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PODER JUDICIÁRIO
JUSTIÇA DO TRABALHO
TRIBUNAL REGIONAL DO TRABALHO DA 10ª REGIÃO
11ª Vara do Trabalho de Brasília - DF
TutCautAnt 0000247-02.2018.5.10.0016
REQUERENTE: MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO
REQUERIDO: INSTITUTO HOSPITAL DE BASE DO DISTRITO FEDERAL -
IHBDF

Processo : 0000247-02.2018.5.10.0016

Autor : Ministério Público do Trabalho

Réu : Instituto Hospital de Base do Distrito Federal - IHBDF

SENTENÇA

I. RELATÓRIO

MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO ajuizou a presente ação cautelar em face de INSTITUTO


HOSPITAL DE BASE DO DISTRITO FEDERAL - IHBDF, na qual veiculou os pedidos de id.
6b11d30. Atribuiu à causa o valor de R$ 50.000,00.

Deferida a tutela em caráter liminar por meio da decisão de id. 20f617f.

O réu utilizou-se do mandado de segurança como sucedâneo recursal (processo autuado sob o nº
0000163-49.2018.5.10.0000), no qual o Desembargador Relator Dorival Borges de Souza Neto
concedeu parcialmente a liminar por meio da decisão acostada no id. d7036bf.

Regularmente citado, o réu apresentou contestação de id. 74cdc79.

As partes apresentaram documentos.

A decisão liminar deste órgão jurisdicional foi mantida, com ressalva à parcela destacada por
ordem do eminente Relator naquela processo acessório (0000163-49.2018.5.10.0000), nos
moldes do id. e9aa1b3.

O réu utilizou-se também de suspensão de segurança (processo autuado sob o nº 1000186-


54.2018.5.00.0000) como sucedâneo recursal contra o ato do egrégio Tribunal Regional, tendo o
Presidente do col. TST, Ministro João Batista Brito Pereira, deferido o pedido a suspensão da
execução das decisões anteriores.

Sem outras provas foi encerrada a instrução processual no tocante à tutela cautelar antecedente.

É o relatório.

II. FUNDAMENTOS

BENEFÍCIOS DA JUSTIÇA GRATUITA AO REQUERIDO


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A jurisprudência dos tribunais superiores é pacífica no sentido de que a concessão dos benefícios
da justiça gratuita a pessoas jurídicas, mesmo as entidades sem fins lucrativos, não depende
apenas declaração de hipossuficiência, mas também da comprovação da insuficiência de recursos
para suportar as despesas processuais.

Nesse sentido, os seguintes precedentes:

"Assistência Judiciária Gratuita - Pessoa Jurídica. Ao contrário do que ocorrer relativamente às


pessoas naturais, não basta a pessoa jurídica asseverar a insuficiência de recursos, devendo
comprovar, isto sim, o fato de se encontrar em situação inviabilizadora da assunção dos ônus
decorrentes do ingresso em juízo." (STF, Tribunal Pleno, Rcl nº 1.905-AgR/ED, Relator Ministro
Marco Aurélio, DJ 20.09.2002)

"EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA. SINDICATO. PESSOA JURÍDICA SEM FINS LUCRATIVOS.


GRATUIDADE DE JUSTIÇA. NECESSIDADE DE PROVA DA MISERABILIDADE.
INSUFICIÊNCIA DE DECLARAÇÃO DE POBREZA.

Na linha da jurisprudência da Corte Especial, as pessoas jurídicas de direito privado, com ou sem
fins lucrativos, para obter os benefícios da justiça gratuita, devem comprovar o estado de
miserabilidade, não bastando simples declaração de pobreza. Embargos de divergência providos"
(STJ, Corte Especial, EREsp 1185828/RS, Relator Cesar Asfor Rocha, DJe 01.07.2011)

No mesmo diapasão, o artigo 99, § 3º, do CPC dispõe sobre a presunção exclusivamente em
favor da pessoa natural na alegação de insuficiência econômica em requerimento de gratuidade
de justiça, de acordo com o artigo 5º, LXXIV, da CRFB.

Assim, mesmo após o advento do CPC introduzido pela Lei nº 13.105/2015 manteve-se inalterada
essa compreensão do ordenamento jurídico, consoante enunciado do item II da Súmula nº
463/TST.

No caso concreto, contudo, a parte reclamada afirmou, mas não demonstrou a ausência de
condições financeiras de suportar os custos da ação judicial.

Rejeito.

SAÚDE. CONTRATO DE GESTÃO. INSTITUTO HOSPITAL DE BASE DO DISTRITO FEDERAL.


PROCESSO SELETIVO.

Tradicionalmente, a medida acautelatória supõe a existência de aparência do bom direito e o


perigo da demora, compreendidos nas expressões latinas fumus boni iuris e periculum in mora,
respectivamente.

Não obstante, é preciso entender essa tutela de urgência a partir da concepção de acesso à
justiça no sentido material (artigo 5º, XXXV, da CRFB), para que a proteção de direito material ou
situação jurídica tutelável seja assegurada sempre que a demora da cognição exauriente possa
comprometer a efetividade da tutela que está sendo ou será reivindicada em processo principal.

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Nesse diapasão, a tutela cautelar deve ser subordinada apenas ao perigo da permanência da
situação de risco que ameaça o direito, o que encontra respaldo também no poder geral conferido
ao julgador, para definir quais serão as medidas adequadas ao caso concreto, atualmente
consagrado no artigo 301 do CPC.

No caso concreto, em momento liminar, a partir de cognição apenas sumária, tomou-se decisão
destinada à vigência provisória, pois, após o aprofundamento das discussões jurídicas e maior
dilação probatória, o processo terá, naturalmente, sentença vocacionada ao caráter definitivo.
Naquela ocasião - sobretudo por ausência de divulgação de edital, de inexistência de publicidade
efetiva, de falta de disponibilização de vagas, bem como por conta da previsão de contratação
poucos dias depois do exíguo prazo para a inscrição - prejudicou a ampla concorrência e a
validade do processo seletivo controvertido em virtude de ofensa aos princípios que orientam a
Administração Pública desde o artigo 37, caput, da CRFB e aos valores erigidos como
fundamentais nas normas especificamente aplicáveis ao requerido (artigos 2º, III e IX, da Lei
Distrital nº 5.899/2017 e 3º da Resolução CA/IHBDF nº 3/2017). Eis o teor daquele primeiro ato
judicial neste feito:

"Hoje em dia, tornou-se notória a corrupção sistêmica e endêmica que infestou as instituições do
nosso país, colocando-as em risco de ruína.

