dora, as pernas
perfeitas, os seios firmes, de uma mulher, em a~um luga~ do seu
corpo, oo seu ser se anuncia para M co.mo um Outro ef1caz que
4
lhe aponta o significante impossíve1" • •
A demanda que M. faz à analista é a demanda d~ avalizar
essa identidade, é de que eu assine em baixo no papel que ela
me apresenta onde no lugar do sexo: nem homem, nem mulher,
mas homossexual. Demanda esta que uma médica, com o mesmo
nome da analista recusa bruscamente e que lhe faz dirigir seu trata-
·mento sob o comando da s~ulnte questão: "Se eu não sou homos-
sexual, quem sou eu, Meu Deus?".

Notas
1 DURAS, Marguerine - O deslumbramento de Lol Stein - Editora Nova
(Fronteira, 1984) -
2 SERGE, André - O que quer uma mulher?- J. ~har Ed i~or. - 19~7
3 LACAN, Jacques - A significação do falo - EscritoS - S1glio VeltiUno
Editores S.A. livro 2
4 SERGE, André -O que quer uma mulher? - J. Zahar Editor 1987
A INSATISFAÇÃO HISTÉRICA
Nora Gonçalves

"Não há felicidade que do falo".


Esta frase de Lacan, que ele tira de Freud está no Avesso
da Psicanálise -Sem. de 11 de fevereiro de 70- remete à questão
da inveja do pênis e conseqüentemente às suas manifestações como
resposta frente à castração.
Lacan diz que Freud nos revelou isso extrafdo do sonho da
histérica - A bela açougueira- seu sonho está descrito no cap.
IV da Interpretação dos Sonhos. A bela açougueira, que já tinha
um conhecimento prévio do saber de Freud. seu mestre, sonha sob
transferência, que não realiza o próprio desejo, contrariando as leis
de Freud.
"O senhor sempre me diz, que um sonho é um desejo realizado.
Vou narrar-lhe um sonho no qual um de meus desejos não foi realiza-
do. Como o senhor enquadra isso em -sua teoria"? .
A paciente de Freud narra o sonho: queria dar uma reunião
onde fosse servida uma ceia, mas não tinha mais nada em casa
senão um pequeno salmão defumado. Pensei em sair e comprar
alguma coisa, mas me lembrei que era domingo de tarde e que
todas as casas comerciais estariam fechadas. Em seguida, tentei
telefonar para alguns fornecedores, mas o telefone estava defeituoso.
Assim, tive que abandonar meu desejo de dar uma recepção.
Apresentado na Reunião C/lnica da CF no m~s de agosto de 1989
12 - Nora Gonçalves

Como Lacan diz na Direção da cura: "o desejo de nossa espiritual


histérica, falo de seu desejo de vigília, desejo de caviar. é um desejo
de mulher preenchida e que justamente não quer sê-lo; pois o açou·
gueiro de seu marido sabe bem colocar no lugar das satisfações
que cada um necessita, os pingos nos is. Eis aí um homem que
uma mulher não deve ter do que se queixar, um caráter genital...
Acontece que ela não quer ser satisfeita em suas únicas verda-
deiras necessidades. E isto não diz tudo do seu mistério. continua
Lacan. Muito antes desse impasse fechá-la, ela enCO!ltra aí a liberda-
de, a liberdade dos desejos de todas as espirituais histéricas, açou-
gueiras ou não, que há no mundo.
Ser o falo, ainda que fosse um falo um pouco magro.
Não estará aí a identificação última com o significante do desejo?
O desejo se produz no além da demanda. pelo fato de que
articulando a vida do su;eito as suas condições, ela aí poda a necessi·
dade, mas também ele se cava no seu aquém , no fato de que,
demanda incondicional da presença e da ausência ela evoca a falta
a ser ...
Freud foi aos fatos ... e chega numa questão crucial... a paciente
era obrigada a criar um desejo não realizado para si própria na
vida real. quer dizer, a manter seu desejo insatisfeito.
O portador do falo. como expressa Lacan, com sua própria pre·
sença reaviva essa privação, assim como são vãos seus esforços
para acalmar esta ferida.
Lacan entende a partir disso que a histérica simboliza esta insa-
tisfação primeira, a promoção do desejo insatisfeito.
A beta açougueira tampona dessa forma sua insatisfação pe-
niana.
Serge Cottet diz que o que permite o laço social do discurso
da histérica é a insatisfação. O que as histérica têm em comum
é uma espécie de paixão pela falta de gozar:
Um Caso

Uma paciente veio ver-me por uma insatisfação generalizada


em sua vida, "em todos os nlveis", como ela expressa, não se sentin-
do capaz para nada e com um sentimento de vazio, de ·descrédito
pela vida que ela exprime de várias formas desde um "viver um
dia depois do outro, cumprindo tarefas ou "fazer de conta que me
interesso pelo meu trabalho".
A Demanda
Essa demanda que chamarei de demanda de socórro da pacien-
te , de melhorar seu desinteresse e sua insatisfação é bandeira de
um sujeito histérico, marcado por sua divisão.
A insatisfação histérica - 13

Nãu ·digo demanda de análise, já que essa demanda deve sofrer


uma mudança, sob transferência.
A verdadeira demanda oomo Lacan traz, é reconhecer um sinto-
ma anaiRico - é ficar o sintoma preso na transferência. A paciente
pergunta: "o que você pensa disso?" O que me faz pensar que
ela dirige-se ao Outro na intenção de recobrir o buraco de seu desejo.
Tudo gira em tomo da insatisfação. O que dizer desse sintoma
nas primeiras entrevistas?
Um Sintoma

ApóS algumas entrevistas a paciente parece ter achado um nome


para seu sintoma "Descaso"- "um nome para mim" - ela diz.
Ela atribui seu descaso à ~ própria criação, ao fato de não
ser desejada pelos pais e ao fato da maneira como ele era oom
os filhos - ausente - "sem causa". Tomo descaso como uma
-constituição significante do sintoma.
A partir disso a paciente muda em relação a seu próprio trata-
mento, ela diz no fim das sessões: "Você me faz falar mais" ... e
invariavelmente durante as sessões em geral pergunta - "De que
me serve falar <issO?''
O sujeito enquanto histérico, põe o signicante mestre em ques-
tão. Milfer aiz que e1e vai buscar o mestre para demonstrar-lhe que
a partir de sua própria posição de falta a ser, é mais potente que
o próprio mestre.
"De que me serve falar disso"? é uma pergunta que espera
uma resposta do Outro, espera ajuda. Ao mesmo tempo a histérica
demoAstra ao mestre ser ele incapaz de fazer qualquer coisa por
ela. ·
O sujeito do inconsciente aparece af no descaso ao qual a pa-
ciente foi submetida e que agora reproduz, S, na sua falta de credibi-
lidade em si mesma. em seu trabalho, em sua análise.
A pergunta da p~ciente sobre a causa disso tudo, de seus sinto-
mas, começa a Se-organizar como demanda de produção de saber.
E um trajeto que se confirma af, por referência a um saber
Outro. Essa referência a um saber Outro, já constitufdo, faz do sinto-
ma da paciente um sintoma analisável, CUJO sentido se pode decifrar.
A Fantasia

A paciente relata uma cena infantil, aparentemente sem nenhu-


ma emoção, ligada à cadeia associativa, ao contexto da sessão,
por essa frase, "minha mãe não era totalmente indiferente". Uma
~surgida do n~;· uma lembrança de infância. matriz de uma
fantasia; "Eu deitada· na cama de barriga para cima, meu irmão
por cima de mim, minha mãe olhando da porta ... "
14 - Nora Gonçalves

A paciente aparece na posição passiva, nesta cena, sem nenhum


consentimento. Não que não esteja ali - mas está sem desejo.
Sem desejo é como ela denomina sua vida sexual. Tem seu
tempo- o marido tem que esperar. Não quer nenhuma abordagem
sexual - rejeita. Nenhuma indicação de um querer endereçado a
ela.
Podemos dizer que não aceita ser objeto de desejo e como
sujeito é sujeito desejante de nada.
Um sentimento de vazio a persegue - "estou vazia" - porém
o que chama a atenção é que qualquer tentativa de significação.
faz a paciente recuar. Ela diz: " Não é isso" - A verneinung -
como sujeito a histérica põe sempre uma marca de negação no
dito. Ela é o próprio sujeito do inconsciente. Sua relação com o
desejo aparece de forma a não poder aceitar o desejo sem a marca
da negação sobre este. O sujeito histérico tem dificuldade com um
significante que a determine- você é tal coisa.
Há algum tempo atrás, alguém leu as cartas para ela e disse
que ela era fria sexualmente e oomplicada. Pode-se pensar hoje,
aprés-coup, que isso foi um fator desencadeante que a fez procurar
análise - estar petrificada sob esses significantes, determinada.
Um outro fator desencadeante foi um episódio acontecido há
algum tempo atrás, onde a paciente, longe de seu marido experi-
menta levar uma vida de prazer, sem limite, sem repressão e sem
dar satisfação a ninguém .
Esse afastamento do marido e da famnia. afastamento geográ-
fico, segundp ela, permitiu-lhe agir como se fosse outra pessoa sem
oompromisso nenhum e sem pensar absolutamente nada.
Hoje pensa se foi ela quem fez aquilo tudo.
"Fiquei muito culpada e depois resolvi botar uma pedra em cima".
J.A. Miller diz em C. S. T. que a entrada em análise é motivada
por um abalo da rotina de que se entretém a realidade quotidiana
do sujeito. Onde há entrada há um encontro com o Real A entrada
em análise invariavelmente indica um golpe desferido na segurança
que o sujeito encontra na fantasia, que constitui a matriz de toda
significação a qual ele tem acesso normal.
A insatisfação é uma questão estruturante do sujeito histérico.
"Não sei o que sou, não sei o que quero" - são frases as
mais comuns na análise desses sujeitos.
O sujeito histérico tem uma postção de não poder possuir um
saber- esse "não sei" , sentimento de que lhe é proibido ter um
saber. lhe é proibido se apropriar do falo, poderfamos dizer. lacan
fala de privação no Avesso da psicanálise.
A apropriação do falo diz respeito a uma questão de direito
oomo traz J.A. Miller no seu seminário em Curitiba - Falo 2. Ele
diz que uma questão fundamental do sujeito em análise é : a que
coisas tenho direito? Isto é debate neurótico. Vê-se que um neurótico
A insatisfação histérica - 15

pod~ recusar-se a abandonar as coisas q.ue. o impedem de _goz~r


porque inconscientemente ele não tem d1re1to a ISSO. Na história
da humanidade tem-se constituído uma questão: a que uma mulher
tem direito? A isso Freud chamou penís-neid. Há em torno d~ falo
a radiância do privilégio e há também a questão da ausênc1a de
direito do lado feminino. . .
·A histérica é basicamente aquele sujeito que não tem d1reito
a gozar de algo que não é sua propriedade. .
Há uma questão na minha paciente de que não pode usufruir
do dinheiro do marido porque não é seu, não lhe pertence- não
tem direito. . . . _ pod
A ética da histérica é a da privação. Esse SUJeito, nao e
sustentar seu desejo senão em forma de insatisfação.

