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A natureza brasílica

entre a visão emblemática


e a revolução científica

da necessidade humana de conhecer o mundo


entre os séculos XVI e XVIII

Paulo de Assunção

Fundação Biblioteca Nacional


2009

1
"Se o que você possui lhe parece insuficiente,
então, mesmo que você possua o mundo,
ainda irá sentir-se infeliz"
Sêneca

"Certos livros são para serem provados,


outros para serem engolidos,
e alguns poucos para serem mastigados e digeridos".
Francis Bacon

"(...)A maioria pensa com a sensibilidade,


eu sinto com o pensamento. Para o homem vulgar,
sentir é viver e pensar é saber viver.
Para mim, pensar é viver e sentir
não é mais que o alimento de pensar(...)".

Fernando Pessoa

“Sapere aude” (ousai saber)

2
Sumário

Apresentação.................................................................................06

Primeiro capítulo
A idéia de natureza da
antiguidade ao período medieval................................................29
1.1 A physis no pensamento antigo...................................30
1.2 A natureza e o vasto império romano........................44
1.3 A ideia de natureza e o pensamento medieval...........50

Segundo capítulo
A natureza e a emergência de novos paradigmas......................65
2.1 A ideia de natureza no limiar da modernidade.........66
2.2 A ideia de natureza no século XVII
e o despertar da razão..................................................85
2.3 O século XVII:
natureza e o pensamento ilustrado...........................106

Terceiro capítulo
Portugal e os deseafios na
construção de um novo modelo de saber..................................124
3.1 Portugal no caminho da ilustração...........................125
3.2 Portugal e o estímulo à História Natural.................142

3
Quarto capítulo
Dos relatos de viagens às
descrições dos naturalistas ........................................................166
4.1 Dos relatos de descoberta
aos registros da conquista.........................................167
4.2 Relatos com princípios
científicos e ideológicos..............................................173
4.3 O trabalho científico e a forma de relatar...............185

Quinto capítulo
A natureza brasílica:
dimensões da descoberta e conquista.......................................208
5.1 A natureza exótica dos trópicos..............................209
5.2 As revelações da natureza tropical.........................221

Sexto capítulo
A natureza brasílica:
das coisas notáveis aos fins científicos .....................................242
6.1 A natureza nos relatos de reconhecimento
do território do século XVII....................................243
6.2 Novos olhares: a riqueza natural capturada
para fins científicos..................................................262

Sétimo capítulo
A natureza brasílica sob investigação ......................................275
7.1 A ocupação do interior
e a riqueza mineral..................................................276
7.2 A natureza brasílica:
pesquisas e debates..................................................312

4
Palavras Finais............................................................................375

Notas............................................................................................381

Referências bibliográficas..........................................................420

5
Apresentação

Os descobrimentos portugueses dos séculos XV e XVI favoreceram o


processo de transformação cultural e científico na Europa. O mundo ampliou suas
fronteiras a novos horizontes e a novas experiências que abririam a mente dos homens
para outros saberes. A exploração marítima apresentou um diferente universo de seres
humanos e espaços naturais diferentes. A partir da experiência dos navegantes, os
Humanistas construíram novos saberes, rompendo os limites do conhecimento
medieval. Esta atitude mental promovida lentamente pelo Humanismo foi fruto de um
conjunto de experiências lentamente engendrado no decorrer do tempo por atores
múltiplos.1
As descobertas marítimas permitiram que o homem português confirmasse ou
não informações debatidas desde a Antiguidade. Surgiu um novo saber geográfico e
as obras de escritores dos séculos anteriores foram revisitadas e questionadas. A
Europa, com destaque para Portugal, orgulhava-se das conquistas e descobertas, pois
conseguiu ultrapassar o saber dos pensadores antigos, mostrando que outras verdades
eram possíveis e estavam diante dos olhos humanos.2
As verdades eternas defendidas no período medieval, que já vinham sendo
questionadas, passaram exame por um mais profundo exame. Cada vez mais os
pensadores sentiam necessidade de mudar de método, valorizando a observação e a
experiência.3 Era preciso encontrar o meio e o modo de compreender e descrever um
mundo natural tão vasto e distinto daquele que se conhecia na Europa. Desde as
primeiras viagens do século XV e XVI, os viajantes procuraram narrar suas
experiências sem preocupações maiores do que informar sobre a experiência
individual em regiões incógnitas. Nos séculos seguintes, havia preocupação quanto a

6
organizar de forma coerente os dados obtidos por meio da escrita e da imagem. A
narrativa dava a dimensão da aventura e das sensações dos viajantes, fixava o espaço
natural da trajetória do viajante pesquisador enriquecida pela ação e pelo olhar.
A natureza tropical apresentava-se exibindo uma quantidade infinita de
espécies diferentes pela variedade de tamanho, cor, formato etc, nem sempre de fácil
descrição. No século XVI, a fauna e a flora, pela diversidade e características,
encantavam ou causavam temor; constituíam novidade ao viajante habituado às
espécies europeias. Por isso, os registros das observações iniciais demonstram a
dificuldade para individualizar cada espécie e encontrar elementos de correspondência
no universo natural conhecido. Os viajantes procuraram deter-se em aspectos
fundamentais, destacando aqueles que consideravam extravagantes. As descrições
fantásticas, em alguns casos, eram extensas em razão dos detalhamentos. O inusitado
deveria ser apresentado com todos os contornos, para causar admiração. No espaço
desconhecido, a idéia da diferença implicava o que fosse considerado “monstruoso”
pela forma, raridade e/ou, exuberância; estes atributos deveriam ser registrados. Além
disso, eram também importantes os hábitos alimentares dos animais e o
comportamento.
Num movimento gradual, os deslocamentos para a América Portuguesa
cresceram. A ocupação esparsa do litoral, lentamente ia tomando força pelo interior.
O movimento iniciado por religiosos e aventureiros no século XVI descortinou um
território imenso, desconhecido e temido. Uma natureza verdejante e diversificada
extasiava os que ousaram desbravá-la pelos seus prováveis mistérios. No contexto
das terras brasílicas, os bandeirantes avançaram pelo território em busca de riquezas e
na captura de índios, contribuindo também para o redesenho dos limites territoriais
portugueses e marcaria o processo de ocupação da América. Este movimento foi
decisivo para a conquista e para a definição do território brasileiro, que se manteve
unido mesmo após a independência. Movimento que também marcaria o
encantamento e o temor de homens tomando conhecimento do mundo natural e suas
potencialidades.4
O século XVII inaugurou o momento em que o homem se dedica à
concretização e realização de mais descobertas e reconhecimentos. Mais instruído, do
ponto de vista científico, o viajante esta apto a esclarecer melhor diversos assuntos,

7
inclusive aqueles relacionados à natureza. Este processo foi conturbado e conflituoso,
em face dos questionamentos da Igreja e de uma mentalidade que se acomodava a um
cenário de novidades. O homem ia se habituando aos novos saberes, mas conscientes
de eles poderiam influenciar no seu cotidiano. Percebia a rápida desintegração do
antigo sistema de conhecimento na medida em que a concepção matemático-natural
se desenvolvia para explicar o mundo.
A visão terrena e humana gerada pelo pensamento racional procurou
desvendar a relação homem-natureza, enquanto realidade essencial. O homem
criticava, duvidava e desconstruía as verdades existentes. Questionava o seu
pensamento, tanto no que dizia respeito às formas como aos conteúdos. A razão era o
espírito crítico humano em ação, capaz de buscar o novo e pensar uma outra verdade
que poderia estar além de sua capacidade momentânea de compreender o mundo que
o cercava.
Francis Bacon, um dos pensadores desse período, entendia que a humanidade
passava por um progresso do conhecimento científico que paulatinamente seria
ampliado em função do pensamento racional e das novas experiências. Para ele, era
importante valorizar o conhecimento por meio da experiência e da crítica, pois este,
de fato, impulsionaria o avanço científico.
A observação direta da natureza faria uma renovação metodológica, na medida
em que os relatos e descrições de viagem divulgassem novos conhecimentos. Como
observou Francis Bacon na obra “Instauratio Magna”, as viagens marítimas do século
XVI seriam responsáveis pelo processo e ampliação dos horizontes europeus, que
conduziria a uma nova ciência.5
Os séculos XVI e XVII revelavam que o homem deveria contemplar e
apreender a realidade a partir de novas bases de percepção. As explicações dos
antigos eram questionadas e invalidadas pelo conhecimento que o homem tinha ao seu
dispor. A sociedade sofrera alterações políticas, econômicas, religiosas e havia um
ambiente propicio ao questionamento. Os séculos XVI e XVII podem ser vistos como
a era da dúvida.
Paolo Rossi, ao analisar o nascimento da ciência moderna, observa as
diferenças que marcavam este momento, pois na natureza dos pensadores modernos
não havia distinção de essência entre os corpos naturais e os corpos artificiais. Para

8
ele, a natureza era questionada também em condições artificiais, pois as experiências
eram construídas pelos pesquisadores a fim de confirmar ou desmentir teorias. Bacon
era contrário à opinião de Aristóteles quando à interação com a natureza ser a única
maneira de exemplificar ou ilustrar as teorias. Neste sentido, o conhecimento
científico aproximava-se da idéia de exploração.6
O homem do século XVIII desejava continuar a desvendar os segredos do
mundo natural e para tanto precisava se aparelhar de elementos que permitissem
realizar o exame e a crítica abalizada. Todavia, antes de emitir qualquer juízo sobre
algum assunto, era essencial conhecer o desconhecido e estabelecer uma ordenação
lógica. Os crescentes estudos desse período dão uma dimensão da dinâmica que
envolve o século XVIII num conjunto de transformações, onde as ciências ganhariam
destaque.
Aumentava a euforia na medida em que o pensamento científico conquistava
avanços e adeptos. Permeava a sociedade européia a convicção de que a ciência e o
raciocínio davam ao homem europeu uma diferenciação em relação aos demais, pois
ele era capaz de compreender as leis que governavam as coisas do mundo, que eram
ao mesmo tempo racionais, naturais e universais.
Os viajantes deixavam a Europa e enfrentavam o Oceano Atlântico. Uma
planície de águas temidas, onde os dias se sucediam sem se avistar terras. O calor, as
tempestades e outros fenômenos naturais davam o ritmo da viagem. A ociosidade nas
embarcações fazia que pelo caminho os aventureiros começassem a fazer os seus
registros, como diários, gravuras ou mapas.7 Os aspectos mais importantes eram
registros, conforme o critério de seleção e a experiência pessoal de cada um deles.
Muitos estavam cientes de que com as informações coletadas poderiam contribuir
para corrigir imprecisões. Isto não era feito com facilidade porque era difícil
compreensão naquela época o espaço e o mundo natural. O importante era traçar
esquemas claros, referências de espécies e itinerários. Os detalhes eram importantes,
exigiam do viajante uma visão global.
No século XVIII havia muito interesse pela fauna e flora existentes sobre a
face da Terra. A multiplicidade delas exigia explicações. A busca pelo
estabelecimento de categorias e classificações foi sendo construída a partir da flora
europeia. O desejo de criar um amplo sistema do mundo natural era evidente.

9
Procurava-se, por meio de inventários e pela taxionomia identificar todas as espécies
e tornar o seu conhecimento possível através das publicações, como a enciclopédia.
Se havia necessidade de conhecer, havia também uma preocupação econômica em
relação ao mundo natural. Era preciso identificar espécies que pudessem ser
exploradas e que fossem úteis aos interesses humanos.
A coleta de amostras em diversas partes do planeta permitiu instituição de
gabinetes naturais que fascinaram a sociedade. Estes gabinetes eram a comprovação
da pujança do mundo natural, ocultos até então dos olhos humanos, sendo necessário
que viajantes naturalistas trabalhassem intensamente para conhecer este universo. A
valoração deste trabalho seria reconhecida pela posteridade. Os relatos se
transformaram em referências para o conhecimento científico, pois a busca pela
verdade e pelo saber conquistou cada vez mais espaço.
A experiência pessoal era importante, mas ficava cada vez mais evidente que o
aprofundamento do conhecimento se sobrepunha ao mundo das sensações. Por
conseguinte, era importante que o método de observação fosse adequado para explicar
as coisas do mundo natural e a relação que o viajante naturalista estabelecera com a
natureza. Neste sentido, o foco se voltava para a construção de uma visão global e
sistêmica. O viajante simplesmente era o meio pelo qual a descrição, objetiva e clara,
ganhava a forma escrita ou de imagens, sendo este material a base para diferentes
reflexões sobre o mundo natural e a ação humana.
Os registros feitos por estes viajantes, antes de serem um ponto de chegada,
eram um ponto de partida para as futuras explorações da natureza, pois elas se
mostravam infinitas e inesgotáveis. Os trabalhos dos estudiosos caminharam na
direção do aprofundamento numa ordem inteligível do mundo natural, caminho que
continuaria sendo trilhado para decifrar o livro da natureza.
Entre os séculos XVI e XVIII ocorram transformações importantes na relação
do homem com a natureza. A Europa caminhou de uma leitura racionalista empírica
para uma abordagem racionalista científica. Essa mudança adveio de novas
observações e da leitura dos fenômenos do mundo natural. Como defendia René
Descartes, era preciso romper com a subjetividade humana e possibilitar que os
fenômenos da natureza fossem compreendidos por princípios matemáticos,
constituídos a partir do conhecimento empírico do mundo.

10
A expansão européia alimentou a curiosidade intelectual e científica dos povos
europeus. A relação comercial de troca conduziu a uma inevitável circulação cultural.
Produtos e cultura se envolviam na sedução da troca. As viagens dos descobrimentos
iniciaram o movimento de deslocamento para a América, levando o homem europeu a
conquistar um território desconhecido e inexplorado. Um mundo diferente e povoado
de incertezas.
Os deslocamentos para as novas terras americanas foram lentos, em face das
dificuldades do mar e das precárias condições de subsistência nas terras tropicais. O
desejo de obter riqueza fácil seduziu aventureiros e exploradores e os convenceu a
visitarem as costas das terras desconhecidas.8 Um aprendizado lento, que passava
pelas dificuldades e lições que o Oceano impunha aos viajantes e que continuaria do
outro lado do Atlântico, no processo de aprendizagem e convívio com o mundo
natural.
O século XVIII, marcado pela exploração aurífera na região das Minas Gerais,
estimulou os deslocamentos de diversas áreas da colônia e da metrópole para aquela
região. A idéia de enriquecimento rápido e fácil alimentou os sonhos de muitos que
seguiram para o local, estimulando movimento de homens e de mercadorias.
Circulavam produtos e idéias. Rapidamente, a dimensão do interior da América
Portuguesa conquistou uma nova perspectiva para metrópole. A natureza das colônias
poderia oferecer muito mais recursos do que normalmente oferecia.
No contexto colonial português, o século XVIII pode ser visto como um
momento de reconhecimento e exploração científica do império. Era preciso conhecer
mais detalhadamente as colônias, observando e analisando quais eram as suas
potencialidades. Neste sentido, as viagens filosóficas foram empreendidas com o
intuito de realizar uma leitura empírica, direcionado o olhar para mundo natural
preservado em suas extensas colônias, uma delas o Brasil, a fim de contribuir
significativamente, não só para os interesses econômicos portugueses, como também
para os estudos científicos. As pesquisas foram sendo construídas por mãos múltiplas.
Cada novo estudo publicado estimulava a realização de novas pesquisas, cujo olhar
deveria estar atento aos padrões científicos. As discussões sobre o tema iam se
ampliando como também o incentivo e a realização de coleta de novas espécies, além
dos estudos em jardins botânicos e laboratórios.

11
Os registros sobre a natureza aparecem nos relatórios oficiais de governadores
das capitanias, caracterizando espécies em suas singularidades, ou fazendo menções
dispersas e fragmentadas. No exercício de seu ofício, cada servidor da coroa procurou
na sua correspondência referir suas ações com acréscimos sobre as áreas em que
atuavam. Assumiam, às vezes, uma posição pró-ativa sugerindo o aproveitamento de
recursos da região.
No século XVIII os trabalhos sobre aspectos da natureza são mais abundantes.
Além do interesse pessoal de alguns registros, havia interesse da metrópole em
promover a exploração dos territórios coloniais, assim como definir os limites das
fronteiras, para garantir o controle sobre elas e evitasse contendas com outras nações.
As negociações que conduziram à celebração do Tratado de Limites (1750)
confirmavam a extensão de uma vasta colônia na América, praticamente
desconhecida nos seus recursos naturais. Da mesma forma, o Tratado de Santo
Idelfonso (1777), cujo objetivo era definir os limites das terras portuguesas e
espanholas, determinou a formação de comissões compostas por astrônomos,
geógrafos, engenheiros, desenhadores e naturalistas, para se dirigirem ao local a fim
de realizarem os estudos para delimitação.9 Território que poderia esconder mais
riquezas e favorecer o desenvolvimento da metrópole.
Na segunda metade do século XVIII, na medida em que a exploração aurífera
diminuía, o governo lusitano procurou agir no sentido de reconhecer melhor as
potencialidades das suas colônias. O desenvolvimento da ciência e das pesquisas
científicas estimulou o governo a enviar exploradores ao Brasil. Eram, na verdade,
viajantes movidos pelo objetivo de coletar dados sobre espécies para serem estudados
na Europa e que tivessem algum valor econômico. Um novo motivo levava o homem
a se deslocar para as terras do além-mar.
Neste contexto, o governo lusitano estimulou a vinda de pesquisadores para a
América Portuguesa, com o intuito de estudar as potencialidades agrícolas e minerais
das terras, com um detalhamento maior. Estas viagens foram empreendidas por
membros da Academia Real das Ciências de Lisboa que registraram em detalhes o
que haviam identificado e estudado. A maior circulação de informações fez que os
materiais produzidos fossem veiculados em revistas e publicações das mais variadas.

12
Muitos viajantes que atravessaram rapidamente as terras brasílicas elaboraram
relatos passíveis de serem questionados, por transmitirem impressões superficiais,
nem sempre abalizadas, sobre a realidade social e política. De fato, o conhecimento
aprofundado sobre as terras tropicais só viria após uma longa permanência no país.
Era necessário conhecer a língua, usos e costumes dos habitantes para se empreender
uma análise mais profunda. Contudo, as narrativas de viagens, mesmo com
imprecisões, possuíam um aspecto dinâmico e singular para compreender as imagens
formadas do Brasil e principalmente dos condicionantes que envolviam a questão do
deslocamento em momentos diferentes da nação brasileira.
Os viajantes naturalistas forneciam relatos técnicos às instituições para as
quais prestavam serviço. Ao retornarem à terra de origem, muitos proferiam palestras
sobre suas experiências como viajantes, publicavam artigos em jornais e revistas
sobre o tema. Os trabalhos, submetidos a uma seleção editorial, deveriam satisfazer
quanto à objetividade científica. O conjunto de informações deveria dar ensejo à
continuidade das pesquisas. Era importante teorizar e sistematizar uma prática,
visando ao avanço nos conhecimentos técnicos sobre a natureza.
Em suma, a viagem implicava comunicação. Ao fim do deslocamento, havia
necessidade de comunicar as impressões. Todos aqueles que viajavam tinham algo a
dizer. Os registros dos navegadores que percorreram o litoral brasileiro forneceram
informações sobre o Brasil. Rios, montanhas, detalhes sobre a costa foram observados
e lentamente a história dos deslocamentos ia sendo traçada.
A atração que o mundo natural dos trópicos exerceu sobre os estudiosos era
imensa. A diversidade da flora, da fauna e de minerais, nunca antes vistos, indicava
uma região que poderia oferecer muitas descobertas e revelar segredos. Os registros
dos naturalistas nas últimas décadas do século XVIII seriam de fundamental
importância para as novas expedições que visitariam as terras brasileiras no decorrer
do século XIX.
Os exploradores, religiosos, viajantes, naturalistas, dentre outros que passaram
pelas terras da América Portuguesa demonstraram um olhar atento para a terra, seus
habitantes, suas crenças e o mundo natural. Os primeiros registros feitos por aqueles
que conheceram a terra visavam basicamente a relatar as experiências e mostrar as
diferenças, realizando filtros e restrições em função da posição que ocupavam. A

13
aparente inferioridade do mundo natural americano seria corrigida em parte pelos
registros dos viajantes naturalistas. No século XVIII, era possível identificar
semelhanças entre as espécies da América com algumas africanas e com aquelas
existentes na Europa. A natureza ganhava importância dentro de um sistema,
confirmando a importância da construção de uma visão global.
Pelas instruções dadas aos naturalistas, o olhar deveria estar voltado para o
diferente ou exótico. As espécies que fossem similares àquelas encontradas na Europa
deveriam receber menor atenção. Os naturalistas do século XVIII realizaram registros
mais objetivos e sintéticos, procurando classificar e medir, conforme a formação que
recebiam e as instruções que orientavam suas pesquisas. Nem sempre conseguiram
explicar tudo o que viram, mas registraram como empreendiam suas práticas,
coletando e traduzindo o que avistavam. Quando não era possível descrever ou enviar
exemplares, os desenhos cumpriram a função de fixar em detalhes a imagem das
experiências.
Muitos foram os viajantes que passaram pelas terras brasílicas entre o século
XVI e XVII. Poucos deixariam por escrito as suas impressões. Cada um deles, com
olhar atento para a natureza, tentou compreender e descrever as singularidades do
mundo natural, revelando sua necessidade de compartilhar a descoberta e a novidade.
Não só aqueles que vinham de outras partes do mundo exploraram a natureza
procurando respostas. O interesse pela potencialidade dos recursos naturais dos
trópicos também estimulou muitos homens nascidos na colônia a empreenderem
investigações a fim de reconhecer as espécies das terras brasílicas. Os movimentos
pelo interior do sertão e as ações de bandeirantes revelam o interesse por obter algo a
mais que a natureza pudesse oferecer.
As incursões de colonos, religiosos, viajantes e naturalistas foram registradas,
em alguns casos, por meio de relatórios, memórias e diários de viagem, muitos deles
tendo como foco apresentar aspectos da natureza brasílica. Por meio de suas penas, a
representação do mundo natural ganhou contornos mais nítidos, contribuindo para
afirmar a identidade da terra brasílica.
No século XVIII, a História Natural se destacou no pensamento iluminista.10
O método científico de conhecimento da natureza estava difundido e implicava para o
estudioso saber observar e experimentar. Os intelectuais do período estavam em

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consonância com o movimento enciclopedista e desta forma havia uma preocupação
intensa quanto a identificar novas espécies e classificá-las, a fim de organizar ou
ordenar o mundo natural conforme o modelo científico.
A obra do naturalista sueco Lineu, intitulada “O Sistema da Natureza”, foi a
principal referência para a maioria dos estudiosos. Segundo o autor, era fundamental
coletar amostras, descrevê-las e posteriormente analisá-las de forma detalhada. O
intuito de Lineu era mostrar o complexo sistema da natureza, sendo necessário para
tanto uma catalogação universal. Este trabalho hercúleo foi sendo construído por
colaboradores que o auxiliariam na catalogação, assim como o trabalho de outros
viajantes que tanto foi útil no passado, como contribuiu para a montagem deste
sistema de Lineu. No decorrer do século XVIII, identifica-se uma série de expedições
exploratórias de naturalistas que pretendiam ampliar as informações sobre a natureza,
cujo resultado foi a catalogação de várias espécies da natureza.11
Para os viajantes naturalistas, o registro era uma necessidade, ou
obrigatoriedade, por estarem a serviço de alguma instituição a fim de empreenderem
uma missão. Contudo, apesar da busca da objetividade científica, cada relato de
experiência de viagem é particular e único.
Francisco de Carlos Teixeira da Silva ao analisar a interdependência entre
Natureza e Cultura, destacou que a partir do final do século XVIII há uma tendência
para se pensar a “natureza em oposição ao homem ou à ‘cultura’”. O autor entende
que a natureza deve ser concebida “não mais como um dado externo e imóvel, mas
como um produto de uma prolongada atividade humana”.12 Neste sentido, a natureza
passou a ser visível no conjunto das relações históricas, pela admiração, pelo medo ou
pelo olhar científico.
Maria Odila da Silva Dias, em artigo publicado na Revista do Instituto
Histórico e Geográfico, chamou a atenção para os aspectos da ilustração no Brasil,
demonstrando que havia ciência no Brasil no século XVIII.13 Para a historiadora havia
uma ciência voltada para questões práticas como a agricultura, os recursos naturais e
um ambiente propício para a investigação da flora e da fauna. A circulação de
estudantes entre a metrópole e a colônia favoreceu este ambiente, como pudemos
ressaltar anteriormente. A autoria entende que a elite intelectual "luso-brasileira" se
formou seguindo o modelo da corrente iluminista da época. Dentre as características

15
presentes nesse grupo, a preocupação com a ciência se destaca, tendo em
consideração que o estudo deveria servir a interesses econômicos. Considerando a
obra de Ribeiro Sanches, a autora afirma que havia uma predisposição para o interesse
de novos campos do saber, que emergia a partir do crescimento da burguesia e da
valorização do trabalho, da indústria e do comercio.
Identificar nesse momento um embate entre os princípios aristocráticos e o
ideal liberal da burguesia. A propensão para a ampliação dos conhecimentos sobre a
natureza se evidenciava como uma das formas de criar alternativas à difícil conjuntura
que Portugal apresentava. O foco se dirigia para identificar as possibilidades de
exploração natural e os recursos que a o reino animal, vegetal e mineral poderia
oferecer. A grande questão era que Portugal, e em especial a colônia brasílica, vivera
em função da exploração aurífera, não avançando nas técnicas agrícolas para
produção em larga escala. Este problema deveria ser enfrentado a partir da discussão
sobre a melhoria da produção da colônia, visando ao aumento de lucro para a
metrópole. Acreditava-se que, por meio dos conhecimentos científicos, se conseguiria
resolver problemas sociais. Desta forma, Portugal promovia lentamente uma revisão
da estrutura em que se assentara a sociedade e o conhecimento, mudanças que
provocariam transformações irreversíveis, principalmente no campo da ciência.
Thomas Samuel Kuhn nas obras “A Revolução Copernicana" (1957) e a
“Estrutura das Revoluções científicas” (1962) analisou a ciência a partir de uma
perspectiva histórica, diferente dos estudos até então realizados. Em 1974, escreveu
um ensaio intitulado “Reconsiderando os paradigmas”, onde fez algumas avaliações
sobre suas observações, discutindo a questão das descontinuidades históricas. O
trabalho de Thomas Khun ganhou ressonância em função de sua idéia de paradigma
científico e da impossibilidade de mensurá-lo. O pesquisador ao estudar a história da
ciência identificou que havia duas concepções de ciência, designadas por ele como:
perspectiva formalista e a outra historicista. A primeira concepção via a ciência como
uma prática racional e controlada, enquanto a segunda entendia a ciência como uma
atividade concreta que acontecia ao longo do tempo, por conseguinte, a cada
momento possuía particularidades inerentes ao contexto.
Para Kuhn, a ciência, na concepção historicista, desenvolvia-se a partir da
definição de um paradigma, gerando a ciência normal, que é seguida por uma crise,

16
que por sua vez leva a uma revolução científica e ao estabelecimento de um novo
paradigma. Neste sentido, a idéia de paradigma para Thomas Kuhn era o de um marco
aceito de forma geral por toda a comunidade científica, que compartilhava dos
mesmos elementos para realizar a atividade científica. Esta tinha como intenção
esclarecer as falhas do paradigma ou analisar as suas conseqüências.
O estudioso entendia que o período de ciência normal era aquele em que se
desenvolvia a atividade científica, tendo como referência um paradigma que a
comunidade científica queria comprovar e colocar à prova. Contudo, ele alertava para
o fato de que o paradigma não conseguia responder a todos os problemas no decorrer
de transformação da sociedade. Por decorrência, o paradigma, em um dado momento
era posto em questão. O paradigma, não atendendo a resolução dos problemas do
homem, entrava num processo de crise, fazendo acontecer a mudança para um novo
paradigma. A este movimento de mudança Kuhn designava de revolução cientifica. O
novo paradigma inicia um novo ciclo, em que as etapas acima mencionadas vêm a se
repetir.
Na perspectiva historicista, sugerida por Kuhn, as teorias interagiam com a
realidade, promovendo um debate. Esse movimento de inter-relação e troca permitia
compreender que o cientista não trilhava apenas uma estrutura absolutamente
racional. Para o autor, este interpretava o mundo conforme os jogos de interesses,
sendo influenciado pela coletividade de cientistas, pelos grupos sociais, por questões
éticas, ou seja, o cientista e seu trabalho só ganhavam dimensão a partir do contexto
histórico-sociológico em que se desenvolvia. Como salienta Paolo Rossi:
“A história da ciência pode servir para nos tornar conscientes do fato de que
tanto a racionalidade, como também o rigor lógico, a possibilidade de controlar as
afirmações, a publicidade dos resultados e dos métodos, a própria estrutura do saber
científico como algo que é capaz de crescer sobre si próprio, não são categorias
perenes do espírito nem dados eternos da história humana, mas conquistas históricas,
que, como todas as conquistas, por definição, são susceptíveis de se perderem.”14
Considerando as ponderações destes autores, entendemos que o século XVIII,
no contexto português, passou por mutações que conduziram ao estabelecimento de
novos paradigmas, na medida em que se buscava responder aos problemas impostos
pela dinâmica da sociedade. Principalmente, porque como destacamos anteriormente,

17
o trabalho de pesquisa científica estava diretamente ligado ao jogo de interesse do
Estado e dos grupos sociais.
Michel de Foucault, em “As palavras e as coisas” defende que a produção do
saber e a investigação da natureza devem ser estabelecidas a partir de três momentos.
O primeiro onde o saber da semelhança preponderava (século XVI), o segundo
designado por clássico, em que as transformações científicas ocorrem e conquistam
destaque (século XVII e XVIII) e o terceiro momento nomeado como o período de
“condições de possibilidade” quando o processo cientifico entra numa fase mais
elaborada (final do século XVIII e século XIX).15
É neste sentido que consideramos importante analisar o período, sem nos
fixarmos na idéia de uma revolução científica tradicional. Entre os séculos XVI e
XVIII, o jogo de interesses do mundo se alterou, fazendo que os homens buscassem
soluções para as suas necessidades materiais e intelectuais. A idéia de uma
cientificidade foi construída lentamente por múltiplas mãos que não tinham, por
vezes, a consciência do papel transformador que assumiriam. Por decorrência, pensar
a relação do homem com a natureza impõe uma leitura da conjuntura histórica e social
em que as idéias foram produzidas. O que talvez chame mais atenção é o fato da
contínua necessidade humana de conhecer o mundo. Conforme afirma Bruno Latour,
“não existe história das ciências sem que o historiador encontre a multiplicidade de
atores, de recursos e de apostas aos quais ela se misturou [...] a história social das
ciências dá-se antes por fios, nós e percursos”.16
Joaquim Barradas de Carvalho, ao discutir a história como ciência, lembra
que, como observou Lucien Febvre, o anacronismo era um dos maiores perigos para o
historiador. Contudo, este “olha o passado com uma perspectiva que lhe é
forçosamente dada pelo presente, pela sua vida presente, pela sua condição de homem
do seu tempo”.17 Compreender o presente pelo estudo do passado, tem sido uma
afirmativa comum, quando se pergunta por que estudar a História. O historiador que
estuda o passado busca compreendê-lo a partir de uma perspectiva presente, como
salienta Joaquim Barradas de Carvalho: “São os nossos «olhos» de homens do
presente que «vêem» os acontecimentos passados, que os seleccionam, que os
valorizam, em função da problemática das diversas ciências humanas, das diversas
ciências sociais”.18

18
Nas últimas décadas do século XX a historiografia mundial sofreu um
movimento de expansão significativo, em termos de abordagens, enfoques, fontes e
objetos, tendo como preocupação buscar relacionar o conhecimento da ciência
histórica com outras áreas das ciências humanas.
Por conseguinte, estudar a questão do mundo natural, abordando aspectos que
partem de uma visão emblemática para uma visão científica, faz parte de uma seleção
que valorizamos e julgamos necessário de ser considerada em face das discussões que
o homem contemporâneo enfrenta no início do século XXI. O ser humano, cada vez
mais, observa e estuda a natureza ciente de que seu conhecimento é reduzido
considerando a complexidade e as manifestações incontroláveis do mundo natural.
Debruçar-se na idéia de como a natureza foi articulada pelos homens no decorrer do
processo histórico é compreender como pensamos e nos posicionamos perante o
mundo natural, nos dias atuais.
O objetivo desta pesquisa foi realizar um estudo crítico sobre a forma e o
conteúdo dos relatos de viagens, cartas, documentos oficiais, dentre outros, que
descreveram as características da fauna e da flora da América portuguesa, produzidos
pelos homens entre o século XVI e XVIII, captando como os relatos contribuíram
para a construção de um pensamento científico. Procurou-se desmontar os discursos e
analisar como os homens, em diferentes momentos, captaram a diversidade e a
novidade da natureza brasílica.
Para tanto, procuramos estudar para compreender a idéia de natureza e como
se processou a leitura e a representação da natureza, destacando a forma de pensar o
mundo natural no período compreendido entre os séculos XVI e XVIII. Neste
período, o pensamento científico se estruturaria e geraria uma série de reflexões que
ampliariam o universo de conhecimento humano sobre a natureza e seus fenômenos,
revelando uma mentalidade em transformação. Conforme afirma Chartier:
“compreender as séries de discursos na sua descontinuidade, desmontar os princípios
da sua regularidade, identificar as suas racionalidades particulares, supõe em nosso
entender ter em conta os condicionamentos e exigências que advêm das próprias
formas nas quais são dados a ler”.19
A história cultural foi utilizada como fundamento da abordagem teórica e
metodológica, com ênfase no significado de conceitos, como representações e práticas

19
culturais explicadas por Roger Chartier. Procuraremos destacar como as
representações resultam em apropriações de práticas, símbolos e signos definidores de
comportamentos, atitudes e maneiras de pensar.
Norteamos nossa reflexão sobre o tema a ser estudado, levando em
consideração o conceito de representação usado por Roger Chartier que enfatiza os
sentidos particulares historicamente determinados, entendendo que há “uma relação
compreensível entre o visível e o referente por ele significado” ao mesmo tempo em
que esta relação “é confundida pela ação da imaginação”.20 Mesmo escolhendo uma
abordagem em história cultural, não foi nosso objetivo nos prender a este ou àquele
método de investigação, já que a nova história cultural tem diferentes modelos. A
utilização das narrativas de viagem e notícias de viajantes naturalistas, como fontes,
visa a identificar as possíveis leituras, por vezes complementares sobre as terras
brasílicas.
O mundo natural era um dado concreto e inédito que os registros incorporaram
e deram significado na razão direta à experiência de vida, os quais foram se alterando
com as transformações científicas. A natureza, escassamente conhecida e pouco
dominada no século XVI, apresentava-se nos textos ao mesmo tempo grandiosa e
perturbadora. Em muitos relatos, os comentários, as observações e até mesmo o hiato
desta informação nos escritos demonstram uma atitude frente ao mundo natural, que
permite compreender o referencial cultural que estes utilizavam para fazer suas
observações.
Silva Dias afirma que a preocupação com a natureza das novas terras
começava a ocupar um espaço maior no desenvolvimento do conhecimento europeu,
promovendo transformações no próprio conceito de natureza e uma revalorização do
saber sobre a ordem e leis naturais,21 até o presente pouco investigado. A natureza,
como observou Silva Dias mostrava-se, essencialmente, igual a si própria em todo o
“orbe”.22
A intensificação das viagens, os interesses comerciais, as disputas entre as
potências européias fez que as terras brasílicas fossem paulatinamente conhecidas e
descritas por diferentes autores. Discursos que se entrelaçam e constroem uma visão
do mundo natural. Neste sentido, tivemos como preocupação abordar os mecanismos
de percepção do mundo natural. Como a natureza passou a ser parte integrante e

20
integrada de um universo de circulação cultural europeu nos primeiros registros de
reconhecimento e de descrição das terras conquistadas? Como se estrutura o
pensamento científico na compreensão da natureza das terras da América Portuguesa?
Estas são indagações que tivemos como intenção investigar, dando continuidade aos
estudos sobre a natureza e a ciência. Apesar de os trabalhos recentes resgatarem um
debate sobre a percepção da natureza, ela constitui um tema polêmico e abrangente,
como também pouco conhecido no que se refere ao período colonial.
A diversidade de trabalhos de estudos sobre a América Portuguesa, nos últimos
anos, revela que o período colonial permite ainda um amplo campo de estudos. Os
trabalhos historiográficos evidenciam cada vez mais as diferentes opções de correntes
teóricas, de recortes, pontos de observação, de escala por parte do historiador, dentre
vários aspectos. O conjunto de leituras e de contraposição de opiniões revela o
processo de amadurecimento epistemológico, na medida em que a historiografia vai
se definindo enquanto campo científico. Os trabalhos que têm contribuído para o
conhecimento da realidade e a dinâmica do sistema colonial português são diversos e
sofreram alterações no decorrer do século XIX até os dias atuais.
A carência de trabalhos sobre o tema justifica a necessidade de estudar mais
detalhadamente os registros sobre o mundo natural no Brasil. Recentemente, na obra
“A terra dos brasis”, analisei a percepção de natureza dos primeiros jesuítas,
contribuindo com reflexões importantes sobre o mundo natural e a forma pela qual os
religiosos o assimilaram em razão direta dos seus interesses e o do plano da metrópole
para conquista do território.23 Contudo, o trabalho ficou circunscrito ao século XVI e
tem como documentação principal as impressões dos jesuítas, que não foram os
únicos a tecerem informações sobre a fauna e a flora brasileira.
Maria Elice Brzezinski Prestes, em “A investigação da natureza no Brasil
Colônia”, contribui com reflexões importantes sobre o desenvolvimento das ciências,
em especial no final do século XVIII e início do século XIX, bem como sobre os
estudos da natureza realizados no Brasil colônia, por Manuel da Câmara. Apesar das
análises contemplarem considerações sobre a forma de compreensão do mundo
natural, elas não tecem análises específicas sobre as múltiplas percepções da natureza
entre os séculos XVI e XVIII, captando as múltiplas leituras e as transformações que
ocorreram nesse processo. Maria de Fátima Costa, em “História de um país

21
inexistente”, também realizou um estudo sobre a natureza e a leitura científica,
resgatando os relatos sobre o pantanal e as dificuldades de explicar uma região de
geografia ímpar, ora paradisíaca ora inóspita ao extremo.
Este tema na historiografia contemporânea tem se enriquecido com os
brilhantes trabalhos de cunho filosófico de Serge Moscovici, “La societé contre
nature” e “Essai sur l´histoire humaine de la nature” e a abordagem histórica de
Robert Lenoble em “Histoire de l´idée de nature".
Alain Corbin, resgatando o imaginário social, analisa nas suas obras “ Sabores
e oddores” e “Território do vazio: a praia e o imaginário ocidental”, a sensibilidade
dos odores e as percepções sobre o mar discutindo as formas de apreensão e leitura
que os homens do século XVIII e XIX faziam a respeito do mundo natural.
Dominique Bourg e Stanilas Breton abordam o tema da natureza em “Les sentiments
de la nature”, discutindo o pensamento cristão perante a natureza; as reflexões destes
autores tendem a questionar o mito da simbiose homem e natureza e como a questão
da natureza pode ser entendida na modernidade.
Donald Charlton em “New Images of the natural World: a Study in European
Cultural History, 1750-1800”, realizou um estudo sobre as diversas imagens, por
vezes antagônicas, criadas em relação ao mundo natural. Frederick Turner, na obra “O
espírito Ocidental contra a natureza”, empreendeu uma investigação aprofundada
sobre as diferentes formas de percepção da natureza no mundo Ocidental; refletiu
sobre a forma como se processa a representação estrutural de domínio e conquista que
o homem estabeleceu na sua complexa relação com a natureza. A questão de se
pensar a natureza, por ocasião das descobertas marítimas, foi analisada por David
Arnold na sua obra “The Problem of Nature: Environment Culture and European
Expansion (new perspective on the past)”, que apresenta a diversidade natural do
mundo recém-reconhecido sendo incorporado ao referencial de natureza europeu que
tenta decifrá-lo.
Robert Delort, ao analisar a história dos animais em “Les animaux ont une
histoire”, empreendeu um estudo sobre como a fauna, em especial, foi sendo
incorporada ao universo das representações e categorias que os seres humanos
criaram. Seguindo uma linha cronológica Jean-Marc Drouin, em “L´ecologie et son
histoire”, Jean-Paul Deléage, em “Une Histoire de l´Écologie”, Pascal Acot, em

22
“História da Ecologia”, e Carole Crumley em “Historical Ecology. Cultural,
Knowledge and Changing Landscapes”, estabelecem a evolução do pensamento sobre
a ecologia nas sociedades, revelando as preocupações do homem no que tange à sua
possibilidade existencial, fruto dos debates e da conscientização sobre a preservação
do meio ambiente.
Keith Thomas, na obra “O homem e o mundo natural”, analisa a relação do
homem com os animais e as plantas, considerando o contexto da Inglaterra entre o
século XVI e XVIII. O estudioso, baseando-se em fontes literárias, faz um exame de
como se processou a mudança da atitude humana em relação à natureza. O autor
identifica que no decorrer do século XVII, o crescimento da área rural e urbana
provocou a derrubada de matas, buscando ampliar as áreas agricultáveis. Este
movimento de expansão e destruição que está na base da Revolução Industrial gerou a
partir da segunda metade do século XVIII uma atitude diferente. As transformações
ocorridas no mundo natural, promovendo a destruição de grandes áreas e o
desaparecimento de espécies, fizeram emergir um sentimento de valorização da
natureza, que conduziu ao questionamento da forma de exploração que se fazia.
Estes trabalhos, citados aqui apenas como exemplos, dentre uma ampla
produção intelectual, abordam a idéia de natureza e a relação da sociedade com a
natureza nas suas rupturas e nas escolhas humanas, dando ênfase ao estudo das
mutações sociais, seja pelas transformações da técnica, da política ou da economia.24
Alguns trabalhos contemplam o estudo de registros dos viajantes e seu
impacto no pensamento científico do século XIX. Dentre esses diversos trabalhos,
podemos destacar as obras mais recentes de Carlos Cardon, “Los naturalistas en la
America Latina”, Flora Süssekind, “O Brasil não é longe daqui”, que delineia como
os registros dos cientistas são incorporados às obras literárias do período. No que
concerne às questões da natureza e do meio ambiente na América, especialmente a
América do Norte e México, são importantes as obras de Gunther Barth “Fleeting
Moments: Nature and Culture in American History”, Arthur Ekirsch, “Man and
Nature in America”, John Stilgoe “Common Landscape of America: 1580-1845”, que
estabelecem reflexões profundas sobre a interação cultura e natureza na construção da
sociedade, dentre outros.

