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MÓDULO 1 – Proteção constitucional ao meio

ambiental, noções gerais e conceitos norteadores do


direito ambiental
SUMÁRIO

1 HISTÓRICO DO AMBIENTALISMO NO BRASIL E NO MUNDO 4


1.1 As bombas atômicas 4
1.2 Relatório Primavera Silenciosa 4
1.3 Organizações não governamentais – ONGs 5
1.4 Primeira Conferência das Nações Unidas sobre o meio ambiente, em Estocolmo – 1972 5
1.5 Relatório “Brundtland” 5
1.6 Segunda Conferência das Nações Unidas sobre o meio ambiente e 6
desenvolvimento – ECO-92
1.6.1 Agenda 21 7
1.6.2 Protocolo de Kyoto 7
1.7 Conferência de Joanesburgo 2002 (Rio +10) 9
1.8 Acordo de Paris (2016) 9

2 NOÇÕES DO DIREITO AMBIENTAL 10


2.1 Natureza jurídica do direito ambiental 11
2.2 Diferença entre direitos ou interesses difusos e direitos ou interesses coletivos 11
2.3 Designações do direito que se destinam à proteção do meio ambiente 12
2.4 Fontes do direito ambiental 13
2.4.1 Fontes materiais 13
2.4.2 Fontes formais 14
2.5. Princípios do Direito Ambiental 15
2.5.1 Princípio do Direito Humano Fundamental 15
2.5.2 Princípio do direito à sadia qualidade de vida 16
2.5.3 Princípio do desenvolvimento sustentável 16
2.5.4 Princípio democrático 17
2.5.5 Princípio da prevenção (precaução ou cautela) 17
2.5.6 Princípio do equilíbrio 18
2.5.7 Princípio do limite 18
2.5.8 Princípio da informação 19
2.5.9 Princípio da participação 19
2.5.10 Princípio da responsabilidade 19
2.5.11 Princípio do poluidor-pagador (PPP) 19
2.6. Evolução normativa e histórica do direito ambiental no Brasil 20
3 NORMAS CONSTITUCIONAIS AMBIENTAIS E A REPARTIÇÃO DE 22
COMPETÊNCIAS
3.1. A proteção constitucional específica ao meio ambiente no Brasil 23
3.2. Outros aspectos gerais da Constituição de 1988 quanto à questão ambiental 25
3.3. Repartição de competência e a proteção ambiental 26
3.3.1. Regras de competência 27

4 CONCEITOS NORTEADORES DO DIREITO AMBIENTAL 29


4.1. Classificação do meio ambiente quanto aos seus aspectos 29
4.2. Degradação ambiental 30
4.2.1 Processos de degradação do meio ambiente 30
4.2.2. Conceitos de poluição e poluidor 30
4.3.1. Tipos de poluição 31
4.3. A proteção de espécies animais e vegetais 32
4.3.1. Proteção das espécies animais (fauna) 32
4.3.2 Proteção das espécies vegetais (flora) 34
REFERÊNCIAS 36
CRÉDITOS 37
Olá, estagiário(a)!
Bem-vindo(a) à primeira parte do Módulo 1!
Aqui você vai aprender sobre a história do ambientalismo no Brasil e no mundo, conhecer as
principais noções, conceitos e princípios que norteiam o direito ambiental, bem como conhecer algumas
das principais normas constitucionais ambientais do Brasil.
Bom aproveitamento!

O objetivo desta primeira parte é analisar a evolução histórica da questão ambiental,


para, então, compreender aspectos conceituais propedêuticos trabalhados ao longo
dos módulos, abordando a proteção constitucional ao meio ambiente no Brasil.

1 HISTÓRICO DO AMBIENTALISMO NO BRASIL E NO MUNDO

Inicialmente, faremos uma introdução aos principais acontecimentos mundiais vinculados às


questões socioambientais dentro de uma perspectiva histórica. Desta forma, serão revistos os históricos
das bombas atômicas, o relatório Primavera Silenciosa, as ONGs, a Conferência de Estocolmo (1972), o
relatório Brundtland, a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (1992),
o Protocolo de Kyoto e a Conferência em Joanesburgo 2002 (Rio + 10).

1.1 As bombas atômicas


Conforme Grün (2001), as bombas atômicas lançadas sobre as populações de Hiroshima e Nagasaki,
em 6 e 9 de agosto de 1945, respectivamente, foram o marco definitivo de que o homem havia adquirido
o poder de destruição total de si e de todas as demais espécies sobre a Terra. A partir daí, houve grande
tomada de consciência da possibilidade de destruição completa do mundo. Tal fato, por ser trágico e
aterrador, plantou as primeiras sementes do movimento ambientalista.
As bombas ocasionaram a morte de milhares de pessoas e devastaram as cidades. Devido aos efeitos
nocivos das radiações, os habitantes de Hiroshima e Nagasaki foram vítimas de vários problemas de
saúde, afetando também o meio ambiente.

1.2 Relatório Primavera Silenciosa


Após isso, registrou-se, em 1962, o Relatório Primavera Silenciosa, publicado por Rachel Carson, que,
por intermédio desse documento, tornou público o problema dos pesticidas na agricultura e mostrou o
desaparecimento de inúmeras espécies. Esse relatório foi publicado na forma de livro de bolso e atingiu
um grande público, tornando-se um clássico do ambientalismo contemporâneo.

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A indústria de pesticidas reagiu indignada ao estudo de Carson. Entretanto, a ecologista norte-
americana estava munida de evidências que comprovavam sua tese. Na época, John Kennedy era o
presidente dos Estados Unidos e ordenou que o departamento científico de seu governo investigasse as
polêmicas levantadas no livro. A conclusão foi favorável à tese de Rachel Carson.

1.3 Organizações não governamentais – ONGs


A partir de todos esses acontecimentos, o ambientalismo chegou questionando uma série de valores
da sociedade capitalista e defendeu a proteção da natureza, o não consumo, a autonomia, o pacifismo
etc. Vale destacar a atuação de várias organizações não governamentais, mais conhecidas como ONGs
(Organizações Não Governamentais), dedicadas à proteção da natureza. Dentre elas, como exemplo, o
GREENPEACE, com milhões de sócios em todo o mundo.

Que tal conhecer um pouco mais sobre o Greenpeace? Segue o link da ONG no
Brasil. Disponível em: <http://www.greenpeace.org/brasil/pt/>

1.4 Primeira Conferência das Nações Unidas sobre o meio ambiente, em Estocolmo – 1972
A partir da década de 1970, esses movimentos em torno da questão ambiental ganharam robustez
e reconhecimento mundial, registrando-se, em 1972, a Primeira Conferência das Nações Unidas sobre
o Meio Ambiente, em Estocolmo, Suécia. Nessa Conferência, vale destacar a educação ambiental, que
recebeu status de “assunto oficial” na pauta dos organismos internacionais. Conforme a recomendação
número 96 da Declaração de Estocolmo, a educação tem uma “importância estratégica” na busca da
qualidade de vida.
Outro ponto relevante, contudo, da Conferência de Estocolmo foi reconhecer a “qualidade de
vida” como direito fundamental da pessoa humana, verificando-se uma nova proteção desse direito,
não bastando somente assegurá-lo, mas, para garantir a existência humana com qualidade, devem ser
consideradas as condições ambientais que lhes são suporte, tal como a preservação da natureza em
todos os seus elementos indispensáveis ao ser humano e à manutenção da dinâmica ambiental.

1.5 Relatório “Brundtland”


Desde a Conferência de Estocolmo, em 1972, mais fortalecidas ficaram as questões relativas ao meio
ambiente diretamente ligadas à qualidade de vida, agora guindadas à categoria de direito fundamental.
Em 1983, em Assembleia Geral da ONU, foi criada a Comissão Mundial para o Meio Ambiente e
Desenvolvimento. Esse grupo foi presidido pela Sra. Gro Harlem Brundtland, então primeira-ministra da
Noruega, e teve como objetivo pesquisar os problemas ambientais em uma perspectiva global. Em 1989,

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passados seis anos de árduo trabalho, a Comissão publicou os resultados de seu trabalho no “Relatório
Brundtland”, também intitulado “Nosso Futuro Comum” (Our Common Future). Nesse documento, dois
importantíssimos conceitos foram introduzidos: o de “desenvolvimento sustentado” e da “nova ordem
mundial”. O que mais se destacou nesse relatório foi a mudança de enfoque sugerindo a conciliação
entre conservação da natureza e crescimento econômico. O “Relatório Brundtland” foi preparatório para
a “Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável”, acontecida no
Rio de Janeiro – RJ, em 1992, mais conhecida como ECO-92, notabilizada como o maior encontro com
fins pacíficos realizado na história humana, reunindo cerca de 180 chefes de Estado com a participação
da maioria dos países.

1.6 Segunda Conferência das Nações Unidas sobre o meio ambiente e desenvolvimento –
ECO-92
Da mesma forma que ocorreu a Primeira Conferência Mundial sobre Meio Ambiente, em Estocolmo
(1972), realizou-se a Segunda Conferência Mundial Sobre o Meio Ambiente, em 1992, na cidade do
Rio de Janeiro. Essa Conferência, mundialmente conhecida como ECO-92, Cúpula da Terra ou RIO-
92, demonstrou preocupação dos governos, principalmente das grandes potências mundiais, com os
problemas relativos ao meio ambiente, tais como: efeito estufa, buraco na camada de ozônio, alterações
climáticas, desertificação, abastecimento de água, perda de solos, problemas sociais e econômicos.
Resultaram dessa Conferência diversos documentos de grande importância, dentre os quais: a
Agenda 21, a Declaração do Rio, a Declaração de Princípios sobre o Uso das Florestas. O Convênio sobre
a Diversidade Biológica e a Convenção sobre Mudanças Climáticas foram outros acordos resultantes
da ECO-92. Dado o destaque destes documentos, Agenda 21 e Protocolo de Kyoto, em âmbito mundial,
discorreremos sobre eles a seguir.

Vamos assistir a um vídeo da fala de Severn Suzuki na Rio 92? Foi uma menina de
apenas 12 anos que proferiu fortes palavras na ocasião. Disponível em:
<https://www.youtube.com/watch?time_continue=2&v=5g8cmWZOX8Q>

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1.6.1 Agenda 21
A comunidade internacional, durante a RIO-92, acordou a aprovação de um documento contendo
compromissos para mudança do padrão de desenvolvimento no próximo século, denominando-o Agenda
21. Resgatava, assim, o termo “Agenda” no seu sentido de intenções, desígnios e desejo de mudanças para
um modelo de civilização em que predominasse o equilíbrio ambiental e a justiça social entre as nações.
A Agenda 21 é um programa de ação baseado num documento de 40 capítulos que constitui a mais
ousada e abrangente tentativa já realizada de promover, em escala planetária, um novo padrão de
desenvolvimento, conciliando métodos de proteção ambiental, justiça social e eficiência econômica.
Mais do que um documento, a Agenda 21 é um processo de planejamento participativo que analisa
a situação atual de um país, estado, município e/ou região, e planeja o futuro de forma sustentável.

