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O Mal-Estar na Teoria Interseccional: Interseccionalidade nas Teorias Viajantes 09/10/2018 17)07

AMÉRICA CENTRAL / EUROPA / ESTUDOS FEMINISTAS / ORIENTE MÉDIO / NORTE DE ÁFRICA / AMÉRICA DO
NORTE / ESTUDOS PÓS-COLONIAIS/DESCOLONIAIS / SARA SALEM / AMÉRICA DO SUL / SUL DA ÁSIA / ÁFRICA
SUBSAARIANA

O Mal-Estar na Teoria Interseccional:


Interseccionalidade nas Teorias Viajantes
Posted on 07/03/2017 por Sara Salem

Nota da tradutora sobre o título: Tal como no original ‘Intersectionality and its discontents’, aqui traduzido
‘O mal-estar da teoria interseccional’, sigo a mesma referência da autora: o texto de Sigmund Freud que no
inglês foi intitulado ‘Civilization and its discontents’ e no português, ‘O mal-estar na civilização’. O mesmo
para o ensaio ‘Traveling Theory’ de Edward Said, traduzido para português no plural, ‘Teorias Viajantes’.

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Introdução

“Por vezes os paradigmas estruturantes das nossas vidas são tão poderosos que nos fazem crer
que trabalhamos pelo progresso quando na realidade reforçamos esses mesmos paradigmas.”
(Grillo, 1995: 16)
A interseccionalidade ou teoria interseccional tornou-se um importante recurso do trabalho de pesquisa
feminista, apesar dos contínuos debates gerados em torno da sua definição específica. Desde que o termo
surgiu, e a sua área de estudos foi estabelecida no final da década de 1980, foram produzidos inúmeros
artigos, volumes e conferências, dando origem a uma nova fase de estudos feministas e de gênero. No
entanto, ao longo dos últimos anos, as críticas crescentes à teoria interseccional vem pedindo que as
feministas reflitam sobre o termo, a sua genealogia e o seu futuro. Um exemplo disso são as várias feministas
que ponderam sobre a questão de como a teoria interseccional trata questões de imperialismo e
transnacionalidade (Spivak, citada em Edkins & Vaughan-Williams, 2009; Patil, 2013). Teóricos pós-
estruturalistas vêm colocando questões sobre a natureza do tema face à pesquisa interseccional (Butler,
1989: 143), e teóricos de crítica racial vêm se dedicando à problemática de como a pesquisa interseccional
aborda o tema racial (Nash, 2008). Tais análises críticas manifestam preocupações relativas à obliteração das
origens radicais da interseccionalidade, à sua aplicação generalizada enquanto ‘a teoria’ que serve todas as
feministas, e à higienização da interseccionalidade pelo feminismo liberal. Myra Marx Ferree chamou a
atenção para ‘A ideia da interseccionalidade enquanto ponto de resistência ao apagamento normativo das
desigualdades foi convertida na ideia de “diversidade”, entendida como uma abordagem positiva, ainda que
neoliberal, à inclusão social’ (2013). Esta é a suposta alteração que quero traçar neste artigo: da
interseccionalidade enquanto ponto de resistência à interseccionalidade enquanto abordagem neoliberal
obliteradora de desigualdades. Críticos desta mudança questionam que, apesar da interseccionalidade ter
nascido enquanto crítica radical ao feminismo liberal,[1] o seu uso por uma ampla gama de feministas
dedicadas a diferentes projetos políticos e teóricos indica hoje que o conceito se tornou mais elástico do que
era inicialmente pretendido. De acordo com os críticos, essa elasticidade serve para desviar a atenção de
questões importantes relativamente ao que é a interseccionalidade e se esta terá sido cooptada pelo
feminismo liberal através da academia neoliberal.

Com o objetivo de desvendar questões sobre a trajetória da interseccionalidade, este artigo coloca em
diálogo algumas das principais análises críticas à interseccionalidade, e argumenta que a genealogia do
conceito levanta perguntas relativas ao amplo campo de estudos feministas e aos próprios movimentos
feministas em geral. Especificamente, este artigo coloca o foco nas feministas que trabalham a partir das
óticas pós-colonial, pós-estruturalista, da crítica racial e marxista, defendendo que tais críticas levantam
questões importantes relativamente à trajetória da interseccionalidade. Se o pós-estruturalismo e o pós-
modernismo estiveram em voga nas duas últimas décadas, as teorias sobre o feminismo marxista não
receberam a mesma atenção. Por esse motivo, a minha atenção a esta vertente da teoria feminista pretende
apontar caminhos para que o feminismo marxista possa recuperar o potencial crítico da interseccionalidade
– em particular para feministas que operam no Sul Global – pela sua abordagem em conceitos analíticos
específicos como o estado-nação e a divisão global de trabalho. Isto não significa que todo o trabalho que
utiliza a interseccionalidade foi cooptado, nem que o feminismo marxista é o único caminho que pode
reafirmar a natureza radical da interseccionalidade; o objetivo é dar início a uma discussão sobre o que
aconteceu com o conceito à medida que ele foi sendo normalizado.

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Utilizo o conceito das Teorias Viajantes (Said, 1983) como uma forma de preparar o terreno para essa
discussão, argumentando que traçar os caminhos pelos quais a interseccionalidade viajou pode iluminar as
críticas que a ela são hoje dirigidas. Pergunto: o que aconteceu com a interseccionalidade ao atravessar o
tempo e o espaço, primeiro fazendo o cruzamento do feminismo negro e do feminismo pós-colonial[2] para o
feminismo como um todo, e em segundo lugar do feminismo no Sul Global para o Norte Global. É crucial
apontar que as viagens da interseccionalidade indicam o poder do próprio conceito, da ‘capacidade geradora
da produção teórica vinda das margens’, como notou Gail Lewis (2013: 871). Apesar de se poder argumentar
que a expansão da interseccionalidade à corrente dominante demonstra o seu sucesso e poder, é sempre
importante traçar os caminhos pelos quais os conceitos são modificados ao viajarem – raramente uma
tradução contínua, mas antes uma que envolve mutações passíveis de esvaziar o conceito dos seus
significados originais.

