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1 CRISTIANE DE AZEVEDO PRIZIBISCZKI DIÁLOGO ABERTO: COMO SÃO DESENVOLVIDAS, NA PRÁTICA, AS ETAPAS TEÓRICAS DE

CRISTIANE DE AZEVEDO PRIZIBISCZKI

DIÁLOGO ABERTO: COMO SÃO DESENVOLVIDAS, NA PRÁTICA, AS ETAPAS TEÓRICAS DE PRODUÇÃO DO LIVRO-REPORTAGEM

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CRISTIANE DE AZEVEDO PRIZIBISCZKI

DIÁLOGO ABERTO: COMO SÃO DESENVOLVIDAS, NA PRÁTICA, AS ETAPAS TEÓRICAS DE PRODUÇÃO DO LIVRO-REPORTAGEM

Monografia apresentada ao Curso de Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo, da Universidade Estadual de Londrina, como requisito parcial à obtenção do título de bacharel.

Orientador: Prof. Dr. Rozinaldo Antonio Miani

Londrina

2006

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CRISTIANE DE AZEVEDO PRIZIBISCZKI

DIÁLOGO ABERTO: COMO SÃO DESENVOLVIDAS, NA PRÁTICA, AS ETAPAS TEÓRICAS DE PRODUÇÃO DO LIVRO-REPORTAGEM

Monografia apresentada ao Curso de Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo, da Universidade Estadual de Londrina, como requisito parcial à obtenção do título de bacharel.

COMISSÃO EXAMINADORA

Prof. Dr. Rozinaldo Antonio Miani Universidade Estadual de Londrina

Prof. Dr. Paulo César Boni Universidade Estadual de Londrina

Profª Flávia Lúcia Bazan Bespalhok Universidade Estadual de Londrina

Londrina, 21 de novembro de 2006

4

Não se trata de ter disposição: você é um operário como qualquer outro.

Mário de Andrade a Fernando Sabino

5

AGRADECIMENTOS

Ao meu orientador, Rozinaldo Miani, pelo apoio e condução precisa;

À Flávia Lúcia Bespalhok, pela paciência e carinho com que sanou minhas dúvidas;

A Paulo César Boni, pela amizade e confiança desde os primeiros anos de

universidade;

À Rosane Verdegay de Barros, pela amizade quase que maternal e por ter me

ensinado a praticar um jornalismo responsável e de qualidade;

Aos meus pais, por terem garantido que eu pudesse viver este momento;

À minha família, principalmente à Nydia Natali, pelo carinho e apoio nas horas

difíceis;

A todos os amigos, os de ontem e de os hoje, pela compreensão nos momentos

difíceis e pelas alegrias vividas nesses cinco anos de universidade;

Às amigas Aline, Audrey e Glória, pelos livros emprestados, pela recepção sempre calorosa em São Paulo e, principalmente, pelos sonhos, receios e conquistas compartilhados;

Ao amigo Fábio Marcelo Calsavara, pelo suporte técnico e emocional durante a execução do trabalho

Aos colaboradores entrevistados: Mylton Severiano, Fernando Morais e Caco Barcellos, pela riqueza de material que me colocaram em mãos;

E, finalmente, a Edvaldo Pereira Lima, que me alicerçou durante toda esta viagem e

me abriu as portas para o universo da reportagem em livro.

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PRIZIBISCZKI, Cristiane de Azevedo. Diálogo aberto: como são desenvolvidas, na prática, as etapas teóricas de produção do livro-reportagem. 2006. Monografia (Bacharel em Jornalismo) – Universidade Estadual de Londrina.

RESUMO

Verifica como são desenvolvidas, na prática, as etapas teóricas de produção do livro-reportagem – definição de pauta, captação de informações e redação - sugeridas por Edvaldo Pereira Lima em sua tese de doutoramento, Páginas Ampliadas – o livro-reportagem como extensão do jornalismo e da literatura. Utiliza- se, para isto, da metodologia da entrevista em profundidade, associada à análise de conteúdo e documental, no contato com os autores Mylton Severiano, Fernando Morais, Caco Barcellos e com o próprio Edvaldo Pereira Lima. Apresenta, ainda, um diálogo entre as hipóteses e sugestões do pesquisador em comunicação e a opinião dos autores sobre conceitos, funções e motivações do livro-reportagem, além de novos pontos que não haviam sido abordados por Lima em seu trabalho.

Palavras-chave: Livro-reportagem, Caco Barcellos, Edvaldo Pereira Lima, Fernando Morais, Mylton Severiano

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PRIZIBISCZKI, Cristiane de Azevedo. Open dialog: how, in a practical procedure, the theoretical stages of production of the nonfiction novel are developed. 2006. Course Conclusion Job Degree in Jornalism – Londrina State University, Londrina/PR.

ABSTRACT

It has as its aim to verify, in a practical procedure, how the theoretical stages of production of the nonfiction novel are developed, – task assignment, information search and editorship – suggested by Edvaldo Pereira Lima in his doctorate thesis, “Páginas Ampliadas – o livro-reportagem como extensão do jornalismo e da literatura”. It was obtained over the methodology of detailed interviews, associated with content and documental analyses, through the meeting with the writers Mylton Severiano, Fernando Morais, Caco Barcellos and Edvaldo Pereira Lima. It also presents a dialog between Lima´s hypotheses and suggestions and the other writers’ opinion about these concepts, functions and motivations of the nonfiction novel, in addition to those, new points that have never been worked by Lima in his thesis.

Key-words – Nonfiction novel, Caco Barcellos, Edvaldo Pereira Lima, Fernando Morais, Mylton Severiano

8

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO

08

 

Metodologia

15

CAPÍTULO 1: UMA BREVE BIOGRAFIA

22

1.1 Mylton Severiano: "A escola de jornalismo pra mim é: tanto faz"

22

1.2 Fernando Morais: "Livro-reportagem é a única coisa que eu sei fazer"

25

1.3 Edvaldo Pereira Lima: "Nenhum assunto, nenhuma pauta é superior

 

ao valor da vida humana"

28

1.4 Caco Barcellos: "A maneira mais bela de se contar uma história

 

é a da reportagem"

30

CAPÍTULO 2: PRIMEIROS CONFRONTOS

34

2.1 Conceitos, funções e motivações

34

2.2 Um ponto de discordância: classificações

40

CAPÍTULO 3: PAUTA

46

3.1

Pauta: mais que uma simples idéia

46

CAPÍTULO 4: CAPTAÇÃO DE INFORMAÇÕES

52

4.1 Técnicas de Apuração

52

4.2 Ampliando o Páginas Ampliadas – recursos técnicos

64

CAPÍTULO 5: REDAÇÃO

66

5.1 Última etapa: a redação

66

5.2 Ampliando o Páginas Ampliadas – Tratamento das informações apuradas . 83

CONSIDERAÇÕES FINAIS

86

REFERÊNCIAS

90

ANEXOS

93

ANEXO A – Entrevista com Mylton Severiano

9

ANEXO B – Entrevista com Fernando Morais

ANEXO C – Entrevista com Caco Barcellos

ANEXO D – Entrevista com Edvaldo Pereira Lima

ANEXO E – CD’s com entrevistas

8

INTRODUÇÃO

O livro-reportagem é um veículo de comunicação jornalística muito

conhecido nos meios editoriais do mundo ocidental. No Brasil, não são raros os

autores que procuram unir o apuro jornalístico ao verniz estético da linguagem

literária. A versão tupiniquim do jornalismo literário e de sua vertente mais famosa, o

Novo

Jornalismo

-

nascido

em

meio

à

efervescência

juvenil

européia,

e

posteriormente norte-americana, dos anos 60 -, ganhou adeptos e evoluiu com o

passar dos anos até se chegar ao que é hoje o mercado editorial do livro-reportagem

brasileiro: um nicho ainda em crescimento, mas bastante promissor, que agrega

obras de variados temas e estilos lingüísticos.

Tal afirmação torna-se legítima quando confrontada a dados de

grandes editoras nacionais. Uma das maiores editoras do país, a Companhia das

Letras, lançou, recentemente, uma coleção especial intitulada “Jornalismo literário –

a arte de contar boas histórias”, que possui 15 títulos de grandes autores da

modalidade 1 , como os próprios Gay Talese e Truman Capote, pioneiros no estilo. A

Editora Record também possui números expressivos: 47 obras de seu acervo estão

inseridas no "gênero Biografia"; na Editora Casa Amarela, 12 dos 60 títulos são

relacionados ao livro-reportagem, e assim por diante.

E por falar em números, não foram somente os jornalistas formados

e profissionais da área (ou não) que optaram por esta modalidade. Também os

1 Como não existem conceituações teóricas acerca do livro-reportagem, fato salientado por Edvaldo

Pereira Lima em sua tese: “

livro-reportagem nos veículos acadêmicos. O Dicionário de comunicação (Rio de Janeiro, Codecri;

1978), de Carlos Alberto Rabaça e Gustavo Barbosa -

sua variante, que é exatamente o livro-reportagem. Também apresenta o verbete reportagem, mas tampouco aí menciona qualquer coisa a uma das formas pelas quais a reportagem pode se apresentar, que é justamente a do livro”. (LIMA, 2004, p.9. Grifos do autor), optamos por usar a denominação dada por esse autor em seu trabalho. Assim, o livro-reportagem será tratado como uma modalidade do jornalismo. Também a grafia do termo - com uso de traço entre as palavras - foi adotada em todo este trabalho, tomando-se como modelo a grafia utilizada por Lima.

o verbete livro, mas nada diz de

ilustrar com um exemplo a ausência de maiores referências ao

convém

apresenta

9

estudantes de comunicação social de várias escolas de jornalismo do país ousaram

passear pelo mundo da não-ficção. Somente no 12º Expocom, realizado no Rio de

Janeiro em 2005, foram inscritos 80 livros-reportagem de escolas de jornalismo de

sete estados brasileiros: São Paulo (66 inscritos), Minas Gerais (5), Paraná (2), Rio

Grande do Norte (2), Santa Catarina (2) e Espírito Santo e Ceará com um inscrito

cada.

Este ano, o Expocom, realizado em Brasília, recebeu 23 inscrições

de livros-reportagem, também de vários estados do país 2 .

Muitos

seriam

os

títulos

a

serem

citados

como

exemplo

da

preferência crescente que autores têm dado a esta modalidade de jornalismo, o que

corrobora a afirmativa de que o livro-reportagem ocupa um espaço próprio de

importância no mercado editorial. Apesar disso, “o livro-reportagem, como objeto de

estudo, ainda não desperta significativamente a atenção da comunidade acadêmica”

(LIMA, 2004, p. 4), o que fica evidente quando comparados o número de livros-

reportagem produzidos no Brasil e a quantidade de obras que propõem um

embasamento teórico à modalidade: o portal da web mais conhecido sobre o

assunto, www.textovivo.com.br, traz a indicação de 36 livros teóricos sobre o

jornalismo literário, mas apenas dois deles estão disponíveis em português e versam

diretamente sobre o ato criador do livro-reportagem: O que é livro-reportagem, que

teve sua 2ª edição lançada em 1998 pela Editora Brasiliense; e Páginas Ampliadas:

O livro-reportagem como extensão do jornalismo e da literatura, lançado por duas

vezes pela Editora da Unicamp e uma pela Editora Manole, em 2004. Mais

recentemente temos a obra Livro-reportagem, de Eduardo Belo, lançado pela

Editora Contexto em agosto do corrente ano.

2 Os números e informações citadas no texto foram extraídas dos site www.expocom.s2w.com.br em 26/09/06 e por meio de contato via e-mail com a organização do evento.

10

Tal panorama de desigualdade é ainda sublinhado pelo pesquisador

e também profissional da área da comunicação, Edvaldo Pereira Lima:

A literatura acadêmica especializada é pobre em referências ao livro- reportagem. Não apenas a produção brasileira é quase inexistente como também os estudos elaborados em universidades norte-

americanas [

há carência de trabalhos que formem um patamar

conceitual básico, sobre o qual se poderá avançar para questões

específicas, particulares, desse universo. (LIMA, 2004, p.4)

]

Em face dessa escassez de referências teóricas, e interessados que

somos pelos processos de confecção do livro-reportagem, tomamos estes como

objeto de estudo de nossa pesquisa, com o objetivo de verificar como se dão, na

prática, as etapas necessárias para a produção de uma obra de não-ficção.

O título que nos serviu de referência teórica foi justamente o trabalho

de Edvaldo Pereira Lima: Páginas Ampliadas: O livro-reportagem como extensão do

jornalismo e da literatura, produto de sua tese de doutoramento pela Universidade

de São Paulo, defendida em 1990 e atualizada em 2004 para a publicação de sua 3ª

edição em livro.

Nela, Lima realiza uma análise extensiva do panorama no qual o

livro-reportagem está inserido, propondo várias classificações e procedimentos a

serem adotados para a confecção de uma obra de não-ficção. Segundo ele, o livro-

reportagem poderia ser encarado como um "subsistema do sistema jornalismo"

(LIMA, 2004 p. 8), levando-se em consideração o fato de que a função que o livro-

reportagem exerce - o de prestar informação ampliada sobre fatos, situações e

idéias de relevância social – procede, essencialmente, do jornalismo em sua

globalidade e de que os recursos técnicos com que essa função é desempenhada

provêm do jornalismo. A esse respeito, o pesquisador afirma: “por conseguinte, a

11

realidade essencial do livro-reportagem é determinada a partir das características e

dos princípios que regem o jornalismo como um todo” (LIMA, 2004, p. 11).

Dos elementos que compõem o livro-reportagem como subsistema

do jornalismo, seu catalisador, como sugere Lima, ou disparador, é a grande-

reportagem, assim como no jornalismo cotidiano o catalisador é a notícia. São as

técnicas da reportagem de que se vale o livro de relato do real para se comunicar. É

visando uma narrativa ampliada que o jornalista se propõe a produzir um livro-

reportagem.

Porém, ele se diferencia das práticas jornalísticas – a exemplo, a

notícia puramente informativa e a reportagem – por ser um veículo de comunicação

impressa não-periódico que apresenta reportagens em grau de amplitude superior

ao tratamento costumeiro nos meios de comunicação jornalística, o que pode ser

entendido no sentido de maior ênfase de tratamento ao tema focalizado.

O livro-reportagem ainda se diferencia dos periódicos, pois, apesar

de se caracterizar pela universalidade – ao tratar de temas tão variados quanto nos

jornais e revistas – e pela difusão coletiva – pois circula publicamente para uma

audiência

heterogênea

e

dispersa

geograficamente

–,

o

livro-reportagem

não

apresenta

periodicidade,

bem

como

seu

conceito

de

atualidade

deve

ser

compreendido de forma mais elástica do que a que se aplica às publicações

periódicas.

Quando focalizada a categoria "livro", o livro-reportagem distinguir-

se-ia, segundo Lima, das demais publicações por três condições essenciais:

- Quanto ao conteúdo, pois o objeto de abordagem do qual trata

corresponde ao real, ao factual;

12

 

-

Quanto

ao

tratamento,

compreendendo-se

a

linguagem,

a

montagem

e

a

edição

do

texto,

que

se

apresentam,

no

livro-reportagem,

eminentemente

jornalísticos,

ou

seja,

obedecem,

em

linhas

gerais,

às

particularidades

específicas

à

linguagem

jornalística

com,

naturalmente,

maior

maleabilidade

de

tratamento.

Ainda

nesse

plano,

aparecem

as

qualidades

desejáveis de precisão, exatidão, clareza e concisão. Quanto ao trabalho de

montagem e edição, por sua vez, o livro-reportagem apresenta os mesmos recursos

utilizados para a grande reportagem nas publicações periódicas, aparecendo, muitas

vezes, o emprego de ilustrações, fotografias, mapas etc.

-

Quanto

à

função,

o

livro-reportagem

pode

servir

a

distintas

finalidades típicas do jornalismo, como o objetivo fundamental de informar, explicar e

orientar, podendo trabalhar sua narrativa de forma horizontal, com apreensão

quantitativa dos fatos, ou de forma vertical, que pressupõe um mergulho qualitativo

no objeto abordado. Normalmente, e na melhor das hipóteses, o livro-reportagem

apresenta-se com aprofundamento igualmente horizontal e vertical, isto é, extensivo

e intensivo, respectivamente.

