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ISIDORO DA SILVA LEITE

RA 1104501
Teologia

O HOMEM: ESSE DESCONHECIDO


Indicação de alguns reflexos da adoção de um determinado
conceito antropológico de ser humano na Teologia Cristã

Orientador: Prof. Dr. Jairo da Mota Bastos

Centro Universitário Claretiano

SÃO PAULO
2015

0
Sumário

Resumo.....................................................................................................................................02
Introdução................................................................................................................................03
1. Ser Humano.........................................................................................................................04
2. Algumas concepções de “homem”.....................................................................................04
2.1. Platão.................................................................................................................................05
2.2. Aristóteles .........................................................................................................................07
2.3. Agostinho de Hipona........................................................................................................07
2.4. Tomás de Aquino..............................................................................................................09
2.5. A alma humana.................................................................................................................10
3. Prólogo do Evangelho de João ..........................................................................................11
4. Considerações......................................................................................................................12
Conclusão.................................................................................................................................14
Bibliografia..............................................................................................................................15

1
O HOMEM: ESSE DESCONHECIDO
Indicação de alguns reflexos da adoção de um determinado
conceito antropológico de ser humano na Teologia Cristã

Resumo: O objetivo do presente artigo é apontar alguns efeitos da adoção de certo conceito
relativo ao ser humano sobre a Teologia Cristã. A conceituação de homem para a Teologia
Cristã tem uma visão dualista preponderante, mesmo que de forma moderada, e é fruto de
uma influência das ideias gnósticas, com origem nos primórdios do cristianismo. A
Antropologia Teológica passa pelas análises e definições de Platão e Aristóteles e sua
influência nos Padres da Igreja, especialmente sobre Agostinho de Hipona e Tomás de
Aquino, responsáveis pelas bases da Teologia e com autoridade, ascendência e predomínio até
os dias atuais. Para qualquer que seja a definição assumida, haverá implicações em campos
como a Cristologia e a Escatologia, por exemplo, com necessárias discussões, a título de
amostra, sobre a encarnação divina, sobre a imortalidade da alma, sobre a ressurreição dos
corpos e sobre a possibilidade de metempsicose.

Palavras-chave: Homem. Alma. Encarnação. Ressurreição dos corpos. Metempsicose.

2
INTRODUÇÃO

Discutir a concepção de homem é de fundamental importância para a teologia


cristã porque, em primeiro lugar, ele precisa se conhecer, saber quem ou o que é, para poder
se situar de forma correta no universo criado por Deus. Por enquanto, estamos tateando neste
emaranhado de teses. Por óbvio, não é pretensão de este trabalho vir a definir essa questão,
mas, pelo menos, mostrar em uma visão de conjunto qual a situação atual das várias
possibilidades existentes.
Dessa forma, o artigo procura avaliar a situação atual – ou apenas as aponta – de
questões básicas que se impõem como consequência lógica pela adoção de determinado
conceito de ser humano. Assim, (e simplesmente a título de exemplo elementar) se a Teologia
partisse da premissa platônica de homem – essência dicotômica – deveria, obrigatoriamente,
encarar como reflexo dessa opção a discussão sobre a reencarnação. Por outro lado, ao se
adotar a conceituação de ser complexo e único (tendência atual), não se poderá deixar de
discutir e desenvolver a questão relativa à mortalidade ou imortalidade do homem. Sem
mencionar as discussões sobre a encarnação do Verbo.
Quem – ou o quê – é o homem? Esta pergunta é fundamental para a Teologia
cristã, que se interessa por todas as respostas que possam ser dadas pelas diversas ciências que
tem o ser humano como objeto de estudos. Todas as ciências que estudam o ανθρωπος
(anthropos, ser humano) adotam uma conceituação parcial sobre seu objeto de estudo, sem
que nenhuma chegue a defini-lo de maneira definitiva, completa e, óbvio, não existe qualquer
consenso a respeito. E como se isso não bastasse, deve ser lembrado que ao longo da história
humana essa conceituação sofreu enorme variação. Uma pequena amostra disso pode ser a
lembrança de que os escravos não eram considerados seres humanos no antigo Império
Grego; quem não era cidadão do Império Romano, era bárbaro; no Império do Brasil, os
negros não eram considerados humanos; na época do domínio espanhol e português sobre a
América Latina se acreditava que os índios não eram seres humanos – dizia-se que eles não
possuíam alma.
Este trabalho não vai a busca de uma conceituação definitiva sobre o homem,
apenas irá procurar efetuar um levantamento sobre algumas das possíveis consequências da
adoção de determinado conceito antropológico na teologia cristã.