23
Estas obras, aqui apresentadas, são alguns dos trabalhos mais expressivos que
tiveram por meta pensar, discutir e analisar a natureza em diversos períodos e espaços
geográficos. Todavia, os trabalhos não apresentam o resultado de um estudo
sistemático sobre a natureza brasileira e a construção da história da ciência entre os
séculos XVI e XVIII.
A proposta deste trabalho é fazer uma análise sobre o processo de estruturação
das formas de representação do mundo natural e o processo de transformação do
discurso sobre a fauna e a flora, suas permanências e rupturas, num momento em que
o pensamento científico se estruturava na Europa.
Para atingir os objetivos propostos nesta pesquisa, mergulhamos numa
pesquisa documental e bibliográfica sobre o tema. A vasta quantidade de obras que
tratam da questão da natureza e os diferentes relatos que foram elaborados nesse
período nos levaram a selecionar os principais registros que atendessem ao tema
central da pesquisa. Tivemos como preocupação explorar os fundos de documentos e
obras existentes na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Contudo, outras bases
documentais foram consultadas, tais como: Biblioteca Nacional de Lisboa, Arquivo
Nacional da Torre do Tombo, Instituto de Estudos Brasileiros (IEB/USP), Biblioteca
Mario de Andrade.
Foi dado um tratamento às fontes consultadas, visando, dentro da diversidade
delas, a uma síntese sobre o tema proposto e a fornecer ao leitor uma visão global e
progressiva sobre a idéia de natureza e como ela foi registrada por diferentes pessoas.
Desta forma, tivemos como intenção delinear algumas reflexões de como ocorreu a
leitura da natureza entre os séculos XVI e XVIII, destacando detalhes significativos
para a compreensão de como se processa uma alteração na forma de registrar e
representar a natureza das terras brasílicas. A fim de dar um melhor entendimento
sobre os registros, apresentamos algumas imagens que ilustram a análise e as
informações que recolhemos.
A consulta a uma bibliografia específica em língua estrangeira foi fundamental
para aprofundar os conhecimentos sobre a questão do mundo natural, como também
os artigos publicados e os periódicos. Porém, não foi possível esgotar a bibliografia,
em face do tempo definido para a realização da pesquisa. Procuramos assim refletir
sobre os aspectos mais relevantes que possam contribuir para outros estudos nessa

24
área do conhecimento.A pretensão deste estudo foi o de criar um sistema de
inteligibilidade, interrogando a questão do mundo natural a partir de uma preocupação
do presente. Sabemos que a arte da narrativa é um elemento importante para a análise
objetiva da documentação histórica. Como afirma José Carlos Reis “Toda escrita
histórica é narrativa (mise-en-intrigue)”.25 Estamos cientes também que o historiador
escolhe e constrói o seu objeto de pesquisa e interroga o passado a partir de uma
abordagem possível. Ao escolher, interrogar, conceituar, analisar e construímos
construção teórica, que apresenta experiências vividas e organizadas numa lógica.
Desta forma, procuramos reorganizar e ressignificar alguns aspectos da cultura
entre o século XVI e XVIII. A ciência valorizava a clareza, o conceito, a
classificação, mas havia limites para o conhecimento. A narrativa aponta para o grau
de inteligibilidade sobre o objeto. Como procuramos demonstrar, as transformações
que conduziram ao pensamento científico representavam de fato uma mudança de
paradigmas. Uma mutação que vinha sendo processada com movimentos de avanço e
recuos, revelando um processo complexo na construção de conhecimento. Como bem
observou Kuhn a ciência foi um empreendimento produzido por uma comunidade
científica em movimento se avanço e recuo.
Da mesma maneira ressaltamos, como já havia lembrado Ana Maria Belluzo,
que o reexame da contribuição dos viajantes é de fundamental importância para a
historiografia, pois eles nos legaram “páginas fundamentais de uma história que nos
diz respeito”. 26
Neste sentido, concebemos este trabalho em sete capítulos. No primeiro
tivemos a preocupação de discutir a idéia de natureza no mundo antigo e no período
medieval, destacando como a ideia de natureza (physis) foi compreendida pelos
primeiros pensadores e como o mundo natural foi estudado e compreendido a partir
de pensadores como Aristóteles e Plínio que serviram de referência para os
pensadores medievais.
Num segundo capítulo, tivemos como objetivo as transformações ocorridas a
partir do século XVI que influenciaram a leitura e compreensão da natureza. Para
entender melhor esta questão, abordamos alguns aspectos do ambiente científico que
se instaurou a partir do século do XVI e as diferentes contribuições que ocorreram até
o século XVIII. Para tanto, optamos por empreender uma visita ao contexto da ciência

25
e das sociedades científicas que conquistam importância a partir daquele momento.
Procuramos apresentar alguns importantes aspectos do desenvolvimento da História
Natural e o aparecimento das novas experiências. Desta forma, tivemos a pretensão de
destacar a presença de uma comunidade científica que atuava com vigor na Inglaterra,
França e Alemanha, e que a partir da segunda metade do século XVIII começou a se
fazer presente em Portugal.
No terceiro capítulo nos debruçamos no contexto português, destacando
aspectos dos estudos científicos que aconteciam em Portugal. Salientamos as
dificuldades que o Estado enfrentou em função das interferências de um pensamento
religioso arraigado na sociedade e que dominava a Universidade de Coimbra.
Destacamos as transformações ocorridas no decorrer do século XVIII, principalmente
as ações de Sebastião José de Carvalho Melo no sentido de reformular os estatutos da
Universidade de Coimbra. Momento que coincide com a presença de estudiosos
estrangeiros que contribuíram de maneira significativa para a quebra de paradigmas
do pensamento tradicional português.
Num quarto momento, procuramos discutir como as formas de narrativa
passaram por transformações. Dos registros mais abertos, sem grandes preocupações
sobre a forma e a veracidade do que era apresentado, passou-se para registros mais
mediatizados, que orientavam tanto o modo de descrever a natureza, como também
como coletar as amostras a serem enviadas a Portugal.
No quinto capítulo procuramos observar como os viajantes registraram
aspectos do mundo natural no decorrer do século XVI, destacando como os registros
de alguns jesuítas de forma esparsa, podem ser comparados aos dos viajantes
estrangeiros e habitantes da colônia. Entre olhares fragmentados e olhares mais
demorados, evidenciamos a leitura de um mundo natural que na sua diversidade
preenchia um universo fantástico, compreendido no universo das necessidades
alimentares dos homens.
Na penúltima parte, tivemos a preocupação de chamar a atenção para olhares
diferentes que se sobrepõem na compreensão das terras brasílicas. Os interesses de
franceses e holandeses fizeram que Portugal agisse na defesa do seu território. Esse
movimento gerou textos de viajantes que cuja leitura estava preocupada em apresentar
um raciocínio que desse a dimensão da experiência nas terras da América Portuguesa.

26
Relatos diferentes entre si, mas indicavam novas possibilidades de estudo e
abordagem do mundo natural.
Por último, nos dedicamos a ressaltar os registros que constroem e dão uma
dimensão da vastidão das terras e da diversidade natural, no decorrer do século XVIII.
As investidas pelo interior do território foram estimuladas pelas descobertas de ouro,
levando os viajantes a se depararem com uma natureza desconhecida e poucas vezes
descrita. As andanças pelo sertão e o movimento das tropas favoreceram novos
conhecimentos, sinalizando para recursos a serem explorados. Este movimento de
descoberta foi significativo e se intensificou com as viagens filosóficas, tendo como
marco as prospecções e Alexandre Rodrigues Ferreira. Contudo, este não foi o único a
empreender esforços na leitura científica da natureza. Outros, com menos
aparelhamento mental, contribuíram para dar a dimensão da natureza, comprovando a
necessidade de conhecer o mundo natural. 27
Não existe descrição perfeita nem definitiva. Existem registros que captam um
determinado momento. O relato de viagem ou as notícias de um naturalista são
sempre algo inacabado, algo que poderia ter sido e não é. Como afirmou o viajante
Charles James Fox Bunbury, no século XIX, ao passar pelas terras brasileiras “não foi
sem certo grau de prazer e excitação que olhei pela primeira vez para uma terra tão
estranha e bela e tão rica em todos os prodígios da natureza”. Ele entendia que todos
os homens cultos, ao visitarem o local, perceberiam que desde o clima até a natureza
tudo era diferente e despertava um “sentimento de interesse e curiosidade”.28 É com
este sentimento de interesse e curiosidade que nos debruçamos sobre os relatos,
cientes de que não esgotaríamos a discussão sobre o tema.
Sabemos que a opção por um viés interpretativo carrega o ônus das limitações
inerentes a qualquer escolha. Não foi nossa preocupação exaurir as possibilidades
contidas na abordagem proposta. Procuramos, por meio de vestígios, captar aspectos
sobre a visão da natureza e o contexto histórico em transformação, buscando ainda
novas perspectivas de estudo, tendo em vista outras possibilidades que se abrem com
este trabalho. A diversidade de fontes e informações, parcialmente utilizadas, revela
que ainda são viáveis novos enfoques para o tema, que não foram contemplados neste
estudo. Entendemos que o trabalho histórico é, por natureza, inconclusivo, permitindo

27
sempre desenvolvimentos posteriores. Acreditamos que nossas indagações nos
conduziram à certeza de que há muito a ser dito.

28
Primeiro Capítulo

A ideia de natureza:
da Antiguidade ao período medieval

“a natureza ama esconder-se”


Heráclito

29
1.1 A physis no pensamento antigo

Compreender os mecanismos de decodificação da natureza e os sentidos dados


à flora e à fauna da terra brasílica, no decorrer dos Quinhentos até o Setecentos, é algo
complexo, em face das transformações acentuadas que foram engendradas nesse
período. A ideia de um mundo natural, onde tudo era útil, onde tudo poderia ser
convertido em prol da necessidade humana, sintetizava a concepção de natureza feita
por uma cultura influenciada pelo cristianismo no limiar do século XVI.
O pensamento judaico-cristão de que a natureza por si só nada era, pois quem
lhe conferia significado era o homem, ganhou novos contornos no decorrer dos
séculos subsequentes. Na medida em que o homem conhecia as diversidades naturais
sobre a face da Terra, novas ideias emergiriam e foram sistematizadas. O pensamento
científico do século XVII, que paulatinamente conquista um espaço próprio, definiria
novos parâmetros para a leitura e explicação da natureza, questionando o
conhecimento vindo da Antiguidade e do período medieval.
Neste sentido, é pertinente fazermos uma breve reflexão sobre alguns aspectos
da ideia de natureza feita pelos pensadores antigos e medievais, que nos possibilite
compreender com maior propriedade a discussão sobre o mundo natural no período
que pretendemos analisar.
A organização lógica do mundo foi feita pelo homem a partir de narrativas
míticas. Na Antiguidade, as cosmogonias procuravam dar uma ordenação coerente e
una do Caos primitivo do Cosmos,29 por meio da intervenção de um ente divino que,
ao construí-lo, ordená-lo e modelá-lo, dava origem também à existência humana.
Como destaca Gianni Micheli, “Cosmos” é correntemente entendido como um termo
correlativo de “caos”: “a noção de um mundo composto por um agregado ordenado de
elementos reenvia-nos a um momento antecedente ou subsequente, no qual essa
agregação não subsiste e se tem um conjunto informe de elementos, sem qualquer
coesão inteligível”.30

30
Na Hélade, no século VIII a.C., as obras de Homero, “Ilíada” e a “Odisséia” e
Hesíodo “Teogonia” apresentam uma estrutura da religião e mitologia helênica.
Homero sistematizou poemas compostos oralmente pelos aedos31 na forma épica. O
conjunto da obra homérica revelava descrições de acontecimentos nos quais seres
humanos e deuses se relacionam.
A obra de Hesíodo, “Teogonia”, narrava as origens do mundo, dos deuses e
dos homens, considerando o mito como uma instância de comunicação
reconhecidamente aceita, dotado de um conteúdo comunicável à sociedade e que era
responsável pela conservação de uma memória do passado, transmitida oralmente e,
em função desta característica, sujeita a transformações. O mundo natural emergia na
seqüência narrativa onde era apresentada a criação do mundo a partir de fases
cósmicas, que se sucediam a partir de elementos antagônicos. A proposta de Hesíodo
era construir um sistema explicativo lógico para o vir-a-ser das coisas do mundo e do
homem, fundamentado no universo mítico onde a natureza era concebida de forma
mágica.32
Na teogonia helênica as forças naturais precediam qualquer existência divina,
as quais eram responsáveis pelo processo de união amorosa e de cissiparidade dando
origem às divindades primordiais e, por sua vez, compartilhavam, na sua essência, da
força geratriz. A assimilação do mundo natural estruturou-se e hierarquizou-se em
função das divindades religiosas, cada qual com poderes específicos, advindos do
elemento natural que lhe tinha dado origem, e no qual atuava diretamente, intervindo
não só na natureza, mas também na vida humana.
O pensamento mítico, preponderante no período arcaico e clássico helênico,
compartilhava espaço com reflexões que caminharam para um pensamento de base
racional.
As especulações dos helenos sobre a natureza começaram cedo, encontrando
na Jônia um espaço profícuo. Os primeiros filósofos inauguraram a pesquisa sis-
temática sobre as coisas do mundo, a chamada “filosofia da natureza”. Estes
pensadores procuraram desvincular a leitura do mundo natural dos mitos e
cosmogonias religiosas. Tales (624-555 a.C.), Anaximandro (609-546 a.C.),
Anaxímenes (585-528 a.C.), Heráclito (540-470 a.C.) demonstravam existir um
ambiente ávido por recolher informações de todos os tipos. O homem desejava

31
conhecer ao máximo as coisas do mundo natural, a partir de uma explicação racional.
Os pensadores dos séculos VII e VI a.C., procurando debater a concepção de natureza
mágica, empreenderam discussões que levaram a elaborar uma linguagem abstrato-
conceitual para analisar o Cosmo como a realidade humana.33 Estes primeiros
estudiosos inauguravam uma nova forma de pensamento que estaria refletido em suas
ideias e influenciariam textos escritos posteriormente. Era o momento de passagem do
pensamento concreto, baseado na “exterioridade objetiva”, para um pensamento
abstrato voltado para “interioridade subjetiva”, abstrata.34
Os primeiros passos da filosofia tiveram também como ponto central a busca
da origem, princípio do homem e por decorrência o princípio do universo, a “arché”,
retirando da origem primordial a névoa de mistério que a envolvia, e preocupando-se
em compreender “os acontecimentos primitivos” e as forças que produziram o
Cosmos. O termo “arché” foi pela primeira vez utilizado por Anaximandro,
recebendo posteriormente alterações significativas no seu sentido, uma vez que a
utilização da palavra recebeu atribuições diversas variando de acordo com o contexto
histórico. Lígia Watanabe alerta que o termo pode receber vários sentidos ao mesmo
tempo: “seja o princípio enquanto início, movimento, movimento primeiro que deu
origem a todas as coisas; seja o princípio enquanto o que rege a existência de todas as
coisas em todos os tempos, no seu começo, no seu presente, no seu final: seja o
destino, único ou não, para o qual tendem e se dirigem todas as coisas em seus
movimentos”. 35
Desta forma, ocorreram as primeiras reflexões sistematizadas que tiveram
como objeto principal a investigação da natureza physis. Como observa Jean Pierre
Vernant, são os primeiros filósofos que inauguram uma nova reflexão da natureza,
“nada existe que não seja natureza, physis”.36
Tales de Mileto nasceu por volta de 624 a.C. e procurou na suas reflexões
fornecer explicações naturais sobre o mundo, desvinculadas das ações de divindades.
O entendimento das coisas poderia ser feito a partir da observação e da experiência.
Tales viveu num momento de grande prosperidade econômica do mundo
mediterrânico. Sem ter deixado nada escrito, suas ideias foram apresentadas
principalmente por Aristóteles (348-322 a.C.) que já o designava como o primeiro dos
filósofos naturais.37 Este pensador uniu as experiências sensíveis integrando-as a uma

32
“visão compreensiva e globalizadora” acerca do homem e do universo, tendo como
intenção compreender o princípio único, uno e ordenador de todas as coisas do
mundo.38
Aristóteles afirmava que os primeiros filósofos na procura dos “princípios de
todas as coisas” vão buscá-los na natureza. Para ele, a concepção de Tales, de que o
princípio de tudo era a água, advinha da constatação de que “o alimento de todas as
coisas é úmido, e que o próprio quente dele procede e dele vive (ora, aquilo de que as
coisas vêm é, para todos, o seu princípio)”. Esta ideia era reforçada pelo fato de que
as sementes das plantas tinham uma natureza úmida, “e a água é o princípio da
natureza para as coisas úmidas”.39 A observação continuada da natureza levara Tales
a identificar o princípio úmido na formação de todas as coisas. Tales dava importância
significativa à observação para a elaboração de uma proporção racional. Os órgãos
dos sentidos eram os meios pelos quais se captava a informação, que deveria ser
conduzida a um processo reflexivo, ou seja, um pensamento “científico-filosófico”,
que permitia uma “nova visão de mundo cuja base racional evidenciada na medida
mesma em que ela é capaz de progredir, ser repensada e substituída”.40
Anaximandro também manifestou interesse em refletir sobre o “princípio”, ou
arché, termo que passou a ser comum no pensamento filosófico - introduzindo este
termo no uso corrente filosófico. Para Simplício (século VI d.C.), Anaximandro
acreditava na unicidade do princípio e como na sua mobilidade, afirmando que: “[...]
Princípio dos seres [...] ele disse (que era) o ilimitado [...] Pois donde a geração é para
os seres, é para onde também a corrupção se gera segundo o necessário; pois
concedem eles mesmos justiça e deferência uns aos outros pela injustiça, segundo a
ordenação do tempo”.41
Anaximandro afirmava que o princípio era o ilimitado, ápeiron, conceito
abstrato que expressava ao mesmo tempo a noção de infinito, que comportava “a ideia
de infinitude numérica e espacial, além da distinção constitutiva, ou seja, sem forma
externa e interna”.42 O ápeiron era também um ponto de partida e um ponto de
chegada, inflexão que ao mesmo tempo era máximo e mínimo, “do qual tudo tinha
nascido e no qual tudo acabaria”.43 O pensador entendia que a pluralidade das coisas
comportava o antagônico (quente-frio) e que poderia ser reduzida a algo que era ao
mesmo tempo uno e total e que trilha uma trajetória cíclica. Para ele, a geração dos

33
seres no mundo natural se fazia a partir ápeiron, em movimentos sucessivos que
comportavam separações de contrários:
“No início, havia apenas o ápeiron a substância infinita; depois, o Calor e o
Frio separam-se e formam, respectivamente, para o exterior e para o interior do
universo, gerando o Seco e o Úmido. Estes, de acordo com as melhores tradições da
família, continuaram a guerrear-se: no Verão, o Seco conseguia prevalecer e arrebatar
grandes quantidades de mar, transformando-as em vapor de água; no inverno o úmido
reconquistava as posições perdidas, pegando nas nuvens e fazendo-as precipitar sob a
forma de chuva ou de neve”.44
Este pensador entendia que as coisas existiam seguindo regras de
decomposição por pares antagônicos, após uma ruptura haveria a busca pelo
equilíbrio e harmonia. O mundo organizava-se em função de uma lei da compensação,
sendo que a multiplicidade do universo das coisas era proveniente da unidade
primordial, pois, “todas as coisas são um (ou é um)”.
Anaxímenes, outro representante da escola de Mileto,45 ao estudar o princípio
das coisas afirmava que esta era possível de ser definida, afirmando que o ar era a
substância primordial, pois: “Diferencia-se nas substâncias, por rarefação e
condensação. Rarefazendo-se, torna-se fogo; condensando-se, vento, depois, nuvem e
ainda mais, água, depois terra, depois pedras, e as demais coisas (provêm) destas”.46
O ar era o princípio invisível que passava por sucessivas transformações,
vindo a dar origem às coisas. A ideia subjacente de natureza era que ela possuía
movimento e passava por fases de aglomeração e desaglomeração
(rarefação/condensação). Para este pensador, o ar era responsável por estabelecer a
noção de existência e a possibilidade de sobrevivência humana através de uma massa
amorfa, invisível, que fazia parte da constituição do homem, que por um lado o
preenchia internamente e, por outro lado, o envolvia externamente.
Heráclito de Éfeso entendia que a todos os homens era “compartilhado o
conhecer a si mesmos e pensar sensatamente”.47 Fugindo de qualquer explicação de
base mítica, dizia que o mundo, o mesmo para todos os seres, “nenhum deus, nenhum
homem o fez, mas era, é e será um fogo sempre vivo, acendendo-se em medidas e
apagando-se em medidas”.48 Para ele, o universo tinha a sua existência, tal como a
oscilação de uma chama, onde as lutas dos contrários estavam presentes. Heráclito, de

34
forma mais intensa que seus antecessores, quis expor as incongruências entre uma
cultura do mito e a filosofia racional emergente. A distinção existente entre as duas
exigia que uma linguagem nova se constituísse, a fim de evitar erros ou associações.
Heráclito instaurava o predomínio do logos,49 negando como fonte única a
percepção sensorial. Ele argumentava que a linguagem abstrato-conceitual sintetizava
o melhor o desejo de comunicar.50
Podemos afirmar que os pensadores pré-socráticos tiveram como preocupação
discutir a gênese do mundo e das coisas e os princípios constitutivos das mesmas;
além disso, demonstraram que o ser cognoscente poderia responder de forma diferente
a uma mesma pergunta. O pensamento racional poderia se ater a um princípio ou
categoria, dependendo da forma como se constituísse o raciocínio.
Estes pioneiros se destacaram pela atitude de indagar a natureza desvinculada
de uma explicação mítico-religiosa. Como observa Gianni Micheli:
“Os pré-socráticos formulam já com clareza aquele que é o problema do natu-
ralismo filosófico em geral: reduzir a totalidade dos fenómenos, variados e diversos, a
poucos princípios inteligíveis. A individualização dos elementos essenciais constitui
uma explicação racional porque deriva da actividade própria da razão: a abstracção e
a generalização”.51
Neste sentido, a ideia de “natureza” remetia ao conjunto das coisas existentes,
em especial aos seus princípios constitutivos essenciais. A relação entre totalidade e
essencialidade é expressa de modo direto na etimologia da palavra. O termo
“natureza” deriva do verbo latino nasci “nascer”, homólogo do verbo grego physei
“ser gerado”.52 Os filósofos antigos tiveram como base nas suas abordagens
metodológicas a physis. Aqueles que estudavam a physis eram chamados de physikoi,
ou seja, estavam interessados nas coisas da natureza, envolvendo: o processo de
crescimento ou gênesis; a substância física da qual eram feitas as coisas, a arché; uma
espécie de princípio interno organizador da estrutura das coisas, como vimos.
A physis tinha movimento e vida no pensamento antigo; com o decorrer do
tempo, o termo sofreu transformações e a ideia de movimento foi afastada. Para
aqueles que pensavam a physis, as coisas vivas tinham dentro de si o princípio que
indicava o movimento, por isso diferiam das coisas inanimadas que tinham dentro de
si o princípio passivo do movimento. Desta forma, physis era um princípio moral

35
porque a finalidade do homem era viver “harmoniosamente com a natureza”. Com
salienta Paolo Rossi:
“Tal alma-substância, como para os antigos pensadores jônios do século V
a.C., está "cheia de demônios e de deuses". Cada objeto do mundo é repleto de
simpatias ocultas que o ligam ao Todo. A matéria é impregnada de divino. As estrelas
são animais vivos divinos. O mundo é a imagem ou o espelho de Deus e o homem é à
imagem ou o espelho do mundo. Entre o grande mundo ou macrocosmos e o
microcosmos ou mundo em tamanho pequeno (e o homem é assim) existem
correspondências exatas. As plantas e as selvas são os cabelos e os pelos do mundo,
as rochas, são os seus ossos, as águas subterrâneas as suas veias e o seu sangue. O ser
humano é o umbigo do mundo. Está no seu centro. Enquanto espelho do universo, o
homem é capaz de revelar e de captar aquelas correspondências secretas. O mágico é
aquele que sabe penetrar no interior desta realidade infinitamente complexa, dentro
deste sistema de correspondências e de caixas chinesas que remetem para o Todo,
dentro das quais o Todo está fechado”.53
Platão (428-347 a.C.) entendia que a verdadeira realidade jamais seria
observada, pois só poderia ser contemplada pelo pensamento. Para ele, a ciência era a
capacidade de investigar e entender as ideias por meio do pensamento. A experiência
poderia enganar o ser humano. O conhecimento científico era uma atividade
filosófica, a razão era mais importante do que o preparo de registros detalhados e
observações. Platão entendia que era fundamental que o homem fosse capaz de
realizar um processo dialético. Ao contrapor opiniões, ele deveria separar a opinião
(dóxa) do conhecimento ou ciência (epistéme). Era por meio desta distinção que
Platão afirmava que alma poderia ascender do mundo sensível ao mundo das ideias.
Para Platão, o mundo natural fora criado a partir das ideias pré-existentes, por
um demiurgo. O pensador questionava aquilo que era possível de se conhecer pelos
sentidos, porque as coisas estavam sempre em mutação. Isto fazia que a verdade fosse
difícil de ser atingida. O verdadeiro conhecimento só aconteceria quando o homem
compreendesse o mundo perfeito e imutável, o mundo das ideias. Para tanto, era
necessário que o ser humano conhecesse o mundo por meio da abstração, afastando-se
do mundo sensível e da experiência.

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Aristóteles discordou de Platão no que dizia respeito à questão da
mutabilidade. Para Platão, o ser humano ao conceber uma ideia fora dos sentidos
ultrapassava o elemento material, acabando por aceitar a existência de duas
realidades. Para Aristóteles, todos os seres tinham intrinsecamente duas dimensões
indissociáveis, a “matéria e a forma”. Aristóteles entendia que o homem poderia
intervir numa matéria, dando a forma que desejasse. Por conseguinte, ele era agente
responsável por uma transformação (designado por ele de causa eficiente). O estudo
da matéria e da forma num objeto é que permitiria, segundo Aristóteles, o
conhecimento da verdade.
Como destaca Gianni Micheli, a finalidade da natureza é para Platão
condicionada por um “modelo externo extrínseco e é sobretudo considerada no acto
de realização; para Aristóteles, a finalidade é imanente à própria physis”. Além disso,
dá particularmente atenção às modalidades essenciais de realização de cada um dos
fins, mais ênfase do que ao ato final de realização. 54
Aristóteles escreveu algumas obras, como “Física”, “Do Céu”, “Da geração e
corrupção”, “Meteorologia”, “Do universo”, “Da alma”, “Metafísica”, “Ética a
Nicomaco”, “Retórica”, dentre outras. Contudo, a obra “Parva naturalia” é a que mais
detalhadamente trata de aspectos ligados à história animal (“Historia animalium”),
discorrendo sobre partes, movimento, geração dos animais (“De partibus animalium”,
“De motu animalium”, “De incessu animalium”, “De generatione animalium”). Este
conjunto de obras, como outros textos do pensador grego, fornece uma visão sobre a
natureza, com contornos mais definidos e que influenciariam nas discussões
empreendidas na Idade Moderna.
Para explicar a constituição dos corpos existentes na Terra, Aristóteles valeu-
se da teoria dos quatro elementos primordiais: terra, água, ar e fogo, que já havia sido
proposta pelos pensadores pré-socráticos. Os quatros elementos primordiais poderiam
ser compostos de maneiras múltiplas, assumindo formas e qualidades diferentes. Para
o pensador, esta composição se dava em função de qualidades do sensível, da forma
do espaço e da forma do tempo, que permitia a identificação dos seres. Aristóteles
entendia que pelas qualidades do sensível: o seco, o úmido, o frio e o quente; pelo
aspecto da forma do espaço: alto, baixo, longe, perto, pesado, leve etc.; e pelos

37
aspectos da forma do tempo: novo, velho, agora, depois, é que a matéria adquiria
qualificação e se diferenciava.
As quatro qualidades, seco, úmido, frio e quente, apareceriam sempre nos
quatro elementos primordiais, normalmente em pares, excluindo-se os pares seco-
úmido e frio-quente, porque qualidades contrárias não poderiam se agregar. Em se
considerando esta formulação, a terra seria a composição do frio-seco, a água vinha
da dupla frio-úmido, o ar da reunião do quente-úmido e por último o fogo que se
formaria a partir do quente-seco. Aristóteles, contando com o apoio de Alexandre, o
Grande, (356-323 a.C.) enviou dois mil homens por diferentes lugares a fim de fazer
um levantamento sobre o mundo natural.55 Este levantamento por si só não bastava
como conhecimento, segundo ele. Era necessário que o ser humano fosse capaz de
interferir e dar sentido ao que era observado. Sem isto, nada teria sentido. Alexandre
levou na sua companhia engenheiros, geógrafos e agrimensores. Demonstrando ter
uma visão aguçada, deliberava para que tudo fosse devidamente cartografado e
anotado, principalmente as riquezas naturais.56 Estas práticas estimularam a cultura,
num momento em que o homem passava a ter uma nova dimensão do que era o
universal. Um momento de liberdade intelectual que estava atenta para tudo.
O pensador grego estudou alguns seres vivos e tentou criar uma
hierarquização conforme a sua função no mundo. A finalidade era determinada pela
forma, que era o princípio vital de cada um, a que ele atribuiu a designação de alma
(psykhé em grego e anima em latim).
No decorrer do seu trabalho observou as abelhas, procurando registrar o
comportamento das mesmas e do processo de geração. Outras espécies foram
observadas a fim se compreender a formação e o funcionamento dos órgãos e também
conhecer como as partes estavam organizadas para formar uma espécie. O objetivo de
Aristóteles era estabelecer uma classificação dos seres vivos, considerando para tanto
o caráter animado ou inanimado da matéria. A escala começava, no nível inferior,
com as plantas, depois esponjas, águas-vivas, moluscos e seres semelhantes. Acima
deste nível, estavam os mamíferos e sobrepondo a estes havia os seres humanos. O
comportamento esboçado por Aristóteles seria importante para todos aqueles que
viessem a estudar e indagar o mundo natural. A natureza estava pronta para
responder.57

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Aristóteles definia que no primeiro nível da hierarquia estavam os vegetais,
entendidos pelas propriedades de nutrição e reprodução. No segundo patamar,
superior ao anterior, se encontravam os animais, que possuíam as propriedades de
nutrição e reprodução, bem como as capacidades de locomoção e sensibilidade, o que
lhes facultava conhecer por meios dos sentidos. No terceiro e último degrau se
encontrava o ser humano que, além dos elementos acima mencionados, possuía a
razão, o que fazia que ele ocupasse o local mais elevado da hierarquia dos seres vivos.
A razão facultava ao homem a capacidade de organizar as informações a partir dos
sentidos e da ação do intelecto.
Os antigos também discutiram o “sentido de natureza e a natureza de um ser”.
A noção que envolvia os dois elementos foi compreendida por Aristóteles, a partir do
sentido de “natureza”, que envolvia a geração daquilo que crescia, o princípio do
movimento imanente a cada um dos seres naturais em virtude da sua própria índole.
Enfim, a natureza deveria ser compreendida como “a essência dos seres que possuem
em si mesmos e enquanto tais o princípio do seu movimento”. Uma coisa que não
possuía o princípio do movimento que a fazia atuar de acordo com o que não tem essa
substância. Aristóteles concebia mudanças na natureza, acreditava existir uma
essência imutável nos seres vivos, a alma, que forneceria a chave para o entendimento
da finalidade do homem no Cosmo.
Na obra “Historia animalium”, Aristóteles descreveu várias espécies de
vertebrados e invertebrados. Seu trabalho ressalta aspectos que identificavam as
espécies, os hábitos de cada um, buscando compreender e explicar suas
características. O discurso foi construído no sentido de evidenciar similaridades e as
diferenças entre os animais, visando a delinear adequadamente a compreensão sobre
os mesmos. As descrições seguem um tom comparativo, explicando particularidades
ou similaridades; o texto permite inferir que Aristóteles tende a generalizações,
evidenciando que numa categoria as diferentes espécies possuem uma estrutura
idêntica, que permite a sua existência. Havendo diferenças, a explicação é a
possibilidade de o animal influenciar neste aspecto devido a seus hábitos.
Aristóteles procurou construir uma teoria sobre as diversas espécies, não
fazendo registro de aspectos fantásticos; ao contrário, buscou a explicar os animais
pelas suas características físicas e pelos seus hábitos. Para tanto, o filósofo se dedicou

39
à observação dos animais, mediante as informações que os registros ofereciam,
questionando-os de maneira crítica. Aristóteles era arguto e procurava conhecer e
compreender os fenômenos naturais para depois descrever de forma objetiva. Para o
pensador grego, nada poderia ser afirmado sem que antes fosse verificado, sendo
fundamental para tanto a contínua observação da natureza.
Outros estudiosos pensaram a natureza, procurando compreendê-la.
demonstraram que a compreensão do mundo a partir do referencial mitológico não
atendia mais aqueles que tiveram como objetivo fazer “especulações” sobre a
natureza.
Heródoto (484-420 a C.) visitou a África e teria chegado a Elefantina, limite
do Egito com a Núbia, região da primeira catarata do Nilo. Em seu registro generaliza
toda a África negra,58 descrevendo a região como desértica de extrema secura,
habitada por homens negros que se alimentavam de serpentes e outros répteis e que se
comunicavam por meio de uma língua estranha.59 Animais raros foram registrados
desde a Antiguidade. Heródoto mencionou a existência de bois que andavam para
traz, como caranguejos. Havia Corujas, veado, águias, formigas e outras espécies que
diferiam da normalidade e causavam estranheza. Havia anomalias que eram
registradas em tom fantástico, como a existência de galinhas que botavam três ovos
por dia. Contudo, não procurava discutir os seres, mas sim constatar sua existência,
apontando os aspectos físicos mais importantes.
Teofrasto de Éreso (372-287 a.C.), sucessor de Aristóteles no Liceu, foi o que
mais se debruçou sobre a botânica. Teofrasto nascido em Ereso (Lesbos) escreveu
uma obra que conquistou ressonância na Antiguidade chamada: “Opiniões de
filósofos naturais”. Os estudos que realizou mostravam que ele possuía grande
competência para o estudo de minérios e de substâncias quando submetidas à ação do
calor do fogo, sendo reconhecido pelas obras “Historia plantarum” (História das
plantas - em dez livros) e “De causis plantarum” (Sobre as causas das plantas – oito
livros). Esta última obra faz o registro de cerca de 550 espécies e variedades
encontradas no entorno Mediterrâneo até o Oceano Atlântico. O inventário reuniu
elementos da tradição oral, com observações importantes, uma vez que ele procurou
estabelecer uma classificação das plantas, sem preocupação de explicar, mas sim de
classificar. Teofrasto separou as plantas da seguinte forma: árvores, arbustos,

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vegetação rasteira e ervas, tendo o cuidado de marcar as diferenças entre as
variedades cultivadas e aquelas selvagens. Este estudo esclareceu sobre as seivas das
plantas, das ervas medicinais e dos diferentes tipos de madeira. O trabalho de
Teofrasto foi um dos mais representativos e se manteve até a modernidade. Como
destaca Colin A. Ronan, o estudioso grego:
“[...], acima de tudo, deu significados técnicos especiais a algumas palavras -
por exemplo, ele usou pericarpion (pericarpo) para a parte do fruto que envolve a
semente - e esse foi um passo vital para o surgimento de uma verdadeira ciência
botânica. Suas descrições das plantas eram de primeira classe, e foram de valor
permanente as que fez do pericarpo, das flores com e sem pétalas, dos tecidos
existentes mais desenvolvidos nas plantas (tecidos parenquimatosos e
prosenquimatosos), o modo preciso como cresce um tegumento floral e a maneira
pela qual se desenvolvem e se arranjam as flores em uma planta (inflorescência).
Além disso, descreveu e distinguiu entre angiospermas (plantas com sementes
encerradas no pericárdio) e gimnospermas (plantas, como as coníferas, em que as
sementes se apresentam nuas), e, o mais notável, entre monocotiledôneas (plantas,
como a cevada e o trigo, cujo embrião possui um cotilédone) e dicotiledôneas (plantas
cujos embriões têm dois cotilédones, como as ervilhas e os feijões); de fato, suas
descrições destas últimas foram as mais precisas disponíveis até o século XVII”.60
Outros filósofos privilegiaram em suas discussões a possibilidade do
conhecimento e a racionalidade humana, abordando questões ligadas à natureza.
Epicuro (341-270 a.C.) defendia que o Universo era formado de átomos e do vazio.
Para o pensador o vazio era o espaço onde os átomos se locomoviam. Retomando a
proposta atomística apresentada por Demócrito (460-370 a.C.)61, Epicuro afirmava
que:
“Os átomos encontram-se eternamente em movimento contínuo, e uns se
afastam entre si uma grande distância, outros detêm o seu impulso, quando ao se
desviarem se entrelaçam com outros ou se encontram envolvidos por átomos
enlaçados ao seu redor. Isto produz a natureza do vazio, que separa cada um deles dos
outros, por não ter capacidade de oferecer resistência. Então a solidez própria, dos
átomos, por causa do choque, lança-os para trás, até que o entrelaçamento não anule

41
os efeitos do choque. E este processo não tem princípio, pois que são eternos os
átomos e o vazio”.62
Epicuro entendia que para atingir o conhecimento absoluto dos átomos,
enquanto ilimitados e eternos, o homem deveria valer-se da sensação, para seu
procedimento, através da qual, raciocinando, poderia chegar à indução “de verdades
que não são acessíveis aos sentidos”. O pensador entendia que para se explicar os
fenômenos naturais “não se deve recorrer nunca à natureza divina; antes se deve
conservá-la livre de toda a tarefa e em sua completa bem-aventurança”.63 Para ele, as
sensações eram um meio pelo qual o homem poderia julgar. Para que pudesse julgar
como critério, o homem deveria libertar-se das amarras das fábulas míticas, e por si só
buscar na natureza do universo indicações para o procedimento humano, sem as quais
não poderia “gozar de prazeres puros”.64 Sua preocupação essencial era restituir à
ideia de natureza a unidade primordial, livre das superstições e do temor mítico. Para
Epicuro, a investigação da natureza passava pela percepção sensível imediata, a partir
da qual aconteciam os fenômenos próximos dos sentidos e fenômenos distantes. O
pensador entendia que existiriam múltiplas explicações que poderiam estar presentes
num fenômeno real.65 Por conseguinte, o ser humano precisava ter serenidade de
espírito para fazer suas análises; sem ela não se conseguira uma avaliação sensata.
Epicuro propunha o rompimento com as fabulações míticas, que causavam
danos aos homens, pois já não podiam satisfazer os espíritos, impedindo a felicidade
que é a aspiração última. Como bem destaca Silva, Epicuro tinha “a sede de unidade
que atormenta a inteligência humana, a necessidade de por de acordo as nossas
crenças teóricas e os nossos princípios práticos, de alicerçar as regras da nossa moral
sobre uma concepção da nossa natureza e do universo em que estamos colocados”.66
O Epicurismo rompia parcialmente com o pensamento filosófico helênico. Sua
proposta visava a compreender a condição humana e a inquietude espiritual, que
levava o homem à insegurança. Esta advinha do temor que os homens tinham dos
deuses e de suas interferências na vida terrena e pós-morte. Propunha para a solução
deste problema o esvaziamento do papel dos deuses e suas ações no universo humano.
Utilizando-se das ideias da física de Demócrito,67 entendeu que no universo repleto de
átomos não existiria nenhuma força superior que coordenasse o movimento das
coisas; assim sendo, era inexistente qualquer ação dos deuses.68 Libertando o homem

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do temor do ente divino, Epicuro conclamava à liberdade, à total independência do
medo dos fenômenos naturais. Como nota Gianni Micheli: “A doutrina epicurista
pode ser considerada, em certo sentido, a herdeira directa das filosofias arcaicas sobre
a natureza”.69
Neste momento, os deslocamentos humanos eram intensos e os registros
procuravam compreender o universo e a possibilidade de localização mais precisa.
Aristarco de Samos (310 – 230 a.C.), a partir de suas observações, propôs nas suas
reflexões uma teoria heliocêntrica, que seria retomada mil anos depois e se
transformaria num marco para a humanidade. Por meio de cálculos geométricos, o
estudioso procurou realizar o estudo sobre o tamanho e a distancia entre o Sol e a Lua.
Hiparco (190-126 a.C.), O astrônomo, cartógrafo e matemático que viveu em
Alexandria, ao observar as estrelas, fez uma série de comparações com os registros de
outros observadores e criou uma carta e uma esfera celeste com mais de 1.000
estrelas, para auxiliar os navegantes nas suas viagens. Valendo-se do conhecimento da
astronomia babilônica, sobre a graduação sexagesimal do círculo, ele definiu paralelos
e meridianos para o globo terrestre. Seus estudos o fizeram descobrir o fenômeno dos
equinócios e a grandeza de uma estrela pelo seu brilho. Dentre os seus inventos,
destacou-se o dióptro, uma régua graduada, com guia e cursor, que servia para a
mediação de ângulos; e o astrolábio para medir a distância de um astro em relação ao
horizonte, sendo um instrumento importantes para as navegações.70 Sua contribuição
também foi importante na definição da zonas climáticas da Terra, que seria mais bem
compreendia após as grandes navegações do século XV e XVI da era cristã.
Estes homens que tentavam capturar a dinâmica do movimento terrestre foram
influenciados pelos registros produzidos pelos navegantes mediterrânicos que,
paulatinamente, contribuíram para a ampliação dos conhecimentos. A atividade
comercial nas franjas do Mar Mediterrâneo estimulou os percursos terrestres não só
na Europa continental, mas também na Ásia, donde provinha grande quantidade de
mercadorias para serem comercializadas em pontos específicos. Para uma atividade
comercial também intensa, além das melhorias nas embarcações, também foram
criados recursos para que os navegadores tivessem facilidade de comunicação.
O farol de Alexandria foi uma invenção que tinha como objetivo auxiliar na
localização durante a viagem pelo Mediterrâneo e obteve difusão no período seguinte.