A intenção exclusivamente predatória na condução dos órgãos públicos e privados integrantes e


parceiros do Estado produziu cenário de perpetuação dos esquemas de corruptos e corruptores,
que auferem incontáveis fortunas ilícitas seja para o enriquecimento dos envolvidos, seja para a
ampliação do raio de atuação e de suas defesas, seja para o financiamento de candidaturas em
eleições inflacionadas e desiguais em favor dos partícipes políticos.

Em outra frente, a ganância desmedida desses criminosos acarreta também o descolamento do


interesse público, tendo em vista que as pessoas jurídicas que deveriam promovê-lo perdem os
melhores quadros técnicos, honestos e preparados, preteridos pelo aparelhamento com a
nomeação de dirigentes e subalternos apadrinhados, inabilitados e comprometidos somente com
os planos de enriquecimento indevido próprio e de seus protetores e comparsas.

Então, do ponto de vista da Administração Pública, o mecanismo da corrupção, atualmente


revelado e repudiado pela sociedade brasileira, tem como consequência a desestruturação, o
desperdício de recursos, a ineficiência.

Nesse cenário, estamos diante de grave deterioração das entidades - o que não é exclusividade
de um Poder do Estado ou de um Ente da Federação, da Administração Pública Centralizada ou
Descentralizada - advinda de gestões incompatíveis com os compromissos assumidos com a
Constituição da República de 1988.

Por evidente, não se discute neste processo a precariedade específica e notória da saúde pública
no âmbito do Distrito Federal, tampouco as causas desse triste quadro, mas a contextualização
inicial demonstra a importância cada vez maior da defesa dos valores essenciais à ordem
constitucional, definidores do nosso Estado Democrático de Direito.

No caso concreto, o Ministério Público do Trabalho ajuizou a presente ação cujo objeto é a tutela
cautelar antecedente, a fim de suspender o segundo processo seletivo promovido pelo requerido,
para a contratação de 66 (sessenta e seis) empregados com formações diversas (id. 97f9e9e).

A propósito, o requerido sofreu a impugnação do primeiro concurso público do ano, cuja validade
é discutida nos processos autuados sob os nºs 0000045-25.2018.5.10.0016 e 0000105-
46.2018.5.10.0000, este último no qual decisão monocrática do eminente Relator, Desembargador
Mário Macedo Fernandes Caron, determinou a suspensão do Edital nº 1- IHB/DF/2018, que prevê
a contratação de empregados celetistas para exercerem as funções de enfermeiro, médico e
técnico de enfermagem.

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A análise da prova documental sumariamente produzida revelou situação ainda mais drástica
nesta relação processual, pois, no segundo processo seletivo, sequer foi localizado um edital, nem
notícia da contratação de organizadora do certame, mas apenas a disponibilização de 66 vagas
para diversas funções, igualmente sem reserva de postos para portadores de deficiência, com
divulgação da informação apenas nos sites e do período de inscrição de 08 a
www.diariooficialdf.com.br www.saude.df.gov.br 23.03.2018, com previsão de admissão imediata,
em 26.03.2018.

Com efeito, a prática do requerido não se coaduna com os Princípios da Legalidade, da


Impessoalidade, da Moralidade, da Publicidade e, por conseguinte, da Eficiência insculpidos no
caput do artigo 37 da CRFB.

Cumpre ressaltar que esses mesmos valores são básicos à formação do requerido e às regras
para seleção de seus empregados, por força dos artigos 2º, III e IX, da Lei Distrital nº 5.899/2017
e 3º da Resolução CA/IHBDF nº 3/2017.

Isso porque a divulgação mínima não atende a diretriz da publicidade, e favorece quem detém a
informação por sorte, melhores contatos ou acesso privilegiado em prejuízo dos valores da
impessoalidade e da moralidade.

Outrossim, não disponibilizar vagas para portadores de deficiência contraria completamente a


Política Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência instituída pela Lei nº
7.853/1989, regulamentada pelo Decreto nº 3.298/1999.

Ademais, a informação restrita prejudica o acesso aos empregos da entidade à ampla


concorrência, razão pela qual não serão selecionados os candidatos mais bem preparados, o que,
em última análise, ofende a pretendida eficiência administrativa.

Assim, os elementos de prova apresentados com a petição inicial permitem a formação de um


juízo de probabilidade da necessidade de tutela destinada a impedir a conduta ilícita.

Do mesmo modo, presente o receio de ineficácia do provimento final caso se permita o


prosseguimento do ilícito com a seleção e a contratação de trabalhadores sem a observância das
correspondentes normas do ordenamento jurídico durante o tempo necessário à cognição
exauriente.

Nesse diapasão, em juízo provisório formado a partir de argumentos e provas sumariamente


produzidos, restaram evidenciados os requisitos autorizadores da concessão da tutela de urgência
pretendida pelo requerente." (id. 20f617f)

Como relatado, o requerido buscou reverter esse decisão liminar com diversos sucedâneos
recursais, tendo êxito em sede de suspensão de segurança que sensibilizou o Exmo. Ministro
Presidente do col. TST. Antes disso, contudo, este Juízo manteve a decisão liminar, com a
ressalva à parcela cassada por ato do Desembargador Relator Dorival Borges de Souza Neto em
mandado de segurança (processo autuado sob o nº 0000163-49.2018.5.10.0000), nos seguintes
termos:

"O Instituto Hospital de Base apresentou contestação no id. 74cdc79 acompanhada de farta
documentação.

Os argumentos da defesa em torno da natureza jurídica privada daquela instituição e, por


conseguinte, dos vínculos com seus empregados; da observância da Lei nº 9.637/1998 são todos
conhecidos, mas, ainda assim, não se mostraram convincentes a respeito nem mesmo da
impessoalidade e da objetividade exigíveis de acordo com os precedentes trazidos na própria
contestação - no segundo processo seletivo em exame nesta relação jurídico-processual, muito
menos quanto às demais normas (princípios, artigos de lei e de resolução) sobre as quais se
edificou a decisão liminar.
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Cumpre ressaltar que a sociedade brasiliense como um todo lamenta a deficiência dos serviços
públicos prestados direta ou indiretamente pelo Distrito Federal, assim também em relação ao
Hospital de Base com o risco de colapso descrito por seu Diretor de Atenção à Saúde conforme
id. c93677a.