A Agenda 21 está voltada aos problemas prementes de hoje e tem o objetivo, ainda,
de preparar o mundo para os desafios deste século. Reflete um consenso mundial e
um compromisso político no ponto mais alto no que diz respeito ao desenvolvimento
e cooperação ambiental.

É um documento consensual para o qual contribuíram governos e instituições da sociedade civil


em torno de 180 países representados na Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e
Desenvolvimento – CNUMAD, em 1992, no Rio de Janeiro.
O enfoque desse processo de planejamento apresentado com o nome de Agenda 21 não é restrito
às questões ligadas à preservação e conservação da natureza, mas sim a uma proposta que rompe com
o planejamento dominante nas últimas décadas com predominância do enfoque econômico. A Agenda
considera, dentre outras, questões estratégicas ligadas à geração de emprego e de renda, diminuição
das disparidades regionais e interpessoais de renda, mudanças nos padrões de produção e consumo,
construção de cidades sustentáveis, adoção de novos modelos e instrumentos de gestão.

1.6.2 Protocolo de Kyoto


Dentre as negociações durante a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e
Desenvolvimento, realizada no Rio de janeiro em 1992, ou seja, a ECO-92, foi inserida a assinatura da
Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança de Clima, por intermédio da qual os Governos
creditaram a propulsão de ações mais enérgicas, futuramente, a respeito dos chamados “gases causadores
do efeito estufa”. Desta forma, viabilizando a adoção de compromissos adicionais em resposta às
mudanças no conhecimento científico e nas disposições políticas, mediante um processo permanente de
revisão, discussão e troca de informações. Após esse acerto, em consequência, houve quatro Conferências
das Partes, quais sejam: Berlim (1995), Genebra (1996), Kyoto (1997) e Buenos Aires (1998).

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A Conferência de Kyoto contou com a presença de 39 países desenvolvidos, e dela constam metas e
prazos relativos à redução ou limitação das emissões futuras do dióxido de carbono (CO2) e outros gases
responsáveis pelo efeito estufa e, ao final, foi elaborado um protocolo.
O protocolo foi ratificado por 141 países, dos quais 30 industrializados. A ratificação da Rússia foi
efetivada em 18 de novembro de 2004 e oficializada em 16 de fevereiro de 2005 pelas Nações Unidas,
permitindo a entrada em vigor deste tratado.
Para começar a valer, o Protocolo de Kyoto tinha que ser ratificado por países que respondessem
por pelo menos 55% das emissões de gás carbônico (CO2) dos países industrializados. Como os Estados
Unidos decidiram, em março de 2001, não ratificar o acordo, a taxa de 55% só poderia ser alcançada com
a autorização da Rússia.
O documento impunha a redução das emissões de seis gases causadores de efeito estufa, responsáveis
pelo aquecimento do planeta: CO2 (dióxido de carbono ou gás carbônico), CH4 (metano), protóxido de
nitrogênio (N20) e três gases flúor (HFC, PFC e SF6). O protocolo previa que os países industrializados
signatários cortassem as emissões dos gases causadores do efeito estufa para que, até 2012, voltassem
aos níveis de 1990. Naquela época, só os EUA eram responsáveis por 36,1 % das emissões desses gases-
estufa.
Após oito anos da assinatura, o Protocolo de Kyoto começou a vigorar em 16 de fevereiro de 2005, sem
a participação dos Estados Unidos e da Austrália, dois grandes países poluidores. O principal objetivo do
Protocolo era a redução em 5,2%, pelos países desenvolvidos, das emissões produzidas por combustíveis
fósseis entre 2008 e 2012 para evitar mudanças climáticas futuras, como o aquecimento global.
A partir de 2012, os países em desenvolvimento também deveriam começar a redução na emissão
de poluentes, como o Brasil, por exemplo, que, no momento, tinha como obrigação fazer um inventário
da poluição.

Primeiro-ministro da Austrália, Kevin Rudd, em 2007, ratificou o Protocolo de Kyoto,


cumprindo a promessa de campanha de reverter a oposição de décadas do país ao
pacto internacional contra o aquecimento global. “Este é o primeiro ato oficial do
novo governo australiano, demonstrando o comprometimento do meu governo com a
luta contra as mudanças climáticas”, afirmou Rudd em um comunicado poucas horas
depois de ter sido empossado.

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Kevin Rudd entregou, em Bali, ao secretário-geral da Organização das Nações Unidas – ONU,
os documentos de ratificação do Protocolo de Kyoto por parte da Austrália, o que deixou os Estados
Unidos como único país desenvolvido que não ratificou o tratado. Kevin Rudd fez a entrega oficial dos
documentos a Ban Ki-moon em uma breve cerimônia celebrada antes da abertura oficial da conferência
ministerial da ONU sobre mudanças climáticas. O documento foi enviado para as Nações Unidas, e a
ratificação entrou em vigor 90 dias depois de ter sido recebido. A Austrália tornou-se um membro pleno
do Protocolo de Kyoto desde março de 2008.
Os ministros do Meio Ambiente de quase 130 países iniciaram, na ilha Indonésia, um processo de
negociação que resultou em um novo acordo internacional para substituir a primeira fase do protocolo
de Kyoto, o qual expirou em 2012. “Ratificar o protocolo de Kyoto foi uma decisão de nosso governo no
primeiro dia no poder e é uma grande honra apresentar os documentos oficiais de ratificação”, declarou
Rudd ao apertar a mão do secretário-geral da ONU.
A Austrália era responsável por menos de 2% das emissões mundiais de gases que provocam o efeito
estufa. No entanto, o país era um importante exportador de carvão, uma das fontes de energia que mais
contribuem para o aquecimento global.
Os Estados Unidos, maior nação emissora de gases poluentes, negaram-se a ratificar o protocolo na
administração do presidente George W. Bush.

1.7 Conferência de Joanesburgo 2002 (Rio +10)


Programada inicialmente para ser uma conferência de implantação dos planos para a
sustentabilidade definidos na ECO-92, a Rio +10 demonstrou a pouca efetividade dos compromissos
firmados na Conferência anterior.
Das cinco prioridades da Conferência de Joanesburgo (água, saneamento, energia, saúde, agricultura
e biodiversidade), os alvos e as datas só foram garantidos em dois: saneamento, com a meta de reduzir
pela metade o número de pessoas sem acesso a ele até 2015, e a biodiversidade, com metas para reduzir
extinções e recuperar estoques de peixes.
No capítulo energia, falou-se, de forma genérica, em aumentar substancialmente a fatia mundial de
energias renováveis. Sobre clima, insistiu-se com os países que ainda não o fizeram a ratificar o Protocolo
de Kyoto. Foi também decidida, na cúpula, a criação de um regime internacional que possibilitasse a
divisão dos benefícios auferidos pelos países ricos com a exploração da biodiversidade dos países pobres.

1.8 Acordo de Paris (2016)


Em evento da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (Sigla UNFCCC,
do inglês United Nations Framework Convention on Climate Change), mais precisamente na data de 22
de abril de 2016, foi assinado por 175 países, dentre eles o Brasil, Tratado Internacional relacionado às
mudanças climáticas. Tratou-se de um recorde por ter sido o tratado internacional com o maior número
de países assinando em um único dia.
O objetivo central era fortalecer a resposta global à ameaça das mudanças climáticas, de forma
a reforçar a capacidade dos países de lidar com os impactos negativos decorrentes de tais mudanças.
O compromisso assumindo pelos países foi no sentido de reduzir as emissões de gases de efeito estufa
(GEE) no contexto do desenvolvimento sustentável, de maneira a manter a temperatura média global em
níveis aceitáveis.

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O texto disponibilizado no link a seguir trata de aspectos interessantíssimos e
pertinentes ao tema. Vamos dar uma olhada? Disponível em: <http://arte.folha.uol.
com.br/especiais/2016/08/26/o-fim-da-era-fossil/ >

2 NOÇÕES DO DIREITO AMBIENTAL

O Direito Ambiental só foi elevado à condição de ciência a partir do momento em que adquiriu sua
autonomia, pois, como sabemos, para que uma disciplina seja reconhecida como ciência, esta precisa
ter princípios próprios, objeto de estudo, conceitos, definições etc. A Lei da Política Nacional do Meio
Ambiente trouxe em seu bojo todos os requisitos necessários para tornar o Direito Ambiental uma ciência
jurídica independente.
Trata-se de uma disciplina relativamente nova no Direito brasileiro. Só recentemente adquiriu a sua
autonomia com o advento da Lei nº 6.938, de 31 de agosto de 1981 – que trata da Política Nacional do
Meio Ambiente (PNMA). Em decorrência desse fato, várias Faculdades de Direito inseriram essa matéria
em seus currículos como exigência do próprio mercado de trabalho.

Há várias definições de Direito Ambiental elaboradas por juristas de renome.


Destacamos as seguintes:
“O Direito Ambiental, como ciência, busca o conhecimento sistematizado das
normas e princípios ordenadores da qualidade do meio ambiente.” (SILVA, 2007, p. 42).
“Entende ser Direito do Ambiente o complexo de princípios e normas coercitivas
reguladoras das atividades humanas que, direta ou indiretamente, possam afetar a
sanidade do ambiente em sua dimensão global, visando à sua sustentabilidade para
as presentes e futuras gerações.” (MILARÉ, 2005, p. 155).
“Conjunto de princípios e regras destinadas à proteção do meio ambiente, à
defesa do equilíbrio ecológico, à conservação do patrimônio cultural e viabilização
do desenvolvimento harmônico e socialmente justo, compreendendo medidas
administrativas e judiciais, com a reparação material e financeira dos danos causados
ao ambiente e aos ecossistemas, de uma maneira geral” (CARVALHO, 2001, p. 126).

“É a ciência jurídica que estuda, analisa e discute as questões e os problemas


ambientais e sua relação com o ser humano, tendo por finalidade a proteção do meio
ambiente e a melhoria das condições de vida no planeta.” (SIRVINSKAS, 2006, p. 27).