REFER~NCIAS

J. Lacan - Sem. · L'envers de la psychanalyse - 11 de fevereiro de


1970 - Seminário inédito
S. Freud - A interpretaçao dos sonhos - cap. IV - vol. IV - Edição
Standard Brasileira
J. Lacan - La direction de la cure et les príncipes de son pouvoir Écrits,
p. 585 - Editions du Seuil, Paris . _ . _
S. Cottet - A histérica e o mais-de-gozar - Transcnçao 4- Pubhcaçao
da Clínica freudiana •
J . A. Miller - c. s. T. - Irma Clfnlca lacaniana - Jorge Zahar Editor
J. A. Miller. - Seminário em Curitiba - .Falo 2 - Editor~ Fator . .
J. Gerbase - Supereu feminino - "A Etica da Psicanáltse: suas madên- ·
cias clínicas" volume do 11 Encontro Brasileiro do Campo
freudiano
c. Soler - Finales de analisis- L.:a elección de la neurosts - Manantial
INTERVENÇÕES

A CLÍNICA DO REAL
Colette Sofer

Para falar é necessário definições: o Real é o nome que Lacan


dá ao Outro do Simbólico.
O SimbólicO não tem uma definição unívoca.
Eu dizia que o Simbólico não tem definição unfvoca, tomando
uma das mais simples, das mais evidentes: o Simbólico é o que
permite fazer sentido. O sentido, no fundo, é o que responde à
questão: "o que é que quer dizer''. Isto nos dá uma definição simples
do Real - o Real é o não-sentido, "non-sens".
Lacan nos diz que seu ensino começou com a consideração
dp Real, e ele disse tsso em 1971 - no seu seminário " ... ou pior'',
livro 19. Isto pode parecer surpreendente, pois a idéia corrente era
de que ele começou pelo Imaginário, mas ele considera ter começado
pelo Real. Eu creio que é verdade se vocês tomam em consideração
que em sua tese, que é sua primeira obra importante, sobre as
psicoses, efetivamente Lacan aborda o fenômeno da loucura, como
vindo do Real no sentido do não-sentido. O sem sentido é relativo
ao sentido, não é absoluto; o não sentido é diferencial em relação
ao que se compreende.
No seu texto sobre a "Causalidade Psiauíca" Lacan foi muito
longe, porque ele falava, retomo à página 167 dos Écríts, da Psico-
logia como o domfnlo do sem-sentido. Ele é bem preciso, quando
fafa do Simbólico: " Em uma Antropologia onde o registro cultural
no homem if1clui, como se deve, aquilo do natural", eu sublinho:
18 - Collete Soler

o cultural produz o Simbólico, inclui o natural, "onde poderia definir


concretamente a Psicologia como o domínio do insensato ... "
De outra forma, está situado num texto que no início do ensino
de lacan parecia merecer Interesse, que o Real é o que resiste
a entrar no campo Simbólico, o que resiste a se reduzir. Isto é só
a partida, Q começo. O fim do seu ensino é quando ele se serve
dos .nós borromeanos. quando ele faz o Seminário sobre Joyce -
O Stntoma, retoma esta mesma definição do Real e diz: o ejetado
do sentido. ·
O Real do qual se ocupa a psicanálise é do domínio do não-sen-
tido. Mas qual não-sentido?
A ciência também se interessa pelo não-sentido. A ciência prece-
~u a psic~nálise. A verdadeira ciência, a física. Pode-se dizer que
tsto se deftne pelo fato de ter esvaziado o mundo do qual ela se
ocupa, ter esvazido o mundo do seu sentido. Ela conseguia isso·
pode-se dizer, no fundo, que ela opera com um Real puro, que lacM
reduz ao número, após toda uma evidência. Há ejeção de toda com-
preensão da ciência, no sentido em que existe uma questão que
o. homem da ciência não se coloca jamais. O que é que isto quer
dtzer? O que é que isto significa? Qual é a situação? São muitas
as questões que estão ejetadas da problemática científica.
Para a matemática, que não é uma ciência propriamente dita
é um instrumento da ciência, faz muito tempo que se percebeu que
~la se definiria pela ej eção do sentido. Russel notou que na matemá-
ttca não se sabe de que se fala, nem que o que se diz tenha algum
sentido.

A ci ê~cia J?fecedeu a _psicanálise em consideração ao Real,


mas a pSicanálise não se Interessa pelo mesmo ~sentido. Ela
se interessa por aquilo que concerne ao sujeito, ou melhor dizendo,
o fala-ser; o fala-ser é uma condensação entre o falar e o ser enquanto
isto reúne o sujeito, o sujeito que não é um vivente. é um efeito
do significante. Isto quer dizer então que este sujeito é o que lhe
resta de vida. O Real que interessa à psicanálise é o Real do fala-ser.
Isto é uma particularidade que o diferencia do Real da ciência porque
é um Real que se sofre, de que se padece. É um Real do qual
se padece, que não dorme, não deixa o sujeito tranqüilo. Então,
o Real de que se fala no mundo físico, se não se vat procurá-lo,
ele não lhe procura.
Diria que há um Real do qual se sofre, é o Real desde uma
entrada na psicanálise, numa psicanálise. Pedir uma psicanálise é
fazer uma demanda a partir do sofrimento, a partir daquilo que não
se tert:J..Evidentemente, não importa que pedido. se faz uma demanda
ao ~u1e•to suposto saber. A entrada na psicanálise é uma demanda
particular, é t~r um Re!il como causa, sob a forma muito simples
de alguma cotsa que nao está completa. de alguma coisa que não
anda. A demanda em análise é uma demanda que tem o Real como
causa e o Real toma forma daquilo que não está indo bem, então
o suj~ito sofre. .
E uma questão de saber, se se pode engajar numa psicanálise
aquele que não sofre. É possível isso? Isto existe? Não é necessário
que todos sofram igualmente. de forma s~me l hante. Existem estilos
de sofrimento diferentes., que fazem às vezes, determinados tipos
de sujeitos não conhecerem outros tipos diferentes. Por exemplo
o sofrimento do sujeito histérico não se parece, de forma nenhuma.
ao sofrimento do sujeito obsessivo. O problema é aquele do sujeito
que diz que tudo vai bem. Recebi uma demanda de análise de alguém
que diz que não está bem e que tudo vai bem; é o que lhe chateia.
Eu o aceitei. apesar disso, porque é necessário que exista uma
saída, mas não se conseguia. E verdad4t que é um problema, o
que significa o sujeito dizer que tudo vai bem. É o sujeito que conse-
guiu se constituir num sintoma que o satisfai. Evidentemente. que
um sintoma que se satisfaz coloca problémas para se fazer uma
psicanálise.
O Real que leva à análise é aquele ..que toma forma de um
tormento, que não lhe deixa em repouso. Vocês vêem que coloco
sempre no plural/falando do Real da ciência, da psicanálise, da
entrada na psicanálise. do Real da salda. Então é um Real plural.
Lacan mesmo disse: do Real nós só terno~ pedaços, isto quer dizer
que o Real do qual nós .falamos é já um, Real elaborado, não é
um Real dentro d~ toda elaboração, é já um Real tomado na elabo-
ração simbólica. E um Real além da própr1a ~lidade. Poderia fazer
um pequeno desenho: . ,

Real .•- Rea~daóe - Real

Partamos da realidade; o que se chama de realidade é já elabo-


rado. A esta realidade podemos situar um Real aquém. do qual
não se pode nada dizer. Reduzir à idéia de que iá existe alguma
coisa é de certa forma uma idéia filosófica de Real. O que nos
interessa se situa além da realidade. É por isso que Lacan pôde
dizer que a ciência está além da realidade, isto quer dizer que a
ciência procura extrair da realidade o que vale para o Real. nesta
realidade. A pstcanálise também não se ocupa da mesma realidade.
ela se ocupa do que Freud chamoü de realidade pslquica.
"A psicanálise, joga n'outra realidade que não é. a realidade
da ciência". (É uma citação de Lacan) ; em outro Real que faz neces-
sário precisarmos relações entre a psicanálise e a ciência e que
não é meu objetivo hoje. Darei simplesmente a direção: a tese de
Lacan é que elas tem o mesmo sujeito. o sujeito da psicanálise
é o sujeito da .ciência como se escuta. Pode se entender assim:
para as duas é um sujeito reduzido à articulação significante S 1
-+ S2, o mesmo sujeito não é o mesmo Real. É necessário ver que
20 - Collete Soler

existe um problema do Real na psicanálise. Por que? Porque a


psicanálise opera pelo sentido, ela opera pelo fazer sentido, isto
quer dizer que uma psicanálise tenta dar, a um sujeito analisando,
o sentido daquilo que lhe chega.
Tentar sacar. construir mesmo uma resposta à questão: "O que
é que quer dizer"? Até todos os avatares do que lhe acontece. É
para isso que o sujeito suposto saber serve, isto é, para dar sentido
ao sem-sentido, de uma maneira precisa, achar o sentido do mestre.
Eu cito Lacan em 1972: ''uma psicanálise entrega ao analisando
o sentido do seu sintoma". Dito de outra forma: na medida em que
a transferência tem o sujeito suposto saber como pivô, a transferência
é uma tentativa de devolver, para reduzir o Real dentro do Simbólico,
fazer passar do Real ao Simbólico. Notem bem que a transferência
é o contrário do desejo de saber. A transferência é o equivalente
do nada querer saber do Real, é uma tentativa justamente para
cobri-lo de sentido. A associação livre é mais ou menos isso, esquecer
o Real, fabricando cadeias de significantes que são cadeias de senti-
do. Existe uma questão que é saber se o trabalho de uma psicanálise
não se reduz a uma grande construção imaginária, a uma forma
de delfrío de convicção. Porque no início de uma psicanálise, como
diz Lacan, o sujeito crê no seu sintoma, é lindo como definição.
O sintoma, se crê nele. Crê-se nele porque se pensa que isso diz
alguma coisa. E na sua psicanálise. o sujeito tenta dizer o que é
que isto diz. O analisando, no fundo do seu sintoma, constrói uma
ficção. É uma experiência corrente, dentro da psicaná~se, que exis-
tam efeitos de evidências, efeitos de convicção. Em momentos que
o sujeito se diz: veja eu realizei, eu cornpreend~ eu percebi finalmente,
podemos resumir tudo isso dizendo que há efeitos de verdade. I)
grande questão é saber qual é o Real nos efeitos de verdade. E
uma questão essencial porque os efeitos de verdade, que são efeti-
vos, em psicanálise, são evanescentes. Um efeito de verdade apaga
um outro. E um efeito de verdade se esquece; pode-se guardar
a lembrança, pode-se lembrar de ter tido uma iluminação. mas o
resto é perdido.
Então rest~ a questão, a saber, se a psicanálise não é um
delírio a dois? E uma questão que de toda forma, se deve colocar.
Nosso problema é saber o que vale como Real nos efeitos da verdade.
Neste sentido nos temos uma série de aforismos de Lacan;
vocês os conhecem, e eu posso evocar alguns:
1. "O Real é aquilo que retoma ao mesmo lugar".
2. "O Real é o impossível".
3. "O que é foracluído no Simbólico retoma no Real".
Eu posso tomar este terceiro. Isto pode nos interessar no que
diz respeito à psicóse. Quero fazer alguns comentários sobre os
aforismos de Lacan. O aforismo é aquilo que ao nível da palavra
chega a fazer Real. Isto quer dizer, que um aforismo pode se escrever
como um S1 - um significante sozinho. Por que? Porque o aforismo
A clínica do Real - 21