3
1. SER HUMANO

O que é o homem? Provavelmente a mais antiga pergunta. Até agora, é um


enigma a ser decifrado. As diversas ciências – especialmente as Antropologias – apresentam
campos de estudos limitados. E o próprio cristianismo não tem uma única Antropologia, e
mesmo as Antropologias Teológicas têm enfoques diferentes, embora muitos temas sejam
constantes. Do ponto de vista histórico, sempre predominaram, na Antropologia Teológica,
elementos do helenismo.
Em língua portuguesa, o termo “homem” apresenta o significado, principalmente,
de “ser humano em geral”, “indivíduo da espécie humana”, “a humanidade” e, também,
define um ser humano do sexo masculino. Já na língua grega, existem as palavras “anthropos
('άνθρωπος)” para designar um indivíduo da espécie humana, “andros (ανδρος)”, significando
um “ser humano do sexo masculino” e “gine (γυνή)” para apontar uma “pessoa do sexo
feminino”. Para nós, então, “homem” trás toda a carga da cultura helênica, denotando o
indivíduo como “ser autocentrado”, privilegiando aspectos como essência, substância e
natureza, sem levar muito em consideração os aspectos de individualização. E, mais
importante neste momento, é a ideia de que o homem é um ser composto de corpo e alma. A
alma vem a ser uma presença do divino e que é imortal. Não menos importante, a concepção
grega concentrou--se na racionalidade, definindo o homem como um ser racional, propiciando
a interpretação de que tudo fora do ser humano não passa de um objeto a ser usado e
manipulado.

2. ALGUMAS CONCEPÇÕES DE “HOMEM”

Ao se falar sobre o homem, uma primeira questão é a que envolve o começo da


vida humana, a gênese. Não é escopo de este trabalho efetuar uma discussão em profundidade
- que o assunto merece – sobre o tema, apenas serão discutidos alguns aspectos. J. R. Goldim 1
compila 20 (vinte) diferentes maneiras de se entender o início da vida humana, conforme as
diferentes concepções assumidas por seus defensores. Aqui, vou me contentar em mostrar
cinco perspectivas das possíveis respostas da ciência para a pergunta “Quando começa a vida
humana?”:
1. Foco na fecundação: a fertilização define o início da vida humana, quando
espermatozoide e óvulo se encontram e combinam seus genes para formar um indivíduo com

