Você está na página 1de 3

Bluetooth Low Energy

Eduardo Freire Mangabeira

Instituto Tércio Pacitti de Aplicações e Pesquisas Computacionais – Universidade


Federal do Rio de Janeiro(UFRJ)

edu.mangaba@gmail.com

Bluetooth Low Energy (BLE) é uma tecnologia sem fio emergente desenvolvida pela
Bluetooth Special Interest Group (SIG) para comunicações de curto alcance. BLE foi
concebida como uma solução para controle e monitoramento de aplicações de baixo
custo energético. BLE é a característica distinta da especificação Bluetooth 4.0.

O advento do BLE ocorreu enquanto outras soluções sem fio de baixo custo
energético, como o ZigBee, 6LoWPAN ou Z-Wave vêm ganhando cada vez mais
notoriedade em aplicações que necessitam de redes com multi-hop. Apesar disso, o BLE
constitui uma solução de single-hop aplicável a diferentes casos de uso, como por
exemplo assistência médica, energia inteligente e segurança.
Dado sua característica marcante ser a economia de energia, um dispositivo BLE
permanece em modo sleep durante a maior parte do tempo, saindo desse modo apenas
para realizar conexões que duram apenas ms. Isso ocorre pois ele foi projetado para
aplicações que apenas precisam enviar poucas informações e esporadicamente. Dessa
forma, se tem um consumo energético com picos de 15 mA, mas com uma média de 1
uA apenas.

A pilha de protocolos do BLE é similar ao Bluetooth clássico, composta por duas


partes principais, o Controlador e o Host. O controlador é capaz de permitir que o host
durma por longos períodos e só o desperta quando necessário fazer alguma ação. Um
controlador BLE, apesar de herdar características do Bluetooth clássico, não é e nem
atua como sua versão tradicional e, portanto, não é compatível com o mesmo. Dessa
forma, um dispositivo que implementa somente o BLE é denominado single-mode ou
"smart" e só efetua conexão com um semelhante, sendo esse o caso mais comum em
sensores. No entanto, é possível a implementação de ambas as arquiteturas (dual-mode
ou "smart ready") em um mesmo dispositivo, através da execução de um protocolo que
faz a mediação entre o Bluetooth clássico e o BLE. Como desvantagem, essa
implementação não costuma ter o mesmo ganho energético da primeira.
O Bluetooth Low Energy é bastante semelhante à sua forma mais antiga, fazendo
uso de alguns mesmos procedimentos, como o Frequency-hopping spread spectrum
(FHSS). O Bluetooth clássico operava com 79 canais de 1 MHz; o BLE utiliza apenas
40 canais e com 2MHz de espaçamento. O BLE trabalha com dois tipos de canais:
advertising channels e os data channels. Os advertising channels ocupam 3 dos 40
canais e são usados para descobrir outros dispositivos, estabelecer uma conexão e
transmissão broadcast. O segundo tipo, data channel, é usado para a comunicação
bidirecional entre os dispositivos conectados. É importante dizer que o Bluetooth
clássico utiliza 32 canais como advertising, o que faz com que o tempo de busca de
dispositivos (22.5 ms) seja muito maior do que o necessário para o BLE (0.6 - 1.2 ms),
gastando mais energia consequentemente. No entanto, por um usar o espectro gratuito
de 2.4GHz, o BLE corre o risco de colidir com um sinal de Wi-Fi/802.11 que esteja
operante na região. Para tal, sobre os canais data channels é usado o mecanismo
Adaptive Frequency Hopping (AFH). Esse processo faz com que o mapa de frequências
disponíveis seja readaptado, de modo que os canais já ocupados sejam excluídos da lista
de disponibilidade. Além disso, o AFH faz com que mestre e escravo utilizem o mesmo
canal, a fim de impedir que um use um bom canal e o outro um ruim, o que poderia
provocar uma série de retransmissões.

Na camada de enlace, o estado de conexão do dispositivo é controlado através de


5 estados; Standby, onde o dispositivo não transmite pacote nem recebe e pode ser
acessado de qualquer estado; Advertising, onde o advertiser(dispositivo nesse estado),
envia pacotes por cada advertising channel e pode responder a requisições de outros
dispositivos; Scanning, em que o scanner, escuta transmissões de pacotes advertising e
pode solicitar informações adicionais a outros dispositivos; Initiating, que faz o initiator
se conectar a um advertiser, que ao localizar ele responde requisitando o início de uma
conexão; Connection, onde ocorre a conexão entre o initiator e o advertiser - ambos
entram nesse estado e se comunicam através dos data channels -.