não é dialético, não leva a um outro aforismo. Em geral o aforismo


é uma forma condensada que é suficiente a si mesma. Dito de outra
forma, é uma proposição não dialética, pois a dialética sempre supõe
remeter ao outro termo.
Então, o aforismo vocês podem comentá-lo, explicá-lo e repeti-lo;
podemos fazer estribilhos, refrões. Pode-se fazer refrões, o que se
repete no ensino de Lacan. Em todo caso: comentar, explicar, ou
repetir o aforismo fica tal qual ele mesmo. Neste sentido o aforismo
é um osso para o pensamento. É um tipo de holofrase teórica. Dito
de outra forma: quando se faz o aforismo, tenta-se, com o símbolo,
~ter .o gu~ Lacan diz: fazer peso do Re~t. Isso já nos dá uma
pnme1ra 1déta do que é o Real dentro do Simbólico. Isto quer dizer
um elemento a-dialético num campo que se define totalmente
dialético. Neste sentido, eu gostaria de sublinhar a lógica dos aforis-
mos de Lacan: eles são construídos, eles tem o ar imperativo. O
Real é o impossível - a primeira vez que se escuta isso não é
muito evidente, não é muito claro, de toda forma é construído de
forma. simples.
O Simbólico, a lei do Simbólico é dialética- é a lei do deslocamento,
Freud assim o chamou, quer dizer, vocês tem um elemento que
supõe um outro, assim em seguida. Dito de outra forma: no Simbólico ,
desde que vocês colocam uma afirmação, imediatamente vocês po-
dem compensá-la, contentá-la, completá-la - não se é completa·
mente seguro com o Simbólico, se é meio seguro, é sempre um
a menos. é necessário que se acrescente alguma coisa. Oito ainda
de outra forma; o campo do simbólico é o campo do deslocamento.
Donde, na fórmula de Lacan. o Real é o contrário; é aquilo qu~
não se desloca, está sempre no mesmo lugar como definição. E
construído facilmente como o negativo da dialética do significante.
Bem entendido, Lacan que é um homem de grande cultura tem
referência que o Real retoma do mesmo lugar, pode evocar Aristó-
teles. Era Aristóteles quem identificava o Real com a esfera celeste.
Apesar desta construção, desta definição, que é bem uma cons·
trução dialética, é o negativo do simbólico. Logo, o Real é absoluto
e o Simbólico é sempre relativo e vocês ouviram dizer que a fantasia
está no lugar do Real. Isto é surpreendente à primeira vista, porque
se tem a idéia de que a fantasia é Imaginária, que é verdade que,
no nível do fenômeno, fantasiar é imaginar.
Lacan diz: a fantasia é Real ; é em nome disso, que o sujeito
imagina sempre a mesma coisa. Dito de outra forma; é que se encon·
tra a significação absoluta. O que é um paradoxo porque toda signifi·
cação é relativa sempre. Quando se encontra uma significação fixa
que não muda, que evoca em todas as condutas do sujeito, uma
significação que parece absoluta e não relativa, ela é equivalente
a um Real. Da mesma forma no Simbólico vocês tem uma lei de
,...mudança. Falei dos deslocamentos, de relatividade, e agora. uma
22 - Collete Soler

l~i de mudança ~om uma temporalidade de remanejamento, retroa·


t1va. mas pouco tmporta, por agora, que ela seja retroativa. De início
L~ca~ vai <:fizer, .que o instante e a pressa, que são temporalidades,
nao tao en1gmat1camente, funcionam na base do tudo ou nada são
bem a t9f'('lporalidade do Real. Então vocês vêem como os aforismos
d~ L~can ~~o co~struídos. Resta-nos o último: "O Real é o impos-
SIV~l . A,qu1 tam~em existe um modelo, não de Aristóteles mas da
lóg1ca. E na lóg1ca onde se pode definir o Real. Pensem que o
Real está esperando quando se objetiva a impossibilidade de escri-
tura de alguma.coisa. Lá há alguma coisa que não entra na dialética.
No fun~o o Real.é o impossível de fazer passar os efeitos de verdade,
~mposs!vel fazer passar ao Simbólico. que vocês tomem isso como
1mposs1.v~1. a dizer, como im~ssível a escrever, isso faz diferença,
mas a 1de1a que é comum, e que é o que resiste à Simbolização.
Vamos chama-lo Real, vocês verão que o Real é o impossível, o
Real sempre no mesmo· lugar é um Real sem essência. Quer dizer
que é um Real que não se sabe o que é, fala-se sem dizer o que
é. .
Um Real sempre no mesmo lugar, um desenho num pequeno
qua.drado para e~phcar~ um lugar. Tudo que eu sei é que este Real
esta .sempre lá; 1slo nao quer dizer o que é que ele é , isso não
me drz qual é a sua natureza.
· Um Real impossível a dizer, a escrever ou a tomar verdadeiro
se define unicamente por um impedimento. '·
Se eu Sirl)bolizo .a operaÇão de simbolização por uma flecha,
o. ~eal c~mo ~mposs1v~l é quando se esbarra com uma impossi-
brhdade._lsto nao nos dtz também qual é a natureza deste real.
. En!ao o Real ~e~pre no mesmo l~gar ou, o Real como impos-
Sivel, sa~ ~uas defm1ções do Real correlatas ao Simbólico. Porque
para def1n11 um lugar é necessário 10 Simbólico; no Real puro não
há lugar. E necesSário o Simbólico para desenhar um espaço. Da
mesma forma, para chegar· ao obstáculo da articulação é necessário
também o Simbólico.
. O Real como impossível é quase homogenizado com o Simbó-
lico, ym Real que se demonstra. .
E v~rdade que isto não é todo o Real. Eu gostaria de lhes
dar uma peque~a escrita q~:~e m~ pare~ bastante esclarecedora.
Escrevo aqu1, digamos, a Slmboltzação, 1sto quer dizer: So. Com
esse pequeno zero, eu designo a cadeia significante que é também
a operação de passagem ao significante. No fundo existe um Real
que situamos na mesma linha como obstáculo, ou como sempre
no mesmo lugar, na dialética. Evidentemente existe um outro sentido
é o Real que se pode chamar de significável, o Real no lugar de)
referente. .
O significáve~ é e~iden_te~te t<?da u~a outra coisa que é o
R~al com traço stmbóltco, 1sto e. murto ma1s próximo daquilo que
eXISte.
A clfnica do Real - 23

No fundo o impossível a suportar. (Lacan transfere seu termo


de impossível sobre este Real a significar). Isto não é um Real que
se possa demonstrar.
Existe um Real como possível a suportar, do qual não se pode
dizer que ele é a causa da significação.
Ele é aquilo que comanda, que exige de qualquer forma a coloca-
ção em palavras, essencialmente. como causa da significantização.
O que é o mais fundamental à vida - é o fato de ser vivo e, de
fato, o fala-ser está embaraçado com sua vida, com seu sexo tam-
bém, mas antes mesmo de embaraçar-se com o sexo é embaraçado
com sua vida. É por isso mesmo que ele começa a se perguntar:
por que se está aqui? Por que se nasce? Uma questão assim: por
que. então eu. nasci? Desta forma se pode dizer o que é o Real
como causa. E a exigência de fazer passar a estúpida existência
elevada ao Simbólico e lhe dar, assim, o sentido. O contrário, o
Real como obstáculo à simbolização, é o que faz a rutura. Então
temos um circuito, ou então um duplo movimento: um que vai do
Real em direção ao sfmbolo procura reencontrar um Real que coloque
fim ao infinito oossível da cadeia significante.

R-+S -+ R
Estes dois movimentos, naturalmente, estão presentes na psica-
nálise. Quer dizer que existem duas grandes questões, ou seja,
oomo levar o Real ao Simbólíco, e também como empurrar o Simbólico
àquilç que ele reencontra no Real.
E bem porque a psicanálise é uma prática inteiramente simbólica .
Mesmo que não exista um elemento inteiramente Simbólico na psica-
nálise, ela opera pelo Simbólico; aí existe a questão de saber se
não é um delírio. Por isso Lacan se interrogou muito sobre o Real
que se pode atingir pela operação do sujeito suposto saber.
Existe uma clínica do Real, por um instante estamos seguros
de· que a psicanálise seja uma, ''Por um instante'' é puramente retó-
rico, dentro da minha exposição, porque a tese de lacan é que
a psicanálise deve chegar ao Real, mas o que é certo é que existe
uma clfnica do Real fora-da-transferência. Gostaria de dar um exem-
plo do seu Joyce e o Sintoma, enfim, é a tese do seminário, é
o sintoma inanalizável, não é o sintoma analítico, não é o sintoma
correlato ao sujeito suposto saber; é um sintoma totalmente insufi-
ciente, não faz apelo. -

Lacan vai colocar o diagnóstico de psicose, mas trata-se da


clínica fora-da-transferência. Joyce nunca escutou o que ele disse.
Nós temos outro exemplo em Freud, com Schreber, cujo texto
é uma clínica fora-da-transferência. Como por acaso, são dois psicó-
ticos, certamente não equivalentes. Não é somente na psicose que
encontramos uma clínica fora-da-transferência, existe também em
24 - Collete Soler

relação à perversão. Eu suponho que vocês conhecem o livro de


Kraft-Ebing, é bem um livro sobre a clínica fora-da-transferência .
Quando Lacan escreve sobre Gide, trata-se também de uma clínica
fora-da-transferência, a clínica do sintoma perverso, tanto que ele
apresenta um gozo que não é correlato ao sujeito suposto saber.
Toda a clínica do ato: o ato é um limite da experiência analítica,
os exemplos mais puros do ato são o suicídio e o crime porque
são sem retomo, não se pode corrigir o suicídio nem o crime. Pode-se
arrepender quando se trata de um crime, mas o crime não se desfaz.
O ato, na medida em que é tudo ou nada, na medida em que é
incorrigível e, neste sentido, real, pode fazer uma clínica fora-da-trans-
ferência. Enfim, nos resta colocar ainda, dentro(jesta série a sublima-
ção, a sublimação notadamente artística, a criação de obra de arte.
Produzir uma obra de arte, vou apenas apontar, é produzir uma
ficção de gozo, mas escrevendo ficção como Lacan o escreve: ficção
no sentido fixação de gozo.

