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UNIVERSIDADE FEDERAL DO SUL E SUDESTE DO PARÁ INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS (ICH) FACULDADE DE CIÊNCIAS SOCIAIS ARAGUAIA-TOCANTINS (FACSAT) ROBERTA CRUZ CORREIA

RITUALISTICA DO SAGRADO FEMININO NA IGREJA DO CULTO ECLÉTICO DA FLUENTE LUZ UNIVERSAL CÉU DE CARAJÁS EM MARABÁ, PARÁ.

Marabá, PA

2018

Agradeço a Igreja do Culto Eclético da Fluente Luz Universal Céu de Carajás, todas as pessoas envolvidas nesse trabalho, a oportunidade em estudar essa ritualística e a todos que me ajudaram para a realização desse material.

SUMÁRIO

  • 1. INTRODUÇÃO..............................................................................................

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  • 2. O SAGRADO FEMININO...............................................................................3

  • 3. YOGA.............................................................................................................6

  • 4. BANHO..........................................................................................................10

  • 5. O TRABALHO...............................................................................................24

  • 7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.............................................................36

1.

Introdução:

A concepção do sagrado varia para muitos escritores, para M. Eliade (1957), o

sagrado não é apenas uma mera criação conceitual do homem, mas uma “experiência” que se oculta no mundo sensível. Para PIAZZA (1976) “A religião não é outra coisa do

que a tentativa do homem de encontrar a última razão das coisas em potência

sobrenaturais, para assim chegar a salvação

Trata-se de um modo de transcender o

... mundo, que encontra a sua justificação em si mesmo, porque não fica no mundo das ideias”, ou seja, o fenômeno religioso é uma ruptura de nível na visão de mundo, é algo Supra (superior).

Dentro de várias religiões exprimem os ideais dos arquétipos, ou seja, imagens e símbolos fundamentais, que representam as condições humanas nas culturas. Contrapondo aos arquétipos, existem as “hierofanias”, que são objetos que se ligam a

experiência religiosa como “sinais” do sagrado. Por exemplo: A lua, O Sol, A Terra, às

Águas, às Plantas e às pedras.

Partindo disso, surgem os ritos, as ritualísticas estão inteiramente ligadas aos mitos, os ritos procuram transmitir o que os mitos falam e fazer com que todos os membros da comunidade participem de sua eficácia sagrada, se os mitos forem transmitidos somente oralmente, com o tempo logo desapareceria, mas se colocar dentro de um ritual, o mito fica preservado por mais tempo.

A práticas ritualísticas de círculos de mulheres está presente em diversas culturas, mas com a modernidade e o patriarcalismo, essa prática vem sendo esquecida e desvalorizada. Segundo Durães (2009) “A participação feminina na cultura religiosa passou por variadas formas, desde a adoração do feminino pela fertilidade até sua total

e completa negação, ou seja, saiu de um estado de divinização até o ponto de ser

totalmente anulada [

...

]

Em muitas religiões ainda hoje predomina a preponderância do

masculino sobre o feminino, embora já se tenha visto algumas mudanças. ”

Segundo Souza (2006) “Se, por um lado, as mulheres são a maioria e são os

sujeitos mais ativos no grupo religioso, por outro, em termos proporcionais, são as que possuem menos acesso às posições de poder institucional. Isso pode sugerir que, paradoxalmente, as mulheres são as mais ativas em suas instituições, mas estão mais

sujeitas ao trânsito religioso por não terem um compromisso “formal” com essas mesmas instituições. ”

Logo, vê-se que apesar das mulheres serem em número maior em relação aos homens em seus grupos religiosos, as mesmas dificilmente assumem posições de liderança ou de uma forma mais ativa que os homens.

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O Santo Daime, mesmo sendo uma religião cristã e que segundo o artigo

O

feminino e o Santo Daime que problematiza a divisão sexual do trabalho nessa linha,

alguns centros já começam a resgatar um novo olhar sobre o arquétipo feminino.

Como foi o caso da igreja do culto eclético da fluente luz universal Céu de Carajás, em Marabá no Pará, que realiza encontros periódicos com mulheres, onde se realizam banhos de ervas, meditação, yoga, danças circulares e rodas de conversas, juntando com músicas variadas, de hinos daimistas até wicca e xamânica, sempre realçando o

arquétipo de “mulher”, “mãe”, “Deusa”, “Filha”, “rainha” e a hierofania dos elementos que

simbolizam cada chakra.

Participei pela primeira vez no dia vinte de janeiro de dois mil e dezoito, fiquei extremamente surpreendida pelo conteúdo das informações daquele “trabalho”, era uma linda mistura de reiki com o simbolismo dos chakras, com músicas wiccas, dentro de um centro daimista. Fiz algumas pesquisas bibliográficas e não achei nada que pudesse explicar a ritualística do sagrado feminino dentro de uma perspectiva religiosa que englobasse o uso do daime.

Conclui que é algo extremamente novo, não especificamente dentro da doutrina daimista, mas dentro de alguns centros que fazem desses rituais, excelentes terapias de cura, onde cada “trabalho” (nome utilizado na doutrina daimista para o ritual) utilizam um elemento reikiano de chakra e de uma cor diferente, a cada cor, devemos ir caracterizados com alguma roupa da cor do respectivo chakra. Começamos com o chakra básico de cor vermelha, depois chakra sacro de cor laranja, depois o chakra do plexo solar de cor amarela e na criação desse artigo foi realizado o trabalho do chakra cardíaco de cor verde.

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2. O Sagrado Feminino

Entrevistei algumas meninas sobre qual a perspectiva que elas tiveram dos encontros do sagrado feminino da igreja Céu de Carajás para saber mais em como tem ajudado elas.

“Me chamo Denise, no sagrado feminino eu me encontro e recebo apoio das demais mulheres que ali também encontram consigo mesma, e todas nós em uma

corrente de busca e encontro. Nós damos esse apoio uma a outra sem criticar ou apontar e sim ouvir, entender e aceitar cada uma com suas dores, mágoas, tristezas e medo. Procuramos incentiva-las a se aceitar também e ouvir com muito amor e compreensão livre de qualquer preconceito, para que possamos nos unir cada vez mais

e saber que podemos contar uma com a outra. ”

Meu nome é Raissa, e o sagrado feminino tem sido, um momento assim de conexão, conexão comigo, conexão com a minha essência, com algo que foi muito inferiorizado e muito machucado durante toda a minha vida e isso refletia diretamente em quem eu havia me tornado.

