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Maria Aparecida de Andrade Novaes

Como se faz corpo? Considerações sobre


o ideal em Freud e Lacan

O objetivo deste artigo é abordar a constituição do eu como unidade e sua relação


com a constituição da imagem corporal a partir das noções freudianas de eu ideal e
ideal do eu, introduzidas a propósito do conceito de narcisismo, e relidas por Jacques
Lacan sob a ótica dos registros do imaginário e do simbólico. Trata-se de defender
a idéia de que a alteridade está presente na constituição egóica, alteridade esta que
se desdobra em duas funções distintas, o que faz com que um sujeito só adquira
consistência imaginária na dependência do significante e de seu lugar simbólico.
> Palavras-chave: Eu, ideal, identificação, imagem corporal

This paper discusses the constitution of the ego as a unit and its relationship with
the constitution of a body image based on Freudian concepts such as ideal ego and
ego ideal. These elements were introduced in Freud’s description of narcissism and
artigos > p. 40-47

read by Lacan within the context of the Imaginary and Symbolic registers. Here we
wish to show that alterity is present during the constitution of the ego and that this
alterity unfolds into two distinct functions and allows the subject to acquire
imaginary consistency only through dependence on the signifier and its symbolic
position.
> Key words: Ego, ideal, identification, body image
pulsional > revista de psicanálise >
ano XVIII, n. 182, junho/2005

Uma unidade comparável ao eu não pode existir desde o começo;


o eu tem de ser desenvolvido. As pulsões auto-eróticas, contudo,
ali se encontram desde o início, sendo, portanto,
necessário que algo seja adicionado ao auto-erotismo –
uma nova ação psíquica – a fim de provocar o narcisismo.
(Freud, 1914).

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Um dos grandes legados da obra freudiana, sujeito procura recuperar a perfeição nar-
além, evidentemente, da invenção do in- císica de que teria outrora desfrutado. O
consciente, talvez seja a idéia de que o eu ideal do eu seria, assim, o que o sujeito pro-
– instância a qual atribuímos não só a cons- jeta diante de si como sendo seu ideal. Ao
ciência e a percepção, mas também a expe- mesmo tempo, Freud refere-se à formação
riência de um corpo unificado; a própria do ideal como o fator condicionante do re-
unidade corporal – não é conseqüência de calque.
um processo de maturação, de um desen- Neste texto, portanto, já se apresenta a nós
volvimento natural que culminaria na sua a complexa articulação entre as noções de
formação. Proponho, neste trabalho, debru- eu ideal e ideal do eu, articulação que en-
çar-me sobre a questão da constituição do tendo como presente em toda a vida do su-
eu como unidade tendo como eixo funda- jeito, e não como uma evolução de etapas,
mental a noção de ideal, aqui entendido onde teríamos, em primeiro lugar, o eu
como a articulação entre eu ideal e ideal do ideal, em seguida abandonado, e o lugar re-
eu, proposta por Freud e relida por Lacan. tomado pelo o ideal do eu... Proponho, des-
Acredito que, por meio dessas noções, seja de já, que tanto o ideal do eu quanto o eu
possível oferecer um ponto de vista a respei- ideal sejam duas formas de alteridade ne-
to dessa “nova ação psíquica” que Freud nos cessárias à constituição do eu,1 o que se tor-
indica e nos fornece como pista. A pergun- na mais evidente somente em 1921, em
ta que move este texto é a de como se faz “Psicologia de grupo e análise do eu”, texto
corpo a partir dos ideais. no qual Freud se propõe a um exame daqui-
Por que o ideal? Em “Sobre o narcisismo: lo que para ele rege as formações grupais.
uma introdução” (1914), Freud nos apresen- Os grupos são constituídos por duas espé-
ta pela primeira vez a distinção entre eu cies de laço: os laços horizontais – laços en-
ideal e ideal do eu, e o faz nos seguintes ter- tre os membros de um grupo, entre os
mos: o eu ideal, “possuído de toda perfeição indivíduos ou, como definiu Freud, entre eus
artigos

de valor”, é aquilo em direção a que surge o – e os laços verticais – laços com o líder,
narcisismo do sujeito. Em outras palavras, sem o qual, para Freud, não haveria a pos-
parece-nos que o eu se constitui como tal sibilidade de grupo.
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tendo em face esta imagem de perfeição e O que está em jogo aí é o fato de haver duas
completude, fruto, adverte-nos Freud, do espécies de alteridade. Freud afirma que o
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próprio narcisismo dos pais. O ideal do eu, que une os membros de grupo é, além do
em contrapartida, seria uma nova forma de amor, a identificação. E a identificação en-
ideal, já atravessada pelos valores culturais, tre os semelhantes se dá tendo como con-
morais e críticos, forma através da qual o dição uma outra espécie de identificação,

