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Quero Que Valorize – Armando Filho (Análise)

Posted by Filipe Machado | 8/abr/2016

Vivemos em tempos onde está na moda criticar tudo e a todos. Estamos


correndo e buscando erros nos outros, a fim de criticarmos e sermos
reconhecidos como “especialistas” em determinada área. E é exatamente o que
acontece com a letra de hoje. Alguns amam seu teor, enquanto outros acham
que ela é extremamente contrária à Bíblia, pois, supostamente, salienta coisas
que a Bíblia não fala sobre o homem. E quem tem a razão?

Esta canção pode ser entendida de duas formas: bíblica ou antropocêntrica.


Quer dizer, buscando a glória de Deus ou trazendo o homem para o centro de
tudo.

Sou da opinião de que o autor não buscou trazer o homem para o centro da letra,
e sim expressou quem o crente é, uma vez que Cristo o salvou. Confesso,
porém, que não posso me certificar de que esta é a opinião do autor e por isso
falaremos a partir desta perspectiva. Mas ainda que não tenha certeza, o teor da
música, especialmente do “Espírito Santo se move em você”, parece confirmar
que é uma letra dirigida aos crentes genuínos. Vamos à análise.

Quero que valorize o que você tem


Você é um ser você é alguém, tão importante para Deus
Nada de ficar sofrendo angústia e dor
neste seu complexo interior dizendo às
vezes que não é ninguém

Toda esta música possui a finalidade de animar e estimular aquele crente


cansado e abatido com as lutas da vida. Procura relembrar àqueles crentes que
como o salmista, estão “quase se desviando” na fé (Sl 73.2), que o Senhor lhes
têm chamado a uma nova vida, de maneira que precisamos, seguidamente, olhar
para Cristo, o “autor e consumador da fé” (Hb 12.2).

A Escritura nos diz que o homem descrente é inimigo de Deus. É assim que
apóstolo escreve: “Em que noutro tempo andastes […] e éramos por natureza
filhos da ira, como os outros também”. O crente precisa entender que para o
Senhor, ele é importante. Não porque tenha algo que possa oferecer, mas
porque Cristo deu a Sua vida por aqueles que o Pai lhe enviou (Jo 10.15). E
como o Pai ama o Filho, também ama aqueles que n’Ele foram adotados (Ef 1.5).

Muitos crentes, como diz a música, padecem de angústia e dor, se condoendo e


crendo que não são “ninguém”. Olham, como muitas vezes vemos nos
personagens bíblicos, apenas para a situação do “aqui” e “agora”, e se
esquecem do que o Senhor prometeu, de que se O buscarmos acima de todas
as coisas, tudo o que é necessário para a vida nos seria acrescentado (Mt 6.33).
Também de que cuida, constantemente, de nós: “Não temais, pois; mais valeis
vós do que muitos passarinhos” (Mt 10.31). E prometeu jamais nos abandonar:
“eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos.
Amém” (Mt 28.20).

Quando o crente relembra e coloca estas coisas em seu coração, ainda que a
vida lhe seja dura e pesada (como é para todos), consegue encontrar alívio,
segurança e novo ânimo no Senhor.

Eu venho falar do valor que você tem


Ele está em você o Espírito Santo se move em você até com gemidos
Inexprimíveis, inexprimíveis

É preciso entender o contexto do versículo, de onde o autor retirou esta estrofe:


“E da mesma maneira também o Espírito ajuda as nossas fraquezas; porque não
sabemos o que havemos de pedir como convém, mas o mesmo Espírito
intercede por nós com gemidos inexprimíveis” (Rm 8.26).
O apóstolo está falando que nós, os crentes, ainda que sejamos salvos e
iluminados pelo Senhor, muitas vezes não sabemos como pedir as coisas a
Deus. Pedimos para nossa própria ganância ou falamos de maneira totalmente
equivocada, ou até mesmo sem entender o que estamos pedindo diante do
Eterno. Daí o apóstolo explicar e demonstrar que não são as nossas meras
palavras que fazem algo acontecer e sim o Espírito Santo de Deus, o qual como
que “ora por nós”, ao Pai. A intenção é dizer: “irmãos, muitas vezes falamos
bobagem ou não conseguimos expressar o que desejamos, mas o Espírito Santo
de Deus, o qual habita na Igreja e consequentemente em Seus filhos, está
constantemente com Deus, na Trindade e por isso nossas orações chegam a
Ele de maneira perfeita.”

Esta parte da música também pode ser entendida a partir do versículo: “O vento
assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para
onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito” (Jo 3.8). Todo o que é
guiado por Deus, muitas vezes não sabe para onde vai nem o que o Senhor tem
guardado para o dia de amanhã. Todavia, de uma coisa todos os crentes podem
estar certos: de que Seus planos são melhores do que os nossos, como lemos:
“Do homem são as preparações do coração, mas do SENHOR a resposta da
língua” (Pv 16.1).

Aí você pode então perceber que para ele


há algo importante em você
Por isso levante e cante exalte ao senhor
Você tem valor, o Espírito Santo se move em você

Diz o salmista: “Louvarei ao Senhor durante a minha vida; cantarei louvores ao


meu Deus enquanto eu for vivo” (Sl 146.2). E também: “Louvai ao SENHOR.
Louvai ao SENHOR, porque ele é bom, porque a sua misericórdia dura para
sempre” (Sl 106.1).

Algumas pessoas pensam que o crente não deveria ser agradecido pelo que o
Senhor fez por ele. Em vez disso, deveria se alegrar, somente, por quem Deus
é em si mesmo. Entretanto, não é este o padrão das Escrituras. Não é errado se
alegrar no Senhor pelo que Ele fez por nós, pois assim nos foi registrado: “Nós
o amamos a ele porque ele nos amou primeiro” (1Jo 4.19). A razão de amarmos
a Deus é porque Ele se mostrou favorável a nós, quando ainda éramos Seus
inimigos e isto se confirma em vários lugares, especialmente na parábola do
senhor que perdoa as dívidas de seus servos (Mt 18).

É verdade que esta estrofe poderia ser melhorada, sendo a parte “você tem
valor”, acrescida ou trocada por “servo inútil e sem valor, mas que pertence ao
meu Senhor”, como sugeriu, certa vez, o Rev. Josafá Vasconcelos, da Igreja
Presbiteriana da Herança Reformada. Seja como for, se entendida dentro do
aspecto que temos tratado, não há problema em ficar como está.

Encerro esta análise, observando que mesmo sendo uma letra muito bíblica, o
seu teor não tem a finalidade de, diretamente, render glórias a Deus por quem
Ele é. É uma música mais para se ouvir em casa ou em algum momento diferente
do culto, do que propriamente na reunião dos santos. Conheço igrejas que
cantam esta música e é comum ela ser utilizada para o “momento dos abraços”,
onde todos da congregação são convidados a se abraçar – o que não é
inerentemente errado, mas não leva a um sentido direto de adoração ao Senhor
e não é o propósito maior do culto. Ainda outros utilizam esta música para fazer
“evangelismos”, mas como visto, seu conteúdo remete aos crentes, sendo
incorreto usar para este fim.

Concluo, assim, classificando como “bíblica e não apropriada ao culto público”.