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2.1 Natureza jurídica do direito ambiental

De acordo com Toshio Mukai (2005, p. 6), “o direito à proteção do meio ambiente caracteriza-se
por uma ideia fundamental: não pode ser visualizado pelo jurista com o mesmo enfoque das matérias
tradicionais do Direito”. Conforme Mukai, trata-se da proteção do que se denominou na doutrina de
interesses difusos. Os direitos difusos que expressivamente se revelam em tema de meio ambiente,
porque a proteção deste não cabe a um titular exclusivo ou individuado, mas se espraia difusamente
sobre toda coletividade e em cada um de seus membros.
Para Milaré (2005, p.178), o Direito Ambiental tem por missão a tutela de bens e valores assim
qualificados, não pode ser concebido dentro da dicotomia (Público ou Privado) do Direito tradicional,
mas como um direito difuso ou um direito de terceira geração.
Direitos de terceira geração são os direitos da fraternidade e solidariedade quais sejam: o direito ao
desenvolvimento, à paz, ao meio ambiente, à comunicação, à propriedade sobre o patrimônio comum da
humanidade; são dotados de alto teor de humanismo e universalidade e têm por destinatário o gênero
humano.

2.2 Diferença entre direitos ou interesses difusos e direitos ou interesses coletivos


Conforme Carvalho (2001, p.50), entende-se por interesses coletivos os interesses comuns a uma
coletividade de pessoas, unidas entre si por vínculo jurídico, numa relação básica perfeitamente
identificável, por exemplo: a sociedade comercial, o condomínio, a família, até o sindicato e certas
associações profissionais congregam conjunto de pessoas determináveis, ainda que com maior ou menor
facilidade. Já nos interesses difusos inexiste a relação-base, sendo o vínculo que une as pessoas limitado
a fatores conjunturais e genéricos, acidentais e mutáveis: habitar a mesma região, consumir o mesmo
produto, sujeitar-se a contingências econômicas e sociais. Trata-se de interesses espalhados e informais
à tutela de necessidades, coletivas e de massa, comuns a um conjunto indeterminado e extremamente
vasto de pessoas.
Para melhor compreensão do assunto, destacamos a diferenciação entre interesses ou direitos
difusos e interesses ou direitos coletivos na Lei n° 8.078/90. Perceba essa relação a partir de agora.
A Lei n. 8.078/90, em seu art. 81, parágrafo único, inciso I, trouxe o conceito legal de interesses ou
direitos difusos, ao estabelecer que:

Art. 81. A defesa dos interesses e direitos dos consumidores e das vítimas poderá
ser exercida em juízo individualmente, ou a título coletivo.
Parágrafo único. A defesa coletiva será exercida quando se tratar de:
I – interesses ou direitos difusos, assim entendidos, para efeitos deste Código, os
transindividuais, de natureza indivisível, de que sejam titulares pessoas indeterminadas
e ligadas por circunstâncias de fato.

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Por conta do aludido preceito, o direito difuso apresenta-se como um direito transindividual, tendo
um objeto indivisível, titularidade indeterminada e interligada por circunstância de fato.
Os direitos coletivos possuem definição legal de interesses ou direitos coletivos, especificados, no
art. 81, parágrafo único, inciso II, da Lei n. 8.078/90, que preceitua:

Art. 81. A defesa dos interesses e direitos dos consumidores e das vítimas poderá
ser exercida em juízo individualmente, ou a título coletivo.
Parágrafo único. A defesa coletiva será exercida quando se tratar de: (...)
II – Interesses ou direitos coletivos, assim entendidos, para efeitos deste Código, os
transindividuais de natureza indivisível de que seja titular grupo, categoria ou classe
de pessoas ligadas entre si ou com a parte contrária por relação jurídica base.

Portanto, os direitos ou interesses coletivos são transindividuais, com objeto indivisível e titularidade
determinada, tais como, a titularidade de grupo, categoria ou classe de pessoas que possuam uma relação
jurídica-base com a parte contrária.

A Lei nº 8.078 / 90, Art. 81.


Parágrafo único.

Inciso I Inciso II

Interesses ou direitos difusos Interesses ou direitos coletivos

2.3 Designações do direito que se destinam à proteção do meio ambiente


Existem várias designações do Direito que se destinam à proteção do meio ambiente, tais como:
Direito Ecológico, Direito do Meio Ambiente, Direito Ambiental e Direito do Ambiente. A seguir, as
principais delas:
Direito Ecológico – conjunto de técnicas, regras e instrumentos jurídicos organicamente estruturados
para assegurar um comportamento que não atente contra a sanidade mínima do meio ambiente, segundo
Antunes (2006, p. 5). Ecologia é uma ciência com fronteiras bastante amplas, existe uma tendência em
considerá-la apenas em relação aos meios naturais.
Direito do Meio Ambiente – o termo ambiente é, por essência, extremamente amplo e pode abrigar
inúmeras realidades que se encontram no interior da legislação protetora do meio ambiente, conforme
Antunes (2006, p. 6).

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Direito Ambiental – é um direito tutelar, exclui-se, portanto, de seu campo as normas que se mostrem
prejudiciais ao meio ambiente, segundo Antunes (2006).
Direito do Ambiente – complexo de princípios e normas coercitivas reguladoras das atividades
humanas que, direta ou indiretamente, possam afetar a sanidade do ambiente em sua dimensão global,
visando à sua sustentabilidade para as presentes e futuras gerações, conforme Milaré (2006, p. 155).

A designação mais utilizada, na maioria dos países, é Direito Ambiental.

2.4 Fontes do direito ambiental


Segundo seu próprio sentido etimológico, fonte significa origem, procedência. A fonte é empregada
para indicar tudo de onde procede alguma coisa, onde ela se funda e tira razão de ser, ou todo fato que
dá nascimento a outro. Diz-se fonte para o costume ou uso que faz gerar a regra. As fontes podem ser:
materiais ou formais.

2.4.1 Fontes materiais


As fontes materiais são fontes de produção do direito. São chamadas de materiais do ponto de vista
do conteúdo ou substância. Segundo Sirvinskas (2006, p. 38), são provenientes de manifestação popular
(individual ou coletiva). Podemos citar, como exemplos, os movimentos populares, as descobertas
científicas e a doutrina jurídica.

Movimentos populares
Dentre as fontes materiais do Direito Ambiental, podemos encontrar o movimento dos cidadãos
por uma melhor qualidade de vida e contra os riscos efetivos decorrentes da utilização de determinados
produtos e práticas etc, ganhando maior expressão social e política a partir de 1960, sobretudo na Europa,
Estados Unidos e Japão.
No Brasil, este movimento teve início na década de 1970 do século XX, no estado do Rio Grande do
Sul que, desde então, vem se mantendo em posição vanguardeira na proteção ambiental.
No Acre, por tais movimentos, os seringueiros impediram a derrubada de florestas, visando assegurar
a preservação dos seringais e, consequentemente, de seu modo tradicional de produção e vida. É
importante observar que a prática adotada pelos seringueiros deu origem a um modelo específico de
unidade de conservação – as reservas extrativistas. Este movimento teve a sua maior liderança em Chico
Mendes que, com coragem e alto espírito de abnegação, soube defender a causa dos povos da floresta.

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O movimento dos cidadãos em defesa do meio ambiente e da qualidade de vida, no Rio Grande do
Sul, é diretamente responsável pela elaboração de diversas leis protetoras do meio ambiente. Dentre
estas, pode ser destacada a Lei nº 7.747/82, que proíbe a produção e comercialização de agrotóxicos no
Rio Grande do Sul.

Descobertas científicas
As descobertas científicas também podem e devem ser incluídas entre as mais importantes fontes
materiais do Direito Ambiental.
Um bom exemplo para a afirmação é o Protocolo de Montreal sobre a proteção da camada de
ozônio. Como se sabe, foi a descoberta científica de que, especialmente no polo Sul, existe um “buraco”
na camada de ozônio que envolve a Terra, causado, em grande parte, pelos clorofluorcarbonos (CFCs),
que fez com que a sociedade internacional resolvesse firmar um documento internacional voltado para
regulamentar à substituição progressiva dos CFCs.

Doutrina jurídica
A doutrina é uma importante fonte material do Direito Ambiental, pois, através dela, muitas mudanças
legislativas e interpretativas têm sido adotadas nos mais diversos países.

Merece destaque, no particular, a elaboração doutrinária dos princípios do Direito


Ambiental que, cada vez mais, tornam-se fundamentais na elaboração de leis e na
aplicação judicial das normas de proteção ao meio ambiente.

2.4.2 Fontes formais


As fontes formais são aquelas consubstanciadas na forma escrita por meio de um documento solene.
São exemplos de fontes formais, a Constituição, as leis, os atos internacionais firmados pelo Brasil, a
jurisprudência etc.

Constituição
A Constituição é a lei fundamental como fonte do Direito Ambiental. As constituições estaduais não
poderão diminuir a proteção ambiental que é consagrada na Lei Fundamental da República, sob pena de
inconstitucionalidade.

As leis
As leis brasileiras sobre proteção ambiental podem ser federais, estaduais ou municipais, cada uma
dentro de uma determinada esfera de atribuição e competência.

Os atos internacionais firmados pelo Brasil


Os atos internacionais firmados pelo Brasil integram o direito brasileiro com a hierarquia da lei.

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No entanto, é importante destacar que o art. 5º, § 3º, da Constituição Federal de 1988, conferiu status
constitucional aos tratados internacionais que assim dispõe: “Os tratados e convenções internacionais
sobre direitos humanos que forem aprovados, em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por
três quintos dos votos dos respectivos membros, serão equivalentes de Emendas Constitucionais”. O § 3º,
do art. 5º, da Constituição Federal de 1988, foi acrescido pela Emenda Constitucional nº 45/2004.

Jurisprudência
A jurisprudência como interpretação e aplicação da lei aos casos concretos, constitui também uma
fonte na construção do Direito Ambiental.

2.5. Princípios do Direito Ambiental

2.5.1 Princípio do Direito Humano Fundamental


O direito ao ambiente é um direito humano fundamental. Tal princípio decorre do texto expresso no
art. 225, da Constituição Federal de 1988. Ressaltamos o caput do art. 225, da CF/88, que diz:

Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem
de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder
Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e
futuras gerações.

Desta forma, a partir do princípio basilar no texto constitucional de 1988, em seu art. 225, decorrem
todos os princípios do Direito Ambiental. De acordo com Silva (2007, p. 64), o reconhecimento internacional
do princípio que ora se examina pode ser verificado, por exemplo, nos princípios 1 e 2 da Declaração de
Estocolmo, proclamada em 1972, na Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente Humano e
que foram reafirmados na Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento em
1992, no Rio de Janeiro.
Observe os princípios comentados:
Princípio 1 – Os seres humanos constituem o centro das preocupações relacionadas com o
desenvolvimento sustentável. Têm direito a uma vida saudável e produtiva em harmonia com o meio
ambiente.
Princípio 2 – Os recursos naturais da Terra, incluídos o ar, o solo, a flora e a fauna e, especialmente,
parcelas representativas dos ecossistemas naturais, devem ser preservados em benefício das gerações
atuais e futuras.
Assim, como podemos observar desde a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e
Desenvolvimento em 1992, a preocupação com conservação, preservação e manutenção do meio
ambiente saudável e equilibrado tem aumentado, tendo em vista ser fundamental e indispensável o
direito ao ambiente como um direito humano fundamental.