1> Segundo Romildo do Rêgo Barros (1997), a alteridade se encontra no cerne da noção de ideal, tendo
sendo estendida ao eu pela psicanálise.

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que pode ser definida como simbólica, por ideal do eu – ponto no qual, segundo
ser marcada por uma parcialidade – “apenas Miller, podemos localizar a noção de Outro
um traço isolado”2 – e por estar referida à introduzida por Lacan no início de seu ensi-
função do ideal do eu, ponto que comporta no – que garante as relações egóicas e a
uma certa distância em relação ao eu, im- própria identidade do eu. Em “Psicologia
pondo a este último exigências das quais de grupo e análise do eu”, portanto, o ideal
não poderá estar nunca à altura e, ao mes- do eu é a função responsável por ordenar
mo tempo, ponto necessário de referência. e apaziguar os instáveis e agressivos laços
Para Freud, portanto, um grupo é constituí- imaginários, garantindo-lhes uma certa uni-
do por “um certo número de indivíduos que ficação e homogeneidade.
colocaram um só e mesmo objeto no lugar de Resta-nos agora pensar de que maneira
seu ideal do eu e, conseqüentemente, se este modelo nos serve para pensar não a
identificaram uns com os outros em seu eu” unidade dos grupos, mas a unidade corpo-
(Freud, 1921, p. 147). ral: como que, para cada sujeito, funcionam
Lacan, da mesma forma, em seu escrito in- os ideais, e que relação têm com o corpo,
titulado “Observação sobre o relatório de com a constituição e manutenção de uma
Daniel Lagache” (1966), afirma que unidade corporal. Para dar este próximo
passo, seguiremos com as referências de
... a questão que ele [Freud] inaugura na “Psi-
Lacan, especialmente o momento de seu
cologia das massas e análise do eu” é a de
como um objeto, reduzido a sua realidade mais
ensino conhecido como “retorno a Freud”,
estúpida, porém colocado por um certo núme- caracterizado por uma primazia do simbó-
ro de sujeitos numa função de denominador lico.
comum, que confirma o que diremos de sua O início do ensino de Lacan foi marcado
função de insígnia, é capaz de precipitar a iden- pela proposta de uma releitura de Freud bas-
tificação com o eu ideal, inclusive no débil po- tante particular, uma leitura que se organi-
der do infortúnio que no fundo ele revela ser. zou basicamente em torno de um
(p. 684)
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descentramento do sujeito do inconsciente


Segundo Jacques-Alain Miller (1991) é a em relação ao eu, por um lado, e da diferen-
função do ideal do eu que, em Freud, apon- ciação, na experiência analítica, de dois
ta para a idéia de que não se trata apenas eixos: o do simbólico e o do imaginário. Des-
de reciprocidade ou de laços regidos estri- ta forma, colocou-se como necessário, em
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tamente por uma economia narcísica: há Lacan, o desdobramento da noção de alte-


que se diferenciar esta função simbólica, ridade e seu lugar na constituição do sujei-
sem a qual a relação entre semelhantes se- to: o outro enquanto semelhante, aquele
quer seria possível. Em outras palavras, é o da relação especular, e o Outro, com maiús-

2> “Einziger Zug”, um traço único: referência freudiana ao traço unário, retomado por Lacan em seu nono
seminário, “A identificação” (1961-2).