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Naqueles idos já havia portulanos71 que orientavam os navegadores, fornecendo
instruções náuticas, que permitiam uma dimensão das distâncias entre os portos.
Eratóstenes de Cirene (276-196 a.C.), bibliotecário da Biblioteca de Alexandria, foi o
primeiro a tentar medir a esfericidade da Terra em forma científica, a partir de
informações relativas às posições dos astros fornecidas pelos viajantes. Ptolomeu (83-
161 d.C.) de Alexandria, na sua obra Almagesto e Cosmografia, levando em
consideração as informações que obtivera e o seu estudo sobre o universo, defendeu
que os planetas se moviam com velocidades uniformes em torno da Terra.
Em suma, pode-se notar que o ser humano partiu da sua experiência concreta
no mundo para construir o seu referencial racional, buscando explicar a sua existência
e a existência do mundo de forma coesa. Como salienta Alberto Oliva: “No mundo
antigo, o conhecimento era visto como bios theoretikos ou vita contemplativa. Os
saberes visavam à contemplação da realidade, naquilo que esta tem de permanente, e
ao desvelamento da verdade. Não nutriam a pretensão de transformar os ‘objetos’
investigados. Por essa razão, prevalecia o ideal dedutivista de conhecimento.72
As percepções da natureza eram fruto de uma experiência vivencial onde a
natureza era vista como um princípio tautológico, como afirma Edmund Leach “a
natureza representava, de facto, um princípio tautológico, uma causa final. Pensava-se
que o mundo exterior, dotado de existência independente do pensamento e da ação
humana, estava impregnado de uma ordem - ou de um espírito metafísico”.73

1.2 A natureza e o vasto império romano

Em Roma, a curiosidade humana em relação à natureza incentivou estudiosos


e pensadores a se dedicarem à compreensão da natureza para atender os desejos de um
vasto império. Marco Terêncio Varrão (116-27 a.C.), Marcos Vitrúvio Polião (I a.C.),
Lucius Annaeus Séneca (4-65 d.C.), Caio Plínio Segundo, ou Plínio, o Velho (23-79
d.C.) e Pomponius Mela (século I d.C.) são expressões de um momento de euforia e
de um “espírito enciclopédico do tempo”.74

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Marco Terêncio Varrão foi um pensador que se dedicou à religião e à
natureza. Em sua obra “Antiquitates rerum humnarum e divinarum” identifica que a
teologia poderia ser compreendida a partir dos gêneros mítico, político e natural. O
mítico era aquele narrado pelos poetas, o político, o que era relativo aos cultos do
estado e o natural era aquele que estava ligado à natureza do divino, como se
manifestava na natureza da realidade. Marcos Vitrúvio Poliao, que se destacou pela
obra “De Architectura” (Da Arquitetura – 40 a. C) observou a natureza e as
construções, e definiu os padrões e os princípios arquiteturais. Os estudos ampliavam
os horizontes de reflexão, ganhando novas relações e ideias.
Lucius Annaeus Sêneca foi um dos importantes escritores romanos. Possuía
conhecimentos de oratória e ganhou notoriedade pelos seus tratados filosóficos, que
discutiam o ideal estóico da busca da tranquilidade e da renúncia aos bens materiais.
Vivendo em Roma foi crítico do seu tempo fazendo sátiras que questionavam as
práticas autoritárias dos governantes, com a qual conviveu. Na obra “Naturales
Quaestiones” (Problemas naturias) demonstra preocupação com o homem e com a
fraternidade universal, sendo importante para o homem examinar de forma
aprofundada a natureza. Esta possuía um fluxo de energia que estava ligada a regras
de relação, como: causa e efeito ou ação e reação. Para Sêneca o medo humano
advinha da sua ignorância das coisas, sendo necessário conhecer a natureza, para que
pudesse ficar tranquilo. Ele analisa os fenômenos naturais procurando uma explicação
racional, a única possível. A razão facultava a possibilidade de o homem compreender
a natureza e chegar ao equilíbrio interno. Contudo, alertava que era preciso entender o
mundo natural como um todo, tal qual um organismo que também possui sua
perfeição e harmonia. O homem seria capaz de compreendê-la, bastava que ele
vivesse de acordo com os preceitos da natureza. Sêneca entedia que a natureza era a
medida para a vida. Se a natureza possuía regras os homens também deveriam tê-la;
por conseguinte, estes deveriam ter consciência dos seus limites. A inteligência
humana estava diretamente ligada à capacidade humana de perceber os seus vícios.
Nada que fosse em excesso seria bom para o homem e para a natureza. O homem
deveria se contentar com o necessário e procurar um reencontro com a natureza, pois
ela era sinônimo de sabedoria.

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Para descobrir os segredos da natureza era suficiente que o ser humano
contemplasse o mundo natural e o respeitasse. O conhecimento permitiria o homem
não sofrer, pois ele deveria viver bem.75 Pedáneo Dioscórdies (50-70 d.C.) foi um
estudioso da natureza, desenvolvendo drogas medicinais úteis aos homens. Nascido
na região de Tarso, na atual Turquia, estudou em Alexandria e atuou como médico
nas legiões romanas. Escreveu a obra “De matéria médica”, dividida em cinco livros,
onde descreve mais de quinhentas plantas e outros produtos de origem animal e
mineral. Sua obra implica observação e classificação das substâncias conforme o seu
uso na farmacologia. Esse trabalho de médico observador meticuloso permite
compreender como as ervas medicinais eram utilizadas por gregos e romanos e outras
culturas da Antiguidade.
Caio Plínio Segundo, ou Plínio, o Velho (23-79 d.C.) foi um dos naturalistas
romanos mais importantes e seus escritos exerceram influência até a modernidade.
Inquieta, contemplou o mundo para viver bem. Plínio, o Velho, extremamente
prudente, entendia que escrita era a melhor forma de registrar a natureza, pois as
ilustrações poderiam induzir a enganos, porque as tintas apenas imitavam a natureza.
A curiosidade do naturalista o levou à morte. Ao se aproximar de Pompéia para
observar a atividade do Vesúvio (79 d.C.) sucumbiu com os gases vulcânicos que
atingiram a cidade de Stabia. Todavia, legou à posteridade um dos trabalhos mais
representativos de História Natural.
Plínio, o Velho, foi militar e ocupou vários postos a serviço de Roma,
principalmente na região da Alemanha. Segundo a tradição, Plínio fora protegido de
Pomponius Secundus, conforme ele próprio registrava em obras que escreveu sobre
este. Plínio parece ter tido uma propensão para a escrita, pois além de escrever a
biografia de Pomponius Secundus, dedicou-se a um amplo estudo sobre as guerras
germânicas, que posteriormente foi incorporado à “História Natural”. Escreveu ainda
obras de oratória, gramática e uma história de Roma em 30 livros. No final da vida se
dedicou à elaboração da “História Natural”, que foi dedicada ao imperador
Vespasiano (70-79 d.C.), como forma de reconhecer os favores que recebeu daquele
governante.
Plínio, na sua obra “Naturalis Historiae” (História Natural), fez um esforço
parecido com o que Aristóteles havia empreendido nos seus estudos sobre o mundo

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natural. Para ele os efeitos naturais eram incertos e a natureza, a todo o momento,
gostava de se esconder por de trás de um véu de mistério. No primeiro livro da sua
obra “História Natural” afirmava que o estudo da natureza era estéril, pois a
natureza/vida era um:
“assunto no seu aspecto menos elevado, empregando termos rústicos ou
estrangeiros, até palavras bárbaras que realmente precisam ser introduzidas com um
pedido de desculpas. Além disso, a trilha não é uma estrada bem batida por
autoridades, nem uma em que a mente está ávida por penetrar: não há uma só pessoa
entre nós que tenha feito essa mesma aventura, nem mesmo um dos gregos que tenha
se dedicado sozinho a todos os aspectos do assunto”.76
Plínio, de forma sistematizada, apresentou um levantamento dos recursos
materiais disponíveis na natureza que poderiam ser úteis aos homens em função da
alimentação e do uso para a cura das doenças humanas, pois os bons alimentos
desterravam a tristeza, e sossegavam as paixões. O escritor romano tinha uma
preocupação: apresentar todas as informações possíveis, sem garantir a sua
veracidade. Seu registro prima pela descrição de animais, minerais, plantas e assuntos
correlatos. Os trinta e sete livros que compõem a obra foram assim divididos:
“- livro I é um sumário da obra e indica as suas fontes;
- livros II a VI referem-se à astronomia e geografia;
- livros VII a XI referem-se à zoologia;
- livros XII a XIX referem-se à botânica e agricultura;
- livros XX a XXVII referem-se à botânica e seu uso em medicamentos;
- livros XXVIII a XXXII referem-se aos remédios possíveis de serem obtidos
de animais e dos seres humanos homem;
- livros XXXIII a XXXVII referem-se à mineralogia e metais.”
Na obra, o autor preocupa-se em apresentar informações detalhadas sobre a
aparência externa, alimentação, hábitos e reprodução das espécies. A lógica da
apresentação é o da descrição dos maiores exemplares de uma espécie para os
menores. Por meio de um processo de comparações, procurou delinear as
características físicas dos animais, principalmente quando estas eram pouco
conhecidas. Para tanto, ele se valia de aspectos/ características de animais conhecidos
para permitir uma melhor compreensão da espécie que pretendia descrever. Em

47
seguida, apresentava os aspectos que caracterizam os hábitos dos animais e sua
reprodução, destacando o que seria mais notável, misturando elementos reais e
imaginários.
Plínio, o Velho, fez um levantamento do maior número de informações
possíveis sobre cada espécie, de forma que o material fosse consultado por qualquer
pessoa, como de fato o foi. Contudo, não é possível afirmar se o autor teve
oportunidade de observar pessoalmente as espécies ou se coletou e reuniu relatos de
terceiros. Plínio revela-se um erudito, mas suas experiências podem ser questionadas.
Sua obra registra conhecimentos detalhados do trabalho de Aristóteles, cita-o
com freqüência e em determinados aspectos incorpora referências das obras do
pensador grego. Da mesma forma, Plínio revela que conhecia o trabalho de
Teofastros, que também contribui para a elaboração das suas reflexões.
Na verdade, Plínio procurou sistematizar um conjunto de informações sobre a
“História Natural”, até aquele momento. Suas descrições indicam que o maravilhoso
estava presente. Na medida em que faltavam pesquisas para respostas mais
abalizadas, Plínio explicava que algumas espécies poderiam dar origem a outras, sem
possuir os elementos para fazer a afirmativa.
No que tange à veracidade das informações apresentadas, é possível afirmar
que as descrições incorporaram dados que não foram confirmados. Os textos, em
alguns momentos, revelam constatações feitas por terceiros. Desta forma, os registros
faziam parte do universo da cultura do “ouvir dizer” e de “testemunhos”, que ele
procurou organizar. A presença do maravilhoso está presente na leitura do mundo
natural e permite questionar se havia ou não credulidade no que era descrito. É
curioso observar que Plínio, em algumas passagens, registrou o uso de aves para
adivinhação, valendo-se dessas informações para sua obra. Por vezes, remeteu as
observações feitas pelos antigos, mesmo questionando aspectos das obras que
produziram.
As obras que tratavam da natureza conquistaram no império romano grande
difusão. Um dos motivos para elas circularem era o fato de a civilização romana estar
voltada para a terra, dependente da produção agrícola. A influência de Plínio, o
Velho, sobre o seu tempo e dos autores que lhe seguiram foram marcantes.

48
Pomponnius Mela nasceu na Hispânia na região da Bética, próxima a região
do Estreito de Gibraltar. Como outros autores, Pomponius estudou a terra a partir do
Ocidente e teve a obra de Plínio, o Velho como um referencial.77
Pomponius era um “romano que viaja pelo mundo; e sem qualquer petulância,
sabe como romano do direito, julgar vivos e mortos”.78 O texto de Pomponius Mela,
“De Situ Orbis”, apesar de demonstrar preocupação com a objetividade, não se afasta
da ideia do maravilhoso. O texto faz um levantamento de dados essenciais sobre as
partes do mundo conhecida até aquele momento e pode ser compreendia como uma
obra que trata da geografia descritiva, com preocupação de sistematizar a informação,
dando ênfase para a etnografia, cosmografia ou descrição regional, itinerários e
périplos.79 Além disso, pode ser vista como uma obra que também contemplava a
“cosmologia, história natural, geologia, meteorologia, hidrografia terrestre,
oceanografia, orografia, botânica e zoologia”.80 Considerando também elementos
como a geometria, matemática, astronomia, cartografia.
Pomponius Mela descreveu uma viagem ao redor mundo que ele não fez. A
logografia,81 ou seja, viagem descritiva, era um gênero comum que reunia elementos
advindos da tradição oral, com novos reconhecimentos. As descrições de viagens, ou
periegese, eram feitas desde a Antiguidade, relatando peripécias pelo mar, ou por via
terrestre. Estes textos eram roteiros indicativos para a circulação pelo mar e forneciam
elementos sobre os melhores itinerários e paradas. Neste sentido, a obra foi
importante por coligir uma série de dados que seriam apreciados no século XV,
quando os homens se debruçaram para os escritos antigos a fim de conhecer melhor o
mundo em que viviam, ou como afirmava Pomponius Mela:
“em sua globalidade, este conjunto que dominamos mundo e céu, constitui
uma unidade que engloba todas as coisas; e ele se divide em partes. Oriente ou
nascente chama-se aquela onde surge o sol; ocidente ou ocaso, aquela em que
mergulha; meio-dia é a parte por ele percorrida; e a parte que se contrapõe a esta é o
setentrião. Ao centro deste conjunto está erguida a terra”.82
Contudo, Pomponius Mela não empreendeu grandes avanços no que tange à
descrição da natureza, restringindo-se a descrições amplas que identificavam as
diferentes áreas do vasto império romano. As reflexões estavam postas, porém o
contexto das invasões das tribos germânicas impôs um compasso de espera ao avanço

49
dos estudos sobre a natureza. Além disso, o cristianismo, de religião perseguida,
passou a ser dominante. O imperador Constantino I (272-337) aderiu ao cristianismo e
a partir do Concilio de Nicéia (325) tem início a sistematização das questões
doutrinárias. A natureza passaria a ser compreendida a partir do horizonte do
pensamento cristão.

1.3 A idéia de natureza e o pensamento medieval

Na fase inicial da Idade Média Ocidental a vida cultural tendeu a se concentrar


nos mosteiros. O momento era de instabilidade, de guerra e de reordenamento das
tribos germânicas que disputavam o território do império romano. O ambiente não era
favorável para quem tivesse como interesse a compressão do mundo natural. No
Oriente, mais influenciado pela cultura helênica e helenística, o pensamento da
antiguidade clássica continuou presente, dando mostras da sua importância e de seu
valor. Os textos antigos continuaram a ser estudados e compilações foram feitas para
permitir maior veiculação idéias.
A desestruturação do Império Romano do Ocidente conduziu a uma
desagregação econômica, política e social. No âmbito da cultura, os textos antigos,
provenientes da cultura helênica perderam a intensidade de circulação, sobrevivendo
apenas em algumas regiões partes desses trabalhos. A Alta Idade Media Ocidental foi
marcada por uma fusão de elementos da cultura romana e das tribos germânicas, do
cristianismo e do legado cultural helênico. O movimento das tribos e as ações de
hostilidade confinaram os grupos à vida rural e por decorrência abalaram a vida
cultural.
A Igreja Católica, herdeira do Império Romano, e baluarte da cristandade, foi
a instituição que se fortaleceu, nesse processo, e manteve uma força intelectual ativa.
As dificuldades temporais, a insegurança e a atmosfera religiosa davam prioridade à
fé e todos os caminhos e reflexão levavam a Deus. Não havia necessidade de
questionamentos de detalhes da natureza. Deus dava todas as respostas.

50
As referências aos textos da Antiguidade clássica são esparsas durante a Alta
Idade Média, apresentadas como comentários, por vezes eivadas de imprecisões.
Carlos Magno (747-814) ao buscar fortalecer o seu império procurou revitalizar a
cultura ocidental por meio da educação. O monge beneditino inglês Alcuíno (735-
804), convidado para fazer a reforma da corte e do clero, alterou a educação
encaminhando-a para uma reflexão mais profunda; posteriormente, elaborou a
constituição das universidades medievais.
O modelo clássico de saber, baseado no ensino literário da gramática, retórica
e dialética (trivium) e no ensino científico da aritmética, geometria, astronomia e
música (quadrivium), passou a ser retomado nas escolas. Lentamente, a educação
produziria os seus efeitos. A busca pelo conhecimento levou ao interesse pela
indagação. A filosofia cristã da Escolástica representou o movimento de indagação
especulativa. A realização de traduções dos textos antigos para o latim conduziria a
um revigoramento da intelectualidade européia.
Após o ano mil, ocorre uma diminuição das guerras internas e o ambiente
menos conturbado favoreceu o processo de mudanças na sociedade. O renascimento
agrícola, permitindo excedentes, estimulou o crescimento comercial acompanhado de
um crescimento populacional. As melhorias técnicas conduziram a novos
instrumentos e levaram a transformações nos transportes, principalmente o marítimo,
que era estimulado pelo surto comercial.
As trocas comerciais ocasionaram o estreitamento das relações do Ocidente
com o Oriente promovendo mudanças das idéias e no conhecimento. O mundo
islâmico havia preservado a cultura antiga e avançado na especulação dos temas
pertinentes. Os estudiosos árabes mantiveram, ao manterem contato com a cultura
helênica, realizando traduções que chegariam ao Ocidente, alteraram o quadro
intelectual em diversas áreas do saber.
No decorrer do período medieval, a discussão e o estudo sobre a natureza
foram menos intensos. O controle da Igreja reduziu o número de obras,
principalmente por considerar que o estudo do tema poderia conflitar com o
pensamento religioso.
O homem medieval viu na natureza o referencial básico para a compreensão
da condição humana. Para Jacques Le Goff, o homem medieval entendia que “o

51
horizonte geográfico é um horizonte espiritual, o horizonte da Cristandade”,83 a partir
do qual ele define a si próprio, a natureza e o resto da humanidade. A Bíblia era
considerada a fonte primária de informações para o mundo medieval, porque ela
exercia poder sobre a humanidade, dando sentido à organização social, onde a
natureza e o homem não podiam ser compreendidos sem a presença divina.84
Para o pensamento cristão, Deus era o princípio gerador de todas as coisas.85
Na leitura cristã, a ordem do meio natural, ou do Universo criado, estava diretamente
ligada à estruturação de uma sociedade ordenada. Conforme o texto bíblico, Deus era
um construtor, o artesão do mundo, responsável pela modelação da matéria e pela
harmonia dos alicerces sociais, colocando o homem como senhor de todas as criações
divinas na Terra.86
Para Ludwig Feuerbach, na doutrina da criação judaica, a existência divina era
compreendida como sendo monoteísta, formada por um ser puro, enquanto causa
única, anterior ao mundo natural, sem o qual o vir-a-ser dos elementos naturais não
poderia ter ocorrido. Como destaca o autor: “o monoteísmo é essencialmente
monoteístico, porque ele só tem uma coisa por meta: a si mesmo”. O monoteísmo era
uma expressão de egoísmo que recolhia e concentrava “o homem sobre si mesmo”.
Por decorrência, este fornecia ao homem “um princípio de vida sólido, denso, mas
limita-o teoricamente, porque é indiferente a tudo que não se relacione imediatamente
com o próprio bem-estar”. 87 O ato criativo, segundo Ludwig Feuerbach, exteriorizava
o princípio supremo do judaísmo, o utilitarismo, que identificava os elementos
naturais como “um mero meio para o fim do egoísmo um mero objeto da vontade”,
concluindo que o mundo natural para o hebreu é o “produto de uma palavra ditatorial,
de um imperativo categórico, de um decreto mágico”.88 Ludwig Feuerbach entendia
que a religião era uma forma de alienação, pois o homem projetava no ser supremo os
ideais humanos.
Stanislas Breton, ao estudar o cristianismo e o conceito de natureza, afirma
que este era um termo estranho à linguagem religiosa cristã. O ato criador se referia
sempre de forma individuada a criação do céu, ou da terra, bem como de outros
elementos. Em sentido amplo, o mundo natural eram "todas as coisas" do mundo. O
valor do ato divino criatório residia na capacidade de produzir as coisas a partir do
nada, ex nihilo, ou seja, a partir da inexistência física das coisas. Assim, o pensamento

52
cristão, ao atribuir ao universo uma origem divina, entendia que o Cosmo era fechado
e finito, pois dependia da vontade de Deus, que era responsável por todas as coisas
existentes no mundo.89 De certa forma, o pensamento cristão compartilhava de
informações e sínteses que o pensamento helênico já havia levantado.
Nesta leitura, o mundo natural provinha de um ato autoritário primordial do
criador, que instaurava a existência do meio natural, em função das necessidades
humanas. Deus criara o mundo, organizando-o e deliberando em seguida: “Façamos o
homem à nossa imagem e semelhança, e presida aos peixes do mar, e às aves do Céu,
e aos animais selváticos e a toda a terra, e a todos os répteis, que se movem sobre a
terra”.90
Conforme observou Paulo de Assunção: “As criações que antecedem
temporalmente a existência humana só têm sua razão de ser em função da vida
humana. Assim sendo, o ser humano, como último ato divino de um processo
criatório, era responsável pelo sentido do mundo”.91 No Gênesis, a criação do mundo
por Deus teve como objetivo básico prepará-lo para a existência humana, que deveria
ser superior às demais criações, valendo-se delas para a sua existência. Neste sentido,
a natureza era apresentada sob um ponto de vista prático: a sobrevivência humana,
pois “por si mesma nada é”.92
O pecado original estabeleceu a consciência humana na distinção entre “o
Homem e a Natureza e definia uma escala valorativa que ia da positividade,
representada pelo homem, a uma negatividade representada pelos elementos
naturais”, na medida em que o homem perdeu o uso e fruto do paraíso.93 Conforme
observa Alberto Vieira:
“O jardim no mundo cristão está inevitavelmente ligado à idéia de Paraíso e
expressa-se formalmente através das flores e fontes. Esta comunhão do homem com a
natureza não é apenas apanágio do mundo cristão. A idéia de jardim com o espaço de
retiro, reflexão e de comunhão com a natureza está presente na civilização
muçulmana e no mundo oriental desde a China ao Japão”.94
O homem foi expulso do paraíso e lançado num mundo natural onde
preponderava um meio selvagem. A partir daquele momento era preciso lutar para
sobreviver. Dependia de o seu engenho viver ou morrer. Era preciso
subjugar/conhecer a natureza em consonância com os seus interesses e necessidades.

53
A natureza deveria, antes de tudo, ser útil. Ludwig Feuerbach lembra que: “o utilismo,
que nada mais contém, nada mais expressa além do imperativo de não se fazer da
natureza um objeto de pensamento, da contemplação, mas sim da utilização, do
aproveitamento”.95
A natureza, com sua própria dinâmica, nem sempre garantia o mínimo para a
dieta alimentar; e o homem, em face da carência, não se esquecia de sua estada no
Éden. O desejo de reencontro do jardim de delícias era um dos anseios humanos.96
Um dos exemplos disto é o texto medieval “Navigatio Sancti Brendani” (Viagem de
São Brandão), que descreve o jardim de delícias como um local de bosques e rios
formosos. São Brandão (484-577) nasceu na Irlanda e após a sua ordenação iniciou
um périplo missionário. Fundou diversas abadias e empreendeu viagens pela região
do Atlântico norte, relatando-as num texto em latim, provavelmente com acréscimos.
A viagem, enquanto peregrinação, teria durado sete anos e ao final deste período ele
teria chegado ao Paraíso. Um jardim florido que capturava a atenção do homem não
só pelas cores, mas também pelos odores das plantas e pela indescritível beleza. Os
frutos chamavam a sua atenção por nascerem e crescerem todos os dias não faltando
nada aos homens. Da mesma forma, havia bosque com animais e rios com peixes em
abundância.97 Sinais de que a existência humana estaria garantida.
O período medieval e seus pensadores religiosos, direta ou indiretamente,
realizaram reflexões sobre a possibilidade de ascensão a um jardim edênico.
Articulando a relação da razão com a fé, os pensadores entenderam que a fé
proporcionava conhecimento e sabedoria superior à razão filosófica, pois esta era
produto da mente humana, enquanto aquela era oriunda do próprio Deus, que, com
seu poder infinito, conseguia chegar ao conhecimento das verdades fundamentais.
Santo Agostinho (354-430), concebendo que a razão era um dos estágios
preparativos para o ato de fé, almejou entender e explicar a razão em função das
verdades reveladas. Nos seus escritos ele retoma o tema da criação, vinculando a
versão bíblica com o pensamento helênico, a fim de resolver o problema que, para ele,
era o mais importante: a felicidade do homem. Imbuído do pensamento neoplatônico
e preocupado em responder o vir-a-ser da matéria, enquanto forma, através de um
processo de mutabilidade, nem sempre visível, o bispo de Hipona reforçou a idéia de
que o mundo não era coeterno à existência divina, sendo criado por este.

54
As leituras do religioso defendiam um monoteísmo profundo e contrapunham
de maneira clara o homem ao mundo natural, este reduzido a sua insignificância. Para
ele, natureza não deveria ser objeto de conhecimento, pois não era digna de ser
pesquisada. O desejo humano de conhecimento deveria dirigir-se ao conhecimento do
criador e da fé católica, fim último de toda a reflexão, pois a vida terrena, com suas
riquezas materiais, tendia a fazer que o homem se voltasse para uma existência
pragmática, sem se preocupar com o lado espiritual.98
Estas idéias não permitem compreender a Idade Média como um momento em
que a fé e a religiosidade suplantaram tudo, desprezando outros conhecimentos ou
minimizando a sua importância. Pode-se observar que os pensadores medievais
mantiveram um diálogo estreito com a Antiguidade, procurando construir uma
concepção de mundo e de homem dentro do horizonte da cristandade.
O irlandês João Escoto de Erígena (810-877) foi um dos pensadores que
visitou os textos de patrística grega, onde a herança platônica estava presente. Na sua
obra “Da divisão da natureza” (De divisone naturae - 862-866), composta de cinco
livros, ele realizou reflexões sobre a natureza humana vinculado a um Universo criado
por Deus. A natureza foi concebida com divisões fundamentais. Para João Escoto de
Erígena haveria:
“uma natureza que cria e não é criada (Deus como causa suprema); uma
natureza que é criada e cria (idéias-arquétipos, causas primordiais de todas as coisas);
uma natureza que é criada e não cria (seres submetidos à gestação no tempo e no
espaço); finalmente, uma natureza que não cria e não é criada (Deus como fim último
de todas as coisas). Quando o movimento se completa, volta-se dialeticamente à
unidade, e criador e criatura tornam-se um só”.99
A invasão árabe, na região da península ibérica, favoreceu a circulação de
conhecimento entre as áreas da Ásia Menor e a Europa. A Síria e a Pérsia tinham
abrigado muitos dos escritos antigos e estudos sobre astronomia, alquimia e medicina,
realizando a tradução dos textos gregos para a língua siríaca. A cidade de Bagdá, no
século VIII, transformara-se em centro de cultura, contando com a presença de
homens cultos que desenvolviam seus estudos e realizaram trabalhos de tradução de
obras gregas para o siríaco e para o árabe. Al-Mansur (754-775) fundou a biblioteca
que ficou conhecida como a Casa da Sabedoria, espaço que reunia pensadores e

55
confirmou como um de polos de irradiação da cultura e da ciência árabe. Da mesma
forma, outros califas como Harun al-Rashid (766-809) e Al Ma’mun (813-833)
estimularam o estudo da matemática e da álgebra.
Ibn Rushd (1126-1198), conhecido no Ocidente como Averróis, foi um dos
comentadores islâmicos de Aristóteles, sendo responsável pela divulgação do trabalho
do pensador grego no Ocidente. Atuando como médico e jurista teve um papel
influente na cidade de Córdoba, revitalizando o debate e a pesquisa sobe os textos
antigos, discutindo que o mundo existia independente de Deus. Este pensamento
causou impacto na sociedade e na filosofia da época na medida em que conquistou
adeptos que defendiam que a filosofia pura deveria ser independente da teologia
cristã.
O movimento português de reconquista fez que os árabes ficassem limitados a
região da Andaluzia. Contudo, a circulação cultural entre as terras cristãs e as terras
dominadas pelos árabes foi contínua, permitindo que textos antigos chegassem à
Europa. Toledo assumiu o papel de centro irradiador das traduções de manuscritos
árabes.
As universidades medievais que surgem a partir do século XII são um outro
marco nas transformações do Ocidente. Em 1088 foi criada a Universidade de
Bolonha, em 1096 a de Oxford, em 1170 a de Paris consideradas locais de ensino
privilegiado sob a tutela da Igreja. As atividades de ensino fizeram que os estudiosos
também contribuíssem com a sociedade, apresentando trabalhos voltados para debates
e polêmicas no que dizia respeito a questões teológicas.
As faculdades de arte das universidades medievais, responsáveis pelo estudo
da natureza, num ambiente em processo de transformação, alimentavam um olhar
mais atento para as reflexões dos antigos. Os textos de Platão, Aristóteles, Ptolomeu
etc. iriam deflagrar um debate profícuo, como podemos observar nas obras de Robert
Grosseteste, Roger Bacon, Alberto Magno e Duns Scot.
Robert Grosseteste (1175-1253) foi o primeiro escolástico a entender,
seguindo as idéias de Aristóteles, que o pensamento científico percorria caminho
duplo. Foi estudante na Universidade de Oxford, e dirigiu esta instituição entre 1215 e
1221. Passou no período seguinte a ensinar teologia, tornou-se Bispo de Lincoln, em
1235, momento que redigiu vários tratados científicos como: “De Sphera”, “De

56
accessione et recessione maris”, que estudava o movimento das marés e de “De lineis,
angulis et figuris”, que discutia a lógica aplicada às ciências naturais, dentre outras
obras.100
Ele defendia que, das observações particulares, se poderia chegar a uma lei
universal e, portanto, fazer generalizações. No processo inverso, era possível, a partir
de leis universais, deduzir situações particulares. Estes caminhos deveriam ser
avaliados pelo estudioso, por meio de experimentos, indicando a importância da
matemática para a base experimental. A partir de princípios matemáticos, realizou
estudos sobre os astros, o som e óptica. Seu trabalho experimental permitiu o
desenvolvimento de lentes que posteriormente seriam utilizadas no telescópio e no
microscópio.101
O trabalho de Roger Bacon (1214-1294) deu atenção especial à questão da
experiência de como formar de ampliar o conhecimento humano. Bacon estabelece
etapas para se conhecer, era necessário partir da observação, passando para a
formulação da hipótese, para em seguida fazer a experimentação. Concluídas estas
etapas, o experimento poderia ser repetido e verificado.
Suas pesquisas em mecânica, geografia e óptica foram importantes na medida
em que defendia que a observação da natureza e a experimentação eram necessárias
para o conhecimento natural e para realizar verificação, independente do experimento.
Como observa Colin A. Ronan, as obras de Roger Bacon “mostram as virtudes e não
os vícios da escolástica – a mistura do dogma religioso com a filosofia, que era a
marca registrada do pensamento da intelectualidade ocidental entre os séculos IX e
XV”. 102
Nota-se que, além dos trabalhos teológicos, os pensadores se dedicaram à
filosofia da ciência. Alberto Magno (1193?-1280) frade dominicano e bispo de
Regensburg foi um dos primeiros pensadores da igreja a defender a filosofia de
Aristóteles. O religioso logo demonstrou tendência para investigação da botânica,
zoologia, meteorologia, física, química etc. Procurava conciliar a fé divina com o
saberia humana, na medida em que novas conquistas iam sendo empreendidas,
contribuindo com uma abordagem mais empírica sobre os objetos de estudo.
O franciscano John Duns Scot (c.1265-1308) que se formou na Universidade
de Oxford e lecionou na Universidade de Colônia abraçou as ideias de Santo

57
Agostinho, defendendo que as verdades da fé não eram possíveis de serem
compreendidas por meio da razão. De forma similar aos pensadores que
mencionamos, John Duns Scot valoriza a experiência, principalmente na obra “De
primo Princípio” (Do Primeiro Princípio).103 Para Duns Scot, a ciência era entendida
como uma intuição completa do objeto, ou seja, o conhecimento da sua essência.
Segundo seu pensamento, a ciência poderia ser divida em duas. A primeira
compreendia a matemática, a metafísica e a física, que eram as ciências teóricas, já
proposta por Aristóteles. A segunda abrangia as formas de pensamento e as leis da
linguagem, ou seja, a lógica, a retórica e a gramática. Duns Scot defendia a existência
de cinco sentidos, mais um interno que era responsável pelo entendimento. Cada
sentido fazia que o ser humano fosse capaz de conhecer as diferenças. O intelecto, por
sua vez, possuía operações próprias que o distinguia como concepção universal, capaz
de fazer análises e sínteses. Era por meio dele que o ser humano era capaz de
conceber espécies e gêneros, fazendo ligações entre as idéias. O intelecto descobria
nas sensações o objeto de conhecimento e permitia ao homem conhecer a existência
das espécies por um meio inteligível.104
O teólogo franciscano inglês Willian de Ockham (1285-1347) defendia a ideia
de que a filosofia só deveria tratar de temas que pudessem chegar a um conhecimento
real. Estudou na Universidade de Oxford e foi discípulo de John Duns Scot. Em seus
escritos, defendeu o poder leigo da racionalidade, a liberdade humana e a capacidade
de escolha. O estudioso destacou-se nas suas considerações sobre lógica, formada a
partir dos sentidos. Para ele, o ser humano só era capaz de conhecer se tivesse
experiências concretas, ou comprovações. Segundo o princípio de Navalha de
Ockham: “se haverá várias explicações igualmente válidas para um fato, então
devemos escolher a mais simples”. De forma prática, Ockham entendia que os debates
longos, dispersivos e inconclusos não conduziam a nada. Para tanto, era necessário ser
objetivo. Ockham ao negar a possibilidade de se alcançar as causas verdadeiras dos
fenômenos naturais, por meio de conhecimentos racionais, confirma que o saber só
poderia ser adquirido pela experiência.105
A Universidade de Oxford manifestou um vívido interesse pelos estudos de
filosofia natural, gregos e árabes, por meio dos seus representantes. As investigações
conduziram à realização de trabalhos de óptica, alquimia e mecânica. A cultura árabe

58
foi difundida nesta instituição pela leitura reflexiva sobre o pensamento antigo,
questionando o que considerava algumas inconsistências. João Philoponus de
Alexandria (c. 490 - c. 570), por sua vez, criticou a explicação de Aristóteles sobre os
movimentos, defendo a idéia de que o valor da velocidade dependia da diferença entre
a força motora e a resistência do meio. Argumentava também que a idéia de espaço
estava associada a um corpo. Da mesma forma Ibn Sina (980-1037), conhecido por
Avicena e Ibn Bãjja (c1138-39), conhecido por Avempace, também manifestou sua
discordância em relação à física aristotélica. O debate estava posto e abria espaço para
que surgissem outros questionamentos em relação ao conhecimento existente.
A recuperação da obra Aristotélica, pela civilização ocidental entre os séculos
XI e XII, deu origem à revisão das reflexões sobre a razão e a fé. O pensamento
aristotélico, negando a criação do mundo por um ente divino, assim como a
imortalidade da alma, defendida por Platão nos seus escritos, obrigou a filosofia cristã
a reformular sua cosmovisão, tentando unir a razão à religião, na tentativa de
sintetizar a racionalidade aristotélica e os ensinamentos cristãos e comprovar que
estas não eram excludentes, mas sim congruentes. A filosofia escolástica deu ênfase à
lógica e ao empirismo, que poderia estar sujeito a um conjunto de leis explicáveis
pelo pensamento racional. As possibilidades sugeridas pelos escolásticos, na busca de
respostas para entender os fenômenos, dinamizaram movimento intelectual.
Os filósofos muçulmanos, que iniciaram a difícil tarefa de conciliação destas
duas partes, posteriormente seguida pelos escolásticos, apelaram para o pensamento
racional de Aristóteles para justificar o primado da fé, fortalecendo-o, por entenderem
que a razão deveria ser guiada por ela. No universo cristão surgiram pensadores cujo
como objeto era encontrar o equilíbrio entre a razão e a religião. Tomás de Aquino
(1225-1274) defendia que a única fonte de conhecimento humano seria a realidade
sensível. O pensador afirmava que os objetos naturais possuíam forma inteligível em
potencia que só poderia ser compreendido por meio do intelecto. Este comportava
duas ações: uma passiva que apreendia os dados do sentido, e outra ativa que fazia a
separação das imagens sensíveis, formulando conceitos abstratos e universais. O
intelecto humano, enquanto agente, era uma dádiva divina, pois sem este não seria
dado ao homem conhecer nada. Tomás de Aquino entendia que existiam dois tipos de
ciência. A primeira, que partia de princípios evidentes, como a geometria e a

59
matemática e a segunda que era a ciência que surgia a partir de uma ciência superior,
como a perspectiva, que advinha da geometria.106
Tomás de Aquino, na obra “Suma Teológica”, defendeu uma harmonia
intrínseca entre a razão e a fé, entendendo que na fase terrena do homem, este deveria
deixar que sua fé guiasse a razão, pois com isto atingiria a felicidade e no céu
alcançaria o conhecimento pleno. Para Tomás de Aquino, Deus era a causa primeira e
o fim último de todos os homens; estes não deveriam sobrepor a razão à doutrina, pois
a razão nada mais era do que um elemento facilitador para esclarecimento dos dogmas
revelados.107
Este movimento questionador foi impulsionado também pelo desenvolvimento
comercial que alimentava a convicção de que a relação com Deus residia no
comportamento do indivíduo na sua condição terrena. Essa alteração profunda, no
âmbito intelectual e também no cenário econômico com o renascimento comercial,
fez que surgisse progressivamente uma nova consciência religiosa. O homem era um
ser pecador, e o pecado residia em cada um. Cabia-lhe discernir e libertar-se da
mácula que contraíra, buscando reencontrar-se e alcançar a luz divina. Georges Duby,
por sua vez, afirma que cada vez mais, durante a Idade Média, Deus ia assumindo a
associação com a luz; luz irradiada de Deus sobre as criaturas, que une matéria e
espírito, através da graça divina.
Para o cristianismo, a ordem do meio natural, ou do Universo criado, estava
diretamente ligada a uma estruturação da sociedade de forma ordenada. A criação
teológica que identificava Deus como um construtor, o grande artesão do mundo,
imperou nas elaborações mentais que buscaram reunir o homem e Deus para um
retorno ao estágio primordial da vida na Terra, onde a natureza é vista como extensão
da vida humana.108 O simbolismo emblemático da natureza na Idade Média resgatou a
imagem do Éden, paraíso terrestre original perdido, símbolo da esperança e da
salvação, delineado no Gênesis como contraponto de um mundo visível, onde
preponderavam as imagens infernais e as vicissitudes impostas ao homem.
Os parcos meios para a exploração da natureza, as colheitas deficientes, o
trabalho árduo, a miséria e a fome criaram um meio propício para a busca de “um
paraíso de delícias”.109 Idealizava-se o encontro de locais com abundância de recursos
vegetais, animais e minerais, favorecendo o desenvolvimento de uma geografia, que

60
em termos físicos era a síntese da literatura clássica e das narrativas bíblicas. Um
mundo natural abundante, repleto de árvores frutíferas, rios, fontes e lagos com água
límpida, paisagens verdejantes entoadas pelos cantos dos pássaros era o quadro
edênico imaginado.110 Elementos que estariam presentes nos relatos e crônicas no
decorrer da conquista das terras brasílicas.
Se a Igreja católica defendia verdades absolutas, nem todos os homens se
contentaram com o saber das escrituras sagradas. No decorrer dos séculos XIII e XIV
ocorreram várias expedições pela Europa, tendo como objetivo atingir áreas
inexploradas pelos homens, enfim conhecer a natureza que não fora revelada. Em
1280, Pierre III de Aragão (1239-1285) registrou sua subida ao alto do Canigou, numa
das etapas da expansão da coroa de Aragão pelo Mediterrâneo. Em 1291, Ugolino e
Vandino Vivalid transpuseram o estreito de Gibraltar em busca das riquezas
existentes na África, e não retornaram.111 O homem ultrapassava os limites de espaços
geográficos pouco conhecidos, para ampliar as fontes de riqueza que o mundo natural
lhe poderia ofertar.
O imaginário medieval, em diversos textos, procurou ressaltar o ideal de
fixação em uma vila com algo virtuoso, em face da desordem imperante pelos
caminhos, onde preponderavam uma natureza desconhecida e a turbulência causada
pelas guerras. Se, por um lado, o deslocamento era questionado, por outro ele poderia
permitir o enriquecimento. Aqueles que se arriscavam pelos caminhos e barreiras
impostas pela natureza, como os comerciantes, poderiam obter êxito.
O renascimento agrícola, comercial e cultural, as Universidades e o
surgimento da imprensa guardariam um novo momento para a aventura humana
quanto a conhecer e conquistar o mundo natural. O homem renascentista pretendia
alcançar a fé por meio do conhecimento. A modernidade abriu as portas para um
movimento cultural turbulento, idéias entraram em confronto, as viagens marítimas
deram ensejo à reformulação das leis e das teorias, abrindo novos caminhos para o
pensamento humano. Os avanços técnicos no decorrer do século XIII a XV, tais como
a bússola, o astrolábio, a vela latina, o timão na proa e novos tipos de navios
permitiram que as navegações ganhassem uma nova dimensão, revelando um olhar
questionador em relação à natureza.