Começo por traçar os primórdios da interseccionalidade, e os debates em torno da sua definição e aplicação,
de forma a apresentar a primeira linha crítica, nomeadamente que as raízes críticas da interseccionalidade
foram apagadas à medida que se afastou do feminismo negro e do feminismo pós-colonial para outros
contextos. O objetivo é reconstruir a interseccionalidade como uma abordagem que se generalizou. Na
segunda parte analiso o envolvimento do feminismo marxista com a interseccionalidade argumentando que
a teorização atual do feminismo marxista pode recuperar o potencial crítico da interseccionalidade.
Especificamente, defendo que o foco em questões como o capitalismo, imperialismo, e estruturas amplas e
relações de poder ligam as abordagens do feminismo marxista às teorizações e aplicações originais da
interseccionalidade. São estas características que fazem do feminismo marxista uma abordagem apropriada
às feministas que operam no Sul Global. A última parte do artigo trata da academia neoliberal enquanto
mecanismo essencial para traçar as alterações na aplicação da teoria interseccional. A natureza transitória
da academia e a mediação das viagens da teoria interseccional pode clarificar em parte a proliferação de
aplicações da interseccionalidade que neutraliza o potencial crítico inerente ao conceito. Concluirei
revisitando o conceito de Teorias Viajantes e as formas como o trabalho de feministas no Sul Global pode
operar de forma a dar novamente destaque às raízes radicais da interseccionalidade.

Os primórdios da interseccionalidade

Sem que se preveja um final, o debate em torno do que é a interseccionalidade já dura há duas décadas. Por
um lado a interseccionalidade é louvada enquanto teoria, até mesmo uma grande ou meta-teoria (Davis,
2008), e por outro realçada como uma metáfora (Crenshaw, 1991). Alguns dos defensores da
interseccionalidade enquanto teoria chegaram mesmo a considerá-la um novo paradigma para a
‘comunidade científica’ e portanto uma abordagem positivista (Walgenbach, 2010). A ausência de
metodologia quando toca à interseccionalidade tem sido tão celebrada quanto criticada. Jennifer Nash
(2008) salientou acertadamente que a ambiguidade relativamente a questões metodológicas – com o objetivo
de ser tão inclusivo quanto possível – pode levar a problemas adicionais. Além disso, a ênfase colocada nas
categorias sociais pode dificultar a teorização da relação destas entre si (Erel et al., 2010: 64).

Outros críticos argumentaram recentemente que em vez de perdermos tempo debatendo o que é a
interseccionalidade devemos colocar o foco no que faz – ou seja, dar atenção à sua intencionalidade e
performatividade (Cho et al., 2013). Enfatizar a performatividade pode ser especialmente útil ao abordar
alguns dos problemas que a interseccionalidade coloca hoje em dia. Como afirmou Sara Ahmed (2007),
conceitos e teorias nem sempre funcionam como deveriam, e entender essa performatividade é tão

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importante quanto entender a ausência dela. Ahmed afirma ainda que ‘ser-se crítico’ é uma alegação que não
substitui a crítica em si, pelo que deve ser sempre testada. Se esta abordagem fosse seguida, seria ainda mais
necessário questionar o que é feito atualmente em nome da teoria interseccional. Apesar da
interseccionalidade ter emergido das tradições do feminismo negro e dos movimentos de libertação pós-
coloniais, ela vem sendo gradualmente apresentada como se tivesse emergido do campo de estudos de
gênero no Norte Global. Uma representação avançada por Sirma Bilge (2013), Sara Carbin e Maria Edenheim
(2013), que se auto identificam pós-estruturalistas.

Alegações feitas sobre origens são reivindicações de poder, como bem nos lembrou Michel Foucault (1970
[1966]). Colocar a origem da interseccionalidade dentro da área de estudos de gênero significa
‘embranquece-la’ e reivindicá-la como produção acadêmica, apagando o seu nascimento a partir da história
do feminismo negro e dos movimentos pós-coloniais, e portanto suprimindo a sua articulação fora da
academia. Um exemplo disto foi a alegação feita por Nina Lykke, entre outras, de que as feministas europeias
já faziam pesquisa interseccional na década de 1970 (2005).[3] Outro exemplo, foi a conferência sobre
interseccionalidade que ocorreu em 2009 na cidade de Frankfurt, onde ficaram particularmente claras as
cooptações liberais da interseccionalidade, quando as feministas europeias alegaram já usar a
interseccionalidade no seu trabalho antes da sua emergência no feminismo negro (Lewis, 2009).

Segundo Sirma Bilge, tentativas de reformular genealogias nunca são inocentes e sempre são políticas: ‘As
hierarquias criam-se quando alguém estabelece quais textos são fundadores e incluídos no cânone da
tradução; quem é convidado para eventos científicos importantes onde o novo produto de conhecimento é
apresentado aos especialistas, e quem é marginalizado; quem é empoderado por essa apresentação e quem
não é’ (2013: 407). Entender os debates em torno da interseccionalidade torna-se assim uma forma de
entender os vários conflitos existentes na área dos estudos feministas e dos movimentos feministas em
geral.