Entretanto, não é transferível a responsabilidade dos gestores pelo atual quadro de sobrecarga de
trabalho dos profissionais já lotados na unidade, acarretando o excesso de jornada e o dispêndio
de recursos financeiros para o pagamento das correspondentes horas extras, e da falta de
atendimento hospitalar digno à população.

É notório o histórico das organizações sociais e seus contratos de gestão na área de saúde
pública do Distrito Federal, com os problemas enfrentados sendo amplamente divulgados (artigo
374, I, do CPC), do que a questão trabalhista é apenas um dos reflexos.

Nesse contexto, embora seja louvável a intenção de correção do sistema e saúde pelos atuais
administradores públicos ou não, os órgãos de fiscalização não podem transigir com os primados
da ordem jurídica por conta de urgência provocada por incompetência ou desvio daquelas
autoridades e dirigentes.

No mesmo diapasão, este órgão do Poder Judiciário, quando regularmente provocado, continuará
atuando de forma independente, sem fazer concessão com as leis da República e à Constituição
em virtude de qualquer tentativa de pressão manifestada neste processo ou por qualquer outro
meio antigo ou pós-moderno.

Assim, mantém-se a decisão de id. 20f617f pelos seus próprios fundamentos.

Aliás, não se ignora a liminar deferida no mandado de segurança, cujo processo está autuado sob
o nº 0000163-49.2018.5.10.0000, nos seguintes termos:

"Por todo exposto, concedo parcialmente a liminar postulada para cassar a tutela apenas
em relação à suspensão ou à dispensa dos empregados contratados anteriormente à data
da concessão da tutela de urgência, mantidas as demais determinações do Juízo de
primeiro grau." (destaques originais)

Então, logicamente, a ordem do eminente Relator deverá ser cumprida, assim como serão, por
hierarquia, as ulteriores advindas das instâncias superiores.

A propósito, ainda não foi recebida comunicação oficial de nenhum outro ato judicial em ação
diversa utilizada como sucedâneo recursal. De todo modo, eventual ordem dos tribunais poderá,
no máximo, sustar os efeitos do comando decisório proferido em caráter precário, mas não
impedirá a regular tramitação processual até a cognição exauriente e a natural decisão definitiva
do mérito." (destaques originais) (id. e9aa1b3)

O convencimento acerca da invalidade do procedimento seletivo permaneceu inalterado, sendo


até mesmo reforçada a compreensão da probabilidade do direito invocado pelo requerente após o
aprofundamento da cognição.

Vejamos.

O discurso de modernização da gestão pública ganhou força na conjuntura política nacional no


ano de 1995, época do Plano Diretor de Reforma do Aparelho do Estado, apresentado pelo então
Presidente da República Fernando Henrique Cardoso. Fez o diagnóstico de que, por ocasião da
transição democrática de 1985, o populismo acarretou o loteamento dos cargos públicos e, por

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conseguinte, o encarecimento significativo do custeio da máquina administrativa, em evidente


retrocesso burocrático com a Constituição da República de 1988. Motivou-se também nas
premissas de falhas de gestão, mau uso de recursos públicos, enfim, na ineficiência
administrativa. Em suma, propalou-se a "Reforma Administrativa Gerencial", mais eficiente para a
prestação de serviços públicos com qualidade e produtividade, anunciando a atuação cooperada
entre o Estado e a sociedade, com o rompimento da dicotomia entre o público e o privado;
idealizando a figura do Estado gerencial, marcado pela simplificação de procedimentos e a
transferência de atividades de relevância social para os particulares, sendo reservado ao ente
público o papel de interventor indireto ao invés de executor direto. Assim, a Administração Pública
deixaria de impor sua autoridade para firmar contratos administrativos, exaltando-se o consenso
na celebração e os resultados na avaliação da eficiência pretendida.

Nessa mesma quadra histórica, a Emenda Constitucional nº 19/1998, introduziu o § 8º no artigo


37 da CRFB, com o seguinte teor:

"§ 8º A autonomia gerencial, orçamentária e financeira dos órgãos e entidades da administração


direta e indireta poderá ser ampliada mediante contrato, a ser firmado entre seus administradores
e o poder público, que tenha por objeto a fixação de metas de desempenho para o órgão ou
entidade, cabendo à lei dispor sobre:

I - o prazo de duração do contrato;

II - os controles e critérios de avaliação de desempenho, direitos, obrigações e responsabilidade


dos dirigentes;

III - a remuneração do pessoal."

Essa nova disposição constitucional, somada ao primado da livre iniciativa, erigido a fundamento
da República Federativa do Brasil (artigo 1º, IV, da CRFB) e da ordem econômica brasileira (artigo
170, caput, da CRFB), e à autorização conferida ao Poder Público para a prestação de serviços
públicos direta ou indiretamente (artigo 175 da CRFB), propiciou a edição da Lei nº 9.637/1998.

A Lei das Organizações Sociais inovou o ordenamento jurídico para conferir a pessoas jurídicas
de direito privado, sem fins lucrativos, a possibilidade de qualificação pelo Poder Executivo para
celebração de contrato de gestão com objeto voltado a ensino, pesquisa científica,
desenvolvimento tecnológico, proteção e preservação do meio ambiente, cultura e saúde. O
diploma normativo, exemplificativamente, também prevê a possibilidade de destinação de
recursos orçamentários e bens público, dispensada a licitação, em permissão de uso (artigo 12,
caput e § 3º, da Lei nº 9.637/1998), de cessão de servidores com ônus para a origem (artigo 14 da
Lei nº 9.637/1998) e a dispensa de licitação para as atividades contempladas no contrato de
gestão (artigo 24, XXIV, da Lei nº 8.666/1993).

Com efeito, o direito social fundamental à saúde está previsto no artigo 6º da CRFB e, para sua
concretização, impôs-se ao Estado o dever de promovê-lo mediante políticas sociais e
econômicas, facultando a execução direta ou indireta, inclusive por terceiros da iniciativa privada,
sem prejuízo da livre iniciativa das instituições privadas, consoante inteligência dos artigos 196,
197 e 199 da CRFB. Nesta frente de atuação, o artigo 14 da Lei nº 9.637/1998 dispõe:

" A organização social que absorver atividades de entidade federal extinta no âmbito da área de
saúde deverá considerar no contrato de gestão, quanto ao atendimento da comunidade, os
princípios do Sistema Único de Saúde, expressos no art. 198 da Constituição Federal e no art. 7o
da Lei no 8.080, de 19 de setembro de 1990."