1
GOLDIM, J. R. Início da vida de uma pessoa humana. Disponível em: <www.bioetica.ufrgs.br/inivida.htm>. Acesso em:
09 dez 2014.
4
um conjunto genético único, criando, dessa forma, um novo indivíduo, um ser pertencente à
raça humana. Essa é a posição defendida pela Igreja Católica.
2. Foco no embrião: na terceira semana de gravidez tem início a vida humana,
quando é estabelecida a individualidade do ser. A justificativa é a possibilidade de, até 12 dias
após a fecundação, o embrião ser capaz de se dividir e dar origem a duas ou mais pessoas.
Essa concepção justifica, moralmente, o uso da pílula do dia seguinte e contraceptivos
administrados nas duas primeiras semanas de gravidez.
3. Foco na formação neurológica: adota o princípio da coerência: o mesmo
conceito de morte vale para a vida. Ou seja, se a vida termina quando cessa a atividade
elétrica no cérebro, ela começa quando o feto apresenta atividade cerebral igual à de uma
pessoa humana. A grande incógnita aqui é que não existe consenso entre os cientistas sobre
essa data específica, permanecendo a incerteza como regra. Alguns deles dizem haver esses
sinais cerebrais já na 8ª semana; outros, na 20ª. Consequentemente, embora o conceito esteja
fixado, não há certeza científica sobre o termo inicial.
4. Foco no meio ambiente: a capacidade de sobreviver fora do útero é que faz do
feto um ser independente e determina o início da vida. Médicos consideram que um bebê
prematuro só se mantém vivo se tiver pulmões prontos, o que acontece entre a 20ª e a 24ª
semana de gravidez. Foi o critério adotado pela Suprema Corte dos EUA na decisão que
autorizou o direito ao aborto.
5. Foco na dinâmica da vida: afirma que a discussão sobre o começo da vida
humana é irrevelante, uma vez que não existe um momento único no qual a vida tem início.
Para essa corrente, espermatozoides e óvulos são tão vivos quanto qualquer pessoa. Além
disso, o desenvolvimento de uma criança é um processo contínuo e não deve ter um marco
inaugural.
Tendo sido criado, temos o objeto de nosso estudo e vamos enfocar o conceito de
“ente”, de “ser humano”, “anthropos” (ανθρωπος). Vejamos o que dizem alguns filósofos e
teólogos.

2.1. Platão

Pela enorme influência na então nascente Teologia cristã, é imprescindível que


seja citado Platão, observando atentamente pelo menos um dos seus textos: Fédon.
Platão entende que o universo se divide em mundo sensível - o mundo dos
sentidos onde estamos - e um mundo inteligível, onde residem as essências (“ειδος - eidos”)

5
de todas as coisas que existem no mundo sensível. Em Fédon, e indo direto ao ponto de
interesse, Platão defende que o homem é uma alma – oriunda do mundo inteligível -, usando
um corpo para procurar a verdade absoluta, o conhecimento. Todo homem, então, deve
procurar aperfeiçoar seus dons intelectuais para aprimorar ao máximo possível sua alma de
modo que ela chegue o mais perto possível da verdade. Que só será conhecida após a morte,
após a libertação de sua gaiola terrena, de seu casulo. Na boca de Sócrates:
Somente então usufruiremos da sabedoria pela qual estamos
apaixonados, isto é, depois de nossa morte e de maneira alguma no
decorrer da vida.2
É neste texto, também, que encontramos a afirmação sobre a imortalidade da alma
e sobre a reencarnação, frutos da premissa inicial da concepção platônica de homem.3
Essa concepção dualista e dicotômica do homem – corpo e alma - simples, direta,
conduz, no entanto, a caminhos obscuros, tormentosos, quando vista sob o olhar da teologia
cristã e apresenta possibilidades favoráveis e desfavoráveis, se assumida pela Antropologia
Teológica cristã.
Para Platão, então, o homem é constituído de alma e corpo, que são entidades
autônomas, independentes. Para ele, a alma, sede da racionalidade, subsiste à morte e pré-
existe ao nascimento, e o corpo é um obstáculo ao conhecimento, por fazer parte do mundo
sensível, material. A natureza da alma revela-se congênita com o mundo das ideias, diante do
que é essencial cuidar da alma, não apenas pelo tempo que dura a vida, mas por toda a
eternidade, e o único meio para fazê-lo é torná-la o melhor e o mais sábia possível, pois a
única coisa que a alma mantém consigo é a educação recebida, é o conhecimento apreendido.
O objetivo do homem é, portanto, alcançar a sabedoria plena, a verdade absoluta.
O processo de encontro pleno entre a alma e as ideias tem como momento crucial
a morte, que é, assim, esperança de purificação através da separação entre o corpo e a alma.
Embora o primeiro argumento utilizado por Platão para justificar a importância da morte
tenha sido o de encontrar com deuses e com outros homens sábios e bons, o argumento
principal é o de que a única forma de contemplar a sabedoria em si é em estado puro. As
coisas em si mesmas só são acessíveis à alma quando captadas por um sentido independente
do corpo, sem a interferência do sensível. O saber elaborado com base em informações
recebidas dos sentidos é falho, porque tais informações são deturpadas, são deformadas pelo
mundo material. Enquanto presa ao corpo, a alma não é capaz de alcançar a verdade e a morte
2
PLATÃO, 1999 p 128
3
PLATÃO, 1999 pp 132 a 135
6
é a libertação, a possibilidade de encontro com a sabedoria pura, plena.