Esta vertente crítica pressupõe ainda que a interseccionalidade se tornou uma das formas dominantes de
pesquisa feminista, um processo pelo qual se expandiu para incluir ontologias diferentes e muitas vezes em
conflito. No entanto, o suposto consenso em torno da interseccionalidade serve para camuflar esses
conflitos e representa uma jogada liberal para higienizar as várias abordagens feministas e apresentar o
feminismo como uma área que é simplesmente ‘diversa’, em vez de (também) conflituosa. Este é na realidade
o cerne da questão: que a interseccionalidade foi afetada pelas mudanças que dentro do neoliberalismo
levaram a um discurso sobre ‘diversidade’, e até mesmo de desigualdade, ao invés de um discurso sobre
relações de poder ou dominação.[4] Essas mudanças que expandiram a interseccionalidade tornando-a uma
abordagem possível de encaixar em todas as ontologias feministas comprometeu o seu potencial radical.
Precisamente pelo motivo que abordagens em conflito usam a interseccionalidade, e porque esta camufla os
mesmos, o feminismo acaba por ser apresentado como uma área sem relações de poder, um campo de
‘diversidade’. O que se opõe às origens radicais da interseccionalidade onde tais conflitos e divisões foram
centrais para análises feministas e onde as relações de poder – em particular no que diz respeito a raça e
classe – não foram camufladas, mas sim centrais. Isto não significa que todos os acadêmicos que usam a
teoria interseccional fogem de discussões sobre as relações de poder, mas serve para dizer que cada vez
mais acadêmicos que a interseccionalidade fazem referência a linguagens diferentes.

Um outro aspecto importante deste argumento – que a interseccionalidade não surgiu do feminismo negro
porque já ‘andava no ar’ – serve como supressor do conceito de raça. Como Crenshaw apontou: ‘Existe uma

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acepção de que o esforço efetuado para apresentar a interseccionalidade como produto de consumo
universal implica a re-marginalização da mulher negra’ (2011: 224). Embora se possa argumentar que a
interseccionalidade já ‘andava no ar’ fazendo referência à práxis das mulheres pela libertação colonial, que
denunciaram uma ‘tripla opressão’ ou ‘ tripla ameaça’, é difícil utilizar o mesmo argumento relativamente ao
feminismo liberal, bastante criticado por ignorar questões relacionadas com raça, classe e sexualidade, para
mencionar apenas algumas categorias. Na realidade, a interseccionalidade surgiu no Norte como resposta e
desafio de feministas negras e pós-coloniais a teorizações eurocêntricas de feministas, também no Norte,
centradas nas experiências de mulheres brancas de classe média. Por esse motivo é irônico situar as origens
da interseccionalidade no campo do feminismo liberal como faz Lykke (2005). Bilge (2013) e Carbin e
Edenheim (2013) chamaram a atenção para essa apropriação e ao articular uma história diferente da
interseccionalidade tornaram novamente centrais as questões de raça e classe na análise interseccional.
Além disso, as feministas negras[5] articularam a visão de que raça é uma estrutura que organiza as pessoas
globalmente, e não apenas um elemento por vezes relevante e outras invisibilizado.[6]

Entender como o apagamento da categoria raça ocorre pode ser feito traçando as formas como a
interseccionalidade viajou, primeiramente a partir da história das mulheres negras e do feminismo negro
para o feminismo em geral, e do feminismo do Sul para o Norte Globais. Proclamar que a interseccionalidade
emergiu no Norte Global ignora a realidade de que ela surgiu de grupos de mulheres negras marginalizadas
no contexto norte-americano e que não viajou para a Europa com a facilidade que se imagina. Num artigo
sobre a questão da despolitização da interseccionalidade, Erel et al. argumenta que o potencial crítico da
interseccionalidade diminuiu ao viajar para novos contextos, no caso para o Reino Unido e Alemanha,
particularmente porque existia uma tendência para ‘rejeitar as raízes do conceito nas lutas anti-racistas’
(2010: 57). Além disso, onde o conceito de interseccionalidade é utilizado e raça é incluída como intersecção,
o entendimento de raça pode frequentemente ser eurocêntrico e consequentemente excludente (2010: 57).
Erel et al. argumentou que no contexto acadêmico alemão, as contribuições de mulheres negras e mulheres
migrantes para o feminismo foram silenciadas: ‘Aqui, a interseccionalidade corre o risco de ser reduzida a
uma moda que dá a algumas pessoas o poder de definição ao mesmo tempo que evita a redistribuição do
poder discursivo e material. É isto que acreditamos que acontece com a recepção dos debates sobre a
interseccionalidade no contexto alemão’ (2010: 62).

À medida que a interseccionalidade viaja para áreas diferentes do globo, a questão do eurocentrismo torna-
se ainda mais pertinente. Vrushali Patil chamou a atenção para o fato de que o eixo raça-classe-gênero
adquire significados diferentes dependendo do contexto e que isso afeta a capacidade do conceito viajar sem
mutações. Ela escreve: ‘Aplicações da interseccionalidade continuam a ser formuladas de acordo com as
geografias da modernidade colonial’ (2013: 853). A divisão internacional de trabalho, o colonialismo, o
nacionalismo e as formas globais e locais de patriarcado são questões que deveriam ser centrais, mas muitas
não o são.

Resumindo, esta linha crítica aproxima preocupações com a forma como a interseccionalidade vem sendo
cooptada por algumas linhas do feminismo liberal historicamente contrárias a articulações sobre raça, classe
e outras categorias sociais que separam as experiências das mulheres. Apesar das origens da
interseccionalidade estarem ligadas às lutas e estudos do feminismo negro e aos movimentos pós-coloniais
de libertação, o conceito foi gradualmente se afastando dessas origens radicais e tornou-se uma abordagem
generalizada, utilizada por feministas com posições ontológicas e epistemológicas muito diferentes. Esse
pluralismo apaga o potencial crítico da interseccionalidade em vez de o realçar. Através de uma articulação

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da genealogia da interseccionalidade é possível reivindicar as suas origens radicais para recuperar uma
análise central que coloque ênfase em questões de raça, classe e sexualidade.

Feminismo marxista e interseccionalidade

Nesta seção defendo que apesar da interseccionalidade ter inicialmente lançado uma importante análise
crítica das feministas marxistas, considerando-as redutoras em termos econômicos e mostrando que as
categorias de gênero, raça e outras são simultâneas à de classe e não secundárias, à medida que transitou a
interseccionalidade foi sendo despolitizada. Por essa razão, uma feminista marxista que leva em conta o
ponto de partida da interseccionalidade relativamente à primazia de categorias sociais múltiplas, estabelece
uma forma importante de análise interseccional ampliando-a ao demonstrar como essas categorias são
criadas, como elas não apenas oprimem mas também exploram, e por quê elas se intersectam. O trabalho de
feministas marxistas citado nesta seção leva-nos assim de volta à intervenção crítica da interseccionalidade,
e além dela, ao explicar os porquês.