Assim, segundo Lima, o livro-reportagem poderia ser definido como

] [

elementos do jornalismo, da literatura, da antropologia, da sociologia, da historia, da psicologia. Acima de tudo, porém, o bom livro- reportagem é simplesmente um excelente meio de narrar histórias e registrar a história desafiadora do nosso tempo (LIMA, 2004, p. XV).

um veículo multidiciplinar de comunicação capaz de integrar

Nessa

tentativa

de abalizar as

etapas de

produção de

livros-

reportagem, valemo-nos das técnicas de Entrevista em Profundidade, Pesquisa

Bibliográfica e Análise de Conteúdo, tendo como corpus da pesquisa as entrevistas

13

concedidas pelos autores Fernando Morais, Caco Barcellos, Mylton Severiano e

Edvaldo Pereira Lima, bem como algumas de suas respectivas obras.

Elegemos tais autores tomando-se como critério de seleção o

destaque e prestígio que possuem no mercado editorial e na mídia e a atualidade de

suas obras, mesmo sem a certeza de que o acesso a eles seria possível. Nesse

ponto, o interesse pelo veículo livro-reportagem e seus processos de metalinguagem

falou mais alto e nos empenhamos em viabilizar o projeto, mesmo tendo consciência

da dificuldade que poderíamos encontrar no momento de contatar os autores e os

deslocamentos que se fariam necessários no caso de respostas afirmativas.

Nos primeiros meses muitas foram as dificuldades e tentativas de

acesso a eles. A entrevista com Mylton Severiano foi a que encontramos maior

facilidade, já que, no mês de abril deste ano, o autor esteve em Londrina por ocasião

do lançamento de seu livro Paixão de João Antônio, quando deu-se a entrevista.

Com os outros autores, os primeiros contatos foram feitos via e-mail e telefone,

dados conseguidos por fontes conhecidas nossas.

Para dar conta de identificar, na experiência dos autores, as etapas

cumpridas

para

a

confecção

de

um

livro-reportagem

e

de apresentá-las

em

confronto com a teorização defendida por Lima, estruturamos este trabalho em 5

capítulos. Antes de entrarmos nos pontos de confrontação, apresentamos, no

capítulo 1, os momentos mais expressivos da trajetória pessoal e profissional de

cada autor estudado, além de fornecer dados relevantes sobre suas obras, com o

objetivo de compreender os processos de criação em sua globalidade.

No capítulo 2 buscamos, sempre com base na obra de Lima,

realizar os primeiros confrontos, bem como identificar as classificações nas quais os

diversos temas e estilos praticados poderiam ser inseridos.

14

Alicerçados nas entrevistas e pesquisa bibliográfica, apresentamos,

no capítulo 3, o diálogo entre o pensamento de Lima e a prática dos autores no que

diz respeito à definição da pauta. No capítulo 4 o foco é para o encontro entre teoria

e prática na etapa da captação de informações.

O diálogo ainda se mantém estabelecido no capítulo 5, no qual

confrontamos as propostas de Lima com a experiência dos autores no momento da

redação do livro-reportagem.

Entendemos que este trabalho tem o aspecto prático bastante

evidenciado e, devido a isso, procuramos, nos capítulos 4 e 5 citados acima, ir além

dos pontos de confronto e inserir, em sub-itens que chamamos Ampliando o Páginas

Ampliadas, elementos considerados pelos autores estudados como de relevante

importância para quem se propõe a trabalhar com a não-ficção atualmente, mas que

não haviam sido considerados por Lima em seu trabalho.

Com

os

conceitos

estabelecidos

sobre

o

livro-reportagem

entrelaçados aos confrontos entre a obra de Lima, o material de entrevistas e a

bibliografia estudada, tecemos nossas considerações sobre o corpus da pesquisa.

Consideramos

que

este

trabalho

não

esgotará

o

assunto

da

produção de livros-reportagem, já que, assim como salienta Lima (2004, p.51), o

gênero da reportagem em livro oferece muita liberdade ao autor - o que não impede

que alguns aspectos importantes se alterem no futuro breve -, mas pretende

contribuir com as pesquisas em comunicação, esclarecendo e ilustrando pontos

teóricos já trabalhados e inserindo novos elementos para a construção de um

alicerce básico a quem deseja se aventurar pelo mundo da não-ficção.

15

Metodologia

Pesquisa Bibliográfica

Assim como propõem vários teóricos da pesquisa científica, entre

eles Ida Regina Stumpf (2005, p.51), a pesquisa bibliográfica é o planejamento

global inicial de qualquer trabalho de pesquisa, que compreende a identificação,

localização e obtenção de bibliografia pertinente ao assunto. A revisão da literatura,

segundo Stumpf, é uma atividade contínua em todo trabalho de pesquisa, desde a

formulação do problema até a análise dos resultados.

Para se empregar esta metodologia, foi necessário, assim como

sugeriu a pesquisadora, realizar a busca do material, organizar dados coletados

para,

somente

depois

de

tais

procedimentos,

confrontá-los

com

o

problema

identificado. Inicialmente, no presente trabalho foi determinado o seguinte corpus:

Paixão de João Antonio, de Mylton Severiano, publicado em 2006 pela editora Casa

Amarela; Carmen: uma biografia, de Ruy Castro, publicado em 2005 pela editora

Companhia das Letras; Cela Forte Mulher, de Antonio Carlos Prado, publicado em

2003 pela Labortexto; Abusado – O dono do morro dona Marta, publicado em 2003

pela editora Record, e Rota 66 – A história da polícia que mata, publicado em 2004

pela Editora Record, ambos do autor Caco Barcellos, e Corações Sujos, de

Fernando Moraes, publicado em 2000 pela Companhia das Letras.

Porém,

no

decorrer

das

entrevistas

e

a

partir

dos

primeiros

confrontos, identificamos a necessidade de se incluir os demais títulos publicados

por alguns dos autores e excluir outros. Além de Abusado e Rota 66, de Caco

Barcellos, também foi incluído no trabalho o livro Nicarágua: A revolução das

16

crianças; após a entrevista com Fernando Morais, além de Corações Sujos foram

incluídos Cem quilos de Ouro, Chatô – O rei do Brasil e A Ilha; outro livro que

passou a fazer parte do trabalho foi Ayrton Senna: guerreiro de Aquário, de Edvaldo

Pereira Lima, após identificação da necessidade de se incluir a presença deste

autor, por meio de entrevista, para aprofundamento da análise; a apreciação do

material de Mylton Severiano manteve-se centrada em Paixão de João Antonio. Os

livros Carmem: uma biografia, de Ruy Castro, e Cela Forte Mulher, de Antônio

Carlos Prado foram excluídos da análise.

As entrevistas

“Entrevista é uma das mais comuns e poderosas maneiras que

utilizamos para tentar compreender nossa condição humana”, dizem Fontana & Frey

(apud DUARTE in LOPES, 2001. p. 62). Ela tornou-se técnica clássica de obtenção

de informações nas ciências sociais, com adoção em áreas como sociologia,

antropologia, administração, educação e psicologia, além de ser ferramenta básica

para o trabalho de jornalistas.

Como procuramos entender os processos de produção do livro-

reportagem

de

forma

qualitativa

e

intentamos

promover

o

diálogo

entre

os

depoimentos colhidos e a bibliografia teórica sobre o assunto, neste trabalho,

adotamos a técnica da Entrevista em Profundidade, que, segundo Duarte, pode ser

definida como: “uma técnica qualitativa que explora um assunto a partir da busca de

informações, percepções e experiências de informantes [

]

que procura intensidade

nas respostas, não quantificação ou representação esquemática” (DUARTE, 2001,

17

E ainda:

A entrevista em profundidade é uma técnica dinâmica e flexível, útil para apreensão de uma realidade tanto para tratar questões relacionadas ao íntimo do entrevistado, como para descrição de processos nos quais está ou esteve envolvido. É uma pseudo conversa realizada a partir de um quadro conceitual previamente caracterizado, que guarda similaridade, mas também diferenças, com

a entrevista em profundidade é

a entrevista jornalística [

extremamente útil para estudos do tipo exploratório, que tratam de conceitos, percepções ou visões para ampliar conceitos sobre a situação analisada. (DUARTE, 2001, p. 64)

]

Dentre os vários tipos de entrevista em Profundidade, optamos por

utilizar a Semi-Aberta, modelo que mais se mostrou oportuno para a conquista do

objetivo pretendido, justamente por assegurar a liberdade do entrevistador na

condução dos trabalhos. Assim como diz Triviños, a entrevista semi-aberta

] [

hipóteses que interessam à pesquisa, e que, em seguida, oferecem

amplo campo de interrogativas, fruto de novas hipóteses que vão surgindo à medida que se recebem as respostas do informante. (TRIVIÑOS apud DUARTE, 2001, p. 66)

parte de certos questionamentos básicos, apoiados em teorias e

Desde a definição do projeto (junho 2006), buscávamos formas de

contato com os autores selecionados. O primeiro resultado positivo foi com Mylton

Severiano, que esteve na cidade de Londrina por ocasião do lançamento de seu

livro Paixão de João Antônio. Um contato prévio foi feito por telefone para acertos de

data e local da entrevista. Entretanto, apesar desta primeira vitória, o contato com os

outros autores deu-se por caminhos mais complicados, desde a dificuldade em

conseguir

os

contatos,

demora

ou

ausência

de

respostas

aos

e-mails,

deslocamentos de cidade, até respostas negativas 3 .

3 Ruy Castro, durante contato telefônico, negou-se a colaborar com o projeto por não se considerar um autor de livro-reportagem. Em suas palavras: “Eu não escrevo livros-reportagem, eu escrevo biografias, o que demanda anos de trabalho. Considero que os autores de livro-reportagem são oportunistas, porque acontece um fato qualquer eles já vão escrever um livro pra ganhar dinheiro em cima. Eu não quero ser incluído em trabalhos que falem de livro-reportagem.” Já Antônio Carlos

18

Desde a primeira entrevista, possuíamos um questionário-guia de

perguntas, porém, a cada novo contato, o roteiro de perguntas era reformulado tanto

para atender às informações pessoais que buscávamos de cada autor, quanto para

reescrever as perguntas do questionário-guia de maneira mais clara e direta. Todas

as entrevistas foram gravadas em cassete e depois digitalizadas e arquivadas em

CD (Compact-disk – ANEXO E).

Como alguns detalhes de procedimento desta etapa de trabalho não

estavam

suficientemente

abarcados

pela

metodologia

da

Entrevista

em

Profundidade, utilizamos determinados aspectos da técnica metodológica da História

Oral. Muitos pesquisadores da história oral, cujo instrumento base de captação de

informações é a entrevista e, portanto, fazem dela mesma um objeto de estudo em

todas as suas nuanças -, preferem fazer inicialmente um primeiro encontro para,

somente após uma conversa prévia, gravar a conversa. Já Thompson aconselha o

registro tão logo seja possível: “Segundo minha própria experiência, o melhor é pôr o

gravador a funcionar logo que você possa, assim que comece a falar” (THOMPSON

apud BESPALHOK, 2006, p. 24). Porém, em nossa experiência, tivemos problemas

com o registro da entrevista em duas ocasiões, justamente por não seguir os

conselhos de Thompson: no encontro com Fernando Morais, alguns detalhes,

posteriormente considerados importantes, foram perdidos, já que em todas as

ocasiões em que o entrevistado interrompia a conversa para atender ao telefone ou

a pessoas que vinham ao seu escritório, o gravador era desligado. Também, ao final

da entrevista, a fita acabou e não trocamos o material por já termos contemplado

todas as perguntas, pensamento que resultou-se equivocado. O mesmo problema

19

de interrupção do registro por término da fita ocorreu na entrevista com Caco

Barcellos. Diante desses fatos, passamos, no quarto encontro, a manter o gravador

ligado durante todo o procedimento.

As entrevistas foram realizadas pessoalmente 4 , em locais escolhidos

pelos próprios entrevistados. Mylton Severiano nos recebeu no Hotel Bourbon, onde

esteve hospedado durante sua estadia em Londrina. Fernando Morais nos recebeu

em sua casa de praia na cidade de São Sebastião, no litoral norte de São Paulo. O

encontro com Caco Barcellos ocorreu nos estúdios da Rede Globo em São Paulo.

Edvaldo Pereira Lima nos recebeu em um restaurante do Conjunto Nacional, na

avenida Paulista, também em São Paulo.

Depois

das

entrevistas

gravadas,

procedemos

à

etapa

da

transcrição do material, que foi feito segundo sugere Portelli, citado pela professora

e pesquisadora Flávia Bespalhok em sua dissertação de mestrado:

estima-se que para cada hora de gravação gastem-se pelo

menos seis horas para a transcrição – e, como afirma Portelli (1997, p. 27), apresenta o complicador de transformar “objetos auditivos em visuais, o que inevitavelmente implica mudanças e interpretação”. Quando passadas para o papel, que é estático, a palavra falada pode ser alterada porque perde a gestualidade, a expressão facial e o tom, ritmo e timbre originais da voz. Para se evitar deformações, o autor alerta para o uso adequado da pontuação, não seguindo as regras gramaticais, mas buscando o sentido do que foi dito, procurando indicar as pausas e apontando alterações de ritmo ou timbre, risos e gestos significantes. (BESPALHOK, 2006, p. 26)

] [

As mais de cinco horas de gravação foram transformadas em

páginas impressas, material anexado ao final deste trabalho.

Análise de Conteúdo

4 Embora tivéssemos a possibilidade técnica de realizar as entrevistas por telefone, fizemos questão de viajar aos locais das entrevistas e realizá-las pessoalmente.

20

Além da Pesquisa Bibliográfica e da Entrevista em Profundidade,

valemo-nos também do método da Análise de Conteúdo que, segundo Michelat

(apud DUARTE, 2005, p. 285), é a metodologia considerada mais pertinente como

técnica acessória na pesquisa por meio de entrevistas.

Apesar de sua herança positivista – que valoriza as ciências exatas

como paradigma de cientificidade -, as novas tendências da análise de conteúdo

introduziram a noção de inferência (dedução de maneira lógica) e a conceituaram

como sendo uma operação destinada a extrair conhecimentos sobre os aspectos

latentes da mensagem analisada. Tais inserções possibilitaram que os estudos

atuais a considerassem “uma técnica híbrida por fazer ponte entre o formalismo

estilístico e a análise qualitativa de materiais” (FONSECA JUNIOR, 2005, p. 284-

285). Em nosso trabalho, optamos por valorizar o aspecto qualitativo da análise.

Nesta etapa, considerando o objetivo geral do trabalho - analisar

como as categorias teóricas do livro-reportagem aparecem e são desenvolvidas por

autores da modalidade - e tendo como referencial teórico a obra de Edvaldo Pereira

Lima, buscamos realizar um diálogo entre o livro Páginas Ampliadas, a experiência

de cada autor e suas respectivas obras.

O

confronto

inicial

centrou-se

nos

conceitos,

funções

e

classificações do livro-reportagem propostos por Lima. Em seguida, realizamos um

mergulho

de

fôlego

nos

“procedimentos

de

extensão”

indicados

em

Páginas

Ampliadas – a saber: "A extensão pela pauta", “A complementação pela captação” e

“A fruição do texto” - e a experiência pessoal de cada autor nas etapas de trabalho

relativas às fases proposta por Lima.

Neste mergulho, o leitor encontrará um certo excesso de citações

referentes tanto às entrevistas realizadas quanto aos livros analisados. Porém, o

21

procedimento se justifica pela necessidade de fundamentação do nosso objetivo,

que entendemos não ser possível realizar, senão desta maneira.

Antes, porém, de apresentarmos o entrelaçamento de todas essas

informações,

no

próximo

capítulo

vamos

destacar

alguns

aspectos

da

vida

profissional e pessoal dos autores estudados para, extraindo o contexto no qual as

respectivas obras foram escritas, tentarmos compreender os processos de criação

em sua globalidade.

