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prévia autorização do editor.

Título: “Quem é o meu próximo?”


Autor: Paulo Borges
Capa: Ana Warrell
Paginação: Patrícia Gil
Fotografia do autor: Adama
Impressão: Realbase
ISBN: 978-989-8522-47-4
Depósito Legal nº:
1ª Edição: junho 2014

EDIÇÕES MAHATMA
Tlm: 967319952
edicoesmahatma@mail.com
www.edicoes-mahatma.com
Índice
Prefácio......................................................................................................................................................................................................................................... 7
Introdução............................................................................................................................................................................................................................. 11

I - Fundamentos.............................................................................................................................................................................................. 15

Quem é o meu próximo? Senciência, empatia e ilimitação..................................................... 17


Eu, Nós e os Outros. Para um repensar não
antropocêntrico da ética, da sociedade e da política............................................................................ 35
A questão dos direitos dos animais. Para
uma genealogia e fundamentação filosóficas.................................................................................................... 52

II - Desenvolvimentos...................................................................................................................................................................... 81

O que esperar do Papa Francisco


e de todos os líderes espirituais e religiosos?..................................................................................................... 83
Entrar na Grande Empatia, na Grande
Conversa e na Grande Lucidez.................................................................................................................................................. 90
Quem é o meu próximo?...................................................................................................................................................................... 92
Colocar-se no lugar do outro........................................................................................................................................................ 94
Superar o antropocentrismo e o especismo.
Por um novo paradigma mental, ético e civilizacional.................................................................... 96
Reduzir o consumo de carne: um imperativo
ético pelo bem das pessoas, dos animais e da Terra.............................................................................. 99
Repensar o sentido da Cultura................................................................................................................................................. 105
A mulher entre Cristo e Buda.................................................................................................................................................... 109
A redescoberta da meditação..................................................................................................................................................... 112
A urgência da meditação.................................................................................................................................................................... 114
A verdadeira causa do nosso mal-estar..................................................................................................................... 117
Abrir portas............................................................................................................................................................................................................... 120
Breve reflexão sobre a tauromaquia................................................................................................................................ 122
Dois Natais, duas Festas dos Loucos.............................................................................................................................. 124
O que há nesta simples folha de papel........................................................................................................................ 128
Outro mundo é possível. Até no futebol................................................................................................................. 131
Sonhar que se voa........................................................................................................................................................................................... 134
O que é o amor?................................................................................................................................................................................................. 136
Sobre a nostalgia e a saudade...................................................................................................................................................... 138
Dioniso, Pã, Lusitânia e Portugal......................................................................................................................................... 140
“Nós, Portugal, o poder ser”......................................................................................................................................................... 143
Um desígnio para Portugal............................................................................................................................................................. 146
Lisboa, a vocação de Portugal e o novo paradigma civilizacional.............................. 148
Por uma outra Europa............................................................................................................................................................................. 150

III. À Queima-Roupa (textos de intervenção nas redes sociais)........................ 155

Greve Geral................................................................................................................................................................................................................ 157


Fim de Ano, início de quê?............................................................................................................................................................. 160
Páscoa: uma reflexão incómoda............................................................................................................................................ 163
Mensagem e Apelo de Natal......................................................................................................................................................... 165
Mensagem de Natal: Que nasça Hoje
e Sempre uma consciência ética universal!......................................................................................................... 167
Votos de um 2012 radical.................................................................................................................................................................. 170
Por um verdadeiro 25 de Abril,
por uma verdadeira Revolução, pelo bem de todos os seres!.............................................. 172
Pela união das causas humana, animal e ecológica,
por um novo Portugal e por uma nova civilização................................................................................ 178
Não sejamos cúmplices do holocausto pascal............................................................................................... 180
Sobre a Tortura dos Humanos e dos Animais
(sobre o livro de José Sócrates, o prefácio de Lula da Silva e o posfácio de Eduardo Lourenço)........ 182
Uma Epifania.......................................................................................................................................................................................................... 186
O Paradoxo do 1 de Maio: Celebrar o Trabalho?..................................................................................... 188
No 8 de Março, Dia Mundial da Mulher, celebrar o Feminino........................................ 190
D. Sebastião e o Encoberto interior................................................................................................................................. 192
Independência, dependência ou interdependência de Portugal?................................ 193
Para uma nova política internacional portuguesa.................................................................................. 195
Vários................................................................................................................................................................................................................................... 199

IV. Manifestos..................................................................................................................................................................................................... 241

Manifesto-Movimento pela Cultura............................................................................................................................... 243


Carta pela Compaixão Universal......................................................................................................................................... 249

Origem dos Textos................................................................................................................................................................................................ 256


Quem é o meu Próximo?

Prefácio
Este livro compõe-se de duas partes claramente diferenciadas, po-
dendo até admitir-se que se trata de dois livros num só volume.

A primeira parte, de carácter ideológico, constitui um ensaio filo-


sófico notável, algo que nos esclarece acerca dos princípios éticos -
mas também estéticos, cívicos e de muitas outras ordens - que deram
forma a um movimento de cidadania cujo reconhecimento à escala
mundial constitui apenas uma questão de tempo.

Dada a imensa quantidade dos erros barbáricos e absurdos que já se


cometeram e continuam a cometer, preocupa-me saber se, em muitos
aspectos fundamentais, não será demasiado tarde para se retroceder
em certos caminhos percorridos, ao longo dos tempos, pela socieda-
de humana, a qual, a despeito das suas inquestionáveis qualidades ao
nível da actividade intelectual e criativa, não deixa de ser apenas mais
um dos incontáveis (e até mais recentes…) hóspedes deste planeta a
que chamou Terra.

A questão do direito consuetudinário já deixou de funcionar - se


acaso alguma vez funcionou… - como alibi para os disparates e para
a cegueira mental que tem levado o Homem, animal de múltiplas va-
lências e talvez ainda maiores potencialidades, a não compreender
que o problema básico da sobrevivência está no seu relacionamento
com o mundo que o rodeia e no abandono da “vã cobiça de mandar”
a que já Camões fez tão genial referência.

Com efeito, a verdadeira força não está no comando, mas sim na


capacidade de partilhar e con-viver.

Não se trata, penso eu, de abdicar ou mesmo de modificar aspec-


tos fulcrais da nossa própria natureza - não isenta de aspectos con-

7
Paulo Borges

troversos e até aparentemente contraditórios -, mas de interpretar e


concertar a nossa presença na Terra quanto possível de acordo com
princípios que sejam comuns a todas as formas de Vida.

Estamos longe de entender o cerne de vários comportamentos fun-


damentais dos nossos companheiros de aventura, o que até constitui-
rá um fundamento para que não se imite ou tente reproduzir aquilo
que escapa à nossa compreensão. Mas o principal princípio da sabe-
doria está na definição dos limites, mesmo que se encarem como pro-
visórios, incluindo-se neste caso uma total compreensão das coisas
que se passam à nossa volta.

Lá virá decerto o dia propício para as entender.

Mas, até lá, há que admitir, por exemplo, que aquilo que nós ve-
mos com os nossos dois olhos virados para a frente não é menos real
do que as imagens que uma baleia efectivamente também vê com
dois olhos focados em direcções opostas. E a percepção da realidade
através dos múltiplos olhos de uma mosca não significa que ela viva
baralhada - ou esteja errada - em relação àquilo que efectivamente
visualiza.

Se os sentidos transmitem as informações que o cérebro irá depois


descodificar, parece-me evidente que a nossa interpretação da reali-
dade que nos cerca deverá ser muitíssimo diferente daquela que che-
ga ao entendimento de um cão, que cheira trinta e tal vezes mais do
que nós, de uma águia que vê cem vezes mais, de um golfinho que
ouve sons e ruídos a distâncias incomensuráveis, ou de uma formiga
que centraliza no sentido do tacto toda a base da sua orientação e
defesa da vida.

Ao lado da destreza corporal de um macaco, a ginástica de um atle-


ta olímpico também poderia encarar-se como uma série quase bur-
lesca de movimentos trôpegos, mas considero que seria de uma falta
de senso penosa admitir que a Natureza criara seres que vivessem
enganados em relação às realidades que os rodeiam, centrando-se

8
Quem é o meu Próximo?

nas capacidades de percepção de uma determinada criatura de duas


pernas o paradigma do perfeito entendimento.

Considero assim que o título da peça de Pirandello, “Para cada um


sua verdade”, peca na escolha da última palavra. Ou seja: para cada
um sua realidade, sendo certo que existirá uma verdade superior que
é comum a todos.

E essa verdade comum parece-me relacionar-se com tudo aquilo


que represente a defesa da Vida.

A análise da Vida, da sua origem, do seu devir e do seu significado


é matéria filosófica inesgotável, e a primeira parte deste livro de Paulo
Borges representa para mim algo de surpreendente, tanto pela lucidez
que se apoia numa fortíssima preparação cultural, como pela cora-
gem que deriva de uma não menos forte confiança nas suas ideias e
sentimentos.

A segunda parte do livro - ou o segundo livro deste volume… - é de


carácter programático, e define quais as linhas que o Autor considera
mais ajustadas à eficácia de um novo Partido dentro do actual pano-
rama social, político e económico.

Hamlet assinalava a existência de muitas mais coisas no céu e na


terra para além daquelas que existiriam na vã filosofia do seu amigo
Horácio.

A filosofia nunca será vã, podendo em último caso denunciar aqui-


lo que exista de errado e de nocivo no pensamento de alguém, mas
uma boa expressão literária dá sempre força a qualquer teoria.

E tanto no campo ideológico e filosófico como naqueles terrenos


mais pragmáticos que é indispensável pisar quando se procura cimen-
tar as bases de um partido com capacidade interventiva na sociedade,
a lucidez e a honestidade mental e ética do Autor, mesmo quando ro-
çam uma certa intransigência, também merecem todo o meu elogio.

9
Paulo Borges

Há que ser particularmente exigente em relação àqueles em quem


mais confiamos, pois é neles que depositamos as nossas mais funda-
mentadas esperanças.

Essa exigência surge, por exemplo, na parte programática deste li-


vro em relação à figura - para mim tão surpreendente como até ines-
perada - do Papa Francisco. É evidente que, por detrás de um Papa
está, por inerência, um chefe de Estado, o qual não poderá responder
a tudo aquilo que dele se exige.

Acerca disso, não construo ilusões.

Mas por detrás deste chefe de Estado surge-nos a figura rara de um


grande Homem que é ao mesmo tempo um apaixonado defensor da
Vida, razão pela qual a sua escolha como figura a quem tanto se exige
- mais ainda do que será possível esperar que faça - também merece
todo o meu apoio.

António Victorino D’Almeida

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Quem é o meu Próximo?

Introdução
Reunimos neste volume ensaios e textos muito recentes, que vão de
2010 até ao corrente ano de 2014, unidos por uma mesma intenção e
objectivo: repensar criticamente os fundamentos das representações,
imaginário e práticas dominantes na actual civilização mundializada
à luz da proposta de uma ética global e de um novo paradigma cultu-
ral e civilizacional, que consideramos mais afins à natureza sistémica
e holística do real e aos imperativos de transformação da consciência
e da acção humanas daí decorrentes. Em resumo, trata-se de fazer a
crítica de um ciclo de cultura e civilização antropocêntricas, em que
o ser humano se imaginou o centro e o dono do planeta e que, na sua
deriva produtivista, consumista e capitalista, cremos estar a aproxi-
mar-se de uma crise terminal - pelo esgotamento dos recursos natu-
rais e dos combustíveis fósseis, pela destruição da biodiversidade e da
diversidade cultural, pela crescente injustiça económica e social, pelo
galopante mal-estar existencial e pelo avolumar do sofrimento gera-
do na comunidade dos seres vivos, humanos e não-humanos - , de-
fendendo uma outra possibilidade de habitar humanamente a Terra,
em que a desconsideração e instrumentalização do outro, humano,
animal ou natureza, seja substituída pela cultura de uma consciência
e de uma ética globais, uma cultura do cuidado e do empenho na
realização do bem comum a todos os seres vivos, aos ecossistemas
e ao planeta, inseparáveis no seio de uma totalidade interconectada.
Com isto não propomos que se anule ou relativize a singularidade
do ser humano, mas antes que plenamente se assuma como aquele
que é capaz de se tornar consciente do bem comum a tudo e a todos e
de se responsabilizar pela sua realização, da qual depende a realização
desse supremo potencial humano. É essa diferença que, em vez de o
levar a considerar-se superior aos demais seres e destinado a, ou legi-
timado no, dominá-los e utilizá-los a seu bel-prazer, como até hoje, o
deve conduzir a converter-se no seu humilde servidor, zelando pela
realização da aspiração fundamental da comunidade dos viventes a

11
Paulo Borges

uma vida boa, embora diversificada segundo as espécies, nas quais se


inclui a humana. Tudo se resume a transitarmos do dominar para o
libertar, do servir-se para o servir, do violentar para o cuidar, sarar e
regenerar. Em suma, do poder para o amor consciente.
Nesta transição – e daí o título do livro – é fundamental repensar a
noção bíblica de próximo, retomando o sentido da parábola do Bom
Samaritano, contada por Cristo precisamente em resposta à questão
“Quem é o meu próximo?” (Lucas, 10, 29-37). Nesta parábola trans-
mite-se que o próximo não está previamente definido como o que
pertence ao mesmo grupo que eu, sendo antes todo aquele e tudo
aquilo de quem eu for capaz de me aproximar, porventura ao ponto
de o sentir íntimo e inseparável de mim, mediante um alargamento
da consciência para além da dualidade sujeito-objecto e das relações
mais imediatas, numa abertura empática e simpática, amorosa e com-
passiva, do espírito e do coração, do espírito-coração, a tudo e todos,
existentes, viventes e sencientes. Nesta experiência o meu próximo
não é apenas o que pertence ao mesmo grupo familiar, profissional,
social, económico, nacional, étnico, cultural, linguístico, político ou
religioso, nem o que pertence à mesma espécie, ao mesmo planeta ou
à mesma galáxia. Nesta experiência o meu próximo não tem de ter
duas pernas e dois braços, podendo também ter quatro patas, muitas
ou nenhuma, caule, tronco, folhas, flores e frutos. Não tem de ter ca-
belos e pele nua, podendo também ter pêlos, penas, carapaça, escamas
e casca. Pode não só viver sobre a terra, mas também rastejar no seu
seio, nadar nas águas e voar e brilhar nos céus. Pode não ter uma vida
individual e ser também a própria terra, as areias, as pedras, as rochas,
os minerais, as águas, os ventos, o fogo e a energia que em tudo isso
circula. Pode não falar a minha linguagem e em vez disso miar, ladrar,
zumbir, uivar, cacarejar, grunhir, mugir, relinchar, rugir, trinar, gras-
nar, trovejar, soprar, relampejar, chover, florir, frutificar, repousar ou
mover-se em silêncio. Pode não ter forma e ser invisível. Não tem de
ter vida consciente e senciente e não tem sequer de ter vida. Basta que
exista. Não tem de ser algum ser ou coisa e pode ser tudo.
Reunimos aqui textos procedentes de circunstâncias diversas, des-
de conferências e artigos académicos até colaborações mais breves em
revistas, como a CAIS, e uma selecção de publicações mais interven-

12
Quem é o meu Próximo?

tivas, mas que procurámos que nunca fossem superficiais, no nosso


blogue É a Hora! e sobretudo na rede social Facebook, na qual temos
tido uma presença constante nos últimos anos em defesa das causas
que assumimos. Além disso, destacamos os dois textos finais – o Ma-
nifesto-Movimento pela Cultura e a Carta pela Compaixão Univer-
sal (este em co-autoria com Daniela Velho) - , que muito prezamos,
pois resumem o essencial da mensagem que sentimos necessidade de
partilhar com os leitores e com o mundo, nesta Hora de encruzilha-
da e crise planetária da civilização. Estes dois últimos textos estão a
originar iniciativas divulgadas on line e na mesma rede social Face-
book, apoiadas por várias personalidades nacionais e internacionais
(a Carta pela Compaixão Universal já colheu os mais que honrosos
e muito estimulantes apoios do XIV Dalai Lama e de Satish Kumar,
editor da revista Resurgence & Ecologist e director de programas do
Schumacher College).
Procuramos conciliar nestes textos a nossa habitual reflexão teóri-
ca com uma tónica interventiva que exorta à mudança profunda das
consciências e à acção cívica, a exemplo do que nós próprios temos
procurado fazer nos últimos anos. Transitamos assim da esfera da es-
piritualidade, da metafísica e da ontologia para a de uma ética global,
não antropocêntrica, inseparável da teoria crítica da cultura e da civili-
zação e do vislumbre e proposta das suas implicações sociais, políticas,
económicas e ambientais. Acreditamos ser possível um outro mundo,
ou seja, uma outra forma de percepcionar, habitar e viver neste mun-
do, melhor para todos os seres, e esperamos que estes textos contri-
buam, minimamente que seja, para a comum tarefa de o criarmos.

Paulo Borges
Lisboa, Penha de França, 15 de Abril de 2014

13
Paulo Borges

14
Quem é o meu Próximo?

I
Fundamentos

15
Paulo Borges

16
Quem é o meu Próximo?

Quem é o meu próximo?


Senciência, empatia
e ilimitação

Interrogado pelos fariseus acerca de “qual o maior mandamento da


Lei”, Cristo respondeu “Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu cora-
ção, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Esse é o maior
e o primeiro mandamento. O segundo é semelhante a esse: Amarás
o teu próximo como a ti mesmo. Desses dois mandamentos depen-
dem toda a Lei e os Profetas” (Mateus, 22, 39). Esta resposta, que cita
duas passagens do Deuteronómio (6, 5) e do Levítico (19, 18), orien-
tou idealmente a ética do Ocidente cristão, sobrevivendo na versão
laica com o segundo mandamento, que impulsionou os movimentos
sociais e humanitários dos séculos XIX e XX. Notamos todavia que
Cristo não se limitou ao “maior” mandamento e fez questão, não só
de indicar um segundo, mas de o assumir como “semelhante” ao pri-
meiro, reduzindo explicitamente a suposta distância entre eles. O que
se confirma ao acrescentar que os “dois mandamentos” são o cerne de
toda a revelação bíblica.

O amor integral a Deus e um amor ao próximo idêntico ao amor


de cada um a si mesmo são para Cristo o centro da vida ética e espi-
ritual. Os dois amores tendem aliás a convergir em Cristo num mes-
mo amor unitivo, se tivermos em conta a oração de Jesus ao Pai no
Evangelho segundo São João: “para que sejam um, como nós somos
um”; “a fim de que todos sejam um” (17, 21-23) – o que não deixa de
evocar a escatológica visão de São Paulo de um Deus que virá a ser
“tudo em todos” (1 Coríntios, 15, 28). A tradição judaico-cristã da
qual somos herdeiros, mesmo nas versões ateia e agnóstica que sa-
crificam o primeiro mandamento, transmitiu-nos um entendimento
pouco questionado desses dois objectos do amor como sendo, res-
pectivamente, o Deus criador e os seres humanos, criados à sua ima-

17
Paulo Borges

gem e semelhança, excluindo a restante criação, que existiria apenas


para ser dominada pelo homem (Génesis, 1, 26)1. Não obstante inter-
pretações mais suaves, benévolas e alternativas deste domínio2, mais
conformes aliás à clara bondade intrínseca de tudo o que Deus cria
antes do homem, mundo natural e seres vivos (Génesis, 1, 1-24), e à
versão de que Deus cria o homem apenas para “cultivar” e “guardar”
o jardim do Éden (Génesis, 2, 15), o facto é que da narrativa bíblica
se derivaram algumas das maiores justificações do antropocentrismo
ocidental, que reforçou num novo sentido tendências oriundas do
Neolítico, da cultura indo-europeia e das matrizes greco-romanas e
hoje - com a globalização capitalista, a explosão demográfica e o au-
mento exponencial do poder industrial e tecnológico - resulta na de-
vastação do planeta, na desconsideração dos animais não-humanos e
na manutenção de dezenas de biliões desses seres, com sensibilidade
e sentimentos semelhantes aos nossos, em campos de concentração,
escravatura e tortura, piores que Auschwitz3, para satisfazer a ganân-
cia das multinacionais da carne e a gula dos consumidores dos países
ditos desenvolvidos.

Importa contudo questionar a interpretação dos textos, sobretudo


os que se consideram sagrados e mais suscitam o apetite de instru-
mentalização por interesses inconfessados. Cabe questionar e rein-
terpretar o sentido atribuído aos dois mandamentos formulados por
Cristo. Na verdade, o que é Deus? A palavra “Deus” procede da raiz
indo-europeia dei, que significa “tudo o que brilha”, de onde vem o
português dia. Neste sentido, Deus pode interpretar-se não como um
ente, distinto do homem e do mundo, mas antes como a originária
irrupção da luz da consciência que permite em todos os seres a ex-
periência sensível e inteligível do mundo. Todavia, se remontarmos à

1. Cf. a polémica tese de L. WHITE, “The historical roots of our ecological crisis”, Science, 55 (10
de Março de 1967), pp.1203-1207.
2. Cf. Leonardo BOFF, Ecologia: grito da terra, grito dos pobres, Rio de Janeiro, Sextante, 2004; Arne
NAESS, Écologie, communauté et style de vie, tradução e prefácio de Charles Ruelle, Éditions MF,
2008, pp.267-275. Cf. as referências bibliográficas indicadas em AAVV, Éthique de l’environnement.
Nature, valeur, respect, textos reunidos e traduzidos por H.-S. Afeissa, Paris, J. Vrin, 2007, pp.97-98,
notas 1 e 2.
3. Recordemos a afirmação de Theodor Adorno: “Auschwitz começa sempre que alguém olha para
um matadouro e pensa: são apenas animais”.

18
Quem é o meu Próximo?

matriz hebraica, o que se designou como Deus, e precipitadamente se


homologou à categoria helénica de “Ser”, é antes isso que, interrogado
por Moisés, se recusa nomear-se ou se nomeia como uma vida em
devir aberto e indeterminado, pois interdependente do homem e do
mundo com os quais se processa em relação cocriadora: “ ‘ ehyeh aser
‘ ehyeh” (Êxodo, 3, 13-14), “serei o que serei; tornar-me-ei o que me
tornarei”4. O mandamento do amar a Deus pode ser assim reinterpre-
tado como o imperativo de amar integralmente essa luz da consciência
e/ou essa vida em devir emergentes como o fundo sem fundo de tudo o
que se percepciona como seres e coisas, ao ponto de, pela intensidade
e plenitude desse amor, o amante e o amado se identificarem ou pelo
menos se não poderem separar.

E quem é o meu próximo? Próximo vem do latim proximus, super-


lativo de prope (“perto, próximo”), do verbo appropiare, que significa
“aproximar-se”. O meu próximo será pois aquele que pertence à parti-
da a uma mesma e determinada comunidade de funções e atributos,
circunstâncias, interesses ou afectos, ou seja, aquele que pertence ao
mesmo grupo familiar, profissional, social, económico, nacional, ét-
nico, cultural, linguístico, político ou religioso? Será aquele que per-
tence à mesma espécie, ao mesmo planeta ou à mesma galáxia? Ou
o meu próximo não está jamais definido, pois não é o que de mim está
próximo por motivos acidentais, conjunturais e exteriores, mas será an-
tes todo aquele de quem e tudo aquilo de que me aproximar, tornar e
sentir próximo, mediante uma empatia e um amor que ao limite me
leve a não o sentir separado de mim nem do amor que a mim mesmo
dedico, como no mandamento bíblico destacado por Cristo? A catego-
ria e a experiência da proximidade não parece pois constituir-se à
margem da senciência, da potencial empatia que lhe é inerente e do
grau de intensidade e extensão de ambas.

Em contexto cristão, a questão “quem é o meu próximo?” está colo-


cada e respondida na parábola do bom samaritano. O “próximo” do

4. Cf. André LACOCQUE, “La révélation des révélations. Exode, 3, 14”, in Paul RICOEUR / André
LACOCQUE, Penser la Bible, texto de André LaCocque traduzido do inglês por Aline Patte e revisto
pelo autor, Paris, Seuil, 1998, pp.326 e 329.

19
Paulo Borges

homem assaltado, espancado e deixado semimorto não foi nenhum


dos que passou por ele e seguiu indiferente o seu caminho, mas o
que se aproximou dele, movido “de compaixão”, cuidou das suas feri-
das e o entregou a cuidados posteriores, suportando os custos. O seu
“próximo” foi o que “usou de misericórdia para com ele” e é isso que
Cristo exorta a que faça quem levantou a questão (Lucas, 10, 25-37),
indicando que ela só pode ser respondida com a vida e não com o
intelecto. Stanislas Breton vê nesta parábola a proposta de uma “re-
volução tranquila”, que passa pela mudança da questão: “A questão já
não é: Quem é o meu próximo? mas: De quem sou eu o próximo?”5.
Nesta parábola, o que leva alguém a aproximar-se de outro e a tor-
nar-se o seu próximo é o movimento da compaixão, do cuidado e da
misericórdia suscitado pela consciência do seu sofrimento e pela sen-
sibilidade a ele, que na parábola de Cristo transcendem as fronteiras
étnicas e religiosas. O cuidado ético e activo expressa a compaixão e
a misericórdia. A primeira, do latim compassionis, é a comunidade de
sentimento ou a simpatia, que no caso da compaixão se especificou
como o sentir em si a dor do outro, o participar no seu sofrimento. A
segunda, do latim misericordia, significa um coração (cor, cordis, sede
da inteligência, da vontade e da sensibilidade) compassivo, sensível à
miseria (infelicidade, adversidade, desgraça) alheia. A compaixão e
a misericórdia supõem neste caso a comum senciência ou sensibili-
dade do sujeito e do destinatário ou destinatários do cuidado ético.

Ainda em contexto cristão, a compaixão e a misericórdia configu-


ram um dinamismo de autodescentramento altruísta que São Paulo
considera exemplarmente no “sentimento de Cristo Jesus”, exortando
os cristãos a que o tenham em si e entre si. Esse “sentimento” é o de
quem não se apegou ao “ser igual a Deus” e “esvaziou-se a si mesmo”
(éauton ekénosen), assumindo a “condição de servo” e a “semelhança
humana”, pela qual se humilhou até à morte na cruz (Filipenses, 2,
5-8). Comentando esta passagem, Stanislas Breton destaca o esva-
ziar-se a si mesmo (ou de si mesmo) como acto radical de “perfeita
[…] renúncia a tudo o que se é e a tudo o que se tem”, de “absoluto

5. Stanislas BRETON, L’avenir du christianisme, Paris, Desclée de Brouwer, 1999, p.35.

20
Quem é o meu Próximo?

desapossar de si, no seu ser e no seu ter”6. Esta kenose é, na leitura


teológica e na tradição da filantropia ou antropotropismo do Deus bí-
blico7, o dinamismo fundamental da Incarnação e o modelo de toda a
aproximação: é esvaziando-se de si, por amor redentor, que o Filho se
torna tão próximo do homem que assume plenamente a sua forma, a
sua condição, o seu sofrimento e o seu mal, pelo qual morre na cruz,
tal o “Servo” de Isaías: “desprezado, não fazíamos caso nenhum dele.
/ E no entanto, eram as nossas enfermidades que ele levava sobre si; /
as nossas dores que ele carregava” (Isaías, 53, 3-4; cf. Mateus, 8, 17).
Como diz ainda São Paulo, tendo em si o mesmo autodescentramen-
to de Cristo, os cristãos viverão “acordes no mesmo sentimento, no
mesmo amor, numa só alma, num só pensamento”, não “cuidando
cada um só do que é seu, mas também do que é dos outros” (Filipen-
ses, 2, 2-4).

Até aqui, todavia, estamos a falar de empatia, amor e compaixão


de Deus ou do homem pelos homens, a cujo restrito número não se
reduz a totalidade dos seres que podem suscitar estes sentimentos e o
consequente cuidado ético. Deve-se colocar pois a questão de se não
é uma limitação deste dinamismo de autodescentramento altruísta,
e assim uma contradição do seu sentimento e sentido naturalmente
expansivo e integrador, restringi-lo aos seres humanos e não o levar
a abranger igualmente os sencientes não-humanos, como os animais,
bem como os entes do mundo natural que, embora não lhes seja reco-
nhecida uma senciência evidente e individual, possuem pelo menos
existência e enquanto tal uma presença no mundo. A senciência ou
sensibilidade humana não pode ou não deve estender a sua capaci-
dade de sentir o outro como próximo a todos os seres sencientes ou
sensíveis, por mínima que possa ser essa senciência ou sensibilidade,
bem como a todos os seres existentes e ainda, ao limite, ao próprio
mundo ou à realidade pura e simples? Com a natural diferença de
que, no caso dos seres sencientes, a aproximação empática do ho-
mem a seu respeito será amorosa e jubilosa ou compassiva conforme

6. Cf. Ibid., p.20.


7. Cf. André NEHER, L'essence du prophétisme, Calmann-Lévy, 1983, nova edição aumentada com
um prefácio.

21
Paulo Borges

a sua felicidade ou dor e, no caso dos existentes, do mundo e do real,


a mesma aproximação empática se cumpre no simples amor jubiloso
pela sua existência e presença nua, pelo puro emergir e estar aí das
coisas, pelo simples haver algo, sem porquê nem para quê8.

Pode-se assim questionar se o meu próximo tem de ter duas pernas


e dois braços ou pode ter quatro patas, muitas ou nenhuma, caule,
tronco, folhas, flores e frutos? Tem de ter cabelos e pele nua ou pode
ter pêlos, penas, carapaça, escamas e casca? Tem de viver sobre a ter-
ra ou pode rastejar dentro dela e voar e brilhar nos céus? Tem de ter
uma vida individual ou pode ser a própria terra, as areias, as pedras,
as rochas, os minerais, as águas, os ventos, o fogo e a energia que em
tudo isso circula? Tem de falar a minha linguagem ou pode miar, la-
drar, zumbir, uivar, cacarejar, grunhir, mugir, relinchar, rugir, trinar,
grasnar, trovejar, soprar, relampejar, chover, florir, frutificar, repousar
e mover-se em silêncio? Tem de ter forma e ser visível ou pode não a
ter e ser invisível? Tem de ter vida consciente e senciente? Tem de ter
vida? Tem de ser algum ser ou coisa ou pode ser tudo? A empatia, o
sentir o outro como o mesmo, o amor e a compaixão perante o que
é animado ou a alegria amorosa perante o que simplesmente existe,
têm limites? O dinamismo do descentramento altruísta tem limites?
Temos limites?

A questão é que a predominante tradição ocidental, greco-romana


e depois judaico-cristã, reduziu aos humanos essa aproximação com-
passiva do outro, que o permite considerar e sentir como “próximo”.
O filósofo cristão Nicolas Berdiaev notou a dificuldade do cristianis-
mo unir o amor a Deus com o amor por todas as criaturas: “O amor
pela criatura em geral, pelos animais, plantas, minerais, pela terra e
pelas estrelas, não foi de todo desenvolvido na ética cristã. É um pro-
blema de ética cósmica e tem de ser ainda formulado”; “A consciência
cristã não desenvolveu ainda uma relação moral com os animais e a

8. Cf. o sempre inspirador aforismo poético de Angelus Silesius: “Die Ros ist ohn warum; sie blühet,
weil sie blühet, / Sie acht nicht ihrer selbst, fragt nicht, ob man sie siehet” [“A rosa é sem porquê;
floresce porque floresce, / Não presta atenção a si mesma, não pergunta se é vista”] – Angelus SILE-
SIUS, Cherubinischer Wandersmann, I, 289, Munique, Carl Hanser-Verlag, 1949, p.39.

22
Quem é o meu Próximo?

natureza em geral. A sua atitude para com a natureza foi demasiado


a de indiferença espiritual. E todavia o olhar nos olhos de um ani-
mal indefeso dá-nos uma experiência moral e metafísica de prodi-
giosa profundidade”9. Isto ao contrário de outras tradições, como a
do “éthos hindu”, que Max Scheler vê como um “éthos da simpatia” e
de uma “compaixão” cósmica que “se estende a tudo o que vive”, ani-
mais, plantas e, em última instância, à “realidade” do próprio mun-
do enquanto impregnado por um mesmo “sofrimento universal”, o
que suporia “o panvitalismo, pois não «sofre» senão o que é vivo”10.
Com efeito, ainda segundo Scheler, “a fusão afectiva cósmica não é
possível senão na medida em que o mundo é concebido como uma
«totalidade», como um organismo universal, animado por uma única
vida”, o que designa como a concepção “organológica” do mundo11.
Esta concepção seria própria dos “povos não-ocidentais”, tendo sido
igualmente importante no Ocidente, como na doutrina platónica da
“alma do mundo”, até ao advento do mecanicismo da época moder-
na, contra o qual reagiu o romantismo. Seja como for, o cristianismo
ocidental teria incorporado a ideia judaico-romana do domínio da
natureza pelo homem e a sua hostilidade a qualquer forma de fusão
afectiva com a natureza e os seres não-humanos, desde a tradição ju-
daica condenada como pagã12. A grande excepção terá sido São Fran-
cisco de Assis e a sua busca de síntese da “mística amorosa acósmica”
e pessoal, orientada para Deus, do amor a Jesus Cristo e da “fusão
afectiva cosmovital com o ser e a vida da natureza”. Com isto, segun-
do Scheler, “São Francisco esmaga no seu próprio núcleo a ideia ju-
daico-romana do homem senhor da natureza, ideia que o Evangelho
atenuou, sem a suprimir”13.

Recordemos que São Francisco, segundo Tomás de Celano, “cha-


mava irmãs a todas as criaturas” e “sabia, graças à perspicácia do seu

9. Nicolas BERDIAEV, The Destiny of Man, tradução do russo de Natalie Duddington, New York,
Harper & Brothers, 1960, pp.188 e 193.
10. Cf. Max SCHELER, Nature et Formes de la Sympathie. Contribution à l’étude des lois de la vie
affective, tradução de M. Lefebvre, Paris, Payot, 1971, pp.115-116.
11. Cf. Ibid., p.119.
12. Cf. Ibid., pp.122-123.
13. Cf. Ibid., pp.127 e 131-132.

23
Paulo Borges

coração”, penetrar até ao fundo mais íntimo” de todas elas14. O mes-


mo biógrafo relata a fraternidade reverente a respeito dos animais,
incluindo vermes e insectos, das pedras, das árvores, das ervas e das
flores, a contemplação da Presença e da “Bondade” divina como “total
em todas elas”, afirmando que o santo vivia já no escatológico “tudo
em todos”15 evocado por São Paulo (1 Coríntios, 15, 28). O célebre
Cântico das Criaturas também ilustra o sentimento de fraternidade
com toda a criação, louvando Deus pelo sol, lua e estrelas, vento e
nuvens, água, fogo, terra e seus frutos, flores e verduras, designados
como irmãos e irmãs16.

A experiência no Poverello de um afecto holístico mostra, entre


muitos outros exemplos, ser possível ao homem estender a empatia
aos sencientes não-humanos (animais ou também, segundo alguns,
as plantas) e a todos os entes ou fenómenos naturais. Essa empatia,
em relação aos primeiros, assume a forma específica da compaixão,
do sentir e assumir em si o sofrimento dos outros. No que respeita aos
segundos, mesmo não sendo evidente serem dotados de senciência,
casos há de aberturas da consciência humana, como veremos, em que
todos são percepcionados dotados de vida, a mesma vida que circula
no homem e até nos objectos da cultura humana. E, mesmo quando
isso não acontece, há a possibilidade da simples empatia com a pre-
sença silenciosa e anónima das coisas. Em todos estes casos, em re-
lação aos sencientes não-humanos e aos entes e fenómenos naturais,
a empatia inerente à senciência humana pode manifestar-se como
compaixão, caso o mundo, por exemplo, seja experimentado como
um organismo sofredor. Na sua plenitude, a empatia, compassiva ou
não, parece conduzir a uma identificação, em que o sentir o outro em
si culmina no senti-lo idêntico a si. Todas estas são formas de uma
aproximação que, na sua maior intensidade, torna o próximo tão ín-
timo que o converte em idêntico, ainda que por momentos fugazes.

14. Tomás de CELANO, in Ibid., p.128.


15. Cf. Tomás de CELANO, Vida Segunda, 165, in S. Francisco de ASSIS, Escritos. Biografias. Docu-
mentos. Fontes Franciscanas, Braga, Editorial Franciscana, 1982, pp.450-451.
16. Cf. Cântico das Criaturas, in Ibid., p.74.

24
Quem é o meu Próximo?

Schopenhauer viu o único fundamento do valor moral de um acto,


pelo qual o bem de outrem é para mim um motivo ao mesmo título
que o meu próprio bem, nessa identificação, pela qual cessa “toda a
diferença entre eu e os outros”, pelo menos até ao ponto de abolir o
egoísmo que nela repousa. Embora sem me poder “meter na pele de
outrem”, o conhecimento dele pode levar-me ao que o filósofo designa
como a “piedade”, “participação totalmente imediata, sem qualquer
segunda intenção”, quer nas dores alheias, quer na sua cessação, ou
seja, na sua felicidade. Na experiência desta “piedade”, “único princí-
pio real de toda a justiça espontânea e de toda a verdadeira caridade”,
a moral abre para a metafísica, pois “nesses momentos” apaga-se a
“linha de demarcação” racional “que separa o ser do ser” e “o não-eu
torna-se até certo ponto o eu”17. Como diz noutro passo, a respeito
do outro: “cesso de o ver, como o quereria a intuição empírica, como
uma coisa que me é estranha, indiferente, absolutamente distinta de
mim; sofro nele, se bem que os meus nervos não estejam encerrados
sob a sua pele”. “Este fenómeno é”, acrescenta, “um mistério”, na me-
dida em que escapa à compreensão da razão e a sua experiência não
permite desvendar-lhe as causas18.

O reconhecimento da totalidade do existente como próxima e a


identificação compassiva com ela avultam numa dada vertente do
pensamento e da poesia portugueses, marcada por um panpsiquismo
monista-panteísta que resultará na formulação por Guerra Junqueiro
e Sampaio Bruno de uma “moral cósmica”, que no segundo se acom-
panha de uma crítica radical do antropocentrismo19 que antecipa
quase um século alguns dos argumentos anti-especistas contemporâ-
neos. Na raiz desta vertente destaca-se todavia a visão-experiência de

17. Cf. SCHOPENHAUER, Le fondement de la morale, tradução de A. Burdeau, introdução, biblio-


grafia e notas de Alain Roger, Paris, Aubier, 1978, pp.116-117.
18. Cf. Ibid., p.141.
19. Sampaio Bruno vê a “moral cósmica” expressa nos textos de Guerra Junqueiro como alternativa
às falsas morais antropocêntricas, que excluem “animais” e “coisas”. Afirmando como “erro antropo-
cêntrico” “phantasiar que o universo continua subsistindo para que o desfructe o homem”, proclama
que “O fim do homem n’este mundo é libertar-se a si, libertando os outros sêres” – A Idéa de Deus,
Porto, Livraria Chardron, 1902, pp.468-471. Sobre a importância da poesia de Guerra Junqueiro, cf.
ainda O Brazil Mental, Porto, Livraria Chardron, 1898, p.290. Junqueiro escreve que “Só chegam a
Deus os que levam no coração, como um filho gemendo, o Universo inteiro” – “João de Deus (bio-
grafia espiritual)”, in Prosas Dispersas, Porto, Lello & Irmão, 1978, p.84.

25
Paulo Borges

Antero de Quental, sintetizada nos dois sonetos do poema “Reden-


ção”. O poeta começa por proclamar a escuta desse Logos cósmico
que designa como “Verbo crepuscular e íntimo alento / Das cousas
mudas”, demarcando-se das tradições teoantropocêntricas que fazem
do Verbo/Logos um privilégio humano e divino. Escutando as “Vozes
do mar, das árvores, do vento”, o que designa como “O suspiro do
mundo e o seu lamento”, acede a outro regime de consciência, mais
profundo, subtil e compassivo, no qual reconhece como igual ao seu
o “tormento” das coisas e seres da natureza. Nos antípodas da visão
cartesiana de um mundo inanimado e mecanizado, onde os próprios
animais seriam máquinas insensíveis20, e nos antípodas ainda de um
homem divorciado da natureza ao ponto de a sentir como uma amea-
ça a combater e dominar21, Antero proclama compreender a “língua
estranha” em que falam as “Vozes do mar, da selva, da montanha”,
colhendo nessa escuta a revelação de que “um espírito habita a imen-
sidade”, presente na “ânsia […] de liberdade” que pressente mover as
“formas fugitivas”, as existências fugazes e condicionadas de todos os
seres. É nessa mesma condição que o poeta se inclui, numa exclama-
ção de fraterna empatia: “Almas irmãs da minha, almas cativas!”22. A
última expressão, “almas cativas”, dará o título ao livro do menos co-
nhecido discípulo de Antero, Roberto de Mesquita, que canta igual-
mente “os afectos das cousas” e a saudosa cisma que habita o “âmago”
e o “íntimo de tudo”, não só os entes naturais, mas também as casas e
os objectos abandonados23.

20. René DESCARTES, Discurso do Método, in Discurso do Método e Tratado das Paixões da Alma,
tradução, prefácio e notas pelo Prof. Newton de Macedo, Lisboa, Sá da Costa, 1968, pp.67-69.
21. “[…] tornando-nos assim como que senhores e possuidores da natureza” – Id., Ibid., p.73.
22. Reproduzimos o primeiro soneto: “Vozes do mar, das árvores, do vento! / Quando às vezes, num
sonho doloroso, / Me embala o vosso canto poderoso, / Eu julgo igual ao meu vosso tormento… //
Verbo crepuscular e íntimo alento / Das cousas mudas; salmo misterioso; / Não serás tu, queixume
vaporoso, / O suspiro do mundo e o seu lamento? // Um espírito habita a imensidade: / Uma ânsia
cruel de liberdade / Agita e abala as formas fugitivas. / E eu compreendo a vossa língua estranha,
/ Vozes do mar, da selva, da montanha… / Almas irmãs da minha, almas cativas!” – Antero de
QUENTAL, “Redenção”, I, Sonetos, organização, introdução e notas de Nuno Júdice, Lisboa, Im-
prensa Nacional – Casa da Moeda, 1994, p.149. A mesma experiência de um “lamento”, “desejo”,
“bramido” e “queixume” cósmico encontra-se em “Oceano Nox”, Ibid., p.155.
23. Cf. Roberto de MESQUITA, Almas Cativas e Poemas Dispersos, prefácio de Jacinto do Prado
Coelho, comentário de Marcelino Lima, fixação do texto, recolha de dispersos e notas de Pedro da
Silveira, Lisboa, Edições Ática, 1973, pp. 29-31, 34 e 38-40.

26
Quem é o meu Próximo?

A mesma experiência de animação do mundo acontece de forma


mais sistemática e exacerbada em Teixeira de Pascoaes, cuja empa-
tia com os seres e coisas conduz à transfiguração do sujeito na plena
identificação com eles. Isso ocorre, por um lado, mediante o que o
poeta chama o “meditar nas cousas”, numa “estranha simpatia” que o
dispersa “por tudo quanto existe”. Nesse estado diferenciado de cons-
ciência escuta em si uma voz que proclama “eu sou alguém”, mas que
não é apenas sua, pois “dimana de tudo” o que o “cerca”. Vê então “a
intimidade, o laço oculto, / Que as almas todas casa” e o “coração”
se lhe converte em “pedra, nuvem, asa”24. Outra via, convergente, é
a do descentramento e arrebatamento amoroso, pelo qual o mundo
se encanta e anima e a amada fisicamente ausente se diviniza e torna
omnipresente em todas as coisas, na “Natureza inteira”, o que faz com
que o poeta com elas se una e identifique, superando a individuação e
ilimitando-se na totalidade do existente: “Vivo a vida infinita, / Eter-
na, esplendorosa. / Sou neblina, sou ave, / Estrela, Azul sem fim, / Só
porque, um dia, tu, / Mulher misteriosa, / Por acaso, talvez, / Olhaste
para mim”25.

A experiência de Pascoaes é comum a muita da poesia portuguesa


emergente no início do século, que ele próprio designou como “Ani-
mismo saudosista”26 ou “Saudosismo panteísta”27, e que o jovem Fer-
nando Pessoa baptizou de “transcendentalismo panteísta”28, vendo

24. Cf. Teixeira de PASCOAES, “Meditando”, Sempre, in Belo. À Minha Alma. Sempre. Terra Proi-
bida, Obra Completa, I, introdução e aparato crítico por Jacinto do Prado Coelho, s.l., Bertrand,
s.d., pp.128-129.
25. Cf. Id., “Elegia do Amor”, Vida Etérea, in À Ventura. Jesus e Pã. Para a Luz. Vida Etérea, Obra
Completa, II, introdução e aparato crítico por Jacinto do Prado Coelho, s.l., Bertrand, s.d, p.182.
Vejam-se outras passagens: “Tudo, em volta de nós, / Tinha um aspecto de alma. Tudo era senti-
mento, / Amor e piedade. / A folha que tombava / Era alma que subia… / E, sob os nossos pés, / A
terra era saudade, / A pedra comoção / E o pó melancolia” – Ibid., p.174; “tudo de ti me fala, / Ó
meu longínquo amor: / As árvores, a névoa, / Os rouxinóis e o mar” – Ibid., p.178; “O meu amor
por ti, / Meu bem, minha saudade, / Ampliou-se até Deus, / Os astros alcançou. / Beijo o rochedo e
a flor, / A noite e a claridade. / São estes, sobre o mundo, / Os beijos que te dou” – Ibid., pp.178-179;
“Descubro-te, mulher, / Da natureza inteira” – Ibid., p.180; “Um vago e etéreo laço / Prende-me ao
teu imenso / E livre coração, / Que abrange o mundo inteiro / E ocupa todo o espaço, / E que vai
povoar / A minha solidão. / Por isso, eu vivo sempre, / Em doce companhia” – Ibid., pp.181-182.
26. Cf. Teixeira de PASCOAES, O génio português na sua expressão filosófica, poética e religiosa
(1913), in A Saudade e o Saudosismo (dispersos e opúsculos), compilação, introdução, fixação do
texto e notas de Pinharanda Gomes, Lisboa, Assírio & Alvim, 1988, p.77.
27. Cf. Ibid., p.82.

27
Paulo Borges

nela a emergência de uma nova visão filosófico-religiosa do mundo


que, fundada na percepção do real como “fusão de Natureza e Alma”
29
, seria matriz de uma “Nova Renascença” nacional e civilizacional.
A expansão cósmica do sentimento amoroso em Pascoaes não deixa
de evocar a leitura de Max Scheler do “novo elemento panenteísta da
identificação afectiva” de São Francisco com a “vida divina” de todas
as “criaturas”, o qual remontaria “ao movimento erótico provençal,
inaugurado ou inspirado pelos Árabes”, fortemente influente sobre
Francisco antes da sua conversão, segundo a controversa tese de Paul
Sabatier. Segundo Scheler, “é Eros que constitui a raiz última de toda
a fusão afectiva”, o qual, interpenetrado de forma única à “Agapé” no
santo de Assis, teria suscitado o mais extraordinário e sublime caso
“de «espiritualização da vida» e de «vivificação do Espírito»”30.

Decerto que a experiência místico-poética de uma divina anima-


ção do mundo pode ser sempre denunciada como lirismo romântico
próprio de “poetas místicos” que seriam “filósofos doentes”, sendo já
os filósofos “homens doidos”, como o diz Alberto Caeiro31. Todavia,
experiências espontâneas de alteração e expansão da consciência,
sem qualquer intenção, preparação ou indução, verificadas em pes-
soas sem conhecimentos e interesses poéticos, religiosos ou espiri-
tuais, parecem confirmar as grandes intuições místicas, filosóficas,
estéticas ou poéticas da humanidade acerca de uma comunidade vi-
tal de todo o existente, onde tudo o que na vida suposta normal se
apreende como indiferente, distinto e distante subitamente aparece
como tremendamente significante, próximo e íntimo. Veja-se, entre
muitos exemplos, o relato do ocorrido à senhora Margaret Prescott
Montague, em 1915:

28. Cf. Fernando PESSOA, A nova poesia portuguesa no seu aspecto psicológico, Obras, II, organiza-
ção, introduções e notas de António Quadros, Porto, Lello & Irmão – Editores, 1986, p.1189.
29. Cf. Id., Uma réplica (Ao Dr. Adolfo Coelho), Ibid., p.1202.
30. Cf. Max SCHELER, Nature et Formes de la Sympathie. Contribution à l’étude des lois de la vie
affective, pp.133-135. Cf. Paul Sabatier, Vie de saint François d’Assise, Paris, Fischbacher, 1894.
31. Cf. Alberto CAEIRO, “O Guardador de Rebanhos”, in Fernando PESSOA, Obras, I, introduções,
organização, biobibliografia e notas de António Quadros e Dalila Pereira da Costa, Porto, Lello &
Irmão – Editores, 1986, p.764.

28
Quem é o meu Próximo?

“[…] neste cenário de todos os dias, e de um modo inteiramente


inesperado (pois jamais havia sonhado com tal coisa), os meus olhos
foram abertos e, pela primeira vez em toda a minha vida, tive um
vislumbre da beleza extática da realidade…
[…] Não vi nenhuma coisa nova, mas vi todas as coisas habituais
numa miraculosa luz nova – no que acredito ser a sua verdadeira luz.
Vi pela primeira vez quão selvaticamente bela e jubilosa, para além
de quaisquer palavras minhas para o descrever, é a totalidade da vida.
Cada ser humano atravessando aquela varanda, cada pardal que voava,
cada ramo oscilando ao vento, estava integrado e era parte do inteiro
e louco êxtase de encanto, alegria, significância e embriaguez da vida.
Não que por uns poucos e excitados momentos eu imaginasse toda
a existência como bela, mas, antes, a minha visão interna foi desobs-
truída para a verdade, de modo que vi o real encanto que está sem-
pre aí, mas que tão raramente percepcionamos, e soube que todo o
homem, mulher, ave ou árvore, toda a coisa viva diante de mim, era
extravagantemente bela e extravagantemente importante. E, ao con-
templar, o meu coração fundiu-se e abandonou-me num arrebata-
mento de amor e deleite. […]
Uma vez, no meio de todos os cinzentos dias da minha vida, vi o
coração da realidade; fui testemunha da verdade”32.

Nesta experiência o centro não está, como em Schopenhauer ou


Antero de Quental, na empatia compassiva com a dor do outro, mas
antes na empatia e abertura estética ou, melhor, estésica, da consciên-
cia, numa percepção da “totalidade da vida” em que se indissociam
beleza, verdade, realidade e jubilosa plenitude, sem que nesta totali-
dade se diluam os seres e fenómenos individuais, que pelo contrário
nela manifestam todo o destaque e pregnância que lhes são velados
pelo embotamento da percepção dita normal, a qual, ao captar apenas
o pouco no qual está utilitariamente interessada em função do agir,
e de um modo conforme a esse interesse, deixa na penumbra toda a

32. Cf. Margaret Prescott MONTAGUE, Twenty Minutes of Reality. An experience with some illu-
minating letters concerning it, New York, E. P. Dutton & Company, s. d., pp.7-11. Sobre esta expe-
riência, cf. W. T. STACE, Mysticism and Philosophy, Londres, The MacMillan Press, 1972, pp.83-84;
Michel HULIN, La Mystique Sauvage. Aux antipodes de l’esprit, Paris, PUF, 1993, p.37.

29
Paulo Borges

restante e imensa multiplicidade do real, como o destacou Bergson33.


Note-se ainda, na experiência relatada, que a vívida evidência de cada
ente singular no seio da mesma totalidade vital é comum a todos,
sendo a mesma em cada “ser humano”, “pardal”, “ramo”, “árvore” ou
“coisa viva”, como igualmente intensas e absolutamente significantes
expressões do real, livres de qualquer juízo de valor condicionado por
interesses subjectivos e assim alheias a qualquer hierarquia onto-axio-
lógica construída a partir de uma perspectiva, como habitualmente a
humana, divorciada da unidade orgânica do todo. Por outro lado, esta
contemplação da eminente e irredutível importância, significância e
beleza de todas as coisas, como idênticas fulgurações da totalidade da
vida e do real, não deixa de ser extática para o sujeito da experiência,
que nela se funde e absorve amorosa e fruitivamente, não podendo
permanecer a seu lado como um observador frio, distanciado e in-
vulnerável. O sujeito é absorvido na experiência, que deixa de ser a
de um objecto, sendo nesse arrebatador descentramento que acede
ao “coração da realidade”. A plenitude da empatia estésica, onde se
dilui a dualidade da percepção convencional, é simultaneamente uma
experiência de plena realização, que entremostra a irrealidade da ver-
são oficial e supostamente normal do mundo, a esta luz denunciada
como uma mera construção de percepções condicionadas pelos inte-
resses e hábitos social e histórico-culturalmente dominantes.

Admitimos que a experiência relatada por Margaret Prescott Mon-


tague integre a família das mais fundas e originárias experiências,
porventura não apenas humanas, pois enquanto pré-reflexivas po-
dem ser comuns a todas as formas de vida consenciente, que de algum
modo, pelo menos nos intervalos da luta pela sobrevivência, prova-
velmente participam nessa sentida e pré-conceptual plenitude, bon-
dade e graça da própria vida. Sem aqui poder aprofundar esta ques-
tão, nisto nos demarcamos dos vários dolorismos ontológicos que

33. “Vivre consiste à agir. Vivre, c’est n’accepter des objets que l’impression utile pour y répondre
par des réactions appropriées: les autres impressions doivent s’obscurcir ou ne nous arriver que
confusément. […] Mes sens et ma conscience ne me livrent donc de la réalité qu’une simplification
pratique” – Henri BERGSON, Le Rire. Essai sur la signification du comique, in Oeuvres, textos anota-
dos por André Robinet, introdução por Henri Gouhier, Paris, PUF, 1991, p.459.

30
Quem é o meu Próximo?

predominam na leitura de algumas tradições orientais, em particular


na do budismo, bem como em certas versões do cristianismo, nalgu-
mas visões gnósticas da existência, em Schopenhauer e nos pensado-
res portugueses atrás referidos, com destaque para Sampaio Bruno,
pese a sua ambiguidade. Nisto nos demarcamos também de pensa-
dores que, focados na experiência individual da senciência humana e
animal, reduzem a ética à gestão da busca do bem-estar e do evitar o
sofrimento, sem reconhecer o seu fundamento no êthos não-dual da
empatia jubilosa com a vida na unitotalidade das suas manifestações.

Seja como for, enquanto a experiência da vida for a de uma trági-


ca ou tragicómica sucessão de experiências felizes e infelizes, alegres
e dolorosas, por organismos psicofísicos dotados de uma senciência
não educada e treinada para a superação dessas percepções opostas
na estabilidade e plenitude de uma consciência não-dual (conforme
o homem pode fazer pelo milenar treino meditativo34), a empatia os-
cilará sempre entre o regozijo e a compaixão pelos seres sencientes
e pelo mundo enquanto se lhe reconhecer vida, num processo que
pode conduzir à identificação com o outro, em todas as suas formas,
e assim a uma profunda autorealização de si por expansão ou ilimi-
tação ontológica. É uma das intuições da ecologia profunda, segundo
Arne Naess, que na sua maturidade os humanos “terão a experiência
da alegria e do sofrimento quando outras formas de vida têm a ex-
periência da alegria ou do sofrimento. Não só nos sentiremos tristes
quando o nosso irmão, ou um cão, ou um gato, se sentem tristes, mas
sentiremos dor quando seres vivos, incluindo paisagens, são destruí-
dos”35. Foi a experiência do próprio autor, assim narrada:

“O meu exemplo-padrão envolve um ser não-humano que encon-


trei há quarenta anos. Estava a contemplar através de um velho mi-
croscópio o dramático encontro de duas gotas de diferentes quími-

34. Cf. B. Alan WALLACE, Mind in the Balance. Meditation in Science, Buddhism and Christianity,
Nova Iorque, Columbia University Press, 2009; Paulo BORGES, “A meditação entre Oriente e Oci-
dente ou a actual e urgente redescoberta de um antigo paradigma”, Biosofia, nº 40 (Lisboa, Inverno
2011/12), pp.9-18.
35. Arne NAESS, in Bill DEVALL/George SESSIONS, Ecologia Profunda. Dar prioridade à natureza
na nossa vida, Águas Santas, Edições Sempre-em-Pé, 2004, p.96.

31
Paulo Borges

cos. Nesse momento, uma pulga saltou de um lemingue que estava a


deambular pela mesa e aterrou no meio dos ácidos químicos. Salvá-la
era impossível. Levou muitos minutos para que a pulga morresse. Os
seus movimentos eram horrivelmente expressivos. Naturalmente, o
que senti foi uma dolorosa sensação de compaixão e empatia, mas a
empatia não era elementar; era antes um processo de identificação:
«eu vi-me a mim mesmo na pulga»”36.

A consciência e a senciência humana, a consenciência humana, con-


figura a emergência de uma possibilidade de empatia alargada a todos
os seres sencientes, à vida e à realidade na sua unitotalidade, singula-
ridade que, em vez de legitimar o seu domínio antropocêntrico, res-
ponsabiliza o homem por um “cuidado universal”37 onde a ética, mais
do que um dever-ser moral ou religioso, se enraíze num originário
habitar (cf. o grego êthos, lugar de habitação ou morada) empatica-
mente o mundo38. Como sustenta Naess, nessa identificação solidária
com os seres e a vida, mediante o reconhecimento e interiorização do
seu comum interesse ou impulso para a preservação e plena expansão
de si39, são os próprios egos fragmentários e limitados que se desenvol-
vem proporcionalmente à extensão e grandeza da totalidade com que
se identificam, ao ponto do “ego pessoal” e do “organismo” já não se-
rem “limites adequados ao seu próprio si-mesmo”, que se experimenta
como “parte autêntica de toda a vida”, reconhecendo a igualdade de to-
dos os viventes como fins em si mesmos dotados de valor intrínseco40.
Neste patamar da consenciência, o bem que se busca como “próprio”
é na verdade o bem de cada um e de todos, pois “a distinção próprio/
impróprio subsiste apenas na gramática, mas não nos sentimentos”41.

36. Arne NAESS, “Self-Realization: An Ecological Approach to Being in the World”, in AAVV, Deep
Ecology for the 21st Century, editado por George Sessions, Boston, Shambhala, 1986, citado em
Andrew BRENNAN / Y. S. LO, Understanding Environmental Philosophy, Durham, Acumen Pub-
lishing, 2010, p.103.
37. Cf. Arne NAESS, Écologie, Communauté et Style de Vie, pp.250-251.
38. Cf. Maria José VARANDAS, Ambiente. Uma questão de ética, Lisboa, Esfera do Caos, 2009.
39. Cf. Arne NAESS, Écologie, Communauté et Style de Vie, p. 253.
40. Cf. Ibid., p.255.
41. Cf. Ibid., pp.256-257. “Pois Naess sugere que podemos escolher cultivar um mais amplo si-mes-
mo pela nossa própria identificação com a natureza e as coisas naturais, mediante a expansão do nos-
so círculo de tal identificação de modos que nos nutram e enriqueçam. Desta forma, o si-mesmo

32
Quem é o meu Próximo?

Escreveu Antero de Quental, antecipando um século uma ética não


-antropocêntrica: “”Como não há-de então o justo dar-se aos outros,
dar-se a todos os seres, se com cada acto de dedicação conquista e fir-
ma a própria beatitude? Libertando-os, liberta-se: aperfeiçoando-os,
aperfeiçoa-se: beatificando-os, beatifica-se. Para conseguir o próprio
bem, tem de se fazer como o instrumento do bem universal. E nem
verdadeiramente para conseguir o próprio bem: porque, despojado
de personalidade e egoísmo, morto para o eu individual, o bem atrai
-o em si ou fora de si, indiferentemente, e tende a realizá-lo seja onde
for, seja sob que forma for, simplesmente porque é o bem”. Cremos
que a ética místico-metafísica de Antero vai mais longe que a ecosofia
de Naess em termos de realização ontológica, pois como corolário da
realização ética o justo deixa de constituir “uma individualidade par-
ticular, circunscrita no tempo e no espaço, condicionada pelo tempe-
ramento, pela raça, pela nação, pelo período histórico, pela educação,
por mil circunstâncias fortuitas”, para se converter na mera forma
exterior de um “princípio universal, impessoal, absoluto”, que evolui
na totalidade do processo cósmico e em cada radical renúncia indivi-
dual ao egoísmo se autorealiza e liberta plenamente, numa superação
da individuação que é paradoxalmente a sua realização plena numa
“santidade” cósmica42.

Após este percurso, consideramos possível reinterpretar os dois


mandamentos formulados por Cristo num sentido que supere o
teoantropocentrismo tradicional, assumindo ao mesmo tempo a sua
convergência ou mesmo inseparabilidade. Na verdade, amar a Deus
e ao próximo como a si mesmo, à luz do próprio sentido originário

ecológico não é apenas uma espécie de coisa maleável, sendo também construído pelas identifi-
cações que escolhe fazer. Tal como na noção de iluminação de Gandhi, derivada do pensamento
hindu, na qual o ser iluminado “se vê a si mesmo em toda a parte”, a ecologia profunda instiga-nos
a encontrar realização mediante a identificação com a natureza. Em vez de avançar com uma ética
que nos mande fazer o nosso dever, ou controlar os nossos desejos e apetites, Naess esperava que a
sua forma de auto-realização nos iria encorajar a procurar o nosso próprio bem, como a sua direc-
tiva primária. Uma tal ética salvará o mundo, espera ele, mas não por via de fazer da regra “salva
o mundo” a nossa primeira norma de conduta” - Andrew BRENNAN / Y. S. LO, Understanding
Environmental Philosophy, Durham, Acumen Publishing, 2010, pp.103-104.
42. Antero de QUENTAL, Tendências Gerais da Filosofia na Segunda Metade do Século XIX, in
Filosofia, organização, introdução e notas de Joel Serrão, Ponta Delgada / Lisboa, Universidade dos
Açores / Editorial Comunicação, 1991, pp.166-167.