Existem diferenças importantes nas várias abordagens analíticas e teóricas utilizadas pelas feministas
marxistas, pelo que é impossível especificar apenas uma. Algumas linhas são economicamente redutoras,
vendo raça, gênero, sexualidade e nação como secundárias a classe, o que é um ponto de vista problemático
que já foi amplamente criticado.[7] Assim, aqui darei atenção aos feminismos marxistas que abordam a
questão da interseccionalidade, pelo que quando falo de feminismo marxista estarei referindo-me
especificamente a essa abordagem. Defendo que são essas as abordagens mais capazes de conceitualizar a
complexidade das relações sociais, que mais tratam da questão da opressão material, que levam em conta o
contexto internacional como parte integrante da análise, e finalmente, que mais resistem cooptações
analíticas neoliberais.

Os alicerces desta abordagem assentam numa análise do enquadramento material que coloca o foco no
capital e na produção, assim como nas relações dialéticas entre capitalismo, gênero, raça e outras categorias
sociais. Mudanças analíticas e teóricas contemporâneas no marxismo tornam mais complexa a noção da
produção e reprodução das relações sociais. O objetivo é o distanciamento de questões como as colocadas
por Catherine MacKinnon (1982: 517): ‘O capitalismo criou a dominância masculina ou é uma expressão da
mesma?’ Esse tipo de análise feminista marxista concentra-se em ‘sistemas duplos’ – patriarcado e
capitalismo – negligenciando raça, sexualidade e outras relações sociais de poder.[8] Análises mais atuais
conceitualizam a categoria classe como co-constitutiva de raça, gênero e outras categorias sociais para que
nenhuma delas possa ser abordada separadamente. Ao mesmo tempo, a análise deve ser fundamentada no
contexto que vivemos atualmente: o capitalismo. No entanto, esse fundamento deve levar em conta que o
capitalismo é articulado de formas distintas, dependendo de contextos sociais particulares e não é por isso
universal; a sua organização e impactos não são homogêneos. É uma conceitualização que assenta em
análises marxistas mais recentes e que se opõe ao economicismo do marxismo ortodoxo onde definições de
classe, produção e capital são ampliadas, facilitando assim o entendimento das categorias classe, gênero,
raça e outras, como parte integrante da experiência. A produção não se limita aqui à vida material e à
propriedade mas também às relações sociais, valores, normas e inclinações.

As lutas contra a exploração capitalista também são uma forma de acolher a solidariedade transnacional. O
foco no capitalismo realça a utilidade de uma estrutura marxista para abordar as intersecções das categorias
sociais de gênero, classe e raça, e podem assim ser uma forma de retornar às origens críticas da

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interseccionalidade. Como escreve Bhandar, ‘Como aditivo à teoria marxista, a interseccionalidade leva a um
maior entendimento do caráter da opressão do que o que foi desenvolvido pelo marxismo clássico’ (2013).
Eve Mitchell, em concordância com Sharon Smith, chama a atenção para o problema do uso atual da
interseccionalidade ser incompleto e funcionar como ideologia burguesa que nos impede de entender a
identidade como uma forma de alienação (2013). Ela argumenta ainda que a atenção à identidade, ou às
intersecções de identidade, foca mais no particular ignorando a universalidade do modo de produção
capitalista. Feministas pós-coloniais em particular têm adotado com sucesso uma perspectiva transnacional
que aborda as formas como o imperialismo e o colonialismo organizaram o capitalismo, e como o seu
conjunto é fundamentado em relações de gênero específicas e as articula.

Voltando à questão da genealogia, é importante notar que o trabalho das feministas marxistas negras serviu
de corretivo útil a conceitualizações simplistas sobre exploração, encontradas em algumas análises
ortodoxas marxistas, oferecendo excelentes exemplos do tipo de trabalho inspirado pelo entendimento
materialista da categoria gênero. Um exemplo notável é o coletivo Combahee River que em 1977 declarou que
apesar de se alinhar com a perspectiva de Marx, via a necessidade de uma análise mais ampla que levasse em
conta a condição específica da mulher negra. Nos Estados Unidos desde o início da década de 1920 até aos
finais da década de 1980, as feministas negras produziram uma enorme quantidade de trabalhos
explicitamente alinhados com o marxismo.[9] São trabalhos frequentemente excluídos do cânone
interseccional, mas que fizeram da interseccionalidade uma intervenção crítica de resistência ao poder. No
entanto, as viagem da teoria para vários outros locais foi erodindo o seu potencial crítico.

As feministas que trabalham dentro da tradição marxista têm tendência a observar as formas como as
relações sociais (incluindo raça e gênero) são co-constitutivas e ligadas à produção.[10] No que diz respeito à
questão de abordar a categoria de gênero de uma forma interseccional, isso é um avanço. Enquanto algumas
feministas marxistas, como é o caso de Brenna Bhandar (2013), acreditam que a interseccionalidade está
ultrapassada e nunca foi um projeto radical, outras continuam a argumentar que ela é útil a abordagens
feministas marxistas. Sharon Smith, por exemplo, defende que a interseccionalidade não pode substituir as
abordagens marxistas de gênero porque a interseccionalidade é uma abordagem que nos ajuda a entender a
opressão e não a exploração (2013–2014). Para entender a exploração, e as ligações entre as diferentes
formas de exploração, é preciso situá-las no capitalismo – e é isto que o feminismo marxista faz. O
feminismo marxista é uma forma de explicar por quê categorias diferentes se intersectam e como elas
surgiram. Como notou Sara Farris, se a interseccionalidade ajudou o feminismo marxista a entender que nem
tudo é sobre classe, o marxismo feminista também pode ajudar a interseccionalidade a explicar porque essas
intersecções acontecem (2014). Isso pode ser feito através de uma análise das raízes da exploração usando
uma metodologia histórica e materialista.