2.2. Aristóteles

Aristóteles concebeu o ser humano em conformidade com sua teoria da substância,


ou seja, a substância é composta de matéria e forma. Assim, o homem é composto de matéria
– o corpo - e forma – a alma, e acredita que esta é a forma da substância, isto é, é o ato do
homem, na medida em que a forma representa a realização de uma substância. Ele também
entende que a alma é o princípio vital, como era comum ente os pensadores gregos antigos e,
por conseguinte, todos os seres vivos possuem uma.
Dessa forma, ele concorda com Platão sobre a ideia de que o homem é um composto
de corpo e alma, mas, ao contrário dele, entende que a união ente esses dois elementos é
substancial e não apenas acidental. Para ele não existe o corpo de um lado e a alma de outro,
mas os dois existem no homem em um conjunto hilemórfico4. O homem não é a soma de
corpo e alma, mas eles se fundem em nova substância chamada homem, onde atuam em
conjunto. É a natureza humana. Assim, as atitudes, as ações são atividades do homem e não
atividade do corpo ou atividade da alma.
Fruto dessa interpretação, para ele, a alma não existe antes do corpo, mas, ao
contrário, existe ao mesmo tempo que ele e é ela que lhe dá forma e funções, compondo o ser
humano. Ao morrer, a alma desaparece com o corpo, pois forma com ele uma síntese
inseparável. Ou seja, na morte, ocorre a perda de uma forma e a aquisição de outra por parte
da substância homem: perde a forma de ser vivo e adquire a de cadáver. Assim, ele também
discorda de Platão sobre a imortalidade da alma: para Aristóteles, não é possível haver a
forma separadamente da matéria.

2.3. Agostinho de Hipona

Agostinho de Hipona (354 – 430), um dos maiores pensadores cristãos de todos os


tempos, tomou – consciente ou inconscientemente, já que na sua juventude houvera sido um
maniqueísta5 - muitas coisas emprestadas aos platônicos e, principalmente, aos
neoplatônicos6, para vir a desenvolver sua sistematização de uma filosofia cristã, cuja
4
Dos termos gregos: ὕλη = hylé (matéria) e μορφή = morphé (forma)
5
Os maniqueístas seguiam uma doutrina desenvolvida pelo sacerdote persa Mani, que é uma mistura de elementos gnósticos,
cristãos e orientais, com fundamento dualista – presença de dois princípios: o do bem e o do mal. Eles entendiam que no
homem coabitavam duas almas; uma delas corpórea (a maligna) e outra luminosa, a do bem. Após um “namoro” com essa
doutrina, Agostinho de Hipona, acabou por se converter ao catolicismo, passando a ser seu grande adversário, tendo dedicado
inúmeras obras para refutá-la.
6
O neoplatonismo é uma doutrina de inspiração platônica, predominando preocupações transcendentais. Há um amálgama de
7
influência se fez e se faz sentir no cristianismo, espraiando-se até à época moderna.
O conceito básico da antropologia agostiniana pode ser resumido pela assertiva de
que o homem é uma alma racional, servindo-se de um corpo material e mortal. A alma, na sua
interpretação, apresenta em si os aspectos de razão inferior e razão superior. Aquela tem por
objetivo conhecer a realidade sensível, mutável, concreta – é a ciência, o conhecimento
ordinário, corriqueiro - e a razão superior busca o conhecimento das ideias, do inteligível, do
intangível – é a sabedoria. A iluminação divina ocorre nesta última. Assim, o homem é um ser
mortal, com uma alma imortal. Para ele, a alma é uma substância capaz de administrar um
corpo; este se resume a mera ferramenta subordinada, capaz de realizar tarefas materiais.
Assegurava que esses dois elementos do homem pertencem a duas categorias bem distintas: o
corpo é um objeto tridimensional, formado a partir de quatro componentes; já a alma não tem
dimensões espaciais e é composta por um tipo de substância apropriada para dirigir o corpo. E
como corolário de sua classificação hierárquica para todas as coisas surge a afirmação de que
a alma é superior ao corpo7.
Interessante observar que Agostinho pretendeu – e o fez aguerridamente – lutar
contra várias heresias, mas, como se verifica de sua antropologia, ele não foi capaz de se
libertar de toda a influência neoplatônica sofrida em sua juventude!