33
Paulo Borges

destas palavras, pode não ser outra coisa senão amar incondicional-
mente esse fundo em devir da consciência e da vida, bem como todas
as formas em que se manifesta e que igualmente o expressam, sejam
sencientes, viventes ou existentes, sem preferências nem exclusões,
mediante uma empatia que experimente todas como tão próximas ou
íntimas que revele a sua inseparável integração numa mesma comu-
nidade cosmovital. Por essa empatia, jubilosa ou compassiva, e numa
releitura ainda da experiência cristã, cada sujeito se auto-esvazia e
descentra para a totalidade, vivendo a mesma experiência da kenose
de Cristo, mas agora aberta à vida e a todos os seres e não restrita
à humanidade. É esse auto-esvaziamento desegoízador que, até um
certo ponto ainda como em Cristo, segundo São Paulo, conduz não
à mera aniquilação do sujeito, mas à sua transfigurada exaltação e
ilimitação, embora aqui não no “Pai” (Filipenses, 2, 9-11), acima de
toda a criação, mas na plenitude da consciência ou vida em devir
imanente à comunidade cósmica. É isso que lhe permite viver desde
já, de forma mais ampla do que na escatologia de São Paulo43, o ser
tudo em todos e todas as coisas.

43. Cf. São PAULO, 1 Coríntios, 15, 28.

34
Quem é o meu Próximo?

Eu, Nós e os Outros.


Para um repensar não antropocêntrico
da ética, da sociedade e da política

Reflectir sobre eu, nós e os outros é reflectir sobre a experiência


da identidade como inseparável da identificação. Na verdade, a vi-
são e o sentimento de si dependem daquilo com que nos identifica-
mos, desde a forma do corpo às sensações, emoções, sentimentos e
pensamentos - com destaque para a auto-imagem que em interacção
social construímos - e aos níveis e configurações dessa sociabilidade,
ou seja, da nossa experiência da companhia na viagem da vida. Com
efeito, socius, em latim, significa “companheiro” e “companhia” vem
de “companha”, a tripulação de um barco, o que sugere que os grupos
sociais nos quais nos integramos e com os quais nos identificamos
se definem em princípio e idealmente por uma comunidade de fins,
valores e interesses que tende a gerar laços de afecto e solidariedade
rumo a um objectivo comum, criando uma comunidade ética1, como
particularmente acontece numa tripulação onde é necessário que to-
dos cooperem para que a embarcação siga o seu rumo e chegue a bom
porto, com todos sãos e salvos, num meio potencialmente perigoso e
adverso como é o mar. A viagem marítima é desde sempre uma me-
táfora do rumo dos indivíduos, sociedades e nações nas imprevisíveis
vicissitudes da vida e é esse companheirismo forjado pela partilha
de fins, valores e interesses que constitui os vários níveis de grupos
sociais, desde a família aos amigos (que podem incluir humanos e
animais), às turmas escolares, às empresas, aos clubes, aos partidos,
às nações, às religiões e às próprias espécies animais.

1.“O sistema ético em vigor na sociedade exerce sempre a função de organizar ou ordenar a so-
ciedade, em vista de uma finalidade geral. Não existe ordem social desvinculada de um objectivo
último, pois é justamente em função dele que se pode dizer se o grupo humano é ordenado ou
desordenado; se se está diante de uma reunião ocasional de pessoas, ou de uma colectividade or-
ganizada. Ordem é um conceito relacional, subordinado à definição de uma finalidade” – Fábio
Konder COMPARATO, Ética. Direito, moral e religião no mundo moderno, São Paulo, Companhia
das Letras, 2006, p.23.

35
Paulo Borges

Se a finalidade mais imediata e natural dos grupos sociais, herdada


da evolução biológica, é a preservação e o crescimento, a essa finali-
dade primária se acrescentam outras, próprias dos grupos humanos,
que representam escolhas colectivas ou plasmadas no colectivo por
iniciativa dos detentores das várias formas de poder, religioso, cul-
tural, político e económico2. É isso que configura um ideário social,
tecido de “mitos, crenças, opiniões e preconceitos” que determinam
uma orientação geral da vontade, dos sentimentos e paixões colec-
tivos, o animus ou “princípio vital” do grupo social, segundo os ro-
manos, o “espírito” social de Max Weber, a “consciência colectiva” de
Durkheim ou a mentalidade social de que fala a ciência social con-
temporânea3. A mentalidade social expressa as preferências valorati-
vas de uma dada sociedade num determinado período da sua vida e
vigora nas consciências antes de gerar normas e formas objectivas de
comportamento4, havendo assim uma atmosfera mental, um conjun-
to de sentimentos, convicções e opções, nem sempre plena e imedia-
tamente conscientes, que interagem com as modalidades institucio-
nais da vida social, jurídica, política e económica, influenciando-as e
sendo influenciados por elas.

Sociedades e civilizações distinguem-se pelos seus valores funda-


mentais, que determinam conjuntos hierárquicos de finalidades e
prioridades bem como instituições que as concretizam. Estes valores
e instituições, mesmo que reproduzidos pelo hábito ou pela força, ca-
recem contudo de “um mínimo de justificação ética”, pois “a cons-
ciência do bem e do mal, com o consequente sentimento de justiça ou
injustiça, é inerente à condição humana”5. Daí que esses valores fun-
damentais, assentes em preferências valorativas dominantes, tenham
um período de vigência (Geltung, segundo Max Weber) enquanto
houver uma crença geral na sua legitimidade. Não sendo permanen-
tes e estando sujeitos à mudança, as sociedades que os pretendem
reproduzir, ou os detentores do poder que estão interessados na sua

2. Cf. Ibid., p.23, embora o autor apenas considere o “poder político”.


3. Cf. Ibid., pp.23-24.
4. Cf. Ibid., p.25.
5. Cf. Ibid., p.25.

36
Quem é o meu Próximo?

continuidade, têm de se esforçar por manter a opinião pública con-


victa da sua justiça, conveniência ou necessidade, extensivas às das
instituições que os incarnam. Sem isso, valores e instituições estão
sujeitos ao enfraquecimento e dissolução, como se não escapassem à
entropia, a segunda lei da termodinâmica6.

Acontece todavia que as formas de identificação que constituem es-


tes grupos sociais, e pelas quais se constitui também a identidade in-
dividual, são sempre restritas e exclusivas, implicando a constituição
de uma forma do mesmo por distinção de e latente oposição a uma
ou múltiplas formas do outro. Na verdade, a comunhão dos mesmos
fins, valores e interesses distingue cada grupo social de outros grupos
sociais com diferentes fins, valores e interesses, implicando que o sen-
timento ou emoção da afinidade ou mesmo apego ao grupo com que
nos identificamos - e que pode ser extensiva, embora em menor grau,
aos grupos que percepcionamos como próximos - quase sempre se
acompanhe da indiferença e da hostilidade (ou pelo menos da des-
confiança e do temor, raízes de toda a hostilidade) em relação aos de-
mais grupos (com destaque, no que respeita ao temor, desconfiança e
hostilidade, para aqueles grupos percepcionados como portadores de
fins, valores e interesses mais distintos ou opostos aos do grupo com
que nos identificamos; nesse caso, mesmo que não haja da sua parte
competição ou ataque declarados, a simples existência desses grupos
tende a gerar em nós e no nosso grupo um sentimento de mal-es-
tar, insegurança e suspeita, que facilmente nos conduz a vê-los como
adversários ou inimigos com os quais há que competir e combater
para assegurar a salvaguarda e o predomínio dos nossos próprios fins,
valores e interesses). Experiências mentais emocionais muito rudi-
mentares, partilhadas por todos os animais humanos e não-huma-
nos, como o apego, a indiferença e a aversão, parecem assim dominar
tanto os relacionamentos individuais como os grupais, em todos os
níveis atrás referidos.

Sublinhamos que estes grupos sociais, sejam mais naturais e orgâ-

6. Cf. Ibid., p.25.

37
Paulo Borges

nicos, como as famílias e as espécies, ou fruto de uma construção his-


tórico-cultural, como empresas, clubes, partidos, nações e religiões,
supõem sempre a identificação com eles de quem neles se integra,
cujo reverso é a não identificação com todos os demais grupos reais
e possíveis. A experiência de pertencer a um ou mais do que um de-
terminado grupo social implica sempre a de não pertencer aos de-
mais e, neste sentido, podemos dizer que todas as identidades sociais
se constituem por diferenciação das demais ou, muito simplesmen-
te, por negação da possibilidade de identificação com a comunida-
de global dos existentes e dos viventes, humanos e não-humanos. A
identificação com um dado grupo social e não com outros prolonga
assim a experiência individual de se ser alguém e não os outros, por
nos identificarmos com uma dada forma física externa e uma dada
configuração psíquica interna.

Poderíamos recordar e convocar aqui a distinção fundamental do


sociólogo e filósofo alemão Ferdinand Tönnies que distinguiu entre
dois tipos fundamentais de agrupamentos sociais, a Gemeinschaft, a
comunidade (do adjectivo gemein, comum) e a Gesellschaft, a socie-
dade (ou “companhia”, de der Geselle, o companheiro). Exemplos da
primeira seriam uma família ou uma vizinhança, numa sociedade
rural pré-moderna, e da segunda uma empresa, uma associação vo-
luntária ou um Estado moderno. Segundo Tönnies, as relações pró-
prias da Gemeinschaft fundar-se-iam em sentimentos de comunhão
e vínculos mútuos como objectivos a manter, sendo os seus membros
meios para essa manutenção, numa integração por si vivida como
autorealizadora, enquanto no modo de relacionamento da Gesells-
chaft ela é vista e desejada, pelo contrário, como um instrumento
ou meio ao serviço dos fins individuais dos seus membros. De um
modo geral, na comunidade o membro sente-se realizado no serviço
do colectivo enquanto na sociedade o membro sente-se realizado na
medida em que se possa servir do colectivo. Na perspectiva do autor,
a Gesellschaft emerge num ambiente urbano e capitalista, caracteriza-
do pelo individualismo e pelas conexões monetárias entre as pessoas,
em que os vínculos sociais tendem a ser cada vez mais instrumen-
tais e superficiais, dominados pelo interesse egoísta e pela móbil da

38
Quem é o meu Próximo?

exploração7. Decerto que esta distinção teórica não pretende corres-


ponder plenamente à evidência empírica de se verificarem múltiplas
formas mistas destes dois tipos de relacionamento social.

Seja como for, tanto as comunidades como as sociedades, no sentido


de Tönnies, constituem exemplos de grupos sociais parciais, sejam na-
turais ou histórico-culturais, formados mediante uma redução e frag-
mentação da consciência daquilo que é mais global e elementarmen-
te comum, a saber, a existência e a vida. A verdadeira Gemeinschaft,
neste sentido, seria a comunidade cósmica da existência e da vida, à
qual todos os seres naturalmente pertencem, quer o desejem e sejam
conscientes disso ou não. Esta irrecusável pertença e integração pode
ou não traduzir-se num reconhecimento dos vínculos e da intercone-
xão naturais e orgânicos entre todos os seres vivos - animados ou ina-
nimados, dotados de senciência individual (como todos os animais,
humanos e não-humanos) ou de, até prova clara em contrário, sensi-
bilidade reflexa (as plantas) - e destes com os ecossistemas, a Terra e o
universo ou multiverso. Nesta perspectiva, a verdadeira Gemeinschaft
revelar-se-ia na experiência da intemporal integração ou identificação
com o todo, como visam as sabedorias tradicionais da humanidade ou
as suas contemporâneas recriações holistas8 e experiencialmente ocor-
re em fenómenos de abertura e expansão da consciência afins ao que
Romain Rolland em carta a Freud designou como “uma sensação de
«eternidade», um sentimento de algo ilimitado, sem fronteiras - «oceâ-
nico»”9, ao que Maslow chamou de “experiências-cume” ou de “pla-
nalto”10 e ao que Arne Naess considerou como a “realização de Si” pela
“identificação profunda dos indivíduos com todas as formas de vida”11.

7. Cf. Ferdinand TÖNNIES, Gemeinschaft und Gesellschaft [1887], Darmstadt, Wissenschaftliche


Buchgesellschaft, 2005.
8. Cf. Ken WILBER, Uma Breve História de Tudo [1996], Porto, Via Óptima, 2004, 2ª edição; Uma
Teoria de Tudo [2001], Estrela Polar, 2005.
9. Freud refere a carta sem identificar o autor: Sigmund FREUD, Das Unbehagen in der Kultur
[1930], O Mal-Estar na Civilização, tradução de José Octávio de Aguiar Abreu, Rio de Janeiro, Ima-
go, 1997, p.9.
10. Cf. Abraham H. MASLOW, Religions, Values, and Peak-Experiences, Londres, Penguin Com-
pass, 1976, pp.XIV-XV.
11. Cf. Arne NAESS, Écologie, communauté et style de vie, tradução e prefácio de Charles Ruelle,
Éditions MF, 2008, pp.267-275, pp.137-138.

39
Paulo Borges

Estes fenómenos são documentados em inúmeros relatos como este,


que narra uma experiência não precedida por qualquer tentativa de a
provocar: “Era eu aspirado pelo universo ou o universo penetrava em
mim? Estas expressões não têm qualquer sentido neste caso, pois que
as fronteiras entre o meu corpo e o mundo se desvaneciam, ou antes,
pareciam não haver sido senão uma alucinação da minha razão que
fundia sob o fogo da evidência…”12.

Estas experiências de abertura não-dual e global da consciência,


promovidas menos pela religião do que pela espiritualidade tradicio-
nal e contemporânea13, apesar de serem conhecidas por um maior
número de pessoas do que aqueles que o admitem, são todavia ain-
da minoritárias ou inconstantes, também por serem socialmente
desconsideradas, desencorajadas, inibidas e combatidas na cultura
e civilização de matriz europeia-ocidental, pois opõem-se aos fins,
valores e interesses dominantes numa sociedade que privilegia e nor-
maliza a separatividade, a promoção individualista do eu e a compe-
tição pela aquisição e acumulação de prazer, prestígio, poder e bens
materiais, sendo patologizadas pela psicologia e psiquiatria prevale-
centes na mesma cultura e civilização14. Em seu lugar, o que se cul-
tiva mediante a pressão familiar, escolar, profissional e social é uma
percepção dual que enfatiza a distinção, separação e oposição sujei-
to-objecto, eu-outro, nós-outros, tendendo a considerar normais as
emoções muito rudimentares daí resultantes como o apego (confun-
dido com o amor), a indiferença e a aversão. É isto que predomina

12. Cf. Marius FAVRE, “Fragment autobiographique”, Hermès, 3 (1964-1965), pp.91-92, in Michel
HULIN, La Mystique Sauvage. Aux antipodes de l’esprit, Paris, PUF, 1993, p.42.
13. Cf. Stanislav GROF, A Psicologia do Futuro. Lições da investigação moderna sobre a consciência,
Porto, Via Óptima, 2007, p.229-232.
14. Cf. Ibid., pp.232-237. Destacamos: “Na civilização industrial, pessoas que têm experiências di-
rectas de realidades espirituais são pois encaradas como mentalmente doentes. Os psiquiatras con-
vencionais não fazem distinção entre experiências místicas e experiências psicóticas e vêem ambas
as categorias como manifestações de psicose. […]
Assim, a actual abordagem da psiquiatria e psicologia ocidentais patologiza não só a vida espiritual
como também a vida cultural de todos os grupos humanos ao longo dos séculos, excepto a elite ins-
truída da civilização industrial ocidental que partilha a cosmovisão materialista e ateísta” – p.235.
“Ao patologizar os estados holotrópicos de consciência, a ciência ocidental tem patologizado toda a
história espiritual da humanidade. Assumiu uma atitude desrespetiosa e arrogante em relação à vida
espiritual, ritual e cultural de sociedades pré-industriais ao longo de séculos, bem como à prática
espiritual de pessoas da nossa própria sociedade” – p.236.

40
Quem é o meu Próximo?

na percepção humana do mundo como um conjunto de entidades


e identidades separadas entre si e existindo em si e por si mesmas,
divididas e arrumadas nessas gavetas mentais chamadas categorias
e conceitos que as línguas e o pensamento humano têm criado para
dar sentido ao fluxo em constante mutação dos fenómenos de modo
a conhecer para organizar, prever e dominar, nessa espécie de política
mental com a sua constituição própria, a lógica, que desde sempre
parece associada ao pensamento mítico, religioso, filosófico e cien-
tífico15. A suposta percepção humana do mundo é todavia apenas a
percepção humana de um mundo16 que cria e absolutiza uma versão
utilitária e convencional do real entre muitas possíveis, a partir de
um fundo onde sujeitos e objectos nunca estão separados e todos os
entes, coisas e fenómenos se manifestam numa trama indeterminada
e interdependente, como nos ensinam a física quântica e as espiri-
tualidades planetárias. Esta visão transgride a “normose”, essa “pa-
tologia da normalidade”17 que todavia estrutura a zona de conforto
que condiciona os nossos mais veneráveis hábitos mentais, encerran-
do-nos em experiências limitadas de identidade e identificação social
que velam a nossa pertença à comunidade cósmica e impedem o seu
reconhecimento e experiência. É assim que a espécie e os grupos hu-
manos vivem fechados em experiências limitadas do “eu” e do “nós”,
que deixam fora de si o “outro” e os “outros” e são condicionadas pelo
apego, a indiferença e a aversão, na matriz de um egocentrismo indi-
vidual, grupal e de espécie que investe claramente na competição e no
combate em vez da cooperação e da empatia solidária, conduzindo ao
comportamento violentamente predatório dos humanos na relação
com os humanos, os animais e a Terra. Este comportamento, segun-
do insuspeitos relatórios científicos, coloca-nos hoje na iminência de
um colapso ecológico-social sem precedentes, já designado como a

15. Cf. Paulo BORGES, “A cultura entre ilusão e des-ilusão. Para um nomadismo inter e trans-cul-
tural”, Cultura ENTRE Culturas, nº1 (Lisboa, 2010), pp.11-15.
16. “O mundo que toda a gente vê não é “o” mundo, mas “um” mundo que geramos com os nossos
semelhantes” - Humberto MATURANA e Francisco VARELA, The Tree of Knowledge, 1987, citado
in Fritjof CAPRA, Les Connexions Invisibles, tradução do inglês de Nikou Tridon, Mónaco, Éditions
du Rocher, 2004, p.77.
17. Cf. Pierre WEIL, Jean-Yves LELOUP, Roberto CREMA, Normose. A patologia da normalidade,
Campinas, Verus, 2004.

41
Paulo Borges

sexta extinção em massa da biodiversidade do Holoceno, a primeira


por razões antropogénicas18.

Não recuemos perante a perturbadora origem deste comportamen-


to. Se as tradições espirituais referem o egocentrismo a um obscureci-
mento da consciência ou a uma desorientação da vontade, já segundo
as neurociências as tendências profundamente egocêntricas dos hu-
manos radicam no “velho cérebro”, o hipotálamo, antiquíssimo lega-
do dos primeiros répteis emergentes há 500 milhões de anos.
Completamente focados na sua própria sobrevivência, eram mo-
vidos por instintos que os neurocientistas designam como os 4 efes:
“feeding, fighting, fleeing e f… (alimentação, luta, fuga e “reprodu-
ção”)19. São esses mesmos instintos que, embora atenuados, camu-
flados e sofisticados pela cultura e pela civilização, não deixaram de
ser herdados, sendo espantoso constatar como em tantos aspectos
da vida pública e privada ainda hoje pouco diferimos desses velhos
répteis, dominados pelo complexo da presa-predador, pelo medo
que leva à fuga e ao ataque, pela luta desenfreada por sobrevivência,
território, ganho e reprodução física, mental e comportamental. Cre-
mos aliás radicar aqui a razão profunda da actual crise: a vertiginosa
evolução intelectual, científica e tecnológica da humanidade não foi
acompanhada por uma igual evolução emocional e sentimental, ética
e espiritual, fazendo com que indivíduos, grupos e nações sujeitos
aos mais primitivos instintos e emoções detenham hoje sofisticados
mecanismos de manipulação, poder, exploração e destruição militar
e económica, que escapam ao controle das populações e das institui-
ções democráticas ou são apoiados por elas. Temos uma civilização
global, em termos económico-financeiros e mediático-tecnológicos,
mas não uma consciência ética ecosocial global, que traduza a real in-
tegração da vida e das sociedades humanas numa totalidade interco-
nectada a nível planetário e cósmico, como acontecia nas sociedades
tradicionais, hoje em vias de extinção e vistas segundo o paradigma

18. Cf. Jorge RIECHMANN, Interdependientes y Ecodependientes. Ensayos desde la ética ecológica (y
hacia ella), Cànoves i Samalús, Proteus, 2012, pp.239-265.
19. Cf. Karen ARMSTRONG, Doze Passos para uma Vida Solidária, Lisboa, Temas e Debates /
Círculo de Leitores, 2011, p.19.

42
Quem é o meu Próximo?

civilizacional dominante como inferiores.

A possibilidade de superação da influência dos quatro efes surgiu


todavia, em termos evolutivos, com o “novo cérebro”, o neocórtex,
que permite a reflexão distanciada dos impulsos do hipotálamo. Es-
tes, no entanto, não só continuam a determinar os automatismos
que mais imediatamente nos programam “para acumular mais bens,
para responder instantaneamente a qualquer ameaça, e para lutar
sem dó nem piedade pela sobrevivência”, como muitas vezes ainda
conseguem colocar ao seu serviço os recursos intelectuais do neocór-
tex, aperfeiçoando ilimitadamente os meios de combater e destruir
adversários e inimigos, oprimir e explorar as populações humanas
e animais e devastar os recursos naturais do planeta20 no móbil in-
sustentável, mítico e neoreligioso do desenvolvimento económico
infinito21. Não cremos exagerar se dissermos que muitos indivíduos
e grupos humanos, entre os quais empresas e Estados, se comportam
frequentemente como os répteis de há 500 milhões de anos, porém
hoje muito mais perigosos, pois imensamente mais eficazes e destru-
tivos e mais camuflados sob os rótulos prestigiados da civilização e
do progresso.

Este facto não nega, contudo, a possibilidade sempre aberta, desde


que exercitada, de que a reflexão racional proporcionada pelo neo-
córtex ou, segundo muitas tradições, a consciência espiritual, a es-
sência cognitiva, amorosa e compassiva do nosso ser mais profundo,
restrinjam, reduzam e anulem o poder dos impulsos mais grosseiros,
passando dos horizontes estreitos do instinto individual e grupal de
sobrevivência para a visão ampla de uma ética global e universal. Se-
gundo o filósofo alemão Karl Jaspers, foi a descoberta disso, em várias
culturas planetárias sem contacto entre si, que marcou a chamada Era
Axial (Achsenzeit) da humanidade, entre 800 e 200 a. C.22. Nela as-
sistimos ao surgimento da regra de ouro da ética, pela primeira vez

20. Cf. Ibid., pp.19-20.


21. Cf. Serge LATOUCHE, Survivre au développement, Paris, Mille et Une Nuits, 2004.
22. Cf. Karl JASPERS, The Origin and Goal of History [1949], tradução de Michael Bullock, Abing-
don, Routledge, 2010, pp.1-21.

43
Paulo Borges

formulada por Confúcio, o qual, interrogado sobre se haveria “uma


única palavra que possa guiar a acção de uma vida inteira”, respon-
deu: “Não será consideração [shu] ?: não façam ao outro o que não
quereríeis que vos fizessem”23. E isto, como explica um dos seus discí-
pulos, resume toda a sua doutrina: ser fiel a si e ao outro24.

Apesar das diferenças culturais e doutrinais, cremos ser num senti-


do convergente que aponta a resposta de Cristo quando interrogado
pelos fariseus acerca de “qual o maior mandamento da Lei”: “Amarás
ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo
o teu entendimento. Esse é o maior e o primeiro mandamento. O se-
gundo é semelhante a esse: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.
Desses dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas” (Ma-
teus, 22, 39). Esta resposta, que cita duas passagens do Deuteronó-
mio (6, 5) e do Levítico (19, 18), orientou, infelizmente mais no plano
das ideias e dos ideais e menos no da prática institucional, a ética do
Ocidente cristão25, sobrevivendo numa versão laica com o segundo
mandamento, que impulsionou e impulsiona os movimentos sociais
e humanitários desde o século XIX até hoje.

Quem será, todavia, o meu/nosso próximo? Próximo vem do latim


proximus, superlativo de prope (“perto, próximo”), do verbo appropia-
re, que significa “aproximar-se”. Podemos então interrogar se o meu/
nosso próximo será aquele que pertence a um mesmo grupo social,
criado pela referida comunidade de fins, valores e interesses, também
determinados pela partilha das mesmas condições e circunstâncias
culturais e materiais de existência, ou seja, aquele que pertence ao
mesmo grupo familiar, profissional, social, económico, nacional, ét-
nico, cultural, linguístico, político ou religioso? Será aquele que per-
tence à mesma espécie, ao mesmo planeta ou à mesma galáxia? Ou o

23. CONFÚCIO, Les Entretiens, XV, 24, traduzido do chinês, apresentado e anotado por Pierre
Ryckmans, prefácio de Étiemble, Paris, Gallimard, 2006, p.87.
24. Cf. Ibid., IV, 15, p.27.
25. Cf. Antero de QUENTAL, Perante a Inexistência de Uma Civilização Cristã (depoimentos de
Antero de Quental e António Vieira), in Notas sobre Antero, Cartas de Problemática e outros textos
filosóficos, prefácio de António Pedro Mesquita, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2001,
pp.287-310.

44
Quem é o meu Próximo?

meu/nosso próximo não está jamais definido, pois não é o que de mim
está próximo por motivos acidentais, conjunturais e exteriores, ou nem
sequer decorrentes da comunhão de fins, valores e interesses parciais,
mas será antes todo aquele de quem me aproximar, tornar e sentir pró-
ximo, mediante uma empatia e um amor que ao limite me leve a não o
sentir separado de mim nem do amor que a mim mesmo dedico, como
no mandamento recordado por Cristo? A categoria e a experiência da
proximidade não parecem pois constituir-se à margem da sempre
ampliável capacidade de sentir, da potencial empatia que lhe é ine-
rente e do grau de intensidade e extensão de ambas.

Em contexto cristão, a questão “quem é o meu próximo?” está colo-


cada e respondida na parábola do bom samaritano. O “próximo” do
homem assaltado, espancado e deixado semimorto não foi nenhum
dos que passaram por ele e seguiram indiferentes o seu caminho,
apesar de terem a mesma nacionalidade e religião, mas o estrangeiro
que se aproximou dele, movido “de compaixão”, cuidou das suas feri-
das e o entregou a cuidados posteriores, suportando os custos. O seu
“próximo” foi o que “usou de misericórdia para com ele” e é isso que
Cristo exorta a que faça quem levantou a questão (Lucas, 10, 25-37),
indicando que ela só pode ser respondida com a vida e não com o
intelecto. Stanislas Breton vê nesta parábola a proposta de uma “re-
volução tranquila”, que passa por uma mudança radical: “A questão já
não é: Quem é o meu próximo? mas: De quem sou eu o próximo?”26.

Nesta parábola, o que leva alguém a aproximar-se de outro e a tor-


nar-se o seu próximo é o movimento da compaixão, do cuidado e da
misericórdia suscitado pela consciência sensível do seu sofrimento,
o que na parábola de Cristo transcende as fronteiras étnicas, nacio-
nais e religiosas. O cuidado ético e activo expressa a compaixão e a
misericórdia. A primeira, do latim compassionis, é o sentir e sofrer
com (em alemão, Mitleid), a comunidade de sentimento ou a sim-
patia, que no caso da compaixão se especificou como o sentir em si

26. Stanislas BRETON, L'avenir du christianisme, Paris, Desclée de Brouwer, 1999, p.35.

45
Paulo Borges

a dor do outro, o participar no seu sofrimento. A segunda, do latim


misericordia, significa um coração (cor, cordis, sede da inteligência,
da vontade e da sensibilidade) compassivo, sensível à miseria (infeli-
cidade, adversidade, desgraça) alheia. A compaixão e a misericórdia
supõem neste caso a comunidade senciente ou sensível do sujeito e
do destinatário ou destinatários do cuidado ético, bem como a ex-
periência de se colocar no lugar do outro e de agir em função disso,
não o mero ter pena emocional e condescendente, mas o abandono
da gravitação egocêntrica em torno de si mesmo por ser capaz de se
abrir a experimentar o mundo como o outro o experimenta e assim
reconhecer e corresponder às suas necessidades de cuidado, socorro
e protecção. Isto implica uma experiência de descentramento, de de-
sobstrução do espaço ocupado pelo ego, individual ou colectivo (esse
disfarce do ego no “nós” oposto a “eles”), para acolher em si o outro,
com toda a sua dor ou alegria.

É apenas este descentramento ético, este colocar-se no lugar do ou-


tro, que permite subordinar as forças atávicas, gregárias e infracons-
cientes dos 4 efes. É ele que possibilita alargar e expandir cada vez
mais o círculo da nossa identificação e consideração até uma cons-
ciência amorosa e compassiva global ou holística, capacitando-nos
para nos colocarmos no lugar de todo o outro e não só dos nossos fa-
miliares, amigos ou membros do mesmo grupo, clube, empresa, par-
tido, nação, religião ou espécie. É ele que nos permite dilatar progres-
sivamente a esfera da experiência ética até nos sentirmos próximos
de tudo e de todos, ao ponto de não nos sentirmos separados de nada
nem de ninguém como não nos sentimos separados de nós mesmos e
dos nossos interesses vitais na existência, na segurança, no bem-estar,
na felicidade e na realização profunda. É o descentramento pelo qual
nos colocamos no lugar do outro que nos permite ao limite ampliar a
todos, sem aplainar nem anular as diferenças, a experiência cognitiva
e afectiva do si mesmo, sem excluir adversários, inimigos ou mem-
bros de outras espécies. É ele que nos permite não sermos indiferen-
tes na empatia compassiva com todos os que sofrem e na empatia ju-
bilosa com todos os que estão felizes. É ele que nos mobiliza para, no
pensamento, na palavra e na acção, procurar sempre o que for mais

46
Quem é o meu Próximo?

útil e benéfico para todos e não apenas para alguns. Como escreveu
luminosa mas ainda limitadamente Montesquieu:

“Se eu soubesse de algo que fosse útil a mim, mas prejudicial à mi-
nha família, rejeitá-lo-ia do meu espírito. Se soubesse de algo útil à
minha família, mas não à minha pátria, procuraria esquecê-lo. Se
soubesse de algo útil à minha pátria, mas prejudicial à Europa, ou
então útil à Europa, mas prejudicial ao Género humano, consideraria
isto como um crime”27.

Nós acrescentamos: se soubéssemos de algo útil à espécie huma-


na, mas prejudicial aos demais seres vivos e à Terra, consideraríamos
isso não apenas inaceitável, mas sobretudo uma ilusão, pois parece
evidente que os humanos, os não-humanos e a Terra não existem se-
parados no seio da grande comunidade cósmica.

O Prémio Nobel da Paz (1952) Albert Schweitzer definiu, na sua


Kulturphilosophie (1923), a ética como “a compulsão para mostrar a
toda a vontade-de-viver a mesma reverência que presto à minha pró-
pria [vontade-de-viver]”28 e como “a responsabilidade ilimitada para
com tudo o que vive”, que não se pode reduzir à compaixão por tudo
o que sofre, mas deve levar a sentir também como nossas todas as
alegrias e aspirações a uma vida plena e perfeita29, abrangendo não só
todos os seres sencientes mas o próprio mundo natural, sobre o qual
o impacto humano deve ser reduzido ao mínimo30. Aldo Leopold,
em A Sand County Almanac (1949), considera não haver ainda “ne-
nhuma ética que trate da relação do homem com a terra, e com os
animais e plantas que nela crescem”31 e propõe a “ética da terra”
como alargamento dos “limites da comunidade por forma a incluir
nela os solos, as águas, as plantas e os animais, ou, colectivamente: a

27. MONTESQUIEU, Mes Pensées, Oeuvres Complètes, I, Paris, Gallimard, p.981.


28. Albert SCHWEITZER, The Philosophy of Civilization, traduzido por C. T. Campion, Nova Ior-
que, Prometheus Books, 1987, p.309.
29. Cf. Ibid., p. 311.
30. Cf. Ibid., p.310.
31. Cf. Aldo LEOPOLD, Pensar como um Montanha. A Sand County Almanac, introdução de Viria-
to Soromenho-Marques, Águas Santas, Edições Sempre-Em-Pé, 2008, p.189.

47
Paulo Borges

terra”32. Esta ética visa alterar “a função do Homo sapiens, tornando-o


de conquistador da comunidade da terra em membro e cidadão ple-
no dela”, o que “implica respeito pelos outros membros seus compa-
nheiros, e também respeito pela comunidade enquanto tal”33. Peter
Singer, em The Expanding Circle (1981), não indo tão longe quanto
Schweitzer ou Aldo Leopold e limitando a fronteira da consideração
ética aos seres sencientes34, advoga que o processo da ética racional
é o do alargamento crescente do “círculo do altruísmo” da família
para a tribo, a nação, a raça, a espécie humana e, finalmente, todos
os animais sencientes35. Num livro recente, Interdependientes y ecode-
pendientes (2012), Jorge Riechmann considera que o grande desafio
desde há séculos, tornado mais agudo na contemporaneidade, é o de
passarmos de uma “fácil” “moral da proximidade” para uma “moral
de longa distância”36, ou seja, do “nós reduzido” para o “nós univer-
salizado”37. Segundo Kathinka Evers, investigadora no domínio da
neuroética, há quatro tendências preferenciais ancoradas na biologia
e neurologia humanas: o egocentrismo ou auto-interesse, o desejo de
controle (pelo menos sobre o meio imediato), a dissociação a respeito
daquilo de que não se gosta ou parece ameaçador e o interesse pelos
outros, subdividido na empatia (compreensão do outro, colocar-se
intelectualmente no seu lugar), na simpatia (atitude positiva a seu
respeito) e na antipatia (atitude negativa a seu respeito)38.

Toda a questão reside em fazer com que a empatia e a simpatia predomi-


nem sobre as demais tendências e se estendam à comunidade de todos os
seres sencientes, coisa até hoje rara na humanidade, refém de uma “mio-
pia” “da compaixão” e do “fenómeno político-moral do tribalismo”39.

32. Cf. Ibid., p.190.


33. Cf. Ibid.
34. Cf. Peter SINGER, The Expanding Circle. Ethics, Evolution, and Moral Progress, com um novo
posfácio do autor, Princeton/Oxford, Princeton University Press, 2011, p.123.
35. Cf. Ibid., p.120.
36. Cf. Jorge RIECHMANN, Interdependientes y Ecodependientes. Ensayos desde la ética ecológica (y
hacia ella), Cànoves i Samalús, Proteus, 2012, p.198
37. Cf. Ibid., pp.202-203.
38. Cf. Kathinka EVERS, Neuroética, Buenos Aires / Madrid, Katz, 2011, cit. in Jorge RIECHMANN,
Interdependientes y Ecodependientes. Ensayos desde la ética ecológica (y hacia ella), p. 203.
39. Cf. Ibid., p.204.

48
Quem é o meu Próximo?

Para tal haverá, segundo Riechmann, que promover três tarefas mo-
rais-chave: 1) contrariar toda a heterofobia e xenofobia, aprendendo
a acolher o estranho; 2) dilatar a imaginação empática; 3) romper
com a ilusão da normalidade, deixando de considerar normal e me-
nos ainda natural o que é apenas habitual40.

É na verdade o movimento de descentramento do eu e do nós parcial


pela abertura a tudo e todos que inspira hoje, levando para além dos
limites antropocêntricos os ideais do Iluminismo e da Revolução Fran-
cesa, a extensão do movimento dos direitos humanos aos direitos dos
animais e da Terra. É este movimento de crescente dilatação do “círculo
do altruísmo” que, libertando-nos cada vez mais de injustificáveis par-
cialidades, nos conduz a uma mesma compaixão e amor activos para
com as populações humanas que vivem vidas sem sentido, insatisfeitas,
oprimidas e exploradas, os frangos, vacas e porcos nos campos de con-
centração e abate da indústria da carne e as florestas, terras, rios, mares
e ares poluídos e destruídos pela ganância do lucro, de cuja preservação
dependem humanos e animais. E é este mesmo movimento de descen-
tramento dos grupos sociais parciais para a comunidade global que nos
permite estender essa mesma compaixão e amor activos a todos os que
são responsáveis por tudo isso, combatendo sem ódio essas acções com
os olhos postos no bem de todos, vítimas e agressores, também vítimas
de sofrimento e da ignorância, ódio e ganância com que desprezam e
lesam em si o seu melhor potencial humano41.

Esta tarefa passa também por um repensar radical, não antropo-


cêntrico, da política, no sentido aristotélico da politeia como “a ciên-
cia suprema e arquitectónica por excelência”42, enquanto “organiza-

40. Cf. Ibid., pp.222-223.


41. “A prática da atenção plena ajuda-nos a estarmos conscientes do que se passa. Uma vez capazes
de ver profundamente o sofrimento e reconhecer as suas raízes, estaremos motivados para agir e
praticar. A energia de que necessitamos não é o medo ou a cólera, mas a energia da compreensão
e da compaixão. Não há necessidade de culpar ou condenar. Aqueles que se estão a destruir a si
mesmos, às sociedades e ao planeta não o estão a fazer intencionalmente. A sua dor e solidão são
esmagadoras e eles querem fugir. Necessitam de ser ajudados, não punidos. Apenas a compreensão
e a compaixão a um nível colectivo nos podem libertar” - Thich Nhat HANH, The World We Have,
introdução de Alan Weisman, Berkeley, Parallax Press, 2008, pp.77-78.
42. ARISTÓTELES, Ética a Nicómaco, 1094 a.

49
Paulo Borges

ção holística da vida em sociedade” que inclui, além das “funções e


poderes de governo”, o “conjunto dos valores sociais, costumes e re-
gras de vida, sem excepção alguma”, visando a “justiça” como “o bem
supremo da vida social”43. Para que isso seja possível, a actividade po-
lítica deve assumir como objectivo último “desenvolver nos cidadãos
a aretê”, a “excelência harmoniosa de todas as faculdades humanas”,
visando mais a “formação de pessoas” do que “fazer obras públicas”44.
Trata-se de fazer com que a política recupere o seu compromisso ori-
ginal com a formação de consciências, a cultura e a ética, mas agora
em termos mais amplos, não limitados ao antropocentrismo clássico
patente na afirmação aristotélica de que “o fim da Política será o bem
propriamente humano”45, uma vez que, como vimos, o bem humano
é inseparável do bem dos demais seres e da Terra. Este profundo re-
pensar da política, que ganhará em revisitar o antigo cosmopolitismo
estóico num sentido não antropocêntrico, que integre uma zoopo-
lítica46 e uma ecopolítica profunda, passa por um idêntico repensar
da democracia e da própria ideia de república, na medida em que a
res publica é, no dizer de Cícero, o “bem público” e este é o “bem do
povo”47, ou seja, o bem comum, que no século XXI não pode consi-
derar-se apenas à escala humana, pela descoberta científica das ínti-
mas relações de interdependência entre os humanos, os animais e os
ecossistemas e pelo despertar da consciência ética para o imperativo
de cuidar e proteger o bem de todos. Há que corresponder a um nível
mais amplo à exortação do Padre António Vieira, no célebre Sermão
de Santo António aos Peixes, pregado em São Luís do Maranhão, em
13 de Junho de 1654:

“Importa que daqui por diante sejais mais repúblicos e zelosos


do bem comum, e que este prevaleça contra o apetite particular de
cada um”.

43. Cf. Fábio Konder COMPARATO, Ética. Direito, moral e religião no mundo moderno, p.585.
44. Cf. Ibid., p.586.
45. Cf. ARISTÓTELES, Ética a Nicómaco, 1094 b.
46. Cf. Sue DONALDSON e Will KYMLICKA, Zoopolis. A Political Theory of Animal Rights, Nova
Iorque, Oxford University Press, 2011.
47. Cf. CÍCERO, De re publica, Livro I, XXV, 39.

50
Quem é o meu Próximo?

Com efeito, é do sermos mais repúblicos, enquanto cidadãos da re-


pública universal dos seres, é do cultivo de uma consciência ética glo-
bal, abrangente de todas as formas de vida, que depende sairmos des-
ta crise para uma nova civilização, que só pode ser uma civilização da
empatia48como alternativa ao caos e à barbárie. Só a cultura da visão
global, do amor e da compaixão pode salvar o mundo. Desenvolvê-la,
em todas as esferas da vida pública e privada, a começar pela edu-
cação, é o maior imperativo e investimento de cada um de nós e de
todo o governo que seja digno desse nome. Enquanto se colocarem a
economia e as finanças acima da sabedoria, do amor, da compaixão e
de leis que as expressem, produzir riqueza será sempre para benefício
de poucos e prejuízo da maioria. Enquanto se colocarem interesses
de indivíduos e grupos de uma só espécie acima do bem comum da
Terra e de todos os seres, enquanto não nos colocarmos no lugar do
outro antes de cada pensamento, palavra e acção que o afecta, conti-
nuaremos a ser velhos répteis, grotescamente sofisticados em termos
científico-tecnológicos, mas 500 milhões de anos atrasados e em ris-
co acelerado de extinção.

48. Cf. Jeremy RIFKIN, The Empathic Civilization: The Race to Global Consciousness in a World in
Crisis, Tarcher, 2009.

51
Paulo Borges

A questão dos
direitos dos animais
Para uma genealogia
e fundamentação filosóficas

Vivemos num mundo e num ciclo civilizacional onde, como escre-


veu Jean-François Lyotard, “(...) o animal é um paradigma da vítima”.
Muitos milhões de animais não-humanos são diariamente sacrifica-
dos para fins humanos de alimentação (60 biliões por ano!), vestuá-
rio, diversão, experiências laboratoriais e trabalho, sendo criados e
tratados, na esmagadora maioria dos casos, sem a mínima conside-
ração pela sua qualidade de seres sencientes, capazes de experimen-
tar, tal como os animais humanos, prazer e dor físicos e psicológicos,
bem como emoções e interesses vitais na segurança e no bem-estar,
sofrendo com o seu oposto. Mesmo os animais de companhia vêem-
se expostos a frequentes abandonos e maus-tratos ou a viver em si-
tuações miseráveis nos canis e nos gatis até ao abate. Esta situação
resiste a ser reconhecida e posta em causa, pois o preconceito domi-
nante é o de ser normal que os animais não-humanos sejam consi-
derados propriedade dos animais humanos e tratados como meras
coisas, semelhantes aos objectos inanimados que o homem manipula
e instrumentaliza a seu bel-prazer. Nesta perspectiva, os animais não
possuem quaisquer direitos intrínsecos, morais ou jurídicos, admi-
tindo-se apenas, nos casos em que se reconhece a sua senciência, ser
o homem que possui deveres para com eles. Embora existam e come-
cem a existir cada vez mais excepções nalguns países, esta visão sus-
cita em geral o não reconhecimento jurídico dos direitos dos animais,
como acontece em Portugal, onde o ponto 1 do artigo 205 do Código
Civil os considera implicitamente “coisas móveis”.

Esta predominante desconsideração do animal não-humano no


presente ciclo da civilização, sobretudo a de matriz ocidental, hoje

52
Quem é o meu Próximo?

mundializada, tem uma genealogia complexa, não desprovida de


oposição interna e objecto de uma crescente contestação. Em geral,
a consideração pelo animal não-humano variou na proporção inver-
sa da consideração do homem por si mesmo e o desenvolvimento
do humanismo levou o homem a pensar-se por oposição ao animal.
Centrando-se cada vez mais em si mesmo e na determinação da sua
essência e propriedades intrínsecas, o animal humano concebeu e
desenvolveu uma ideia e imagem de si cada vez mais distante do ani-
mal não-humano, que se extremou na separação entre o homem e
o animal e mesmo, com Descartes, na paradoxal recusa ao animal,
contra o próprio nome que o designa, da condição de ser animado.
O animal foi sobretudo pensado em função do homem, como o ou-
tro da identidade ideal que este foi construindo para si mesmo, num
processo que reflecte também a dificuldade humana de lidar com a
sua própria animalidade, que procura ignorar, amputar ou exorcizar
como uma dimensão incómoda de si mesmo. A história da filosofia
e da antropologia filosófica ocidental pode ser lida a esta luz, como
mostra a obra magistral de Elisabeth de Fontenay1. Por outro lado,
a mesma ideologia humanista que desconsiderou e subalternizou o
animal serviu também para discriminar amplos sectores da própria
população humana que, por não corresponderem a um dado padrão
de racionalidade e humanidade, foram desumanizados, animalizados
e assim diabolizados, vendo legitimada a desconsideração, subordi-
nação e violência contra eles exercida, como aconteceu e acontece,
em diferentes momentos e conjunturas, com os “bárbaros”, certas et-
nias, as mulheres, os servos, o povo, os doentes mentais, etc2.

Não podendo reconstituir aqui toda a génese do antropocentrismo


europeu-ocidental, limitamo-nos a recordar alguns dos seus momen-
tos mais salientes e decisivos. Em primeiro lugar, note-se que toda a
questão que nos ocupa, a relação entre o homem e o animal, só ganha

1. Cf. Elisabeth de FONTENAY, Le silence des bêtes. La philosophie à l’épreuve de l’animalité, Librai-
rie Arthème Fayard, 1998.
2. Cf. Armelle Le BRAS-CHOPARD, Le zoo des philosophes. De la bestialisation à l’exclusion, Paris,
Plon, 2000.

53
Paulo Borges

sentido a partir da passagem da experiência mítico-ritual de um sa-


grado omniforme, selvagem ou difuso para a distinção racional entre
diferentes classes de seres e a partir do momento em que se concebem
deuses, homens e animais, não como a inseparável tríade de aspectos
ou modalidades de uma mesma vida que pelas formas de todos circula3
- fazendo com que umas se transformem continuamente nas outras,
como na visão indiana do samsāra - , mas como essências e existên-
cias distintas, numa ordem que tradicionalmente se instituiu como
uma hierarquia de subordinação, mas que a intuição do uni-múltiplo
devir universal sempre pode denunciar como ilusória e suspeita de es-
tar ao serviço de uma metafísica e uma epistemologia comprometidas
com o projecto de dominação científico-política do mundo. Na ver-
dade, como diz um Upanishad indiano, todo o homem que ignora a
sua identidade com Brahman, o uno-todo, e reverencia uma qualquer
divindade, pensando “Ele é um e eu sou outro”, comporta-se como um
“animal para os deuses”, pois tal como os animais são utilizados pelos
homens, assim os homens estão ao serviço dos deuses. A ignorância
da não-dualidade serve o divino propósito de subordinar os homens,
tal como o humano objectivo de dominar os animais. É por isso que,
segundo o texto, aos deuses não agrada o conhecimento libertador da
identidade absoluta de todos os existentes4.

Com efeito, a separação entre deuses (ou Deus), homens e animais é


algo que não ocorre nos tempos míticos das origens na maioria das cul-
turas arcaicas e indígenas. A “idade primordial” é aí visualizada como

3. O pensador português Eudoro de Sousa sonda na sua obra essa mítica matriz original da ex-
periência na qual, antes da “dolorosa separação” promovida pela filosofia, “ainda não existia nem
homem, nem divindade, nem natureza”. No acontecer original, em que “imagem mítica” e “acto
ritual” estão ligados e o mito se vive sem mito-logia, sem que o dizê-lo se autonomize da dança ritual
integradora na indivisa totalidade do ser, as “personagens não são nem absolutamente deuses, nem
absolutamente homens, nem absolutamente naturezas” e as suas acções não são exclusivamente
divinas, humanas ou naturais. Esse mundo mítico do acontecer original coexiste, em sua intempo-
ralidade, com a suposta “objectividade” do único mundo que supomos existir realmente, como o
mostra a sua súbita aparição nesses “felizes momentos de distracção” da “atenção concentrada” na
separação tirânica que faz existir o humano, o natural e o divino ou as abstracções Homem, Deus e
Natureza – cf. Eudoro de SOUSA, Sempre o Mesmo acerca do Mesmo, in Horizonte e Complementa-
ridade / Sempre o Mesmo acerca do Mesmo, prefácio de Fernando Bastos, Lisboa, Imprensa Nacional
– Casa da Moeda, 2002, pp.185 e 187.
4. Cf. Brihadāranyaka Upanishad, I, IV, 10.

54
Quem é o meu Próximo?

“o lugar ideal das metamorfoses e dos milagres”, no qual “nada estava


ainda estabilizado, nenhuma regra fora ainda promulgada, nenhuma
forma fixada”. Sendo “todo o universo […] plástico e fluido e inesgotá-
vel”, nada havia de impossível, como a mutação recíproca de homens e
animais. É só depois que aquilo que entendemos por “ordem” se instala,
a qual é inconciliável “com a existência simultânea de todas as possibi-
lidades”. A existência de leis implica o surgimento de seres confinados
em si mesmos e em espécies distintas. Tudo então se cristaliza e imo-
biliza nos limites supostos naturais, as fronteiras e os interditos surgem
e desaparecem ou diminuem os “poderes mágicos” da espontânea e
imprevisível metamorfose. O cosmos constitui-se sacrificando a criati-
vidade original e doravante há que manter a sua ordem5.

De registar que nas culturas totémicas ou pré-totémicas os animais


são enaltecidos como dotados de poderes místicos e considerados mo-
ralmente superiores aos homens, podendo ser “incarnações dos an-
tepassados humanos ou de deuses protectores”, com uma linguagem
própria, que os homens de então conseguiam compreender, o que de-
pois se perdeu6, perdurando no imaginário dos contos infantis como
“o tempo em que os animais falavam”. Estas culturas imitam os ani-
mais nos seus cantos e danças, que culminam na identificação mística
com o animal-totem7. É o que caracteriza a tradição chamânica, onde
os animais terrenos são manifestações do “mundo-outro”8 e dos “espí-
ritos-animais” que o habitam, os quais podem tornar-se guias para o
homem, sem que isto não deixe de conduzir à caça, à domesticação e ao
sacrifício por motivos mágico-religiosos, para incorporar e controlar a
força espiritual presente nos animais9.
Desta experiência se vai demarcar, na matriz da cultura europeia

5. Cf. Roger CAILLOIS, O Homem e o Sagrado, tradução de Geminiano Cascais Franco, Lisboa,
Edições 70, 1988, pp.101-103.
6. Cf. Marius SCHNEIDER, El origen musical de los animales-símbolos en la mitología y la escultura
antiguas. Ensayo histórico-etnográfico sobre la subestructura totemística y megalítica de las altas cul-
turas y su supervivencia en el folklore español, Madrid, Ediciones Siruela, 1998, p.17.
7. Cf. Ibid., pp.29-30.
8. Cf. Michel PERRIN, Le Chamanisme, Paris, PUF, 2002, pp.6-7.
9. Cf. David LEWIS-WILLIAMS e David PEARCE, Inside the Neolithic Mind. Consciousness, cosmos
and the realm of the gods, Londres, Thames & Hudson, 2005, pp.139, 145 e 148.

55
Paulo Borges

-ocidental, o logos filosófico grego, num consenso que reúne Sofis-


tas, Platão e Aristóteles, e que parte do pressuposto de que falar é
sempre «dizer alguma coisa», legein ti10, ou seja, referir-se a algo de
fixo e determinado, uma entidade que se mantém idêntica a si mes-
ma, uma id-entidade, que não pode ser simultaneamente uma coisa e
outra ou estar em devir de uma para outra. Assim se traça o destino
conjunto da filosofia e da ciência e de uma filosofia tornada ciência,
pois nisto sophia passa a entender-se como epistemé, como se atesta
já em Platão11, e esta anexação da sabedoria à ciência, separando-a
da vida, compromete “o destino do […] pensamento europeu”, caso
único no planeta12. “Dizer alguma coisa” será também sinónimo, em
Aristóteles, de “significar alguma coisa” (semainein ti), condição de
possibilidade de todo o discurso13, que passa a obedecer à regra ele-
mentar de que a palavra signifique alguma coisa e uma só coisa. Esta
“unidade objectiva”, fundadora da “identidade da significação das pa-
lavras”, assumirá em Aristóteles o nome de “essência”, unindo o lógico
e o onto-lógico e convertendo o seu enunciado ou “definição” na ac-
tividade própria do logos14. A racionalidade filosófico-científica pro-
move a seu modo a passagem do caos ao cosmos e o mundo reduz-se
a uma ordem de correspondências entre essências, entes, palavras e
conceitos, supostamente fixos e determinados na sua unidade de ser e
sentido e logo na suas diferenças id-entificativas15. Doravante deuses,
homens e animais são concebidos como distintos, o que se consagra,
num dos marcos maiores do rumo antropocêntrico, com a atribuição
ao homem, por Aristóteles, do privilégio da razão que permite esco-
lher livremente e da vida política, o que o distingue do animal que
apenas viveria de acordo com a natureza. O homem tem por fim “o

10. Cf. PLATÃO, Sofista, 237 d-e.


11. Cf. PLATÃO, Teeteto, 145 e.
12. François JULLIEN, Si parler va sans dire. Du logos et d’autres ressources, Paris, Seuil, 2006, p.15.
O autor cita Wittgenstein a este propósito: “Sentimos que, mesmo que todas as questões científicas
possíveis houvessem recebido uma resposta, os nossos problemas de vida não teriam sido ainda
abordados” - WITTGENSTEIN, Tractatus Logico-Philosophicus, 6.52.
13. Cf. ARISTÓTELES, Metafísica, 1006 a, 20-25.
14. Cf. François JULLIEN, Si parler va sans dire. Du logos et d’autres ressources, pp.16-17.
15. Cf. Paulo BORGES, “A cultura entre ilusão e des-ilusão – para um nomadismo inter e trans-
cultural”, Cultura ENTRE Culturas, nº1 (Lisboa, 2010), pp.11-14.

56
Quem é o meu Próximo?

bem viver” e a felicidade, objecto da ética e objectivo da vida política,


ao passo que o animal apenas visaria o “viver” e o prazer16. Embo-
ra Aristóteles centre as suas atenções na polis humana e esqueça a
comunidade cósmica, a diferença entre o homem e o animal ainda
não é uma diferença essencial entre espécies, pois os únicos homens
verdadeiros são os cidadãos, ou seja, os adultos masculinos, livres e
desocupados. Os animais superiores “representam o limite inferior
de uma série que começa a elevar-se na hierarquia psíquica com os
escravos (instrumentos animados), as mulheres (homens incomple-
tos) e as crianças (homens em potência): outros tantos marcos inter-
médios entre os homens verdadeiramente homens e os animais de
carga”17. Recorde-se que, se para Aristóteles, em função da sua iden-
tificação entre felicidade e racionalidade, o animal não pode ser feliz,
uma criança também não…18

Quanto à matriz judaica da nossa cultura, note-se a complexidade


de diferentes perspectivas e sensibilidades, em particular nas diferen-
tes versões da criação no Bereshit, o Génesis cristão. Se o primeiro e
mais recente relato da criação, o elohista, é o que mais parece funda-
mentar na vontade divina a superioridade do homem sobre o animal,
pois só ele é criado à imagem e semelhança de Deus19 e destinado
a dominar e submeter a terra e todos os animais20, a verdade é que
a dieta originariamente prescrita a todas as criaturas vivas é estrita-
mente vegetariana e mesmo vegana: ”Deus disse: «Eu vos dou todas
as ervas que dão semente, que estão sobre toda a superfície da terra,
e todas as árvores que dão frutos que dão semente: isso será vosso
alimento. A todas as feras, a todas as aves do céu, a tudo o que rasteja
sobre a terra e que é animado de vida, eu dou como alimento toda
a verdura das plantas»”21. Se este mandamento será posteriormente

16. Cf. ARISTÓTELES, Política, I, 2, 8; I, 9-13; III, 7, 6; VII, 13, 1332b;


17. Elisabeth de FONTENAY, Le silence des bêtes. La philosophie à l’épreuve de l’animalité, p.100.
18. “A justo título, não se chama feliz nem um boi nem um cavalo. Pela mesma razão, uma criança
não é feliz” – ARISTÓTELES, Ética a Nicómaco, I, 1, 1094b e I, 10, 1099b.
19. Cf. Génesis, 1, 26-27.
20. Cf. Ibid., 1, 26 e 28.
21. Cf. Ibid., 1, 29-30.

57
Paulo Borges

revogado, isso pode compreender-se como concessão a uma huma-


nidade decaída, onde os sacrifícios sangrentos já haviam surgido. Se
mesmo assim, após o Dilúvio, Deus estabelece com ela uma “alian-
ça”, extensiva a “todos os seres vivos”22, é após haver contemplado a
extensão da maldade do homem e se haver arrependido de o haver
criado, bem como às demais criaturas23. É essa humanidade, afastada
da originária intenção divina de uma comunidade paradisíaca e não-
violenta de todas as criaturas, que Deus paradoxalmente abençoa em
termos que consagram a tirania antropocêntrica: “Deus abençoou
Noé e seus filhos e lhes disse: «Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei
a terra. Sede o medo e o pavor de todos os animais da terra e de todas
as aves do céu, como de tudo o que se move na terra e de todos os pei-
xes do mar: eles são entregues nas vossas mãos. Tudo o que se move e
possui a vida vos servirá de alimento, tudo isso eu vos dou, como vos
dei a verdura das plantas. Mas não comereis a carne com sua alma,
isto é, o sangue”24.

Entretanto, sem podermos desenvolver aqui esta questão crucial,


note-se que o primeiro derramamento de sangue, já após a expulsão
do Éden, é o de sangue animal, levado a cabo por Abel, que oferece
a Deus “as primícias e a gordura de seu rebanho”. Deus recebe esta
oferenda com agrado, o que não acontece com a de Caim, feita de
“produtos do solo”. Isto suscita a irritação de Caim e o assassínio de
seu irmão Abel25. Segundo a interpretação do rabino Joseph Rosen-
feld, Deus não prefere a oferenda de Abel por ser o sacrifício de uma
criatura viva, mas sim pela atitude desinteressada com que o fez, ao
contrário de Caim. Não obstante, Abel foi o primeiro a fazer correr
o sangue de uma criatura de Deus, ou seja, a separar violentamente
a alma do corpo, pois o sangue é a própria alma26. Abel transgrediu
o primeiro mandamento de toda a criação, que não foi o de não co-
mer da árvore do conhecimento do bem e do mal, mas sim o de não

22. Cf. Ibid., 9, 8-17.


23. Cf. Ibid., 6, 5-7.
24. Cf. Ibid., 9, 1-4.
25. Cf. Ibid., 4, 3-8.
26. Cf. Ibid., 9, 4.

58
Quem é o meu Próximo?

fazer correr o sangue de nenhuma criatura: “Deus disse: «Eu vos dou
todas as ervas que dão semente, que estão sobre toda a superfície da
terra, e todas as árvores que dão frutos que dão semente: isso será
vosso alimento»”27. É essa a razão pela qual a justiça divina o sujeita a
morrer às mãos de Caim. Como escreve Joseph Rosenfeld: “Ele foi o
primeiro a quebrar a lei de Deus. Caim não foi o primeiro homem a
matar, foi Abel que primeiro derramou o sangue e tirou a vida de uma
criatura viva e assim teve de morrer em consequência da sua acção”28.
O mesmo autor recorda a não distinção na sabedoria hebraica entre
tirar a vida a um homem e a um animal, segundo o rei Salomão no
Eclesiastes:

“Pois a sorte do homem e a do animal é idêntica: como morre um,


assim morre o outro, e ambos têm o mesmo alento; o homem não
leva vantagem sobre o animal, porque tudo é vaidade.
Tudo caminha para um mesmo lugar:
tudo vem do pó
e tudo volta ao pó.
Quem sabe se o alento do homem sobe para o alto e se o alento do
animal desce para baixo, para a terra?”29

Todavia as leituras oficiais afirmam a inocência de Abel, esquecen-


do ser ele o primeiro assassino e o transgressor do primeiro interdito,
bem como o facto de um sacrifício sangrento nunca poder agradar ao
Deus que através de Isaías fala deste modo:

“Que me importam os vossos inúmeros sacrifícios? […] Estou far-


to de holocaustos de carneiros e da gordura de bezerros cevados; no
sangue de touros, de cordeiros e de bodes não tenho prazer”30

27. Cf. Ibid., 1, 29.


28. Cf. Joseph ROSENFELD, “The religious justification for vegetarianism”, in AAVV, Religious Ve-
getarianism. From Hesiod to the Dalai Lama, editado por Kerry S. Walters e Lisa Portmess, Albany,
State University of New York Press, 2001, pp.113-115.
29. Cf. Eclesiastes, 3, 19-21.
30. Cf. Isaías, 1, 11.