61
A intensificação da circulação e da observação conduziu ao desenvolvimento
tecnológico e seus avanços. O uso dos astros tornou-se fundamental na navegação,
sendo a estrela polar (Draconis)112 um ponto de referência. Em não sendo possível
visualizá-la, os navegadores procuravam outra estrela.
No século XIII, é possível identificar registros de novos tipos de bússolas que
eram utilizadas por navegadores e por andarilhos as quais permitiam uma localização
mais exata. Pedro de Maricourt, discípulo de Roger Bacon, na sua obra “L’Epistola
de magnete” (Epístola de Magnete), de 1269, informava sobre a existência de uma
bússola líquida, fixada em um eixo vertical, com dispositivo para marcações. Este
estudioso, por meio de observação e do raciocínio indutivo, interpretou o magnetismo,
melhorando o princípio da bússola.
No século XIV, Flávio Gioia (Gioja), navegante de Amalfi, aperfeiçoou a
agulha magnética da bússola, introduzindo uma caixa e carta-compasso. O uso da
agulha magnética exigia o uso de instrumentos para medida de ângulo vertical, a fim
de determinar alturas dos astros e, por conseguinte, calcular a latitude. Este trabalho
intensificou o uso da bússola pelos navegadores. 113
O contato com o Oriente permitiu, desde a Antiguidade, a circulação de
conhecimento e a introdução de outros instrumentos de medição de altura dos astros,
por exemplo, a Tábua da Índia. O astrolábio, inventado por Apolônio de Perga (262-
190 a.C.), ou por Hiparco (190-126 a.C.),114 foi aperfeiçoado e difundido pelos árabes
no século VIII d.C. No século XIII d.C., o instrumento era utilizado para identificar as
estrelas, por meio de um disco de metal, graduado em graus, aparelhado com um
dispositivo móvel de visada (alidade de pínulas).
Neste universo pulsante, longe de significar um período de estagnação ou de
trevas, o homem medieval reconsiderou os seus parâmetros, como bem expressou o
pensamento humanista. O Concílio de Florença (1439) deu um impulso decisivo aos
estudos platônicos na Itália, na medida em que doutores da igreja latina e grega se
reuniram para debater textos sagrados, revelando um aprofundado conhecimento de
Platão.
Nicolau Krebs (1401-1464), nascido em Cusa, foi um dos expoentes dos
Quatrocentos, por defender que o saber humano ocorria no plano o intelectual e no
plano racional. Foi educado Deventer, e posteriormente estudou na Universidade de

62
Heidelberg, ordenou-se padre, participou do concílio de Basiléia (1432), ocupando
diversas posições na estrutura hierárquica da Igreja. Estudioso contumaz, escreveu
três obras fundamentais: “De docta ignorantia” (1440), “De conjecturis” (1441),
“Idiota de mente, Idiota de sapientia, Idiota de staticis experimentis” (1450). Nicolau
de Cusa entendia que acima dos sentidos havia dois graus do saber humano; a ratio e
o intellectus. A ratio, ou seja, intelecto discursivo, era a faculdade que abstraia das
noções particulares os conceitos universais, e formava, em seguida, os juízos e os
raciocínios. Seu objeto era o conhecimento da multiplicidade e do finito. Porém,
admitia que as coisas finitas não eram perfeitamente representadas pela ratio. Por
conseguinte, Deus não poderia ser conhecido por meio da ratio. O intellectus era uma
atividade acima da ratio, iluminada pela fé, tendo como objeto o Uno e o infinito,
entendido por ele como sendo Deus.
O trabalho de Nicolau de Cusa retoma de forma objetiva a discussão de como
era possível conhecer, raciocinar e fazer juízo. Apesar de suas reflexões estarem
eivadas do referencial cristão, elas apontam para um momento de revisão em que
razão e fé não eram incompatíveis.
Na segunda metade do século XV, o retomar das ideias platônicas em
Florença originou a academia platônica florentina, tendo como seu principal
representante Marsílio Ficino (1433-1499). Este filósofo estudou filosofia e escreveu
uma coletânea de textos que ficou conhecida como a “Summa philosophiae”,
abordando questões de lógica e física. Argumentava que a função do pensamento
humano era admitir a imortalidade por meio do pensamento racional (ratio),
intelectual (mens) e imaginativo (spiritus e fantasia).
Suas idéias eram ecléticas e, de certa maneira, dimensionavam o homem como
um ser animado num microcosmo.
Da academia participaram Angelo Poliziano (1454-1494), Giovanni Pico della
Mirandola (1463-1494) e o próprio Lourenço, o Magnífico (1449-1492). Marsílio
traduziu para o latim obras de Platão e Plotino. De seu trabalho de tradutor e de
pensador surgiu a obra “Theologia platonica de immortalitate animorum” (1491).
Enquanto religioso, procurou adequar o platonismo com o cristianismo, discutindo o
conceito posto na Antiguidade de que o homem era um microcosmo.
João Pico della Mirandolla seguiu para a Universidade de Bolonha com o

63
objetivo de estudar Direito Canônico. Contudo, preferiu aprofundar os estudos na área
de Teologia e Filosofia, realizando posteriormente várias viagens pela Europa. No
decorrer de suas andanças, aprofundou seus estudos, buscando conciliar a religião
com a filosofia. O Humanista, autor de “De dignitate hominis” (Discurso sobre a
dignidade do homem), demonstrou que o conhecimento era fundamental para o
homem. Defendia que o ser humano era capaz de aprender sobre si mesmo e sobre a
natureza, devendo para tanto utilizar seu intelecto. Este movimento em busca do
conhecimento poderia elevar o homem na cadeia dos seres vivos, por sua capacidade
de autotransformação.
A Renascença apontava para uma revisão das ideias platônicas e aristotélicas,
entendendo que o ser humano era capaz de dar impulso ao seu desenvolvimento
intelectual. Em suma, que os avanços tecnológicos instrumentalizaram os homens
para novas conquistas, não deixando de lado o imaginário medieval que alimentava a
possibilidade de um paraíso que não seria encontrado no território europeu. Os únicos
espaços com características próximas de um paraíso para os homens daquele tempo
eram os núcleos habitados e cultivados, cercados, sinais de segurança e descanso após
as árduas travessias tão comuns naqueles idos. Para além dos cercados, encontravam-
se as florestas, a natureza hostil não cultivada, vasta por excelência, e ameaçadora
pela grandeza e perigos iminentes. O homem medieval entendia que o acesso ao
momento da origem do mundo era possível, e as primeiras descobertas acenavam
como manifestações do sagrado, neste sentido. O paraíso existia e estava separado do
território europeu. Tal como a separação que Deus fez com as águas da Terra, no
primórdio da humanidade, as novas terras também tinham sido separadas por Deus.

64
Segundo Capítulo

A natureza
e a emergência
de novos paradigmas

“Os homens astutos condenam os estudos,


os homens simples os admiram,
e os homens sábios se utilizam deles,
obtida graças à observação."

Francis Bacon

A descoberta das coisas deve ser feita


com recurso à luz da natureza
e não pelas trevas da Antiguidade.”

Francis Bacon

65
2.1 A ideia de natureza no limiar da modernidade

No final da Idade Média o pensamento cristão passava por uma série de


questionamentos sobre a própria ordenação da Igreja e do poder temporal.
Paulatinamente o homem lançava o olhar para as coisas do mundo natural, como uma
curiosidade maior. Seu grande desafio era aprender a olhar o mundo que o cercava.115
O interesse pela natureza despontava no século XVI como algo irreversível. O
Renascimento promoveu importantes transformações no século XV. O debate de
ideias, que fez surgir em Florença a Academia Platônica, com figuras de humanistas
como Marsílio Ficino, Pico della Mirandola, dentre outros, se espalhou pela Europa,
assumindo nuances específicas em cada região. Concomitantemente, despontam
novos seguidores de Aristóteles, como Pietro Pomponazzi (1462-1525), observando
que certos tipos de eventos parecendo milagrosos eram, de fato, fenômenos de ordem
natural. Suas ideias contra as proposições da Igreja o tornaram alvo de perseguições e
suas obras proibidas pelo Concílio de Trento (1545-1563).116 Uma ebulição de
pensamentos dinamizava a sociedade renascentista.
Neste momento, é possível identificar que entre o século XV e XVI emergem
novas discussões sobre a ideia de natureza. Os pensadores dialogaram com as ideias
medievais e da antiguidade clássica e contribuíram com novos elementos na leitura
dos fenômenos do mundo natural. O Humanismo, como movimento literário e
filosófico que nasce nas cidades italianas na segunda metade do século XIV,
conquistou rapidamente a Europa, celebrando o ser humano. As ideias humanistas se
contrapunham à visão medieval, em que o papel do homem era reduzido, sujeito aos
perigos do mundo, normalmente oscilando do pecado à salvação, como vimos. Neste
sentido, era preciso pensar o papel do homem num novo universo. Para o
Humanismo, o tema central era a questão da liberdade do homem e a sua capacidade
de criar um novo projeto de vida. Como centro de tudo, deveria engajar-se na busca
da verdade. O ser humano possuía capacidade intelectual ilimitada para construir o

66
saber; bastava usar suas faculdades mentais. Os pensadores humanistas entendiam que
havia muita ignorância na sociedade, sendo o indivíduo sufocado pela religião. O
homem devidamente instruído poderia chegar à liberdade em sua plenitude.
O olhar para a Antiguidade serviu para recuperar textos antigos, mas também
para discutir a formação do homem. A educação do período não o preparava para
exercer o seu papel na sociedade, conforme sua capacidade. O homem necessitava de
uma educação adequada à perspectiva histórica, cheia de contrastes que exigiam
solução.
A obra de Erasmo de Rotterdam (1466-1536), “Elogio da Loucura”, criticava
a sociedade e os seus valores. Momento em que a riqueza dos príncipes contrastava
com a pobreza da população, da mesma forma que o desregramento de papas e bispos
revelava a fragilidade do cristianismo. Haveria justiça na sociedade? Onde ela estaria?
O ser humano estava insatisfeito e Erasmo de Rotterdam procurou, por meio do seu
escrito, questionar a sanidade do mundo. O príncipe dos Humanistas entendia que a
razão humana era capaz de distinguir entre o bem e o mal, sendo o homem capaz de
definir o seu destino. O texto instigava os leitores à reflexão e a entenderem que não
se estava tocando “na oculta cloaca de vícios da humanidade, nem revelamos as suas
torpezas e infâmias, limitando-nos a mostrar o que nos pareceu ridículo. Se, apesar de
tudo, ainda houver ranzinzas e descontentes, que ao menos observem como é bonito e
vantajoso ser acusado de loucura.”117
A sociedade renascentista era algo digno de se questionar. Para Erasmo, a
maioria dos homens era ingrata, fingida e alimentava comportamentos errados. Os
sábios se perdiam em divinizar suas ideias, tornando-se pessoas desagradáveis e de
difícil convívio. Além disso, alimentavam um desprezo pelos demais e não gostavam
absolutamente de ninguém. Para ele, nesse universo: “Quase todos os homens são
loucos; mas por que quase todos? Não há quem não faça suas loucuras e, a esse
respeito, por conseguinte, todos se assemelham; ora, a semelhança é justamente o
principal fundamento de toda estreita amizade”.118
Os Humanistas procuraram repensar os filósofos antigos a fim de integrá-los
na concepção cristã de vida, nesse novo universo da loucura. Contudo, o horizonte
cristão se ampliara progressivamente. O homem avançava pelo Oceano Atlântico e
encontrava regiões desconhecidas. As certezas eram postas à prova. O mundo passava

67
a ser uma grande indagação. Como registrou Thomas More (1478-1535), na sua obra
“Utopia”, o avanço em direção ao Equador gerava questionamentos expressos na fala
do personagem Hitlodeu:
“de uma parte e de outra, no espaço compreendido pela órbita do sol, não
viram senão vastas solidões eternamente devoradas por um céu de fogo. Aí, tudo os
aturdia de horror e espanto. A terra inculta tinha apenas como habitantes os animais
mais ferozes, os répteis mais terríveis, ou homens mais selvagens que os animais.
Afastando-se do equador, a natureza se abrandava pouco a pouco; o calor é menos
abrasador, a terra se cobre de uma ridente verdura e os animais são menos selvagens.
Mais longe ainda, aparecem povos, cidades, povoações, em que se faz um comércio
ativo por terra e por mar, não somente no interior e com as fronteiras, mas entre
nações muito distantes”.119
O registro de um mundo imaginário, próximo ao ideal, é delineado por
Thomas More, que ignora os problemas da sociedade. Nesse universo utópico, os
meios de produção pertenciam a todos e a atividade comercial beneficiava o coletivo.
A liberdade religiosa reinava e o humano era instado a viver conforme a sua natureza.
Este novo modelo de governo e sociedade demoraria a chegar, apesar de ser desejado
por muitos.
A partir do Renascimento, o espaço começou a ser construído sobre novos
moldes. A geometria permitiu imaginar outras representações espaciais. Estas, antes
de serem uma imitação do real, eram uma ilusão. Havia uma representação espacial
simplificada que atendia a uma forma de perceber o espaço. Contudo, o movimento
humano pelos mares modificou estas representações e o ser humano foi convidado a
imaginar e a questionar como fez Hitlodeu. Contudo, a racionalidade dos interesses
econômicos nem sempre explicou o gosto pela aventura, pelo desconhecido ou novo,
que só a mentalidade medieval tinha alimentado. As descobertas, ao sintetizarem um
conjunto de novos processos técnicos (teóricos e empíricos), astronômicos, em nível
da arte náutica, como vimos anteriormente, possibilitaram a abertura dos olhos do
mundo. 120
Portugal assumiu papel de destaque nesta empreitada, além de promover uma
verdadeira revolução nas artes náuticas; impulsionou o conhecimento sobre as novas
terras americanas. O mundo passou a ser cada vez mais representado, os espaços

68
planetários construídos na sua aproximação com a realidade, seguindo os
reconhecimentos que cada viagem exploratória promovia, enquanto as configurações
fantasiosas iam perdendo sua intensidade. O contorno do mundo começava a ser mais
definido. O homem europeu conseguia realizar uma representação abstrato-conceitual
nos mapas que ganhavam difusão nesse momento, questão posta desde a Antiguidade
pelos pensadores pré-socráticos. Como afirma Guillermo Giucci “a única fonte
verdadeira e confiável de conhecimento do Novo Mundo apóia-se na experiência
pessoal. E a experiência do desconhecido e ameaçador implica uma reavaliação
profunda da série de conceituações imaginárias erigidas a partir da ilusão”.121
O homem ia conseguindo ver a Terra dissociada da imagem Céu-Inferno,
enquanto esferas interligadas e decorrentes. A imaginação humana estava
simbolicamente livre para romper os estreitos limites da Terra e dominá-lo; tal como
os primeiros seres humanos do período paleolítico, que desenhavam nas cavernas, o
homem, ao delinear os contornos do mundo, tornava-se possuidor da coisa
representada. O desejo humano de captura do mundo natural era uma constante.
Os descobrimentos, ao revelarem para a humanidade a dimensão do globo
terrestre, desencadeiam uma nova reordenação de estruturas de pensamento, uma
mudança histórica até então nunca vista. Segundo Edmundo O’Gorman, o
descobrimento da América:
“não deixou de refletir nas novas ideias astronômicas que deslocaram a Terra
da sua condição de centro do universo para convertê-la num carro alado de
observação do céu, foi uma mudança cujas conseqüências ultrapassaram o seu aspecto
meramente físico. É claro que se o mundo perdeu sua antiga natureza de cárcere para
converter-se em casa aberta e própria, é porque o homem, por sua vez, deixou de
imaginar-se a si próprio como um servo prisioneiro para transfigurar-se em dono e
senhor do seu destino. Em vez de viver como um ente predeterminado num mundo
inalterável, começou a se imaginar como dotado de um ser aberto, habitante de um
mundo construído por ele à sua medida e semelhança”.122
O palco da atuação humana era ampliado, assim como o seu conhecer, e essa
“novidade-mudança” é responsável “por um novo mundo de coisas, informações,
dados, diferenças etc”.123 As descobertas prepararam o caminho para uma nova

69
ciência, o homem despertava para sua consciência crítica, desterrando do saber os
erros longamente enraizados no pensamento europeu.124
As descobertas marítimas, ao permitirem um re-conhecimento do mundo,
traziam consigo uma nova leitura da existência humana. A Igreja, detentora do saber
primordial sobre as origens da civilização ocidental, revê as suas afirmações. O
microcosmo medieval é implodido, e surge um macrocosmo que o pensamento
ocidental tem que reordenar.
O novo precisava ser inserido no discurso religioso das Escrituras Sagradas,
como parte componente dissociada da célula materna. As terras americanas acenavam
para um reencontro das partes, até então desunidas, a ideia de um jardim de delícia
mostrava-se presente. Uma única lógica as envolvia, pois uma única razão as tinha
tornado possível. O ponto comum era que o monoteísmo cristão reunia de maneira
convergente todas as coisas criadas pelo ente divino.125
A verdade católica atingia uma amplitude máxima, tendo como certeza que
Deus ofertara aos homens europeus a possibilidade de conhecer os seus pares,
regulados por uma mesma ordem e uma mesma regra que era o cristianismo. Deus
oferecera, senão o Paraíso, pelo menos algo muito próximo de uma situação idílica, há
muito tempo desejada. As novas terras foram inseridas num contexto religioso de
concepção que entendia que o universo, feito por Deus, era ampliado pelo engenho do
homem europeu.
As descobertas eram o sinal de uma nova era. O homem conseguia contemplar
a onipotência divina e sua criação na sua plenitude.126 As novas tecnologias da
navegação possibilitaram o alargamento do horizonte da cristandade. Se a fé católica
se espalhava pelo mundo, o movimento do pensamento científico ia assumindo
contornos mais nítidos. O conhecimento sobre os mares acumulados por séculos
passou a ser cada vez mais sistematizado, conduzindo ao que seria conhecido como
revolução científica. Como salienta Paolo Rossi:
“A propósito do nascimento da ciência moderna se falou e ainda se fala,
justamente, de 'revolução científica'. Um dos aspectos característicos das revoluções
consiste no fato de que elas não só olham para o futuro, dando vida a algo que antes
não existia, mas também constroem um passado imaginário que, em geral, tem
características negativas.”127

70
Portugal fez parte desse processo de transformação, olhando para o futuro e
contribuindo para realizar as transformações da sociedade no caminho de um novo
pensamento. D. Henrique, o navegador (1394-1460), foi o agente da reunião de
especialistas na vila de Sagres. Para lá afluíram matemáticos, cosmógrafos,
cartógrafos e especialistas da construção naval do período. O resultado deste empenho
foi o avanço marítimo português vencendo o Cabo Bojador, aventura feita por Gil
Eanes (século XV) em 1434. Aos poucos, os mapas foram sendo modificados a partir
das informações dos viajantes. O Infante D. Henrique pautou-se pela famosa máxima
de Pompeu, navigare necesse est, vivere non est necesse. Portugal neste momento
assumiu um papel importante no movimento de viagens marítimas que levaram ao
reconhecimento das ilhas do Atlântico e de partes da África, para em seguida chegar à
Índia e à América.
Em 1472, Abraham Zacuto (c.1450-1510) estabeleceu o “Almanach
Perpetuum”, compôs tabelas da declinação do sol e aperfeiçoou o astrolábio que
seriam utilizadas como referência nas viagens posteriores, como a de Vasco da Gama
e de Pedro Álvares Cabral.128 No decorrer do século XVI, as viagens marítimas
permitiram que novos instrumentos e tábuas de medição fossem criados ou
melhorados. Da mesma maneira, manuais de navegação, com descrições geográficas
aparecem como a “Suma de Geographia” do navegador espanhol Martín Fernandez
de Enciso, publicado em 1519. Os registros sobre viagens ganharam uma ampla
difusão e rapidamente se evidencia a importância da circulação da informação e das
trocas culturais e econômicas que se empreenderam, onde as descrições sobre a
natureza aparecem com mais constância. Os europeus olhavam atentos para as terras
distantes, buscando encontrar algo possível de ser explorado e que gerasse riqueza.
O homem observava, analisava e construía novas leituras sobre o mundo
natural e a dinâmica que envolvia a Terra. Em 1537, Pedro Nunes (1502-1578)
publicava o “Tratado da Sphera” de Sacrobosco explicando como determinar a
latitude a partir da medição de duas alturas do Sol. A invenção do quadrante
náutico,129 do noturlábio,130 o octante,131 bem como outros instrumentos e tábuas
astronômicas permitiram o rápido desenvolvimento da navegação e a precisão do
navegar, que seriam fundamentais para os séculos seguintes. O desconhecimento de
tais técnicas impedia a localização de embarcações, tendo em vista as correntezas do

71
mar e os efeitos do vento. Desta forma, a experiência e o conhecimento eram
fundamentais para o êxito das expedições. Pedro Nunes defendia que o conhecimento
científico deveria ser compartilhado para resolver problemas práticos da navegação
valendo-se de cálculos matemáticos.132
A obra “Arte de Navegar” de Pedro de Medina foi editada em Valadolid, no
ano de 1545. Nos anos seguintes a obra foi traduzida para outras línguas e ganhou
novas edições. O sucesso desse trabalho consistia na forma de sua narrativa; de fácil
compreensão e de interesse para os navegantes, fornecia informações sobre os
movimentos do mar ou dos ventos e a relação com as fases da lua, como fazer uso da
altura do sol, dentre outros assuntos náuticos.133
Observa-se que as grandes viagens marítimas incorporaram novos
conhecimentos que foram sendo encontrados na África, Ásia e América. As
descobertas sintetizaram um conjunto de novos processos técnicos (teóricos e
empíricos), astronômicos, em nível da arte náutica, e possibilitaram a abertura dos
olhos para o mundo. Este passou a ser cada vez mais representado, segundo os
reconhecimentos que cada viagem exploratória promovia, fazendo que as
representações fantasiosas fossem perdendo sua intensidade. As formas de pensar a
realidade sofriam transformações, migrando da fé para a racionalidade. O empirismo
sensorial, atribuindo papel central à vivência de cada indivíduo, pela evidência da
observação, entendia que da própria vivência deriva a acumulação informativa que
compõe o arcabouço de conhecimento do indivíduo.
A cartografia náutica, que paulatinamente floresceu em qualidade e
quantidade, consolidou uma consciência geográfica global. As explorações feitas
pelos navegadores lusitanos, dentre eles: Diogo Cão (século XV), Bartolomeu Dias
(1450-1500), Vasco da Gama (1469-1524) e Pedro Álvares Cabral (1467-1526), entre
outros, além de inaugurarem o contato com as novas civilizações da África, da Índia e
da América, possibilitaram a união dos mares até então desconhecida, rompendo com
as concepções medievais influenciadas pela Bíblia e pelos textos clássicos da
Antiguidade.134
Uma nova visão do mundo, mais próxima da realidade e, por conseguinte,
mais detalhada, superava os esboços cartográficos antigos. O homem dava contorno
ao seu mundo, apreendendo-o e tornando-o objeto de estudo. Os descobrimentos, ao

72
revelarem a verdadeira dimensão do globo terrestre para a humanidade, desencadeiam
um novo reordenamento das estruturas de pensamento, uma mudança histórica até
então nunca vista. O palco da atuação humana era ampliado, assim como o seu
conhecer. As descobertas prepararam o caminho para uma nova ciência, na medida
em que a natureza passava a ser indagada pelo homem. As certezas eram relativas.
Havia dúvidas e buscavam-se respostas.135
A partir da Idade Média, a ideia da esfericidade da Terra já estava
consolidada. Contudo, a discussão convergiu para outro aspecto: seria o Sol ou a
Terra o centro do Universo. Os antigos acreditavam que a Terra era estacionária e que
todos os corpos celestes se moviam no seu entorno, em órbitas circulares. A invasão
muçulmana na Península Ibérica permitiu o estabelecimento de escolas de
Astronomia, compilando dados para a tábua astronômica Hakémite. Nos séculos XIII
e XIV, entre os astrônomos, já circulava a ideia da teoria heliocêntrica que não era
aceita pela Igreja.
Nicolau Copérnico (1473-1543), ao defender a ideia de que o Sol estava em
repouso e que os demais planetas giravam no seu entorno, lançou a base da nova
astronomia, mudando o referencial de leitura consagrado desde a Antiguidade. O
estudioso defendia que o movimento dos astros dependia das distâncias dos planetas
em relação ao sol, tese que não foi aceita pela Igreja. Em 1543, Nicolau Copérnico
publicou a obra “De Revolutionibus Orbium Coelestium” (Da Revolução de esferas
celestes)”,136 na qual afirmava que não havia um único centro para todos os corpos
celestes ou esferas, como afirmara Ptlomoeu. Copérnico entendia que existiam dois
centros de rotação, sendo a Terra o centro da rotação da Lua e o Sol era o centro da
rotação de outros planetas; por conseguinte, o sol era excêntrico em relação ao centro
do universo. O estudioso afirmava que o centro da terra não coincidia com o centro do
universo, mas apenas com o centro da gravidade e da esfera da lua, apresentando um
novo problema que era a explicação sobre a gravidade. Copérnico defendia que a
relação entre a distância Terra-Sol e a altura do firmamento era menor do que a
relação entre o raio terrestre e a distância. Afirmava ainda que todos os movimentos
que apareciam no firmamento não eram derivados de movimentos do firmamento,
mas sim do movimento da Terra. O firmamento mantinha-se imóvel, enquanto a Terra
realizava uma completa rotação sobre os seus polos fixo em movimento diuturno. Da

73
mesma forma, chamava a atenção para o fato de que aquilo que parecia movimentos
do Sol não derivava deles, mas do movimento da Terra ao redor do Sol, o que
implicava afirmar que a Terra possuía mais de um movimento. Copérnico acreditava
que o movimento da Terra era suficiente para explicar as desigualdades que
apareciam no céu. 137 Como bem lembra Paolo Rossi:
“A simplicidade do novo sistema, no entanto, era mais aparente do que real:
para justificar os dados das observações, Copérnico foi forçado, em primeiro lugar, a
não fazer coincidir o centro do universo com o Sol (o seu sistema foi chamado de
heliostático, ao invés de heliocêntrico), mas com o ponto central da órbita terrestre;
em segundo lugar, foi obrigado a introduzir de novo, como em Ptolomeu, uma série
de círculos girando em torno de outros círculos; e finalmente atribuir à Terra (além do
movimento de rotação ao redor do seu eixo e de translação ao redor do Sol) um
terceiro movimento de declinação (declinationis motus) para justificar a
'invariabilidade do eixo terrestre com relação à esfera das estrelas fixas.”138
As ideias defendidas por Nicolau Copérnico levavam o homem a abandonar as
crenças antigas para construir uma nova astronomia, levantando novas discussões
quanto às recentes e revolucionárias proposições.
O conhecimento da natureza podia ser atingido pela experiência direta, dando
destaque também para a intuição e a emoção. A lógica e a ideia de uma ordem
racional da natureza, defendida pela escolástica, passou por questionamentos e
provocou novas especulações. O pensamento moderno palmilhava com cuidado este
universo, demonstrando uma falta de consciência sobre as transformações que
estavam sendo engendradas e os paradigmas entravam em crise.
Este processo de reordenamento intelectual contou com vários protagonistas
que contribuíram, cada um, com novos conhecimentos que afetariam o conjunto de
saberes sobre o mundo natural.
Um desses protagonistas foi Bernardino Telésio que nasceu em 1509 em
Cosenza (Itália) e estudou em Pádua. Escreveu a obra “De rerum natura iuxta propria
principia”, explicando a natureza a partir dos princípios universais imanentes à
mesma natureza. O mundo natural era constituído de matéria, considerada homogênea
e inerte, e de força que animava e transformava continuamente toda a matéria.
Alertava para o fato de que muitos tinham investigado a natureza com grandes fadigas

74
e “inutilmente”. Indagava o que a natureza poderia ter revelado. O ser humano ao
buscar o entendimento da natureza esqueceu que era importante estudar cada uma das
partes, a exemplo do estudo de Telésio, seguindo os “sentidos e a natureza nada mais;
aquela natureza que, concordando sempre consigo própria, age e efectua sempre as
mesmas coisas e do mesmo modo”.139
O outro foi Giordano Bruno (1548-1600) que nasceu em Nola, entrando ainda
jovem na Ordem dos Dominicanos. Foi acusado de heresia e afastado de sua ordem,
sendo posteriormente processado pelo tribunal da Inquisição e condenado à morte. As
obras principais de Giordando Bruno que geraram polêmica e causaram a sua
acusação foram: “De la causa principio e uno” (1584); “De l'infinito, universo e
mondi” (1584); “De gli Eroici furori” (1585); “De innumerabilibus, immenso et
infigurabili” (1591). Para Giordoano Bruno, o conhecimento se dividia em quatro
graus em ordem hierárquica ascendente. Primeiro, eram os “sentidos”, cujo objeto era
o sensível, entendo que a verdade que manifestava era mera aparência. A “razão”
vinha em seguida, e por ela é que se atingia a verdade num processo dialético,
discursivo, sucessivo. O terceiro grau era o “intelecto”, condutor imediato para a
verdade. E no último grau a “mente”, que atingia a verdade na sua unidade e numa
simplicidade absoluta.140
A Igreja, ao buscar unidade e hegemonia sobre a sociedade, não admitia que
se proliferassem ideias divergentes daquelas que os teólogos propunham. Se os
mecanismos de perseguição e controle se ampliavam, estes não conseguiram inibir o
desejo humano de questionamento. A epopéia da ousadia em saber e conhecer estava
apenas começando e colocava em dúvida as ideias defendidas pela Igreja.
Galileu Galilei (1564-1642) no livro “Discorsi e Dimostrazioni Matematiche
Intorno a Due Nuove Scienze” (Discurso e demonstrações matemáticas sobre as duas
novas ciências - 1638), registra a importância das observações e informações que
tivera do Arsenal de Veneza, local onde se fabricavam navios e armas, considerado
como um local de produção de conhecimento.141 Seu estudo atacava o Universo
fechado e hierarquizado da física escolástica, propondo uma ideia de espaço a partir
da geometria. Além disso, rompia com a concepção aristotélica de repouso,
defendendo a ideia de movimento. Proposições que alteravam os conceitos
vigentes.142

75
O astrônomo Johannes Kepler (1571-1630), ao tomar o sol como ponto
comum às órbitas planetárias, esboçou a possibilidade de uma dinâmica no sistema
heliocêntrico, que poderia explicar a queda dos corpos. Valendo-se dos trabalhos de
seus antecessores, dentre eles Tycho Brahe (1546-1601), chegou a estabelecer duas
leis que contradiziam em parte os estudos anteriores. A primeira era que os planetas
descreviam um movimento elíptico no entorno do Sol, sendo que este ocupava um dos
focos da elipse. A segunda era que as velocidades dos planetas eram variáveis ao
longo da órbita, passando a ser mais veloz quando estavam próximas do sol.143
Os estudos do astrônomo alemão trouxeram grande impacto para os
navegadores da época, pois ao analisar as tabelas astronômicas, identificou-se a
necessidade de correções. O estudioso, ao estabelecer os princípios astronômicos da
Lei das Áreas Iguais, a Lei das Órbitas Elípticas e a Lei da Proporcionalidade dos
Quadrados das Revoluções e dos Cubos das Distâncias, permitiu que estes
conhecimentos fossem incorporados aos dados astronômicos da navegação. Neste
sentido, o movimento de descobertas da mesma maneira que gerou conhecimentos
novos, incorporou diferentes conhecimentos aprimorados numa velocidade muito
rápida.144
O alvorecer da modernidade despontou na Europa um conjunto de saberes
teóricos e práticos construídos por diversas mãos. O trabalho de navegadores,
cartógrafos, astrônomos, matemáticos abria campo para as investigações e
especulações. Exigiu novos equipamentos e a mudança de referencial. O estudo da
estrela Polar que permanecia fixa no céu, pois o eixo de rotação da Terra apontava
para a direção da estrela, permitiu aos navegadores utilizá-la como referência durante
a noite. Desta maneira, o termo “orientar”, que era utilizado nas viagens terrestres por
causa da tradição de se tomar Jerusalém como referência, cede espaço para o termo
“nortear”, fruto das observações astronômicas. 145
Este conhecimento não foi construído apenas pelo Ocidente. O contato com o
Oriente permitiu que os navegadores tivessem contato com outros povos, mas
principalmente com outros conhecimentos sobre a arte de marear. Este intercâmbio
representou uma ampliação das técnicas e por vezes uma melhoria qualitativa nas
viagens marítimas. O olhar europeu se abriu para novos horizontes, percebendo a

76
diversidade biológica. Ficava patente que só a experiência possibilitava conhecer o
novo e rever o conhecimento legado pela Antiguidade.
O século XVI lançou um novo olhar para a natureza e para o corpo humano.
Em algumas cidades italianas as investigações sobre o corpo humano foram
intensificadas na medida em que textos árabes e gregos, traduzidos para o latim,
conseguiram difusão. Na Universidade de Pádua (1222) o estudo da filosofia natural,
além do conhecimento da obra aristotélica, e dos escritos de Galeno (c. 131- c. 200)146
incorporou as ponderações de pensadores mulçumanos, como Averróis (1126-
1198)147. O estudo do corpo humano, por meio de dissecações, foi importante para
questionar o conhecimento vindo da Antiguidade. Andreas Vesalius (1514-1564) ao
observar as dissecações procurou, com o auxílio de desenhista, fazer representações
claras sobre as partes do organismo (ossos, músculos, sistema circulatório, sistema
nervoso, abdômen, coração, pulmões, cérebro) influenciando os estudos sobre a
anatomia humana.148 O médico William Harvey (1578-1657) concentrou o seus
estudos no entendimento da circulação sangüínea. Empreendendo uma série de
dissecações de animais diferentes, notou que o coração endurecia ao contrair-se,
indício de que ele era um músculo. Outro aspecto observado era que as válvulas
existentes só permitiam o fluxo de sangue num único sentido.149 Para Harvey, o
coração bombeava o sangue por artérias e veias, que compunham um único sistema de
circulação.
A medicina avançava em descobertas sobre as partes que compunham o
microcosmo humano. Os estudos dos órgãos e sua contribuição para o bom
funcionamento do organismo revelavam uma complexa leitura do corpo humano, que
funcionava a partir de sistemas. O próprio ser humano fazia parte de um sistema
maior, que o unia ao mundo natural, do qual dependia. As interdependências
provocavam discussão sobre os mecanismos da natureza e as contribuições que esta
poderia trazer para a saúde do homem. Desta forma, é conveniente ressaltar que o
saber sobre o organismo humano englobava o estudo da natureza, tendo em vista
muitos médicos passavam a estudar as propriedades de substâncias advindas de
plantas e animais que poderiam ser objeto de uso farmacêutico. E cada vez mais ele se
apresentava ao homem, pois como afirmava Heráclito a natureza amava esconder-se.

77
Estudos começavam a ser publicados, procurando dar uma visão geral sobre o
conhecimento do mundo natural. Girolamo Cardano (1501-1576), matemático e
estudioso da mecânica e das obras dos gregos, escreveu duas obras “De rerum
varietate” (1557) e “De subtilitate” (1550), visando à compreensão sobre a
diversidade do mundo natural. Este pensador utiliza o recurso da analogia, como
elemento do raciocínio, buscando construir a unidade das coisas.150
A crítica às concepções abstratas da natureza, que não conduziam à apreensão
imediata, estava presente na reflexão de muitos pensadores. O Renascimento e o
Humanismo determinaram que era preciso conhecer e não apenas ver. Desta forma,
havia uma tendência para os pensadores defenderem que o verdadeiro conhecimento
vinha da natureza, porque ela revelava a si própria, cabendo ao homem estabelecer os
critérios de observação, a fim de obter as respostas.151
Albrecht Dürer (1471-1528), nascido em Nuremberg, foi hábil no uso da
perspectiva e da ilusão de três dimensões na representação gráfica. Estudioso,
explorou diversas figuras de animais e plantas a partir da observação e de esboços
feitos por terceiros. Preocupada em ser fiel à realidade, delineou com precisão
aspectos dos seres que estudou. Suas pinturas eram registros precisos de sua
observação e foram publicadas pelo impressor Christophe Plantin (c.1514 – 1589) que
patrocinou diversos trabalhos científicos de botânica, tendo em vista o grande
interesse que despertavam na sociedade.
Neste cenário, os estudos de botânica e zoologia ganharam estudos mais
elaborados que influenciariam a caminhada das ciências nos séculos posteriores.
Dentre os precursores estão Otto Brunfels, Jerome Bock e Leonhart Fuchs que
realizaram trabalhos inovadores e passaram a ser considerados como os "pais alemães
da botânica".
Otto Brunfels (1488-1534) nasceu em Mainz, estudou no mosteiro de
Estrasburgo. Naquele momento, as ideias protestantes fervilhavam e Brunfels
reorientou sua fé para o luteranismo. Atuou como professor e demonstrou possuir
interesse pela medicina, sistematizando informações sobre a flora, e elaborou uma
obra designada de “Herbarum vivae eicones” (Ilustrações vivas de plantas), publicado
o primeiro volume em 1530 e o segundo no ano seguinte.152 A obra valia-se das
informações de Dioscórides (90-40 a.C.)153 e de outros estudiosos de plantas; sua

78
contribuição foi o registro de mais de duzentas plantas desenhadas por Hans Weiditz
(1500-1536). As gravuras, de tamanhos variados, mostravam uma precisão científica
que impressionava pela beleza, bem como pelos detalhes e por registrar o habitat
natural da espécie. O olhar atento registra uma natureza em sua plenitude e pode ser
considerado um marco no estudo da botânica no mundo ocidental.
Jerome Bock (1498-1554) também foi educado num meio católico, vindo
posteriormente a abraçar o luteranismo. Pelas referências apresentadas no seu
trabalho, ele provavelmente recebeu formação na área de medicina, especializando-se
em botânica. Em 1539, publicou a obra o “Neu Kreütter Buch” (Novo livro das
plantas), com descrições de plantas, adotando critérios mais objetivos para o
detalhamento da espécie; realizou um histórico de cada uma e as possíveis
interligações entre elas, valendo-se de referências de Brunfels e David Kandel (1520-
1592).154
Leonhart Fuchs (1501-1566) era luterano e também teve formação em
Medicina. Em seus trabalhos a influência dos escritos gregos é marcante,
principalmente de Dioscoride e Galeno, demonstrando um distanciamento respeitoso
em relação às fontes medievais. Sua obra sobre ervas medicinais, “De historia
stirpium” (A história natural das plantas - 1542) foi ricamente ilustrada com desenhos
de Heinrich Füllmaurer e Albrecht Meyer, e de xilogravuras de Rudolph Speckle.
Conforme afirma Paolo Rossi, no prefácio da obra, Leonhart Fucks registra que
tomara todos os cuidados necessários para que todas as plantas fossem representadas
com as raízes, caules, folhas, flores, sementes e frutos. Sua preocupação era com a
exatidão e não com a estética, e por isso cuidou para que não se representassem as
espécies conforme eram na realidade. 155
Leonhart Fuchs organizou a descrição de mais de quinhentas espécies por
ordem alfabética, procurando organizar em cada capítulo um gênero e suas
subdivisões.156 Preocupou-se com o registrar das diferentes partes e seus nomes,
destacando as diversas morfologias e propriedades das plantas. Porém, seus estudos
restringem-se a descrições gerais das flores, seus odores, cores e folhas sem delimitar
as espécies por seus órgãos de reprodução ou de frutificação. Se por um lado, os
trabalhos pouco acrescentavam em informações de base científica, por outro

79
conseguiram sistematizar e catalogar as espécies, contribuindo para o avanço de
outros estudos.
Valerius Cordus de Oberhessen (1515-1544), demonstrando um ávido
interesse por plantas, realizou viagens que resultaram na elaboração da “Annotationes
in Pedacii Dioscoridis de Matéria medica livros V”, publicada após sua morte em
1561. A obra reunia a descrição de uma série de plantas analisadas sob o ponto de
vista do uso farmacêutico, com descrições precisas e minuciosas, confirmando o
desejo de catalogação das espécies. O trabalho de Valeris Cordus de Oberhessen foi
continuado pelo suíço Konrad Gesner (1516-1565) que empreendeu um amplo
trabalho sobre espécies da flora, apresentando a estrutura das plantas.
Konrad Gesner demonstrou desde cedo ser um aluno estudioso dedicando-se
ao conhecimento do grego e do hebraico, e publicou a “Bibliotheca universali sive
catalogus omnium scriptorum locupletissimus in tribus linguis Latina, Graeca et
Hebraica”, uma bibliografia que registrava os livros impressos em latim, grego e
hebraico. Em 1537, foi professor de grego na Academia de Lausanne, onde estudou
Medicina. Konrad Gesner escreveu a obra “Opera botânica” (Trabalhos botânicos)
que continha mais de 1.300 gravuras, que seria completada após a sua morte. A obra
classificava as plantas em florescentes e não-florescentes e identificava cada uma pelo
modo pelo qual a seiva era suprida.157 Os estudos de Konrad Gesner não ficaram
restritos à botânica, pois também se dedicou à zoologia e elaborou a obra “Historia
animalium” (História dos animais - em cinco volumes publicados entre 1551-1587),
com mais de 3.500 páginas e que seria finalizada após a sua morte.158 Contudo, ele
não fez uso da anatomia comparada. Sua classificação dos animais foi feita em ordem
alfabética, sendo cada animal descrito em capítulos amplos, subdividido em seções.
Nestas foram feitos os registros do nome do animal em várias línguas, o habitat onde
eram encontrados, comportamentos, formas de criação e procriação, bem como o
possível uso para alimentação ou para a medicina.159 agrupou os animais em:
quadrúpedes (vivíparos e ovíparos) pássaros, peixes, crustáceos, insectos e anfíbios.
Naqueles idos, as pesquisas no âmbito da fauna tinham como referência os
trabalhos de Pierre Belon e Guillaume Rondelet.
O francês Pierre Belon (1517-1564) recebeu formação como farmacêutico e
provavelmente estudou botânica com Valerius Cordus. Por meio de uma rede de