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Dessarte, reafirmaram-se as diretrizes das ações de saúde, sobretudo universalidade de acesso


aos serviços de saúde; integralidade de assistência, enquanto conjunto articulado e contínuo das
ações e serviços preventivos e curativos, individuais e coletivos; gratuidade de assistência,
vedada a cobrança em face de pacientes ou seus representantes; fomento dos meios de
participação da comunidade.

Diante do dever do Estado de adotar políticas públicas para promoção, proteção e recuperação da
saúde de todos (artigo 196 da CRFB) e do seu evidente descumprimento com a ineficiência do
sistema único próprio, com desolador cenário de sucateamento dos hospitais, filas para
atendimento acarretando até mesmo o não atendimento, quadro deficitário de servidores ainda
assim sujeito a despreparo decorrente do aparelhamento e desestímulo dos técnicos habilitados,
tudo a prejudicar a qualidade e a promessa de universalidade nessa delicada área de atuação
estatal, com resultados fatais dessa exclusão social - o discurso de modernização da gestão dos
serviços hospitalares, com qualificação profissional, práticas empreendedoras, progresso
tecnológico, por meio da parceria com a iniciativa privada, organização social com quem se
pretende contrato de gestão, encontrou terreno fértil.

Ou seja, o legítimo anseio da sociedade serviu para justificar a atuação do terceiro setor para a
atender esse interesse público, sob a tese de que o particular é dotado de maior liberdade na
aplicação dos recursos se comparado à burocracia do setor público, favorecendo o alcance das
metas estipuladas no contrato de gestão, pois sujeito ao controle de resultados.

Todavia, não se olvida que as organizações sociais recebem recursos públicos, bens públicos e
servidores públicos, razão pela qual devem observar o núcleo essencial dos princípios da
Administração Pública, notadamente aqueles previstos no artigo 37, caput, da CRFB. No mesmo
diapasão, embora o critério formal determine que seus contratos trabalhistas sejam regidos pelo
direito privado, essa realidade compensada pela incidência de princípios do direito público, resulta
no que a doutrina denomina de regime jurídico híbrido. Por conseguinte, não se sujeitam à
obrigatoriedade do concurso público, mas devem realizar seleção pública através de
procedimento objetivo e impessoal. Nesse sentido, pacificou-se o entendimento jurisprudencial
após o julgamento da ADI 1.923/DF pelo excelso Supremo Tribunal Federal, assim ementado:

"EMENTA: AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE. CONSTITUCIONAL.


ADMINISTRATIVO. TERCEIRO SETOR. MARCO LEGAL DAS ORGANIZAÇÕES SOCIAIS. LEI
Nº 9.637/98 E NOVA REDAÇÃO, CONFERIDA PELA LEI Nº 9.648/98, AO ART. 24, XXIV, DA LEI
Nº 8.666/93. MOLDURA CONSTITUCIONAL DA INTERVENÇÃO DO ESTADO NO DOMÍNIO
ECONÔMICO E SOCIAL. SERVIÇOS PÚBLICOS SOCIAIS. SAÚDE (ART. 199, CAPUT),
EDUCAÇÃO (ART. 209, CAPUT), CULTURA (ART. 215), DESPORTO E LAZER (ART. 217),
CIÊNCIA E TECNOLOGIA (ART. 218) E MEIO AMBIENTE (ART. 225). ATIVIDADES CUJA
TITULARIDADE É COMPARTILHADA ENTRE O PODER PÚBLICO E A SOCIEDADE.
DISCIPLINA DE INSTRUMENTO DE COLABORAÇÃO PÚBLICO-PRIVADA. INTERVENÇÃO
INDIRETA. ATIVIDADE DE FOMENTO PÚBLICO. INEXISTÊNCIA DE RENÚNCIA AOS
DEVERES ESTATAIS DE AGIR. MARGEM DE CONFORMAÇÃO CONSTITUCIONALMENTE
ATRIBUÍDA AOS AGENTES POLÍTICOS DEMOCRATICAMENTE ELEITOS. PRINCÍPIOS DA
CONSENSUALIDADE E DA PARTICIPAÇÃO. INEXISTÊNCIA DE VIOLAÇÃO AO ART. 175,
CAPUT, DA CONSTITUIÇÃO. EXTINÇÃO PONTUAL DE ENTIDADES PÚBLICAS QUE APENAS
CONCRETIZA O NOVO MODELO. INDIFERENÇA DO FATOR TEMPORAL. INEXISTÊNCIA DE
VIOLAÇÃO AO DEVER CONSTITUCIONAL DE LICITAÇÃO (CF, ART. 37, XXI).
PROCEDIMENTO DE QUALIFICAÇÃO QUE CONFIGURA HIPÓTESE DE CREDENCIAMENTO.
COMPETÊNCIA DISCRICIONÁRIA QUE DEVE SER SUBMETIDA AOS PRINCÍPIOS
CONSTITUCIONAIS DA PUBLICIDADE, MORALIDADE, EFICIÊNCIA E IMPESSOALIDADE, À
LUZ DE CRITÉRIOS OBJETIVOS (CF, ART. 37, CAPUT). INEXISTÊNCIA DE PERMISSIVO À
ARBITRARIEDADE. CONTRATO DE GESTÃO. NATUREZA DE CONVÊNIO. CELEBRAÇÃO
NECESSARIAMENTE SUBMETIDA A PROCEDIMENTO OBJETIVO E IMPESSOAL.