59
Pode-se dizer que a humanidade de hoje continua e maximiza o
crime de Abel, por motivos profanos, mas com sanção religiosa...

Quanto ao cristianismo, a tese de Elisabeth de Fontenay é que, se


por um lado abole os sacrifícios sangrentos, uma vez que o Cristo,
“cordeiro de Deus”, é simultaneamente quem sacrifica, o sacrifício e o
seu destinatário, por outro expulsa os animais do universo simbólico
e sagrado onde as trocas sacrificiais os mantinham, enquanto seres
dotados de alma e de energia espiritual com um lugar próprio na co-
municação e comunhão triangular entre eles, os homens e os deuses
ou Deus31. Embora existam versões diferentes, acerca de um Cristo
vegetariano, é um facto que as palavras registadas no Evangelho de
Mateus sugerem a dessacralização e liberalização do acto alimentar,
como se fosse espiritual e eticamente neutro, abrindo o caminho à
“imolação não sacrificial – abate profano e consumo livre”32: “Não é
o que entra pela boca que torna o homem impuro, mas o que sai da
boca, isto sim o torna impuro”. […] Não entendeis que tudo o que
entra pela boca vai para o ventre e daí para a fossa? Mas o que sai da
boca procede do coração e é isto que torna o homem impuro” (Ma-
teus, 15, 11 e 17-18). É verdade que a refeição eucarística é vegeta-
riana, para que se opere o sacramento da transubstanciação do pão e
do vinho no corpo e no sangue de Cristo, e que a agapé aí presente,
anunciando o sacrifício sangrento da Cruz, instaura uma relação di-
vino-humana que dispensa a violência do sacrifício animal, mas isso
suscita por outro lado uma dessacralização dos animais, que dora-
vante se tornam como “coisas” expostas a todo o tipo de predações
pela própria Cristandade33. Como diz Santo Agostinho, comentando
alguns actos da vida do filho de Deus: “O próprio Cristo mostra que
abster-se de matar os animais ou de destruir as plantas é o cúmulo da

31. Cf. Elisabeth de FONTENAY, Le silence des bêtes. La philosophie à l’épreuve de l’animalité,
pp.243-244.
32. “Notar-se-á o levantar dos interditos, a instauração de um modo liberal de comer e o estabele-
cimento de uma nova relação com os animais, pois que são todos declarados comestíveis. O pecado
não está mais aí, mas alhures” - Elisabeth de FONTENAY, Le silence des bêtes. La philosophie à
l’épreuve de l’animalité, p.245.
33. Cf. Ibid., p.246.
superstição, pois, considerando não haver direito comum entre nós e
os animais ou as árvores, envia os demónios para um bando de porcos
e, amaldiçoando-a, desseca a árvore na qual não encontrou fruto”34.
Nesta linha, São Tomás de Aquino retoma Aristóteles para negar que
o animal possa ser um sujeito de direito por não ser um agente moral,
capaz de intenção e deliberação, ou seja, de razão. E vai mais longe,
considerando que, uma vez que não há no animal nenhum desejo de
existir para sempre, mas apenas de perpetuar a espécie, os animais
são meros instrumentos animados que Deus colocou ao serviço dos
homens, os quais não pecam ao abatê-los35, embora reconheça que
sentir piedade para com os animais predispõe a senti-la em relação
aos homens36. Não só o abandono dos sacrifícios sangrentos no Oci-
dente cristão acabou por dessacralizar os animais, abrindo o caminho
do seu sacrifício profano e massivo, como a sua exclusão da Redenção
na teologia dominante – com excepções, como a de João Escoto Eriú-
gena e da teologia oriental, que sustentou a apokatastasis, o restabe-
lecimento de todas as criaturas na plenitude primordial – conduziu
paradoxalmente a desanimá-los, a ser-lhes negado o “seu destino de
almas”37.

Essa desanimação atinge o seu extremo em Descartes, que inaugu-


ra a filosofia moderna sob o signo da negação de alma ao animal e da
sua separação abissal do homem. Se o médico e filósofo castelhano
Gómez Pereira já havia defendido, na obra Antoniana Margarita, a
insensibilidade dos animais, considerando-os autómatos mecânicos,
na linha de sugestões vindas de Aristóteles38, é Descartes quem, ape-
sar de algumas reservas nem sempre consideradas no seu pensamen-
to39, se vai celebrizar pela concepção maquinal dos “corpos naturais”,

34. Cf. Santo AGOSTINHO, Les moeurs de l’Église catholique et les moeurs des Manichéens, Paris,
Desclée de Brouwer, 1949, II, XVII, 54.
35. Cf. São Tomás de AQUINO, Suma contra os Gentios, II, 82, 3 e III, 112.
36. Cf. Elisabeth de FONTENAY, Le silence des bêtes. La philosophie à l’épreuve de l’animalité,
pp.249-250.
37. Cf. Ibid., p.250.
38. Cf. ARISTÓTELES, O Movimento dos Animais, VII, 701b.
39. Cf. Elisabeth de FONTENAY, Le silence des bêtes. La philosophie à l’épreuve de l’animalité,
pp. 278-281.
Paulo Borges

incluindo o humano, feitos de “tubos ou molas” “demasiado peque-


nos para ser apercebidos pelos nossos sentidos”, o que o leva a afir-
mar que “uma árvore produz frutos como um relógio marca a hora e
como os animais fazem o que fazem”40, como os cães que abandonam
as caudas por puras afecções mecânicas, sem pensar que o fazem41.
Desprovidos de espírito e da sua manifestação numa linguagem, com
emissão de palavras ou signos sem relação com os automatismos das
paixões, mesmo os animais mais perfeitos não agem senão por ins-
tinto, são completamente desprovidos de razão42 e têm assim uma
natureza completamente distinta dos mais imperfeitos dos homens,
como os loucos ou os idiotas, que preservam a sua indivisível essên-
cia espiritual. Não há deste modo qualquer analogia entre o homem
e o animal43, há que se desfazer do hábito de pensar que os animais
pensam e acostumar-se a considerá-los como autómatos, apesar de
todas as resistências públicas: aquele que defende estas ideias, escreve
Descartes em carta a Mersenne, expõe-se “ao riso das crianças e dos
espíritos fracos”44. Como diz na carta a Morus, de Fevereiro de 1649,
“o maior de todos os preconceitos da nossa infância é crer que os ani-
mais pensam”45. E, numa das Respostas às Sextas Objecções, o filósofo
escarnece aqueles que falam dos animais “como se fossem cúmplices
com eles”46.

Elisabeth de Fontenay nota no fundador do racionalismo moderno


esta inquietante persistência de uma infelicidade de haver sido crian-
ça, bem como a desconfiança do “mundo da vida”, a par da tenebrosa
utopia de uma educação sem contacto com os animais, apenas com
homens e máquinas, de modo a chegar-se o mais rápido possível à
ideia clara e distinta, aquela que desanima tudo o que não seja Deus

40. Cf. René DESCARTES, Traité de l’Homme, in Oeuvres Philosophiques, 3 vols., textos estabeleci-
dos, apresentados e anotados por Ferdinand Alquié, Paris, Garnier, 1976-1983, I, p.379; Principes de
la Philosophie, in Ibid., III, p.520.
41. Cf. Id., Carta a Morus, Ibid., III, p.911.
42. Cf. Id., Discurso do Método, in Discurso do Método e Tratado das Paixões da Alma, tradução,
prefácio e notas pelo Prof. Newton de Macedo, Lisboa, Sá da Costa, 1968, pp.67-69.
43. Cf. Id., Carta ao Marquês de Newcastle, Oeuvres Philosophiques, 3 vols., III, p.695.
44. Cf. Id., Carta a Mersenne, Ibid., II, p.55.
45. Cf. Id., Carta a Morus, Ibid., III, p.884.
46. Cf. Id., Respostas às Sextas Objecções, I Ibid bid., II, p.866.

62
Quem é o meu Próximo?

e a alma (humana): o “anti-Emílio” de Rousseau. Nota também a


mesma recusa de uma “empatia”, de “uma intuição imediata do ou-
tro”, dessa Einfühlung que Heidegger, a respeito dos animais, embora
por motivos diversos, criticará nos anos 1929-193047. A obsessão de
Descartes com a consciência reflexiva parece levá-lo a não considerar
outras possibilidades de ser consciente e a identificar a sua ausência
com automatismo e, logo, animalidade. Suprimindo a tradição aris-
totélica da alma vegetativa e sensitiva, extirpando todo o animismo e
hilozoísmo tradicionais, toda a ideia do universo e da natureza como
um grande organismo vivo, e reduzindo o mundo material a extensão
e movimento, para Descartes só há alma racional, a qual é imortal e
apenas humana. A natureza nada tem de invisível e os animais são
autómatos insensíveis e perecíveis, apesar da palavra que os designa
dizer precisamente o contrário…48. Esta posição resolve aliás graves
problemas teológicos, pois se os animais sofressem, sem estar sujeitos
a pecar, uma vez que não são dotados de razão e logo de livre-arbí-
trio, o Deus criador e providente não poderia eximir-se à acusação
de injustiça49.

Talvez nunca, em toda a história da filosofia, um filósofo se haja


afastado mais insensatamente do bom senso comum, sendo por ele
dura e justamente fustigado. Como escreve Leibniz, numa carta: “Na
Holanda discute-se agora, alto e bom som, se os animais são máqui-
nas. As pessoas até se divertem a ridicularizar os cartesianos, por
estes conceberem que um cão que é agredido emite um som que é
similar ao de uma gaita de foles quando é comprimida”50.

A consagração do antropocentrismo na moral e no direito surge


todavia com Kant, cujas concepções imperam ainda hoje nos códigos

47. Cf. Elisabeth de FONTENAY, Le silence des bêtes. La philosophie à l’épreuve de l’animalité,
pp.284-287.
48. Cf. Ibid., pp.287-288.
49. Cf. Luc FERRY, “Prefácio”, in Luc FERRY / Claudine GERMÉ, Des animaux et des hommes. An-
thologie de textes remarquables, écrits sur le sujet, du XVe siècle à nos jours, Paris, Librairie Générale
Française, 2004, p.3.
50. G. W. LEIBNIZ, Carta a Ehrenfried Walter von Tschirnhaus, 1648, in G. W. LEIBNIZ, Philoso-
phical Papers and Letters, Dordrecht, Reidel, 1969, pp.275-276.

63
Paulo Borges

jurídicos. Nas Lições de Ética, obra do período pré-crítico, o filósofo


é claro: “Os animais não têm consciência de si mesmos e não são por
conseguinte senão meios em vista de um fim. Esse fim é o homem.
Por isso este não tem nenhum dever imediato para com eles”51. Como
diz Elisabeth de Fontenay, não se poderia encontrar “formulação
mais impressionante do reverso dessa medalha que é o imperativo
categórico que exige que se trate o homem sempre como um fim”52.
Com efeito, para Kant só “o homem, e em geral todo o ser racional,
existe como fim em si, e não simplesmente como meio do qual tal ou
tal vontade possa usar a seu grado”. Enquanto os seres naturais, quan-
do “desprovidos de razão”, não possuem senão um “valor relativo”, o
de “meios”, sendo por isso nomeados “coisas” (o caso dos animais não
-humanos), já pelo contrário os “seres racionais são chamados pes-
soas”, sendo “fins em si”, algo que jamais pode ser “meio” e que assim
limita o nosso “livre arbítrio”, constituindo “objecto de respeito”153.

Entre homens e animais há deste modo uma incomensurável di-


ferença de estatuto (de)ontológico que faz com que, a seu respeito,
o homem não tenha qualquer obrigação, mas apenas “deveres indi-
rectos para com a humanidade”54. Ou seja, deveres mediatos, como
tratá-los bem, não porque tenham direito intrínseco a tal, mas por-
que isso tem uma função formadora do próprio homem e permite
exercitar a “bondade de coração”55. Todavia, se o homem não pode
ter deveres senão a respeito do homem, ou seja, de pessoas, objectos
de obrigação moral por serem elas mesmas sujeitos livres e capazes
dessa obrigação moral, Kant afasta-se de Descartes ao reconhecer a
senciência dos animais, pois distingue entre “a simples natureza ma-
terial”, “desprovida de sensação”, e “essa parte da natureza (os mine-
rais, as plantas, os animais), que é dotada de sensação e de vontade”56.

51. Emmanuel KANT, Leçons d’Éthique, tradução de L. Langlois, Paris, LGF, 1997, p.391.
52. Elisabeth de FONTENAY, Le silence des bêtes. La philosophie à l’épreuve de l’animalité, p.517.
53. Emmanuel KANT, Fondements de la métaphysique des moeurs, traduction de Victor Delbos
revista por A. Philonenko com uma introdução e notas novas, Paris, J. Vrin, 1980, p.104.
54. Cf. Emmanuel KANT, Leçons d’Éthique, p.393.
55. Cf. Elisabeth de FONTENAY, Le silence des bêtes. La philosophie à l’épreuve de l’animalité, p.518.
56. Cf. Emmanuel KANT, Métaphysique des Moeurs. Deuxième Partie, Doctrine de la Vertu, intro-
dução e tradução de A. Philonenko, Paris, J. Vrin, 1985, 3ª edição, §16, pp.117-118.

64
Quem é o meu Próximo?

Seja como for, é sempre por ser contrário ao dever do homem para
consigo próprio que o filósofo denuncia a “inclinação para a destrui-
ção” da beleza natural, mesmo inanimada, pois enfraquece o senti-
mento, favorável à moralidade, de “amar alguma coisa independente-
mente de toda a consideração de utilidade”. O mesmo acontece com
a violência e a crueldade para com os animais, vivos mas desprovi-
dos de razão, pois diminui no homem o “sentimento de simpatia” a
respeito do seu sofrimento, enfraquecendo e aniquilando assim uma
“disposição natural muito favorável à moralidade nas relações com os
outros homens”. O homem tem o direito de “matar os animais (mas
sem tortura) ou de lhes impor um trabalho”, desde que não exceda as
suas forças, mas deve-se “desprezar” a experimentação cruel que vise
a mera especulação, sempre que puder ser dispensada. O reconheci-
mento pelos longos serviços de um velho cavalo ou cão é sempre um
dever indirecto para com eles, mas um dever directo do homem para
consigo mesmo57.

Todavia, se a doutrina kantiana da virtude suaviza por motivos an-


tropocêntricos o comportamento a respeito dos animais, já a doutri-
na do direito, numa perturbadora antecipação e legitimação do holo-
causto contemporâneo da produção industrial de carne, permite usar
a seu bel-prazer tudo o que o homem pode produzir em abundância,
como por exemplo batatas e animais: “[…] pode-se dizer das plantas
(por exemplo batatas) e dos animais domésticos que podemos usá
-los, consumi-los e destruí-los (fazê-los abater) porque, pelo que diz
respeito à abundância, eles são a obra do homem […]”58. Esta temível
doutrina, que consagra o direito do homem à produção de vida ani-
mal para seu uso e abuso, autojustifica-se também geneticamente nas
Conjecturas sobre o início da história humana:

“O quarto e último passo que realizou a razão, acabando de elevar o


homem acima da sociedade com os animais, residiu no facto de haver

57. Cf. Ibid., §17, p.118.


58. Cf. Emmanuel KANT, Métaphysique des Moeurs. Première Partie, Doctrine du Droit, prefácio
de M. Villey, introdução e tradução de A. Philonenko, Paris, J. Vrin, 1988, 4ª edição, §55, p.228.

65
Paulo Borges

compreendido (se bem que de modo apenas obscuro) que ele era no
fundo o fim da natureza e que nada do que vive sobre a terra podia
entrar em concorrência consigo neste ponto. A primeira vez que dis-
se ao carneiro: «A pele que tu trazes, a natureza não te a deu para ti,
mas para mim», que lha retirou e que dela se revestiu, […] ele tomou
consciência de um privilégio que tinha, devido à sua natureza, sobre
todos os animais que ele não considerou mais, doravante, como seus
companheiros na criação, mas como meios e instrumentos dos quais
a sua vontade pode dispor em vista de atingir os fins que ela se propõe
a seu grado. Esta representação inclui (se bem que obscuramente) a
sua recíproca, a saber, que ele não tinha o direito de dizer uma tal
coisa a um outro homem…”59.

O antropocentrismo autojustifica-se mediante uma autoconve-


niente versão finalista da história do mundo como estando orienta-
da para o domínio do homem, em que o direito sobre os animais se
vincula aos deveres para com os homens. Esta teleologia da natureza
está também presente na Crítica da Faculdade de Julgar: “Sendo sobre
a terra o único ser que possui um entendimento, logo uma faculdade
de se propor arbitrariamente fins, ele [o homem] merece decerto o
título de senhor da natureza e, se se considera a natureza como um
sistema teleológico, ele é segundo o seu destino o fim último da na-
tureza”60.

Se Kant ficasse apenas por aqui, não se poderia deixar de denunciar


a falácia do raciocínio, como se o simples facto de alguém conceber
fins e uma finalidade para a natureza fizesse dele o fim da mesma,
com ilimitados direitos sobre ela... O filósofo português Sampaio
Bruno, precursor em Portugal da defesa dos direitos dos animais, ri-
dicularizou já em 1902 a teleologia antropocêntrica, argumentando
que, se dinossauros, mastodontes e mamutes filosofassem, julgando
o mundo em função de si, também se veriam como a culminação e

59. Id., Conjectures sur les débuts de l’histoire humaine (1786), in Id., La philosophie de l’histoire,
pp.159-160
60. Id., Critique de la faculté de juger (1790), tradução de A. Philonenko, Paris, J. Vrin, 1979, 4ª
edição, §83, p.241.

66
Quem é o meu Próximo?

o desfecho do plano da criação61. É todavia o mesmo Kant quem, na


mesma obra, relativiza a afirmação anterior, considerando que o juí-
zo acerca da finalidade antropocêntrica da natureza não é senão um
juízo subjectivo, que funciona apenas como princípio “regulador”
e não “constitutivo”, sem qualquer determinação objectiva. Não se
pode na verdade assim saber “se alguma coisa, que julgamos segundo
este princípio, é intencionalmente fim da natureza: se as ervas existem
para o boi ou o carneiro e se este último e as outras coisas naturais
existem para os homens”62.

A institucionalização do antropocentrismo e das ideias kantianas


nos códigos jurídicos, nas instituições políticas e científicas e nas re-
presentações e práticas comuns da cultura europeia-ocidental, hoje
mundializada, não teve contudo a prudência destas últimas conside-
rações de Kant, dando azo a um crescente comportamento da huma-
nidade em relação ao mundo natural e aos seres vivos, com destaque
para os animais, como se fosse óbvio que estes desde sempre cons-
tituíssem meras “coisas”, recursos e instrumentos para o bem-estar
e o usufruto ilimitado do homem. Há nesta atitude um grosseiro e
infantil autocentramento da espécie humana, decorrente de uma fal-
ta de perspectiva mais ampla a respeito da história do universo, do
planeta e do homem, como a que nos é oferecida pela astronomia
e pela geofísica. Estas ciências dizem-nos que o universo observá-
vel tem 15 mil milhões de anos, a nossa galáxia 8 mil milhões de
anos e o planeta Terra 4,5 mil milhões de anos. Os primeiros traços
de vida apareceram nele há 3,8 mil milhões de anos, enquanto as
primeiras manifestações da técnica dos hominídeos datam apenas
de há alguns milhões de anos e o Homo Sapiens apareceu somente
há 200 000 anos. Quanto aos fundamentos da actual era industrial,
surgiram apenas há dois séculos. Como conclui André Lebeau, reto-
mando Carl Sagan: “Se se reconduz a idade do Universo a um dia de
vinte e quatro horas, a presença do homem manifesta-se nos cinco

61. Cf. Sampaio BRUNO, A Idéa de Deus, Porto, Livraria Chardron, 1902, pp.458-459.
62. Emmanuel KANT, Critique de la faculté de juger (1790), tradução de A. Philonenko, Paris, J.
Vrin, 1979, 4ª edição, §67, p.197.

67
Paulo Borges

últimos segundos e a explosão técnica e demográfica ocupa o último


centésimo de segundo. Isto não dá de modo algum à civilização hu-
mana os atributos da perenidade […]”63. Todavia o homem compor-
ta-se como um recém-chegado à festa da vida que de repente ima-
gina que a festa foi organizada para si, que aí vai ficar para sempre
e que tem o direito de fazer o que quiser da casa, dos seus recursos
e dos outros convidados, pondo-os ao seu serviço, explorando-os e
destruindo-os a seu bel-prazer... Podemos perguntar o que faríamos
com alguém que chegasse a nossa casa e pensasse e se comportasse
assim… A questão é que quem pensa e se comporta assim somos
todos nós, activa ou passivamente, directa ou indirectamente, pela
cumplicidade de não ver ou querer ver as consequências que este pa-
radigma de pensamento e comportamento está a ter sobre o planeta,
os seres vivos e, naturalmente, nós próprios.

Vivemos com efeito uma profunda crise do paradigma cuja génese


descrevemos, o qual dominou a humanidade europeia-ocidental e se
mundializou: nele o homem considera-se centro e dono do mundo, re-
duzindo a natureza e os seres vivos e sencientes a objectos desprovidos
de valor intrínseco, meros meios destinados a servir fins e interesses
humanos. Se a filosofia, a ciência e a tecnologia modernas confiaram
no progresso geral e ilimitado da humanidade mediante a exploração
ilimitada dos recursos considerados ilimitados do mundo natural e
dos seres vivos, frustra-se hoje essa expectativa de um Paraíso terre-
no científico-tecnológico-económico: o sonho dos projectos liberais e
socialistas, a fantasia das direitas e das esquerdas, o devaneio do capi-
talismo privado e de estado, converteu-se no pesadelo da manuten-
ção da guerra e do aumento da fome, dos desníveis crescentes entre
pobres e ricos, da crise económico-financeira, da destruição da biodi-
versidade, do sofrimento humano e animal, da iminência de colapso
ecológico e da gritante incapacidade da sociedade de produção e con-
sumo satisfazer a humana aspiração à paz e à felicidade, como o atesta
o aumento do “mal-estar na civilização” (Freud) sob a forma de medo,
violência, criminalidade e toxicodependência, stress e ansiedade e re-

63. André LEBEAU, L'enfermement planétaire, Paris, Gallimard, 2008, p.368.

68
Quem é o meu Próximo?

curso a sedativos e anti-depressivos. Os relatórios científicos mostram


o tremendo impacto que o actual modelo de crescimento económico
tem sobre a biosfera planetária, acelerando a sexta extinção em massa
do Holoceno, com uma redução drástica da biodiversidade, sobretudo
nos últimos 50 anos, a um ritmo que chega a 140 000 espécies de plan-
tas e animais por ano, mais de 383 por dia, devido a causas humanas:
destruição de florestas e outros habitats, caça e pesca, introdução de
espécies não-nativas, poluição e alterações climáticas, etc.64.

Uma manifestação particularmente violenta do antropocentrismo


é o especismo, preconceito pelo qual o homem discrimina os mem-
bros de outras espécies animais por serem diferentes e supostamente
inferiores, mediante um critério baseado no distinto tipo de inteli-
gência e linguagem que possuem e que ignora ou desconsidera a sua
igual capacidade de sentirem dor e prazer físicos e psicológicos, bem
como de terem sentimentos e interesses vitais65. Neste sentido, o es-
pecismo pode ser considerado afim a todas as formas de discrimina-
ção e opressão do homem pelo homem, como o sexismo, o racismo
e o esclavagismo, embora sem o reconhecimento e combate de que
estas felizmente têm sido alvo.

A exploração ilimitada de recursos naturais finitos em conjunto


com a dos animais não-humanos para fins alimentares, (pseudo-)
científicos, de trabalho, vestuário e divertimento, tem causado um
grande desequilíbrio ecológico e um enorme sofrimento. A descon-
sideração ética do mundo natural e da vida animal não só obsta à
evolução moral da humanidade como também a lesa, lesando o pla-
neta, como é particularmente evidente nos efeitos do consumo mas-

64. A equipa internacional liderada pelo biólogo Miguel Araújo, da Universidade de Évora, pu-
blicou recentemente um importante artigo na revista Nature sobre as consequências na “árvore
da vida” das mutações climáticas antropogénicas: http://www.nature.com/nature/journal/v470/
n7335/full/nature09705.html
65. “O especismo […] é um preconceito ou atitude de favorecimento dos interesses dos membros
de uma espécie em detrimento dos interesses dos membros de outras espécies” – Peter SINGER,
Libertação Animal [1975], Porto, Via Óptima, 2008, p.6.
66. Cf. Peter SINGER, Libertação Animal; Jonathan S. FOER, Comer Animais [2009], Lisboa, Ber-
trand, 2010.

69
Paulo Borges

sivo de carne industrial. Além do sofrimento dos animais, criados


em autênticos campos de concentração66, além da nocividade da sua
carne, saturada de toxinas, antibióticos e hormonas de crescimento67,
a pecuária intensiva é um mau negócio com um imenso impacto eco-
lógico: entre muitos outros índices gritantes, destaque-se que toda a
proteína vegetal hoje produzida no mundo para alimentar animais
para consumo humano poderia nutrir directamente, com as medidas
geopolíticas adequadas, 2 000 milhões de pessoas, quase um terço da
população mundial, enquanto 1 000 milhões padecem fome68. Isto
leva a ONU a considerar urgente uma dieta sem carne nem lacticí-
nios para alimentar de forma sustentável uma população que deve
atingir os 9.1 biliões em 205069.

Contra a desconsideração ética do mundo natural e dos animais


não-humanos desde sempre se insurgiram consciências mais éticas
e empáticas com a vida natural e animal, mesmo no seio da cultura
ocidental e do antropocentrismo pagão e cristão que a moldou70. Re-
firam-se aqui apenas algumas, das menos citadas. Max Scheler viu
no sentimento de fraternidade cósmica em São Francisco de Assis,
sensível à filiação divina de tudo quanto existe – natureza, homens
e animais – , mediante uma “fusão afectiva com a vida, considerada
como um todo divino e indivisível”, a excepção que “esmaga no seu
próprio núcleo a ideia judaico-romana do homem senhor da natu-

67. Segundo a Organização Mundial de Saúde, mais de 75% das doenças mais mortais nos países
industrializados advêm do consumo de carne.
68. A produção de 1 kg de carne de vaca liberta mais gases com efeito de estufa do que conduzir um
carro e deixar todas as luzes de casa ligadas durante 3 dias, consome 13-15 kg de cereais/legumi-
nosas e 15 000 litros de água potável, cuja escassez já causa 1.6 milhões de mortes por ano e novos
ciclos bélicos (http://www.ambienteonline.pt/noticias/detalhes.php?id=7788); a pecuária intensiva
é responsável por 18% da emissão de gases com efeito de estufa a nível mundial, como o metano,
emitido pelo gado bovino, que contribui para o aquecimento global 23 vezes mais do que o dióxido
de carbono; 70% do solo agrícola mundial destina-se a alimentar gado e 70% da desflorestação da
selva amazónica deve-se à criação de pastagens e cultivo de soja para o alimentar - cf. um relatório
de 2006 da FAO, Food and Agriculture Organization, da ONU, Livestock’s Long Shadow: environ-
mental issues and options: http://www.fao.org/docrep/010/a0701e/a0701e00.HTM
69. http://www.guardian.co.uk/environment/2010/jun/02/un-report-meat-free-diet
70. Veja-se ainda Elisabeth de FONTENAY, Le silence des bêtes. La philosophie à l’épreuve de l’ani-
malité.
71. Cf. Max SCHELER, Nature et formes de la sympathie. Contribution à l’étude des lois de la vie
affective, tradução do alemão de M. Lefebvre, Paris, Payot, 1971, pp.131-132.

70
Quem é o meu Próximo?

reza, ideia que o Evangelho atenuou, sem a suprimir”71. O filósofo


cristão russo Nicolas Berdiaev notou a dificuldade do cristianismo
unir o amor a Deus com o amor por todas as criaturas: “O amor pela
criatura em geral, pelos animais, plantas, minerais, pela terra e pelas
estrelas, não foi de todo desenvolvido na ética cristã. É um problema
de ética cósmica e tem de ser ainda formulado”; “A consciência cristã
não desenvolveu ainda uma relação moral com os animais e a natu-
reza em geral. A sua atitude para com a natureza foi demasiado a de
indiferença espiritual. E todavia o olhar nos olhos de um animal in-
defeso dá-nos uma experiência moral e metafísica de prodigiosa pro-
fundidade”72. E, já antes deles, o poeta-pensador Antero de Quental
rompe com a suposto aristotélico da exclusividade humana do logos
ao proclamar a sua compreensão das “Vozes do mar, das árvores, do
vento”, do “Verbo crepuscular e íntimo alento / Das cousas mudas”,
do doloroso “queixume”, “lamento” e “suspiro do mundo”, cujo “tor-
mento” considera compassivamente igual ao seu. Mais do que isso,
reconhece ainda em todos os seres um princípio de consciência e um
desejo de libertação com o qual fraternalmente se identifica: “Um es-
pírito habita a imensidade: / Uma ânsia cruel de liberdade / Agita e
abala as formas fugitivas. / E eu compreendo a vossa língua estranha,
/ Vozes do mar, da selva, da montanha… / Almas irmãs da minha,
almas cativas!”73. Antero é aliás um dos autores mais representativos
de um pensamento português onde avulta uma ética cósmica e um
sentimento de solidariedade com os animais, nomeadamente nas
obras de Guerra Junqueiro, Sampaio Bruno e Teixeira de Pascoaes74,
culminando em Agostinho da Silva: “animal está no mundo para ser
nosso companheiro, não nosso escravo e vítima”75.

72. Nicolas BERDIAEV, The Destiny of Man, tradução do russo de Natalie Duddington, New York,
Harper & Brothers, 1960, pp.188 e 193.
73. Cf. Antero de QUENTAL, Sonetos, organização, introdução e notas de Nuno Júdice, Lisboa,
Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1994, p.149.
74. Cf. Paulo BORGES, Princípio e Manifestação. Metafísica e Teologia da Origem em Teixeira de
Pascoaes, 2 vols., Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2008.
75. Agostinho da SILVA, “Proposição”, Dispersos, introdução de Fernando Cristóvão, apresentação
e organização de Paulo Borges, Lisboa, ICALP, 1988, p.607.
76. Cf. Fernando ARAÚJO, A Hora dos Direitos dos Animais, Coimbra, Almedina, 2003.

71
Paulo Borges

O surgimento da questão dos direitos dos animais76, que assume


cada vez maior visibilidade e dimensão na opinião pública, na luta
política e na investigação académica, é um dos pontos mais marcan-
tes da crescente contestação do paradigma antropocêntrico e especis-
ta e um dos sinais de uma mutação das mentalidades e da civilização.
O que inicialmente está em causa é o reconhecimento ou não de di-
reitos morais aos animais, independentemente de serem legalmente
reconhecidos, a atribuição ou não de um estatuto moral ao animal, ou
seja, de um valor intrínseco, que deva pautar a conduta a seu respei-
to e que seja independente, quer das suas relações com outros seres,
quer da sua consagração jurídica77. Já no século XVIII, o mesmo sé-
culo de Kant, Jeremy Bentham apontou a capacidade de sofrer como
o que dá direito a uma igual consideração moral de humanos e não
-humanos, só negada aos últimos por via da “tirania”, questionando
a superioridade humana por via da “razão” ou do “discurso” e suge-
rindo a afinidade entre o racismo e o que futuramente se chamaria
“especismo”. É um excerto visionário que vale a pena transcrever:

“Poderá chegar o dia em que o resto da criação animal adquira


aqueles direitos que só a mão da tirania lhe poderia ter retirado. Os
franceses já descobriram que a negrura da pele não é razão para en-
tregar irremediavelmente um ser humano ao capricho de um algoz.
Um dia poderá reconhecer-se que o número de patas, a vilosidade
da pele ou o término do os sacrum são razões igualmente insuficien-
tes para entregar um ser sensível ao mesmo destino. Que outra coisa
deverá traçar a fronteira insuperável? Será a faculdade da razão ou,
talvez, a faculdade do discurso? Mas os cavalos ou os cães adultos são
animais incomparavelmente mais racionais ou comunicativos do que
um bebé de um dia, uma semana ou mesmo um mês. Mas, supondo
que isto não era verdade, que importaria isso? A questão não é “Será
que podem raciocinar?”, nem “Será que podem falar?”, mas “Será que
podem sofrer?”78.

77. Cf. Pedro GALVÃO, “Introdução”, in Os animais têm direitos? Perspectivas e argumentos, organi-
zação e tradução de Pedro Galvão, Lisboa, Dinalivro, 2011, p.9.
78. Jeremy BENTHAM, Introduction to the Principles of Morals and Legislation, 1823, cap. XVII.

72
Quem é o meu Próximo?

Bentham é um utilitarista que sustenta que a medida do que se deve


ou não fazer é a maior felicidade do maior número, entendida como
predomínio do prazer sobre a dor. É no desenvolvimento desta linha
de pensamento que se inscreve Peter Singer, ao reconhecer na “capa-
cidade de sofrer e de sentir alegria” a condição para que haja “interes-
ses”, no mínimo o de não sofrer. Isto confere estatuto moral a todos
os seres sencientes, seja qual for a sua espécie, embora não se traduza
na defesa de que todos devam ser tratados do mesmo modo, sem ter
em conta as suas distintas naturezas. Singer sustenta haver que con-
siderar imparcial e igualitariamente os interesses dos seres sencien-
tes, agindo sempre no sentido do maior bem-estar geral, e é isso que
não faz dele um defensor de direitos propriamente ditos, que na sua
acepção, como na de Bentham, designam apenas a igual considera-
bilidade moral dos seres sencientes79. Advogando a extensão a todas
as espécies de animais sencientes do princípio de igualdade moral
que se reconhece dever existir entre os membros da espécie humana,
o filósofo australiano funda o movimento de libertação animal, que
visa emancipar os não-humanos das atitudes e práticas baseadas nos
preconceitos especistas dos humanos80.

Se a perspectiva utilitarista de Peter Singer admite a possibilidade


de sacrificar os interesses de seres sencientes individuais sempre que
daí resulte um maior benefício para todos, já Tom Regan se situa na
perspectiva deontológica da ética kantiana, ampliando todavia a al-
guns animais não-humanos o “imperativo categórico” que em Kant
se restringe às “pessoas” humanas, entendidas como seres racionais
e autónomos:

“Age de tal modo que trates a humanidade, tanto na tua pessoa


como na pessoa de todo o outro, sempre e simultaneamente como
um fim e jamais simplesmente como um meio”81.

79. Cf. Peter SINGER, Libertação Animal [1975], p.7; Pedro GALVÃO, “Introdução”, in Os animais
têm direitos? Perspectivas e argumentos, p.16.
80. Cf. Peter SINGER, “Todos os animais são iguais”, in Os animais têm direitos? Perspectivas e
argumentos, p.26.
81. Cf. Emmanuel KANT, Fondements de la métaphysique des moeurs, p.105.

73
Paulo Borges

Considerando insatisfatória a deontologia kantiana, pois, caso fos-


se rigorosamente aplicada, excluiria da consideração moral muitos
seres humanos, como por exemplo crianças pequenas e deficientes
mentais, por não serem racionais nem autónomos, o filósofo norte
-americano propõe uma nova categoria para a atribuição de direitos
intrínsecos, mais inclusiva que a de “pessoa” racional e autónoma e
que não se identifica também com a de “ser humano” e “animal”. É o
que designa como “sujeito-de-uma-vida”, o qual não tem necessaria-
mente muitas das faculdades cognitivas encontradas nos humanos,
sem ser apenas senciente:

“Os indivíduos são sujeitos-de-uma-vida se têm crenças e desejos;


percepção, memória e uma noção do futuro, incluindo do seu próprio
futuro; uma vida emocional com sensações de prazer e dor; interesses
de preferências e de bem-estar; a capacidade de iniciar acções na per-
secução dos seus desejos e objectivos; uma identidade psicofísica ao
longo do tempo; e um bem-estar individual no sentido em que a sua
vida experiencial lhes corre melhor ou pior, de forma logicamente
independente da sua utilidade para os outros ou de serem objecto dos
interesses de outros”82.

Isto permite a Tom Regan considerar muitos dos animais não-hu-


manos, que como vimos Kant reduzia à condição de meras “coisas”
e “meios” ao dispor do livre-arbítrio humano83, como dignos de be-
neficiar da protecção de alguns direitos deontológicos fundamentais
como “o direito à vida, o direito à liberdade e o direito à integridade
corporal – ou, de um modo mais geral, o direito a ser tratado com
respeito”84.

Entre as mais representativas perspectivas existentes, refira-se ainda

82. Cf. Tom REGAN, The Case for Animal Rights, Berkeley/Los Angeles, University of California
Press, 1983, 2ª edição, p.243.
83. Cf. Emmanuel KANT, Fondements de la métaphysique des moeurs, p.104.
84. Cf. Pedro GALVÃO, “Introdução”, in Os animais têm direitos? Perspectivas e argumentos, p.18.

74
Quem é o meu Próximo?

a de Gary Francione, que contesta mais radicalmente o pressuposto


de que os animais possam ser considerados propriedade dos homens,
criticando as leis que lhes visam dar um tratamento mais humanitário
como estando em geral meramente interessadas em não prejudicar o
seu valor como mercadorias, sem considerar moralmente os seus in-
teresses. Segundo o filósofo norte-americano, mesmo cumprindo as
leis que supostamente protegem os animais, os homens continuam a
tratá-los de um modo que, caso os envolvidos fossem humanos, seria
considerado tortura85. De acordo com Francione, basta a senciência
para que os animais sejam considerados “pessoas” e membros inte-
grais da comunidade moral, com o direito pré-legal a não serem pro-
priedade dos humanos, ou seja, a não serem considerados “coisas”,
não sendo para tal requeridas quaisquer características cognitivas
semelhantes às dos humanos, como a consciência de si reflexiva, a
linguagem ou a autonomia das preferências86.

Francione distingue assim a afirmação dos direitos animais, que


põe em causa o seu uso pelo homem e requer a abolição de toda a
forma da sua exploração, e a luta pelo mero bem-estar animal, que
visa apenas regulamentar essa exploração, tornando-a mais “bon-
dosa” ou “humanitária”, o que considera uma forma de a justificar,
questionando apenas o modo como os animais são tratados. Enquan-
to abolicionista e não meramente bem-estarista (de “wellfarism”), o
pensador adopta o veganismo como filosofia de vida e considera o
movimento pelos direitos animais a extensão lógica do movimento
mundial pela paz87. Se Peter Singer não contesta o uso do animal em
si, questionando apenas o modo como tal é feito em função da sua
senciência, o que conduz à perspectiva bem-estarista, e se Tom Regan
defende a abolição do uso de animais apenas para aqueles que forem
“sujeitos-de-uma-vida”, já Gary Francione advoga a abolição integral

85. Cf. Gary FRANCIONE, Animals, Property, and the Law, Philadelphia, Temple University Press,
1995.
86. Cf. Id., Introduction to Animal Rights: Your Child or the Dog?, Philadelphia, Temple University
Press, 2000.
87. Cf. Id., Rain without Thunder: The Ideology of the Animal Rights Movement, Philadelphia, Tem-
ple University Press, 1996; Animals As Persons: Essays on the Abolition of Animal Exploitation, Co-
lumbia University Press, 2008.

75
Paulo Borges

de todo o uso de seres sencientes.

Reservamos para um futuro trabalho uma tomada de posição mais


fundamentada e desenvolvida sobre esta questão, mas parece-nos
evidente que, se a abolição da instrumentalização de toda a vida de
um ser senciente é a posição e conduta ética mais perfeita e coerente,
ela exige um aperfeiçoamento moral e espiritual do homem (da sua
consciência, independentemente de qualquer visão religiosa) e uma
transformação tão profunda da civilização que, embora desejáveis
e devendo ser desde já assumidas como meta de que nos devemos
aproximar individual e colectivamente tanto quanto possível, não
parecem imediatamente acessíveis a todos os homens e sociedades
humanas, com a excepção de indivíduos, grupos e comunidades al-
ternativas, que por isso mesmo devem servir de inspiração e exemplo
para a maioria. Nesse sentido, desde que a motivação se centre nos
interesses dos animais e não na manutenção da sua exploração pelos
homens, é natural que, sendo o abolicionismo a meta, o crescente
aumento do bem-estar animal e a crescente diminuição do seu so-
frimento às mãos do homem sejam o caminho a seguir por quem,
podendo desde já abolir no seu comportamento individual toda a
forma de exploração dos animais, deseje contribuir para a evolução
das sociedades nesse rumo, com uma visão estratégica e paciente dos
passos que é possível dar a cada momento. Desde que não seja visto
como um fim em si mesmo, mas sempre como um meio a ultrapas-
sar para chegar mais longe, a promoção do bem-estar animal não
contradiz, e pelo contrário serve, o propósito mais amplo e último
da abolição de toda a forma da sua exploração. Seja como for, quem
esteja real e compassivamente interessado no bem dos animais, pare-
ce óbvio que, não podendo por exemplo libertá-los imediatamente a
todos da tortura nas unidades de pecuária intensiva, não vai rejeitar
a possibilidade de um melhoramento das condições da sua existência
aí, por mínima que seja, como a concessão de um espaço vital maior.

Insistimos, para finalizar, que a questão dos direitos dos animais


se insere numa questão mais ampla, que é a da legitimidade do an-
tropocentrismo e de quais as suas consequências, para o planeta, os

76
Quem é o meu Próximo?

homens e os animais, bem como das alternativas a ele. Num livro


recente, extremamente valioso por aliar o diagnóstico da crise da ci-
vilização à proposta de alternativas, Stéphane Ferret mostrou que a
causa da crise ecológica reside na desconsideração ética do mundo
natural, incluindo os animais, sendo portanto “de ordem moral, isto
é, no mais profundo, metafísica”88. Considerando que a metafísica,
enquanto visão global acerca do existente, condiciona a teoria dos
valores morais, a ética e o direito, o autor considera que tudo se joga
entre uma metafísica humanista antropocêntrica, que considera o
homem como distinto da natureza e o único existente e vivente com
valor intrínseco, e uma metafísica não humanista nem antropocên-
trica, que reconduz o homem a um existente e vivente entre os outros
existentes e viventes do mundo ao qual todos igualmente pertencem,
mundo, existentes e viventes com valores intrínsecos, irredutíveis à
avaliação a que os submetem os interesses da recém-chegada espécie
humana89. Ferret propõe uma distinção desses valores intrínsecos,
fundadora de distintos níveis dos direitos desses existentes e viventes,
que não analisaremos aqui, terminando apenas por advertir que nes-
ta questão, tal como em tudo, pode ser mais sábio seguir um caminho
do meio entre as versões extremas das duas metafísicas, com as suas
consequências a nível da ética, da moral e do direito. Um caminho do
meio no qual não se sacrifique, por um lado, a evidente singularidade
do ser humano, enquanto o único ser que, até prova em contrário,
tem a capacidade de colocar estas questões e de procurar viver de
acordo com as respostas que lhes dá – e em particular de colocar a
questão dos interesses, valores e direitos intrínsecos de todos os se-
res, humanos e não-humanos, de colocar a questão do bem de tudo e
de todos e de procurar viver de acordo com isso, o que nenhum outro
animal parece fazer - , sem que, por outro lado, se caia no extremo de
considerar isso um atributo que lhe confira privilégios sobre os seres
não-humanos e sobre o mundo natural, nomeadamente o direito de
os apropriar, usar e explorar a seu bel-prazer, o que aliás seria mani-

88. Cf. Stéphane FERRET, Deepwater Horizon. Éthique de la Nature et Philosophie de la Crise Éco-
logique, Paris, Seuil, 2011, p.9.
89. Cf. Ibid., pp.19-20 e 9.

77
Paulo Borges

festamente contraditório com a natureza do atributo em questão. O


grande desafio, a que somos todos convocados, é o de pensarmos e
realizarmos um novo exercício do ser homem, não antropocêntrico,
em que a singularidade das potencialidades humanas não seja exerci-
da no sentido do domínio, instrumentalização e exploração do mun-
do natural e dos seres sencientes, mas antes no da responsabilidade
pelo seu serviço e cuidado desinteressados, que na maioria dos ca-
sos passa apenas por deixá-los manifestar livremente o seu modo de
existir e de viver, reduzindo ao mínimo inevitável o impacto humano
sobre eles90. É o desafio de uma bioética “descentrada”, como aquela a
que exorta o Professor Fernando Araújo:

“Abandonemos, assim, a nossa visão «centrada», e façamos dos di-


reitos dos animais a marca do respeito que temos pela radical parti-
cularidade que, na ordem da natureza, cada espécie representa, e cada
experiência individual de sensibilidade constitui, por mais dissimi-
lares que elas sejam em relação àquilo que julgamos serem as nossas
próprias natureza e experiência. Restringirmos a disciplina jurídica
da nossa conduta ao plano da intersubjectividade humana é insensi-
bilizarmo-nos voluntariamente à dádiva de diversidade que compõe
a natureza, é tentarmos demarcar-nos de um meio pelo qual a nossa
conduta inevitavelmente se espraia, ferindo interesses e experiências
vitais individualizadas, as diversas manifestações da vida, tanto hu-
mana como não-humana – afinal, o plano da nossa própria anima-
lidade, da nossa condição de criaturas mortais, da nossa inserção na
ecologia planetária, plano sem o qual a nossa humanidade nada sig-
nificaria, nada significando também os preceitos do Direito que pre-
tendessem, apesar de uma tal truncagem, ao mesmo tempo espelhar
e servir essa humanidade”91.

Cremos ser este o rumo de um novo paradigma mental, ético e ci-

90. Para uma excelente introdução às diferentes perspectivas sobre estas questões, cf. Andrew
BRENNAN / Y. S. LO, Understanding Environmental Philosophy, Durham, Acumen Publishing,
2010.
91. Fernando ARAÚJO, A Hora dos Direitos dos Animais, p.345.

78
Quem é o meu Próximo?

vilizacional que reconheça que as agressões aos animais e à nature-


za, para além da sua nocividade intrínseca, são também agressões da
humanidade a si mesma, que não separe as causas humana, animal e
ecológica e que reconheça valor intrínseco e não apenas instrumental
aos seres sencientes e ao mundo natural, consagrando juridicamente
o direito dos primeiros à vida, liberdade e integridade física e psico-
lógica e o direito do segundo à preservação, integridade e harmonia
da qual depende a própria vida humana (no que respeita aos animais,
Portugal possui um dos Códigos Civis mais atrasados da Europa e até
do mundo, considerando-os meras “coisas móveis” – art. 205, 1 - ,
traço de um direito romano e de um cartesianismo-kantismo ana-
crónicos que urge alterar). Sem este novo paradigma, de uma nova
humanidade, não antropocêntrica, em que o homem seja responsável
pelo bem de tudo e de todos92, não parece aliás viável haver futuro,
pelo menos digno, para os humanos e para inúmeras espécies ani-
mais e vegetais no planeta Terra.

92. Trata-se de aprofundar, ampliar e tirar todas as consequências do “princípio de responsabili-


dade” formulado por Hans Jonas – Hans JONAS, Das Prinzip Verantwortung, Frankfurt am Mein,
Insel Verlag, 1979.

79
Paulo Borges

80
Quem é o meu Próximo?

II
Desenvolvimentos

81
Paulo Borges

82
Quem é o meu Próximo?

O que esperar do Papa


Francisco e de todos os líderes
espirituais e religiosos?

O mundo, como expressa o título do livro de Fritjof Capra, chegou


a um Ponto de Mutação. A mudança profunda do paradigma globa-
lizado que tem presidido ao nosso pensamento e comportamento, a
nível pessoal e institucional, já não é hoje uma possibilidade apenas
que dependa da nossa vontade e das nossas opções. A mudança está
aí como uma necessidade decorrente do esgotamento e da crise desse
mesmo paradigma, que a nível mundial mostra resultados cada vez
mais contraditórios das aspirações com que foi implementado e da sua
sustentabilidade sócio-económica e ecológica a curto prazo. Com efei-
to, vivemos hoje a desilusão, muitas vezes brutal, do projecto civiliza-
cional técnico-científico, industrial e antropocêntrico da modernida-
de europeia-ocidental, desde há escassos três séculos (lapso de tempo
irrisório na imemorial história do universo, da Terra e da humani-
dade) movido pela promessa e expectativa de progresso ilimitado no
acesso da humanidade à felicidade, à abundância material e à liberda-
de mediante o domínio e instrumentalização da natureza e dos seres
vivos, a exploração desenfreada dos seus recursos, a produção e con-
sumo ilimitados e a transformação das condições sociais e materiais
de existência por via política e económica visando emancipar uma
espécie, a humana, da natureza, do sofrimento e dos limites inerentes
à comum condição mortal de todos os viventes. Somos hoje cada vez
mais confrontados, como escreveu Erich Fromm, com o “fracasso” e
o “fim” da “ilusão” dessa nova religião que - avatar laico das expectati-
vas messiânicas judaico-cristãs do Reino de Deus sobre a Terra (com
o qual tanto sonhou entre nós o Padre António Vieira) - suscitou o
entusiasmo e a fé cega de legiões de crentes e descrentes em todo o
mundo capitalista e socialista, a da “Grande Promessa de Progresso
Ilimitado”184. A crise e frustração geral da expectativa de um Paraíso
terreno científico-tecnológico e político-económico, pouco após o seu

83
Paulo Borges

aparecimento, converteu este sonho cor-de-rosa no negro pesadelo do


sofrimento da guerra, fome e pobreza, do fosso entre pobres e ricos
e entre Norte e Sul, da crise económico-financeira, da destruição da
biodiversidade e da diversidade cultural, do sofrimento dos animais
na indústria alimentar, da poluição do ar, da água e dos solos, das mu-
tações climáticas, do esgotamento dos combustíveis fósseis, de desas-
tres ecológicos sem precedentes e do risco de colapso ecológico-social.
Tudo isto agravado pelo crescente mal-estar existencial e espiritual
numa civilização que reprime e encerra o melhor dos seres humanos
numa “normose” colectiva de “cadáveres adiados que procriam” (Fer-
nando Pessoa), mas que cada vez mais constata que a felicidade que
procura não reside no progresso nem na riqueza materiais, no prazer
fugaz, na fama ou no poder, embora permaneça ainda globalmente
incerta e céptica quanto a uma orientação alternativa para encontrar
um sentido para uma vida que parece não o ter para largos sectores
da população, onde dramaticamente se destacam muitos dos mais jo-
vens, mergulhados, por não terem nos pais exemplos nem educadores,
nas distracções hedonistas mais fúteis, na indiferença, no niilismo e
na dependência, seja de psicotrópicos, álcool, emoções obscuras ou
revolta estéril sem horizontes de criação e de sentido.

Este é o aspecto sombrio do actual ponto de mutação civilizacional,


aquele em que as grandes ilusões vitais das quais sempre depende
a maior parte da humanidade, como diria Nietzsche, deixaram de o
ser, dissolvendo a sua eficácia numa ausência de referências que não
é a da sua transcensão espiritual. Há todavia um inseparável aspec-
to luminoso de tudo isto, patente no crescente número de pessoas,
grupos e movimentos que buscam alternativas ao esgotamento do

1. “A Grande Promessa de Progresso Ilimitado – a promessa de domínio da Natureza, de abundân-


cia material, de maior felicidade para o maior número de indivíduos, e de liberdade pessoal irres-
trita – alimentou a esperança e a fé de inúmeras gerações desde o início da Revolução Industrial”;
“A trindade da produção ilimitada, liberdade absoluta e felicidade irrestrita formaram o núcleo de
uma nova religião”; “É importante visualizar a imensidão da Grande Promessa, as maravilhosas
conquistas materiais e intelectuais da Revolução Industrial para podermos compreender o trauma
que a constatação do seu fracasso está a produzir nos dias de hoje. Porque a Revolução Industrial fa-
lhou efectivamente no cumprimento da sua Grande Promessa” – Erich FROMM, Ter ou Ser? [1976],
Lisboa, Editorial Presença, 1999, pp.13-14.

84
Quem é o meu Próximo?

actual paradigma civilizacional em todos os planos da actividade e da


experiência humana - espiritual, cultural, educativo, terapêutico, éti-
co-moral, social, económico, ecológico e político – e, sobretudo, na
integração de todos eles num novo paradigma integral, global ou ho-
lístico, que reconheça a interconexão de todos os seres, saberes e prá-
ticas no corpo uno e múltiplo do unimultiverso. Das ruínas do velho
mundo, como de um caos genesíaco, brotam rebentos de uma nova
vegetação cheia de seiva e juventude, a de uma renascida inquietação
espiritual, mental e social da humanidade que não se revê nem nas
tradições cristalizadas nem na modernidade hoje não menos fós-
sil e aspira a uma outra pós-modernidade, não a do desalento ou
da celebração do sistema pseudo-triunfante (Boaventura de Sousa
Santos), mas a da ruptura inventiva de outras formas de habitar o
mundo no respeito integral e na comunidade fraterna com todas as
formas de vida. Nesta nova vegetação radica a promessa de novas
flores e outros frutos, resultantes de imprevistas osmoses, simbioses
e metamorfoses entre tradições e modernidade, bem como, sobre-
tudo, da emergência de algo de novo e irredutível ao passado e ao
presente. Como adverte Jesus, ninguém sabe de onde vem nem para
onde vai o “que nasceu do Espírito” (João, 3, 8).

A mutação que se processa no mundo reclama naturalmente no-


vos líderes que sejam capazes de ler os sinais dos tempos, viver em
sintonia com o fluxo criador da vida e inspirar a mudança que urge,
sendo exemplos e despertando cada vez mais consciências do sono
espiritual, mental e institucional em que tendem a enclausurar-se.
Novos líderes surgem e surgirão, em todos os domínios, com a ca-
racterística dos novos tempos: sem confundir os planos da acção
humana – espiritual, cultural, social, económica, política, etc. - ,
serem ao mesmo tempo capazes de os integrar numa visão sistémi-
ca e global, mais afim à natureza profunda das coisas do que às abs-
tracções separativas da razão conceptual humana, tão dominante,
em parceria com a razão calculadora e quantitativa, no ciclo civili-
zacional que finda, como expressão também de uma hipertrofiada
masculinidade da mente divorciada do seu natural complemento
na feminilidade dos afectos e da sensibilidade.

85
Paulo Borges

É aqui que se prefigura o enorme desafio que se abre ante o Papa


Francisco e todos os líderes espirituais e religiosos do nosso tempo,
para não falar de todos os líderes em geral. Vejo ante ele e ante eles
alguns aspectos fundamentais desse desafio:

1 – Compreender e experimentar que o divino, absoluto ou reali-


dade última para que tende cada identidade e comunidade religiosa
é igualmente transcendente a todas, como o seu fundo comum, não
sendo posse exclusiva ou privilegiada de nenhuma.

2 – Compreender e experimentar que esse mesmo divino, absoluto


ou realidade última transcende inequivocamente todas as formas de
representação (imagens, palavras, conceitos, acções) e portanto todas
as doutrinas teológico-filosóficas e práticas litúrgicas que o visem,
não podendo reduzir-se a qualquer dogma ou ritual, sob risco de se
cair na idolatria, trocando-o pelo endeusamento daquilo que a seu
respeito o ser humano imagina, concebe, diz e faz.

3 – Compreender e experimentar que daí decorre haver muitas vias


e experiências que podem disponibilizar os seres humanos para ace-
derem a esse absoluto ou realidade última, não apenas as religiosas ou
mesmo espirituais, mas também outras, incluindo as de quem se veja
como ateu ou agnóstico.

4 – Compreender a partir daí a importância e urgência do encontro


e do diálogo interculturais e inter-religiosos, mas abertos a um en-
contro e diálogo mais amplos com agnósticos, ateus e todos aqueles
que não se revejam em nenhuma destas etiquetas. Compreender que
todos podem aprender com todos e que em cada via e comunidade
religiosa tanto mais se progredirá no caminho para o divino, absoluto
ou realidade última quanto mais o viajante se abrir à compreensão e
ao respeito de outras vias, caminhos e modos de caminhar, religio-
sos ou não, para o mesmo destino. Compreender também que toda a
forma de encontro e de diálogo intercultural e inter-religioso se deve
fundar em algo de mais profundo e radical, o silêncio transcultural
e trans-religioso, do qual pode surgir a escuta atenta do outro - não

86
Quem é o meu Próximo?

como estranho ou alheio, mas como irmão - e a palavra meditada e


verdadeira. Compreender que o mais importante da religião é a espi-
ritualidade, transversal a crentes e não-crentes, e que a espiritualida-
de reside no âmago de toda a experiência humana, não só naquelas
rotuladas como “religiosas” ou “espirituais”.

5 – Compreender e experimentar que o divino, absoluto ou a rea-


lidade última se manifesta igualmente, embora de diverso, singular e
irrepetível modo, em todos os seres e coisas, estando integralmente
presente em cada um e na totalidade dos seres e fenómenos do uni-
multiverso. Compreender que a esta luz todos os seres e fenómenos
são sagrados, sendo poderosas e preciosas epifanias da natureza pri-
mordial de tudo, e que todas as hierarquias tradicionalmente conce-
bidas entre os seres são sempre relativas a pressupostos, perspectivas
e critérios humanos e não inerentes ao mundo visto a partir do di-
vino, absoluto ou realidade última, como acontece nas mais profun-
das experiências espirituais, por vezes designadas como “místicas”.
Compreender que todos os seres estão assim interligados no seio do
divino, absoluto ou realidade última, que todos são próximos, ínti-
mos e inseparáveis e que todos possuem um valor intrínseco e não
meramente instrumental. Compreender e experimentar que tudo
quanto existe é a própria expressão gloriosa do absoluto ou realidade
última, que o unimultiverso é sagrado e que o desencantamento do
mundo nunca se deu, sendo apenas o desencantamento da mente que
transitoriamente perdeu ou diminuiu e obscureceu a capacidade de
percepcionar e sentir a abissal e íntima profundidade de tudo.

6 – Compreender que a partir daí não há nenhuma via para o divi-


no, absoluto ou realidade última que não exija uma ética global, do
respeito, reverência e cuidado integrais por todas as formas de vida,
humanas e não-humanas, bem como pelos ecossistemas e pela natu-
reza dos quais todas essas vidas dependem e que são igualmente ma-
nifestações plenas e exuberantes desse divino, absoluto ou realidade
última.

7 – Compreender que toda a via para o divino, absoluto ou rea-

87
Paulo Borges

lidade última é incompatível com a cumplicidade, alheamento, in-


diferença ou desconsideração a respeito da discriminação, opressão
e exploração a que sejam sujeitos quaisquer seres, enquanto mani-
festações e ícones vivos desse divino, absoluto ou realidade última.
Compreender e praticar a necessidade de que a espiritualidade e a
religião se exerçam na denúncia e no combate não-violento contra
todas as formas dessa discriminação, opressão e exploração: religiosa,
cultural, étnica, sexual, especista, social, económica e política. As co-
munidades espirituais e religiosas devem unir a sabedoria, o amor e a
compaixão, a contemplação e a acção, as quais não se podem desen-
volver separadas uma da outra, promovendo novas formas de inter-
venção no mundo, fundadas na descoberta da paz interior, da calma
e da clareza mentais e espirituais mediante as práticas contemplativas
e meditativas. Os líderes e as comunidades espirituais e religiosas de-
vem convergir e unir-se para este fim, criando também plataformas
de reflexão e acção convergente com grupos e movimentos laicos da
sociedade civil no sentido da transformação urgente que o novo ciclo
de todos pede.

8 – Compreender que os líderes espirituais e religiosos devem ser


sempre os primeiros exemplos da mudança que querem ver no mun-
do, mantendo um espírito aberto, fraterno, altruísta e desinteressado,
sem apego à riqueza material, ao poder, à fama e ao prazer. Com-
preender que o verdadeiro líder é aquele que se apaga no divino, ab-
soluto ou realidade última e convoca todos a fazerem o mesmo, des-
cobrindo que a verdadeira liderança é em todos a do espírito divino
ou consciência desperta.

9 – No caso específico do Papa Francisco, e por todas as razões atrás


referidas, é de esperar que a sua opção por este nome, assumindo a
inspiração em São Francisco de Assis, integre abertamente na Igreja
Católica a protecção dos animais e do planeta contra a predação de-
vastadora do velho paradigma antropocêntrico, bem como a defesa
dos pobres e excluídos da actual globalização tecnocientífica, indus-
trial e capitalista, predominantemente os povos indígenas e do he-
misfério Sul do planeta, exortando à urgência de um novo modelo

88
Quem é o meu Próximo?

económico, não dominado pela perversão anticristã da ganância e do


lucro a todo o custo, própria da nova religião produtivista-consumis-
ta servida pelos novos profetas-pregadores do marketing e da publi-
cidade ao serviço das grandes corporações e da finança internacional.

É de esperar que liberte definitivamente a Igreja Católica, fazen-


do jus ao seu próprio nome (católico significa em grego “segundo o
todo” ou “universal”), do paradigma cultural europeu-ocidental, des-
centrando-a para se repensar a partir da totalidade das culturas pla-
netárias e de um silêncio-diálogo fraterno com todas as tradições e
religiões, sem esquecer ateus e agnósticos, como já antes do Concílio
Vaticano II (e muito para além do que foi consagrado nesse Concílio)
entre nós defendeu Agostinho da Silva.
É de esperar, por fim, que sob a sua liderança a Igreja Católica con-
sagre o sacramento do Amor em detrimento da discriminação contra
as formas homossexuais de o viver, aceite o acesso das mulheres ao
sacerdócio e o matrimónio dos sacerdotes.