22

CAPÍTULO1: UMA BREVE BIOGRAFIA

Não é objetivo deste trabalho contar em detalhes a história de vida

de cada autor e os processos pelos quais seus diversos livros foram escritos.

Entretanto, fez-se necessário pontuar os momentos mais expressivos da trajetória

pessoal e profissional de cada um deles e fornecer dados relevantes sobre suas

obras, com ênfase para aquelas que integram o corpus de nossa pesquisa. O ponto

de chegada, neste capítulo, é a atuação dos profissionais nos dias de hoje, seja no

campo da literatura ou no trabalho que desenvolvem em redações de jornais e

outros meios de comunicação.

1.1 Mylton Severiano: “A escola de jornalismo pra mim é: tanto faz” 5

Mylton Severiano da Silva nasceu no dia 10 de setembro de 1940 na

cidade de Marília, interior de São Paulo. Aos dez anos publicou o primeiro texto em

jornal escolar. Em 1960 mudou-se para São Paulo para estudar Direito no Largo São

Francisco e, como precisava trabalhar para se sustentar, conseguiu, por meio do

também jornalista e amigo, Woile Guimarães, um emprego de revisor no jornal Folha

de São Paulo. Três meses depois passou ao cargo de redator do então caderno de

Interior e Estados. Em 1963, além da Folha de São Paulo, também trabalhou um

período no jornal A Nação. Em 1964 recebeu um convite de Paulo Patarra e Mino

Carta para integrar o expediente da revista Quatro Rodas como redator, situação

que o fez optar entre a Faculdade de Direito e o jornalismo. Escolheu o jornalismo.

5 Os títulos que acompanham cada biografia foram extraídos das entrevistas concedidas pelos autores, cujas transcrições encontram-se anexadas a este trabalho, e representam, de acordo com nossa percepção, um traço da personalidade de cada um deles.

23

Em 1965 entrou para o grupo do O Estado de São Paulo, onde foi

redator e copy, além de levar em paralelo o trabalho na revista Quatro Rodas, que

deixou somente um ano depois para fazer parte do Jornal da Tarde.

Em setembro de 1966 passou a integrar o corpo de jornalistas da

Revista Realidade como editor de texto. Depois da derrocada da publicação, em

1968,

ajudou

a

fundar

uma

cooperativa

de

jornalistas

que

lançaria

jornais

alternativos históricos, entre eles Bondinho e ex-. Após relativo sucesso, as revistas

acabaram e a cooperativa, já reformulada, tentou lançar a revista Mais Um,

empreendimento que foi tolhido desde o início pelos censores da ditadura militar.

Em 1975 integrou a equipe do jornal Panorama, na cidade de

Londrina, iniciativa que, por motivos políticos, durou somente um mês – a revista

denunciou em manchete que indústrias fortes da cidade estavam poluindo o lago

Igapó, o que provocou a ira de certos empresários.

Em 1977 e 1978 fez parte do expediente de outras duas revistas que

também tiveram vida curta: Extra-Realidade Brasileira e Repórter 3. Também em

1977 lançou seu primeiro livro: Se liga!, que trata de vários tipos de drogas, como

álcool, tabaco, tranqüilizantes, maconha, cocaína e LSD. Escrito por quem havia

experimentado várias dessas substâncias, o livro não condena nem endeusa tais

produtos,

mas

busca

identificar

seus

vários

conceitos,

sejam

eles

culturais,

históricos, sociais ou antropológicos; os efeitos e contra-indicações e a questão da

legalização.

Entre 1980 e 1981 editou, por cerca de um ano, a revista Doçura,

distribuída na rede de supermercados Pão de Açúcar. Em 1984 trabalhou para a

revista Brasil Extra que, apesar do sucesso de vendas, durou somente um número.

24

Além das inúmeras contribuições para a imprensa escrita, Mylton

Severiano também já trabalhou para a televisão, primeiramente como editor do

jornal Hora da Notícia da TV Cultura de São Paulo entre 1973 e 1975, depois na TV

Bandeirantes e TV Globo, onde foi editor do Jornal Nacional em 1979 e editor-chefe

do Esporte Espetacular e Globo Esporte entre 1983 e 1984. Ainda fez na TV Abril o

programa dominical Olho Mágico, em 1985.

Em 2006, Mylton Severiano publicou o livro Paixão de João Antônio,

baseado na experiência e convivência que o autor teve com o jornalista, além de

entrevistas com parentes e ex-mulheres do escritor, pesquisas em jornais e nas 223

cartas que restaram das 500 que João Antônio lhe enviou entre 1965 e poucos dias

antes de falecer, em 1996.

Fomos apresentados em 1966, na redação inaugural da revista Realidade. Nono andar da Rua João Adolfo, 118, prédio que a Editora Abril ocupava, no Anhangabaú. Sérgio de Souza, editor de texto e futuro editor de Caros Amigos, me pergunta certa manhã:

“Você já ouviu falar do João Antônio?” Sim. Malagueta me havia maravilhado [ ] Sem que nada combinássemos, fomos vizinhos na paulistana Boca do Lixo: ele e Marília, instalados na Rua Vitória; eu e minha primeira mulher, Eugênia, na esquina de Santa Efigênia com Gusmões, a uma centena de metros. [ ] Com João Antônio, a amizade se faria com vagar. Parecia um bicho escabreado. [ ] Começaram as trocas. Ele a me ensinar Nelson Cavaquinho, eu a mostrar-lhe Mozart. Afinidades, o gosto pela palavra. Lembranças da infância – eu achava que a escola do centro de Marília se chamava Bom Dosco, não Dom Bosco; ele lia nos livros mononstro, e se decepcionou ao descobrir que o correto era monstro. “Mononstro eu achava muito mais monstruoso – Mo-nons-tro!”

em 11 de outubro de 1996, enviou-me carta escrita em manhã

] [

ensolarada, ao som da Flauta Mágica de Mozart e de Peer Gynt de Grieg. Pôs no correio, comprou carne. Voltou ao “fajuto, falso mirante de Copacabana”, deixou a carne sobre a pia. Sentiu-se mal. Vinha reclamando fazia anos de problemas circulatórios, nefrite. Deitou de costas na cama, de bermudas e chinelos, um pé apoiado no chão. Assim o encontraram, pele e osso, três semanas depois. (SEVERIANO, 2006, p. 57, 82 e 92)

25

O autor também já trabalhou como assessor de imprensa de vários

políticos e partidos do país e editou a revista Almanaque Brasil de Cultura Popular,

distribuída à bordo em vôos da TAM. Atualmente Mylton Severiano assina a coluna

Enfermaria na revista Caros Amigos.

1.2 Fernando Morais: “Livro-reportagem é a única coisa que eu sei fazer”

Fernando Gomes de Morais nasceu em 1946 na cidade de Mariana

(MG), onde viveu até os 18 anos, antes de ir para São Paulo. Começou a trajetória

de repórter na redação de uma pequena revista de um banco em Belo Horizonte,

onde trabalhava primeiramente como office-boy: com a ausência do único jornalista

da revista, foi consultado se poderia participar de uma coletiva, aceitou o convite e

transformou-se em jornalista. Um ano depois, já profissionalmente, foi redator de um

house-organ local. Em 1965 mudou-se para São Paulo, quando começou a trabalhar

no jornal A Gazeta. Um ano depois, incorporou-se ao recém-fundado Jornal da

Tarde, onde passou oito anos, sucessivamente como repórter, redator, sub-editor e

repórter especial. Simultaneamente ao trabalho no Jornal da Tarde, Fernando

Morais foi redator da Folha de São Paulo, do Suplemento feminino do Jornal O

Estado de São Paulo e chefe de reportagem do Departamento de Telejornalismo da

TV Cultura de São Paulo.

Morais também foi um dos editores da revista Bondinho - publicação

da cadeia de supermercados Pão de Açúcar - e colaborador do semanário Opinião e

da revista Status. Em 1970, juntamente com o repórter Ricardo Gontijo, recebeu o

Prêmio Esso de Reportagem pela série Transamazônica, publicada no Jornal da

Tarde e posteriormente editada em livro pela Editora Brasiliense. Em 1974 deixou o

Jornal da Tarde, transferindo-se para a revista Visão, de onde saiu para juntar-se à

26

equipe que fundaria o semanário Aqui São Paulo. (MORAIS, 1976, p. XV). Ainda na

década de 70, Morais deixou a rotina das redações e, desde então, prefere atuar

como free-lancer e dedicar-se aos livros.

Em 1976, em meio a um dos períodos mais duros da ditadura militar

- datam do final de 1975 e início de 1976 os dois últimos assassinatos sob tortura, os

do jornalista Vladimir Herzog e do operário Manuel Fiel Filho -, Fernando Morais

lança seu segundo livro: A Ilha. Nele, o autor, após três meses vivendo em Cuba,

traça

um

perfil

positivo

do

país

comunista,

ao

tratar

aspectos

como

saúde,

economia, cotidiano, imprensa, reforma agrária etc. Em 2001, 25 anos após o autor

ter visitado Cuba pela primeira vez, a editoria Companhia das Letras relançou A Ilha,

com a inserção de um novo comentário do autor sobre a realidade do país nos idos

do século XXI.

Em 1985, Fernando Morais lança Olga, que narra a tragédia dessa

judia alemã, membro do serviço secreto militar soviético e esposa do líder comunista

Luís Carlos Prestes. O livro virou filme em 2004 sob a direção de Jayme Monjardim.

Depois do lançamento do livro, Fernando Morais deu um tempo na

literatura para dedicar-se unicamente à política: foi deputado estadual durante oito

anos – pelo MDB - SP e depois pelo PMDB - SP, entre 1978 e 1986, enquanto ainda

produzia Olga – e secretário da Cultura (1988-91) e da Educação (1991-93) do

Estado de São Paulo.

Voltou para a literatura em 1994 para escrever Chatô- o Rei do

Brasil, livro que trata da

história de um dos brasileiros mais poderosos e controvertidos

desse século. Dono de um império de quase cem jornais, revistas, estações de rádio e de televisão – os Diários Associados-, e fundador do MASP, Assis Chateaubriand teve trajetória associada de

] [

27

modo indissolúvel à vida cultural e política do país entre as décadas de 1910 e 1960 (MORAIS, 1994, contra-capa)

Em 2001, é lançado, pela Companhia das Letras, Corações Sujos,

uma obra de investigação sobre a Shindo-Renmei, sociedade secreta formada por

imigrantes japoneses que resistiam à rendição do Japão na Segunda Guerra

Mundial. O livro rendeu ao autor o prêmio Jabuti de jornalismo no mesmo ano.

Em 2003 o autor lançou Cem quilos de Ouro, uma coletânea de 12

reportagens assinadas por ele entre as décadas de 70 e 90. O livro foi concebido

originalmente para ser lançado na coleção Jornalismo Literário, da Companhia das

Letras, mas, como o próprio Morais explica, o trabalho se desenvolveu para outra

vertente.

No decorrer da leitura, acabei me convencendo de que um livro que

resultasse da seleção não se encaixaria na série Jornalismo Literário, por mais diversas que sejam as definições do conceito. Havia ali reportagens escritas dentro de um estilo que se poderia chamar de “jornalismo literário”, sim, mas também perfis que estavam muito distantes desse gênero, entrevistas do tipo pingue-pongue e até

trabalhos [

(MORAIS, 2003, p. 9 -10)

em que o autor nem sequer aparecia no texto.

]

Cada capítulo do livro é ainda precedido de um breve texto que

revela como as histórias foram feitas e com o qual o autor deseja responder às

principais questões levantadas por jovens jornalistas e estudantes de comunicação:

Como tal reportagem foi feita? Foi pauta sua ou do jornal? Em que circunstâncias o trabalho se desenvolveu? Quanto tempo você levou para conseguir essa ou aquela entrevista? Que dificuldades enfrentou? Que dilemas éticos? Havia censura? Como era o Brasil daquela época?(MORAIS, 2003, p. 10)

Ainda em 2003, Fernando Morais disputou e perdeu uma vaga na

Academia Brasileira de Letras para o ex-vice-presidente, Antônio Marco Maciel.

28

Em 2005, Fernando Morais lançou Na Toca dos Leões, pela Editora

Planeta. O livro, que conta a história da agência de publicidade W/Brasil e de seus

três sócios, gerou polêmica e teve de ser recolhido em todo o país por ordem de um

juiz

de

Goiânia

por

conter

informações

sobre

o

deputado

Ronaldo

Caiado

consideradas pelo político como sendo difamatórias a ele. Fernando Morais recebeu

três vezes o Prêmio Esso, quatro vezes o Prêmio Abril de Jornalismo e uma vez o

prêmio

Jabuti

de

jornalismo.

É

também

autor

dos

roteiros

das

minisséries

documentais Brasil, 500 anos e Cinco dias que abalaram o Brasil, exibidos pelo

canal GNT/ Globosat. Tem livros traduzidos em dezoito países. (MORAIS, 2001, p.

349)

Atualmente,

Fernando

Morais

dedica-se

ao

seu

mais

recente

trabalho: a biografia do também escritor Paulo Coelho. O livro ainda não possui data

para ser lançado.

1.3 Edvaldo Pereira Lima: "Nenhum assunto, nenhuma pauta é superior ao

valor da vida humana"

Edvaldo Pereira Lima nasceu na cidade de Colúmbia, interior do

Paraná, em 1951. Já residiu em Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia, Costa Rica e

Estados Unidos. Está radicado em São Paulo desde 1971. Graduou-se em Turismo

pela Universidade Anhembi Morumbi em 1975 e em Jornalismo pela Universidade

Metodista de São Paulo em 1985. Possui mestrado e doutorado em Ciências da

Comunicação pela Universidade de São Paulo (1982 e 1990) e pós-doutorado pela

University of Toronto (2001).

29

Lima é o criador do Jornalismo Literário Avançado 6 , “um estilo de

reportagem de profundidade que alia técnicas narrativas da literatura a uma visão

dinâmica, interdisciplinar e integral da realidade” (LIMA, 1995, p. 170).

Em 1989 escreveu seu primeiro livro: Colômbia Espelho América,

publicado pelas editoras Perspectiva e Edusp; em 1991 é lançado El Periodismo

Impresso y la Teoria General de los Sistemas: Um Modelo Didáctico, publicado na

Cidade do México pela Editora Trillas; em 1993 lança Páginas Ampliadas: O Livro-

reportagem como extensão do Jornalismo e da Literatura, pela Editora da Unicamp,

fruto de sua tese de doutoramento e base teórica deste trabalho. Também em 1993

é

publicado

O

que

é

livro-reportagem,

pela

Editora

Brasiliense.

É

também

idealizador e organizador de dois livros-reportagem produzidos em equipe: O Tao

entre nós, publicado em 1994 pela Com-Arte, editora laboratório da Escola de

Comunicação e Arte da USP e Retratos da baía, também de 1994, editado no Rio de

Janeiro pela Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do

Rio de Janeiro (Faperj). Em 1995 lançou Ayrton Senna - Guerreiro de Aquário. Em

1996 lançou Econautas: Ecologia e Jornalismo Literário Avançado, pelas editoras

Peirópolis e Ulbra, uma série de reportagens experimentais produzidas por alunos

de pós-graduação das quais Lima foi organizador. Finalmente, em 2004, Edvaldo

6 O Jornalismo Literário Avançado é um estilo de trabalho criado por Edvaldo Pereira Lima que traz para dentro do Jornalismo Literário alguns elementos das ciências de ponta do século XXI, como a física quântica, a psicologia humanista, as neurociências, a biologia e a nova história francesa. Para traduzir e integrar tais conhecimentos ao campo da comunicação, Lima desenvolveu um método de trabalho que ele chamou de Escrita Total. A forma narrativa da Escrita Total é similar à utilizada pelo jornalismo literário, porém, a visão de mundo é expandida, os propósitos são ampliados e algumas técnicas são inseridas, como a visualização criativa, o método narrativo da jornada do herói e o mapa mental, este último explicado no capítulo 4 deste trabalho. Todos esses recursos foram empregados pelo pesquisador em Ayrton Senna – Guerreiro de Aquário, obra em que tanto a narrativa como o propósito diferenciam-se muito do que até então podia ser encontrado no mercado editorial de livros-reportagem no Brasil. O JLA, segundo Lima, foi criado com o objetivo enriquecer a visão de mundo dos autores, possibilitando a criação de obras que ajudem o leitor a transformar sua compreensão da realidade e cujos textos "sejam instrumentos de auxílio à construção de um mundo realmente melhor" (LIMA, 2006).