Fixação Ficção
Gozo
Nesta clfnica fora-da-transferência, clínica do Real, clínica do sín·
toma inanalizável, clínica do ato, clínica da sublimação, Lacan deu
o modelo do que deveria ser a clínica na saída da psicanálise. Isto
é necessário, tomar medida do que não é a análise infinita das
formações do inconsciente, porque vocês sabem, eu suponho, Lacan
termina por marcar o final da análise primeiramente pelo que ele
chama identificação ao sintoma.
Em segundo lugar, o fim da análise é o que ata o ato, especial·
mente, em sua forma particular que ele chama o ato analítico. A
psicanálise termina por este limite da experiência que é a "passagem
ao ato". Eu coloco aqui a "passagem ao ato" entre aspas, porque
não é a passagem ao ato que não quer nada saber, é uma passagem
ao ato condicionada por um saber. Este é um ponto que é necessário
ser desenvolvido. Em todo o caso, o que disse, a identificação ao
sintoma, o ato analítico, o terceiro que apresentamos e que é sur-
preendente. é a semelhança. O que me permite falar de sublimação
é que Lacan situou seu dispositivo no· passe. Ora. o passe é uma
incitação feita aos analistas a uma sublimação de saber, a uma
elaboração de saber, a uma invenção de saber sobre seu próprio
tratamento. o que faz que Lacan, nesta invocação. possa esclarecer
um termo que ele empregou num dado momento, aquele de contra-
psicanálise, nos anos de 1976/77. Ele deixou este termo, para surpresa
de algumas pessoas. Nota-se que psicanálise pode chegar a vir
a ser uma contra-psicanálise. O que se explica bastante bem pela
observação que ele acrescentou, que era necessário corrigir, que
era uma tentação da psicanálise a de dar a preferência ao Simbólico
A chrTtca do Real .. - 25

em tudo. Sua idéia era que no fim de uma análise. se se quer que
ela termine. é necessário dar a preferência ao Real, não em qualquer
momento, mas desde que o trabalho do sujeito suposto saber tenha
sido feito.
Retorno, então. às duas questões de há pouco. de início. O
trabalho do sentido chega a transformar o Real, isto é, a tomada
do Simbólico sobre o Real do sintoma, por exemplo. Existe um exem-
plo seguro desta tomada do Simbólico ~obre o Re~l . aqu!lo que
se chama de efeito terapêutico, e que cons1ste em dar fim ao Sintoma.
a fazer calar a queixa ou fazer mudar a causa da queixa,. o que
não é exatamente a mesma coisa. Fazer desaparecer o s~ntoma
e levar o sujeito a suportá-lo sem que ele desapareça, enfin:', as
duas formas de efeito terapêutico. Nós temos um exemplo na litera-
tura analítica. evidentemente existem vários, que, é o exemplo do
homem dos ratos, a obsessão dos ratos, no texto de Freud, em
suas cinco psicanálises.

Ratos ~ dinheiro - fezes - criança


Vejamos como a obsessão dos ratos desa~arece, porque no
caso do homem dos ratos. trata-se do desaparecimento de sua ob-
sessão. .
De início Freud vai decifrar o s1ntoma. passa-se do rato ao
excremento àntes do'excremento existe o dinheiro. Depo!s , l?~ssa-se
à criança, ào filho. O que temos aí é uma série de S1gn1f1cantes.
Quando se diz decifrar, quer dizer que. no fundo, se leva em conta
cada um desses significantes. um - um - um. (1_) - (1) - (1).
Estes uns, são uns de gozo~ o que é totalmente evtdente, no c~so
do homem dos ratos. No início, ele não sabe que goza, ~m segu1da
ele chega ao dinheiro mais próximo d~le, .ex~remento, e n.o .fundo,
quando se chega à criança, uma eqU1yalenc1a entre o SuJeito. ~ o
rato. Dito de outra forma, são tantos os nomes do gozo do SUJ9lto.
com exceção de que no início, ele pensava que o rato e r~_ o nome
do gozo, do gozo do Outro. ~ob a forma especial do cap1tao cruel,
dito de outra forma, de um pa1. . _
Esta cadeia é uma cadeia de significantes e, a dec!fraçao do
gozo veicula também um sentido~· at~ mesmo, ela ~e ~ecefra graças
ao sentido. Passa-se do rato ao d1nhe1ro pela homofoma ~os ter~os
em alemão: passa-se do rato ao excremento pel~ sent1do prec1so
que é o da sujeira e quando passa-se do rato à cnança é por out!o
sentido que é o de sua morte. Então. evidentei'T_lente. a constr.uçao
desta cadeia se faz pela cadeia de sent1d0, ex1ste uma cade1~ ~e
sentido. de número. que em último termo conduz a que o SUJeitO
se conheça nesse gozo, que ele P.erceba que trata-se de seu gozo.
Freud insiste muito sobre este ponto, que é s~mente ,no mo":lento
em que ele faz seu quarto termo, que o rato e ta~bem a cnança
suja que foi 0 homem dos ratos. que sua obsessao desaparece.
26 - Collete Soler

Ele insiste muito em que, no início, a série, interessava ao sujeito,


mas nada mudava e que a mudança apareceu, propriamente, quando
o sujeito pôde falar e se identificar com este rato. O que é uma
operação oàmo esta? Pode-se dizer, de infoo, que isso deriva do
gozo, deriva-se de uma cadeia, posto que, de maneira clara. se
faz passar de uma palavra a outra, de uma representação a outra.
Mas pode·se dizer também, que esta elaboração é uma redução
do sem-sentido, porque esta obsessão dos ratos, verdadeiramente
sem-sentido, no início, toma sentido para ele. Então, quando vocês
lêem o texto de Freud compreendem que o rato é SUJO, e que isto
evoca evidentemente o excremento, sua morte, sua malvadeza etc.
Tem-se, então, um exemplo simples, bastante limitado, da tomada
de um Real como o sem·sentido. O sem-sentido do gozo, faz passar
em parte ao sentido. Isto, eu diria, que não é duvidável na psicanálise,
que uma parte chega-se a elaborar do Real ao Simbólico. Evidente-
mente, o problema é que o sintoma neurótico não é completamente
Real. Pode-se dizer que na entrada, ele funcionou como Real, tem
função de Real, no sentido em que se coloca através do Real. Entre-
tanto, tendo acontecido o recalque, pode-se dizer também que o
sintoma é, como dizia Freud. uma mentira. Lacan não diz mentira,
ele diz, o sintoma é um "pisar em falso" (être-faut). Em francês
obtém-se um jogo de palavras quando a operação é falsa. que na
origem significa queda. Existe um jogo de palavras, que o "pisar
em falso" de Lacan faz eco à tese de Freud de que o sintoma
é uma mentira. Isto quer dizer que ele é do Simbólico. Vocês conhe-
cem o exemplo de Freud, do que se chama " proton-pseudos", o
exemplo da histérica que não pode entrar na loja. do qual dou apenas
o esquema. Existe de início o sintoma, este sintoma é feito de um
medo de entrar numa k)ja. Digamos que isto seja o significante:
existem duas partes no sintoma, um afeto, que é o medo, fixado
a uma situação dada, que simbolizamos por um significante. Que
faz Freud com este exemplo? Ele se apercebe que esta loja logo
remete a outros tipos de lojas, a outros episódios em duas lojas
sucessivas, isto é, atrás de uma cena ele encontra uma outra que
vai se escrever como S3 ou seja, S1 S2 S3. Esta cena S3, é uma
cena onde a paciente foi seduzida por um homem. digamos que
foi uma cena de gozo, uma cena de gozo originária, So.
Por que Freud diZ que o sintoma é uma m~ntira? Porque ~~~
considera que o verdadeiro é o que está atrás do smtoma, é a partiCI-
pação deste suieito na cena de gozo, do início, e q~e o desloca.mento
sobre outras cenas. no fundo, só faz nos desp1star e desp1star a
paciente dela mesma, e nos distanci~r daqui!~ que consti~ui a vertente
do sintoma. O que ele chama ment1ra do s1ntoma, é samplesmente
o deslocamento de significante, a partir de uma cena, que não é
feita senão de significantes, que inclui uma coisa totalmente diferente
que é o gozo da paciente.
A clinica do Real - 27

Então, eu digo que, retomando o sintoma neurótico, !Vê-se bem


que o sintoma neurótico é um duplo, é uma coisa que Mo é nem
verdadeira nem falsa, mas que. também é um gozo;~ gozo da
moça, e o gozo anal do homem dos ratos. ~ um e lellnento que
não é nem verdadeiro nem falso, é então, um elemento Rue é feito
da derivação significante que nos distancia do verdadeirq.
Vocês vêm que na psicanálise verifica-se que o que é k:lo sintoma
não é falso, ou seja, verifica-se a causa do gozo. Eu; creio que
os exemplos desta jovem histérica e do homem dos ratos são muito :
sensfvels, que o grande problema é que este sintoma misto, eu
posso dizer misto de gozo e significante, é um sintoma que supõe
o recalque, que supõe que não tem a ver com a psicose, é um
sintoma do tipo neurótico. Onde o grande problema é Sf"ber o que
fracassou na psicose, para q ue não se negue o que Frei.Jd chamou
de recalque. Eu creio que a questão seguinte é : o que se admite
no Simbólico? Porque na origem do sistema neurótico, é uma tese
freudiana que Lacan retoma, existe certamente um gozo. é certa·
mente um gozo simbolizado, é um gozo passado ao Simbólico de
forma que, no sujeito psicótico, existe uma não admissão do sujeito
no simbólico. Esta tese é clássica de Lacan, eu não quero recolocá·la.
Então, o que é admitir-se no Simbólico? Ê uma questão muito difícil.
é uma questão muito sofisticada. eu parti de um caso simples mas
chegamos agora a coisas muito complicadas, não é em cinco minutos
que eu vou tratar de coisas assim complicadas, simplesmente gosta-
ria de precisar isso: uma coisa não admitida no Simbólico, pode-se
falar, pode-se sonhar com ela, enfim, isso se torna mais difícil de
compreender. O exemplo é o homem dos lobos. Freud nos diz que
a castração, no homem dos lobos, ele a tratou como se ela jamais
tivesse existido. Lacan traduz isto por foraclusáo da castração. Dita
de outra forma, a não admissão no Simbólico, nós veremos bem
que a evocação da castr8ção está em todo lugar no caSo do homem
dos lobos. Não se pode entêo pensar que a não admissão no simbó·
lico seria não ter a representação dele ou não ter as palavras? A
não admissão no Simbólico, supõe algo a mais, Lacan a elaborou
de forma sucessiva no Seminário 3. Vocês encontrarão lá, o que
é a admissão de palavras, no período mediano do seu ensino, a
não admissão do par significante. Mais tarde vocês encontrarão uma
não admissão rio discurso. Em todos os casos a admissão no simbó·
lico é equivalente, em Lacan, à constituição do sujeito dividido. Isto
quer dizer admitir o SimQólico no Simbólico na medida em que lá
se determina o sujeito. E notável que todos os significantes não
determinam o sujeito, é o Simbólico, portanto, quem determina o
sujeito, enquanto dividido. Em Lacan é totalmente certo que a admis-
são ao simbólico é correlativo da constituição do recalque, donde
a função do Nome-do-pai. Se esse não fosse o caso, não se p<?deria
compf'98nder a express4o, que se encontra no "Questáo preliminar
a todo tratamento possív61 da psicose ": " O Significante reaparece
28 - Collete Soler