É de esperar, notamos, que com Francisco a Igreja retome a época


áurea do bispo Prisciliano, o primeiro a ser condenado como herege
pela instituição eclesiástica e mandado executar pelo poder secular,
que no século IV permitia a pregação das mulheres e dos laicos nas
igrejas, reconhecia o carisma de todos os crentes, exortava ao vege-
tarianismo, à comunhão eucarística no seio da natureza e à liberdade
na utilização de evangelhos apócrifos. Prisciliano viveu nas provín-
cias romanas da Galécia e da Lusitânia, onde suscitou um movimento
espiritual alternativo que, segundo Jaime Cortesão e Agostinho da
Silva, contribuiu para o surgimento de uma consciência colectiva di-
ferenciada e terá sido um dos factores da constituição do futuro reino
de Portugal.

São estas as minhas mais profundas aspirações para o pontificado


do Papa Francisco e para esse outro e mais essencial pontificado, o de
todos nós, na missão de construirmos pontes (ponti-fex) e não muros
entre todos os seres, povos, nações, culturas, religiões e irreligiões.

89
Paulo Borges

Entrar na Grande Empatia,


na Grande Conversa
e na Grande Lucidez

Como diz Thomas Berry, “quebrámos a grande conversa” e assim


“despedaçámos o universo”. Estamos apenas a falar connosco pró-
prios, humanos, e cada vez mais virtual, mais dissimulada e menos
profundamente. Na verdade, estamos sobretudo a tornar-nos cada
vez mais autistas, fechados num monólogo ensurdecedor com os
nossos pensamentos, emoções, projectos e preocupações. Essa é a
raiz de muitos desastres, com maior evidência para o ecológico, mas
com não menor impacto no sentimento de solidão que nos avassala,
a sós ou acompanhados.

Há que reatar a “grande conversa”. Em vez de vivermos isolados no


nosso ruído mental e emocional, silenciar a mente para escutar e con-
templar a portentosa e prodigiosa vida do universo da qual somos
inseparáveis.

Escutar e contemplar, seus arrogantes filhos mais recentes, as coisas


primordiais, vastas e profundas. O uivo do vento, o cair da chuva, as
estranhas formas das nuvens, o brilho dos astros, o rumor do ocea-
no, o silêncio da terra, o crepitar do fogo, o ondulante murmúrio das
florestas, o canto da matéria obscura, a luz, as sombras e as trevas do
mundo. Escutar e contemplar também os nossos irmãos na grande
aventura cósmica, os animais, a cuja grande família pertencemos. O
saltitante ladrar do cão, o dengoso miar do gato, os voos e gritos lon-
gínquos das gaivotas, o uivo e o brilho nos olhos dos lobos, o bramido
e a marcha majestosa dos elefantes, o sinuoso rastejar e sibilino silvo
das serpentes, o suspenso zumbido das abelhas, o lento e húmido ras-
tejar do caracol.

Contemplar e escutar na multidão de formas e movimentos do

90
Quem é o meu Próximo?

Grande Todo a revelação contínua de quem realmente somos, este


ser ilimitado que as porosas fronteiras da pele de um corpo humano
não podem conter. Captar as mensagens que em linguagens e línguas
múltiplas constantemente se nos dirigem, expressando ideias, senti-
mentos, sensações e propósitos para os quais as rudimentares mentes
e línguas humanas não têm conceitos nem palavras. Despertar. Dei-
xar de ser surdos e cegos para a grande conversa e convívio cósmicos.

Escutar a voz da terra, das fontes, dos rios, das plantas, das pedras,
do vento, dos planetas, das estrelas. A voz da formiga e da aranha, do
cavalo e do javali, do tigre e da borboleta. E falar então, falar com tudo
e com todos. Falar com os rios, as tartarugas e os peixes, os montes,
as codornizes e os lagartos, os bosques, os pássaros e os esquilos, as
montanhas, as águias e os ursos, as grutas, as salamandras e as les-
mas, as florestas, a lua e as corujas, os mosquitos, os charcos e o sol.
Falar com palavras e em silêncio, confidenciar-lhes a nossa intimi-
dade e sermos fiéis confidentes da sua. Escutar, dialogar e cantar no
coro das vozes do mundo, delas aprendendo tudo o que se não ensina
nas escolas por esse magistral verbo íntimo que por todas perpassa,
sentindo inseparáveis de nós as presenças e vidas invisíveis e sagradas
que em todas se manifestam.

Abrir e alargar a consciência da estreita sociedade dos humanos


para a imensa comunidade e comunhão cósmicas. Os cegos, surdos
e mudos que só vêem, ouvem e falam à escala humana, os débeis de
espírito que só lêem e compreendem livros e coisas escritas e se en-
cerram nas artes, ciências e letras, os estreitos de coração que só tro-
cam afectos com o animal humano, os falhos de comunicação que a
limitam à tecnologia e aos media, poderão chamar-te louco e rir-se
de ti, mas esse é o ridículo preço a pagar por te curares da loucura
que eles têm por normalidade e entrares livre de amarras na Grande
Empatia, na Grande Conversa e na Grande Lucidez.

91
Paulo Borges

Quem é o meu próximo?

Interrogado pelos fariseus acerca de “qual o maior mandamento da


Lei”, Cristo respondeu “Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu cora-
ção, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Esse é o maior
e o primeiro mandamento. O segundo é semelhante a esse: Amarás o
teu próximo como a ti mesmo. Desses dois mandamentos dependem
toda a Lei e os Profetas” (Mateus, 22, 39). Esta resposta, que cita duas
passagens do Deuteronómio (6, 5) e do Levítico (19, 18), determinou a
ética do Ocidente cristão, sobrevivendo na versão laica com o segundo
mandamento, que impulsionou os movimentos sociais e humanitá-
rios dos séculos XIX e XX. Notamos todavia que Cristo não se limitou
ao “maior” mandamento e fez questão, não só de indicar um segundo,
mas de o assumir como “semelhante” ao primeiro, reduzindo explici-
tamente a suposta distância entre eles. O que se confirma ao acrescen-
tar que os “dois mandamentos” são o cerne de toda a revelação bíblica.

O amor integral a Deus e um amor ao próximo idêntico ao amor de


cada um a si mesmo são para Cristo o centro da vida ética e espiritual.
A tradição judaico-cristã da qual somos herdeiros, mesmo nas versões
ateia e agnóstica que sacrificam o primeiro mandamento, transmitiu-
nos um entendimento pouco questionado desses dois objectos do
amor como sendo, respectivamente, o Ente e criador supremo e os se-
res humanos, criados à sua imagem e semelhança, excluindo a restante
criação, que existiria apenas para ser dominada pelo homem (Génesis,
1, 26). Daqui derivou uma das maiores justificações do antropocen-
trismo ocidental, que reforçou tendências vindas das raízes greco-ro-
manas e hoje - com a globalização capitalista, a explosão demográfica
e o aumento exponencial do poder industrial e tecnológico - resulta na
devastação do planeta, na desconsideração dos animais não-humanos
e na manutenção de dezenas de biliões desses seres, com sensibilidade
e sentimentos semelhantes aos nossos, em campos de concentração,
escravatura e tortura, piores que Auschwitz, para satisfazer a ganân-
cia das multinacionais da carne e a gula dos consumidores dos países

92
Quem é o meu Próximo?

ditos desenvolvidos. Isto com prejuízo da saúde pública, dadas as to-


xinas, hormonas e antibióticos que saturam essa carne, além de um
terrível impacto ambiental, já denunciado pela ONU.

Uma mente aberta deve contudo questionar a interpretação dos


textos, sobretudo os que se apresentam como sagrados e mais são
instrumentalizados por interesses inconfessados. Na verdade, o que
é Deus? A palavra “Deus” procede da raiz indo-europeia dei, que sig-
nifica “tudo o que brilha”, de onde vem o português dia. Neste sentido,
Deus pode interpretar-se não como um ser exterior ao homem e ao
mundo, mas antes como a luz da consciência que há em todos os se-
res. E quem é o meu próximo? Aquele que pertence ao mesmo grupo
familiar, social, profissional, económico, nacional, étnico, cultural, lin-
guístico, político ou religioso? Aquele que pertence à mesma espécie,
ao mesmo planeta ou à mesma galáxia? Ou o meu próximo é aquele de
quem me sentir próximo, amando-o ao ponto de o não sentir separado
de mim? O meu próximo tem então de ter duas pernas e dois braços
ou pode ter quatro patas, muitas ou nenhuma, caule, tronco, folhas,
flores e frutos? Tem de ter cabelos e pele nua ou pode ter pêlos, penas,
couraça, escamas e casca? Tem de viver sobre a terra ou pode rastejar
dentro dela e voar e brilhar nos céus? Tem de ter uma vida individual
ou pode ser a própria terra, as areias, as rochas, os minérios, as águas,
os ventos, o fogo e as energias que tudo impregnam? Tem de falar a
minha linguagem ou pode miar, ladrar, zumbir, uivar, cacarejar, gru-
nhir, mugir, relinchar, rugir, trinar, grasnar, trovejar, soprar, relampe-
jar, chover, florir, frutificar, repousar e mover-se em silêncio? Tem de
ter forma e ser visível ou pode não a ter e ser invisível? Tem de ter vida
consciente e senciente? Tem de ter vida? Tem de ser algum ser ou coisa
ou pode ser tudo? A empatia, o sentir o outro como o mesmo, o amor
e a compaixão ante o que é animado ou simplesmente existente, têm
limites? Temos limites?
Talvez por isso Cristo não haja definido o próximo e haja dito que
o amor a ele é “semelhante” ao amor a Deus. Pois talvez só esse amar
integralmente tudo quanto existe e vive, tal como nos amamos a nós
mesmos, possa fazer surgir no coração essa luz da consciência que os
humanos chamam Deus.

93
Paulo Borges

Colocar-se no lugar do outro

Num livro recente, Doze passos para uma vida solidária, Karen Ar-
mstrong mostra que o grande desafio para vivermos hoje em har-
monia numa comunidade global é aplicar a Regra de Ouro de toda
a ética, comum às religiões da humanidade e imperativo laico: “Não
fazer aos outros o que não gostaríamos que nos fizessem”; “Fazer aos
outros o que gostaríamos que nos fizessem”. Isso implica a experiên-
cia de se colocar no lugar do outro, a em-patia ou com-paixão, não
o ter pena emocional e condescendente, mas o assumido abandono
da gravitação em torno de si mesmo para ser capaz de ver e sentir o
mundo como o outro o vê e sente. Uma experiência de descentra-
mento, de desobstrução do espaço ocupado pelo ego, individual ou
colectivo, para sentir em si o que o outro sente, dor ou alegria.

Em termos evolutivos, essa possibilidade surgiu com o neocórtex,


que permite a reflexão distanciada dos instintos do hipotálamo, her-
dados dos primitivos répteis, há 500 milhões de anos, designados
como os 4 Fs: “feeding, fighting, fleeing e f… (alimentação, luta, fuga
e “reprodução”). Não deixa porém de ser espantoso ver como em tan-
tos aspectos da vida pública e privada pouco diferimos desses velhos
répteis, dominados pelo complexo da presa-predador, pelo medo que
leva à fuga-ataque, pela luta desenfreada por sobrevivência, territó-
rio, ganho e reprodução física e comportamental. É esta a razão pro-
funda da actual crise: a rápida evolução científica e tecnológica não
foi acompanhada por uma igual evolução ética e espiritual, fazendo
com que indivíduos, grupos e nações sujeitos aos mais primitivos
instintos e emoções detenham sofisticados mecanismos de poder,
exploração e destruição militar e económica. Temos uma civilização
global, em termos económico-tecnológicos, mas não uma consciên-
cia ética global.

Outra potencialidade reside todavia em nós, com o neocórtex e


mais: o espírito ou natureza profunda da mente, cujas naturais quali-

94
Quem é o meu Próximo?

dades são a consciência global e a empatia amorosa e compassiva. São


elas que nos permitem colocar-nos no lugar de todo o outro, não só
dos nossos familiares, amigos ou membros do mesmo grupo, clube,
empresa, partido, nação, religião ou espécie. São elas que, ao invés
dos velhos répteis, nos permitem alargar progressivamente o círculo
da nossa consideração e afecto, ao ponto de respeitar e amar os pró-
ximos como a nós mesmos, sem excluir inimigos nem membros de
outras espécies. São elas que nos permitem a empatia com todos os
que sofrem e são felizes e não sermos indiferentes aos pobres, doentes
e sem abrigo, aos que padecem fome e sede, aos explorados, oprimi-
dos e violentados, homens ou animais. É essa natureza profunda, à
medida que se libertar de parcialidades, que nos permite sentir igual-
mente a dor do desempregado, do recluso na prisão ou do cão no
canil, do porco, frango ou vaca no matadouro e do touro na arena.
Simplesmente porque é dor, independentemente de quem a sente. E
é a nossa natureza profunda que nos permite sentir ainda compaixão
por todos os que são responsáveis pelas dores dos outros, agindo sem
ódio contra essas acções.

Do cultivo de uma consciência ética global, abrangente de todas


as formas de vida, depende sairmos desta crise para uma nova civi-
lização. Só a cultura da visão global, do amor e da compaixão pode
salvar o mundo. Desenvolvê-la, em todas as esferas da vida pública
e privada, a começar pela educação, é o maior imperativo e investi-
mento de cada um de nós e de todo o governo que venha a ser digno
desse nome. Enquanto se colocar a economia e as finanças acima da
sabedoria, da compaixão e de leis que as expressem, produzir riqueza
será sempre para benefício de poucos e prejuízo da maioria. Enquan-
to se colocarem interesses de indivíduos e grupos de uma só espécie
acima do bem comum da Terra e de todos os seres, enquanto não nos
colocarmos no lugar do outro antes de cada pensamento, palavra e
acção que o afecta, continuaremos a ser velhos répteis, grotescamente
sofisticados em termos científico-tecnológicos, mas 500 milhões de
anos atrasados e em risco de extinção.

95
Paulo Borges

Superar o antropocentrismo
e o especismo.
Por um novo paradigma mental, ético e civilizacional

Vivemos uma profunda crise do paradigma que dominou a hu-


manidade europeia-ocidental e se mundializou: nele o homem vê-se
como centro e dono do mundo, reduzindo natureza e seres vivos a
objectos desprovidos de valor intrínseco, meros meios destinados a
servir fins e interesses humanos1. Se a ciência e tecnologia moderna
confiaram no progresso geral da humanidade mediante a exploração
ilimitada dos recursos naturais e dos seres vivos, frustra-se hoje essa
expectativa de um Paraíso terreno científico-tecnológico-económi-
co: o sonho dos projectos liberais e socialistas converteu-se no pe-
sadelo da guerra, fome e pobreza, da crise económico-financeira, da
destruição da biodiversidade, do sofrimento humano e animal e da
iminência de colapso ecológico. Os relatórios científicos mostram o
tremendo impacte que o actual modelo de crescimento económico
tem sobre a biosfera planetária, acelerando a sexta extinção em massa
do Holoceno, com uma redução drástica da biodiversidade, sobretu-
do nos últimos 50 anos, a um ritmo que chega a 140 000 espécies de
plantas e animais por ano, devido a causas humanas: destruição de
florestas e outros habitats, caça e pesca, introdução de espécies não-
nativas, poluição e mudanças de clima2.
Manifestação particularmente violenta do antropocentrismo é o
especismo, preconceito pelo qual o homem discrimina os membros

1. Kant considera o homem o “senhor da natureza”, que tem nele o seu “fim último” – Critique de la
faculté de juger, 83, Paris, Vrin, 1982. O mesmo autor considera que os animais “não têm consciên-
cia de si mesmos e não são, por conseguinte, senão meios em vista de um fim. Esse fim é o homem”,
que não tem “nenhum dever imediato para com eles” – Leçons d’éthique, Paris, LGF, 1997, p.391.
2. A equipa internacional liderada pelo biólogo Miguel Araújo, da Universidade de Évora, publicou
recentemente um importante artigo na revista Nature sobre as consequências na “árvore da vida”
das mutações climáticas antropogénicas: http://www.nature.com/nature/journal/v470/n7335/full/
nature09705.html

96
Quem é o meu Próximo?

de outras espécies animais por serem diferentes, mediante um cri-


tério baseado no tipo de inteligência que possuem que ignora a sua
comum capacidade de sentirem dor e prazer físicos e psicológicos (a
senciência, ou seja, a sensibilidade e o sentimento conscientes de si,
distinto da sensitividade das plantas) ou o serem sujeitos-de-uma-vi-
da, consoante as perspectivas de Peter Singer e Tom Regan3. A explo-
ração ilimitada de recursos naturais finitos e dos animais não-huma-
nos para fins alimentares, (pseudo-)científicos, de trabalho, vestuário
e divertimento, tem causado um grande desequilíbrio ecológico e um
enorme sofrimento. O especismo é afim a todas as formas de dis-
criminação e opressão do homem pelo homem, como o sexismo, o
racismo e o esclavagismo, embora sem o reconhecimento e combate
de que estas têm sido alvo.
A desconsideração ética do mundo natural e da vida animal não só
obsta à evolução moral da humanidade como também a lesa, lesando
o planeta, como é particularmente evidente nos efeitos do consumo
de carne industrial. Além do sofrimento dos animais, criados em au-
tênticos campos de concentração4, além da nocividade da sua carne,
saturada de antibióticos e hormonas de crescimento5, a pecuária in-
tensiva é um mau negócio com um imenso impacte ecológico: entre
outros índices, destaque-se que toda a proteína vegetal hoje produzi-
da no mundo para alimentar animais para consumo humano poderia
nutrir directamente 2 000 milhões de pessoas, um terço da população
mundial, enquanto 1 000 milhões padecem fome6. Isto leva a ONU

3. Cf. Peter SINGER, Libertação Animal [1975], Porto, Via Óptima, 2008; Tom REGAN, The Case
for Animal Rights [1983], Berkeley, University of California Press, 2004, 3ª edição. Peter Singer
segue a perspectiva utilitarista herdada de Jeremy Bentham e baseia-se na igualdade de interesses
dos animais humanos e não-humanos em experimentarem o prazer e evitarem a dor, enquanto Tom
Regan estende a muitos dos animais não-humanos a perspectiva deontológica de Kant, consideran-
do-os indivíduos com identidade, iniciativas e objectivos e assim com direitos intrínsecos à vida, à
liberdade e integridade. Cf. Os animais têm direitos? Perspectivas e argumentos, introd., org. e trad.
de Pedro Galvão, Lisboa, Dinalivro, 2011.
4. Cf. Peter SINGER, Libertação Animal; Jonathan S. FOER, Comer Animais [2009], Lisboa, Ber-
trand, 2010.
5. Segundo a Organização Mundial de Saúde, mais de 75% das doenças mais mortais nos países
industrializados advêm do consumo de carne.
6. A produção de 1 kg de carne de vaca liberta mais gases com efeito de estufa do que conduzir
um carro e deixar todas as luzes de casa ligadas durante 3 dias, consome 13-15 kg de cereais/le-
guminosas e 15 000 litros de água potável, cuja escassez já causa 1.6 milhões de mortes por ano e
novos ciclos bélicos (http://www.ambienteonline.pt/noticias/detalhes.php?id=7788); a pecuária

97
Paulo Borges

a considerar urgente uma dieta sem carne nem lacticínios para ali-
mentar de forma sustentável uma população que deve atingir os 9.1
biliões em 20507.
Compreende-se assim a urgência de um novo paradigma men-
tal, ético e civilizacional que veja que as agressões aos animais e à
natureza são agressões da humanidade a si mesma, que não separe
as causas humanitária, animal e ecológica e que reconheça valor in-
trínseco e não apenas instrumental aos seres sencientes e ao mundo
natural, consagrando juridicamente o direito dos primeiros à vida e
bem-estar e o do segundo à preservação e integridade (no que respei-
ta aos animais, Portugal possui um dos Códigos Civis mais atrasados,
considerando-os meras coisas, o que urge alterar)8. Sem este novo
paradigma, de uma nova humanidade, não antropocêntrica, em que
o homem seja responsável pelo bem de tudo e de todos9, não parece
viável haver futuro.

intensiva é responsável por 18% da emissão de gases com efeito de estufa a nível mundial, como o
metano, emitido pelo gado bovino, que contribui para o aquecimento global 23 vezes mais do que o
dióxido de carbono; 70% do solo agrícola mundial destina-se a alimentar gado e 70% da desflores-
tação da selva amazónica deve-se à criação de pastagens e cultivo de soja para o alimentar - cf. um
relatório de 2006 da FAO, Food and Agriculture Organization, da ONU, Livestock’s Long Shadow:
environmental issues and options: http://www.fao.org/docrep/010/a0701e/a0701e00.HTM
7. http://www.guardian.co.uk/environment/2010/jun/02/un-report-meat-free-diet
8. Para uma introdução às diferentes perspectivas e questões éticas e jurídicas relacionadas com a
natureza e os animais, cf. Fernando ARAÚJO, A Hora dos Direitos dos Animais, Coimbra, Almedi-
na, 2003; Maria José VARANDAS, Ambiente. Uma Questão de Ética, Lisboa, Esfera do Caos, 2009;
Stéphane FERRET, Deepwater Horizon. Éthique de la Nature et Philosophie de la Crise Écologique,
Paris, Seuil, 2011.
9. Cf. Hans JONAS, Das Prinzip Verantwortung, Frankfurt am Mein, Insel Verlag, 1979.

98
Quem é o meu Próximo?

Reduzir o consumo de carne:


um imperativo ético pelo bem
das pessoas, dos animais e da Terra 1

No lançamento em Portugal das 2.ªs sem Carne, um movimento


mundial que surge entre nós por iniciativa do PAN, gostaria de recor-
dar a visão ampla da história do universo, do planeta e do homem que
nos é hoje oferecida pela astronomia e pela geofísica. Estas ciências
dizem-nos que o universo observável tem 15 mil milhões de anos, a
nossa galáxia 8 mil milhões de anos e o planeta Terra 4,5 mil milhões
de anos. Os primeiros traços de vida apareceram nele há 3,8 mil mi-
lhões de anos, enquanto as primeiras manifestações da técnica dos
hominídeos datam apenas de há alguns milhões de anos e o Homo
Sapiens apareceu somente há 200 000 anos. Os fundamentos da ac-
tual era industrial surgiram apenas há dois séculos. Como conclui
André Lebeau, retomando Carl Sagan: “Se se reconduz a idade do
Universo a um dia de vinte e quatro horas, a presença do homem ma-
nifesta-se nos cinco últimos segundos e a explosão técnica e demo-
gráfica ocupa o último centésimo de segundo. Isto não dá de modo
algum à civilização humana os atributos da perenidade […]”2.

Todavia o homem comporta-se como um recém-chegado à festa da


vida que de repente imagina que a festa foi organizada para si, que aí
vai ficar para sempre e que tem o direito de fazer o que quiser da casa,
dos seus recursos e dos outros convidados, pondo-os ao seu serviço,
explorando-os e destruindo-os a seu bel-prazer, pois eles durarão, tal
como ele próprio, ilimitadamente... E é o que continua a fazer, mes-
mo após saber que esses recursos são limitados e estão a esgotar-se
rapidamente, mesmo constatando o sofrimento que isso causa aos

1. Discurso no lançamento em Portugal, pelo PAN, do movimento mundial 2ªs sem Carne, no
restaurante vegetariano Jardim dos Sentidos, em Lisboa, em Novembro de 2012.
2. André LEBEAU, L'enfermement planétaire, Paris, Gallimard, 2008, p.368.

99
Paulo Borges

outros convidados e que esse modo de agir é auto-destruidor… Po-


demos imaginar o que faríamos com alguém que chegasse a nossa
casa e pensasse e se comportasse assim… E todavia quem pensa e se
comporta assim somos nós, todos nós, activa ou passivamente, di-
recta ou indirectamente cúmplices ao não ver ou não querer ver as
consequências que este paradigma de pensamento e comportamento
está a ter sobre o planeta, os seres vivos e, naturalmente, nós próprios.

Vivemos com efeito uma profunda crise do paradigma que domi-


nou a humanidade europeia-ocidental e se mundializou nos últimos
dois séculos, o qual rapidamente tomou conta das nossas vidas, mas
ainda mais vertiginosamente mostra hoje os seus efeitos catastró-
ficos: o paradigma onde o homem se considera centro e dono do
mundo, reduzindo a natureza, os seres vivos e sencientes a objectos
desprovidos de valor intrínseco, meros meios e instrumentos desti-
nados a servir fins e interesses humanos. Se a ciência e a tecnologia
modernas confiaram no progresso geral e ilimitado da humanidade
mediante a exploração ilimitada dos recursos considerados ilimita-
dos do mundo natural e dos seres vivos, frustra-se hoje essa expec-
tativa de um Paraíso terreno científico-tecnológico-económico, o
sucedâneo laico da aspiração messiânica ao Reino de Deus sobre a
terra: o sonho dos projectos liberais e socialistas, a fantasia das direi-
tas e das esquerdas, o ideal do capitalismo privado e de estado, con-
verteu-se no pesadelo da guerra e da fome, dos desníveis crescentes
entre pobres e ricos, da crise económico-financeira, da destruição
da biodiversidade, do sofrimento humano e animal, da iminência
de colapso ecológico e da flagrante incapacidade da sociedade de
produção e consumo satisfazer o desejo humano de felicidade. Os
relatórios científicos mostram o tremendo impacto que o actual mo-
delo de crescimento económico tem sobre a biosfera planetária, ace-
lerando a sexta extinção em massa do Holoceno, com uma redução
drástica da biodiversidade, sobretudo nos últimos 50 anos, a um rit-
mo que chega a 140 000 espécies de plantas e animais por ano, mais
de 383 por dia, devido a causas humanas: destruição de florestas e
outros habitats, caça e pesca, introdução de espécies não-nativas,
poluição e alterações climáticas, etc.3.

100
Quem é o meu Próximo?

Uma forma de antropocentrismo particularmente violenta é o es-


pecismo, preconceito pelo qual o homem discrimina os membros de
outras espécies animais por serem diferentes, mediante um critério
baseado no tipo de inteligência que possuem que ignora a sua co-
mum capacidade de sentirem dor e prazer físicos e psicológicos (a
senciência, ou seja, a sensibilidade e o sentimento conscientes de si,
distinto da sensitividade das plantas) (Peter Singer), o serem sujeitos-
de-uma-vida (Tom Regan) ou o serem “pessoas”, pelo simples facto
de terem senciência, não estando interessados em ser usados como
propriedade humana (Gary Francione)4. A exploração ilimitada de
recursos naturais finitos e dos animais não-humanos para fins ali-
mentares, (pseudo-)científicos, de trabalho, vestuário e divertimento,
tem causado um grande desequilíbrio ecológico e um enorme sofri-
mento. O especismo surge afim a todas as formas de discriminação e
opressão do ser humano pelo ser humano, como o sexismo, o racis-
mo e o esclavagismo, embora sem o reconhecimento e combate de
que estas têm sido alvo.

A desconsideração ética do mundo natural e da vida animal não só


obsta à evolução moral da humanidade como também a lesa, lesando
o planeta, como é particularmente evidente nos efeitos do consumo
de carne industrial:
1 – O indescritível sofrimento dos animais nas unidades de pecuá-
ria intensiva, autênticos campos de concentração e tortura física e
psicológica, onde são engordados à pressa uns em cima dos outros,

3. A equipa internacional liderada pelo biólogo Miguel Araújo, da Universidade de Évora, publicou
recentemente um importante artigo na revista Nature sobre as consequências na “árvore da vida”
das mutações climáticas antropogénicas: http://www.nature.com/nature/journal/v470/n7335/full/
nature09705.html
4. Cf. Peter SINGER, Libertação Animal [1975], Porto, Via Óptima, 2008; Tom REGAN, The Case for
Animal Rights [1983], Berkeley, University of California Press, 2004, 3ª edição; Gary FRANCIONE,
Animals as Persons: Essays on the Abolition of Animal Exploitation, Columbia University Press, 2008.
Peter Singer segue a perspectiva utilitarista herdada de Jeremy Bentham e baseia-se na igualdade de
interesses dos animais humanos e não-humanos em experimentarem o prazer e evitarem a dor. Tom
Regan estende a muitos dos animais não-humanos a perspectiva deontológica de Kant, consideran-
do-os indivíduos com identidade, iniciativas e objectivos e assim com direitos intrínsecos à vida, à
liberdade e integridade. Gary Francione considera que basta a senciência para que a propriedade e
uso dos animais seja ilegítima, independentemente de possuírem ou não características cognitivas se-
melhantes às dos humanos. Sobre a controvérsia dos direitos dos animais, cf. Os animais têm direitos?
Perspectivas e argumentos, introd., org. e trad. de Pedro Galvão, Lisboa, Dinalivro, 2011.

101
Paulo Borges

fora dos seus habitats naturais, com luz artificial, quase sem se poder
mexer, a morder-se e devorar-se loucos de stress, até chegar a an-
gústia do abate (como escreveu Theodor Adorno: “Auschwitz come-
ça sempre que alguém olha para um matadouro e pensa: são apenas
animais”). E tudo apenas para que os produtores possam ter o maior
lucro possível no menor tempo possível;
2 – A carne dos animais criados nessas condições, autênticos bebés
com corpo de adultos, que crescem em semanas o que levaria meses,
chega aos nossos pratos cheia de toxinas, antibióticos e hormonas de
crescimento que nos envenenam, num autêntico atentado legal e or-
ganizado à saúde pública (segundo a Organização Mundial de Saúde,
mais de 75% das doenças mais mortais nos países industrializados
advêm do consumo de carne). Se aparentemente a carne é muito ba-
rata, tem todavia um enorme custo oculto e não contabilizado em
termos de doenças, despesas médico-farmacêuticas e diminuição do
tempo e da qualidade de vida.
3 - Investir na produção industrial de carne (e peixe) é uma gigan-
tesca fonte de lucro para alguns, mas um péssimo negócio para a hu-
manidade, que tem um terrível impacto ecológico e contribui para
a escassez de alimentos no mundo. Todos os cereais e leguminosas
produzidos em todo o planeta para alimentar animais para consumo
humano poderiam, com medidas geopolíticas adequadas, nutrir di-
rectamente 2 000 milhões de pessoas, quase um terço da população
mundial e o dobro dos quase 1 000 milhões que padecem de fome
actualmente. Além disso, a produção de 1 kg de carne de vaca liberta
mais gases com efeito de estufa do que conduzir um carro e deixar
todas as luzes de casa ligadas durante 3 dias, consome 13-15 kg de
cereais/leguminosas e 15 000 litros de água potável, o bem cuja cres-
cente escassez já causa 1.6 milhões de mortes por ano e novos confli-
tos bélicos, que previsivelmente se agravarão. A pecuária intensiva é
responsável por 18% da emissão de gases com efeito de estufa a nível
mundial, como o metano, emitido pelo gado bovino, que contribui
para o aquecimento global 23 vezes mais do que o dióxido de carbo-
no; 70% do solo arável mundial destina-se a alimentar gado e 70%
da desflorestação da selva amazónica deve-se à criação de pastagens
e cultivo de soja para o alimentar (cf. um relatório de 2006 da FAO,

102
Quem é o meu Próximo?

Food and Agriculture Organization, da ONU, Livestock’s Long Sha-


dow: environmental issues and options).
Tudo isto tem levado a ONU a considerar urgente uma dieta sem
carne nem lacticínios como a única que permitirá alimentar de forma
sustentável uma população mundial que deve atingir os 9.1 biliões
em 20505.

Por todos estes motivos, onde se constata a unidade das três gran-
des causas – humanitária, animal e ecológica - , esta é uma das mais
importantes campanhas de sensibilização e debate públicos que im-
porta promover. Sem pretendermos que toda a população se torne
vegetariana ou vegana, a abstenção de carne uma vez por semana
permitirá reduzir em 15% todos os efeitos negativos enunciados e
será para muitas pessoas o primeiro passo para descobrirem alter-
nativas alimentares mais éticas, saudáveis e sustentáveis, o primeiro
passo para regressarmos a níveis de consumo de carne mais próximos
da geração dos nossos avós, antes da população ceder ao engano da
carne barata e ao mito absurdo de que consumir mais carne é sinóni-
mo de melhor vida e maior estatuto social.

A nossa contribuição para a preservação do planeta e para um mun-


do melhor e mais saudável para todos, humanos e não-humanos, pas-
sa hoje pelo que pomos no prato. As nossas opções alimentares são
uma questão ética e civilizacional e exortamos as instituições públicas,
as associações cívicas, as forças políticas e a população em geral a que
se informem sobre esta temática e se abram a este debate. A política
e os políticos do presente e do futuro não podem continuar a ignorar
estas questões cruciais, pois nelas se joga o destino da civilização.
Necessitamos urgentemente de uma nova política, que não esteja
ao serviço dos mercados e dos grupos económico-financeiros e se
baseie na sabedoria, na ciência e nos valores éticos fundamentais,
onde o amor e a compaixão por todos os seres vivos seja central, pois
somos todos interdependentes. Disso depende o futuro deste planeta,

5. http://www.guardian.co.uk/environment/2010/jun/02/un-report-meat-free-diet

103
Paulo Borges

da humanidade e dos animais não-humanos. Disso depende o bem


de tudo e de todos.

Reduzir o consumo de carne é reduzir o sofrimento de homens e


animais e contribuir para a preservação do planeta. Reduzir o con-
sumo de carne é promover em todo o mundo a cultura da paz e da
não-violência a que no fundo todos aspiramos. Reduzir o consumo
de carne é contribuir para um mundo novo, a nossa maior tarefa e a
nossa mais elevada missão.

104
Quem é o meu Próximo?

Repensar o sentido da Cultura

A primeira evidência que surge ao tentarmos precisar o sentido da


palavra “cultura” é a dificuldade inerente a um conceito saturado de
significados múltiplos1, que ele próprio se revela como um produ-
to histórico-cultural complexo e longamente elaborado, que ao ser
usado em múltiplas acepções se torna afinal indefinido2. Tal como
acontece com outros conceitos fundamentais da cultura ocidental,
torna-se necessário remontar à etimologia para o esclarecer.

A origem da palavra encontra-se na raiz indo-europeia kwel, que


reencontramos no sânscrito chakra, o qual designa uma roda ou
disco, seja a roda da lei universal (dharma), a ronda das existências
condicionadas (samsāra) ou a dos centros de energia subtil no corpo
humano. A cultura está assim ligada à imagem dinâmica da roda, que
no plano material foi uma descoberta maior da humanidade e no pla-
no simbólico figura a lei que rege todas as coisas, regulando a trans-
formação dos seres e da energia vital que os anima. A mesma raiz
origina o grego kuklos, que designa toda a forma redonda e de onde
procedem o inglês wheel (roda) e o português ciclo. Em latim, é ain-
da a raiz originária do verbo colere, de onde procede directamente o
latino cultura, no sentido literal de “mover-se habilmente” no cultivo
da terra3 e no sentido figurado de cultivar o espírito (“cultura animi”,
em Cícero), cortejar alguém ou cultuar uma divindade. Com efeito,
o verbo colere possui já os sentidos de cultivar, cuidar; ocupar-se de;
honrar, respeitar; proteger, vigiar (como acções dos deuses); habitar,
morar; granjear as graças de alguém.

Repensada a partir da sua origem etimológica, a cultura surge assim

1. Um estudo encontrou 167 definições diferentes de cultura: A. L. KROEBER e C.


KLUCKHOHN, Culture: A Critical Review of Concepts and Definitions, 1952.
2. “[I]t is hard to resist the conclusion that the word ‘culture’ is both too broad and too narrow to be
greatly useful” - Terry EAGLETON, The Idea of Culture, Wiley-Blackwell, 2000.
3. Cf. Odon VALLET, “Culture”, Petit lexique des mots essentiels, Paris, Albin Michel, 2007, pp.52-53.

105
Paulo Borges

inseparável, por um lado, de um movimento de rotação, circular e cí-


clico, que representa o dinamismo do mundo, da vida e da existência
e implica o regressar constante à origem, mas não necessariamente
a repetição ou o eterno retorno do mesmo (cf. Nietzsche), podendo
depender desse regresso um progresso qualitativo, como acontece no
“ciclo de estudos” que faz avançar o aluno. Por outro lado, a cultu-
ra supõe originariamente um cultivo atento, cuidadoso, respeitoso e
protector, seja do lugar onde se habita, a terra e a natureza, seja da
mente, que pode assumir a forma de um respeito religioso. Daí a pro-
ximidade entre cultura, agricultura e culto4. É suposto que a cultura,
fundada na compreensão das leis que regem os fenómenos e a vida
no seu dinamismo e metamorfose cíclicos, seja a actividade pela qual
se potencia toda a fecundidade da terra, da natureza e da mente, res-
peitando-as, cuidando-as e recolhendo os seus frutos, no reconheci-
mento do seu valor intrínseco (por vezes sagrado), sem a violência de
as reduzir a um mero instrumento.

Como é evidente, não é isso que tem predominado no presente


ciclo civilizacional, ao longo do qual a cultura humana, esquecendo
as suas origens no comportamento dos próprios animais5, cada vez
mais se entendeu e valorizou como o processo de separação entre o
homem, a natureza e os seres vivos, primeiro objectivando-os como
exteriores a si e depois vendo-os como um obstáculo ou adversário
a vencer, lutando para deles se libertar, dominando-os, domestican-
do-os e instrumentalizando-os para fins antropocêntricos que lhes
negam qualquer valor intrínseco e os privam de consideração ética6.
O homem assumiu uma postura bélica e dominadora, traduzida por
exemplo na designação do “campo”, pelos romanos, como ager, ou
seja, campo de acção (agere), objecto feminilizado de uma domina-

4. Cf. Ibid., pp.53-55.


5. Cf. Dominique LESTEL, Les origines animales de la culture, Paris, Flammarion, 2009.
6. “ […] cada vez mais o homem se tem posto e considerado no mundo como o dono do mundo,
com o direito de destruir os animais e as plantas, de escravizar os irmãos homens, de transformar
a vida inteira nalguma coisa que não tem outro fim senão o de sustentar a sua vida material” –
Agostinho da SILVA, A Comédia Latina [1952], in Estudos sobre Cultura Clássica, organização e
introdução de Paulo Borges, Lisboa, Âncora Editora, 2002, pp.306-307.

106
Quem é o meu Próximo?

ção (imperium) viril (de vir, homem, macho) pelo senhor (dominus)
da casa (domus)7. Foi isto que, sobretudo a partir da revolução me-
canista do século XVII e com a primeira e segunda revolução indus-
trial, se viu como o progresso histórico e linear da humanidade em
direcção ao Paraíso terrestre da abundância económica e do domínio
científico-tecnológico sobre a natureza e a vida8.

As consequências desta atitude, agravada pela explosão demográfica,


pelo aumento do potencial tecnológico e pelo capitalismo económico,
produtivista e consumista, liberal ou (dito) socialista, são hoje dramati-
camente visíveis em todo o planeta, patentes na poluição e esgotamento
dos recursos naturais, nas alterações climáticas, na destruição da bio-
diversidade, na exploração e massacre dos seres vivos, humanos e não
humanos, e na degradação da qualidade de vida social, física e mental
da humanidade. Esquecendo na sua arrogância ser inseparável da ter-
ra, da natureza e dos seres vivos - relaciona-se o latino homo (homem)
com humus (solo, terra), de onde deriva “humildade” - , pervertendo
o sentido originário da cultura - cultura de integração harmoniosa no
mundo e não de desintegração violenta - , o homem passa a re-colher
(colere), não os frutos benéficos e salutares do cultivo amoroso da terra
e do espírito, mas os efeitos destrutivos da sua própria violência, que
hoje arriscam tornar a vida de largas camadas da população, dentro de
escassas dezenas de anos, insustentável no planeta.

Parece ser a hora urgente de recordar que, de acordo com a sua


própria etimologia, enquanto dinamismo que implica o constante re-
gresso à origem como condição evolutiva, a cultura humana tem de
reassumir, sob risco de se autodestruir, a vocação originária de rodar
em harmonia com as leis da natureza e da vida e reorientar assim a
história dos homens para as fontes onde se pode regenerar9. Isto su-

7. Cf. Vilém FLUSSER, Essais sur la nature et la culture, tradução do português (do Brasil) por
Georges Durand, Belval, Circé, 2005, p.81.
8. Cf. Pierre HADOT, Le Voile d’Isis. Essai sur l’histoire de l’idée de nature, Paris, Gallimard, 2004.
9. “[…] a história não é um simples processo de artificialização crescente, mas um processo que
retorna periodicamente às fontes naturais de onde brota” - Vilém FLUSSER, Essais sur la nature et
la culture, p.12.

107
Paulo Borges

põe e exige uma profunda transformação do actual paradigma men-


tal e ético, mas também social, económico e político, que possa con-
duzir a uma nova civilização. A sua base inquestionável tem de ser
o respeito pelo valor intrínseco da natureza e de todas as formas de
vida, bem como o reconhecimento dos direitos dos animais humanos
e não humanos à vida e ao bem-estar. A humanidade tem de reapren-
der a viver de acordo com as leis fundamentais da natureza e da vida,
com todas as implicações nos domínios da saúde, da alimentação,
do urbanismo, da educação e da vida espiritual, social, económica e
política. Formular, expressar e viver de acordo com estas implicações
é o desafio e a tarefa que incumbe a pensadores, artistas, cientistas e
religiosos, bem como a todos aqueles que queiram contribuir para
preservar e regenerar a autêntica cultura nesta encruzilhada em que a
barbárie a todos nos ameaça.

108
Quem é o meu Próximo?

A mulher entre Cristo e Buda

Vivemos um ponto de mutação civilizacional no qual, segundo Frit-


jof Capra, a mais profunda transição consiste no lento mas “inevitável
declínio do patriarcado”, com a crescente redescoberta do valor da
mulher e do feminino em todos os aspectos da vida. Feminino não
é todavia sinónimo de mulher, sendo antes uma polaridade do ser
e da consciência que, com o seu complemento masculino, pode ser
reconhecida em todo o ser humano, mulher ou homem. Tradicional-
mente, contudo, essa polaridade está mais activa nas mulheres.

No ciclo patriarcal da civilização, iniciado nas invasões indo-euro-


peias, o feminino deixou de ser a figura nuclear do sagrado – reco-
nhecido na imanência da terra, grutas, cavernas e águas e simboliza-
do por uma Deusa-mãe de seios, ventre e ancas opulentos – cedendo
a primazia mítico-religiosa aos deuses masculinos e bélicos do céu
e da luz, de onde a própria palavra Deus, de uma raiz indo-europeia
que significa “o que brilha”. No imaginário tornado predominante,
um Deus masculino passou a habitar o céu, enquanto a natureza, fe-
minina, viu o seu estatuto reduzido ao de mera criatura, o que reflec-
tiu o domínio familiar, social e político do homem sobre a mulher.

Neste paradigma se desenvolveram em geral as grandes religiões


do mundo, não sendo excepção o budismo e o cristianismo, haven-
do todavia que considerar a sua diversidade interna. Se em algumas
tradições budistas se diz que o próprio Buda resistiu a admitir mu-
lheres no seio da comunidade monástica, receando que daí viesse a
sua decadência, já no budismo tântrico se afirma que o Buda atingiu
o Despertar não após abandonar o mundo, mas em plena e beatífica
união sexual com a sua mulher Gopa (Candamaharosana-tantra). Se
é verdade que na tradição do budismo Hinayana as mulheres ora-
vam para renascer como homens a fim de chegar à Iluminação, já no
Mahayana se proclama a plena igualdade dos dois sexos e nos precei-
tos do Vajrayana se considera que a última das catorze transgressões

109
Paulo Borges

é “insultar as mulheres ou considerá-las inferiores”, num contexto em


que toda a mulher incarna a sabedoria transcendente.

A complexidade cristã não é menor, conforme consideramos os


evangelhos canónicos ou os apócrifos de tendência gnóstica. Se nos
evangelhos tidos por ortodoxos Cristo prefere Pedro ou João, já no
Evangelho de Maria Maria Madalena é a discípula preferida de Cristo,
que lhe confia os ensinamentos secretos, o que causa indignação a Pe-
dro. Isto confirma-se no Evangelho de Filipe, que apresenta a mesma
Maria Madalena como a companheira íntima (koïnonos) de Cristo, a
quem “amava […] mais que a todos os discípulos” e “beijava frequen-
temente na boca”. Por outro lado, no Evangelho de Tomé, Cristo exor-
ta a que se entre no “Reino” transcendendo toda a dualidade, fazendo
do “dois Um” e “do masculino e do feminino um Único”. Tal como o
Buda, Cristo é aliás visto por vários teólogos (São Máximo o Confes-
sor, Escoto Eriúgena) como a plenitude andrógina do ser humano,
tendo integrado e transcendido a diferença sexual.

Quanto ao cristianismo institucional, avultam em São Paulo as ten-


sões entre a transcensão em Cristo de todas as discriminações étni-
cas, sociais e de género (“Não há judeu nem grego, não há escravo
nem livre, não há homem nem mulher, pois todos vós sois um só em
Cristo Jesus”, Gálatas, 3, 28) e a apologia da subordinação da mulher
ao homem, pois “o homem não foi criado para a mulher, mas a mu-
lher para o homem” (1 Coríntios, 11, 9). Essa tensão vem até aos dias
de hoje, crescendo a contestação da tradição patriarcal e misógina
que na Igreja católica interdita o casamento aos padres e o sacerdócio
às mulheres.

Um notável precursor do movimento a favor da igualdade de gé-


nero na Igreja está ligado às raízes da cultura portuguesa. Prisciliano,
um laico eleito bispo pelo povo, liderou no séc. IV, na Galécia e na
Lusitânia, um movimento onde as mulheres oficiavam nas igrejas e os
evangelhos apócrifos eram lidos e comentados. Acusado de hetero-
doxia, paganismo, panteísmo e vegetarianismo, foi o primeiro mártir
que a Igreja fez no seu seio, tendo sido decapitado após um processo

110
Quem é o meu Próximo?

precursor da Inquisição. O priscilianismo sobreviveu vários séculos


e Jaime Cortesão e Agostinho da Silva viram nele um dos factores de
diferenciação cultural da futura nacionalidade portuguesa.

Seja como for, há cada vez mais vozes a proclamar que o futuro é
das mulheres e que o mundo necessita urgentemente dos valores de
amor e compaixão que elas encarnam. Uma delas é o próprio Dalai
Lama, que tivemos o privilégio de traduzir em Lisboa quando disse
esperar que o seu sucessor seja uma mulher.

111
Paulo Borges

A redescoberta da meditação

Pode-se hoje dizer que a (re)descoberta da meditação pelos oci-


dentais, como um treino da mente que desenvolve uma atenção cal-
ma, clara e contínua, com profundos benefícios psicossomáticos, no
plano terapêutico, da educação e do desenvolvimento pessoal e só-
cio-profissional, é um dos mais relevantes fenómenos actuais. Com
efeito, a par da sua difusão em sectores crescentes da população e das
experiências de sucesso em escolas, empresas e hospitais, verifica-se
um enorme interesse da comunidade científica pela experiência me-
ditativa enquanto fonte de conhecimento da relação entre mente e
cérebro e das possibilidades da consciência, como mostram as expe-
riências no MIT e noutros laboratórios, bem como os encontros Mind
and Life, promovidos desde 1987, onde investigadores de vanguarda
têm dialogado com o Dalai Lama e outros contemplativos budistas.

A meditação já fez parte da cultura ocidental, quer na Antiguida-


de greco-latina, quer na Idade Média cristã, esbatendo-se a partir
daí mediante a predominante orientação do homem para conhecer
e dominar o mundo exterior1. Isso levou ao surgimento da ciência
moderna e ao seu projecto tecnológico, movido pela promessa de
progresso e acesso à felicidade, abundância material e liberdade me-
diante o domínio da natureza, a produção-consumo ilimitados e a
transformação das condições sociais e materiais de existência por
via político-económica. A actual frustração dessa expectativa de um
Paraíso terreno científico-tecnológico e político-económico, dois sé-
culos após o seu aparecimento, bem como a conversão desse sonho
no pesadelo da guerra, da fome e da pobreza, da crise económico-
financeira, da destruição da biodiversidade, do sofrimento dos ani-
mais na indústria alimentar, do risco de desastres ecológicos sem

1. Mediante o que B. Alan Wallace designa como a “externalização científica da meditação” – cf.
B. Alan WALLACE, Mind in the Balance. Meditation in Science, Buddhism, and Christianity, Nova
Iorque, Columbia University Press, 2009, pp.15-16.

112
Quem é o meu Próximo?

precedentes, é um dos maiores factores da renovada inquietação es-


piritual da humanidade. Com efeito, a predominante orientação da
ciência para o conhecimento do mundo externo e sua aplicação tec-
nológica esquece a necessidade de se conhecer antes de mais aquilo
que em nós conhece, ou seja, a própria mente. Este esquecimento
da mente é também o esquecimento daquilo cujo estado condiciona
toda a percepção dos acontecimentos como agradáveis, desagradá-
veis ou neutros, e assim toda a reacção a eles, determinando a qua-
lidade satisfatória ou insatisfatória da vida, que parece depender
mais de um factor interno e não tanto das condições externas da
existência, como mostra o facto de se encontrarem elevados índices
de insatisfação em pessoas e sociedades com vidas materiais mais
favoráveis e altos índices de satisfação naqueles que vivem nas mais
difíceis dessas condições.

Isto explica o crescente interesse pela experiência meditativa. No


Ocidente, é legítimo esperar que o contacto com as tradições orien-
tais possa redespertar o interesse pela tradição da meditação filosófi-
ca, greco-romana, e pela própria oração, meditação e contemplação
cristã. O mal-estar actual da civilização, o agravamento dramático
da relação destrutiva da humanidade com a natureza, os seres vivos
e consigo mesma, tornam urgente redescobrir a experiência medi-
tativa, também como base de uma acção ética e social mais serena e
esclarecida. A meditação laica, treino de uma atenção clara, serena e
solidária, deve estar no centro de um novo paradigma mental, ético
e civilizacional e de uma nova organização social, económica e polí-
tica, onde se veja que o mundo natural e todos os seres são insepará-
veis da nossa mente e da nossa vida, possuem um valor intrínseco e
não são meros objectos a explorar para a (impossível) satisfação da
nossa avidez. A ausência desta visão não-dualista e holística reflecte
a ausência da experiência meditativa nos decisores mais responsá-
veis pelo destino do mundo e arrisca precipitar-nos num colapso
ecológico e civilizacional sem precedentes.

Da redescoberta da meditação depende a nossa saúde e a viabili-


dade de haver futuro neste planeta.

113
Paulo Borges

A urgência da meditação

A descoberta da meditação pelos ocidentais – enquanto treino da


mente para manter uma atenção calma, clara e contínua, com pro-
fundos benefícios psicossomáticos, além do desenvolvimento cogni-
tivo-afectivo - é um fenómeno histórico-cultural e civilizacional dos
mais relevantes no final do século XX e no início do século XXI. A
par da difusão da prática meditativa na população e das várias expe-
riências de sucesso em escolas, empresas, prisões e hospitais, verifica-
se um crescente interesse da comunidade científica pela meditação
enquanto fonte de conhecimento acerca da relação mente-cérebro
e das possibilidades da consciência, como mostram as experiências
realizadas no MIT (Massachusetts Institute of Technology) e noutros
lugares, bem como os encontros Mind and Life, promovidos desde
1987 pelo Mind and Life Institute e onde investigadores de vanguar-
da, particularmente na área das neurociências, têm dialogado com o
Dalai Lama e outros representantes de várias tradições.

Numa dessas experiências, juntou-se um grupo de praticantes de


meditação no budismo tibetano, com 15 a 40 anos de prática, e um
grupo de controlo de estudantes voluntários, com uma semana ape-
nas de prática. Escolheram-se quatro tipos de meditação: 1 – o amor e
a compaixão universais e imparciais; 2 – a atenção focada num único
objecto, de modo claro, calmo e estável, sem torpor ou agitação men-
tal; 3 – a presença aberta, em que a mente está consciente e atenta,
mas sem se focar em nenhum objecto particular; 4 – a visualização
de imagens mentais. Enquanto alternavam repetidas vezes períodos
neutrais de trinta segundos com períodos de noventa segundos em
cada um destes estados meditativos, os praticantes foram submetidos
a electro-encefalogramas, que permitem captar alterações na activi-
dade cerebral em milésimos de segundos, e a imagens de ressonância
magnética funcional, que localizam com rigor a actividade cerebral.

Os resultados mostraram espectaculares diferenças entre os prati-

114
Quem é o meu Próximo?

cantes experientes e os noviços, que provam a plasticidade do cérebro


e a possibilidade de o transformar e desenvolver mediante a prática
regular da meditação. Por exemplo, ao meditar sobre o amor e a com-
paixão houve um aumento da actividade cerebral de alta-frequência,
as chamadas “ondas gama”, “de um tipo nunca antes relatado na lite-
ratura científica”, segundo o Professor Richard Davidson. A activida-
de cerebral concentrou-se também no córtex pré-frontal esquerdo,
a sede de emoções positivas, geradoras de bem-estar, como alegria,
entusiasmo e altruísmo. Constatou-se também, nos praticantes expe-
rientes, a capacidade de regular voluntariamente a actividade men-
tal, concentrando-se exclusivamente numa tarefa sem distracções; a
identificação de emoções em rostos que aparecem num ecrã durante
um quinto de segundo, sinal de um superior poder de empatia; e a
inédita e espantosa neutralização do reflexo do susto, mesmo perante
o disparo de uma arma junto do ouvido: uma vez que esse reflexo
depende da predisposição para o medo, a raiva e a repugnância, os
resultados sugerem “um nível de serenidade emocional impressio-
nante”.

Não admira que o Dalai Lama tenha aberto, em 2005, os trabalhos


do Neuroscience, o mais prestigiado congresso de neurocientistas do
mundo, em Washington. E que já se fale da meditação como alterna-
tiva ao Prozac. Segundo declarações recentes do biólogo Eric Lander,
membro do Projecto Genoma Humano: “Não é inconcebível que,
dentro de 20 anos, as autoridades americanas de saúde recomendem
60 minutos de exercício mental cinco vezes por semana”. A medita-
ção faz hoje parte dos cuidados de saúde e hospitalares, bem como
das actividades escolares e empresariais em muitos lugares do mun-
do, integrando o horário de trabalho de mais de um quarto das maio-
res empresas norte-americanas.

Há por outro lado no Ocidente a ânsia de uma ética e espiritualida-


de prática alternativa ao materialismo e niilismo contemporâneos e
eficaz no lidar com o sofrimento, os conflitos internos e o sentimento
do sem sentido da existência. Sinal dessa busca espiritual é a corrida
a livros de autocura, desenvolvimento pessoal e esoterismo, onde, a

115
Paulo Borges

par de uma minoria de obras credíveis, o público se expõe a todos os


riscos da exploração comercial pela nova indústria dos sucedâneos
das tradições espirituais autênticas, muitas vezes misturados nos es-
téreis ou já perigosos cocktails “espirituais” New Age (sem prejuízo
das boas intenções que sob este rótulo se conjugam).

Esta situação torna ainda mais urgente redescobrir a profunda ex-


periência meditativa, veiculada pelas tradições autênticas da humani-
dade e por aqueles que as renovam mediante uma verdadeira inspira-
ção interior, traduzida numa vida exemplar, desprendida do engodo
pelo poder, a fama e a riqueza, critério seguro de autenticidade. Por
outro lado, o estado actual da civilização, o agravamento da relação
destrutiva da humanidade com a natureza, os seres vivos e consigo
mesma, tornam também urgente redescobrir a experiência meditati-
va. Estamos convictos que a meditação, não religiosa, mas secular, é
hoje chamada a estar no centro de um novo paradigma mental, ético
e cultural-civilizacional, e de uma nova organização social, política
e económica, em que se assuma que a natureza e os seres sencientes,
humanos e não-humanos, são inseparáveis de nós, possuem um va-
lor intrínseco e não são meros objectos e recursos a explorar para a
(impossível) satisfação da nossa avidez. É que a ausência dessa visão
não-dual e holística, que em boa parte reflecte a ausência da expe-
riência meditativa nos decisores mais responsáveis pelo destino
do mundo, arrisca-se a precipitar-nos num imenso colapso ecológi-
co-social.

116
Quem é o meu Próximo?

A verdadeira causa
do nosso mal-estar

Muito para além do que pensou Freud, a verdadeira causa do cres-


cente “mal-estar na civilização” é o vivermos muito aquém da nossa
verdadeira natureza e das nossas mais fundas potencialidades inter-
nas. É dessa profunda privação, bem como do seu não reconheci-
mento, que vem o desejo compensatório e compulsivo de prosperar
e realizar todo o tipo de desejos no mundo material exterior. É por
vivermos muito abaixo das nossas profundas potencialidades espi-
rituais que acabamos por desejar viver muito acima das nossas reais
possibilidades materiais, tornando-nos escravos-responsáveis do sis-
tema capitalista de produção e consumo que explora e gere esta nossa
vulnerabilidade, com todas as consequências a nível social, económi-
co, ambiental e político que configuram a mais visível crise em que
nos encontramos. Mas esta crise externa é apenas o efeito de uma
crise interna, de natureza espiritual, e não pode ser superada sem que
esta o seja. De outro modo, continuaremos a combater sintomas em
vez de irmos à sua origem, que é o que têm feito desde há séculos as
tentativas de mudança meramente social, económica e política, cuja
história é o currículo dos seus fracassos e, muitas vezes, do trágico
agravamento dos problemas que tentaram resolver.

A verdadeira causa do nosso mal-estar é vivermos identificados


com as fronteiras de um ego psicofisiológico, um género, uma espé-
cie, um nome, uma idade, uma família, uma profissão, uma nação,
uma língua, uma cultura, um clube, um partido, uma religião ou
uma irreligião, quando na verdade somos íntimos parentes de todos
os seres e inseparáveis do todo e do infinito. A verdadeira causa do
nosso mal-estar é este exílio e saudade em que vivemos da nossa Vida
profunda, numa sociedade que considera isso normal e constante-
mente pressiona para que jamais despertemos desta alienação e rom-
pamos as barreiras da patológica normose colectiva1. A mais funda

117
Paulo Borges

causa do mal que fazemos aos outros, aos humanos, aos animais e
ao planeta, é este mal que dia a dia fazemos a nós mesmos, traindo
os nossos mais fundos impulsos ou aspirações em troca da ilusão de
prazer, conforto, segurança, prestígio, riqueza e poder, que, por mais
que o tentemos ignorar, bem sabemos que nunca nos satisfazem e
sempre nos escapam. É daí que vem o stress e a ansiedade com que
procuramos entregar-nos a mil ocupações e projectos para anestesiar
a dor da ferida aberta que no mais íntimo trazemos. E é da contínua e
inevitável frustração disso, pois procuramos fora o que ignoramos ou
rejeitamos dentro, que vem todo o mal de viver, o tédio, o desalento,
a tristeza e a frustração que assombram a sociedade contemporânea
e se traduzem em depressões, neuroses e psicoses que a psicologia
e psiquiatria convencionais tratam com meios externos e químicos,
por ignorarem que são fundamentalmente crises decorrentes da re-
pressão individual e colectiva daquilo que Stanislav Grof e a psicolo-
gia transpessoal chamam “emergência espiritual”2.

Necessitamos de um movimento global de redescoberta das di-


mensões profundas da Vida, que reencontre os caminhos de inicia-
ção esquecidos e rejeitados pelas sociedades industriais movidas pela
ganância de domínio e exploração do mundo exterior. Necessitamos
de novas experiências, escolas e comunidades onde se viva desde já
em descoberta e comunhão do íntimo numinoso do ser. É urgente
redescobrir e libertar as possibilidades mais amplas e fundas da cons-
ciência, da criatividade e dos relacionamentos, da sexualidade, do
erotismo e do amor, com uma ética do respeito integral pela Terra e
por todas as formas de vida. Pois a normose de um sistema senil, que
vive de gerar cadáveres adiados que produzem e procriam, não pode
curar-se recorrendo às vias sempre fracassadas do passado. Dela nada
nem ninguém nos pode libertar senão o movimento de cada um e
de todos para perder o medo que nos fecha nas falsas identidades,
romper os muros da normalidade instituída, amar, abraçar e dançar

1. Cf. Pierre WEIL, Jean-Yves LELOUP, Roberto CREMA, Normose. A patologia da normalidade,
Campinas, Verus, 2004.
2. Cf. Stanislav GROF, A Psicologia do Futuro, Porto, Via Óptima, 2007.

118
Quem é o meu Próximo?

a Vida em nós e em tudo e descobrir a Vastidão que desde sempre


trazemos em nós encoberta. Pois o que admiramos na contemplação
do céu, do mar, das florestas, dos astros e das paisagens vastas e si-
lenciosas, o que nos arrebata naquelas melodias, imagens ou palavras
que subitamente nos transportam para além do tempo, o que procu-
ramos na natureza, na arte, na literatura, na religião e no amor, não é
senão a revelação fulgurante disso que desde sempre, a cada instante
e para sempre sem o saber somos: a nossa Realeza cósmica, coroada
de silêncio, espanto e estrelas.