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2.5.2 Princípio do direito à sadia qualidade de vida
Na Primeira Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente Humano, em 1972, realizada em
Estocolmo, um dos pontos relevantes foi reconhecer a “qualidade de vida” como direito fundamental da
pessoa humana, verificando-se uma nova proteção desse direito. Não basta somente assegurar o direito à
vida, mas a existência humana com qualidade. Para isso, devem ser consideradas as condições ambientais
que lhe são suportes, tais como a preservação da natureza em todos os seus elementos indispensáveis ao
ser humano e à manutenção do equilíbrio ecológico.
No entendimento de Machado (2006, p. 120), a sadia qualidade de vida só pode ser conseguida e
mantida se o meio ambiente estiver ecologicamente equilibrado. Ter uma sadia qualidade de vida é ter
um meio ambiente não poluído. Para tanto, afirma Machado (2006, p. 121), a saúde dos seres humanos
não existe somente numa contraposição a não ter doenças diagnosticadas no presente. Leva-se em conta
o estado dos elementos da Natureza – água, solo, ar, flora, fauna e paisagem – para aquilatar se esses
elementos estão em estado de sanidade e se de seu uso advém saúde ou doenças e incômodos para os
seres humanos.
Conforme Silva (2007, p. 58), a Constituição Federal de 1988 traz a proteção ambiental abrangendo
a preservação da Natureza em todos os seus elementos essenciais à vida humana e à manutenção do
equilíbrio ecológico, além disso, visa tutelar o meio ambiente em função da qualidade de vida, como uma
forma de direito fundamental da pessoa humana. Assim, o princípio do direito à sadia qualidade de vida
é um direito de todos e está intimamente relacionado ao meio ambiente ecologicamente equilibrado,
sendo, portanto um importante princípio assegurado por nossa Constituição Federal de 1988.

2.5.3 Princípio do desenvolvimento sustentável


O princípio do desenvolvimento sustentável busca conciliar a proteção do meio ambiente com o
desenvolvimento socioeconômico, visando à melhoria da qualidade de vida no planeta Terra. Três são
seus pilares básicos: o crescimento econômico, a equidade social e o equilíbrio ecológico.

Social

Econômico

Ambiental

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Na Constituição Federal de 1988, o seu art. 170 trata da ordem econômica e financeira e destaca,
no seu inciso VI, “a defesa do meio ambiente mediante tratamento diferenciado conforme o impacto
ambiental dos produtos e serviços e de seus processos de elaboração e prestação”. Assim, a Constituição
Federal estabelece que a ordem econômica, fundada na livre iniciativa e na valorização do trabalho
humano, deverá reger-se pelos ditames de justiça social, respeitando o princípio da defesa do meio
ambiente, contido no inciso VI, do art.170, da CF/88.
O desenvolvimento sustentável surge como novo paradigma deste século, tendo como princípios:
integrar a conservação da natureza e desenvolvimento; satisfazer as necessidades humanas fundamentais;
buscar a autodeterminação social e respeitar a diversidade e manter a integridade ecológica.
Para Machado (2006, p. 143), a defesa do meio ambiente é uma dessas questões que obrigatoriamente
devem constar da agenda econômica pública e privada. A defesa do meio ambiente não é uma questão
de gosto, de ideologia e de moda, mas um fator que a Carta Maior manda levar em conta. Neste sentido,
o desenvolvimento sustentável constitui uma forma de garantir e prolongar a utilização dos recursos
naturais não renováveis para as futuras gerações. O desenvolvimento sustentável visa à utilização
racional dos recursos naturais não renováveis, permitindo satisfazer as necessidades da população atual
sem comprometer a capacidade de atender as gerações futuras. É necessário que este desenvolvimento
seja economicamente viável, socialmente justo e ambientalmente correto.

2.5.4 Princípio democrático


O Direito Ambiental é um direito que tem uma das vertentes de sua origem nos movimentos
reivindicatórios dos cidadãos e, como tal, é essencialmente democrático. O princípio democrático
materializa-se, expressamente, como previsto no texto da Lei Fundamental. É possível encontrar os
elementos de tais direitos tanto no próprio capítulo dedicado ao meio ambiente quanto no capítulo
voltado à defesa dos direitos e deveres individuais e coletivos.
O princípio democrático, segundo Antunes (2006, p. 35), é aquele que assegura aos cidadãos o
direito pleno de participar na elaboração das políticas públicas ambientais e de obter informações dos
órgãos públicos sobre matéria referente à defesa do meio ambiente e de empreendimentos utilizadores
de recursos ambientais e que tenham significativas repercussões sobre o ambiente. Para Antunes, no
sistema constitucional brasileiro, tal participação faz-se de várias maneiras diferentes. A primeira delas
consubstancia-se no dever jurídico de proteger e preservar o meio ambiente; a segunda, no direito de
opinar sobre as políticas públicas, através da participação em audiências públicas, integrando órgãos
colegiados e participação mediante mecanismos judiciais e administrativos de controle dos diferentes
atos praticados pelo Executivo, tais como as ações populares, as representações e outros.
2.5.5 Princípio da prevenção (precaução ou cautela)
A diferenciação entre os termos prevenção e precaução é feita com muita propriedade por Milaré
(2005, p. 165). A prevenção é substantivo do verbo “prevenir”, e significa ato ou efeito de antecipar-se,
chegar antes; induz uma conotação de generalidade, simples antecipação no tempo. Enquanto que
precaução é substantivo do verbo “precaver-se” e sugere cuidados antecipados; cautela para que uma
atitude ou ação não venha a se concretizar ou a resultar em efeitos indesejáveis. Assim, essa diferença
entre prevenção e precaução demonstra que a prevenção é mais ampla, isto é, que as ações de precaução
estejam contidas nas ações de prevenção, uma vez que a prevenção é de caráter mais genérico e a
precaução possui caráter mais específico.

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O princípio da prevenção é chamado, por alguns autores do Direito Ambiental, de princípios
de prevenção (precaução ou cautela). A prevenção é preceito fundamental, uma vez que os danos
ambientais, na maioria das vezes, são irreversíveis e irreparáveis. Como recuperar uma espécie extinta
da fauna? De que forma podemos restituir um manguezal que foi aterrado? Diante da impotência do
sistema jurídico, incapaz de restabelecer em igualdades de condições uma situação idêntica à anterior,
adota-se o princípio da prevenção do dano ao meio ambiente como sustentáculo do direito ambiental,
consubstanciando-se como seu objetivo fundamental, conforme Fiorillo (2006, p. 39).
Medidas de prevenção e preservação devem ser concretizadas por meio de uma consciência
ecológica, as quais devem ser desenvolvidas por meio de uma política de educação ambiental. Ressaltamos
alguns instrumentos importantes e que são relevantes na realização do princípio da prevenção, tais
como: estudo prévio de impacto ambiental (EIA/RIMA), o manejo ecológico, o tombamento, as liminares,
as sanções administrativas etc.
Destacamos ainda, conforme Fiorillo (2006, p. 41), que, sob o prisma da Administração, encontramos
a aplicabilidade do princípio da prevenção por intermédio das licenças, das sanções administrativas,
da fiscalização e das autorizações, entre tantos atos do Poder Público, determinantes da sua função
ambiental de tutela do meio ambiente.

2.5.6 Princípio do equilíbrio


O princípio do equilíbrio é o princípio pelo qual devem ser pesadas todas as implicações de uma
intervenção no meio ambiente, buscando-se adotar a solução que melhor concilie um resultado positivo,
conforme Sirvinskas (2006, p 36).
As medidas capazes de assegurar uma maior proteção do meio ambiente, como se percebe
facilmente, dependem do grau de consciência social em relação à necessidade de que se dê ao meio
ambiente uma atenção prioritária. Assim, não podemos sobrepor às necessidades econômicas os direitos
humanos fundamentais que se materializam na proteção ambiental.

2.5.7 Princípio do limite


O princípio do limite está consubstanciado no inciso V, do § 1º, do art. 225, da CF/88. Para Antunes
(2006, p. 40), a administração Pública tem obrigação de fixar padrões máximos de emissões de matérias
poluentes, de ruído, enfim, de tudo aquilo que possa implicar prejuízos para os recursos ambientais e a
saúde humana.

Ressaltamos a importância da fixação dos limites de emissão de matérias poluentes,


pois será a partir do estabelecimento de limites que a Administração Pública poderá impor
coercitivamente as medidas necessárias para que se evite, ou pelo menos minimize, a
poluição e a degradação ambiental. Os limites devem ser estabelecidos em função das
necessidades de proteção ambiental e das melhores tecnologias disponíveis.

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2.5.8 Princípio da informação
O princípio da informação ambiental encontra respaldo legal nos arts. 6º, §§ 3º e 10, da Lei nº 6.938/81,
que trata da Política Nacional do Meio Ambiente. A educação ambiental é efetivada mediante a
informação ambiental, que é expressamente abraçada pela Constituição, no seu art. 225, § 1º, VI.

Art. 225. (…)


§ 1º – Para assegurar a efetividade desse direito, incumbe ao Poder Público:
VI – promover a educação ambiental em todos os níveis de ensino e a conscientização
pública para a preservação do meio ambiente.

Portanto, o princípio da informação constitui um instrumento de grande importância para defesa,


preservação e conservação do meio ambiente. Somente por meio da educação e educação ambiental
voltada para sociedade em todos os níveis de ensino é que será possível a construção de uma consciência
ambiental comprometida com as presentes e futuras gerações.

2.5.9 Princípio da participação


O princípio da participação está consagrado na Constituição Federal de 1988, em seu art. 225, caput,
ao deixar claro a atuação do Estado e da sociedade civil ao impor à coletividade e ao Poder Público a
defesa do meio ambiente. Para tanto, é necessário a atuação conjunta entre organizações ambientalistas,
sindicatos, indústrias, comércio, agricultura e tantos outros organismos sociais comprometidos nessa
defesa e preservação.
Segundo Fiorillo (2006, p. 41), a participação tem por finalidade a conduta de tomar parte em alguma
coisa, agir em conjunto. Neste sentido, afirma Fiorillo (2006, p. 42) que dois elementos são fundamentais
para a efetivação dessa ação em conjunto: a informação e a educação ambiental – mecanismos de
atuação numa relação de complementariedade.