Uma pessoa que tinha dificuldade de se relacionar, de confiar, confiar em si, confiar nos outros, além de ter uma questão de se inferiorizar muito grande, não acreditar que eu seria capaz de nada, e tudo isso tem sido trabalhado nesses círculos, aqueles momentos em que são discutidas questões de empoderamento, de ter voz, vai muito além daquilo, de questões sociais, vai algo bem mais profundo.

Me desprendeu de amar com insegurança, medo, foi algo bem interior mesmo, e cada encontro tem sido como se eu tivesse me desvinculando, e esquecendo cada vez mais daquela pessoa que um dia eu fui, aquele ser amargurado e triste.

Cada vez mais me tornando uma mulher forte, e que realmente entende a essência de ser mulher, e que só tem é que liberar vitalidade, amor, para todos e principalmente para si mesma, então a maior conquista desses círculos, foi ter conseguido fazer as pazes comigo mesma, com meu corpo, tentar me entender melhor, tentar entender meus ciclos, tentar entender o que eu quero dizer pra mim mesma. E cada banho, cada dança, cada música tem um sentindo muito grande nisso, nesse momento realmente de cura e de conexão, eu agradeço muito ao grupo. ”

Meu nome é Catia Souza Rangel, e a minha pespectiva do sagrado feminino da igreja Céu de Carajás era aprender o que era o sagrado feminino, hoje eu entendo que o sagrado feminino é conhecimento, é um conhecimento sobre o nosso corpo, e sobre as nossas emoções, sobre os nossos sentimentos, que estão atrelados ao nosso ciclo

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menstrual, então para mim hoje, o sagrado feminino é compreender o meu ciclo menstrual, que é diferente das outras irmãs.

Se eu entendendo o meu ciclo menstrual, eu entendo as minhas emoções, não cem por cento porque não dá para fazer que cem por cento das emoções são frutos do meu ciclo menstrual, mas a forma como eu lido com as emoções e com os fatos, isso sim eu acredito, acredito firmemente que depende de qual momento do meu ciclo eu estou, e transmutar o que antes era incomodo em necessidade do corpo.

Por exemplo, o meu maior incomodo é no período fértil, não exatamente no período menstrual, só que no período fértil, não existe algo físico, de diferente, como por exemplo durante o período menstrual, que é o sangue, só que no período fértil, eu fico inquieta, eu fico incomodada, eu fico querendo fazer um monte de coisa de uma vez, que na verdade é deixar as coisas prontas, pra quando, porque logo mais vim o período menstrual e eu vou querer me recolher.

Só que hoje eu já sei que não é no período fértil que eu vou conseguir fazer, um monte de coisa, o período fértil é um momento pra eu curtir, pra eu curtir meu corpo, pra eu curtir minha casa, pra eu curtir minha família, pra eu curtir coisas que eu gosto de fazer, e depois quando vim o período menstrual, é pra mim me recolher.

O período pra eu fazer as coisas, pra eu ficar produtiva, pra eu racionalmente organizar as coisas que eu preciso deixar organizadas, é exatamente depois da menstruação, mais ou menos depois do quarto período da menstruação, até quando chega o período fértil, eu conto o meu período fértil a partir do décimo segundo dia do final da menstruação, isso pra mim é o sagrado, isso pra mim é como se fosse, não é um segredo, mas é um saber.

O sagrado feminino pra mim é um saber, sobre o nosso corpo, sobre o nosso ciclo, sobre como lidar melhor com as nossas emoções, e outra coisa que pra mim é muito importante nas rodas do sagrado, é saber curar as inquietações físicas com remédios, que não são os remédios da farmácia.

Não só pra eu curar um corrimento, pra eu curar uma inquietação, uma irritação, mas pra eu cuidar da saúde do meu filho, quando ele fica com a garganta inflamada, quando ele tem uma alergia, e também a minha alimentação, quais os alimentos são melhores, pra facilitar a fluidez do sangue, pra facilitar a dinâmica hormonal, sem retenção dos líquidos, sem indisposição, sem dores físicas.

Isso pra mim é o sagrado, não no sentido dos segredos, mas o sagrado no sentido do saber, é o saber do nosso corpo, essa é a minha perspectiva sobre o sagrado feminino da igreja Céu de Carajás, que foi lá que eu comecei a discutir, que eu comecei

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a participar sobre as reuniões, e a partir de lá trazer para os outros lugares aonde eu convivo hoje, com minhas outras amigas, e com os novos círculos de mulheres que eu convivo, então a partir de lá é que eu tenho uma vivência, que eu tenho uma direção de como trabalhar o sagrado.

Me chamo Liandra, e bom, sou bem jovem e me sinto privilegiada por ter conhecido o Sagrado Feminino tão cedo, ainda mais dentro de vivências com a ayahuasca. Dentre inúmeras coisas, o Sagrado Feminino da Igreja Céu de Carajás representa para mim a desconstrução em relação a ideia de relacionamento entre mulheres.

É uma afirmação da auto cura em grupo, arrisco dizer que também é uma forma de identificação de grupo. A minha experiência com o Sagrado vem sendo as das melhores, me compreendendo como mulher, posso compreender melhor as mulheres ao meu redor, e isso cria uma certa aceitação e conforto.

Em relação aos assuntos tratados no Sagrado são enriquecedores, maravilhosos e resgatar o arquétipo feminino é um dos pontos mais positivos, porque

criamos a noção de muitas antes da gente já buscavam saber, mas percebo que tratar desses assuntos com mulheres que não vivenciam aquilo é bem complicado,

principalmente com as mulheres da minha família (negras, periféricas idealização e referências de mulher que eu tenho e tive ao longo da vida.

...