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CONSTITUCIONALIDADE DA DISPENSA DE LICITAÇÃO INSTITUÍDA PELA NOVA REDAÇÃO


DO ART. 24, XXIV, DA LEI DE LICITAÇÕES E PELO ART. 12, §3º, DA LEI Nº 9.637/98. FUNÇÃO
REGULATÓRIA DA LICITAÇÃO. OBSERVÂNCIA DOS PRINCÍPIOS DA IMPESSOALIDADE, DA
PUBLICIDADE, DA EFICIÊNCIA E DA MOTIVAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE DE EXIGÊNCIA DE
LICITAÇÃO PARA OS CONTRATOS CELEBRADOS PELAS ORGANIZAÇÕES SOCIAIS COM
TERCEIROS. OBSERVÂNCIA DO NÚCLEO ESSENCIAL DOS PRINCÍPIOS DA
ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA (CF, ART. 37, CAPUT). REGULAMENTO PRÓPRIO PARA
CONTRATAÇÕES. INEXISTÊNCIA DE DEVER DE REALIZAÇÃO DE CONCURSO PÚBLICO
PARA CONTRATAÇÃO DE EMPREGADOS. INCIDÊNCIA DO PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL
DA IMPESSOALIDADE, ATRAVÉS DE PROCEDIMENTO OBJETIVO. AUSÊNCIA DE VIOLAÇÃO
AOS DIREITOS CONSTITUCIONAIS DOS SERVIDORES PÚBLICOS CEDIDOS.
PRESERVAÇÃO DO REGIME REMUNERATÓRIO DA ORIGEM. AUSÊNCIA DE SUBMISSÃO
AO PRINCÍPIO DA LEGALIDADE PARA O PAGAMENTO DE VERBAS, POR ENTIDADE
PRIVADA, A SERVIDORES. INTERPRETAÇÃO DOS ARTS. 37, X, E 169, §1º, DA
CONSTITUIÇÃO. CONTROLES PELO TRIBUNAL DE CONTAS DA UNIÃO E PELO MINISTÉRIO
PÚBLICO. PRESERVAÇÃO DO ÂMBITO CONSTITUCIONALMENTE DEFINIDO PARA O
EXERCÍCIO DO CONTROLE EXTERNO (CF, ARTS. 70, 71, 74 E 127 E SEGUINTES).
INTERFERÊNCIA ESTATAL EM ASSOCIAÇÕES E FUNDAÇÕES PRIVADAS (CF, ART. 5º, XVII E
XVIII). CONDICIONAMENTO À ADESÃO VOLUNTÁRIA DA ENTIDADE PRIVADA.
INEXISTÊNCIA DE OFENSA À CONSTITUIÇÃO. AÇÃO DIRETA JULGADA PARCIALMENTE
PROCEDENTE PARA CONFERIR INTERPRETAÇÃO CONFORME AOS DIPLOMAS
IMPUGNADOS.

1. A atuação da Corte Constitucional não pode traduzir forma de engessamento e de cristalização


de um determinado modelo préconcebido de Estado, impedindo que, nos limites
constitucionalmente assegurados, as maiorias políticas prevalecentes no jogo democrático
pluralista possam pôr em prática seus projetos de governo, moldando o perfil e o instrumental do
poder público conforme a vontade coletiva.

2. Os setores de saúde (CF, art. 199, caput), educação (CF, art. 209, caput), cultura (CF, art. 215),
desporto e lazer (CF, art. 217), ciência e tecnologia (CF, art. 218) e meio ambiente (CF, art. 225)
configuram serviços públicos sociais, em relação aos quais a Constituição, ao mencionar que "são
deveres do Estado e da Sociedade" e que são "livres à iniciativa privada", permite a atuação, por
direito próprio, dos particulares, sem que para tanto seja necessária a delegação pelo poder
público, de forma que não incide, in casu, o art. 175, caput, da Constituição.

3. A atuação do poder público no domínio econômico e social pode ser viabilizada por intervenção
direta ou indireta, disponibilizando utilidades materiais aos beneficiários, no primeiro caso, ou
fazendo uso, no segundo caso, de seu instrumental jurídico para induzir que os particulares
executem atividades de interesses públicos através da regulação, com coercitividade, ou através
do fomento, pelo uso de incentivos e estímulos a comportamentos voluntários.

4. Em qualquer caso, o cumprimento efetivo dos deveres constitucionais de atuação estará,


invariavelmente, submetido ao que a doutrina contemporânea denomina de controle da
Administração Pública sob o ângulo do resultado (Diogo de Figueiredo Moreira Neto).

5. O marco legal das Organizações Sociais inclina-se para a atividade de fomento público no
domínio dos serviços sociais, entendida tal atividade como a disciplina não coercitiva da conduta
dos particulares, cujo desempenho em atividades de interesse público é estimulado por sanções
premiais, em observância aos princípios da consensualidade e da participação na Administração
Pública.

6. A finalidade de fomento, in casu, é posta em prática pela cessão de recursos, bens e pessoal
da Administração Pública para as entidades privadas, após a celebração de contrato de gestão, o
que viabilizará o direcionamento, pelo Poder Público, da atuação do particular em consonância
com o interesse público, através da inserção de metas e de resultados a serem alcançados, sem
que isso configure qualquer forma de renúncia aos deveres constitucionais de atuação.

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7. Na essência, preside a execução deste programa de ação institucional a lógica que prevaleceu
no jogo democrático, de que a atuação privada pode ser mais eficiente do que a pública em
determinados domínios, dada a agilidade e a flexibilidade que marcam o regime de direito privado.

8. Os arts. 18 a 22 da Lei nº 9.637/98 apenas concentram a decisão política, que poderia ser
validamente feita no futuro, de afastar a atuação de entidades públicas através da intervenção
direta para privilegiar a escolha pela busca dos mesmos fins através da indução e do fomento de
atores privados, razão pela qual a extinção das entidades mencionadas nos dispositivos não
afronta a Constituição, dada a irrelevância do fator tempo na opção pelo modelo de fomento - se
simultaneamente ou após a edição da Lei.

9. O procedimento de qualificação de entidades, na sistemática da Lei, consiste em etapa inicial e


embrionária, pelo deferimento do título jurídico de "organização social", para que Poder Público e
particular colaborem na realização de um interesse comum, não se fazendo presente a
contraposição de interesses, com feição comutativa e com intuito lucrativo, que consiste no núcleo
conceitual da figura do contrato administrativo, o que torna inaplicável o dever constitucional de
licitar (CF, art. 37, XXI).

10. A atribuição de título jurídico de legitimação da entidade através da qualificação configura


hipótese de credenciamento, no qual não incide a licitação pela própria natureza jurídica do ato,
que não é contrato, e pela inexistência de qualquer competição, já que todos os interessados
podem alcançar o mesmo objetivo, de modo includente, e não excludente.

11. A previsão de competência discricionária no art. 2º, II, da Lei nº 9.637/98 no que pertine à
qualificação tem de ser interpretada sob o influxo da principiologia constitucional, em especial dos
princípios da impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência (CF, art. 37, caput). É de se ter
por vedada, assim, qualquer forma de arbitrariedade, de modo que o indeferimento do
requerimento de qualificação, além de pautado pela publicidade, transparência e motivação, deve
observar critérios objetivos fixados em ato regulamentar expedido em obediência ao art. 20 da Lei
nº 9.637/98, concretizando de forma homogênea as diretrizes contidas nos inc. I a III do
dispositivo.