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cula, lugar da determinação simbólica, te- identidade paradoxal e alienante, por ser do
souro dos significantes a partir do qual o su- Outro. Em outras palavras, não se trata de
jeito se constitui mediante uma operação uma identidade do sujeito consigo mesmo,
que Lacan nomeou, valendo-se da teoria o que vem a ser, aliás, uma propriedade
freudiana das identificações, de identifica- do próprio significante, como Lacan ressal-
ção ao traço unário. tou em seu nono seminário, sobre a identi-
Nesta operação, trata-se da relação inaugu- ficação.
ral entre sujeito e significante, ou, em últi- É preciso salientar, além disso, que o ideal
ma instância, da relação primeira do sujeito do eu foi entendido por Lacan como um sig-
ao campo do Outro. É justamente nesta iden- nificante que não se articula com outros sig-
tificação que o sujeito se constitui, ao fazer- nificantes, que não faz cadeia: é um
se representar por um significante do Outro. significante isolado do Outro, como dito aci-
Entretanto, esta identificação primeira, ao ma, o que faz dele não um significante qual-
comportar a inscrição do significante no su- quer, mas uma ins í g n i a ( Lacan, 1957-8,
jeito, denuncia que a relação com a coisa p. 306). A insígnia, portanto, vem ocupar o
está perdida desde sempre ou, em outros lugar da marca que chamamos de traço uná-
termos, que falta. O traço unário, segundo rio, de forma a não poder haver sujeito an-
Lacan, é o que há de mais destruído, de mais tes dessa identificação primária.
apagado deste suposto primeiro encontro O sujeito do inconsciente como essencial-
com o objeto, sendo, portanto, a marca da mente faltoso e a idéia de um sujeito que se
própria falta. Segundo Éric Laurent (1995), faz representar por um significante são es-
Lacan se refere à identificação ao traço uná- senciais à psicanálise – por explicitarem a
rio para designar o lugar original do sujeito, alteridade na constituição subjetiva –, mas
a partir do qual pode se conservar, para não podemos nos furtar a responder à ques-
além das identificações egóicas, como um tão, por exemplo, sobre o lugar do imaginá-
ponto radical e arcaico, ponto em que se su- rio e do eu nesse esquema. O que,
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põe a origem do inconsciente, a constitui- propriamente, sustenta a relação do sujeito


ção do sujeito do inconsciente. com o traço, com a marca significante? De
A identificação ao traço unário é uma ope- que forma se conjugam corpo e marca?
ração que consiste em uma negativização, já Marca, traço unário, significante, ideal do
que se trata da marca de uma falta; de sua eu, são termos referentes ao simbólico, e
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inscrição. É justamente aí que vem se inscre- que Lacan tomou como fundamentais na
ver o ideal do eu: ocupando o lugar da falta constituição do sujeito. Não podemos, no en-
e organizando-a, dando-lhe consistência. tanto, pensar o sujeito sem os registros do
O ideal do eu é entendido por Lacan como imaginário e do real. No presente trabalho,
um significante isolado do Outro, grafado me ocuparei essencialmente das relações
como I(A); significante ao qual o sujeito se entre simbólico e imaginário na constituição
identifica e que traz em si a idéia de uma do corpo, sem deixar de reconhecer, porém,

