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TRABALHO E POLÍTICA EM SÃO BERNARDO:


ARQUEOLOGIA DE UMA HEGEMONIA PRECÁRIA
Ruy Bragaa
a
é professor do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP). São Paulo, SP,
Brasil. E-mail: <ruy.braga@usp.br>
Orcid: 0000-0002-8512-4306
http://dx.doi.org/10.1590/0102-133165/104

Apresentação
Em março de 2016, a convite da professora Natalia
Brizuela, participei do lançamento do dossiê da revista
Film Quarterly (v. 69, n. 3) dedicado ao legado do cineasta
Eduardo Coutinho. O evento ocorreu no intervalo da apre-
sentação de dois documentários de Coutinho, Boca de Lixo
(1993) e Peões (2004), no prédio recém-inaugurado do
Berkeley Art Museum and Pacific Film Archive (BAMPFA).
A professora Brizuela pediu-me para introduzir o filme
Peões ao público presente e, rapidamente, fiz alguns comen-
tários sobre o método etnográfico “radical” de Coutinho e
sua habilidade de condensar os dilemas da visão social de
mundo dos subalternos em entrevistas traspassadas por um
profundo sentido de dignidade humana.
Além disso, busquei contextualizar historicamente o
tema de Peões, isto é, o filme que, rodado em 2002, ano
da eleição de Lula da Silva, Coutinho dedicou à trajetó-
ria da classe operária fordista do ABCD paulista. Observei
como o documentarista foi hábil em restituir a agência
histórica aos próprios trabalhadores. Afinal, tendo em

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Trabalho e política em São Bernardo: arqueologia de uma hegemonia precária

vista o sucesso de Lula da Silva e da burocracia sindical


de São Bernardo, muitas vezes não nos lembramos que foi
aquela classe operária semiqualificada, retratada nas telas
por meio de algumas trajetórias individuais exemplares, a
verdadeira protagonista do ciclo das greves de 1978, 1979
e 1980. Insisti na ideia de que os peões explicam o ativismo
de Lula da Silva, mas Lula da Silva não consegue explicar
o ativismo dos peões1.
Lembrei ao público que após o golpe de 1964, a dita-
dura civil-militar interveio nos sindicatos, perseguindo as
lideranças comunistas do ABCD paulista e substituindo-
-as por antigos pelegos diversas vezes batidos nas eleições
sindicais e usualmente alinhados aos setores conservado-
res da igreja católica. Paulo Vidal foi o mais bem-sucedido
desses sindicalistas. Conhecido por entregar militantes de
esquerda para a polícia e ameaçar quem falasse em greve,
Vidal foi o predecessor de Lula da Silva na presidência do
134 Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo. O “sindica-
lismo autêntico”, como ficou conhecido esse estilo sindical,
nada mais era do que uma tentativa extemporânea de nego-
ciar com as multinacionais da região pequenas concessões
materiais ao estilo do business unionism estadunidense (sin-
dicalismo de negócios), no qual a nova burocracia de São
Bernardo espelhava-se.
Deparando-se com o total desinteresse das empresas
em negociar com os trabalhadores, afinal, o golpe de 1964,
entre outras funções, serviu para barrar as concessões mate-
riais ao operariado, conquistadas pelas greves do período
populista, e pressionados pelo aumento da mobilização das
suas próprias bases, a escolha de Lula da Silva como sucessor
de Paulo Vidal em 1976 marcou o momento da renovação
das velhas práticas pelegas de controle da insatisfação ope-
rária pela burocracia sindical. Diante da inevitabilidade da

1
Ver, entre outros, Batalha (2000) e Marson (1992).

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greve, Lula da Silva soube se reinventar politicamente, pas-


sando de instrumento do assistencialismo sindical à princi-
pal liderança de um movimento operário intempestivo e, até
certo ponto, imprevisível.
No entanto, o documentário de Coutinho mostra uma
dimensão ainda mais sutil dessa história. Na realidade, o
filme soube capturar a relação dialética entre a insatisfação,
os desejos e as iniciativas políticas dos peões, verdadeiros
sujeitos de sua própria história, e a tentativa de controlar esta
agência empreendida por Lula da Silva. Recorrendo a outros
filmes da época, em especial, o já clássico Linha de Montagem
(1982) de Renato Tapajós, Coutinho revelou por meio de
detalhes – o choro, a ansiedade, a chantagem emocional e
o pedido do voto de confiança –, o nascimento de uma lide-
rança política ainda desconfiada de sua própria força.
Ao mesmo tempo, o cineasta mostrou como nesses
instantes de fragilidade de Lula da Silva, os dilemas dos
próprios operários em seu “fazer-se” história condensavam- 135
-se e encontravam um sentido mais ou menos consciente.
Trata-se do nascimento de uma forma de hegemonia precá-
ria capaz de amalgamar o consentimento popular em torno
de um projeto burocrático de poder, ainda que à custa de
sua autodeterminação política, isto é, como grupo social
capaz de definir autonomamente seus próprios objetivos
(Oliveira, Braga e Rizek, 2010). Assim, forjou-se a relação
entre os peões e a burocracia sindical de São Bernardo,
ao mesmo tempo, limitando e potencializando a pulsão
plebeia por trás do ciclo grevista, além de conduzi-la na
direção da negociação com o regime autoritário e com as
empresas da região. Sabemos que daí surgiu um líder cuja
legitimidade deriva do controle da insatisfação popular por
meio de negociações que lentamente garantem pequenas
concessões aos trabalhadores. Uma força social reformista
a afiançar o armistício entre a autonomia dos subalternos e
a presunção dos dominantes.

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Trabalho e política: o regime fabril despótico de


São Bernardo
Obviamente, essa história remonta à integração do
operariado fordista do cinturão industrial de São Paulo
ao regime fabril despótico consolidado pela regulação
autoritária durante o final dos anos 1960 e início dos anos
1970, período conhecido como “milagre brasileiro” devido
às altas taxas de crescimento econômico. O objetivo deste
artigo consiste em revisitar etnografias do trabalho operá-
rio e estudos de caso que se concentraram na análise da
formação da inquietação operária na região do ABCD pau-
lista a fim revelar os momentos-chave que explicam a eclo-
são daquele ciclo grevista ocorrido há exatos quarenta anos
atrás. Além disso, pretendemos identificar o surgimento do
embrião daquela relação social hegemônica que aproxima-
damente três décadas mais tarde, iria assumir, por meio do
governo federal, a direção do modelo de desenvolvimento
136 brasileiro, florescendo como a base do modo de regulação
lulista dos conflitos sociais.
Em nossa opinião, essa relação social começou a se insi-
nuar durante a primeira metade dos anos 1970 através das
iniciativas da burocracia sindical de São Bernardo em esta-
belecer negociações por melhores salários e condições de
trabalho nas fábricas. Concentrando-se em empresas auto-
mobilísticas de São Bernardo – uma delas, a mesma pesqui-
sada por Rodrigues cerca de uma década antes –, Humphrey
refutou a ideia de que o precariado metalúrgico seria for-
mado majoritariamente por operários jovens e sem tradição
de trabalho industrial2. Nas duas fábricas automobilísticas

2
Empregamos o conceito de “precariado” para designar o proletariado precari-
zado, isto é, aquela fração da classe trabalhadora desqualificada ou semiqualificada
que é submetida a altas taxas de rotatividade do trabalho. Devemos acrescentar tam-
bém os jovens trabalhadores à procura do primeiro emprego, indivíduos que estão
na informalidade e desejam alcançar o emprego formal, além de trabalhadores
subremunerados (no caso brasileiro, aqueles que recebem até um salário mínimo e
meio) e inseridos em condições degradantes de trabalho. Uma população que, no

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estudadas, cerca de 61% dos operários eram classificados


pela companhia como operários não qualificados (20%) ou
semiqualificados (41%), a maioria já contando com algum
grau de experiência urbana e industrial. A despeito dessa
proporção ser mais elevada do que as encontradas nos seto-
res tradicionais, esse percentual não diferenciava a indústria
automobilística dos demais ramos metalúrgicos.
A abundante oferta de força de trabalho não qualifi-
cada no pós-guerra, somada aos progressos da automação
e do controle gerencial, estimulou as montadoras a recru-
tar no mercado externo de trabalho. Na medida em que a
experiência operária era menos importante para a elevação
da produtividade do trabalho, o interesse das empresas em
estabilizar os trabalhadores declinou. Como bem demons-
trou Humphrey, a política da rotatividade da força de traba-
lho ajudava a estruturar um sistema industrial que não ape-
nas servia para garantir a obtenção da disciplina operária
devido ao medo do desemprego, como também favorecia o 137
aumento de produtividade.
A subordinação da folha salarial ao departamento finan-
ceiro das empresas também permite perceber por que a
progressão funcional levava à demissão. Ao progredirem na
carreira, os operários semiqualificados que alcançavam as
posições mais altas eram demitidos e substituídos por jovens
não qualificados, que recomeçavam o ciclo. Este supunha a
existência de uma complexa hierarquia salarial que anun-
ciava aumentos atribuídos em parcelas e por períodos con-
forme o parecer das chefias. O operário buscava, então,
trabalhar disciplinadamente para ascender a uma faixa
salarial mais elevada. Quando o operário por fim conseguia

Brasil, aumentou muito desde a década de 1990. Não nos esqueçamos que, mesmo
com o avanço da formalização do emprego entre os anos de 2003 e 2015, as taxas
de rotatividade, de flexibilização e de terceirização e o número de acidentes de tra-
balho no país subiram no mesmo período. Em suma, o precariado é formado pelo
setor da classe trabalhadora pressionado pelo aumento da exploração econômica
e pela ameaça da exclusão social (Braga, 2012).

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alcançar essa faixa, era demitido e substituído por outro,


que recomeçava com um impulso renovado o mesmo ciclo
desde as faixas salariais mais baixas.
Assim, não é difícil compreender o desinteresse da
indústria em negociar com os sindicatos. Para Humphrey
(1983), esse sistema industrial conduziu os operários da
indústria automobilística na direção dos mesmos interesses
do restante da classe trabalhadora brasileira. Além disso,
após 1964, o precariado metalúrgico – diferentemente dos
operários qualificados que ainda percebiam certos reajustes
salariais – sofreu mais agudamente com a carestia. Durante
o período do “milagre econômico” (1968-1975), a inquieta-
ção operária motivada pela deterioração salarial, assim como
pela intensificação da produtividade do trabalho, fomentou
formas passivas de resistência entre as fileiras operárias:

Cada um tem uma mentalidade. Tem pessoas que zela


138 pela sua máquina, cuida. Otras vê a máquina cum raiva.
Qué distruí. Cabá cum aquilo. Isso acontece dimais numa
seção. E se alguém fala cum eles… ele fala: Num é meu não,
rapaiz… Deixa isso cabá. […] Quando recebe uma órdi… a
maioria das pessoa vai quétinho fazê aquilo mais pur dentru
ele tá remuendo (Rainho, 1980, p. 65).

Ou ainda:

Então, eu cunversei cum ele e falei: escuta u senhor não


passa pelo nosso problema. U senhor não tem que enfrentá
aquela fila de torneira. U senhor num tem que pegá u
ônibus. U senhor tem u seu carro. U senhor não suja as
mãos. U senhor é mestre. U senhor lida cum papel. U
senhor teria que passar pelo nosso problema pra entendê
u qui é isso. Mas ele fala não, que a norma da firma é essa
e que nóis temo que… vivê assim. Então, a gente combinô,
sabe? Isso foi uma reação da turma… ele qué nos proibi saí

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cinco e vinte e cinco da seção, falamo: Não, nóis temo que


saí todo mundo junto cinco e vinte e cinco, até ele desisti.
Ele vai ameaçá, dá carta de advertência… fazê u diabo. Mas
a gente num deve desisti, sabe? Cinco e vinte e cinco sai
todo mundo junto. E, nóis tamo saindo. E ele fica doido,
sabe? Então, a gente sai cinco e vinte cinco, depois volta pra
seção pra marcá u cartão (Rainho, 1980, p. 77).

Isso sem mencionar o descontentamento com o traba-


lho noturno e com o interminável número de horas extras
que, tendo em vista a pressão das empresas, o operariado
como um todo era obrigado a aceitar. Na realidade, os lon-
gos períodos de horas extras em um setor que normalmente
exige acentuado esforço físico, ocasionando fadiga intensa
e acidentes de trabalho, consolidaram-se como uma prática
comum na indústria automobilística brasileira:

Esse problema de extra… isso aí é um troço antigo… 139


ninguém conserta. A firma interessa e às veiz u peão exige…
inclusive nu meu setor eles tão na maior briga lá. Uns
elemento querem emprestado pra outro setor pra fazê hora
extra… esse otro setor u pessoal num fazia hora extra…
num querem fazê hora extra, reivindicando melhó salário.
Então eles deixam de pagá… u salário… um pouquinho
mais pr’aqueles que eles mantém aquilo lá… e eles às veiz
vão pagá o dobro mais… elementos que ali em baixo tá
ganhando quatro… eles vão pagá oito pru peão í fazê aquela
hora extra. E u peão vai. Vai matando. Porque ele ganha um
pouquinho mais. Aquilo pra ele fazendo hora extra é um
negócio. Sem sabê que ele tá prejudicando u companheiro
e ele… aí então quando foi agora, esses dias… é… devido u
pessoal tê entrado cum u processo de pedido de integração
de hora extra, férias, décimo tercero, essas coisa. […] Ocê
tem que sabê que si ocê num vivê cum oito hora, ocê num
vive nem cum vinte. Depois ocê tem que sabê que se ocê

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fô fazê hora extra só a firma é que tem a ganhá: ocê perde


a saúde, energia, prejudica aquele seu companheiro, tira
o emprego de dois ou treis que tá lá fora precisando de
trabaiá (Rainho, 1980, p. 101).

Facilmente substituído e percebendo salários meno-


res, o precariado metalúrgico experimentava sérias limita-
ções para poder resistir à imposição das longas jornadas e
ao aumento dos ritmos do trabalho. Na vívida descrição de
Rainho, podemos compreender os expedientes utilizados
por esses trabalhadores para aumentar a produção, assim
como apreender a multiplicidade de fontes de pressão pela
intensificação dos ritmos de trabalho que os submetiam:

Mas, como apesar do estado permanente de cansaço os


operários não podem deixar de produzir, fazem, então, o
que chamam de “apelar” para conseguirem “vencer” o dia
140 de trabalho. […] Durante um certo tempo, mesmo o corpo
não querendo, abstraem-se de tudo e voltam-se inteira e
obcecadamente para o trabalho que, realizado com afinco e
rapidez, lhes possibilita “esquentar o sangue” e ir até o final
do expediente. Mas tendo acostumado o corpo ao ritmo,
ele não pode ser esfriado. No entanto, invariavelmente, isso
acontece com as interrupções para refeições. É então, na
oportunidade, que recorrem à bebida como estimulante,
em bares existentes nas proximidades das fábricas… […]
Pode também ser atribuído [o ritmo intenso de trabalho] a
outros fatores, tais como: a) competição e rivalidade entre
as turmas, que “já faz parte da personalidade das empresas”,
embora não seja assim percebida pelos próprios operários;
b) pessoas em experiência que, no afã de serem aprovadas
para admissão definitiva, “dão tudo o que têm”; c) outros,
desejosos de obter aumento ou promoção, trabalham
intensamente para mostrar aos chefes que são “bons”; d)
os que não possuindo “vícios” não dosam suas energias e,

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finalmente, e) o receio de serem demitidos por não dar


produção como os demais (Rainho, 1980, pp. 244-245).