119
Paulo Borges

abrir Portas

São múltiplas as situações quotidianas em que praticamos a corte-


sia de segurar uma porta aberta para esperar que os outros cheguem
e por ela passem, em vez de a deixarmos fechar atrás de nós e ir em
frente, sem olhar para quem venha atrás. E muitas vezes damos a pri-
mazia aos outros, ao chegar a uma entrada, abrindo-lhes a porta para
que entrem primeiro do que nós. Oferecemos e recebemos vezes sem
conta este pequeno gesto de cortesia, sorrimos e sentimo-nos bem
com isso. Porque não o fazemos então nas demais situações da vida?

Porque fazemos tantas vezes da vida um galgar ansioso por cima


de tudo e de todos, só para chegarmos primeiro a todo o lado, em
busca do que nem sequer sabemos bem o que é? E porque fechamos
por vezes a sete chaves atrás de nós as portas pelas quais acabamos
de passar, só para que mais ninguém por elas entre, sem perceber
que muitas vezes ao fazê-lo estamos a converter o cobiçado espaço
em que entrámos na mais solitária das prisões, de onde não ousamos
sair só com medo de que alguém mais possa entrar pela porta entrea-
berta? Porque temos tanto medo de abrir e ceder passagem? Porque
não abrimos de par em par as portas dos espaços bons, gratificantes e
saudáveis que a vida nos abre e oferece, para que cada vez mais sejam
os que por elas entrem? Porque não oferecemos gratuitamente o que
gratuitamente nos é oferecido, pois no fundo tudo o que é essencial,
como a capacidade de sermos generosos, a capacidade de dar, nos é
gratuitamente oferecido?

E isto não apenas na relação entre indivíduos, mas também entre


grupos, povos, nações e espécies. Porque permanecemos ainda tão
reféns dos instintos gregários de autoprotecção tribal, ampliada ape-
nas a tribo à religião, à nação, ao partido, à empresa, ao clube ou à es-
pécie? Porque competimos em vez de cooperar? Porque não abrimos
portas ou não as mantemos abertas aos outros, aos que precipitada e
medrosamente chamamos “outros” - só por terem uma crença, uma

120
Quem é o meu Próximo?

língua, uma cor, um emblema, um objectivo ou uma forma diferente


- para os mantermos afastados de nós mesmos ou os excluirmos da-
quilo de que na verdade jamais os podemos excluir: o estarem senta-
dos connosco à mesa comum do planeta e da vida? Porque restringi-
mos a nossa irrecusável condição comunitária de viventes no mesmo
planeta à de sociedades maiores ou menores em competição mútua?

Estas perguntas já foram colocadas e respondidas inúmeras vezes.


Fazemo-lo porque temos medo do outro que surge como o diferente
que ameaça o nosso sentimento de identidade e pertença a um grupo,
bem como a nossa prossecução dos desejos e interesses desse grupo,
por exclusão de outras identidades, pertenças, desejos e interesses.
Fazemo-lo porque não vemos que o outro é inseparável de nós e que
as diferentes identidades, pertenças, desejos e interesses pouco ou
nada representam perante a realidade dos vínculos e das necessidades
comuns. Fazemo-lo porque estamos habituados a fazê-lo e os pais, as
famílias, a escola e a sociedade não nos educam noutro sentido, o da
cooperação e da ajuda mútua. O resultado está à vista: é o mundo crí-
tico e conflituoso em que vivemos, com um desnível crescente entre
pobres e ricos, opulência e miséria, Norte e Sul, humanos colonizado-
res e animais colonizados, no comum cenário de um planeta na imi-
nência de não suportar mais ser tão devastado como matéria-prima e
reserva energética desta luta de todos contra todos.

Deixemo-nos de perguntas e respostas, já conhecidas. Passemos


à prática de alternativas. Experimentemos abrir mais. Abrir mais
portas para o que é bom para todos, abri-las mais e mantê-las bem
abertas, para que cada vez mais por elas passem. Sejamos porteiros.
Sejamos portas. Abramos mais espaço e sejamos espaço. Um espaço
luminoso e caloroso onde todos igualmente caibam, sem lugares de
primeira nem de segunda, e ninguém, humano ou animal, seja ex-
cluído da Festa da Vida.

121
Paulo Borges

Breve reflexão sobre


a tauromaquia

A tauromaquia, o combate do homem com o touro, tem a sua


origem na ritualização de mitos dualistas acerca do combate origi-
nário entre a luz e as trevas, o bem e o mal, para que o cosmos possa
vencer o caos. Estes mitos expressam na verdade o sentimento hu-
mano de uma divisão e combate interno entre a luz da consciência
e da razão ética e as trevas da irracionalidade dos instintos e das
emoções destrutivas.

Neste ciclo de civilização antropocêntrica, o homem foi identifi-


cado com o positivo e o animal com o negativo, sendo convertido
num bode expiatório de toda a violência, conflitos e tensões dos ins-
tintos reprimidos pela vida social. Projectar a necessidade de triunfo
da luz sobre as trevas interiores, do melhor sobre o pior de nós, num
combate exterior com um animal, como se humilhá-lo, torturá-lo e
vencê-lo, pela morte na arena ou mais tarde no matadouro, tornasse
alguém melhor, é uma manifestação grosseira de ignorância da di-
mensão simbólica daqueles mitos arcaicos.

Esquecida de tudo isto, a tauromaquia converteu-se num espectá-


culo de pura agressão gratuita contra um ser senciente e pacífico, que
é forçado a sofrer terrivelmente num confronto que não deseja. Na
tauromaquia há uma dissimulação do mal da violência e do sofrimen-
to, ficando anestesiada a tendência humana para a empatia e para se
colocar no lugar do outro: em primeiro lugar pela convicção, entra-
nhada desde há milénios no subconsciente humano, de que o homem
é o “bom” e o animal o “mau”; em segundo lugar pela estética do es-
pectáculo, estimulante dos sentidos com as luzes, as cores, a música,
as vestes e os movimentos rituais; em terceiro lugar, pelo êxtase emo-
cional de uma multidão a vibrar em uníssono, onde se esquecem os
problemas da vida e as razões da consciência em momentos fugazes
de diluição numa festa social com parentes, amigos, comida e bebida.

122
Quem é o meu Próximo?

Para além dos que estão directamente ligados aos interesses eco-
nómicos da indústria tauromáquica, a maioria dos aficionados vê
apenas nas corridas de touros a estética do espectáculo e o convívio
social, que lhes confere um sentimento de identidade e participação
comunitária numa era de globalização e fragmentação das relações
humanas. É por isso que ganadeiros, cavaleiros, toureiros, forcados
e aficionados não vêem nas corridas de touros senão isso e nunca
o evidente sofrimento do animal, seja o cavalo ou o touro. Mas esse
sofrimento dos animais, capazes como nós de sentir a dor e o prazer
psicofisiológicos, é o que acima de tudo vêem os que lutam pela aboli-
ção da tauromaquia, pois esse sofrimento e a transgressão da regra de
ouro de toda a ética – o não fazer ao outro o que não desejamos que
nos façam a nós – surgem em toda a sua injustificada e brutal nudez
quando despidos dos véus da mítica superioridade humana, da tradi-
ção cultural, da beleza estética e da festa social. A tortura, a violação e
o assassínio serão sempre tortura, violação e assassínio, e inaceitáveis,
por mais que nalgum lugar do mundo se convertam numa tradição
cultural apreciada por alguns e numa festa social encenada com re-
quintes estéticos de luz, cor, som e movimento.

Todavia, a abolição da tauromaquia, que lenta mas firmemente se


desenha no horizonte da civilização, apenas exige o fim da presen-
ça dos animais, touros e cavalos, no espectáculo, e não o do próprio
espectáculo. Tal como os montados e os touros bravos podem sobre-
viver ao fim da tauromaquia, convertendo-se em santuários da vida
selvagem, reservas ecológicas e pólos de atracção turística, também o
actual espectáculo, sem animais, se pode converter numa encenação
não-violenta, mantendo a sua estética tradicional, a exemplo do que
aconteceu com práticas semelhantes em todo o mundo, hoje aprecia-
das como artes lúdicas livres de sangue e morte, como as antigas ar-
tes marciais do sabre japonês, o kendo, e da capoeira afro-brasileira.
Livre de animais, o actual espectáculo continuará a ser uma festa de
convívio e coesão social, mas deixará de ser a festa da violência e da
dor que actualmente indigna e envergonha a nossa consciência e fere
o mais fundo da nossa sensibilidade humana à dor do outro, à aflição
do próximo, humano ou não-humano.

123
Paulo Borges

Dois Natais, duas


Festas dos Loucos

Há dois Natais. Um com uma face cristã, outro com uma face pagã.
Em termos cristãos, nele se celebra o nascimento de Cristo na ter-
ra ou, segundo os místicos, o nascimento do divino na consciência
(como escreveu Angelus Silesius: “Que me importa que Cristo haja
nascido ontem em Belém, / Se não nasce hoje na minha alma?”). Em
termos pagãos, a celebração que foi cristianizada é a do Solstício de
Inverno, ou seja, o renascimento simbólico do Sol Invictus após a sua
simbólica morte: ou seja, o renascimento do próprio mundo, quando
a energia vital que há nos seres e nas coisas, após declinar e se re-
colher, inicia um novo ciclo de expansão. O Deus cristão foi depois
visto como um Deus crucificado, apontando um caminho de ascese e
renúncia ao mundo, em prol de uma salvação sobrenatural, acessível
apenas aos homens, destinados a uma eternidade separada dos ani-
mais que lhes serviram de companhia, alimento e força de trabalho.
Todavia, como se assinala na inspiração franciscana do Presépio, ele
veio ao mundo numa gruta, símbolo das profundezas da Natureza,
primeiro que tudo aquecido e protegido pelos animais, uma vaca e
um burro: poderoso símbolo de uma fraternidade divino-humano-
cósmica, ainda por cumprir, tal como igualmente se expressa no “Jar-
dim das Delícias”, de Bosch, ou nos quadros de Chagall, entre outros.

Este Natal, pagão ou cristão, implica sempre um (re)nascimento


iniciático, uma metamorfose da consciência e das energias profun-
das do ser, um mundo ao arrepio das convenções, rotinas e usos
comuns, em que a libertadora experiência do sagrado consiste em
ridicularizar aquilo a que se está apegado como mais sagrado. Não é
por acaso que, ainda na Idade Média cristã, o Natal coexistia, no pe-
ríodo da libertas decembrica, com as Festas dos Loucos, celebradas
de meados de Dezembro até à Epifania, em 6 de Janeiro, com comi-
da, bebida e danças dentro das igrejas e em cima dos altares, missas
paródicas com burros a zurrar, homens vestidos de mulheres e mu-

124
Quem é o meu Próximo?

lheres vestidas de homens, crianças entronizadas como Imperadores


dos Inocentes, a quem os adultos e a hierarquia eclesiástica tinham
de obedecer, etc. Progressivamente proibidas nas igrejas, acabaram
por originar o Carnaval moderno, tendo sido a forma medieval e
cristã do mundo às avessas que é ritualizado em muitas tradições e
culturas como forma de recordar e vivenciar o regresso cíclico do
cosmos ao Caos primordial ou ao Tempo das Origens onde tudo é
puro, sagrado e possível e a liberdade, a metamorfose, o jogo e a festa
predominam sobre a rígida delimitação do sagrado e do profano, do
divino, do animal e do humano e dos papéis psicológicos, sociais e
cósmicos, com a vida orientada para o trabalho e a produção. Cor-
respondendo ao solstício de Inverno, herdam a memória de mais
antigas festividades pagãs, de sentido carnavalesco, como as Satur-
nais, onde se celebrava o regresso à abundância e inocência da Idade
do Ouro, com a troca de presentes e o travestimento de homens e
mulheres. Festividades ainda bem presentes no Nordeste transmon-
tano, de cuja inversão da ordem se acredita depender a renovação
das energias humanas e cósmicas, a fertilidade das mulheres, dos
animais e dos campos. Como ainda hoje se diz em certas aldeias de
Trás-os-Montes, por ocasião das tropelias e mascaradas praticadas
nas Festas dos Rapazes e outras: “É Natal, ninguém leva a mal!”. Um
Carnatal, como pude presenciar…

Estas festas, tradicionais e iniciáticas, podemos entendê-las como


convites à transmutação da consciência que assume e liberta a sua
iluminada ou divina natureza primordial, anterior a qualquer esta-
do, condição ou limite, anterior a qualquer máscara, ego e perso-
nalidade e sua projecção de um mundo ilusoriamente considerado
como exterior, real e objectivo. O Louco simboliza bem, como na
carta do Tarot, essa natureza primordial da mente, não egocentra-
da, sem centro nem periferia, tão livre e infinita como o espaço, tal
um zero metafísico e pré-existencial que, por não ser nada, pode a
cada instante imaginar-se e tornar-se tudo, como assume Bernar-
do Soares no “Livro do Desassossego”. Aquilo que todos somos:
Todo o Mundo – Ninguém.

125
Paulo Borges

O Louco ou a Criança. Porque a Festa dos Loucos é a festa da co-


roação das crianças como detentoras da suprema autoridade, com
a inversão das funções e relações habituais entre as classes etárias e
sociais. A exemplo do ensinamento de Lao Tsé, Cristo e Agostinho
da Silva. Tal como acontecia e acontece na Festa do Espírito Santo,
sua directa herdeira no Ocidente, fundada pela rainha Santa Isabel
e levada para os Açores, Brasil e América. Preservada ainda hoje no
Penedo, perto de Sintra, com a mácula da tourada à corda. A Festa
onde Agostinho da Silva viu a simbólica antecipação do futuro que
todos desejamos: a libertação de todas as prisões, a igualitária par-
tilha da abundância, a coroação e a sacralização da infância, ou seja,
da inocência, da liberdade e da imaginação criadora.

Este é o espírito e o simbolismo profundo do Natal, do Presépio,


da Árvore de Natal, imagem do axis mundi que liga Céu e Terra e
passa em cada uma das nossas colunas vertebrais. O simbolismo da
troca de prendas, da festa da infância e da abundância, da comunhão
na alegria, na solidariedade e na despreocupação.

O outro Natal é o que hoje temos à nossa volta, a deturpação deste


e do seu espírito num ciclo de civilização em que o crescente vazio
interior de mentes sem imaginação, amor e sabedoria se busca iluso-
riamente compensar por um produtivismo e consumismo galopan-
tes e ávidos, que alimentam uma economia regida por especuladores
e agiotas, trucidam milhões de seres vivos e envenenam e enchem
de lixo o planeta para uma Consoada e um dia de Natal de embrute-
cimento e esquecimento da vida triste e opressiva levada em quase
todos os restantes dias do ano. No fundo, e ainda, uma grande Festa
de Loucos, mas não de Loucos sábios e livres, antes de Loucos pa-
tológicos que buscam libertar-se com aquilo que mais os escraviza,
ofusca e aliena.

Importa contudo ir além do moralismo estreito e estéril e ver, atra-


vés dum Natal e duma Festa de Loucos, o outro Natal e a outra Festa
de Loucos cuja saudade no fundo move a avidez e a alienação des-
te grande Holocausto consumista. E, serenamente, transitar de um

126
Quem é o meu Próximo?

para o outro, sendo feliz e tornando-se contagioso. Ou seja, transitar


das prisões do ego para a Grande Festa do Livre Espírito, na infinita
comunidade de todos os seres vivos, da Vida e da Natureza.

127
Paulo Borges

O que há nesta simples


folha de papel

Há muitos modos de olhar para as coisas e muitas formas de as ver,


que revelam haver nelas muito mais do que a desatenta percepção
habitual nos faz supor. Um sábio contemporâneo, Thich Nhat Hanh,
mostra-nos que nesta simples folha de papel há a nuvem de onde veio
a chuva que irrigou as árvores de onde se fez o papel, bem como a
luz do sol que as fez crescer e também o lenhador que as cortou e
levou para serem transformadas, assim como o trigo e tudo o mais
de onde veio o alimento que nutriu o lenhador. Com a mesma visão,
podemos também reconhecer cada um de nós nesta mesma folha de
papel, na medida em que ela integra a nossa percepção e é insepa-
rável de cada um dos nossos presentes estados mentais. Alargando
até ao infinito o horizonte desta descoberta, facilmente constatamos
que não podemos apontar nada que não esteja presente nesta simples
folha de papel: “tempo, espaço, a terra, a chuva, os minerais no solo,
a luz do sol, a nuvem, o rio, o calor”. Daí a inadequação das noções
de “ser” e “não-ser” para designarem a natureza profunda das coisas,
que convoca um neologismo – “entre-ser” – para ser indicada. Toda a
existência é uma coexistência universal, “ser é entre-ser”, tudo entre-é
com tudo: “Esta folha de papel é porque tudo o mais é”, ela é apenas
constituída por “elementos não-papel”, o que significa que, se dela
fosse possível retirá-los, pura e simplesmente desapareceria1.

O mesmo tipo de análise se aplica, com as mesmas conclusões, a


tudo o que o Sutra do Diamante designa como “eu”, “pessoa”, “ser
vivo” e “duração de vida”2, conceitos convencionais recortados pela
abstracção separativa e discriminatória na íntima urdidura do real

1. Cf. Thich Nhat HANH, The Heart Sutra, in Awakening of the Heart. Essential buddhist sutras and
commentaries, Berkeley, Parallax Press, 2012, pp.413-414.
2. “Se, Subhuti, um bodhisattva se agarra à ideia de que um eu, uma pessoa, um ser vivo ou uma
duração de vida existe, essa pessoa não é um autêntico bodhisattva” – Id., The Diamond Sutra, in
Ibid., p.318.

128
Quem é o meu Próximo?

e que não resistem ao minucioso exame racional que revela como


as supostas identidades que designam são na verdade apenas consti-
tuídas de alteridades. Na verdade o “eu”, a “pessoa” e os “seres vivos”
nada são sem o sol, a água, o espaço, o trigo e demais alimentos, os es-
tados mentais que os percepcionam e nomeiam como tais, etc., tudo
elementos não-“eu”, não-“pessoa” e não-“seres vivos”. Do mesmo
modo, uma “duração de vida”, aparentemente iniciada no momento
do nascimento e extinta no momento da morte, designa na realida-
de um processo de contínua metamorfose em que constantemente
inúmeras células morrem e nascem, sendo uma pura abstracção dis-
tinguir entre vida e morte num processo onde todos os organismos a
cada instante se transformam em interdependência3. É nesse sentido
que o mesmo autor considera que os votos de Feliz Aniversário mais
correctamente seriam de “Feliz Continuação”, recordando com hu-
mor que, apesar de as células continuamente nascerem e morrerem,
não celebram “nascimentos” nem “funerais”4.

Cortar ou cristalizar a tessitura dinâmica, metamórfica e entrela-


çada do real em id-entidades supostamente permanentes, distintas e
isoladas é nesta perspectiva o fruto de avidya, a ignorância, geradora
das duas emoções básicas, o apego e a aversão, que estão na origem
de todo o sofrimento e conflitos internos e externos. Em termos his-
tórico-civilizacionais, discriminar e erigir uma falsa barreira entre a
“ideia de pessoa” e a de “não-pessoa” teve como consequência o an-
tropocentrismo, o considerar-se que os animais, as plantas e o mundo
natural existem para servir a espécie humana, com o consequente in-
vestimento massivo numa tecnologia que permite explorar os demais
seres vivos e a natureza em prol do mero bem-estar de uma espécie,
o que todavia, devido à natureza interdependente de todas as coisas,
tem cada vez mais o efeito indesejado de afectar gravemente a vida
humana por via das alterações climáticas, da poluição, da destruição
da biodiversidade e do surgimento de novas doenças, entre outros

3. Cf. Ibid., pp.343-344; The World We Have. A buddhist approach to peace and ecology, Berkeley,
Parallax Press, 2008, pp.71-74.
4. Cf. Ibid., p.43.

129
Paulo Borges

aspectos das mutações antropogénicas em curso no mundo natural


do qual somos inseparáveis5.

Daí a exortação a que todos nos assumamos como protectores da


Terra e de todos os seres vivos6, sem discriminar entre animado e
inanimado, bem como a proposta de uma ética global que desperte
os humanos do sonho sonâmbulo de viverem sem consciência do im-
pacto que têm sobre o planeta e a biodiversidade7.

5. Cf. Id., Awakening of the Heart. Essential buddhist sutras and commentaries, p.343. Cf. também
Id., The World We Have. A buddhist approach to peace and ecology, p.72.
6. Cf. Ibid., pp. 5, 8 e 15.
7. Cf. Ibid., pp. 1 e 5.

130
Quem é o meu Próximo?

Outro mundo é possível.


Até no futebol

O futebol é um desporto que suscita as mais violentas emoções, em


conformidade com as suas longínquas origens histórico-lendárias.
Uma tradição diz que na China, entre 2000 e 1500 a. C., guerreiros
inventaram um meio de relaxar após a tensão das batalhas: pontapear
o crânio de um inimigo de modo a ultrapassar duas estacas de bam-
bu fincadas no solo. A partir daí teria derivado, já no séc. III a.C., o
exercício militar de tsu-chu, “chutar a bola”, que passou a substituir
a cabeça humana. Importada pelo Japão no séc. II, o jogo, kemari,
deixou de ser uma competição para passar a um cerimonial. Também
na América Central, a partir de 900 a.C., se jogou o tlachtli, entre
dois grupos de sete jogadores, que procuravam evitar que a bola de
borracha tocasse o chão, introduzindo-a num de dois aros de pedra.
No início o jogo tinha um sentido ritual e sacrificava-se o capitão da
equipa vencida, na maioria das vezes por decapitação1.

Fiel às origens, o futebol globalizou-se como o maior ritual catárti-


co da violência subconsciente das emoções colectivas e do crescente
mal-estar existencial e civilizacional. Indiscutivelmente fascinante,
como jogo e fenómeno estético-coreográfico, e como rito festivo
dos desenlaces imprevistos da vida num mundo cada vez mais pla-
nificado nos mecanismos do trabalho, da produção e do consumo,
questionável é o modo como inconscientemente é vivido. Na verda-
de, se por um lado sublima a violência instintiva e é um substituto
da guerra, por outro reproduz arcaicas e violentas emoções dualistas,
que contradizem a regra de ouro ética que é colocar-se no lugar do
outro. No futebol de alta competição de clubes e selecções prevalece
a lógica tribal ou nacionalista de que uns, por serem da nossa equipa,
e terem um determinado emblema, camisola, língua ou hino, são os

1. Hilário Franco JÚNIOR, A Dança dos Deuses. Futebol, Sociedade, Cultura, São Paulo, Companhia
das Letras, 2007, p.15-16.

131
Paulo Borges

“bons”, devendo ganhar, e os outros, apenas por serem diferentes, são


os “maus”, devendo perder. É ela que nos faz vibrar de alegria com a
vitória dos nossos e com a derrota dos outros, ou seja, com isso mes-
mo que os faz sofrer. E são estas emoções que dificultam a expansão
da empatia, da qual dependem vínculos sociais e éticos alargados.

Por outro lado, compreende-se que, numa civilização individualis-


ta, burguesa e profana, muito do fascínio do futebol resida também
em oferecer um regresso fugaz ao sentimento de pertença e celebra-
ção comunitárias e à experiência neoreligiosa de um êxtase por iden-
tificação com um símbolo/totem e, sobretudo, com as novas divinda-
des ou heróis que são os jogadores, operadores desses novos milagres
que são as grandes defesas, as grandes jogadas e os grandes golos.
Isso é muito mais atractivo do que a reflexão desencantada sobre tudo
isto. Como disse Bill Shankly, treinador do Liverpool:

“Algumas pessoas pensam que o futebol é tão importante quanto


a vida e a morte. Elas estão muito enganadas. Eu asseguro que ele é
muito mais sério que isso”.

Essa atracção é contudo instrumentalizada num meganegócio de


interesses obscuros, além de servir como hiper-distracção colectiva
que, colonizando os media numa gigantesca cortina de fumo, enco-
bre o afundar de uma civilização na opressão sócio-económica e no
colapso ecológico, sugando energias humanas e recursos financeiros
que podiam ser canalizados para um mundo alternativo.

Não é todavia inevitável que o futebol implique vitórias e derrotas.


Outros povos, com outros valores, deram-lhe outra orientação:

“Na Nova-Guiné, os Papuas Gahuku-Kama adoptaram com entu-


siasmo o futebol, mas adaptaram-no aos seus valores culturais. Ex-
cluiu-se haver um ganhador e um perdedor. A partida prolongava-se,
era suspensa e retomava-se até que as contas estivessem equilibradas.
Isso não impedia em absoluto a excitação de cada golo e a exaltação
dos heróis do jogo. Cada partida reforçava a reputação e a satisfação

132
Quem é o meu Próximo?

dos dois campos, mas a agressividade era facilmente conjurada”2.

Estou convicto que a única saída para a globalização da cultura eu-


ropeia-ocidental - que colonizou as mentes com a suposta norma-
lidade de competir com o objectivo de vencer e derrotar o outro, e
que hoje domina tudo, desde a educação à economia e à política - é
ter a humildade de reaprender o essencial com estas culturas que so-
breviveram ao seu imperialismo e que durante séculos espezinhou e
humilhou.
Na verdade outro mundo é possível. Até no futebol.

2. Serge LATOUCHE, L’Occidentalisation du Monde. Essai sur la signification, la portée et les limites
de l’uniformisation planétaire (1989), Paris, La Découverte, 2005, p.76.

133
Paulo Borges

Sonhar que se voa

“Sonhei que era uma borboleta, voando no céu; então despertei.


Agora pergunto, sou um homem que sonhou ser uma borboleta
ou uma borboleta que sonha ser um homem?”
- Chuang Tzu

Muitas vezes sonhamos que voamos. Tudo começa por estarmos


a caminhar e, por vezes espontaneamente, outras mediante um pe-
queno impulso, começamos a flutuar ou levitar e erguemo-nos acima
do solo, começando a ver o mundo, as pessoas e as coisas a partir de
cima, numa visão cada vez mais ampla e abrangente à medida que nos
elevamos. Há experiências em que somos arrebatados para cima ou
para baixo e a custo conseguimos controlar e dirigir o movimento. Há
outras em que desde o início sentimos que podemos ir para onde qui-
sermos, inclinando ligeiramente a cabeça e o corpo na direcção pre-
tendida ou estendendo e unindo os braços e as mãos à nossa frente e
apontando-os no sentido visado. Por vezes basta pensar num deter-
minado lugar ou pessoa para nos encontrarmos imediatamente nele
ou na sua presença, como se viajássemos vertiginosamente através
do tempo e do espaço. Acontece atravessarmos paredes e obstáculos
aparentemente sólidos, como se fôssemos absolutamente imateriais,
apesar de mantermos uma certa percepção da nossa forma física. Su-
cede percorrermos vastas regiões desertas e luminosas ou nocturnas,
vendo oceanos, rios, florestas e montanhas a partir do céu, como uma
águia, ou então pairar acima de grandes cidades adormecidas, muito
acima dos seus mais elevados edifícios. Por vezes vemos claramente
as pessoas e tentamos descer, tocar-lhes e interagir com elas, mas não
o conseguimos, como se estas não nos vissem e sentissem, como se
as nossas mãos passassem através dos seus corpos. Outras vezes, me-
nos frequentes, as pessoas parecem sentir-nos ou ver-nos e assustam-
se e fogem. Seja como for, na sua grande maioria são experiências
extremamente nítidas, poderosas e gratificantes, que oferecem uma
sensação de liberdade quase infinita e que, ao acordar, recordamos

134
Quem é o meu Próximo?

demoradamente com saudade, sentindo o seu fim e privação como


um limite infeliz das possibilidades do nosso ser, regressado à norma-
lidade da vida quotidiana. O que é surpreendente é a frequência com
que as sentimos tão ou mais reais do que aquilo que neste preciso
momento percepcionamos e experienciamos.

Muitas explicações existem para este fenómeno, procurando re-


duzir o desconhecido ao que julgamos conhecer, como as teorias de
inspiração psicanalítica e freudiana que falam destes sonhos como
uma realização simbólica e sublimada de desejos que não se logram
realizar na vida suposta real. Tradições antigas, como a do Yoga do
Sonho tibetano, consideram estas experiências como a vivência de
dimensões mais subtis e profundas do nosso ser e da nossa consciên-
cia, em que estamos mais despertos do sono da vida comum e re-
cuperamos uma liberdade primordial, anterior à fixação num corpo
de matéria aparentemente densa. Tal como nos voos chamânicos ou
na experiência pós-morte, nesse intervalo ou espaço indetermina-
do entre uma existência e outra que em tibetano se designa como
bar-do (entre-dois). Nesta perspectiva, tudo é um bar-do, pois esta-
mos sempre em viagem, a meio-caminho entre uma coisa e outra,
seja na vida, na morte, na meditação ou no sonho. Todavia, segundo
esta tradição, para que estas experiências possam ser libertadoras há
que tomar consciência, ao sonhar, de que sonhamos, o que é um des-
pertar para as suas plenas possibilidades, mas sem acordar, pois nesta
visão aquilo a que chamamos acordar é afinal adormecer num sonho
mais denso e ilusório… Para que isto se torne possível há que nos
treinarmos, em cada momento desta vida de vigília, supostamente
real, a vê-la como um sonho. O que tem, aliás, a vantagem de sa-
bermos que nele tudo é transitório e se pode modificar. Basta per-
cepcioná-lo de outro modo e agir em conformidade, com evidentes
vantagens espirituais e sociais.

Bons sonhos!

135
Paulo Borges

O que é o amor?

O que é o amor, essa palavra que tão fundo ressoa na mente e no


coração humanos e tão intimamente se associa às maiores aspirações,
sonhos, gratificações, medos e frustrações da humanidade em todos
os tempos? Uma possível etimologia é o indo-europeu “amma”, que
designa a expressão da criança que chama pela mãe. Daí pode ter vin-
do o latino “amare”, que significa “dar carícias de mãe”. Daqui haver
quem defenda que “amar” se relaciona com “mamar” ou “amamentar”.

As múltiplas modalidades do amor desenvolvem-se porventura en-


tre estas duas possibilidades extremas: o dom incondicional de si para
o bem do outro, como uma mãe que oferece o seio ao recém-nasci-
do sem esperar nada em troca, e o apego e sucção voraz da criança
no seio materno, pois disso depende a sua sobrevivência. Entre estas
duas experiências, e combinando-as de modo complexo, se estendem
os múltiplos níveis da escala que Jean-Yves Leloup vê como o “arco-í-
ris” do modo humano de viver a experiência amorosa. Consoante as
suas designações na língua grega, teríamos assim, da forma mais con-
dicionada à mais livre: 1) porneia, o amor como apetite devorador;
2) pothos, o amor como necessidade e carência possessiva; 3) mania,
pathé, o amor como paixão e sedução igualmente possessiva; 4) eros,
o amor vivido como interesse erótico; 5) philia, o amor amizade, nos
seus vários níveis; 6) storgé, o amor ternura; 7) harmonia, o amor
harmonioso e bondoso, primeiro nível do amor desinteressado; 8)
eunoia, o amor como dedicação e compaixão; 9) charis, o amor como
gratidão e celebração, sem porquê nem para quê; 10) agapé, o amor
gratuito e incondicional, na tradição cristã idêntico a Deus1, que não
seria tanto um ser que ama, mas o próprio Amor.

Ao longo dos vários níveis desta escala sobe e desce a vivência hu-

1. Cf. Catherine BENSAID e Jean-Yves LELOUP, O Essencial no Amor. As diferentes faces da expe-
riência amorosa, Petrópolis, Vozes, 2006, pp.126-128.

136
Quem é o meu Próximo?

mana do amor, quase sempre sem se fixar exclusivamente num deles


de modo exclusivo de todos os outros, o que faz do amor um sen-
timento tão complexo e impenetrável aos olhos do próprio sujeito
que ama. Cremos, com Jean-Yves Leloup, que o amor mais puro, li-
vre e incondicional está igualmente presente em todos os níveis desta
escala, assegurando a unidade de todas as formas de o viver, desde
a mera potencialidade na base até à sua plena actualização no topo,
sendo próprio da comum condição humana transitar de uma para
outra destas várias modalidades de amar, conjugando-as por vezes
em simultâneo a respeito dos mesmos objectos, seres e pessoas.

Na verdade, o que queremos dizer quando dizemos: “Amo-te”, essa


declaração paradoxalmente tão tremenda e vulgar? “Estou aqui, com-
pletamente disponível para o teu bem, sem esperar retribuição ou re-
conhecimento”, ou “Quero prender-te e devorar-te, física, emocional
ou mentalmente, como mero objecto que satisfaça a minha carência e
substituto do seio ou chucha perdidos?”. Ou “Amo-te” quer dizer um
complexo e confuso misto de tudo isso?

Ocorre citar aqui Agostinho da Silva:

“[…] Sobretudo no amor se deve ter cuidado; gostar dos outros


e lhes querer bem tem sido o motivo de muita opressão e de muita
morte dos espíritos. […] Não tens, essencialmente, de amar nos ou-
tros senão a liberdade, a deles e a tua; têm, pelo amor, de deixar de
ser escravos, como temos nós, pelo amor, de deixar de ser donos do
escravo”.

Cabe na verdade perguntarmos e sobretudo perguntar-nos: Amor


ou apEgo? Experiência de ser fonte que superabunda e sacia quem
dela beber sem nada exigir em troca ou sensação de fome e sede in-
digente e ávida de satisfação, consolo e gratificação, que faz do outro
um mero objecto de consumo? Da resposta e dos níveis de mistura e
confusão entre um e outro depende boa parte do sofrimento humano
em todos os tempos e lugares, como por experiência bem sabemos.
Não é verdade?

137
Paulo Borges

Sobre a nostalgia e a saudade

No Tratado de História das Religiões, Mircea Eliade fala-nos da simul-


tânea “nostalgia do Paraíso” e “da eternidade”. A respeito da primeira,
define-a como “o desejo experimentado pelo homem de se achar sem-
pre e sem esforço no coração do mundo, da realidade e da sacralidade
e, em suma, de superar de maneira natural a condição humana e reco-
brar a condição divina ou, no caso cristão, “a condição anterior à que-
da”. Trata-se da aspiração a regressar ao centro, símbolo da reintegração
no âmago da realidade primordial e absoluta, o que supõe a inerência a
ela e a memória, consciente ou inconsciente, da sua prévia experiência.
No que respeita à segunda forma de nostalgia, considera o autor que
“ao desejo de se encontrar perpétua e espontaneamente num espaço
sagrado corresponde o desejo de viver perpetuamente, graças à repe-
tição dos gestos arquetípicos, na eternidade” ou nesse tempo sagrado
das “origens” que é o das narrativas míticas e da sua actualização ritual.

Em ambos os casos, interessa-nos a observação de que este “desejo”


não pode ser reduzido a um espiritualismo desvalorizador da “exis-
tência terrestre” e do “mundo”. “Pelo contrário”, diz, “a «nostalgia da
eternidade» prova que o homem aspira a um paraíso concreto e crê
que a conquista deste paraíso se pode realizar neste mundo, na Terra, e
agora, no instante actual”. O fundamento dessa aspiração e dessa cren-
ça, patentes nos ritos e mitos arcaicos, na possibilidade de transcender
aqui e agora a experiência profana do espaço e do tempo, marcada pela
separação, a distância e a sucessão aparentemente irreversíveis, residi-
ria nas correspondentes “recordações nostálgicas de um «paraíso ter-
restre» e de uma espécie de eternidade «experimental»”, que se sentem
ainda acessíveis.

Esta nostalgia (do grego nóstos, regresso (a casa, à pátria) e álgos,


dor), enquanto dolorosa insatisfação com a condição actual, sentida
como exílio, e ânsia de regresso a um espaço recordado como de maior
intimidade, evoca aquilo que em português e na cultura poético-filo-
sófica galaico-portuguesa se expressa também, e a nosso ver mais ple-

138
Quem é o meu Próximo?

namente, pela palavra saudade. No livro que consagrámos a uma nova


teoria da saudade, Da saudade como via de libertação (2008), seguimos
as sugestões filológicas de Carolina Michaëlis de Vasconcelos e pensa-
mos este sentimento, na sua dimensão metafísica, como mediador en-
tre a solidão (“solitas, atis”) da subjectividade exilada e a saúde (“salus,
utis”) ou salvação/saudação da permanência na natureza primordial
de tudo. Soteria, termo grego de onde vem “salvação”, tem sentidos tão
amplos como “ter o coração ao largo”, “respirar amplamente”, “ser livre”
e “estar em plena saúde, física, psíquica e espiritual”. Sal ou sol, a raiz
indo-europeia de “salvar” e “salvação”, expressa “o facto de estar inteiro
ou intacto”. Dela procede o sânscrito sarvah, que significa “todo”, bem
como o grego holos (“inteiro”, “todo”), os termos ingleses all (tudo),
whole (inteiro), healthy (de boa saúde) e holy (santo), e ainda as pala-
vras alemãs alles (todo), Heil (salvação, felicidade, bem; inteiro, intac-
to, são e salvo) e heilig (santo, sagrado). A saudade é, neste sentido, o
vínculo e a aspiração à saúde dessa totalidade e à libertação de tudo o
que condiciona e estreita a consciência, pela sua reorientação para esse
imo ou âmago do qual apenas se encontra superficialmente exilada e
no qual mais intimamente radica.

Nesta perspectiva, podemos dizer, regressando a Eliade, haver uma


saudade que estrutura não só a experiência do homem religioso e ar-
caico, mas também, como o autor mostra, no final de O Sagrado e o
Profano, muitas das aspirações do homem laico e contemporâneo,
supostamente a-religioso, mas que na verdade ainda se comporta re-
ligiosamente enquanto transfere para outra ordem de experiências -
estética, histórica, política, neo-espiritualista, psicanalítica, da mera
“luta pela vida” ou dos sonhos pessoais de felicidade - a ânsia de um
bem ausente que obscura e dolorosamente recorda ou pressente e de-
seja como algo já havido e/ou por haver. Em vez de “nostalgia”, que se
constitui como sentido do irreversível (Jankélévitch), preferimos cha-
mar-lhe saudade, a palavra que entre nós designa a memória-desejo
que visa reintegrar aqui e agora, no sempiterno instante, ou no futuro
aberto, uma gratificação fundamental do ser, na tensão entre a solidão
do sujeito e a sua aspiração à saúde, salvação ou integridade libertadora
que se lhe abrem na sua natureza profunda.

139
Paulo Borges

Dioniso, Pã, Lusitânia e Portugal

Varro considera que o nome Lusitânia deriva dos jogos (lusus) de


Baco ou da fúria (lyssa) dos seus seguidores, enquanto que Pã regeria
toda a região. Com efeito, há uma conexão da Lusitânia com Baco/
Liber/Dioniso, o deus que vem do Oriente e que, ligado à metamor-
fose, ao transe e à loucura libertadora, incarna o paradigma oposto à
razão apolínea da Grécia clássica. Luso e Lisa, companheiros de Baco
e fundadores da Lusitânia, os jogos (lusus) e a fúria extática (lyssa),
remetem-nos para a (il)lusio, onis latina e a lysis grega, ou seja, a i-lu-
são, no sentido de jogo criador, e a libertação.

A Orla Marítima, que designa o extremo-ocidente ibérico como


Ophyussae, Terra das Serpentes, refere ainda outra designação, Oes-
trímnia. Num sentido afim à possível etimologia de Lusitânia, Oes-
trímnia é o lugar do oístros, termo grego que designa a divina loucura,
a mania, o transe. Tudo isto configura uma tradição, prefigurada no
confronto mítico entre Atenas e Atlântida, referido por Platão e Pro-
clo, em que o extremo-ocidente foi visto, pela cultura clássica, como
o lugar ambíguo da dionisíaca convivência com a alteridade, de onde
que no imaginário dessa cultura esta região esteja associada à per-
dição, mas também a dimensões paradisíacas, onde reina Cronos/
Saturno e a Idade de Ouro primordial.

Na Idade de Ouro e no reino de Cronos/Saturno não havia diferença


entre os deuses, os homens e os animais, antes do sacrifício sangrento
que pôs fim à comunidade de todos os seres e instaurou o regime
sancionado por Aristóteles, o qual encerra as espécies dos viventes
em si mesmas, sem possibilidade de hibridação e metamorfose. A fi-
liação mítica de Portugal numa tradição que privilegia a totalidade e
o ilimitado torna coerentes, na lógica mitopoética, as referências de
Varro à regência de Pã e de Saturno na Lusitânia. O Pseudo-Plutarco
diz que Dioniso, após dominar a Índia, teria conquistado a Espanha
e deixado aí um Pã como “regente”. Daí o nome “Pania” do qual deri-

140
Quem é o meu Próximo?

varia “Hispânia”, segundo Sóstenes.

Pã ou Pan aparece numa ode de Píndaro, associado a uma deusa-


mãe, Reia ou Cíbele, sendo mais tarde apresentado como filho de
Hermes e de uma ninfa, com forma humana mas chifres, quartos tra-
seiros e patas de bode, um deus selvagem e itifálico famoso por emitir
sons animais e rir, bem como pelo ardor sexual com que perseguia as
ninfas pelos bosques. Deleitou os deuses olímpicos, particularmente
Dioniso, e foram eles que o baptizaram Pan porque a “todos” agradou
(na etimologia popular Pan tornou-se equivalente a pãn, “tudo”). Do
seu nome vem pânico, o terror sagrado inerente à sua epifania sel-
vagem. Pã é um deus cultuado não em templos, mas em cavernas e
grutas no seio da natureza. É figura do Grande Todo e também do
paganismo ou panteísmo, a partir do relato que conta que no reino
de Tibério um marinheiro foi interpelado por uma voz que lhe pediu
que proclamasse que “o grande deus Pã está morto”. Ao fazê-lo, foi
recebido com lamentos vindos da costa. Os apologistas cristãos am-
plificaram esta narrativa como sinal da morte da antiga ordem pagã e
advento do novo mundo cristão.

Para James Hilmann, Pã permanece vivo nas “alterações psicopato-


lógicas” da consciência, nas quais “os deuses reprimidos regressam”,
seguindo autores que sustentam que Pã na verdade não morreu, ten-
do antes o que ele personifica sido recalcado, ou seja, a própria perso-
nificação das forças não-humanas, o modo de pensar “animista” em
que deuses, ninfas, demónios, animais, lugares e coisas surgem como
epifanias pessoais, antes da redução que faz dos homens as únicas
pessoas do universo. A aparente morte e diabolização de Pã não ex-
pressaria senão a incompreensão de que todo o mundo sensível está
impregnado de presenças sagradas. Quando Pã morre, ou quando a
consciência para ele morre deixando de o percepcionar vivo e ima-
nente em tudo quanto existe, todas as coisas se dessacralizam. A re-
pressão da experiência pânica da consciência causaria a degradação
ambiental do mundo e a história ocidental, movida pela tecnociência
e pelo “cristianismo civilizado”, tudo faz para que Pã permaneça mor-
to, a fim de continuar a devastar um mundo dessacralizado. O medo

141
Paulo Borges

de Pã explicaria a antipatia contra os ecologistas radicais, seus “acóli-


tos” contemporâneos.

Assume particular relevância a proclamação por António Mora


(Fernando Pessoa) de que o “Grande Pan renasceu!”, saudando o
“Regresso dos Deuses” no seu projecto neopagão. É significativo que
assuma como missão nacional “tomar sobre si a vanguarda […] do
movimento neo-pagão”, vendo na obra de Alberto Caeiro o cumpri-
mento de um verso de Nostradamus que profetizaria que de Portu-
gal sairia a “voz” que daria “à terra” a “maior novidade intelectual”.
António Mora assume o “paganismo syncretico de Juliano Apostata”,
considerando que no “neo-paganismo portuguez […] as pátrias são
apenas meios para um fim” superior, a “Civilização”. Eis a essência da
visão quinto-imperial do futuro português, consumado na autosu-
peração da identidade nacional num “sermos tudo” ou “Ser tudo, de
todas as maneiras” onde perpassa o espírito de Pã, assumido como “o
Paganismo Superior” ou “Politeísmo Supremo”.

142
Quem é o meu Próximo?

“Nós, Portugal, o poder ser”

Há na Mensagem de Fernando Pessoa um poema sobre Portugal


que parece bastante actual. Intitula-se “Tormenta” e reza assim:

“Que jaz no abismo sob o mar que se ergue?


Nós, Portugal, o poder ser.
Que inquietação do fundo nos soergue?
O desejar poder querer.
Isto, e o mistério de que a noite é o fausto…
Mas súbito, onde o vento ruge,
O relâmpago, farol de Deus, um hausto
Brilha, e o mar escuro estruge”

O poema evoca a imagem da “tormenta”, experiência marcante de


um dos aspectos mais sombrios e dolorosos da história trágico-ma-
rítima nacional. Todavia, ao invés do que seria habitual, e contraria-
mente ao que possa levar a crer uma leitura apressada, esta “tormen-
ta” não ameaça afundar quaisquer naus e navegantes, não sendo de
modo algum nefasta, mas antes auspiciosa e redentora. Isto porque a
situação inicial, que a “tormenta” vem alterar, é que é justamente a de
um Portugal naufragado, afundado e jacente no fundo do “abismo”
oceânico, um Portugal que já tocou o ponto mais baixo a que pode
descer, mas que, contra todas as aparências, não está morto nem es-
gotado, consistindo pelo contrário numa potencialidade indefinida e
ilimitada. É isso que Portugal e os portugueses no fundo são: “Nós,
Portugal, o poder ser”.

Submersa e dissolvida a sua forma tradicional e histórica no abis-


mo oceânico, o que sugere uma morte/metamorfose por regressão
às profundezas do inconsciente colectivo, Portugal reduz-se ao es-
sencial: uma indefinida e por isso ilimitada potência de ser, animada
por um dinamismo, o da “inquietação” que na verdade já do fun-
do o “soergue”. A redução à pura potencialidade é um novo ponto

143
Paulo Borges

de partida, o ir ao fundo é já um começar a vir à tona, movido pela


“inquietação”, embora ainda vaga e informe, pois consiste num mero
“desejar poder querer”, num aspirar a uma nova orientação que ainda
não é possível, pois não surgiu ainda um novo desígnio que mobili-
ze e congregue claramente as vontades individuais e ressuscite uma
vontade colectiva. Há apenas um desejo de poder haver vontade, uma
vontade de vontade.

Mas este Portugal, re(con)duzido a uma potência originária movi-


da pela “inquietação” de um desejo de ter vontade, não está só, pois
afinal o que do “fundo” o “soergue” é também, além dessa “inquieta-
ção”, “o mistério de que a noite é o fausto”. Ou seja, o fundo abissal em
que a nação jaz “sob o mar que se ergue” é na verdade o fundo sem
fundo do “mistério”, algo mais profundo ainda do que a “noite”, que
dele é apenas o “fausto”, ou seja, a manifestação grandiosa. É porven-
tura aí, no inefável e insondável dessa oculta não-dimensão (“misté-
rio”, como “mito”, remetem para uma raiz que indica o cerrar de olhos
e boca), que se enraíza a “inquietação” que, aliada a esse seu fundo
abissal, impele Portugal para o ressurgimento à superfície das águas,
ganhando uma nova forma e visibilidade no mundo e/ou na (auto)
consciência. E o que subitamente provoca essa revelação é a própria
“tormenta”, na conjugação do rugido do “vento”, do brilho do “relâm-
pago” e do estrondear do “mar escuro”. É uma “tormenta” nocturna,
que assinala todavia a passagem do “mistério” imanifestado para a
manifestação, sugerida pelo “relâmpago” que rompe a noite, tal um
“farol de Deus”, tal esse súbito raio iluminativo que é o próprio Deus,
pois a etimologia da palavra Deus remete para a irrupção da luz.

É neste sentido que a “tormenta” não afunda, mas antes reergue e


ressuscita o náufrago do fundo do oceano/”abismo”/”mistério” para
uma nova vida, como se esse sobressalto do mar e dos elementos con-
sumasse subitamente a “inquietação” que já o movia, como uma crise
criadora e redentora que lhe revela e abre um fito, um horizonte e um
rumo, permitindo-lhe essa vontade que antes não tinha e a que aspi-
rava. É como se isso que se designa como “Deus”, etimologicamente
a luz ou a iluminação, símbolos da tomada de consciência, subita-

144
Quem é o meu Próximo?

mente lançasse a alma nacional para uma nova partida. Mas com que
fito, horizonte e rumo? Fernando Pessoa anunciou-o como o “sermos
tudo”, mas a interpretação disso e a última palavra cabe a todos nós.

145
Paulo Borges

Um desígnio para Portugal

Muitos de nós partilhamos do mesmo sentimento de Álvaro de


Campos, expresso nestes versos: “Pertenço a um género de portugue-
ses / Que depois de estar a Índia descoberta / Ficaram sem trabalho”.
Sentimos com efeito que nos falta um ideal comum e um desígnio
colectivo, que faça da sociedade portuguesa mais do que uma amál-
gama caótica de indivíduos e grupos com interesses antagónicos em
contínua disputa. Falta um desígnio e uma comunhão de princípios,
valores e objectivos que congregue energias dispersas e faça de Por-
tugal uma verdadeira comunidade. Após a fundação e expansão ter-
ritorial, após a aventura marítima e o fascínio de África, do Oriente
e do Brasil, com os seus ambíguos resultados, após a crescente desi-
lusão do El Dorado europeu, sentimos cada vez mais Portugal como
uma nau errante, ao sabor dos ventos e marés da economia e à mercê
da pirataria financeira internacional. E o português, desenganado da
política e dos políticos, à espera de um D. Sebastião que o liberte da
tarefa de despertar da sua passividade, definha na “apagada e vil tris-
teza” de que falou Camões, sem horizonte de futuro e golpe de asa
para nele se lançar, sem aquela motivação de um grande desafio ou
causa que o leve a transcender-se e a dar o seu melhor, como aconte-
ceu quando da solidariedade com Timor.

Esse desígnio e esse desafio, essa comunhão que nos devolva o sen-
timento de pertença a um destino comum, com princípios, valores
e objectivos partilhados, não virá hoje dos canais tradicionais, em
franca crise e decadência, seja o Estado, a Igreja, a família ou a escola,
pesem as louváveis excepções. Tem de ser toda a sociedade, desper-
ta pelos indivíduos, grupos e forças mais conscientes, a mobilizar-se
para repensar o sentido da nossa existência colectiva e histórica como
nação. Creio que, perante os desafios do nosso tempo, perante os ris-
cos de colapso económico-financeiro, social e ecológico, o grande
desígnio só pode ser o de promover uma cultura da paz e da solida-
riedade global e integral, que abranja o homem, os seres vivos e toda

146
Quem é o meu Próximo?

a Terra. Perante a crescente abdicação do Estado português diante da


banca e da finança internacional, a sociedade civil deve organizar-se
mediante uma convergência e coordenação dos movimentos e asso-
ciações que cuidam o outro, seja o homem, o animal ou o planeta.
Eles e todos os indivíduos movidos pelo altruísmo solidário são o
que há de mais são em Portugal e só deles pode vir uma regeneração
do país com o supremo desígnio do bem comum. Há que ver que
todos os que se dedicam à solidariedade social, à protecção dos ani-
mais, das minorias e dos sectores mais desfavorecidos da população,
à defesa das crianças, das mulheres e dos idosos, à luta contra a fome
e a pobreza, à busca de alternativas espirituais, culturais, educativas,
terapêuticas, económicas, ecológicas, sociais e políticas, estão a cami-
nhar no mesmo rumo, o de uma nova civilização, mais sã, consciente,
ética e justa.

É fundamental que essas pessoas, associações e movimentos, em


vez de caminharem separados, dêem as mãos e concertem esforços,
constituindo-se como uma ampla força social de onde saia uma nova
classe política, de verdadeiros servidores do bem comum, que façam
com que a política se subordine a critérios éticos e o Estado não abdi-
que do seu dever de apoio aos mais desfavorecidos. Viveremos então
novos Descobrimentos, mas desta vez no nosso território e em nós
mesmos, sem violentar nem explorar ninguém. Esta nova aventura
deve ser feita em companhia de todos os que, em todos os povos,
nações e culturas, caminham no mesmo rumo, o da regeneração do
homem, da vida e da Terra. Sem prejuízo dessa universalidade, deve-
mos procurar estabelecer relações estratégicas com os movimentos
afins nas nações lusófonas, ibéricas e mediterrânicas.

Há que comemorar no 10 de Junho não o Portugal passado, que


hoje morre lentamente, mas o outro Portugal que no presente já re-
nasce como semente alternativa que, plantada numa civilização mo-
ribunda, faz do seu cadáver o húmus do futuro.

147
Paulo Borges

Lisboa, a vocação de Portugal


e o novo paradigma
cultural e civilizacional

A actual globalização hegemónica, de matriz étnica, europeia-oci-


dental, dominou o mundo nos ciclos imperial e colonial e domina-o
ainda num neocolonialismo económico-financeiro. Esta globalização,
sobretudo científico-tecnológica, económico-financeira e mediática,
tem promovido a opressão e a exploração das nações mais pobres, ca-
vando um fosso entre o Norte e o Sul, e suprimido vertiginosamente a
diversidade cultural e a biodiversidade. Com ela o antropocentrismo
predominante na cultura europeia-ocidental assume consequências
cada vez mais dramáticas, pelo impacto tecnológico, pela explosão
demográfica e pela insustentabilidade de um modelo de crescimento
económico dominado pelas leis de mercado, pela produção e pelo
consumo e pelo apetite do lucro, mediante a instrumentalização dos
seres humanos, dos animais e da natureza.

Constatamos hoje que este paradigma está esgotado, causando um


crescente mal-estar, sofrimento, injustiças e desequilíbrios a nível
global. Um dos maiores esforços da própria cultura europeia-ociden-
tal é para a crítica dos modelos que exportou para todo o mundo e
para a busca de um paradigma alternativo, que preserve o que houver
de melhor no passado com uma diferente orientação, que respeite o
valor intrínseco dos seres vivos, humanos e não-humanos, e do mun-
do natural. O multiculturalismo é uma realidade incontornável da
pós-modernidade e dispomos hoje de múltiplos modelos culturais e
epistemológicos alternativos. É possível e urgente uma outra globa-
lização, não opressora, exploradora e neocolonial, mas universalista
ao mesmo tempo que baseada no reconhecimento e valorização das
diferenças culturais, étnicas e nacionais. Uma globalização alternati-
va, baseada na partilha dos recursos espirituais, culturais, éticos, filo-
sóficos e científicos desenvolvidos por diferentes povos e tradições,

148
Quem é o meu Próximo?

em distintos momentos históricos e diferentes espaços geográficos.


A cultura europeia-ocidental deve abrir-se ao(s) outro(s), não numa
atitude de “tolerância” condescendente, mas na escuta, acolhimento
e encontro autênticos que nessa(s) alteridade(s) procure acrescentar
o que lhe falta e moderar o que tem em excesso, partilhando ao mes-
mo tempo, sem preconceitos de superioridade ou inferioridade e sem
pretensões de ensinar e impor, o que tem de mais próprio.

Após haver liderado a primeira modernidade com os Descobri-


mentos, sendo pioneiro na globalização do paradigma eurocêntrico,
que resultou no ciclo imperial, colonial e neocolonial actual, mas
tendo sido também precursor no encontro e diálogo com povos e
culturas com outras e muita distintas visões e experiências do mun-
do, Portugal deve hoje reorientar essa vocação histórica de mediador
entre povos e culturas para trazer para a Europa o melhor das cultu-
ras planetárias e contribuir para uma ampla plataforma de diálogo
intercultural que vise um novo paradigma cultural e civilizacional,
mais sábio, ético, sustentável e verdadeiramente universal, conforme
a visão dos maiores poetas e pensadores do nosso destino, como Luís
de Camões, Padre António Vieira, Fernando Pessoa, Almada Negrei-
ros e Agostinho da Silva.

Lisboa, descrita já por Fernão Lopes como “grande cidade de mui-


tas e desvairadas [várias] gentes”, palco das grandes mutações da
história de Portugal (1383-1385, 1640, 1910 e 1974), tem uma tradi-
ção histórico-cultural inovadora, cosmopolita e universalista e uma
posição geo-estratégica que a vocaciona e habilita para ser um dos
centros vitais deste processo. Lisboa, voltada pelo Tejo para o Oceano
e banhada por uma singular luz, deve ser hoje de novo um grande en-
treposto de especiarias, mas agora as do espírito, da cultura, da ética,
da justiça económico-social e da convivência fraternal e harmoniosa,
não só entre todos os povos, nações e culturas, mas também entre os
seres humanos, os animais, os demais seres vivos e a Terra.

149
Paulo Borges

Por uma Outra Europa

O paradigma da civilização hoje globalizada tem a sua origem no


mito da separação entre o eu e o outro, convertido no mito da separa-
ção entre o ser humano, os demais seres vivos e a natureza como um
todo. Esse paradigma é desmentido pela sabedoria tradicional das
culturas planetárias e pela ciência contemporânea, que nos mostram
a interconexão de todos os seres vivos no grande ecossistema plane-
tário. Converteu-se porém no irreflectido fundamento do compor-
tamento predominante da humanidade em relação a si mesma, aos
outros seres e à Terra.

Da crença na separação entre si e os outros surgem os sentimentos


de solidão, medo, insegurança, carência e vulnerabilidade, que por
sua vez se traduzem em avidez e hostilidade. Estas são as bases psico-
lógicas, mentais e emocionais, de uma civilização que desde há muito
evoluiu no sentido da progressiva separação entre o ser humano e o
mundo natural e que, desde há quatro séculos, na Europa e no Oci-
dente em geral, se deixou iludir pelo projecto de dominar e explorar
a natureza e os seres vivos, incluindo os seres humanos. A maioria
dos benefícios disto reverteram para as antigas e novas classes domi-
nantes, que se foram tornando mais poderosas, em termos culturais,
científico-tecnológicos e político-económicos, pela progressiva apro-
priação da riqueza comum.

Apesar dos muitos aspectos positivos resultantes da emancipação da


razão em relação às cosmovisões tradicionais, as sucessivas revoluções
científicas, tecnológicas e industriais, ao desprezarem uma igual revo-
lução espiritual e ética, acabaram por aumentar crescentemente o po-
der bélico da humanidade sobre si mesma, os seres vivos e o planeta.
A expansão da civilização europeia-ocidental – a chamada “ocidenta-
lização do mundo” – trouxe consigo um novo mito, um novo dogma
e um novo obscurantismo, os do “progresso” entendido como um
crescimento económico ilimitado sem o qual supostamente ninguém

150
Quem é o meu Próximo?

pode ser feliz. Esta é a nova fé e a nova superstição que se implantou,


tanto nas consciências religiosas como nas ateias e agnósticas, colo-
nizando o imaginário e mobilizando toda a energia das populações.

Esta quimera, impossível de realizar num planeta com recursos na-


turais finitos, gera uma crescente devastação dos recursos naturais,
destruição massiva da biodiversidade e da diversidade cultural, po-
luição, alterações climáticas e industrialização da vida animal e vege-
tal que, junto com o crescente fosso entre Norte e Sul e pobres e ricos,
cria um enorme sofrimento na população humana e animal e a todos
ameaça com um colapso ecológico-social sem precedentes. O risco é
tanto maior quanto este paradigma civilizacional europeu-ocidental,
ao globalizar-se, domina hoje também potências emergentes como
a China, a Índia e o Brasil. O objectivo do crescimento económico
ilimitado, seja na fracassada versão da economia dita socialista, es-
tatal e planificada, seja na não menos fracassada versão produtivista-
consumista do capitalismo hiper-liberal que apenas sobrevive à custa
da destruição das nossas vidas e do planeta, está a colocar em risco a
qualidade e mesmo as possibilidades de vida das gerações presentes e
futuras de inúmeros humanos e animais.

Em termos psicológicos e sociais, a civilização dominante, alimen-


tada pelo mito da separação entre o eu e o outro, traduz-se num in-
dividualismo, egocentrismo e narcisismo crescentes que destroem o
sentimento de pertença e de comunidade e inibem a experiência da
comunhão, do dom e da partilha e as tendências naturalmente altruís-
tas e cooperativas da humanidade, tentando legitimar as doutrinas da
eficácia a todo o custo, despida de considerações ético-morais, seja o
maquiavelismo político e a Realpolitik, seja a doutrina do homo econo-
micus, racional, calculista e egoísta na busca ávida de lucro e riqueza.
Tudo isto converge no capitalismo financeiro selvagem e especulativo
que concentra em muito poucos a riqueza produzida pela maioria e
que hoje predomina nas políticas económicas nacionais e mundiais.

Alimentando a expectativa da liberdade, da abundância e da felici-


dade, o mito civilizacional dominante não gera senão uma nova es-

151
Paulo Borges

cravidão – a do trabalho obsessivo em prol de fins maioritariamente


nocivos e sem sentido –, uma nova escassez – a do tempo retirado
ao convívio e ao desenvolvimento pessoal – e um maior e crescente
mal-estar – o de todos nós, que sentimos e vemos que o sistema socio
-político e económico-financeiro nos constrange a vivermos aquém
das nossas melhores potencialidades, a sacrificar as nossas vidas por
aquilo que as não vale, e que as castas político-económicas nos men-
tiram e nos mentem para nos dominarem e explorarem, tornando-
nos cúmplices dessa dominação e exploração que se estende à Terra
e aos demais seres vivos.