2.5.10 Princípio da responsabilidade


A Constituição Federal de 1988, no § 3º, do artigo 225, estabeleceu a responsabilidade civil,
administrativa e penal por danos ambientais ao meio ambiente. A legislação ordinária, Lei nº 6.938/81,
em seu art. 14, § 1º, definiu que a responsabilidade do poluidor por danos ao meio ambiente é objetiva,
pois o poluidor é obrigado, independentemente da existência de culpa, a indenizar ou reparar os danos
causados ao meio ambiente. A responsabilização por danos ao meio ambiente deve ser implementada
levando-se em conta os fatores de singularidade dos bens ambientais atingidos.
O princípio da responsabilidade busca afastar da coletividade o ônus econômico resultante de dano
ao meio ambiente e dirigi-lo diretamente ao utilizador dos recursos ambientais que causou a degradação
ambiental.

2.5.11 Princípio do poluidor-pagador (PPP)


O princípio do poluidor-pagador está previsto no art. 225, § 3º, da Constituição Federal de 1988.

19
Art. 225. (…)
§ 3º – As condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão
os infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e administrativas,
independentemente da obrigação de reparar os danos causados.

De acordo com Fiorillo (2006, p. 30), é possível identificar, no princípio do poluidor-pagador, duas
órbitas de alcance:
a) busca evitar a ocorrência de danos ambientais (caráter preventivo);
b) ocorrido o dano, visa sua reparação (caráter repressivo).
Desse modo, conclui Fiorillo, impõe-se ao poluidor o dever de arcar com as despesas de prevenção
dos danos ao meio ambiente que a sua atividade possa ocasionar. Cabe a ele o ônus de utilizar
instrumentos necessários à prevenção dos danos. Ocorrendo o dano ao meio ambiente em razão da
atividade desenvolvida, o poluidor será responsável pela reparação.
A aplicação do princípio do poluidor-pagador significa que o utilizador do recurso deve suportar
o conjunto dos custos destinados a tornar possível a utilização do recurso e os custos advindos de sua
utilização. Este princípio tem por objetivo fazer com que estes custos ambientais não sejam suportados
nem pelo Poder Público, nem por terceiros, mas pelo utilizador do recurso ambiental.
O princípio do poluidor-pagador envolve a ação de produção e consumo e gera efeitos na escala
social e ambiental que chamamos de externalidades. As externalidades devem ser internalizadas pelo
utilizador dos recursos ambientais e, portanto, o poluidor é quem deve arcar com o custo decorrente da
poluição de sua atividade.

As externalidades podem ser:


Localizadas – quando se refletem diretamente na saúde dos trabalhadores de uma
indústria. (Ex: indústria de carvão).
Generalizadas – quando contribuem para o aumento do efeito estufa – maior
emissão de gás carbônico para atmosfera, ocorrência de chuvas ácidas provocadas
pelo enxofre contido no carvão.

2.6. Evolução normativa e histórica do direito ambiental no Brasil


As preocupações com o meio ambiente propiciaram o surgimento e o desenvolvimento de uma
legislação legal no Brasil e em outros países. A evolução normativa jurídica do meio ambiente surgiu nos
séculos XVI e XVII, eram preocupações setorizadas e nem sempre motivadas pelo valor da preservação.
Conforme Santos (1996, p. 79), a preocupação legal com o meio ambiente data das Ordenações Afonsinas,
Ordenações Manuelinas e Ordenações Filipinas.

20
Segundo Santos (1996, p. 79), a história jurídica registra as preocupações com o meio ambiente:
• Nas Ordenações Afonsinas – no Livro V, título LVIII – proibia o corte deliberado de árvores
frutíferas (1446 – 1521).
• Nas Ordenações Manuelinas – no Livro V, título LXXXIII – vedava a caça de perdizes, lebres
e coelhos com redes, fios, bois ou outros meios e instrumentos capazes de causar dor e
sofrimento na morte desses animais (1521 – 1603).
• As Ordenações Filipinas – no Livro LXXV, título LXXXVIII, parágrafo sétimo – protegiam as
águas, punindo com multa quem jogasse material que as sujasse ou viesse a matar os peixes,
conforme Santos (1996).
Em 1830, foi promulgado o Código Penal cujos Arts. 178 e 257 eram dispositivos que puniam o corte
ilegal de madeiras, mas com pouca aplicabilidade. O Código Civil de 1916 trouxe normas de proteção aos
direitos de vizinhança que alcançavam o meio ambiente. O Decreto 24.645, de 10.07.1934, coibiu maus-
tratos a animais.
A partir de 1934, desenvolveu-se a legislação com algumas normas específicas de proteção do meio
ambiente, tais como:
• Código Florestal (Decreto 23.793, de 23.1.1934), substituído pelo código instituído pela Lei
nº 4.771, de 15.9.1965, por sua vez, substituído pela atualmente vigente Lei No. 12.651, de
25.05.2012;
• Código das Águas (Decreto 24.643, de 10.7.1934), ainda em vigor, que, no título IV do livro II,
sobre “Águas Nocivas”, reprime a poluição das águas; Lei de Proteção à Fauna – Lei Nº 5.197,
de 03.01.1967;
• Código de Pesca (Decreto-Lei 794, de 19.10.1938), que trouxe algumas normas protetoras das
águas (Arts. 15, “h”, e 16), que foram ampliadas nos Arts. 36 a 38 do Código de Pesca baixado
pelo Decreto-Lei 221 de 28.1.1967, o qual está em vigor.
No campo da legislação federal, surgiu, a partir de 1967, uma série de normas e medidas voltadas
para proteção e conservação do meio ambiente, de forma ainda setorizada.
Em 1967, surgiu o Decreto-lei 248, de 28.2.1967, que instituiu a Política Nacional de Saneamento
Básico, compreendendo o conjunto de diretrizes destinadas à fixação de programa governamental a
aplicar-se nos setores de abastecimento de água e esgotos sanitários.
Conforme Silva (2007, p. 37), em 1973, retomou-se a sistematização da matéria, a começar pela
criação do Decreto 73.030, de 30.10.1973, no âmbito do Ministério do Interior, da Secretaria Especial de
meio Ambiente – SEMA, orientada para a conservação do meio ambiente e o uso racional dos recursos
naturais conforme o seu art. 1º.
Posteriormente, foram expedidos diplomas legais importantes para a tutela jurídica ambiental,
como por exemplo: o Decreto-lei 1.413, de 14.8.1975, dispondo sobre o controle da poluição do meio
ambiente provocada por atividade industrial; o Decreto 76.389, de 3.10.1975, dispondo sobre medidas
de prevenção e controle da poluição industrial; a Portaria do Ministério do Interior nº 13, de 15.1.1976,
fixando os parâmetros para classificação das águas interiores nacionais, de acordo com as alternativas
de consumo, e dispondo sobre o controle da poluição.
Ainda com relação ao quadro legal federal, cumpre lembrar que o Código Penal de 1940 definia, no
seu art. 271, o crime de corrupção ou poluição de água potável, que teve pouca aplicação.

21
Foi somente a partir da década de 1980, que se teve a preocupação de orientar uma política global
do meio ambiente, traduzida em lei geral federal, de forma mais sistematizada. Essa sistematização na
legislação brasileira ocorreu como edição da Lei de Política Nacional do Meio Ambiente.
Com a publicação da Lei 6.938, de 31.8.1981, que dispõe sobre a Política Nacional do Meio Ambiente
e sobre o Sistema Nacional do Meio Ambiente, seus fins e mecanismos de formulação e aplicação – gerou
uma normatização mais ampla e sistematizada no Brasil.
Assim surgiram outras leis ambientais de relevância, tais como: a Lei 6.902, de 27.4.1981, que dispôs
sobre a criação de Estações Ecológicas e Áreas de Proteção Ambiental. Posteriormente, a Lei 7.661, de
16.5.1988, que instituiu o Plano Nacional de Gerenciamento Costeiro; a Lei 7.797, de 10.7.1989, criando
o Fundo Nacional do Meio Ambiente; a Lei 7.802, de 11.7.1989, dispondo sobre pesquisa, produção,
embalagens e controle de agrotóxicos, seus componentes e afins. Por fim, a Constituição Federal de 1988,
que foi a primeira Constituição brasileira a tratar deliberadamente da questão ambiental.

3 NORMAS CONSTITUCIONAIS AMBIENTAIS E A REPARTIÇÃO DE COMPETÊNCIAS

O meio ambiente passou a ser tema de elevada importância nas Constituições mais recentes,
principalmente na Constituição brasileira de 1988. O despertar ecológico, embora explosivo em várias
partes do mundo, é relativamente recente e, por isso mesmo, carente ainda de melhor proteção jurídico-
institucional.
A partir da década de 1970, alguns países elaboraram seus textos constitucionais e puderam assegurar
tutela eficaz para o meio ambiente, por exemplo: conforme Silva (2007, p. 45), a Constituição do Chile, de
1981, prescreve o direito de viver em um meio ambiente livre de contaminação e que é dever do Estado
velar para que esse direito não seja afetado, assim como é seu dever tutelar a preservação da natureza.
Segundo Silva (2007, p. 44), a Constituição de Cuba de 1976 dispôs que incumbia ao Estado e à
sociedade proteger a natureza, para assegurar o bem-estar dos cidadãos, assim como velar para que
sejam mantidas limpas as águas e a atmosfera e protegidos o solo, a flora e a fauna.
De acordo com Silva (2007, p. 45), a Constituição portuguesa data de 1976 e inscreveu o direito
fundamental do homem à qualidade do meio ambiente entre os “direitos e deveres sociais”, estabelecendo,
no art. 66, que:
1. Todos têm direito a um ambiente de vida humano, sadio e ecologicamente equilibrado e o dever
de o defender.
2. Incumbe ao Estado, por meio de organismos próprios e por apelo a iniciativas populares:
a) prevenir e controlar a poluição e os seus efeitos e as formas prejudiciais de erosão;
b) ordenar o espaço territorial de forma a construir paisagens biologicamente equilibradas;
c) criar e desenvolver reservas e parques naturais e de recreio, bem como classificar e proteger
paisagens e sítios, de modo a garantir a conservação da natureza e a preservação de valores culturais de
interesse histórico ou artístico;
d) promover o aproveitamento racional dos recursos naturais, salvaguardando a sua capacidade de
renovação e a estabilidade ecológica.
3. O cidadão ameaçado ou lesado no direito previsto no nº 1 pode pedir, nos termos da lei, a cassação
das causas de violação e a respectiva indenização.

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4. O Estado deve promover a melhoria progressiva e acelerada da qualidade de vida de todos os
portugueses.