Os efeitos do aumento do esforço físico eram visíveis


não apenas no permanente estado de esgotamento do ope-
rário, mas, sobretudo, no aumento da produção. Entre
1970 e 1978, por exemplo, a produção na empresa revisi-
tada por Humphrey havia dobrado, sem qualquer moder-
nização saliente da base técnica. Não é de espantar que, a
certa altura, a gerência tivesse simplesmente abandonado
a cronometragem das tarefas, passando a exigir das dife-
rentes seções metas arbitrárias: “Antes a gente tinha crono-
metragem. Aí estava certo. Mas agora já não. […] Se tem
dez pessoas fazendo um serviço, eles já estão pensando
que é demais e que devem tirar mais dois. Às vezes não dá.
Todo mundo sai nervoso daqui” (Humphrey, 1983, p. 90).
Evidentemente, os problemas relacionados com as condi-
ções de saúde e de segurança dos trabalhadores aumenta- 141
vam. Tendo em vista as características gerais desse sistema
industrial, o que a indústria automobilística deveria fazer
para atrair novos operários, renovar os ritmos e garantir a
elevação da produtividade no setor? A solução inspirou-se
no próprio Ford, ou seja, nos chamados “altos salários”.
E o ciclo se completa: quando o precariado metalúrgico
não conseguia mais acompanhar o ritmo e “dar a produ-
ção”, seja por conta de fadiga, acidente ou adoecimento,
era facilmente substituído por uma nova onda de jovens tra-
balhadores atraídos pelos altos salários praticados no setor.
Além disso, produto da política de rotatividade do traba-
lho, as maciças flutuações do emprego no setor atingiam
predominantemente o jovem precariado metalúrgico. A
intensa rotação da força de trabalho, além de servir como
meio de disciplinarização dos trabalhadores, correspondia
à estratégia das montadoras de descarregar sobre o preca-
riado o ônus das flutuações cíclicas das vendas de veículos,

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garantindo o aumento das margens de lucro: caso houvesse


queda da demanda, os custos relativos ao pessoal deveriam
ser adequados ao montante dessa queda e o volume do
emprego ficava atrelado à flutuação das vendas.
Se fora da empresa os trabalhadores enfrentavam a dita-
dura militar, dentro das fábricas encontravam-se submetidos
à autocracia dos departamentos financeiros: precariedade
do emprego, instabilidade dos salários, condições inadequa-
das de segurança, cadências produtivas “infernais”, arbitra-
riedade gerencial… Um ex-operário da Ford sintetizou da
seguinte maneira os efeitos da combinação entre o controle
e a rotatividade do operariado de São Bernardo:

Na maioria das vezes o peão, antes de ser admitido, pensa


que vai trabalhar num lugar agradável, limpo, que lhe
proporcionará bem-estar, segurança e bom relacionamento.
Pode pensar que vai realizar aí sua vida como profissional
142 e pessoa humana. Logo, porém, vem a realidade. Tudo
isso apenas encobre algo que lembra um campo de
concentração. […] Tudo dentro da fábrica está organizado
para tirar o máximo do operário às custas de um desgaste
físico insuportável, poluição, barulho e ritmo incansável de
trabalho que deixa a pessoa humana despossuída de todas
as reservas físicas, mentais e morais. […] Quando o físico
e a mente estão esgotados; quando o operário já adquiriu
o suficiente número de doenças industriais incuráveis;
quando vai ficando só o bagaço, então vem a substituição
por um operário novo que entregará suas melhores energias
que ficarão cristalizadas nos carros bonitos, produtos de seu
suor, que percorrem e engarrafam as ruas das cidades, num
ritmo louco de produção e consumismo muitas vezes inútil.
[…] Existe a divisão artificial entre especializados e não
especializados, diferenças de categorias e em cada categoria
escalas, todas divisões, A.B.C.D., artificiais, com pequenas
diferenças de salários, a fim de promover a concorrência

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entre os próprios operários e criar a ilusão de uma luta


individual para subir de escalão; o que age contra o espírito
coletivo de luta, e cria a disputa para aumentar e melhorar a
produção (Brito, 1989, pp. 29-30).

Percebendo a fragilidade do sindicato em negociar salá-


rios e melhores condições de trabalho, a situação encon-
trada por Humphrey em 1975 pode ser descrita como de
relativa inatividade. Mesmo assim, o autor reconheceu nos
protestos “espontâneos” por melhores salários, liderados
pelos operários qualificados das montadoras em 1973 e
1974, consistentes indícios da existência de focos de resis-
tência operária. Combinando repressão com aumentos
diferenciais de salários, a reação das empresas foi suficiente
para controlar a situação, restabelecendo a “normalidade”
do processo de trabalho. No entanto, logo após o fim das
paralisações, o precariado metalúrgico experimentou um
acentuado aumento da carga de trabalho. 143
Temendo a demissão, os trabalhadores submeteram-
-se aos ritmos impostos pelas gerências. Apesar disso, os
protestos de 1973 e 1974 demonstraram a existência de
uma inquietação na base suficientemente forte para ali-
mentar a retomada das reivindicações no setor. Humphrey
chega mesmo a comparar as respostas ao questionário de
Rodrigues relativas às atitudes sindicais com outras obti-
das a partir da tabulação de seu próprio questionário.
Argumenta, então, que seus dados, apesar de não serem
suficientes para afirmar que as fábricas de automóveis no
Brasil estariam povoadas de operários com consciência de
classe, permitiam ao menos afastar o ceticismo em relação
à auto-organização sindical.

Da consciência contingente à consciência necessária


Entendimento próximo já podia ser observado na pes-
quisa de campo realizada por Celso Frederico no final dos

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anos 19603. Entrevistando operários de uma metalúrgica de


Santo André, Frederico soube anunciar pioneiramente a
transformação do conhecimento do objeto rumo à análise
do regime fabril. Mobilizando um amplo cabedal de autores
marxistas clássicos e contemporâneos – de Lukács a Lenin,
passando por Rosa Luxemburgo e Ernest Mandel –, o autor
construiu uma interpretação relativamente inédita entre nós
a respeito da consciência operária, cujo eixo gravitava em
torno da teoria lukacsiana da reificação4. Assim, buscou com-
preender a consciência do grupo operário como uma pro-
cessualidade na qual coexistiam, contraditoriamente, tanto
a “falsa consciência” – isto é, as formas contingentes, frag-
mentadas e imediatas da consciência psicológica dos ope-
rários subsumidos ao processo de coisificação das relações
capitalistas de produção – quanto vestígios de “consciência
necessária”, ou seja, a consciência capaz de reconhecer no
operariado um sujeito político.
144 Amparado por suas entrevistas, ele concluiu que os
operários mais qualificados e experientes atuavam como
o grupo mais avançado e reivindicativo dentro da fábrica
e que os ajudantes – pelo fato de serem jovens, solteiros,
não qualificados ou semiqualificados – representavam uma
massa politicamente inorgânica. Ainda assim, Frederico
identificou formas elementares da consciência de classe
que, em determinadas condições históricas, poderiam evo-
luir para formas politicamente ativas. Por constituírem o
setor mais dominado e explorado do grupo operário, o pre-
cariado metalúrgico, mesmo interpretando sua situação em
termos mais vantajosos do que a do precariado rural, perce-
bia claramente as dificuldades para progredir no interior da
empresa. Por um lado, se a expectativa de progresso ocupa-
cional reforçava certo conformismo, por outro, essa esperança
3
Ver Frederico (1978).
4
Evidentemente, não ignoramos o trabalho pioneiro de Michael Löwy sobre
História e consciência de classe. Ver Löwy (1962) e Löwy e Chucid (1962).

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chocava-se cotidianamente com o medo da demissão, a rea-


lidade da carestia e a intensificação do trabalho. Em certos
momentos, essa tensão latente conseguia erodir as barreiras
do conformismo, vocalizando uma inquietação capaz de fus-
tigar até mesmo o sindicato:

Pedro: “O sindicato tinha mais força antigamente. Agora ele


caiu muito com a mudança de governo. O Castelo Branco
entrou aí e acabou com tudo. O sindicato não pega mais
força. Antes do Castelo os sindicatos tinham força, depois
mudou. O Castelo disse que sindicato não resolvia nada, era
tudo com ele que se resolvia. O sindicato perdeu a força que
tinha. Naquela época, se o cara queria aumento, arrumava
cinco pessoas, ia lá e resolvia. Até greve podia fazer que
o sindicato garantia. Agora aumento é só de ano em ano
por lei, e se os trabalhadores fazem greve o patrão chama a
cavalaria sobre a gente. O Presidente da República ajudava o
sindicato, qualquer coisa o sindicato falava com o presidente 145
e conseguia. Agora o sindicato tem uma desculpa: diz que
os trabalhadores caíram muito, que eles estão com medo”.
Ciro: “O sindicato não vale mais nada. Antigamente ele
tinha mais força, mandava parar, parava. Depois que entrou
o governo militar, eles cassaram e prenderam os dirigentes
sindicais. Hoje é tudo mandado pelo governo. Antigamente
tinha greve, eles tinham força para fazer greve e pedir
aumento. Eles tinham força porque o governo apoiava eles
também. Não é que apoiava, é que tinha liberdade de fazer.
Com esse governo acabou. Os operários não fazem mais
greve porque não podem. Agora não pode nem falar, o
governo prende” (Frederico, 1978, pp. 62-63).

Nem por isso o conformismo instalou entre os metalúr-


gicos. Incerta, a inquietação operária assumiu a forma da
contenção da produção. Objetivando pressionar a empresa
por aumentos salariais, a conhecida técnica de diminuir o

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ritmo de trabalho surgiu como um estratagema dos grupos


profissionais para pressionar a gerência. Em certa medida,
a limitação produtiva substituiu o recurso à greve. Tendo
em vista a fragilidade do movimento sindical, os operários
se viam cada dia mais dependentes da utilização de enfren-
tamentos “espontâneos” no chão de fábrica para defender
seus salários. Nesse sentido, a contenção identificada por
Celso Frederico entre os anos de 1970 e 1971 prefigurou a
resistência operária em 1978:

Orlando: “O engenheiro chegou pedindo aumento de


produção, mas não falou em aumento de salário. No
primeiro dia nós demos a produção que ele queria e
pedimos aumento. Ele negou. Todo mundo amarrou a
produção! Foi impressionante! Não foi um nem dois, foi
todo mundo. Aí entramos em entendimento e deram
aumento. Antes disso houve ameaças de despedir os
146 operários, mas como era todo mundo que amarrava eles não
podiam mandar todos embora” (Frederico, 1978, p. 91).

De fato, se a condição operária é capaz de promover uma


espécie de consciência prática crítica do sistema de relações indus-
triais fordista, não devemos negligenciar o papel que a crítica
prática, isto é, aquelas “orientações políticas assumidas pelas
organizações sindicais e partidárias”, cumpriu no amadureci-
mento da experiência operária. Herdados do período populista
e intensamente perseguidos pelos militares, os agrupamentos
políticos ressurgiram nas oposições sindicais. Estas empenha-
ram-se em organizar “comitês de fábrica”, passando a disputar
com o aparato burocrático a influência sobre o operariado.
Se durante o “milagre” econômico a influência das oposições
sindicais nas fábricas tendeu a declinar tendo em vista a combi-
nação da repressão militar com a delação dos militantes pelos
“pelegos sindicais”, já em meados dos anos 1970 a revivificação
do ativismo na base referendou o trabalho das oposições.

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O golpe de 1964 redefiniu o peso da classe trabalha-


dora no interior do modelo de desenvolvimento. As altas
taxas de crescimento econômico entre 1968 e 1975, soma-
das à repressão ao operariado, deslocaram as tensões clas-
sistas para o interior das fábricas, ocultando a deterioração
de salários e de condições de trabalho por meio de uma
mobilidade ascendente acessível a uma minoria. De fato,
imediatamente após o golpe, a destruição do sindicalismo
populista e o recuo dos sindicatos para uma função de mero
apoio assistencial erodiram o poder de barganha da classe
operária. Além disso, a implantação do Fundo de Garantia
do Tempo de Serviço (FGTS), ao facilitar as demissões, esti-
mulou a concorrência entre os próprios trabalhadores, pres-
sionando os salários para baixo. Para completar esse quadro,
os operários temiam que uma eventual participação no sin-
dicato redundasse em prisões e inquéritos na Justiça Militar.
Além disso, como bem observou Frederico, a passagem
da barganha salarial coletiva para a barganha individual ser- 147
viu para aumentar ainda mais a fratura no interior da pró-
pria classe. O jovem precariado metalúrgico viu a distância
entre seus salários e os dos grupos profissionais aumentar.
Enquanto estes procuravam se defender do arrocho por
meios “corporativistas”, o precariado viu-se abandonado à
própria sorte.

Da burocracia sindical à vanguarda metalúrgica


Em meados da década de 1970, esse grupo operário
insatisfeito com a rotatividade, a intensidade do trabalho
e o aumento da carestia encontrou-se com uma burocracia
sindical herdeira do colapso do populismo em busca de sua
própria identidade: a pauta reivindicativa do Sindicato dos
Metalúrgicos de São Bernardo acantonava demandas que
iam da liberalização do controle sobre os sindicatos à nego-
ciação coletiva livre com o restabelecimento do direito de
greve. Contudo, a mesma pauta nada dizia sobre o fim da

Lua Nova, São Paulo, 104: 133-165, 2018


Trabalho e política em São Bernardo: arqueologia de uma hegemonia precária

unicidade sindical. Outro importante ponto da reivindica-


ção metalúrgica era a demanda por comissões de fábricas
mistas no interior das empresas, com garantias de estabili-
dade para os delegados sindicais.
Carente de canais de comunicação com o governo e
com as empresas, pressionada pelas condições de vida das
bases e pela presença da oposição sindical, essa burocracia
liderada por um conhecido “pelego”, Paulo Vidal, foi apu-
rando sua prática “apolítica”: facilitar a filiação dos traba-
lhadores ao sindicato, aperfeiçoar o serviço de assistência
médica e social e construir uma nova sede, além de man-
ter permanentemente o foco sobre o poder de compra dos
salários. E no momento em que a ditadura militar come-
çava a emitir os primeiros sinais de fadiga, essa burocracia
mostrou-se permeável à inquietação operária, especialmente
em relação à insatisfação com as horas extras e com a rota-
tividade do trabalho. Em grande medida, essa sensibilidade
148 decorria do fato de que uma parte importante dessa buro-
cracia se originara no setor automobilístico5.
As demandas dos sindicalistas de São Bernardo mostra-
ram-se afinadas com a limitação do controle do Estado sobre
os sindicatos e com o restabelecimento dos direitos demo-
cráticos aos trabalhadores. Foram as principais característi-
cas do fordismo periférico, tais como o despotismo fabril, a
alta rotatividade e as longas jornadas, somadas à repressão
política e ao arrocho salarial, que alimentaram a inquieta-
ção operária, conduzindo a burocracia sindical ao confronto
com as empresas e os governos6. Buscando soluções para
os problemas imediatos do operariado metalúrgico, essa
burocracia – particularmente após a entronização de Lula

5
Por burocracia sindical entendemos um fenômeno social, a um só tempo, eco-
nômico, institucional e político, apoiado sobre o desenvolvimento de uma camada
social que se apropria de funções organizativas previamente exercidas pelos pró-
prios trabalhadores, ou seja, a burocracia operária. Ver Mandel (1992).
6
Sobre o conceito de despotismo fabril, ver Burawoy (1985).