30

Pereira Lima republicou Páginas Ampliadas: O livro-reportagem como extensão do

Jornalismo e da Literatura, pela Editora Manole.

Já publicou cerca de 70 textos em jornais e revistas, mais de 40

artigos e reportagens, além de ter sido orientador e ter participado de bancas de

graduação, mestrado e doutorado, palestras, congressos e eventos culturais no

Brasil e no exterior. Atualmente é professor da Escola de Comunicação e Arte da

USP, coordenador do site www.textovivo.com.br e coordenador e responsável

pedagógico do curso de pós-graduação em Jornalismo Literário, criado e mantido

pelo Grupo Texto Vivo em parceria com a Associação Brasileira de Jornalismo

Literário (ABJL). Além disso, Edvaldo Pereira Lima cobre o setor de aviação de toda

a América Latina para uma revista americana especializada no assunto.

1.4 Caco Barcellos: “A maneira mais bela de se contar uma história é a da

reportagem”

Cláudio Barcelos de Barcelos, mais conhecido como Caco Barcellos,

nasceu na periferia de Porto Alegre em 1950. Desde pequeno, sofreu diretamente

com desigualdades sociais, o que mais tarde viria a determinar o seu estilo e opção

de trabalho como repórter investigativo. Fez bicos em trabalhos informais desde a

infância, como, por exemplo, vendedor de sucata. Aos 18 anos, enquanto cursava a

faculdade de Matemática, trabalhou como motorista de táxi. Durante o curso de

exatas teve seu primeiro contato com o jornalismo, ao ser convidado para fazer o

jornal do Centro Acadêmico na Universidade.

Largou o curso de Matemática para

estudar jornalismo na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e

começou sua carreira na Folha da Manhã, em Porto Alegre. Era o final do ano de

1973.

31

Chegou minha vez de correr desta maldita Radiopatrulha. Sou um menino tímido, bem-comportado, nada fiz de errado, mas sei que

devo fugir [

Depois que anoitece, eu

costumo ficar atento a qualquer movimento lá embaixo. Não que seja necessário. Nossa rua é uma aliada que sempre anuncia o perigo. Sem iluminação pública, cheia de buracos na pista de chão batido, provoca a maior barulheira na lataria da velha RP. Pode ser seguro, mas eu tenho medo, não consigo ficar desatento. Geralmente sou o primeiro a avisar o pessoal. - Lá vem a Bate-lata! Corro descalço pela rua de terra, rente às cercas de madeira [ ] Assistimos quietos por muito tempo a covardia habitual do delegado. Estamos de pé, encostados na parede. Quando ele começou a puxar os cabelos do amigo preso, criamos coragem e resolvemos interferir.

prevenir. Fomos pegos de surpresa. [

já completei 12 anos, tenho que começar a me

]

]

Já havíamos combinado, em um cochicho, que Manoel falaria primeiro [ ]

Resolvo interferir. Manoel Luis não suporta sofrer injustiça. Sei que está a ponto de responder aquilo que o delegado merece ouvir. Conheço seu temperamento. Além de grandes amigos, somos sócios na venda de osso e vidro quebrado. Fazemos a coleta em carrinho de mão pelas ruas da vila. Depois vendemos ao caminhão do ferro-

velho [

Desde 1967, os homens da Polícia Civil desapareceram das ruas do nosso bairro. A tarefa do patrulhamento se tornou exclusiva dos policiais militares. Na prática, o novo esquema só começou a funcionar no começo dos anos 70. Os suspeitos, antes perseguidos de forma injusta, agora muitas vezes eram mortos sem chance ou direito de defesa. Não só no meu bairro pobre mas também na periferia de todas as grandes cidades do país. Porém, depois de 73, eu já não sofria como antes. Tornei- me testemunha dos sofrimentos dos outros. Já era repórter. (BARCELLOS, 2004, 25-31)

]

Durante a Ditadura Militar dedicou cinco anos – de 1975 a 1980 – à

produção independente, em veículos da imprensa alternativa, como a revista

Realidade, o jornal Movimento e o Coojornal, além de ter sido um dos criadores da

revista Versus, especializada em reportagens sobre povos latinos.

Foi com esse olhar que, em 1979, mesmo morando em Nova York -

onde desenvolvia trabalhos paralelos para sustentar a primeira mulher Avani Stein e

o filho Ian e, quando conseguia, fazia free-lancers para veículos brasileiros -, se

aventurou a escrever o primeiro livro: Nicarágua – A revolução das crianças, lançado

pela Editora Mercado Aberto em 1982.

32

Foi em Nova York, a mais de dois mil quilômetros da Nicarágua, que

fiz as primeiras entrevistas com pessoas envolvidas na guerra. Era a

No metrô de Nova York, a

caminho do trabalho num restaurante irlandês da Terceira Avenida,

eu pensava se o Ian, meu filho, também viajaria. Naquele dia,

derrubei pratos, quebrei copos, fui desatento. [

A idéia de viajar a Miami, pegar um avião e desembarcar na guerra,

junto com minha mulher e meu filho

a Avani me acompanhasse, tudo bem. Ela é fotógrafa, está

entusiasmada com a perspectiva. Mas o Ian só tem três anos! [ ] Tinha começado a trabalhar no Old Stand dia 27 de maio, quando os representantes sandinistas de Nova York anunciaram a “ofensiva final”. Uma coluna de trezentos guerrilheiros, vindos de Costa Rica, invadiu a Nicarágua no dia seguinte. Na segunda semana de trabalho, descobri um vôo especial para Miami a cinqüenta dólares.

No mesmo dia pedi

não podia ser assim. Que

madrugada de 17 de junho de 1979 [

]

]

Não,

Tinha economizado 1.200 dólares. Dava! [ demissão” (BARCELLOS, 1982, p. 36-37)

]

Depois de voltar ao Brasil, Caco Barcellos trabalhou ainda nas

revistas Veja e Isto É e apresentou, por seis anos, um programa semanal para a

Globo

News,

todo

produzido

nas

principalmente do Rio de Janeiro.

periferias

e

áreas

mais

pobres

do

país,

Em 1985 foi contratado pela Rede Globo como repórter para o

Jornal

Nacional,

Fantástico

e

Globo

Repórter.

cobriu

guerras,

catástrofes

naturais, guerrilhas e se dedicou a grandes reportagens investigativas, entre elas a

que deu origem ao seu segundo livro, Rota 66 – A história da polícia que mata,

resultado de sete anos de pesquisa sobre os abusos e crimes cometidos pela Polícia

Militar contra civis, durante o patrulhamento na cidade de São Paulo, no período de

1970 a 1992. O livro, que foi lançado pela primeira vez em 1992 pela Editora

Record, ganhou o prêmio Jabuti de Reportagem em 1993 e outros seis prêmios.

Em 1996 ganhou o Prêmio Vladimir Herzog por uma reportagem

feita para a televisão sobre os 20 anos do atentado militar, durante a ditadura,

deflagrado no Riocentro por ocasião das comemorações do Dia do Trabalho.

33

Em 2002 passou a ser correspondente da Rede Globo em Londres e

Paris, países onde ficaria por quatro anos.

Em 2003, Caco lançou seu terceiro livro: Abusado – O dono do

morro Dona Marta, um relato do tráfico nos morros cariocas. No livro, que lhe custou

quatro anos de pesquisas, Caco conta a história da terceira geração do Comando

Vermelho, que levou a organização a controlar o comércio ilegal de drogas nos

morros do Rio de Janeiro. Tendo como fio condutor a história de Márcio Amaro de

Oliveira, o Marcinho VP, tratado no livro como Juliano, Caco conduz o leitor pelas

vielas e becos da favela Dona Marta – escolhida por ele por ser uma favela vertical e

de enorme concentração populacional, entre outros motivos -, dando ênfase para as

condições físicas e sociais do local, o poder e meandros do tráfico de drogas e a

relação da polícia com os fatos ocorridos no morro. Abusado rendeu a Caco

Barcellos seu segundo Prêmio Jabuti na categoria não-ficção em 2004.

Atualmente o jornalista mora em São Paulo, comanda a série

Profissão Repórter, no Fantástico, e trabalha na produção de seu quarto livro.

Pudemos acompanhar, neste capítulo, os principais acontecimentos

da trajetória profissional dos autores aqui analisados e o contexto que deu origem a

cada obra, porém, não é somente por esse caminho que tentaremos compreender

as

etapas

de

produção

de

livros-reportagem.

Cada

autor

possui

métodos

e

procedimentos de trabalho próprios, e é na experiência pessoal, em confronto com

as sugestões do pesquisador Edvaldo Pereira Lima, que nos deteremos nos

próximos capítulos.

34

CAPÍTULO 2: PRIMEIROS CONFRONTOS

Já pudemos acompanhar, no capítulo anterior, alguns momentos

importantes

da

trajetória

profissional

dos

autores

Fernando

Morais,

Mylton

Severiano, Caco Barcellos e Edvaldo Pereira Lima, bem como identificar o contexto

no qual estão inseridas suas respectivas obras. Neste capítulo, nos ateremos ao

diálogo entre a obra de Edvaldo Pereira Lima, Páginas Ampliadas – O livro-

reportagem como extensão do jornalismo e da literatura, e a opinião dos autores

sobre os conceitos, funções e as motivações que os levaram a optar pelo livro-

reportagem,

além

das

possíveis

classificações

que

poderiam

ser

dadas

à

modalidade. No decorrer da análise, ainda serão inseridos trechos da entrevista

realizada com Lima, com o objetivo de acrescentar ou elucidar pontos relevantes.

2.1 Conceito, funções e motivações

Como já vimos, Lima, em sua tese de doutoramento, afirma ser

possível dizer que:

] [

dadas as suas especificidades relacionadas com a função aparente que exerce, com os elementos operativos de que se utiliza e com o modo como combina as regras que determinam as relações desses elementos. (LIMA, 2004, p.62) 7

o livro-reportagem é um dos gêneros da prática jornalística,

Tal afirmação encontra eco, principalmente, no pensamento de Caco

Barcellos, ainda que em menor escala de complexidade. Em entrevista a nós

concedida, Barcellos, ao descrever os processos pelos quais realiza seus trabalhos,

indica que as técnicas aplicadas para se fazer uma pequena reportagem são as

7 Não nos ateremos, neste capítulo, às definições de livro-reportagem propostas por Edvaldo Pereira Lima por entendermos que o assunto, se não esgotado, já foi suficientemente abordado na Introdução.

35

mesmas utilizadas quando o autor se propõe a escrever um livro, o que corrobora a

tese de Lima:

Os meus critérios são semelhantes aos de qualquer reportagem que eu faça. Ou uma reportagem de cinco minutos que eu tenho que fazer pra tv, ou um livro de 600 páginas, meus critérios são os mesmos, exatamente iguais. É claro que eu aviso pro telespectador que eu tive só cinco minutos pra aquela apuração, então deu tempo só pra meia entrevista. No caso do livro tem o componente de que eu já estou muito enfronhado na história, aí decidi que vou fazer o livro. Uma vez decidido, eu parto pra uma grande apuração, quero dizer, do tamanho que eu acho necessário pra eu poder ter um razoável entendimento daquela história. (BARCELLOS, 2006)

Fernando

Morais

também

liga

os

processos

utilizados

para

a

produção de um livro-reportagem aos por ele empregados nas redações dos jornais

em que trabalhou.

Eu não tenho muita metodologia não, porque a forma de trabalho varia de personagem pra personagem, às vezes não é nem uma

biografia, é história, como o Corações Sujos. Mas não tem muito

segredo [

é quase tudo vício de redação, tudo cacoete de

jornalista. (MORAIS, 2006 – grifo nosso)

]

Uma vez entendido o livro-reportagem como sendo um "subsitema

do sistema jornalismo", nos cabe perguntar em que contexto e por quais motivos

tantos jornalistas optam pela modalidade. A resposta pode ser encontrada ao se

realizar uma análise - mesmo que superficial – das práticas incorporadas nas

redações nas últimas décadas. A corrida cada vez mais sufocante conta o tempo, a

construção de mensagens pelo uso da fórmula mais rápida do texto pasteurizado

nos elementos o que, quem, quando, onde, como e porque e a recorrência apenas a

fontes consideradas legítimas (LIMA, 2004, p.66) são os fatores que, tanto Edvaldo

Pereira

Lima

quanto

os

outros

autores

estudados,

identificam

como

sendo

responsáveis pelo quadro reducionista em que a imprensa se encontra.

Segundo Lima:

36

] [

ocupando, preenchendo o vazio deixado pelas publicações periódicas. Trata-se da questão da superficialidade e do extremo oportunismo com que se apresenta o trabalho da imprensa cotidiana. Atrelada ao fato em ocorrência, a imprensa luta contra o relógio, briga com a concorrência, desse modo praticando em muitas ocasiões o exercício de uma informação pública imprecisa, incompleta. (LIMA, 2004, p. 31-32)

se pode compreender o espaço que o livro-reportagem acaba

Mylton Severiano, em explícito acordo com o pensamento de Lima,

aponta as preocupações financeiras das empresas jornalísticas – e as novas

práticas inseridas nas redações em decorrência deste fato - e o uso dos manuais de

redação, como sendo fatores de cerceamento da liberdade dos repórteres, que

poderiam desenvolver suas habilidades autorais se não fossem tais restrições.

Eu brinco que às vezes a mídia gorda se engana e publica uma boa reportagem. Parece que eles erraram. Ás vezes aparece uma reportagem legal, bem escrita, com preocupação de beleza, porque o texto não precisa ser ‘apenasmente’ bem informado. O repórter trouxe tudo, trouxe tudo da rua, mas aí ele é obrigado, por questões industriais ou porque tem o manual de redação que ele tem que obedecer, ele não pode fazer um texto autoral. Eu acho que são louváveis esses jornalistas que, por falta de veículo, põem a história deles num livro, eu acho maravilhoso isso. Imagina se ao invés de eles estarem escrevendo um livro a cada dois, três anos, cinco anos, se eles tivessem fazendo uma reportagem por mês ou a cada dois meses. (SEVERIANO, 2006)

Na esteira de tais afirmações, também encontra-se a opinião de

Fernando Morais, que salienta a falta de tempo como sendo um fator limitante à

capacidade literária dos jornalistas em trabalhos da grande imprensa.

Todo jornalismo deveria ser literário, mas não dá, tem hora pra

revistas você encontra

gente ali capaz de fazer livros de uma qualidade estética, de uma qualidade literária impecável e que não pode fazer isso no cotidiano do jornal, porque não dá tempo. A realidade comprova isso. Há um mercado interessante [de livros-reportagem], há uma demanda interessante por histórias do Brasil. Começou com a ditadura, com o fim da ditadura, que foi quando as pessoas começaram a poder se assanhar. Então se você olhar de lá pra cá o que saiu nessa área, é uma barbaridade e acho que isso se deve à carência de grandes reportagens na imprensa. O livro-reportagem supre hoje uma deficiência da imprensa. (MORAIS, 2006)

fechar, tem limitação de espaço físico

Nas

37

Assim, considerando os atuais padrões de rotina inseridos nas

redações com a nova formatação da imprensa como empresa capitalista, o livro-

reportagem surge com a função aparente 8 de informar e orientar o leitor em

profundidade sobre ocorrências sociais, fatos cotidianos, situações, idéias e figuras

humanas, de modo que ofereça ao leitor um quadro da atualidade, mostrando-lhe

um sentido, um significado para o mundo contemporâneo (LIMA, 2004, p.39). Na

entrevista referida acima, Lima confirma e complementa tal pensamento.