3.1. A proteção constitucional específica ao meio ambiente no Brasil


É importante ressaltar algumas considerações sobre a preocupação ambiental nas constituições
brasileiras. As Constituições que precederam a de 1988 não se preocuparam com a proteção do ambiente
de forma específica e global. Portanto, a Constituição Federal de 1988 foi a primeira a tratar de forma
específica sobre a proteção ambiental.
De acordo com Silva (2007, p. 46), das constituições, desde 1946, apenas se extraía orientação
protecionista do preceito sobre a proteção da saúde e sobre competência da União para legislar sobre
água, florestas, caça e pesca, que possibilitavam a elaboração de leis protetoras como o Código Florestal
e os Códigos de Saúde Pública, de Água e de Pesca.
A Constituição de 1988 foi, portanto, a primeira a tratar deliberadamente da questão ambiental.
Pode-se dizer que a Constituição de 1988 é eminentemente ambientalista.
A tutela constitucional ambiental está inserida na Constituição Federal de 1988, no capítulo VI,
que trata do meio ambiente, e possui um artigo, sete incisos e seis parágrafos. Nos últimos anos, ficou
evidenciada a importância do meio ambiente para as presentes e futuras gerações.
A Constituição Federal de 1988 demonstra que o nosso legislador constituinte teve a preocupação
com o meio ambiente, por isso, resolveu reservar um capítulo inteiro na Constituição, procurando
disciplinar a matéria diante de sua importância mundial.
É importante uma compreensão mais detalhada do capítulo VI, da Constituição Federal de 1988,
referente ao meio ambiente, que faremos agora com a finalidade de aprofundar o conhecimento do
conteúdo do artigo 225, seus incisos e parágrafos.
A Constituição Federal de 1988, em seu capítulo VI, o qual trata do meio ambiente, dispõe do seguinte
texto:

Art. 225 – Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso
comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à
coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.
§ 1º – Para assegurar a efetividade desse direito, incumbe ao Poder Público:
I – preservar e restaurar os processos ecológicos essenciais e prover o manejo ecológico das
espécies e ecossistemas;
II – preservar a diversidade e a integridade do patrimônio genético do País e fiscalizar as
entidades dedicadas à pesquisa e manipulação de material genético;
III – definir, em todas as unidades da Federação, espaços territoriais e seus componentes a
serem especialmente protegidos, sendo a alteração e a supressão permitidas somente através
de lei, vedada qualquer utilização que comprometa a integridade dos atributos que justifiquem
sua proteção;

23
IV – exigir, na forma da lei, para instalação de obra ou atividade potencialmente
causadora de significativa degradação do meio ambiente, estudo prévio de impacto
ambiental, a que se dará publicidade;
V – controlar a produção, a comercialização e o emprego de técnicas, métodos e
substâncias que comportem risco para a vida, a qualidade de vida e o meio ambiente;
VI – promover a educação ambiental em todos os níveis de ensino e a conscientização
pública para a preservação do meio ambiente;
VII – proteger a fauna e a flora, vedadas, na forma da lei, as práticas que coloquem em
risco sua função ecológica, provoquem a extinção de espécies ou submetam os animais a
crueldade.
§ 2º – Aquele que explorar recursos minerais fica obrigado a recuperar o meio ambiente
degradado, de acordo com solução técnica exigida pelo órgão público competente, na
forma da lei.
§ 3º – As condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão
os infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e administrativas,
independentemente da obrigação de reparar os danos causados.
§ 4º – A Floresta Amazônica brasileira, a Mata Atlântica, a Serra do Mar, o Pantanal
Mato-Grossense e a Zona Costeira são patrimônio nacional, e sua utilização far-se-á,
na forma da lei, dentro de condições que assegurem a preservação do meio ambiente,
inclusive quanto ao uso dos recursos naturais.
§ 5º – São indisponíveis as terras devolutas ou arrecadadas pelos Estados, por ações
discriminatórias, necessárias à proteção dos ecossistemas naturais.
§ 6º – As usinas que operem com reator nuclear deverão ter sua localização definida em
lei federal, sem o que não poderão ser instaladas.

O núcleo normativo do Direito Ambiental está inserido no artigo 225, seus incisos e parágrafos da
Constituição Federal de 1988. Faremos agora o detalhamento do art. 225 conforme Silva (2007, p. 53), que
interpreta e faz algumas observações sobre o conteúdo do artigo.
I – O direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado pertence a todos, incluindo aí as gerações
presentes e as futuras, sejam brasileiros ou estrangeiros;
II – O dever de defender o meio ambiente e preservá-lo, no entanto, é imputado ao Poder Público e
à coletividade;
III – O meio ambiente é um bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida,
portanto, é um bem que não está na disponibilidade particular de ninguém, nem de pessoa privada nem
de pessoa pública;
IV – Processos ecológicos essenciais (§ 1º, I) são aqueles que asseguram as condições necessárias
para uma adequada interação biológica. Prover o manejo ecológico das espécies significa lidar com
as espécies de modo a conservá-las, quando for o caso. E prover o manejo dos ecossistemas quer dizer
cuidar do equilíbrio das relações entre comunidades, biótica e o seu habitat (mar, floresta, rio, pântanos
etc.);

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V – Preservar a diversidade e a integridade do patrimônio genético, vale dizer: preservar todas as
espécies, através do fator caracterizante e diferenciador da imensa quantidade de espécies vivas do País,
incluindo aí todos os reinos biológicos;
VI – Definir espaços territoriais e seus componentes a serem especialmente protegidos significa
estabelecer a delimitação de área ecologicamente relevante, onde o uso do patrimônio ali inserido ficará
condicionado a disposições constantes de lei;
VII – Estudo Prévio de Imposto Ambiental constitui um instrumento de prevenção de degradações
irremediáveis;
VIII – Controle da produção, comercialização e emprego de técnicas, métodos e substâncias que
comportem risco para a vida, a qualidade de vida e o meio ambiente, permitindo-se, aí, a interferência
do Poder Público no domínio privado, para impedir práticas danosas ao meio ambiente e à saúde da
população;
IX – Promover a educação ambiental em todos os níveis de ensino e a conscientização pública para
a preservação do meio ambiente constitui meio de conscientização ecológica que propiciará, no futuro,
o exercício de práticas conscientemente preservacionistas;
X – proteger a fauna e a flora, do inciso VII, correlaciona-se com os incisos I e II, do art. 225 da CF/8.

3.2. Outros aspectos gerais da Constituição de 1988 quanto à questão ambiental


No texto Constitucional, encontramos vários artigos de forma exemplificativa dedicados ao meio
ambiente ou a itens a este vinculados direta ou indiretamente, observe:
• Art. 5º, incisos XXIII, LXXI, LXXIII;
• Art. 20, incisos I, II, III, IV, V, VI, VII, IX, X, XI e §§ 1º e 2º;
• Art. 21, incisos XIX, XX, XXIII, alíneas a, b, e c, XXV;
• Art. 22, incisos IV, XII, XXVI;
• Art. 23, incisos I, III, IV, VI, VII, IX, XI;
• Art. 24, incisos VI, VII, VIII;
• Art. 43, § 2º, IV e § 3º;
• Art. 49, incisos XIV, XVI;
• Art. 91, § 1º, inciso III;
• Art. 129, inciso III; art. 170, inciso VI; art. 174, §§ 3º e 4º; art. 176 e §§;
• Art. 182 e §§;
• Art. 186;
• Art. 200, incisos VII, VIII;
• Art. 216, inciso V e §§ 1º, 3º e 4º;
• Art. 225; art. 231; art. 232;
E, no Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, os artigos 43, 44 e §§.
Observando o caráter de interdisciplinaridade e de transversalidade que são característicos do
Direito Ambiental, os diversos artigos constitucionais contemplam normas de naturezas processual,
penal, econômica, sanitária de natureza tutelar administrativa e também de repartição de competência
administrativa. Este conjunto diversificado de normas confirma e consagra a interdisciplinaridade do
Direito Ambiental.

25
Portanto, a interdisciplinaridade do Direito Ambiental nasce da confluência de várias disciplinas
jurídicas, herdando princípios e elementos que passam a lhe dar características próprias. Exemplificando:
o Direito Ambiental possui uma estreita relação com o Direito Constitucional, pois nele se pauta e se
escuda. A Constituição Federal (e com ela o Direito Constitucional) elevou a questão ambiental a um
tema de superior grandeza, amparando, de maneira ampla, um direito novo, segundo Carvalho (2001).
Essa relação acontece também com outros ramos de Direito como o Direito Administrativo, Direito Penal,
Direito Civil, Direito do Consumidor, entre outros.
Já a transdisciplinaridade ocorre entre o Direito Ambiental e outras ciências, tendo em vista que o
Direito Ambiental é multidisciplinar, ou seja, o Direito Ambiental se relaciona com outras ciências como
a sociologia, a economia, a filosofia, a história e a geografia.

3.3. Repartição de competência e a proteção ambiental


O legislador constituinte estabeleceu o sistema de repartição de competências entre as entidades
da federação brasileira que compreende a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, todos
autônomos (Arts. 1º e 18 da CF/88).

Federalismo refere-se à forma de Estado que é denominada Federação ou Estado


Federal e tem por característica a união de Estados-membros, dotados de autonomia
político-constitucional. Assim, o sistema do pacto federativo tem por significado o
termo “federal” que provém do latim foedus que significa “pacto”. Portanto, o Estado
Federal representa-se pela união de entidades autônomas, dotadas de competências
próprias. No Brasil, são entes federativos: União, Estados, Distrito Federal e Municípios.

Conforme Fiorillo (2006, p. 76), no federalismo, o titular da soberania é o Estado Federal, enquanto os
entes federativos são detentores de autonomia. Ainda com relação à autonomia, nos ensina Fiorillo que
esta é formada por dois elementos essenciais:
a) existência de órgãos governamentais próprios;
b) posse de competências específicas. A posse de competências será maior ou menor de acordo com
a formação histórica do Estado federado.
Observe, de forma esquemática, os aspectos das normas constitucionais da Constituição Federal de
1988 e, posteriormente, sua classificação.

26
Constituição Federal de 1988

Repartição de Competências

PODERES - Designa porção de matérias que Competência - Refere-se a diversas modalidades


CF/88 distribuiu entre entidades autônomas. de poder de que se servem os órgãos ou
Conforme Silva (2007, p. 72) entidades para realizar suas funções.
Conforme Silva (2007, p. 72)

Em todo texto da Constituição Federal de 1988, encontramos artigos relacionados à distribuição de


competências que estão diretamente ou indiretamente relacionados ao meio ambiente.