Lua Nova, São Paulo, 104: 133-165, 2018


Ruy Braga

da Silva na presidência do sindicato, em 1975 – inspirou a


mobilização de outros grupos de trabalhadores pelo direito
de greve, por conquistas salariais, por formas de negociação
coletiva e pela redemocratização do país.
A recessão econômica experimentada pelo capitalismo
avançado, entre 1973 e 1979, atingiu a economia brasileira,
deteriorando a capacidade do país de pagar encargos da
dívida externa. Assim, em meados na década de 1970, o
regime começa a emitir os primeiros sinais de distensão
política, com a escolha de Ernesto Geisel para a Presidência
da República. Além disso, a denúncia de manipulação dos
índices inflacionários de 1973 a 1975 somou-se à insatisfa-
ção com a carestia, incentivando a campanha pela repo-
sição salarial de 1977 e a eclosão do grande ciclo grevista
do ABCD paulista. A inquietação que catalisou esse ciclo
grevista apoiou-se na convergência de um pequeno grupo
qualificado e relativamente estável de trabalhadores com o
jovem precariado metalúrgico, concentrado e permeável à 149
ação dos agrupamentos políticos clandestinos nas fábricas.
Em termos sumários, tendo em vista, sobretudo, o
incremento do número de sindicalizados e o militantismo
demonstrado por seus novos quadros, a burocracia sindical
de São Bernardo passou por uma revivificação que culmi-
nou, em 1975, na eleição de Lula da Silva para a presidência
da entidade. O sindicato passou então a ser reconhecido
como um interlocutor confiável por algumas empresas-
-chave do setor, dentre as quais a própria Ford. Mas a grande
reviravolta na conjuntura adveio do encontro da crise eco-
nômica com um renovado criticismo da sociedade civil.
Cresce, então, a oposição nas ruas – protestos estudantis – e
na imprensa – por meio de periódicos alternativos etc. –,
além de vitórias eleitorais significativas da oposição parla-
mentar. Um esboço de distensão do regime começou a ser
ventilado por lideranças militares e as direções sindicais se
sentiram mais livres para retomar uma atividade militante

Lua Nova, São Paulo, 104: 133-165, 2018


Trabalho e política em São Bernardo: arqueologia de uma hegemonia precária

mais combativa. Em São Bernardo, a burocracia sindical


decidiu lançar uma campanha salarial apoiada em um notá-
vel esforço de panfletagem e em assembleias com ampla par-
ticipação dos trabalhadores.

Da rebeldia das bases ao ciclo das greves


Em 1977, a euforia com o “milagre econômico” já
havia passado. Ao contrário, atingidos pela carestia e
submetidos a duras condições de trabalho, os metalúrgicos
experimentavam o aumento da desigualdade promovido
pelo modelo de desenvolvimento: “Uns dizem que o Brasil
tá melhorando muito. Outros dizem: Olha, é cumo uma
abobra podre… […] O Brasil tá melhorando para os ricos e
piorando para os pobres. […] Os aumentos do salário não
resolvem a situação” (citado em Rainho, 1980, pp. 156-157).
Além disso, a experiência com as eleições parlamentares
de 1974, quando o oposicionista Movimento Democrático
150 Brasileiro (MDB) inesperadamente venceu a Aliança
Renovadora Nacional (Arena) por ampla margem de votos,
deixou claro que mesmo uma vitória da oposição parlamen-
tar não seria suficiente para alterar a situação dos operários.
O desinteresse dos metalúrgicos pela eleição de 1978 mos-
trou que eles se distanciavam de uma solução parlamentar
para os impasses do regime:

As eleições, pur exemplo, são daí a quinze dias, mais u


pessoal num tem nem comentado. Mesmo sendo pessoal
de fábrica, é a primeira eleição qui eu vejo uma frieza total
da classe. […] Ninguém fala que vai votá nesse ou naquele.
Cumo política, eu nunca vi uma pulítica tão fria desse
jeito. Parece qui u operário tá dando u maior desprezo em
pulítica. […] Na última eleição eu votei no Quércia e MDB
e esse ano vou votá novamente no MDB que vai entortar
a Arena. Agora pra mim nem um dos dois partidos fazem
diferença (citado em Rainho, 1980, pp. 155-156).

Lua Nova, São Paulo, 104: 133-165, 2018


Ruy Braga

A essa decepção somou-se a indignação com a mani-


pulação dos índices inflacionários. Liderada pelo sindicato
de São Bernardo, a campanha salarial de 1977 enfatizou a
necessidade de recuperar tais perdas. Como resultado do
esforço de mobilização do sindicato, as assembleias operá-
rias tornaram-se muito concorridas, levando a direção sindi-
cal a usar campos de futebol para abrigar a imensa quanti-
dade de trabalhadores que queria participar das reuniões. A
agitação operária, naturalmente, repercutiu no interior das
fábricas, onde os operários usavam qualquer horário dispo-
nível para debater a campanha. Comissões de fábrica foram
criadas nas empresas em que não existiam e as comissões já
existentes foram renovadas pela mobilização das bases.
Diante desse quadro, Lula da Silva declarou em seu
discurso de posse à frente do sindicato, em 21 de abril de
1978, que a paciência em negociar com as empresas e com
o governo já havia se esgotado:
151
Depois de sete meses, cheguei lamentavelmente à conclusão
de que a classe empresarial não quer negociar com seus
trabalhadores, mas tirar toda a sua força física, até a última
gota de suor. Por isso está na hora de deixar o diálogo de
lado e partir para a exigência. Sem medo de nada (Lula da
Silva apud Antunes, 1992, p. 18).

A campanha salarial de 1978 representou para a buro-


cracia sindical uma oportunidade ímpar, não apenas de con-
solidar o nível de mobilização conquistado no ano anterior,
mas também de atrair os operários mais ativos na base.
A campanha enfatizou a inutilidade da negociação
com o governo, afirmando que para reaver as perdas sala-
riais os metalúrgicos deviam paralisar a produção: “Foi
uma campanha de praticamente cinco meses, mostrando
ao operário que ele só recuperaria esse dinheiro se partisse
pro pau. E quando nós trabalhadores usamos esse linguajar

Lua Nova, São Paulo, 104: 133-165, 2018


Trabalho e política em São Bernardo: arqueologia de uma hegemonia precária

de partir pro pau, não é brigar não, é simplesmente parar


as máquinas” (Lula da Silva apud Humphrey, 1983, p. 156).
As reivindicações espalharam-se de forma rápida pelas
empresas, evidenciando um avançado processo de auto-
-organização das bases. Apesar da disposição demonstrada
pela burocracia sindical de São Bernardo, de estreitar os
vínculos com o jovem precariado metalúrgico, a eclosão de
um forte movimento grevista enraizado no chão de fábrica
apanhou de surpresa até mesmo a diretoria recém-eleita.
Nesse momento, o papel do sindicato limitou-se a interme-
diar os conflitos entre os operários grevistas e as empresas.
Nas palavras de Lula da Silva:

A ação da direção sindical foi mais no sentido de


representação do movimento grevista nas fábricas, quando
solicitada pelos trabalhadores (e em alguns casos pelo
próprio patronato, com o objetivo de buscar canais de
152 negociação). No momento inicial, quando da eclosão das
primeiras greves, o Sindicato atuou inclusive mais como
intermediação entre o operariado e a direção fabril
(Lula da Silva apud Antunes, 1992, p. 34).

No entanto, isso não quer dizer que as primeiras para-


lisações fossem de todo inesperadas. Dando mostras de
sagacidade política, o sindicato já havia integrado na chapa
de 1978 a parte mais ativa das jovens lideranças surgidas
na região. Nesse momento, também a burocracia sindical
amadureceu politicamente. Refletindo alguns meses antes
do início das greves de 1978 sobre os limites do modelo de
desenvolvimento, Lula da Silva afirmou:

“Mas vocês não podem parar as fábricas.” Não pode em


termos. Vamos dar mais um tempo que vamos ver se
podemos ou não podemos. Não vejo outra forma, pô.
Conversar com patrão? Já conversamos. Conversar com

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Ruy Braga

autoridade? Já conversamos. Ninguém tá preocupado com o


trabalhador… (apud Humphrey, 1983, p. 157).

Assim, não causa espanto que uma paralisação em maio


na Saab-Scania tenha rapidamente se espalhado pelas plan-
tas da Mercedes-Benz, Ford, Volkswagen e Chrysler, envol-
vendo 45 mil grevistas nas primeiras semanas. A greve da
Scania revelou, igualmente, outra característica do ciclo
grevista: a convergência entre os operários profissionais e
o jovem precariado metalúrgico. A greve iniciou-se pela fer-
ramentaria, onde os operários apresentavam mais familiari-
dade com a ação sindical, conquistando rapidamente a ade-
são dos demais setores. Por um lado, a tradição sindical dos
profissionais assegurou o início da greve, por outro, a ade-
são da massa precarizada garantiu seu sucesso. Ao contrário
das paralisações de 1973 e 1974, limitadas à ferramentaria,
a greve de 1978 apoiou-se em ambos os grupos:
153
A ferramentaria já estava garantida. E as outras seções?
Falar para todo mundo não era bom negócio, porque ia
ter alguém que ia furar o bloqueio e falar para os mestres.
Mas também eles tinham que saber antes de parar. Então,
pensamos nos ônibus da saída, mas não da entrada, do dia
12. Com os que sabiam, combinamos: vamos fazer um tipo
de sanfona. Vamos conversar só com as pessoas de confiança
de todas as seções. Esse trabalho foi feito dia 10 de meio-dia
em diante e dia 11. Não foi feito mais que isso… No dia 12
a gente conversou nos ônibus que a ferramentaria ia parar
e que era importante que as outras seções acompanhassem.
[…] Quando chegou na sexta-feira, dia 12 de manhã, o
esquema da ferramentaria estava pronto. O pessoal da
noite, poucos sabiam. Esse pessoal saía e já deixava o do
dia trabalhando. E aquele pessoal ia saindo e ninguém que
entrava começava a trabalhar… a ferramentaria não ligou as
máquinas. Nas outras seções no pavilhão A ninguém ligou

Lua Nova, São Paulo, 104: 133-165, 2018


Trabalho e política em São Bernardo: arqueologia de uma hegemonia precária

as máquinas. Só umas 3 ou 4 seções ligaram uma ou outra


máquina. Eu sei que a ferramentaria parou e o pessoal de
outras seções viam que ela estava parada. Aí foi indo, parou
a fábrica toda (Menezes apud Antunes, 1992, p. 22).

Enraizando-se no chão de fábrica por meio do cresci-


mento dos associados e apoiado em uma pequena, porém
sólida, base de ativistas formada por operários profissionais
espalhados pelas principais empresas da região, o sindicato
de São Bernardo aproximou-se do jovem precariado metalúr-
gico a fim de fortalecer a campanha salarial. Por um lado, se
as paralisações ocorridas em 1973 e 1974 haviam evidenciado
que os ferramenteiros sozinhos não seriam capazes de preva-
lecer sobre as gerências, por outro, a convergência destes com
a massa precarizada mostrou-se alvissareira. Demonstrando
um considerável poder de resistência à pressão patronal, os
“peões”, a exemplo do que havia acontecido durante o ciclo
154 grevista de 1968, mas em uma escala muito maior, criaram
e revivificaram comissões de fábrica que se transformaram
nos principais meios de mobilização do movimento. Por sua
vez, a burocracia sindical de São Bernardo concluiu, pressio-
nada pelo descontentamento operário na base e pela ameaça
da intervenção do Ministério do Trabalho em sua cúpula,
que modificações na estrutura sindical não poderiam ser
alcançadas sem o confronto aberto com a ditadura.
Surpreendidas pelo movimento, as gerências imedia-
tamente pressionaram os trabalhadores a voltar ao traba-
lho antes de acenar com qualquer negociação, ameaçando
demitir os grevistas e chamar a polícia. No entanto, diante
da resiliência operária, muitas empresas – caso da própria
Ford, um dos bastiões do sindicato – foram obrigadas a abrir
negociações ainda com as máquinas paradas. Sem a neces-
sidade de recorrer ao piquete, a tática de “picar o cartão” e
“cruzar os braços”, muito utilizada a partir de 1978 em São
Bernardo, dependia basicamente da coordenação política

Lua Nova, São Paulo, 104: 133-165, 2018


Ruy Braga

entre os operários profissionais e o precariado metalúrgico.


Essa tática foi aplicada na Volkswagen, uma fábrica conhe-
cida por sua resistência ao sindicato, e o resultado foi a aber-
tura de negociação com as máquinas ainda paradas.
Nesse momento, a burocracia sindical de São Bernardo
apoiou as reivindicações das bases, ao mesmo tempo que
se esforçava para construir uma imagem confiável perante
as empresas. Liderada por Paulo Vidal, a burocracia sin-
dical de São Bernardo atravessou a retomada da atividade
política nas bases operárias apoiada na “autenticidade sin-
dical”, noção com a qual travara contato durante os cursos
preparados pelo Ministério do Trabalho. O desafio estava
exatamente em coadunar esse sindicalismo “autêntico”,
enraizado nas fábricas e que se supunha hábil em negociar
salários e melhores condições de trabalho, com um sistema
laboral vertebrado pelo fordismo periférico.
E ainda que contra a inclinação de Vidal, a campanha
pela reposição dos 34,1% catalisou a insatisfação operária, 155
impulsionando o ciclo grevista de maio de 1978. O entu-
siasmo operário com a campanha foi tão grande que impôs
à diretoria a criação de uma comissão salarial de mobiliza-
ção aberta a todos os trabalhadores interessados7. Além dos
ganhos salariais, o movimento de 1978 serviu para pôr fim a
um período de dez anos de intenso controle exercido pela
aliança empresarial-militar sobre os operários e seus sindica-
tos. Certos direitos sociais, como o próprio direito de greve,
foram restabelecidos na prática ao longo das jornadas grevis-
tas e a liderança sindical metalúrgica do ABCD acumulou
enorme prestígio, alcançando uma inédita projeção nacio-
nal. Sem mencionar a decisão da burocracia sindical, sob a
pressão de agrupamentos marxistas, em discutir a criação
do Partido dos Trabalhadores (PT) e da Central Única dos
Trabalhadores (CUT).