No BLE, quando um dispositivo só precisa transmitir dados, ele transmite os


dados em pacotes Advertising através dos Advertising Channels. Qualquer dispositivo
que transmite pacotes de Advertising é chamado de Advertiser. A transmissão de
pacotes através dos Advertising Channels ocorre em intervalos de tempo chamados de
eventos Advertising. Dentro de um evento Advertising, o Advertiser utiliza
sequencialmente cada Advertising Channel para a transmissão de pacotes. Os
dispositivos que visam apenas receber dados através dos Advertising Channel são
chamados scanners. A comunicação de dados bidirecional entre dois dispositivos exige
que eles se conectem entre si. A criação de uma conexão entre dois dispositivos é um
procedimento assimétrico pelo qual um Advertiser através dos Advertising Channel que
é um dispositivo connectable, enquanto o outro dispositivo (referido como Iniciator)
escuta esse Advertisement. Quando um Iniciator encontra um Advertiser, ele pode
transmitir uma mensagem de solicitação de conexão ao Advertiser, o que cria uma
conexão ponto-a-ponto entre os dois dispositivos. Ambos os dispositivos podem então
se comunicar usando os canais de dados físicos. Os pacotes para esta conexão serão
identificados por um código de acesso de 32 bits gerado aleatoriamente.
BLE define duas funções de dispositivo na camada de enlace para uma conexão criada:
o mestre e o escravo. Estes são os dispositivos que atuam como Iniciator e Advertiser
durante a criação da conexão, respectivamente. Um mestre pode gerenciar várias
conexões simultâneas com diferentes escravos, enquanto que cada escravo só pode ser
conectado a um mestre. Assim, a rede composta por um mestre e seus escravos, que é
chamado de piconet, segue uma topologia em estrela. Atualmente, um dispositivo BLE
só pode pertencer a um piconet.

A BLE pode se beneficiar do uso generalizado da tecnologia Bluetooth, uma vez


que a BLE se integra facilmente aos circuitos Bluetooth clássicos e, portanto, é provável
que futuros dispositivos Bluetooth sejam dispositivos de modo duplo. De acordo com as
previsões publicadas, espera-se que o BLE seja usado em bilhões de dispositivos no
futuro próximo. Em vista do papel importante que a BLE pode desempenhar na Internet
das Coisas, o IETF 6LoWPAN WG está desenvolvendo uma especificação para
permitir comunicações IP de ponta a ponta para dispositivos BLE. Por exemplo, os
smartphones equipados com BLE podem atuar como roteadores IP para sensores e
atuadores habilitados para BLE. A conectividade IP pode aumentar drasticamente o
potencial espaço de serviços e valor agregado para dispositivos BLE. Saúde, bem-estar
e esportes constituem um domínio de aplicação onde o clássico Bluetooth já foi usado, e
para o qual BLE constitui uma melhoria. Outra oportunidade para o BLE é a
possibilidade de que o celular possa constituir um controle remoto universal para os
dispositivos domésticos em uma casa. As aplicações inteligentes de energia e segurança
doméstica podem explorar ainda mais os telefones celulares habilitados para BLE.

Portanto, é possível dizer que o BLE - apesar de várias restrições de


implementação que podem reduzir seu desempenho em um cenário real, em comparação
com o esperado teoricamente - emerge como uma forte tecnologia sem fio de baixa
potência para casos de uso de comunicação de single-hop que podem contribuir para
conectar uma quantidade dramaticamente grande de novos dispositivos à Internet das
coisas.

Referências

Specification of the Bluetooth System, Covered Core Package, Version: 4.0; The
Bluetooth Special Interest Group: Kirkland, WA, USA, 2010.

Gomez, C.; Paradells, J. Wireless home automation networks: A survey of architectures


and technologies. IEEE Commun. Mag. 2010, 48, 92–101.

Ludovici, A.; Calveras, A.; Casademont, J. Forwarding techniques for IP fragmented


packets in a real 6LoWPAN network. Sensors 2011, 11, 992–1008.

Haartsen, J.C. The Bluetooth radio system. IEEE Pers. Commun. 2000, 7, 28–36.

Nieminen, J.; Patil, B.; Savolainen, T.; Isomaki, M.; Shelby, Z.; Gomez, C.
Transmission of IPv6 packets over Bluetooth low energy draft-ietf-6lowpan-btle-08.
2012. in preparation.

GOMEZ, Carles; OLLER, Joaquim; PARADELLS, Josep. Overview and evaluation of


bluetooth low energy: An emerging low-power wireless technology. Sensors, v. 12,
n. 9, p. 11734-11753, 2012.

Patel, M.; Wang, J. Applications, challenges, and prospective in emerging body area
networking technologies. IEEE Commun. Mag. 2010, 17, 80–88.

GRUPO DE TELEINFORMÁTICA E AUTOMAÇÃO. Disponível


em:<https://www.gta.ufrj.br/ensino/eel879/trabalhos_vf_2012_2/bluetooth/ble.htm>.
Acesso em 4 de set. 2017.