Una doble cuestión impulsaba a Agustín a aceptar sin


reservas el dualismo: su doctrina del pecado original y la demostración
de la inmortalidad. Ambas tesis, tal como las explico san Agustín
significan ya una cierta deformación de la doctrina originaria del judeo-
cristianismo. Se tratará, como siempre, de un dualismo mitigado por
una consideración del hombre como una persona.8

E como consequência de toda a influência de Plotino, Agostinho desenvolve uma


tese sobre a espiritualidade e a imortalidade da alma de tal forma que, como conclusão, se
pode afirmar que o homem, para ele, não é uma unidade. Para ele, a união alma-corpo é de
ordem funcional, não de ordem substancial. Assim, o dualismo alma-corpo passa a ser uma
premissa sólida para a Teologia Cristã.

2.4. Tomás de Aquino


elementos platônicos, judaicos e egípcios, resultando numa interpretação mística. Seu principal expoente é Plotino, um
filósofo egípcio.

7
Ele classificou as coisas por ordem de importância, em três categorias: 1º as coisas que somente existem; 2º as que existem
e vivem e, finalmente, as que existem, vivem e tem inteligência ou dispõem da razão.
8
DUSSEL, 1974, p. 179
8
Citado Agostinho, impossível deixar de se verificar Tomás de Aquino. O Doctor
Angelicus adota, aperfeiçoa, ajusta e adapta conceitos filosóficos desenvolvidos por
Aristóteles e monta o calabouço de sua doutrina filosófica-teológica cristã, que acabou -
depois de originar certa aversão inicial na hierarquia da Igreja Católica - sendo reconhecida e
defendida pela mesma Igreja como sua doutrina oficial. Por exemplo, a tese do Estagirita
sobre a imaterialidade da alma, acabou sendo usada por Tomás, após passar pela e receber a
luz da Revelação, para o desenvolvimento da tese da espiritualidade e da criação divina da
alma. Assim, Tomás procurou usar a filosofia aristotélica para completar ou complementar
suas posições filosóficas e teológicas, desejando se desvencilhar das dificuldades e
contradições da teoria das "duas substâncias" ao se preocupar em observar questões relativas à
unidade da consciência.
A Teologia Antropológica de Tomás apresenta como característica o
reconhecimento de que a unidade corpo-alma no ser humano é radical, nuclear e íntima (para
ele o homem é a síntese de alma e corpo, que, portanto, não são substâncias distintas e
conflitantes, muito pelo contrário, alma e corpo constituem um todo único); a alma não é
superior ao corpo; ela não está involucrada no corpo; a “criação” do corpo e da alma ocorre ao
mesmo tempo (não há existência anterior de um ou de outro); o corpo é a condição para a
existência da alma. Também podemos verificar que ele refutou a possibilidade de
metempsicose – “reencarnação” – e, embora não tenha conseguido uma argumentação
irrefutável, assentou importante referencial para o tema da ressurreição do corpo.
Embora impregnado por suas teorias, Tomás construiu uma antropologia distinta
de Platão, de Aristóteles e de Agostinho, mesmo que sua filosofia esteja umbilicalmente atada
ao estagirita. Mesmo assumindo que o corpo é condição para a existência da alma, que os dois
formam uma unidade na construção do ser humano, ele consegue escapar muito pouco do
dualismo antropológico de Platão. Para ele, o ser humano é uma substância completa,
composta de duas outras substâncias incompletas em si mesmas, a substância alma racional e
a substância corpo9. Vale ressaltar que Tomás interpreta que a substância humana só é
completa, quando alma e corpo se encontram unidos, pois a alma humana é mais completa e
só é perfeita quando unida ao corpo, do que quando separada dele 10. Para ele, o corpo não é
uma prisão (como imaginava Platão) nem simples instrumento da alma (como pensava
Agostinho), mas, a união de corpo e alma é, antes, a salvação da alma.