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o lugar do real nesta montagem.3 Diante dis- sua estrutura rígida todo o seu desenvolvimen-
so, há que se perguntar como se constitui, to mental. Assim, o rompimento do círculo do
por exemplo, a imagem na qual o sujeito se Innenwelt para o Umwelt gera a quadratura
inesgotável dos arrolamentos do eu. (1966,
reconhece, como se constitui sua unidade
p. 100)
corporal, a representação de si mesmo, se
assim podemos dizer. Temos, portanto, ideal do eu e eu ideal como
Ao mesmo tempo em que o ideal do eu é um as duas alteridades em jogo na constituição
ponto de alteridade a partir do qual o sujei- subjetiva: respectivamente, alteridade sim-
to se constitui na sua singularidade, como bólica e imaginária. Não foi, porém, separa-
sujeito do significante, o eu ideal é a imagem damente que Lacan as tomou, e nisso vemos
da qual o sujeito vai se servir para que se claramente a herança freudiana.
constitua tanto sua imagem corporal quan- Já em seu primeiro seminário (1953-4), Lacan
to a realidade – já que essa imagem será o aborda a articulação entre as noções de eu
paradigma de todas a formas de semelhan- ideal e ideal do eu a propósito do texto freu-
ça que vai aplicar aos objetos. Esta é a gran- diano sobre o narcisismo. Ali, ele afirma que
de tese defendida por Lacan em seu escrito uma unidade comparável ao eu constitui-se
“O estádio de espelho como formador da num dado momento da história do sujeito –
função do eu”, onde nos fala de uma iden- o que já vimos com Freud – e que “o eu hu-
tificação que compreende uma transforma- mano se constitui sobre o fundamento da
ção no sujeito quando ele assume uma relação imaginária” (ibid., p. 137). Partindo
imagem. Esta idéia nos situa uma outra es- da idéia, sustentada pela etologia, de que a
pécie de alteridade em jogo na constituição mecânica sexual “é essencialmente cristali-
subjetiva: zada numa relação de imagens, numa rela-
ção (...) imaginária” (ibid., p. 144), e levando
... o estádio do espelho é um drama cujo im-
pulso interno precipita-se da insuficiência em conta o fato de que “os comportamentos
para a antecipação – e que fabrica para o su- sexuais são especialmente lográveis” (ibid.,
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jeito, apanhado no engodo da identificação es- p. 145), Lacan nos apresenta, segundo suas
pacial, as fantasias que se sucedem desde uma próprias palavras, “um ensino que nos inte-
imagem despedaçada do corpo até uma forma ressa para elaborar a estrutura das perver-
de sua totalidade que chamaremos de ortopé- sões e das neuroses”. Com a elaboração de
dica – e para a armadura enfim assumida de
seu esquema óptico,4 Lacan aborda a cons-
uma identidade alienante, que marcará com
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3> Referência à articulação dos três registros fundamentais – Real, Simbólico e Imaginário, ou R, S e I –
pensados por Lacan. Essa repartição dos três registros colocou-se como necessária para Lacan, tendo o
acompanhado do início até o final de seu ensino. Segundo Jacques-Alain Miller, “R é sempre aquilo que é
da ordem do dado, que tem um certo valor bruto; I é aquilo que é representado, a representação sendo
concebida como imagem; e S é o que é articulado e estruturado como uma linguagem” (2002, p. 10).
4> Uma espécie de apresentação óptica do estádio do espelho. Para mais detalhes, ver o Seminário 1 de
Lacan (Os escritos técnicos de Freud – A tópica do imaginário). O esquema óptico é retomado por Lacan

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tituição da imagem corporal unificada, uma Retornando à questão de que no mundo
imagem que só se dá como tal dependendo animal o comportamento sexual é domina-
da posição do olho em relação àquilo que é do pelo imaginário, Lacan se pergunta como
visto: seria no homem. No animal, segundo ele, há
uma coincidência entre o objeto real e a
... é preciso que vocês se encontrem coloca-
imagem, o que a reforça, lhe dá corpo, tra-
dos num certo ângulo. Sem dúvida, segundo as
diferentes posições do olho que olharia, pode-
zendo a estes objetos uma organização ima-
ríamos distinguir certo número de casos que ginária, a partir da qual desencadeiam-se
nos permitiriam talvez compreender as diferen- comportamentos que guiarão o sujeito para
tes posições do sujeito em relação à realida- seu objeto, por intermédio da imagem. No
de. (Ibid., p. 146) homem, porém, “as manifestações sexuais
se caracterizam por uma desordem eminen-
Eis aí uma chave para pensarmos a articula-
te” (ibid., p. 162), de modo que as imagens,
ção entre eu ideal e ideal do eu, na qual
seja nas neuroses, seja nas perversões,
deve se levar em conta a relação da consti- apresentam uma espécie de fragmentação,
tuição da realidade e o relacionamento com despedaçamento, inadaptação e inadequa-
a forma do corpo. ção. Segundo Lacan,
Segundo Lacan, a identificação ao ideal do
eu ... há aí como que um jogo de esconde-escon-
de entre a imagem e seu objeto normal – se é
... permite ao homem situar com precisão a que adotamos o ideal de uma norma no fun-
sua relação imaginária e libidinal ao mundo em cionamento da sexualidade. Como poderíamos
geral. Está aí o que lhe permite ver no seu lu- então representar o mecanismo pelo qual essa
gar, e estruturar, em função desse lugar e do imaginação em desordem chega finalmente,
seu mundo, seu ser. (...) O sujeito vê o seu ser não obstante, a preencher sua função? (Ibid.,
numa reflexão em relação ao outro, isto é, em p. 162)
relação ao ideal do eu. (Ibid., p. 148)
Do que se trata, pergunta-se Lacan, senão
Desta forma, Lacan coloca como necessária de ver qual é a função do outro, do outro
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a distinção entre as funções do eu: por um humano, na adequação do imaginário e do