80
relações obteve licença para praticar Medicina, e ocupou um lugar na corte do rei
Carlos IX (1550-1574). Realizou viagens pela Europa e Oriente Próximo, visitando a
Grécia, a Turquia e o Egito, das quais resultaram anotações sobre o mundo natural e a
elaboração de três obras. No texto “La nature et diversité des poissons” (A história
natural de estranhos peixes marítimos - 1551), estudava cetáceos e peixes, revelando o
trabalho de Belon na identificação das glândulas mamárias dos cetáceos que ele
classificou como mamíferos. Outra obra foi “Sobre a vida aquática” (1553), que
tratava das espécies que habitam rios e mares. Na obra “L’histoire de la nature des
oyseaux avec leurs descriptions et naïfs protraicts retirez du naturel” (A história e
natureza dos pássaros - 1555), Pierre Belon faz descrições detalhadas sobre a
anatomia das aves, fruto de suas dissecações, comparando os resultados com o
esqueleto humano. Seus estudos também se dirigiam à botânica, para redigir um
tratado sobre as coníferas, conhecido como “De arboribus coniferis, resiniferis,
aliisque, nonnullis sempiterna fronde virentibus...”.
Guillaume Rondelet (1507-1566) estudou inicialmente humanidades na
Universidade de Paris, passando em seguida a cursar medicina. Conquistou
reconhecimento como professor de anatomia e Medicina em Montpellier, mas o
trabalho que o tornou conhecido foi o estudo intitulado "De piscibus marinis” (Livro
dos peixes marinhos), escrito em latim e publicado em Lyon, entre os anos de 1554-
1555. Em 1558, a obra foi traduzida com o título “L’Histoire entiere des poissons,
composee premierement en Latin par Maistre Guillaume Rondelet...” (A história
completa dos peixes). O texto apresentava o sistema digestivo, respiratório e
reprodutivo de animais aquáticos. As reflexões avançavam na medida em que fazia
estudos comparativos entre o ouvido do golfinho, do porco e do ser humano. Num
tom claramente enciclopédico Rondelet analisou e dissecou várias espécies,
chamando a atenção para a importância desta prática no processo de construção do
conhecimento.160
No final do século XVI e início do XVII ficava evidente que os antigos
sistemas de classificação não eram suficientes para explicar as novas descobertas. Era
necessária a criação de novas bases que pudessem dar inteligibilidade ao
conhecimento mais técnico de cada espécie. Em diferentes partes da Europa surgiam

81
estudos que reuniam informações e resultados de pesquisas que apontavam para uma
nova etapa do pensamento racional.
Andrea Cesalpino (1519-1563) estudou na Universidade de Pisa, onde
adquiriu conhecimentos sobre filosofia, medicina e botânica. Conhecedor dos textos
de Aristóteles, fez uma das primeiras tentativas para classificar flores e frutos, com
base em princípios aristotélicos (matéria e forma). Em “De plantis libri XVI” (1583)
descreve aproximadamente 1.500 plantas apresentado-as como seres vegetativos que,
conforme o pensador grego, eram organismos simples. Rigoroso em suas
observações, não aceita critérios como gosto, utilização farmacêutica para a
classificação das plantas. Para ele, o sistema de compreensão da natureza deveria
levar em conta a morfologia e a fisiologia dos vegetais.
O bolonhês Ulisse Aldrovandi (1522-1605) estudou matemática e latim. De
espírito irrequieto seguiu para Roma, onde manteve contato com Guillaume Rondelet
aproximando-se da História Natural, e estudou sobre vegetais analisando os órgãos
reprodutores. Em 1561, passou a lecionar na Universidade de Bologna temas ligados à
História Natural, e formou o primeiro jardim botânico italiano, um herbário com
aproximadamente 7.000 espécies. Empreendeu estudos de embriologia e dedicou
parte da sua vida à pesquisa de pássaros e insetos; classificou mais de 1.500
variedades de cada um. Como homem do seu tempo, demonstrou interesse em relação
aos quadrúpedes, árvores e minerais e fez também ponderações fantásticas. Em sua
obra “Histoire naturelle” dedicou atenção aos pássaros, registrou espécies da África,
Ásia e América, cometendo algumas impressões. Tal situação não impediu que
fossem desprezadas suas descrições sobre hábitos alimentares, técnicas de captura e
utilidade dos mesmos para a medicina. Seu trabalho referia aspectos que os
pesquisadores que o antecederam não mencionavam.
Os estudos mineralógicos no século XVI revelam o interesse dos
pesquisadores sobre a metalurgia e a mineralogia. As obras “Descrição dos métodos
de mineração e processamento de minério de chumbo” (1574), de Lazarus Ercker
(1528-1594) e “De re Metallica” (Metalurgia - 1555), de Georgius Agrícola (1494 -
1555) constituem dois estudos que primam pela descrição dos métodos mais
adequados para analisar os metais preciosos, afastando-se das práticas dos
alquimistas.161

82
Georg Bauer nasceu em Glauchau, estudou medicina na Universidade de
Leipzig, organizou a publicação dos trabalhos de Hipócrates e Galeno. Observador da
natureza fez estudos de sementes e de seus usos para fins médicos. Seu trabalho
consistiu no exame de fósseis, estudos de geologia, sempre destacando que as suas
observações eram fruto de uma experiência pessoal.162 A ideia de que o conhecimento
não vinha apenas dos livros, como defendiam os escolásticos, ganhou adeptos que
admitiam que o homem só adquiria conhecimento pela observação do objeto. Paolo
Rossi sentenciou: “Captar o que é essencial e menosprezar o supérfluo. Mas onde
procurar o que é essencial? e como detectar o supérfluo? Os ensaístas da Antigüidade
e da Renascença, nas suas obras, davam amplo espaço às interpretações alegóricas,
aos mitos, às lendas relativas a um determinado animal e a certa planta, ou à sua
comestibilidade, aos possíveis usos, e às representações poéticas e literárias.”163
No final do século XVI era evidente que as viagens de descobertas haviam
promovido a circulação cultural e bens materiais que levaram os indivíduos a
indagarem sobre a ordem do saber vigente.164 A Europa conhecia-se e avaliava-se em
função da emergência das novas culturas, que paulatinamente iam sendo identificadas,
impulsionadas e expandidas pelo surgimento e desenvolvimento da imprensa. Como
observou Luís Filipe Barreto, “os descobrimentos foram uma imensa explosão dos
limites da terra e do mar, uma nova e maior extensão dos horizontes e modalidades de
comunicação intercivilizacional”.165 O reconhecimento de novas culturas deu ensejo à
ampliação dos horizontes econômicos e a um desenvolvimento mercantil mais
acentuado, promoveu alterações nos padrões comportamentais como um todo.
Essa alteração ou reordenação da estrutura mental europeia de incorporação do
novo/desconhecido processou-se de maneira morosa no seio do corpo social. O novo
adquiriu forma por meio dos conhecimentos informativos dos viajantes e também por
meio dos estudos de diversos homens que desejaram rever os parâmetros
estabelecidos. Como observa Paolo Rossi:
“O mundo terrestre é o mundo da alteração e da mutação, do nascimento e da
morte, da geração e da corrupção. O Céu, ao contrário, é inalterável e perene, os seus
movimentos são regulares, nele nada nasce e nada se corrompe, mas tudo é imutável e
eterno. As estrelas, os planetas (o Sol é um deles) que se movem ao redor da Terra
não são formados pelos mesmos elementos que compõem os corpos do mundo

83
sublunar, mas por um quinto elemento divino: o éter ou quinta essência, que é sólido,
cristalino, imponderável, transparente e não sujeito a alterações. As esferas celestes
são feitas da mesma matéria. Sobre o equador destas esferas em rotação (como "nós
em uma tábua de madeira") são fixados o Sol, a Lua e os outros planetas”.166
As transformações materiais e as conquistas dos homens resultaram novas
observações e indagações sobre as formas de ser, sentir, estar e ver a natureza. Gianni
Micheli ao analisar o naturalismo renascentista, observou:
“O nascimento da ciência moderna, que trouxe consigo uma renovação radical
dos princípios básicos e dos métodos de investigação da ciência tradicional,
pressupunha a ruptura global do quadro geral de referências da investigação
científica; a consequente aspiração a uma nova ordem alternativa do conhecimento da
natureza parte, portanto, de um terreno em que se reproduz a antinomia entre
investigação racional abstracta e investigação empírica das origens”.167
A preocupação com o método advém do fato de o homem não aceitar a
autoridade do conhecimento do período anterior. Era preciso reexaminar o mundo e
criar fundamentos para as ideias, independente da tradição. O método implicava a
regra e na ordenação. O pensamento humano deveria valer-se da razão para
estabelecer o ordenamento, discutir a ocupação sequencial de cada elemento,
identificar vínculos e estabelecer comparações. Esta renovação radical dos princípios
básicos e dos métodos de investigação foi designada por estudiosos como revolução
científica ou, como afirmou Thomas Kuhn, como um momento de quebra de
paradigmas. O que podemos observar é que uma nova ordem para o conhecimento da
natureza se desenvolvia levando à investigação racional e empírica. A odisséia
humana na busca dos enigmas da natureza caminhava para uma nova fase.

84
2.2 A ideia de natureza no século XVII e
o despertar da razão

No século XVII o movimento racional procurou harmonizar homem, Deus e


natureza. A busca por fundamentos para fazer esta equalização levou o homem a
pesquisar e a buscar fundamento para suas explicações. O homem tinha consciência
de não ter condições de se apoderar da natureza, mas empreendeu todos os esforços
para conseguir entendê-la. Para tanto, eram necessários novos métodos.
A preocupação com o método advinha não aceitação da autoridade do
conhecimento no período anterior. Era preciso reexaminar o mundo e criar
fundamentos para as ideias, independente da tradição. O método implicava regra e
ordenação. O pensamento humano deveria se valer da razão para estabelecer o
ordenamento, discutindo porque cada elemento ocupava aquela sequência,
identificando vínculos e estabelecendo comparações. Conforme Rosário Villari:
“A convivência entre tradicionalismo e busca da novidade, de
conservadorismo e rebelião, de amor à verdade e culto da dissimulação, de prudência
e loucura, de sensualidade e misticismo, de superstição e racionalidade, de austeridade
e <consumismo>, de afirmação do direito natural e de exaltação do poder absoluto, é
um fenômeno de que se podem encontrar inúmeros exemplos na cultura e na realidade
do mundo barroco”.168
No decorrer do século XVII, aconselhava-se aos que viajavam pelos mares
que tivessem conhecimento sobre geografia e história natural. Era prudente, antes de
partir, que se estudasse o local de destino, procurando por registros prévios. Quando
necessário, deveriam fazer anotações de assuntos e referências que pudessem auxiliar
na viagem e que portasse também uma carta geográfica. Estes cuidados não excluíam
a necessidade de conhecer os equipamentos técnicos como o astrolábio para medir as
altura e a bússola para identificar a posição em que se encontrava. Como leitura geral,

85
sobre geografia, as obras de Estrabão, Varenius, Plínio e Pomponius Mela eram
citadas, como também alguns escritos mais recentes.
No início do século XVII havia a convicção de que o homem deveria
contemplar e apreender a realidade a partir de novas bases de percepção. As
explicações dos antigos já haviam sido questionadas e parcialmente invalidadas pelo
conhecimento produzido no século anterior. Era ponto comum que a sociedade sofrera
alterações políticas, econômicas, religiosas irreversíveis. Restava caminhar para
outras conquistas.
No âmbito do conhecimento, muitos autores tinham evidenciando a
necessidade de novos sistemas de classificação. Apesar de algumas tentativas, os
pesquisadores não conseguiram estabelecer critérios para uma sistematização da
diversidade de espécies que a cada momento o mundo natural apresentava. O que
prevalecia era um ecletismo teórico que impedia uma visão mais centrada em critérios
e formas lógicas de classificar. Se o homem fizera descobertas e tinha novas certezas,
suas dúvidas ainda eram muitas.
A nova ciência da natureza, que estava em processo, partiria da metafísica
nominalista, constituindo uma ciência natural que diferia da visão aristotélica e
medieval. A ideia que permeava o pensamento era o de ver a natureza compreendendo
os fenômenos e os diferentes experimentos que se poderia fazer. A natureza era
interrogada a partir de uma série ordenada de perguntas, existindo também um
conjunto de hipóteses, que permitiriam a compreensão da natureza por meio de uma
construção mental. O homem indagava a natureza, que respondia. Mas isto não
bastava. Em seguida, o ser humano deveria ser capaz de confirmar ou refutar a
hipótese. Para o pensamento científico que lançava a sua base, os detalhes e as
alterações eram importantes. Características como forma, cor, odor, posição, tamanho
deveriam ser quantificadas e qualificadas.
A natureza deveria ser explicada a partir dos elementos que a constituíam e
não por meio de uma intervenção divina. O desejo de explicar o mundo natural, por
meio de causas puramente físicas, passava a ser um objetivo a ser perseguido.
Contudo, a natureza só daria as respostas se o homem indagasse. O olhar que coletava
e catalogava informações já não era suficiente. Era preciso dialogar com o mundo
natural, buscando respostas para as perguntas.

86
Francis Bacon (1561-1626) nasceu em Londres e foi um dos pensadores que
se aventurou na busca de uma nova interlocução com a natureza. Foi político e jurista,
participou como membro do Conselho particular de Jaime I (1566-1625) e chanceler
do reino. Posteriormente, foi acusado de concussão e condenado pelo Parlamento a
uma multa de valor elevado, que foi perdoada pelo rei. Este episódio põe fim à sua
vida política e passa a dedicar-se inteiramente aos estudos.
Sua obra “Instauratio magna scientiarum”, deveria conter seis grandes partes.
Todavia, finalizou apenas duas, e apenas alguns fragmentos das demais partes. A
primeira parte foi nomeada como “De dignitate et argumentis scientiarum” e a
segunda como “Novum organum scientiarum”.169 Para Francis Bacon:
“Ainda não foi criada uma filosofia natural pura. As existentes acham-se
infectadas e corrompidas: na escola de Aristóteles, pela lógica; na escola de Platão,
pela teologia natural; na segunda escola de Platão, a de Proclo e outros, pela
matemática, a quem cabe rematar a filosofia e não engendrar ou produzir a filosofia
natural. Mas é de se esperar algo de melhor da filosofia natural pura e sem
mesclas”.170
Na “Instauratio magna scientiarum”, Francis Bacon iniciou a classificação
geral das disciplinas humanas, considerando: a memória, a fantasia, a razão, tendo em
conta o objeto e o sujeito do conhecimento. Contemplava, então, três disciplinas
diferentes: a “História” tanto civil quanto natural, que registrava a memória, incluindo
dados e fatos; a “Poesia”, que ele considerava a elaboração imaginativa dos dados e a
Ciência ou Filosofia, que era o conhecimento racional de Deus, do homem e da
natureza. Para Francis Bacon, a “ciência do homem” dividia-se em ciência do homem
individual (philosophia humanitatis), ligada ao espírito e à matéria, e em ciência da
sociedade humana (philosophia civilis), que trata da arte de governar e das relações
sociais e dos negócios.
No “Novum Organum”, Francis Bacon almejava compreender as regras da
ciência da natureza. Ele entendia que as naturezas eram precisamente os fenômenos
experimentais, objeto da física especial (luz, calor, peso, etc.); as formas eram as leis
genéticas e organizadoras das naturezas, as essências ou causas formais, objeto da
metafísica. O estudo destacava a importância do interesse especulativo e da técnica. O
ser humano precisava entender o que fazia.

87
O trabalho de Francis Bacon foi representativo, na medida em que defendeu
que o homem deveria abandonar o conhecimento dos pensadores antigos, para
construir um novo saber sobre a natureza. Segundo ele, a reverência à Antiguidade: “o
respeito à autoridade de homens tidos como grandes mestres de filosofia e o geral
conformismo para o atual estádio do saber e das coisas descobertas também muito
retardam os homens na senda do progresso das ciências, mantendo-os como que
encantados”.171
Para ele o maior obstáculo ao progresso da ciência consistia no fato de o
homem ser pouco propenso a novas tarefas e a novos saberes, entendendo que era
impossível fazê-lo. Os homens mostravam-se desconfiados e prudentes frente à
obscuridade da natureza, à brevidade da vida e aos enganos que os sentidos poderiam
causar. Tudo isto influenciava na falta de condições ideais para a elaboração de um
juízo. Outro problema era a dificuldade de se realizar experimentos e certo “fluxo e
refluxo” das ciências.172
A ciência deveria comportar a investigação, tendo a experiência como
elemento da construção do saber. A observação pura e simples não constituía uma
experiência capaz de gerar conhecimento. Nas palavras de Bacon: “Ciência e poder
do homem coincidem, uma vez que, sendo a causa ignorada, frustra-se o efeito. Pois a
natureza não se vence, senão quando se lhe obedece. E o que à contemplação
apresenta-se como causa é regra na prática”.173 Este pensador acreditava que o
homem, afastado de preconceitos, poderia realizar a observação neutra, capaz de
propiciar a explicação dos fenômenos.
Para tanto, era necessário um método sistemático que fosse capaz de guiar a
investigação. Cabia ao filósofo natural formular uma indagação da natureza e seguir
um método para obter respostas. Dependia da sua capacidade de compreender o que a
natureza lhe revelava. Como afirma Francis Bacon: “O homem, ministro e intérprete
da natureza, faz e entende tanto quanto constata, pela observação dos fatos ou pelo
trabalho da mente, sobre a ordem da natureza; não sabe nem pode mais”.174 Para ele,
a natureza superava muito em complexidade, os sentidos e o intelecto. Todas aquelas
belas meditações e especulações humanas, “todas as controvérsias são coisas malsãs.
E ninguém disso se apercebe”.175 Segundo o pensador:

88
“Já é tempo de expor a arte de interpretar a natureza. A propósito devemos
deixar claro que, embora acreditemos aí se encontrarem preceitos muito úteis e
verdadeiros, não lhe atribuímos absoluta necessidade ou perfeição. De fato, somos da
opinião de que se os homens tivessem à mão uma adequada história da natureza e da
experiência, e a ela se dedicassem cuidadosamente, e se, além disso, se impusessem
duas precauções: uma, a de renunciar às opiniões e noções recebidas; outra, a de
coibir, até o momento exato, o ímpeto próprio da mente para os princípios mais gerais
e para aqueles que se acham próximos; se assim procedessem, acabariam, pela própria
e genuína força de suas mentes, sem nenhum artifício, por chegar à nossa forma de
interpretação. A interpretação é, com efeito, a obra verdadeira e natural da mente,
depois de liberta de todos os obstáculos. Mas com os nossos preceitos tudo será mais
rápido e seguro.
Não pretendemos que nada lhe possa ser acrescentado. Ao contrário, nós, que
consideramos a mente não meramente pelas faculdades que lhe são próprias, mas na
sua conexão com as coisas, devemos presumir que a arte da invenção robustecer-se-á
com as próprias descobertas.”176
Neste processo, era importante registrar todo procedimento. As etapas
deveriam ser descritas de forma criteriosa, bem como o resultado obtido. Tudo
deveria ser fixado para que outros pudessem verificar e seguir a experiência. Além
disso, as informações deveriam ser precisas e objetivas, tendo em vista que os
interlocutores pudessem entender e reproduzir a experiência, pois para Francis Bacon,
a ciência pressupunha que o pesquisador interagisse com os seus pares.
A ideia de que a ciência era um conhecimento dinâmico e que dependia de
vários pesquisadores, cada um acrescentando um elemento à pirâmide do saber,
estava posto a partir deste momento. A ciência fazia parte de um movimento
construtivo e o método experimental era o caminho para ampliar o conhecimento do
mundo natural. Como observa Alberto Oliva:
“A ciência moderna procura promover a aliança da explicação com a
dominação. A efetiva explicação dos fenômenos propicia ao homem, como se
começou a apregoar a partir de Francis Bacon, conquistar poder sobre eles. Torna-se,
por isso, arma fundamental no enfrentamento das forças cegas da natureza, que põem
em risco a sobrevivência. Diferentemente das explicações científicas, as da religião e

89
da filosofia não possuem a capacidade de transformar o mundo. Quando muito,
conseguem gerar, nas pessoas que adotam suas visões de mundo, atitudes e
comportamentos”. 177
Na obra que deixou inacabada, sua intenção propor uma reforma da filosofia
natural. O trabalho foi dividido em seis grandes partes: a primeira que trataria das
divisões da ciência, a segunda abordaria as direções a respeito da interpretação da
natureza, a terceira discorreria sobre o fenômeno do universo, a quarta discutiria a
escada do intelecto, a quinta analisaria as antecipações da nova filosofia e na última se
examinaria a nova filosofia.178 A nova sociedade que estava em processo estaria
assentada no desenvolvimento do conhecimento científico e cresceria na medida em
que compreendesse melhor o mundo natural.
Entre a constatação da necessidade do método e a constituição de métodos
para o conhecimento da natureza foi preciso acrescentar novas ideias. O
conhecimento verdadeiro para Francis Bacon seria possível se houvesse um adequado
conhecimento dos elementos. Ao considerar as artes mecânicas, Paolo Rossi ressalta
que:
“A avaliação das artes mecânicas feita por Bacon é baseada em três pontos: 1)
elas servem para revelar os processos da natureza e são uma forma de conhecimento;
2) as artes mecânicas se desenvolvem sobre si próprias, quer dizer, ao contrário de
todas as outras formas do conhecimento tradicional, elas constituem um saber
progressivo, e crescem tão rapidamente 'que os desejos dos homens se acabam antes
mesmo que elas tenham alcançado a perfeição'; 3) nas artes mecânicas, ao contrário
do que ocorre nas outras formas de cultura, vigora a colaboração, tornando-se uma
forma de saber coletivo; de fato, nelas convergem as capacidades criativas de muitos,
ao passo que nas artes liberais os intelectos de muitos se submeteram ao intelecto de
uma única pessoa e os adeptos, na maioria das vezes, corromperam tal saber em lugar
de fazê-lo progredir".179
Para Francis Bacon o método indutivo era constituído de uma tábua da
presença (responsável pelo registro das formas que se investigam), uma tábua de
ausência (responsável pelo controle de situações que as formas pesquisadas se
revelam ausentes) e uma tábua da comparação (responsável pelo registro das
variações entre a presença e a ausência). Era por este método que um fenômeno

90
poderia será analisado, mostrando a importância de uma experiência possível de ser
verificada. Afirmava ainda que: “um único e simples método, para alcançar os nossos
intentos: levar os homens aos próprios fatos particulares e às suas séries e ordens, a
fim de que eles, por si mesmos, se sintam obrigados a renunciar às suas noções e
comecem a habituar-se ao trato direto das coisas”.180
Francis Bacon entendia que cada indivíduo, “além das aberrações próprias da
natureza humana tinha uma cova devido à natureza própria e singular de cada um”.
Para tanto, era importante perceber que cada um poderia ter opinião distinta devido à
educação que recebera ou à leitura de livros ou pelas autoridades que respeitavam. Por
conseguinte, “que o espírito humano – tal como se acha disposto em cada um – é
coisa vária, sujeita a múltiplas perturbações, e até certo ponto sujeita ao acaso. Por
isso, bem proclamou Heráclito que os homens buscam em seus pequenos mundos e
não no grande ou universal”.181
Para Francis Bacon a filosofia natural deveria levar em conta tanto o
conhecimento da causa como os efeitos dela. O desejo de controle estava presente e
não é exagero afirmar que o saber poderia levar a dominar a natureza. Bacon, numa
visão bem pragmática, entendia que a observação da natureza e o conhecimento
gerado deveriam ser úteis aos homens e à sociedade. Como observa Lucaina Zaterka,
isto significava, no âmbito epistemológico “implodir dicotomias rígidas tais como
teoria/prática e contemplação/atividade”.182
As ideias de Francis Bacon ganham maior ressonância quando constatamos
que outros pensadores romperam com estruturas confinadas, reelaborando o saber.
Galileu Galilei, defensor das ideias de Copérnico, avançara nas pesquisas e descobrira
os satélites de Júpiter e novas alternativas para a determinação da longitude da terra.
O homem alçava vôos mais longos. Em 1609, ele construiu uma luneta que permitiu a
observação mais precisa do céu e dos planetas. O estudioso identificou a existência de
manchas solares e de crateras na Lua e a existência de astros na órbita de Júpiter e
anéis no entorno de Saturno. Para tanto, realizou uma série de cálculos geométricos
para conhecer as dimensões das sombras que se projetavam sobre a superfície da Lua.
Dando continuidade às suas investigações, Galileu conseguiu demonstrar que corpos
com massas idênticas lançados da mesma altura, quando livres da resistência do ar,
caiam ao mesmo tempo.183 Ficava claro, para ele, que o método fazia parte do

91
processo que leva à verificação de hipótese e dele dependia o resultado, com afirmou
Alberto Oliva:
“Da sacralização da natureza se passa à atitude que visa a ter sobre ela
controle instrumental proporcionado pelo saber com vocação praxiológica. A partir do
Novum organum de Francis Bacon, conhecimento autêntico é o que, fundando-se na
observação, vai propiciar poder sobre os fenômenos estudados. As ciências naturais se
tornam "saberes de domínio”.184
Outro passo importante no caminho da construção de um pensamento foi dado
por René Descartes (1596-1650) que estudou no colégio jesuítico de La Fleche, e
cursou Direito na Universidade de Poitiers. Em 1618, ele alistou-se no exército do
Príncipe d’ Orange, Maurício de Nassau (1567-1625), com o objetivo de ser militar,
intento que não levou avante. Suas andanças o aproximou do universo intelectual do
período; conheceu as obras de Galileu, e manifestou objeções a trabalhos de outros
pensadores.185
Em 1637, Descartes publicou três pequenos resumos do seu pensamento
científico: “Dióptrica, Os Meteoros e A Geometria”, acompanhados por um prefácio,
que ficou conhecido como o “Discurso sobre o Método”. Em 1641, aparecem as
“Meditações Metafísicas” e três anos depois ele publica “Os Princípios de Filosofia”,
dedicado à princesa palatina Elisabeth (1596-1662).
Descartes defendia que a ciência tinha que ser útil ao homem. Para tanto, era
salutar que o conhecimento fosse fundamentado a partir do pensamento racional de
forma que as teorias comportassem o raciocínio lógico. Para Descartes, o pensamento
matemático era o responsável por apresentar ideias claras, pois os conceitos eram
idênticos para todos, independente das situações. Nesse sentido, a ideia de
objetividade estava diretamente ligada à possibilidade de descrever um fenômeno por
meio de conceitos expressos por números e medidas.
Na obra “Discurso sobre o Método” confessava a sua insatisfação em relação
ao ensino que recebera, pois entendia que a filosofia escolástica não conduzia a
nenhuma verdade indiscutível. Para ele, a matemática era o meio pelo qual o
raciocínio poderia ter certeza. Nesta lógica, Descartes tinha como objetivo defender
um método universal, baseado na matemática e norteado pela razão. A primeira regra
era a “evidência”, ou seja, nada poderia ser reconhecido como verdadeiro se não

92
houvesse evidências para tal. O homem deveria evitar conclusões precipitadas,
enquanto não tivesse claro o que estava observando. Neste sentido, a ideia de
“evidência” era aquilo que o homem não poderia duvidar. O cuidado para examinar
um objeto conduzia a outra regra: a “análise”. Esta deveria dividir as dificuldades em
diferentes e inúmeras partes, para que fossem devidamente examinadas. Este era um
processo demorado e amplo, por decorrência era necessária uma terceira regra: a
“síntese”. O ser humano deveria saber guiar seus pensamentos, a partir dos objetos
mais simples e mais fáceis de conhecer e aos poucos ascender a conhecimentos mais
complexos, tomando o cuidado de não ter omitido nada de importante.
Para Descartes o conhecimento estava fundamentado na valorização da
dúvida. A reflexão era o elemento fundador do saber, por contribur para a construção
progressiva do conhecimento.186 O raciocínio deveria conduzir à evidência intelectual,
sendo o ser humano capaz de construir juízos.187 O método racionalista, proposto por
Descartes, não partia dos sentidos, pois estes poderiam enganar, mas sim do ato da
razão que era capaz de ter intuições. O processo de dedução, que acompanhava o
pensamento, era um processo de intuição continuada. Era possível duvidar sempre de
cada ideia. Nada era verdadeiro para Descartes. Sua proposta era instituir a dúvida
como elemento básico do pensamento humano. Desta forma, o pensador dava
contorno mais acabado àquilo que os homens do seu tempo tinham certeza. Tudo era
uma dúvida e o mundo natural não fugia desta situação.
Os filósofos naturais apontavam questões metodológicas relativas à construção
do conhecimento científico. Para eles nada poderia ser explicado com base em causas
ocultas. As explicações deveriam advir da experiência e dos debates, pelo uso da
razão.
Isaac Newton (1642-1727) defendeu que não era possível construir teorias sem
que as hipóteses fossem devidamente comprovadas. O estudioso, ao estabelecer a lei
da gravitação universal, que considerava a força de atração que um planeta exercia
sobre o outro, contribuiu para uma precisão mais definida dos corpos celestes. Tal
fato possibilitou que tábuas de dados astronômicos fossem atualizadas, bem como os
registros da natureza. Na sua obra “Philosophiae Naturalis Principia Mathematica”
(Princípios matemáticos da filosofia natural - Principia), de 1687, formulou quatro
leis que explicavam o movimento dos corpos celestes e terrestres. Para Newton, a

93
atração não era uma força física, mas sim matemática. Seus estudos conduziam à
ideia de que a certeza não estava na hipótese e sim nas explicações de base
matemática. Estas considerações passariam a constituir um marco para o
desenvolvimento das ciências, na medida em que representava o movimento de
somatória de ideias e observações feitas por Copérnico, Kepler e Galileu. Newton
tinha como objetivo estabelecer um novo entendimento do universo, unindo a razão à
observação empírica sistemática.
Newton explicou que o movimento de queda livre dos corpos era acelerado,
similar ao da Lua. Isto se devia à natureza idêntica das forças de atração, “que va-
riavam com o inverso do quadrado da distância entre os corpos”.188 Todavia, ele não
explicou a causa da gravidade, e os indícios o levavam a afirmar que a gravidade
existia seguindo as leis por ele expostas, e que explicava os movimentos dos corpos
terrestres e celestes. Desta forma, Newton afirma que o "como" é mais importante do
que o "porquê". Quatro regras indicavam o procedimento para produzir conhecimento
sobre a natureza:
“- O Universo é simples e explicações complexas não devem ser adotadas.
- Para efeitos similares devemos considerar causas idênticas.
- Proposições comuns aos corpos conhecidos devem ser aplicadas a todos os
corpos.
- As considerações e hipóteses baseadas em experimentações devem
prevalecer sobre as que nelas não se basearem”.189
Os filósofos naturais indicavam questões metodológicas relativas à construção
do conhecimento científico. Para eles, nada poderia ser explicado baseado em causas
ocultas. As explicações deveriam advir da experiência e dos debates. Como defendia
Isaac Newton, não era possível construir teorias sem que as hipóteses não fossem
devidamente comprovadas. Paolo Rossi afirma com propriedade que “As leis de
Kepler se tornaram leis "científicas" somente depois que Newton se serviu delas,
sendo as mesmas leis aceitas pela maioria dos astrônomos somente no decorrer da
década de sessenta do século XVII”. 190
A ciência moderna estava sendo gerada, pois uma nova forma de produção de
conhecimentos procurava atingir uma verdade possível de ser explicada a partir da
natureza. Longe de ser um processo simples, a ciência advinha da transformação da

94
sociedade, do olhar e do pensar o mundo natural, entendendo que este processo era
uma construção coletiva, que poderia seguir duas grandes correntes metodológicas, a
matematicidade e a experiência. A natureza encantada do período medieval cedera
espaço à visão voltada para as características materiais e de compreensão dos
fenômenos. A visão mística e emblemática perde espaço, abrindo caminho para a
ciência moderna. Como bem observa Paolo Rossi:
“A ciência moderna não nasceu no campo da generalização de observações
empíricas, mas no terreno de uma análise capaz de abstrações, isto é, capaz de deixar
o nível do sentido comum, das qualidades sensíveis e da experiência imediata. O
instrumento principal que tornou possível a revolução conceitual da física, como é
notório, foi a matematização da física. E para os seus desenvolvimentos deram
contribuições decisivas Galilei, Pascal, Huygens, Newton e Leibniz.”191

John Locke (1632-1704) nasceu em Wrington. Sua formação foi influenciada


pelo nominalismo escolástico, empirismo inglês, racionalismo cartesiano e pela
Filosofia de Malebranche. Foi um dos percussores da defesa dos direitos naturais do
homem e da noção de consentimento dos governados. Entendia que os homens eram
iguais e que poderiam agir livremente desde que não prejudicassem os seus
semelhantes. Acreditava que a tolerância era importante para o convívio social e que
as leis deveriam assegurar a justiça entre os homens. Na sua obra “Two Treatise of
Government” (Sobre o governo civil -1689), analisou a condição do governo e a
justificação do mesmo quanto aos seus ideais e operações, entendendo que o governo
deveria agir em função do bem comum. Suas ideias influenciaram o Iluminismo,192
destacando-se as obras: o “An Essay Concerning Human Understanding” (Ensaio
sobre o Intelecto Humano - 1690); “Some thoughts concerning education”
(Pensamentos sobre a Educação - 1693). Contudo, a questão que intrigava Locke era
o fim da filosofia natural.
Francis Bacon e John Locke entendiam que o fim da filosofia natural era
prático. Locke ponderava que o conhecimento da natureza tinha como objetivo
dominá-la, a fim atender as necessidades humanas. Para Locke, o ser humano passava
por experiências externas e internas. As experiências externas ocorriam por meio da
“sensação” dos objetos nas características externas, como: cores, sons, odores,
sabores, extensão, forma, movimento etc. A experiência interna ocorria por meio da

95
“reflexão”, que opera a partir dos objetos da sensação, como: conhecer, crer, lembrar,
duvidar, querer etc.
Locke entendia que as ideias ou representações dividiam-se em ideias
“simples”, e o espírito era passivo, e ideias “complexas”, que surgiam a partir de
diferentes combinações das primeiras, e o espírito era ativo. Das ideias complexas,
Locke considerava como importante a “substância” proveniente do acumulo de ideias
simples referentes ao substrato que dava identidade. Também considerando o espírito
ativo do homem eram importantes as "ideias de relação" e as análises que ele designa
de "ideias gerais". As “ideias de relação” estavam ligadas às questões temporais e
espaciais, que por meio da análise poderiam conduzir a uma idéia abstrata. O
pensamento científico deveria estabelecer uma série de relações logicamente
organizadas, tendo correspondência com a realidade e que fossem fidedignas. Desta
forma, seria possível fazer explicações corretas e confiáveis, concluía o pensador.
Locke dava especial importância à experiência, por entender que a observação
e a análise faziam parte do processo de conhecimento. Para ele, o homem deveria
examinar por meio das ideias e redescobrir a experiência concreta original. Como
podemos observar, a ciência moderna, ao mesmo tempo em que coincide com um
novo conceito de realidade mais mediato e complexo, exige que um processo de
raciocínio abstrato conceitual se efetive pela observação, sistematização, reflexão,
relação que conduza a uma possível ideal geral.193 Como bem observou Julían Maria:
“É o homem que, com um imperativo essencial de racionalidade, vai constituindo sua
ciência. O homem do século XVII tem uma consciência efetiva e precisa de
modernidade. O renascentista era o homem que tinha sintomas, indícios de
modernidade, que ia encontrando coisas velhas, que de tão velhas já pareciam
novas”.194
Se a racionalidade era um imperativo, ela deveria abranger todas as áreas do
saber. Além disso, o pensamento racional entendia que era importante compartilhar
experiências e discutir o que os pares pesquisavam. O pesquisador se abria para o
mundo e dialogava com aqueles que direta ou indiretamente poderiam contribuir para
a sua reflexão. Pela correspondência trocada, entre diferentes pensadores, pode-se
notar a intensa circulação de conhecimento científico que alimentava o debate e o
movimento de descobertas. Um pensador estava atento ao que seu par realizava, por

96
vezes fazendo objeções e correções, enfim debatendo o problema. No âmbito da
botânica e da zoologia estudos continuavam sendo feitos a fim de reconhecer as
espécies e decifrar o grande quebra-cabeça da natureza.
Na medida em que o homem questionava a criação divina das coisas do
mundo, avançara na abordagem sobre o surgimento da vida por geração espontânea.
O tema, cerceado pelos pensadores da Igreja durante a Idade Média foi cogitado neste
período.
O debate sobre a geração dos seres causou polêmicas que podem ser
observadas a partir de dois modelos diferentes.
O primeiro modelo era o do pré-formismo, que entendia que os seres foram
formados no início do mundo. Deus, o criador, teria concebido os primeiros seres
vivos, dando condições para que estes se desenvolvessem e legassem às gerações
seguintes a sua herança. Esta concepção preponderara até o século XVI, quando
passou a ser alvo de constantes ataques. O outro modelo era o da epigênesis, que
entendia que os seres vivos haviam surgido da própria matéria inerte, que por meio de
um princípio vital organizou e deu origem ao ser vivo. Esta concepção foi questionada
no decorrer do século XVII, a partir do trabalho de Francesco Redi (1626-98) em que
defendeu a tese de que era impossível o surgimento de seres vivos a partir de corpos
em estado de decomposição. Seu trabalho consiste em afirmar que deveria existir uma
vida pré-formada, ou seja, que todos os seres vivos, procediam de outros seres
vivos.195
Nicolas Andry de Boisregard (1658-1725) ao observar espermatozóides,
chegou a cogitar uma tese mecânica para a fecundação. Para ele, os óvulos possuíram
alguma abertura, por onde o espermatozóide poderia passar. Feita esta operação, a
abertura se fechava e não permita a passagem de mais nada. Enquanto estudioso de
medicina, foi o responsável pela análise de parasitas intestinais. Esse trabalho foi
muito difundido por meio de publicações.
Charles de L’Écluse (1526-1609), professor da Universidade de Leyden, foi
responsável pela organização do primeiro jardim botânico da Europa. Enquanto
funcionário de Maximiliano II (1527-1576) teve oportunidade de viajar para observar
e reunir espécies vegetais. Após a morte do seu protetor, ele continuou suas
investigações sobre a flora espanhola. Em 1587, fundou o jardim botânico de Leyde,

97
tendo como preocupação o cultivo de plantas raras vindas de diversas partes da
Europa como Portugal e Espanha.196 Em 1601, publicou a obra “Rariorum plantarum
historia: Fungorum in Pannoniis observatorum brevia historia” (Relato de plantas
raras), que discorria sobre aproximadamente seiscentas espécies, sendo ilustrada por
mais de mil gravuras. O estudioso agrupou as espécies por afinidades, estabelecendo
uma análise científica.
O inglês Thomas Moufet (1552-1604) estudou no Trinity College de
Cambridge, cursando posteriormente medicina em Bale, na Suíça. Foi um dos
estudiosos que se dedicou ao estudo dos isentos e escreveu a obra “Theatrum
insectorum” (Teatro de insetos), publicado em 1638, trinta anos depois de sua morte.
Seu trabalho reúne espécies de diferentes partes da Europa. Elaborou a classificação
dos insetos em sem perigo, que compreendia as espécies domésticas e as que viviam
ao ar livre; esta última espécie compreendia aqueles que teciam e os caçadores. Havia
ainda os venenosos de tamanho grande e pequeno.197
No decorrer dos séculos XVII e XVIII, as obras de botânica e de zoologia vão
excluindo as construções fantasiosas. No tratado “De quadrupedis” (1652) o
naturalista inglês Jan Jonston (1603-75) ainda inclui elementos de uma literatura
fantástica, resquícios que iam se esvaecendo, enquanto outros estudos emergiam para
compreender a natureza por meio de um método investigativo. O conjunto de seus
escritos não pode ser desconsiderado, na medida em que procurou escrever uma
enciclopédia de História Natural, compilando material desde a Antiguidade.
Em 1640, John Parkinson escreveu o tratado “Theatrum botanicum” (1640) no
qual dividia as plantas em dezessete classes, dentre elas as plantas cheirosas, as
venenosas, narcóticas e nocivas, as refrescantes, as quentes, as umbrelíferas, os
cereais, as pantanosas, aquáticas e marinas, as arbórias e frutíferas, as exóticas e
extravagantes. Apesar de os critérios serem fluidos, era uma tentativa de estabelecer
novas categorias.
O inglês Robert Hooke (1635-1703) afirma que a História Natural deveria
limitar-se à descrição e classificação dos objetos naturais, por entender que seria
difícil estudar as alterações e as modificações da natureza no decorrer dos séculos.198
Ao construir o microscópio, Hooke ampliou a visão do homem em até trinta vezes, e
possibilitou-lhe olhar mais detalhadamente o que até então era invisível. Seu uso