7
Ver Paranhos (1999).

Lua Nova, São Paulo, 104: 133-165, 2018


Trabalho e política em São Bernardo: arqueologia de uma hegemonia precária

No entanto, a campanha salarial do ano seguinte depa-


rou-se com um patronato determinado a derrotar o movi-
mento. Na realidade, o reajuste tornou-se uma questão
menor. As empresas cobravam dos militares o retorno à
“normalidade”. Após dez dias de greve e temendo a inter-
venção do Ministério do Trabalho, a burocracia sindical
encaminhou uma proposta de retomada do trabalho que
foi rechaçada por uma assembleia de 90 mil trabalhadores.
Imediatamente o ministério decretou a intervenção em São
Bernardo e Santo André.
Mesmo após o fim da greve e sem conquistas imediatas, os
“peões” do ABCD deram uma impressionante demonstração
de apoio ao sindicato, reunindo, durante as comemorações
do 1º de maio, aproximadamente 150 mil pessoas em São
Bernardo. O processo grevista de março mostrou ao patronato
e ao regime militar que não seria fácil desmobilizar o ativismo
no ABCD. Ao mesmo tempo, a greve de 1979 serviu para elimi-
156 nar quaisquer dúvidas a respeito do papel desempenhado pelo
Estado naqueles conflitos industriais do final dos anos 1970. A
imagem de uma aliança empresarial-militar forjada contra os
operários foi se consolidando na consciência metalúrgica. No
tocante à burocracia sindical, a lição era clara: não seria possí-
vel alcançar concessões sem o recurso às greves.
O movimento de 1979 coincidiu com a escolha de
João Batista de Oliveira Figueiredo para a Presidência da
República e as promessas de “redemocratização” do regime
entraram na pauta política nacional. Se até meados dos anos
1970 a burocracia sindical de São Bernardo havia advogado
um distanciamento em relação às questões políticas nacio-
nais, o final da década testemunhou uma rápida politização
das reivindicações. Além disso, após o malogro da campa-
nha salarial de 1979, e diante de sinais claros de agitação
nas bases, à burocracia pouco restava a fazer que não fosse
acompanhar o desejo dos trabalhadores de construir a greve
geral metalúrgica:

Lua Nova, São Paulo, 104: 133-165, 2018


Ruy Braga

O sindicato não decretou a greve, mas esta foi decretada por


uma assembleia que houve numa segunda-feira. Antes de
o pessoal do sindicato falar em greve, um pessoal já estava
gritando por greve geral. A ameaça existia, mas ainda se
esperava conseguir alguma coisa na mesa-redonda que tinha
na mesma segunda-feira. Eu fiquei na primeira noite de greve
dentro do sindicato. Às 11h30 chega o pessoal da Schuller
parado, os caras tinham parado antes da hora marcada.
Depois chega o pessoal da Brastemp, chega o pessoal da
Villares, todo mundo querendo saber se a greve tinha sido
decretada. Foram lá pra saber se a greve tinha sido decretada.
Foram lá pra saber mas já tinham parado. Da meia-noite às 6
da manhã foram realizadas quatro assembleias. […] Então a
decisão […] era não fazer piquete. […] Mas, na verdade, até
aquele momento esses operários não estavam acreditando
muito em greve geral. Então eles alegavam: “Olha nós temos
que ir pra porta da fábrica, pra não deixar ninguém entrar”.
Quem começou o piquete […] foram os próprios operários 157
que ficaram na porta da fábrica, deram-se os braços e não
permitiram a ninguém entrar. […] Então, eu acho que
esse conjunto de coisas é que levou à greve geral (operário
metalúrgico, citado em Antunes, 1992, p. 45).

Contando com um pouco mais de liberdade de ação e


acumulando experiências de enfrentamento com a aliança
empresarial-estatal, a burocracia sindical de São Bernardo
percebeu que, naquelas condições, mesmo questões relati-
vas à segurança no ambiente de trabalho transformavam-se
rapidamente em ameaças às empresas e, em consequência,
ao regime. Tendo isso em vista, a burocracia sindical deci-
diu abraçar o projeto de construção do PT e passou a fazer
duras críticas aos planos de “redemocratização” esboçados
pela ditadura. A decisão de criar um novo partido apoiou-
-se na conclusão de que os operários não podiam depen-
der da tutela estatal. Dispensável dizer que o acentuado

Lua Nova, São Paulo, 104: 133-165, 2018


Trabalho e política em São Bernardo: arqueologia de uma hegemonia precária

fortalecimento da onda grevista, que passou de cerca de


meio milhão de trabalhadores, em 1978, para mais de 3
milhões, em 1979, pesou de maneira definitiva para a deci-
são de fundar o PT. Vale observar, ainda, que 17% do total
das greves ocorridas em 1979 concentrou-se na indústria
da construção civil, demonstrando que o jovem precariado
operário estava de fato na vanguarda da mobilização ope-
rária (Coutinho, 1980).
Em 1980, a mobilização operária foi novamente tes-
tada. Como no ano anterior, a greve geral operária foi
decretada no dia 1º de abril, logo após o malogro da cam-
panha salarial. Mais uma vez o movimento espalhou-se
pelas empresas da região e contou com o suporte de um
nível inédito de organização sindical: prevendo a inter-
venção do Ministério do Trabalho, um comando de greve
foi organizado e, em caso de prisão das lideranças, outros
militantes sindicais assumiriam as funções dos presos.
158 Além disso, 45 ativistas foram encarregados de transmitir
as diretrizes à comissão de salários e mobilização, formada
por cerca de quatrocentos trabalhadores distribuídos
pelas fábricas e pelos bairros, cujo papel seria estabele-
cer a ligação entre as bases e o comando. As assembleias
gerais eram as principais instâncias e eram convocadas
com certa frequência para reavaliar a situação do movi-
mento. Finalmente, o fundo de greve garantia algum res-
paldo material para os operários.
Ainda assim, os trabalhadores não conseguiram suplan-
tar a determinação da aliança empresarial-militar de não
atender nenhuma reivindicação. Seja por questões relativas
aos salários, seja por conta das duras condições de traba-
lho, as greves metalúrgicas questionavam diretamente a
política econômica da ditadura. De pronto, o Ministério
do Trabalho interveio nos sindicatos, encarcerando e pro-
cessando os líderes sindicais com base na Lei de Segurança
Nacional. Após 41 dias de intenso conflito, o movimento

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grevista, embora apoiado em uma notável unidade entre


o operariado profissional e o jovem precariado metalúr-
gico, foi derrotado. A despeito desse contratempo, a greve
logrou desnudar aos olhos dos “peões” a verdadeira natu-
reza da distensão do regime: concessões aos trabalhadores
estavam fora de questão.
O movimento grevista do final dos anos 1970 trouxe de
volta a questão operária para o centro do palco, ajudando
a revelar a natureza reacionária dessa ideologia empresa-
rial. Apoiada no reconhecimento de que o conflito entre
o trabalhador e a empresa é permanente, a politização da
consciência operária resultou curiosamente do confina-
mento do conflito trabalhista ao espaço privado do chão de
fábrica. Proibidos de se manifestar nas ruas, os metalúrgi-
cos viram-se obrigados a transformar a produção imediata
em seu palco de lutas. “Não é possível fazer greve e não é
possível não fazer greve”: a solução para essa contradição
foi “picar” os cartões e cruzar os braços. 159
Da “explosão de consciência de classe” verificada nesse
período adveio a revivificação das assembleias metalúrgi-
cas e das comissões de fábrica, redefinindo os horizontes
da mobilização operária no país. Evidentemente, o sen-
tido dessa “explosão” não se limita à “espontaneidade” da
revolta operária. Ao contrário, a “súbita” intervenção do
precariado metalúrgico e da construção civil no final dos
anos 1970 foi antecedida pelo acúmulo de experiências de
resistência operária somado à ação clandestina das “oposi-
ções sindicais” surgidas no início da década. Enfrentando
burocracias pelegas, as oposições apostavam nas comissões
de fábrica como meio para criar um novo sindicalismo,
independente e representativo.
Vale observar que nosso esforço no presente capítulo
procurou se afastar de uma interpretação “metafísica” da
explosão de consciência de classe. Ao contrário, buscamos
combinar as características mais salientes da regulação

Lua Nova, São Paulo, 104: 133-165, 2018


Trabalho e política em São Bernardo: arqueologia de uma hegemonia precária

autoritária e do regime de acumulação despótico a fim


de apreender o ciclo grevista como uma construção social
enraizada no amadurecimento do classismo prático do
precariado metalúrgico do ABCD. Aos nossos olhos, essa
“explosão” assentou-se sobre dois pilares: objetivos táticos
e estratégicos. Por um lado, temos as reivindicações ime-
diatas ligadas às diferentes campanhas salariais e ao dia a
dia das greves. Por outro, a necessidade de potencializar
a consciência operária por meio de instrumentos organi-
zativos, tais como um novo partido político ou uma nova
central sindical.
Das “operações tartaruga” no início dos anos 1970 aos
protestos liderados pelos setores profissionais entre 1973
e 1974, até chegarmos às paralisações de 1977, a “explo-
são” amadureceu lentamente na consciência do precariado
metalúrgico do ABCD. Logo após o lançamento da campa-
nha salarial de 1978, surgem as operações “gato selvagem”,
160 em que os operários paralisavam o trabalho e logo retoma-
vam a produção. Além de dificultar a repressão das chefias,
essa tática permitia que os operários avaliassem sua força
antes de iniciar o movimento grevista. Com a experiência
acumulada em 1973 e 1974, os operários concluíram que
o melhor momento para deflagrar o movimento era ou
após o café ou após o almoço, pois as máquinas já estariam
paradas. Assim, enfraqueciam a pressão das chefias, que
cairia sobre os primeiros a cruzar os braços.
O apetite grevista amparou-se na indignação dissemi-
nada com salários e condições de trabalho. Por sua vez, a
resiliência dos operários apoiou-se na ação política clan-
destina de grupos organizados dentro e fora das empresas.
Dispensável dizer que o trabalho organizativo desses mili-
tantes, muitos deles ligados às oposições sindicais e à pas-
toral operária, foi decisivo tanto para o sucesso do movi-
mento grevista como para o fortalecimento das comissões
de fábrica. Além disso, a mobilização operária no chão de

Lua Nova, São Paulo, 104: 133-165, 2018


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fábrica criou centenas de comissões para negociar os enca-


minhamentos da greve com as empresas. O impulso para a
criação e a reapropriação dessas comissões provinha, como
não poderia deixar de ser, da forte agitação nas bases meta-
lúrgicas, que perceberam nas comissões uma oportunidade
ímpar de auto-organização, a um só tempo eficaz como
instrumento de resistência ao despotismo fabril e indepen-
dente do sindicato8.

Considerações finais
Em resumo, diríamos que no final dos anos 1970, um
inédito ciclo grevista dirigido por uma burocracia sindical
afinada com a inquietação das bases metalúrgicas subverteu
a estrutura sindical oficial, ameaçando a estabilidade política
da ditadura militar. A decisão do aparelho de Estado de cas-
sar sua liderança não surtiu o efeito esperado, simplesmente
porque a força motriz da rebelião não era o sindicato, mas
o próprio grupo operário. Num primeiro momento, o sin- 161
dicato traduziu essa rebelião em uma série de campanhas
reivindicativas mais ou menos bem-sucedidas, entrando em
conflito com a própria estrutura sindical oficial da qual é
produto (Boito Júnior, 1991). No momento do refluxo da
rebelião operária, especialmente após a derrota da greve
de 1980, a burocracia sindical reassumiu, não sem tensões
internas, sua função na estrutura oficial.
Se a hegemonia lulista que vigorou no país entre os
anos de 2003 e 2016 foi um modo de regulação que logrou
constituir certas margens de consentimento popular por
meio da incorporação de parte das reivindicações dos “de

8
Mesmo após a derrota do ciclo grevista, em muitas empresas consideradas estra-
tégicas pelo movimento sindical o processo de mobilização das bases não refluiu.
As plantas da Ford e da Scania estavam entre aquelas que sustentavam os mais altos
níveis de mobilização e apoio ao sindicato. As duas greves com a ocupação da Ford
ocorridas em maio e novembro de 1981 demonstram bem isso: após a demissão
de 450 trabalhadores, no dia 3 de julho de 1981, os operários decidiram entrar em
greve exigindo a readmissão dos demitidos. Ver Rodrigues (1990).

Lua Nova, São Paulo, 104: 133-165, 2018


Trabalho e política em São Bernardo: arqueologia de uma hegemonia precária

baixo” em reação à subversividade esporádica dos subalter-


nos, a trajetória do novo sindicalismo pode nos dizer muito
sobre as raízes da crise atual. Não se trata apenas da origem
do PT. Por si só, isso seria suficientemente importante para
justificar um retorno às etnografias e aos estudos de caso
que, ao longo dos anos 1970, registraram e analisaram a
relação dos “peões” do ABCD com a burocracia sindical
de São Bernardo. Antes, porém, a revisita a essas pesqui-
sas permitiu identificar os primeiros passos de uma nova
forma de dominação social cujo fundamento localizou-se
no encontro de dois tipos distintos, porém complementa-
res, de consentimento.
Por um lado, vimos como a mobilização operária dos
anos 1970, alimentada pela insatisfação com os salários e
as condições de trabalho e apoiada pela ação clandestina
de agrupamentos políticos, detonou o maior ciclo grevista
da história do país (Noronha, 2009). Nesse momento, a
162 burocracia sindical de São Bernardo, pressionada pelos
operários e incapaz de negociar com a aliança empresa-
rial-militar, subverteu, na prática, a estrutura oficial, diri-
gindo um ciclo de greves julgadas “ilegais” pelo regime.
Entretanto, após a derrota da greve de 1980, essa burocra-
cia reassumiu progressivamente seu lugar na estrutura sin-
dical oficial, sem, contudo, deixar de afiançar concessões
aos trabalhadores, mostrando-se igualmente sensível às rei-
vindicações das bases, além de permeável à incorporação
daqueles operários que se destacavam pelo trabalho orga-
nizativo nas empresas.
A trajetória de Lula da Silva aponta para essa dire-
ção: mesmo fazendo parte da diretoria ampliada do sin-
dicato em 1969, aproximou-se da oposição a Paulo Vidal,
reconciliando-se com o “pelego” sindical em troca de uma
vaga na diretoria efetiva de 1972. Eleito diretor, ele pas-
sou a cuidar do recém-criado setor de previdência social
e FGTS do sindicato. Escolhido por Vidal para encabeçar

Lua Nova, São Paulo, 104: 133-165, 2018


Ruy Braga

a chapa situacionista, procurou se cercar de novos ativis-


tas oriundos das principais empresas do ABCD paulista.
Surpreendido pela vitalidade da greve de 1978, viu-se
obrigado a ampliar a direção sindical criando as comis-
sões de salários e de mobilização. Lula da Silva ergueu um
consentimento ativo à sua liderança pela frequente incor-
poração às fileiras sindicais dos ativistas mais destacados
nas empresas9. Contou para isso com o decidido apoio
de diferentes agrupamentos políticos reorganizados em
torno do PT e da CUT.
No encontro entre essas duas formas de consentimento,
percebemos como a subversividade inorgânica transformou-
-se em consentimento ativo para muitas daquelas lideranças
provenientes das bases operárias. Além disso, podemos da
mesma maneira notar em que medida o poder sindical ofi-
cial foi sendo conscientemente restabelecido pela burocra-
cia, em detrimento das assembleias de fábrica. E uma nova
forma de dominação social – apoiada sobre a pacificação 163
reformista dos conflitos trabalhistas e somada à integração
à estrutura sindical oficial, isto é, ao Estado, daqueles ativis-
tas mais destacados – começa a se insinuar… Uma forma
de dominação que desabrochou plenamente apenas após
as eleições presidenciais de 2002 e que, aos nossos olhos,
foi uma das principais responsáveis pela despolitização das
relações sociais promovida pelos governos petistas de Lula
da Silva e Dilma Rousseff (Hunter, 2010).

9
A trajetória de Vicente Paulo da Silva, o Vicentinho, ajuda-nos a entender esse
processo. Filho de trabalhadores rurais sem-terra, Vicentinho migrou para São
Paulo após transitar por inúmeras ocupações informais em Acari, no Rio Grande
do Norte. Em 1976, logo ao chegar em Diadema, foi contratado pela empresa
metalúrgica Tamet como inspetor de qualidade, filiando-se ao Sindicato dos
Metalúrgicos de São Bernardo no ano seguinte. Em 1980, trabalhando como
inspetor de qualidade na Mercedes-Benz, Vicentinho destacou-se como um dos
principais líderes da comissão de mobilização da greve de 1979, elegendo-se, em
1981, vice-presidente do sindicato. Em 1987, ele sucedeu a Jair Meneguelli na pre-
sidência do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema, tornando-se
presidente nacional da CUT sete anos depois.

