Você está na página 1de 6

A percepção social

Conceito:

A percepção social é um processo de interpretação do comportamento das outras


pessoas; sendo entendida desta forma, ela se dá em diferentes etapas. Na primeira
etapa, o comportamento do outro deve atingir nossos sentidos, e para que isto
aconteça, eles devem estar funcionando corretamente, além disso, é
imprescindível que o ambiente forneça as condições necessárias (fase pré-
psicológica do fenômeno perceptivo). A segunda etapa acontece quando o
comportamento do outro já atingiu nossos sentidos, a partir daí acontece a ação
dos nossos interesses, estes entendidos como nossos “preconceitos, estereótipos,
valores, atitudes e ainda outros esquemas sociais”, (fase psicológica do fenômeno
perceptivo) (RODRIGUES, 1996, p. 202).

O entendimento do comportamento do outro se dará então a partir do que nossos


sentidos captaram juntamente com o que pensamos, formando assim a
interpretação deste comportamento (LUZA, 2008).

Segundo Rodrigues (2007, p. 203), a percepção social é condição para a


interação humana. O processo perceptivo é permeado por variáveis que se
intercalaram entre “o momento da estimulação sensorial e a tomada de
consciência daquilo que foi responsável pela estimulação”. Estas variáveis
influenciam em como as pessoas percebem determinado comportamento (LUZA,
2008).

No caso da percepção social, quando ouvimos uma pessoa falando de outra,


acontece que algumas características, por serem mais centrais que outras, fazem
com que nos atenhamos a elas e portanto existe a tendência de que as
informações recebidas primeiramente exerçam maior representatividade do que
as apresentadas posteriormente.

Outra variável que influencia na percepção que teremos de determinada pessoa


são os estereótipos, estes podem ser positivos ou negativos, e consistem em
designar características às pessoas de determinado grupo, ao qual inferimos
características típicas. Destaca-se que, ainda, devemos considerar a variável
preconceito, neste caso a representação do grupo é negativa, e este “influi
decididamente no processo perceptivo”, como veremos determinada pessoa
(RODRIGUES, p. 220, 1996).

A partir da interpretação que fizemos do comportamento do outro, tendemos a


tentar explicá-lo. Para compreendermos como se dá este processo, autores como
Rodrigues (2007) e Leyens (1999) trazem considerações acerca da Teoria da
Atribuição de Causalidade, que explica como atribuímos causas, motivos, aos
comportamentos das pessoas. Para os autores, as causas atribuídas podem ser
internas, “a pessoa é assim mesmo”, logo, são causas estáveis, ou externas, “a
pessoa agiu desta forma porque o outro fez algo que a irritou”, estas são causas
instáveis, pois, podem variar dependendo do ambiente (LUZA, 2008).

Nesta tentativa de comentar os comportamentos, podemos perceber a diferença


quando explicamos o nosso próprio comportamento e quando estamos
explicando o de outras pessoas. Segundo Myers (2000), enquanto explicamos
nosso comportamento, o fazemos a partir da situação que o desencadeou, já
quando explicamos o comportamento das outras pessoas, tendemos a inferir que
esta atitude é uma característica desta pessoa, não considerando em que situação
ela agiu de determinada forma. Quando fazemos isto, incorremos no que é
chamado por psicólogos sociais de erro fundamental de atribuição (LUZA,
2008).

Podemos compreender aqui, que os nossos julgamentos se dão a partir das


características que inferimos às pessoas. Torna-se importante abordar esta
questão neste momento, para que possamos visualizar que todos nós cometemos
julgamentos e nestes julgamentos podemos incorrer no erro fundamental da
atribuição (LUZA, 2008).