3.3.1. Regras de competência


Na definição de Silva (2007, p. 72), competência refere-se a diversas modalidades de poder de que
se servem os órgãos ou entidades para realizar suas funções: “O princípio geral que norteia a repartição
de competência entre as entidades componentes do Estado federal é o da predominância do interesse,
segundo o qual à União caberão aquelas matérias e questões de predominante interesse geral, nacional,
ao passo que aos Estados tocarão as matérias e assuntos de predominante interesse regional, e aos
Municípios concernem os assuntos de interesse local”.
Quanto à função, as competências podem ser:
• Material ou administrativa: prática de atos político-administrativos (p. ex: Arts. 21 e 30 da
CF/88).
• Competência legislativa ou normativa: edição das leis (p. ex: Art. 22 da CF/88).
Quanto à extensão, as competências podem ser:
• Exclusiva: a competência exclusiva, como o próprio vocábulo indica, é a atribuída a um
ente, mas exclui os demais, não podendo ser delegada. Está prevista no art. 21 da CF/88,
por exemplo, o inciso XIX: compete à União instituir sistema nacional de gerenciamento de
recursos hídricos e definir critérios de outorga de direitos de seu uso;
• Privativa: embora também seja específica de um determinado ente federado, pode ser
delegada. Por exemplo, o art. 22, inciso XII, da CF/88 prescreve que compete à União legislar
sobre: jazidas, minas, outros recursos minerais e metalurgia. Pode ser transferida aos Estados,
conforme o parágrafo único do art. 22 da CF/88: Lei complementar poderá autorizar os Estados
a legislar sobre questões específicas das matérias relacionadas neste artigo;

27
• Comum: é exercida de forma simultânea por todos os entes que compõem uma federação.
Compete à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios. Como exemplo, citem-
se os incisos VI e VII: proteger o meio ambiente e combater a poluição em qualquer de suas
formas; preservar as florestas, a fauna e a flora;
• Concorrente: o art. 24 da Constituição Federal prevê as regras de competência concorrente
entre a União, Estados e Distrito Federal, estabelecendo quais matérias que deverão ser
regulamentadas de forma geral por aquela e específica por esses.
No âmbito da legislação concorrente, a competência da União limitar-se-á a estabelecer normas
gerais (art. 24, § 1º). Por conseguinte, os Estados e o Distrito Federal legislam normas sobre aspectos
regionais.
A competência da União para legislar sobre normas gerais não exclui a competência suplementar
dos Estados (art. 24, § 2º), posto que, cabe a estes, na ausência de normas gerais, exercerem a competência
plena, para atender às suas peculiaridades (art. 24, § 3º).
Por exemplo, determina a Constituição, nos incisos VI e VIII do artigo 24, competir à União, aos
Estados e ao Distrito Federal legislar concorrentemente sobre: florestas, caça, pesca, fauna, conservação
da natureza, defesa do solo e dos recursos naturais, proteção do meio ambiente e controle da poluição;
responsabilidade por dano ao meio ambiente, ao consumidor, a bens e direitos de valor artístico, estético,
histórico, turístico e paisagístico.

OBS: Compete aos Municípios, conforme artigo 30 da CF/88 (incisos I, II, VIII):
• legislar sobre assuntos de interesse local;
• suplementar a legislação federal e estadual;
• promover, no que couber, adequado ordenamento territorial, mediante
planejamento e controle do uso, do parcelamento e da ocupação do solo
urbano.

28
4 CONCEITOS NORTEADORES DO DIREITO AMBIENTAL

O conceito normativo de meio ambiente encontra-se estabelecido no artigo 3º, I, da Lei nº 6.938/81,
que dispõe sobre a Política Nacional do Meio Ambiente, que assim traduz:

Art. 3º – Para fins previstos nesta Lei, entende-se por:


I – meio ambiente é o conjunto de condições, leis, influências e interações de ordem
física, química e biológica, que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas.

Ressalta-se que o conceito legal de meio ambiente é um conceito jurídico, porém, não contempla
todos os aspectos, sendo, portanto, um conceito restrito ao meio ambiente natural.
É importante destacar que a Lei da Política Nacional do Meio Ambiente foi recepcionada pela
Constituição Federal de 1988. Conforme Fiorillo (2006, p. 19), a Carta Magna de 1988 buscou tutelar não
só o meio ambiente natural mas também o artificial, o cultural e o do trabalho.
Portanto, o conceito legal de meio ambiente foi ampliado com a Constituição de 1988 ao dizer, no
Art. 225, que “todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do
povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de
defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”.
Conforme Sirvinskas (2006, p. 30), o preceito constitucional protege a sadia qualidade de vida neste
mundo. Sendo assim, a qualidade de vida representa saúde, bem-estar, segurança e qualidade do meio
ambiente; portanto, está relacionada ao meio ambiente natural, cultural, artificial e do trabalho.

4.1. Classificação do meio ambiente quanto aos seus aspectos


O conceito de meio ambiente foi ampliado pela Constituição Federal de 1988, conforme explicado
anteriormente, e mostra a existência de quatro dos seus aspectos. Segundo Fiorillo (2006, p. 20), a divisão
do meio ambiente, em aspectos que o compõem, busca facilitar a identificação da atividade degradante
e do bem imediatamente agredido.
Portanto, analisaremos agora, de forma sucinta, cada um dos aspectos do meio ambiente
compreendendo o meio ambiente natural, o meio social ou artificial, meio ambiente cultural e o meio
ambiente do trabalho.
Meio Natural: em toda a superfície do globo terrestre, encontramos elementos ou ambientes naturais,
cuja composição e concentração variam conforme as diferentes regiões. Apesar dessas diferenças, são
estreitamente relacionados e, exatamente por isso, constituem-se ecossistemas. Tais componentes são: o
ar, a água, o solo, a flora e a fauna. (MILARÉ, 2005, p. 269).
Meio Social ou Artificial: o meio ambiente artificial é compreendido pelo espaço urbano construído
consistente no conjunto de edificações (chamado de espaço urbano fechado) e pelos equipamentos
públicos (espaço urbano aberto), conforme Fiorillo (2006, p. 21). Portanto, o meio ambiente social ou
artificial está relacionado às cidades, ou seja, ao espaço transformado, modificado ou criado pelo homem.
Ver na Constituição Federal de 1988, arts. 182 e 183.

29
Meio Ambiente Cultural: integra os bens de natureza material e imaterial, os conjuntos urbanos
e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico,
conforme Sirvinskas (2006, p. 29). Ver na Constituição Federal de 1988, arts. 215 e 216.
Meio Ambiente do Trabalho: integra a proteção do homem em seu local de trabalho, com observância
às normas de segurança, segundo Sirvinskas (2006, p. 29). Ver os arts. 200, VIII, e 7º, XXII, da Constituição
Federal de 1988.

4.2. Degradação ambiental


No meio ambiente, ocorrem diferentes formas de degradação ambiental que contribuem para
diminuir a qualidade de vida de um modo geral. Analisaremos a seguir alguns processos de degradação
da qualidade ambiental que são muito comuns nos dias atuais, por exemplo: desmatamento, degradação
do solo e poluição (ar, águas, solo e visual).

4.2.1 Processos de degradação do meio ambiente


1. Desmatamento;
2. Degradação do solo;
3. Poluição do ar;
4. Poluição das águas;
5. Poluição do solo;
6. Poluição visual.
Para melhor compreensão dos processos de degradação ambiental, é necessário que se conceitue
poluição e poluidor. Então, vamos lá!

4.2.2. Conceitos de poluição e poluidor


Poluição
O conceito de poluição está definido no art. 3º, III, (a, b, c, d, e), da Lei nº 6.938, de 31 de agosto de
1981, que dispõe sobre a Política Nacional do Meio Ambiente, que assim traduz:

Art. 3º – Para os fins previstos nesta Lei, entende-se por:


III – poluição, a degradação da qualidade ambiental resultante de atividades
que direta ou indiretamente: a) prejudiquem a saúde, a segurança e o bem-estar da
população; b) criem condições adversas às atividades sociais e econômicas; c) afetem
desfavoravelmente a biota; d) afetem as condições estéticas ou sanitárias do meio
ambiente; e) lancem matérias ou energia em desacordo com os padrões ambientais
estabelecidos.

30
Poluidor
O conceito de poluidor está definido no art. 3º, IV, da Lei nº 6.938, de 31 de agosto de 1981, que dispõe
sobre a Política Nacional do Meio Ambiente, que assim traduz:

Art. 3º (…)
IV – poluidor, a pessoa física ou jurídica, de direito público ou privado, responsável,
direta ou indiretamente, por atividades causadoras de degradação ambiental.

4.3.1. Tipos de poluição


Poluição atmosférica: ocorre pela emissão de substâncias (gases e vapores) no estado sólido, líquido
e gasoso, causando alterações adversas ao meio ambiente, decorrente de atividade humana, conforme
Fiorillo (2006, p. 174). A degradação da qualidade do ar apresenta alguns fenômenos da poluição
atmosférica, tais como: smog (massa de ar estagnada, composta por diversos gases e vapores de fumaça,
que, na cadeia da poluição, terminam nos nossos pulmões); efeito estufa (fenômeno de isolamento térmico
do planeta em decorrência do excesso de alguns gases na atmosfera, tais como: dióxido de carbono
(CO2), metano (CH4), óxido nitroso (N2O), clorofluorcarbonos (CFCs) etc, gerando o aquecimento global)
e chuvas ácidas (fenômeno corrosivo que ataca não só metais, em razão à presença de ácido sulfúrico
no ar).
Poluição hídrica: A água é indispensável para a sobrevivência humana na Terra. Conforme Sirvinskas
(2006, p. 199), os recursos hídricos abrangem as águas superficiais e as águas subterrâneas, os estuários
e o mar territorial.
Para Sirvinskas (2006, p. 200), poluição hídrica é a degradação da qualidade ambiental resultante
de atividades que, direta ou indiretamente, lancem matérias ou energia nas águas em desacordo com
os padrões ambientais estabelecidos. Poluição hídrica, em outras palavras, é a alteração dos elementos
constitutivos da água, tornando-a imprópria ao consumo ou à utilização para outros fins.
Poluição do solo: Constitui um tipo de poluição muito comum no meio ambiente, geralmente
é causada por resíduos sólidos, rejeitos perigosos, agrotóxicos, queimada ou mineração. A disposição
inadequada dos resíduos sólidos (lixo doméstico, industrial, hospitalar ou nuclear) poderá causar danos
ao solo, ao subsolo, ao ar atmosférico, às águas subterrâneas e superficiais, à flora, à fauna e à saúde
humana, segundo Sirvinskas (2006, p. 212).
Poluição visual: Segundo Sirvinskas (2006, p. 244), a poluição visual pode ser conceituada como sendo
a degradação ambiental resultante das atividades comerciais e sociais que, direta ou indiretamente,
prejudiquem a saúde, a segurança, o bem-estar da comunidade ou afetem as condições estéticas ou
sanitárias do meio ambiente. A poluição visual afeta diretamente as condições estéticas das cidades,
uma vez que possui maior incidência nos centros urbanos em decorrência da excessiva e inadequada
publicidade dos mais variados tipos. Alguns exemplos desse tipo de poluição são: anúncios de produtos
por meio de outdoors, cartazes, painéis eletrônicos, fachadas de néon, distribuição de prospectos nos
faróis etc. O art. 182, caput, da CF/88, estabelece a competência do Município em regular e disciplinar as
regras da política urbana.

31
4.3. A proteção de espécies animais e vegetais

4.3.1. Proteção das espécies animais (fauna)


“Fauna refere-se ao conjunto de todos os animais de uma dada região”. (SIRVINSKAS, 2006, p. 273).

a) Fauna e aspectos de defesa


A fauna é protegida, na esfera federal, pela Lei nº 5.197, de 3 de maio de 1967, que foi recepcionada
pela Constituição Federal de 1988 e alterada, posteriormente, pela Lei ambiental nº 9.605/98.
A Lei dos crimes ambientais tipifica os crimes contra a fauna nos arts. 29 ao 37. O art. 29, § 3º, da Lei
nº 9.605/98, ampliou o conceito de fauna silvestre, definido a seguir:

Art. 29 (…)
§ 3° - São espécimes da fauna silvestre todos aqueles pertencentes às espécies
nativas, migratórias e quaisquer outras, aquáticas ou terrestres, que tenham todo ou
parte de seu ciclo de vida ocorrendo dentro dos limites do território brasileiro, ou
águas jurisdicionais brasileiras.

Em razão de suas características e funções, a fauna recebe a natureza jurídica de bem ambiental.
De acordo com o art. 225, § 1º, VII, da CF/88, constitui tarefa do Poder Público “proteger a fauna e a flora,
vedadas, na forma da lei, as práticas que coloquem em risco sua função ecológica, provoquem a extinção
de espécies ou submetam os animais à crueldade”.
A competência para legislar sobre fauna é concorrente da União, Estados e Distrito Federal, conforme
o art. 24, VI, da CF/88. Ressaltamos também a Competência comum (administrativa), da União, Estados,
Distrito Federal e Municípios, conforme o art. 23, VII, da CF/88, para “preservar as florestas, a fauna e a
flora”. A competência para julgar e processar as causas relacionadas à fauna era da Justiça Federal, com
fundamento no art. 1º, da lei nº 5.197/98, e no art. 109, IV, da CF/88, mas, com advento da Lei 9.605/98, se
deu o cancelamento da Súmula 91-STJ, que entendia ser a Justiça Federal competente para processar e
julgar os crimes contra a fauna.
Tal competência não afasta a possibilidade do julgamento pela Justiça comum Estadual, quando
houver interesse local ou se o fato ocorrer dentro de uma Unidade de Conservação criada pelo Poder
Público Estadual. A competência para processar e julgar as causas relacionadas à fauna é da Justiça
Estadual, “salvo se os crimes praticados em detrimento de bens, serviços ou interesses da União ou de
suas entidades autárquicas ou empresas públicas…” Art. 109, IV CF/88.

32
União

Competência para
É concorrente Estado Art. 24, VI, da CF/88
Legislar sobre Fauna

Distrito Federal

União

Competência Comum
É concorrente Estado Art. 23, VII, da CF/88
(Administrativa)

Distrito Federal

Municípios

Art. 1˚, nº5. 197/98

Competência para Relacionada à Advento da Cancelamento da


Justiça Federal
Processar e Julgar fauna Lei 9.605/98 Súmula 91 – STJ

Art. 109, IV, da CF/88

ATUALMENTE

Competência para
processar e julgar

Salvo se o crime praticado em detrimento de bens,


serviços ou interesses da União ou de suas entidades autárquicas Justiça Estadual
ou empresas públicas. Conforme Art. 109, IV CF/88

Você pode ver mais informações sobre a Súmula 91 do STJ no site: http://www.stj.jus.br
Data da Publicação/Fonte, DJ 26/10/1993 p. 22629, REPDJ 23/11/2000 p. 101, RSTJ vol. 61 p.
123, RT vol. 698 p. 416, RT vol. 783 p. 575. Enunciado: COMPETE À JUSTIÇA FEDERAL PROCESSAR
E JULGAR OS CRIMES PRATICADOS CONTRA A FAUNA. (*)
(*) Na sessão de 08/11/2000, a Terceira Seção deliberou pelo CANCELAMENTO da Súmula n. 91.
Fonte: http://www.stj.jus.br/sites/STJ/default/pt_BR/Jurisprud%C3%AAncia/S%C3%BAmulas

33
b) Classificação quanto ao habitat
Fauna silvestre – considera-se fauna silvestre o conjunto de animais que vivem em liberdade, fora do
cativeiro, conforme preceitua o art. 1º, da Lei Nº 5.197/67, que dispõe sobre a proteção à fauna, segundo
Fiorillo (2006, p. 110). Conforme o art. 225, da Constituição Federal de 1988, a fauna silvestre é um bem
ambiental e integra o meio ambiente ecologicamente equilibrado. Esse bem não é público e nem
privado. É bem de uso comum do povo. A fauna pertence a toda coletividade.

Fauna doméstica – é aquela que não vive em liberdade, mas em cativeiro, sofrendo modificação do
seu habitat, conforme Fiorillo (2006, p. 110).

4.3.2 Proteção das espécies vegetais (flora)


“FLORA é o conjunto de plantas de uma dada região, país ou de um continente”. (SIRVINSKAS, 2006,
p. 250).

Flora e aspectos de defesa


Conforme Fiorillo (2006, p. 103), antes da Constituição Federal de 1988, a União possuía competência
privativa para legislar sobre proteção florestal. Com o advento da atual Carta, o critério foi modificado,
impondo-se à União competência para legislar sobre normas gerais e não mais de forma exclusiva.
O artigo. 23, VII, da Constituição Federal de 1988, prevê a competência material comum da União
dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios para “preservar as florestas, a fauna e a flora”. Quanto
à competência legislativa concorrente está estabelecida no art. 24, VI, da CF/88.
O Art. 225, § 1º, VII, de forma mais técnica, prescreveu ao Poder Público o dever de proteger a fauna
e a flora. Ressaltamos que a Lei nº 9.605/98 dos crimes ambientais tipifica os crimes contra a flora nos
Arts. 38 ao 53.
O novo código florestal é a Lei 12.651 de 25 de maio de 2012, também denominado de Lei de
Proteção da Vegetação Nativa. Foi aprovado em meio a muitas polêmicas, com a frente parlamentar
do agronegócio defendendo a perspectiva de que seria um avanço, enquanto que os ambientalistas
classificam a lei como um retrocesso na proteção ao meio ambiente.
Dentre as principais controvérsias, podem ser apontadas a isenção aos pequenos produtores da
obrigatoriedade de recompor reserva legal em propriedades de até quatro módulos fiscais, o que pode
ser cultivado em Áreas de Preservação Permanente, a área de recomposição das margens dos rios que
foram desmatadas, a anistia para os desmatadores.
Foram ajuizadas quatro ações questionando a constitucionalidade de diversos pontos do Código
(ADIs 4901, 4902, 4903 e 4937) e uma ação visando a sua declaração de constitucionalidade (ADC 42). Em
28 de fevereiro de 2018, foi concluído o Supremo Tribunal Federal a respeito dos 58 artigos questionados
(de um total de 84 artigos do diploma legal).

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Quer saber quais foram os principais pontos decididos pelo STF? Segue link de
reportagem para esclarecimento: <https://www.conjur.com.br/2018-fev-28/stf-
mantem-anistia-codigo-florestal-proprietarios-rurais>

Chegamos ao final da primeira parte do Módulo 1! Lembre-se de que, para concluir com êxito a
primeira etapa do seu estágio, bem como para ganhar sua primeira conquista, é necessário acessar o
material e a leitura, ver os vídeos e resolver as atividades propostas. Até à próxima!

35
REFERÊNCIAS

ANTUNES, Paulo de Bessa. Curso de direito ambiental. 9. ed. Rio de Janeiro: Lúmen Júris, 2006.
CARVALHO, Carlos Gomes de. Introdução ao direito ambiental. São Paulo: Editora Letras & Letras,
2001.
FIORILLO, Celso Antonio. Curso de direito ambiental brasileiro. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2006.
MACHADO, Paulo Afonso Leme. Direito ambiental brasileiro. 14. ed. São Paulo: Malheiros, 2006.
MILARÉ, Édis. Direito do ambiente: doutrina, jurisprudência, glossário. 4. ed. São Paulo: Editora Revista
dos Tribunais, 2005.
SILVA, José Afonso. Direito ambiental constitucional. 6. ed. São Paulo: Malheiros Editores, 2007.
SIRVINSKAS, Luís Paulo. Manual de direito ambiental. São Paulo: Saraiva, 2006.

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CRÉDITOS
O assunto estudado nesta disciplina foi planejado por um(a) professor(a) conteudista, responsável
pela produção de conteúdo didático, desenvolvido e implementado por uma equipe composta
por profissionais de diversas áreas e, no caso da disciplina em questão, recebeu o apoio de outros
Núcleos e Setores da Universidade de Fortaleza. Listam-se abaixo os parceiros e colaboradores que
contribuíram de maneira relevante para a construção de todo o material, facilitando o processo de
ensino-aprendizagem.

UNIVERSIDADE DE FORTALEZA
Núcleo de Educação a Distância
Coordenação do Núcleo de Educação a Distância
Andrea Chagas Alves de Almeida
Produção de Conteúdo Didático
Dayse Braga Martins
Atualização
Cláudio Alcântara Meireles Júnior
Projeto Instrucional
Bruna Batista dos Santos
Pedagoga
Ariane Nogueira Cruz
Produção de Áudio e Vídeo
José Moreira de Sousa
Pedro Henrique Moura Mendes
Diagramação
Rafael Oliveira de Souza
Arte
Thiago Bruno Costa de Oliveira
Programação
Rafael Rodrigues de Moraes
Revisão Gramatical
Janaína de Mesquita Bezerra

O trabalho Direito Ambiental: Módulo 1 - Proteção constitucional ao meio ambiental, noções gerais e conceitos norteadores do
direito ambiental de Dayse Braga Martins, Núcleo de Educação a Distância da Unifor está licenciado com uma Licença Creative
Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.

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