O argumento de que o capitalismo requer desigualdade de gênero vêm sendo feito há décadas por feministas
marxistas (Arruzza, 2014). Um exemplo notável de um argumento nesta linha é a teoria de reprodução social,
que diz que gênero é constitutivo do capitalismo e não um seu derivado acidental. Como afirmou Maria Dalla
Costa, ‘A esposa e o seu trabalho se inserem no processo de produção da mais-valia e são a fundação que
permite esse processo’ (citado em Mies, 1998: 31). Vemos aqui a historização das relações de gênero através
do capitalismo para demonstrar precisamente como as mulheres não são apenas afetadas mas também
constituídas por meio de estruturas variadas. Ao mesmo tempo, para evitar o reducionismo econômico, este
tipo de argumento pode ser projetado através de uma ótica interseccional ao se questionar: que mulheres
são afetadas e de que formas? É este tipo de questão que pergunta uma feminista marxista que tem

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consciência das intersecções de múltiplas categorias, e é para esse ponto que volto a minha atenção agora.

Para oferecer uma perspectiva mais substancial da teorização do feminismo marxista que observa as
categorias de raça, nação, gênero e imperialismo no capitalismo, volto a minha atenção para as feministas
marxistas negras e as feministas do Sul Global. Feministas marxistas negras como Claudia Jones e o Coletivo
Combahee River vêem o marxismo como uma ferramenta importante para entender a realidade, mas
chamam a atenção para o papel central da raça e do racismo do desenvolvimento do capitalismo. É um
trabalho que observa por exemplo as formas como o tráfico de escravos desenvolveu o capitalismo em
aspetos específicos e permitiu a sua expansão de forma dramática, mostrando que raça e racismo não são
apenas consequências do capitalismo ou contradições secundárias, mas sim parte integrante do
funcionamento do próprio capitalismo. Obtemos assim uma análise de como a categoria de raça foi ampliada
com a escravidão, e qual a relação desse fato com a expansão capitalista. Tal análise demonstra ainda uma
ótica tanto marxista quanto interseccional. Gênero, raça e classe se intersectam nessa análise; mas cada
categoria pode também ser situada histórica e materialmente. É significativo que esses conceitos sejam
fundamentados na materialidade.

A feminista marxista Selma James falou das maneiras em que podemos entender formas variadas de opressão
como raça, enquanto mantemos o sistema capitalista como o contexto subjacente ao fazer sentido da
‘cultura’ de uma forma particular:

“Delimitar a cultura é reduzi-la a uma decoração do cotidiano. A cultura são peças de teatro e
poesia sobre os explorados; parar de usar saias curtas e passar a usar calças por exemplo. A
cultura é ainda o som estridente do despertador que toca às 6 da manhã quando uma mulher
negra em Londres acorda os !lhos para os levar para a creche. Cultura é o frio que ela sente
esperando o ônibus e o calor que sente lá dentro.” (James and Beese, 1975: 5)
A citação mostra mais uma vez a intersecção de várias categorias, incluindo raça, gênero e classe reunidos
no conceito de cultura como este é abrangentemente entendido. Este tipo de trabalho é interseccional e
apresenta uma abordagem marxista que permite entender as intersecções.

Capitalismo, imperialismo e gênero têm particular importância devido ao seu alcance global e o trabalho da
feminista marxista Silvia Federici vem tentando formular as relações entre eles, dando atenção ao
capitalismo enquanto sistema transnacional que inclui o Sul Global como elemento chave nesse sistema. O
seu trabalho sobre como organizações, como as Nações Unidas e o Banco Mundial, usam noções de
‘igualdade de gênero’ para aprofundar medidas de austeridade é crucial em muitos contextos no Sul Global.
Diz ela que, ‘Se isso não é mais óbvio nas nossas vidas, pelo menos em muitas áreas do Norte Global, é
porque as “catástrofes humanas” [acumulação capitalista] que causou têm sido na maior parte
exteriorizadas, confinadas às colônias, e racionalizadas como efeitos de atrasos culturais ou apego a
tradições erradas e “tribalismos” ’ (Federici, 2012: 104). A acumulação capitalista afeta o Sul Global de formas
particulares que depois reproduzem formas diferentes de relações de gênero; é precisamente isso de que
trata o trabalho de Federici que une o feminismo marxista e as intersecções de capital, imperialismo, gênero
e raça.

As feministas que se dedicam a análises de classe no Sul Global também têm produzido um trabalho que
aponta para o papel central do colonialismo e do imperialismo no desenvolvimento capitalista, e como esses
dois processos vêm usando raça, nação e gênero para produzir estruturas de classe específicas. Para estas

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feministas, o imperialismo não é periférico mas sim constitutivo do capitalismo. Estas feministas, tal como as
feministas negras, colocam dessa forma uma análise crítica dupla: por um lado a análise de um feminismo
que vê o gênero como a principal fonte universal de opressão das mulheres; e por outro lado, uma análise
crítica do marxismo que vê o imperialismo e o colonialismo – e consequentemente raça e nação – como
periféricos ao sistema capitalista e à sua expansão e desenvolvimento. Especialmente notório neste ponto é
o trabalho de Chandra Mohanty, Gayatri Spivak, Nadje al-Ali (2005) e Leila Ahmed (1982, 1992).

O que está em jogo aqui não é apenas a análise feminista, mas também uma forma de solidariedade feminista
através das condições materiais. O que temos em comum é a produção e a reprodução das nossas condições
materiais e as formas como elas criam categorias sociais, mesmo quando os mecanismos específicos que as
possibilitam têm particularidades diferentes. De fato, eu diria que esta forma de solidariedade nos apresenta
uma forma mais concreta de organização transnacional do que a solidariedade fundamentada apenas na
categoria de gênero. Isto fica particularmente claro após o processo de descolonização onde as forças do
nacionalismo e da classe foram instrumentais na criação de solidariedades entre, e além dos movimentos
feministas. Além disso, a atual divisão internacional do trabalho representa outra impossibilidade para a
solidariedade baseada no conceito universal mulher, uma vez que as condições de vida no Norte Global
permitem às mulheres alcançar um padrão de vida mais alto devido à exploração de mulheres e de homens
no Sul Global.