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Trabalho e política em São Bernardo: arqueologia de uma hegemonia precária

Ruy Braga
é professor e chefe do Departamento de Sociologia da
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Lua Nova, São Paulo, 104: 133-165, 2018


Resumos | Abstracts

337

TRABALHO E POLÍTICA EM SÃO BERNARDO: ARQUEOLOGIA DE


UMA HEGEMONIA PRECÁRIA
RUY BRAGA
Resumo: O principal objetivo deste artigo é revisitar as etno-
grafias do trabalho operário, assim como os estudos de
caso ampliados que, ao longo dos anos 1970 e 1980, regis-
traram a transformação do grupo operário metalúrgico de
São Bernardo em um dos mais importantes atores políticos
do processo de redemocratização do país, precipitando o
fim da ditadura militar e inaugurando o que alguns auto-
res chamaram de “era das invenções democráticas”. Para
tanto, inicialmente pretende-se enfocar as raízes sociais
do processo de inquietação operária no tocante à relação
entre o recrudescimento do despotismo fabril e os limites à
negociação impostos pela regulação autoritária como cata-
lisador do ciclo grevista que se estendeu entre 1978 e 1981.
Finalmente, busca-se identificar no contexto histórico da
onda grevista de fins dos anos 1970 a formação da relação
social hegemônica que combinou o consentimento passivo
das bases sociais com o consentimento ativo das lideranças
sindicais na criação da regulação lulista dos conflitos sociais
que vigorou no país entre os anos de 2003 e 2016.
Palavras-chave: Sindicalismo; São Bernardo; Lula; Greves;
Peões.

WORK AND POLITICS IN SÃO BERNARDO: ARCHEOLOGY OF A


PRECARIOUS HEGEMONY
Abstract: The main objective of the article is to revise the ethnographies
of labor, as well as the extended case studies that during the
1970s and 1980s saw the transformation of the São Bernardo
metalworking group into one of the most important political actors
in the redemocratization process of the country, precipitating the

Lua Nova, São Paulo, 104, 2018


Resumos | Abstracts

end of the Brazilian military dictatorship and inaugurating what


some authors called the “era of democratic inventions”. For such, it
focuses initially on the social roots of the workers’ unrest process on
the relationship between the upsurge of industrial despotism and
the limits to negotiation imposed by authoritarian regulation as a
catalyst for the strike cycle that lasted from 1978 to 1981. Finally,
this article seeks to identify, within the historical context of the strike
wave of the late 1970s, the formation of the hegemonic social relation
that combined the passive consent of social bases with the active
consent of the union leaders in the creation of Lula’s regulation of
social conflicts style that prevailed in the country between the years
2003 and 2016.
Keywords: Syndicalism; São Bernardo; Lula; Strikes; Peons.
Recebido: 14/06/2018 Aprovado: 17/07/2018

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167
QUANDO OS TRABALHADORES PARAM?
REINTERPRETANDO A OCORRÊNCIA DE GREVES
NO BRASIL
Alexandre Sampaio Ferraza
a
é economista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP).
São Paulo, SP, Brasil. E-mail: <alexandre@dieese.org.br>
Orcid: 0000-0002-9335-4996
http://dx.doi.org/10.1590/0102-167200/104

Introdução
A greve é um dos principais instrumentos de pressão
do movimento sindical, mas seu sentido é causa de ampla
divergência acadêmica. Algumas greves podem ser de natu-
reza “propositiva” – por novas conquistas – ou “defensiva”,
reivindicando a manutenção e/ou o cumprimento das con-
dições vigentes. Outras podem ser de protesto ou solidarie-
dade. Também podem ser classificadas como greves políticas
ou econômicas, gerais, setoriais ou locais. Sua deflagração
pode ser interpretada como sinal de força ou de debilidade
do movimento sindical, como consequência de uma decisão
racional ou “irracional”.
Se há um ponto comum na literatura, é que a greve
é custosa para ambas as partes e, principalmente no caso
do setor público, é custosa também para a sociedade. Na
perspectiva dos trabalhadores, os custos da greve vão do des-
conto das horas paradas à eventual perda do emprego pelos
grevistas, incluindo os dirigentes sindicais. Na perspectiva
dos patrões, há risco de perda do lucro e da participação
no mercado, ou até mesmo risco de falência da empresa. Já

Lua Nova, São Paulo, 104: 167-200, 2018


Quando os trabalhadores param?

na perspectiva dos consumidores ou clientes, a greve pode


significar aumento de preço ou interrupção do consumo de
um bem ou serviço, o que se torna mais agudo no caso de
greve em setores monopolistas ou no setor público.
Em princípio, tanto trabalhadores quanto patrões têm
um bom motivo para evitar a greve. O melhor para ambos
seria a celebração de um acordo, sem a necessidade de defla-
gração de greve, evitando seus custos e, principalmente,
as incertezas que cercam seu desfecho. A inexistência de
acordo não é necessariamente fruto da irracionalidade ou
falta de informação das partes. E nem sempre o motivo da
greve é a obtenção de um ganho material. As greves podem
ter também dimensão política, simbólica e até pedagógica.
Para realizar uma greve, os trabalhadores devem ser capazes
de se organizar coletivamente, mas a própria greve é capaz
de mobilizar sua organização.
Este artigo explora as dimensões política, organizacional
168 e econômica das greves após o retorno da democracia com
a Constituição de 1988. O objetivo não é explicar as greves
do ponto de vista individual, mas tratá-las como fenômeno
social e coletivo. A explicação para a atividade grevista nesse
período é confrontada com algumas das principais hipóteses
da literatura sobre o tema. A análise mostra que a queda do
número de greves não pode ser necessariamente vista como
indicativo de perda de vigor do movimento sindical ou de
cooptação das lideranças; nem seu aumento um indício da
sua revitalização. A greve não é um bom indicador do poder
do movimento sindical. O que não significa que não seja um
elemento importante para compreender seus rumos.
O argumento está dividido em cinco partes. A pri-
meira apresenta uma breve revisão da literatura nacional
e internacional sobre greves. A segunda busca interpretar
as greves em dois períodos distintos da história brasileira
recente: o período de transição e o de normalidade demo-
crática. Na terceira parte, a análise se concentra na relação

Lua Nova, São Paulo, 104: 167-200, 2018


Alexandre Sampaio Ferraz

entre greve e conjuntura econômica. Na quarta parte é


feita uma análise da relação entre as greves e a organiza-
ção do movimento sindical. No lugar de uma conclusão, a
última parte contém algumas conjecturas sobre os signifi-
cados da “nova onda” de greves no Brasil.

Uma breve revisão da literatura sobre greves


A greve é uma das principais armas dos trabalhadores,
senão a principal, na luta por melhores salários e condições
de vida dentro e fora do local de trabalho. Lenin a chamava
de escola revolucionária por seu potencial de transforma-
ção da consciência dos trabalhadores e criação da cultura
organizativa (Lenin, 1961). O surgimento da greve está his-
toricamente ligado ao aparecimento do capitalismo e da
indústria, e sua manifestação é um dos principais indicado-
res do grau de conflito de classes no capitalismo (Engels,
2008, p. 258). A greve pressupõe a organização dos traba- 169
lhadores, e está intimamente ligada à formação das associa-
ções de trabalhadores e à união do proletariado contra a
exploração capitalista (Engels, 2008, p. 252).
As abordagens marxistas sobre as greves no Brasil geral-
mente associam seu crescimento à força do movimento sin-
dical, ao passo que a diminuição da sua frequência é asso-
ciada ao abandono da perspectiva revolucionária, um sinal
da burocratização e “cooptação” das lideranças sindicais
(Alves, 2000). Nessa leitura, o conflito entre classes é irreme-
diavelmente irreconciliável no capitalismo. Não há espaço
para colaboração entre capital e trabalho de forma a que
todos saiam ganhando, pois para elevar e mesmo manter
seus lucros a burguesia deve necessariamente rebaixar o nível
salarial e de vida da classe operária (Trotsky, 1978, p. 79).
Se para os marxistas a greve é um ato racional e legí-
timo do operariado, fruto do conflito irreconciliável entre
classes, para os economistas neoclássicos e teóricos da

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Quando os trabalhadores param?

escolha racional, ela é uma atitude irracional ou no mínimo


tomada com base em informação imperfeita. A greve nunca
deveria ocorrer se os dois lados agissem de forma racional,
uma vez que é custosa para ambos. A solução do chamado
“paradoxo de Hicks” supõe que a ocorrência de greve só
pode ser explicada por uma “falha de comunicação”, que
levaria os trabalhadores a acharem que o patrão pode pagar
mais do que ele realmente pode, e o patrão a subestimar a
capacidade dos trabalhadores de fazerem e sustentarem a
greve (Golden, 1997, p. 5; Lange e Tsebelis, 1993).
Mas, para além da miopia geral, as aparentes manifesta-
ções de irracionalidade podem em alguns casos ser explica-
das pela descoberta de “arenas ocultas” onde se dá a disputa
sindical (Lange e Tsebelis, 1993). É o que procura demons-
trar Golden (1997, p. 136), ao analisar a deflagração de
greves aparentemente “perdidas” contra demissões. Para a
autora, em alguns casos as greves seriam “na verdade” moti-
170 vadas pela tentativa das lideranças sindicais de protegerem
a própria organização sindical (arena oculta) e seus líderes
durante o processo de ajuste, e não para evitar realmente
demissões em massa.
A teoria das “arenas ocultas” é utilizada por Lange e
Tsebelis (1993) em sua crítica às teorias que explicam a greve
a partir dos “recursos de poder” ou das falhas informacionais.
Para os autores, a baixa incidência de greves em contextos
onde o sindicalismo é “forte” (alta concentração e centraliza-
ção da estrutura sindical, e altas taxas de sindicalização), conju-
gada com a restrição salarial, pode ser explicada pela concessão
de vantagens aos trabalhadores em outra arena: a política. Os
trabalhadores consentem em não fazer greves e aceitam salá-
rios menores em troca de um nível maior de emprego, menor
inflação e maiores benefícios na forma de “salário social”.
Para que ocorra a contenção da militância, é necessário
que os sindicatos contem com partidos aliados no comando
do governo. A centralidade do alinhamento entre sindicatos

Lua Nova, São Paulo, 104: 167-200, 2018


Alexandre Sampaio Ferraz

e partidos na explicação para a disposição grevista aparece


também no trabalho de Murillo (2001) sobre as reformas
neoliberais. A autora argumenta que tanto o nível de mili-
tância como seu resultado dependem da relação entre sindi-
catos e partidos e da competição interna ao movimento sin-
dical. Murillo (2001) mostra que as greves são mais comuns
quando existem vários partidos com ligações com o movi-
mento sindical ou “competindo” por suas lideranças. Por
outro lado, tanto a militância como a cooperação são mais
efetivas quando os sindicatos estão organizados em uma
estrutura concentrada e centralizada, sendo representados
por centrais sindicais abrangentes.
Em trabalho posterior, Maria Victoria Murillo e Lucas
Ronconi (2004) procuram mostrar que a incidência de gre-
ves no setor da educação durante as reformas neoliberais
poderia ser mais bem explicada pelos alinhamentos partidá-
rios do que pela estrutura sindical. Segundo os autores, ape-
sar da adoção de uma mesma política de descentralização da 171
educação no plano nacional, a incidência de greves, medida
tanto pelo seu número como pelos dias parados, foi sempre
maior onde os sindicatos subnacionais não tinham ligações
ou “alinhamento” com o partido do governador; e menor
onde tinham ligações estreitas com o partido do governador
(Murillo e Ronconi, 2004, p. 86).
Na tradição da análise econômica e sociológica, a greve
aparece também ligada aos ciclos econômicos, associando-se
a maior ou menor incidência de greves ao desemprego, aos
ganhos salariais e à inflação (Card, 1990). Apesar de pou-
cas evidências quanto à influência dos ciclos em termos da
variação do produto interno bruto (PIB), alguns trabalhos
mostram que altas taxas de desemprego, assim como ganhos
salarias no acordo coletivo anterior, reduzem a probabili-
dade de greves (Ashenfelter e Johnson, 1969; Card, 1990).
Roberto Franzosi (1982), em uma grande revisão teórica,
corrobora essa tese ao concluir que:

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Quando os trabalhadores param?

A pesquisa quantitativa mostrou, para além de qualquer


dúvida, e em diferentes contextos institucionais, que
a frequência de greves segue o ciclo econômico e o
movimento do desemprego, em particular, quanto maior o
nível de desemprego, menor o número de greves
(p. 15, tradução nossa).1

Alguns trabalhos sobre greves procuram ir além da aná-


lise econômica, adotando uma abordagem institucionalista
que salienta a importância das regras que estruturam o con-
flito na definição das estratégias e escolhas dos trabalhado-
res, lideranças e sindicatos na explicação para a incidência
de greves (Brandl e Traxler, 2010). É o caso das abordagens
corporativistas. Cameron (1984, p. 170), nessa linha, mostra
em um trabalho clássico que a “paz trabalhista” está “asso-
ciada tanto ao controle dos governos por partidos social-
-democratas, como à existência de condições estruturais do
172 corporativismo”. A mesma conclusão aparece na revisão da
literatura feita Franzosi (1982):

A pesquisa comparada mostrou que a atividade grevista


tem caído sempre e onde partidos social-democratas de
orientação trabalhista assumiram a responsabilidade pelo
governo […] grandes explosões de agitação trabalhista, ou
ondas de greve, estão relacionadas a mudanças na posição
política dos trabalhadores na estrutura de poder nacional
(p. 20, tradução nossa).2

1
“Quantitative research has shown beyond doubt, across different institutional
settings (sample periods and countries) that strike frequency follows the business
cycle and the movement of unemployment in particular the higher the level of
unemployment, the lower the number of strikes” (Franzosi, 1982: 15).
2
“Comparative research has shown that strike activity has gone down whenever
and wherever labor oriented, social democratic parties have acquired govern-
ment responsibilities […] major outbursts of labor unrest, or strike waves, are
related to shifts in the political position of labor in the national power structure”
(Franzosi, 1982, p. 22).

Lua Nova, São Paulo, 104: 167-200, 2018


Alexandre Sampaio Ferraz

Não se deve, contudo, trocar um reducionismo por outro.


As explicações focadas na economia ou na política estão longe
de ser excludentes, uma vez que os sindicatos usam tanto a
pressão política como a econômica para defender o interesse
dos trabalhadores. Movimentos sindicais unificados (concen-
trados e centralizados) associados a partidos aliados ao movi-
mento sindical no poder permitem aos trabalhadores reivin-
dicar politicamente parte do produto na forma de “renda
social”, ou de gastos com programas sociais (Przeworski, 1994).
A relativa efetividade com que partidos social-democratas e tra-
balhistas são capazes de “socializar o consumo e a distribuição
da renda nacional” é determinante para explicar mudanças no
volume de “conflitos industriais” (Hibbs, 1978, p. 154).
O gasto do governo com programas distributivos e de
mitigação dos riscos do mercado de trabalho, beneficiando
inclusive cidadãos fora do mercado formal, seria uma com-
pensação pela menor militância grevista e pela contenção
dos salários. Como mostra Przeworski (1994, p. 186), nessa 173
luta os sindicatos têm que calibrar a militância de forma a
conseguir controlar parte do produto e adequar os salários
a um “nível legitimador” do sistema sem, no entanto, causar
uma crise econômica que o destrua. Mas isso só é possível
onde os sindicatos são capazes de mitigar a competição
interna ao movimento sindical e se fortalecer como atores
coletivos (Cameron, 1984; Kaufman, 1982; Akkerman, 2008).