Qual é o primeiro objetivo do livro-reportagem? É ampliar um conhecimento e explorar informações que não estão esclarecidas, que às vezes o público até tem uma certa noção, mas ela não está

compreendida. Na medida em que o principal objetivo do livro- reportagem deve ser lançar luzes de compreensão sobre a realidade,

o livro-reportagem em princípio, não existe para simplesmente

denunciar, ou investigar, ou contar abobrinhas. Ele existe como esforço de compreensão de um certo tema.

Normalmente, o noticiário traça uma informação no seu nível, digamos, primário, factual do que houve, mas o que aconteceu, o que está nos bastidores, como o processo evoluiu, como são as

Isso tudo nem sempre no periódico

dá tempo pra colocar, então o livro-reportagem amplia o olhar sobre

a realidade, e traz esse subsídio contextual que os periódicos não têm. Então o leitor, ao investir seu dinheiro, pagar dez, vinte,

quarenta, sessenta reais, num livro-reportagem, terá em troca uma abordagem mais contextualizada de um tema já conhecido num certo nível, ou a abordagem inédita de um tema que nem foi considerado. (LIMA, 2006)

pessoas envolvidas na ação

reportagem,

A opinião

ao

contrário

de

Barcellos é similar à de Lima. Para

ele,

o

livro-

daquilo

que

as redações têm

praticado, mantém

a

reportagem viva, o que acaba por ser um fator de atração para os leitores:

[A importância do livro-reportagem] é que eles mantêm a reportagem viva, contra a vontade dos jornais, das revistas, que assassinaram a reportagem. As editoras hoje estão caçando autores de livro- reportagem, que vendem muito mais que os ficcionistas, e atribuo isso à necessidade que as pessoas têm de ler histórias com profundidade, com riqueza de detalhes, porque não há mais isso na grande imprensa. (BARCELLOS, 2006)

8 Lima utiliza-se do termo “aparente” pois não descarta as outras funções exercidas pelos livros- reportagem, como as funções ideológica, política, econômica, educativa e todas as demais (conf. LIMA, 2004, p. 40)

38

A vontade de manter a reportagem viva, o anseio de contar histórias

com profundidade e a possibilidade de utilizar todo o potencial que lhes é inerente.

Estes são alguns dos motivos apontados pelos autores para a escolha do caminho

do livro-reportagem. Para Lima, são exatamente as limitações ou inadequações do

jornalismo periódico os fatores que abrem espaço para o livro, no qual a primeira

marca é, muitas vezes, a liberdade do autor, o que permite ao jornalista fugir aos

ditames convencionais que restringem sua tarefa de construtor de mensagens na

imprensa cotidiana. (LIMA, 2004, p. 63)

É fácil compreender que o livro-reportagem, agora, como no passado, é muitas vezes fruto da inquietude do jornalista que tem algo a dizer, com profundidade, e não encontra espaço para fazê-lo no seu âmbito regular de trabalho, na imprensa cotidiana. Ou é fruto disso e (ou) de uma outra inquietude: a de procurar realizar um trabalho que lhe permita utilizar todo o seu potencial de construtor de narrativas da realidade. (LIMA, 2004, p. 33-34)

Ambas hipóteses apontadas por Lima estão em consonância com a experiência dos autores estudados. Para Barcellos, a motivação vem da necessidade de tratar de temas que, mesmo que as pessoas sejam capazes de emitir opinião sobre eles, ainda existem lacunas não abordadas pela mídia, o que acaba por deturpar a opinião do público. Na entrevista referida, Barcellos explica os motivos que o levaram a escrever cada um de seus livros 9 :

Na guerra da Nicarágua eu me envolvi lá com os guerrilheiros, fiquei um tempo mais preocupado em contar a história sobre a guerra [ ] Mas daí acabou a guerra, voltei pra onde eu morava, que era Nova York, passei pelo Brasil e me dei conta que eu tinha feito uma cobertura que a imprensa não tinha falado nada a respeito. A imprensa tinha feito uma cobertura centrada nas entrevistas coletivas no lado da ditadura e alguma coisa de orelhada da guerrilha, mas dificilmente com os guerrilheiros e menos ainda, muito menos ainda com o povo envolvido na guerra. Eu falei: “Olha, porque não escrever isso então se aqui no Brasil as pessoas só ficaram sabendo da guerra pela visão oficialista da ditadura, que perdia os combates progressivamente, a visão americana também e alguma coisa do que os combates revelavam, sobretudo a destruição?” Mas intimidade da guerra, pela visão dos vencedores, nada, praticamente nada, com

9 Este aspecto na obra de Caco Barcellos será abordado novamente mais adiante, no capítulo sobre definições de pauta.

39

algumas exceções. Daí eu achei, “bom, aí tem um livro, eu acho”. E eu fui pra contar essa história e fiz meu primeiro livro assim. Com o Rota foi uma coisa parecida: eu trabalhava muito na cobertura de assuntos relacionados à injustiça social e dava conta que a polícia matava todo dia e o noticiário não falava nada. Outro fator que me levou a escrever é que eu achava que a imprensa mentia todo dia. Nesses episódios, que retratavam só a visão do Comando da Polícia Militar, que é uma visão mentirosa, versão mentirosa, então eu estava em crise profissional, achando que era um absurdo. Se eu sei que é mentira, como eu não faço nada ou faço muito pouco? Eu pensava: "ou saio dessa área do jornalismo ou eu faço alguma coisa, como cidadão, não como repórter". Resolvi fazer um livro pra provar que quem matava era o Estado. O Abusado, só pra finalizar esse raciocínio, eu acho que os brasileiros falam muito sobre drogas, como mais ou menos acontece com o futebol, todo mundo sabe escalar um time, tem opinião pra tudo, mas eu acho que conhecem pouco o universo do tráfico, sobretudo o universo dos traficantes que são os protagonistas da história. Quase sempre é uma reprodução do discurso dos policiais, dos coronéis da PM, ou de especialistas da academia que nunca sobem o morro, que jamais falam com os moradores do morro. Mas olha, é uma visão só ou só a visão dos organizados, da sociedade organizada. E o outro lado? Os traficantes? Os moradores do morro? Todo mundo emite juízo sem conversar com os moradores, sem conhecer como é por dentro o tiroteio, como funciona uma boca de cocaína, e eu tinha muita informação sobre isso. “Aí tem aqui uma história que precisa ser contada”. Então a motivação sempre foi a mesma: tratar de temas que dizem respeito ao cotidiano das pessoas, que todo mundo tem opinião, mas que tem algumas lacunas que eu acho que merecem trazer a tona. (BARCELLOS, 2006)

Para Fernando Morais, a motivação vem de questões financeiras.

Apesar de serem verdadeiras, as afirmações foram por nós entendidas como uma

ironia do autor, já que ele trilhou um longo caminho de reportagem até chegar à

situação profissional que o possibilita concentrar-se apenas na produção de livros.

[Livro-reportagem] é a única coisa que eu sei fazer. Eu nem sei se fazer isso é muito, mas é a única coisa que eu sei fazer. Eu não sei

porque eu faço

exclusivamente disso, eu não tenho nenhuma fonte de renda. [ ] A minha carreira toda foi de repórter, fui outras coisas, fui editor, fui pauteiro, fui copy, mas fazia isso por causa de dinheiro, porque precisava trabalhar. Eu tinha três empregos. Com 20 anos eu trabalhava de manhã como pauteiro da TV Cultura, com o Herzog, com o Jordão, com o João Batista de Andrade. De tarde trabalhava como repórter do Jornal da Tarde, de noite trabalhava como copy da Folha de SP. Mas porque? Porque eu precisava de grana! Se qualquer um dos três me oferecesse uma boa grana só pra eu ser repórter, eu preferia. (MORAIS, 2006)

Eu

faço porque eu preciso comer, eu vivo disso,

40

2.2 Um ponto de discordância: classificações

Em sua tese de doutoramento, Lima propõe 13 grupos nos quais os

livros-reportagem

poderiam

estar

incluídos,

levando-se

em

consideração

a

variedade de linhas temáticas e modelos de tratamento narrativo. Para isso, o autor

usou como critérios “o objetivo particular, específico com que o livro desempenha

narrativamente sua função de informar e orientar em profundidade, e a natureza do

tema de que trata a obra” (2004, p. 51) Assim, temos os seguintes grupos de livro-

reportagem, de acordo com o pesquisador:

Livro-reportagem perfil

Seria a obra preocupada em evidenciar o lado humano de uma

personalidade pública ou de uma personagem anônima que, por suas características

e circunstâncias de vida, representa um determinado grupo social, passando a

personificar a realidade do grupo em questão. Uma variante dessa modalidade é o

livro-reportagem biografia.

Livro-reportagem depoimento

Livro-reportagem que reconstitui um acontecimento relevante, de

acordo com a visão de um participante ou de uma testemunha privilegiada. Pode ser

escrito pelo próprio envolvido na ação – com auxílio de um jornalista ou não – ou por

um profissional que coleta os depoimentos e elabora o livro.

Livro-reportagem retrato

Possui papel parecido ao livro-reportagem perfil, mas, ao invés de

focalizar uma figura humana, concentra-se em uma região geográfica, um setor da

41

sociedade ou um segmento de atividade econômica, buscando traçar o retrato do

objeto em questão.

Livro-reportagem ciência

Serve ao propósito de divulgação científica, geralmente em torno de

um tema específico, podendo apresentar caráter de reflexão ou crítica.

Livro-reportagem ambiente

Possui

íntima

relação

com

interesses

ambientalistas

e

causas

ecológicas. Pode apresentar uma postura combativa ou simplesmente tratar de

temas que auxiliem na conscientização sobre a importância do equilíbrio entre

homem e natureza.

Livro-reportagem história

Focaliza um tema do passado recente ou mesmo mais distante no

tempo, porém, sempre mantendo algum elemento que o conecta com o presente,

possibilitando, dessa forma, um elo comum ao leitor atual. Esta atualização pode

dar-se tanto com a atualização “artificial” de um fato como por outros motivos.

Livro-reportagem nova consciência

Tem foco nas novas correntes comportamentais, culturais, sociais,

econômicas e religiosas resultantes de ebulições significativas do mundo ocidental

nos anos 60, como a contracultura e os movimentos de aproximação à cultura e

civilização do Oriente Médio e do continente asiático.

42

Livro-reportagem instantâneo

Trabalha sobre fatos recém-concluídos, porém, com contornos finais

já identificados. Apesar de ater-se basicamente ao fato nuclear, pode inserir algo de

sua amplitude, de seus desdobramentos.

Livro-reportagem atualidade

Diferencia-se do livro-reportagem instantâneo por selecionar temas

atuais de maior perenidade no tempo, mas cujos desdobramentos finais ainda não

são conhecidos. Assim, permite que o leitor resgate as origens do fato ocorrido, seu

contorno do presente e as tendências possíveis do seu desfecho futuro.

Livro-reportagem antologia

Reúne reportagens agrupadas sob distintos critérios, previamente

publicadas na imprensa cotidiana ou até mesmo em outros livros. Podem ser tanto

reportagens de diferentes temas de um profissional conhecido do público como de

distintos profissionais sobre um único tema. Também incluem-se neste grupo os

trabalhos de diferentes jornalistas, sobre diversos temas, mas que têm em comum

um gênero jornalístico ou uma categoria de prática do jornalismo.

Livro-reportagem denúncia

Possui propósito investigativo e “apela para o clamor contra as

injustiças, contra os desmandos dos governos, os abusos das entidades privadas ou

as incorreções de segmentos da sociedade” (LIMA, 2004, p. 58).

Livro-reportagem ensaio

Trabalha com a presença evidente do autor e de suas opiniões

sobre o tema, de forma que esta presença conduza o leitor a compartilhar do ponto

43

de vista do autor. O uso do foco narrativo na primeira pessoa é freqüente no

decorrer do livro.

Livro-reportagem viagem

Tem como fio condutor uma viagem a uma região geográfica

específica, o que serve para retratar aspectos sociais, históricos e humanos das

realidades possíveis do local. Difere-se do relato meramente turístico por evidenciar

a preocupação com a coleta de dados, a pesquisa e com o exame de conflitos. “O

conhecimento constrói-se, ao longo do livro, por via da ótica jornalística, alicerçada

por recursos advindos de diversos campos do saber moderno” (2004, p.59)

Mesmo considerando as 13 propostas de classificação de livros-

reportagem, o próprio Edvaldo Pereira Lima admite que elas não podem ser

entendidas como classificações finais, porque novas variedades podem surgir, em

decorrência da flexibilidade e da criatividade peculiares à obra de não-ficção (LIMA,

2004, p. 59). Tanto é que, o próprio Lima, na entrevista referida, incluiu uma nova

categoria de livros-reportagem: o livro-reportagem ensaio pessoal, na qual ele

inseriu sua obra Ayrton Senna – Guerreiro de Aquário. Esta nova categoria de livros-

reportagem pode ser compreendida dentro dos conceitos do Jornalismo Literário

Avançado, proposta de trabalho lançada por Lima em Páginas Ampliadas.

O Ayrton Senna está encaixado numa categoria de livros-reportagem que na época do Páginas Ampliadas não tinha precisamente, que é o que eu chamo de livro-reportagem ensaio pessoal. O que é isso? O ensaio é um gênero onde o autor está procurando filosofar um pouco, refletir um pouco sobre um assunto. Esse é o ensaio clássico, que existe na literatura, na história, em todas as ciências humanas,

na filosofia, assim por diante. Só que no jornalismo literário, eles começaram a ver que o ensaio poderia ser feito de uma maneira um pouco diferente. Como o Jornalismo Literário exige a humanização, a humanização que aparece é do próprio autor. Então o autor coloca seus pensamentos também, suas emoções, sua experiência de ter

44

ensaio pessoal resolveram enriquecer o ensaio pessoal produzindo um texto que tem as reflexões do autor, mas também tem muita narrativa. Mesmo sem eu saber disso naquela ocasião, intuitivamente, o Ayrton Senna - Guerreiro de Aquário se encaixa perfeitamente no livro-reportagem ensaio pessoal, ele tem todas as características de ensaio pessoal que hoje se pratica nos EUA, no Jornalismo Literário. (LIMA, 2006)

Lima também salienta que a classificação “tampouco pode ser

entendida como uma camisa-de-força que se impõe à realidade. Na prática é

possível que títulos se enquadrem simultaneamente em mais de uma classificação”

(LIMA, 2004, p.59).

Porém,

apesar

de

admitir

e

permitir

esta

flexibilidade

ou

justamente por esse motivo -, os autores entrevistados não souberam responder em

qual categoria seus livros poderiam ser enquadrados. Barcellos, ao ser perguntado

se o livro Abusado poderia se enquadrar na categoria Biografia, respondeu:

Eu acho que não, quero dizer, eu não queria [que o livro fosse enquadrado na categoria Biografia], mas o pessoal acabou divulgando como se fosse a história do Marcinho VP. Eu acho que não é. É a história da quadrilha dele, da quadrilha da 3ª geração, mas claro que dá um grande personagem de livro, por ser o chefe da quadrilha. É mais uma reportagem sobre o morro. Eu não sei se ele se enquadra em alguma classificação.Talvez tenha, bem definida, mas eu não sei qual é. Eu comecei a falar romance-reportagem, mas nem sei se existe isso, e acabaram reproduzindo “romance- reportagem”. (BARCELLOS, 2006)

Para Mylton Severiano, a classificação também é confusa:

A editora me inscreveu num prêmio lá, Jabuti, não sei, me inscreveu num concurso como Biografia. É o mais próximo que meu livro está, porque eu conto a vida dele [referindo-se a João Antônio] É uma

biografia sim, mas é uma biografia com algumas nuanças, tem crítica literária ali, minha não, porque eu não sou crítico literário, mas eu uso muitos críticos falando sobre ele pra amparar as idéias que eu tenho

um livro-reportagem também

sobre ele, tem as cartas

histolografia [o autor quis dizer historiografia]. Tem várias nuanças,

mas o mais próximo é de biografia. (SEVERIANO, 2006)

É

45

Apesar de não ter uma resposta do autor Fernando Morais quanto

às classificações, os livros de sua autoria que fazem parte do corpus deste trabalho

foram inseridos, de acordo com a Câmara Brasileira do Livro, nos seguintes grupos:

Chatô

O rei do Brasil e Corações Sujos, Biografias; Cem quilos de

ouro,

Repórteres e reportagens e A Ilha em História e Repórteres e reportagens.