),

que

é

a

Todas as coisas têm pontos positivos e negativos, mas acho que esse negativo que testemunhei é mais uma experiência pessoal do que coletiva. O Sagrado Feminino existe em todas nós, a comunhão para estudarmos isso é apenas uma afirmação. No mais, sinto o acolhimento e cura quando reunida com as minhas irmãs. ”

Segundo pesquisas de ASSIS; LINS & FARIA (2014), o uso da ayahuasca melhora a subjetividade do indivíduo e a qualidade de vida, melhora a relação de autoconhecimento, ajuda no tratamento de dependência, ajuda a melhorar o domínio de si e do ambiente, ou seja, por meio das mirações, a ayahuasca mostra aprendizados que permite a pessoa adquirir hábitos como práticas de exercícios físicos, de bem-estar, cuidados com o corpo (dietas e abstinências) e desenvolvimento de autocontrole. Ajuda também com relações sociais, que induzido pelas mirações e principalmente pela comunicação, permite a pessoa melhorar comportamentos com familiares e amigos.

O Sagrado Feminino, dentro do contexto ritualístico com o uso da ayahuasca, - e junto com os ensinamentos do reiki- introduz com muito mais aprofundamento as informações e conhecimentos apresentados em cada ritual, ajudando a melhorar o estilo de vida e a reviver as práticas culturais de círculos de mulheres.

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3.

Yoga.

Dezenove de julho de 2018, às dezessete horas e vinte e cinco minutos, todas já estavam reunidas na igreja Céu de Carajás e estava sentindo ansiedade e pressa em chegar logo na chácara onde íamos fazer o encontro, não havia comido nada o dia todo e cada sagrado feminino que participava, passava mal, com muita dor de cabeça por não me alimentar direito, senti medo de acontecer a mesma coisa e passar mal nesse trabalho também.

Às dezoito horas e quarenta minutos, as mulherxs, de várias idades, tamanhos e vivências se reuniram em círculo na grama do sítio. Achei interessante nesse círculo a presença do Thiago, um colega que está em processo de autoconhecimento e de se encontrar assim como eu, logo, a presença dele no sagrado feminino foi de extrema importância, até mesmo para se questionar o que é ser uma mulher no século XXI.

Primeiramente conversamos, cada uma se apresentou e falou sobre o porquê estava ali, me apresentei como Roberta e que estava me sentindo grata por estar presente no sagrado feminino, após todas falarem, fizemos uma oração e a Gleiciane (a facilitadora) pediu para todas sentarmos na grama em círculo pois íamos começar o yoga, sentamos, e coloquei o gravador próximo a ela, então começou a falar:

Como as tristezas e as mágoas, ressentimentos, e nos abrimos para o amor incondicional, a compaixão e o perdão. Então a gente vai primeiramente fechar nossos olhos e fazer com as mãos, uma postura que seja da prece. Fechar os nossos olhos, inspirar e expirar profundamente três vezes, inspira e expira durante três vezes, com a postura da prece em frente do coração, totalizando a energia do chacra cardíaco, pensando na liberação de mágoas e tristezas profundas, para nos abrir para o amor incondicional e para cura.

Inspira, inspira amor. Expira as mágoas. Inspira a cura. Expira os ressentimentos. Inspira a compaixão. Expira as tristezas.

Agora a gente pode descruzar as nossas pernas. Nós vamos fazer alguns exercícios de alongamento para a gente entrar nas posturas. Primeiramente eu peço que vocês sempre mantenham a postura ereta ao realizar as posturas. Vocês vão até o

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máximo que seu corpo permitir, não precisa exceder o limite do corpo, não é para provocar dor, é para provocar relaxamento, sempre inspirando e expirando profundamente para abrir espaço para realizar as posturas. Manter o abdome contraído e sempre os ombros retos. Então primeiramente a gente inspira e leva o braço lá em cima, inspira, expira e desce as pontas dos dedos das mãos nas pontas dos dedos dos pés, expira e desce. Se não conseguir colocar as mãos nos pés, coloca nos tornozelos,

tá? Inspira, desce o pescoço, inspira, expira, vai tentando colocar

A cada expiração

... você tenta colocar um pouco mais, realizar cinco respirações desses alongamentos.

Completou, inspira e volta. Desce os braços, a gente coloca a perna esquerda entre a perna direita, e vai trazer a perna direita ao lado. Inspira, sobe os braços, tocando as mãos, mantém essa postura, abdome contraído, inspira e expira, expira desce, agora levemente você vai colocar os braços encostando no chão, primeiro você coloca o braço direito pra trás e posteriormente o braço esquerdo, você vai abrir o seu peito, abre o peito, leva o tórax lá pra cima, lá pra cima, mantém o abdome contraído, olha lá pra cima, não é pra deixar o pescoço cair pra trás, inspira e expira durante cinco vezes.

Completou, você vai apoiar no braço direito, levantar o esquerdo, nós vamos realizar do lado esquerdo agora, coloca a perna direita dentro da perna esquerda, leva a perna esquerda para fora. Vamos colocar o braço esquerdo apoiado primeiro no chão, e posteriormente o direito, inspira no centro, eleva os braços lá em cima, mantem. Abdome contraído, inspira e expira, leva os braços lá em cima, coluna ereta.

Expira, desce. Leva o braço esquerdo lá atrás, posteriormente o direito, coloca o peito lá pra cima, abre o peito, mantem a respiração, contrai o abdômen, não deixa o ombro cair, não é pra deitar, leva o peito lá pra cima. Se vocês estiverem com dificuldade, vocês podem me chamar, tá? Inspira e volta. Agora vamos ficar de pé. Eleva os braços lá em cima, expirando, desce, toca as mãos no chão, coloca o joelho flexionado para trás, não dobra o joelho, leva o joelho lá pra trás, o bumbum lá pra cima, e toca as duas mãos no chão, caso não conseguir, toca os tornozelos, tá? Inspira e expira, olha lá pro chão, solta o pescoço, tenta aproximar a cabeça próxima aos joelhos, mas se não conseguir, pode tocar os tornozelos, tá? Inspira e expira, solta. Não dobra os joelhos.