lado, elas desempenham para o homem um real?
papel fundamental na estruturação da rea- Se a desordem e a fragmentação não apare-
lidade; por outro, elas devem no homem cem como tal, isso depende de outro fator:
passar por esta alienação fundamental que “... a regulação do imaginário depende de
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constitui a imagem refletida de si mesmo. algo que está situado de modo transcenden-

no Seminário 8, “A transferência” (1960-1), no qual ele afirma que “é na medida em que o terceiro, o gran-
de Outro, intervém na relação do eu com o pequeno outro, que algo pode funcionar, algo que acarreta a
fecundidade da própria relação narcísica” (p. 342). Em seguida, ele afirma que “a referência ao Outro vem
desempenhar aí uma função essencial. Não é forçar essa função articulá-la dessa maneira, e situar, as-
sim, aquilo que se ligará, respectivamente, ao eu ideal e ao ideal do eu na continuação do desenvolvimen-
to do sujeito” (p. 342).

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te (...), o transcendente no caso não sendo ração egóica correspondente à maneira pela
aqui nada mais que a ligação simbólica en- qual o sujeito quer ser reconhecido) e mode-
tre os seres humanos” (ibid., p. 164). Em se- lo (matriz simbólica para essa pretensão; um
guida, Lacan afirma que é a relação ponto de referência; o Outro, de onde me
simbólica que define a posição do sujeito posso ver como capaz de ser amado; lugar
como aquele que vê, sendo, portanto, a pa- simbólico de onde o sujeito adquire sua con-
lavra, a função simbólica que define o sistência imaginária).
maior ou menor grau de perfeição, de com- Lacan, no Seminário 8, se pergunta sobre
pletude, de aproximação, do imaginário, o “as conseqüências no que se refere à econo-
que pode ser entendido a partir da articula- mia do eu ideal e do ideal do eu, e a relação
ção entre o eu ideal e o ideal do eu: destes com a preservação do narcisismo”
(p. 329), introduzindo dois exemplos, tam-
O ideal do eu comanda o jogo de relações de
que depende toda relação a outrem. E dessa
bém discutidos por Barros em seu artigo: “...
relação a outrem depende o caráter mais ou o filhinho de papai ao volante de seu carri-
menos satisfatório da estruturação imaginária. nho esporte” e “Marie-Chantal, que se ins-
(Ibid., p. 165) creve no Partido Comunista para chatear o
pai”. A maneira como ambos querem ser re-
E mais: Lacan, ao se perguntar sobre o de- conhecidos – suas aspirações – onde loca-
sejo e a posição do sujeito na estruturação lizamos o plano do eu ideal (um primeiro
imaginária, afirma que plano do ideal no qual, segundo Barros, é
... esta posição não é concebível a não ser que evidente a existência de uma configuração
um guia se encontre para além do imaginário, egóica) encontra-se na dependência do ideal
ao nível do plano simbólico, da troca legal que do eu. Este, segundo Lacan,
só pode se encarnar pela troca verbal entre os
... que tem a mais estreita relação com o de-
seres humanos. Esse guia que comanda o su-
sempenho e a função do eu ideal, é simples-
jeito é o ideal do eu. (Ibid., p. 166)
mente constituído pelo fato de que, de saída,
Dessa necessária articulação entre eu ideal se ele tem seu carrinho esporte, é porque ele
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e ideal do eu, podemos extrair algumas con- é o filho de boa família, o filhinho de papai (...)
seqüências clínicas. Romildo do Rêgo Barros e se Marie-Chantal, como vocês sabem, se ins-
(1997) trabalhou tais noções valendo-se das creve no Partido Comunista, é para chatear o
pai. (Lacan, 1960-1, p. 330)
formulações de Lacan a respeito do tema no
Seminário 8, “A transferência” (1960-1) e no Em outras palavras, os dois jovens organi-
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escrito “Observação sobre o Relatório de zam-se subjetivamente de modo que o pai,