Para além das suas consequências externas, o novo mito mundial e


o sistema dominante são também extremamente nocivos em termos
psicológicos, gerando uma população crescentemente infeliz e des-
provida de paz interior, ansiosa e stressada, que perdeu a capacidade
de apreciar as coisas naturais e simples da vida e de se sentir conectada
com o mundo e os seres vivos, vivendo à superfície ou na periferia do
próprio ser e tornando-se assim vulnerável a todo o tipo de depen-
dências, desde os prazeres fugazes do consumo de bens e serviços des-
necessários até às distracções televisivas, aos estímulos artificiais e a
todo o tipo de tóxicos, incluindo os antidepressivos. Tudo isto contri-
bui para a geral indiferença e passividade dos cidadãos, anestesiados
pelo sistema para que sejam mais facilmente controlados e manipula-
dos e não questionem nem busquem alternativas à ordem dominante.

Embora este mito, paradigma e sistema civilizacional tenha atingi-


do o seu apogeu nos Estados Unidos da América, teve a sua origem
na Europa e tem dominado, dentro de escassos limites, a cultura, a
política, as sociedades e as instituições europeias. Há todavia uma
outra Europa, com muitos aspectos positivos e alternativos: a Euro-
pa profunda, com vários filões de resistência à cultura que se tornou
dominante; a Europa das culturas e das regiões, transversal aos Esta-
dos nacionais e resistente aos padrões massificados e globalizados;
a Europa das tradições comunitárias e respeitadoras do equilíbrio
entre os humanos, os animais e a natureza; a Europa da consciên-
cia crítica, capaz de reconhecer os defeitos do seu persistente etno-

152
Quem é o meu Próximo?

centrismo, imperialismo e complexo de superioridade; a Europa dos


direitos humanos universais, movimento que se deve hoje estender
ao reconhecimento dos direitos dos animais, da natureza e das gera-
ções futuras de humanos e não-humanos; a Europa dos movimentos
cívicos, das associações e das ONGs que buscam suprir e superar os
limites das políticas estatais, partidárias e institucionais e promover
uma consciência activamente solidária na esfera das causas humani-
tária, animal e ecológica; a Europa que, em sintonia com as demais
regiões e continentes da Terra, desperta para a busca de alternativas
à crise actual, efectuando a transição para um novo paradigma cultu-
ral, educativo e civilizacional, com as devidas consequências sociais,
ambientais, económicas e políticas; a Europa de todos os que conver-
gem, por vias diversas e muitas vezes ainda inconscientes disso, para
um Mundo Novo.

É a essa Europa que há que dar a voz, é essa Europa que há que
promover e é por essa Europa que há que lutar, dentro e fora das insti-
tuições europeias. Uma Outra Europa, em fraterna convergência com
todos os demais povos, nações e culturas planetários em demanda de
um novo paradigma cultural e civilizacional.

153
Paulo Borges

154
Quem é o meu Próximo?

III
À Queima-Roupa
(intervenções nas redes sociais)

155
Paulo Borges

156
Quem é o meu Próximo?

Greve Geral

24 de Novembro é dia de Greve Geral. Sim, façamos Greve Geral.


Paralisemos todas as nossas actividades, como protesto contra um
país mal organizado, mal governado, eticamente decadente e social e
economicamente injusto, cada vez mais vergado à grande finança in-
ternacional, à ganância dos especuladores e ao consequente desprezo
pelas necessidades básicas da população. Paremos totalmente, como
protesto contra um país refém dos grandes grupos e potências eco-
nómico-financeiras em todas as áreas, do trabalho à saúde, educação
e política.

Façamos pois Greve Geral, em protesto contra todos os governos e


oposições que, não só agora, mas desde a fundação de Portugal, con-
tribuíram para o estado em que estamos. Todavia, façamos Greve Ge-
ral sobretudo em protesto contra nós próprios, que maioritariamente
votamos sempre nos mesmos ou nos abstemos de votar e, principal-
mente, de criar alternativas à classe política e aos partidos em que
desde há muito não acreditamos. Façamos Greve Geral, sim, mas
também à nossa passividade e conformismo cívicos, à nossa preguiça
e indolência, à nossa tremenda indiferença. Façamos Greve Geral ao
nosso hábito inveterado de criticar tudo e todos e nada fazer, ficando
sempre à espera que alguém faça, que os outros resolvam, que D. Se-
bastião apareça. Façamos Greve Geral à ideia de que basta fazer um
dia de Greve Geral exterior, em prol de mudanças sociais, económi-
cas e políticas, deixando tudo igual nos outros dias e dentro de cada
um de nós. Sim, façamos definitivamente Greve Geral à demissão de
sermos desde já, sempre e cada vez mais a diferença que queremos
ver no mundo, em todas as frentes, sem exclusão de nenhuma: espiri-
tual, cultural, ética, social, económica e política.

Façamos pois Greve Geral à nossa cumplicidade com o rumo de


uma civilização que caminha aceleradamente para a sua perda, à nos-
sa colaboração com a ganância e futilidade da hiperprodução e do

157
Paulo Borges

hiperconsumo que violam a natureza e instrumentalizam e escravi-


zam os seres vivos, homens e animais, em nome de um progresso e
de um bem-estar que é sempre apenas o de uma pequena minoria de
senhores do mundo. Façamos Greve Geral à intoxicação quotidiana
de uma comunicação social que só deixa passar a versão da realidade
que interessa aos vários poderes e contrapoderes. Façamos Greve Ge-
ral à imbecilização colectiva de muitos programas de televisão e seus
outros avatares informáticos, que nos deixam pregados no sofá e nos
ecrãs quando há crianças a morrer de fome, mulheres apedrejadas até
à morte, velhos abandonados, defensores dos direitos humanos tor-
turados e a apodrecer nas prisões, trabalhadores explorados, povos
vítimas de agressão militar e genocídio, animais produzidos em série
para os nossos pratos e a agonizar nos canis, matadouros, laborató-
rios e arenas, a natureza e o planeta a serem devastados… Façamos
Greve Geral a todas as nossas ilusões e distracções, a todo o fazer de
conta, a toda a conversa fútil no café, telemóvel, blogues e facebook,
a todo o voltar a cara para o lado ante a realidade profunda das coisas
e toda a nossa hipócrita cumplicidade com o que mais criticamos e
condenamos.

Sim, e sobretudo façamos Greve Geral à raiz de tudo isso, a todos


os nossos pensamentos, emoções, palavras e acções iludidos, inúteis
e nocivos a nós e a todos. Greve Geral a todos os juízos e opiniões que
visam sempre autopromover-nos em detrimento dos outros. Greve
Geral a colocarmo-nos sempre em primeiro lugar, a nós e aos “nos-
sos”, familiares, amigos, membros da mesma nação, clube, partido,
religião ou espécie, em detrimento dos “outros”, sempre a menorizar,
desprezar, combater, dominar ou abater. Pois façamos Greve Geral,
total e radical, não só um dia, mas para sempre, a toda a ignorância
dualista, apego e aversão e à sua combinação em todo o egocentris-
mo, possessividade, orgulho, inveja e ciúme, avareza e avidez, ódio
e cólera, preguiça e torpor. Paremos para sempre de produzir e con-
sumir isto, cessemos de poluir mental e emocionalmente o planeta e
deixemos espaço para que em nós floresça e frutifique a sabedoria,
o amor, a compaixão imparciais e incondicionais, a paz e a alegria
profundas e duradouras.

158
Quem é o meu Próximo?

Façamos Greve Geral, agora e para sempre! E deixemo-nos con-


taminar pela Revolução doce e silenciosa de uma mente desperta e
sensível ao Bem de todos os seres sencientes, que nada pense, diga e
faça que não o vise, a cada instante, seja em que esfera for, também
na economia e na política. Desta Greve Geral saem um Homem e um
Mundo Novos.

23.11.2010

159
Paulo Borges

Fim de Ano, início de quê?

Hoje é o último dia do ano. Nele se enviam, recebem, agradecem e


reenviam mensagens de Feliz Ano Novo. Assim o fizeram milhões de
seres humanos nos anos passados, assim o continuarão a fazer mi-
lhões de seres humanos nos anos futuros. É a rotina habitual, com
a melhor das intenções. Entretanto, apesar dos votos que fazemos,
todos nós continuamos a ser cúmplices na degradação da vida e do
planeta. Por pensamentos, palavras, acções e omissões, movidos pela
ilusão, a avidez e o ódio ou estagnados pela indiferença, contribuímos
directa ou indirectamente para a ignorância, o sofrimento e a injusti-
ça que alastram sobre o mundo e vitimam os seres vivos, humanos e
não humanos, nossos companheiros na aventura da existência. Pelo
simples facto de existirmos, interagirmos e nos movermos, pelo ves-
tuário, alimentação, produtos e serviços que consumimos – e mesmo
que sejamos vegetarianos ou veganos, não usemos senão roupa de
origem vegetal ou sintética e não gostemos de touradas - , contribuí-
mos directa ou indirectamente para o sofrimento e morte de biliões
de insectos, lagartas e outros animais (no cultivo e recolha de plantas,
frutos e vegetais), bem como para o sofrimento e a exploração do
trabalho de milhões de seres humanos (não só na China, mas por
todo o mundo, incluindo em Portugal). Isto para já não falar do CO2
que as nossas viagens inúteis e fúteis lançam para a atmosfera e dessas
outras emissões, infinitamente mais venenosas, as dos nossos pensa-
mentos e emoções destrutivos. Sim, pode não ser simpático dizê-lo,
mas a realidade não existe para ser simpática: ninguém é inocente. É
salutar recordá-lo, para abdicarmos de presunções de pureza, virtude
e santidade e deixarmos de julgar e diabolizar os outros. Todos nós
somos predadores, que deixamos uma funda pegada ecológica onde
quer que estejamos.

Cabe recordar isto, para avaliarmos a infinita dívida que a cada


instante contraímos em relação a tudo e todos e pensarmos como a
podemos pagar e compensar. Tudo depende do sentido que dermos

160
Quem é o meu Próximo?

às nossas vidas, pensamentos, palavras e acções. Tudo depende se


fazemos desta nossa brevíssima passagem pelo mundo algo que o
deixe um pouco melhor do que antes, semeando e cultivando nele
um bem maior do que aquele mal que pelo simples facto de existir-
mos lhe trazemos.

Vivemos e viveremos cada vez mais grandes dificuldades a nível


mundial. O paradigma do progresso enquanto ilimitado crescimen-
to económico e incontrolado usufruto dos recursos naturais e dos
seres vivos pela espécie humana, surgido há uns séculos na Europa
e hoje globalizado, conhece um espectacular fracasso, pela incapa-
cidade de resolver os grandes problemas e inquietações da huma-
nidade, pelo aumento do fosso entre os que vivem acima e abaixo
das suas necessidades, pela destruição crescente da biodiversidade
e pela gravíssima crise ecológica. Disto começa a ser consciente um
crescente número de pessoas e instituições nos países mais “desen-
volvidos”, mas o mesmo não acontece nos países em vias de “desen-
volvimento” e nas novas potências emergentes, que desejam seguir o
mesmo caminho ilusório e já morderam o isco envenenado do po-
der e da riqueza aparentes e imediatos.

Perante isto, e perante o silenciamento e indiferença da maioria dos


responsáveis políticos e religiosos mundiais, que preferem continuar
a adormecer-nos e a adormecer-se com a retórica da esperança de
melhores dias, somos todos nós que temos a responsabilidade de
cooperarmos na busca de um novo paradigma. Esse paradigma tem
de passar pela compreensão e vivência da realidade como uma tota-
lidade orgânica e complexa, onde todos os seres e ecossistemas são
interdependentes, não podendo pensar-se o bem de uns em detri-
mento de outros e da harmonia global. Há que, para bem do próprio
homem, superar o antropocentrismo numa visão holística da Vida,
em que o ser humano se assuma não como o dono do mundo, com o
direito de o explorar e aos seus habitantes a seu bel-prazer, mas como
o responsável pelo equilíbrio ecológico do planeta e pelo direito de
todos os seres vivos à vida e ao bem-estar.

161
Paulo Borges

Não assumindo esta responsabilidade, não respeitando a Terra e a


grande comunidade dos viventes, a humanidade não se respeita a si
mesma e lesa os seus próprios interesses. Assim o mostram os efeitos
dramáticos da alimentação e da vida antinatural que levamos sobre a
nossa saúde psíquica e física, a par do terrível e desnecessário sofri-
mento causado a milhões de animais, que criamos e engordamos à
pressa em gigantescos campos de concentração para alimentarmos o
Holocausto do nosso apetite e a ganância insaciável dos produtores.
Mas isto não se faz sem consequências. Por mais que as silenciem,
elas vem ao de cima e estão aí. A agropecuária intensiva é o sector
mais poluente, responsável por 18% das emissões de gases com efeito
de estufa que produzem o aquecimento global, sendo igualmente o
sector que mais água necessita, estando a esgotar os caudais em todo
o mundo (só nos EUA mais de metade da água é usada para produzir
ração para o gado; a par disso, a água restante é contaminada pelos
resíduos animais); daí estimar-se que, em 2025, 64% da população
mundial se veja privada da água necessária e já se anunciem as fu-
turas guerras pela água… (cf. Harald Welzer, Klimakriege, 2008). A
agropecuária intensiva é ainda a grande responsável pela desertifi-
cação e desflorestação, sendo 70% do solo agrícola mundial usado
para alimentar animais. Disso resulta ser também a grande respon-
sável pela perda da biodiversidade. A par de tudo isto, a produção e
consumo massivos de carne industrial contribuem directamente para
a fome no mundo, pois só a produção agrícola destinada aos animais
nos EUA daria para alimentar 800 milhões de pessoas!...

Apocalipse Now não é apenas o nome de um filme. Necessitamos


urgentemente de despertar e de um novo rumo. Enquanto podemos,
pois já se vai fazendo muito tarde. Melhor é mudar voluntariamente
do que ser obrigado à força.

Há que estabelecer uma Nova Aliança com a Terra e os seres vivos.


E já. Pensa nisso, no mínimo, à meia-noite de hoje, de modo a que
entres bem em 2011.

31.12.2010

162
Quem é o meu Próximo?

Páscoa - uma reflexão incómoda

Comemora-se hoje o Domingo de Páscoa, uma das grandes festas


da Cristandade e da cultura ocidental. Religiosos ou não, milhões de
seres humanos, em Portugal e no mundo, estão a reunir-se em família
à volta dos mais diversos petiscos e iguarias, comungando e celebran-
do a alegria e o prazer de estarem juntos na maravilhosa aventura da
vida.

É humano. Mas será também humano não terem consciência ou


procurarem esquecer que, ao fazê-lo, estão na imensa maioria dos ca-
sos a usufruir de uma alegria e de um prazer obtidos à custa do sacri-
fício involuntário, forçado, violento e doloroso de muitos milhões de
vidas de animais, indivíduos conscientes e sencientes que, tal como
nós, têm um interesse fundamental em estar vivos, com liberdade e
bem-estar?

Páscoa, do hebreu Pésah, deriva provavelmente do verbo pasah,


“saltar por cima” e assumiu o sentido de passagem, correspondendo
nos nossos calendários a um tempo de regeneração. O filósofo judeu
Fílon de Alexandria, contemporâneo de Cristo, viu a Páscoa como a
libertação do espírito do domínio das paixões obscuras. E Cristo foi
assumido pelos cristãos como aquele que dá a vida e o sangue pelos
outros, pondo fim a todo o sacrifício sangrento do outro, humano ou
animal. É nessa mutação ética e espiritual que consiste a verdadeira
Ressurreição, que nos evangelhos gnósticos, como o de Filipe, é algo
a viver desde já, em vida, e não após a morte. Algo a viver a cada ins-
tante e não só num Domingo por ano.

Parece evidente não ser esse o exemplo que seguimos, quando nos
banqueteamos com a carne dos animais (terrestres ou aquáticos). Pa-
rece evidente que na Páscoa que inconscientemente celebramos nada
há de “saltar por cima”, de transcender, de ir além dos nossos apetites
mais irracionais e dos nossos hábitos familiares e sociais mais enrai-

163
Paulo Borges

zados. Parece evidente que nesta Páscoa nada há de pascal, como no


Natal nada há de natalício, sempre que um homem novo não nasça
no presépio da alma.

Mas se é humano ter hábitos, mais humano ainda é reflectir so-


bre eles e questioná-los. Apelo por isso a que hoje, quando nos de-
bruçarmos sobre as mesas familiares adornadas e repletas dos mais
apetecíveis manjares, sejamos capazes de contemplar nem que seja
um minuto a crua realidade de estarem cheias dos corpos dilacerados
de seres antes vivos como nós, a maioria deles criados em condições
de holocausto e abatidos para nos proporcionarem uns brevíssimos
minutos de prazer sensorial e fútil, que logo se desvanece para nos
deixar com a mesma insatisfação de sempre. E então, se não somos
ainda capazes de renunciar a esse alimento, levemo-lo à boca, mas-
tiguemo-lo e engulamo-lo. Mas com um mínimo de consciência e
compaixão pelo companheiro de existência a quem fazemos passar
pelo que mais tememos e menos desejamos: a morte violenta, sem
que a nossa vida disso dependa.

Será incómodo, decerto, mas valerá a pena. Tornará a nossa Pás-


coa menos cega e mais pascal, mais propícia a uma transformação da
consciência, a uma passagem, a um ir para além da nossa ignorância
e insensibilidade. Será um daqueles incómodos que nos tornam seres
humanos melhores. Sobretudo se, na nossa tomada de consciência do
sofrimento dos animais, não esquecermos o dos homens, o de todos
os seres, abrindo o coração à infinita compaixão pela dor do mundo.
É isso que nos pode abrir o caminho da grande e verdadeira Alegria, a
de ver que é possível acabar com o sofrimento, começando por aquele
de que somos directamente responsáveis.

24.04.2011

164
Quem é o meu Próximo?

Mensagem e Apelo de Natal

Vivemos à custa de um Holocausto que tudo fazemos por ignorar.


Será normal que 60 biliões de seres vivos, dotados de sensibilidade e
sentimentos iguais aos nossos, para os quais a vida é como para cada
um de nós o bem mais precioso, sejam abatidos por ano, e cerca de
100 milhões cada dia, para nosso alimento, quando existem imensas
alternativas mais saudáveis? Será normal fazer das nossas cozinhas
campos de cremação de cadáveres e dos nossos corpos cemitérios
dos seus dejectos? Será normal sermos para os nossos companheiros
de existência não-humanos piores do que nazis, obrigando-os aos
horrores de campos de concentração, de tortura e de abate iguais
ou piores que Auschwitz? Será normal isto, ainda por cima quan-
do daí resulta o nosso próprio envenenamento com as hormonas de
crescimento e os antibióticos de que os saturamos nas unidades de
pecuária intensiva? Será normal isto, ainda por cima quando de to-
dos os recursos naturais que exige a produção industrial de carne e
peixe resulta a galopante devastação do planeta? E será normal que
tudo isto se vá multiplicar e atingir proporções de hecatombe nesta
quadra natalícia, em que uns comemoram o nascimento de um Deus
de amor e perdão entre os homens e outros a festa da fraternidade e
da amizade? Será tudo isto normal? Seremos normais?

Se achas que não, apesar de teres ainda hábitos alimentares que te


levam a comer carne e peixe, faz no mínimo um esforço por redu-
zires o seu consumo neste Natal. E, se possível, abstém-te comple-
tamente. Faz isso por ti, pelos animais e pelo planeta. Faz isso por
intenção daqueles a quem mais amas. Faz isso para que haja Natal
digno desse nome, digno do nome do Nascimento de uma consciên-
cia amorosa e compassiva.

E, se achares que faz sentido, guarda um minuto de silêncio, antes


do jantar de Consoada, no dia 24, por todas as vítimas inocentes da
violência alimentar humana.

165
Paulo Borges

Se esta mensagem te tocou, divulga-a o mais possível! Feliz Natal!

21.12.2011

166
Quem é o meu Próximo?

Mensagem de Natal -
Que nasça Hoje e Sempre em nós
uma consciência ética universal!

Caras Amigas, Amigos, Indiferentes, Desconhecidos, Adversários


e Inimigos

Há cerca de dois anos não conhecia sequer o Facebook. Circuns-


tâncias várias, sobretudo o meu envolvimento com o PAN, trouxe-
ram-me para esta rede social, onde rapidamente me vejo a gerir vá-
rias páginas e com uma comunidade de muitos milhares de amigos e
apoiantes. Nesta passagem das actividades mais espirituais e culturais
a uma acção mais pública, em prol de causas que de todos são conhe-
cidas - direitos humanos, direitos dos animais, ecologia, universalis-
mo cultural e diálogo inter-religioso - , tenho feito muitas amizades
e diminuído ou perdido outras, o que tem sido raro. Tenho também
encontrado adversários e até inimigos, como é natural. E muitos in-
diferentes, como também é natural.

Seja como for, nesta véspera de Natal, em que se comemora, cons-


ciente ou inconscientemente, a possibilidade de em nós nascer um
Ser Humano Novo, quero desejar a todos, e mesmo a todos - pensem,
digam e façam o que pensarem, disserem e fizerem e gostem ou não
de mim e do que penso, digo e faço - , toda a Felicidade do mundo e
agradecer-vos por vos conhecer e pelo privilégio de partilhar convos-
co a aventura desta existência. Digo isto sobretudo aos meus adver-
sários e inimigos.

Quero também dizer-vos que vejo hoje confirmar-se o que desde


criança pressentia: que iria assistir a grandes coisas e a grandes mu-
tações na história do mundo e que iria ter parte activa nelas. Estamos
na verdade num momento dramático, crucial e decisivo da história
de Portugal, da Europa e do planeta, em que somos confrontados
com grandes dificuldades, a maior das quais é a de enfrentar as conse-

167
Paulo Borges

quências da devastação que a humanidade tem causado na Terra, nos


animais e em si mesma, bem como o novo obscurantismo que sobre
todos nós se abate, sob a forma da ditadura económico-financeira de
um capitalismo selvagem sem quaisquer princípios éticos que visa re-
duzir a população mundial a um novo exército de escravos ao serviço
da avidez e ganância das forças obscuras que se ocultam por detrás de
governos e partidos do poder. Isso é mais imediatamente evidente em
Portugal, um país e uma cultura milenar de gente boa que está a ser
destruído por sucessivos governos, a ser ocupado pela banca mundial
e a ser colonizado por potências obscuras como a China.

Cabe-nos a todos sermos Resistência e Alternativa, criar práticas


culturais, sociais e económicas que sejam o embrião da sociedade fu-
tura, construir a ponte entre uma civilização que morre e outra que
aflora à luz do dia. Para tal somos todos necessários: movimentos de
cidadãos, forças políticas e culturais independentes do poder esta-
belecido e que não visem mais do mesmo, indivíduos conscientes.
Temos de nos unir, organizar e agir. É necessário inverter o proces-
so que tem afastado da política as pessoas boas e competentes, com
princípios e valores, com sentido do bem comum, para a deixar nas
mãos dos medíocres, corruptos e vendidos a quem mais lhes paga.
Política haverá sempre: se não queremos ser vítimas dela, temos de a
exercer em prol da justiça e arrancá-la ao domínio dos grupos econó-
mico-financeiros. Não nos espera tarefa nada fácil, dado o poder e a
violência das forças da ignorância e da ganância que se abatem sobre
humanos e não-humanos e devastam a Terra. Temos todos de nos
superar, indo buscar energias que agora desconhecemos, mas que são
desde sempre e já presentes no mais íntimo de quem somos. Muitas
tentações surgirão, como a de desistirmos, nos acomodarmos e di-
vidirmos. Vencê-las-emos se nos motivarmos pensando no socorro
dos que mais sofrem e na importância de assegurarmos um futuro
para a Terra, para os nossos filhos e netos, esquecendo fins e interes-
ses pessoais, de modo a que possamos morrer com a consciência do
dever cumprido. Só assim seremos a Diferença e brilharemos, sem
orgulho, como um relâmpago eterno na mais escura noite. Só assim
assumiremos as grandes responsabilidades que nos esperam, estrelas

168
Quem é o meu Próximo?

cravadas no firmamento das nossas vidas.

Beijo-vos e abraço-vos, uma a uma, um a um

Boas Festas!

Que nasça Hoje e Sempre em nós uma consciência ética universal,


que nos leve apenas a pensar, dizer e fazer o que vise o Bem de tudo e
de todos, humanos e não-humanos!

24.12.2011

169
Paulo Borges

Votos de um 2012 radical

Amigas e Amigos, venho desejar-vos o melhor Ano de 2012, com


tudo aquilo que de melhor desejam, para vós e para os vossos, mas
sobretudo com tudo aquilo que quase nunca desejamos, que nem se-
quer imaginamos e que acima de tudo necessitamos: sermos rebeldes
contra o ego, não o mimarmos mais e não lhe satisfazermos os capri-
chos; não nos queixarmos tanto dos outros e do que está mal, mas
sobretudo da nossa preguiça, conformismo e indolência pacóvia, dos
nossos compromissos com isso mesmo que criticamos no mundo e
nos outros; não dormirmos na cama e na vida enquanto biliões de
seres humanos e não-humanos, tal como o planeta, estão a ser ex-
plorados e destruídos para satisfazer os nossos hábitos burgueses de
consumo e abundância; não continuarmos sempre à espera que al-
guém tome a iniciativa de fazer o que é justo, enquanto comodamente
nos demitimos do potencial herói que somos; não amarmos apenas
quem nos ama e acarinha, num comércio de afectos, mas abrirmos
o coração a todos os seres, mesmo que a nossa ignorância os faça
percepcionar como indiferentes, maus ou inimigos; não separarmos
mais acção e contemplação, espiritualidade, ética, cultura e política,
pois tudo são aspectos complementares do ser integral que somos;
não sermos sempre iguais, mas termos a ousadia de ser outros, cria-
tivos, libertando o infinito e o universo que trazemos em nós. É isto
e muitas mais coisas, nestas contidas, que vos desejo. Fundamental-
mente que nos libertemos de tudo o que nos prende - antes de mais
nós próprios - e que transmutemos deuses e demónios interiores em
Golpe d’Asa de consciência amorosa, compassiva e desperta!

Desejo-vos o que me desejo, pois bem disso careço: Revolução in-


terior, abolição da ficção do ego, explosão de amor e compaixão por
tudo e por todos!

Só assim faremos a Diferença e seremos a Alternativa que este fim


de ciclo de civilização pede de todos nós. Só assim seremos credí-

170
Quem é o meu Próximo?

veis obreiros de um Outro Portugal, uma Outra Europa e um Outro


Mundo, em nós erguidos das ruínas deste canto de cisne tecnocráti-
co, economicista e financeiro, que esgota todos os balões de oxigénio
da natureza e da Vida.

Bem hajam!

31.12.2011

171
Paulo Borges

Por um verdadeiro 25 de Abril,


por uma verdadeira Revolução,
pelo bem de todos os seres!

Tinha 14 anos quando se deu o 25 de Abril de 1974. Jamais esque-


cerei a súbita explosão de alegria e entusiasmo nas ruas com a queda
de um regime opressivo e a ardente expectativa de se construir um
país melhor para todos! Jamais esquecerei a multidão que se juntou
na Alameda D. Afonso Henriques no dia 1 de Maio para voltar a co-
memorar em liberdade o Dia do Trabalhador. É impossível esquecer o
contagiante sentimento de unidade, fraternidade e generosidade que
unia a todos naqueles dias, em que se sentia que tudo era possível e
uma sociedade voltava a ser uma comunidade com um mesmo desíg-
nio, o de se organizar de forma mais livre, solidária e justa, visando o
bem de todos. De repente todos se interessavam por política, porque
política significava transformar a vida e construir um Mundo Novo.

Infelizmente, logo predominaram as divisões, os conflitos e a luta


pelo poder entre as forças económicas e ideológicas que entre nós
representavam os grandes blocos mundiais. A energia da população
foi orientada para a luta partidária onde rapidamente triunfaram, nos
governos e nas oposições, agendas políticas e económicas interna-
cionais e específicas, que sem pudor sacrificaram a espontaneidade
popular e o bem comum. O potencial de profunda mudança do 25 de
Abril logo foi domesticado numa mera democracia formal, em que
os cidadãos são encorajados a confundir liberdade com o voto perió-
dico em representantes partidários sobre os quais, uma vez eleitos,
perdem todo o poder de controle, assistindo passivos e impotentes à
traição de todas as promessas eleitorais. O ímpeto de construir uma
sociedade mais justa, apesar de ter dado origem a uma das Consti-
tuições mais evoluídas do mundo, rapidamente foi neutralizado pela
subordinação das forças sociais e económicas às regras de jogo do
capitalismo mundial e a consagração dos fundamentais direitos cons-

172
Quem é o meu Próximo?

titucionais foi-se tornando cada vez mais letra morta. Dois ou três
partidos instalaram-se no poder e outros tantos na oposição, uns a
gerirem os interesses da grande finança e outros a reagirem contra
isso, sindicatos incluídos, mas todos isentos de vontade de mudança
estrutural e profunda. A comunicação social foi comprada e silencia-
da. Desiludidos com os partidos, com os políticos e com a política em
geral, que passaram a ser palavras com sentido negativo, os portugue-
ses começaram a abster-se cada vez mais de votar e de participar na
vida cívica. A onda de entusiasmo do 25 de Abril de 1974 deu lugar a
uma ressaca de passividade “democrática” estranha mas significativa-
mente semelhante ao conformismo do Portugal de Salazar e Caetano.

Portugal entretanto entrou para a Europa, que lhe exigiu a destrui-


ção das bases da sua economia, em particular a agricultura, trocadas
por auto-estradas, serviços e funcionários, teve acesso a fundos euro-
peus desbaratados em corrupção e obras de fachada, fez o jogo dos
bancos deixando-se seduzir pelo acesso ao paraíso do crédito fácil e
viciou-se no consumismo compulsivo. O interior foi abandonado e
desertificado, uma população desenraizada concentrou-se no litoral
e nas grandes cidades, destruiu-se a paisagem para edificar betão e a
ganância do turismo desordenou ainda mais o território. O espírito
de cooperação deu lugar ao individualismo e à competição de todos
contra todos e o impulso colectivo para a construção de um mundo
novo degradou-se em devaneios de novo-riquismo ostentatório, na
peregrinação aos hipermercados, na acumulação de futilidades e no
sonho de proezas futebolísticas.

Desta alienação colectiva, induzida por sucessivos governos como


sinal de progresso, mal despertamos agora para pagar a factura da
gestão danosa desses mesmos governos, para pagar com juros gigan-
tescos uma dívida obscura, que todos contraímos sem saber, porque
ninguém nos disse a verdade e todos nos mentiram, mas que tam-
bém, além de ter muito de inventado, é a factura da crise do capi-
talismo mundial, que pretende prolongar a sua vida artificial, feita
de especulação financeira, com os balões do oxigénio da vida real
das populações, dos seres vivos e do planeta que explora e destrói

173
Paulo Borges

como um predador selvagem, desesperado e descontrolado. E súbi-


ta e brutalmente vemos, mediante medidas financeiras sem plano
económico, o que restava de um Estado medianamente social a ser
desmantelado, subsídios abolidos, vencimentos, pensões e reformas
diminuídos, as garantias de emprego e de segurança social a desapa-
recerem, a habitação, a alimentação, a saúde e a educação cada dia
mais caras, a justiça na miséria de sempre, por via de uma austeridade
cirurgicamente dirigida para a classe média e baixa e para o empobre-
cimento compulsivo da população.

Sectores fundamentais da economia, como a electricidade, a ener-


gia e as águas, são ainda mais privatizados ou correm risco disso, o
desemprego e a precariedade aumentam, cada vez mais famílias des-
cem abaixo do limiar de pobreza, os idosos vivem com pensões de
miséria que não chegam para medicamentos e os jovens não têm ho-
rizontes. Ao mesmo tempo as castas de políticos e administradores,
gestores dos interesses das corporações e da finança mundial e prin-
cipais responsáveis por este estado de coisas, continuam a auferir im-
punes de todas as regalias económicas e sociais, apenas ligeiramente
aparadas para não ser demasiado escandaloso.

O radioso horizonte de esperança de Abril de 1974 converteu-se


num sentimento de beco sem saída, a não ser a da emigração de um
país condenado a pagar uma dívida impagável e a ser cada vez mais
espezinhado pelos poderosos da Europa e do mundo. Muitos dos
melhores e mais activos portugueses começam de novo a emigrar,
abandonando um país uma vez mais amordaçado e triste, deprimido,
descrente e envelhecido. Trinta e oito anos após sair de meio século
de ditadura política, Portugal cai numa mal disfarçada tirania econó-
mico-financeira e vive num clima de medo e de pensamento único,
em que a contestação se confronta de novo com a repressão policial.

Este é um dos lados da moeda e não devemos ignorá-lo. Mas outro


é o da ebulição, em Portugal e em todo o mundo, também como reac-
ção a esta situação, de um sem número de movimentos e iniciativas
que buscam seriamente uma alternativa ao actual sistema e nele pro-

174
Quem é o meu Próximo?

curam plantar desde já as sementes de um Mundo Novo, que há-de


emergir do colapso inevitável da actual (des)ordem mundial, que não
é evidentemente sustentável a nível planetário, em termos energéti-
cos, alimentares e ecológicos, mas também em termos da opressão,
sofrimento e mal-estar galopantes que gera nos seres vivos, humanos
e não-humanos. E não é sustentável a curto prazo, como inúmeros e
isentos relatórios científicos abundantemente documentam e anun-
ciam. Na verdade, todo o sistema, político, económico ou outro, que
gere a opressão e infelicidade das populações, a destruição da biodi-
versidade e dos ecossistemas, todo o sistema que violente a Vida, é já
um cadáver de pé, que mais cedo ou mais tarde há-de cair. É o que já
acontece no momento em que vivemos.

Temos pois de estar atentos aos sinais dos tempos e promover to-
das as alternativas sérias e credíveis que antecipem desde já o mundo
novo que desejamos, sem ficarmos à espera de governos e partidos
obsoletos, que excederam o prazo de validade: uma espiritualidade
laica, não dogmática, baseada menos na crença irreflectida do que na
consciência fraterna e na transformação ética da vida, que promova
o diálogo entre religiosos, agnósticos e ateus; uma cultura multicul-
tural e inter-disciplinar, aberta a novos paradigmas holísticos, que
vejam a realidade e os seres como uma totalidade orgânica inter-co-
nectada; novas práticas e currículos educativos, que visem o desen-
volvimento integral das crianças e dos jovens, não só do intelecto,
mas também da sensibilidade e da consciência ética global, extensiva
aos homens, aos animais e ao planeta; a introdução das técnicas de
atenção plena, com imensos benefícios psicossomáticos cientifica-
mente comprovados, na vida quotidiana e nas situações mais adver-
sas e exigentes, como escolas, hospitais, empresas e prisões; terapias
alternativas, mais naturais e saudáveis, que não lucram com a doen-
ça e estão livres da escandalosa conivência entre a classe médica e
os laboratórios farmacêuticos; novas dietas alimentares, mais éticas,
saudáveis e ecológicas, que, conforme as recomendações da ONU,
devem passar pela redução do consumo de carne e lacticínios e pelo
aumento do recurso a cereais e legumes; um novo modelo de organi-
zação social e política, que descentralize e desburocratize o exercício

175
Paulo Borges

do poder e faça a transição da democracia representativa para uma


democracia mais directa, onde os cidadãos possam controlar e de-
mitir os representantes que não cumprirem as funções e o programa
para o qual forem eleitos; um novo sistema eleitoral, com um único
círculo nacional, que permita uma representatividade mais equitati-
va de todas as forças políticas e possibilite a candidatura de listas de
cidadãos independentes dos partidos; um novo modelo económico,
que faça a transição da economia de mercado para uma economia
baseada em recursos e liberte o planeta e os seres vivos da ideia de-
mente e suicida de rentabilizar ao infinito recursos naturais finitos;
o abandono definitivo das energias fósseis e a sua substituição por
energias renováveis, promovendo as tecnologias amigas do ambien-
te; o regresso à terra, com base na agricultura biológica e na perma-
cultura, também nos centros urbanos; a assunção clara de uma nova
aliança entre os homens, os seres vivos e a Terra como matriz de uma
nova civilização, para o qual há que consagrar na Constituição da Re-
pública Portuguesa a senciência dos animais e o valor intrínseco do
mundo natural, bem como aprovar um estatuto jurídico dos animais
que lhes confira personalidade jurídica e conduza à criminalização de
todos os atentados contra a sua integridade física e psicológica. Sim,
porque, vivamos nós em ditadura ou democracia, os animais vivem
numa ditadura bem mais dura, total e cruel. Para eles nunca houve
qualquer tipo de 25 de Abril.

É no sentido destas alternativas que se movem os sectores mais


conscientes e evoluídos da sociedade portuguesa e mundial. Isto
exige de todos nós muita abertura, generosidade e inconformismo.
Perante a passividade bem domesticada e ordenada em que muitos
ainda se arrastam, é o momento de renovar o Elogio da Indisciplina
feito por Fernando Pessoa. Temos de ser novos e bons rebeldes, pela
mais justa de todas as causas, a causa do bem de tudo e de todos.

No meu caso pessoal, é esta rebeldia que me traz de volta à inter-


venção cívica, social e política mais directa, após a ter trocado pela
intervenção cultural, desiludido com o conformismo partidário no
pós-25 de Abril. E faço-o porque, com muitos amigos e o apoio de de-

176
Quem é o meu Próximo?

zenas de milhares de portugueses, está a ser possível criar um partido


diferente, o partido dos que tomam partido pelo todo e não pela parte,
um partido que toma partido pelo bem de tudo e de todos, o PAN, que
abraça como uma só as três causas, humana, animal e ecológica. O
PAN assume-se como a voz política em Portugal de todas as alter-
nativas éticas, científicas e saudáveis a um sistema decadente e mo-
ribundo e de todos os movimentos, associações e iniciativas cívicas
que, nas várias áreas, convergem já, estejam disso ou não conscientes,
para a criação de uma nova civilização, mais fraterna, solidária e justa
para todos os seres e a Terra.

É neste sentido que convoco todos a que celebremos o espírito


do 25 de Abril, não apenas o passado, que mal se esboçou e logo foi
traído, mas o que está por vir, um verdadeiro e mais profundo 25 de
Abril, uma verdadeira e mais profunda Revolução, que nos coloque
realmente no rumo de um Mundo Novo, mas agora não só para os
homens e sim para todos os seres! Temos de nos libertar de vez des-
te espírito do Portugal dos Pequeninos, o Portugal da mesquinhez e
da mediocridade, o Portugal onde a economia e as finanças são mais
importantes do que a Vida e que hoje é tão semelhante ao de Salazar
e Caetano. Há que erguer um Portugal dos Grandes, o Portugal das
grandes causas, que oriente o nosso espírito aventureiro, inovador e
empreendedor para o bem de tudo e de todos!

Vamos a isto, Companheir@s! Sejamos rebeldes pela melhor


das causas!

20.04.2012

177
Paulo Borges

Pela união das causas humana,


animal e ecológica,
por um novo Portugal
e por uma nova civilização

Somos cada vez mais a protestar nas ruas e a exigir a justa demissão
do Governo, pelo evidente falhanço do plano de austeridade e por
uma política que está a destruir o país. A questão é que falta o mais
difícil: uma visão clara da alternativa que desejamos para Portugal.
Não existe nação sem um projecto.

O melhor projecto para Portugal, particularmente no contexto da


crise de civilização que vivemos, que nos coloca à beira de um colap-
so ecológico-social, é construir um país ético. O modelo ético não
pode todavia ser o do antropocentrismo que está a esgotar os recur-
sos naturais e a destruir a biodiversidade, colocando paradoxalmente
em risco aquilo mesmo que procura proteger: a espécie humana. Pre-
cisamos de uma ética global, que considere igualmente os interesses
dos seres humanos e não-humanos, além de preservar os ecossiste-
mas, dos quais dependem todos os viventes.

Para que isso aconteça é fundamental o diálogo e o estabelecimento


de uma plataforma de entendimento e convergência entre indivíduos,
grupos e entidades que se dedicam às causas humana, animal e ecoló-
gica. Não faz sentido que aqueles que se preocupam com a libertação
humana e a justiça económica e social ignorem a cruel opressão e
exploração dos animais e a destruição dos recursos naturais, até por-
que de ambas resultam graves prejuízos para o ser humano, como
é sobretudo evidente nos efeitos do consumo de carne e lacticínios
sobre o planeta e a saúde humana. Não faz sentido que aqueles que
defendem a libertação dos animais ignorem a opressão e exploração
dos humanos e a devastação da natureza mediante um modelo de
crescimento económico e um sistema financeiro que sempre fará dos

178
Quem é o meu Próximo?

seres humanos e não-humanos, bem como do mundo natural, meros


instrumentos ao serviço da ganância de lucro e da acumulação de
capital. Não faz sentido que aqueles com preocupações ecológicas e
ambientais se preocupem com a preservação dos ecossistemas, mas
não com o bem dos indivíduos sencientes, humanos e não-humanos,
que neles habitam. Não faz sentido que todas estas pessoas não se
foquem no que as une e não acedam a uma visão mais ampla onde
todos os seres e o planeta estão interconectados, como a sabedoria
antiga e a ciência contemporânea mostram.

Precisamos de uma nova cultura, de uma consciência e de uma


ética globais, com a devida expressão pedagógica, jurídica, política,
social e económica. Só por aí é possível um projecto para um novo
Portugal, que inverta a decadência em que vivemos desde os Des-
cobrimentos. Este novo Portugal deve assumir como mais próximos
parceiros todos aqueles que visarem o mesmo rumo nas regiões ibé-
ricas, nas nações mediterrânicas e na comunidade lusófona, além das
nações que em todo o mundo oferecem exemplos alternativos em
termos sociais, de protecção animal e ambiental. É fundamental criar
um viveiro e um foco de irradiação de uma nova civilização que seja
uma alternativa às forças obscuras e destrutivas dos actuais senho-
res do mundo. São estas as ideias de Agostinho da Silva e de muitos
outros visionários do futuro já presente que me inspiram e que com
gratidão recrio e sigo.

179
Paulo Borges

Não sejamos cúmplices


do holocausto pascal

Estamos na Páscoa. Se nos libertarmos um pouco das mil distrac-


ções e preocupações das nossas vidinhas egoístas, que nos fazem pas-
sar como zombies pelo mundo, e olharmos atentos para os talhos,
veremos filas de cordeiros e borregos pendurados, decapitados, es-
folados e ainda a pingar sangue, oferecidos para serem o centro das
atenções e do apetite das famílias no Domingo em que se comemo-
ra a Ressurreição de Cristo. Se estivermos conscientes e ligarmos
os efeitos às causas, podemos imaginar o que se passa neste preciso
momento nos matadouros, onde milhões de animais que como nós
amam a vida e temem a dor e a morte são conduzidos ao abate impie-
doso. Podemos imaginar quanta angústia e sofrimento de seres vivos
e sensíveis como nós custam as iguarias que vão encher os pratos do
Domingo pascal.

Tudo isto para comemorar a Páscoa. Mas o que é originalmente


a Páscoa, para além deste sangrento e inconsciente ritual colectivo?
Antes da saída dos hebreus do Egipto, a Páscoa foi a festa cananeia e
pagã da Primavera, que celebrava a renovação da natureza. O mesmo
aconteceu na cultura nórdica, como se documenta no Easter inglês e
no Ostern germânico, nomes de uma deusa da aurora e da Primave-
ra. A palavra Páscoa vem da palavra hebraica Pésah, provavelmente
derivada do verbo pasah, com o significado de “saltar por cima (de
um obstáculo)”. Tradicionalmente traduziu-se Pésah por “passagem”
para evocar a lendária travessia do Mar Vermelho pelos hebreus no
Êxodo do Egipto. Para este povo, a Páscoa é símbolo de libertação.
No cristianismo, a Páscoa passou a ser o período, coincidente com
a semana hebraica da Pésah, em que se comemora a Última Ceia, a
Paixão, a Morte e a Ressurreição de Cristo, que significativamente foi
assumido como o “Cordeiro de Deus”, oferecido em sacrifício para
expiar os pecados do mundo. Com isto, a mensagem cristã é clara:

180
Quem é o meu Próximo?

Cristo vem pôr fim aos sacrifícios sangrentos de outros seres, huma-
nos ou animais, para agradar a Deus ou aos deuses; em vez disso,
o caminho é o da entrega de si, no sentido de romper o casulo da
indiferença, morrer para o egoísmo e renascer ao serviço dos outros.

Mas a Páscoa, festa pagã da renovação, festa hebraica da libertação


e festa cristã do dom altruísta de si mesmo, converteu-se hoje, para
largos sectores da humanidade dita civilizada do século XXI, e so-
bretudo no mundo europeu-ocidental, num absurdo e monstruoso
ritual de chacina e morte, em que milhões de animais são oferecidos
em holocausto para agradar às novas divindades que são as multi-
dões humanas escravas da gula, da ignorância e da insensibilidade
e oferecer avultados lucros aos industriais da carne. Como sempre,
alguns pensarão e dirão: “são apenas animais”. A esses recordo apenas
as palavras do filósofo e compositor Theodor Adorno:

“Auschwitz começa sempre que alguém olha para um matadouro e


pensa: são apenas animais”.

Não sejamos cúmplices deste novo e imenso holocausto. Enquanto


não for sempre, que seja pelo menos na Páscoa. Que nesta Páscoa
não deixemos que nenhum animal encha os nossos pratos e entre nos
nossos corpos. Pois, enquanto o fizermos, estaremos a ser obreiros
da violência e os nossos garfos estarão ligados, por fios invisíveis mas
terrivelmente reais, à degola dos inocentes.

28 de Março de 2013

181
Paulo Borges

Sobre a Tortura dos Humanos


e dos Animais
(sobre o livro de José Sócrates, o prefácio de Lula
da Silva e o posfácio de Eduardo Lourenço)

O Público de 6.04.2014 pré-publicou o posfácio do professor e en-


saísta Eduardo Lourenço à 2ª edição do livro do ex-primeiro-ministro
José Sócrates, A Confiança no Mundo, onde este trata da persistência
da prática institucional da tortura no mundo actual, nomeadamente
em “nações-santuários da Democracia ocidental” como a França e
os Estados Unidos. O ex-presidente do Brasil, Lula da Silva, no seu
prefácio ao livro, chama-lhe a “velha chaga que acompanha a história
da humanidade há séculos e séculos” e continua a supurar “neste nos-
so mundo herdeiro das Luzes e suas libertadoras utopias”, acrescenta
Eduardo Lourenço. José Sócrates considera a existência actual da tor-
tura como “escândalo e contradição ética intolerável na perspectiva
de uma ordem propriamente democrática” e isso confere ao seu livro,
segundo Eduardo Lourenço, “uma função problematizadora da pró-
pria mitologia democrática sob a qual, em princípio, assenta a ordem
ideal da chamada Civilização Ocidental e não só”.

Lourenço considera que a tortura, não sendo a única expressão do


“Inumano”, é todavia “aquele acto por excelência que se assume como
pura vontade do Mal, quer dizer, da negação do estatuto do Outro
como outro, aditando ser o único comportamento “que é acompa-
nhado pelo prazer do mesmo acto que anula o outro e em que nós nos
anulamos suprimindo inocentemente a nossa essência humana”. Re-
corda a esse respeito a conversão da tortura em “espectáculo” e “festa”
nos países da Inquisição e no Portugal do tempo dos Távoras. Recor-
da também o que se passou ao longo do século XX nos campos de
concentração nazis, estalinistas e de Pol Pot. E indigna-se perante a
tortura no século XXI, em França e nos EUA, que ousa cruzar a linha
de separação entre a “cultura democrática mítica” e a “mais clássica
barbárie”, o que vê como “da ordem da abominação e da denegação

182
Quem é o meu Próximo?

prática e ideal da democracia”. A “História”, para o pensador, “é o eter-


no e nunca gasto combate para separar em nós e no mundo o que nos
humaniza do que nos remete para a condição impensável mas nunca
extinta do inumano”.

José Sócrates, Lula da Silva e Eduardo Lourenço têm obviamente


razão e a maioria de nós reconhece-se nas suas palavras e sentimen-
tos de indignação perante um acto tão bárbaro e inumano como a
tortura. Mas infelizmente, eles e muitos de nós, vítimas do precon-
ceito antropocêntrico e especista que domina a nossa cultura, es-
quecemos que a tortura de que são vítimas os seres humanos tem
sido e é cada vez mais nos nossos dias uma manifestação apenas da
inimaginavelmente mais ampla e cruel tortura que infligimos aos
animais. Com efeito, pense-se em como são criados, (mal)tratados
e abatidos os biliões de animais que anualmente usamos para nossa
alimentação, vestuário, divertimento, experiências ditas científicas
e trabalho. Biliões de vidas que, como as nossas, se manifestam em
corpos e mentes sensíveis e vulneráveis à dor, ao medo e à angústia.
Biliões de vidas que, como as nossas, aspiram à liberdade, à segurança
e ao bem-estar e são arrancadas aos seus habitats naturais ou produ-
zidas numa demência industrial para serem instrumentalizadas, vio-
lentadas, torturadas e destruídas sem a menor consideração pela sua
alteridade e pelo seu estatuto de seres conscientes e sencientes. Ou
seja, precisamente o mesmo, mas em muito maior escala, que atrás se
definiu como a quinta-essência da tortura, expressão do “Inumano” e
“acto por excelência que se assume como pura vontade do Mal, quer
dizer, da negação do estatuto do Outro como outro”, que muitas ve-
zes, como nos circos, touradas e demais espectáculos, ainda é “acom-
panhado pelo prazer do mesmo acto que anula o outro e em que nós
nos anulamos suprimindo inocentemente a nossa essência humana”.

A Antropologia e a História mostram que a escravatura e massacre


dos animais serviu de modelo inspirador aos dos humanos. Como
documenta o perturbador livro do historiador Charles Patterson,
Eternal Treblinka, foi a invenção das cadeias de abate industrial nos
matadouros de Chicago que inspirou as cadeias de montagem de via-

183
Paulo Borges

turas de Henri Ford e os corredores de morte em massa dos campos


de concentração nazis. Como diz uma personagem de Isaac Bashevis
Singer, em The Letter Writer, perante um rato morto:

“Todos estes eruditos, todos estes filósofos, os dirigentes do planeta,


que sabem eles de alguém como tu? Persuadiram-se de que o huma-
no, espécie pecadora entre todas, domina a criação. Todas as outras
criaturas não teriam sido criadas senão para lhe fornecer comida e
peles, para ser martirizadas, exterminadas. Para estas criaturas, todos
os humanos são nazis; para os animais, é um eterno Treblinka”.

Como escreve o Prémio Nobel de Literatura J. M. Coetzee, em The


Lives of Animals:

“Permitam-me dizê-lo abertamente: nós estamos rodeados por um


empreendimento de degradação, crueldade e morte que ultrapassa
tudo de que foi capaz o III Reich, na medida em que o nosso em-
preendimento é sem fim, se autoregenera e faz vir sem cessar coelhos,
ratos, galinhas e gado ao mundo com o único objectivo de os matar”.

Assim é, José Sócrates, Lula da Silva e Eduardo Lourenço. As nossas


sociedades e as nossas democracias, com a sua mitologia da liberdade
(perdida que foi a da igualdade e da fraternidade), enraízam-se hipo-
critamente no inferno de uma tortura, uma barbárie e um holocaus-
to sem precedentes. As nossas sociedades e as nossas democracias,
mesmo quando são um pouco menos injustas para com os humanos,
continuam a ser implacáveis tiranias e ditaduras para os animais. E se
é escandalosa a tortura, que bem denunciam, mais escandaloso é o si-
lêncio a que vós, enquanto líderes de opinião, e convosco tanta gente
supostamente culta e bem pensante, vota o sofrimento dos animais.
Dirão talvez: “não são senão animais”. Respondo-vos com as palavras
de Theodor Adorno:

“Auschwitz começa quando alguém olha para um matadouro e


pensa: não são senão animais”.

184
Quem é o meu Próximo?

Os ditos quase 70 anos de paz na Europa são na verdade 70 anos de


guerra e violência aberta de uma espécie apenas, a humana, contra
todas as demais espécies de seres vivos, extensiva aos recursos na-
turais do planeta. É por isso que chegou a Hora de pôr a nu esta vio-
lência camuflada. Chegou a Hora de revelar a profunda inumanidade
que se encobre nas nossas práticas e discursos humanistas. Chegou a
Hora do apocalipse, que etimologicamente não quer dizer catástrofe,
mas sim revelação: revelação da barbárie escondida, que é a única via
para a sua superação. Chegou a Hora dos advogados e defensores dos
animais, de todos os animais, humanos e não-humanos. A Hora de
uma Outra Democracia: a que cuide do bem do planeta e de todos os
seres vivos.

8.04.2014

185
Paulo Borges

Uma Epifania

Ontem não pude apresentar o meu livro “É a Hora!” em Coimbra,


pois uma senhora foi tragicamente colhida por um comboio em San-
tarém e, após uma longa paragem, tive de desistir da viagem. Saí na
estação de Setil e ali fiquei à espera de um comboio regional que me
trouxesse de volta para Lisboa, no meio do nada, numa estação fan-
tasma junto a uma aldeia não menos fantasma cuja população não
chega a 30 pessoas. Ia a ler The Sacred Universe, de Thomas Berry, e
de súbito a realidade mostrou-me o que o livro dizia, mas com muito
mais brilho e eloquência. O isolamento no meio de uma estação de-
serta, a suspensão de todos os planos, projectos e expectativas, o não
saber quanto tempo iria ali ficar, mas sobretudo o incêndio dos cam-
pos com o canto estridente das cigarras, o sol primaveril a aquecer
o ar e a fazer cintilar as cores, o som do vento nas árvores, moitas e
ervas altas, o odor da natureza selvagem, converteu-se numa autênti-
ca epifania. Por experiência directa senti o que Thomas Berry afirma,
que não é nos textos sagrados nem nos seus comentários humanos,
mas sim na natureza que o divino constantemente se manifesta e con-
nosco comunica, numa linguagem infinitamente mais perfeita que
todas as línguas humanas. Aquele sol e aquele canto das cigarras, toda
aquela profusão de coisas bem sensíveis, inseparáveis da consciên-
cia alerta que em mim despertaram, eram a experiência directa do
que uns chamam “Deus” e outros muitos outros nomes. Chamo-lhe
Vida, uma Vida opulenta da qual somos inseparáveis, mas que tris-
temente quase nunca percepcionamos por andarmos enclausurados
nos nossos pensamentos, planos e preocupações, nos nossos livros e
telemóveis, nas nossas casas, cidades e veículos. Durou pouco mas
soube a muito, soube a tudo. Passado algum tempo chegou o com-
boio regional vindo de Tomar e nele regressei à (a)normalidade desta
vida menor em que nos exilamos e refugiamos da Grande Vida que
a tudo abraça.

Compreendi uma vez mais, por experiência directa, a razão pro-

186
Quem é o meu Próximo?

funda pela qual a humanidade está a destruir os recursos naturais


do planeta e os demais seres vivos, destruindo-se a si mesma. Antes
mesmo dos motivos económicos e da ganância de lucro, a raiz mais
funda deste drama está no facto de a maior parte dos humanos ter
perdido esta evidência da sacralidade do mundo, ter perdido a capa-
cidade de maravilhamento e gratidão perante o prodígio da natureza
e imaginar-se desconectada desta Vida que é afinal a nossa única e
imensa riqueza. Agora sei que na verdade existem anjos: aquelas ci-
garras, com o seu sublime canto, são os Anjos do Real. E os nossos
campos abandonados são o Paraíso, o Paraíso que na verdade por
todo o lado podemos reencontrar se tivermos os sentidos bem des-
pertos e a consciência despida de planos, preocupações e (pre)con-
ceitos. A mudança de paradigma tem de passar pelo despertar espiri-
tual da humanidade, para lá de religiões, crenças e ismos.

Contemplo também o paradoxo da Vida, pois também devo esta


experiência tão gratificante e reveladora à morte e ao sofrimento de
uma pessoa e dos seus familiares. A Vida é paradoxal, pelo menos
para os nossos esquemas lógicos e morais, que pouco parecem ter a
ver com ela.

17.04.2014

187
Paulo Borges

O Paradoxo do 1 de Maio:
Celebrar o Trabalho?

O dia de hoje é paradoxal. Celebra-se o trabalhador, na efeméride


de uma manifestação contra a exploração do trabalho pela civilização
burguesa e capitalista, mas esquece-se que o trabalho é precisamente
o valor em nome do qual essa civilização triunfou e que foi estranha-
mente assumido e divinizado pela quase totalidade do movimento
socialista. A nova religião do sucesso pelo trabalho surgiu nos países
do Norte da Europa (como mostrou Max Weber) e generalizou-se
também em nome da emancipação da escravatura da maioria activa
e produtiva da população para que alguns - clero e nobreza - vives-
sem desocupados, mas acabou por democratizar e universalizar essa
escravatura, com a planetarização do Ocidente. Hoje somos (quase)
todos escravos do trabalho, com excepção de uma minoria. Como
dizia Agostinho da Silva, (sobre)vivemos sem tempo para outra coisa
senão “ganhar a vida” que recebemos gratuitamente, sem tempo para
contemplar, amar e criar, ou para simplesmente ser, constantemente
ocupados e preocupados com a produção e o consumo de produtos,
bens e serviços que na maioria são desnecessários, fúteis e muitas
vezes prejudiciais, aproveitando apenas à minoria de investidores e
especuladores que lucram com isso. A civilização do trabalho e do
“neg-ócio” - a negação do “otium”, a desocupação contemplativa,
fonte de todo o conhecimento desinteressado - domina e escraviza
tudo, desde os milhões de vidas humanas instrumentalizadas em ac-
tividades mecânicas, burocráticas e fastidiosas até ao número incon-
cebível de vidas animais industrializadas na produção de carne, peixe
e lacticínios e aos recursos naturais, à biodiversidade e à paisagem
de uma Terra devastada por este formigueiro alucinado, neurótico e
“workaólico” em que se converteu a humanidade.

Se queremos libertar os humanos, os animais e a Terra temos de


abandonar a nova religião do crescimento económico - com o seu

188
Quem é o meu Próximo?

novo deus-ídolo, o dinheiro e o lucro, os seus novos profetas-sacer-


dotes do marketing e da publicidade e os novos teólogos-economistas
neoliberais ou socialistas produtivistas - e optar por uma sociedade
onde se trabalhe menos e haja mais tempo livre para viver uma vida
não centrada na produção e no consumo, com a vantagem de assim
haver mais emprego para todos, menos destruição dos ecossistemas
e das vidas dos animais e mais tempo livre para a cultura, o desen-
volvimento pessoal e a felicidade. Mas isso exige, a par de recolocar a
economia sob o domínio da política e esta sob a alçada da ética e da
cultura, deixarmos de ser cúmplices da ganância institucionalizada e
investirmos em vidas mais simples, com menos quantidade mas mais
qualidade, reduzindo os desejos às necessidades, de modo a que a
opulência de poucos não seja a miséria da maioria e haja uma abun-
dância frugal para todos. Veja-se a fundamentação científica desta
proposta na vasta obra do economista e filósofo Serge Latouche.

Esta nova atitude pode aprender-se e emergir mais facilmente nos


povos, sociedades e culturas que preservam ritmos e formas de vida
mais contemplativos, sustentáveis e festivos, como no Sul da Euro-
pa, África, América Latina, algum Oriente menos ocidentalizado e
no mundo tradicional e indígena em geral, desde que se livrem da
obsessão de imitarem o pior do estilo de vida europeu-ocidental.
Comecemos por nós, portugueses e lusófonos, que temos a vocação
histórica de promover pontes entre culturas e estamos numa posição
estratégica ideal para trazermos para o Velho Mundo europeu ideias
que o possam ressuscitar da decadência em que se afunda, vergado
sob o peso das ideologias do trabalhismo, sejam de “direita” ou de
“esquerda”.

189
Paulo Borges

No 8 de Março, Dia Mundial


da Mulher, celebrar o Feminino

Tenho muitas reservas perante as virtudes dos Dias mundiais ou


internacionais disto ou daquilo, pois quase sempre servem para re-
cordarmos num dia o que esquecemos ou desprezamos no resto do
ano, alimentando a ficção de sermos pessoas conscientes e solidárias.
Ao que há a acrescentar que em vários casos apenas promovem decla-
radamente o negócio e o consumo. Dito isto, gosto sempre de apro-
veitar estas ocasiões em que as nossas mentes e corações estão menos
duros, cegos e surdos para evocar, neste 8 de março, não só a Mulher,
mas o princípio Feminino universal, que se manifesta em todas as
fêmeas, humanas e não-humanas, mas também em todos os machos,
humanos e não-humanos, bem como na Terra e em todo o universo.
É ele a Matriz de toda a vida, de todo o dom, de toda a profundidade e
de toda a graça, com a sua capacidade de acolhimento, generosidade,
subtileza e sensibilidade ilimitadas. É ele a Matriz de toda a criação
e regeneração. E é ele que, sobretudo nas nossas milenares culturas
e sociedades patriarcais, continua a ser tremendamente violado, seja
na violência, opressão, exploração e discriminação a que são sujei-
tas tantas mulheres e inúmeras fêmeas animais – como as vacas, se-
paradas dos seus filhos e convertidas em máquinas de engravidar e
dar leite por esse flagelo para os animais e a saúde humana chamado
indústria dos lacticínios - , seja na violação constante a que são sujei-
tas a natureza e a Terra pelo actual modelo demente de crescimento
económico ilimitado, seja na não menor opressão e violação a que
é sujeito o mesmo princípio feminino nos machos humanos e nas
mulheres que se masculinizam, sacrificando a sabedoria do coração,
da sensibilidade, do amor e da criatividade ao cultivo unilateral do
intelecto analítico, conceptual, planificador e calculista, da vontade
obstinada e da eficiência a todo o custo. Possamos nós, enaltecendo
as qualidades da mãe, da irmã e da esposa, não reduzir a elas todas
as virtualidades da mulher, como as da sábia, da amante, da lutadora,
da criadora e da exploradora indomável das profundezas da alma e

190
Quem é o meu Próximo?

da Vida, íntima companheira de tudo o que é divino, animal e selva-


gem neste mundo. Possamos nós neste dia não esquecer tudo isto e
doravante respeitar todas as manifestações do feminino, dentro e fora
de nós, nos animais humanos e não-humanos e em toda a natureza.
Possamos nós, homens e mulheres, harmonizar o masculino e femi-
nino interiores e exteriores. Disso depende o presente e o futuro da
Vida em toda a Terra.