no Real". Esta expressão implica o que Lacan chama o Simbólico,


a admissão ao Simbólico, que não se reduz à admissão ao signifi-
cante no sentido da palavra. Aqui existe uma grande questão: o
que é que pode ser admitido no Simbólico e o que não pode?
Ao menos em função daquilo que se observa no discurso analí·
tico, o que é que se apreende no discurso analítico, em relação
a este ponto? Parto da função do Nome-do-pai. O Nome-do-pai
tem uma função muito precisa que é : o gozo se admite no Simbólico
na medida em que o Nome-do-pai é o que permite que o significante
fálico seja promovido a significante do gozo. Então, o Nóme-do-pai
tem um efeito, que é o de .promover um sígnifteante q~e permite
o gozo em geral, mais precisamente da existência e do !S9XO. Este
significante fálico é aquele que permite inscrever a existência do
sujeito. o que podemos formular assim: o falo é o nome comum
do neurótico. Lacan diz que o neurótico é um sem nome, que ele
é encoberto pelo nome próprio, algumas vezes ele não quer o seu
nome próprio. O nome próprio é um index daquilo que no sujeito
é impensável, é o index do sujeito como Real. O neurótico, precisa-
mente porque o Nome-do-pai funciona para ele, prefere o nome
comum como um pai. É notável que isso estabeleça diferença em
relação à psicose porque, o psicótico, como vocês sabem por expe-
riência, trata seu nome próprio como um nome comum . Por isso
ele se pergunta- o que quer dizer isso? O que quer dizer o senhor
carvoeiro? O psícótico trata o seu nome próprio como. um nome
comu~. e conclui que o nome próprio é homônimo do nome comum,
ou seJa, Sr. Carvoeiro, Sr. Vento, Sr. Mar, são nomes próprios que
~vocam nomes comuns. Mas se apercebe como, mesmo se o psicó-
tíco chama-se Sr. Dudu, por exemplo, o que não quer nada dizer,
não se impedirá de brincar. que o vermelho é uma cor e pode significar
uma situação etc. Então, o psicótlco trata o seu nome como um
nome comum precisamente porque falta o significante fálico. Tratar
seu nome próprio como nome cbmum é uma maneira de se fazer
entrar na significação. O nome próprio, que é o index de sua existên~
ci~. _
é um e~for~ para dar uma significação fálica à existência de
SUJei~O. E~tao d1gamos que o Nome-do-pai permite incluir o gozo
no Stmbó~co, enlaçá-lo, pelo menos parcialmente. Agora, o que não
pode ser admitido no Simbólico é a relação sexual. Quer dizer, a
psicanálise atesta que em nenhum lugar, nerri mesmo no incons-
ciente. en~ntra-se um significante do sexo, um significante que indi-
que os do1s sexos, encontra-se somente o falo. Um significante único
para os dois sexos, falta um, pode-se dizer que existe uma foraclusâo
que não é psicótica, é uma foraclusão do significante de mulher.
Ou~n~o Lacan diz ~ue a mulher nêo existe, que as mulheres são
rews e a mesma COISa, e se pode escrever assim:
A clínica do Real - 29

MO
Escreve~os a m.ulher com um zero, para dizer que um signifi·
cante falta no 1nconsc1ente. Os seres que automaticamente são colo·
cados neste lado são reais, no sentido de não serem Inscritos sob
o significante. Dito de outra forma, o Nome-do-pai e o falo, implicam
o q~e se .pode chamar a foraclusão d'A Mulher o que faz com que
mUlto log1camente, (observem bem á coerência das construções de
Lacan). na psicose. _a hipótese central de Lacan seja de que, o
nome que faz falta e o Nome-do-pai, e neste caso existe, o que
se chama o empuxo-à-mulher, que se vê aparecer, especialmente,
em Schreber. .
Este não existe. relaçã~ sexu~l. é um Real no sentido do impos-
slvel a _escrever, no mconsc•ente. E um Real que a Psicanálise asse-
gura, e. um dos. ~spectos que Lacan fixa para fins da Psicanálise,
produzir u~ SUJeito assegurado de um saber. Vocês vêem como
se constr.ól. por oposição a um Sujeito suposto saber, no sentido
de um SUJeato assegurado a um saber, não pela relação sexual mas
por um impossível. ~ó~ p~eremos .mostrar os detalhes em que,
o trabalho de asSOC1açao ·livre perm1te assegurar este impossível
em todo c~so é uma figura do Real. logo, se tem uma outra. '
~ nao se tem ~ relação. não existe sujeito sem sintoma, na
~ 1da em q~e o s1ntoma supre esta ausência. O sintoma, para
d•~er de mane1ra elementar, vem no lugar do primeiro ausente, que
é JUStamente aquele que não seria ausente se a mulher nâo fosse
foraclu íd~. Na medida em que .se ~az do sintoma uma suplência
d.a relaçao ausente, é ~ecess~no d1zer q~e não existe sujeito sem
smto":la e que~ a .questao do f1m de análise, quaisquer que sejam
os efe1tos terapeut1cos qu~ pos~~m tl!_lr existido dentro de uma análise.
pod.e-se for~ular como 1dent1f1caçao ao sintoma. na medida que
o smtoma e um Il<?me .do gozo:.·e o nome do gozo que falta, é
A Mulher. ~a~. mUltas outras co1sas pC'dem ser substituldas, por
exemplo, a 1de1a de Lacan de que a mulher é um sintoma para
o homem. Isso parece complicado, mas não é de todo tão complicado.
P~ra se ter uma relação, escrevemos o sujeito, ao lado dele o par-
~m .
$ -+ (A.M.)

. Terfamos uma relação sexual se pudéssemos escrever A Mulher


1sto é , se no inconsciente isto pudesse ter um sentido. Na falta dissÓ
temos um parêntese vazio e no lugar do significante que faz comple-
m~nto vem um parceiro qualquer. não importa, para o homem, que
se]a uma mulher, pode-se ser também o (M) - do maldito. Tem
um filme de Phillipe Sanders, " M o Maldito" , ele estrangula os
"O GOZO - DO IMPASSE À SUA CAPTURA"
Karla Melo

A palavra GOZO, antes de tudo, desperta o pensamento de


um prazer carnal, de um orgasmo. Esta observação primeira nos
remete a uma comparação entre o homem, os animais e a Natureza
que os circunda. O problema começa a aparecer. surge, a partir
desta afirmativa, pois a Natureza é a própria placenta para os animais,
cujo funcionamento ocorre em perfeita harmonia. O animal,-em sua
Natureza, possui um lugar de perfeição e plenitude em tudo que
faz. Para o homem, o ser falante. isso não se dá dessa forma,
pois ele está preso numa r~e de significantes, cuja significação
última sempre lhe escapa E pelo fato de falar que sua existência
se desvia, se distancia da categoria do "NATURAL'' e a perfeição
da Natureza foge à sua apreensão. As funções vitais não exibem
o caminho automático para o bem-estar pertinente à Natureza.
A atividade sexuaJ não escapa a essa regra. isto é , o prazer
sexual não se dá por completo. Ao contrário disso, ele é sempre
objeto de angústia e requer um manejo complicado. Lacan, no Semi-
nário 20, fala que o direito define o gozo como o desfrutar de um
bem, mas com uma ressalva, de que o abuso fica interditado. Dessa
forma, não podemos assegurar essa soberania do sujeito sobre seu
próprio corpo. O corpo é vivo enquanto falado, tocado pelo significante
e abusar disso seria uma redução dessa condição.. Caso o sujeito
tivesse um gozo pleno, se isso acontecesse, deixaríamos de existir,
ou por uma morte enquanto sujeito (S), ou através de uma morte
plena. Cabe aqui essa noção do corpo como algo que carregamos;.
essa condição de um cadáver que ganha vida pela linguagem e
30 - Collete Soler

meninos. Vê-se bem que o sintoma é o nome do gozo, pode ser


uma mulher, pode ser estrangular os meninos, pode ser um fetichista,
pode ser qualquer coisa.
Um sujeito que no fim da análise chega a fixar um sintoma
em nome do seu gozo, consegue uma forma importante de elaborar
o Sujeito suposto saber. Isto nos dá duas formas do impossível,
formas correlatas do Real, formas correlatas do impossível da relação
sexual, assegurada num saber, e a segunda, o sintoma, como aquilo
que não cessa de insistir, de se inscrever.
DEBATE
AURÉLIO SOUSA - Gostaria de saber um pouco mais sobre a
questão da passagem ao ato.
C. SOLER - Vou tratar esta questão um pouco simplesmente, quer
dizer, condensadamente.
A passagem ao ato é não querer saber, é não querer dizer,
é então sair do campo do saber. Recusar-se a elaborar o saber.
O ato analítico é antinômico à elaboração do saber, é tão antinômico
quanto a passa~em ao ato. mãS tem como resultado a elaboração
do saber, que va1 assegurar o que Lacan chama de a falha do Sujeito
suposto saber, aquilo que ele escreve com o materna:
! 51 - 52 ~ S(A)
a

Quer dizer que o ato tem sempre de correlacionar-se à falta


de saber. Na passagem ao ato trata-se de uma recusa, no caso
do ato analítico, de uma falta estrutural do saber.
É intuível que a passagem ao ato é um saber ctue existe. mas
na realidade, este saber não existe.
O acting-out é outra coisa, ele é articulado pela cadela signifi-
cante o ato é antinômico à cadeia significante. Logo o acting~t
é uma articulação que gestualiza, se coloca em cena; é neste sentido
que o acting-out é perfeitamente visível. E no fundo é verdade que
dá para se ler, uma verdade que se trata, no lugar ~e se dizer
numa idéia, de certa maneira, de conduzir numa análise. O acting-out
é uma maneira desesperada de se dizer. .
Oito de outra forma analítica, o ato não tem outra forma de
se dizer, por Isso se coloca do lado do Real. N~o é ~rque se realiza
que se coloca do lado do Real. Existem atos sJmbóhcos puramente.
O ato é Real J>Orque é um começo absoluto. · .
A. CARLOS CAYRES - Pediria por gentileza, que me explique
qual a relação do luto dos kleinianos e a passagem ao ato de Lacan.
c. SOLER - Porque você me pergunta do luto dos kleinianos?
A clinica do Real - 31

A. CARLOS CAYRES- Porque, ouvimos dizer que entre os kleinia-


nos, o fim da análise é uma experiência de luto.
C. SOLER - Não posso dizer tudo de vez, Lacan também evoca
a experiência de luto. Por isso me impressionei quando você falou
da experiência de luto no final da análise. Em todo caso em sua
Proposição de 1967 e no Aturdito, ele pode evocar o luto no final
da análiSe, numa tonalidade maníaco-depressiva; ele diz que depois
do luto a análise acaba.
Eu creio que se pode situar isso, no fundo, na transferência
-tem dois eixos da transferência: tem o. eixo do Sujeito suposto
saber, a elaboração do Sujeito suposto saber retoma a falha do
Sujeito suposto saber e escrevemos como SI - 52 -+ S (A).
Podemos comentá-lo de várias formas: uma que é a mais sensível,
~naliticamente, é que cair sobre uma última palavra, não é tão fácil,
1st~ é, que o saber é importante para dizer tudo, quer dizer: m'eio-dizer,
é ~~~ o que se apreende numa psicanálise. Existe meio-saber sem
SUJ~Jto •. um sa~r que não sabe tudo, evidentemente, um sujeito
realiza •sto, reahza dentro da elaboração do seu próprio tratamento.
Do q~,Je vai ele se autorizar?
. E_seguramente sobre o Sujei·to suposto saber, quando ele mediu
os hm1tes, que estes maternas da falha do Sujeito suposto saber,
fazem com que o sujeito se torne susceptível de um ato. Na medida
em que o ato se autoriza por si mesmo, eu emprego a mesma
expressão que ele emprega para um analista, é um eixo de transte·
rência, é o que suporta um Sujeito suposto saber numa análise
é ao mesmo tempo um objeto. '
Ele é ao mesmo tempo um objeto, que precisamente tem a
consistência de um objeto que sobrevive ao Sujeito suposto saber
de uma análise, e que não se chega ao fim de um objeto fazendo
o seu luto. Ao Sujeito suposto saber se chega ao fim, fazendo-se
elaborar r:'a associação livre, do objeto como analista, pelo desliga-'
mento, e 1sto demanda tempo e luto. Notem que as duas dimensões
não são contemporâneas numa análise, e que frequentemente crê-se
que o analisando torna-se analista, muito antes de terminar sua
análise. Ele pode tornar-se analista antes do final.
34 - Karla Melo