Em nosso entendimento, os livros que fazem parte do corpus deste

trabalho poderiam ser enquadrados, segundo as propostas de Lima, nos seguintes

grupos 10 : Chatô - O rei do Brasil, livro-reportagem perfil; Corações sujos, livro-

reportagem história; Cem quilos de Ouro, livro-reportagem antologia; A ilha, livro-

reportagem

viagem

e

livro-reportagem

retrato;

Nicarágua

A

revolução

das

crianças, livro-reportagem viagem e livro-reportagem retrato; Rota 66 – A história da

polícia que mata, livro-reportagem denúncia; Abusado- O dono do morro Dona

Marta, livro-reportagem retrato e livro-reportagem denúncia e, finalmente, Paixão de

João Antônio, livro-reportagem perfil.

Neste

capítulo,

realizamos

os

primeiros

confrontos

entre

a

experiência dos autores estudados e a obra de Edvaldo Pereira Lima, Páginas

Ampliadas. Nele, foram definidos os conceitos, as funções e as motivações que

levaram

os

classificações

autores

a

optar

que

poderiam

pelo

livro-reportagem,

além

de

trabalhadas

as

ser

dadas

à

modalidade.

No

próximo

capítulo,

partiremos para a etapa inicial de produção de uma obra baseada no real: a

definição da pauta.

10 Assim como sugeriu Lima, quando afirmou que "na prática é possível que títulos se enquadrem simultaneamente em mais de uma classificação” (LIMA, 2004, p.59), enquadramos algumas das obras em mais de uma categoria.

46

CAPÍTULO 3: PAUTA

O primeiro passo para se fazer uma matéria jornalística é definir qual

será o assunto a ser abordado, procedimento conhecido no meio pelo nome de

pauta.

Considerando

que

o

livro-reportagem

é

um

"sub

sistema

do

sistema

jornalismo" e que ele maximiza os recursos operativos inerentes à prática jornalística

– tendo em mente, é claro, que ele acaba por revestir-se de qualidades específicas,

oriundas de diferentes fontes, influências e procedimentos no interior do jornalismo e

também fora dele, o que faz com que ganhe características individualizadoras

(LIMA, 2004, 61) – é lógico pensar que também o primeiro passo a ser dado para a

confecção de um livro-reportagem é a definição da pauta, isto é, a definição de

rumos e estabelecimento de diretrizes a serem seguidas para se alcançar o objetivo

almejado. Neste capítulo trataremos desta primeira etapa de produção de uma obra

de não-ficção, sempre criando um diálogo entre o trabalho de Lima, Páginas

Ampliadas, e a experiência dos autores entrevistados.

3.1 Pauta: mais que uma simples idéia

Segundo a professora e pesquisadora em comunicação, Cremilda

Medina, a definição da pauta envolve procedimentos que vão além da invenção, e

estão diretamente ligados ao preparo técnico do profissional de imprensa:

A criação de pauta não é ficção – inventar uma meta-realidade, contar histórias literárias sobre a vida -, mas é, sem dúvida, a descoberta de ângulos, a busca de problemas imanentes ou subjacentes dessa mesma realidade. E nesse sentido, os pauteiros e editores que se reúnem para programar seu dia de amanhã e o de hoje precisam de preparo técnico (conjunto de repertório cultural, aprendizado jornalístico e maturidade para assumir mudanças das rotinas) para desenvolver essas pautas, sugerir reportagens, relacionar temas, prever edições especiais. (MEDINA apud LIMA, 2004, p.69)

47

Porém, a elaboração da pauta – por mais que possa parecer um

procedimento simples – não é igual para jornalistas em seus trabalhos nas redações

e escritores de livro-reportagem. Ainda segundo Medina (apud LIMA, p. 70), o

trabalho do jornalista é condicionado por uma série de ingerências de angulações,

isto é, ingerências na perspectiva básica sob a qual a matéria será desenvolvida.

Tais interferências estão ligadas às estreitas relações entre o que

ela chama de nível grupal – ou seja, a caracterização da empresa jornalística

conectada a um grupo econômico e político -, nível de massa – observado pela

preocupação em satisfazer a um gosto médio, em embalar a informação com

ingredientes certos de consumo -, e nível pessoal, que apenas superficialmente

oferece maior grau de autonomia, já que mesmo os profissionais que têm liberdade

para colocar seu toque pessoal na matéria, seguem tendências do consumo de

massa e não vão contra a empresa por receio de serem dispensados 11 .

Assim, o livro-reportagem, por uma série de liberdades inerentes às

suas práticas, "apresenta, ao menos em tese, o melhor potencial para diminuir os

vieses de leitura com que o jornalismo tem encarado habitualmente o real" (LIMA,

2004,

p.

81),

hipótese

esta

que não

deixa

de

levar

em

conta, é

claro, as

condicionantes do livro-reportagem, as imperfeições inerentes à percepção humana

e a relatividade de tudo.

Segundo Lima, esse potencial para uma leitura mais aprofundada e

"neutra" da realidade provém da liberdade que o autor de livro-reportagem possui

para:

definir

o

tema

que

será

abordado,

estabelecer

as

angulações

que

desvincula-se, ao menos em tese, dos comprometimentos com os níveis grupal, de

11 Segundo Edvaldo Pereira Lima, o raciocínio é válido para o chamado padrão médio da produção jornalística, o que não significa que tais práticas sejam de todo nocivas, pois "naturalmente, boa parte das matérias pode ser elaborada condicionadas por tais critérios e não há grande prejuízo informativo para o leitor". (LIMA, 2004, p. 72)

48

massa e pessoal (quando limitado pela empresa jornalística) -, escolher as fontes a

serem entrevistadas, definir o tempo que o livro irá abordar – livre, assim, da

limitação imposta e restrita ao presente –, liberdade do eixo de abordagem – que

não precisa obrigatoriamente girar em torno da factualidade, do acontecimento – e,

finalmente, liberdade de propósito.

Autor de importantes biografias, Fernando Morais, em entrevista a

nós concedida, explicou como se dá a escolha do personagem a ser trabalhado,

ilustrando seu pensamento com o caso do livro Corações Sujos, que, de acordo com

ele, surgiu "por acaso":

primeiro lugar tem que ter algum ineditismo. Tem que ser um

personagem que tenha uma vida diferente da minha, da sua, que justifique a energia que você vai gastar com ele, ou seja, ele tem que

ser ou agente ou testemunha de coisas, de episódios, de fatos que sejam saborosos. O ideal é que sejam saborosos e importantes. Se você for olhar os meus personagens, sejam os biografados ou não, você vai encontrar esse ingrediente. O ideal é você pegar um personagem cujo trajeto, cujas pegadas, te ajudem a contar um

pouco da história do Brasil que não foi contada, história não oficial, não obrigatoriamente a chamada história dos vencidos, pode até ser

a história dos vencedores, desde que conte coisas que a história oficial não contou.

] [

surge um assunto. Por acaso, entrevistando uma mulher, que foi namorada do Chatô quando era mocinha, uma japa, eu perguntei como o Chatô tinha chegado perto dela se ele não tinha nenhuma ligação maior com a comunidade japonesa do Brasil. Ela contou que

o pai dela tinha sido preso, era um funcionário dos Associados

[Diários Associados], e o Chatô deu carteiraço nas pessoas, conseguiu soltar. No dia que ela foi lá agradecer, junto com o pai, o Chatô viu aquela japonesinha e caiu em cima, mas daí eu já não estava me interessando mais pela história da paixão, eu queria saber porque o pai tinha sido preso, se era por razões políticas e tal, e ela disse: "Não, era por causa da Shindo Renmei", eu disse "Que Shindo Renmei?" Na hora que eu falei Shindo Renmei, que eu comecei a perguntar, ela começou a arrepiar, a dizer, "Ahh não, não, não se preocupe, isso é uma briga de família, de japonês", o que só fez despertar o meu interesse. Essa história, enquanto eu escrevi Chatô, eu guardei, eu tenho um arquivinho de histórias que podem, em algum momento, servir. Quando estava para terminar o século, 97, 98, o Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras, me propôs um livro, que seria muito legal, e que a gente chamava enquanto não tinha nome como “O século das sombras”. Era fazer uma recontagem que era pra sair no ano 2000, personagens e histórias do século XX que

talvez o caso dos Corações Sujos seja um bom exemplo de como

]Em [

49

não tinham sido objeto de interesse ou de historiadores ou de jornalistas, ou seja, personagens que estão enterrados por aí e que

foram da maior importância, ou de muita importância. Essa ia ser uma das histórias [referindo-se à Shindo Renmei], e eu falei pro Luiz:

gastar num

capítulo, porque é um desperdício, porque dá um filme, dá um livro, dá uma minissérie, dá o que você quiser" E ele falou: "Taca o pau então", e o livro nasceu assim. Eu tenho hoje dez histórias pra escrever, prontas, dez assuntos que eu poderia imediatamente começar a trabalhar neles, sabe. Se eu for declamar esses assuntos aqui, você vai achar que tem uma certa obviedade, "É, mas que engraçado, como ninguém se lembrou de escrever sobre essa pessoa se tem uma história tão legal, ou sobre esse episódio?", não sei dizer, mas é isso, é um negócio que o Darci Ribeiro costumava dizer e me anima muito essa frase: “Esse país é ótimo, o que falta é

”Ô Luiz, tô com dó. As histórias dos japoneses

de

gente pra contar". Quase é possível dizer que dá pra escolher o tema que quiser, tem personagem à vontade porque a gente vive numa diversidade

cultural riquíssima e num país em construção

(MORAIS, 2006)

Para Caco Barcellos, suas pautas não surgem de algo muito

planejado,

mas

sim

desenvolvido.

como

conseqüência

de

um

trabalho

que

vem

sendo

Eu jamais poderia escrever um livro a partir de um projeto muito planejado. Eu acho que eu tenho que estar já há algum tempo envolvido em determinado tema, ou em determinada história, e aí eu fico extremamente ansioso, convivendo mal com aquele volume grande de informação e eu tenho que dar um sentido pra aquilo, então eu acho que é hora de escrever um livro. Pelo menos os três que eu fiz até agora essa situação se repetiu. 12 (BARCELLOS, 2006)

Ao contrário de Caco Barcellos e Fernando Morais, que, cada um

com seu método pessoal, constroem suas pautas a partir de análises sobre qual

personagem tem maior potencialidade para ser desenvolvido ou de trabalhos que já

vêm sendo realizados anteriormente, Mylton Severiano atribui o nascimento da idéia

de seu último livro a um acaso:

Eu fui amigo do João Antonio 30 anos e a gente morava

e eu em São Paulo, uma época ele na Alemanha

ele no Rio

Como era uma

12 Outro trecho da entrevista com Caco Barcellos que trata dos processos iniciais de realização de um livro-reportagem e estão descritos com mais detalhes pode ser encontrado no capítulo 2 deste trabalho.

50

época pré-Internet e telefone era muito caro, então a gente trocava cartas. A gente trocou por volta de 500 cartas das quais eu perdi metade porque eram duas caixas e uma delas eu perdi numa mudança, então sobraram 223 cartas. Eu estava conversando com o Sérgio de Souza, que é o editor da Caros Amigos, isso há uns cinco anos atrás, à propósito da série "Os rebeldes brasileiros", que a editora Casa Amarela havia lançado, e um deles era o João Antonio,

e a propósito disso eu comentei com ele: "Rapaz, você sabe que eu

tenho 223 cartas do João Antonio", e ele falou: "Então porque você

não faz um livro?" Então eu devo esse livro a esse, sabe, a essa conversinha coloquial ali, porque ele me botou um desafio interessante ali na frente. (SEVERIANO, 2006)

Na experiência prática de Edvaldo Pereira Lima, desde os primeiros

passos para a criação do livro-reportagem já é possível identificar os elementos do

Jornalismo Literário Avançado, com sua nova forma de visão de mundo, integrando

várias ciências humanas à pratica jornalística.

Como nasceu esse livro Ayrton Senna- Guerreiro de aquário? Nasceu assim, num curso de pós-graduação que eu conduzia na USP, os alunos precisavam fazer um trabalho final e, naquela ocasião, o trabalho prático seria escrever um livro-reportagem coletivo. Cada aluno escolheria uma sessão dentro de um tema único

de fundo que era o seguinte: nós queríamos encontrar na sociedade brasileira daquela época, e eu estou falando do início nos anos 90, setores da atividade econômica onde houvesse profissionais trabalhando com foco de mundo diferenciado, um foco mais integral

e sistêmico, mais holístico, não no sentido pejorativo místico, mas

aquela perspectiva que hoje, por exemplo, é falada na administração de empresas, uma visão mais integral das coisas, aí nós mapeamos cinco áreas do conhecimento e fomos entrar nelas. Umas das áreas seria o esporte e aí o caso que o aluno encarregado do tema descobriu seria mostrar o trabalho pioneiro do Nuno Cobra, que é um preparador físico que, já naquela época, usava não só recursos de preparo físico dos atletas, mas também um trabalho pioneiro de preparo mental e o grande caso de sucesso do Nuno Cobra era o Ayrton Senna. E daí eu me interessei muito pelo trabalho do Nuno e quis me aproximar dele. Ao mesmo tempo, os meus alunos falaram de mim pro Nuno: “Pô, mas tem um cara na ECA, um professor de jornalismo com essa visão diferente” e ele disse: "Eu quero conhecer". Então houve uma simpatia mútua, nos conhecemos, ficamos amigos e logo depois ele me convidou pra ajudar a trabalhar num livro. Ele queria escrever um livro que seria contar o método dele, então eu respondi a isso. Então aí esse processo e mais um fenômeno intuitivo que começou a ocorrer comigo num tempo anterior, geraram a idéia do livro que é a seguinte: eu comecei a sonhar com o Ayrton Senna e achei muito estranho porque eu não admirava o Ayrton Senna, não acompanhava a Fórmula 1. Comecei

a achar esquisito, mas comecei a prestar atenção porque eu acho

51

que a gente enxergar os processos intuitivos é muito importante pra você sentir qual é o tema que realmente vai chamar você para fazer um mergulho importante. Se você não tiver uma conexão pessoal com o tema não adianta, não funciona. Como eu sou uma pessoa estudiosa dessas coisas novas, inclusive trago pro jornalismo elementos desses conhecimentos todos, eu fiquei muito interessado mesmo e aí eu falei "Pô então agora ta na hora de escrever um livro sobre o Ayrton, porque há vários aspectos do Ayrton Senna que a mídia não fala", por exemplo, o treinamento mental que ele tinha, a mídia não falava [ Depois [esse projeto] não deu certo, o projeto parou, não caminhou, por n fatores e a coisa ficou um pouco estancada. Daí o Ayrton Senna morre. Quando o Ayrton Senna morre, eu pensei: "Bom, aquilo que eu tava querendo fazer não pode ficar de lado, as pessoas não podem ficar sem saber disso. As pessoas têm que ter um conhecimento do que era o Ayrton Senna nesse aspecto também

e o que está ligado a isso tudo", daí então eu retomei o projeto que

tinha sido esboçado antes com um foco diferente, incluindo coisas do trabalho anterior e obviamente incluindo um ângulo diferente que era

o impacto da morte dele, porque o esboço do primeiro livro era essa coisa de mostrar esse lado do Ayrton Senna, de onde vem isso, que visão de mundo está aí atrás e quais são as coisas que estão acontecendo nas ilhas de excelência da ciência transformando a nossa perspectiva da realidade. (LIMA, 2006)

Neste capítulo procuramos estabelecer os conceitos de pauta - e os

ruídos inerentes à pratica jornalística que acabam por interferir na definição e

tratamento do assunto abordado -

e as liberdades oferecidas a quem se dedica a

uma obra de não-ficção, além de acompanhar como se dão, na prática, todos esses

processos. No próximo capítulo, daremos continuidade ao diálogo travado entre

teoria e prática, no que diz respeito à segunda etapa do processo: a captação de

informações.