191
Paulo Borges

D. Sebastião
e o Encoberto interior

Comemora-se hoje mais uma efeméride do 4 de Agosto de 1578,


em que o desaparecimento de D. Sebastião em Alcácer-Quibir origi-
nou um trauma nacional e o mito do rei Encoberto, que haveria de
voltar para salvar a nação e restabelecer a paz e a justiça em todo o
mundo. Esse mito, fruto do imaginário celta do rei Artur e do mes-
sianismo hebraico-português, moldou a mentalidade nacional numa
esperança quase sempre passiva de que alguém venha de fora resol-
ver miraculosamente todos os nossos problemas. Comportamo-nos
como órfãos de um pai redentor, o que tem tido efeitos nefastos em
todas as áreas da nossa vida e sobretudo na política, levando-nos a
confiar os nossos destinos em líderes medíocres. Há que tomarmos
consciência disto e, seguindo as sugestões de pensadores como Sam-
paio Bruno, Fernando Pessoa, José Marinho e Agostinho da Silva,
questionarmos se o verdadeiro Encoberto, o verdadeiro libertador,
não estará no mais íntimo de cada um de nós. Em vez de esperarmos
por ele, talvez seja ele que está à espera de que o desencubramos e
assumamos para o manifestarmos na nossa vida e no mundo. E tal-
vez o Encoberto não seja senão a nossa essência e consciência mais
íntima, aquela que nos diz que a vida só vale a pena ser vivida quando
posta ao serviço do bem de tudo e todos, humanos, animais e planeta.
Que cada um desencubra e manifeste o Encoberto que há em si é a
verdadeira redenção que Portugal e o mundo esperam. E isto não é
para depois, é para já, para Agora. Como escreveu Pessoa no final da
“Mensagem”: “É a Hora! Valete, Fratres (Saúde, Irmãos)”. Faz pois tua
esta Hora e passa a Mensagem.

192
Quem é o meu Próximo?

Independência, dependência
ou interdependência
de Portugal?

Tudo mudou. Comemora-se hoje o 1º de Dezembro, que passou a


ser o dia da Dependência de Portugal. E é um não feriado, pois esta-
mos também todos cada vez mais dependentes do trabalho escravo
para os novos senhores do mundo. Sim, Portugal não é independen-
te. Está colonizado. Pela Troika e pelos grandes blocos económico-
financeiros mundiais, que desde há muito movem os cordelinhos das
marionetas chamados governos portugueses.

Estamos colonizados como outrora fomos colonizadores. Na ver-


dade só colhemos o que semeamos. Na Índia chamam “karma”, que
nada tem a ver com destino, mas sim com “acção” criadora (a palavra
tem a mesma raiz de “criar”) e seus resultados. Há 500 anos colonizá-
mos, explorámos e escravizámos. Até 1974. Hoje somos colonizados,
explorados e escravizados. E temos a sorte de ainda assim serem mui-
to mais brandos connosco do que fomos com os indígenas de todas
as latitudes.

Por outro lado, nunca fomos independentes, mas apenas menos


dependentes. Nenhum humano, povo ou nação alguma vez foi inde-
pendente. Todos fomos, somos e seremos interdependentes. Portugal
foi sempre interdependente das múltiplas relações culturais, políticas
e comerciais que manteve desde a fundação. E a partir da expansão
marítima tornou-se cada vez mais dependente da cobiça que o fez
abandonar o cuidado da terra natal para viver sucessivamente à custa
do comércio do Oriente, das minas e dos escravos de África, do ouro
do Brasil e, finalmente, dos subsídios europeus. Que enriqueceram
uns poucos e lançaram na pobreza a maioria.

Agora estamos como estamos. Até que mudemos o “karma”, ou


seja, até que mudemos a nossa atitude perante a vida e o mundo e o

193
Paulo Borges

nosso agir. Sofridas as consequências dos erros que cometemos, há


que não os repetir. Se durante cinco séculos causámos o sofrimento
de tantos povos, matando, escravizando e explorando, façamos hoje
o contrário. Ocupemos a primeira linha da solidariedade activa com
todos os seres humanos de todos os povos, com todos os seres vi-
vos e com o planeta. Ocupemos a vanguarda da defesa dos direitos
humanos, dos animais e da Terra. Estejamos na frente da busca de
alternativas a esta civilização violenta por cuja globalização fomos
os primeiros responsáveis. E ocupemo-nos por fim do nosso rectân-
gulo. Façamos deste país uma terra de cultura ética e universalista,
desenvolvimento interior, justiça social, resiliência, sustentabilidade
económica e consciência ecológica, regressemos aos nossos campos
e mares, desenvolvamos as energias renováveis e estabeleçamos uma
democracia participativa que nos liberte de uma classe política cor-
rupta. Estejamos preparados para a falência do Euro ou da própria
União Europeia e saibamos viver melhor com menos. Sejamos menos
dependentes, sem a ficção de sermos independentes. Vivamos uma
feliz interdependência com todos os povos, culturas e nações e pre-
zemos a relação, não só e não necessariamente com os que falarem a
mesma língua, mas com aqueles que forem mais sábios, éticos e jus-
tos. Sejamos cidadãos de todo o mundo, com os pés bem implantados
nesta terra e o espírito-coração abertos a todo o universo.

A única missão de Portugal, de todas as nações e de todos os hu-


manos é Despertar a consciência e o coração para o bem comum de
todos os seres vivos. É a isso que Vieira, Pessoa e Agostinho da Sil-
va chamaram “Quinto Império”, que não é outro império senão o da
consciência desperta e do bom coração. Como escreve Fernando Pes-
soa no final da “Mensagem”:

É a Hora! Valete, Fratres (Saúde, Irmãos)!

1.12.2013

194
Quem é o meu Próximo?

Para uma nova política


internacional portuguesa

Uns advogam que Portugal deve sair da Zona Euro e afastar-se da


Europa, outros que nela deve continuar numa Europa federalista,
outros que se deve aproximar dos países lusófonos e outros ainda
outras coisas.

Portugal deve continuar onde sempre esteve: no planeta Terra. E se


há relações que devem ser privilegiadas é com todos os povos, nações
e culturas. Relações transversais aos Estados, tantas vezes meras abs-
tracções criadas, a ferro e fogo, para dividir e enfraquecer as comuni-
dades reais. Relações que privilegiem, por sua vez, tudo o que de me-
lhor se está a fazer no planeta por um novo paradigma de civilização,
que salve a Terra e os seres vivos, humanos e animais, da destruição
que está a ser promovida pela globalização do modelo mental e eco-
nómico europeu-ocidental e neoliberal.

No plano das relações internacionais do Estado português só se jus-


tifica a saída da Zona Euro quando as desvantagens e os sacrifícios de
permanecermos superarem os de sairmos, o que por enquanto não se
verifica. Pode, todavia, tornar-se uma realidade a curto/médio prazo
e devemos estar preparados para essa eventualidade. O federalismo
europeu pode ser uma solução, mas só se assegurar a equidade polí-
tico-económica entre as nações europeias e libertar a Europa do peso
da Alemanha. E isso não impede que Portugal se aproxime, também
economicamente, de outras nações mais próximas pela história, pela
língua e pela cultura: não só as nações lusófonas, mas também as ibé-
ricas (Espanha virá inevitavelmente a desmembrar-se) e as mediter-
rânicas, incluindo as do Norte de África. Portugal deve mesmo, com
as nações do Sul da Europa, Espanha, Itália e Grécia, criar um bloco
de resistência à hegemonia alemã e norte-centro europeia.

Todavia, nestas aproximações e relações internacionais, impõe-se

195
Paulo Borges

um critério superior ao da história, da língua e da cultura: o da ética,


da justiça e do bem. Portugal deve privilegiar relações com nações
que respeitem os direitos humanos, dos animais e do ambiente. Neste
sentido, a par de promover relações mais estreitas com as nações da
sua área histórico-cultural que sejam mais fiéis a esses valores, Por-
tugal deve inspirar-se e privilegiar contactos com nações que inves-
tem num novo paradigma civilizacional, como a Bolívia, que aprovou
uma lei que consagra “o desenvolvimento integral em harmonia com
a Mãe Terra e o Bem Viver”, e o Butão, que integrou nos princípios da
sua governação a Felicidade Interna Bruta, da população, consideran-
do-a mais importante do que o Produto Interno Bruto.

O mundo está em acelerada Mudança e importa que Portugal não


continue a perder o comboio, permanecendo refém de todo o tipo
de visões estreitas. Sobretudo se quiser cumprir a sua maior vocação,
segundo a visão de Luís de Camões, Padre António Vieira, Fernan-
do Pessoa e Agostinho da Silva: contribuir para o surgimento de um
Mundo Novo, com uma consciência nova, global e integral, como se
simboliza na esfera armilar.

Uma das características mais salientes dos portugueses, porventura


ressaca ainda das “glórias” dos Descobrimentos e de termos sido um
Império à escala mundial hoje reduzido a uma faixa nos confins da
Europa, é a necessidade de se verem e sentirem especiais e impor-
tantes nalguma coisa, o que nos casos extremos configura uma ten-
dência maníaco-depressiva. Nalguns casos e por vezes achamos que
somos os melhores, seja por termos uma missão especial no mundo
(o caso de grandes poetas e pensadores, Luís de Camões, Padre An-
tónio Vieira, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva), o maior centro
comercial da Europa (o Dolce Vita Tejo, aberto em 2012 na Amado-
ra), a maior feijoada do mundo (a da inauguração da Ponte Vasco da
Gama, que na altura bateu o recorde do Guiness, com 15 000 pessoas
e uma mesa com 5 kms de extensão) ou o melhor futebolista do mun-
do e um dia, à falta de regressar D. Sebastião ou realizarmos o Quinto
Império, sermos pelo menos campeões da Europa ou do Mundo em
futebol. Noutros casos e noutras vezes, achamos que somos os piores,

196
Quem é o meu Próximo?

os mais ignorantes e falhados, a nação que não tem razão de existir,


onde nada funciona e nada se faz de bom, onde tudo é medíocre,
estreito e mau, por contraste com as outras nações (que poucos co-
nhecem, mas das quais todos falam como se nelas houvessem vivido
desde sempre) onde tudo é perfeito, funcional e operacional, haven-
do que imitá-las para sair do buraco que somos.

Num caso como noutro achamos e sentimos que somos especiais e


importantes: os melhores ou os piores, os melhores governados pelos
piores ou os piores que só deixarão de o ser quando governados pelos
melhores. E num caso como noutro ficamos contentes e orgulhosos
porque ao menos não passamos despercebidos e temos motivo para
fazer aquilo de que o nosso ego colectivo mais gosta: falar de si pró-
prio, falar de nós próprios, rodopiando em torno do íntimo umbigo.
Dizer e repetir como somos bons e incompreendidos ou como somos
maus e dignos de lástima. Num caso como noutro aconchegamo-nos
e masturbamo-nos à sombra das nossas virtudes ou dos nossos de-
feitos, num narcísico e ensimesmado comprazimento com as nossas
luzes ou as nossas trevas.

Se da ideia de termos uma missão especial no mundo ainda se pode


fazer alguma coisa de positivo, recriando as nossas tendências mí-
tico-messiânicas como motivação para passarmos à acção orienta-
da para causas nobres, como a urgente mudança de paradigma da
civilização num sentido mais ético e sustentável para todos os seres
vivos, já da vaidade do maior centro comercial, da maior feijoada ou
do melhor jogador e da taça que havemos de ter nada há a fazer senão
despertar dessas futilidades. E o mesmo se diga do maior divertimen-
to e especialidade nacionais, que é dizer mal de tudo, sobretudo de
Portugal e de nós próprios, e ficarmos satisfeitos com isso, como se
a denúncia dos vícios públicos se convertesse em virtudes privadas e
bastasse proclamar os nossos defeitos para que deles fôssemos livres
sem fazermos nada por isso. O que é tanto mais difícil quanto cada
português que fala dos defeitos dos portugueses tem tendência para
se pôr de fora - como se ao dizer mal do seu país e do seu povo a sua
nacionalidade e a sua responsabilidade misteriosamente se suspen-

197
Paulo Borges

dessem - ou então para continuar a culpar por todos os males esse


misterioso “eles” que no fundo está em cada um de nós sem querer-
mos dar por isso, porque isso obriga a reconhecer no nosso íntimo e
na nossa cumplicidade activa ou passiva aquilo que mais diaboliza-
mos nos outros.

É urgente uma psicanálise colectiva (mas profunda, não meramen-


te freudiana), que comece precisamente por nos abrir os olhos para
esta recusa de os abrirmos. Só a partir daí é possível uma real trans-
formação do país mental e material, porque os dois são um só e a
crise de um é a crise do outro.

198
Quem é o meu Próximo?

Vários

O mundo necessita urgentemente de um dilúvio de amor e compai-


xão, mas acompanhados de sabedoria: amor e compaixão por vítimas
e agressores, sabendo que os agressores são sempre as futuras vítimas
e que as vítimas muitas vezes são os antigos agressores; sabendo ainda
que os agressores são as primeiras vítimas da sua agressão. De outro
modo, permaneceremos reféns da lógica maniqueísta e infantil dos
“bons” e dos “maus”, achando sempre que somos os “bons” e os ou-
tros os “maus”. Agressores e vítimas entre-são, interdependem.

O universo és tu, tu és o universo. Tudo o que fizeres ou não fize-


res aos outros a ti o fazes ou não fazes, em ti colhes o benefício ou o
prejuízo. E os outros são todos, humanos e não-humanos: todos os
que vivem e sentem, gozam e sofrem como tu, teus íntimos parentes,
carne da tua carne, alma da tua alma. Desperta e cuida deles como a
ti mesmo ou a um filho único. Desde já. A cada instante.

Saibamos apreciar e aproveitar a “crise”. Ela é o nosso mais fiel espe-


lho e a nossa melhor oportunidade. Nunca a verdade veio tanto ao de
cima, nunca tantas máscaras caíram e tantos véus tombaram, nunca
tanto se revelou o autocamuflado fundo do que somos. Aquilo a que
os gregos chamaram Apocalipse. Dói, pois dói. Arde, pois arde. Mas
o que arde cura. Estamos no purgatório de uma civilização doente.
Sopremos as chamas deste auto-de-fé de todas as ilusões e ressusci-
temos na sua luz.

199
Paulo Borges

Onda ou oceano? Se te vires como onda, nasces e morres como mo-


dificação superficial e fugaz do imenso oceano, interdependente e ao
sabor de todas as demais ondas e marés, das quais és inseparável. Se
te vires como oceano, não nasces nem morres e conténs serenamente
todas as ondas de cuja turbulência és livre. Se te vires como onda e
oceano, simultânea e inseparavelmente, e vires e respeitares do mes-
mo modo todas as demais ondas, estás desperto. E, se não vires nada
disto, deixa passar a onda desse pensamento que logo verás.

O único poder autêntico é o poder de ser, a potência da vida livre,


consciente e aberta, a pujança da criativa e amorosa empatia com o
mundo e os seres. É o poder de tudo ser possível. Comparado com
isto, o poder institucional - religioso, académico, político, económi-
co - é uma impotência triste, o crepúsculo da vida na escravatura da
sua funcionalização burocrática. Estranho que tantos se demitam do
poder que são por desejo do domínio que nunca terão... Quanto mais
livres, conscientes e solidários, mais poderosos seremos e menos o
poder nos seduzirá.

“(...) a violação tornou-se uma metáfora central de nossa cultura -


violação de mulheres, de grupos minoritários e da própria terra” (Fri-
tjof Capra). Acrescento: violação de crianças, de animais, de direitos
laborais e do bem comum. Para não falar da origem de tudo isso: a
auto-violação de cada mente pela ignorância, pela avidez e pelo ódio,
mediante pensamentos, emoções e imagens destrutivas. É a hora dos
movimentos e associações de defesa dos direitos humanos, animais
e ambientais se unirem. É a hora de se unirem todos os que buscam
alternativas espirituais, culturais, educativas, terapêuticas, sociais,
económicas e políticas mais sãs, éticas e justas. É a hora de uma alter-
nativa global à civilização moribunda que converta o seu cadáver em
húmus do futuro.
*

200
Quem é o meu Próximo?

Mais do que na opressão económico-financeira, mero sintoma, o


grande mal-estar da civilização actual reside na Vida reprimida e sa-
crificada no trabalho e na funcionalização, nas mil actividades sem
sentido a que somos obrigados e nos obrigamos para ganhar o sus-
tento de uma existência que tantas vezes assim se torna medíocre e
falhada, egoísta e inútil, sem golpe de asa libertador. E disso faz parte
ainda este investimento de tempo nos espaços virtuais, onde todos
imaginam comunicar, mas ninguém se conhece, escuta e toca, nin-
guém realmente comunga a sua presença sensível e consciente no
mundo. Activistas e heróis do Facebook, dos blogues e da net, entu-
siastas das grandes causas no teclado, no nosso arremedo de parti-
lha traímos a comunhão real, a vertigem de Eros nas entranhas e nos
poros, o encontro directo de corpo, verbo e espírito. Quando regres-
saremos enfim ao Céu-Terra, quando cairemos no real, quando nos
reencontraremos no fremente corpo do mundo, livres dos labirintos
e exílios das palavras e do intelecto? Ergamos os olhos do teclado e do
ecrã para a maravilha dos rostos, dos corpos e do mundo, para este
sol que se ergue ou declina, para o sensível espanto das coisas vivas. E
a morte não mais será.

Sabes que:
– 20% da população mundial consome 80% dos recursos do planeta?
– em todo o mundo se gastam 12 vezes mais em armamento do que a
ajudar os países em vias de desenvolvimento?
– morrem 5000 pessoas por dia devido à poluição da água potável,
enquanto mil milhões não têm acesso a água potável?
– mil milhões de pessoas morrem de fome ou estão subnutridas em
todo o mundo?
– mais de 50% dos cereais comercializados em todo o mundo são
usados para alimentar os animais nos campos de concentração da
pecuária intensiva e/ou para produzir combustíveis, quando pode-
riam alimentar cerca de 2 mil milhões de pessoas, quase um terço da
população do planeta?
– 40% da terra arável do planeta está degradada? - todos os anos 13

201
Paulo Borges

milhões de hectares de floresta desaparecem?


– 1 em cada 4 mamíferos, uma em cada 8 aves, um em cada 3 anfí-
bios, estão em vias de extinção e que as espécies estão a morrer a um
ritmo 1000 vezes superior ao ritmo natural?
– 3/4 das zonas de pesca estão esgotados, reduzidos ou em risco disso?
– a temperatura média dos últimos 15 anos foi a mais elevada de que
há registo?
– a calota glaciar perdeu 40% da sua espessura em 40 anos?
– pode haver no mínimo 200 milhões de refugiados devido às altera-
ções climáticas em 2050?
(dados de 2004-2008, hoje agravados, que estiveram na base do filme Home, de Arthus-Bertrand)

Se ficaste impressionado, sabe que somos todos responsáveis por


isto. São as nossas opções de consumo e o nosso modo de vida que
estão a fazer isto aos seres vivos e ao planeta. Reflecte e muda a forma
de pensar e de agir. Repensa a tua participação cívica e as tuas opções
políticas. Informa-te e junta-te a todos os que buscam e promovem
alternativas para salvar a Terra e os seres vivos, humanos e não-hu-
manos. Não deixes que a ganância das corporações económicas e a
conivência da velha classe política destrua mais o planeta e a Vida. É
o teu destino, dos teus filhos e netos que está em jogo. Não falhes o
grande desafio do nosso tempo: torna-te um guerreiro não-violento
pelo bem de tudo e de todos.

Vai começar mais um campeonato europeu de futebol. Talvez o


maior ritual catártico da violência subconsciente das emoções co-
lectivas e do crescente mal-estar numa civilização anti-natural. Tal
como a tourada, embora menos negativo por não implicar o sofri-
mento compulsivo de ninguém. Apreciável, quando bem jogado, mas
tristemente convertido num negócio mafioso de interesses obscuros,
o futebol vai continuar a servir para encobrir o afundar de uma civi-
lização e o aumento da opressão social e da exploração económica.
Desta vez provocou também um autêntico holocausto de animais na
Ucrânia, a juntar à opressão política no país. É esta grande cortina de

202
Quem é o meu Próximo?

fumo que os media vão lançar sobre todos nós nos próximos dias.
Tanta energia e tantos recursos que podiam ser canalizados para um
mundo melhor....

O mais problemático do futebol, não como jogo ou fenómeno es-


tético, digno de apreço, é o modo como é inconscientemente vivido.
Na verdade, aquilo que tem de mais positivo, ser uma sublimação
da violência instintiva e um substituto da guerra, continua por outro
lado a reproduzir arcaicas e violentas emoções dualistas, que contra-
dizem a regra de ouro ética que é o colocar-se no lugar do outro. No
futebol a nível de clubes e selecções prevalece respectivamente a ló-
gica tribal e nacionalista de que uns, por serem da “minha” equipa,
e terem um determinado emblema, camisola, língua ou hino são os
“bons”, devendo ganhar, e os outros, apenas por serem diferentes, são
os “maus”, devendo perder. É o esquema infantil do “nós” e do “eles”
que herdámos dos primitivos répteis no hipotálamo, desde há 500
milhões de anos. É ele que nos faz vibrar de alegria com a vitória dos
nossos e com a derrota dos outros, ou seja, com isso mesmo que os
faz sofrer. E são estas emoções que arruinam todo o sentimento de
empatia, base de toda a ética.

Por outro lado, numa civilização individualista, burguesa e profa-


na o fascínio do futebol passa muito por oferecer um regresso fugaz
ao sentimento de pertença comunitária e à experiência neoreligiosa
de um êxtase por identificação com um símbolo/totem e, sobretudo,
com as novas divindades ou heróis que são os jogadores, operadores
desses novos milagres que são as grandes defesas, as grandes jogadas
e os grandes golos. Isso é muito mais atractivo do que a reflexão de-
sencantada sobre tudo isto.

Qual a solução, para quem estiver de acordo com isto e ainda assim
apreciar realmente o futebol? Fácil. Apreciar o futebol é esquecer as
equipas, não torcer por nenhuma e vibrar com o jogo em si, celebran-
do igualmente as grandes defesas, jogadas e golos de uns e outros.

203
Paulo Borges

Que fique claro. Nada tenho contra a alegria e a festa e, pelo con-
trário, prezo-as muito. Nada tenho contra o futebol como jogo, que
aprecio quando bem jogado. Nada tenho contra ver os meus conci-
dadãos entusiasmados, a saírem para a rua para festejarem até altas
horas da noite. Antes isso do que vê-los deprimidos e cabisbaixos,
a dizerem constantemente mal da vida, do país e do mundo e a não
terem outra conversa senão mexericos, doenças e dores. Somente
preferia vê-los felizes e não eufóricos, verdadeira e profundamente
alegres e não mera e fugazmente exaltados por aquilo mesmo que, no
momento seguinte, perante outro resultado da selecção, os vai depri-
mir e fazer voltar à mesma vidinha triste de sempre. E sobretudo gos-
tava de os ver, com o mesmo e até maior entusiasmo, a tudo fazerem
por uma sociedade mais consciente, ética e justa, que inverta o actual
rumo de exploração dos homens, dos animais e do planeta. E, em vez
de idolatrarem um conjunto de homens iguais a eles, tudo fazerem
para prezar e ser fiéis ao melhor de si próprios, sem anestesiarem a
voz da consciência e alienarem a energia de transformação na busca
de excitação e distracção a todo o custo. Sei que as massas humanas
dificilmente saem deste processo, desde antes do circo romano. Mas
procuro cumprir o dever de todos nós: sermos testemunhas cons-
cientes e críticas, mas nunca amargas e sempre benevolentes, das vãs
distracções do mundo, reconhecendo-as primeiro que tudo em nós
mesmos. E sei que não estou só.

A intenção que preside a cada acção, mental, verbal ou física, bene-


volente ou malevolente, é o nosso mais profundo alimento. Fica em
nós, se não houver arrependimento, como uma tendência subcons-
ciente e uma propensão latente a repetir-se, em função das condi-
ções e circunstâncias externas que a estimulem. É ela que determina
a percepção que temos dos acontecimentos e coisas do mundo e o
modo como lhes reagimos. É assim que todos nós e todos os seres
nos autocriamos a cada instante, tal como a cada instante e conti-

204
Quem é o meu Próximo?

nuamente criamos em conjunto, embora diferenciadamente, isto a


que chamamos realidade. É por isso que é crucial estarmos constante
e plenamente atentos ao que se passa nas nossas mentes e particu-
larmente à intenção que preside a cada pensamento, palavra e acção
exterior, procurando que vise o bem de tudo e todos, tendo em conta
as condições, circunstâncias e necessidades concretas dos outros. E
aprender ao mesmo tempo a repousar na natureza mais profunda da
consciência, livre de intenções, pensamentos, palavras ou acções. É
esta a via da meditação na acção, o rumo para uma sociedade e um
mundo mais despertos e benéficos para todos os seres.

Se mal surgem contemplarmos pensamentos e emoções, sem os


considerarmos “nossos” e nos identificarmos e envolvermos com eles,
logo se dissolvem como bonecos de neve ao sol da consciência. Assim
despertamos do sonho acordado que temos por real, assim transita-
mos da escravidão para a liberdade. Deixamos de ser marionetas con-
troladas pela identificação com o que em última instância não existe.
E estamos livres, abertos e sensíveis para cuidar dos outros, todos os
outros, seja qual for a sua forma, humana ou não-humana, pensem,
digam e façam o que pensarem, disserem e fizerem. Estamos livres da
ficção de serem “outros” e de imaginarmos que o seu bem profundo
coincide com o que nos nossos sonhos para nós mesmos desejamos.
Estamos livres da ficção de sermos “nós mesmos”, a velha história
infantil que desde tempos sem começo nos embala.

Comi ontem a primeira amora nascida no terraço. Tudo é possível.


Não é só Babilónia. Também Lisboa pode ter jardins suspensos. É
assim que visiono esta cidade no século XXI. A cidade branca e rosa
convertida num jardim verde voltado para o rio e o Atlântico. Um jar-
dim-modelo de alternativas ecológicas e energéticas, uma capital do
encontro de religiões, culturas e consciências, uma referência mun-
dial em termos de serviços sociais e de protecção aos animais. Um

205
Paulo Borges

grande sonho é o primeiro passo para uma maior realização. É assim


que vejo e quero Lisboa, Portugal e o mundo. Quantos mais assim so-
nharem e quiserem, mais depressa o sonho se realizará. Passo a passo,
pedra a pedra, alma com alma, coração com coração.

Venho da vigília em frente ao Palácio de Belém, onde um presi-


dente eleito com 1/4 dos votos possíveis consulta um Conselho de
Estado que ninguém escolheu sobre a situação de um Governo eleito
por uma mesma minoria, confrontado com o fracasso da sua polí-
tica e com o geral repúdio da população. Gosto desta sensação de
um país a despertar, mas incomodam-me algumas questões: quantas
pessoas estariam na rua se não houvessem mexido nos seus subsídios
e pensões de reforma, quantos de nós continuaríamos a manifestar-
nos se nos devolvessem metade do que nos roubaram, quantos nesta
multidão querem realmente mudar a sua vida e o mundo? E quan-
tos estão conscientes da verdadeira dimensão da crise, cuja ponta do
iceberg é a Troika, o capitalismo selvagem e os governos-marione-
tas dos partidos do arco do poder (e uma oposição estéril), mas cujo
fundo é o colapso da ignorância e da avidez de uma humanidade que
se converteu na maior predadora do mundo, da natureza e da vida,
devastando os recursos naturais e as espécies animais e vegetais ao
ritmo alucinante de mais de 300 por dia? Quem é que lê os relatórios
científicos da ONU sobre a insustentabilidade do consumo de carne e
lacticínios? Quem é que está preocupado com o futuro dos seus filhos
e netos num planeta que dentro de 15 ou 20 anos conhecerá guerras
pela água por causa das nossas opções alimentares de hoje? Quem é
que vê e pensa a política para além do imediato? Quem é que pode
ser um líder para uma nova civilização? Pensemos nisto e sejamos a
resposta. Então terá ainda mais sentido virmos para as ruas.
21.9.2012

Os antigos generais romanos, quando entravam em Roma vitorio-

206
Quem é o meu Próximo?

sos para a aclamação da multidão, levavam a seu lado um escravo que


lhes repetia: “Lembra-te que não és nada”. Estes nossos e novos gene-
ralecos, sem nada terem feito senão afundar um país, além de surdos
ao clamor da população, comportam-se como se nada escutassem
senão uma voz que lhes repete: “Lembra-te que és tudo”.

Podem ser grandes aos próprios olhos e aos olhos das confrarias
do elogio mútuo, mas o seu destino histórico está traçado: o despre-
zo dos presentes e dos vindouros. Nada esperemos destas pessoas.
A Vida não passa por eles nem por substituí-los por outros iguais. A
Vida passa pela democracia participativa, que não permita o actual
fosso entre eleitores e eleitos e nos responsabilize a todos pelo bem
comum. Não só dos humanos, mas também dos animais e da Terra.
O bem de tudo e de todos.

Queixamo-nos com razão dos mercados, da ganância das corpora-


ções, dos bancos e do capitalismo. Mas com muito maior razão nos
queixaríamos de termos necessidades mínimas e vivermos com de-
sejos máximos. É isso que cria, alimenta e reproduz os mercados, as
corporações, os bancos e o capitalismo. São eles que a exploram, por
via do marketing e da publicidade, mas a ganância é nossa. Vivamos
com o mínimo: seremos livres e este sistema ruirá, incluindo a políti-
ca que o serve. Vivamos com o mínimo, sobretudo com o mínimo de
ego, se possível sem nenhum, e descobriremos a Plenitude que desde
sempre nos habita.

Tu, que lês estas palavras, tens em ti um imenso potencial de amor


e sabedoria, tens em ti toda a força do mundo! Não percas tempo na
tristeza, no desalento ou na indiferença! Dá a volta à crise e faz agora
mesmo algo de diferente para o bem de todos. Sorri para ti mesmo
ou para um desconhecido, sai à rua e dá um abraço, telefona ou vi-
sita quem necessita de companhia, faz um donativo para uma boa

207
Paulo Borges

causa, faz-te membro de uma associação que defenda os animais, os


homens ou a natureza, inventa uma solução para um problema ou
senta-te simplesmente, respira, observa a mente e contempla o ridí-
culo do ego e das suas estratégias para gerar a tua infelicidade e a dos
outros: apego, orgulho, ciúme, avareza, avidez, ódio. E depois con-
tinua. Vai todos os dias um pouco mais longe: até ao infinito e mais
além! O mundo nunca mais será igual. Se te revês nesta mensagem,
partilha-a no teu mural e com os teus amigos ou recria-a e escreve o
teu próprio texto, o que mais te inspire. Se possível traduzido noutras
línguas. Vamos encher o Facebook e o mundo de energia positiva e
libertadora. Temos em nós toda a força da Vida!

Agradeço sinceramente os vossos amáveis votos de feliz aniversário


e neste dia quero repetir que conto convosco todos para a urgente
tarefa de reconstruir a partir das ruínas um país onde a justiça social,
a cultura, a ética e o respeito por todos os seres vivos, humanos e não
-humanos, bem como pela Terra, sejam as grandes prioridades. Um
país onde a política esteja ao serviço dos mais fracos e da elevação da
consciência colectiva. Um país no rumo de uma nova civilização. Nas
comemorações oficiais deste último feriado do 5 de Outubro, feitas
pela classe política às escondidas do povo, o presidente da República
hasteou a bandeira nacional ao contrário. Vejo isso como mais um
sinal. Um sinal de que este ciclo político chegou ao fim, de que os po-
deres públicos estão às avessas dos valores fundamentais que estrutu-
ram uma nação e que já nada há a esperar de um regime que não nos
representa. Venha uma nova República, a da democracia participati-
va que nos responsabilize a todos pelo bem comum. Há que refundar
Portugal, um Portugal aberto ao planeta e ao universo, que construa
pontes e não muros entre povos, nações e culturas, entre os humanos,
os animais e a Terra. Passem a mensagem e bem hajam!
5.10.2012

208
Quem é o meu Próximo?

O sistema económico mundial e entre nós o governo português tra-


tam as pessoas como se fossem meros números e coisas, explorando
e devorando sem dó nem piedade a energia do nosso trabalho e a
carne da nossa vida. Mesmo assim, é um tratamento infinitamente
melhor do que aquele que damos aos animais, que exploramos, aba-
temos e devoramos como se fosse normal e natural. Pensemos nisso
e não façamos aos outros o que não queremos que nos façam a nós.
Não haverá justiça entre os humanos enquanto não a estendermos
aos nossos companheiros de outras espécies. As pessoas, partidos e
movimentos que defendem a liberdade, a igualdade e a justiça para os
humanos são completamente incoerentes enquanto não as defende-
rem também para os animais. Mas o mesmo se aplica a quem defende
apenas os animais e esquece os humanos. Não faz sentido visar o bem
de uns sem visar o bem de todos. Estamos todos interligados.

Em 1 de Novembro de 1755 um terramoto e um maremoto abala-


ram e destruíram Lisboa. Foi uma catástrofe terrível, que aniquilou
milhares de vidas, além de um incalculável património arquitectóni-
co, artístico e bibliográfico, tendo comovido toda a Europa e gerado
um debate nos maiores pensadores europeus sobre as razões de um
tal acontecimento num país católico, no Dia de Todos os Santos, à
hora em que os fiéis assistiam à missa nas igrejas.

Catástrofes destas continuam a comover-nos, pela sua inesperada e


evidente brutalidade, sempre que se repetem por todo o mundo. Per-
gunto todavia se não há outras catástrofes, tão ou mais devastadoras
do que estas, das quais raramente nos damos conta e das quais somos
todos directa ou indirectamente responsáveis. Refiro-me, para não
falar senão de Portugal, a este secular deixar andar, a este inveterado
adormecimento cívico, a esta indolência ética, que deixa que o com-
padrio e a corrupção se instalem em todos os sectores da vida públi-
ca, que o poder político e o económico estejam nas mãos de castas
ao serviço das corporações mundiais, que em nome da democracia
representativa se alienem as decisões fundamentais sobre as nossas

209
Paulo Borges

vidas nas mãos de deputados com agendas partidárias pagas pelos


senhores do mundo. Refiro-me também a vivermos cada vez mais
num país sem valores fundamentais, onde homens, animais e recur-
sos naturais são apenas matéria e energia a consumir e rentabilizar.
Um país onde o Estado, o Governo, a classe política e os educadores,
desde os pais a muitos professores, se demitem de se informarem e
de formarem consciências sobre os dramáticos problemas do mundo
contemporâneo, com destaque para a iminência de um colapso eco-
lógico-social em boa parte devido à impossibilidade de se continuar
a alimentar e a haver água potável para uma população mundial que
crescentemente consome carne e lacticínios. E o pior é acharmos isto
normal, passarmos a vida distraídos ou a dizer mal sem consequên-
cias, e só sairmos para a rua em protesto, mas até agora sem alter-
nativa, quando o saque se faz mais duramente sentir nos impostos,
salários e pensões.

Esta é a catástrofe escondida e silenciosa que está connosco há sé-


culos e é bem pior que todos os maremotos e terremotos. Não deixa
por terra, num instante, milhares de mortos, mas gera ao longo dos
séculos milhões de vidas mortas, cadáveres adiados que procriam,
como disse Fernando Pessoa. Nós somos esta catástrofe e o seu epi-
centro é não darmos sequer por isso. Para dela escaparmos é urgente
um outro e bem maior terremoto que o de 1755. Um terremoto das
consciências.
1.11.2012

Segundo Kathinka Evers (Neuroética, 2011) existem quatro ten-


dências preferenciais ancoradas na biologia e neurologia humanas: 1
- egocentrismo ou auto-interesse; 2 - desejo de controle (pelo menos
do meio-ambiente imediato); 3 - dissociação a respeito daquilo de
que não se gosta ou parece ameaçador); 4 - interesse pelos outros, que
pode assumir a forma da empatia (compreensão do outro, capacidade
para se colocar intelectualmente no seu lugar), simpatia (atitude posi-
tiva para com o outro) ou antipatia (atitude negativa).

210
Quem é o meu Próximo?

Neste momento dramático da história da civilização, em que esta-


mos à beira de um colapso ecológico-social, tudo depende de desper-
tar e formar consciências em que o interesse empático e simpático
pelos outros predomine sobre as três restantes tendências. E trata-se
de ampliar a noção de outros a todos os seres sencientes, não só os
presentes, mas também os futuros, o que exige também um interesse
pela preservação dos ecossistemas. Urge passar de uma moral da pro-
ximidade (grupal, tribal, nacional, de espécie) a uma moral da larga
distância, como defende Jorge Riechmann (Interdependientes y Eco-
dependientes, 2012), ou, como prefiro, alargar a noção bíblica de pró-
ximo de modo a incluir todos os seres sencientes, presentes e futuros,
mas também todos os viventes e existentes. Uma ética e uma moral
do bem de tudo e de todos, com a devida expressão jurídica, política,
sócio-económica e ecológica. O paradigma de uma nova civilização e
de uma nova Era Axial (Karl Jaspers).

A questão é o tempo, que escasseia, para já não falar das forças


contrárias. Só um salto quântico da consciência pode ainda salvar
boa parte da humanidade. Se não se der, que os sobreviventes e mais
conscientes se preparem para construir uma nova civilização a partir
do caos e das ruínas.

A verdadeira riqueza não é o que se produz, comercializa e con-


some, não são objectos, tecnologia e serviços, não é o dinheiro. A
verdadeira riqueza é o que natural e gratuitamente existe, temos e
somos: o céu, a terra, o sol, o ar, as plantas, os rios e os mares, os seres
humanos e não-humanos, o tempo, a energia, as relações, a alegria,
a saúde, a paz, o amor e a sabedoria. A verdadeira riqueza é o que
ignoramos e desprezamos, desbaratamos e destruímos na ânsia de
produzir, consumir, acumular e rentabilizar a falsa riqueza que, como
água salgada, nos deixa sempre mais sequiosos. A verdadeira riqueza
é o que todos os dias deitamos fora para acumular coisas, dinheiro,
poder, fama e estatuto e morrer sufocados debaixo de tudo isso em
vidas confusas, miseráveis e tristes.

211
Paulo Borges

“A aparência é a essência da nossa época: aparência a nossa política,


aparência a nossa religião, aparência o nosso conhecimento”
Ludwig Fuerbach, A Essência do Cristianismo (1841).

Também Saramago disse que vivemos na “época da mentira”. Sim,


vivemos na época da aparência, da mentira e do faz de conta, em que
o marketing político e comercial, com a indispensável ajuda do nosso
auto-engano, faz tudo parecer o que não é. É assim que temos uma
aparência de serviços de saúde, de sistema educativo e de sistema ju-
dicial. Uma aparência de comunicação social livre, uma aparência de
economia, uma aparência de democracia e uma aparência de Gover-
no. E depois fazemos de conta: fazemos de conta que há realmen-
te um partido socialista e um partido social-democrata, fazemos de
conta que são diferentes e que não há alternativas; fazemos de conta
que não há nada a fazer ou que já fizemos tudo; fazemos de conta que
tudo é um fazer de conta e que não há ninguém em quem confiar, a
começar por nós mesmos; fazemos de conta que estamos vivos. E se
deixássemos de fazer de conta?

Não nos podemos limitar a procurar soluções pontuais e parciais


para os vários tipos de violência e injustiça que lesam os humanos, os
animais e a natureza. O essencial é saber que modo de organização
social, económica e política, e que forma de cultura mental e jurídica,
permite uma sociedade menos violenta, mais justa para todos - hu-
manos e animais - e mais harmoniosa com a Terra.

Na ressaca do acesso geral da população europeia-ocidental a uma


vida centrada no prazer, no consumo desenfreado e no consequente
adormecimento das consciências, quando a economia da ganância e
o planeta nos apresentam a pesada factura disso em termos de dívidas

212
Quem é o meu Próximo?

públicas e ameaça de colapso ecológico-social, torna-se mais do que


nunca urgente debater que tipo de sociedade queremos para nós e
para as gerações futuras, pensar que Portugal, que Europa e que mun-
do são mais justos e justificáveis para todos os viventes. Mal de quem
não tiver destas questões uma visão sistémica e alargada, ficando no
seu pequeno quintal mental e moral. Na realidade nada está separa-
do e passar ao lado disso é passar ao lado da possibilidade de uma
vida consciente e ética, ou seja, verdadeiramente feliz e solidária. Que
neste Natal nasça em cada um e todos nós uma visão ampla e global,
comprometida com o bem comum de todos os terráqueos e em har-
monia com a nossa mãe Natureza!

Feliz Natal para todos os meus amigos e sobretudo para todos os


meus adversários e inimigos! Amo-vos a todos e a todos os seres do
fundo do coração. Não amo tudo o que pensam, dizem e fazem, como
não amo tudo o que penso, digo e faço, mas amo em todos vós e em
mim este indomável esplendor do grande Sol da Vida que é o mesmo
em todos nós, em todos os seres e em tudo quanto existe. É por este
esplendor que, seja o que for que tenhamos feito e façamos, podemos
sempre renascer para uma vida mais sábia, justa e amorosa. É por este
esplendor que um Deus, um Buda ou um Ser Humano bom pode a
cada instante nascer no presépio do nosso coração, para o bem de to-
dos os seres. É por este esplendor que há Natal. Boas Festas a todos os
seres, humanos e não-humanos! E que os primeiros não as celebrem
devorando os segundos e esventrando os recursos e as energias da
Terra-Mãe. Bem hajam!

Na linha de Agostinho da Silva, vejo a grande vocação de Portugal


como a de construir pontes e não muros entre povos, culturas e re-
ligiões, crentes e descrentes. A vocação de inverter o processo pelo
qual nos Descobrimentos levámos a Europa ao mundo, trazendo hoje
os múltiplos paradigmas culturais planetários a uma Europa desde

213
Paulo Borges

há muito senil e decadente. Temos de fazer com que o nosso espírito


universalista e cosmopolita ensine a Europa a aprender com outras
culturas, mais saudáveis na relação com os seres vivos e a natureza.
Para tal é preciso superar os preconceitos de um patriotismo estreito
e do nacionalismo, mesmo quando se disfarce sob a máscara da lu-
sofonia. Ser português é ser cidadão do mundo e o único futuro da
lusofonia passa por libertar-se do provincianismo bacoco. Na língua
portuguesa perpassa o sopro do Universo. Assumir isso é a tarefa das
futuras gerações, que denunciarão como os nossos (des)governos e
instituições culturais estão à margem das profundas potencialidades
civilizacionais universalistas da cultura portuguesa e lusófona.

Que neste dia dos Namorados toda a profunda energia do Amor


-Paixão, livre de medo, apego e dependências, ainda mais se intensifi-
que e se transmute num poderoso e invencível caudal de Amor-Com-
paixão incondicional por todos os seres, sem qualquer excepção! Que
todo o Fogo seja Luz! Que em todas as amadas e amados amemos o
inteiro universo! Que todos os seres sejam felizes e livres de todo o
sofrimento! Que todos Despertemos!

Abundam movimentos e manifestações a favor disto e contra aquilo.


Só falta o Movimento e a Manifestação do nosso íntimo, o íntimo de
tudo. Ou seja, só falta o que nunca falta, o que nunca deixou, deixa e
deixará de estar presente. A verdade do Amor. Sem prós nem contras.

Crónica optimista de um fim de tarde em Évora: venho de partici-


par num Colóquio na Universidade encantado com a beleza e a luz
desta cidade, sobretudo ao entardecer, e penso como mete dó o que
os eurocratas e esta classe política estão a fazer com este país e com
este povo, dos melhores do mundo. Com alguma melancolia entro

214
Quem é o meu Próximo?

num bar normal e pergunto se têm algum salgado sem carne nem
peixe. A proprietária e uma cliente perguntam se sou vegetariano, eu
digo que sim e elas respondem que faço muito bem e que cada vez
comem menos carne, não só pela saúde, mas sobretudo por causa
dos animais. E tinham rissóis de cogumelos. A cereja no topo do bolo
é quando chego agora mesmo à estação, entro no bar para esperar
pelo comboio e o empregado começa espontaneamente a dizer-me
que o ser humano está a dar cabo do planeta e que não são só os ame-
ricanos, os russos e os chineses. Também os portugueses. E começa
a dizer que os caçadores em Portugal são uns exterminadores, que
matam tudo quanto se mexe. E que lhes diz isso mesmo, que são uma
corja de bandidos.

Entro no comboio sinceramente (bem) surpreendido. Alguma coi-


sa está mesmo a mudar em Portugal, mais rápido do que pensamos,
embora não tão rápido como desejaríamos.

Emerson falou da “simpatia secreta que conecta o homem a todos


os animais e a todos os seres inanimados à sua volta”, tal como entre
nós o expressa a poesia de Antero de Quental e Teixeira de Pascoaes,
entre outros. É o que Edward Wilson chamou “biofilia” e é a falta dela
que explica a tremenda agressão da civilização industrial contra os
seres vivos e a natureza, movida pela ganância de lucro resultante
dessa perda de consciência afectiva. Agressão que já está a fazer desta
civilização a maior vítima, pois a sua demência deixou de ser sus-
tentável. Preparemo-nos para um mundo novo, numa Nova Aliança
com a Terra e todos os seres.

Procuram-se seres humanos, mulheres ou homens, mas seres hu-


manos. Capazes de dar tudo, e sobretudo a si mesmos, pelo bem de
todos os seres, sem esperar nada em troca, sem achar que dão alguma
coisa e sem pensar sequer que existem separados dos outros. Respos-

215
Paulo Borges

tas para o Coração do Mundo.

Chegou a Hora de uma política politicamente incorrecta, ao ser-


viço da expansão da consciência e de uma nova cultura. Libertar os
humanos, libertar os animais, libertar a Terra. Mudar a mente, mudar
o mundo. Cuidar e curar. Não separar a luta pela democracia parti-
cipativa e pela justiça social e económica da protecção de todas as
formas de vida e do planeta. Produzir, consumir e poluir menos, tra-
balhar menos para que haja mais emprego para todos e se viva mais.
Transitar desta civilização da ganância generalizada, da opulência de
poucos e da miséria da maioria, para uma civilização da abundância
frugal para todos. Investir menos no PIB, Produto Interno Bruto, e
mais na FIB, Felicidade Interna Bruta. Passa a mensagem.

“Nenhum centralismo fascista conseguiu fazer o que fez o centra-


lismo da sociedade de consumo. O fascismo propunha um modelo,
reaccionário e monumental, que todavia permanecia letra morta. As
diferentes culturas particulares (camponesas, subproletárias, operá-
rias) continuavam imperturbavelmente a assemelhar-se aos seus an-
tigos modelos: a repressão limitava-se a obter a sua adesão verbal.
Hoje, pelo contrário, a adesão aos modelos impostos pelo centro é
total e sem condição. [...] (O centralismo da sociedade de consumo)
impôs [...] os modelos desejados pela nova industrialização, que não
mais se contenta com um “homem que consome”, mas pretende que
nenhuma outra ideologia a não ser a do consumo é doravante conce-
bível. Um hedonismo neo-laico, cegamente esquecido de todo o valor
humanista e cegamente estranho às ciências humanas”
Pier-Paolo Pasolini, Scritti corsari, Milão, Garganzi, 1975, pp.22-23.

O totalitarismo, fracassado no fascismo, no nacional-socialismo e


no estalinismo, triunfa paradoxalmente nas sociedades liberais e na
democracia representativa. O regime de pensamento único, que falhou

216
Quem é o meu Próximo?

sempre que se tentou impor pela violência política, triunfou quando se


manifestou como a realização dos nossos desejos de conforto, prazer
e bem-estar, do nosso ideal de termos tudo ao nosso dispor a todo o
momento. Mesmo que isso implique a destruição do outro, seja huma-
no, animal ou o planeta. E é este fascismo dos nossos desejos o mais
difícil de vencer, pois instaura-se disfarçado de liberdade. Lamentavel-
mente, a libertação tornou-se a mais impopular das soluções. Quando
assim é, a mudança dificilmente vem sem a catástrofe...

A palavra “cultura” vem da raiz indo-europeia kwel que significa


“revolver”, com o sentido de tornar fecundo, seja a terra ou o espí-
rito. Ser culto é ser fértil, nada tendo a ver com saber muitas coisas,
ter muitos cursos ou haver lido muitos livros. Ser culto é ser criativo
e generoso, dar tudo sem esperar nada em troca, nem sequer reco-
nhecimento, como a Natureza, o Céu e a Terra. Ser culto é morrer
e renascer, regenerar-se, sem porquê nem para quê, a cada instante,
como todas as coisas puras e livres, como essas ervinhas e visões sel-
vagens que rompem o betão e o asfalto material e mental, os coletes
de forças com que uma civilização castrada busca sufocar e amorta-
lhar o espírito e a Terra.

Na televisão e na restante comunicação social o pouco tempo e es-


paço que resta da lavagem ao cérebro publicitária e das distracções
com telenovelas, concursos e futebol continua a ser constantemen-
te preenchido por políticos, economistas, comentadores e entrevis-
tadores que só falam de mais do mesmo, debates entre um gover-
no e uma oposição igualmente falhos de ideias e alternativas, tricas
politiqueiras e discursos económico-financeiros segundo o mesmo
modelo que nos conduziu ao abismo em que estamos. Ligar a tele-
visão e até ler muitos jornais tem quase sempre um efeito repulsivo,
hipnótico ou soporífero. Ninguém fala das questões contemporâneas
realmente importantes e urgentes, em termos nacionais e mundiais,

217
Paulo Borges

que preocupam a comunidade científica e as consciências mais des-


pertas. Como por exemplo o crescente mal-estar na civilização e a
falta de sentido para a vida, o aumento dos suicídios e dos compor-
tamentos antisociais (a começar pelos das elites no poder), o esma-
gamento das populações não só pelo desemprego, mas também pelo
trabalho e pela burocracia, a ameaça de repetição do pior do século
XX com o renascer dos nacionalismos e da xenofobia, a urgência de
uma democracia participativa que permita aos eleitores controlar os
eleitos e impeça a corrupção, a necessidade de uma nova economia
que não acumule mais riqueza numa minoria, não empobreça e ex-
clua a maioria e não destrua o planeta e os seres vivos, o desafio de
tornar as nações e as regiões mais sustentáveis em termos alimentares
e de energias renováveis, o imperativo de inverter a destruição ace-
lerada da biodiversidade, dos ecossistemas e da diversidade cultural,
medidas drásticas para impedir as mudanças climáticas que podem
causar a extinção da própria humanidade, o colapso do sistema de
saúde e educativo e da escola como formadora de consciências, a tre-
menda nocividade do consumo crescente de carne e lacticínios, os
direitos humanos, dos animais, da natureza e das gerações futuras
de humanos e não humanos. Temos mesmo uma classe política, de
comentadores e de jornalistas que ultrapassou há muito o prazo de
validade. E arriscamo-nos a seguir o mesmo triste caminho se não
mudamos urgentemente.

Penso na multidão de escravos do trabalho, que vendem vida, cor-


po e alma a troco de frustração e nada. Penso na multidão de escravos
do desemprego, cujo maior sonho é serem escravos como os outros.
Penso na muito maior multidão dos escravos em campos de concen-
tração à espera do abate para alimentarem os outros escravos. Penso
nos escravos da ganância, da avareza e da gula, incluindo esses outros
escravos que são os seus donos. Penso nos escravos da ignorância, do
egoísmo, do conforto e da indiferença que somos todos nós, a fazer
de conta que isto é normal ou não existe, a tentar tirar proveito disso,
a convencer-se de que nada há a fazer ou a anestesiar-se para não

218
Quem é o meu Próximo?

doer muito. Penso nisto tudo e desejo que o dia da Grande Libertação
comece agora mesmo e chegue a todos.

Consegues sentir a dor de um prisioneiro a ser torturado, de um


animal a ser levado para o abate ou de um condenado à morte? Sentes
a dor e a angústia de um cão acorrentado num canil, de um elefante
a ser torturado no circo ou de um desempregado com família para
alimentar? Tens a coragem de te imaginar no lugar de uma vítima de
violação ou violência doméstica, de uma criança escrava do trabalho
ou de um coelho com os olhos queimados para experimentar cosmé-
ticos? És capaz de te pôr no lugar de um touro a ser espetado numa
arena, de uma mãe a perder os filhos num bombardeamento ou de
um sem-abrigo numa noite gelada? És capaz de sentir a dor da terra,
das florestas, das águas e dos ares onde a biodiversidade se extingue
às mãos da civilização pós-industrial? És capaz de te colocar no lugar
do outro, de todos os outros, como se fosses tu próprio? És capaz de
sentir tudo isso como sofrimento, sem importar a forma, o aspecto e
o nome de quem o padece? Consegues não achar isso normal e vê-lo
como o maior dos absurdos? E tens a ousadia e o destemor de desejar
pôr fim a tudo isso e de te comprometer a fazeres tudo o que estiver
ao teu alcance para tal, juntando-te a todos os que em todo o mundo,
desde há muito e cada vez mais, caminham no mesmo sentido? Co-
meça então agora mesmo e sê bem-vindo à Revolução da consciên-
cia ética global! Parabéns, pois renasceste neste preciso instante para
uma Nova Vida!

Para mim isto é muito claro. Se queremos uma real mudança de pa-
radigma a nível mental, ético e civilizacional, que tenha uma natural
expressão política, as três causas que ocupam o centro das preocupa-
ções contemporâneas – humana, animal e ambiental - devem conver-
gir cada vez mais. Os novos movimentos sociais, que defendem uma
democracia participativa, a justiça social e económica e o aprofun-

219
Paulo Borges

damento dos direitos humanos, devem convergir entre si e alargar as


suas preocupações aos animais, que são as maiores e mais indefesas
vítimas da opressão e exploração a nível planetário. O movimento de
defesa dos animais e as associações animalistas devem ultrapassar as
querelas internas, convergir entre si e com os novos movimentos so-
ciais, abrindo-se cada vez mais à natural inserção da causa animal na
luta por uma emancipação global de todos os seres vivos, humanos e
não humanos, de todas as formas de opressão e exploração. E ambos
os movimentos, de defesa dos humanos e dos animais, não podem
esquecer o cuidado do planeta, promovendo uma ecologia profunda
que passa por uma mutação radical do modelo de desenvolvimen-
to económico e energético, pois sem isso entraremos num colapso a
curto prazo. E tudo isto passa por uma mutação profunda da mente,
que deve cultivar estados de consciência cada vez menos dualistas e
mais empáticos com o outro, seja o humano, o animal ou o mundo
natural. É necessária uma nova cultura e uma nova educação, a do
desenvolvimento mental e emocional.

Muitos hoje pretendem ser activistas, só por estarem visivelmente


activos, quando não agitados, em prol de uma dada causa, humana,
animal ou ambiental. Mas a verdadeira acção é global, do pensamen-
to, da palavra e do corpo, e a sua qualidade e resultados dependem da
motivação. Se o que move os pensamentos, palavras e acções físicas
é o ódio, a cólera ou o rancor contra alguém, se o que os move é o
desejo de protagonismo, poder, fama e reconhecimento, se o que os
move é a mentira, a competição com outros activistas e o desejo de
autopromoção - individual ou do nosso grupo, associação ou partido
- , então, salvo se houver vidas em jogo, é melhor nada fazer, pois tudo
o que assim se fizer será parte do problema e jamais da solução. Ja-
mais se pode servir uma causa justa com uma acção injusta. A acção
justa é sempre um fim em si e nunca um simples meio. A acção justa
é livre de tensão, conflito e violência. Visa sempre o bem de todos,
mesmo quando aparentemente toma partido só por alguns, repousa
no não agir egocentrado, nunca se publicita e jamais espera algo em

220
Quem é o meu Próximo?

troca. A acção justa é a dança do pensamento, da palavra e do corpo


na grande harmonia do mundo.

Nestes tempos de incerteza, confusão e descrença nas possibilida-


des do ser humano, faz bem recordar que temos em nós a mesma
humanidade, o mesmo corpo, o mesmo sangue e a mesma alma dos
grandes sábios, santos, mestres, visionários e heróis éticos da huma-
nidade, como os rishis védicos, os profetas hebreus, Mahavira, Buda
Gautama, Confúcio, Lao Tsé, Sócrates, Jesus Cristo, Rumi, São Fran-
cisco de Assis, Gandhi, Martin Luther King, Nelson Mandela, Simone
Weil, Agostinho da Silva, Madre Teresa de Calcutá, Dalai Lama, Van-
dana Shiva e tantos outros célebres ou anónimos homens e mulheres
que não desistiram de se esforçar pelo despertar, a virtude e a perfei-
ção pelo bem de todos. Faz bem recordar que somos herdeiros do seu
exemplo e da sua mensagem e que o espírito e o coração que neles
se abriram são o nosso próprio espírito e coração. Faz bem recordar
que a humanidade tem uma infinita capacidade de dar à luz estes re-
bentos, flores e frutos e não apenas ditadores e generais sanguinários,
presidentes, ministros e juízes corruptos, especuladores financeiros,
administradores gananciosos, deputados medíocres, assassinos, vio-
ladores, traficantes de droga, toureiros, multidões alienadas e consu-
midores inconscientes e ávidos de animais e de produtos obtidos à
custa do trabalho escravo de homens, mulheres e crianças (mas faz
também bem e é fundamental recordar que todos estes têm em si as
mesmas potencialidades que os melhores filhos da humanidade e po-
dem a cada instante mudar e ser os sábios, santos, mestres e heróis de
amanhã). Faz bem recordar que mulheres e homens exemplares ou a
caminho de o ser existiram, existem e existirão, que fizeram, fazem e
farão sua a diferença que queriam, querem e quererão ver no mundo,
sem se deterem a pensar se será utopia caminhar rumo à plenitude da
consciência e da vida. Faz bem e dá uma infinita energia pensar e sen-
tir que dia a dia podemos fazer nosso o seu caminho e, acima de tudo,
colocar efectivamente os pés no mais ínfimo rasto dos seus passos.

221
Paulo Borges

Que dia poderá homenagear uma Mãe? Que efeméride poderá ce-
lebrar com devida justiça a figura humanamente mais evocativa do
Amor incondicional? E quem poderá recordar o íntimo vínculo da
Mãe com a Matriz e a Matéria viva e doadora de vida, sugerido na
palavra latina “mater”, que “designava primitivamente o tronco da
árvore por onde sobe a seiva que alimenta os ramos como uma mãe
nutrindo os seus pequenos” (Odon Vallet). A Mãe evoca a misterio-
sa génese uterina do ser, essa originária e nocturna profundidade da
vida pré-natal cuja fragrância ou saudade não deixa de assombrar a
diurna superficialidade da vida convencional. Humana, divina ou
cósmica, é à Mãe e ao húmus matricial do ser que recorremos nas
crises da razão masculina e fáustica, como aquela em que a presente
civilização se dilui e regenera. Bem hajam todas as Mães, todas as
silenciosas e amorosas nutrizes do mundo e dos seres.

O nível de evolução de uma sociedade mede-se não só pela medida


em que as necessidades fundamentais da sua população são satisfei-
tas, mas também pelo nível geral do sentimento de autorealização dos
seus membros e pelo cuidado que nela se presta aos mais fracos e
excluídos, como as crianças, os idosos e os animais. O mesmo nível
de evolução mede-se, em última instância, pelo grau de felicidade e
alegria de ser da população, o qual resulta da satisfação daquelas ne-
cessidades, do sentimento de vida realizada e da atenção altruísta aos
mais vulneráveis. Cuidar dos outros é condição para uma vida plena.

Concentra-te no que és, não tanto no que tens ou no que te falta,


pois no que és possuis infinitamente mais do que tudo o que tens
ou te falta.

Desde que te não falte o indispensável, concentra-te antes no que

222
Quem é o meu Próximo?

falta a todos: democracia participativa, que garanta o controle dos


eleitos pelos eleitores, justiça social, uma economia não de merca-
do mas do bem comum, um estatuto jurídico que proteja os animais
de abandonos e maus tratos, uma política de protecção da natureza,
acesso livre e gratuito aos cuidados de saúde, à cultura e à educação,
um sistema de justiça equitativo e rápido, menos tempo de trabalho
para cada um, mais emprego para todos e mais tempo livre num Por-
tugal ético, saudável e sustentável onde humanos e animais sejam fe-
lizes. Um outro mundo é possível e cada um de nós é o seu criador.