Agora a gente vai entrar nas posturas do Yoga, com as mãos no chão, leva as pernas direitas lá atrás, depois leva a perna esquerda, vamos fazer a postura da prancha. A postura da prancha, o bumbum ele não fica lá pra cima assim, você fica esticado, coloca o bumbum pra baixo, mantem reto o abdômen, olha pra baixo, olha pro chão. Vou tentar passar próxima a vocês pra tentar ajudar, tá? As pernas são juntas, junta as pernas. Ai o bumbum é pra baixo, você fica reto, olha pra baixo. Completou,

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vocês abaixam o quadril, abaixa o quadril e mantem os braços para cima, desce o quadril, pernas juntas e postura da serpente.

Enquanto elas estavam fazendo yoga, eu estava tentando posicionar a câmera no tripé para conseguir melhor aproveitamento da foto, e ao mesmo tempo, utilizei uma outra câmera para fazer fotografias mais de perto, eu estava muito preocupada em não conseguir tirar nenhuma foto e não conseguir fazer esse trabalho, andava de um lado para o outro em busca da melhor fotografia. Depois de um certo momento, percebi que estava perdendo meu tempo, e que deveria como parte da antropologia participativa, sentar e participar do yoga também, mesmo não gostando muito de me alongar.

vocês abaixam o quadril, abaixa o quadril e mantem os braços para cima, desce o quadril,

Figura 1. Todas as mulheres em pé, de mãos dadas, em um círculo na grama antes de iniciar o yoga, nesse momento cada uma se apresentou e falou o porquê estava ali.

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Figura 2. Todas sentadas em cima de panos na grama em círculo, e havia pessoas de

Figura 2. Todas sentadas em cima de panos na grama em círculo, e havia pessoas de várias idades.

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4. Banho

Às dezenove e dezesseis, esperamos todas se aproximarem de onde iria ser o banho, Gleice pediu ajuda de mais duas meninxs para ajudar no banho e disse:

Seja em pensamentos positivos, desejando coisas boas para suas irmãs, e suas irmãs que estão recebendo e desejam coisas prosperas para todas as mulheres do nosso planeta, então a gente pode iniciar, aí vocês podem ir se aproximando, as meninas que querem tomar o banho, e vai ficando próxima as duas (mulheres que estavam dando o banho).

Após isso, duas meninas com maracá, sentadas próximas ao banho, começaram a cantar “A rainha me mandoudo Mestre Irineu, coloquei o gravador próximo delas porque um dos meus principais questionamentos quanto ao sagrado era a mistura do daime com outras culturas, depois de cantarem essa música para a abertura do banho, colocaram para tocar a música “Santa Cura”.

Foi nesse momento que pedi para Carol me banhar, pedi também para a filha da Jane para me fotografar, na minha mente, eu achava que assim poderia, nessa antropologia visual, comprovar a minha antropologia participativa, me ajoelhei e senti a água percorrer pelo meu corpo, pedi mentalmente cura e paciência para mim. Fui uma das primeiras, pois o banho é uma das minhas partes preferidas, sinto-me renovada depois, e ele sempre me lembra muito os banhos de despachos da Umbanda.

Às dezenove e trinta, após todas tomarem o banho, enquanto estavam se arrumando, fizemos um momento para fazer pinturas umas às outras. Fizeram várias pinturas com tintas coloridas nos rostos, e me pintaram também, percebi analisando as meninas pintando as outras que se trata de um processo muito cauteloso, e é um excelente processo meditativo, você tem que ficar quietinha e de olhos fechados, enquanto outra pessoa toca o seu rosto com um improvisado pedacinho de pau com tinta colorida.

Às oito e vinte, nos reunimos na cozinha, estava no momento de realizar um pequeno lanche antes de começar o trabalho, eu estava com muita fome, pois quando fico muito ansiosa com algo não consigo comer direito, e tinha passado o dia todo sem comer, era um momento muito esperado por mim, Andreia falou para comer pouco pois íamos comungar o daime e poderia vomitar se comesse muito. Depois ela começa falando:

“Bem meninas, mais uma vez, depois que todas já fizeram os banhos, estão

harmonizadas, limpas, estamos trocadas, já vestidinhas, estamos aqui reunidas, aproveitando a presença da Tia Berenice (Dona da chácara) pra trocar essa energia

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maravilhosa com ela, e vamos fazer uma prece, apresentar nosso trabalho, agora sim é parte do inicio, e apresentar também a nossa alimentação, e assim apresenta também nessa noite a cura do processo da tia Berenice, apresentar o nosso muito obrigada a ela, pelo lugar maravilhoso, que Deus possa abençoar esse lugar sempre e lhe dê muita vida e saúde pra viver, mais alguém quer falar alguma coisa?

Houve um pequeno momento de silêncio e a Renata, uma das integrantes do círculo diz “Agradecer né a tia ai por ter cedido o lugar pra gente, muita energia de cura e saúde pra ela e pra todos, gratidão. ”

Renata foi a única a se pronunciar, depois dela, Andreia voltou a falar. “E só lembrando que nós estamos aqui reunidas, pra quem não sabe, o nosso encontro chama-se sagrado feminino onde a gente vem fazendo estudos e resgatando lá desde o início, os nossos ancestrais, onde a gente trabalhava com as ervas e as mulheres se curando, que são as curas das nossas mães, as curas das mulheres da nossa vida, então o nosso trabalho ele acontece de uma forma bem simples e de uma forma bem transparente, só são essas belas meninas e é muito simples, e que a senhora possa está recebendo tia, todo o nosso amor e nosso carinho e muito obrigada.”

Depois, a facilitadora Gleice retorna falando: “Então, desejar só energia de cura a tia Berenice, falar que também que esse resgate do sagrado feminino, das mulheres atuais e modernas, esse resgate ele é internamente, nós estamos indo em busca de algo que é nosso, das nossas mães, das nossas avós, dos nossos antepassados. O que significa esse sagrado? O sagrado feminino ele é honrar a vida, ele é honrar o ciclo, que é o compartilhar, é o relacionar-se, que é o estar unido, que é saber que você está doando energia assim como você está recebendo energia, e muitas vezes na nossa vida cotidiana, a gente esquece que tem o outro pra gente compartilhar quanto da gente receber, e nesse momento que a gente entenda que está aqui unido, nós estamos trocando energias, trocando experiências, honrando o sagrado que é nosso, honrando a nossa existência, porque nós viemos para esse sagrado, nós somos frutos desse sagrado, que é o sagrado feminino com o sagrado masculino, e desejar que essa energia, que é uma energia de cura, que é transmitida através quando a gente reconhece a existência desse sagrado, então a gente transmite essa energia de cura, e que essa energia de cura se transmita para todas as mulheres que estão buscando se conhecer, estão buscando o melhor para si, e que a gente possa pensar nessa energia de cura para a tia Berenice.