9
AQUINO, 2001, p 676 .Questão 75,a4,ad1
10
AQUINO, 2001, p 801. Questão 89, a1 e p 815, Questão 90, a4
9
Em síntese, para o Aquinate, o homem é uma substância composta de alma e
corpo, duas essências incompletas se consideradas em si mesmas, mas perfeitas e completas
se unidas, sendo separáveis apenas com o cessar da vida no corpo. Como dito por ele na
contestação da sexta objeção levantada à pergunta “El principio intelectivo, ¿se une o no se
une al cuerpo como forma?”:
6. A la sexta hay que decir: Al alma corresponde esencialmente
estar unida al cuerpo, como al cuerpo ligero esencialmente le
corresponde mantenerse en lo alto. Y así como el cuerpo ligero sigue
siendo ligero cuando es alejado de su lugar propio, aunque con aptitud o
inclinación a ocuparlo, así también el alma humana permanece en su ser
cuando está separada del cuerpo, conservando su aptitud o inclinación
natural a unirse al cuerpo.11

2.5. A alma humana

Aqui cabe uma breve síntese sobre outra questão importante que é a relacionada à
criação da alma humana: tomando por base as explanações bíblicas, há duas teorias aceitáveis
sobre como a alma humana é criada. O Traducianismo é a teoria segundo a qual uma alma é
gerada juntamente com o corpo – na concepção - pelos pais físicos. O ponto fraco dessa teoria
é a imprecisa explicação de como uma alma imaterial pode ser gerada através de um processo
completamente físico. Essa teoria, por outro lado, só pode ser realidade se o corpo e a alma
forem indissoluvelmente entrelaçados. A segunda hipótese é o Criacionismo que entende que
Deus é o criador de cada nova alma; e o faz quando um novo ser humano é concebido. Além
dessas duas teorias que podem ser defendidas com base em textos bíblicos, há uma terceira
tese que diz terem sido criadas por Deus todas as almas humanas, ao mesmo tempo e que ele
anexa a alma ao corpo do ser humano no momento da concepção. Quem aceita e defende essa
opinião acredita que Deus guarda – em algum lugar no céu - as almas que estão à espera de
um corpo humano.
Ao contrário desta terceira via, tanto o traducianismo quanto o criacionismo
entendem que a alma não existe antes da concepção. E como essas duas hipóteses podem ser
defendidas com a Escritura, parece ser esse o ensino claro da Bíblia: a alma não existe antes
do ser humano ser concebido. Aqui surge uma nova questão: Deus cria uma nova alma
humana no momento de concepção ou Deus projetou o processo reprodutivo humano para

11
AQUINO, 2001, p 682. Questão 76, art. 1, 6
10
também reproduzir uma alma? De qualquer forma, Ele é completamente responsável pela
criação de cada alma.

3. PRÓLOGO DO EVANGELHO DE JOÃO

Outro texto de importância para se entender, interpretar e discutir a essência do ser