Contando greves
A Lei nº 7.783 de 1989, conhecida como a lei de greve
do setor privado, define como greve legítima “a suspensão
coletiva, temporária e pacífica, total ou parcial, de prestação
pessoal de serviços a empregador” (BRASIL, 1989) apenas
depois de “frustrada a negociação” e o “recurso arbitral”, e
exige a notificação com antecedência mínima de 48 horas
ao empregador. Apesar de poder ser interpretada pelo
art. 9 da Constituição como um direito dos trabalhadores – “é

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Quando os trabalhadores param?

assegurado o direito de greve, competindo aos trabalhadores


decidir sobre a oportunidade de exercê-lo” (BRASIL, 1988) –,
a lei delega aos sindicatos a prerrogativa de conduzi-la.
Os trabalhos acadêmicos na área usam como variável
dependente geralmente o número bruto de ocorrências de
greves, ou o número de horas paradas, ou jornadas perdidas,
multiplicado pelo número de trabalhadores que aderem ao
movimento pelo número de dias parados. Esses dois indica-
dores, apresentados no Gráfico 1, possuem alta correlação
de Pearson (0,97), mas os dados sobre o número de greves
são muito mais confiáveis do que o número de horas perdi-
das, que é sempre uma estimativa. São raros os momentos
em que esses indicadores têm sinal invertido.

Gráfico 1
Número de greves e horas paradas

174

Fonte: Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos


(Dieese). Sistema de Acompanhamento de Greves (SAG-Dieese)
Nota: Horas paradas para cada 1 milhão de habitantes (população estimada, IBGE

O ano de 1989 é especial no Brasil por ser o ponto de


inflexão da onda de greves, mas também por ser o ano da
primeira eleição presidencial do novo período democrático
e o ano em que o ex-presidente Sarney promulgou a lei de

Lua Nova, São Paulo, 104: 167-200, 2018


Alexandre Sampaio Ferraz

greves do setor privado. Essa é a principal mudança nas regras


do jogo após a Constituição de 1988 e seu impacto sobre o
volume de greves é claro. Em 2007, um parecer do Supremo
Tribunal Federal determinou que, enquanto não fosse regu-
lamentado o direito de greve no setor público, a mesma regra
do setor privado passaria a valer para os servidores.
O comportamento do número de greves no Brasil apre-
senta clara convergência com o dos países da Organização
para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico
(OCDE), principalmente a partir de 2002. Entre 1982 e
1989, contudo, a explosão de greves no Brasil se dá em opo-
sição ao declínio das greves nos países desenvolvidos. Esse
período particular de transição política no Brasil enquadra-
-se dentro da fase que Noronha (2009) chama de “auge do
grande ciclo”, que para ele vai de 1985 a 1992. Nessa fase,
os trabalhadores passam a se firmar como atores políticos
centrais, mas ainda têm que lutar no seu início pelo reco-
nhecimento sindical, pela autonomia das organizações, pelo 175
direito de greve e pela própria democracia eleitoral.
O período recente é visto como uma fase de ressurgi-
mento do conflito industrial na Europa, curiosamente renas-
cido juntamente com os pactos sociais, mas também numa
conjuntura econômica recessiva e com queda no poder dos
sindicatos. A comparação parece também apoiar a tese de
que os diferentes padrões de relações de trabalho influen-
ciam a ocorrência de greves e, particularmente, sua duração
(Noronha, 2009, p. 145). Na comparação internacional, o
Brasil é um dos países com uma das leis de greve mais per-
missivas, admitindo greves políticas, greves no setor público
e greves de solidariedade, proibidas em diversos países da
Europa (Warneck, 2007).
Mas apesar da maior “permissividade”, o Brasil é um país
onde o número de greves em relação à população é pequeno
se comparado a outras nações, como pode ser observado no
Gráfico 2 (os dados são similares quando usamos apenas a

Lua Nova, São Paulo, 104: 167-200, 2018


Quando os trabalhadores param?

população ocupada). O Brasil apresenta níveis semelhantes


aos da Inglaterra e do México, e bem inferiores aos dos nossos
“primos” mediterrâneos: França, Itália, Espanha e Portugal.3
A opção aqui para comparar os países selecionados foi divi-
dir o número absoluto de greves pelo número de habitantes,
em 2000. Ao controlar o número de greves pelo tamanho da
população passível de aderir à greve, procurou-se evitar maio-
res imprecisões com a inclusão de outras variáveis como o
número de trabalhadores parados e horas perdidas.4 Os estu-
dos comparados mostram em geral que os países com menos
greves são os escandinavos, com um pequeno desvio devido
à onda de greves na Dinamarca na década de 1990, e os EUA
(Piazza, 2005; Scheuer, 2006; Vandaele, 2016).

Gráfico 2
Evolução das greves no Brasil e países selecionados

176

Fonte: DIEESE. Sistema de Acompanhamento de Greves (SAG-DIEESE) e


Laborsta/ILO.
Nota: Número de greves a cada 1 milhão de habitantes.

3
A comparação entre países é extremamente precária, dada a disparidade das
fontes de dados e instrumentos de coleta. Entretanto, grande parte dos estudos
comparados utilizam os dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
4
Para uma análise detalhada sobre a comparabilidade das estatísticas de greve ver
Dribbusch e Vandaele (2016).

Lua Nova, São Paulo, 104: 167-200, 2018


Alexandre Sampaio Ferraz

Boa parte dessa variação pode ser explicada por fatores


institucionais ligados às diferentes leis que regulam a ação
grevista e às regras de organização do movimento sindical.
Mas a tendência observada tem íntima relação com fatores
conjunturais que determinam o equilíbrio de poder entre
capital e trabalho, particularmente com a dinâmica do pró-
prio mercado de trabalho e da economia, e a dinâmica polí-
tica, sejam eles a evolução do emprego e da renda, ou o
domínio do Executivo por partidos de esquerda, além do
peso dos partidos de esquerda no Legislativo.

Dos anos de transição à normalidade democrática


O grande número de greves após a Constituição de
1988 está claramente vinculado ao caos econômico que
viveu o país até 1994, com descontrole inflacionário e
baixo crescimento econômico (Noronha, 2009). A escalada
do movimento grevista desde 1982 engrossou a pressão
pela redemocratização e atingiu seu pico em 1989, tendo
177
clara relação com a transição política em curso (Noronha,
2009). Ao fim, a própria Constituição acabou por incluir
dispositivos sobre o direito de greve e a liberdade sindical.
O número de greves nesse período (1982 a 1989) foi
provavelmente um dos mais altos da história. Apenas no ano
de 1989 foram registradas 3.926 greves, o maior número da
série histórica, iniciada em 1978. A partir de 1989, a onda
grevista passa a esmorecer, principalmente entre 1992 e
1993, quando foi votado o impeachment de Collor e Itamar
Franco assumiu o governo de coalizão. Na década de 1980
ocorreram quatro greves gerais coordenadas pela Central
Única dos Trabalhadores (CUT) e pela Central Geral dos
Trabalhadores (CGT) – em 1983, 1986, 1987 e 1989 –, além
de algumas importantes greves nacionais de categoria. Entre
estas, a greve dos petroleiros em 1983; a greve nacional dos
bancários de 1985; e a greve dos trabalhadores da Companhia
Siderúrgica Nacional (CSN) no final de 1988, quando o exér-
cito ocupou a fábrica e três operários foram mortos.

Lua Nova, São Paulo, 104: 167-200, 2018


Quando os trabalhadores param?

A greve da CSN teve grande importância simbólica e, jun-


tamente com a greve geral de março de 1989 em reação ao
Plano Verão, contribuiu para a regulamentação da greve. O
Poder Executivo enviou uma medida provisória ao Congresso
regulando a matéria em maio daquele mesmo ano que, apro-
vada no mês seguinte, originou a Lei nº 7.783/1989. A lei
restringe a greve em setores essenciais e estipula diversas con-
dições para sua realização, além de determinar os modos de
solução do conflito e conferir à Justiça do Trabalho o poder de
julgá-la legal ou ilegal. O novo ordenamento jurídico foi um
claro desestímulo à atividade grevista, impondo altos custos aos
sindicatos, principalmente no caso das greves julgadas ilegais.
O caso emblemático foi o da greve dos petroleiros de 1995,
quando uma multa pela atividade grevista “ilegal” quase levou
ao fechamento dos sindicatos da categoria (Miagusko, 2001).

Gráfico 3
178 Greves por setor econômico

Fonte: Dieese. Sistema de Acompanhamento de Greves (SAG-Dieese)

Fernando Collor, o primeiro presidente eleito após a rede-


mocratização, assumiu em março de 1990. Em junho ocorre-
ram greves nacionais dos bancários e dos funcionários da saúde

Lua Nova, São Paulo, 104: 167-200, 2018


Alexandre Sampaio Ferraz

lideradas pelas três maiores centrais da época, a CUT, a CGT


e a Confederação Geral dos Trabalhadores. No ano seguinte,
as mesmas centrais convocaram sua primeira greve geral após
a volta das eleições diretas. Apesar de ter sido considerado
um fracasso pela mídia, em grande parte pela não adesão do
Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, comandado por
Antônio Medeiros, o movimento teve ampla repercussão.
Os dados sobre greves mostram que entre 1991 e 1992
ocorreram 95 greves “intercategorias”, o que só voltaria a
ocorrer após 2000, ainda que em número muito reduzido.
Ao mesmo tempo, estouravam também greves localizadas,
por empresa, que ultrapassariam 5 mil nesses dois anos. O
aumento do número de greves por empresa nos anos 1990 é
relacionado por alguns autores ao movimento mais defensivo
e de corte corporativista, em oposição às greves intercategorias
e gerais do momento anterior, de “cariz classista”. Este é o caso
de Alves (2000, p. 115), que se apoia em Ricardo Antunes para
afirmar que, na década de 1990, diante do liberalismo, surge 179
nas duas principais centrais um sindicalismo “de cariz neocor-
porativo, como o sindicalismo de participação”, que estaria
disposto a incluir em sua pauta “a parceria com o capital”.
O ano de 1992 marca o início do programa de privati-
zações, lançado no ano anterior, com a venda da Usiminas.
O processo de privatização motivou inúmeras greves por
empresa desde 1989, quando começa a ser desenhado prin-
cipalmente no setor siderúrgico e metalúrgico, que inaugu-
ram o processo. Mas as derrotas dos movimentos grevistas
e a percepção de que seria impossível barrar as privatiza-
ções inibiram as greves ao longo do processo. Como mostra
Ferraz (2000), a disputa entre a Força Sindical (FS) e a CUT
e CGT nesse período acirrou a concorrência entre as corren-
tes nas eleições sindicais do setor siderúrgico e metalúrgico.
Alguns sindicatos importantes da CGT e da CUT migraram
para a FS, como é o caso do sindicato dos metalúrgicos de
Ipatinga, em 1992, e de Volta Redonda, em 1993.

Lua Nova, São Paulo, 104: 167-200, 2018


Quando os trabalhadores param?

O governo Collor terminou com o impeachment e com


uma inflação crescente. A mesma orientação neoliberal,
entretanto, dominaria a agenda política do país até o fim do
governo de Fernando Henrique Cardoso (FHC) em 2002,
apesar da orientação vacilante durante o período Itamar
Franco. O primeiro governo FHC foi marcado por alto nível
de manifestações, particularmente na indústria e no setor da
construção civil. Ainda em 1994, ocorreria nova greve nacio-
nal dos bancários e a primeira mobilização nacional contra
o Plano Real, que abarcava também outras reivindicações. A
Jornada Nacional de Lutas, que nesta edição ocorreu tam-
bém junto com o I Grito da Terra, virou um evento tradicio-
nal do movimento sindical e popular no país.
Em junho de 1996, o governo FHC enfrentou sua pri-
meira greve geral, a primeira grande paralisação após o
fim truculento da greve dos petroleiros, em maio de 1995.
Organizada pelas três maiores centrais da época, CUT,
180
CGT e Força Sindical, seu mote principal foi a luta contra o
desemprego, que se tornaria a principal bandeira do movi-
mento sindical na segunda metade dos anos 1990. Pouco
antes da greve, o Executivo havia encaminhado o PL nº
1.802 que regulamentava multas aos sindicatos em decor-
rência de greves consideradas ilegais. O projeto foi apen-
sado ao PL nº 401/1991, de autoria de Paulo Paim (PT-RS),
que até 2017 ainda estava em tramitação, tratando também
da regulamentação das atividades consideradas essenciais.
Depois dessa greve geral, o governo se depararia com
outra mobilização nacional apenas em 1999. A greve fica-
ria conhecida como a Marcha dos 100 mil sobre Brasília,
pela retomada do crescimento, empregos e salário, além
do pedido de abertura de uma Comissão Parlamentar de
Inquérito contra a privatização da Telebras. Entre as rei-
vindicações dessa paralisação, aparece também a redução
da jornada de trabalho, o que viria a ser um dos principais

Lua Nova, São Paulo, 104: 167-200, 2018


Alexandre Sampaio Ferraz

pontos de unificação da pauta sindical, junto com o


aumento do salário mínimo na década seguinte.
A situação se altera nos anos 2000, quando as greves
no setor público passam a ser mais numerosas, liderando a
recuperação do ímpeto grevista a partir da crise de 2008.
Nessa fase, o funcionalismo ligado ao setor da educação foi
quem mais contribuiu para o aumento da militância gre-
vista. O ressurgimento das greves no setor público deve ser
analisado também a partir do crescimento de empregos na
área, principalmente nos estados e municípios, mas também
no governo federal. A “explosão” de greves de funcionários
públicos municipais e estaduais, sobretudo após 2011, pode
ser observada no Gráfico 4.
São várias as hipóteses que podem ser levantadas aqui, e
as respostas não serão definitivas, mas dois movimentos são
particularmente importantes: o aumento do quantitativo
de trabalhadores abordado anteriormente e uma norma do
Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) que regulamentou 181
a cobrança da contribuição sindical no setor público, acir-
rando a luta pelo reconhecimento sindical e potencializando
os recursos organizacionais e financeiros das entidades5.
É difícil pensar no balanço de um período tão extenso,
mas, sem dúvida, Cardoso (2015, p. 500) está certo ao afir-
mar que a greve, assim como o sindicalismo continuam pre-
sentes na cena política e econômica do país, apesar de não
terem o volume ou a proeminência dos anos da transição
democrática. Como observa o autor:

O que ele perdeu [o sindicalismo], e, como mostraram os


protestos e greves de abril de 2015, perdeu apenas em parte,
foi seu caráter expressivo e de massa, aspectos que ajudaram
a construir a identidade do movimento sindical no país nos
anos 1980 (Cardoso, 2015, p. 500).

5
A norma citada no parágrafo é a Instrução Normativa nº 1, de 30 setembro de 2008.

Lua Nova, São Paulo, 104: 167-200, 2018


Quando os trabalhadores param?

Tais aspectos, organizacionalmente, podem ser consi-


derados “desnecessários” nas décadas seguintes, quando as
conquistas por melhores salários e empregos dispensaram a
movimentação de massa, passando antes por uma espécie de
“acordo social democrata”.

Gráfico 4
Greves no setor público por esfera de governo

182

Fonte: Dieese.

A economia política da greve


A relação entre a incidência de greves e os ciclos eco-
nômicos foi amplamente estudada na literatura econô-
mica e política. E, apesar de boa parte dos trabalhos não
ter encontrado qualquer associação significativa entre a
incidência de greves e as flutuações no produto agregado,
as taxas de inflação e desemprego, assim como de variação
nos salários, aparecem como importantes variáveis expli-
cativas para análise. As linhas de transmissão entre essas
variáveis e a ocorrência de greves nem sempre são claras,
uma vez que são múltiplas as interações e as variáveis inter-
venientes “associadas”.