Após esse momento, fizeram um pai nosso e uma ave Maria, eu não rezo pois não me considero católica e como costumo participar de muitos trabalhos nesse centro, preciso de uma certa distância para me encontrar comigo mesma e definir o que sou eu

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e o que não sou eu, e eu não consigo me identificar com essa reza. Logo depois, Andreia volta a falar:

Que abençoada seja a nossa noite e nosso momento e a nossa refeição, gratidão”. Batemos palmas e depois ela falou: Então meninas, podemos fazer um leve lanche, comer uma fruta, tomar um suco, ai nós vamos dar início aos nossos trabalhos, pra que a gente não esteja muito cheia. Então viva a cura! Viva a Cura! ”. E todas dizemos: Viva! ”.

e o que não sou eu, e eu não consigo me identificar com essa reza. Logo

Figura 3. Nesse momento, estavam preparando a fogueira e colocando os panos no chão em círculos.

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Figura 4. Com a fogueira acesa, coloquei o meu tambor para aquecer o couro antes de

Figura 4. Com a fogueira acesa, coloquei o meu tambor para aquecer o couro antes de começar o trabalho.

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Figura 5. Garrafa com daime, em cima de uma mesa decorada com uma vela, um jagube,

Figura 5. Garrafa com daime, em cima de uma mesa decorada com uma vela, um jagube, o cruzeiro e alguns copos.

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Figura 6. Vaso de alumínio utilizado para fazer o incenso com alecrim ( Rosmarinus officinalis) .

Figura 6. Vaso de alumínio utilizado para fazer o incenso com alecrim (Rosmarinus officinalis).

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7(A). 7(B). Figuras 7 (a) e 7(b) mostram Carol Anjos, uma das integrantes do círculo, a

7(A).

7(A). 7(B). Figuras 7 (a) e 7(b) mostram Carol Anjos, uma das integrantes do círculo, a

7(B).

Figuras 7 (a) e 7(b) mostram Carol Anjos, uma das integrantes do círculo, a tocar tambor na frente da fogueira, antes de começar o banho. Com a fotografia fica mais fácil mostrar para as pessoas o que eu estava vendo, a fogueira estava com tons roxos misturados com o vermelho e amarelo, e sua fumaça abraçava Carol, como se ela estivesse saindo da fogueira, pois ela era o próprio fogo.

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Figura 8. Três vasos com banho das ervas Porangaba(Cordia ecalyculata), Sene ( Senna alexandrina) , Alcachofra

Figura 8. Três vasos com banho das ervas Porangaba(Cordia ecalyculata), Sene (Senna alexandrina), Alcachofra (Cynara scolymus), Centella Asiática (Hydrocolite asiatica L.), Boldo do chile (Peumus boldus), Erva-Cidreira (Melissa officinalis), Erva-doce (Pimpinella anisum), Hortelã (Mentha), Alecrim (Rosmarinus officinalis) e Cavalinha (Equisetum).

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Figura 9. Dois vasos grandes com o banho de ervas, a água é cozinhada com as

Figura 9. Dois vasos grandes com o banho de ervas, a água é cozinhada com as ervas, como se fosse um chá, até ela ficar com uma coloração avermelhada e muito cheirosa.

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Figura 10. Todos em círculo, antes de começar o banho, nesse momento escolheram duas pessoas para

Figura 10. Todos em círculo, antes de começar o banho, nesse momento escolheram duas pessoas para ajudar no processo do banho e depois fizemos uma oração.

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Figura 11 (A) Figura 11(B)
Figura 11 (A)
Figura 11(B)

Figuras 11 (A) e 11 (B), mostram o momento do banho, em que pedi para tirarem uma foto minha enquanto uma das meninas jogava o a água com ervas em mim, senti nesse momento, a sensação de cura, gosto dos banhos, eles representam renovação.

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Figura 12. Após o banho, as meninas caíram na piscina. 21

Figura 12. Após o banho, as meninas caíram na piscina.

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Figura 13. Carol Anjos, de saia rosa e camisa quadriculada, fazendo uma pintura no rosto do

Figura 13. Carol Anjos, de saia rosa e camisa quadriculada, fazendo uma pintura no rosto do Thyago.

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Figura 14. Lesly Negreiro moça a direita com camisa xadrez, fazendo uma pintura na Ariane de

Figura 14. Lesly Negreiro moça a direita com camisa xadrez, fazendo uma pintura na Ariane de onze anos de idade, a esquerda de vestido rosa.

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5. Início do trabalho

Às nove horas, iniciamos os trabalhos, antes todas tomar o daime, começamos a cantar, sentamos em um círculo ao redor de uma fogueira, colocamos uns panos no chão e utilizamos para fazer música um violão, um tambor xamânico e maracás. Cantamos para iniciar o trabalho a música Eu devo amar do Mestre Irineu, enquanto cantávamos, começaram a se levantar aos poucos, enquanto umas saiam, outras iam e formavam uma fila de até duas pessoas para comungar o daime, sob a mesa decorada com uma jarra de vidro com a ayahuasca, uma vela e um pequeno pedaço de jagube.

Houve um momento de silêncio então Jhennifer, uma das integrantes do círculo, disse que havia trago o hinário criado pela Gleice e apresentado a todas no círculo anterior só com músicas daimistas que falam sobre o arquétipo de mulher. A facilitadora disse que ela podia cantar e puxar as músicas então cantamos a música Encostado a minha mãe do Mestre Irineu.

Às nove e vinte e três, já me encontro na força, nesse momento, lembro-me do quanto foi difícil ficar lembrando de colocar os áudios para gravar, fazer etnografia após

tomar ayahuasca é um processo muito trabalhoso, fiquei o tempo todo achando que os áudios não estavam saindo ou tinha alguma coisa de errado com o que eu estava fazendo, não consegui me concentrar direito e não gostei de tirar fotos na força, achava que as pessoas não estavam gostando e que estava sendo inconveniente, mas na

verdade era só a força mesmo me dando “taca”.