o suje(to lutará sempre para manter uma relação de intimidade e


identidade com o mesmo. Essas limitações ao gozo do corpo se
dAo prinapalmente pelo sintoma que divide o sujeito e estabelece
essa problemática, própria da economia de cada um.
G. Pommier, em "A Exoeção Feminina", fala que o sujeito possui
uma relação profundamente perturbada e pervertida oom seu próprio
corpo, por ser sempre aprisionado na linguagem; esse Outro que
o precede.
Da mesma forma, o gozo terá o mesmo destino: ficará preso.
em primeiro lugar, às articulações da língua materna, na qual o de-
samparo toma-se Inevitável. Não o desamparo meramente fisioló-
gico, pela incapacldade da criança satisfazer suas necessidades
básicas, mas de algo que investe e ultrapassa essa condição. Afinal
de contas, esse desamparo dado pela impotênda diante do mundo,
muitos dos animais o experimentam. O desamparo da criança tem
a ver com esse Outro, que lhe derrama uma infinidade de significantes
e cuja infinidade maior se concentra na capacidade· polissêmica de
cada um. Como ainda diz Pommier,... "a questão colocada pelos
signos da lfngua11ão é apenas por uma falha de compreensão, que
o tempo e o aprendizado podem remediar, mas se liga à polissemia
dos vocábulos, ao equfvoco de seu emprego". O que o Outro quer
dizer e o que deseja dessa criança? É isso que fica em suspenso.
Existe um distanciamento entre o Outro e a pessoa que o encar-
na, que lhe dá consistência, como a mãe por exemplo, que lhe
concede uma voz, um odor, um seio etc. Alguma coisa desarruma
essa superposição ; o encaixe não é tão perfeito entre a mãe e o
OOtro que constitui essa entidade do Outro Matemo. Desde um pri-
meiro tempo a castração se faz presente. Alguma coisa falha e falta
no seu dizer, tanto para além como aquém para aquele que se
constituirá na sua condição de S . Essa falta, esse buraco é primeiro
encontrado no corpo da mãe, na sua castração. A língua materna
é estranha à criança. Isso não se deve ao fato de que a criança
desconheça ou não compreenda o sentido, a significação das pala-
vras, mas à diferença marcada entre o SIGNO e o SIGNIFICANTE.
Pommier fala que o enigma começa aí. O sujeito não se refere a
partir de siqnos, mas sim, se representa através de um significante
para outro. E preciso que haja uma modificação no valor das palavras,
o que é marcado pela articulação da relação do significante unário
com o significante binário.
No que toca ao corpo, mesmo em relação aos primeiros signifi-
cantes dados pela alimentação, limpeza, botar para dormir etc., per-
manecerá em suspenso a grande questão "o que quer o Outro?" ,
como um enigma. Ou seja, a resposta não aparece a partir do ato
·em si, pois a necessidade nunca assume o status de "pura necessi-
dade", por mais primordial que ela seja. O gozo fica imerso nesse
plasma do Outro com a criança, investindo o corpo com uma onipo-
tência de uma significação total. O seu oposto - a falta de signifi-
O Gozo -35

cação- aponta essa ilusão. O gozo pleno, portanto mítico, emerge


no só ·depois, no instante em que o sujeito é engendrado como
efeito do significante, inaugurando sua condição de sujeito barrado,
desejante. O gozo total, pleno, só é encontrado na morte ou na
loucura. Como esse gozo passa a ser idealizado? A partir do efeito
do significante. A partir do momento em que a criança se constitui
como {$) e engendra sua fala própria: A mãe se desloca pela interdi-
ção paterna. O Nome-do-Pai faz cargo do efeito de corte como signifi-
cante. A formação da cadeia significante S1, S2, ... marca a inscrição
no gozo fálico. Nesse momento, o gozo do Outro, que evoca uma
ressonância universal de significação, sendo representado pela ca-
deia de significantes unários S1, S1 ,... é interrompido por essa inter-
venção, constituindo-se miticamente. Podemos d1zer de outra forma.
No momento em que o sujeito se constitui como (S), o gozo fálico
é inscrito e o sujeito deixa de ser corpo de gozo. Esse gozo ··anterior"
se institui com~ "paraíso perdido". O gozo fático se constitui fora
do corpo e é marcado pelo Nome-do-Pai. O gozo da linguagem
inaugura o desejo; limite do gozo, que aparece sempre como mito
no resto das palavras. como esse objeto "a" ·que cai e se configura
sempre como . um resto apontando para a representação de uma
falta, movimentando o circuito do desejo. Portanto, gozo e desejo
funcionam como elementos distintos numa mesma estrutura, para
o apvento da existência do sujeito. Pommier fala de um "mito retros-
pectivo" do gozo, que é formado sob a interdição do Nome-do-P~
e que cristaliza a impossibilidade de alcance do sujeito.
Como vemos, esse gozo não desaparece. Ainda assim, seu
mito fica como um resto. Sua captura se dá ao nfvel da pulsão,
qu.e se estabelece a partir do recalque do gozo do corpo. O corpo
inteiro falta e a pulsão se expande por todos os orifícios do corpo,
em que o sujeito goza em "se fazer" esses objetos de resto como
seío, fezes. olhar•e voz. E o Real sempre aparece nesses restos,
no que eles tém de sexuaJ, de incestuoso. Lembremos que o incesto
só se refere à mãe, àquele Outro Matemo, do qual falamos anterior-
mente.
Dessa fonna, o sujeito (S) se coloca num espaço, em que para
além é limitado pelo Falo e para aquém se depara com o gozo
mítico, paradisíaco, sendo tocado pelo Real. A imago de uma elastici-
dade entre esses dois pólos lógicos, coloca a pulsação incessante
do desejo, cuja causa se mostra distante e inatingível.
Referências
- LACAN, J. O Seminário - Lívro 20. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro,
1985.

- POMMIER. G. A Exceção Feminina. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro.


1987.
36 - Karla Melo

Bibliograt;a
- LACAN, J . O Seminário - Uvro 11 . Capítulos XII, XIII e XIV. Jorge
Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1985.

- MILLER, J. ALAIN. Recorrido de Lacan., Manantial


A ÉTICA DA PSIÇANÁLISE E SUAS INCJD~NCIAS NA
CLINICA COM CRIANÇAS ·
Lêda Guimaraês

Em "Duas notas sobre a criança" (1969) Lacan estabelece uma


distinção acerca do sintoma da criança.
Por um lado, o sintoma da criança pode responder ao que há
de sintomático na estrutura famiUar, entendendo-se que, para se
referir à estrutura familiar é necessário que a metáfora paterna tenha
operado. Portanto nesse caso, o sintoma da criança representaria
a verdade do par familiar. E mesmo que isso seja algo complexo.
é para Lacan também o mais aberto às nossas intervencões.
Isso se distingue fundamentalmente de quando a metáfora pater-
na não opera A ausência da mediação exercida pela função patema,
deixa a criança destinada a não ter outra função. a não ser a de
realizar a presença do objeto "a" da fantasia da mãe. Nesse caso,
o sintoma da criança tem como função, garantir um desconhecimento
da mãe sobre a sua própria verdade.
Para qualquer um desses destinos inexoráveis a crianÇa não
foi convidada para dec;idir sobre o seu lugar, que já estava à su'a
espera, num discurso ou uma fantasia.
Diante desse caráter fatídico foram desenvolvidas algumas práti-
cas psicoterápicas que se baseiam na hipótese de que é completa-
mente Infrutífero tomar uma criança em tratamento, sem que a mãe,
ou o casal, ou toda a famflia seja submetida a tratamento. .
Essa forma de abordagem à questão me parece que pode ser
entendida corno uma estratégia de tentar submeter ao tratamento
38 - Lêda Guimarães

a própria estrutura que determina o sujeito, além de cometer o equí-


voco de personificar os componentes dessa estrutura.
Na psicanálise esta não é a via. A prioridade da psicanálise
com crianças é a escuta da criança mesma, separada dos pais,
dos quais ela não é um apêndice, mas sim quem os responde,
pois diante desse discurso chamado .familiar é necessário situar como
a criança o responde, questionar a sua posição diante do que a
determina como sujeito.
Entramos portanto no terreno da ética da psicanálise. Assim
nos diz Miller no seu texto ''Não há clinica sem ética": A piscanálise
nos leva ao ponto em que as estruturas clínicas parecem ser o
objeto de uma eleição. Que, naturalmente, se é uma eleição, é uma
eleição forçada, mas que mesmo assim o sujeito pode ser interrogado
sobre a sua posição diante do desejo e do gozo.
Toda a questão da ética da psic análise estaria implicada nessa
dimensão impensável de onde se decide a posição subjetiva. a elei-
ção.
Miller nos indica a importância de se examinar a posição subje-
tiva na experiência analítica, desde o primeiro passo, que vai da
localização subjetiva à retificação subjetiva, passo de uma entrada
em análise através do ato analítico que consiste em implicar o sujeito
nas próprias coisas das quais se queixa, de maneira que. para que
se dê uma entrada em análise é necessário que o sujeito reconheça
sua responsabilidade essencial no que lhe ocorre.
Na medida em que a ética da psicanálise incide sobre posição
subjetiva que traduz uma eleição, este será o ponto de mira de
uma análise em toda a sua extensão - assim nos diz Miller: "Cada
interpretação, vista sob o ângulo da ética, reconduz o sujeito a essa
eleição". · ·
Podemos então nos perguntar: - O que isso produz? confrontar
o sujeito com sua eleição forçada poderá possibilitar-lhe uma outra
eleição?
Nesse momento recorremos à cllnica para examinar o que ela
pode nos responder sobre essa questão.
Trago-lhes um exemplo clínico de psicanálise e criança, da prá-
. tica de Eric Laurent. um caso que nos foi apresentado por ele, na
CF, em 1986. ·
Segue um pequeno resumo do caso e das construções que
Eric Laurent fez sobre ele .
Chega ao seu consultório uma menina de 14 anos acompanhada
pela mãe. A razão da procura à psicanálise. diz a mãe. é porque
a menina tem uma série de medos, medos de cair.
A mãe em entrevista individual conta a sua interpretação sobre
o sintoma da filha: -medo de morrer.. Quando a menina tinha apenas
um pouco mais de 1 ano de idade, sua mãe perdera uma filha num
aborto espontâneo, o que foi muito penoso para a mãe. Argumenta
a mãe que a morte dessa irmã havia produzido na menina o temor
A ética da psica nálise - 39