De acordo com Rodrigues (1996), a Teoria da Gestalt com seus direcionamentos


e estudos em relação à percepção exerceu grande influência na Psicologia Social,
promovendo maior entendimento e melhor desenvolvimento de pesquisas que
contribuíram para que muitos conceitos da Gestalt fossem transpostos para a
Psicologia Social. Cognição e boa organização perceptiva (proximidade,
semelhança, experiência passada, boa forma, assimilação e contraste) são
exemplos dessa transposição (SÁ, 2009).

A percepção social, um dos processos que mais interfere nas relações humanas,
obteve grandes benefícios ao incorporar diversos conceitos da Gestalt. Foi
possível descobrir que essa percepção de pessoas é baseada em princípios
semelhantes aos da percepção de objetos e obedece, portanto, as leis da boa
forma (RODRIGUES, 1996). Entretanto, ao contrário da percepção de objetos, a
percepção social da ênfase para a atribuição de intenções. Outra diferença crucial
é que nela, além de perceber, também é possível ser percebido (RODRIGUES,
ASSMAR & JABLONSKI, 2002).
A percepção em si é um processo que segue uma trajetória que parte de uma
estimulação sensorial e vai até a tomada de consciência. É algo extremamente
complexo, pois no caminho está sujeito a uma série de importantes interferências
cognitivas que serão determinantes para o resultado perceptivo final
(RODRIGUES, 1996).

A percepção social se apresenta como uma espécie de pré-condição do processo


de interação social, exatamente porque ela permite uma análise recíproca e inicial
dos sujeitos. A percepção social começa no instante que a estimulação sensorial
chega ao percebedor e tem seu fim em uma tomada de consciência. Os meandros
desse caminho apresentam uma série de variáveis e interferências cognitivas que
vão influenciar a finalização do processo (RODRIGUES, ASSMAR &
JABLONSKI, 2002).

Alguns fatores interferem no processo perceptivo como (RODRIGUES,


ASSMAR & JABLONSKI, 2002):

A) Seletividade perceptiva: Diz respeito ao fato de que apesar das pessoas


serem bombardeadas por uma grande quantidade de estímulos, apenas uma parte
é captada.

B) Experiência prévia: A familiaridade em relação a um estímulo faz com que a


pessoa tenha maior disposição para responder a ele. Enfim, nossas vivências
passadas nos predispõem a mais facilmente percebermos os estímulos conhecidos
em detrimento dos desconhecidos.

C) Condicionamento: A sombra do behaviorismo também tem seu espaço na


psicologia social. Quando reforçarmos certos tipos de percepções colocando
outros possíveis em segundo plano, a tendência é de viciarmos os sujeitos em
apenas uma percepção possível.

D) Fatores contemporâneos ao fenômeno perceptivo: O estado do percebedor


frente ao percebido, no dado momento da percepção, também pode deixar marcas
na mesma. Assim, o cansaço, estresse, sede, ira, ciúmes etc. podem alterar a
percepção do sujeito em uma direção totalmente nova.

E) Defesa Perceptiva: Bloqueio na conscientização de estímulos


emocionalmente perturbadores.
Além disso, valores, atitudes, tendenciosidades, interesses, estereótipos,
preconceito e atribuições de causalidade também são capazes de interferir e
distorcer o estímulo percebido inicialmente (RODRIGUES, 1996).

Para a percepção social, todas estas interferências são de extrema relevância, uma
vez que permitem compreender como um indivíduo muitas vezes coloca
significado nas ações de outras pessoas. Pode-se dizer que a maneira como a
ação do outro é percebida, independente do seu significado real e dependente das
interferências cognitivas, vai determinar o tipo de resposta que será dada. Neste
processo, a atribuição de causas aos fatos observados ou vivenciados assume
importante papel, destacado inicialmente por Fritz Heider (1970) (SÁ, 2009).