humano está colocado no prólogo do Evangelho segundo João (Jo 1, 1-18). 12 Conforme
expresso no versículo 31 do capítulo 20 - Mas estes foram escritos, para que creiais que
Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a vida em seu nome.- o objetivo
central desse evangelho é evidenciar a divindade de Cristo, culminando com o prólogo
admirável.
Esta perícope, usada por muitos para confirmar a divindade de Jesus, apresenta, se
assumida essa premissa, alguns problemas para a Teologia Cristã, tanto na conceituação de
homem quanto na dogmatização da humanidade do Cristo, sem esquecer as questões
escatológicas. Este artigo não tem a pretensão de discutir nem a divindade nem a humanidade
de Cristo, apenas se interessa pelas consequências que advirão para a interpretação deste
prólogo ao se assumir determinado conceito de homem.
Importante aqui é observar que João declara que o Verbo foi sujeito ativo na
criação, indicando que o Verbo já existia antes do período em que todas as coisas foram
criadas. Então, Cristo existia anteriormente à criação do Universo, atestando sua condição
eterna e, portanto, sua divindade. Com outras palavras, João ao afirmar a completa divindade
de Cristo, não só assegura que Jesus já existia antes do universo, mas também que ele existia
12
1.No começo a Palavra já existia: a Palavra estava voltada para Deus, e a Palavra era Deus.
2.No começo ela estava voltada para Deus.
3.Tudo foi feito por meio dela, e, de tudo o que existe, nada foi feito sem ela.
4.Nela estava a vida, e a vida era a luz dos homens.
5.Essa luz brilha nas trevas, e as trevas não conseguiram apagá-la.
6.Apareceu um homem enviado por Deus, que se chamava João.
7.Ele veio como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos acreditassem por meio dele.
8.Ele não era a luz, mas apenas a testemunha da luz.
9.A luz verdadeira, aquela que ilumina todo homem, estava chegando ao mundo.
10.A Palavra estava no mundo, o mundo foi feito por meio dela, mas o mundo não a conheceu.
11.Ela veio para a sua casa, mas os seus não a receberam.
12.Ela, porém, deu o poder de se tornarem filhos de Deus a todos aqueles que a receberam, isto é, àqueles que acreditam no
seu nome.
13.Estes não nasceram do sangue, nem do impulso da carne, nem do desejo do homem, mas nasceram de Deus.
14.E a Palavra se fez homem e habitou entre nós. E nós contemplamos a sua glória: glória do Filho único do Pai, cheio de
amor e fidelidade.
15.João dava testemunho dele, proclamando: "Este é aquele, a respeito de quem eu falei: aquele homem que vem depois de
mim passou na minha frente, porque existia antes de mim."
16.Porque da sua plenitude todos nós recebemos, e um amor que corresponde ao seu amor.
17.Porque a Lei foi dada por Moisés, mas o amor e a fidelidade vieram através de Jesus Cristo.
18.Ninguém jamais viu a Deus; quem nos revelou Deus foi o Filho único, que está junto ao Pai.

11
por toda a eternidade.

4. CONSIDERAÇÕES

A grande questão de fundo com relação à Antropologia Teológica está ligada aos
primórdios das comunidades cristãs, a partir do momento em que elas passaram a criar uma
Teologia. Os primeiros autores cristãos sofreram forte influência do pensamento helênico,
culminando, numa primeira etapa, com as reflexões de Agostinho de Hipona, arejadas
intensamente por ideias neoplatônicas. Dessa forma, a Teologia assumiu o dualismo corpo –
alma, de forma que, na morte, a alma se separa do corpo e vai usufruir a presença divina até à
ressurreição dos corpos, quando, então, os dois se reunirão novamente. Mas esse conceito de
alma imortal não está presente nas Escrituras! É um conceito desenvolvido pela incipiente
Teologia Cristã. Dessa maneira, os cristãos passaram a acreditar que a morte – e a ressurreição
- só atinge o corpo.
Malgrado os esforços de Tomás de Aquino, suas reflexões acerca da natureza
humana não foram suficientes para, definitivamente, libertar a Teologia do dualismo. E isso
conduziu à valorização intensa da alma e a desvalorização do corpo e de todas as
manifestações a ele relativas: a vida na terra, sua condição social, o conforto, o prazer, entre
outras. Em lugar disso, enalteceu-se a vida pós-morte. Esta concepção considerava a alma
como origem do bem, enquanto o corpo era a causa do mal. Assim, não era de se admirar que
a Igreja pudesse vir a aceitar e até defender atitudes violentas e discriminatórias contra
pessoas.
Em época mais recente, já ventilada pelo Iluminismo, o Cristianismo, em geral e a
Igreja Católica, em especial, tem procurado manter o entendimento de que corpo e alma não
são substâncias distintas, mas princípios do ser humano que não podem ser imaginados como
apartados e diferentes. Adotado esse conceito, a Teologia deve se manter coerente e analisar e
justificar fatos de acordo com esse pensamento. Ela o faz?
Os autores anteriormente apontados discutem a natureza do homem de formas
diferentes. A partir das discussões filosóficas, ocorridas desde a época grega, diversos outros
pensadores chegaram a alguma formulação muito próxima das apresentadas pelos autores
acima citados. Sem contar os inúmeros outros ramos da Ciência moderna que se dedicaram a
esse estudo. Assim, o ser humano passou a ter imensa diversidade de conceituações, cada uma
visando a um objetivo, cada uma visando a determinado público.
Independentemente de qual seja a melhor conceituação assumida para definir o ser