52

CAPÍTULO 4: CAPTAÇÃO DE INFORMAÇÕES

Definido qual assunto ou personagem a ser trabalhado - ou seja,

definida a pauta - estabelecidas as angulações a serem

dadas e

o eixo

de

abordagem inicial a ser aplicado, o autor de livro-reportagem passa para a etapa que

é, pelo menos em tese, a mais extensa a ser cumprida: a captação de informações,

assunto que iremos abordar neste capítulo do trabalho.

4.1 Técnicas de Apuração

Edvaldo Pereira Lima, em Páginas Ampliadas, sugere seis métodos

de captação: a entrevista, as histórias de vida, a observação participante, a

memória, a documentação e a visão pluridimensional simultânea.

O primeiro, e mais clássico de todos, a Entrevista, para Lima, é mais

que um mero procedimento de captação, porque, quando bem sucedida, cumpre o

papel de "estimular, criar um clima autêntico de conexão entre entrevista e receptor"

(LIMA, 2004, p.90), auxiliando a compreensão real, mas também colocando dose

adequada de emoção, necessária, segundo o pesquisador, para que os atos de

comunicação sejam bem resolvidos.

Segundo a também pesquisadora Cremilda Medina (apud LIMA,

2004, p.92), as entrevistas podem ser agrupadas em duas tendências: a de

espetacularização, que é sempre uma caricatura das possibilidades humanas, e a

de compreensão, que busca o aprofundamento.

Descartada a entrevista de espetacularização, por não atender aos

objetivos do livro-reportagem, Lima propõe que o escritor utilize a tendência da

53

entrevista de compreensão e seus diversos subgêneros – a saber: entrevista

conceitual, entrevista/enquete, entrevista investigativa e confrontação/polemização -,

procedimentos que podem ser utilizados tanto individualmente, como também de

forma conjugada.

Ainda dentro desta técnica da entrevista, o pesquisador propõe um

procedimento por ele chamado de perfil humanizado, "que se caracteriza pela

abertura e proposta de compreensão ampla do entrevistado em vários aspectos, do

histórico de vida ao comportamento, dos valores aos conceitos" (LIMA, 2004, p. 93).

Nesta técnica, que busca construir um retrato humano por trás, muitas vezes, do

ídolo ou da figura pública, apesar de existir a pauta, coexiste a flexibilidade de o

entrevistador, em dado momento, abandoná-la para entrar numa variante mais

empática com o entrevistado, chegando até a despertar emoções.

Outro recurso de captação sugerido em Páginas Ampliadas, são as

Histórias de Vida que também aparecem nos livros-reportagem, mesclados a outros

procedimentos, na forma clássica de entrevista – "com a reprodução do diálogo

entre o entrevistador e o entrevistado ou como depoimento direto, ou ainda numa

mescla em que se combinam essas modalidades de apresentação com narrativa em

primeira ou terceira pessoa" (LIMA, 2004, p. 114).

Proveniente das ciências sociais e, sobretudo, da antropologia, as

Histórias de Vida, segundo a professora de comunicação Dulcília Schoeder Buitoni,

são entrevistas livres acompanhadas de observação participante e, apesar de não

haver uma definição rigorosa sobre o que seja o recurso,

] [

vez que utiliza a vivência do entrevistado de maneira longitudinal, buscando encontrar padrões de relações humanas e percepções individuais, além de interpretações sobre a origem e o funcionamento dos fenômenos. (BUITOINI apud LIMA, 2004, p. 93).

uma entrevista de tipo aberto se define como história de vida uma

54

O resultado do uso deste procedimento seria uma visão multiangular

dos

personagens

realidades.

trabalhados,

seus

comportamentos,

seus

problemas,

suas

Outra técnica que provém das ciências sociais e pode ser utilizada

no livro-reportagem é a Observação participante. Tal procedimento teve seu apogeu

na

época

da

inovação

norte-americana

conhecida

como

new-journalism,

que

descobriu que não há como retratar a realidade senão com vivacidade, cor,

presença. "Isto é, com mergulho e envolvimento total nos próprios acontecimentos e

situações, os jornalistas tentando viver, na pele, as circunstâncias e o clima inerente

ao ambiente de seus personagens" (LIMA, 2004, p. 122-123). Portanto, tal técnica

consiste no registro dos gestos cotidianos, das maneiras, costumes, hábitos, estilos

de

vestuário,

decoração,

móveis,

estilos

de

viagem,

comida,

modos

de

comportamento etc. Mesmo que sem a mesma intensidade com a qual a observação

participante era aplicada nos anos 60, ela ainda hoje é utilizada e surge como

proposta de Lima para a confecção do livro-reportagem.

O próximo método de captação sugerido pelo pesquisador é o que

ele chama de Memória, que seria o "resgate de riquezas psicológicas e sociais"

(LIMA,

2004,

p.

127),

por

um

trabalho

de

reconstrução

feito

pelo

narrador,

ultrapassando os limites da informação concreta para se chegar a uma dimensão

superior de compreensão dos atores sociais e da própria realidade em que se insere

a situação examinada. Nesta etapa, porém, Lima não indica se o procedimento seria

executado por meio da realização de entrevistas, documentação ou mesmo as duas

formas conjugadas.

E por falar em Documentação, este é o próximo tópico a ser

abordado por Lima, quando refere-se à coleta de dados em fontes registradas de

55

conhecimento, procedimento que funciona como auxílio à fundamentação do tema

de que trata a reportagem (ou a grande-reportagem). Apesar de o autor identificar

uma deficiência neste campo na imprensa brasileira, Lima destaca alguns autores

que são exceção no assunto, como o próprio Fernando Morais, que veremos mais

adiante.

O último método de captação sugerido pelo pesquisador é o por ele

chamado de Visão pluridimensional simultânea, que seria a incorporação de óticas

modernas abrangentes, em contrapartida à visão reduzida do cartesianismo aplicado

na atualidade. Nela:

O jornalismo não deixa de abordar o real, não se confunde com a

ficção. Mas nega que real seja apenas sua porção mais aparente,

Nem se trata do mergulho no

imaginário como fantasia ou ficção, mas como elementos que ajudam a explicar o real num contexto total, sistêmico. (LIMA, 2004,

p.130)

visível, concreta, material [

]

Segundo Lima, os primeiros a introduzirem esta nova visão da

realidade

foram

os

"novos-jornalistas",

com

os

monólogos

interiores

dos

personagens e fluxos de consciência, até então somente empregados na literatura

de ficção. Este recurso, tecnicamente falando, manifestava-se pelo "ponto de vista

autobiográfico em terceira pessoa", assim explicado por Tom Wolf:

a técnica de apresentar cada cena ao leitor por intermédio dos

olhos de um personagem particular, dando ao leitor a sensação de

estar dentro da mente do personagem, experimentando a realidade emocional da cena como o personagem a experimenta. Os

jornalistas muitas vezes usavam o ponto de vista da terceira pessoa – "eu estava lá" – da mesma forma que o usavam autobiográficos, memorialistas e romancistas. Isso, contudo, é muito limitador para o jornalista, uma vez que ele só pode levar o leitor para dentro da

Porém, como pode um

jornalista, escrevendo não-ficção, penetrar acuradamente os pensamentos de outra pessoa? A resposta mostrou-se deslumbrantemente simples: entreviste-o sobre seus sentimentos e emoções, junto com o resto. (WOLFE, 2005, p. 54-55)

cabeça de um personagem – ele próprio [

] [

]

56

E conclui Lima:

Desse modo, a visão multidimensional na captação, como enfoque de percepção do que o jornalista trata nas suas reportagens, transforma-se em instrumento que orienta a entrevista, as histórias de vida, o resgate da memória e a documentação para uma nova potencialidade: a do livro-reportagem com missão de cravar um vínculo mais largo, profundo, na leitura da cativante e complexa realidade que é o mundo contemporâneo. (LIMA, 2004, p. 134)

Dadas as propostas de Edvaldo Pereira Lima para a etapa da

captação de informações, iniciaremos o diálogo entre a técnica proposta e a

experiência dos autores.

Pudemos perceber na análise do material coletado em entrevista

com Caco Barcellos, que mesmo que intuitivamente, o autor utiliza-se de quase

todos os recursos sugeridos por Lima. No trecho reproduzido a seguir, no qual o

jornalista explica os processos de captação de informação para seu livro Abusado,

podemos identificar um intenso trabalho na realização de entrevistas, um mergulho

profundo do autor na realidade do morro – o que poderíamos identificar como

observação

participante

–,

e

uma

busca

pelos

processos

internos

e

ações

contextualizadoras dos personagens – encaixáveis nas propostas de história de vida

e até mesmo na de visão pluridimensional simultânea.

] [

Comando Vermelho, porque foi essa geração que levou o Comando Vermelho a controlar o comércio de drogas no Brasil. A primeira coisa era localizar uma quadrilha, isso demorou bastante. Tentei inicialmente na Rocinha, mas daí aconteceram guerras, o cara que tinha me dado a possibilidade de trabalhar lá morreu e eu tive que parar, até conhecer o Juliano, o Marcinho VP, e ele me deu a possibilidade de trabalhar lá no Santa Marta. Daí eu começo a fase que pra mim é a mais fascinante, que é me aproximar das pessoas, conquistar a confiança delas, fazer com que elas contem histórias pra mim. Isso é o que eu acho mais legal. Então algumas técnicas, por exemplo, de apuração: se você diz que João é um covarde sanguinário, provavelmente eu vá jogar o seu depoimento no lixo. O que eu vou querer saber de você? [Barcellos reproduz um diálogo] "O que o João fez pra você dizer que ele é covarde?", “Ahh, ele pegou três crianças da vizinha que todo mundo

no Abusado, eu queria contar a história da terceira geração do

57

adora e machucou, agrediu com facadas, fez coisas brutais contra as crianças e tirando sangue delas". Então eu quero riqueza de detalhes na ação desse cara, pra não ofendê-lo, não chamá-lo de covarde sanguinário. Eu não quero ofender ninguém, mas eu quero contar histórias do que as pessoas fazem, histórias que permitem confronto da informação pra saber se ela é verdadeira ou não. Então em vez de simplesmente ter uma frase de efeito "João sanguinário covarde", eu quero contar: "O operário João, aquele dia virou comerciante ilegal de drogas, usou o que não devia, cruzou com o inimigo e, em vez de enfrentar o inimigo, foi enfrentar os filhos, cometer

atrocidades contra os filhos". E daí eu conto a história um, dois e três

e começo, na seqüência, a saber se esta história é verdadeira. Eu

tenho o seu depoimento, é importante, mas é um só, então eu te obrigo, forço a dizer quem assistiu àquilo e você diz: "Sete pessoas", então eu vou atrás dos sete. (BARCELLOS, 2006)

Outro trecho que deixa claro o uso dos procedimentos sugeridos por

Lima é este no qual Barcellos, ainda falando sobre o Abusado, explica como

trabalha a documentação:

Bom, se é um crime, tem que haver processo. Vou na justiça, vejo

daí nossa justiça é incompetente, nossa polícia mais ainda. Às

vezes crimes acontecem e a polícia não fez nada, nem sequer sabe que aconteceu e aí complica, porque eu não tenho esse dado pra confrontar. Mas se tem é legal, pra ver como a polícia trabalhou isso, como a justiça trabalhou, como tratou desse tema. Geralmente é uma distância imensa entre a verdade do morro e a verdade do judiciário. É uma distância absurda, uma omissão total, uma incompetência recorrente, mas se você sabe, você conhece o universo que está trabalhando, é assim mesmo. Quando crime envolve gente poderosa, gente do lado onde há cidadania, você tem um processo razoavelmente eficaz. Quando envolve pobre, esquece. [Por isso] eu acho que o contexto é importante você ter muito claro, você conhecer o universo que você está trabalhando a priori, porque

te ajuda muito a traçar seu caminho. Mas, enfim, tem a imprensa. Ela

contou essa história ou não contou? É uma outra fonte. (BARCELLOS, 2006)

mas

Caco Barcellos explicou ainda que, nesta fase de apuração, muitas

foram as dificuldades encontradas, situação que o fez criar métodos alternativos de

investigação, como a adoção de "santinhos" para tentar descobrir a data correta da

morte de algum personagem:

58

não tem memória. Eu tive que levantar as histórias, fazer a cronologia, a partir dos santinhos que as pessoas produzem pra homenagear os parentes que morrem. Eu ficava: "Tem santinho, tem santinho?" Porque com os santinhos você tem as datas. Daí eu comecei, depois de um bom tempo, mais de um ano, acho, quando

as pessoas não lembravam, eu falava: "Foi antes ou depois da morte do Zezinho? Foi na semana?" daí as pessoas: "Ah, foi no velório",

esse é um outro tipo de apuração

(BARCELLOS, 2006)

Segundo o jornalista, a etapa da captação de informações é a mais

importante e deve ser realizada em exaustão, mesmo que isso signifique ter de

retomar a apuração quando detectada alguma falha, ou quando novos elementos

surgem e são considerados importantes para o bom desenvolvimento da história:

De repente, o pessoal da quarta geração [do Comando Vermelho] entrava na história e queria contar: "Eu tenho uma história do passado interessante pra te contar" e eu não queria. Enfim, eu acabei me convencendo que podia ser legal, até porque eles pediram muito e eu achei interessante, mas o livro estava pronto, estava escrito. Eu retomei tudo do zero, apurando tudo de novo. Então o moleque que entrava na primeira apuração com 14 anos, eu fui atrás da história de quando ele nasceu, vendo o que era interessante pra eu contar. Então quando eu estou contando, no primeiro capítulo, o Juliano com 14 anos, o moleque que tava aparecendo originalmente no final do livro, estava nascendo. Eu tive que acrescentar essa história, sempre evoluindo, e quando o livro chega ao fim, quando ele aparecia na versão 1, na verdade ele veio aparecendo, na versão final, desde o começo, até assumir o poder, que é a 4ª geração que está no poder hoje. Isso pra te dizer como a apuração vai se impondo. (BARCELLOS, 2006)

A partir de tais declarações, é possível perceber como a etapa da

captação das informações, da apuração, é uma etapa exaustiva. O livro Rota 66, por

exemplo, consumiu sete anos de pesquisa de Caco Barcellos. Já em Abusado, o

processo de captação de informações durou quatro anos. Mesmo ponderando que

tais tempos são relativos, já que o autor necessitou conjugar seu trabalho na

televisão com a apuração dos materiais que dariam origem aos livros, Barcellos

confessa que este é um processo de muito fôlego. Quando perguntado até onde ia

sua apuração, respondeu:

59

Poxa, isso é terrível. Tem que seqüestrar o livro de mim. Eu não acabo nunca, porque reportagem não tem fim, né. Você falou de sete

testemunhas que viram as crianças morrendo, quando você vai falar com a testemunha ela diz que mais gente viu e assim vai. Mas também chega num momento que você pensa: "Bom, essa história ta redonda por aqui". Então, o que eu faço pra poder dar um ponto final em algum seguimento? Bom, eu tenho aqui 80% da história que me parece verdadeira, 20% eu tenho em dúvida. Eu posso trabalhar mais duas semanas pra apurar até 90%, mas vem cá, 80% já tem fonte pra caramba. Lixo 20%, na dúvida, lixo. Então muitas, muitas histórias potencialmente maravilhosas foram pro lixo, porque eu tenho a camisa de força da verdade. No primeiro não tinha tanto [referindo-se ao livro Nicarágua – A revolução das crianças] porque eu estava muito influenciado pelos ficcionistas, então eu me permitia uns vôos. Depois eu vi o que eu realmente quero, fiquei realmente fascinado pela não-ficção, pela realidade das pessoas, que é tão complexa que pode até parecer ficção, cada pessoa tem uma história, mais maluca que a outra [ ]