Lua Nova, São Paulo, 104: 167-200, 2018


Alexandre Sampaio Ferraz

Assim, o aumento da inflação em determinado período


está associado à maior incidência de greves no período
seguinte. A lógica desse argumento se baseia no fato de
que a desvalorização do poder de compra do salário leva-
ria os trabalhadores a buscarem uma correção no período
seguinte, nem sempre aceita pelos patrões. Não é novidade
o fato de os trabalhadores usarem a inflação passada como
base para suas reivindicações salariais presentes. Mas a rela-
ção poderia também ser oposta, com a greve num deter-
minado momento levando a mais inflação no momento
seguinte, puxada pelo aumento da demanda.
O fim dos anos 1980 e início dos anos 1990 foi mar-
cado pela hiperinflação. Nos seis anos entre 1989 e 1994, o
Brasil teve inflação sempre na casa dos quatro dígitos, com
exceção do ano de 1991, quando a variação acumulada do
Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), calculado
pelo IBGE, foi de “apenas” 473%. Mas se a escalada da infla-
ção na década de 1980 foi precedida da escalada de greves, 183
o mesmo não se observou nos anos seguintes, chegando ao
pico das paralisações em 1989. O crescimento das greves na
década de 1980 é fortemente marcado por motivação polí-
tica, enquanto a queda no número de greves a partir de 1989
tem origens políticas, mas também econômicas. Nos quatro
anos entre 1989 e 1992, o PIB caiu em média 0,15% ao ano e
a inflação cresceu mais de 5.000%, apesar de o desemprego
ter se mantido em taxas relativamente baixas.
O final de 1993 foi marcado pela disputa em torno da
revisão constitucional (que teve forte oposição de setores da
esquerda), pelo escândalo dos “anões” do orçamento e pelo
início do Plano Real, em dezembro. A introdução da nova
moeda, em julho de 1994, contribuiu para o recuo da infla-
ção, mas, devido à elevação dos preços no primeiro semestre,
o IPCA fechou o ano ainda em inacreditáveis 916,5%. A situa-
ção se “normalizaria” apenas a partir de 1995, quando o IPCA
aumentou 22,4%. Os três anos entre 1994 e 1996 são, contudo,

Lua Nova, São Paulo, 104: 167-200, 2018


Quando os trabalhadores param?

marcados por uma retomada das greves, que voltaram a ocor-


rer em número superior a mil por ano. O novo impulso das
greves não pode ser creditado à queda da inflação, nem ao
custo da estabilização sobre o salário dos trabalhadores.
O IPCA cede de 1994 até 1998, mas as greves passam a cair
apenas a partir de 1996 (Gráfico 5). Após as eleições de 1998, o
Plano Real mudou radicalmente de rumo. O governo abandona
a âncora cambial e passa a focar no ajuste fiscal. Em 1999, o
país volta a observar grande crescimento da inflação, que passa
de 1,7% no ano anterior para 8,9%, de certa forma alimen-
tando as greves de 2000. A inflação se deteriorou rapidamente
entre 1998 e 2002, quando voltou ao patamar de dois dígitos,
atingindo 12,5%. Apesar da alta quase contínua da inflação, o
número de greves continua a cair, atingindo seu menor nível
em 2002. A explicação mais plausível para essa queda parece
ser o alto desemprego que assolava o país desde 1999.

184 Gráfico 5
Número de greves e inflação

Fonte: Dieese. Sistema de Acompanhamento de Greves (SAG-DIEESE) e IBGE.

Em 2003, como fruto do ajuste monetário, a inflação


passa a cair, atingindo seu menor nível em 2006. E, a partir

Lua Nova, São Paulo, 104: 167-200, 2018


Alexandre Sampaio Ferraz

daí, praticamente se estabiliza em torno dos 5,5% ao ano


até 2013 (o IPCA chegou a 10,7% em 2015). Mesmo com
o ajuste “ortodoxo” do início do governo Lula e o leve
aumento no número de greves em relação ao último ano do
governo anterior, pode-se dizer que entre 2002 e 2007 obser-
va-se um período de relativa trégua na militância grevista. A
grande contribuição para entender essa trégua parece ser a
expectativa da eleição de um partido pró-trabalhador, com
grande contribuição do movimento sindical e rápida recu-
peração do emprego a partir de então.
O fato é que a chamada “década neoliberal” não foi fácil
para os trabalhadores. A taxa de desemprego, calculada pelo
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) através
da Pesquisa Mensal de Emprego (PME), subiu de forma pra-
ticamente constante entre 1995 e 2003. Já o emprego for-
mal, acompanhado pelo Ministério do Trabalho e Emprego
(MTE), apresentou tendência de queda. O resultado foi o
aumento da informalidade nas regiões metropolitanas entre 185
1992 e 2002, coincidindo com a estagnação do PIB per capita e
a queda contínua do rendimento médio dos ocupados entre
1996 e 2003 (Ipea, 2013). A tendência de deterioração das
condições do mercado de trabalho só é invertida de forma
consistente entre 2003 e 2012, quando o desemprego atinge
um dos menores patamares nesse novo período democrático.
A relação entre incidência de greves e desemprego apa-
rece de forma mais direta na literatura. Os dados apresenta-
dos no Gráfico 6 indicam que o desemprego aparece como
variável interveniente na explicação da incidência de gre-
ves de tal forma, que quanto maior o desemprego, menor
o número de greves (Pearson: -0,61). Quando a inflação é
alta e o desemprego também, a taxa de greves é baixa. Mas
quando a inflação é alta e o desemprego é baixo, a taxa
de greves é alta. Essa interação ajuda a explicar a queda
nas greves no início da década de 1990, quando subia o
desemprego e a inflação permanecia elevada, e também a

Lua Nova, São Paulo, 104: 167-200, 2018


Quando os trabalhadores param?

interpretar a nova onda de greves em um contexto de queda


no desemprego e de leve aceleração da inflação.

Gráfico 6
Número de greves e taxa de desemprego

186
Fonte: Dieese, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad/IBGE) e
Pesquisa Mensal de Emprego (PME/IBGE)6.

O aumento da frequência de greves entre 1992 e 1995


ocorre em um contexto de queda do desemprego. A partir
de 1995, o desemprego sobe de forma persistente e contí-
nua até 1999, quando se estabiliza em um patamar alto, se
considerada a taxa da Pesquisa Nacional por Amostra de
Domicílios (Pnad/IBGE). O crescimento da taxa de desem-
prego na PME antiga, entre 2001 e 2002, e da série nova,
entre 2002 e 2003, mostra que o desemprego pode ter se
deteriorado ainda mais no período, e não se estabilizado.
O aumento do desemprego no primeiro período aqui
analisado, que vai até o fim do governo FHC, é acompanhado

6
A PME nova e a antiga são pesquisas mensais abrangendo número reduzido de
regiões e capitais. Já a Pnad “antiga” é uma amostra anual nacional, pesquisada no mês
de setembro. Para uma explicação metodológica detalhada sobre a diferença entre as
pesquisas citadas, é possível consultar as notas metodológicas do próprio IBGE.

Lua Nova, São Paulo, 104: 167-200, 2018


Alexandre Sampaio Ferraz

pela queda na incidência de greves e também pela mudança


de sua “natureza”, com predomínio de greves “defensivas”
(Marcelino, 2017). Esse “interlúdio” apresentou queda no
desemprego, apesar da participação do emprego formal
entre a população em idade ativa ter diminuído (aumento do
emprego informal e por conta própria). Entretanto, a partir
da crise de 2007, o sinal se inverte e a redução do desem-
prego passa a ser acompanhada de aumento do número de
greves (Gráfico 6). Apesar da relação inversa apresentada,
é preciso salientar que, em termos absolutos, o número de
greves nos anos 1990 foi superior ao registrado no período
seguinte, mesmo com a queda do desemprego.
O fenômeno da redução do desemprego nesse período
está também associado à crescente formalização dos víncu-
los, isto é, ao crescimento do emprego formal. Ou seja, a
queda no desemprego ocorre paralelamente ao aumento do
número de trabalhadores diretamente representados pelas
entidades sindicais e ao aumento do número absoluto de sin- 187
dicalizados, apesar da estabilidade da taxa de sindicalização.

Gráfico 7
Estoque de emprego formal e número de greves

Fonte: DIEESE. Sistema de Acompanhamento de Greves (SAG-DIEESE) e


Relação Anual de Informações Sociais (RAIS/MTE).

Lua Nova, São Paulo, 104: 167-200, 2018


Quando os trabalhadores param?

Os dados sobre reajustes salariais, extraídos do banco


de acordos do Departamento Intersindical de Estatística e
Estudos Socioeconômicos (Dieese), bem como a evolução do
salário médio real, a partir de dados dos registros do Ministério
do Trabalho e Emprego (MTE), permitem outro insight para
interpretar a relação entre greve e salário. A primeira evidên-
cia é que, olhando para os dados dos acordos, de fato os rea-
justes reais caem junto com o número de greves e aumentam
no momento de sua escalada. A correlação é, contudo, baixa,
em parte devido ao pequeno número de casos, o que compro-
mete a significância estatística. Mas chama também a atenção
que o volume de ações grevistas caia antes da queda do rea-
juste médio e suba apenas muito depois do aumento deste.

Gráfico 8
Greve e reajuste médio real

188

* Variação média real dos reajustes monitorados pelo banco de acordos do


Dieese. ** Variação do salário médio real no estado de São Paulo, trabalhador
com carteira (Pesquisa de Emprego e Desemprego – PED/Dieese).
Fonte: DIEESE. Sistema de Acompanhamento de Greves (SAG-DIEESE)

Por um lado, o aumento do número de greves poderia se


fazer seguir pelo aumento na variação do salário real médio.
Por outro, a magnitude do crescimento dos salários reais em

Lua Nova, São Paulo, 104: 167-200, 2018


Alexandre Sampaio Ferraz

um determinado tempo poderia inibir a incidência de greves


no período seguinte. O Gráfico 8 mostra essa relação, mas os
resultados são inconclusivos visual e estatisticamente. Uma
série mais longa e a introdução simultânea de outras variá-
veis poderiam elucidar melhor essa relação, particularmente
com a análise da crise econômica após 2014. Mas os dados
colocam sérias dúvidas sobre a capacidade da militância de
interferir positivamente na evolução dos salários reais.
Não resta dúvida de que o desemprego é um dos grandes
inimigos da ação grevista. Ele amedronta o trabalhador, ini-
bindo seu ímpeto para ação grevista, e reduz o próprio contin-
gente de trabalhadores empregados e filiados às organizações
– os participantes “privilegiados” da ação grevista. A relação
entre greve e salário, contudo, é muito menos clara e ambígua,
e sua explicação parece demandar mais investigação e evidên-
cia do que as apresentadas aqui. O que parece certo é que
a “nova escalada de greves” no fim do período apresentado
parece não ter se convertido em melhorias para o trabalhador, 189
nem imediatamente na remuneração, nem no emprego.

Estrutura sindical e movimento grevista


Em importante trabalho, Boito e Marcelino (2010)
fizeram uma crítica à tese de que o declínio do sindica-
lismo pudesse explicar a queda na atividade grevista. Como
demonstram os dois autores, a tese de Rodrigues (1999)
pode explicar a década de 1990, mas é incapaz de expli-
car a nova onda de greves. Conforme mostram Boito e
Marcelino (2010, p. 334), com base em dados do Dieese,
a nova “onda de greves” foi capitaneada principalmente
pelos setores tradicionalmente mais organizados, com a
“novidade” das greves propositivas, indicando uma reto-
mada do movimento sindical:

Na nossa avaliação, vivemos, pelo menos desde 2004, uma


conjuntura de recuperação da atividade sindical no Brasil.

Lua Nova, São Paulo, 104: 167-200, 2018


Quando os trabalhadores param?

Na base, a ação grevista mantém-se num nível razoavelmente


alto, e a grande maioria das greves tem permitido ganhos
reais de salários; na cúpula do movimento, a disputa política
acirrou-se com o surgimento de cinco novas centrais
sindicais. Essa recuperação da luta sindical pode ser tomada
como um indicador da vitalidade do sindicalismo como
movimento social (Boito e Marcelino, 2010, p. 328).

Após uma década de estagnação nos anos 1990, o Brasil


passou por um período de retomada do emprego formal
e, consequentemente, de aumento da cobertura dos acor-
dos coletivos de trabalho, extensivos por lei aos não sindi-
calizados. Isso ocorreu inclusive nos setores tradicionais,
onde, apesar da perda relativa da participação na ocupação,
houve aumento significativo de emprego. Os efeitos diretos
do aumento do emprego formal no movimento sindical são
fundamentais para entender a dinâmica do sindicalismo.
190 Pelo menos três deles merecem ser mencionados: o cresci-
mento do número de sindicatos, o aumento da arrecadação
sindical e a elevação do número de filiados.
O trabalho de Boito e Marcelino (2010) levanta uma
série de hipóteses importantes para pensar o “renascimento”
do ímpeto grevista. Mas uma delas, apesar de já explorada
pelos autores, é fundamental para o argumento desenvol-
vido nesta seção: “concorrência política entre as centrais
sindicais brasileiras, cujo número e variedade de orienta-
ções político-ideológicas cresceram […] entre 2004 e 2007”
(Boito e Marcelino, 2010, p. 330).
Não foi fácil para os trabalhadores superar a década de
1990, mas, apesar do cenário de alto desemprego e crise eco-
nômica, o sindicalismo parece ter se fortalecido. Os dados do
IBGE (2003) mostram que o número de sindicatos de traba-
lhadores cresceu 49,2% entre 1992 e 2001, chegando a 11.354.
Tal crescimento implicou maior fragmentação, mas revelou
também grande capacidade de mobilização dos trabalhadores

Lua Nova, São Paulo, 104: 167-200, 2018


Alexandre Sampaio Ferraz

(Cardoso, 1997)7. No mesmo período, 3,5 milhões de “novos”


trabalhadores urbanos se sindicalizaram, elevando para 9,2
milhões o número de sindicalizados, dos quais 66,5% estavam
sob o guarda-chuva das centrais sindicais.
O crescimento na base foi acompanhado de maior con-
centração na cúpula, com aumento dos sindicatos filiados às
centrais, que passaram de 33% para 38%. Ao mesmo tempo,
as duas principais centrais mantiveram sua hegemonia, com
mais de 86% do total das filiações sindicais ao longo do
período. Em 2001, os sindicatos filiados a centrais respon-
diam por 52,3% do total de trabalhadores filiados (66,5% no
caso dos empregados urbanos), sendo que as duas primei-
ras centrais concentravam mais de 88% desses trabalhadores.
O próprio IBGE (2003, p. 80), na análise do censo sindical,
conclui que: “Levando-se em conta que houve um expressivo
aumento do número absoluto de sindicatos na última década,
conclui-se que as centrais sindicais se fortaleceram bastante”.
Apesar de não serem comparáveis com os dados do 191
IBGE, os dados do MTE mostram que no início de 2010 havia
8.826 sindicatos urbanos com carta sindical, contra 6.133 no
censo de 2001. Em 2010, 61,3% dos sindicatos eram filiados a
alguma central, contra os 38% de 2001. Em março de 2012, o
total de entidades registradas havia passado para 9.854, sendo
72,9% filiadas a centrais. Esse crescimento veio acompanhado
de uma nova realidade no mercado de trabalho, marcada
pelo aumento expressivo do emprego formal (Gráfico 7).
O dinamismo sindical observado está intimamente ligado
à dinâmica grevista. Essa associação é feita por Noronha
(2009) em seu trabalho inicial, que mostra a importância das
greves para o nascimento do “novo sindicalismo”. Já alguns
autores, como Almeida (1996), apontaram que a escalada
de greves não fora acompanhada de ganhos efetivos para os

7
Boa parte do crescimento ocorrido após 1988 veio da liberdade sindical expressa
na Constituição, que garantia a formação de sindicatos de servidores públicos, grande
parte deles formados a partir da conversão de antigas associações em sindicatos.