98
tornou-se comum nos estudos da natureza.199 Na obra “Micrografia”, de 1664,
descreve as observações que fizera numa fina camada de cortiça, defendo a existência
de pequenos poros na superfície. Esses poros foram chamados de células,200
defendendo a ideia de que a compressibilidade da cortiça devia-se a esses poros. Este
trabalho foi considerado o primeiro estudo sobre microscopia. Para a realização deste
trabalho Hooke realizou analisou pequenos corpos e isentos nas lentes, e preservou os
resultados em gravuras.. O olhar microscópico, a partir do aprimoramento das lentes,
garantiu o crescente estudo das células até chegar à identificação do olho múltiplo da
mosca e o ferrão da abelha.201 Em 1665, Robert Hooke ao estudar os fósseis afirmou
que corpos petrificados poderiam resultar de processos naturais.202
No século XVII destacam-se os significativos estudos de médicos e biológicos
como Jan Swammerdam (1637-1680), Marcello Malpighi (1628-1694), Nehemiah
Grew (1641-1712) e Anton van Leeuwenhoek (1632-1723), dentre outros, o foco
deste estudo não nos permite entrar em detalhamento maior.
Jan Swammerdam classificou insetos, tendo como referência o trabalho de
René Descartes. Adotou como critério a separação daqueles que se desenvolviam
diretamente (sem transformação), os que adquiriam asas, gradualmente, os que
adquiriam asas no decorrer da fase larvar e os que passavam pelo estágio de ninfa.
Suas pesquisas contemplaram a analise dos métodos de reprodução.203 Seus estudos
avançaram no sentido de descobrir os glóbulos vermelhos, fazer descrições do cérebro
e da medula espinhal.
O médico bolonhês Marcello Malpighi estudou embriologia na Universidade
de Bolonha. Malpighi observou tecidos de organismos e identificou vasos capilares,
onde o sangue corria apenas das artérias para as veias. Realizou estudos
microscópicos de pulmão e publicou em 1661 a obra “De pulmonibus observationes
anatomicae” (Observações anatômicas do pulmão). Seu método experimental chama a
atenção para a necessidade de confirmação das descobertas.
Nehemiah Grew nasceu na Inglaterra estou no College de Cambridge e fez
seus estudos de medicina na Universidade de Leyde. As suas pesquisas se dirigiram
para o estudo da anatomia dos vegetais, vindo a apresentar a Royal Society o trabalho
“The Anatomy of vegetables begun” (1670). Seu trabalho continua e três anos mais
tarde apresenta a obra “Idea of a Phytological History”, seguido de estudos de

99
conservação de plantas raras e em 1682 publica a “Anatomy of Plants", que reunia
escritos antigos e analisava as espécies, debatendo o que outros pesquisadores haviam
desenvolvido.
Anton van Leeuwenhoek dedicou-se desde cedo ao estudo do microscópio.
Desenvolveu técnicas de polimento das lentes que aumentavam a capacidade dos
instrumentos e fabricou centenas de microscópios. Estes novos recursos permitiram
sua evolução nos estudos dos insetos, observando o ciclo da vida da pulga e a
constituição da cochonilha (composta de corpos de insetos).204 Sua pesquisa foi
compartilhada com os membros da Royal Society, sendo marcante a observação de
bactérias, microorganismos, e o combate à tese sobre a geração espontânea. Chegou à
conclusão de que o sêmen contido nos testículos determinava a reprodução dos
mamíferos, corroborando as pesquisas de William Harvey.205
O naturalista inglês John Ray (1627-1705), considerando o pai da botânica
inglesa, estudou no Colégio de Santa Catarina em Cambridge, transferindo-se depois
para o Trinity College, e adquiriu sólidos conhecimentos para o domínio da língua
latina. Atuou na Universidade de Cambridge e devido a divergências com a Igreja
Anglicana teve que se afastar da instituição. Dedicou-se a viagens de estudos, sempre
defendendo a importância do método nas descrições de diferentes espécies. Visitou a
França, os Países Baixos, a Alemanha, a Áustria, a Suíça e a Itália, sempre dedicado à
observação da flora local. Para ele o estudo da plantas era um lazer, pois sentia prazer
em contemplar e admirar a beleza natural na sua diversidade em cada estação do ano.
Era fascinante perceber as mudanças de formas e cores que a natureza apresentava aos
homens, mas que muitos não estavam preparados para compreender.
Em 1660, John Ray redigiu um “Catalogus stirpium circa Cantabrigian
nascentium” (Catálogo de plantas que crescem na vizinhança de Cambridge), tendo
como referência o trabalho de Gaspard Bauhin (1560-1624)206. Em 1682, John Ray
publicou o estudo “Methodus planta rum nova” (Novo método - para classificação -
das plantas), que constituía sua proposta de classificação das plantas. Quatro anos
depois, saia o primeiro volume da obra “Historia plantarum” (História das plantas -
1686-1704), um catálogo de mais de 18.000 espécies e variedades de plantas, subdivi-
didas em 33 classes com base na distinção entre plantas monocotiledôneas e
dicotiledôneas.207 John Ray entendia que a natureza possuía especificidades e

100
graduações diferentes que não poderiam ser ordenadas de forma geométrica e
simétrica; sua classificação foi, portanto, construída a partir das características do
fruto, da flor e da folha. Este trabalho seria uma referência para os botânicos no
decorrer do século XVIII.
John Ray realizou também estudos de zoologia, e escreveu sobre o tema duas
obras: “Sinopse sobre animais quadrúpedes e serpentes” (1693), “Relato de insetos”
(1710) e a “Sinopse sobre pássaros e peixes” (1713), cujos conteúdos consistiam na
conclusão de que a natureza poderia interferir no desenvolvimento das espécies.
Contudo, o método de classificação empregado era conservador, as espécies viviam
no ambiente determinado por Deus.208
Ray classificou os animais como os que tinham sangue, (mamíferos, pássaros
e peixes) diferenciados pela estrutura do coração e os que não tinham sangue (como
insetos e crustáceos) sendo separados de acordo com o tamanho. O naturalista John
Ray demonstra um compromisso metodológico com a observação e a experimentação,
defendo que a analise do mundo natural deveria ser impessoal e os julgamentos não
poderiam ser apressados.209
O estudioso entendia que a fragmentação de um organismo impedia a
compreensão do todo. O importante era assimilar a estrutura da planta que poderia
conduzir a uma interpretação da espécie. Ele defendia a importância da transmissão
da ideia precisa para cada elemento, daí a conveniência de ser conciso nas
caracterizações da fauna e da flora. Como bem observa Paolo Rossi:
“Embora quase todos os cientistas do século XVII tivessem estudado em uma
universidade, são poucos os nomes de cientistas cuja carreira se tenha desenvolvido
inteira ou prevalentemente e no âmbito da universidade. Na verdade, as universidades
não estiveram no centro da pesquisa científica. A ciência moderna nasceu fora das
universidades, muitas vezes em polêmicas com elas e, no decorrer do século XVII e
mais ainda nos dois séculos sucessivos, transformou-se em uma atividade social
organizada capaz de criar as suas próprias instituições”.210
As novas ideias exigiam novos espaços para o debate do pensamento
científico. A partir de Galileu o avanço da ciência em face da observação empírica
dos fatos foi ampliado e deu ensejo a um novo conjunto de pesquisas científicas.
Enquanto a ciência se desenvolvia, as universidades européias se revelavam centros

101
tradicionais de estudos clássicos, valorizando a Medicina e o Direito. A ciência
empírica não estava ligada às universidades, mas ganhou ressonância nos grupos que
se formaram a partir do século XVII, cujo objetivo era compartilhar de experiências e
observações.
Em 1603 foi fundada a “Accademia dei Lincei”, em Florença por Frederico
Cesi (1585-1630), reunindo vários estudiosos de diferentes conhecimentos. Filósofos,
astrônomos, alquimistas, mecânicos, dentre outros compartilhavam as suas pesquisas.
Paulatinamente, outras academias foram surgindo e reunindo no seu entorno uma elite
intelectual reconhecida pela sua importância social e política. O teor dos debates e a
dedicação de seus membros fizeram que as Academias assumissem um papel
dinâmico, sendo reconhecidas como espaço do saber. Cabia a elas organizar e difundir
a produção de conhecimentos. Apesar do papel de relevo que estas instituições
conquistaram, a realidade se impôs claramente. Para a realização de pesquisas, além
do conhecimento eram necessários recursos financeiros, de que nem sempre os
pesquisadores dispunham.
Em 1652 foi fundada a “Academia Naturae Curiosorum” criada por médicos
que conquistaram notoriedade com a divulgação do jornal científico “Ephemeridan”.
Em 1677, o imperador Leopoldo I (1640-1705) reconhece a sociedade como
instituição de interesse do Estado, passando a ser conhecida como “Deutsche
Akademie der Wissenschaften Leopoldina”.
Na Inglaterra, a Royal Society, fundada em 1660, foi um dos locais onde as
técnicas e os experimentos e as técnicas foram debatidos, em busca de um novo
conhecimento do mundo. Os membros da associação, oriundos de um grupo de
estudiosos do Gresham College que praticavam atividades desde 1645, por meio de
suas reuniões, debates e artigos impulsionaram a pesquisa científica.211 Os cientistas
envolvidos na Royal Society tinham uma estreita ligação com as questões do período,
principalmente quanto ao processo de transformação da sociedade advindo da
industrialização, do qual foram elementos importantes.212 A Royal Society foi
reconhecido pela coroa, mas sem o apoio financeiro necessário para o
desenvolvimento das pesquisas. Os membros da instituição é que continuaram a
financiar os seus estudos, garantindo a autonomia do desenvolvimento técnico, como

102
também da divulgação do saber científico, por meio palestras e experimentos
públicos.213
Na França, a Academia de Montmor foi o primeiro passo na busca do
estabelecimento de uma academia de Ciências. A instituição reuniu cientistas
importantes como: Pierre de Fermat (1601-1665), Blaise Pascal (1623-1662), Pierre
Gassendi (1592-1653), dentre outros. O que se pode destacar é a farta comunicação
que os membros da academia estabeleciam com outros colegas de diferentes nações.
Os trabalhos dos cientistas no decorrer do tempo foram importantes para o
desenvolvimento da ciência em solo francês. Contudo, os custos para manter a
Academia impediram que esta tivesse uma existência mais longa.214
Em 1663, Samuel Sorbière influenciou o rei Luiz XIV (1638-1715) para que
formasse a “Académie Royale des Sciences” a partir da Academia de Montmor. A
instituição deveria ser útil à sociedade, realizando estudos de História Natural,
seguindo procedimentos de experiências e observações. A Academia surgia como um
local financiado pelo Estado onde se poderiam fazer experiências. 215
Dando continuidade os trabalhos, em 1666, o governo francês criou a
“Académie Royale des Sciences”, sob os auspícios do Estado. Naquele momento, o
investimento era justificável por ser um meio através do qual o Estado francês poderia
avançar tanto no desenvolvimento agrícola a como industrial. O ministro Jean-
Baptiste Colbert (1619-1683) entendia que a reunião de pesquisadores seria
importante para a ciência francesa e para a definição de políticas que favorecessem o
desenvolvimento do Estado. A “Academie Royale des Sciences” passou a ser palco da
atuação de estudiosos que participavam das reuniões e seminários, divulgando o seu
trabalho.216
A “Societas Regia Scientiarum”, criada em 1700, foi patrocinada por
Frederico I da Prússia (1657-1713). A instituição foi reconhecida em 1711, vindo a
ser reestruturada por Frederico II (1712-1786). Pierre-Louis Moreau de Maupertuis
(1698-1759) assumiu a direção e alterou o nome para Academia Real Prussiana das
Ciências (Königliche Preussische Akademie der Wissenschaften). A influência
francesa é notória, pois orientou os trabalhos do jardim botânico e das coleções de
Historia Natural até o século XIX.217 Em 1724 foi criada a Academia Scientiarum
Imperialis Petropolitana, sob a proteção de Pedro, o Grande, da Rússia (1672-1785).

103
A instituição conquistou respeitabilidade e durante o governo da czarina Catarina
(1684-1727), quando foram garantidos recursos para o seu funcionamento, a fim de
desenvolver investigações e formação de pesquisadores. Neste caso, o papel da
Academia foi fundamental para a constituição da Universidade de Moscou que seria
fundada em 1755.218
As academias eram locais de troca de informações, onde se realizavam
experiências que eram debatidas e os relatos apresentados aos membros da instituição
e ao público. Os trabalhos individuais passavam a ser compartilhados pelos membros
dessas instituições.219 Desta maneira, eram mantidos os vínculos entre os estudiosos,
principalmente a partir do século XVIII, os quais se reuniam com propósito de
discutir e submeter suas ideias e engenhos à critica dos especialistas. Como destaca
Paolo Rossi, as academias e Sociedades científicas ganharam importância pelas
características particulares que assumiram, como:
“a existência de reuniões dos letrados, bem como o uso de regras particulares
de comportamento para as ditas reuniões e a adoção de uma postura crítica com
relação às afirmações de quem quer que seja como norma principal de
comportamento. A verdade não está ligada à autoridade da pessoa que a enuncia, mas
somente à evidência dos experimentos e à força das demonstrações”.220
O crescimento dos laboratórios, observatórios, centros de estudos e
instituições de pesquisa demonstrava que o associativismo científico era forte. Muitas
dessas ações serviam aos interesses políticos e econômicos das monarquias, que
usufruíam da utilidade social da ciência, ao mesmo tempo em que incorporavam
novos valores. O método científico possibilitava a diferentes pesquisadores, de
instituições distantes, a troca de informações a partir de um mecanismo de
homogeneidade cultural e científica. Tal situação pode ser identificada pela troca de
correspondência entre os estudiosos e o predomínio de uma linguagem científica.
Havia o esprit de corps, que pesquisadores foram consolidando por meio das
academias. 221
No período havia intensa crítica ao que era o ensino desenvolvido nas
universidades. Conforme uma moção de John Hall222, em 1640, dirigida ao
parlamento, as universidades não ensinavam nem a química, nem a anatomia, nem
faziam experimentos. Para ele, era como “se os jovens tivessem aprendido há três mil

104
anos atrás toda a ciência redigida em hieroglíficos e, em seguida, tivessem ficado
dormindo como múmias para acordar somente agora”.223
O surgimento das instituições científicas teve como meta desenvolver o
estímulo a uma ciência prática e aplicada, a serviço das nações. Se, por um lado, as
instituições científicas representavam um avanço que acompanhava a pulsação do
desenvolvimento industrial, elas também representaram um questionamento à cultura
tradicional e clássica praticada nas Universidades.
A ciência desejava criar condições para que as pesquisas pudessem ser
realizadas de forma neutra sem interferências religiosas e morais. Era necessário que
o homem empreendesse uma caminhada na compreensão mais lúcida das coisas
humanas e da natureza, a fim de construir uma sociedade mais justa. A busca da
ciência estava apenas nos momentos iniciais e poderia contribuir tanto para a riqueza
da nação, como também para a melhoria das condições de vida humana.
Concomitantemente, emerge um debate subjacente ao surgimento das
academias sobre o controle ou interferência dos interesses do Estado, na medida em
que este subvencionava as pesquisas. Neste momento, abria-se um debate entre
estudiosos que defendiam a ideia de que as pesquisas deveriam ser livres, sem a
ingerência do interesse do Estado. 224
A ciência, a partir do século XVII, revelava uma estreita ligação com o ideal
de justiça e da riqueza social, principalmente a partir do processo de revolução
industrial que aconteceria no século seguinte. Os pensadores demonstravam
preocupação com a reflexão metodológica sobre as experiências, sendo a partir delas
que se poderiam constituir juízos. Talvez, um dos aspectos mais significativos da
contribuição deles tenha sido a ousadia de ir contra os costumes e o conhecimento
consagrado. Eles foram capazes de contradizer verdades seculares e mostrar os erros
dominantes. Para tanto, tiveram que enfrentar aqueles que não conseguiam olhar o
mundo de uma maneira diferente. Seus trabalhos revelam uma nova forma de pensar
em direção à liberdade individual e à busca pelo conhecimento.
Ao olhar a natureza, os pensadores identificaram que ela estava sujeita às leis
que poderiam ser simples ou mais complexas. O espanto da descoberta advinha de o
homem ter consciência de que as leis independiam da vontade humana e divina, e que
ele próprio e sua existência estavam condicionados pelas leis naturais. Enfim, o

105
homem delineava a dimensão de seu poder e estava se conscientizando de que sua
vida fazia parte de um sistema, do qual ele era apenas um elemento.
Para muitos estudiosos o conhecimento desse momento era marcado pela
construção de discursos polifônicos, que dialogavam, envolviam-se e não estavam
fechados. Longe de ser possível estabelecer um movimento retilíneo ascendente da
ciência, o que se apresenta são movimentos de crescimento e refluxo das pesquisas
científicas sujeitas às condições e interesses diversos. O método aos poucos ganhava
contornos e o homem buscava as categorias universais para organizar o seu saber.

2.3 O século XVIII:


natureza e o pensamento ilustrado

A ilustração, ou iluminismo, conquistou sentido amplo. O termo passou a


identificar o movimento de ideias filosóficas que emergem na França, onde a razão
era o principal elemento para compreender a natureza e a sociedade. A ilustração
também é utilizada como o processo de transformação dos valores e atitudes das
instituições que ocorreram no século XVIII, sem claro delineamento temporal. Os
pensadores iluministas entendiam que o momento em que viviam facilitava a
compreensão do mundo, opondo esta fase ao período medieval quando, segundo eles,
a ignorância e a intolerância impediam o desenvolvimento do ser humano. O homem
caminhava em direção à liberdade de pensamento e de crescimento.
A sociedade conquistara um desenvolvimento nunca visto. As transformações
advindas da industrialização apontavam para a complexidade da sociedade. Os
estudos empreendidos pelos pensadores, nos diferentes ramos do conhecimento,
propiciaram uma reflexão mais aberta, estimulando a cultura escrita e a vida
intelectual de muitas nações. Identifica-se um processo de mutação, em que o saber
passaria a ser o elemento vital da transformação, fazendo que muitos acreditassem

106
que o espírito humano conquistara a liberdade. De fato, o indivíduo pode expressar
satisfação ou insatisfação com o poder público, passando a regular a atuação das
autoridades. Esta situação pode servista como um momento de consciência ideológica
das diferentes burguesias.225
O século XVI revelava a consciência precisa da modernidade, enquanto a
ciência engatinhava na direção de uma visão sistemática, em que o velho e o novo se
misturavam à procura de uma lógica. O homem avaliava o seu universo, indagando as
crenças e a religião, revendo as bases sociais. O protestantismo e as guerras religiosas
convidavam a uma reavaliação do homem, mas as rupturas já estavam consolidadas
Conforme Colin A. Ronan: “O fim do século XVII e todo o século XVIII foram,
portanto, tempos de mudanças filosóficas, alterações da visão do homem sobre si
mesmo e um ataque àquelas que, por longo tempo, tinham sido as crenças mais caras
ao cristianismo ocidental".226
Nos séculos XVII e XVIII o homem racional teve necessidade de indagar de
forma crítica as instituições e o saber. Seu objetivo era sistematizar e dar lógica ao
mundo em que vivia. Desta forma, o século XVIII foi um momento de maturação das
reflexões do período anterior, pois o homem buscava soluções para a sua vida social,
política, moral e religiosa. Como observa Alberto Vieira: “O homem do século XVIII
perdeu o medo ao mundo circundante e passou a olhá-lo com maior curiosidade, deste
modo como dono da criação estava-lhe atribuída a missão de perscrutar os segredos. É
este impulso que justifica todo o afã científico que explode na centúria”.227
O século XVII termina convidando o homem a voltar cada vez mais a atenção
para as experiências, distanciando-se de elaborações míticas. O olhar para o mundo
natural deveria ser neutro e afastado de preconceitos. Também não poderia deixar de
considerar que a natureza teria que ser considerada em função das vantagens que
pudessem oferecer para a sociedade. Era o momento de consolidar saberes herdados
com os novos conhecimentos advindos da ciência moderna.
A filosofia iluminista, expressão do espírito burguês, procurou utilizar de
forma sintética dos argumentos racionalistas e empiristas para defender a visão de
mundo, recebendo contribuições de diversas áreas; portanto, o termo “iluminismo”
abarca uma série de elementos que, por vezes, podem ser contraditórios.228 Desta
forma, é importante notar que o pensamento iluminista não manifestava afeição por

107
sistemas filosóficos acabados. Entendia que a multiplicidade era mais importante para
o conhecimento humano. O homem do período dava grande valor à razão, num
momento em que havia uma profunda mudança cultural. O pensador iluminista causa
a impressão de ter alcançado a e onipotência devido às conquistas da ciência.229
O saber conquistava um lugar privilegiado na sociedade, que desejava
compartilhar os progressos materiais promovidos pelos inventos humanos, e também
conhecer e debater assuntos que outrora ficavam confinados a um grupo. O homem
manifestava interesse pelas novidades, mas também pela sua própria História, e seria
ela que conduziria as críticas à sociedade do Antigo Regime. O homem manifestava
apreço pela imagem de uma natureza dinâmica que impulsionava o mundo, e ele
mesmo poderia ser um protagonista capaz de intervir e agir.
Neste cenário, o debate sobre a formação do ser humano ganhava relevo, pois
a educação fazia parte do processo de construção do indivíduo para a esfera pública e
para a construção de uma civilidade ideal. Pelo processo educativo é que se poderia
desenraizar a barbárie imposta durante séculos pelo clero e pela nobreza e conduzir os
homens para horizontes mais abertos e iluminados.230
Nas diversas áreas do conhecimento os estudos avançavam fazendo que a
velocidade das transformações fosse mais intensa do que nos séculos anteriores. O
estudo da botânica até o século XVIII, feito principalmente por médicos, tinha como
objeto de investigação o estudo de algumas plantas voltadas para a fabricação de
substâncias curativas, os remédios. A maioria dos estudos implicava observações e
catalogações de espécies, descrição dos elementos, como vimos anteriormente.
Contudo, a questão da classificação a partir de uma linguagem comum constituía um
problema.
Paolo Rossi, ao analisar este momento, destaca alguns problemas como a
necessidade de uma teoria da classificação que estivesse ligada à teoria da linguagem.
Além disso, o ato de classificar não dizia respeito apenas ao conhecimento, mas
estava diretamente vinculando ao ato de memorização, sendo que tal aspecto deveria
ser considerado na linguagem classificatória. A classificação deveria ser capaz de
captar o que fosse realmente essencial, eliminando os devias que dificultavam a
compreensão.231 Conforme o autor observa, os trabalhos dos classificadores de plantas

108
foram influenciados pelos trabalhos de George Dalgarno (1626-1687) e de John Wil-
kins (1614-1672).232
George Dalgarno foi um intelectual que se interessou por problemas
lingüísticos e por questões que envolviam o problema de comunicação de pessoas
com deficiência auditiva. Neste sentido, foi o defensor da criação de uma linguagem
universal que fosse capaz de estabelecer a comunicação entre indivíduos de diferentes
culturas. John Wilkins na obra “An Essay Towards a Real Character and
Philosophical Language” (1668), destacou a contraposição entre as línguas naturais e
a língua filosófica ou universal. Para ele, a linguagem universal deveria ser
compreensível e independente das línguas naturais. Desta forma, as coisas poderiam
ser classificadas a partir de imagens mentais e de um método que deveria ser capaz de
evidenciar as relações/ligações que havia entre as diferentes espécies. Para que tal
situação se efetivasse, a relação não poderia induzir a erros ou a um caráter dúbio.
Esta nova estrutura exigia ordenação conforme uma classificação convencional, que
deveria estar nos limites da língua. A criação de uma enciclopédia permitiria o
estabelecimento de uma definição precisa e exata, que ordenaria as coisas dentro de
um conjunto, marcando as diferenças existentes entre elas.233 Wilkins defendia uma
linguagem universal para a ciência. Uma tábua que serviria para todos.
Estas reflexões seriam de suma importância para os estudiosos da natureza que
tiveram como objetivo sistematizar os elementos do mundo natural, buscando
estabelecer as relações entre as espécies, dentro de uma ordenação possível de ser
utilizada por todos.
Joseph Pitton de Tournefort (1656-1708), professor de botânica no Jardin du
Roi, construiu uma classificação baseada no gênero. O estudioso viajou por diferentes
partes da Europa coletando espécies para compor o seu herbário. Durante sua
trajetória em Portugal e Espanha se interessou pela reprodução das palmeiras,
estudando-as atentamente. Na Holanda encontra o professor de botânica Paul
Hermann (1646-1695) que o convida a lecionar na Universidade de Leyde. Em 1691
foi convidado para a “Académie des Sciences Française”, e publicou a obra
“Éléments de botanique ou méthode pour connaitre les plantes" ( Elementos de
botânica ou método para conhecer as plantas - 1694). O trabalho apresenta um estudo
sobre a estrutura das flores e dos frutos, levando em consideração o método. Da

109
mesma forma, seu trabalho “Institutiones rei herbariae”, de 1700, realiza um estudo
em que apresenta mais de 600 gêneros e aproximadamente 10.000 espécies.234
Segundo Tournefort: “Os antigos, não sei por qual destino malvado, quanto mais
ilustravam com múltiplos auxílios da medicina, tanto mais ofuscavam a botânica.
Com efeito, eles pensavam em novos nomes com que denominar as plantas para ilus-
trar as suas virtudes e não possuíam ainda normas para atribuir os nomes de uma
forma não arbitrária”.235
Cada um deles, no movimento de organização das informações contribui para
ordenar o que até aquele momento era confuso. O caos do mundo natural era
classificado em diversos gêneros e espécies. Um novo método que iria facilitar os
trabalhos posteriores. Em 1700, Tournefort, seguindo as ordens de Luiz XIV, realizou
expedições de reconhecimento pela região do Mediterrâneo Oriental e Ásia Menor.
Ao retornar à França, em meados de 1702, escreveu “Relation d’un Voyage au
Levant”, registrando as aventuras da viagem e o levantamento a que se dedicara,
demonstrando que seu conhecimento ia além dos estudos de botânica.
O naturalista francês George-Louis Leclerc, conde de Buffon (1707-1788),
diretor do Jardim do Rei e membro da Academia Francesa, foi um dos que realizou
estudos marcantes no âmbito da História Natural. George-Louis Leclerc estudou no
colégio jesuítico de Dijon, passando em seguida para a cidade de Angers para estudar
matemática e botânica. Na universidade os problemas com um oficial croata o fizeram
abandonar os estudos e realizar uma longa viagem por Bordeaux, Toulouse,
Montpellier, visitando também a Itália. Retorna à França e se instala em Paris,
exercendo atividade no jardim real das plantas. Em 1733 apresenta à Academia
francesa uma memória intitulada “Sur le jeu du franc-carreau” onde aborda a questão
do cálculo diferencial e o cálculo integral em probabilidade. Seus estudos se ampliam,
empreendendo observações sobre as madeiras utilizadas nas construções de navios,
realizando concomitantemente traduções de obras de Isaac Newton e do biólogo
Stephen Hales (1677-1761). A defesa da observação e da experiência o aproximou
dos pensadores ingleses, com os quais trocou correspondência, sendo eleito como
membro da Royal Society, em 1739. Entre 1749 e 1779 publicou a obra monumental
denominada “Histoire naturelle” (História natural)236, onde a maioria das questões

110
sobre o mundo natural estava posta, na medida em que o autor procurou criar um
sistema que incluísse todas as espécies.237
Buffon atribuiu aos seus estudos uma atenção especial pela compreensão do
movimento dinâmico da natureza. Para o estudioso, era fundamental compreender
como o mundo natural mudava com o decorrer do tempo, sendo possível identificar
em diferentes regiões espécies que possuíam um acentuado grau de similaridade.
Para tanto, recorreu aos textos antigos e as informações coletas a partir do movimento
das descobertas para elaborar a sua proposta de classificação a partir de uma visão
sistêmica. Buffon, ao fazer as comparações das espécies existentes nos continentes
atribui certa inferioridade ao mundo natural da América. Para ele, as condições do
clima alteravam algumas características das plantas e animais, sendo que estes últimos
tinham um porte inferior a outros encontrados em diferentes partes do mundo. Seus
escritos revelam que os seres vivos eram gerados a partir da organização de moléculas
orgânicas, que continham um princípio vital, ou seja, a organização de moléculas
combinadas é que permitiria a formação de um ser vivo. Apesar de a tese da geração
espontânea, por meio de um processo de ordenamento da matéria, ser criticada, ela
continuou a ter adeptos.238
A sistematização do mundo natural perseguida desde o século XVII não seria
empreendida por um único homem. Buffon apenas dera sua contribuição ao mosaico
que se formava sobre história. Caberia a um contemporâneo elaborar com contornos
mais nítidos o grande sistema da natureza.
O naturalista sueco Carl von Linné, ou Lineu, (1707-1778) foi o primeiro a
construir um sistema de classificação que foi utilizado nos períodos seguintes, sendo
referenciado até os dias atuais. Lineu estudou nas Universidades de Lund e Uppsala e
após viagem pela Lapônia e pela Holanda, obteve o diploma de doutor em Medicina,
vindo a atuar na Universidade de Leyden. Durante sua estada nesta instituição
escreveu os “Gêneros das plantas” (1737), com descrições dos diferentes gêneros de
mais de novecentas plantas.239 Tal como outros estudiosos, Lineu viajou pela Europa
fazendo explorações. Ele realizou missões científicas na Lapônia, região pouco
conhecida, vindo a publicar a obra “Flora Lapponica” que apresenta detalhes sobre as
espécies de vegetais, animais e minerais daquela área. Em 1735, nos Países Baixos,
obtém o diploma na Universidade de Harderwijk, interagindo com outros estudiosos

111
da natureza como Albertus Seba (1655-1736), Herman Boerhaave (1668-1738) e
George Clifford (1685-1760). A estreita relação mantida entre eles fez auxiliou no
conhecimento a na coleta uma série de espécies. Ao retornar à Suécia, ele passou a
lecionar na Universidade d’Uppsala, ocupando primeiramente a cadeira de medicina e
depois a de botânica. Dando continuidade às suas pesquisas viajou pela Suécia,
realizando coletas que comporiam o seu trabalho de maior destaque, o “Sistema da
natureza”, (1735) onde apresentava um novo método de classificação, dividido em
três sistemas de classificação: vegetal, animal e mineral, delineado de brevemente na
sua juventude. O sistema foi sendo aprimorado em novas edições e em 1758, Lineu
apresentou o seu sistema binomial, inserida num amplo sistema, para classificação da
fauna e da flora, um nome para o gênero ou característica comum, o outro, a espécie.
A taxonomia, ou sistemática, reunia várias formas em grupos amplos e abrangentes
considerando raça, espécie, gênero, família, ordem, classe, tipo e reino.240 Segundo
ele, o sistema binominal atendia com precisão todas as especiais animais, vegetais e
minerais. A formação era feita a partir de duas palavras em latim que compreendia um
nome e um epíteto específico (que poderia ser um adjetivo, um genitivo ou um
atributo). Enquanto o nome dava a singularidade da espécie, o epíteto dava a
característica particular, muitas vezes sendo formada a partir do nome de um lugar ou
de uma pessoa. O latim permitia uma compreensão universal e evitava as variações
que um nome poderia ter na língua vernácula.
Valendo-se de anos de estudos na área da botânica, ele procurou classificar os
vegetais a partir dos órgãos reprodutores, o que permitia a continuidade da espécie.
Sua reflexão não excluía a possibilidade de formações hibridas, porém ele defendia o
fixismo, ou seja, a impossibilidade dos seres se transformarem.241 Para ele, as espécies
foram criadas por Deus e depois do Gênesis não variaram.
Para a classificação dos animais alguns aspectos do sistema de John Ray
foram considerados. Lineu procurou estabelecer a classificação, considerando órgãos
específicos como: dentes (no caso de mamíferos), bicos (pássaros), nadadeiras
(peixes), asas (isentos), fazendo distinção para répteis e vermes. Lineu faz a
classificação dos animais em mamíferos, aves, anfíbios e peixes como as quatro
classes de animais com sangue vermelho, os insetos e os vermes como as duas classes

112
dos animais com sangue branco. Por intermédio deste método foi possível identificar
mais de cinco mil espécies.242
No que tange à classificação dos minerais, Lineu considerou a estrutura do
cristal, relevando a composição química para um segundo plano. A classificação
proposta superava a pluralidade e ambiguidade de nomes que geravam confusão no
estudo da natureza. Sua proposta gerou um modelo capaz de fazer referência precisa
dentro de um sistema.
Como observa Paolo Rossi, o trabalho de Lineu apresentava inconsistências
que poderiam ser tidas com aceitáveis num momento inicial de sistematização:
“É verdade que cabe a Lineu o mérito de ter classificado pela primeira vez o
homem entre os animais, mas é também verdade que ele o coloca entre os
quadrúpedes junto com os macacos antropomorfos e com o bradípode. Na opinião de
Lineu, o rinoceronte é um roedor e os anfíbios abrangem crocodilos, tartarugas, rãs,
cobras, bem como o robalo e a arraia. Sépias, polvos e pólipos são colocados entre os
Vermes.”243
O trabalho de construção de um sistema foi feito por várias mãos, uma vez que
devemos compreender que os novos paradigmas foram compartilhados por estudiosos
e pesquisadores interagindo-se. Erasmus Darwin (1731-1802) contribuiria de maneira
significativa para o debate sobre a História Natural. Havia uma visão fixa no campo
da História Natural no seu livro “Zoonomia”, publicado em 1794. Nesse trabalho,
Darwin defendeu a ideia de que as espécies se transformavam em função de suas
necessidades. Apesar de veementemente criticado por conservadores anglicanos,
Darwin conquistou adeptos da “Naturphilosophie” e de outras correntes de estudiosos
que inspirariam os trabalhos de seu neto Charles Darwin (1809-1882).
No século XVIII a noção de família de plantas agrupadas em gêneros, passa a
ser cada vez mais utilizada, impulsionada pelo trabalho de Buffon. Observa-se que o
vocabulário descritivo das partes de uma planta ou de um animal passou a ser
designados por termos específicos e utilizados em diferentes gabinetes que foram
incorporando os novos avanços como o sistema proposto por Lineu.
O médico Jean-Baptiste Pierre Antoine de Monet, chevallier de Lamarck
(1744-1829), foi um dos mais importantes estudiosos de botânica. Foi amigo de
Georges- Louis Leclerc, que indicou Lamarck para trabalhar como botânico no Jardim

113
do Rei (posteriormente conhecido como Jardim Botânico de Paris) e para a Academia
de Ciências, em função do seu trabalho “Flore française”, de 1778. Em 1793, ele
participa da transformação do Jardim do Rei em Museu Nacional de História Natural,
è designado professor de zoologia, dedicando-se à classificação racional dos animais
invertebrados. 244
O intuito Lamarck era o de realizar a unificação dos estudos sobre a vida dos
seres, reunido os elementos da botânica, zoologia, fisiologia e história natural. Seus
trabalhos conquistaram grande ressonância após a publicação das obras “Philosophie
zoologique” (Filosofia zoológica – 1809) e “Histoire nautrelle des animaux sans
vertebres” (História natural dos animais sem vértebras – 1815-1822). Nestas obras o
autor defendeu duas leis que explicariam o processo de transformação dos seres vivos,
sendo elas: a lei do uso e desuso e a lei da herança do adquirido.
Segundo Lamarck, se um determinado órgão fosse utilizado haveria grandes
possibilidades de desenvolver-se, enquanto a sua não-utilização poderia gerar atrofia.
Desta maneira, as transformações geradas pelo desenvolvimento ou pela atrofia
desses órgãos poderiam ser transmitidas às gerações seguintes.245 Para o botânico, o
mundo animal se transformava em função das necessidades geradas pelo meio
externo. Todo o ser vivo nascia de um outro ser vivo, sendo possível identificar uma
evolução de espécies, considerado um período de longa duração. A defesa de uma
teoria transformista implicava a ideia de uma seleção natural dos seres vivos. Tal fato
advinha da ideia de que o organismo dos seres vivos tinha uma complexidade própria
e uma dinâmica interna inerente ao seu metabolismo. Por conseguinte, a diversidade
de seres vivos, dependendo do local onde se encontravam, poderia ser comparada.
Pois deveria-se analisar as condições de adaptação e os fatores que levaram a
modificação de seu comportamento ou órgãos, para atender às necessidades
específicas. 246
Os estudos de Lamarck que começaram no século XVIII gerariam novas
pesquisas, principalmente na questão da hereditariedade. Tal situação é significativa
para demonstrar que o pensamento científico no início do século XIX está em plena
ebulição, como pode ser visto nos trabalhos de Georges Cuvier (1769-1832) e Charles
Darwin (1809-1882).

114
No século XVIII a difusão da física e das diferentes pesquisas resultou muitos
gabinetes/laboratórios surgissem. O objetivo era obter um espaço adequado para
realizar experiências, que incluía instrumentos adequados, nem sempre disponíveis e
pesquisadores habilitados.247 Os gabinetes de curiosidades foram comuns no período e
não era difícil encontrar coleções de espécies exóticas da natureza. Nesses locais,
animais embalsamados eram dispostos em meio a uma série de outras espécies,
envolvidas em substâncias que tornavam o ar do recinto irrespirável.
O número de exploradores naturalistas que circulavam por diferentes partes do
globo terrestre evidencia a avidez por novas descobertas e uma preocupação com o
conhecimento científico do mundo natural, que normalmente acontecia nas academias
de ciência européias. Conforme destacou Marie-Noëlle Bourguet:
“O explorador estimula a imaginação pelo facto de suscitar a ideia da aventura
de um herói intrépido e solitário, que parte para um destino desconhecido, que avança
sem quaisquer pontos de referência. Mas esta iconografia romântica esquece que o
explorador é mais um reconhecedor do que um aventureiro, viaja em cumprimento de
uma missão organizada que conta com o financiamento de um príncipe, de um grupo
de comerciantes, de uma instituição científica ou missionária, com objectivos precisos
nascidos de um conhecimento geográfico provisório e das expectativas de uma época.
Em vez de se lançar no vazio, o explorador sabe o que deve procurar, o que pretende
encontrar. Antes de seguirmos os seus passos, convém vermos primeiro o panorama
político, económico e mental que idealizou a sua partida”.248
Era prática comum que os viajantes naturalistas despachassem o material que
tivessem recolhido para a Europa, por vias diferentes. O cuidado em realizar esta
prática era garantir que as amostras recolhidas chegassem ao seu destino. As espécies
coletadas deveriam ser tratadas com cuidado. Sendo possível, as amostras eram
imersas em álcool para preservar as características do material. O acondicionamento
do material também recebia atenção. As espécies eram envolvidas em tecidos ou
substâncias macias para que se evitassem os danos. Em seguida, eram
cuidadosamente embrulhados para chegarem ao destino.
Alexander Dalrymple (1731-1808), na sua obra “Essay on Nautical
Surveying”, escrita em 1771, aconselhava aos navegadores que registrassem os
litorais que visitavam. Era conveniente para ele registrar o terreno e os portos, com

115
todos os detalhes possíveis, inclusive com nomes, de forma que permitissem uma
compreensão da região e auxiliassem outros navegadores a identificarem as melhores
rotas e os locais mais propícios para desembarque e obtenção de provimentos.249
Além disso, lembrava importância das viagens para o reconhecimento da natureza de
outras partes do mundo.
No processo de coleta dos viajantes naturalistas, as espécies eram catalogadas
comparadas com outras espécies já conhecidas. Por vezes, a falta de condições para a
análise impedia registros mais elaborados. A ausência instrumentos de tecnologia
avançada para o período impedia que as amostras fossem analisadas com maior
cuidado.
Mediante esta situação, todas as anotações e registro que pudessem ser
realizados eram fundamentais. Os animais eram dissecados e todas as informações
úteis para futuras pesquisas eram registradas em detalhes. Como os meios de
conservação de espécies mortos eram rudimentares, esta prática era importante para
os estudos subseqüentes. Desta forma, os naturalistas procuravam delinear as
principais características fisiológicas dos animais, comparado-as com outras espécies,
ou sinalizando para possíveis proximidades entre elas. Contudo, as ponderações e
estudos mais aprofundados eram feitos nos laboratórios europeus e nos jardins
botânicos, onde havia recursos mais adequados e uma bibliografia mais vasta.
Em 1735 uma expedição científica reunia cientistas e geógrafos com o intuito
de determinar, por meio da observação e experimentação matemática, a forma exata
da Terra.250 A equipe foi liderada por Pierre Louis Moreau Maupertius (1698-1759) e
a expedição durou um ano. Parte do grupo da expedição seguiu para a Lapônia com o
intuito de medir um grau longitudinal no meridiano. A outra parte seguiu em direção
ao Equador, para fazer a mesma medição, tendo como líder Louis Godin (1704-1760),
da qual participou Charles Marie de la Condamine (1701-1774). As constatações
confirmavam as afirmativas de Isaac Newton, mas os seus estudos trouxeram
contribuições para a biologia. Em 1745 publicou “Vénus physique” onde procura
explicar os fenômenos genéticos por meio de uma atração físico-química. Ele
defendia que a diversidade e heterogeneidade da natureza eram maiores do que se
imaginava. No início houvera geração espontânea e depois, por combinações,
surgiram novos seres. Ocorrendo mutações, novas espécies poderiam surgir.