12
humano, é necessário que a Teologia Cristã se mantenha na mesma linha racional e lógica em
todos os campos de estudo. Ou seja, que ela consiga explicar razoavelmente os diversos
fenômenos em que esta conceituação surge, clara ou subliminarmente. Por exemplo, na
Escatologia.
Assumida uma atual concepção de ser humano – unidade complexa, formada pela
amálgama de corpo/alma – uma problemática que surge é a relacionada à morte do homem:
quando ele morre, ele morre integralmente (não vamos nos delongar em discussões sobre o
momento específico em que ele morre, que, a exemplo do que ocorre com o nascimento,
também é uma questão em aberto). Ou não? Se sim, isso significa, necessariamente, que a
alma morre, acarretando a conclusão óbvia de que a alma não é imortal. E se deve seguir
nessa linha com coerência, ou seja, se há a ressurreição, haverá a ressurreição de homens, não
apenas de corpos. Ou, não há morte, no sentido de fim de uma era, mas apenas uma passagem
de imediato para a outra vida? Nesse caso, se há uma mudança imediata do homem para
outra vida, como ficaria a fé na ressurreição? A morte integral do homem se coaduna com o
tema da ressurreição dos mortos, o que já não ocorre se há uma passagem imediata para a
outra vida.
Saindo da Escatologia e indo para a Cristologia, como poderia ser explanada a
Encarnação de Cristo, frente ao “ser complexo, embora único”? Sua morte? E a ressurreição?
O Prólogo do Evangelho de João é um poema exaltação do Cristo-Deus, mas nos
ajuda pouco na definição de sua plena humanidade. Há uma tese em aberto sobre a
possibilidade de se encarar a Encarnação como uma metáfora 13, o que, óbvio, acarretaria
inúmeras implicações extremamente graves para a Teologia resolver em diversas áreas da
ciência religiosa.
São apenas algumas poucas questões, talvez suficientes para levantar a poeira de
um terreno nebuloso, podendo dar origem a questionamentos e análises profundos.

CONCLUSÃO

13
HICK, 2000
13
Quando eu era garoto, aprendi nas lições do Catecismo que quando uma pessoa
morre, seu corpo é enterrado e sua alma vai para o céu (se fosse bom e não morresse com
pecados), para o purgatório (se apesar de bom, tivesse morrido com pecados veniais) e iria ao
inferno se tivesse morrido com pecados mortais. Continuei a ouvir esse tipo de pregação em
homilias, sermões, orações e em aulas. Apenas em tempos mais recentes passei a presenciar
algumas vozes dissonantes, tentando mostrar a unidade do homem em todas as circunstâncias.
Ainda é pouco.
É interessante observar que o que chamei de “vozes dissonantes” estão replicando
o que a Igreja vem tentando afirmar: o homem é corpo e alma numa união substancial
indissolúvel!
O objetivo do presente artigo foi levantar algumas questões pertinentes ao reflexo
de se assumir determinada concepção de ser humano. Foram levantadas muito poucas
questões e em apenas duas áreas – Escatologia e Cristologia. O importante é que a Teologia
assuma um caminho uniforme, coerente em todas as suas áreas científicas. Imagino que haja
uma quantidade enorme de trabalho a ser realizado com a necessária profundidade para, pelo
menos, haver regularidade nos discursos para a disseminação da doutrina cristã.

BIBLIOGRAFIA

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