O neoliberalismo como contexto

Uma das formas de aglomerar análises críticas sobre a apropriação da interseccionalidade enquanto teoria
viajante e o potencial da contribuição das feministas marxistas na reivindicação da radicalidade da teoria
interseccional, é abordar a questão do contexto da produção de conhecimento pelas feministas
contemporâneas: a neoliberalização da academia. A interseccionalidade emergiu no momento em o ativismo
político radical tomou a academia em efeito dominó. Como notou Delia Aguilar ‘Confinar a origem da
interseccionalidade a um feminismo profissionalizado nega a historicidade da sua concepção, aprimorada
pela intensidade das lutas revolucionárias das organizações das mulheres negras’ (2012). Os movimentos
radicais das décadas de 1960 e 1970 nos Estados Unidos são a chave para entender a evolução da
interseccionalidade.

Discussões em torno do estado atual da interseccionalidade deveriam levar em conta o contexto da


academia neoliberal. Não para reproduzir uma falsa dicotomia entre teoria e prática, ou entre academia e
ativismo, mas sim para chamar a atenção para as formas como os debates sobre a interseccionalidade na
academia são moldados pelo neoliberalismo. O meu argumento aqui é que esse contexto de neoliberalismo
pode ser explicado por um processo de cooptação das características radicais da interseccionalidade e de
outros conceitos críticos dentro do feminismo. São cooptações que ocorrem graças a mecanismos
específicos inseridos na produção do conhecimento que servem para refrear o academicismo crítico (Fraser,
2006, 2007). É de fato uma questão central em qualquer discussão sobre a interseccionalidade em particular
e o feminismo em geral: podemos entender a interseccionalidade como outro exemplo de cooptação e, se
sim, como impedir tais cooptações? Se é o caso que toda a intervenção crítica na área do feminismo pode
ser ou é cooptada e higienizada, torna-se imperativo que os mecanismos que permitem essa cooptação
sejam escrutinados. Para isso seria necessária uma análise genealógica dos mecanismos usados pelo centros
de produção do conhecimento para disciplinar e desradicalizar formas de conhecimento que ameaçam o
eurocentrismo e os modos neoliberais de produção de conhecimento.

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Carbin e Edenheim fazem referência ao contexto acadêmico numa breve discussão sobre a
institucionalização da interseccionalidade: ‘A Interseccionalidade está encaminhada para ser
institucionalizada e incluída na burocratização contínua da política’ (2013: 234). Bilge conduziu uma
investigação mais aprofundada analisando as condições neoliberais que provocaram a mudança da
interseccionalidade enquanto ontologia radical a abordagem acadêmica e liberal de gênero:

“Presunções neoliberais criam as condições que permitem que os fundamentos da interseccionalidade se


diluam, se disciplinem e se desarticulem. (…) Uma interseccionalidade despolitizada é particularmente útil ao
neoliberalismo que reenquadra todos os valores em valores de mercado: as políticas radicais baseadas na
identidade tornam-se ferramentas corporativas de diversidade alavancadas por grupos dominantes para
atingir objetivos ideológicos e institucionais variados; uma gama de lutas minoritárias são incorporadas na
governamentalidade da diversidade, orientada pelo mercado e sancionada pelo estado; ‘diversidade’ torna-se
assim uma característica da administração neoliberal, que fornece os ‘princípios administrativos do bom
governo e operações de negociação eficientes’; o conhecimento da ‘diversidade’ pode ser apresentado como
uma especialização comercializável do entendimento e aplicação de múltiplas formas de diferença
simultâneamente – um significante de avaliação sólida e de profissionalismo desejáveis.” (Bilge, 2013: 407)

Um texto importante sobre neoliberalismo e a academia de Chandra Mohanty (2013) argumenta de forma
persuasiva que a intersecção de pós-modernismo, feminismo e interseccionalidade produziram efeitos
negativos nos estudos de gênero. As análises feministas pós-modernas são marcadas por apelos a fluidez e
nuance, além de uma aversão a análises sistemáticas, que segundo Mohanty prejudicam a causa feminista
uma vez que deixam de lado análises das estruturas de poder global. O papel do neoliberalismo nesta
situação é claro, pois favorece análises relativas ao indivíduo à custa das estruturas. Mohanty questiona
(2013: 971): ‘O que acontece com aquela constituição chave do feminismo “o pessoal é político” quando o
político (ou seja, o domínio público coletivo da política) é reduzido ao pessoal?’ Mohanty faz uma análise
materialista ao apontar que a política representativa de gênero, classe, raça e outras são separadas dos seus
fundamentos materialistas e que dessa forma se destrói a diferença (2013: 972). Nancy Fraser fez ainda uma
intervenção importante que indica as formas através das quais o feminismo liberal agiu como ‘serva do
capitalismo’ (2013).

Neste ponto torna-se particularmente útil a crítica do feminismo marxista que fornece as ferramentas
analíticas com as quais podemos analisar a neoliberalização da academia, os seus efeitos nos estudos
feministas e a sua relação com o declínio dos movimentos sociais radicais à volta do mundo. Delia Aguilar
(2012), por exemplo, chamou a atenção para as mudanças nos estudos feministas que certamente espelham
mudanças na academia como um todo. Ela realça que após a década de 1980 houve alterações nas pesquisas
que abordam questões de gênero, raça e classe: ‘A ideia que uma exposição relevante da sua interação exige
um entendimento das operações capitalistas foi rapidamente eliminada pelo colapso dos movimentos sociais
e o desencadeamento do conservadorismo.’ Ela fala de feministas que discutem classe como uma das
‘intersecções’ das suas análises, mas a definem como designação de salário e de ocupação em vez de situá-la
nas relações sociais de produção: ‘Neste ponto, transferimo-nos efetivamente para o âmbito do discurso
com cada vez menos alicerces materialistas’ (Aguilar, 2012).

