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O que é filosofia?

“O que é a filosofia?” em menos de 3 mil palavras

Da maneira como a desenvolvo, a filosofia tem uma dupla acepção. De um ponto de


vista geral, ela é uma narrativa de desbanalização do banal. De um ponto de vista
específico, ela é uma investigação que lida com os mecanismos que nos fazem
tomar o aparente pelo real – se é que estamos envolvidos nesse problema.

Essa maneira de descrever o que faço como filósofo é o melhor modo que encontrei para colocar
meu leitor, de modo rápido, inteirado a respeito do que é o meu cotidiano.

Tudo que vejo e que os outros também enxergam todos os dias se torna banal para nós. O
trânsito não funciona na cidade de São Paulo e o prefeito diz que está tudo bem. Alguns
reclamam. Mas a pressão do trabalho faz com que todos entrem no ônibus lotado e se
submetam a condições desumanas para ir para o serviço. Eis que em determinado momento,
ninguém reclama mais. Toma-se como banal que o trânsito não funcione. Ocorre aí a
banalização de nossa própria vida. Então, é hora do filósofo mostrar uma cidade grande, em
outro lugar, em outro país, onde o trânsito funciona – para desbanalizar o nosso banal, que é o
trânsito não funcionando.

O filósofo é aquele que vê o que todos vêem todos os dias, mas ele, diferente de outros, aponta
para situações em que aquilo que é visto não é algo que deveria estar ali como está. Poderia
não estar. Talvez devesse não estar como está.

Até aí, estou no âmbito da minha atividade de desbanalizador do banal. Caminho na função da
filosofia, assumida de acordo com a acepção geral que dou a ela. Mas essa desbanalização do
banal me conduz para à minha segunda acepção de filosofia.

Entro em casa, ligo a televisão e vejo o prefeito, de helicóptero, passeando por cima de São
Paulo e afirmando que o trânsito em São Paulo não é tão ruim, que “sempre foi dessa maneira”,
que São Paulo é muito grande e que com 22 milhões de pessoas aglomeradas “não poderia ser
diferente”. Eis que está na sala um vizinho, e ele apóia o prefeito. Ele acredita que, de certo
modo, o prefeito está certo. Como poderiam 22 milhões de pessoas aglomeradas, todo mundo
de carro, não congestionar a cidade – impossível. O jeito de lidar com a coisa, então, é uma só:
paciência – esta é a fórmula do prefeito e do meu vizinho. Bem, diante dessa conclusão do meu
vizinho, minha atividade de desbanalização do banal caminha para o campo da minha segunda
acepção de filosofia. Pois o que meu parente está fazendo é simplesmente parar de pensar e
aceitar o discurso – ideológico – do prefeito.

O problema, então, não é o de convencer o meu vizinho de que o prefeito está usando de um
discurso ideológico. O problema filosófico, neste caso, é mais complexo. O filósofo não é o que
vai desideologizar o discurso do prefeito. O filósofo é o que vai investigar para entender quais os
mecanismos (se é que existem) tornaram o vizinho capaz de tomar o aparente – o problema do
trânsito não tem solução – pelo real – o problema do trânsito deve ter solução, uma vez que a
racionalidade em outros lugares eliminou tal problema.

© 2008 Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo