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18/10/2018 David Hume – Wikipédia, a enciclopédia livre

David Hume
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
David Hume (Edimburgo, 7 de maio (ou 26 de abril-Antigo) de 1711 – Edimburgo, David Hume
25 de Agosto de 1776) foi um filósofo, historiador e ensaísta britânico nascido na
Escócia que se tornou célebre por seu empirismo radical e seu ceticismo filosófico.
Ao lado de John Locke e George Berkeley, David Hume compõe a famosa tríade do
empirismo britânico, sendo considerado um dos mais importantes pensadores do
chamado iluminismo escocês e da própria filosofia ocidental.[1][2]

David Hume opôs-se particularmente a Descartes e às filosofias que consideravam


o espírito humano desde um ponto de vista teológico-metafísico. Assim David
Hume abriu caminho à aplicação do método experimental aos fenômenos
mentais.[3] Sua importância no desenvolvimento do pensamento contemporâneo
é considerável. Teve profunda influência sobre Kant, sobre a filosofia analítica do
início do século XX e sobre a fenomenologia.
David Hume, retratado por Allan Ramsay (1713-1784) em
O estudo da sua obra tem oscilado entre aqueles que colocam ênfase no lado 1766. Edimburgo, Scottish National Portrait Gallery
cepticista (tais como Reid, Greene, e os positivistas lógicos) e aqueles que
Nascimento 7 de maio de 1711
enfatizam o lado naturalista (como Kemp Smith, Stroud e Galen Strawson). Por Edimburgo, Escócia,
muito tempo apenas se destacou em seu pensamento o ceticismo destrutivo. Reino da Grã-Bretanha
Somente no fim do século XX os comentadores se empenharam em mostrar o Morte 25 de agosto de 1776 (65 anos)
caráter positivo e construtivo do seu projeto filosófico.[4] Edimburgo, Escócia,
Reino da Grã-Bretanha
David Hume foi um leitor voraz. Entre suas fontes, incluem-se tanto a Filosofia Influências
antiga como o pensamento científico de sua época, ilustrado pela física e pela Lista
filosofia empirista. Fortemente influenciado por Locke e Berkeley mas também
Influenciados
por vários filósofos franceses, como Pierre Bayle e Nicolas Malebranche, e Lista
diversas figuras dos círculos intelectuais ingleses, como Samuel Clarke, Francis
Hutcheson (seu professor) e Joseph Butler (a quem ele enviou seu primeiro Magnum opus Tratado da Natureza Humana
trabalho para apreciação),[5] é entretanto a Newton que Hume deve seu método Escola/tradição Iluminismo, empirismo
de análise, conforme assinalado no subtítulo do Tratado da Natureza Humana – Principais Teoria do conhecimento,
Uma Tentativa de Introduzir o Método Experimental de Raciocínio nos Assuntos interesses Epistemologia, Ética, Estética,
Teologia, Política, História,
Morais. Economia

Seguindo atentamente os acontecimentos nas colônias americanas, tomou partido Ideias notáveis Lei de Hume, Ceticismo radical,
problema da indução,
pela independência americana. Em 1775, disse a Benjamin Franklin: "sou utilitarismo, refutação do
americano em meus princípios". princípio de causalidade e do
livre-arbítrio

Índice
Biografia
A "ciência do homem"
O problema da causalidade
Crítica
O problema da indução
A Teoria do Eu como feixe
A razão prática: Instrumentalismo e Niilismo
Anti-realismo moral e motivação
Livre-arbítrio vs. indeterminismo
O problema do ser - dever ser
Utilitarismo
O problema dos milagres
O argumento teleológico
Sociologia da Religião de Hume

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Teoria da Oscilação
Do politeísmo para o monoteísmo
Do monoteísmo para o politeísmo
Novamente de regresso ao monoteísmo

Influência de Hume na constituição americana


Obras
Cronologia
Ver também
Notas e referências
Notas
Referências
Bibliografia
Ligações externas

Biografia
David Hume ou David Home, filho de Joseph Home,[6] nasceu em Edimburgo, na Escócia. A data de seu nascimento às vezes gera certa
confusão, pois a Grã-Bretanha só adotou o calendário gregoriano em 1752. Desse modo, segundo o calendário vigente à época do seu
nascimento – o calendário juliano – David Hume nasceu em 26 de abril de 1711, mas, segundo o novo calendário (o gregoriano, vigente nos
países ocidentais até os dias de hoje) a data era 7 de maio de 1711. David Hume era filho de Joseph Hume de Chirnside, advogado, e de
Katherine Falconer. Quando contava apenas dois anos, seu pai faleceu, deixando o pequeno David Hume, seu irmão mais velho e sua irmã
sob os cuidados exclusivos de sua mãe, “uma mulher de mérito singular, que, apesar de jovem e bonita, dedicou-se ao cuidado e à criação de
seus filhos.”[7]

Como revelava certa precocidade intelectual, Hume foi enviado para a Universidade de
Edimburgo antes dos doze anos de idade.[8] A família de Hume tinha expectativas de que o
jovem seguisse a carreira jurídica, mas, em suas próprias palavras, ele mesmo sentia "aversão
intransponível a tudo, exceto ao caminho da filosofia e do conhecimento em geral; e enquanto
[minha família] achava que eu estava a perscrutar Voet e Vinnius, Cícero e Virgílio eram os
autores que secretamente devorava".[7] Seguindo seus próprios interesses, Hume dedicou-se à
leitura de obras literárias, filosóficas e históricas, bem como ao estudo de matemática e ciências
naturais. Aos dezoito anos, após um intenso programa de estudo autoimposto, pareceu-lhe que
se descortinava um “Novo Cenário de Pensamento”.[9] Hume nunca explicou o que seria esse
“Novo Cenário”, e os comentadores têm oferecido diversas interpretações.[10] De qualquer
modo, essa inspiração fez com que o jovem estudante redobrasse sua dedicação aos estudos, e o
excessivo esforço intelectual levou-o às raias de um colapso mental.

Após esse episódio de fadiga nervosa, Hume decidiu procurar um estilo de vida mais ativo no
mundo do comércio, e empregou-se numa companhia importadora de açúcar em Bristol. É por
essa época que altera a grafia de seu nome, de "Home" para "Hume", devido à dificuldade dos
ingleses de pronunciá-lo à maneira escocesa.[11] A experiência no ramo do comércio não durou
muito, e, em 1734, buscando a tranquilidade e o isolamento que julgava necessários para
prosseguir em suas investigações, parte para a França e se estabelece em La Flèche, uma
pequena cidade francesa mais conhecida por abrigar um famoso colégio jesuíta. Aí Hume
Tratado da Natureza Humana.
continua a desbravar o "Novo Cenário", apesar das limitações financeiras: "Resolvi compensar a
carência de recursos com uma frugalidade bastante rígida, a fim de manter incólume a minha
independência, e considerar todos os objetos desprezíveis, exceto os avanços de meus talentos na literatura."[7] Durante esse período na
França, Hume aprofunda seus conhecimentos sobre a filosofia francesa, especialmente sobre a obra de Malebranche, Dubos e Bayle, e entre
1734 e 1737 escreve grande parte de sua obra-prima, o Tratado da Natureza Humana.[8]

Em 1737, Hume retorna à Inglaterra e trabalha diligentemente para publicar o seu livro. Em 1739, consegue publicar os dois primeiros
volumes de seu Tratado, e em 1740 é publicado o terceiro e último volume. Apesar de ser hoje considerado a sua principal obra e um dos
livros mais importantes da história da filosofia, o Tratado não causou impressão à época de sua publicação. Hume tinha esperado um
ataque às ideias apresentadas no livro e preparava uma defesa apaixonada. Para sua surpresa, a publicação do livro passou quase
despercebida; e, recordando a indiferença do público, Hume escreveu que "nenhuma tentativa literária foi mais desafortunada que meu
Tratado da Natureza Humana", na verdade, "saiu da gráfica natimorto, sem alcançar sequer a distinção de estimular os murmúrios dos
fanáticos".[7] Diante da reclamação de que o livro era "abstrato e ininteligível",[12] Hume recorreu ao artifício, ainda em 1740, de publicar
uma sinopse anônima, na qual apresentava de forma mais clara e direta algumas das ideias fundamentais do Tratado. No entanto, embora

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já permitisse antever os elegantes argumentos da


Investigação sobre o entendimento Humano,[8] a
sinopse de pouco serviu para mudar a consideração
geral em relação ao Tratado.

Em 1742, é publicada em Edimburgo a primeira parte


de seus Ensaios, que mereceram considerável
atenção do público e, segundo o próprio Hume,
fizeram-no esquecer a decepção provocada pelo
Tratado.[7] Em 1744, concorre à cátedra de Filosofia Universidade de Edimburgo.
Pneumática e Moral[13] da Universidade de
Edimburgo, mas sua candidatura enfrenta forte oposição devido à sua fama de ateísta e acaba
por ser rejeitada.

Depois dessa conturbada candidatura a um posto acadêmico e de uma experiência infeliz como
Gravura de Hume em sua obra tutor de um jovem inglês, de linhagem nobre e mente desajustada, Hume é convidado pelo
História da Inglaterra, Vol. I (1754) general James St. Clair a ser seu secretário numa expedição militar. Inicialmente a expedição
tinha como alvo o Canadá, mas terminou por realizar uma incursão à costa da França.[7] Hume
também acompanhou o general St. Clair em missões diplomáticas a Viena e Turim. Tendo retornado da Itália, Hume muda-se para a
propriedade rural de sua família em 1749, e aí permanece por dois anos. Em 1751, vai morar na cidade, "o verdadeiro cenário de um homem
de letras",[7] e faz uma nova tentativa de obter um cargo acadêmico: a cátedra de Lógica da Universidade de Glasgow. Mas, novamente, sua
candidatura é rejeitada.

Convencido de que o problema do Tratado era mais uma questão de forma que de conteúdo, ele resumiu o Livro I do Tratado (“Sobre o
Entendimento”), dando-lhe um estilo mais ágil e acessível. Desse trabalho surgiu a Investigação sobre o entendimento Humano, que,
embora tenha encontrado receptividade maior que a do livro que lhe deu origem, esteve longe de ser um sucesso de vendas. A mesma
recepção fria teve uma nova edição dos Ensaios. A falta de reconhecimento, porém, não prejudicou o seu trabalho literário. Hume escreveu
a segunda parte de seus Ensaios e, tal como havia feito anteriormente, reescreveu aquelas partes do Tratado relacionadas a questões
morais. Esses novos textos sobre moral vieram a público com o título de Investigação sobre os Princípios da Moral – livro que na opinião
do próprio Hume era, de todos os seus escritos, “históricos, filosóficos ou literários, incomparavelmente o melhor.”[7]

Em 1752, Hume é convidado a dirigir a biblioteca da Faculdade dos Advogados de Edimburgo. Embora fosse escassamente remunerada, a
função colocava à disposição de Hume as fontes bibliográficas para um novo projeto: a elaboração da História da Inglaterra. Essa obra
historiográfica monumental foi publicada em seis volumes, nos anos de 1754, 1756, 1759 e 1762. Esse esforço de uma década foi
recompensado. Os volumes da História da Inglaterra valeram ao seu autor a tão almejada celebridade literária e, além disso,
proporcionaram-lhe bons retornos pecuniários.[8]

Mas Hume não ficou livre dos ataques de seus adversários. Em 1754, ele foi acusado de encomendar “livros indecentes” para a biblioteca, e
houve uma movimentação para destituí-lo do cargo. Diante das pressões, os membros do conselho diretor cancelaram as encomendas dos
livros considerados ofensivos – decisão que Hume tomou como uma ofensa pessoal. Como precisava do acervo da biblioteca para prosseguir
as suas pesquisas para a História da Inglaterra, ele adiou seu pedido de demissão, mas reverteu os pagamentos de seu salário em benefício
de Thomas Blacklock – poeta cego que decidira ajudar. Antes de pedir sua demissão em 1757, Hume ainda foi alvo de um processo mal
sucedido de excomunhão em 1756.[8]

Foi também durante o período em que exerceu a função de bibliotecário que Hume escreveu as suas duas grandes obras sobre religião: a
História Natural da Religião e os Diálogos sobre Religião Natural. A primeira veio a público em 1757 como parte das Quatro Dissertações.
O projeto original, no entanto, previa cinco dissertações: além da História Natural da Religião, o livro também incluiria os ensaios "Sobre
as Paixões", "Sobre a Tragédia", "Sobre o Suicídio" e "Sobre a Imortalidade da Alma". Esses dois últimos ensaios eram investidas frontais
contra os dogmas religiosos, pois criticavam a condenação ao suicídio e a crença na vida após a morte.[14] Antes que fossem publicados, o
editor de Hume, Andrew Millar, recebeu ameaças de ser judicialmente processado caso os textos fossem distribuídos.[8] Diante disso, Hume
fez alterações na História e substituiu os dois últimos textos pelo ensaio "Sobre o Padrão de Gosto". Os Diálogos, por sua vez, só foram
publicados em 1779, três anos após a morte de Hume.[14]

Em 1763, Hume aceita o convite feito pelo embaixador inglês na França, Lorde Hertford, para trabalhar como seu secretário em Paris. Por
dois anos, além de auxiliar nos trabalhos diplomáticos, Hume trava conhecimento com grandes nomes da intelectualidade parisiense, como
Diderot, D'Alembert, e d'Holbach. Ao retornar para a Inglaterra, Hume toma providências e estabelece contatos para ajudar Rousseau a se
estabelecer em solo britânico, uma vez que esse último tornara-se vítima de uma nova perseguição por parte das autoridades suíças. No
entanto, os laços de amizade entre os dois filósofos romperam-se dramaticamente pouco tempo depois. Levado pela paranoia e mania de
perseguição, Rousseau acusou Hume de estar liderando uma conspiração para difamá-lo e arruiná-lo.[8]

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Em 1767, a convite do General Conway, irmão de Lord Hertford, Hume assumiu em Londres o
cargo de subsecretário para o Departamento do Norte. Exerceu essa função por cerca de dois
anos, e retornou para Edimburgo em 1769 – dessa vez definitivamente. Passou os últimos anos
de sua vida revisando os seus escritos e desfrutando a convivência de amigos e intelectuais de
Edimburgo.[14] Na primavera de 1775, foi acometido por uma doença intestinal que "a
princípio", segundo seu testemunho, "não causou alarme, mas que se tornou (…) mortal e
incurável."[7] Durante o período em que esteve doente, Hume recebeu a visita de James Boswell.
Diante das atitudes e palavras de Hume sobre o fim que se aproximava, Boswell ficou
convencido de que ele encarava a morte com absoluta serenidade. Em 26 de outubro de 1775
escreve uma carta ao seu editor W. Strahan para que este incluísse uma breve advertência no
início do segundo volume dos Ensaios e Tratados em sua última edição[15]. Hume faleceu em 25
de agosto de 1776.[16] Encontra-se sepultado em Edimburgo na Escócia.[17]

Hume nunca se casou. Suas opiniões políticas eram tipicamente progressistas,[18] e era, assim
como seu amigo Adam Smith, um fervoroso defensor do livre-comércio.[19] De maneira geral, a
vida de Hume é condizente com as palavras que escreveu sobre si mesmo: "um homem de Túmulo de David Hume em
disposição branda, de têmpera equilibrada, de humor franco, sociável e alegre, capaz de manter Edimburgo.
laços de afeição e pouco propenso a inimizades, e de grande moderação em todas as minhas
paixões".[7] Numa carta em que fala sobre o passamento de Hume, Adam Smith conclui sua exposição com as seguintes palavras: "No todo,
sempre o considerei, tanto durante a sua vida como desde a sua morte, como alguém que se aproximava tanto da ideia de um homem
perfeitamente sábio e virtuoso quanto permite a frágil natureza humana".[16]

A "ciência do homem"
Por muito tempo os estudos sobre Hume destacaram apenas o lado céptico-destrutivo de sua
filosofia. A grande realização do filósofo teria sido eminentemente negativa: teria ele explicitado
a impossibilidade de se alcançar alguma certeza ou verdade absoluta nas ciências indutivas, além
de ter mostrado a impossibilidade de se provar filosoficamente a existência do mundo exterior
ou de se identificar uma substância constitutiva do ego. Mesmo em seus próprios dias, essa foi a
leitura predominante da obra de Hume. Thomas Reid considerava-a uma espécie de redução ao
absurdo da filosofia das ideias iniciada por Descartes e reorientada ao empirismo pelos
britânicos John Locke e George Berkeley. Segundo Reid, Hume teria mostrado que os
pressupostos assumidos pela teoria das ideias como meio representacional conduziam
inevitavelmente ao cepticismo generalizado – e essa consequência indesejável revelaria que os
pressupostos não poderiam estar corretos.[20] Os historiadores da filosofia, sobretudo os
influenciados pelo idealismo alemão, viram a obra de Hume apenas como elaboração de uma
antítese que, mais tarde, seria superada pela síntese kantiana.

Embora as teses negativas mereçam atenção, elas não constituem toda a filosofia de Hume. No
século XX, os comentadores voltaram a destacar o lado propositivo do pensamento humano,[21]
que já se anunciava no próprio subtítulo de sua obra-prima: "uma tentativa de introduzir o
método experimental de raciocínio nos assuntos morais". Para Hume, os assuntos morais
abrangiam todos aqueles temas que hoje consideramos como pertencentes às humanidades -
como, p. ex., a política, o direito, a moral, a psicologia e a crítica das artes.
Estátua de David Hume na Royal
Mile, Edimburgo. À época de Hume, as ciências naturais já haviam conseguido grandes realizações, tendo sido a
física newtoniana inquestionavelmente a mais notável. Mas, ao lado de explicações inteiramente
quantificadas dos fenômenos naturais, convivia uma abordagem completamente diferente em relação às produções do espírito humano. Em
parte inspirados pelo dualismo cartesiano, os filósofos tendiam a ver as questões especificamente humanas como pertencentes a um
domínio separado do conjunto dos fenômenos naturais; para eles, enquanto esses últimos estavam sujeitos a leis e a rigorosos
encadeamentos causais, as primeiras eram resultado da absoluta liberdade de escolha dos seres humanos. Em termos práticos, essa
concepção de mundo excluía do âmbito da investigação científica os comportamentos, emoções, ações e realizações culturais da espécie
humana. Ao propor que a natureza humana fosse investigada conforme os mesmos métodos já testados e aprovados em outros âmbitos de
investigação, Hume não estava apenas inaugurando uma nova forma de tentar entendê-la; também está rompendo com uma concepção de
natureza humana tradicional e influente. De certa forma, Hume pretende fazer no âmbito da ciência do homem, o mesmo que Newton
realizou no âmbito da ciência natural: explicitar as leis e princípios básicos que inexoravelmente comandam os modos de pensar, de sentir e
de conviver dos seres humanos.

O problema da causalidade
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Hume é conhecido por aplicar o padrão de que não há ideias inatas e que todo o conhecimento vem da experiência rigorosamente ao nexo
de causalidade e necessidade. Em vez de tomar a noção de causalidade como normalmente concedido, Hume desafia-nos a considerar o que
a experiência nos permite saber sobre causa e efeito. Normalmente, quando um evento provoca um outro evento, a maioria das pessoas
pensa que estamos conscientes de uma "causa" em conexão entre os dois que faz com que o segundo siga o primeiro. Hume mostra que a
experiência não nos diz muito. De dois eventos, A e B, dizemos que A causa B, quando os dois sempre ocorrem conjuntamente, ou seja, são
constantemente conjugados. Sempre quando encontramos A, também encontramos B ligado a ele , e temos a certeza de que este conjunto
vai continuar a acontecer. Quando ficamos convencidos de que "A deve trazer B" é equivalente meramente "Devido à sua conjunção
constante, estamos psicologicamente certo que B seguirá A", então ficamos com uma noção muito fraca de necessidade. Este tênue sobre a
eficácia causal ajuda a dar origem a um problema da indução - que não estamos razoavelmente justificada em fazer qualquer inferência
indutiva sobre o mundo[22].

As contribuições mais importantes de Hume à filosofia de causalidade são encontrados no Tratado da Natureza Humana, e Investigação
sobre o entendimento Humano, este último, geralmente visto como uma reformulação parcial do primeiro. Ambas as obras começam com o
axioma empírico central de Hume conhecido como "o princípio de cópia"[nota 1]. Vagamente, ele afirma que todos os componentes de nossos
pensamentos provêm de experiência e não existe uma causa entre um evento A e um evento B, consequentemente, Hume nota que, com
isso, não estamos justificados racionalmente em projetar para o futuro as regularidades do passado (porque não temos uma prova do
princípio de uniformidade)[24].

Crítica
Kant faz sua discordância a Hume principalmente no que se refere a forma como se produz o conhecimento. Kant explicita esta percepção:

“O meu próprio trabalho, na Crítica da Razão Pura, foi ocasionado pelos pontos de vista céticos de Hume, mas prossegui
muito além e discuti toda a problemática da razão teórica pura em seu sentido sintético, incluindo aquilo que é comumente
chamado de Metafísica". (KANT Critica a Razão Pratica, p. 54, Critica a Razão Pura, B 792, 797 in CHAVES).

Segundo Kant, em Crítica da Razão Pura, só podemos pensar nas coisas em uma relação de causa e efeito porque a causalidade está no
sujeito, não no mundo, ao contrário de Hume, que a considerava a causalidade um hábito[25]. Em Kant as formas a priori do entendimento
(os conceitos puros) são as categorias. O conceito de causalidade faz parte dessas categorias. Dessa forma, não podemos conceber a sucessão
dos fenômenos a não ser como sucessão causal. Ou seja, sabemos a priori que todo fenômeno é causado e que em toda mudança alguma
coisa nunca muda (essa é a sua condição de possibilidade)[26]. Ou seja, o conceito de causa e efeito pré-existe em nós anteriormente a
qualquer experiência, como uma categoria a priori, por meio da qual a relação entre causa e efeito é pensada como necessária.[27]

John Searle refuta a imagem humiana de que nunca percebemos causalidade. A sua primeira prova de que nós percebemos e temos
experiência de causalidade o tempo todo é a gravidade. Searle diz que este é um caso de causalidade constante, tal qual todos os tipos de
crescimento, envelhecimento, ou outras formas de processos biológicos que vão no corpo humano. Searle acredita que estes são exemplos
de forças causais.

Em segundo lugar, Hume argumenta que toda declaração causal deve instanciar uma lei universal. Searle considera essa proposta falsa
porque não há nenhuma conexão necessária por conta de alguma lei entre dois eventos.

Em terceiro lugar, Searle refuta a visão humiana de que a causação intencional é um caso ilusório. Searle diz que causação intencional não é
uma ilusão, pelo contrário, ele acredita que a causalidade intencional é o caso mais básico da causalidade: onde nós realmente
experimentamos o paradigma de nós mesmos fazendo coisa acontecer, e as coisas acontecendo conosco[28].

O problema da indução
De fato o termo indução não aparece no argumento de Hume - nem no Tratado da Natureza Humana, nem na Investigação. A
preocupação de Hume é com as inferências que se fazem nas conexões causais, as quais, segundo ele, são as únicas conexões "que podem
nos levar além das impressões imediatas da memória e dos sentidos" (TNH, 89). No entanto, a diferença entre essas inferências e o que hoje
conhecemos como indução é mera questão de terminologia. Hume divide todos os raciocínios em demonstrativos (no sentido de dedutivos),
e probabilísticos, referindo-se à generalização, por indução, de um raciocínio do tipo causa-efeito.[8]

Todos nós cremos que o passado é um guia confiável para o futuro. Por exemplo: as leis da física descrevem como as órbitas celestes
funcionam para a descrição do comportamento planetário até aos dias de hoje. Desse modo presumimos que vão funcionar para a descrição
no futuro também. Mas como podemos justificar esta presunção, o princípio da indução?

Hume sugeriu duas justificações possíveis e rejeitou ambas. A primeira justificativa é que, por razões de necessidade lógica, o futuro tem de
ser semelhante ao passado. Porém, Hume nota que podemos conceber um mundo errático e caótico onde o futuro não tem nada que ver
com o passado ou então um mundo tal como o nosso até ao presente, até que em certo ponto as coisas mudam completamente.

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A segunda justificação, mais modestamente, apela apenas para a segurança passada da indução: sempre funcionou assim, por isso é
provável que continue a funcionar. No entanto, como Hume lembrou, esta justificação apenas usa um raciocínio circular, justificando a
indução por um apelo que requer a indução para ter efeito.

O conhecimento seria, na prática, resultado do hábito e, este, por sua vez, seria derivado de um processo inerente à natureza humana, de
associar dois fenômenos independentes, vinculando-os em termos de causalidade, por se terem mostrado de maneira encadeada diante dos
nossos sentidos. O argumento de Hume implica a impossibilidade do fazer científico, entendendo-se ciência como saber irrefutável. Já no
século XX, Karl Popper retoma o que ele chama de "o problema de Hume". Popper concorda que "o mecanismo psicológico da associação
força tais pessoas a acreditarem, por costume ou hábito, que aquilo que aconteceu no passado acontecerá no futuro" mas procura separar o
que considera válido daquilo que seria equivocado na proposta de Hume, procurando restaurar o status da ciência como forma de
conhecimento racional. Argumentando em favor de um empirismo racionalista crítico, sem o menor espaço para a indução, Popper destaca
a característica essencial da ciência, a saber, a falseabilidade, bem como a natureza conjectural do conhecimento científico.[29]

De todo modo, o problema da indução ainda permanece. A visão de Hume parece ser que nós (como outros animais) temos uma crença
instintiva que o nosso futuro será semelhante ao passado, com base no desenvolvimento de hábitos do nosso sistema nervoso. Uma crença
que não podemos eliminar mas que não podemos provar ser verdadeira por qualquer tipo de argumento, dedutivo ou indutivo, tal como é o
caso com respeito à nossa crença na realidade do mundo exterior.

A Teoria do Eu como feixe


(The Bundle Theory of the Self)

Costumamos pensar que somos as mesmas pessoas que éramos há tempos atrás. Apesar de termos mudado em muitos aspectos, a mesma
pessoa está essencialmente presente tal como estava no passado. Podemos começar a pensar sobre os aspectos que se podem alterar sem
que o próprio (indivíduo) subjacente mude. Hume, no entanto, nega que exista uma distinção entre os vários aspectos de uma pessoa e o
indivíduo misterioso que supostamente transporta todas estas características.

Porque no fundo, como Hume afirma, quando se começa a introspecção, notamos grupos de pensamentos, sentimentos e percepções; mas
nunca percebemos uma substância à qual possamos chamar de "o Eu". Por isso, tanto quanto podemos dizer, conclui Hume, não há nada
relativamente ao Eu que esteja acima de um grande feixe de percepções transitórias. De notar que, na perspectiva de Hume, não há nada a
que estas percepções pertençam. Pelo contrário, Hume compara a alma ao povo de uma nação (commonwealth), que retém a sua identidade
não em virtude de uma substância básica permanente, mas que é composto de muitos elementos relacionados mas em permanente
mutação. A questão da identidade pessoal torna-se assim uma questão de caracterizar a coesão frouxa da experiência pessoal vivida[nota 2].

A razão prática: Instrumentalismo e Niilismo


A maioria de nós pensa que certos comportamentos são mais razoáveis do que outros. Parece haver qualquer coisa de abstruso em, por
exemplo, comer uma folha de alumínio. Mas Hume negou que a razão tivesse algum papel importante em motivar ou desencorajar o
comportamento. No fundo, a razão é apenas uma espécie de calculador de conceitos e experiência. O que no fundo importa, diz Hume, é
como nos sentimos em relação a esse comportamento. O seu trabalho gerou a doutrina do instrumentalismo, que declara que uma ação é
razoável se e somente se ela serve os objetivos e desejos do agente, quaisquer que estes sejam. A razão pode entrar neste esquema apenas
como um servo, informando o agente de fatos úteis relativos às ações que servem aos seus objetivos e desejos, mas nunca condescendendo a
dizer ao agente quais objetivos e desejos ele deverá ter.

Assim, se você quiser comer uma folha de alumínio, a razão lhe dirá onde encontrar uma folha de alumínio, e não haverá nada de irracional
em a comer ou em o desejar. O instrumentalismo passará a ser uma visão ortodoxa da razão prática em economia, teoria das escolhas
racionais e algumas outras ciências sociais. Mas alguns comentadores argumentam que Hume foi mais além do niilismo, e disse que não há
nada de irracional em deliberadamente frustrar os seus próprios objetivos e desejos ("eu quero comer folha de alumínio, por isso deixa-me
selar a minha boca"). Tal comportamento seria altamente irregular, tirando qualquer papel à razão, mas não seria contrário à razão, que é
impotente em fazer julgamentos neste domínio.

Para trabalho contemporâneo relevante, ver "The Authority of Reason" de Jean Hampton e "Rational Choice and Moral Agency" de David
Schmidtz.

Anti-realismo moral e motivação


No seu ataque ao papel da razão no julgamento do comportamento, Hume argumentou que o comportamento imoral não é imoral por ser
contra a razão. Ele primeiro defendeu que as crenças morais estão intrinsecamente motivantes: se você acredita que matar é errado, você
estará motivado "ipso facto" a não matar e em criticar a matança (internalismo moral). Ele lembra-nos em seguida que a razão por si só não
motiva ninguém: a razão descobre os factos e a lógica, mas ela depende dos nossos desejos e preferências quanto à percepção daquelas

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verdades e se isso nos motiva. Consequentemente, a razão por si não produz crenças morais. Hume propôs que a moralidade depende
ultimamente do sentimento, sendo o papel da razão apenas o de preparar o caminho para os nossos sensíveis julgamentos por análise da
matéria moral em questão.

Este argumento contra os fundamentos da moralidade na razão é hoje um dos argumentos pertencentes ao arsenal do antirrealismo moral;
o filósofo Humeano John Mackie argumentou que para os factos morais serem factos reais sobre o mundo e ao mesmo tempo,
intrinsecamente motivantes, eles teriam de ser factos muito estranhos. Temos pois todos os motivos para desacreditá-los.

Para trabalho contemporâneo relevante, ver: "Inventing Right and Wrong", de J.L. Mackie; "Hume's Moral Theory", de Mackie; "Moral
Realism and the Foundation of Ethics" de David Brink e "The Moral Problem" de Michael Smith.

Livre-arbítrio vs. indeterminismo


Todos nós já notamos o aparente conflito entre o livre-arbítrio e o determinismo: se as nossas acções foram determinadas há milhões de
anos, como poderá ser que elas dependam de nós? Mas Hume notou um outro conflito, que torna o problema da livre vontade num denso
dilema: a livre-vontade é incompatível com o indeterminismo. Imagine que as suas acções não são determinadas pelos eventos precedentes.
Nesse caso, as suas acções serão completamente aleatórias. Em adição, e muito importante para Hume, as ações não são determinadas pelo
seu carácter, as suas preferências, os seus valores, etc. Como é que alguém pode ser tido por responsável pelo seu carácter? A livre-vontade
parece requerer o determinismo, porque senão o agente e a acção não estariam conectados do modo necessário por acções livremente
escolhidas.

Sendo assim, quase todos nós acreditamos no livre-arbítrio, a livre vontade parece inconsistente com o determinismo, mas a livre-vontade
parece requerer o determinismo.

Na visão de Hume, o comportamento humano, como tudo o mais, é causado (causal). Por isso mesmo, se tomamos as pessoas como
responsáveis pelas seus atos, devemos focar a recompensa ou a punição de forma a que eles façam aquilo que é moralmente desejável e
evitem aquilo que é moralmente repreensível.

O problema do ser - dever ser


(The Is-Ought Problem)

Hume notou que muitos escritores falam do que deve ser, na base de enunciados acerca do que é. Mas parece haver uma grande diferença
entre enunciados descritivos (o que é) e enunciados prescritivos (o que deveria ser). Hume apela aos escritores que tomem muito cuidado
na mudança do enunciado de um estado para o outro. Nunca sem se dar uma explicação de como o enunciado- "deve ser" é suposto seguir
ao enunciado- "é". Mas como exactamente é que se pode derivar o "deve" de um "é" ? Essa questão, colocada num pequeno parágrafo de
Hume, tornou-se uma das questões centrais da teoria da ética e costuma ser atribuída a Hume a opinião de que tal derivação é impossível.
(Outros interpretam Hume como dizendo que não se pode ir de uma constatação factual a um enunciado ético, mas que se o pode fazer sem
atender à natureza humana, isto é, sem prestar atenção aos sentimentos humanos).

G.E: Moore defendeu uma posição similar com a seu "argumento da questão aberta", que pretendia refutar qualquer identificação de
propriedades morais com propriedades naturais: a chamada "falácia naturalista". Qualquer teórico ético que pretender dar à moralidade um
fundamento objectivo em aspectos mais mundanos da vida real está a lutar por uma causa controversa, no mínimo.

Utilitarismo
Foi provavelmente Hume quem, juntamente com os seus colegas do Iluminismo escocês, avançou pela primeira vez a ideia de que a
explicação dos princípios morais deverá ser procurada na utilidade que eles tendem a promover. O papel de Hume não deverá ser descrito
com exagero, claro; foi o seu compatriota Francis Hutcheson que cunhou o slogan utilitarista "a maior felicidade para o maior número". Mas
foi através da leitura do "Tratado" de Hume que Jeremy Bentham sentiu pela primeira vez a força do sistema utilitário: ele "sentiu como se
escamas tivessem caído dos seus olhos". No entanto, o "proto-utilitarismo" de Hume é muito peculiar, da nossa perspectiva. Ele não pensa
que a agregação de unidades cardinais de utilidade será a fórmula para atingir a verdade moral.

Pelo contrário, Hume era um sentimentalista moral e, como tal, achava que princípios morais não podem ser justificados intelectualmente.
Alguns princípios simplesmente são-nos apelativos e outros não o são. E a razão porque princípios utilitaristas da moral são apelativos é que
eles promovem os nossos interesses e os dos nossos companheiros com os quais simpatizamos.

Os humanos são pouco flexíveis a aprovar coisas que ajudam a sociedade-utilidade pública. Hume usou este dado para explicar como ele
avaliava um vasto campo de fenómenos, desde instituições sociais e políticas governamentais até traços de carácter e talentos..

O problema dos milagres


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18/10/2018 David Hume – Wikipédia, a enciclopédia livre

Uma forma de apoiar a religião é por apelo a milagres. Mas Hume argumentou que no mínimo, os milagres não poderiam conferir muito
apoio à religião. Há vários argumentos sugeridos pelo ensaio de Hume, todos eles à volta do seu conceito de milagre: nomeadamente a
violação por Deus das leis da Natureza. Um argumento é o de que é impossível violar as leis da Natureza. Outro argumento afirma que o
testemunho humano nunca poderia ser suficientemente fiável para contra-ordenar a evidência que temos das leis da Natureza. Outro
argumento, menos irredutível, mais defensável, é que devido à forte evidência que temos das leis da natureza, qualquer pretensão de
milagre está sobre pressão desde o início e precisa de provas fortes para derrotar as nossas expectativas iniciais. Este ponto tem sido
aplicado sobretudo na questão da ressurreição de Jesus, onde Hume sem dúvida perguntaria "o que é que é mais provável ? que um homem
se erga dos mortos ou que este testemunho esteja incorrecto de uma forma ou de outra ?". Ou mais suavemente, "o que é mais provável? que
o Uri Geller pode realmente fazer dobrar colheres com a sua mente ou que isso seja algum tipo de truque?". Este argumento é a base do
movimento céptico e um assunto fundamental aos históricos da religião.

Para uma análise crítica e técnica (Bayesiana) de Hume, ver "Hume's Abject Failure" de John Earman — o título é sugestivo

O argumento teleológico
Um dos argumentos mais antigos e populares para a existência de Deus é o argumento teleológico - que toda a ordem e "objectivo" do
mundo evidencia uma origem divina. Hume usou o criticismo clássico do argumento teleológico, e apesar do assunto estar longe de estar
esgotado, muitos estão convencidos de que Hume resolveu a questão definitivamente. Aqui alguns dos seus pontos:

1. Para o argumento teleológico funcionar, seria necessário que só nos pudéssemos aperceber de ordem quando essa ordem resulta do
desígnio (criação). Mas nós vemos "ordem" constantemente, resultante de processos presumivelmente sem consciência, como a
geração e a vegetação. O desígnio (criação) diz apenas respeito a uma pequena parte da nossa experiência de "ordem" e "objectivo".
2. O argumento do desígnio, mesmo que funcionasse, não poderia suportar uma robusta fé em Deus. Tudo o que se pode esperar é a
conclusão de que a configuração do universo é o resultado de algum agente (ou agentes) moralmente ambíguo, possivelmente não
inteligente, cujos métodos possuam alguma semelhança com a criação humana.
3. Pelos próprios princípios do argumento teleológico, a ordem mental de Deus e a funcionalidade necessitam de explicação. Senão,
podemos considerar a ordem do universo, etc, inexplicada.
4. Muitas vezes, o que parece ser objectivo, onde parece que o objecto X tem o aspecto A por forma a assegurar o fim F, é melhor
explicado pelo processo da filtragem: ou seja, o objecto X não existiria se não possuísse o aspecto A, e o fim F é apenas interessante
para nós. Uma projecção humana de objectivos na natureza. Esta explicação mecânica da teleologia antecipou a selecção natural, e é
de se observar que um século antes de Darwin.
Para trabalho contemporâneo relevante, ver "Hume's Philosophy of Religion" de J.C.A. Gaskin e "The Existence of God" de Richard
Swinburne. Para uma perspectiva de um filósofo da biologia, ver "Philosophy of Biology" de Elliot Sober.

Sociologia da Religião de Hume


David Hume ficou conhecido sobretudo pelas contribuições na filosofia. Mas não menos dignas de destaque são as observações na análise
da religião. Pode falar-se de ideias pioneiras para a sociologia da religião, que ficam patentes na obra de 1757, The Natural History of
Religion.

Teoria da Oscilação
Hume rejeita a ideia de uma evolução linear desde o politeísmo para o monoteísmo como um sumário da evolução histórica dos últimos
2000 anos.

Na verdade, Hume acredita que o que a história mostra é antes um oscilar irracional entre politeísmo e monoteísmo. Chama-lhe um "flux
and reflux" (fluxo e refluxo, um oscilar) entre as duas opções. Nas palavras de Hume: "a mente humana mostra uma tendência
maravilhosa para oscilar entre diferentes tipos de religião: eleva-se do politeísmo para o monoteísmo para voltar a afundar-se na
idolatria"

Como Gellner afirma, esta oscilação não é o resultado de qualquer racionalidade, mas sim dos "mecanismos do medo, incerteza, da
superioridade e inferioridade".

Do politeísmo para o monoteísmo


Os povos que adoram vários deuses com poderes limitados podem facilmente conceber um Deus com um poder mais extenso, ainda mais
digno de veneração do que os outros. "Neste processo, os homens chegam ao estágio de um só Deus como ser infinito, a partir do qual
nenhum progresso é possível".

Do monoteísmo para o politeísmo

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18/10/2018 David Hume – Wikipédia, a enciclopédia livre

Esse Deus único, todo poderoso, é porém igualmente um Deus distante e de difícil acesso para o comum dos mortais (sobretudo se estes são
analfabetos - e na Europa da Idade Média, a esmagadora maioria da população era analfabeta). O contacto directo com as escrituras
sagradas na Idade Média permanecia um privilégio de uma casta limitada - o clero. A maioria do povo comum, analfabeto, sente-se
impossibilitado de aceder a Deus por via "directa". Neste momento, torna-se visível um princípio psicológico que caminha numa direcção
contrária.

Esse princípio psicológico é a ideia de que os homens vivem em busca da protecção, do apoio. Torna-se necessária a figura de intermediários
perante o comum dos mortais e o Deus todo poderoso. Uma função para os santos, relíquias, … "Estes semi-deuses e intermediários, que
são vistos pelos homens como parentes e lhes parecem menos distantes, são objecto da adoração e assim, a idolatria está de volta…"

Novamente de regresso ao monoteísmo


Mas mais uma vez, o pêndulo tem de retornar. Como Gellner afirma, em breve, "o Panteão torna a encher-se". Hume: "À medida que estas
diferentes formas de idolatria dia por dia descem às formas cada vez mais baixas e ordinárias, acabam por se autodestruir e as horríveis
formas de idolatria vão acabar por provocar um retorno e um desejo de regresso ao monoteísmo… Por isso (entre os judeus e os
muçulmanos) há proibição de figuras humanas na pintura e mesmo na escultura, porque eles receiam que a carne seja fraca e que acabe por
se deixar levar para a idolatria".

Hume mostra exemplos desta evolução: é a luta de Jeová contra os Bealim de Canaã, da Reforma contra o Papado, e do Islão contra as
tendências pluralistas (ver sufismo).

Influência de Hume na constituição americana


Como Douglass Adair sugeriu, o livro de David Hume, "Essays, Moral, Political and Literary" terá influenciado directamente James
Madison na formulação da Constituição Americana. No ensaio ali contido "Idea of a Perfect Commonwealth", Hume refuta a ideia de
Montesquieu de que uma grande nação está condenada a ser corrupta e ingovernável. Pelo contrário, afirma Hume, uma nação extensa
pode ser, devido à sua diversidade geográfica e sócio-económica, bem mais estável do que nações pequenas. Hume escreve: "Apesar de as
pessoas como um órgão serem incapazes de governar, caso elas se dispersarem em pequenas unidades (tais como colónias individuais ou
estados) elas são mais susceptíveis de se submeter à razão e à ordem; a força das correntes populares (populismo) e marés é, em grande
medida, quebrada". A elite conspiradora necessitará de passar mais tempo a coordenar os movimentos das várias partes do todo, do que a
planear o derrube. "Ao mesmo tempo, as partes estão tão distantes e remotas que é muito difícil, seja por intriga ou paixão, levá-las a
tomar medidas contra o interesse público." James Madison, que estudara em Princeton, e ali tinha tomado contacto com a obra de Hume,
incorporou esta visão no seu "Notes on the Confederacy", publicado em Abril de 1787, 8 meses antes dele ter escrito o ensaio defendendo a
Constituição, como parte dos "Federalist Papers".

Obras
A obra filosófica de Hume tem duas fases: há uma obra pretensiosa feita na juventude, que é o Tratado da Natureza Humana. Hume negaria
esta obra, e publicaria outros títulos filosóficos que integrariam os Ensaios e tratados sobre vários assuntos. Tudo o que não é póstumo
viria a integrá-la.

Tratado da Natureza Humana (1739-1740)


Os dois primeiros livros foram publicados quando Hume tinha 28 anos, mas ele não teve êxito[30].

Investigação sobre o entendimento Humano (1748)


São reformulados os pontos principais do livro I do Tratado, com a adição de material sobre a livre vontade, milagres e o argumento
teleológico.

Investigação sobre os Princípios da Moral (1751)


São reformulados os pontos principais do livro III do Tratado. Hume considerou esta como a melhor das suas obras filosóficas, quer quanto
às ideias filosóficas como no seu estilo literário.

Ensaios Morais, Políticos e Literários' (editados pela primeira vez em (1741-1742)


Uma série de ensaios, revistos várias vezes ao longo da sua vida. A história relativa a que ensaios foram adicionados ou removidos parece
menos relevante. "Sobre a estação média da vida", "Que a política possa ser reduzida a uma ciência", "Da origem do governo", "Da liberdade
civil", "Do comércio", "Da densidade populacional de nações antigas", e "Sobre o suicídio", para nomear apenas alguns.

A História da Inglaterra (1754-1762)


Esta é mais uma categoria de livros do que uma única obra. Uma história monumental, "desde a invasão de Júlio César até à Revolução
Gloriosa de 1688".

https://pt.wikipedia.org/wiki/David_Hume 9/12
18/10/2018 David Hume – Wikipédia, a enciclopédia livre

Foi também a obra melhor conhecida de Hume durante a sua vida, tendo tido mais de 100 edições. Foi considerada por muitos como a
referência essencial da História da Inglaterra até à publicação da monumental "História de Inglaterra" de Thomas Macaulay.

Quatro Dissertações (1757)


Inclui a História natural da religião, Dissertação sobre as paixões (onde se reformula o livro II do Tratado), Da tragédia e Do padrão do
gosto. Estes dois últimos figurariam também nos Ensaios morais políticos e literários. A História Naturalda Religião também seria título
independente.

História Natural da Religião (1757)


Este livro é considerado por alguns como a primeira obra científica a debruçar-se sobre a sociologia da religião. Ernest Gellner diz que este
livro permanece um dos melhores tratados deste tipo, talvez mesmo o melhor.

Diálogos sobre a Religião Natural (póstumo)


Uma discussão entre três personagens ficcionais - Cleantes, Fílon, e Demea - acerca do argumento teleológico, o argumento cosmológico, o
problema do mal e as relações entre a religião e a moral.

A obra é um forte ataque à tentativa de estabelecer a existência de Deus por processos racionais e tem servido de inspiração a muitos críticos
modernos da religião. Apesar de haver alguma controvérsia, a maioria dos académicos acredita que Fílon é a personagem que melhor
reflecte as ideias de Hume.

Do suicídio e da imortalidade da alma (póstumo)


São ensaios que deveriam aparecer nas Quatro dissertações, mas, por pressão de William Warburton, foram suprimidos.

Cronologia
Nasce na Escócia a 7 de maio de 1711.
1714: morre o pai de David Hume.
Em 1722, com 11 anos, entrou na Universidade de Edimburgo.
Em 1726, por volta dos 15 anos, decidiu aprimorar, lendo livros clássicos, seus conhecimentos por conta própria.
Entre 1729 e 1734 sofreu um sério esgotamento nervoso
1734: Hume viaja para a França onde, nos três anos seguintes, escreverá o Tratado sobre a natureza humana. Voltaire publica as
Cartas Inglesas.
1737: Hume retornou a Escócia para juntar-se à mãe e ao irmão na antiga propriedade rural da família.
1739-1740: publicou em duas etapas o Tratado da natureza humana.
1741-1742: a publicação dos Ensaios morais, políticos e literários traz algum renome a Hume.
1744: recusado ao tentar obter a cátedra de Filosofia Moral da Universidade de Edimburgo
1746: participa de uma fracassada missão militar em território francês, como secretário do General Saint-Clair.
1748: Hume acompanha o General Saint-Clair em missão diplomática na corte de Viena e publica três ensaios sobre moral e política e
Investigação sobre o entendimento humano. Surge o Espírito das leis de Montesquieu.
1748-1749: Hume vestiu o uniforme de oficial, assessorando o general em sua embaixada militar as cortes de Viena e Turim.
1749: Hume retornou a Escócia e morou dois anos na casa de seu irmão (sua mãe havia falecido)
1751: publicou Investigação sobre os princípios da moral
1752: Hume foi feito conservador da biblioteca dos Advogados de Edimburgo
1754-1795: publicação dos seis volumes de A história de Grã-Bretanha
1757: publicada História natural da religião
1761: a Igreja Católica romana colocou todos os seus escritos no Index
1763: recebeu convite do conde de Hertford, como secretário da Embaixada. Hume tornou-se amigo do conde de Hertford e de seu
irmão o General Conway
1765: atuou como encarregado de negócios da embaixada de Paris por quatro meses.
1766: Hume ofereceu a Jean-Jacques Rousseau refúgio na Inglaterra
1766: Rousseau, com suas alucinações, suspeitou de conspiração, e retornou a França, espalhando um relatório de má-fé de Hume.
1767: recebeu de Mr. Conway, irmão de Lord Hertfor, o convite para importante cargo público. Deixou novamente Edimburgo.
1767-1768: serviu em Londres como subsecretário de Estado para a região norte.
1769: retornou a Escócia dizendo cansado da vida pública e também da Inglaterra. Se estabeleceu novamente em Edimburgo.
1775: escreve uma carta a seu editor William Strahan e o orienta a incluir nas próximas publicações dos Ensaios e Tratados uma
advertência, que orienta os leitores a considerarem como seus princípios filosóficos e opiniões apenas os textos posteriores ao
Tratado da Natureza Humana de 1739[31].
1776: escreve sua autobiografia, mas já se encontrava doente desde o ano anterior.
1776: morre em Edimburgo 25 de agosto, e foi enterrado em Waterloo Place.
1777: publicação de sua autobiografia, Vida de David Hume escrita por ele mesmo, cujo título original é My Own Life (Minha própria
vida).
1777: é publicada pela primeira vez, e postumamente, a advertência de Hume aos leitores nos Ensaios e Tratados[31].

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Ver também
Causalidade
Empirismo
Epistemologia
Livre-arbítrio
Iluminismo
Moral
Niilismo
Racionalismo
Utilitarismo

Notas e referências

Notas
1. Hume coloca a hipótese de que "Todas as nossas ideias simples em sua primeira aparição são derivadas de impressões simples, que
são correspondentes a elas, e que elas exatament representam[23]
2. Note que no Apêndice do Tratado, Hume diz misteriosamente que ele estava insatisfeito com o seu julgamento do Eu, sem no entanto
ter regressado a esta questão). Para trabalho contemporâneo relevante, ver "Reasons and Persons", de Derek Parfit

Referências
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1. Morris (2010), “é o mais importante "BOOK I. OF THE UNDERSTANDING;
filósofo a já ter escrito em inglês” 10. Johnson (1995), pp. 8-9, para uma
apresentação das várias interpretações PART I.; SECT. I. OF THE ORIGIN OF
2. Quinton (1999), “Hume foi o maior dos OUR IDEAS. (http://www.gutenberg.org/f
dessa expressão.
filósofos britânicos: o mais profundo, iles/4705/4705-h/4705-h.htm) por David
penetrante e abrangente” 11. Ayer (1986), p. 12. Hume
3. The Cambridge Companion to Hume, 12. Mossner (2001), p. 195. 24. Lecture 25 Hume on Causation (http://pa
p. 33, “[...] there is a thread running from 13. Filosofia pneumática seria o equivalente, trick.maher1.net/318/lectures/hume2.pd
Hume's project of founding a science of hoje, à filosofia da mente [cf. Morris (Fall f) pelo palenstrante Patrick Maher em
the mind to that of the so-called 2010)]. 2010
cognitive sciences of the late twentieth 14. Fieser (2004). 25. Investigação sobre o entendimento
century. For both, the study of the mind Humano
15. HUME, David (1777). Investigação
is, in important respects, just like the
Sobre o Entendimento Humano. [S.l.: 26. webartigos artigo#ixzz3RmRw6ZHp -
study of any other natural phenomenon.”
s.n.] "Causa e Efeito: discussão de Kant e
4. Norton, David Fate, «An introduction to Hume (part I)"] Publicado em 29 de
16. Ayer (1986), p. 25.
Hume's thought», The Cambridge dezembro de 2011 em Filosofia
Companion to Hume, p. 1, “For nearly 17. David Hume (http://www.findagrave.com/
two centuries the positive side of Hume's cgi-bin/fg.cgi?page=gr&GRid=1894) (em 27. Causalidade em Hume e Kant (http://ww
thought was routinely overlooked – in inglês) no Find a Grave w.unicamp.br/~jmarques/cursos/2009-hf-
part as a reaction to his thoroughgoing 720/index.html) no CURSO DE PÓS-
18. Mossner (2001), p. 179.
religious scepticism – but in recent GRADUAÇÃO EM FILOSOFIA (2.o
19. Ayer (1986), p. 19. SEMESTRE DE 2009) pela
decades commentators, even those who
emphasize the sceptical aspects of his 20. Ayer (1986), p. 30. UNIVERSIDADE ESTADUAL DE
thought, have recognized and begun to 21. "Por quase dois séculos o lado positivo CAMPINAS
reconstruct Hume's positive do pensamento de Hume foi 28. John Searle - Consciousness and
philosophical positions.” costumeiramente desconsiderado – em Causality (http://integral-options.blogspo
5. Na introdução de A Treatise of Human parte como reação a seu irrestrito t.com/2012/07/john-searle-consciousnes
Nature, Hume cita "Mr Locke, Lord ceticismo religioso – mas em décadas s-and-causality.html) por William
Shaftesbury, Dr Mandeville, Mr recentes os comentadores, mesmo Harryman em 11 de julho de 2012
Hutcheson, Dr Butler, etc." (...) "who aqueles que enfatizam os aspectos 29. Epistemologia sem Sujeito: A Filosofia
have begun to put the science of man on cépticos de seu pensamento, têm das Ciências Proposta por Karl Popper
a new footing, and have engaged the reconhecido e começado a reconstruir (http://works.bepress.com/cgi/viewconte
attention, and excited the curiosity of the as posições filosóficas positivas de nt.cgi?article=1012&context=paulopere
public." Hume". Norton (1993), p. 1. s), por Paulo Sérgio Peres. FFLCH-
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Ligações externas
Hume Studies (http://www.humestudies.org/) (em inglês): Periódico dedicado ao estudo do pensamento de Hume. Acesso irrestrito até
o volume XXXI.
The Hume Society (http://www.humesociety.org/) (em inglês)
Site em memória de David Hume, com todos seus textos (http://www.davidhume.org/) (em inglês)

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