As questões levantadas pelas várias críticas da interseccionalidade são assim intrinsecamente ligadas à
neoliberalização e os seus efeitos na produção do conhecimento feminista. Por que razão a
interseccionalidade não resistiu à intrusão do neoliberalismo na academia, mas o(s) feminismo(s) marxista(s)

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sim? Qual o potencial para uma cooptação dentro de vertentes específicas da teorização? A resistência à
cooptação do feminismo marxista leva-me a defender que são o(s) feminismo(s) marxista(s) que podem
oferecer uma forma de resistir à neoliberalização da teorização feminista e da academia feminista auxiliando
o retorno às origens críticas da interseccionalidade. O que é de suma importância para as feministas que
trabalham no Sul Global, onde o neoliberalismo teve efeitos mais dramáticos. Intervenções marxistas vindas
dessas regiões do mundo, chamam a atenção para o eurocentrismo presente no marxismo ortodoxo e têm
por isso procurado usar os princípios teóricos marxistas de uma perspectiva pós-colonial.[11] Em tal análise
marxista, o capitalismo não é apenas uma intersecção, mas sim o próprio contexto onde categorias sociais
como gênero, classe, sexualidade e raça são constituídos, e é este próprio contexto que passa a ser analisado
como sendo constituído por essas categorias. É ainda o contexto onde podemos analisar como se evita e
nega legitimidade e discussão a categorias e conceitos específicos.

É aqui que algumas das limitações dos usos atuais da interseccionalidade se tornam especialmente mais
claras. A afirmação que o conceito deriva do feminismo liberal demonstra a falta de conhecimento sobre as
raízes da interseccionalidade formulada a partir do feminismo negro e dos movimentos de libertação pós-
coloniais, dando lugar a utilizações da interseccionalidade incapazes de analisar produtivamente as relações
Norte-Sul. Ou seja, a dimensão geopolítica transnacional está frequentemente ausente e a sua teorização
não é aprofundada, indicando que tipo de audiência o autor imagina. É neste ponto que o marxismo
articulado por teóricos do Sul Global pode ajudar, uma vez que são essas articulações que têm
conceptualizado com maior profundidade formas de abordar relações geopolíticas transnacionais. Alguns
pontos chave incluem as formas como estado e nacionalismo são teorizados, a inclusão do imperialismo na
análise, e as formas como todos os processos políticos e econômicos são abordados a partir das categorias
de gênero, assim como de raça e sexualidade, e marcados pelas relações entre classes. Isso não pode ser
feito valorizando apenas as experiências das mulheres (e dos homens), mas deve ser aprofundado
fundamentando essas experiências no sistema capitalista transnacional, com destaque especificamente nos
efeitos do neoliberalismo. Por outras palavras, contextualizar categorias sociais nas relações capitalistas –
que criaram a academia neoliberal – significa que o marxismo limita e destaca por si só uma crítica ao
neoliberalismo, e que talvez por isso tenha sido menos vulnerável à cooptação pelo neoliberalismo
acadêmico.

Conclusão

Edward Said revisitou a sua tese original sobre teorias viajantes (Said, 2001) e articulou uma possibilidade
diferente: que à medida que as teorias viajam, elas não só perdem as suas vantagens radicais como também
podem cumprir um potencial radical (Carbado, 2013: 812). Defendi neste texto que abordagens marxistas ao
feminismo, vindas do Sul Global são uma forma de cumprir o potencial radical inerente à
interseccionalidade, à medida que a teoria viaja pelo planeta, e que portanto essa é uma forma de recapturar
o potencial crítico presente quando a interseccionalidade emergiu das lutas e estudos do feminismo negro e
dos movimentos de libertação pós-coloniais.

As críticas crescentes que se levantam contra a interseccionalidade deveriam levar a uma discussão sobre a
genealogia e a trajectória da abordagem e as suas várias utilizações hoje em dia. De acordo com essas
críticas, a teoria interseccional tornou-se uma abordagem geral cooptada pelo feminismo liberal destinada a
políticas de identidade, sobre o pretexto de ser uma abordagem crítica de gênero. É importante lembrar que
nos estudos de identidade e nas políticas de identidade, as identidades sociais são vistas como intersecções

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que se reforçam entre si. No entanto, esta é uma perspectiva que poucas vezes se amplia a uma análise sobre
desigualdades estruturais e relações de poder, ou que identifica o capitalismo como o contexto onde essas
identidades sociais se constituem. Isto de deve ao fato de que a identidade é frequentemente teorizada como
sendo o resultado da ‘diversidade’, externa a, ou de um poder pré-existente, não fundamentada na
materialidade.

Richard Seymour defendeu que, em última instância, a interseccionalidade é uma forma de colocar um
problema teórico e não uma solução, e a sua utilidade depende das amplas articulações teóricas onde o
conceito está mergulhado (2013). Quando algumas dessas amplas articulações teóricas são neoliberais,
também o conceito de interseccionalidade o é. Acredito que é útil lembrar este ponto em discussões sobre o
atual estado do pensamento feminista no que toca à interseccionalidade. É também por esta razão que
abordagens de feminismo marxista são particularmente úteis enquanto intervenção contra a cooptação
neoliberal da interseccionalidade. Variações do feminismo marxista a partir do Sul Global chamam a atenção
para as formas como classe, gênero, raça e outras relações sociais não são apenas inseparáveis mas também
intrínsecas às relações geopolíticas de poder no mundo. Abordagens que destacam a materialidade e as
estruturas imperialistas e capitalistas globais têm o potencial de ir além da variação liberal da
interseccionalidade porque elas identificam as intersecções das categorias sociais e fornecem uma análise de
como essas marginalizações se desenvolvem historicamente e como podem ser desmanteladas. Como
afirmou Seymour, precisa-se de uma solução teórica que tenha um elemento de praxis (2013). Erel et al.
colocaram o mesmo problema chamando a atenção para o contexto: ‘“Interseccionalidade” pode ser uma
receita descritiva cujo valor analítico só se faz sentir ao fundamentá-la no contexto crucial anti-racista e
pós-colonial. Assim, uma análise crítica das relações de poder surge como pré-condição para entender os
efeitos, relações e interdependências de poder e dominação’ (2010: 64). Parece-me que aqui também, o
feminismo marxista é particularmente útil.