da morte, pois na época a menina teve algumas preocupações fazen-


do perguntas sobre a morte da irmã.
Logo no primeiro contato individual com a menina esta lhe conta
a sua própria interpretação sobre o seu sintoma. Diz-lhe que tem
o mesmo nome da avó materna, q ue fazia alQUm tempo que a avó
tinha morrido, e que es sa morte da avó tinha s1do um acontecimento
importante na família. A menina diz que sua avó morrera caindo
de um tamborete.
Esta era sua interpretação do seu medo de cair. Medo não
generalizado, preso a um significante tamborete, medo de cair de
um tamborete. Para a menina então o determinante para o seu sinto-
ma foi a morte da avó.
laurent nos diz, a menina com seu sintoma, transforma algo
que não se formula em algo que se pode fo rmular. A angústia da
mãe frente à morte da filha no aborto, é para a mãe um trauma,
algo que não se formula. Com o seu sintoma a menina simboliza
algo da angústia da mãe enviando isso à geração anterior, transfor·
mando essa angústia da mãe em algo que se introduz numa linha
de três gerações.
Esse medo de cair era também ligado à profissão do pai, através
do significante cair. Temos então esse mecanismo simbólico em
que a menina toma um signo do pai, ligado à posição do pai , ao
nome do pai, e isso lhe permite simbolizar algo da angústia da mãe.
Interrompemos o relato desse caso para levantar então a ques·
tão: podemos considerar que o sintoma dessa criança está implicado
numa posição subjetiva que tem o caráter de uma escolha, uma
eleição? uma eleição que pode ser refeita? ·
Quanto a isso nos diz Miller: " Se não tivera uma eleição, por
que autorizar o suje ito a voltar a pór em jogo, na experiência analítica,
sua posição?"
Voltamos ao que o caso pode nos esc larecer:
A análise dessa menina a conduz até a elaboração de uma
fantasia de envenanamento como correlato da fantasia de gravidez.
Com isso a menin.a se aproxima do laço entre a gravidez e a morte
- o aborto da mãe, implicando na gravidez a presença de um gozo
mortífero.
Dada a peculiaridade do tema da morte na análise dessa menina,
teremos com a introdução dessa fantasia de envenenamento. a trans-
formação do medo de morrer para um medo ligado ao gozo da
mãe como tal.
Assim, numa sessão, a menina rabisca uma carta e diz: -
''dentro disso há uma menina morta" e sai da sessão muito alegre.
corre para sua mãe e d iz: - "trago algo para ti mamãe" e entrega
para sua mãe a menina morta. Há que dizer que a mãe instantanea-
mente se tomou completamente branca. branca de angústia.
40 - Lêda Guimarães

É certo que havia algo nesse resto de criança, pois através


da an'álise, essa menina pode com esse papelzinho entregar, em
forma de mensagem, a quem era devido, aquilo que não se podia
simbolizar, a angústia da mãe.
FICTJTJOUS
Marce!a Ante/o

A verdade se semi-diz

O estatuto ético da Psicanálise girou sempre ao redor da paixão


pcJr revelar a verdade. Mas. nesse caminho, a Psicanálise colocou
a verdade no pelourinho, açoitou-a até comprovar que ela fala, que
a verdade se diz. É a palavra que introduz a dimensão de verdade
no Real. Ao fazê-lo, compromete a verdade numa estrutura de ficção.
O corpo fala significantes que geram, ex-nihilo (a partir do nada),
um mundo. Só há mundo de significantes. O corpo falante fricciona
um mundo e a verdade só pertence a esta dimensão. A verdade,
diz Jacques Lacan, é a mansão do dito.
Que o Rea1 seja impossível só quer dizer isso; é o impossível
para esse corpo falante simbolizar. Não se trata de deficiência do
sujeito senão de um furo no próprio Simbólico. O Real é o resfduo
da operação significante, o silêncio dos espaços infinitos, temidos
por Pascal. O Real é o que existe, e o Simbólico é o que por não
existir, o significante gera, produz; portanto o Real bate no coração
do Simbólico. ·
Os significantes trabalham , frabalham o Real. Jakobson mostrou
que um idioma se define menos pelo que ele permite dizer, do que
por aquilo que ele obriga a dizer. A lrngua, diz Roland Barthes, "como
desempenho de toda linguagem não é nem reacionária nem progres-
42 - Marcela Antelo

sista; ela é simplesmente fascista, pois o fascismo não é impedir


de dizer, é obrigar a dizer".(1J
É no corpo onde Freud descobre o trabalho do significante,
a palavra falando verdade; é no corpo doente das suas histéricas,
nos corpos doídos de ficções mitológicas.
Nesta ocasião, vamos tentar nos deter ante o poder do signifi-
cante FICTITIOUS (ficção) e nos demorar nele, rastejá-lo, antes de
lhe incorporar ao expediente da Ética de Lacan. Diria melhor, como,
quando, onde tirou seu poder? Esta palavra ficçã?• ~orno qualquer
outra, pode servir para impedir-nos os passos, e hm1tar-nos de fato
a uma pequena porção de espaço. Neste caso, seria lamentável
em se tratando de um significante que nos leva ao infinito.
Fictício segundo Lacan é o modo do simbólico . Lacan se encontra
com Jeremy Bentham (inventor do FICTITIOUS) graças a Jakobson,
o linguista, a quem endereça a segunda aula de seu seminário "Mais
ainda", Livro XX. Diz lá: " Parece-me difícil não falar bestamente
da linguagem. Apesar disso, Jakobson, você esta aí; isso é o que
você consegue fazer''. (2)
Foi Jakobson quem conseguiu que Lacan lêsse Jeremy Ben-
tham.Lacan lê sôbre a mesma bestialidade em J. B., o seguinte:
"olha a letra: encontrarás absurdos. olha além da letra, não encon-
trarás nada" frase de 1801. (3)
Das ambiguldades do relato histérico, da primeira mentira, Freud
lê : verdade no discurso e do discurso. O princfpio freudiano no dizer
verdadeiro é a negação. ''Somente os mentirosos respondem digna-
mente ao amor", diz Lacan no Sem. da Transferência. Nesse ano
vai apontar a Sócrates como introdutor da verdade no discurso.

AS CADEIAS DA FICÇÃO

Em 1959 Lacan anuncia que para tratar a questão Ética vai


se referir a J . B.• ainda não suficientemente reconhecido, e, que
é o "homem que trata as questões ao nível do significante". (4)
Vejamos o que diz a respeito de si mesmo o teórico "polivale.nte"
do utilitarismo inglês. Um dia depois de ter alcançado a idade de
83 anos, no seu livro de notas: "J. B.:
características do espfrito de J.B.:
o mais ambicioso dos ambiciosos
o mais filantropo dos filantropos
Seus limites: não há outros que a terra". (5) .
É mesmo. Não satisfeito em cri ar um laço entre a Étic a e
a Linguagem deixou marcas numa e na outra; a coisa não finaliza
Fictilious - 43

ali. Diz seu editor: "o próprio Jeremy Bentham foi um inovador linguís-
tico mas não confiava muito em que as suas recomendações encon-
trassem aceitação" (6) . Seus neologismos são hoje verdadeiras enti--
dades fictícias ... já veremos o que é isso - maximizar, minimizar,
internacional, deontologia (Do grego deon: o que é necessário, o
que se deve fazer. o que está bel"!l) telematologia (do grego thelema:
vontade, logos, discursos da vontade). eudaimónica (do grego euda-
mónia: felicidade, arte de aplicar a vida maximização de bem estar).
A ficção é que encadeia o homem, dimensão necessária que
faz possfvel o discurso, isto é, o laço social. - diz Jeremy Bentham
"ainda que fictícia a li n~uagem não pode ser qualificada de enganosa,
não na sua intenção' apesar de vulgarmente associar "falso" ao
oposto de· " verdadeiro", Real; não foi esse o seu sentido original;
degenerou com o uso até aparecer em Platão como mito fictício
oposto ao mito verdadeiro. .
A raiz grega da palavra. Plath, significa plasmar, dar forma,
dar figura, no sentido artesanal do termo. No latim o termo sofre
uma evolução semântica paralela: configurar, representar, inventar.
imitar. fingir.
J.B.constrói a sua "Teoria das Ficções" motivado pelo seu inte-
resse no Direito e na Linguagem. Analisa as Ficções Legais que
são observações falsas cuja verdade não se permite questionar.
Exemplos : presunção de todos conhecer a lei dada a impossibilidade
de alegar ignorância; marido e mulher depois do casamento são
uma pessoa só.
A palavra tem na linguagem inglesa vários sentidos vizinhos
às línguas românticas. Só um deles, 5? sentido, vincula-se, segundo
o OXFORD ENGUSH DICTIONARY, a uma suposição em desacordo
com os fatos. mas aceita pela sua utilidade. Por volta de 1810,
e nesta linha, J.B. estabelece o termo "FICTITIOMINIS"..
· O alemão Hans Vaihinger criador do "ficcionalismo" isola com
precisão a sua aparição na Idade Média: Ficto Rationis. não falsidade.
senão instrumento necessário para certas formas do saber.Produto
da faculdade imaginativa, abarca desde a criação poética até as
ficções científicas. São realidades no pensamento, quase conceitos,
que denotam quase coisas e que, a diferença das hiPóteses, não
precisam ser nem confirmadas nem refutadas pelos fatos.
Ficção, diz J.B., está "livre de todo t~ de repreensão; a não.
ser pela ficção, a lingua9.em dos homens nao poderia elevar-se sobre ·
a linguagem dos brutos •. As ficções são também as causas de equf-
vocos e guerras.
J.B. vai edificar toda uma nova lógica. Lógica é para ele uma
arte que tem por fim dar direção, com o maior proveito _à mente
humana para qualquer propósito ou objeto a que eta se,a capaz
de se aplicar. "Lógica cujas ferramentas J.B. encontra em Anstót~s .
44 - Marcela Antelo

que vai ocu par os últimos vinte anos da sua vida , analisando e
classificando ficções" . ·
Bentham nos diz que a correspondência entre as palavras e
as coisas, a famosa adequação. é só uma pre~nsão vulgar, filha
da lógica aristotélica tradicional. "Durante 2.000 anos essa arte não
tem nos dado uma mfnima partíctJia de conhecimento. Nesta idéia
estava implicado um erro, uma proposição também errônea: que
cada palavra tinha um significado naturalmente inerente, que a cone·
xão entre o signo e a coisa significada era sensivelmente natural.
Hoje se compreende clara e generalizadamente que a conexão entre
signo e a coisa, entre a palavra e seu significado é totalmente arbitrá·
ria, resultado de uma conexão tática e um uso contínuo". Aristóteles
segundo J.B. é o responsável por manter a arte e ciência imobilizados
por tanto tempo.
Ele. o grande ambicioso. logrará desenvolver uma tecnologia
dos fatores lingüísticos. "Para toda análise simbólica haverá uma
máquina, uma operação, matérias primas, produtos''. J.B. vai estabe·
lecer graus na dialética realidade-ficção, Justamente onde Freud
situa a dimensão ética.
Os graus de vizinhança com o Real diferenciaram qualidades
e atributos obedecendo à sua incansável vontade sinóptica, classifi·
catória.
Para definir entidades fictícias (Poder, Direito, inconsciente, Mu·
lher} nos resulta imposslvel indicar gêneros superiores de coisas
das quais essas palavras designem as respectivas espécies. A técni·
ca adequada, segundo J.B., para conduzir-se oom as ficções. é a
exposição ao modo de paráfrases.
Respeitar a idéia original, a origem da idéia, nada· tem fora da
ficção, do que fazê-la derivar. Tudo nela é criação. Não tem coisas,
substrato, substância que esteja ligada a ela por uma relação natural.
As ficções "devem a sua existência inteiramente à linguagem.
Nos encontramos submissos à necessidade de falar delas, em termos
que pressupõem sua existência. Poder-se-ia até dizer que elas têm
(a sort of) uma espécie de realidade verbal"
As palavras são para Bentham outros corpos entre os corpos
e geram confusão, saber e brigas. ·
O significante, diz Lacan, é por si mesmo, participante desse
ex-nihilo onde cria-se algo inteiramente original. Os significantes
criam por nada e aJiás matam por nada.
O utilitarismo, retoma Lacan no "Mais ainda" , arejou a atmosfera
depois do estancamento grego em torno ao eudemonismo, disCiptin~
aristotélica da felicidade, e nos safou do peso . intelectual dos uni-
versais. . •
É na utilidade das ficções de J.B. onde Lacan vai teorizar o
ponto de ruptura entre Aristóteles e Freud, o " Mútuo esclarecimento"
entre eles.
Fictitious - 45