12. A figura do contrato de gestão configura hipótese de convênio, por consubstanciar a


conjugação de esforços com plena harmonia entre as posições subjetivas, que buscam um
negócio verdadeiramente associativo, e não comutativo, para o atingimento de um objetivo
comum aos interessados: a realização de serviços de saúde, educação, cultura, desporto e lazer,
meio ambiente e ciência e tecnologia, razão pela qual se encontram fora do âmbito de incidência
do art. 37, XXI, da CF.

13. Diante, porém, de um cenário de escassez de bens, recursos e servidores públicos, no qual o
contrato de gestão firmado com uma entidade privada termina por excluir, por consequência, a
mesma pretensão veiculada pelos demais particulares em idêntica situação, todos almejando a
posição subjetiva de parceiro privado, impõe-se que o Poder Público conduza a celebração do
contrato de gestão por um procedimento público impessoal e pautado por critérios objetivos, por
força da incidência direta dos princípios constitucionais da impessoalidade, da publicidade e da
eficiência na Administração Pública (CF, art. 37, caput).

14. As dispensas de licitação instituídas no art. 24, XXIV, da Lei nº 8.666/93 e no art. 12, §3º, da
Lei nº 9.637/98 têm a finalidade que a doutrina contemporânea denomina de função regulatória da
licitação, através da qual a licitação passa a ser também vista como mecanismo de indução de
determinadas práticas sociais benéficas, fomentando a atuação de organizações sociais que já
ostentem, à época da contratação, o título de qualificação, e que por isso sejam
reconhecidamente colaboradoras do Poder Público no desempenho dos deveres constitucionais
no campo dos serviços sociais. O afastamento do certame licitatório não exime, porém, o
administrador público da observância dos princípios constitucionais, de modo que a contratação
direta deve observar critérios objetivos e impessoais, com publicidade de forma a permitir o
acesso a todos os interessados.

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15. As organizações sociais, por integrarem o Terceiro Setor, não fazem parte do conceito
constitucional de Administração Pública, razão pela qual não se submetem, em suas
contratações com terceiros, ao dever de licitar, o que consistiria em quebra da lógica de
flexibilidade do setor privado, finalidade por detrás de todo o marco regulatório instituído
pela Lei. Por receberem recursos públicos, bens públicos e servidores públicos, porém,
seu regime jurídico tem de ser minimamente informado pela incidência do núcleo essencial
dos princípios da Administração Pública (CF, art. 37, caput), dentre os quais se destaca o
princípio da impessoalidade, de modo que suas contratações devem observar o disposto
em regulamento próprio (Lei nº 9.637/98, art. 4º, VIII), fixando regras objetivas e impessoais
para o dispêndio de recursos públicos.

16. Os empregados das Organizações Sociais não são servidores públicos, mas sim
empregados privados, por isso que sua remuneração não deve ter base em lei (CF, art. 37,
X), mas nos contratos de trabalho firmados consensualmente. Por identidade de razões,
também não se aplica às Organizações Sociais a exigência de concurso público (CF, art. 37,
II), mas a seleção de pessoal, da mesma forma como a contratação de obras e serviços,
deve ser posta em prática através de um procedimento objetivo e impessoal.

17. Inexiste violação aos direitos dos servidores públicos cedidos às organizações sociais, na
medida em que preservado o paradigma com o cargo de origem, sendo desnecessária a previsão
em lei para que verbas de natureza privada sejam pagas pelas organizações sociais, sob pena de
afronta à própria lógica de eficiência e de flexibilidade que inspiraram a criação do novo modelo.

18. O âmbito constitucionalmente definido para o controle a ser exercido pelo Tribunal de Contas
da União (CF, arts. 70, 71 e 74) e pelo Ministério Público (CF, arts. 127 e seguintes) não é de
qualquer forma restringido pelo art. 4º, caput, da Lei nº 9.637/98, porquanto dirigido à estruturação
interna da organização social, e pelo art. 10 do mesmo diploma, na medida em que trata apenas
do dever de representação dos responsáveis pela fiscalização, sem mitigar a atuação de ofício
dos órgãos constitucionais.

19. A previsão de percentual de representantes do poder público no Conselho de Administração


das organizações sociais não encerra violação ao art. 5º, XVII e XVIII, da Constituição Federal,
uma vez que dependente, para concretizar-se, de adesão voluntária das entidades privadas às
regras do marco legal do Terceiro Setor.

20. Ação direta de inconstitucionalidade cujo pedido é julgado parcialmente procedente, para
conferir interpretação conforme à Constituição à Lei nº 9.637/98 e ao art. 24, XXIV, da Lei nº
8666/93, incluído pela Lei nº 9.648/98, para que: (i) o procedimento de qualificação seja conduzido
de forma pública, objetiva e impessoal, com observância dos princípios do caput do art. 37 da CF,
e de acordo com parâmetros fixados em abstrato segundo o que prega o art. 20 da Lei nº
9.637/98; (ii) a celebração do contrato de gestão seja conduzida de forma pública, objetiva e
impessoal, com observância dos princípios do caput do art. 37 da CF; (iii) as hipóteses de
dispensa de licitação para contratações (Lei nº 8.666/93, art. 24, XXIV) e outorga de permissão de
uso de bem público (Lei nº 9.637/98, art. 12, §3º) sejam conduzidas de forma pública, objetiva e
impessoal, com observância dos princípios do caput do art. 37 da CF; (iv) os contratos a serem
celebrados pela Organização Social com terceiros, com recursos públicos, sejam conduzidos de
forma pública, objetiva e impessoal, com observância dos princípios do caput do art. 37 da CF, e
nos termos do regulamento próprio a ser editado por cada entidade; (v) a seleção de pessoal
pelas Organizações Sociais seja conduzida de forma pública, objetiva e impessoal, com
observância dos princípios do caput do art. 37 da CF, e nos termos do regulamento próprio
a ser editado por cada entidade; e (vi) para afastar qualquer interpretação que restrinja o
controle, pelo Ministério Público e pelo TCU, da aplicação de verbas públicas." (sem destaque no
original) (STF, Pleno, ADI 1.923/DF, Relator Ministro Luiz Fux, Publicação 17.12.2015)

Nessa conjuntura, a Lei Distrital nº 5.889/2017 autorizou ao Poder Executivo a criação do Instituto
Hospital de Base do Distrito Federal, pessoa jurídica de direito privado sem fins lucrativos, com o

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objetivo de prestar assistência médica qualificada e gratuita à população e de desenvolver


atividades de ensino, pesquisa e gestão no campo da saúde, em cooperação com o Poder
Público, para a celebração de contrato de gestão com o Distrito Federal, por meio da Secretaria
de Estado de Saúde.