Daniel Lagache” (1966), sendo este último o sob a forma do ideal do eu, funciona como
texto em que Lacan concebe eu ideal e um significante de onde possam se contem-
ideal do eu respectivamente como aspiração plar, seja ao volante do carro, seja brandin-
(o que se pretende ser; ser um eu que nun- do a carteira do Partido Comunista.
ca sou completamente, mas que me define. A partir desta distinção, a questão que se
Eu aspiro ser a imagem do semelhante que coloca, segundo Barros, é a de saber de que
me oferece a experiência especular; configu- lugar simbólico o sujeito adquire sua consis-
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tência imaginária ou, ainda, localizar a par- Referências
tir de que lugar a aspiração é capaz de dar BARROS, R. R. Eu ideal, ideal do eu e o resto. La-
sustentação ao sujeito. Com isso, na direção tusa – Escola Brasileira de Psicanálise, Rio de
de uma análise, trata-se Janeiro, n. 1, p. 19-33, 1997.
... de fazer ver ao sujeito a diversidade de re- FREUD, S. Edição Standard Brasileira das Obras
gistros que há entre o gênero que ele faz, ima- Psicológicas Completas. 2. ed. Rio de Janeiro:
ginário , e o ideal do Outro, simbólico . Esta Imago, 1987.
disjunção tem por conseqüência o desvelamen- _____ (1914). Sobre o narcisismo: uma intro-
to – um tanto aflito, por vezes – do desejo do dução. In: Edição Standard Brasileira das Obras
sujeito. (Barros, 1997, p. 30) Psicológicas Completas. 2. ed. Rio de Janeiro:
Imago, 1987. v. XIV, p. 83-119.
Isso marcaria o início de uma análise, o que
Lacan chamou de retificação subjetiva. _____ (1921). Psicologia de grupo e análise do
Fica bastante evidente, portanto, a neces- eu. In: Edição Standard Brasileira das Obras
sária relação entre essas duas alteridades, Psicológicas Completas. 2. ed. Rio de Janeiro:
eu ideal e ideal do eu, para se constituir Imago, 1987. v. XVIII, p. 87-179.
uma unidade corporal, isto é, para que o su- LACAN, J. (1953-4). O seminário. Livro 1. Os escri-
jeito tenha uma representação unificada de tos técnicos de Freud. Rio de Janeiro: Jorge
si mesmo, ainda que tal representação seja Zahar, 1979.
marcada por uma margem de instabilidade, _____ (1957-8). O seminário. Livro 5. As for-
marca da incidência do significante – no mações do inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge
caso, a função do ideal do eu – que permite Zahar, 1999.
que a imagem não seja imóvel, mas que _____ (1960-1). O seminário. Livro 8. A trans-
comporte movimento, uma certa flexibilida- ferência. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.
de. Dentro desta perspectiva que articula _____ (1961-2). O seminário. Livro 9. A iden-
imaginário e simbólico, podemos dizer que o tificação. Inédito.
corpo conjuga, portanto, necessariamente, _____ (1966). Escritos. Rio de Janeiro, Jorge
imagem e significante.
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Zahar, 1998.
A imagem, paradoxalmente, é aquilo de que
LAURENT, E. Sobre a entrada em análise. Opção
depende o significante para ganhar corpo,
Lacaniana – Revista Brasileira Internacional de
ao mesmo tempo em que, sem o significan- Psicanálise, São Paulo, n. 12, p. 5-24, abr/1995.
te, não pode adquirir movimento. Nossas
MILLER, J.-A. Logicas de la vida amorosa. Buenos
pistas para a pergunta sobre como se faz
ano XVIII, n. 182, junho/2005

Aires: Manantial, 1991.


corpo são essas inicialmente: a imagem
atravessada pelas insígnias, e estas, ao mes- _____ O real é sem lei. Opção Lacaniana –
mo tempo, sustentadas pela imagem para Revista Brasileira Internacional de Psicanálise,
São Paulo, n. 34, p. 7-16, out/2002.
que tenham sentido. Temos, assim, a articu-
lação entre dois registros, simbólico e ima-
ginário, expressa na relação entre as noções Artigo recebido em abril de 2004
freudianas de eu ideal e ideal do eu. Aprovado para publicação em março de 2005

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