Essa força me deu muita vontade de dançar, todas as músicas que tocava eu já conhecia, fiquei dançando sentada, com a cabeça e com as mãos, eu mexia as minhas mãos de acordo com o ritmo das músicas e ia fazendo coreografias internamente.

A fogueira soltava faíscas que se juntavam ao vento, estávamos dentro da floresta, e senti na força, que as árvores por perto estavam dançando também junto com as músicas e as fogueiras, de repente, comecei a achar que as árvores estavam na força também e que estavam festejando junto com a gente. Elas dançavam a luz da fogueira e com o movimento da música.

Enquanto isso, Carol, uma das integrantes, tocou o tambor enquanto as outras tocavam maracá e cantavam a música Iemanjá de Léo Artése.

Silêncio de alguns minutos, então Carol começou a tocar o tambor ao som das batidas do coração e depois de mais alguns minutos de silêncio, começaram a cantar de novo a música Minha rosa do Jardim do Mestre Irineu.

Quando parou a música, Gleice começou a falar: “Meninas, então a gente vai

dar início a meditação, anteriormente, eu acho que a gente pode conversar um pouco,

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eu vou conversar aqui com vocês. Esse trabalho, esse encontro do sagrado, ele está sendo realizado no primeiro dia de lua crescente, a lua crescente ela simboliza a prosperidade, o crescimento de novas oportunidades no nosso caminho.

Ela representa também novas energias que estão crescendo dentro da gente, um poder que nos leva para a lua cheia, que é a transformação, que é a demonstração do poder maior, que é o poder da mãe, e como nós estamos aqui neste momento, eu quero que a gente tente pensar no crescimento de coisas prosperas, momentos e situações prosperas na nossa vida, e sempre pensando, que eu menciono bastante, que não é só para nós mas para aqueles que estão a nossa volta.

Nós estamos entrando nessa meditação para tratar do chakra cardíaco, que nós já vimos, nós estamos estudando esses chakras desde o início do ano, os chakras na verdade, e nós estamos no quarto chakra, e algo interessante que tenho trazido para vocês, o primeiro chakra é o chakra básico, e ele está relacionado a manifestação do eu sou, que é a manifestação com a terra, o elemento do chakra básico é o elemento terra.

Posteriormente, nós temos o elemento água, que representa o chakra sacro, que foi segundo chakra que nós estudamos, que está relacionado a manifestação da criatividade, a criatividade que é um poder da mulher e do homem, e manifestando a nossa potencialidade maior, de sermos criativos, não só em fazer algo grandioso, mas também pequenas coisas no nosso dia a dia, seja em preparar uma comida, seja em desenhar, seja em pintar, mas manifestar a nossa criatividade.

E posteriormente, nós temos o nosso chakra plexo solar, que é o chakra que está próximo ao umbigo, o elemento dele é o elemento fogo. Então nós viemos com terra, agua, fogo e agora nós vamos trabalhar o chakra cardíaco. O Chakra cardíaco, que está aqui próximo do nosso coração, ele representa o elemento ar, que é o de liberdade, que é o sentimento de perdão, quando você liberta as magoas do seu coração, os sentimentos ruins, as tristezas profundas que você sente dentro de si, você se abre, você se liberta, para novas oportunidades, para novos sentimentos, então é o elemento ar, a respiração, o sentir.

Então eu peço que a gente possa sentar em uma postura confortável e respirar o ar que nos alimenta, o ar que purifica as nossas células, e que a gente possa agradecer porque a gente acorda no dia e não lembra de agradecer pela oportunidade estar respirando, o ar que é algo maravilhoso que só em pensar em parar de respirar a gente se sente extremamente desconfortável.

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Então vamos agradecer o elemento ar e pensar que esse ar ele também está dentro das nossas células, e esta limpando o nosso coração, e vamos limpar o nosso coração das magoas, dos sentimentos que nos aprisionam, para nos abrir para novas oportunidades, para novos sentimentos, para a cura do nosso coração, para a cura do nosso espirito, nos abrir para o amor ao próximo.

E principalmente para o amor a nos mesmo, porque quando gente passa a se amar e se auto aceitar, nós passamos a amar o outro, e as vezes parece muito fácil a gente falar “Ah se ame, se ame”, mas as vezes a gente não a tem noção do quanto isso é importante, do quanto é difícil mas é muito importante, você reconhecer que você tem tristezas, você tem dificuldades, mas principalmente que você tem sabedoria, das experiências que você viveu, então quando você reconhece que você tem falhas mas que você tem uma sabedoria superior, você se ama.

Porque você se reconhece, como manifestação divina, e quando você se reconhece como essa manifestação, você se ama e você pode assim amar o outro, porque você entende que o outro também tem defeitos, mas também que ele é manifestação divina, e todos estamos caminhando para uma evolução, seja ela no campo físico ou espiritual, então quando nós nos amamos, nós nos curamos, nós nos abrimos para a cura interna, e nós transmitimos essa cura para o nosso dia a dia.

Então vamos inspirar, agradecendo esse momento, agradecendo a oportunidade de estamos aqui, agradecer pela oportunidade de estarmos respirando, agradecendo a oportunidade de viver essa vida, de estar nessa existência, que possamos pedir nesse momento da meditação que esse fogo sagrado que está aqui entre nós, possa livrar os sentimentos ruins do nosso peito, que possa purificar o nosso espirito.

Que possamos sentir o elemento terra, nos conectando com a mãe terra, nós já estamos nessa conexão, basta a gente reconhecer, sentir essa percepção de estarmos com a terra. Vamos agradecer a água que é vida, que está em nosso corpo, agradecer a água que nós nos alimentamos, que nós bebemos para matar a nossa sede.

Vamos agradecer ao ar que nós respiramos, vamos agradecer ao poder divino manifestado através da mãe natureza, agradecer ao pai, ao pai Sol, a avó Lua, a mãe Terra, ao poder divino que nos rege, agradecer pela oportunidade de receber dádivas divinas.