Há uma frase do " Mais ainda" que gostaria de ler para vocês:
para dar peso à importância desse fictício na ética. Treze anos depois
do seminário que estamos lendo, diz: " Distingo-me da linguangem
do ser, isso implica que possa haver ficção da palavra quero dizer,
a partir da palavra. Eu, como alguns se lembram parti disso quando
falei da ética".
Bentham e seu Ovo de Colombo
A ética do útil de J.B., a consciência da responsabilidade linguística
na criação do que enreda ao homem, leva-o a estrategizar seu pensa·
menta. Ocorre o que ele mesmo descreve como " acontecimento
na história do espírito humano" "a descoberta do ovo de Colombo".
J.B. utopiza o PANOPTICOM . O panopticom é um dispositivo que
atinge a sua máxima ética: a utilidade.
É uma estrutura que, operando no espaço, faz exercer bem
e facilmente o poder. Seu segredo é uma visibilidade total dos corpos
para um olhar centralizado. Invenção tecnológica na ordem do poder
"como a máquina a vapor o foi na ordem da produção". !9 >
Do 9ozo do ser em Aristóteles (motor imóvel), ao gozo do ser
da signiftcância em Lacan, o passo por J.B. parece obrigatório.
Que o ser que está condenado a falar. o benthamiano, perca
tempo, podemos imaginar que pensaria J.B., o ambicioso. Erige uma
ética se contrapondo a Aristóteles. O lugar da primeira lei não estará
mais ocupado pela felicidade porém pelo princípio de interesse.
O " Panopticom" é um princípio geral de.construção. O dispositivo
é um edifício. Edifício em forma de anel. No centro uma torre com
grandes janelas, uma zona intennidlária livre. A .zona periférica é
dividida em vários andares com celas que ocupam a largura toda
da construção; cada cela tem duas aberturas. uma Janela para o
exterior, fonte de luz e ar, e uma porta para o intenor totalmente
gradeada e visando a torre. Colocando um vigia na torre este pode
perceber, pelo efeito de contraluz, as silhuetas prisioneiras nas celas
da periferia. Um muro rodeia o edifício, e só por uma via é possfvel
entrar e sair desse espaço fechado.
Michel Foucault se encontra com J.B. pesquisando as origens
da medicina clássica na 2! metade do século XVIII. Descobre que
a forma dos hospitais suporta esse novo tipo de olhar. Chega ao
texto de J.B. onde este propõe reformar as prisões, reforma ~paci ?l
onde " o poder, tendo uma multiplicidade de h~~ens a gem, se1a
tão eficaz quanto se ele se exercesse por um só .
Para o utilitarista, disse Jacques-Aiain Miller num texto indispen·
sável para esta questão, as soluções só têm valor se servem de
modelos . Foucault encontra o modelo pan6ptico nas fábricas, nas
escolas e nos hospitais. A obsessão de J.B. é a evidência do poder
na sociedade transparente do contrato social.
46 - Marcela Antelo

Nosso ambicioso ganha o título de cidadão francês em 1791 ,


graças a seuPANOPTICOM. O século da luz acabando com os luga-
res obscuros do homem medieval.
A idéia é que a vigilância constante. "estando incessantemente
sob o olhar de um inspetor, signifique perder a capacidade de fazer
o mal e quase perder o pensamento de querê-lo". Nisso se assenta
a pedagogia ética benthamiana: não p<)der, não querer. Este aparelho
de "desconfiança total e circulante"f 10l fala das astúcias da razão
burguesa.
~ bUrguesia " não só fe_ z um~ revolução política senão que soube
Instaurar uma hegemonta soc1al que nunca mais perdeu" . O poder,
ch~~~aq,em indefinida, "vira máquina de sustentar a autoridade da
opm1ao de que os quereres andam bem com o amo! Que se encai-
xem numa ordem, num cálculo de benefícios e perdas. Os edifícios
panóptícos devem excitar a imaginação e despertar um terror saudá-
vel": a "prisão como castigo universal de alta rentabilidade.
"Se vocês querem predicar com eficácia, prediquem ao olho",
"prestar uma cuidadosa atenção ao efeito teatral". Assim odelin·
qüente poderá calcular o benefício e o prejufzo do delito.

Repartição dos Bens

O homem be,nthamiano é submisso. condenado ao cálculo dos praze-


res, fugindo da dor, falando em excesso, criando coisas que não
existem, de "existência impossível mas indispensável". As entidades
fictícias movimentam as reais, as distribuem, as organizam, falar
é legislar, fazer atuar coisas que não existem".l11 '
As necessidades humanas pertencem ao reino do útil "o máximo
de utilidade para o maior número".
Lacan diz que com J.B. assistimos à passagem da exigência
de felicidade ao plano político.
_A ~?&~ir_ do artifício si mbólic~. do funcionamento "linguageiro"
das mst1tU1ÇOes e não das necessidades que não são naturais senão
úteis, dizíamos, se coloca a questão da repartição dos bens.
PO<!emos ler na ética que nas ríquezas produzidas o determi-
nante nao é seu valor de uso, o importante vai ser a sua utilização
do gozo.
"O bem não está ao nível do valor do uso senão ao nível do
poder, do poder dispor. Dispor dos bens, e ter o direito de privar
o~ outros deles". (12lQualquer um de vocês que goste de estar com
cnanças pode reconhecer isto.
"Ao redor da privação vai se jogar nosso destino histórico":
O bem de que se trata é Real. O privador, o nosso semelhante,
Fictitious - 47

em função imaginária e a operação de que se trata, a privação,


é a f\Jnção simbólica.
E um dado registrado da clínica que defender os bens é se
defender (se proibir} de gozá-los. Lacan nãO fala bem do bem.
"A dimensão do bem eleva um muro potente sobre a via de
nosso desejo". Só ultrapassando o limite do benefk:lo é que se pode
experimentar o desejo, experiência que acontece além do benefício
do sujeito. temos disso muitas testemunhas.
Na perspectiva pós-revolução francesa : oposição no mundo do
centro desejante, o serviço dos bens.
Sempre que o sujeito cede ao desejo é em razão de bons moti-
vos, é para atingir seu BEM que o trai.
Podemos avançar e dizer que a causa do desejo não é o bem
do sujeito. O que acontece então quando a prática psicanalítica,
ciência do desejo, se propõe como um bem? O discurso de Lacan
se torna útil, se faz capitalizável, se incorpora ao serviço dos bens
e comete uma traição ao centro desejante.

O resto como causa


Lacan, no caminho da construção da sua ética, faz entrar Aristó·
teles e sua disciplina de felicidade; a arte gr~a da existência daque-
les que podem dispor até do próprio desejo e tr~çar as vias do
uso estético dos prazeres que só se atir19em com a virtude da tempe-
rança e do justo meio; o utilitarismo mglês e o império ético da
razão calculadora que conjura os tempos livres, improdutivos.
Então, no lugar da causa, nem contemplação da verdade-beleza,
nem utilidade. Nesse lugar, surpreendentemente, Lacan vai avistar
um objeto, ou mais estritamente, 4 (quatro) restos: a voz, a mirada,
os seios, as fezes. Eles são Real, restos reais que causam o desejo.
O desejo ficciona a causa deles, e essas ficções são a matéria
da verdade do sujeito. Catherine Millot <13' o ilustra com um texto
"Elogio da Sombra'', de um escritor japonês: brincadeiras orientais
para mostrar o pequeno a como artifício que causa o desejo.
De outro modo, entre o sujeito falante e o objeto que causa
seu desejar, se tece uma ficção que num mesmo movimento e a
partir do nada cria, operação Simbólica, um objeto Real. É a distância
incontestável, um sujeito que fala. A verdade então não sai nua,
o resto se cobre de um véu.
Então, na clfnica analftica não se trata de dizer o útil, de combater
o absurdo, a ficção, falando o certo, a confissão do que se teme,
senão de escutar a produção significante, a fala de mais, o gozo
da fala produzindo a história de um gozo.
Produção que se faz sob um princípio. Princfpio do prazer de
se satisfazer de palavras à distância da Coisa, do Real. Em verdade
"nós fazemos a realidade com prazer" <,.1
48 - Marcela Antelo

Dimensão ética da praxis, da fabricação, da produção ex·níhilo


da realidade .
Roland Barthes o diz desse modo: "o significante manda, e
é antes de tudo imperativo. Cada realidade se funda e se define
com um discurso". O discurso faz laço social articulando o desejo
com o significante, colonizando Das Ding. .
O verbo é modelo de criação a partir do nada. Diz Lacan da
sublimação: é da falta que ele parte e a sua obra é a repetição
indefinida .dessa falta.
Diz Foucault: não é que haja ficção porque a linguagem esteja
à distância das coisas, sendo que a linguagem é a distância, luz
e inacessíbilídade das coisas, o único simulacro da sua presença.
Toda linguagem que em lugar dessa distância fale dela, avan-
çando. é uma linguagem de ficção.
A linguagem é este vazio da origem. este exterior no interior
do qual não cessa de falarmos" o eterno jorro do de fora".
· "Se me perguntarem a definição do fictício responderei sem
titubear: a nervura verbal do que não existe tal qual é''. <15l
Uma brilhante psicanalista argentina Sarah Glassman escreveu
há muito tempo que talvez os médicos que dizem que a Psicanálise
é pura ficção, estejam mais perto dela do que muitos psicanalistas.
Fre.ud sofreu ~a própria ~arne o desprezo médico pela ficção. Dom
Ou1xote também. Um méd1co e um padre tamparam a sua biblioteca
para lhe salvar da ficção, por seu bem.

Notas

1. Barthes. Roland. Aula, ed. Cultrix.


2. Lacan, Jacques. Encare. Livro 20, Paidos, 1981 .
3. Bentham Jeremy "The Works of Jeremy Bentham" O. C. T. 11
4. Lacan, Jacques. A Ética na Psicanálise- Livro 7 - Zahar Editor.
5. Ogden C. K., l:.a Teoria del lenguage de Bentham publicado na Revista
Psyché, Tomo 12, n? 3, Londres. 1932. Tradução de Román Alcaide
publicada nos cadernos de Psicanálises, Ano X. n ? I, Altazoe, Bs. As.
1980.
6 . Glassman, Garcia, Jinkis " La verdad Tiene Estructura de Ficcíón" -
Cadernos de psicanálise - lbid.
7 . Ogden -Idem
8. Lacan. Encare tbid
9: Foucault, M. " Vigiar e Punir" , Vozes, 1978
1 o. Miller. J. -A. La Maquina Panoptica de JB em Matem as I. Ed. Manantial
1987. Bs. As.
Fictitious - 49

11 . Bentham, lbid.
12. Lacan. A ~tica lbid
13. Millot, Catherine : Sublimação : Reparação ou Criação. Ornicar?
14. Lacan. A Ética lbid
15. Foucault, Michel. Distância. Aspecto. origem·. En " Teoria de Conjunto"
Red TeiQuet, Seix Bond, 1971, Paris.
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