A política do passado, de esquerda, centro ou direita, é a política da


pretensão do ser humano ser o centro e o dono do mundo, em nome
de si mesmo ou de Deus. A política do futuro já presente é a política
da conexão entre todos os seres, humanos, animais e plantas, no seio
dos ecossistemas, da Terra e do cosmos.

A política do passado conduziu e conduz à iminência do colapso


ecológico-social, à escravidão e sofrimento de humanos e animais e
à devastação da Terra. Cabe à política do futuro já presente deter e
inverter este processo e transitar para uma nova civilização, onde o
ser humano seja o servidor do bem comum de todos, humanos e não
-humanos, em harmonia com a Terra.

A política do passado, embora com honrosas excepções, atraiu


maioritariamente pessoas ávidas de poder, com mentes e corações
estreitos. A política do futuro já presente é e será feita por aqueles
que tiverem a mente e o coração mais amplos e abertos. É e será uma
política da consciência global e do amor universal, que em todas as
decisões concretas visará sempre o maior bem possível de tudo e de
todos. Se isto te parece impossível ou utópico tem cuidado. Estás do-
minado pela política do passado. Liberta-te e junta-te a nós. O Gran-
de PAN renasceu.

223
Paulo Borges

A política do passado, da esquerda à direita, desistiu de mudar o


mundo. Converteu-se numa serva da economia e aburguesou-se em
reivindicações pontuais para melhorar a vida de classes, grupos e in-
divíduos. E centrou-se apenas nos interesses humanos, desprezando
animais e natureza. Essa política está a conduzir o planeta ao caos
ecológico-social.

A política do futuro já presente visa a mudança da civilização, em


prol do bem comum a tudo e todos, humanos, não-humanos e ecos-
sistemas. Só essa política pode salvar a própria humanidade dos des-
varios de que é responsável.

A política do futuro já presente tem visão ampla e pés bem assentes


na terra. Dá passos concretos sem perder de vista os fins últimos: fa-
zer da Terra um lugar melhor para todos os seres. Para isso defende a
transição para uma economia de recursos e do bem comum, demo-
cracia participativa, sustentabilidade local e regional, menos trabalho
para cada um e mais emprego para todos, reconhecimento de direitos
aos animais e ao mundo natural, ecotaxas sobre o impacto ambiental
e muito mais coisas.

É só nesta política que acredito e é com ela que me comprometo.


A começar por onde estou: Portugal e Lisboa. E tu? Vais continuar a
deixar tudo na mesma, a criticar sem fazer nada e distraído à espera
que a morte chegue?

“Um político pensa na próxima eleição, um homem de Estado na


próxima geração” – James Freeman Clarke. E uma consciência mini-
mamente fraterna e desperta pensa no bem comum a todos os seres,
humanos e não-humanos, presentes e futuros, bem como no respeito
pela Terra, sem discriminações religiosas, étnicas, nacionais, linguís-
ticas, sociais, sexuais ou de espécie. O presente e o futuro do mundo
dependem de se promover cada vez mais, pela cultura, pela educa-
ção e pela intervenção cívica, o surgimento de consciências e cora-

224
Quem é o meu Próximo?

ções formados em liberdade, igualdade e fraternidade, mas globais e


universais. É este o desafio da Política da Consciência, a política do
Futuro já Presente. É este o desafio de um novo Portugal, uma nova
Europa e um Novo Mundo.

A maioria dos problemas e violências do mundo – problemas e vio-


lências na relação entre os humanos e destes com as demais formas
de vida e a Terra - tem a ver com a percepção do que é “meu” e “nos-
so”. Mas “meu” e “nosso” são uma extensão da percepção do “eu” e do
“nós” como identidades permanentes, separadas e independentes do
“outro” e dos “outros”. E se não houver essa permanência, separação
e independência, senão enquanto ficção que nos habituámos a tomar
por real? E se “eu” e “nós” não existirem em si e por si, mas antes
em interdependência e interconexão com o todo o “outro” e todos os
“outros”? Com tudo e com todos? Que acontece ao “meu” e ao “nos-
so”, ao “teu” e ao “vosso”? E que sentido tem esta história milenar de
problemas e violências senão o de ser o pesadelo de uma percepção
distorcida do qual tardamos em despertar? A tarefa da Grande Polí-
tica do futuro já presente é a de reorganizar o mundo – em termos
culturais, educativos, sociais, económicos e ambientais - em função
do despertar da consciência para o real: não o ser, mas o entre-ser, a
interconexão de tudo e de todos, de todas as formas de vida no seio
da Terra e do universo. Mas para isso é necessário que haja um efec-
tivo despertar da consciência. A macropolítica da transformação do
mundo tem de caminhar a par da micropolítica da revolução interior,
que é uma obra de cada instante. De outro modo, a história e o pesa-
delo repetem-se e todas as nossas melhores esperanças se frustram e
convertem em decepções. Como até agora.

Cada corpo é um fruto da árvore do mundo. A forma é a cada mo-


mento diferente e única, mas a seiva que o anima circula por todos
os corpos e vidas. Por isso aflorar a sua intimidade é colher sabores,

225
Paulo Borges

fragrâncias e estremecimentos de tudo, desde o coração da Terra ao


mais longínquo astro. É esse um dos segredos da sexualidade e do
erotismo. E é isso que os revela sagrados.

Não olhes com olhos profanos para nada. Lembra-te que és íntimo
parente de tudo. Inseparável da terra que pisas, do céu que a tudo
engloba, do sol que te aquece, da chuva que te molha. Irmão de cada
folha, de cada flor, de cada fruto. Das pedras ossos do teu corpo vasto
como o universo. Irmão da alegria do cão, do silêncio atónito do gato,
do zumbido do mosquito, do prodigioso, lento e brilhante sulco da
lesma. Irmão do rugido do leão e do nervoso salto da gazela. Irmão
da serpente que silva e da humanidade que pensa. Irmão das estrelas
e das galáxias. Irmão do tempo que te gera e desfaz. Irmão da vida, da
morte e do que nunca nasce nem morre em tudo o que continuamen-
te nasce e morre. Tudo isso és Tu. Tudo isso é a tua História de encan-
to e maravilha. Que nunca começou e jamais acabará. Bendit@ sejas!

Talvez em tudo o que conscientemente desejamos inconscientemen-


te desejemos tudo, ou seja, a satisfação plena do desejo e a cessação da
sua constante carência. Talvez seja por isso que nunca nos satisfaça
plenamente o que temos e obtemos, a par do medo de o perdermos.
E talvez no fundo não desejemos senão o que desde sempre somos, o
todo que há em cada um de nós. Ou seja, o que jamais se pode ganhar
ou perder. E talvez só se descubra isso quando cessar todo o desejo e
deixarmos de esperar obter a plenitude que a cada instante em nós
canta. Então a sede se revelará fonte. E o amor será possível.

As tecnologias da comunicação tornam-nos mais próximos do que


é distante e mais distantes do que é próximo. Fascinados por acom-
panhar em tempo real o que se passa em todo o mundo, frequente-

226
Quem é o meu Próximo?

mente passamos ao lado de nós mesmos e do(s) que nos rodeia(m).


Na verdade tudo nos é íntimo, mas arrisca-se a ser mera abstracção
o universo que não for tocado na vida que connosco mais imediata-
mente convive.

Dois dos maiores obstáculos à transformação do mundo, para já


não falar naqueles que, por interesse ou hábito, não o querem trans-
formar, são a ausência ou os limites da vontade de autotransformação
daqueles que o querem transformar. Se queres mudar tudo, muda-te
primeiro que tudo.

Como escreveu Hannah Arendt, o geral preconceito contra a po-


lítica é um considerável factor político. A sua consequência é afastar
da tarefa de organizar de modo mais justo o mundo aqueles que a
poderiam exercer em prol do bem comum e aqueles que os poderiam
apoiar, abandonando a política aos que são meros agentes de obs-
curos interesses individuais e de grupos. Na verdade, o preconceito
contra a política e o desinteresse por ela é uma das piores formas de
fazer política. O estado da nação é a prova evidente disso.

O interesse pela política não pode contudo limitar-se ao exercício


do voto e exige antes um compromisso de toda a vida no exercício de
uma cidadania cada vez mais consciente e ética, que não se limite à
busca do bem humano, e se estenda ao bem do planeta e de todas as
formas de vida consciente e senciente. A verdadeira política deve ser
hoje inseparável de uma cultura da consciência global, a promover
por um processo contínuo de educação e formação dos cidadãos, a
começar pelos educadores e formadores. Chegou a hora de uma polí-
tica da consciência e da bondade.

227
Paulo Borges

Esmagadas sob o peso do trabalho, da burocracia, de funções que


as não realizam, de preocupações que as definham e de distracções
que as entorpecem, as pessoas e as sociedades deserotizam-se e de-
caem no conformismo, no tédio, no cansaço e no desgosto de viver. O
espírito do capitalismo produtivista e agora financeiro corta relações
com a força sagrada de Eros, o impulso que abre o ego individual e
colectivo para além da dualidade, da avidez, da ganância e da posse,
destrói as muralhas do medo e se funde com o Outro, divino, huma-
no, animal, cósmico, divino-humano-animal-cósmico. Em ruptura
com Eros, a vida pública e privada divorcia-se da Vida e a festa, o
canto e a alegria desertam as cidades e as nações cansadas dos hu-
manos, governadas por homens engravatados e cinzentos para quem
todos os viventes são meras cifras e números e tudo se reduz ao maior
lucro e ao menor prejuízo.

Mas a força libertadora de Dioniso “lysios” e do grande Pã já emer-


gem do fundo sem fundo dos nossos corações e por ela restaurare-
mos e renovaremos a grande aliança com a Vida e todos os viventes
que devorará num grande incêndio a falsa ordem desta civilização
envelhecida. Que Eros desperte de olhos bem abertos e suas flechas
de fogo trespassarão todos os véus da ilusão. O universo, o planeta e
os viventes não são dos homens e não pertencem às corporações da
ganância que manipulam governos-fantoches. A Terra e o Céu cele-
brarão o seu eterno Amor sobre as ruínas de todas as ficções. E torna-
remos a ser o que sempre fomos e somos: homens-animais-deuses na
Festa da Vida, da Morte e da Metamorfose. Evoé!

Não acaricies apenas teclas, não contemples apenas fotos e ima-


gens, não te sepultes no virtual. Acaricia rostos, mãos, corpos, huma-
nos e animais. Acaricia a terra, as árvores, plantas e pedras. Mergulha
nua ou nu nas águas. Contempla e afunda-te no céu, nos astros, na
luz, nas trevas. Sente e descobre o sol e a lua no teu corpo. Regressa
ao imediato dos sentidos, do ver face a face, da escuta, do toque, do
cheiro, do sabor, da palavra, do coração. Destecla e descomputoriza

228
Quem é o meu Próximo?

a Vida. Não faças da net o teu sepulcro, não sacrifiques a comuni-


cação à comunhão. Respira a energia do mundo. Salta e rejubila na
dança erótica de todos os seres e coisas. Embriaga-te de sensibilidade
e lucidez. Não faças o jogo do faz de conta. Abandona uma vida de
imitação. Esquece estas mesmas palavras, desperta e vive. Liberta-te
na liberdade que desde sempre nos habita. Abandona-te e deixa que
tudo em ti transpire por cada poro.

A regeneração da humanidade passa centralmente pela reconcilia-


ção do masculino e do feminino, em cada um de nós e na relação
entre os sexos. Isto abrange o amor homossexual, pois o masculino e
o feminino são polaridades energéticas e psíquicas (e não condições
físicas ou biológicas) que toda a mulher e todo o homem têm em si,
podendo o feminino predominar num homem e o masculino numa
mulher. Uma relação aparentemente homossexual é no fundo sempre
heterossexual, pois no casal há sempre quem seja interiormente mais
feminino ou mais masculino, o que pode variar consoante a evolução
dos indivíduos.

O mais importante é curar a ferida aberta entre o masculino e o


feminino em cada um de nós e nas relações inter-pessoais. Superar de
vez o machismo e o feminismo masculinizante e ressentido. Integrar
o antigo matriarcado e o patriarcado hoje em colapso numa síntese
superior. Restabelecer a integridade do Humano, macho-fêmea, an-
drógino. E assim reunir o lado esquerdo e direito do ser e do cérebro,
a razão e a sensibilidade, a inteligência e o amor-compaixão, a acção e
a contemplação, o Céu e a Terra. O côncavo e o convexo.

É disso que depende uma nova Cultura e uma nova Civilização, que
restaure a harmonia da humanidade com a Terra, o Cosmos e todos
os seres. Pois em tudo e todos – humanos, animais, plantas, minerais
– se manifestam as duas inseparáveis polaridades da sagrada dança do
Eros primordial. Isto é urgente em todas as áreas, da espiritualidade
à cultura e à política. Basta do que seja parcial. É a Hora do Integral.

229
Paulo Borges

Regozijemo-nos por tudo o que de bom está a acontecer no mundo,


neste preciso momento e a cada instante. Regozijemo-nos por todos
os seres que estão bem, com saúde, paz, alegria, amor e felicidade.
Regozijemo-nos por todos os humanos que se contentam com as coi-
sas simples da vida, não desejam mal a ninguém e fazem todo o bem
possível. Regozijemo-nos por todos os animais que correm, voam,
nadam ou rastejam livres. Regozijemo-nos pela beleza silenciosa e
selvagem das florestas, rios, montanhas, mares, ventos, céus e astros
que sempre triunfarão da violência insensata dos humanos.

Se virmos bem, muito mais de bom acontece ou pode acontecer no


mundo do que a intoxicação dos media e do nosso pessimismo nos
leva a crer. E mesmo o que nele há de pior pode sempre ser transfor-
mado e melhorado. Cultivemos a alegria como a primeira e funda-
mental das nossas acções. Uma alegria que não nos distraia, contudo,
do muito que há a fazer para mudar a situação dos que vivem na dor,
na tristeza e na opressão, humanos e não-humanos, sem qualquer
discriminação. Mas que seja apenas essa alegria, uma alegria cons-
ciente e amorosa, uma alegria transbordante e contagiante, que nos
conduza a intervir onde for mais necessário, nunca a raiva, o rancor
e o ressentimento. Num mundo entristecido pela ganância, pelo or-
gulho, pela inveja, pela avareza e pelo ódio, só a alegria pelo bem, real
ou possível, nosso e dos outros, é revolucionária.

Não procures o sofrimento, mas também não o rejeites. Quando


aparecer, regozija-te por surgir em ti e não em outrem. Abraça-o, não
lutes contra ele nem o deixes fora de ti. Faz o mesmo com todo o
sofrimento que vires nos outros: inspira acolhendo-o no mais fundo
de ti mesmo, converte-o na luz que és e expira oferecendo-a a todos.
Deixarás então de sofrer com o sofrimento, que se revelará o início
da mais imprevista, pura e transbordante alegria. Que seja ela que te
conduza em toda a intervenção no mundo exterior.

230
Quem é o meu Próximo?

“É a Hora!”, escreveu Fernando Pessoa no final da “Mensagem”. É


a Hora de deitar por terra todos os muros de Berlim, exteriores e in-
teriores. É a Hora de deitar por terra tudo o que separa: o interior e
o exterior, o hemisfério esquerdo e o hemisfério direito do cérebro,
a razão e a sensibilidade, a intuição e a lógica, a mente e o corpo, a
mulher e o homem, o masculino e o feminino, o céu e a terra, o tem-
po e a eternidade, o humano e o animal, as causas humana, animal e
ambiental, a direita e a esquerda, o sagrado e o profano, o grande e o
pequeno, o todo e a parte, o vazio e o pleno, os crentes e os descren-
tes, a transcendência e a imanência, a espiritualidade e a política, a
natureza e a cultura, o Norte e o Sul, o Oriente e o Ocidente. E tudo o
mais que a ficção do pensamento e da linguagem divide para definir.

Na verdade nada disto alguma vez existiu separado, a não ser nas
mentes que constroem muros por não reconhecerem pontes. Deixa
ruir o muro de Berlim em ti e renascerás aquele por quem o mundo
espera. Que o muro de Berlim em todos caia e nada será igual à face
da terra. A Hora é Agora.

“As nossas crianças aprendem na escola a ler, escrever, matemática,


ciência e outras matérias que as podem ajudar a ganhar a vida. Mas
muito poucos programas escolares ensinam os jovens como viver –
como lidar com a cólera, como reconciliar conflitos, como respirar,
sorrir e transformar as formações internas [pensamentos e emoções].
Devemos encorajar as escolas a exercitar os nossos alunos na arte de
viver em paz e harmonia”
Thich Nhat Hanh.

Uma das bases mais evidentes da falência do actual sistema é a edu-


cação. As famílias, ou seja, nós todos, pouco mais fazemos em geral
do que orientar as crianças e jovens para se tornarem iguais aos adul-
tos que somos, supostamente mais experientes e conhecedores, mas

231
Paulo Borges

que na verdade quase só sabemos como competir e trabalhar para


sobreviver e consumir, distrairmo-nos de vez em quando para voltar
à rotina de sempre e ser infelizes a vida toda. E depois esperamos que
a escola continue o mesmo processo. O resultado é, mais do que o
insucesso escolar, o insucesso da escola para cumprir uma verdadei-
ra função educativa e o crescente mal-estar nesta civilização, onde
as potencialidades mais profundas do ser humano, como a expansão
da consciência, a criatividade, a amizade e o amor desinteressados, a
generosidade e a partilha, a empatia com a natureza e todas as formas
de vida, são recalcados pela pressão familiar, escolar, social e profis-
sional, dando lugar a seres divididos, em luta contra o melhor de si
mesmos e por isso em constante conflito com os outros, que morrem
com remorsos de não haver vivido plenamente. Necessitamos urgen-
temente de outras escolas e de outra escola, mas isso não vai aconte-
cer, globalmente, enquanto a sociedade estiver dominada pela eco-
nomia de mercado e pela ganância capitalista, da qual somos todos
cúmplices e responsáveis. Não basta lutar por mudanças sectoriais
sem pôr em causa a estrutura fundamental do sistema.

Temos por certo e evidente o mais duvidoso: sermos um eu distin-


to e separado de tudo o resto, fechado nos aparentes limites do cor-
po, das sensações, das percepções, das volições e dos pensamentos.
É por isso que nos consideramos mais reais e mais valiosos que os
outros e procuramos primeiro que tudo satisfazer os nossos interes-
ses e desejos, por mais fúteis e prejudiciais que possam ser para nós,
os outros seres e o planeta. Quando muito estendemos um maior ou
menor grau de importância, amor, amizade ou simples consideração
ética àqueles com que mais nos identificamos e que igualmente nos
consideram: entes próximos, amigos e membros do mesmo grupo,
empresa, clube, partido, nação, religião ou espécie. Mas de fora fica
sempre o maior e imenso número dos outros, perante os quais sen-
timos indiferença ou hostilidade. De fora fica sempre quase todo o
universo. E é esta a raiz de todos os nossos problemas e males, na
relação com os seres humanos e não-humanos e com o planeta. É

232
Quem é o meu Próximo?

esta a raiz de todo o sofrimento que causamos e padecemos e a causa


profunda do fracasso desta civilização. Ignoramos a nossa interde-
pendência de tudo e de todos e, por falta de uma sabedoria que não
é mero conhecimento intelectual, padecemos de um défice brutal de
amor, compaixão e amizade em relação aos seres e à vida em todas as
suas manifestações. E a solução para isto não pode vir só do Direito,
da Política ou da Economia, que por natureza apenas tratam sintomas
e não vão às causas profundas. A solução para isto também não vem
da mera crença religiosa. A solução para isto é uma reviravolta total
do mais íntimo do ser e da consciência, que pode ser súbita ou gra-
dual. A solução para isto é educarmo-nos nessa e para essa reviravolta
e sem ostentação nem proselitismo sermos exemplo dela para todos,
em particular para os mais jovens. A questão está em saber se real-
mente queremos que haja solução. Porque dá muito trabalho. Implica
a morte do ego, esse tirano de quem somos todos súbditos. Despir
todas as máscaras e disfarces do egocentrismo. Voltar o Carnaval do
avesso. E ressuscitar a nossa natureza profunda desta vida de cadáve-
res adiados que procriam, como disse o poeta.

O movimento de defesa dos direitos dos animais é uma extensão


natural e irrecusável do movimento de defesa dos direitos humanos.
É por isso que, do mesmo modo que não é coerente defender os di-
reitos humanos sem defender os direitos dos animais, também não
faz sentido defender os dos animais sem defender os dos humanos.
O movimento de defesa dos animais não pode isolar-se e abandonar
o projecto de uma sociedade mais justa e equitativa para todos, hu-
manos e não humanos, que por sua vez não pode esquecer a defesa
dos ecossistemas e da Terra, da qual todos os seres vivos igualmente
dependem. E isso passa por uma alternativa de fundo ao modelo
dominante de crescimento económico, que nega o valor intrínseco
de todas as formas de vida, humanas e não humanas, bem como
dos recursos naturais, convertendo-os em meros objectos e maté-
rias-primas ao serviço do maior lucro possível para um pequeno
número de indivíduos e corporações. O planeta e os seus habitantes

233
Paulo Borges

não aguentam mais isto.

É também por isso que chegou a hora de integrar as lutas secto-


riais num mais amplo Movimento, de libertação global dos viventes,
humanos e não humanos, e da Terra, das garras do neoliberalismo
selvagem. Urge não separar as causas animal, humana e ambiental,
que na verdade são uma só. É necessário subordinar a economia
à política, a política à ética e a ética a uma nova cultura, inspirada
por um novo paradigma, o da interconexão de todos os seres, sen-
cientes, viventes e existentes, o da interdependência de patas, asas,
mãos, barbatanas, folhas, ares, mares, rios e terra: o paradigma da
grande fraternidade cósmica. E isso é Já. A Hora é Agora.

Abundam nos dias de hoje todo o tipo de ideias confusas, fantasis-


tas e delirantes sobre o que é um caminho “espiritual”, vindas sobretu-
do de quem faz saladas e cocktails espirituais, esotéricos ou místicos
com elementos díspares das várias tradições da humanidade, descon-
textualizados e combinados por sua conta e risco (e risco de outros)
e sem a mínima orientação de mestres, professores ou instrutores
credíveis. São essas saladas e cocktails que todo o tipo de self-made
gurus vende no grande bazar do nosso tempo, onde a mercantiliza-
ção também chegou às coisas do espírito e onde, sob o rótulo da New
Age e de uma suposta evolução colectiva caída do céu, se pretendem
legitimar todos os delírios.

Há todavia indicadores básicos e seguros, atestados pelas grandes


tradições da humanidade e baseados na experiência milenar de pra-
ticantes evoluídos, de que se segue um caminho “espiritual”, ou seja,
não religioso, mas de emancipação e desenvolvimento da consciência
para além da ficção do ego e das ficções do ego. Um deles, presente
na via do Buda, é o de nos estarmos progressivamente a emancipar
das oito preocupações mundanas: apego ao ganho e aversão à perda,
apego ao prazer e aversão à dor, apego ao elogio e aversão à censura,
apego à fama e aversão ao desprezo. Isto, a par do crescimento de

234
Quem é o meu Próximo?

um amor e compaixão incondicionais por todos os seres, humanos


e não-humanos, incluindo adversários e inimigos, é um sinal seguro
de que, nestes tempos confusos de tantos falsos profetas, não nos es-
tamos a auto-enganar nem a enganar os outros.

Uma meditação budista tradicional, metta bhavana, a meditação


do amor altruísta, está a ser usada pelos neurocientistas para estudar
o efeito deste sentimento sobre a mente, o corpo e o comportamento
humanos. Consiste em começar por nós mesmos, visualizando uma
luz no coração onde ao inspirar todo o nosso sofrimento se absor-
ve e dissipa, para na expiração a irradiarmos impregnando-nos de
luz, paz e felicidade. Alargamos depois a prática a entes queridos que
visualizamos diante de nós, inspiramos o seu sofrimento para os li-
bertarmos dele e, ao expirarmos, enviamos-lhes toda a paz, toda a
felicidade e todo o bem. Continuamos depois alargando a experiên-
cia a conhecidos, a desconhecidos e àqueles que vemos com aversão,
até abrangermos todos os seres vivos, humanos e não-humanos, em
todo o universo.

Uma experiência conduzida por Barbara Fredrickson, com um


grupo de pessoas que nunca haviam praticado meditação e que pra-
ticaram metta bhavana vinte minutos por dia durante sete semanas,
mostrou que ao fim deste tempo, e por comparação com um grupo
de controle de pessoas que nada praticaram, os primeiros sentiam
mais amor, empenho nas actividades quotidianas, serenidade, alegria
e muitas outras emoções positivas. Estes efeitos estenderam-se ao
longo do dia e aumentaram à medida que o tempo passava. Por outro
lado, verificou-se que este exercício aumenta o tónus vagal (relacio-
nado com a actividade do nervo vago, que liga o cérebro ao coração e
a outros órgãos). A investigação constata que pessoas com um tónus
vagal elevado se adaptam melhor física e mentalmente a circunstân-
cias em mutação e são mais aptas a regular os processos fisiológicos
internos (açúcar no sangue, resposta às inflamações), tal como as
suas emoções, atenção e comportamento. Estão menos sujeitas a cri-

235
Paulo Borges

ses cardíacas e acidentes vasculares cerebrais, têm o sistema imunitá-


rio mais robusto e contraem menos diabetes e vários tipos de câncer.

Perante isto, o psicólogo Paul Ekman propõe que se criem “ginásios


do amor altruísta”. A redescoberta da meditação confirma-se como a
grande revolução do século XXI, a revolução silenciosa. Vamos prati-
car? (Muita informação sobre o assunto no último e excelente livro de
Matthieu Ricard, Plaidoyer pour l’altruisme. La force de la bienveillan-
ce, Paris, NiL, 2013)

Porque tememos a morte e não a vida e a existência? A vida e a


existência são menos estranhas, desconhecidas e imprevisíveis do
que a morte? Viver e existir é ser possível acontecer-nos tudo a cada
instante, inclusivamente a morte… E isto constantemente. Ao passo
que a morte só vem uma vez, no final da vida. A morte é trivial. A
vida e a existência são o verdadeiro milagre de cada instante. Para
tomar consciência disto basta sermos realistas: nada ter por conhe-
cido, certo e garantido. Então tudo se tornará um mistério maior do
que a morte: o simples estar sentado ao sol ou a postar banalidades
no Facebook.

Não acreditas na possibilidade de te transformar, bem como as pes-


soas e o mundo!? Então constata o que pensavas e fazias há 10, 15, 20
ou 30 e mais anos e o que pensas e fazes agora. Recorda como eras
quando nasceste e vê o que és agora. Vê a diferença, deixa de negar
aquilo de que és a mais viva prova e deixa de perder tempo com des-
culpas que não tens para te acomodares e não continuares a mudar.
Mas procura mudar sempre para melhor, ou seja, para o que traga
cada vez mais consciência e felicidade a ti e a todos os seres.

236
Quem é o meu Próximo?

Desarruma-te. Se és caótico, organiza-te. Se és organizado, caotiza-


te. Se és religioso, torna-te ateu. Se és ateu, converte-te a uma ou a
todas as religiões. Se és preguiçoso, trabalha como um doido. Se és
viciado no trabalho, pára já e não faças mais nada. Mas desarruma-
te. Não percas a riqueza de explorar o avesso do que julgas ser. Ousa
reviravoltar-te. A não ser no respeito pelos outros, por todos os seres
e formas de vida.

Não sentes nada de estranho, lá bem no fundo de ti mesmo? Mes-


mo quando tudo parece normal à tua volta? Não, não é no corpo,
nem nas emoções, nem nos pensamentos, por mais estranhos que
por vezes sejam. É mais fundo, mais fundo. É antes de tudo o que
estás habituado a pensar e sentir. Sim, é por aí... É aí mesmo. É isso, é
isso. EXISTES!!! ESTÁS VIVO!!! E tens um mundo imenso diante e
dentro de ti, com tanta coisa em aberto, com tanta coisa… Não é tão
estranho!? E mais estranho ainda quase nunca darmos por isso, não
é!? Mas, já agora que deste por isso, já agora que despertaste, aprovei-
ta e não adormeças de novo. Eu prometo que estou a tentar fazer o
mesmo. Estamos juntos. Até já!

O sistema é ele e quem o combate. O sistema alimenta-se de quem


o combate sem mudar os pressupostos do sistema. Porque o sistema é
pensar que somos realmente algo ou alguém, que os outros são real-
mente algo ou alguém, que há realmente eu e não-eu, eu e outros, seres
e coisas, identidades e entidades, indivíduos e mundos, e não simples
processos, fluxos e metamorfoses em constante correlação e mutação.
O sistema é pensar que há realmente seres e coisas que são realmente
isto ou aquilo, assim ou assado, e não meros fenómenos e percepções
em constante mutação. O sistema é pensar que há realmente os bons
e os maus e que nós e os que imaginamos próximos são os bons e os
outros os maus. O sistema é pensar que há realmente o bem e o mal
e que o que nos gratifica é o bem e o que nos prejudica é o mal. O

237
Paulo Borges

sistema é pensar ser normal gostar de uns e não de outros, gostar e


não gostar, querer e não querer. O sistema é crermos irreflectidamente
em percepções moldadas e cristalizadas desde há milénios na teia de
convenções que estrutura as línguas, o pensamento e a vida social, a
religião, a filosofia, a ciência e o senso comum. É neste sistema que vi-
vem reclusos presidentes, reis e vagabundos, ricos e pobres, religiosos
e teus, catedráticos e analfabetos, integrados e alternativos, engrava-
tados e tatuados, fascistas e democratas, comunistas e anarquistas. O
sistema é o milenar sono e sonho da ignorância e a única alternativa o
Despertar. O Despertar de haver realmente Despertar e quem desper-
te. Então tudo se reconhecerá desde sempre livre, o silêncio será verbo
e o amor, esquecido de o ser, irradiará. Então é Agora. Já.

Há estados de consciência em que se experimenta claramente que


só há um Corpo infinito, o Unimultiverso, e que todos os corpos
aparentemente finitos, incluindo o que estamos habituados a percep-
cionar como nosso, são na verdade formas de aparição desse Corpo
único, que simultaneamente estão nele contidos e o contêm, manifes-
tando-o de modo único, singular e irrepetível. Descobrir isto é (des-
cobrir-se) Tudo (e Todos).

O ego é o espaço infinito e luminoso do ser-consciência-felicidade


a confundir-se com um imaginário, minúsculo e transitório ponti-
nho na sua própria vastidão. Esquecido ou desabituado de si, o ser-
consciência-felicidade primordial, vasto como o espaço que a tudo
engloba, encerra-se nessa ficção. E é esta confusão que rege o mun-
do e a história dos humanos, que violentam, oprimem, exploram,
matam e morrem para proteger e reforçar o que na verdade nunca
existiu, não existe e não pode jamais existir. Que o Despertar tenha
piedade de nós!

238
Quem é o meu Próximo?

Mudar uma época é mudar os preconceitos cultural e socialmente


dominantes, aquilo que está na base dos seus juízos e que resulta de
juízos anteriores, tantas vezes fossilizados e anacrónicos, já desprovi-
dos de qualquer fundamento na experiência, além de condicionados
pelos preconceitos que os fundaram. O problema é que dificilmente
uma sociedade perde uns preconceitos sem os trocar por outros, res-
tando esforçar-nos por que sejam menos prejudiciais e mais benig-
nos, sendo essa a tarefa de uma política da consciência e da bondade.
Porventura só indivíduos e pequenas comunidades se podem libertar
definitivamente de todos os preconceitos. Aí transcenderão o cultural
e o social e serão livres, um pouco como os deuses e os animais, um
muito como os sábios e os santos. Que regressem então ao cultural,
social e ao político, para cuidarem de nós e de todos os seres vivos.

Todos os seres, fenómenos, vidas e acontecimentos são expressões


singulares e fugazes, em constante metamorfose, de um todo ilimi-
tado e fluido, sempre o mesmo e sempre outro. Esse todo é absolu-
tamente perfeito e essa perfeição inclui toda a percepção humana da
imperfeição, dor e sofrimento do mundo, bem como o esforço e ac-
ção éticos e políticos pela sua transformação e aperfeiçoamento. Sem
esta visão e sem a alegria que nela há todo o activismo em prol dos
homens, dos animais e da Terra arrisca-se a não conduzir senão a
revolta destrutiva, cansaço, amargura, frustração e desespero. A Vida
é uma festa inocente que transcende os conceitos e juízos humanos
de ser e não ser, verdade e erro, bem e mal, belo e feio, justo e injusto,
prazer e dor, felicidade e sofrimento. Com esta consciência podemos
aperfeiçoar a visão e a experiência do mundo, podemos lutar por
maior justiça para todos os seres, sabendo que ao mesmo tempo e no
fundo, para lá da percepção da trágica dor dos indivíduos, o grande
todo é infinitamente justo, harmonioso e perfeito.

A consciência e é a matriz de toda a experiência que temos do real e

239
Paulo Borges

do mundo e é dos seus estados mentais e emocionais, do modo como


percepciona e reage ao que percepciona, que em última instância de-
pende tudo o que fazemos e dizemos e a felicidade e infelicidade que
vivenciamos. Um estado mental dualista, dominado pela ficção da
separação entre eu e outro, pelo medo e pela expectativa, pelo apego
e pela aversão, é a raiz de todos os problemas que dilaceram o planeta,
a raiz da violência contra si e os seres vivos, humanos e não-huma-
nos, a raiz da opressão económica, social e política e da exploração
desenfreada dos recursos naturais que devasta cada vez mais a Terra.
Há que inverter este processo e não basta combater sintomas: temos
de ser radicais, no sentido de ir à raiz. Ir à raiz é mudar a mente,
reconhecer a ilusão da dualidade e experimentar a abertura da cons-
ciência a um estado não-dual e não- conceptual, vasto e livre como
o espaço, que a tudo abrange. Eu, outros e todas as coisas surgimos
então como manifestações de uma mesma Vida. Tudo é diferente. O
mundo já mudou. Meditativa e contemplativa, a revolução silenciosa
e não-violenta está em curso e é a partir daí que ganha verdadeiro
sentido e eficácia toda a acção e prática de alternativas.

240
Quem é o meu Próximo?

IV
Manifestos

241
Paulo Borges

242
Quem é o meu Próximo?

Manifesto-Movimento
pela Cultura

1 – Cultura é mais do que as Letras, as Artes e as Ciências. Cultura


é mais do que as culturas, com a sua língua e a sua história, as suas
tradições, usos e costumes. Cultura é o cultivo de todas as qualidades
naturais que fazem de cada indivíduo um ser humano mais pleno,
realizado, consciente, criativo, solidário, bondoso e feliz. Cultura é o
cultivo de tudo o que conduz a superar os limites e obstáculos, exter-
nos e internos, à tarefa sempre em aberto de humanizar os humanos
na relação com toda a comunidade dos seres vivos, os outros seres
humanos, os animais e a natureza.

2 – Um ser humano culto é mais do que um ser humano com for-


mação académica, conhecimento erudito ou informação ampla. Um
ser humano culto é aquele que promover a Cultura, a consciência da
interconexão de todas as formas de vida e o empenho no bem co-
mum de todos os seres vivos e da Terra. Ser culto é respeitar o valor
intrínseco de todos os seres, manter uma conduta de não-violência
e não sobrepor desejos e interesses, pessoais ou colectivos, à natural
aspiração à paz, ao bem-estar e à felicidade de toda a população do
planeta, humanos e animais. Ser culto é procurar pensar, falar e agir
sempre em função do bem de tudo e de todos, colocar-se no lugar do
outro antes de tomar decisões que o vão afectar e não privilegiar ou
excluir nenhum ser por motivos de estatuto social, orientação sexual,
ideologia, nacionalidade, etnia, religião ou espécie.

3 – A Cultura é um processo simultaneamente pessoal e social do


qual depende a real evolução dos grupos, das nações e da civilização
como um todo. Do grau de evolução cultural depende o grau de rea-
lização e o sentimento de bem-estar pessoal e social nos grupos, nas
nações e na civilização. O verdadeiro progresso dos indivíduos, dos
grupos, das nações e da civilização não se mede pelo crescimento do
Produto Interno Bruto, mas pelo aumento do nível médio de Cultura,

243
Paulo Borges

traduzido em vidas mais conscientes, éticas, saudáveis, sustentáveis


e felizes.

4 – Promover a Cultura, ou seja, investir no surgimento de seres hu-


manos melhores, é um direito e um dever de todos. É, além disso, o
principal dever e missão das famílias, das instituições pedagógicas,
dos governos e do Estado. É da promoção da Cultura que depende
o integral progresso das nações, pois sem Cultura o mero progresso
económico, tecnocientífico e “cultural” orienta-se inevitavelmente
para fins lesivos das aspirações fundamentais dos seres humanos, da
restante comunidade dos seres vivos e da harmonia com a Terra. Sem
Cultura, os indivíduos, os grupos, as nações e as civilizações cedem à
violência, à competição e à guerra – bélica, económica ou financeira
- de todos contra todos, traduzida na opressão e exploração dos mais
vulneráveis, humanos e animais, e na destruição dos recursos natu-
rais, dos ecossistemas e da biodiversidade.

5 – É isso que acontece no actual ciclo de civilização - fruto da ma-


triz ocidental pós-industrial globalizada nas eras imperial, colonial e
neocolonial - , dominado por uma nova crença mítico-religiosa, a do
progresso económico infinito num planeta com recursos naturais fi-
nitos. É esta inquestionada e insustentável ilusão a força anónima que
a partir dos poderes instituídos e com o auxílio do marketing e da pu-
blicidade impregna, coloniza e intoxica o imaginário das populações,
determinando todas as escolhas, mobilizando todas as energias e su-
bordinando todas as vidas ao aumento da produção e do consumo
para maximizar o lucro num tempo mínimo. É esta força vampírica
que está a destruir os valores e as relações sociais, a diversidade cul-
tural, a biodiversidade e os ecossistemas para exclusivo benefício da
minoria na qual a riqueza se concentra e prejuízo global da comuni-
dade dos seres vivos e do planeta. Vivemos num novo obscurantismo
totalitário cujo sinal mais evidente é a ausência quase completa do
sentido da verdadeira Cultura nas instituições sociais, científicas, pe-
dagógicas, políticas e económicas, nos meios de comunicação social
e em muitas instituições religiosas e culturais. O desconhecimento e
desprezo pela Cultura começa nas famílias e prossegue em todos os

244
Quem é o meu Próximo?

níveis de integração escolar, profissional e social.

6 – A nova religião laica, sobretudo na actual fase neoliberal deses-


perada e selvagem, sacraliza o trabalho, a eficiência, a competição,
a pressa, a produtividade, o consumo, o lucro e o individualismo
egocêntrico sacrificando o tempo livre, o jogo, os ritmos naturais, a
festa, a comunhão, a cooperação, a amizade, a troca e a gratuidade,
ou seja, tudo o que milenarmente assegura os vínculos sociais e a
alegria e felicidade humanas. Esta alienação, verdadeiro estado pa-
tológico normalizado pela (in)cultura dominante, resulta numa re-
gressão civilizacional e num imenso holocausto de vidas sacrificadas
a actividades, funções e profissões entediantes, burocráticas, fúteis,
inúteis ou francamente nocivas, das quais se passa para distracções e
diversões massificantes que apenas renovam o círculo vicioso da es-
cravidão e perda de consciência, retirando tempo, energia e interesse
no desenvolvimento pessoal e cultural profundo. A maioria dos seres
humanos perde as vidas a ganhá-las, constrangida a viver aquém das
suas mais autênticas potencialidades e contra as suas mais profundas
aspirações, o que gera um grande mal-estar existencial, psicológico e
social, associado a tédio, tristeza e depressão, o sentimento crescente
da falta de sentido da vida, o aumento da violência, da toxicodepen-
dência e da criminalidade, que acrescem às consequências do modelo
económico dominante: o alargamento do fosso entre ricos e pobres e
Norte e Sul, a instrumentalização das vidas de humanos e animais, a
redução da diversidade cultural, a destruição da biodiversidade e o
risco de um colapso ecológico-social sem precedentes.

7 – O sentido da verdadeira Cultura permanece todavia sempre la-


tente na nossa natureza profunda e no bom coração dos seres hu-
manos (muitas vezes nas populações e culturas menos “cultas” ou
escolarizadas segundo o modelo globalizado) e a urgência da sua
redescoberta é assumida por cada vez mais projectos e movimentos
alternativos, cívicos, sociais, culturais e espirituais, com uma visão
mais integral da realidade como uma totalidade orgânica onde todos
os seres e formas de vida estão interligados e são interdependentes,
não sendo possível realizar o bem de uns sem visar o de todos. Há que

245
Paulo Borges

promover o conhecimento mútuo, a convergência e a coordenação


destas iniciativas num Movimento global de alternativa ao obscuran-
tismo, incultura e barbárie dominantes, que assuma a tarefa de desin-
toxicar e despertar consciências e operar a transição para um Mundo
Novo, possível Aqui e Agora. Este Movimento deve ter um pé e uma
mão dentro do sistema, de modo a regenerar o que possa ser regene-
rado nas actuais instituições mediante o fomento da Cultura no seu
interior, mas outro pé, mão e sobretudo a cabeça e o coração bem de
fora, de modo a não se deixar corromper e recuperar pelos padrões
de pensamento, comunicação e acção dominantes. Este Movimento
deve criar, tanto quanto possível fora do sistema, novas formas de re-
lações sociais e comunitárias e territórios de vida liberta pela promo-
ção da Cultura autêntica, onde se ensaiem as múltiplas formas da sua
expressão: espirituais, filosóficas, artísticas, terapêuticas, energéticas,
económicas, políticas.

8 – Este Manifesto-Movimento pela Cultura surge em Portugal, na-


ção com uma tradição histórico-cultural rica e ambígua. Por um lado
fomos, na Expansão e Diáspora, precursores e possibilitadores da
globalização que, ao longo dos ciclos imperial, colonial e hoje neoco-
lonial, resultou na exportação do modelo ocidental para toda a Terra,
com as consequências atrás expostas. Por outro lado fomos também
pioneiros na abertura à alteridade e no encontro de povos, culturas
e tradições com experiências e visões distintas, que permitem hoje
uma atitude cosmopolita e universalista, não refém do nacionalismo,
do patriotismo estreito e do eurocentrismo. Na tradição cultural por-
tuguesa há uma importante vertente de poetas e pensadores – Luís
de Camões, Padre António Vieira, Fernando Pessoa e Agostinho da
Silva, entre outros - que têm assumido isso como um potencial ou vo-
cação para sermos mediadores de uma globalização alternativa, não a
da actual devastação económico-financeira da Terra e dos seres vivos,
mas a de um novo estado de consciência e de uma nova comunida-
de universal – trans-nacional, trans-cultural e trans-religiosa - sob o
signo de um despertar ético-espiritual afim ao que aqui assumimos
como a verdadeira Cultura. É o que Fernando Pessoa, numa lingua-
gem hoje desajustada e ultrapassada, chamou o “Quinto Império”,

246
Quem é o meu Próximo?

que superará os quatro períodos civilizacionais anteriores – Grécia,


Roma, Cristandade, Europa - , integrando o essencial deles e das de-
mais culturas e civilizações não-europeias numa nova síntese cultural
e civilizacional presidida por um estado de consciência universalista.

9 – A actualização do potencial ou vocação dos portugueses para uma


globalização alternativa pode traduzir-se hoje, como viu Agostinho
da Silva, na inversão do movimento da Expansão. Se em Quinhentos
as naus portuguesas foram a ponte que levou a Europa e o seu para-
digma a todo o mundo, as nossas mentes e corações devem ser hoje
a ponte que traga à Europa e à globalização do modelo ocidental o
que resta da diversidade das culturas da Terra, com paradigmas mais
éticos, saudáveis, sustentáveis e conscientemente alternativos, como
acontece sobretudo no hemisfério Sul. Essa ponte de sentido inverso
pode e deve construir-se também pela comunidade lusófona, onde
os países africanos e o Brasil preservam muitas culturas alternativas
e resistentes à ocidentalização do mundo. Os portugueses e os lusó-
fonos podem e devem assim contribuir para o reverter do obscuran-
tismo, incultura e barbárie dominantes – também por nós outrora e
ainda hoje promovidos - no ressurgimento da Cultura entre nós, na
Europa e no mundo. Trata-se de saldar uma dívida humana, histórica
e cultural. Todavia, para que isso seja possível, portugueses e lusófo-
nos têm de se emancipar o mais possível da globalização dominante.
Só assim, com um pé e uma mão dentro do actual sistema, mas com
outro pé, mão e sobretudo cabeça e coração bem de fora, portugueses
e lusófonos poderão ser, em conjunto com seres humanos de todos
os povos, nações e culturas, mediadores da transição planetária para
uma nova civilização, fundada na promoção da Cultura e no con-
sequente respeito pela comunidade integral de todos os seres vivos,
humanos e não humanos, e pela Terra.

10 – Este Manifesto-Movimento pela Cultura e pela sua restauração


à escala planetária não termina aqui. Na verdade é aqui, onde apa-
rentemente acaba, que verdadeiramente começa. E onde ele começa
é em ti, leitora ou leitor. O 10º ponto deste Manifesto és tu e cada um
de nós que o vamos escrever com a tinta das nossas vidas. Somos to-

247
Paulo Borges

dos nós que individualmente e em conjunto vamos encontrar as vias


e os caminhos para pormos em prática os princípios, os valores e a
direcção fundamental deste texto, fazendo com que ele saia do papel
ou dos ecrãs virtuais para se imprimir nas nossas vidas, em espírito,
coração e corpo. É disso que depende a regeneração da Vida sobre a
Terra, é disso que depende a transição de uma civilização condena-
da para uma Cultura onde o bem comum de todos os seres vivos e
do planeta seja o grande e fundamental imperativo: uma Cultura da
consciência, da paz, do amor, da compaixão, do cuidado e da atenção.
Uma Cultura na diversidade das culturas.

Como escreveu Fernando Pessoa no final da Mensagem:

É a Hora!

Valete, Fratres
Saúde, Irmãos!

Lisboa, 9 de Setembro de 2013

248
Quem é o meu Próximo?

Carta pela Compaixão Universal


(Por uma Nova Cultura e uma Nova Civilização)1

A professora e pensadora Karen Armstrong lançou em 2009 a Carta


pela Compaixão, que teve grande repercussão, colheu muitos apoios
e patrocínios institucionais e estatais, foi assinada por celebridades e
pelos principais líderes religiosos mundiais e deu lugar a muitas ac-
ções pedagógicas:

http://charterforcompassion.org/

Com todo o seu imenso mérito, cremos todavia que a Carta pela
Compaixão se limita aos seres humanos, não tendo em conta o im-
perativo que conduziu ao próprio reconhecimento de direitos iguais
para todos os seres humanos: expandir a consideração ética a todos
aqueles que sejam portadores de uma mesma natureza fundamental,
para lá das afinidades e interesses limitados aos grupos familiares, tri-
bais, nacionais, étnicos, culturais, políticos, económicos e religiosos.
Como a ciência hoje inequivocamente reconhece2, os animais não
-humanos, sendo capazes de experimentar a dor e o prazer psicofisio-
lógicos e emoções como a alegria, o sofrimento, o medo e a angústia,
têm também uma natureza consciente e senciente, e logo interesses
fundamentais na preservação da sua vida, integridade física, bem-es-
tar e habitat natural, devendo portanto ser alvo de consideração e res-
peito pelos sujeitos racionais e éticos que são os humanos. Por este
motivo, propomos aqui uma mais abrangente Carta pela Compaixão

1. Redigida em co-autoria com Daniela Velho, tendo recebido outros contributos de membros do
Círculo do Entre-Ser, associação filosófica e ética, em nome do qual foi apresentado publicamente
na segunda edição do evento Sentar e Caminhar em Paz e Silêncio por um Mundo Novo, no Terreiro
do Paço, em Lisboa, no dia 1 de Junho de 2013. Esta Carta foi até ao momento oficialmente apoiada
por personalidades como Sua Santidade o Dalai Lama, Satish Kumar, Joyce d’Silva, Manuela Gon-
zaga, Francisco Varatojo e Miguel Real. Site oficial:
http://charterforuniversalcompassion.org/theCharter.html
2. Declaração de Cambridge sobre a Consciência, de 7 de Julho de 2012:
http://fcmconference.org/img/CambridgeDeclarationOnConsciousness.pdf.

249
Paulo Borges

Universal, que assume também o valor intrínseco e não meramente


instrumental do mundo natural. Assumimos esta Carta pela Compai-
xão Universal como bússola orientadora das nossas vidas e exortamos
a que todos o façam, divulgando-a por todos os meios, em prol de
uma urgente mudança da civilização.

1 – As tradições espirituais, culturais e religiosas, a ciência contem-


porânea e a nossa sensibilidade reconhecem que todos os seres e
ecossistemas são interdependentes na grande unidade diferenciada
da vida. Não podemos separar a preservação e o bem de uns da pre-
servação e do bem de todos. Conscientes disto e da natureza comum
dos animais humanos e não-humanos, no que respeita à senciência
e aos interesses fundamentais, sentimo-nos crescentemente movidos
pelo amor e compaixão universais, ou seja, pela aspiração activa a
que todos os seres dotados de consciência e senciência sejam felizes
e estejam livres de todo o sofrimento que pudermos evitar. Cons-
cientes da existência, das necessidades e dos interesses dos outros,
assumimos a regra de ouro de toda a ética: não lhes fazer o que não
gostaríamos que nos fizessem e contribuir para o seu bem, tal como
gostaríamos que connosco próprios agissem. Comprometemo-nos a
nunca esquecer que, além dos laços familiares e das afinidades mais
imediatas, todos os seres são companheiros e parentes próximos na
grande aventura da existência e da vida.

2 – Reconhecemos que a interconexão de todos os seres e ecossiste-


mas se conjuga com o valor intrínseco e não meramente instrumental
de cada um e de todos. Cada ser vivo, dotado ou não de senciência,
é uma manifestação singular e única do fenómeno da vida, tal como
todas as formas de existência, mesmo inanimadas, constituem igual-
mente manifestações singulares e únicas do corpo uno e múltiplo da
natureza. Conscientes disto, admiramos e respeitamos todos os seres
e entidades do mundo natural, humanos e não-humanos, como sa-
grados, considerando-os com total respeito pelo seu modo próprio
de existência e, no caso dos seres sencientes, tratá-los-emos com
plena justiça e equidade, assegurando a satisfação dos seus interesses
fundamentais na preservação da vida, da integridade psicofisiológica

250
Quem é o meu Próximo?

e do bem-estar, tendo em conta as suas diferenças e características


próprias.

3 – Sabemos que há muito caminho a percorrer neste sentido, des-


pertando consciências e sensibilidades e mudando velhos paradig-
mas mentais e culturais, infelizmente ainda reproduzidos por muitos
de nós, indivíduos e instituições laicas e religiosas. Apesar de muitos
progressos no domínio da ética humana, animal e ambiental, a Terra
é ainda hoje palco de um imenso sofrimento e destruição, que em
muitos casos se agravam, provocados pela falta de consciência, amor
e compaixão dos humanos no modo como tratam os seres humanos e
os animais, bem como os recursos naturais da Terra da qual todos de-
pendemos. Disto resulta um crescente mal-estar na civilização globa-
lizada, um crescendo do stresse, da violência, da toxicodependência
e da consumodependência, um aumento do fosso económico entre
ricos e pobres em cada nação, entre o Norte e o Sul do planeta, entre
os países ditos desenvolvidos e aqueles em vias de desenvolvimento,
bem como o risco de novas guerras, convulsões sociais e um colapso
ecológico sem precedentes, que alguns cientistas designam como a
sexta extinção massiva da biodiversidade do Holoceno, a primeira
gerada por causas humanas. Disso resulta também um autêntico ho-
locausto da vida animal, por motivos que vão da pesca industrial à
agropecuária intensiva. A indústria da carne e dos lacticínios é res-
ponsável pelo indescritível sofrimento de milhões de animais, que
vivem em verdadeiros campos de concentração3. Há ainda graves
atentados à saúde humana e de brutal impacte ambiental. Conscien-
tes disto, comprometemo-nos a não ser cúmplices destas práticas e a
fazer desde já tudo o que pudermos para alterar esta situação, a co-
meçar pelo modo como nos alimentamos, consumimos e utilizamos
os recursos naturais.

3. Além disso, o que se consome em leguminosas e água para o gado daria para alimentar 2 mil
milhões de seres humanos, quase um terço da população do planeta, o dobro daqueles que morrem
ou padecem de fome. Perante esta realidade, os relatórios científicos da ONU insistem que só uma
redução drástica do consumo de carne e lacticínios pode hoje salvar o planeta, sendo uma dieta
vegetariana a única sustentável para alimentar os previsíveis 9 mil milhões de habitantes em 2050.

251
Paulo Borges

4 – Estamos conscientes de que a crise global do planeta não se re-


solve com mais reformas superficiais e pontuais, sendo a crise de
uma civilização que chegou a um ponto de mutação. Sentimos ser
nossa tarefa transitar do modelo dominante de opressão e explora-
ção desenfreada dos humanos, dos animais e da Terra, bem como
de competição entre indivíduos, grupos, nações e corporações po-
lítico-económico-financeiras, para um novo paradigma centrado na
consciência da interdependência e no amor e na compaixão univer-
sais, que promova uma cultura da paz, da justiça e da cooperação fra-
terna de âmbito planetário. Isto exige preservar a diversidade cultural
e sermos capazes de aprender com o melhor das culturas do planeta,
com modelos mentais e de sustentabilidade ecológica alternativos.
Isto exige também mudar o actual modelo de crescimento económi-
co, substituindo-o por uma economia do bem comum, baseada na
gestão racional e ética dos recursos disponíveis no planeta, na aposta
crescente nas energias renováveis e no respeito integral pelos seres vi-
vos e pelos ecossistemas. Comprometemo-nos a tudo fazer para que
isto seja possível.

5 – Estamos particularmente convencidos de que a necessária e ur-


gente mutação do paradigma civilizacional exige e depende de uma
profunda mutação da consciência individual e colectiva, que tem de
começar por cada um de nós agora mesmo. Por isso empenhamo-
nos em dirigir a atenção para o nosso íntimo, vigiar as intenções sub-
jacentes a pensamentos, palavras e acções e pormo-nos sempre no
lugar do outro, humano, animal ou mundo natural, antes de tomar
decisões que o vão afectar, tal como a nós mesmos. Estamos cons-
cientes de que isto tem de incluir os que actualmente percepciona-
mos, também em função dos nossos limites, como adversários, hostis
ou inimigos. Esforçar-nos-emos para que as nossas decisões sejam
sempre movidas pela sabedoria, pelo amor e pela compaixão e visem
o maior bem comum possível.

Para que isto aconteça empenhamo-nos em promover uma cultura


da expansão da consciência, que alguns chamam espiritualidade, que
pode ser laica e não religiosa, baseada em valores transversais a cren-

252
Quem é o meu Próximo?

tes, ateus e agnósticos, como o amor, a compaixão, a solidariedade, a


generosidade, a paz e a justiça. Importa que essa cultura, orientando a
mente para o bem comum de todos os seres e do planeta, seja o centro
de uma nova educação e se reflicta em todos os níveis dos sistemas
de ensino. Há que formar novas gerações de cidadãos conscientes e
responsáveis que se empenhem numa nova intervenção social, cívica
e política, radicalmente não-violenta e movida pela sabedoria, amor
e compaixão universais. Deles surgirão novas pessoas que ocuparão
os novos centros de decisão política, económico-financeira e admi-
nistrativa, assumindo responsabilidades institucionais e governativas
em prol do bem comum global. Para tal parece-nos essencial tran-
sitar da democracia representativa para a participativa, assegurando
aos eleitores mecanismos de fiscalização eficaz dos eleitos. Estamos
conscientes da urgência de novas formas de liderança e exercício do
poder, o mais descentralizadas e partilhadas possível. O poder é um
serviço e uma responsabilidade, não um usufruto movido por inte-
resses pessoais e de grupos. Estamos decididos a redignificar a políti-
ca, emancipando-a dos poderes económico-financeiros, vinculando
-a à cultura da expansão da consciência e pondo-a ao serviço de uma
ética do bem comum de todos os seres e da Terra.

Apesar da aparência preocupante e caótica do estado actual do


mundo, estamos decididos a não nos deixarmos dominar pela triste-
za, desalento, desespero, angústia ou agressividade. Somos já milhões
em toda a Terra a construir esta nova realidade nas nossas vidas, com
alegria e confiança nos imensos resultados benéficos já evidentes.
Com o eloquente exemplo destes benefícios, e da nossa acção basea-
da na paz, na alegria e na confiança, sabemos que cada vez mais cons-
ciências despertam e despertarão para esta profunda mudança.

***

Se concordas com os princípios desta Carta, assina-a e divulga-a


por todos os meios, traduzindo-a para a tua língua, partilhando-a por
correio electrónico e pelas redes sociais, imprimindo-a e afixando-a
na tua escola, local de trabalho ou noutros espaços públicos. Organi-

253
Paulo Borges

za também grupos de reflexão e sessões para a sua leitura e debate.


Todos necessitamos de todos para a urgente mudança global. O bem
do planeta e dos seres não pode esperar mais. Sê desde já a diferença
que queres ver no mundo.

Bem hajas!

254
Quem é o meu Próximo?

255
Paulo Borges

Origem dos Textos:


I
• Quem é o meu próximo? Senciência, empatia e ilimitação – publicado
em Philosophica, nº40 (Lisboa, 2012), pp.25-40.
• Eu, Nós e os Outros. Ensaio sobre o círculo em expansão do descen-
tramento ético para um repensar não antropocêntrico da sociedade e
da política – conferência no Ciclo “O Eu e o Nós em Sociedade”, Diá-
logos com a Ciência IV, na Reitoria da Universidade do Porto, em 7 de
Março de 2013 (inédito).
• A questão dos direitos dos animais. Para uma genealogia e funda-
mentação filosóficas – publicado em Hélder Martins Leitão, A Pessoa,
a Coisa, o Facto no Código Civil, Porto, Almeida & Leitão, Lda, 2010,
pp.229-251.

II
• O que esperar do Papa Francisco e de todos os líderes espirituais e
religiosos? – publicado no livro de Paulo Aido, Francisco – o Papa dos
Pobres, Zebra Publicações, 2013.
• Quem é o meu próximo? – publicado em CAIS, nº171 (Lisboa, Março
de 2012).
• Colocar-se no lugar do outro – publicado em CAIS, nº170 (Lisboa,
Fevereiro de 2012), pp.30-31.
• Superar o antropocentrismo e o especismo. Por um novo paradigma
mental, ético e civilizacional – publicado em Boletim da Ordem dos
Advogados, nºs 79/80 (Junho/Julho de 2011), p.64.
• Repensar o sentido da Cultura – publicado em CAIS, nº175 (Lisboa,
Julho-Agosto de 2012), pp.48-49.
• A mulher entre Cristo e Buda – publicado em CAIS, nº177 (Lisboa,
Outubro de 2012).
• A redescoberta da meditação – publicado em CAIS, nº174 (Lisboa,
Junho de 2012), pp.44-45.
• A verdadeira causa do nosso mal-estar – publicado em CAIS, nº 181

256
Quem é o meu Próximo?

(Lisboa, Março de 2013), pp.48-49.


• Abrir portas – publicado, com o título “Portas Abertas”, em CAIS, nº
182 (Lisboa, Abril de 2013), pp.46-47.
• Breve reflexão sobre a tauromaquia – publicado em CAIS, nº178 (Lis-
boa, Novembro de 2012), p.25.
• Dois Natais, duas Festas dos Loucos – publicado em CAIS, nº179 (Lis-
boa, Dezembro de 2012).
• O que há nesta simples folha de papel – publicado em CAIS, nº 180
(Lisboa, Janeiro-Fevereiro de 2013), pp.46-47.
• Outro mundo é possível. Até no futebol – publicado em CAIS, nº 184
(Lisboa, Junho de 2013), pp.50-51.
• Sonhar que se voa – publicado em CAIS, nº176 (Lisboa, Setembro de
2012), pp.48-49.
• O que é o amor? – publicado em CAIS, nº 185 (Lisboa, Julho de 2013),
pp.50-51.
• S obre a nostalgia e a saudade – publicado em CAIS, nº195 (Lisboa,
Maio de 2014).
• Dioniso, Pã, Lusitânia e Portugal – publicado em CAIS, nº 186 (Lis-
boa, Julho de 2013), pp.48-49.
• Um desígnio para Portugal – publicado em CAIS, nº171 (Lisboa, Mar-
ço de 2012).
• Lisboa, a vocação de Portugal e o novo paradigma civilizacional – pu-
blicado em CAIS, nº 183 (Lisboa, Maio de 2013).

III.
(Textos publicados nas páginas do autor no Facebook e no blogue
pessoal É a Hora!)

IV. Manifestos
• Manifesto-Movimento pela Cultura (disponível na página do Face-
book com o mesmo nome e em site próprio)
• Carta pela Compaixão Universal (disponível na página do Facebook
com o nome Charter For Universal Compassion e em site próprio:
http://charterforuniversalcompassion.org/home.html)

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