116
O naturalista inglês Joseph Banks (1743-1820) também comandou uma equipe
de pesquisa composta por 126 coletores em todo o mundo, a fim de fazer a coleta de
diversas espécies vegetais para o Kew Gardens. As viagens compreenderam visitas à
terra do Labrador, Terra Nova, América do Sul, Taiti e Nova Zelândia. Banks
concebia a ciência, a botânica em particular, como fator indispensável para o
fortalecimento da economia britânica. Para além da visão mercantilista da natureza,
ele buscava ampliar o conhecimento da ciência, a partir da descoberta de novas
plantas.251
Neste momento, as expedições feitas por cientistas e navegantes permitiram a
descoberta de novas espécies da fauna e da flora. Louis Antonie Bougainville (1729-
1811), James Cook (1728-1779), Jean-François de Galaup, conde de La Pérouse (c.
1741- 1788?)252 e Alexander von Humboldt (1769-1859) empreenderam grandes
viagens a fim conhecer novos ambiente e compreender a dinâmica da natureza em
outras regiões, sendo que o território brasílico foi visitado com pouca intensidade, se
comparado com outras regiões. A coroa portuguesa, ao proibir navios estrangeiros nos
portos coloniais, impediu o fluxo de visitantes em terras americanas. Havia um
controle em relação aos tripulantes das embarcações, com restrições quanto à sua
presença no Brasil; às vezes, era permitido desembarque por um período definido
pelas autoridades portuárias. A razão de tanto cuidado era garantir a exclusividade do
comércio com a colônia e preservar o território das investidas daquelas nações que
tinham interesse na exploração aurífera.
As pesquisas poderiam atender aos interesses econômicos do Estado,
revelando uma visão utilitarista do mundo natural. Novas ideias emergiam no século
XVIII, criticando as doutrinas mercantilistas, ao mesmo tempo em que defendiam a
diminuição da intervenção do Estado na economia. Nesse movimento se destacaram
as reflexões de François Quesnay (1694-1774) e Anne-Robert Jacques Turgot (1727-
1781). A ideia de que a economia possuía suas próprias leis, devendo desenvolver-se
independente da vontade do homem, permeia o debate sobre questões econômicas.
Adam Smith (1723-1790) na sua obra “A riqueza das nações” (1776), defendia as
doutrinas liberais, entendendo que o trabalho era o elemento gerador de riqueza. A
fisiocracia que conquista espaço na Europa no decorrer da segunda metade do século
XVIII acreditava que o estimulo à agricultura era fundamental para assegurar a

117
felicidade da população. Esta preocupação compunha-se com outras ações do Estado
como uma racionalização do sistema fiscal e uma ação governamental que
estimulasse a produção, cabendo ao Estado garantir a propriedade privada e a livre
concorrência.
Para o desenvolvimento da agricultura e para a exploração de novas riquezas,
era fundamental que as metrópoles/nações conhecessem o potencial das suas terras.
As viagens exploratórias da natureza contribuíram de diretamente para uma revisão
das práticas econômicas do período. Os relatos de viagem, as correspondências, os
desenhos e a coleta de amostras de espécies davam à expedição um caráter notável e
impulsionaram os estudos sobre História Natural e a economia das nações. Por
conseguinte, uma série de manuais que orientavam como se fazer os registros se
multiplicaram, visando a atender diversos interesses em jogo.253
Neste momento, proliferam obras voltadas para instruções de observação e
experiências, dentre elas podemos destacar: o “Traité de l'expérience en général, et en
particulier dans l'art de guérir” (Tratado da experiência em geral e em particular na
arte de curar)”, de Johann Georg Zimmermann (1728-1795); o “Qu'est-ce qui est
requis dans l' art d'observer et jusques-où cet art contribue-t-il à perfectionner
d'entendement?"(Ensaio sobre esta questão: o que é necessário na arte de observar e
em que ela contribui à perfeição do espírito?), de Benjamin Carrard (1730-1789); e o
“Essai sur l'art de observer et de faires des expériences” (Ensaio sobre a arte de
observar e fazer experiências), de Jean Senebier (1742-1809), apresentando os
elementos primordiais para uma boa observação.254
Estes autores afirmavam que o estudioso das coisas do mundo, para fazer suas
observações, deveria possuir um “dom natural”, mas só isto não bastava. A opinião
que deveria haver alguma aptidão foi suplantada pela ideia de que o homem possuía
capacidade de ordenar as coisas do mundo, como defendeu Jean Senebier. Para tanto,
era preciso aprender como realizar a atividade de observação e praticá-la. A
experiência permitiria o desenvolvimento de habilidades e o pesquisador deveria ser
capaz de seguir o melhor caminho para atingir o seu intento.255
No século XVIII evidenciava-se que a observação não significava a verdadeira
experiência. O elemento chave da discussão era como o observador se posicionava

118
perante o objeto. A experiência era fruto de um observador ativo que fazia indagações
e buscava respostas. A experiência era ainda uma grande “interrogação”.256
O naturalista deveria tomar cuidado nas suas observações, procurando afastar
tudo aquilo que pudesse ser estranho e que viesse a comprometer o seu estudo. Isto
justificava a elaboração das instruções, porque além de apresentarem o processo de
observação exigia-se que o naturalista tivesse uma experiência mais elaborada no
preparo das plantas e animais para envio aos gabinetes. Conforme observava Jean
Senebier:
“A arte de observar consiste então em penetrar as qualidades dos seres que se
estuda, em seguir os seus efeitos, em compreender suas semelhanças e suas
diferenças, em descobrir suas relações, em concluir, se possível, do efeito ou das
diferentes condições do efeito, ou de sua analogia com outros efeitos, à causa do
efeito proposto. Esta arte fornece os métodos para interpretar a natureza, os meios de
aplicá-los, a maneira de descrever as descobertas feitas e de formar boas teorias. Em
geral, a arte de observar é aquela de adquirir ideias claras e exatas sobre os objetos
que acertam os sentidos e de os comunicar aos outros, do modo como foram
recebidas”.257
Ficava evidente que, se nos registros do século XVI, o homem observava a
natureza de forma contemplativa, no século XVIII os registros feitos pelos naturalistas
conduziam à ideia de que o homem não apenas observava, mas intervinha na
natureza, buscando a unidade de entendimento, pois observar era a arte de penetrar
nas qualidades dos seres.258
O naturalista deveria discernir sobre o método mais conveniente para observar
conforme as circunstâncias em que se encontrasse. Era fundamental que o estudioso
tivesse uma bagagem de informação ou se valesse da leitura de eruditos sobre o
assunto. Ele não deveria incorrer no erro de fazer operações que outros já tivessem
elaborado. Seu esforço deveria ser canalizado para aperfeiçoar os conhecimentos do
que era novo e que pudessem complementar as lacunas deixadas por estudos
anteriores. O naturalista deveria ser capaz de fazer analogia, retificar observações
equivocadas, alertar para obstáculos e fornecer orientações para novas pesquisas.259
Se o observador era importante, a técnica e os instrumentos para se fazer a
observação também o eram. As orientações dos documentos que tratavam deste

119
assunto demonstravam claramente quais eram as operações necessárias para se fazer o
preparo do material, determinando uma ordem para que futuros estudos fossem feitos
com precisão. O naturalista necessitava ser paciente e exercitar constantemente a
concentração na sua atividade. Deveria ter destreza para realizar as operações
principalmente em plantas e animais de pequeno porte que exigiam delicadeza. As
instruções lembravam sempre a importância da integridade e objetividade da
informação, que exigia prudência e atenção do estudioso nas suas atividades. Muitas
vezes, estes elementos não eram suficientes. Era importante que o naturalista tivesse
um espírito aventureiro e que manifestasse uma paixão pelo mundo natural, tendo em
conta que as condições de pesquisa não eram favoráveis e por vezes as expedições
mata adentro resultavam na perda da vida. Sem dúvida, era preciso ter coragem.260
As observações não poderiam ser feitas de forma aleatória. Era preciso
exatidão. O pensamento científico impunha uma lógica que, por decorrência,
influenciava na forma do olhar. Primeiramente, o objeto necessitava ser analisado e
em seguida as suas partes estudadas. Não bastava uma visão do conjunto, era
fundamental observar separadamente cada parte, indagar sobre a especificidade delas,
questionar sobre como cada parte estava relacionada com a outra, fazendo disso um
sistema.
Os sentidos davam início ao processo de conhecimento que conduzia à
reflexão e à formulação das impressões sobre o objeto observado. Este processo
poderia influenciar posteriormente, modificando o sentido da observação. O
pensamento científico entendia que várias observações deveriam ser feitas, pois esta
prática poderia confirmar ou não o que se tinha verificado num primeiro momento. A
repetição das experiências poderia validar as respostas ou conclusões feitas pelo
pesquisador. O estudioso deveria atentar para as possíveis variações que observasse
durante o processo. Esta situação seria anotada com as respectivas observações,
identificando as circunstâncias em que ocorriam.261
O registro que acompanhava o material deveria ser preciso e minucioso.
Clareza e exatidão são uma constante no proceder, pensar e relatar. As observações
não poderiam confundir o raciocínio. O naturalista deveria anotar tudo prontamente,
de preferência no local onde a observação ocorria, não deixando para depois,
confiando na memória. Esta não era confiável.262

120
Em suma, concordamos com Maria Elice Brzezinski Prestes, quando afirma
que para Jean Senebier, assim como para “Zimmermann e Carrard, fazer observações
e experiências é seguir de perto o que fazem os bons naturalistas observadores do
período. Em outras palavras, a boa observação e a experiência são coisas que se
aprendem pela imitação dos grandes textos experimentais”.263
Podemos observar que neste aspecto residia uma diferença significativa entre
alguns registros dos século XVI. Alguns cronistas fizeram seus relatos tempos depois
do contato com o mundo natural dos trópicos. Eram, na verdade, lembranças de
experiências que a memória havia preservado. Algumas observações ficaram
relegadas ao esquecimento. Esses textos não são descrições detalhadas de aspectos
marcantes fixados pela memória.264
As academias científicas que conquistaram grande importância foram
estimuladoras das pesquisas e da difusão do conhecimento, promovendo o
financiamento de expedições de pesquisa que contribuíram com novas informações. O
apoio às pesquisas dos naturalistas acabaria influenciado a ampliação de trabalhos em
diferentes regiões, coletando de plantas, insetos e pedras. Era necessário, então, que
os registros das expedições e os resultados das pesquisas fossem publicados, visando
a atender aos anseios das sociedades científicas; os governos deveriam apoiar e
estimular este tipo de estudos. Enquanto alguns conquistavam o reconhecimento
público, outros ficavam perdidos nos arquivos, cabendo aos historiadores revelar a
produção desse período.
Na medida em que as experiências de viagens se avolumavam e se
constatavam as diferentes informações em circulação, era recomendável que se
tivesse cuidado com as notícias e as versões de temas, pois muitos procediam de
pessoas que ignoravam o assunto ou enfatizavam o que lhes convinha. Em 1728,
Ephraim Chambers publicou o “Dicionário universal de artes e ciências”, que reunia
termos técnicos e científicos, ordenados alfabeticamente; cada um deles recebia ao
lado uma explicação do seu significado.
Contudo, o marco do pensamento iluminista foi a “Enciclopédia”, que teve
como editor o filosofo Jean Le Rond D'Alembert (1717-1783), e a partir de 1747,
Denis Diderot (1713-84). A “Enciclopédia”, ou "Dicionário racional de ciências, artes
e ofícios" que reuniu mais de 71.000 verbetes e 2.800 gravuras.265 O projeto agregou

121
um amplo grupo dos mais destacados estudiosos do período, que contribuíram para a
sistematização do conhecimento, reunindo opiniões de diversas correntes. Esta
proposta era uma demonstração do caráter aberto que abrigava uma pluralidade de
pesquisas naqueles idos.
Contudo, ao final do século XVIII, apesar de todo um processo de conquistas,
havia muitas perguntas em aberto. As incertezas eram muitas e convidavam a novas
especulações. Paul Hazard identifica, nesse momento, o interesse que o mundo natural
despertava cada vez mais na população. Coleções de borboletas e herbários faziam
parte de alguns homens que demonstravam grande interesse em compreender a
natureza e também em tentar descrever as suas características e ciclos.266 Novas
etapas do conhecimento estariam por vir.
O crescimento da história natural do século XVIII, neste breve painel que
traçamos, foi marcado pelo pensamento empirista e pela necessidade de enumeração
completa dos seres. Este movimento levará à discussão do problema da identificação,
pois muitos registros sobre plantas e animais não traziam suficientes descrições
realizadas na Antiguidade. Em alguns casos, as formas de descrever eram arbitrárias e
sem critérios e comprometia a informação. Esta situação agravava-se com o número
crescente de espécies identificadas, tornando o trabalho de sistematização uma tarefa
hercúlea. Conforme destaca Maria E. B. Prestes: “Como resultado dessa dupla
vertente arregimentando os esforços de investigação do mundo natural, o século
XVIII poderia ser resumido como o palco de uma mistura complexa de sistemas
teóricos que admitiam algum grau de mudança sem perder o controle sobre o impacto
causado pelas novas descobertas”.267
O sistema de classificação proposto por Lineu, a partir de caracteres
morfológicos do aparelho reprodutor das plantas, ganhou difusão por organizar os
seres vivos dentro de uma lógica compressível, sendo considerado uma referência
obrigatória para os pesquisadores do século XIX. Além disso, ao propor a
classificação a partir do funcionamento do organismo, evidenciou que este era mais
importante que a somatória do estudo das partes. Desta forma, procuramos mostrar
como a ideia de natureza foi pensada ao longo desses períodos. Longe de chegar a um
ponto comum, tivemos como objetivo apontar a diversidade de visões sobre o mundo
natural. Visões que interagiram e que eram, por vezes, antagônicas. Conhecimentos

122
que eram reavaliados no movimento do processo histórico e das transformações
técnicas realizadas pelo homem.

123
Terceiro Capítulo

Portugal e os desafios na
construção de um
novo modelo de saber

“Não há felicidade senão com conhecimento.


Mas o conhecimento da felicidade é infeliz;
porque conhecer-se feliz é conhecer-se passando pela felicidade,
e tendo, logo já, que deixá-la atrás. Saber é matar, na felicidade como em tudo.
Não saber, porém, é não existir.

Fernando Pessoa

124
3.1 Portugal no caminho da ilustração

As transformações provocadas pela Revolução Industrial e pela Revolução


Francesa causaram profundas reformas nas últimas décadas do século XVIII em
Portugal. A nação lusa vivia uma crise econômica significativa e um momento de
mudanças científico-culturais, após a expulsão dos jesuítas. Comparada com as
demais nações europeias a defasagem lusitana era incontestável.
A influência jesuítica em Portugal, desde o século XVI, marcou de forma
intensa as diferentes instituições lusitanas e se fez presente também no âmbito da
educação e dos estudos científicos. A Companhia de Jesus contribuiu de forma
significativa para o debate científico nas terras lusitanas, mesmo que o ritmo e a
profundidade dos estudos fossem diferentes do de outras partes da Europa. A
estratégia da ordem garantiu a seus membros e antigos alunos um diálogo com a
ciência e, no caso português, intercâmbio entre diferentes partes do império. Este
movimento permitiu um intercâmbio entre Ocidente e Oriente e, consequentemente, o
desenvolvimento de diferentes estudos em Portugal.268
A "Aula da Esfera" do Colégio de Santo Antão foi decisiva para as ciências
em Portugal. Com bem observou Henrique Leitão, o termo “Aula da Esfera” refere-se
ao ensino da cosmografia e da astronomia, que naquele momento era baseado no
“Tratado da Esfera” de Sacrobosco (século XIII). Contudo, os ensinamentos
ministrados no colégio englobavam outros assuntos, como: geometria, aritmética,
álgebra, trigonometria, geografia, hidrografia, cartografia, ótica, construção de
equipamentos científicos, técnicas de construção em arquitetura e engenharia militar,
e diversos temas considerados científicos.269
A “Aula da Esfera” surgiu na última década do século XVI e foi mantida pelos
jesuítas até a sua expulsão de Portugal em 1759. Numa sociedade controlada pelos

125
tribunais da Inquisição, a “Aula da Esfera” foi uma brecha para o debate e pesquisas
de temas científicos. As inovações em curso no século XVII e primeira metade do
século XVIII estiveram presentes nas reflexões empreendidas pelo Colégio de Santo
Antão. No decorrer desse período, jesuítas vindos de diferentes partes da Europa
lecionaram disciplinas, em face da ausência de professores, nas terras lusitanas.
Dentre eles se destacaram: o matemático Cristoph Grienberger (1564-1636), Giovanni
Paolo Lembo (ca. 1570-1618) e Cristovão Borri (1583-1632), que participaram
ativamente das polêmicas sobre matemática e cosmologia, e na área de engenharia
militar, especialistas como Jan Ciermans [Cosmander] (1602-1648) e Heinrich Uwens
(1618 -1667).270 Esta circulação de jesuítas, por diversos colégios pertencentes à
Companhia de Jesus, favoreceu a troca científica e cultural.
As aulas de matemática tinham como conteúdo aspectos astronômicos e
tiveram início no Colégio de Santo Antão a partir de 1555, sendo ministradas pelo
padre Francisco Rodrigues.271 O ensino da Matemática já fora estabelecido no
Collegio Romano, fundado em 1551, sendo responsável por esta iniciativa o alemão
Cristóvão Clávio (1537-1612). Outros colégios jesuíticos também se destacaram pelo
estudo da Matemática como o colégio de La Fleche, em Sarthe, que exerceu grande
influência nos séculos XVII e XVIII, como já mencionamos anteriormente.272
João Delgado (1553-1612) foi um dos professores que conquistaram
ressonância lecionando na "Aula da Esfera". As notas de aulas que foram copiadas
pelos alunos circularam com facilidade, revelando detalhes sobre matemática e
astronomia, ou a teórica dos planetas.273
No colégio de Santo Antão, desde 1592, havia o projeto para a elaboração da
cartografia e da descrição geográfica dos territórios portugueses. Apesar dos esforços
dos monarcas para executar o projeto, as dificuldades impostas pela União Ibérica e a
falta de professores impediram que a ideia fosse avante. Contudo, o colégio de Santo
Antão contribuiu com seus estudos para o debate da náutica e de outras questões de
interesse da coroa.274 A partir de 1593, o colégio conquistara um novo espaço na parte
baixa de Lisboa, continuando a ser um foco irradiador de saber. Os estudiosos
analisavam e debatiam a teoria heliocêntrica proposta por Nicolau Copérnico na obra
“De revolutionibus orbium caelestium”.275 Da mesma forma, o trabalho de Galileu
Galilei era conhecido e havia aqueles que compartilhavam a opinião de que havia no

126
céu mais estrelas para além das que se vêm a olho nu. Se isto era plausível, o mundo
natural poderia ocultar outras verdades. Em 1611, os astrônomos jesuítas
confirmariam todas as descobertas de Galileu, depois de aprofundados estudos.276
Em 1631, foi publicada em Lisboa a obra “Collecta astronômica”, de
Cristóvão Borri. O texto discutia o uso do telescópio nas novas observações
astronômicas e suas implicações. A obra rompia com a tradição ptolomaica e lançava
base para novas pesquisas.277 O colégio conquistou prestígio, fato que pode ser
constatado pela quantidade de alunos que recebeu. No decorrer do século XVII,
aproximadamente dois mil alunos tinham frequentado aulas no colégio. 278
A restauração do trono português, em 1o de dezembro de 1640, representou a
libertação de Portugal do domínio espanhol. Contudo, o reino teve que enfrentar
muitos percalços, devido à falta de recursos financeiros e necessidade de
reorganização do exército.279 O processo de guerras contra a coroa espanhola impôs o
recrutamento de mais engenheiros e arquitetos militares para atender às necessidades
da coroa lusitana. O apoio do Colégio de Santo Antão foi decisivo nesse momento, na
medida em que intensificou o desenvolvimento dos estudos de geometria aplicada à
engenharia, balística, agrimensura e outros conhecimentos importantes para a
atividade militar.280 A circulação de jesuítas de outras partes da Europa por Lisboa
favoreceu a ampliação dos horizontes científicos e contribuiu para um intercâmbio de
informações benéfico a Portugal, nesse momento de reorganização interna.
Apesar de o Colégio de Santo Antão se abrir para a discussão da astronomia e
do ensino da matemática, ainda estava longe de alcançar o avanço de outros colégios
jesuíticos da Europa (França, Holanda, Inglaterra e Itália). A situação era mais crítica
nos colégios de Coimbra e Évora, onde o ambiente para debates mais avançados não
era propício, pois seus dirigentes eram mais conservadores do que os do colégio de
Santo Antão.
O descompasso do colégio de Santo Antão em relação a outros colégios
jesuíticos fez que, em 1692, o Geral da Companhia, Pe. Tirso Gonzalez (1624-1705)
determinasse o estudo da matemática nos colégios jesuíticos lusitanos na “Ordenação
para estimular e promover o estudo da Matemática na Província Lusitana”. O
documento definia as diretrizes e as ações a serem postas em prática pelos
religiosos.281

127
As orientações e os professores que demonstravam grande conhecimento e
habilidade para o ensino tornaram a “Aula da Esfera” cientificamente mais
interessante. Neste impulso, ocorreu a criação do primeiro observatório astronômico
de Portugal, que contou com a contribuição dos padres Giovanni Batista Carbone e
Domenico Capassi. A importância do colégio de Santo Antão foi inegável nesse
período, pois os professores eram consultados sobre diversos assuntos técnico-
científicos. As atividades de observação astronômica e os resultados positivos
atraíram novos recursos para melhorar as condições de estudo.282
O terremoto de 1o de novembro de 1755 pôs abaixo parte do Colégio de Santo
Antão-o-Novo, mas a sala onde era ministrada a "Aula da Esfera” pouco sofreu com o
283
sinistro. Como observou Henrique Leitão:
“A ‘Aula da Esfera’ foi, durante cerca de 170 anos, a mais importante ins-
tituição de ensino científico em Portugal, e esta apreciação não precisa de mais
justificações do que a apresentação directa dos factos: foi a única instituição que
assegurou o ensino continuado das disciplinas científico-matemáticas, sem inter-
rupções, de finais do século XVI a meados do século XVIII; a única a conseguir
manter professores competentes nas ciências matemáticas quando todas as outras
instituições fraquejaram; foi o principal centro de formação dos técnicos e espe-
cialistas científicos de que o país precisava. Foi também a instituição onde se
registrou o primeiro aparecimento entre nós de muitas técnicas e conceitos científicos;
foi a porta de entrada da ciência moderna no nosso país. Sem surpresa, é a instituição
que deixou o maior e mais interessante legado documental (notas de aulas,
manuscritos vários, teses, textos impressos, etc.) de interesse científico, mesmo depois
de os seus arquivos terem sido destruídos”.284
Parte da cidade de Lisboa foi destruída pelo terremoto e milhares de pessoas
morreram. Os sobreviventes atônitos não encontravam explicação adequada para o
acontecido. A desgraça que se abatera sobre todos fizera que a população apelasse
para a devoção religiosa. Missas, rezas e outras práticas foram evocadas para
amenizar o sofrimento das almas vivas e encaminhar as almas dos mortos ao seu
destino. O terremoto instaurou o terror pela cidade. A Europa, chocada, acompanhava
como inquietação as notícias da destruição. A natureza manifestara-se com toda a sua
força para que os homens observassem as manifestações do mundo natural e a

128
destruição que ele poderia causar. A natureza mostrava a sua pujança. Feições de uma
força que os homens se recusavam a aceitar.285
A primeira metade do século XVIII foi próspera para Portugal, reluzindo na
Europa. A Ilustração conquistara lentamente a corte de D. João V (1689-1750), que
por meio de estrangeiros e de um pequeno grupo de iniciados estimularam o debate de
temas emergentes do conhecimento científico. Portugal vinha acompanhando com
prudência e a distância os avanços das ciências em outras cortes e decidiu esforçar-se
para entrar em sintonia com os movimentos ilustrados do período.
Baltasar da Silva Lisboa (1761-1840), ao estudar o percurso da História
Natural em Portugal registrou que no decorrer do governo de D. João V já se
empreendiam explorações do território, tendo como fim o colecionismo e os gabinetes
de curiosidades.286 Variedades de pedras, das mais diversas cores e brilhos, faziam
parte de coleções europeias. A região das Minas Gerais, além garantir à coroa
portuguesa uma quantidade de ouro significativa, mostrou-se uma região rica em
diversidades de pedras preciosas que causava deslumbramento aos europeus, pela
beleza das suas cores.
A Academia Real de História Portuguesa serviu de estímulo cultural. Fundada
pelo rei D. João V em 8 de dezembro de 1720, teve como grandes agenciadores do
processo D. Francisco Xavier de Meneses (1673-1743) e D. Antonio Caetano de
Sousa (1674-1759). Os estatutos da Academia foram confirmados em 4 de janeiro de
1721.287 Contudo, tão rápido como seu de ascensão, foi o processo e declínio. Apesar
da autorização especial aos membros da Academia para pesquisar em arquivos e
cartórios do reino, a reformulação da historiografia não logrou o êxito esperado,
restringindo-se em algumas situações a exercícios de retórica. A Academia elaborou
um conjunto de obras significativas: “Prosas Portuguesas recitadas em differentes
Congressos Acadêmicos”, pelo padre Raphael Bluteau (1728); “Notícias
Cronológicas da Universidade de Coimbra”, de Francisco Leitão Ferreira (1729);
“Memórias para a História Eclesiástica do Bispado da Guarda”, de Silva Leal (1729);
“Memórias para a História do governo de D. João I”, de José Soares da Silva (de 1730
a 1734); “Memórias para a História Eclesiástica do Bispado da Guarda”, de J.
Contador de Argote (de 1732 a 1747); “Memória Histórica da Ordem Militar de S.
João de Malta”, de frei Lucas de Santa Catarina (1734); “Geografia Histórica dos

129
Estados Soberanos da Europa” de frei Lucas de Santa Catarina (1734-1736); “História
Genealógica da Casa Real”, de António Caetano de Sousa (1735 a 1748), juntamente
com os de “Provas e Índice; Memórias Históricas de Algumas Ordens Militares”, de
Alexandre Ferreira (1735); “Memórias para a História de Portugal que compreendem
o governo de D. Sebastião”, de Diogo Barbosa Machado (1736 a 1751); “História da
Santa Inquisição do Reino de Portugal e suas Conquistas”, de Pedro Monteiro (1749 e
1750); “Memórias para a História da Universidade de Coimbra”, de Francisco Leitão
Ferreira; “Vocabulário Latino e Português”, do padre Raphael Bluteau; “Dicionário
Geográfico”, do padre Luís Cardoso.288 Este conjunto de trabalhos que conquistaram
ampla ressonância no período revelavam o processo de transformação em curso e se
ampliaria a partir da segunda metade do século XVIII.
A primeira metade do século XVIII foi reluzente para a coroa portuguesa. A
descoberta e a exploração das minas de ouro no Brasil contribuíram para a riqueza do
reino e para a estabilidade de seu governo. A grande quantidade de ouro que fluiu das
terras coloniais para os cofres portugueses permitiu uma prosperidade econômica, um
desejo alimentado desde a época das descobertas. Produto da natureza que reluziu e
ofuscou as nações modernas. A mesma natureza impusera um terrível golpe ao povo
português no fatídico primeiro de novembro de 1755.
Esses acontecimentos animaram D. João V a convidar o naturalista Charles
Fréderic de Merveilleux para realizar estudos em Portugal com a intenção de publicar
uma obra sobre a História Natural de Portugal. A primeira visita desse personagem a
Portugal ocorreu em 1714, e em 1723 foi convidado a fazer estudos em Lisboa, e as
pesquisas tiveram início no ano seguinte. Em 1738, ele publicou a obra “Memoires
Instructifs pour un voyageur dans le divers Etats de l’Europe. Contenant des
anecdotes curieuses très propres à eclaircir l’ Histoire du temps, avec des Remarques
sur le Commerce et l’Histoire Naturelle”, 289 a pesquisa incluiu visita à região da Serra
da Estrela e a Sintra.
Em 31 de julho de 1750, D. João V faleceu em Lisboa, no Paço da Ribeira. A
morte do monarca coincidia com o declínio e o esgotamento dos veios auríferos e o
Terremoto de 1755 agravaria ainda mais a situação econômica da nação portuguesa.
Momento de reflexão que, como observou Mary Lucy del Priore, permite

130
compreender a sociedade portuguesa na sua complexidade oscilante entre
permanências e mudanças:
“Permanência, pois Portugal ancorava-se na estabilidade das estruturas, no
predomínio esmagador do mundo agrário, na dominação da aristocracia senhorial,
leiga e eclesiástica. A ela pertenciam a terra e o domínio do aparelho de Estado, onde,
de tempos em tempos, esbarrava-se na mediação do aparelho burocrático. A
monarquia absoluta e a política econômica mercantilista, politicamente enraizadas no
mundo agrário, seguiam apegadas com tenacidade às suas maneiras de pensar e a seus
valores. Mudança, pois no reinado de D. José, e sob o governo do marquês de
Pombal, os grupos que mantinham uma soma perigosa de poder e prestígio serão
perseguidos e dizimados[...]290
Entre permanências e mudanças, o reino português foi conduzido por D. José
I, filho e herdeiro de D. João V e pelo seu Primeiro-Ministro Sebastião José de
Carvalho e Melo (1699-1782). Este, no seu pronunciamento sobre as vantagens que o
reino poderia alcançar da desgraça causada pelo terremoto, lembrava que, para
restabelecer um Estado, era necessário que um Estado fosse em parte aniquilado. O
tremor, enquanto fenômeno da natureza, permitia destruir alguns sistemas que não
eram condizentes com a nova realidade e os novos interesses da sociedade
portuguesa.291 Como observou Russell-Wood, até o século XVIII, Portugal mostrava-
se voltado para seus territórios coloniais e de certa forma de costas para a Europa. O
reino lusitano era o centro e a continuidade de suas colônias, local onde se cruzavam
caminhos, mercadorias, homens vindos de todas as partes do império.292 Com o
terremoto, as atenções voltaram-se para Lisboa. A riqueza não poupara a desgraça.
Sebastião José de Carvalho e Melo foi o Primeiro-Ministro do rei D. José I
(1714-1777), que assumiu o poder com a morte de D. João V. Nasceu em Soire,
pequena Vila do termo de Coimbra, sendo nomeado como enviado extraordinário à
corte de Londres em 1739, retornado posteriormente a Lisboa. Em seguida, partiu
para Viena, onde se casou com Leonor Ernestina Eva Wolfanga Josefa, condessa de
Daun (1721-1789), sua segunda esposa, filha do célebre Marechal Henrique Ricardo
Lourenço, conde de Daun. Voltou pouco depois a Lisboa, onde ficaria longo tempo
desempregado. Apesar de reiteradas tentativas não conseguiu ocupar nenhum cargo
no Ministério de D. João V, mesmo com as intervenções de Frei Gaspar da

131
Encarnação, tio do Duque de Aveiro (D. José Mascarenhas da Silva de Lancastre), o
Padre João Batista Carboni, e outros validos daquele monarca. Com a morte de D.
João V, por interferência da rainha viúva, D. Maria Anna Josefa, que o protegia em
atenção à Condessa Daun, José Sebastião de Carvalho e Melo passou a ocupar cargos
importantes no Ministério, desde 1750 até a sua demissão em 1777.
As polêmicas ações empreendidas por Sebastião José de Carvalho e Melo
gerou uma série de insatisfações, e causou o surgimento do grupo dos “ressentidos”.
Tomás de Almeida, membro do grupo dos “ressentidos”, descreve o momento e o
novo secretário da seguinte forma: “[...ele] diz o que quer como Oraculo na presença
de El Rey sem haver quem desmanche as cavilacoes e falsidade que ele persuade por
verdades, tendo a fortuna de fazer crer tudo, e de ser ouvido como se o espirito Santo
fala-se pela sua boca, sendo só Lusbel quem por ela fala, [...]”.293
O poder de Sebastião José de Carvalho e Melo e a figura enigmática do
monarca D. José I favoreceram estudos historiográficos de correntes antagônicas.
João Lúcio de Azevedo no seu estudo sobre o Marquês de Pombal assim delineia a
figura de D. José:
“acerca de quem não pôde a história ainda assegurar se foi realmente um
tirano consciente e sanguinário, como deu a entender o seu válido, ou apenas
malleavel instrumento nas mãos d’ele. Aqui o vemos assistir taciturno á ruína de uma
herança que, por muitas razões, devia suppôr no fundo magnifica, assim como
também o veremos, no correr do reinado, não intervir jamais, ao menos
ostensivamente nas decisões de Pombal. Seria isso boçalidade, indifferença, desapego
das cousas graves para dar preferência aos gosos da vida?”. 294
Em setembro de 1758, D. José I, retornando ao palácio, após uma visita
noturna à marquesa de D. Teresa de Távora e Lorena (1723-?), esposa de D. Luís
Bernardo de Távora (1723-1759), foi emboscado por desconhecidos que o feriram. O
caso ficou envolvido em mistério e foi devidamente explorado por Sebastião José de
Carvalho Melo,295 que empreendeu diligências secretas para descobrir os executores
de tal delito.296 Em dezembro do mesmo ano, numa rápida operação policial, alguns
políticos importantes, dentre eles líderes aristocratas como o conde de Atougia, o
duque de Aveiro e componentes da família dos Távora foram presos, uma perseguição
com forte conotação política, cujo objetivo seria neutralizar a ação da nobreza.

132
As averiguações indicam também o envolvimento de alguns jesuítas que
teriam atuado como cúmplices no atentado, como o famoso Padre Gabriel Malagrida
(1689-1761) e os padres João de Matos e João Alexandre.297 Este episódio
completava uma série de entraves com a Companhia de Jesus, justificando o alvará
real de 1759, que ordenava o afastamento daqueles que serviam na corte como
preceptores ou confessores da família real, além da prisão e expulsão dos jesuítas.298
O ato de expulsão era realizado com o fim de preservar a autoridade real e a
soberania do Estado lusitano, colaborando também para a harmonia da sociedade
ameaçada pelos religiosos. O argumento utilizado era que a Igreja e especialmente a
Companhia de Jesus não estavam submetidas aos reis portugueses, criando o que
ficou conhecido como um Estado dentro do Estado, duas monarquias, uma temporal e
outra espiritual. Esta atitude, antes de ser um ato monárquico, era uma ação em prol
da segurança da coletividade, pois a punição aos nefastos religiosos visava a
conservar a tranquilidade, e os interesses dos fiéis vassalos. A expulsão assumia,
portanto, ares de proteção e defesa dos súditos à mercê de religiosos que não mediam
esforços para conseguir os seus intentos. Expulsão que causaria uma série de
transformações no reino e no império lusitano. A dimensão dada ao episódio e o tom
dramático em parte contribuíram para abrir campo a mudanças e à geração de
transformações mais profundas.
Portugal sofreu mudança institucional, estruturada por Sebastião José de
Carvalho que, ao assumir suas funções de Primeiro-Ministro, procurou fortificar o
Estado, impedindo o comportamento desregrado da elite portuguesa que gozava de
prerrogativas estimuladoras a práticas irregulares. A Igreja e a nobreza viviam com
grandes recursos enquanto a população caminhava na pobreza. O Primeiro-Ministro
desejava aprofundar a centralização do poder monárquico frente à Igreja e à nobreza e
sanear as finanças do Estado. Para tanto, apoiou-se em leis esclarecedoras do papel
das instituições e das relações existentes entre elas. Como bem salientou Lilia
Schwarcz, a assunção de Sebastião José de Carvalho e Melo não representava,
“entretanto, apenas a conquista pessoal de um político de carreira fulminante. Era
também a vitória de certo ideal administrativo e de um grupo que soube apresentar, no
momento certo, uma série de saídas emergenciais”.299

133
A centralização de poder almejava reorganizar o império português
extremamente debilitado em sua balança comercial, especialmente com a Inglaterra,
pelos acordos econômicos celebrados entre os dois países, especialmente o Tratado de
Methuen (1703). O saneamento das contas do Estado passava pela revisão das
relações de dependência e pela sangria de recursos que debilitaram as finanças. A
criação da Companhia do Grão-Pará e Maranhão e da Companhia de Pernambuco e
Paraíba, instituídas em 1755 e 1759, respectivamente, tinha como objetivo acelerar o
desenvolvimento econômico daquelas regiões coloniais, favorecendo a exploração
natural e o cultivo do açúcar e do fumo.300
Fernando Novais destacou que a política ilustrada pombalina era
essencialmente reformista e visava a solucionar a crise do sistema colonial, afetando
por decorrência das relações do Antigo Regime, pois, conforme observa o autor,
“Absolutismo, sociedade estamental, capitalismo comercial, política mercantilista,
expansão ultramarina e colonial são, portanto, parte de um todo, interagem
reversivamente neste complexo a que se poderia chamar, mantendo um termo da
tradição, Antigo Regime”.301 Neste universo, o poderio jesuítico tornara-se, com o
decorrer do tempo, um elemento nocivo à “saúde” do Estado em todas as suas esferas,
reduzindo a ação do rei e abalando principalmente os recursos do Erário Real. O
problema não era apenas a ação da Companhia, como observou Francisco Falcon: “O
processo de debilitação do poder do Estado, com suas inevitáveis seqüelas, traduzidas
sob a forma de inércia, ineficiência e aumento da corrupção no aparelho burocrático,
abriu caminho aos descontentamentos e às pretensões daquelas camadas ou grupos da
burguesia mais diretamente prejudicados, ou mais dispostos a contestar o crescimento
relativo da aristocracia”. Sebastião José de Carvalho Melo identificou o
enfraquecimento do poder real, entendendo ser preciso restabelecer a ordem
econômica do Estado português.302 Paulatinamente, reorganizava-se o Estado
adequando a justiça, o exército e o comércio à nova conjuntura.303
As transformações engendradas por Sebastião José de Carvalho Melo
esvaziaram o poder da Igreja entre 1760-1770, como reflexo do rompimento das
relações com a Santa Sé. O Primeiro-Ministro entendia que não era obrigado a aceitar
os documentos eclesiásticos, ou seja, os tribunais civis tinham o poder de rever as
sentenças dos tribunais da Igreja. A censura em relação às publicações, até então sob a

134
égide da Igreja, passou para o poder da Real Mesa Censória, alterando também o
funcionamento do Tribunal da Inquisição, determinando que os bens confiscados dos
condenados fossem entregues ao Estado.
No decorrer da segunda metade do século, Portugal passaria por uma intensa
transformação mental e social, impulsionada por forças externas e internas, sendo o
terremoto apenas uma das rupturas do processo histórico português.304 A Europa vivia
um momento de efervescência ideológica movida pela força da razão. O homem
pensando por si mesmo procurava solucionar seus problemas, bastava compreender a
razão universal. A influência de ideias científicas e filosóficas já era intensa, fruto de
um movimento de longa duração no decorrer da primeira metade do século.
Nas cortes europeias a afirmação do poder temporal sobre o poder espiritual
marcava uma nova relação entre Estado e a Igreja. O pensamento iluminista foi
profícuo na discussão da liberdade e autonomia do Estado em relação à Igreja, mas
não poderia se confundir com as ideias iluministas defendidas em outras nações
europeias. Antonio Braz Teixeira, ao estudar este contexto, questionou o Iluminismo
português, observando que o movimento se apresentou como uma ação que pretendia:
“restaurar o espírito renascentista contra a segunda escolástica barroca, como
uma luta contra a tradição e autoridade, fundadas, uma e outra num modo de
pensamento de raiz matemática, uma filosofia de base empirista e sensista, num
intelectualismo e num racionalismo abstractos, de que resultava uma antropologia
eminentemente naturalista, que se pretendia liberta do teocentrismo aristotélico-
escolástico e marcada por um pendor utilitarista, quando não mesmo hedonista, por
um acentuado individualismo e por um reformismo entre ingênuo e utópico”.305
Independente das incongruências, as reflexões incidiam sobre como
harmonizar a ciência e a fé, o racional e o experimental, visando a conciliar o
tradicional com a inovação, deixando clara a necessidade de sistematização dos novos
valores e conhecimentos promovidos pelo avanço do pensamento científico. Tarefa
difícil de ser conduzida, tendo em vista as profundas raízes do pensamento
conservador na massa da população. Procurava-se revisar os conhecimentos a fim de
incorporar as novas ideias apresentadas pela Ilustração a uma minoria.306 A ilustração
em Portugal foi eclética e tentou equilibrar na medida do possível o avanço da ciência

135
sobre a fé. As reformas empreendidas por Pombal significavam a abertura para a
penetração das luzes.
O debate sobre a revisão dos conhecimentos passou pelo questionamento da
educação e dos sistemas pedagógicos. Uma sociedade mais justa só seria possível se
houvesse uma mudança de hábitos e costumes, rompendo as barreiras do preconceito.
A emergência de um Estado progressista pressupunha uma educação de base
científica, que respeitasse o bem comum, a qual deveria nortear as Escolas e
Academias, até então influenciadas de maneira intensa pelos jesuítas. A secularização
da educação passou a ser uma bandeira propagada pelo pensamento iluminista que
visava a garantir a formação de um ser humano na sua integralidade.
A obra de Luis António Verney (1713-1792), intitulada “Verdadeiro Método
de Estudar”, apesar de confiscada pela Inquisição portuguesa, entrou no reino lusitano
e acabou por influenciar no direcionamento de algumas ações empreendias por
Sebastião José de Carvalho Melo. Verney nasceu em Lisboa onde viveu até a idade de
vinte e três anos. Como muitos intelectuais portugueses, Verney estudou no Colégio
de Santo Antão, em Lisboa, dando continuidade aos seus estudos na Universidade de
Évora, onde já manifestava sua discordância em relação aos métodos jesuíticos. Em
1736, partiu para Roma a fim de dar continuidade aos estudos de Teologia e
Jurisprudência e, ao retornar a Portugal, trazia na bagagem uma nova visão. Um forte
questionamento sobre as ideias escolásticas dos jesuítas e uma proposta para romper
com práticas pedagógicas ultrapassadas.
Na obra “Verdadeiro Método de Estudar”, Verney criticava o sistema
pedagógico dos inacianos, tanto no que dizia respeito ao seu conteúdo como ao seu
método.307 Questionava o ensino português e defendia a necessidade de reformas. As
críticas de Luis Antonio Verney baseavam-se no ideário iluminista. Porém, sua
proposta não entrava em confronto com a revelação e a graça divina, nem procurava
sobrepor a razão a estas. Atribuía o atraso e a decadência de Portugal ao
enclausuramento em que vivia o país. No seu entender, era necessário abrir espaço
para novas ideias, conforme outras monarquias já o faziam. Enfim, libertar Portugal
do claustro.308
Esta opinião foi compartilhada por outros pensadores. Antonio Nunes Ribeiro
Sanches (1699-1783), cristão-novo, foi outro expoente da ilustração em Portugal, que