Reunir diferentes linhas críticas da interseccionalidade de forma a realçar alguns pontos cegos da sua
utilização atual pode ajudar as feministas a uma discussão sobre a genealogia e trajetória do conceito, assim
como a direção a tomar. Além disso, levanta questões sobre o destino das teorias viajantes feministas, e
como elas se relacionam com as estruturas capitalistas e imperialistas que condicionam a produção de
conhecimento atual. Isto tem amplas ramificações para os estudos feministas como um todo. Questões de
poder e exclusão são centrais no academicismo feminista desde a sua origem. Nós feministas temos de
permanecer consistentemente atentas às formas como estabelecemos linhas de inclusão e exclusão no
nosso trabalho e no nosso ativismo, e nas formas como utilizamos conceitos específicos para incluir/excluir.
A interseccionalidade pode ser um conceito extremamente útil se abordar as relações de poder. Mas para
que isso seja possível, é preciso que levemos a sério as críticas contra a sua apropriação na academia
feminista neoliberal.

Agradecimentos

Uma versão deste artigo foi apresentada em 2015 na conferência de Frankfurt organizada por Nikita Dhawan:
Diferença que não faz diferença. Os meus agradecimentos pela oportunidade de apresentar o meu trabalho
nesta conferência e pelos comentários extremamente úteis que recebi de Nikita Dhawan. Os meus
agradecimentos a Vanessa Thompson e Rekia Jibrin pelos seus comentários construtivos e pelo seu apoio, e
um agradecimento muito especial a Karim Malak pelo seu feedback aos vários rascunhos deste artigo, e pelo
seu apoio e encorajamento.

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Financiamento

Esta pesquisa não recebeu nenhum apoio específico de nenhuma agência pública, comercial, ou do setor
não-lucrativo.

=====

Notas:

[1] Uso a seguinte definição de feminismo liberal: uma vertente de teoria feminista que tem como objetivo
atingir igualdade em algumas áreas da sociedade, particularmente através de reformas legislativas. O seu
foco é a aquisição de direitos individuais com o eventual objetivo de providenciar, a todas as mulheres,
liberdade de escolha.

[2] Nota da tradutora: No inglês, ao longo do artigo a autora utilizou o termo Feminismo do Terceiro Mundo
algumas vezes para se referir ao Feminismo Pós-Colonial. Na tradução para o português optei pela segunda
terminologia apenas, por ser mais recente, e por esta tradução ser destinada a leitores do Sul Global, antes
denominado pela terminologia de ‘terceiro mundo’, expressão essa que possui uma conotação negativa. Eis a
nota da autora relativamente à opção que fez no texto, em termos destas terminologias: “Utilizo os termos
Terceiro Mundo, assim como Norte Global/Sul Global, seguindo as cronologias do seu uso no academicismo
feminista. Na década de 1980, quando o conceito de interseccionalidade foi formulado, o que hoje chamamos
de Sul, era conhecido como Terceiro Mundo. Os conceito de Norte Global/Sul Global são mais recentes.

[3] Relativamente à questão apresentada sobre a emergência da interseccionalidade a partir dos estudos de
gênero, ver: Haritaworn (2012), Lewis (2009, 2013), Petzen (2012), Tomlinson (2013).

[4] Para uma excelente discussão sobre essas mudanças ver: Wendy Brown (1995).

[5] Ver: Angela Davis (2011), Patricia Hill Collins (2002).

[6]
No entanto, neste ponto é necessário fazer referência às críticas pós-coloniais de que o
transnacionalismo é frequentemente ignorado por teóricas interseccionais no Norte, assim como a contra-
crítica contundente de que as teorias pós-coloniais dão demasiada importância ao transnacional às custas
do nacional (Lazarus, 1999, 2011).

[7] Em especial ver: Cinzia Arruzza (2014) e Sara Farris (2014).

[8] Os debates dentro do feminismo marxista sobre a teoria de sistemas duplos foram tão extensos que
tiveram um impacto negativo na área: para ter uma ideia consulte Barrett (2014).

[9] O exemplo mais conhecido é provavelmente Angela Davis. Outro exemplo notável foi o Partido dos
Panteras Negras, que se identificava com a ideologia comunista e incluía muitas das mulheres trabalhando
com questões de gênero, raça e comunismo.

[10]
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[10] Para uma excelente discussão sobre marxismo e feminismo, consulte:


https://viewpointmag.com/2015/05/04/gender-and-capitalism-debating-cinzia-arruzzas-remarks-on-
gender/

[11]
Consulte em particular: Amin (1977, 1980).

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=====

Citação completa do Artigo:


Salem, S., 2016. Intersectionality and its discontents:
Intersectionality as traveling theory.
European Journal of Women's Studies,
DOI.1350506816643999.

Este artigo foi originalmente publicado em inglês por Sara Salem.


Veja o perfil de Sara na área de autores.
Para mais informação e para usar este artigo contate a autora via
@saramsalem ou pelo email salem@iss.nl.

Imagem de Destaque:
Fotografia de um mapa antigo (amarelado com as localizações escritos a negro)
da faixa de terra correspondente ao Norte de África e Península Arábica.
Sobre a imagem, o titulo em inglês 'Postcolonialism and its Discontents'
(O Mal-Estar do Pós-colonialismo) e o lema do website, 'A blog by Sara Salem.
Postcolonialism, Marxism, feminism and other conspiracies
(Um blog de Sara Salem. Pós-colonialismo, Marxismo, feminismo e outras
conspirações). Clique na imagem para ler o blog da autora.

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