O que mudou de um livro para o outro foi a apuração. Pensando no

que rolou, eu acho que eu fui me dedicando cada vez mais à

apuração. (BARCELLOS, 2006)

Na experiência de Fernando Morais, também é possível identificar a

utilização de vários dos procedimentos sugeridos em Páginas Ampliadas, como a

entrevista e, principalmente, a documentação, que acaba por ser uma característica

bastante forte do autor. No trecho a seguir, extraído de entrevista a nós concedida,

Morais

explica,

de

maneira

genérica,

como

se

a

etapa da

captação

de

informações para a realização de seus trabalhos:

Em primeiro lugar entrevistas. Primeira coisa é pegar o maior número de pessoas que tenham convivido ou com tema ou com o personagem. Porque primeiro as entrevistas? Porque você vai fazer esse trabalho antes dos outros? Simplesmente por uma questão etária. Em geral você está escrevendo sobre um personagem remoto e as pessoas vão morrendo, então, em primeiro lugar pegar os velhinhos, cerca os velhinhos antes que eles morram. Agora isso

já não vale se você for fazer um livro sobre Frei Caneca. Frei Caneca

viveu em 1750, é outra metodologia [na verdade, Frei Caneca viveu entre 1779 e 1825]. De qualquer maneira, passou as entrevistas, você vai pegar o quê? Os depoimentos já existentes. Vale pro Frei Caneca: o que existe nos arquivos de Pernambuco sobre o assunto, o que existe no Vaticano, o que existe de depoimento sobre ele? E aí depois você vai fazer a varredura de acervos: onde tiver uma impressão digital da pessoa eu vou atrás. Isso é uma parte gostosa, dependendo do tipo de personagem. De repente aparece alguém que conhece seu personagem e tá no Amazonas. Bom, aí você arranja alguém em Manaus, paga a pessoa, isso quando você não

60

tem que ir, pegar avião, ou gastar 12 horas de telefone, mas de qualquer maneira ir atrás de papel, de documento, de depoimento. (MORAIS, 2006)

Outro

procedimento

muito

utilizado

por

Morais,

quando

o

personagem lhe permite, é a observação participante 13 . O uso da técnica fica claro

neste trecho em que Morais descreve a forma como iniciará o seu próximo livro, a

biografia do também escritor Paulo Coelho:

Eu estou abrindo o livro com um avião da Air France rolando no aeroporto de Budapeste. Então eu escrevo: na primeira classe um camarada sozinho, de cabelo branco, jeans preto, coturno preto, camiseta preta e quando o avião está pousando, ele pára os olhos, faz como fosse uma oração, pega uma malinha ali em cima e veste um paletó preto. E daí percebe-se que ele não é um mortal comum, porque na lapela do paletó tem uma chapinha vermelhinha com um fio branco e um vermelho e aquilo mostra que ele é um Chevalier d'Honneur, que recebeu uma comenda que foi criada pelo Napoleão e só é dada pelo presidente e a dele foi colocada pelo Chirac. Pega a malinha, doido pra fumar, um cigarro Galaxy brasileiro, um isqueiro na mão, Zipo, louco pra fumar e todos lugares do aeroporto escrito "proibido fumar, proibido fumar". Percebe-se que ele está um pouco ansioso, olhando do lado de fora, coisa e tal. Eu ainda não disse quem é, o nome do passageiro. Todo mundo pega mala, ele pega uma mochila e a mala dele é uma malinha desse tamanho [faz um gesto com as mãos indicando um objeto pequeno] e acha ela fácil porque ele desenhou com giz, pra achar fácil nos aeroportos, um coração na mala. E sai andando e se espanta. Sai do lado de fora, os

passageiros ali pegam táxi, coisa e tal. Ele pega o celular, fala com ódio, acende o cigarro, dá uma chupada, acaba o cigarro de uma tragada só, pega o celular e fala em português: "Puta que o pariu, não tem ninguém me esperando aqui, porra! Ninguém”, pá! [faz sinal de desligar o telefone com força], fica olhando de um lado pro outro, fuma dois cigarros, daí ele ouve um tropel familiar, um bando de repórteres, de câmaras, de jornalistas que estavam esperando na porta errada. Daí ele se ilumina, esse é o verdadeiro Paulo Coelho, autor que já vendeu cem milhões de livros e tal. Conto a viagem dele pela Europa Oriental, conto a viagem pelo Oriente Médio, como é que é, como é recebido, como as pessoas querem apalpar,

pegar

eu aparecer, como se um mosquito tivesse pousado no

ombro dele. Acompanho ele num banquete na França, pra cem pessoas, black-tie, vou com ele pro Cairo, pra Beirute, pra Síria, Praga, Budapeste, Hamburgo, Barcelona. Depois voltamos pra casa dele e depois descrevo a casa dele, uma casa simples, o carro é um carro simples, ele não tem secretária, não tem jatinho, não tem segurança, não tem nada. Ele, a mulher dele e a empregada

sem

13 É interessante observar que, nem Barcellos, nem Morais, conhecem o método pelo nome de observação participante.

61

brasileira. Conto como é o dia-a-dia dele, chegar de manhã, abrir o correio, sessenta cartas, às 11h ele abre o e-mail. Ele recebe 1.600

e-mails já filtrados, e um dia, por acaso, dia 25 de agosto, um dia depois do aniversário dele, eu falei: "Deixa que hoje eu quero ver seu

é o

cara

Eu vou terminar o livro voltando ao

começo, que é ele 20 anos depois de ter escrito O diário de um mago, refazendo a pé o caminho de Santiago, agora no começo do

ano, e eu fui lá, pra encontrar ele no meio da trilha

e-mail antes de você" Tinha mensagens de 111 países

eu conto quem é, quantos livros já vendeu, falo dos

assédios das mulheres [

esse

ali

]

(MORAIS, 2006)

Mesmo que não declaradamente, é possível perceber, por este

trecho

da

entrevista,

a

preocupação

de

Morais

em

entrar

na

realidade

do

personagem, o que nos fez estabelecer uma ligação com os outros procedimentos

sugeridos por Lima, como a história de vida e a visão pluridimensional simultânea.

Como já foi dito, Fernando Morais é muito conhecido pelo intenso

trabalho de apuração que realiza antes de publicar uma obra, por isso, também

perguntamos a ele até que ponto esta etapa se estende. A resposta revela, assim

como na declaração de Barcellos, que essa é uma decisão muito difícil a ser tomada

e que não há regras a serem seguidas, já que a decisão depende do entendimento

que o autor tem do processo:

É muito difícil dizer: "Está pronta a pesquisa". Sempre fica um rabicho pra trás, na maioria das vezes um rabicho 'desimportante'. Mas quando é rabicho é rabicho, material descartável. (MORAIS,

2006)

Para Mylton Severiano, o processo de captação das informações

que deram origem à Paixão de João Antônio demorou quatro anos e meio, entre

tratamento das cartas que entraram no livro e apuração. Apesar de se revelar

totalmente avesso a técnicas e processos, é possível identificar em seu discurso

alguns

dos

procedimentos

documentação:

utilizados,

como

a

entrevista,

a

investigação

e

a

62

Então você vê, é um processo meu, ninguém me falou "faz isso, e isso e isso". Eu não fui pegar um manual de como se faz um livro- reportagem, meu Deus, que isso?! Isso não existe. Eu fui

vou também pegar, amealhar, vou pegar todos os

livros que eu tenho dele [referindo-se a João Antônio]. Eu tenho praticamente tudo dele em casa, alguns autografados, comecei a reler os livros dele, fui entrevistar as ex-mulheres. Uma delas que está no livro lá, a Tereza, uma crioula, eu só sabia o nome, Tereza, não sabia o sobrenome, só sabia que tinha voltado pra Divinópolis. Quero dizer, tem toda uma saga aí. Enfim, depois de 4 anos e meio estava pronto o livro. (SEVERIANO, 2006)

maturando

eu

Para concluir o diálogo entre Páginas Ampliadas e a prática dos

autores no que diz respeito à captação de informações, promovemos o encontro da

técnica com a experiência do próprio Edvaldo Pereira Lima, por ocasião dos

trabalhos que deram origem a Ayrton Senna – Guerreiro de Aquário:

A minha captação foi entrevistando. Como não pude entrevistar a família, entrevistando o Nuno Cobra, que era uma fonte decisiva, entrevistando muitas pessoas sobre como o impacto da morte do Ayrton Senna aconteceu com elas, escolhendo pessoas de diferentes extratos sociais, de diferentes padrões culturais, médicos, arquitetos, bancários, e ouvindo adolescentes, porque o impacto sobre a criança e o adolescente foi muito grande, eu queria ouvir adolescentes. Nessa entrevista eu tenho a pauta, mas obviamente eu procuro mais conversar do que perguntar, pra que a coisa flua, e tenho flexibilidade. Se a conversa sai do tema central, mas parece importante, eu deixo rolar um pouco e depois eu volto, porque muitas vezes na informação paralela é que surgem coisas importantes, então esse é um instrumento de captação. Um outro instrumento é a observação, dependendo do tipo de matéria, do tipo de livro, eu passo um certo momento só observando os personagens em seus ambientes, sem entrevistar, sem perguntar nada, sem conversar, às vezes até de maneira anônima, não escondido da fonte, mas assim, se a fonte trabalha em um determinado local e eu preciso mostrar como é aquele local, há momentos em que eu entrevisto e há momentos em que eu fico de maneira camuflada, não escondida, porque eu peço a concordância da fonte. O terceiro modo de captar mais convencional é a documentação bibliográfica. Eu pesquiso muito, vou atrás de conhecimento mais profundo se é uma coisa que eu não sei, vou atrás de dados factuais, estatísticos, informações bem concretas. Se é um tema mais sofisticado, vou atrás de teorias, se for necessário eu posso entrevistar especialistas pra esclarecer um certo ponto ou testemunhas de uma situação, dentro do objetivo de pauta que eu tenho. Isso completa a captação. (LIMA, 2006)

63

É interessante observar, neste trecho da entrevista, que Edvaldo não

cita os instrumentos: histórias de vida, memória e visão pluridimensional simultânea,

o que nos faz concluir que tais técnicas estão inseridas e podem ser aplicadas por

meio do uso da entrevista, da observação e/ou da documentação.

Também para Lima, a etapa da captação é exaustiva e depende

exclusivamente da percepção do autor sobre o material que tem em mãos para que

ela chegue ao fim:

[A etapa da captação vai] até eu sentir que é necessário. Geralmente, eu prefiro captar muito e ter o que jogar fora do que ficar faltando. Então eu sou muito exaustivo na captação, apesar de eu ter um foco, eu procuro abarcar muita coisa porque na hora de escrever a gente nunca sabe se de repente um ângulo apareceu, que você não tinha percebido, e pode ser rico. E daí se você não captou antes, aquilo fica pobre. E captar o quê? De tudo que você possa imaginar, de detalhes até como está vestido o personagem. A pessoa usa brinco, usa anel, usa uns óculos de tal tipo? Observar e captar todos os detalhes que me chamarem a atenção, até coisas intelectualmente muito relevantes, determinados estudos sobre o assunto, pesquisas e tal. Eu tento esgotar e eu aprender aquilo. Enquanto eu não sinto que mais ou menos eu estou compreendendo bem aquilo, eu não me sento pra escrever. Aquilo tem que se transformar numa natureza minha. (LIMA, 2006)

Lima ainda revelou que, se no momento da redação é percebido

algum viés que poderia ser melhor trabalhado, ele retorna às investigações:

Normalmente eu volto, a não ser que seja uma coisa que eu deixei de abordar mas é uma coisa super secundária e não precisa de maior abordagem. Mas se eu sentir que para o foco provável da matéria aquilo é importante, eu volto atrás. Com os entrevistados, por exemplo, eu sempre deixo a abertura pra eventualmente voltar. Com as observações também, então eu nunca fecho um assunto com a pessoa. Eu digo: "Olha, parece que acabou, mas se precisar, eu posso voltar a contatar?". A mesma coisa a documentação que eu leio, que eu acho que é suficiente, que tá feito, mas num outro momento, se eu percebo que faltou alguma coisa, eu vou atrás pra completar aquilo, desprezo quando realmente me parece que não tem muita necessidade. (LIMA, 2006)

64

4.2 Ampliando o Páginas Ampliadas – recursos técnicos

Neste ponto do trabalho, apesar de não termos encontrado em

Páginas Ampliadas nenhuma referência ao uso de equipamentos e ao modo de

condução das entrevistas e da observação, nos ateremos a este aspecto da prática

jornalística aplicada ao livro-reportagem. O ponto abordado, apesar de ser fruto de

uma liberdade nossa durante a realização das entrevistas, mostrou-se revelador em

vários aspectos, como veremos a seguir.

Caco Barcellos, quando questionado sobre o modo como registra as

informações, revelou que, além do gravador, também se utiliza de uma câmera

digital, com o objetivo de não perder detalhes físicos da cena:

Simbolicamente eu achava que tinha que ter algo entre eu e o entrevistado, embora ali esse componente não representasse nada. Pra ele se eu tivesse colocado uma pistola, aí sim, aquilo é simbolicamente importante, mas um gravador não faz parte do universo deles. Pra mim sim, mas eu queria dizer pra eles: "ó, você está dando um depoimento pra um escritor, que vai escrever um livro, pensa no que você está dizendo", mas isso não tem a menor importância para o universo deles E também porque, na hora de escrever a frase, eu posso esquecer. Eu aprendi muito com Truman Capote e com outros autores a

memorizar, mas você falha, esquece uma palavra e outra. Eu gosto de ter o ritmo da frase, então eu gravava também pra isso, pra ficar ouvindo, ouvindo. Antes de separar os capítulos eu ouvi muito o que eles falavam, então eu fiquei falando como eles também pra ajudar a

Eu levava sempre uma

escrever, eu ficava treinando ao máximo [

câmera digital porque facilita muito a visão. Você tem uma cena que aconteceu nessa sala, eu filmo tudo, toda a sala. Os tiros atingiram aquele quadro [aponta para um quadro da parede], então eu tiro

muitas fotos aí, eu filmo, porque na hora de escrever eu tenho tudo. Com câmera digital, colocava lá monitor na hora de escrever, e se esquecia alguma coisa, ia lá, ouvia, assistia. (BARCELLOS, 2006)

]

Assim como Barcellos introduziu o recurso da câmera digital para o

registro das informações, Edvaldo Pereira Lima também inovou o processo com um

instrumento por ele chamado de Mapa mental, assim explicado:

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Na minha cabeça, o propósito do livro tem que estar muito claro, qual o objetivo do livro, que aspectos ele vai abordar. Em função disso eu preparo um roteiro de captação, que busque atender a aqueles itens, aqueles sub-temas, e aí tem várias formas de processamento da captação. Uma delas é a entrevista. Na entrevista eu uso gravador. Eu prefiro sempre usar o gravador, obviamente neutralizando ao máximo a presença do equipamento, para não provocar inibição nas pessoas, e tento fazer com que a pessoa se sinta à vontade pela conversa. Esse é um processo. Outro recurso que eu uso hoje em dia, não usava na época do Ayrton porque eu acrescentei ao meu método depois, é fazer um mapa mental. Mapa mental é um registro das observações que eu estou fazendo durante a entrevista, então isso me facilita, por quê? O gravador está cuidando de gravar a fala e eu estou observando outros sinais, o olhar, o gesto, o comportamento psicológico, emocional, se a pessoa fala alguma coisa com emoção na voz, se ela fala empostadamente, segurando a emoção, o que o corpo dela está me transmitindo, o ambiente em torno eu observo. Então isso me facilita muito porque se eu ficasse tentando só gravar o que a pessoa diz, eu acho que me diminuiria a capacidade de observar os outros sinais que são importantes. (LIMA,

2006)

Entrevista, observação, documentação e pesquisa são métodos que