Então nesse momento da meditação, eu peço a todas que centralizem o seu pensamento para a cura interna, ou peça a cura, para aquele que mais necessita próximo a você, seja um parente, um amigo, ou até mesmo um vizinho, peça a cura para o seu coração, pois um dos males que mais pesa, que mais tem pesado na

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humanidade é a tristeza, é a solidão, de pensar que está sozinho, mas não está sozinho, o tempo todo nós temos elementos a nossa volta, dádivas divinas que estão a nos reger, espíritos guias que estão a nos mostrar a melhor direção.

Que possamos pedir a cura para nos livrar dos sentimentos que nos aprisionam, seja ressentimentos, ressentimentos familiares, um relacionamento que não deu certo, desentendimento com amigos, que a gente possa se livrar dessas mágoas, desses pensamentos, estarmos livres, com o peito aberto, para chamar o amor interno.

Então a gente vai fazer uma meditação de em torno de 50 minutos, eu vou colocar umas músicas, ai quem sentir a necessidade de tomar o daime, é só falar com a Jane ou a Ana Karla que está aqui do lado, que elas vão servir novamente o daime, e se sentir vontade de tomar uma água e não tiver a possibilidade, não estiver se sentindo bem pra se levantar e ir buscar a água, pode falar comigo ta, que eu vou lá buscar pra

você. ”

Nesse momento, ela colocou músicas com flautas NAF para tocar, eu coloquei o celular para gravar todas as músicas porque achei importante refletir sobre as músicas tocadas durante a meditação, foram músicas xamânicas, indígenas, ayahuasqueiras, e que sempre voltava para o lado feminino.

A meditação desse sagrado feminino fugiu todos os estereótipos de daimista, aconteceu na floresta, com músicas ayahuasqueiras, me senti em casa, como se pela primeira vez eu estava no lugar certo, com o ritual certo, e fora do padrão do salão do daime. Eu conhecia todas as músicas da meditação, lembro-me de cantar todas, enquanto as meninxs estavam deitadas, eu estava sentada, implorando para todas se levantarem e fazermos uma dança circular, porque a minha energia estava muito feliz, por estarem tocando aquelas músicas e pelo ritual ter sido na floresta com direito a fogueira.

Pouco antes de terminar a meditação, fui ao banheiro na força, estava descalça e a grama estava muito fria, cada pisar era um sentir diferente, pisava com muito cuidado achando que estava machucando a grama que estava viva, cheguei ao banheiro, me olhei no espelho e disse a mim mesma: “Você é linda, você é linda! ”, falei com muita convicção, ciente de que meu cérebro na força ia reforçar ainda mais essa ideia.

Tenho baixa autoestima, hoje analisando esse meu momento no banheiro percebi que aquela menina que disse aquilo no banheiro não parecia eu, ou ao contrário, era o meu real ser, antes de falar, meu cérebro não ficou me julgando ou me colocando para baixo, pelo contrário, foi como se eu tivesse o controle e agisse na minha intuição.

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Sai do banheiro me sentindo extremamente viva, extremamente feliz comigo mesma, então voltei para a roda e antes de sentar, tirei mais algumas fotos do círculo.

Quando voltei a roda, a concentração estava quase acabando, então dentro do mesmo círculo, começamos a falar sobre nossas aflições, nossos medos, jogando para fora todas as mágoas que guardamos dos outros e até de nós mesmos, pude perceber, na força, que cada pessoa ali passava por um problema diferente, seja de depressão, ataques de pânico, até problemas de família como foi o meu caso.

Quando chegou a minha vez de falar, comecei a chorar e todas esperaram eu me acalmar, então falei sobre meus problemas e aos poucos fui me sentindo aliviada por estar jogando fora todas as amarguras e traumas e deixando-o no passado. Falei sobre o fato da minha mãe ter me expulsado de casa por eu estar em um relacionamento com outra garota, e que fiquei muito mal por um momento, mas que com ajuda de alguns amigos consegui me restabelecer.

Falei sobre não conseguir ser a filha que meus pais queriam e que quero muito adquirir a independência para privar a minha saúde mental, pois sinto que a energia da minha casa varia em determinados momentos e que não gosto dessa variação. Quando terminei de falar, a madrinha Andreia me perguntou como eu me sentia em relação aos meus pais e eu respondi que sentia gratidão por eles terem me ajudado e me criado com tudo o que eu precisava e que amo muito eles, mesmo não conseguindo expressar isso no dia-a-dia.

Quando todas terminamos de falar, Gleice deu a última fala para finalizar o trabalho enquanto coloquei o gravador próximo a ela:

“É saber que tem uma outra pessoa do seu lado que está passando também por

dificuldades, as vezes biológicas, ginecológicas, emocionais, e você como mulher, tendo a manifestação da grande mãe, no aspecto de dar amor, de ter o afeto materno, que cada mulher tem, a proteção materna, o acolhimento materno, então a gente saber

escutar a nossa irmã que está do nosso lado, entende-la, que ela também tem dificuldades, você também tem as suas dificuldades, você compartilhar as suas dores, compartilhar experiências, e você crescer junto com ela, você não caminha separado lá na frente, você caminha juntas, compartilhando justamente as experiências, e

aprendendo juntas também, e na nossa sociedade tem muito dessa questão da rivalidade, e liberar o amor, o amor dentro do coração é reconhecer isso, e tem outras mulheres na sociedade e elas também precisam de amor, e nós temos que entender que elas precisam de amor assim como nós precisamos, e olhar com mais carinho cada mulher que passa na nossa vida, mesmo aquelas mulheres que a gente não tem nenhum contato, mas sempre olhar com carinho, na verdade a gente deve olhar assim

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pra tudo, pra todos os seres existentes, todos os animais, todos os homens, todas as mulheres, todos são manifestação divina.

Outra coisa que foi falado aqui, essa questão da ausência paterna, ausência materna, ou reconhecer a gratidão que nós temos que ter pela vida, o que eu digo é, nós vivemos experiências, essas experiências elas nos movem, torna a pessoa que nós somos atualmente, e podemos ser ainda melhores, o que tem que fazer com essas experiências, é pegar o melhor de cada uma delas.