Lua Nova, São Paulo, 104: 167-200, 2018


Quando os trabalhadores param?

trabalhadores, em parte devido às divisões no movimento sin-


dical e à sua decorrente incapacidade de criar canais efetivos
de participação na definição de políticas públicas. O movi-
mento mais recente foi, contudo, bem distinto do observado
até 2002, apesar da experiência das Câmaras Setoriais no iní-
cio da década de 1990. O movimento sindical passou a ocu-
par um crescente número de arenas tripartites e a participar
mais efetivamente da formulação de políticas públicas.
O movimento de criação de sindicatos e a “nova onda”
grevista parecem corroborar para a tese de que não há no
Brasil nenhuma perda evidente de poder dos sindicatos, ou
mesmo de importância, bem como nenhuma diminuição da
sua capacidade de ação coletiva (Cardoso, 2015). Esse movi-
mento foi observado também por Cardoso (1997) entre 1980
e 1992, quando o “aumento da participação dos trabalha-
dores na vida política e social brasileira” elevou o “ritmo de
criação dos sindicatos”. A conclusão de Cardoso é taxativa:
192
O ritmo de criação de sindicatos acompanha quase ponto por
ponto […] o grau de mobilização dos trabalhadores, tal como
medido pelas estatísticas de greve […] a correlação simples
(Pearson) entre criação de sindicatos […] e o número de
greves é ainda maior: 0,73 (Cardoso, 1997, p. 104).

O aumento do número de sindicatos pode estar asso-


ciado a uma maior fragmentação e descentralização das nego-
ciações, o que, por sua vez, se relaciona ao crescimento do
número de greves (Brandl e Traxler, 2010). Esse padrão está
sujeito a certos limites, pois a possibilidade de criação de sin-
dicatos não é infinita. Mas o movimento recente mostra que
a unicidade e o enquadramento continuam convivendo com
forte movimentação de criação de sindicatos. Apesar de não
haver série estatística confiável para o número de sindicatos
nos anos 1990 que contemple a variação anual, os dados da
década de 2000 parecem corroborar para essa conclusão.

Lua Nova, São Paulo, 104: 167-200, 2018


Alexandre Sampaio Ferraz

O Gráfico 9 traz informações que indicam que o maior


número de greves está relacionado a um maior número de
sindicatos (Pearson: 0,747). Mesmo diante da rigidez “para
baixo” no número de sindicatos, essa relação parece ser
preservada. Os dados se limitam a indicar a criação de sin-
dicatos, mas a criação de confederações e federações, bem
como o movimento das centrais é de extrema importância
nesta análise. Apesar da manutenção da unicidade, o des-
membramento de categorias para criação de novos sindi-
catos intensificou a disputa entre as organizações de base,
o que foi potencializado e fomentado pela competição na
cúpula (o número de confederações, não apresentado no
gráfico, ficou inalterado entre 2001 e 2004; e subiu de 17
para 25 em 2012).

Gráfico 9
Número de sindicatos e número de greves8

193
Federações Greves Sindicatos
900 6.000

800 5.500

700 5.000
4.500
600
4.000
500
3.500
400 3.000
300 2.500
200 2.000

Fonte: Dieese e Caixa Econômica Federal.

8
Número de sindicatos cadastrados na Caixa para receber a contribuição sindical.
O eixo vertical da direita se refere ao número de Federações sindicais e de greves,
e o da direita o número de Sindicatos.

Lua Nova, São Paulo, 104: 167-200, 2018


Quando os trabalhadores param?

Nos anos 1980, constituíram-se as três principais cen-


trais: Central Única dos Trabalhadores (CUT), Central Geral
dos Trabalhadores (CGT) e União Sindical Independente
(USI). A CGT se fragmentou no fim da década de 1980,
dando origem à Força Sindical (FS) e a outras duas centrais:
a Central Geral dos Trabalhadores e a Confederação Geral
dos Trabalhadores. A essas centrais, somaram-se nos anos
1990 a Central Autônoma dos Trabalhadores (CAT), em
1994, e a Social Democracia Sindical (SDS), em 1996. Essa
movimentação na cúpula continuou na década seguinte
com o surgimento de quatro novas centrais.
O contexto político marcado pela reforma da previdên-
cia em 2003 contribuiu para que, em 2004, grupos ligados
ao Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU)
e à corrente intersindical saíssem da CUT para fundar a
Coordenação Nacional de Lutas (Conlutas). Divergências
em torno do Fórum Nacional do Trabalho (FNT) leva-
194 ram à criação da Nova Central Sindical de Trabalhadores
(NCST) em 2005, reunindo as confederações oficiais e os
sindicatos a elas vinculados. Em 2007, foi criada a União
Geral dos Trabalhadores (UGT), resultado da fusão da CAT,
SDS e CGT-Confederação, com a incorporação, ainda, de
dissidentes da FS. Finalmente, no mesmo ano a CUT perde-
ria também a Corrente Sindical Classista, ligada ao Partido
Comunista do Brasil (PCdoB), que fundaria a Central dos
Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB).
Essas mudanças na cúpula ocorreram no bojo da conso-
lidação e institucionalização das centrais no governo Lula,
com a Lei nº 12.648/2008. No texto da lei prevaleceu a tese
de que os sindicatos têm liberdade de filiação às centrais,
decidindo para qual delas será destinada a parcela da con-
tribuição arrecadada. O interesse pelos recursos, por sua
vez, contribuiu para acirrar a disputa na cúpula por sindi-
catos (Cardoso, 2015). Mas, apesar do conflito latente em
torno da estrutura sindical, a partir do governo Lula as

Lua Nova, São Paulo, 104: 167-200, 2018


Alexandre Sampaio Ferraz

centrais foram capazes de construir uma unidade de ação e


uma importante pauta nacional conjunta, em grande parte
mediada pelo Dieese (Radermacher e Melleiro, 2007).
Os dados de representatividade publicados pelo
Ministério do Trabalho mostram um quadro de relativa
estabilidade na representatividade das centrais, com as três
maiores mantendo cerca de 60% da representação total,
apesar do pluralismo e da competição na cúpula (Ferraz,
2014). Essa estabilidade na cúpula esconde não só a movi-
mentação na base, mas também a ampla movimentação
na estrutura intermediária, com a criação de novas fede-
rações (cerca de 10% de crescimento) e confederações
(crescimento de 19%).
Uma análise mais profunda dessa relação deveria se
debruçar sobre a competição entre as centrais sindicais e
as oposições sindicais, boa parte delas financiadas pelas
próprias centrais no nível local. Essa competição tem duas
formas diretas: a competição pela criação de novos sindi- 195
catos onde estes não existem ou na mesma base territorial.
O exemplo mais claro é a criação de sindicatos de traba-
lhadores siderúrgicos e metalúrgicos num mesmo municí-
pio, fragmentando uma base anteriormente comum. Ou
a criação de sindicatos de trabalhadores municipais repre-
sentando professores municipais, onde já havia sindicato de
professores do setor público, ou ainda o caso da sobreposi-
ção entre o Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições
de Ensino Superior (ANDES) e a Federação de Sindicatos
de Professores e Professoras de Instituições Federais de
Ensino Superior e de Ensino Básico Técnico e Tecnológico
(Proifes) no ensino superior.
O caso dos trabalhadores do setor público merece um
estudo à parte devido a duas mudanças importantes na dinâ-
mica do setor que podem estar associadas tanto à maior
militância como à criação de sindicatos. De um lado, o
Ministério do Trabalho permitiu a cobrança de contribuição

Lua Nova, São Paulo, 104: 167-200, 2018


Quando os trabalhadores param?

sindical no setor9. De outro, foi expressivo o aumento da


contratação de funcionários públicos municipais em decor-
rência da descentralização nas áreas de saúde, educação
e assistência social. Os dados do Ministério do Trabalho
(RAIS/MTE) mostram que entre 1995 e 2013, o número
de funcionários da administração pública municipal cresceu
154%, ao passo que a expansão na administração federal e
estadual foi de 25% e 17%, respectivamente.
Essa é apenas uma conjectura, mas com respaldo no
forte crescimento das greves no setor público justamente a
partir de 2008, como pode ser observado no Gráfico 4. Não
é à toa que a média de greves dos servidores municipais, tra-
dicionalmente baixa, passou de 44 greves ao ano, no quadriê-
nio de 2005 a 2008, para 137 no quadriênio de 2009 a 2012.
O movimento grevista parece ter assim sido fomentado tanto
pela pressão de cima, com a concorrência entre as centrais
por filiados, como pela disputa entre seus filiados na base.
196
Conclusão
Este trabalho explorou a evolução do número agregado
de greves no Brasil após a criação de três marcos institucio-
nais fundamentais: a Constituição de 1988, a lei de greve do
setor privado e a lei de criação das centrais sindicais. A análise
procurou investigar a ligação entre as greves e três conjuntos
de variáveis – econômicas, políticas e organizacionais –, mos-
trando a pertinência e a força dessa relação. Em sintonia com a
literatura internacional, a incidência de greves no país encon-
trou ligação estreita com a evolução do binômio emprego e
desemprego e com a dinâmica salarial, particularmente a evo-
lução do salário médio no ano imediatamente anterior.
A ligação entre as greves e a conjuntura política e os
aspectos organizacionais também foram, de certa forma,

9
A contribuição foi regulamentada por norma infralegal do Ministério do
Trabalho, em 2008 (Instituição Normativa nº 1), revogada em 2013, reeditada em
2017 e revogada novamente no mesmo ano.

Lua Nova, São Paulo, 104: 167-200, 2018


Alexandre Sampaio Ferraz

condizentes com algumas das hipóteses da literatura. No


aspecto político, os dados apontam para uma queda no
número de greves durante os governos liderados por coali-
zões de centro-direita, quando foram implementadas polí-
ticas de cunho liberal que estiveram associadas à escalada
do desemprego. Após 2002, quando as greves chegaram
ao seu nível mínimo, o país viveu um breve período de
“paz social”, sob um governo de centro-esquerda, mas cla-
ramente liderado por um partido trabalhista, com estreitos
laços com os sindicatos. Esse período de paz acaba no meio
do segundo mandato de Luís Inácio Lula da Silva, com
uma nova “escalada” de greves a partir de 2008, em meio à
crise econômica mundial.
Os aspectos organizacionais ou institucionais, inter-
nos ao movimento sindical, explorados nesta análise indi-
cam que a forte fragmentação e descentralização na base
da estrutura sindical e a concorrência na cúpula têm clara
relação com o número de greves. Como mostra a literatura 197
sobre o estado de bem-estar social e a social-democracia,
uma estratégia de contenção de greves em troca de políticas
públicas favoráveis aos trabalhadores requer concentração e
centralização do movimento sindical.
A expansão do número de sindicatos vai de encontro a
essa exigência, ainda que nossa estrutura fragmentada e des-
centralizada tenha sido contrabalançada pela concentração
na cúpula. Entretanto, isso não desfez a forte competição no
interior do movimento sindical, ao contrário, parece tê-la
estimulado. A luta entre as centrais por sindicatos reverbera
na luta salarial, dificultando possíveis compromissos envol-
vendo a redução das greves. Nesse quadro de disputa polí-
tica, as greves devem continuar, principalmente, no caso de
uma crise econômica que enfraqueça o governo, como a
crise do fim do governo Dilma Rousseff. Por fim, a perda do
governo por parte do Partido dos Trabalhadores (PT) pode
acirrar ainda mais a ação grevista nesse contexto.

Lua Nova, São Paulo, 104: 167-200, 2018


Quando os trabalhadores param?

Alexandre Sampaio Ferraz


Economista pela Pontifícia Universidade Católica de
São Paulo (PUC-SP) e doutor em Ciência Política pela
Universidade de São Paulo (USP). Atualmente é pesquisador
do Dieese e professor colaborador no Instituto de Ciência
Política da Universidade de Brasília (IPOL-UnB). Entre 2015
e 2016, atuou como professor visitante no IPOL-UnB. Tem
trabalhos publicados sobre sindicalismo e processo político, e
sobre a participação social em conselhos de políticas públicas.

Agradecimentos do autor
Agradeço ao Dieese, particularmente aos pesquisadores
do Sistema de Acompanhamento de Informações Sindicais
(SAIS-Dieese), e ao Grupo de Pesquisa Repensando as
Relações entre Sociedade e Estado (Resocie) do IPOL-UnB
por me abrigar e possibilitar novas reflexões sobre a par-
ticipação social. Por fim, agradeço também aos pareceris-
198 tas anônimos pelas sugestões e ao professor Sidney Jard da
Silva, da Universidade Federal do ABC (UFABC), por sua
leitura atenta e contribuições ao texto final. Os erros rema-
nescentes são, contudo, exclusiva falha minha.

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Resumos | Abstracts

339

QUANDO OS TRABALHADORES PARAM? REINTERPRETANDO A


OCORRÊNCIA DE GREVES NO BRASIL
ALEXANDRE SAMPAIO FERRAZ
Resumo: Dialogando com as diferentes abordagens presentes
na literatura, este artigo procura analisar a incidência de gre-
ves nas diferentes fases econômicas e políticas do Brasil, nas
duas últimas décadas. Ao mesmo tempo, inserimos as gre-
ves no contexto da conjuntura e dinâmica organizacional do
movimento sindical. Ao longo desse período, a incidência de
greves tendeu a diminuir nos momentos de alta do desem-
prego e a aumentar nos momentos de queda. Não foi encon-
trada relação entre greve e ganho salarial. A análise da rela-
ção entre greve e política parece corroborar a ideia de que
em governos de centro-esquerda observa-se menor volume
de greves do que em governos de centro-direita, enquanto a
maior competição no interior do movimento sindical, infe-
rida pelo número de sindicatos em cada ano, esteve associada
a um maior volume de greves. Essas correlações, ainda que
inconclusivas, apontam o caminho para novas investigações,
utilizando séries mais longas e análise comparada.
Greve; Sindicato; Instituições; Ação Coletiva;
Palavras-chave:
Movimento Sindical; Economia Política.

WHEN DO WORKERS STRIKE? REINTERPRETING THE


OCCURRENCE OF STRIKES IN BRAZIL
Abstract: Dialoging with the different approaches present in the
literature, this article tries to analyze the incidence of strikes in
the different economic and political phases of Brazil in the last
two decades and situating strikes within the current political and
economic scenario, in addition to describing the organizational
dynamics of the trade union movement. During this period, the
incidence of strikes tended to decrease in times of high unemployment

Lua Nova, São Paulo, 104, 2018


Resumos | Abstracts

rates, and increase when those fell. No relation was found between
strikes and wage gains. Analysis of the relationship between strikes
and politics seems to corroborate the idea that in mid-left governments
there is a lower volume of strikes than in mid-right governments,
while the greater competition within the trade union movement,
inferred by the number of unions in each year, was associated with a
higher amount of strikes. These correlations, although inconclusive,
indicate the way to further investigations, with the use of longer
series and comparative analysis.
Strike; Trade Union; Institutions; Collective Action;
Keywords:
Union Movement; Political Economy.
Recebido: 05/04/2017 Aprovado: 17/03/2018

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