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Poder Judiciário da União

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO DISTRITO FEDERAL E DOS


TERRITÓRIOS

1VAFAZPUB
1ª Vara da Fazenda Pública do DF

Número do processo: 0709060-03.2018.8.07.0018

Classe judicial: AÇÃO CIVIL PÚBLICA (65)

AUTOR: MINISTERIO PUBLICO DO DISTRITO FEDERAL E DOS TERRITORIOS

RÉU: TRANSPORTE URBANO DO DISTRITO FEDERAL - DFTRANS

DECISÃO INTERLOCUTÓRIA

Recebo a emenda de Id 23665405.

Cuida-se de Ação Civil Pública, com pedido de tutela provisória de urgência, proposta pelo
MINISTÉRIO PÚBLICO DO DISTRITO FEDERAL E TERRITÓRIOS em face do Transporte Urbano
do Distrito Federal – DFTRANS.

A inicial narra, em breve síntese, que o DFTRANS publicou a Instrução nº 46, de 1º de abril de 2014
(Anexo III), que instituiu um cartão eletrônico de utilização opcional pelos passageiros com idade igual
ou superior a 65 anos.

Ocorre que a Instrução DFTRANS nº 46/2014 criou empecilho ilegal e inconstitucional à utilização dos
assentos dos ônibus pelos passageiros que, em vez de utilizarem o cartão eletrônico opcional, utilizam a
carteira de identidade para a comprovação da idade legalmente beneficiada pela gratuidade.

Tais passageiros, nos termos da norma, estariam impedidos de ultrapassar a catraca localizada na parte
dianteira do ônibus e, com isso, não poderiam utilizar a maioria dos assentos do veículo, os quais se
encontram após a catraca.

Em 20 de junho de 2018, foi publicada a Portaria nº29/2018, que institui e regulamenta o Cartão Mais
Melhor Idade, destinado a pessoa maiores de 65 (sessenta e cinco) anos, usuárias dos serviços públicos de
transporte coletivo gerenciados pelo DFTRANS. Referida Portaria assegura que o idoso que porte o

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Cartão Mais Melhor Idade possa utilizar os assentos localizados no salão traseiro do veículo de transporte
coletivo.

Todavia, tal como a Instrução DFTRANS nº46/2014, preceitua que o idoso que apresente qualquer outro
documento pessoal e oficial de identificação que faça prova de sua idade somente pode utilizar a parte
dianteira do veículo, criando o mesmo empecilho ilegal.

Tece considerações de direito.

Requer tutela provisória de urgência para suspender a eficácia do art. 2º, parágrafo único, da Instrução
DFTRANS nº 46/2014 e do art. 1º, § 3º, da Portaria DFTRANS nº29, de 19/06/2018, determinando-se ao
DFTRANS a obrigação de informar, a todos os integrantes do sistema de transporte público coletivo
urbano e semiurbano do DF, a respeito do direito dos idosos com mais de 65 anos de idade ao acesso a
todos os assentos dos veículos, ainda que localizados após as respectivas catracas, mediante a
apresentação de qualquer documento pessoal que faça prova de sua idade.

É o breve relatório.

Decido.

Os requisitos da tutela de urgência estão previstos no artigo 300 do NCPC, sendo eles: probabilidade do
direito e perigo de dano ou risco ao resultado útil do processo.

No caso, entendo que estão presentes os requisitos. Explico.

O tema encontra assento na Constituição Federal, que dispõe em seu art. 230:

“Art. 230. A família, a sociedade e o Estado têm o dever de amparar as pessoas idosas, assegurando sua
participação na comunidade, defendendo sua dignidade e bem-estar e garantindo-lhes o direito à vida.

(...) § 2º Aos maiores de sessenta e cinco anos é garantida a gratuidade dos transportes coletivos
urbanos.”

O enunciado constitucional, embora dotado de eficácia plena e imediata (vide ADI 3768 STF), foi objeto
de expressa regulamentação legal, por meio do art. 39 da Lei nº 10.741/2003 (Estatuto do Idoso).
Vejamos:

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“Art. 39. Aos maiores de 65 (sessenta e cinco) anos fica assegurada a gratuidade dos transportes
coletivos públicos urbanos e semi-urbanos, exceto nos serviços seletivos e especiais, quando prestados
paralelamente aos serviços regulares.

§ 1o Para ter acesso à gratuidade, basta que o idoso apresente qualquer documento pessoal que faça
prova de sua idade.” grifei

O Estatuto do Idoso é bem claro e define que a única condição para usufruir o benefício do transporte
gratuito é a apresentação de documento de identificação pessoal.

Trata-se, portanto, de norma protetiva, cujo intuito é tornar desnecessário qualquer cadastramento prévio
ou procedimento burocrático de pessoas que se encontram em situação de vulnerabilidade.

Ocorre que, na regulamentação infralegal (Portaria DFTRANS n. 29/2018), o acesso gratuito, mediante
apresentação de qualquer documento de identificação, ficou restrito aos assentos antes da catraca.
Confira-se:

“Art. 1º Fica regulamentado o Cartão Mais Melhor Idade como documento identificador do usuário
maior de 65 (sessenta e cinco) anos que queira transpor, de forma gratuita, a roleta dos veículos
integrantes dos Sistemas de Transporte Público Coletivo gerenciados pela DFTRANS, facultando-lhe a
utilização dos assentos localizados no salão traseiro do veículo, mediante o embarque pela porta
dianteira e o desembarque pelas portas traseira ou central.