Como a Ana Karla falou, nós temos que nos fortalecer, então existem mágoas, existem também boas experiências e elas nos traz amadurecimento, crescimento nos torna mais forte, então não existe bom nem ruim, existe o nível de aprendizado que você teve com essa experiência, então a gente tem que pegar cada experiência e tentar absorver o melhor possível, seja das mágoas ou dos bons sentimentos.

Andreia falou de não limitar Deus, realmente nós não devemos limita-lo, a gente sabe que ele é grandioso, ele é imenso, e ele é tao grandioso que ele se manifesta nas coisas mais simples, e ele se manifesta dentro de nós mesmos, então não necessariamente você vai encontrar Deus apenas em uma igreja, ou apenas em uma coisa externa ou em um material, você vai encontrar em si mesma.

E a gente tem que saber respeitar que embora eu vá em um local, eu não enxergue e não sinta a presença desse Deus, eu tenho que compreender que isso está mais ligado ao meu interno do que ao externo, talvez aquela doutrina ou religião não me satisfaça, mas satisfaça outras pessoas, assim como o daime ele é sagrado pra mim, eu devo reconhecer que aquela doutrina ou religião para o outro é sagrado.

Da mesma forma que eu falo do daime como sagrado, uma reverencia ao daime, eu devo falar com reverencia das outras doutrinas e outras religiões de outras pessoas, porque cada um está em seu processo de evolução, então a gente tem que procurar reconhecer a manifestação divina que há dentro de nós, e não tentar buscar isso externamente.

Fiquei muito preocupada com a pesquisa, sempre achando que estava fazendo errado, mas na força, me veio calma e que eu tinha que aproveitar cada momento porque aquele ritual era único, e que era sortuda por estar ali.

No final do trabalho, era uma hora da manhã, Andreia perguntou se gostaríamos de uma dança circular, mas devido ao horário, resolveram fazer um lanche, devo dizer que fiquei muito triste com esse acontecimento, já que estava ansiando em todo o trabalho por uma dança circular, depois fizemos uma oração e fomos para a cozinha, lá tiramos fotos, fizemos uma outra oração e comemos bolos, sucos e frutas.

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Figura 15. Fogueira acesa em tons de roxo, vermelho e amarelo. Jane dando daime para a

Figura 15. Fogueira acesa em tons de roxo, vermelho e amarelo. Jane dando daime para a Lesly, estava quase no final do trabalho, tirei essa foto enquanto estava muito na força, lembro de ficar me questionando o tempo o porquê estava fazendo isso, porque estava sentindo que estava incomodando as pessoas, ficava na dúvida se usava o flash ou não, achava que não iria conseguir fazer essa etnografia pois tinha poucas fotos, e

ao mesmo tempo em que vinha a “taca”, vinha a compreensão de aproveitar cada

segundo lá, e que cada informação que eu adquirisse para mim mesma ia valer mais

que mil pesquisas cientificas.

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Figura 16. Nessa fotografia, mostra Renata, moça de camisa rosa e chalé azul e Ana Karla,

Figura 16. Nessa fotografia, mostra Renata, moça de camisa rosa e chalé azul e Ana Karla, com uma camisa rosa de manga longa que está dando o daime. Renata pediu para mim tirar uma foto dela aceitando o daime, eu aproveitei a situação, e tirei. Eu fui a próxima a tomar o daime, a quantidade era pouca, o que eu prefiro pois sempre colocam uma quantidade muito grande eu vomito logo em seguida, o que não aconteceu, o gosto do chá mais uma vez estava maravilhoso, com um leve toque de cachaça no final. A fila vai se formando devagar, uma por uma, depois de tomar, foram se sentando devagar no círculo, enquanto todas tomavam, cantávamos os hinos de abertura.

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Figura 17. Círculo formado ao redor da fogueira, nesse momento eu tinha acabado de sair do

Figura 17. Círculo formado ao redor da fogueira, nesse momento eu tinha acabado de sair do banheiro, me sentindo extremamente renovada, tirei essa foto para marcar como estava o sagrado feminino e a importância dele para cada mulher ali.

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Figura 18 . No momento em que tirei essa fotografia, eu levei muita “taca”, usei o

Figura 18. No momento em que tirei essa fotografia, eu levei muita “taca”, usei o flash para conseguir captar melhor a cena, e tudo o que a minha mente conseguia pensar era em como eu poderia estar atrapalhando as pessoas nos trabalhos internos delas, depois dessa foto, não tirei mais nenhuma do rosto das pessoas enquanto elas estiverem na força.

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Figura 19. Eu percebi que algumas pessoas perceberam que eu estava tirando fotos, e resolveram tirar

Figura 19. Eu percebi que algumas pessoas perceberam que eu estava tirando fotos, e resolveram tirar também, nessa foto mostra o momento em que Renata tenta tirar fotos de algumas meninas, enquanto estavam todas sob o efeito do chá enteógeno.

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Fotografia 20. Última fotografia da noite, ainda estava na força, tinha acabado de terminar o trabalho,

Fotografia 20. Última fotografia da noite, ainda estava na força, tinha acabado de terminar o trabalho, estava próximo a cozinha, esperando todas se agruparem para fazermos as orações para comer. De repente olhei para a minha mão e vi a vibração que sempre sentimos quando a força está acabando, é nessa vibração que tenho os maiores insights sobre a vida, quando se está nesse processo da força, fica claro uma outra percepção do teu redor, tudo vibra, nada está inteiramente parado, nem mesmo sua mão, cada vez que mexe, a vibração fica fácil para a visualização.

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Referencias:

ELIADE, Mircea. Mythes, Rêves et Mystères, 1957.

PIAZZA, Waldomiro. Introdução à fenomenologia religiosa, 1976, Editora Vozes Ltda.

SOUZA, Sandra D. de. Trânsito religioso e reinvenções femininas do sagrado na modernidade, 2006.

DURÃES, Jaqueline Sena. Mulher, sociedade e Religião, 2009.

CASTRO, Ludmilla M. (1); FARIAS. Rita de Cássia P. (2). O feminino e o santo daime.

2013.

ASSIS, Cleber L. de; LINS, Laís F. T & FARIA, Deyse F. (2014). Bem-estar subjetivo e a qualidade de vida em adeptos de ayahuasca. Psicologia & Sociedade, 26 (1), 224-

234.

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