Em seguida, o Governador do Distrito Federal editou o Decreto nº 38.332/2017, para a criação do


Instituto Hospital de Base do Distrito Federal, cuja existência e a validade do requerido não
integram os estritos limites objetivos desta relação jurídico-processual e, ainda mais, foi resolvida
pelo órgão competente do Poder Judiciário, o Conselho Especial do Tribunal de Justiça do Distrito
Federal e Territórios no julgamento das ADIs 20170020137585 e 2017.00.2.013822-5.

Além disso, constam dos autos o contrato de gestão celebrado pelo Ente Público com o requerido
(id. b0f8bff), o Estatuto do Instituto Hospital de Base do Distrito Federal (id. 3c7e962) e a
Resolução CA/IHBDF Nº 3/2017 (id. 637b910), com o regulamento próprio do processo de
seleção para admissão de pessoal, enquanto documentos úteis à solução do presente litígio.

Então, firme as premissas de que a presença do Poder Público na administração, a cessão de


servidores, a permissão de uso de bens públicos e a destinação de substancial parcela do
orçamento do Ente da Federação em favor do requerido, atrai a incidência do núcleo essencial
dos princípios da Administração Pública, notadamente os consagrados no artigo 37, caput, da
CRFB, e lhe confere o regime híbrido para a regência dos contratos trabalhistas, de modo que,
embora não haja a obrigatoriedade de concurso público (artigo 37, II, da CRFB), a admissão de
seus empregados sob o regime celetista deve ser antecedida de seleção pública, objetiva e
impessoal.

Aliás, esses valores também estão consagrados no artigo 2º, IX, da Lei Distrital nº 5.889/2017, in
verbis:

"Art.2º. Compete à Secretaria de Estado de Saúde supervisionar a gestão do IHBDF, observadas


as seguintes normas e disposições:

(...)

VIII - o contrato de gestão assegura ao IHBDF autonomia para contratação e administração de


pessoal sob regime da Consolidação das Leis do Trabalho - CLT, de forma a assegurar a
preservação dos mais elevados e rigorosos padrões de atendimento à população;

IX - o processo de seleção para admissão de pessoal do IHBDF deve ser conduzido de forma
pública, objetiva e impessoal, com observância dos princípios da publicidade, da
impessoalidade, da moralidade, da economicidade e da eficiência, nos termos do regulamento
próprio a ser editado pelo Conselho de Administração". (sem grifo no original)

No mesmo sentido, por evidente, a disposição do artigo 45 do Estatuto Social do requerido:

"Art. 45. O processo de seleção para o pessoal efetivo do IHBDF será precedido de edital,
observadas as peculiaridades de cada categoria profissional.

(...)

§ 2º. O regulamento próprio do processo de seleção para admissão de pessoal efetivo do


IHBDF deverá ser conduzido de forma pública, objetiva e impessoal, com observância dos
princípios da publicidade, impessoalidade, moralidade, economicidade e eficiência, nos
termos do regulamento próprio a ser editado pelo Conselho de Administração." (sem destaque no
original)

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A Resolução CA/IHBDF nº 3/017, que instituiu regulamento próprio do processo de seleção para
admissão de pessoal, repete, no artigo 3º, os valores da publicidade, da igualdade, da
impessoalidade, da moralidade, da economicidade e da eficiência, para compatibilizá-los com sua
natureza privada.

Contudo, esse mesmo regulamento distancia-se dos primados, ao menos, da igualdade, da


impessoalidade, da moralidade exemplificativamente nos artigos 6º, § 2º, quando autoriza o
recrutamento interno; 9º, em que prevê etapas dotadas de alta carga de subjetividade na seleção,
todas com caráter eliminatório ou classificatória; e 22, com carga discriminatória quanto aos
empregados demitidos por justa causa.

Ademais, o processo seletivo controvertido nesta ação conseguiu ofender esses e outros valores
ainda mais evidentemente, para preencher as 66 vagas de Técnico de Manutenção em
Equipamentos Hospitalares; Engenheiro Clínico; Médico Regulador; Analista de Processos
Operacionais; Assistente de Faturamento; Enfermeiro Auditor; Médico Auditor; Analista de Gestão
de Pessoas; Analista Administrativo; Farmacêutico; Engenheiro Ambiental; Comprador
Especializado; Analista de Contratos; Analista de Compras; Administrador; a começar pela
ausência da publicação de edital, contrariando o artigo 45 do próprio Estatuto do IHBDF.

Outrossim, a falta de edital ou de qualquer outro documento para balizar o processo seletivo, a par
de desrespeitar os postulados de publicidade, impessoalidade, moralidade e, em última análise,
eficiência, também prejudicou a disponibilização de vagas para portadores de deficiência,
contrariando, assim, a Política Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência
instituída pela Lei nº 7.853/1989, regulamentada pelo Decreto nº 3.298/1999.

No mesmo diapasão, a informação restrita - obviamente contrária à publicidade, impessoalidade e


moralidade na medida em que favorece quem detém a informação por sorte, melhores contatos
ou acesso privilegiado - nos sites do período de inscrição de 08 a 23.03.2018, com previsão de
admissão dos candidatos aprovados e recomendados (este último ponto a ser analisado
especificamente adiante) já em 26.03.2018, dificultou a ampla participação dos interessados,
afinal, o acesso aos empregos da entidade, assim como desfavoreceu a seleção dos candidatos
mais bem preparados, em coerência com a pretendida eficiência administrativa.

A propósito, as informações extraídas do sítio eletrônico "vagas.com", no mínimo, não se


mostraram confiáveis ante a discrepância entre os impressos apresentados pelo requerente e pelo
requerido com suas respectivas manifestações, sendo, ao contrário do afirmado em contestação,
de responsabilidade do requerido e inescusáveis os defeitos do processamento eletrônico da
seleção pública.