Aplicações Práticas dos Conhecimentos sobre o Fenômeno de Percepção


Social (BRAGHIROLLI et al, 2003):

a) Psicologia da Propaganda

A mensagem transmitida pela propaganda deve ser apresentada de forma tão


clara que torna difícil sua distorção pelos processos psicológicos. Quanto mais
específico for o estímulo distante, aliado a boas condições mediadoras, maior
será a probabilidade de o destinatário perceber o estímulo distante tal como ele é
na realidade.

b) Psicologia do Boato

A importância do assunto e a ambiguidade do mesmo são as condições essenciais


para a propagação do boato. No boato e na transmissão de qualquer informação
ambígua, as pessoas que fazem parte da cadeia de transmissão da informação
alteram o conteúdo da mensagem devido à ação dos processos psicológicos.

c) Psicologia das Discussões

As pessoas não gostam de serem contraditas em suas ideias, opiniões,


sentimentos e julgamentos, e quando duas posições entram em choque, sobre elas
se estabelece uma discussão, que é sempre conduzida num clima de alta
emotividade. Inúmeras são as distorções perceptivas acarretadas pela
emocionalidade e demais processos psicológicos destorcidos dos estímulos que
nos atingem durante uma discussão. Comunicação com as emoções e sentimentos
irracionais controlados é recomendada para que as discussões possam conduzir a
algo construtivo e não a conflitos.
d) Psicologia do remorso e do sentimento de realização

Sentimos remorso quando deixamos de fazer algo que podíamos e devíamos


fazer ou quando cometemos algum ato que não devíamos cometer. Se estiver
além de nossas forças não fazer o que devemos ou fazer o que não devemos, não
há remorso. Quando realizamos algo meritório por razões outras que não são a
nossa intenção e habilidade de fazê-lo, não há sentimento de realização. É a
maneira pela qual percebemos nossos atos que determina o sentimento de
remorso e o sentimento de realização.

e) Psicologia das relações internacionais

Geralmente, os dirigentes de um país veem suas ações como sendo as melhores,


conducentes à paz mundial, à justiça e à prosperidade; as ações do adversário são
sempre as piores, dominadoras e exploradoras. O grau do temor expresso por
uma nação em relação à outra depende da percepção da capacidade do adversário
e de sua intenção de causar dano.

f) Rotulação das pessoas e suas consequências

Uma vez rotulada, é difícil para a pessoa, alvo da rotulação, mudar sua imagem.
A tendência à rotulação decorre da necessidade que temos de simplificar nossas
relações interpessoais, fazendo com que certos comportamentos sejam
antecipados; nós tendemos a perceber a pessoa à luz do rótulo que lhe foi
imputado. Embora comum, tal tendência à rotulação é perigosa e leva a injustiças
e erros de julgamento.

Nossas percepções são distorcidas pela rotulação, pois nos predispõe a antecipar
comportamentos compatíveis com o rótulo. Isso acarreta duas consequências: a)
comportamentos que não se harmonizam com o rótulo imposto tendem a passar
desapercebidos ou são deturpados para adequar-se ao rótulo;
b) as expectativas ditadas pelo rótulo fazem com que sejam salientados os
comportamentos com eles compatíveis e o nosso próprio comportamento frente à
pessoa rotulada pode a induzir a comportamentos coerentes com os que
antecipamos.

g) Atribuição de causalidade e suas aplicações a outros setores da psicologia

As causas de sucesso ou de fracasso podem ser atribuídas a fatores internos


(habilidade, esforço) ou a fatores externos (dificuldade da tarefa, sorte, azar).
Tais fatores internos e externos podem ser estáveis (habilidade, dificuldade da
tarefa) ou instáveis (esforço, sorte). Além destas duas dimensões
(internalidade/externalidade e estabilidade/instabilidade), há também a
controlabilidade, pois determinados aspectos estão fora do controle das pessoas.

Os atores tendem a fazer atribuições situacionais (externas) enquanto os


observadores tendem a fazer atribuições disposicionais (internas). O terapeuta,
utilizando os conhecimentos de psicologia social acerca do fenômeno de
atribuição de causalidade, deve ajudar seu cliente a atribuir seu comportamento
às suas verdadeiras causas.