§ 1º É facultado ao usuário maior de 65 (sessenta e cinco) anos portar o Cartão Mais Melhor Idade para
utilização no Sistema de Transporte Público Coletivo do Distrito Federal;

§ 2º O procedimento de transposição da roleta dos veículos integrantes dos Sistemas de Transporte


Público Coletivo, de forma gratuita, por parte dos usuários portadores do Cartão Mais Melhor Idade,
não incidirá na planilha de cálculo da tarifa vigente dos operadores do serviço de transporte;

§ 3º Permanece assegurado ao usuário maior de 65 (sessenta e cinco) anos o direito à gratuidade do


transporte coletivo urbano, mediante a apresentação de documento pessoal e oficial que faça prova de
sua idade, devendo, neste caso, utilizar a parte dianteira do veículo, embarcando e desembarcando pela
porta dianteira, caso não opte utilização do Cartão Mais Melhor Idade;

§ 4º Quando da utilização do Cartão, poderá ser também exigido documento pessoal e oficial com foto
do usuário maior de 65 (sessenta e cinco) anos que queira transpor a roleta para comprovação de sua
identidade;

Ora, ainda que relevantes as razões invocadas na regulamentação do Poder Público, no sentido de que a
exigência de apresentação do cartão para passar pela roleta visa coibir fraudes, como já mencionado
acima tal imposição é incompatível com a norma de proteção do idoso, que deve ter acesso a qualquer
assento sem embaraço.

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Em uma ponderação de valores, tem-se de um lado a maior segurança do sistema, mediante registro
efetivo dos usuários que passam pelas roletas com cartão de identificação, e de outro a facilitação da vida
do idoso, sendo que o legislador de antemão optou pela segunda opção.

Nesse sentido vem decidindo o STJ. Confira-se:

ADMINISTRATIVO - TRANSPORTE - PASSE LIVRE - IDOSOS - DANO MORAL COLETIVO -


DESNECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO DA DOR E DE SOFRIMENTO - APLICAÇÃO
EXCLUSIVA AO DANO MORAL INDIVIDUAL - CADASTRAMENTO DE IDOSOS PARA
USUFRUTO DE DIREITO - ILEGALIDADE DA EXIGÊNCIA PELA EMPRESA DE TRANSPORTE -
ART. 39, § 1º DO ESTATUTO DO IDOSO - LEI 10741/2003 VIAÇÃO NÃO PREQUESTIONADO.

1. O dano moral coletivo, assim entendido o que é transindividual e atinge uma classe específica ou não
de pessoas, é passível de comprovação pela presença de prejuízo à imagem e à moral coletiva dos
indivíduos enquanto síntese das individualidades percebidas como segmento, derivado de uma mesma
relação jurídica-base.

2. O dano extrapatrimonial coletivo prescinde da comprovação de dor, de sofrimento e de abalo


psicológico, suscetíveis de apreciação na esfera do indivíduo, mas inaplicável aos interesses difusos e
coletivos.

3. Na espécie, o dano coletivo apontado foi a submissão dos idosos a procedimento de cadastramento para
o gozo do benefício do passe livre, cujo deslocamento foi custeado pelos interessados, quando o Estatuto
do Idoso, art. 39, § 1º exige apenas a apresentação de documento de identidade.

4. Conduta da empresa de viação injurídica se considerado o sistema normativo.

5. Afastada a sanção pecuniária pelo Tribunal que considerou as circunstancias fáticas e probatória e
restando sem prequestionamento o Estatuto do Idoso, mantém-se a decisão.

5. Recurso especial parcialmente provido.

(REsp 1057274/RS, Rel. Ministra ELIANA CALMON, SEGUNDA TURMA, julgado em 01/12/2009,
DJe 26/02/2010)

PEDIDO DE SUSPENSÃO DE TUTELA ANTECIPADA. LESÃO À ORDEM, SEGURANÇA E


ECONOMIA PÚBLICAS NÃO CARACTERIZADA. Não lesa o interesse público a decisão judicial que
dispensa os idosos de se cadastrarem para utilizarem gratuitamente o transporte público coletivo. Agravo
regimental não provido.

(AgRg na SLS 1.453/RJ, Rel. Ministro ARI PARGENDLER, Rel. p/ Acórdão Ministro PRESIDENTE
DO STJ, CORTE ESPECIAL, julgado em 15/02/2012, DJe 26/03/2012)

Por outro lado, atento à informação de que atualmente os sistemas de bilhetagem não estão adaptados
para a modificação pretendida, reputo razoável a concessão do prazo de até 60 (sessenta) dias para que
sejam promovidas as alterações necessárias.

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Forte nessas razões, DEFIRO A TUTELA DE URGÊNCIA para SUSPENDER a eficácia do art. 1º, §
3º, da Portaria DFTRANS nº29, de 19/06/2018, determinando-se ao DFTRANS a obrigação de informar,
a todos os integrantes do sistema de transporte público coletivo urbano e semiurbano do DF, a respeito do
direito dos idosos com mais de 65 anos de idade ao acesso a todos os assentos dos veículos, ainda que
localizados após as respectivas catracas, mediante a apresentação de qualquer documento pessoal que faça
prova de sua idade.

A suspensão da eficácia da norma que exige o “Cartão Mais Melhor Idade” para transposição da roleta
terá validade após o prazo de 60 dias da intimação do réu.

Cite-se para contestar.

Intimem-se.

BRASÍLIA, DF, 11 de outubro de 2018 18:45:06.

ANDRE SILVA RIBEIRO

Juiz de Direito Substituto

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