Ficaram ainda mais evidentes as ofensas aos princípios da impessoalidade e da moralidade


quando verificada a possibilidade de realização das etapas de conhecimento em língua
portuguesa, conhecimentos gerais e lógica pela internet, o que, obviamente, destituiu a segurança
de que o próprio candidato respondeu as questões, sem, ao menos, o auxílio de terceiros e a
consulta a materiais, a impedir a confirmação da identidade e a avaliação dos concorrentes.

No curso do processo seletivo, principalmente a 5ª etapa definida como entrevista e análise pelo
gestor da área é dotada de alta carga de subjetividade, a permitir que esse examinador escolha o
candidato a partir de suas preferências pessoais, em detrimento dos postulados da
impessoalidade e da moralidade, retrocedendo na escalada evolutiva em nosso ordenamento
jurídico para exterminar a cultura de apadrinhamentos, nepotismos, discriminações odiosas entre
outras.

Nesse contexto, o conjunto probatório até então produzido foi convincente acerca da invalidade do
segundo processo seletivo realizado pelo requerido para preenchimento de 66 vagas de emprego
de Técnico de Manutenção em Equipamentos Hospitalares; Engenheiro Clínico; Médico
Regulador; Analista de Processos Operacionais; Assistente de Faturamento; Enfermeiro Auditor;
Médico Auditor; Analista de Gestão de Pessoas; Analista Administrativo; Farmacêutico;
Engenheiro Ambiental; Comprador Especializado; Analista de Contratos; Analista de Compras;
Administrador.
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O desvio de poder verificado corresponde ao manejo da competência em descompasso com a


competência, segundo os ensinamentos do professor Celso Antônio Bandeira de Mello (MELLO,
Celso Antônio Bandeira de. Curso de Direito Administrativo. São Paulo: Malheiros Editores, 22ª
Edição, 2010, p. 981).

Sob outro enfoque, uma vez evidenciada a maior probabilidade do direito alegado pela
requerente, o perigo da demora é consequência lógica, pois se mostra inadmissível a perpetuação
do ilícito e de seus efeitos, impondo-se a concessão da tutela cautelar para impedir a continuidade
nociva, especialmente nesta circunstância em que se supõe como ação principal uma complexa
ação civil pública, a exigir a ampliação do diálogo social com a participação de outros
interlocutores (entes públicos, entidades representativas das categorias etc), assim, com
tramitação processual ainda mais demorada do que ordinariamente se experimenta na Justiça do
Trabalho.

Diante da verificação das circunstâncias necessárias à certificação da tutela de urgência, julgo


procedente o pedido cautelar, para:

a) suspender, com efeitos ex tunc, o segundo processo seletivo público promovido para o
preenchimento das 66 (sessenta e seis) vagas de empregados celetistas mencionados nesta
ação;

b) suspender, com efeitos ex tunc, qualquer contratação de empregado que eventualmente já


tenha sido feita pelo IHBDF até a data da concessão da tutela de urgência;

c) suspender a contratação para os empregos previstos neste segundo processo seletivo, até o
julgamento final da ação principal.

Não obstante, a fim de evitar o agravamento do quadro de deficiência dos serviços prestados no
Hospital de Base, levando em consideração o risco de colapso descrito por seu Diretor de
Atenção à Saúde conforme id. c93677a, o que, embora não justifique a perpetuação do ilícito
tendo como refém a saúde pública, é sopesado, pelo que determino a correção do processo
seletivo ou realização de um novo hígido por parte do requerido, no prazo de 6 (seis)
meses, sendo recomendável a maior participação dos demais atores sociais e dos órgãos de
controle para a correção da atuação dos gestores desta vez.

Em outra frente, a fim de responder às questões suscitadas pelo requerido quando da impetração
do mandado de segurança (processo autuado sob o nº 0000163-49.2018.5.10.0000): "A quem
caberá indenizar os atuais empregados que sequer fizeram parte dos atacados processos
seletivos? E as pessoas que pediram demissão de seus empregos anteriores para serem
admitidos no IHB? Como fica essa situação? Quem assumirá esses danos e arcará com as
indenizações que certamente serão pleiteadas?", bem como para aferir a responsabilidade pelos
demais prejuízos à sociedade, torna-se forçoso levar ao conhecimento, das autoridades
competentes pela correspondente investigação, o teor das principais peças processuais e desta
decisão.

LITIGÂNCIA DE MÁ-FÉ DO REQUERIDO

O requerente suscita a litigância de má-fé do requerido, ao argumento de conduta de alteração da


verdade dos fatos, mais especificamente quanto aos impressos do sítio eletrônico "vagas.com",
bem como pela confusão dos conceitos dos serviços sociais autônomos e das organizações
sociais.
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Entretanto, não se vislumbra a intenção deliberada do requerido em ludibriar o órgão julgador com
a juntada do referido documento, restando a análise das dificuldades enfrentadas pelos
candidatos no mérito ora cautelar.

Nesse diapasão, o requerido apresentou contestação fundada em alegações verossímeis e,


ademais, não representa contrariedade aos deveres éticos o simples fato de a parte porventura
sucumbir em juízo, pois isso constitui risco inerente a qualquer litigante em ação judicial.

Portanto, estamos diante do exercício regular do direito de defesa, em observância aos princípios
da lealdade e da boa-fé processual, razão pela qual não estão configuradas as hipóteses do artigo
80 do CPC.

Rejeito.

Dispositivo
Diante do exposto, e considerando o que mais consta dos autos, decido julgar procedente o
pedido cautelar formulado por MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO em face de INSTITUTO
HOSPITAL DE BASE DO DISTRITO FEDERAL - IHBDF, nos termos da fundamentação.

Custas pelo requerido no importe de R$ 1.000,00, calculadas sobre o valor arbitrado à


condenação (R$ 50.000,00).

Intimem-se as partes.

Independentemente do trânsito em julgado, expeçam-se imediatamente ofícios à Polícia


Civil do Distrito Federal, ao Ministério Público do Distrito Federal e Territórios e ao
Ministério Público de Contas do Distrito Federal, com cópias da petição inicial, do
aditamento à inicial, da peça de id. 09b20ef, da réplica, da contestação e desta sentença.

Após, voltem-me os autos conclusos para o processamento da ação principal promovida no id.
c155e52.

BRASILIA, 15 de Outubro de 2018

RENATO VIEIRA DE FARIA


Juiz do Trabalho Substituto

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