136
exerceu influência na política pombalina. Estudou Medicina e Direito na
Universidade de Coimbra, depois de formado seguiu para Salamanca a fim de realizar
o seu doutoramento. Retornou a Portugal, mas foi obrigado a realizar viagem para
outros países e se instalar em Paris, onde conquistou destaque, ao participar da
elaboração da “Enciclopédia”, editada por Jean le Rond d’Alembert (1717-1783) e
Denis Diderot (1713-1784), no ano de 1750. O ponto comum entre ele e Luis Antonio
Verney residia na identificação da necessidade de superar o atraso cultural do reino.309
Sebastião José de Carvalho Melo ao assumir o cargo de Primeiro-Ministro do
governo de D. José I construiria um conjunto de políticas que visava a reformar o
Estado lusitano, considerando parte das ideias destes pensadores. O Primeiro-Ministro
viveu em outras cortes europeias, como vimos, onde teve oportunidade de apreciar as
reformulações em processo e procurou aplicar uma política que rompesse o
isolamento e o atraso português. Esta posição ficaria evidente durante sua atuação
diplomática, iniciada em Londres no ano de 1738, onde permaneceu durante sete anos
e redigiu os seus primeiros escritos de teor econômico.310 Demonstrando possuir uma
ampla visão sobre as relações econômicas entre Portugal e Inglaterra, Sebastião José
de Carvalho Melo chamava a atenção para os problemas decorrentes de acordos
celebrados entre os países, por serem desfavoráveis ao reino lusitano.
Em seguida, foi designando para a Corte de Viena, onde teve oportunidade de
observar as reformas em curso na Áustria. A reforma política e financeira do Estado
mostrava-se imperativa para o fortalecimento da soberania austríaca, acompanhada de
uma nova relação do Estado com a Igreja. A tendência era para o estabelecimento de
um poder civil nacional que controlasse a Igreja, experiência que Sebastião José de
Carvalho Melo não esqueceria, usando-a como referência para as ações a serem
adotadas em Portugal.
Por seu caráter arguto, diplomacia e boa atuação como secretário dos
Negócios Estrangeiros e da Guerra (1750-1756), D. Luis da Cunha indicou seu nome
para a Secretaria dos Negócios do Reino (1756-1777).311 Após o terremoto que abalou
Portugal, Sebastião José de Carvalho e Melo conquistou maiores poderes. Ágil e
lucidamente, iniciou a reconstrução da cidade, entendendo que a catástrofe abria
espaço para que se processasse uma reconstrução do Estado.312 A ocasião reforçou as
dificuldades de caráter econômico enfrentadas por Portugal, decorrentes do fato de o

137
país depender há muitos anos das riquezas procedentes do Brasil. Riquezas que
seguiam para a Inglaterra com uma rapidez avassaladora.
As manufaturas do reino estavam em condições precárias, e o atraso podia ser
observado em todos os setores, pela falta de investimentos na produção. Em 1784, um
viajante francês desconhecido registrou em algumas cartas escritas a um amigo a
situação em que se encontrava o reino:
“Porém sem embargo da aptidão das terras e suas produções dos bons
engenhos, e seus esforços, pouco se tem adiantado em Portugal este ramo de indústria.
Não posso verdadeiramente atinar coma a causa desta abjeção, em que aqui se vêm as
Fábricas. O Marquês de Pombal, no Reinado passado, sentindo o dano, que padecia a
Nação, em fazer passar os seus cabedais a Reinos estranhos, por gêneros, que podia
fabricar nas suas terras, aonde deixasse o preço deles, ou fundou, ou aumentou todas
as Fábricas de Portugal. É incrível o benefício, que nisto recebeu a nação. Rapazes de
baixa extração, que não podiam aspirar a coisas maiores, e que não podendo
acostumar-se a empregos servir, ou muito penosos, se viam condenados a passar a sua
vida em uma perniciosa ociosidade, abjeto seminário, de que saiam os jogadores, os
requerentes de causa, os contrabandistas, e mesmo os ladrões, e homicidas: passaram
ditosamente a ser membros úteis da Sociedade, e a servir às suas comodidades.
Aumentaram-se os matrimônios, e por conseqüência a população. Cresceu a polícia, o
asseio; cresceu a abundância dos gêneros precisos para os cômodos da vida, e o
dinheiro, que sai do Reino para engrossar os Estrangeiros tornou a girar dentro nele, e
a fazê-lo mais opulento. A muitas destas Fábricas se deram isenções e privilégios
exclusivos, um dos grandes meios de as aumentar, e aperfeiçoar”.313
Portugal não poderia ficar na franja da Europa. Necessitava caminhar a passos
largos para uma transformação que abrisse caminho para uma preparação local e que
implicaria uma mutação de todo o império lusitano. Para tanto, era necessário
preparar de homens capazes de realizar as reformas, sendo a instrução um dos
elementos decisivos na transformação.
O seu projeto não se ateve apenas à educação, apesar de esta ser um dos
pontos fundamentais de sua política. As ações políticas no sentido da centralização do
poder e as ações econômicas de essência mercantilista revelam que Sebastião José de
Carvalho e Melo construiu habilmente um aparato institucional e administrativo para

138
garantir a sustentação e o funcionamento do Estado português.314A centralização feita
pelo Primeiro-Ministro foi acompanhada de medidas de caráter mercantilistas que
controlaram e restringiram as atividades comercias para garantir os interesses de
determinados grupos. Era necessário fortalecer as exportações portuguesas a fim de
que a classe mercantil florescesse e conseguisse dinamizar a economia, uma vez que o
terremoto havia gerado grandes problemas.
Os cofres do Erário público estavam dilapidados, os setores que compunham a
sociedade viviam em conflito; além disso, havia o atraso no ensino marcado pelos
métodos tradicionais, conforme registrara Luis Antonio Verney. Neste sentido,
Sebastião Jose Carvalho e Melo entendia que o Estado deveria ser o responsável pela
formação dos jovens, renovando a mentalidade portuguesa, em especial da elite. A
educação até então notoriamente influenciada pela religião passaria pelo processo de
secularização. Havia necessidade de uma aceleração histórica. As reformas
determinadas por Sebastião José de Carvalho Melo foram movidas pela modernização
que se contrapunha à ideia de “atraso e decadência” da sociedade e da cultura
portuguesa; a ideia de um novo espírito “científico” exigia novas maneiras de pensar,
inclusive do próprio poder do Estado. Parte do atraso de Portugal e das colônias,
segundo Sebastião José de Carvalho e Melo, devia-se à forte dominação da Igreja e
em especial dos jesuítas, responsáveis pela consolidação de uma ordem imutável.
O novo momento apresentava uma modernização que rompia o equilíbrio de
um universo governado pelas leis divinas. A expulsão dos jesuítas, a condenação do
Pe. Gabriel Malagrida e a alteração do modelo de educação impuseram uma
transformação abrupta à sociedade lusitana, como aquelas que ocorreram no âmbito
econômico. A assimilação de um modelo educacional, fundada no uso da teoria da
razão, só teria seus resultados alguns anos mais tarde.315
A ruptura impunha uma mudança de princípio, um novo conhecimento, em
especial aquele que fosse útil à sociedade, devendo partir da própria monarquia. A
educação dos herdeiros da coroa deveria compreender uma formação intelectual mais
sólida que respaldasse a arte de governar, desde que seguisse as diretrizes definidas
pelo Primeiro-Ministro; caso contrário, estava fadado à perseguição.
A reformulação da educação feita por Sebastião José de Carvalho Melo
propunha situar o ensino sob o controle do Estado, uma vez que os colégios jesuíticos

139
tinham um domínio acentuado na formação dos jovens das classes dominantes do
reino. Nessa reformulação, a língua portuguesa era imposta como língua oficial e
exclusiva. Uma política pública de ensino poria fim aos desvios, unindo todos sob o
controle do Estado e de uma só língua e, neste sentido, a proposta de reforma da
educação não era meramente pedagógica, mas principalmente política. O ensino tinha
um propósito essencialmente utilitário, como observou Kenneth Maxwell: “criar um
corpo de funcionários educados segundo as ideias iluministas, dispostos a reformar a
burocracia do Estado e a hierarquia da Igreja”.316 Desta maneira, seria possível a
criação de um grupo de funcionários, burocratas e clérigos capazes de defender as
ideias sugeridas pela reforma.
A proposta de Sebastião José de Carvalho Melo para reerguer Portugal, diante
das potências europeias, incluía uma série de transformações no âmbito da educação,
que seria o grande agente transformador. O Primeiro-Ministro entendia que os jesuítas
estavam preocupados apenas com a formação de religiosos para a própria Companhia
de Jesus, enquanto ele propunha organizar a Educação segundo os interesses do
Estado, que deveria chamar para si esta responsabilidade. A ideia de uma educação
útil para sociedade era fundamental para a consolidação do próprio Estado.
Se pensarmos a educação como o um dos elementos capazes de evidenciar o
modo como a sociedade se organiza e/ou se desorganiza, notaremos que a monarquia
portuguesa passava por um processo de transformação e reorganização da sociedade.
Sebastião José de Carvalho e Melo era o empreendedor desta reorganização e dos
novos valores consolidáveis a longo prazo.
Pelo alvará de 28 de junho de 1759, foi suprimida a escola jesuítica de
Portugal e de todas as colônias. Para substituí-los, criou as Aulas Régias de Latim,
Grego e Retórica. Conforme a proposta, cada aula régia era autônoma e isolada, com
um professor único. Este seria indicado pelo bispo ou teria a sua aquiescência, já que
um dos objetivos da educação era a divulgação da doutrina cristã. Os professores
detinham o cargo de forma vitalícia, tendo como meta a difusão da língua portuguesa
entre os indígenas das terras coloniais. Os manuais escolares deveriam ser
modernizados a fim de atender as novas exigências.
Em 1761, Pombal fundou em Lisboa o Colégio dos Nobres.317 Seu intento era
criar um ensino progressista e científico para atender as novas necessidades do Estado

140
e dos avanços técnicos em marcha, conforme havia proposto Ribeiro Sanches nas suas
“Cartas sobre a educação da mocidade”. 318 Os filhos dos nobres, na faixa etária entre
sete e treze anos, recebiam no colégio uma formação diversificada que incluía:
retórica, poética, grego, latim, história, inglês, francês, lógica, geografia náutica e
arquitetura militar, superando a educação doméstica preponderante entre a elite.319 Era
evidente que a proposta visava à formação moral e intelectual de cidadãos que
pudessem atuar em proveito da pátria nas diversas partes do império. Neste sentido,
para uma forma de gestão administrativa, era conveniente privilegiar a elite
dominante em detrimento dos demais habitantes do império. A formação dos jovens
cidadãos visava ao desenvolvimento econômico e à formação de homens para
atuarem na vida pública. Esta opinião era uma das ramificações da política implantada
por Sebastião José de Carvalho Melo no que dizia respeito à delimitação das
categorias nobiliárquicas. Naquele momento, a nobreza lusitana dominava a maior
parte dos cargos importantes do Estado, de maneira hereditária, fossem de
emolumentos ou de distinção, tais como: presidências de tribunais, comissões
diplomáticas, governos das colônias, postos de comando do exército. Contudo, as
competências e habilidades nem sempre eram condizentes com o exercício da função.
Em 1771, o Primeiro-Ministro empreende a segunda etapa da reformulação do
ensino português, criando a Junta de Providência Literária tendo como uma das suas
atribuições elaborar novos estatutos para a Universidade de Coimbra. A 28 de outubro
do ano seguinte, os novos estatutos aprovados revelavam o objetivo de adequar os
quadros universitários aos avanços do pensamento e da técnica, afastando da
formação o ensino com base escolástica, numa tentativa de aproximar-se da ideologia
iluminista, na medida em que se enfatizavam as disciplinas científicas. Aos jesuítas
coube a responsabilidade pelo atraso e pelas dificuldades da Universidade de Coimbra
e pelo sistema de ensino em vigor. Desta forma, a instituição passou a receber jovens
que obtinham uma formação virtuosa, muitos deles vindos da colônia brasileira.
Deve-se ressaltar que, além da necessidade de um quadro de administradores eficazes
nas colônias, era fundamental o desenvolvimento de setores econômicos que até então
permaneciam inexplorados. Como observa Guilherme Braga da Cruz estas reformas
de inspiração iluminista fizeram que o Estado assumisse o seu verdadeiro papel.320

141
O “subsídio literário”, criado em 1772, foi instituído a fim de garantir a
manutenção do ensino primário e médio. Este subsídio, sob responsabilidade das
câmaras, era obtido por meio de impostos que incidiam sobre a carne verde, o vinho,
o vinagre e a aguardente. O valor reduzido do montante e a inconstância com que os
professores eram remunerados pelos seus serviços contribuíram para agravar a
situação que se intensificava, pois os professores eram mal preparados para o
exercício da função, principalmente na colônia brasileira.
No âmbito do ensino jurídico, as transformações foram marcantes, revelando o
embate e a relação do Estado com a Igreja. O predomínio da concepção do Direito
Romano e Canônico passou a ser alvo de questionamento na medida em que não
atendia as novas questões, como o papel do Estado e a questão da nacionalidade.
Neste sentido, podemos perceber que Pombal é guiado pelo movimento ideológico de
uma cultura iluminista, tendo a obra de Luís António Verney como referência. É
conveniente ressaltar que a ideia norteadora do processo de reforma era que a
educação poderia estar a serviço da recuperação econômica. Neste sentido, deve ser
compreendido o projeto de ênfase nas ciências naturais, especialmente mineralogia e
botânica, que tinha como meta criar novas formas de exploração dos recursos naturais
nas terras coloniais.

3.2 Portugal e o estímulo à História Natural

Portugal, aos olhos da Europa, era um país obscuro, estagnado em muitos


segmentos, incapaz de atrair um olhar demorado das demais nações. E a fatalidade do
dia primeiro de novembro de 1755 lançava-o no cenário da comoção mundial.
Contudo, o ímpeto progressista de Sebastião José de Carvalho Melo resultou o avanço
e a reconstrução. Ao designar membros da burguesia para funções públicas e
burocráticas, ele priorizou a atividade comercial, tentando romper com as estruturas
arcaicas.

142
A expulsão dos jesuítas e o atropelo das ações da monarquia portuguesa
evidenciaram a falta de organização e a debilidade do projeto de uma política pública
de ensino, revelando também uma grande firmeza e ousadia no plano concebido por
Sebastião José de Carvalho Melo, apesar da dificuldade que enfrentou.
A estratégia reformuladora não agradava a todos os setores da sociedade, mas
somente àqueles que se achavam mais próximos do Primeiro-Ministro. Como bem
observou Kenneth Maxwell, ao analisar a atuação de Sebastião José de Carvalho e
Melo, o momento era o da consolidação de uma burguesia comercial, apoiada por ele,
gerando:
“reações dentro de Portugal precisamente porque interceptava outros conflitos
no seio da sociedade portuguesa: entre a velha nobreza e homens de negócios novos-
ricos; entre os modernizadores do sistema educacional e os defensores da tradição; e
entre pequenos e grandes empresários. Pombal tratou a oposição implacavelmente.
Suas reformas e seu despotismo eram, portanto, inseparáveis”.321
Para solidificar o seu projeto de reforma, a única via era o despotismo, em face
das rebeldias e desvios presentes na sociedade portuguesa e colonial. O objetivo de
Sebastião José de Carvalho e Melo era criar uma instrução popular para a colônia
brasílica, que não vingou, pois a escassez de professores e a fragilidade interna da
colônia favoreceram a fragmentação do sistema educacional. A proposta educacional
da monarquia não contava com os quesitos necessários para preencher o hiato deixado
pelo modelo jesuíta. Com a ascensão de D. Maria I (1734-1816) e o afastamento de
Sebastião José de Carvalho e Melo da sua função, os projetos foram atalhados e
ruíram. Contudo, nem a falta de condições para a manutenção dos professores ou os
custos elevados para a manutenção das escolas, bem como outros problemas já
salientados anteriormente nesta reflexão, anularam completamente as suas ações.
Como ressaltamos, o projeto para a educação era um dos planos desenvolvidos para a
colônia que se compunha com outros. No que tange à defesa do território da América
Portuguesa, ao estímulo à imigração, à concessão de liberdade aos índios e à difusão
da língua portuguesa, os resultados foram significativos e abalaram as estruturas
coloniais.
Sebastião Jose de Carvalho e Melo teve como meta corrigir as defasagens das
ações e opções dos monarcas anteriores. Este processo de transformação não foi

143
implementado na sua totalidade em face de uma conjuntura de crise econômica que
envolvia o reino. Contudo, o Primeiro-Ministro soube responder às necessidades do
reino e de uma política que estimulava a produção e a capacidade produtiva das terras
brasileiras. Projetos e ideias que já haviam sido cogitados, mas não foram postos em
prática. Acreditou que eles poderiam ser de fundamentais para reabilitar o reino e
diminuir o grau de dependência que Portugal mantinha em relação a outras nações.
O impacto histórico de suas determinações pode ser considerado como um
verdadeiro terremoto que abalou o sonolento Estado português. Os estudiosos, cada
um a seu modo, tentaram reduzir ou aumentar a atuação da mão-de-ferro de Sebastião
José de Carvalho Melo, simplificando ou ressaltando as suas atitudes mais enérgicas
como elementos negativos da sua atuação como Primeiro-Ministro. O fato é que esta
gerou controvérsias na medida em que rompia com os objetivos de alguns segmentos
da elite metropolitana e colonial. Para esta a intensa atuação do Primeiro-Ministro foi
dramática, similar ao espetáculo de horror causado pela condenação e execução dos
Távoras, em 1759.
Modernizar a sociedade portuguesa era um grande empreendimento, radical na
sua essência, cujo processo foi conduzido por um forte agente. Os empecilhos não
eram poucos, mas a qualidade de Sebastião de Carvalho Melo emergiam de seu
virtuosismo e vanguardismo, apesar dos excessos que envolviam a imagem mítica do
político. O fato é que ele, como Primeiro-Ministro, foi um dos homens responsáveis
pelas transformações, como observou José Eduardo Franco:
“Sendo certo que a Sebastião José se deveu o protagonismo determinante da
consecução da política Josefina, quer nos seus êxitos, quer nos fracassos, e dos
projectos reformistas implementados então no reino, não é menos verdade que a
condução desta política foi feita com total proteção e confirmação do Rei que, além
do mais, lhe delegou poderes extraordinários para agir, poderes nunca até então
cedidos a um ministro na história política da monarquia portuguesa”.322
Suas deliberações envolvidas por uma aura iluminista, de fato, não
conseguiram ser transformadoras no grau e na intensidade desejáveis. O terremoto de
José Sebastião de Carvalho Melo fez ruir as estruturas antigas, dando ensejo ao
surgimento de um novo modelo. Aos poucos Portugal se reergueu, alçando vôo para
uma nova fase.

144
A educação tinha um poder transformador, conforme afirmavam os
pensadores iluministas e acreditava José Sebastião de Carvalho e Melo. Nesse
sentido, era de suma importância a renovação das práticas de ensino a fim de se
adequarem às necessidades das novas gerações. Portugal tinha pressa em atingir a
modernidade, na medida em que verificava os avanços empreendidos por outras
nações.
A Filosofia Natural, por sua vez, precisava passar por um processo de
atualização do método científico para a compreensão dos fenômenos naturais.
Evidenciava-se uma dissonância entre o ensino nas escolas francesas e inglesas,
daquele ensino praticado em Portugal. A Congregação dos Oratorianos despontava no
meio intelectual português como um das instituições propulsoras do estudo da
Filosofia Natural e da Física Moderna, defendendo a necessidade do experimento
científico e de um criterioso método de apreensão dos fenômenos da natureza.323
A Congregação do Oratório de São Felipe de Nery chegou a Portugal em
1668. Os oratorianos praticavam uma autodisciplina rígida e um comprometimento
com a verdade, que deveria ser seguido por todos os seus membros. Dentre suas
práticas, destacavam-se a assistência religiosa aos mesmos favorecidos e também uma
forte preocupação com a educação. Os oratorianos possuíam uma liberdade relativa na
sua orientação pedagógica o que lhes permitia visitarem as novas discussões
metodológicas e filosóficas. Vigorava dentro da ordem uma liberdade maior no
âmbito das ideias, bem como uma maior interação com segmendos mais progressistas
do mundo europeu.324
A hegemonia dos jesuítas, na Universidade de Coimbra, impedia que
movimentos de ruptura se processassem com maior intensidade. Apesar dos
oratorianos terem uma difusão significativa no decorrer do século XVIII, estes não
conseguiram romper as barreiras impostas pelo modelo educacional jesuítico. Quadro
que seria alterado somente a expulsão da Companhia de Jesus das terras portuguesas.
Neste momento, os oratorianos participaram ativamente de grupos de debate
literário e científico, procurando estimular e revigorar com novas ideias as mentes
mais aguçadas. As diferenças, em termos de referencial teórico em relação aos
jesuítas, permitiram que um amplo debate de ideias acontecesse, contribuindo para
romper algumas teses ultrapassadas. A introdução do ensino de filosofia moderna nas

145
escolas da Congregação do Oratório originou um novo universo de pensamento. Os
religiosos contavam com o apoio do monarca D. João V que, por meio de verba anual,
incentivava a atuação dos oratorianos na área da educação. Observa-se claramente que
parte da elite intelectual portuguesa passou a participar dos círculos mais esclarecidos
estimulados pelas ideias de ilustração numa Europa, onde fervilhavam novas
propostas.
Os jesuítas também haviam demonstrado interesse pelo assunto e
desenvolviam estudos nesse sentido, como abordamos anteriormente, revelando uma
postura mais conservadora quanto a algumas questões de matéria filosófica. Apesar de
esforços neste sentido, pouco se modificou na estrutura do Colégio das Artes de
Coimbra. Preponderava uma visão mais reticente em relação aos avanços do
pensamento filosófico que estava sendo engendrado na Europa.
Portugal estava numa encruzilhada entre uma cultura europeia que era
impactada por novos ventos do pensamento científicos e filosóficos e uma tendência
conservadora presente nas instituições portuguesas de ensino. O momento era de
antagonismos no processo de transição. No decorrer da segunda metade do século
XVIII, rupturas estruturais apontavam uma nova fase.325
A leitura e a utilização de novos textos, como os de Isaac Newton, foram
cerceadas em terras lusitanas. O esperado avanço científico estagnou perante a
dificuldade de penetração em um meio intelectual refratário aos estudos da ciência.
Contudo, as dificuldades não impediu que muitos procurassem apresentar as novas
abordagens do período, como o jesuíta Padre Inácio Monteiro (1724-1812) que, em
1754, publicou o primeiro volume do “Compêndio dos Elementos de Matemática
Necessários para o Estudo das Ciências Naturais, e Belas Letras, para uso dos
estudantes portugueses e para servir de introdução ao estudo das Matemáticas aos
curiosos destas ciências”.326 O jesuíta Inácio de Monteiro defendia a necessidade de
desenvolver a aprendizagem a partir da composição da experiência, da observação e
da prática, apresentado a proposta de um aproximação das ideias em voga na França e
na Inglaterra. Referia a importância de aprofundar os conhecimentos sobre física
experimental, dedicando-se também ao estudo de mecânica e hidráulica. O religioso,
como poucos jesuítas do seu tempo, demonstrou o seu lado contestatório, estando

146
ciente de que adaptações eram necessárias, frente ao racionalismo proposto pelo
espírito das luzes.327
Sebastião José de Carvalho Melo foi o responsável por empreender o que era
considerado necessário. A renovação dos estudos era ansiada e lentamente vinha
sendo inserida pela influência direta das ciências. A expulsão dos jesuítas acelerou o
processo, permitindo que a reformulação dos estudos se fizesse de forma mais ampla.
A circulação de jovens portugueses por outras capitais europeias a fim de
realizarem seus estudos e empreenderem viagens culturais, que conquistavam ampla
difusão, contribuiu para evidenciar o descompasso da corte portuguesa em relação às
demais cortes europeias. Era necessário modernizar Portugal.
A vivência em cortes europeias deu a Sebastião José de Carvalho e Melo
oportunidade de contato com um conjunto de debates sobre matérias científicas. Em
1733 foi eleito membro da Academia Real da História, sendo admitido posteriormente
como membro da Royal Society. Sua estada como diplomata na corte de Viena o
aproximou de círculos progressistas, que exerciam grande influência na sociedade. O
Primeiro-Ministro sabia que os avanços experimentados por algumas nações
europeias eram provenientes do estímulo a uma educação mais próxima dos interesses
do Estado, que incluía o conhecimento científico na sua estrutura.
Numa decisão estratégica, Portugal abriu as portas para a ciência, colocando-a
a serviço dos interesses do Estado. A nova formação acadêmica, concebida por
Sebastião José de Carvalho Mello, visava a criar uma nova elite que fosse capaz de
identificar as potencialidades do império ultramarino português e explorá-las de forma
adequada, conforme os avanços e recursos que o saber científico possibilitava. A
ciência era útil, pois transformava o conhecimento em novas práticas que redundavam
em favor da lógica administrativa do Estado, extremamente convenientes para uma
nação que se recompunha de um terremoto e de uma situação econômica instável.328
A expulsão dos jesuítas deu ensejo a que fosse empreendido um conjunto de
reformas. A reformulação do sistema educacional evidencia apenas um aspecto das
mudanças que o Estado realizou no âmbito administrativo, político, econômico e
social. A reforma da educação fez parte de um projeto tendo como objetivo a
secularização do Estado e da sociedade, conforme os ventos iluministas.

147
Se por um lado havia grandes idealizações, por outro havia dificuldades na
efetivação de projetos. O Colégio dos Nobres, antes de significar uma alteração
profunda do sistema, foi um meio para controlar o comportamento abusivo da nobreza
e pode-se entender que foi, como observou Verney, uma forma de corrigir costumes
impróprios da fidalguia e guiá-los para o estudos da Filosofia e das Ciências. Enfim, o
que se pretendia era dar uma nova orientação pedagógica.
Entre a concepção do Colégio dos Nobres e a sua fundação efetiva levou
quatro anos. Apesar de o planejamento detalhado prever o abrigo de cem estudantes, o
que ficou evidente foi a pouca atuação do colégio durante o período de sete anos em
que funcionou. Neste período, a instituição teria atendido pouco mais que 40 alunos.
A falta de êxito do Colégio dos Nobres pode ser um sinal importante para
identificar a conjuntura do período. Havia um desinteresse das famílias nobres em
enviarem seus filhos para esta instituição. Aliado a este fator pode ser registrada a
falta de organização e administração dos cursos, criando uma imagem desfavorável ao
ensino científico. Em 1772, Sebastião José de Carvalho e Mello aboliu o ensino
científico do Colégio dos Nobres, promovendo uma reforma mais profunda que foi
definida pelo novo estatuto da Universidade de Coimbra.
O novo estatuto foi uma das etapas mais importante das transformações do
sistema pedagógico empreendidas pelo Primeiro-Ministro e que pode ser
caracterizada como o apogeu da ilustração no ensino, fundado em princípios da lei e
da razão. Pelas novas diretrizes da universidade, os estudantes de Filosofia Natural
deveriam ter feito previamente um Curso de Humanidades. No que tange ao Curso de
Filosofia Natural, a matéria de História Natural deveria abranger discussões sobre
Zoologia, Botânica, Mineralogia e o conhecimento sobre a obra de Plínio, o Velho,
que ocorria no segundo ano letivo. Estas disciplinas deveriam ser cursadas juntamente
com Geometria, que era ministrada na Faculdade de Matemática. O aluno deveria se
submeter aos exames, e somente se aprovado seguiria para o ano subsequente, pois
dela dependia o estudo da Física Experimental.329
O estatuto determinava que a Filosofia fosse dividida em três grandes partes: a
Racional, a Moral e a Natural, as quais seriam contempladas no curso da
Universidade. A Filosofia Racional era compreendida como a Lógica, elemento
essencial para as operações de entendimento. Este ramo estudaria ainda: a Ontologia,

148
que preparava para os primeiros princípios das ciências; a Pneumatologia, que
compreendia a ciência dos espíritos, e se dividia em Teologia Natural, e Psicologia; e
a partir delas a Metafísica, que tratava dos primeiros Princípios, e da Natureza
Espiritual. A Filosofia Moral inerente à Ética e à Filosofia Natural abrangia todos os
ramos da ciência que tivesse por objeto “a contemplação da Natureza, exceptuando
somente o que pertence em particular aos Cursos Medico, e Mathematico; o primeiro
dos quaes se limita á Fysica do Corpo humano; e o segundo á Filosofia da
Quantidade, enquanto susceptivel de numero e de medida”.330 Desta forma, o
documento precisava a área de conhecimento que abrangia a Filosofia Natural.
O Estatuto, tendo como referência os debates e as práticas de outras
instituições europeias, entendia que:
“não havendo outros meios de chegar ao conhecimento da Natureza senão a
Observação, e a Experiência; começará o “Curso de Fysica pela História Natural”, em
que se ensinam as verdades de facto pertencentes aos tres Reinos da Natureza, havidas
pela Observação o Sendo porém a Observação limitada aos factos, os Fenomenos, que
a mesma Natureza offerece aos olhos dos homens no Curso ordinario das suas
Operações; depois das verdades conhecidas pela Observação, será necessário passar
ás que somente se podem haver por meio da Experiência; a qual obriga a mesma
Natureza a declarar as verdades mais escondidas, que por si mesma não quer
manifestar, senão sendo perguntada com muita destreza, e artifício”.331
O documento tratava com destaque a parte experimental da Filosofia Natural,
que deveria ter concebida a partir da Filosofia Experimental e da Filosofia Química. A
Filosofia Experimental serviria para indagar as leis e as propriedades gerais dos
corpos considerando-os como “móveis, graves, resistentes, &c. e descubrir a razão
dos factos conhecidos tanto pela Observação, como pela Experiência”. A Filosofia
Química deveria questionar as propriedades particulares dos corpos, analisando os
princípios e os elementos de que eram compostos. A meta era descobrir os efeitos e as
propriedades de cada um e os resultados da mistura deles.332
O estatuto não se restringia às diretrizes principais do novo projeto. Ele era
minucioso no detalhamento das disciplinas e dos conteúdos que cada uma delas. O
documento revelava um projeto pedagógico preocupado com a maneira como as
matérias seriam ministradas, mas também atento a como elas se inter-relacionavam. O

149
papel do professor era importante em todo o processo, lembrando que estes deveriam
funcionar como estímulo para o aluno. O docente deveria apresentar os conceitos e os
fatos, somente depois fazer um trabalho sobre especulação do entendimento humano,
de forma que o conteúdo ficasse devidamente esclarecido para o aprendiz. Este por
sua vez, não deveria assistir às aulas de forma passiva, principalmente quando se
tratava de aulas nos laboratórios. Era importante que participasse, fazendo
experiências, e pela prática construísse hábitos e sagacidade, deixando de ser mero
expectador da natureza.333
Como podemos observar, o curso foi concebido de forma que o aluno fosse
agregando conhecimento em cada uma das etapas, o que era fundamental para a boa
consecução da fase seguinte. Apesar de Sebastião José de Carvalho Melo apresentar o
projeto da Universidade como um avanço para a compreensão dos acontecimentos
científicos, houve uma série de questionamento ao teor das reformas, principalmente,
pela definição do fechamento da Universidade de Évora; como em outras de suas
ações, o despotismo do ministro não admitiu ideias contrárias às suas, e seus
opositores foram perseguidos.
Deve-se levar em consideração, também, que a reformulação do ensino
atendia aos planos de um Estado com necessidade de explorar adequadamente as suas
colônias. Isto pode ser constatado na medida em que o reino português foi responsável
pela organização do ensino, ficando a seu critério a montagem dos cursos e a
definição dos currículos. Além disso, a nova estrutura educacional visava à formação
de profissionais que pudessem atuar de forma decisiva na administração pública. O
estudo de História Natural abrangia um universo amplo, conforme os estatutos da
Universidade de Coimbra. Contudo, os alunos se detinham mais na compreensão do
reino animal, vegetal e mineral, seguindo os modelos de classificação vigentes.
Segundo o estatuto, o estudo da natureza deveria ser iniciado pela Zoologia e o
instrutor analisaria os animais em função da sua utilidade para o homem na
agricultura e no comércio. No segundo momento de estudo, o alvo era a Botânica, que
se ateria a garantir conhecimento sobre o uso e préstimos de diferentes espécies, não
ficando atenta somente à nomenclatura das mesmas. O estudo da Mineralogia era a
terceira etapa, devendo se atentar para a utilidade que renderia aos homens e não para
o sistema de classificação.334

150
O estatuto salientava a importância de orientar os discípulos à observação
aliada à prática, ao conhecimento da matemática e, no momento adequado, que
fossem acrescentados os estudos da Física Experimental e posteriormente o de
química. Nota-se que a ênfase na prática era uma constante, apesar de nem sempre
existirem condições propícias para a realização de experiências.
O mesmo documento revelava a importância deste conjunto de conhecimentos
para os interesses da coroa portuguesa. As medições de lugares e terrenos, as táticas
de campanha e da marinha, as construções da arquitetura naval, civil e militar, bem
como as fábricas seriam beneficiadas por este saber. O conhecimento das terras
coloniais atendia ao desejo de estabelecer uma territorialidade da posse, reconhecendo
e demarcando os limites das possessões pertencentes a Portugal.
Conforme o estatuto, o conhecimento da natureza implicava deter habilidades
para a cartografia e o desenho topográfico, bem como para o desenho de animais,
plantas e minerais. Aqueles que desejassem realizar um curso superior, na
Universidade de Coimbra, tinham que ter idade mínima de dezoito anos e saberem ler
e escrever em latim, assim como ter conhecimentos suficientes de grego. O domínio
do inglês e do francês eram também importantes. Para o curso de Medicina, havia um
período preparatório e o estudante deveria possuir sólidos conhecimentos de História
Natural, Lógica, Moral, Química, Física Experimental, Matemática, dentre outras
disciplinas. Em seguida, havia um período de estudos mais aprofundados em diversas
áreas durante cinco anos. O estudo da natureza era fundamental na formação do futuro
médico, na medida em que teria que conhecer as propriedades das espécies da flora e
da fauna para os tratamentos medicinais.
Nos laboratórios de estudo da natureza havia painéis com diversas espécies de
folhas, sementes, cascas, raízes, animais que poderiam ser utilizados também pelos
médicos. Além da identificação das espécies, os estudantes deveriam aviar a receita e
preparar os medicamentos. Este conjunto de conhecimentos era ampliado pelas visitas
ao jardim botânico, onde era possível identificar as espécies no mundo natural. Além
deste estudo, eram importantes as pesquisas no âmbito da Anatomia, cujo objetivo era
conhecer a estrutura do corpo humano e também dos animais. Além do uso de
cadáveres humanos, após a reforma feita por Sebastião José de Carvalho e Melo, era
comum o estudo e a dissecação das aves, a fim de se fazerem estudos comparativos

151
que pudessem auxiliar na formação acadêmica. Estes elementos são importantes por
evidenciar que o estudo da natureza, antes de conquistar uma relativa autonomia e
definição no âmbito da História Natural, estava diretamente ligado aos estudos de
Medicina.
A reformulação da Universidade de Coimbra não atingiu os cursos da mesma
forma. Os Cursos das Ciências Naturais, que reuniam os cursos de Medicina,
Filosofia e Matemática (que abarcavam a História Natural, a Química e a Física
Experimental) foram os mais afetados.
Para a Universidade de Coimbra foram convidados professores italianos
visando ao ensino dos filhos da aristocracia lusitana. Para os laboratórios do Colégio
dos Nobres foram convidados professores italianos que tiveram a incumbência de
organizar os espaços onde se realizariam os experimentos. João Antonio Dalla Bella
(1730-1823)335 teve a seu encargo a montagem do laboratório de Física e Domingos
Vandelli (1730-1815) ficou responsável pelo Gabinete de História Natural. Na
montagem deste último, a ideia de Vandelli era reunir espécies provenientes do
Jardim Botânico da Ajuda reunindo-as com seu acervo particular que mandara vir de
Pádua. Seu objetivo era o de compor um amplo mostruário do teatro da natureza,
acrescentando “as coisas do Reino do Brasil e conquistas”.336
O Jardim Botânico da Ajuda atenderia, a priori, aos desejos de instrução da
família real. Enquanto jardim de aclimatação, conseguiu congregar no espaço os
interesses de conhecimento botânico com o estudo de novas propostas de exploração
de plantas pela agricultura e medicina. Neste jardim se formou a Casa do Risco, local
em que os desenhistas deveriam registrar suas impressões sobre a natureza, sendo
também um espaço destinado às experiências, com laboratório químico, e analises de
plantas. O Museu de História Natural, criado em 1783, foi o amadurecimento da
experiência do projeto iniciado no Jardim da Ajuda.
Na seqüência, Domingos Vandelli foi escolhido lente de Química e História
Natural da Universidade de Coimbra. Com as reformas pombalinas, passou a ser um
grande impulsionador da Academia Real das Ciências de Lisboa (1779) e de estudos
sobre a natureza.
A reforma da Universidade havia confirmado a importância do estudo da
natureza e da utilização do método experimental no processo de aprendizado. Além

152
de Domingos Vandelli, outras sumidades acadêmicas foram chamadas para lecionar
em Coimbra. O matemático Miguel Antonio Ciera (? -1779), que participara das
expedições de delimitação de Limites entre Espanha e Portugal, foi instado a lecionar
Astronomia. Giovanni Antonio Dalla Bella foi convidado para ministrar aulas de
Física Experimental. Com a reforma da Universidade de Coimbra, o ambiente estava
mais bem preparado para o estudo da natureza. As pesquisas sobre aclimatação de
espécimes vegetais, o reconhecimento de espécies da fauna e novos métodos de
cultivos eram o alvo constante destes estudiosos.
Atuando na Universidade de Coimbra, Domingos Vandelli assumiu a missão
de escrever uma história natural das colônias portuguesas, além de ser se um dos
incentivadores para a criação da Academia Real de Ciências de Lisboa. O projeto de
história natural, das colônias portuguesas, era uma proposta ousada e ampla, tendo em
vista que o conhecimento das terras coloniais poderia trazer novos subsídios ao
desenvolvimento da ciência e do Estado português.
O gabinete de História Natural era um dos elementos mais importantes desse
processo e também contribuía para a formação dos jovens naturalistas, onde amostras
de espécies do reino animal, mineral e vegetal estavam disponíveis para estudos.
Além do gabinete, havia o Jardim Botânico que reunia uma série de espécies
cultivadas que também eram utilizadas nas pesquisas e experiências.
Os jardins botânicos das universidades europeias eram de porte modesto,
servindo especificamente para a pesquisa, onde era possível encontrar espécies
próprias para uso medicinal. Em 1768, foi criado o Jardim Botânico da Ajuda, junto
ao palácio real. Um dos objetivos da instituição era fornecer aos membros da família
real uma educação iluminista de base científica. Além disso, visa a realizar pesquisas
e experiências que ampliassem o conhecimento sobre a natureza de forma que esta
pudesse ser mais bem explorada.337
A criação do Jardim da Ajuda auxiliou a realizar uma série de experiências
sobre as plantas e seus benefícios. Neste sentido, o conhecimento sobre as espécies
naturais das terras coloniais era de suma importância para o império português, tanto
no âmbito do desenvolvimento científico, como do econômico. As viagens que
ocorreram nesta segunda metade do século XVIII tinham como objetivo contribuir
para a ampliação do conhecimento sobre as potencialidades das terras coloniais, sendo

153
parte de um grande projeto. A postura de Sebastião José de Carvalho Melo, no que
tange à reforma da Universidade de Coimbra, foi inovadora e ao mesmo tempo
cautelosa. O momento exigia que o Estado português empreendesse modificações
fundamentais para o processo de reestruturação do aparelho administrativo. Contudo,
as condições financeiras inspiravam cuidados e deveriam ser consideradas por ocasião
dos investimentos na montagem do Jardim Botânico da Universidade de Coimbra.
Sebastião Jose de Carvalho Melo, em carta ao reitor D. Francisco de Lemos, de 5 de
outubro de 1774, aconselhava que este controlasse os gastos, não se iludindo com
aquilo Domingos Vandelli solicitava. A intenção do ministro era criar um gabinete
simples sem onerar os cofres lusitanos. Seu temor era procedente, uma vez que
Vandelli por ocasião da montagem do Jardim Botânico da Ajuda havia realizado uma
“despesa exorbitante e inútil de cem mil cruzados”.338
A previsão de criar um Jardim Botânico em Coimbra tinha como intuito reunir
espécies de diferentes partes dos domínios ultramarinos portugueses. O projeto inicial
de Vandelli foi revisto, pois a ideia era constituir um jardim com menos investimento.
Com a Reforma Pombalina, a Universidade de Coimbra também foi obrigada a
instalar um Jardim Botânico, para que nele fossem cultivadas diferentes espécies de
plantas úteis à medicina, reunindo ali exemplares de diferentes partes do império, para
serem utilizados nas aulas e nas observações dos estudantes.
O Jardim Botânico da Universidade de Coimbra foi entregue aos cuidados de
Júlio Matiazzi, que assumiria papel importante no Governo de D. Maria I. Júlio
Matiazzi era discípulo de Vandelli e foi responsável, durante o governo da rainha D.
Maria I, pela instrução dos naturalistas brasileiros na realização de suas coletas. O
papel de Júlio Matiazzi, além de orientar, era receber informações e redistribuí-las aos
demais pesquisadores. Desta maneira, os naturalistas acompanhavam regularmente
andamento dos trabalhos de seus companheiros em outras partes do império.339
Domingos Vandelli, além atuar como docente na Universidade Coimbra, foi
um membro atuante da Academia de Ciências de Lisboa, sendo responsável por várias
memórias e registros de grande valor para o estudo da História Natural. O contexto
político na década de 1770 implicava um universo de desconfianças e perseguições,
presente na Universidade de Coimbra, impedindo que alguns projetos se efetivassem,

154
como o da formação de uma Academia de Ciências, naquela cidade. Um grupo de
intelectuais se articulou para formar uma instituição isenta das intrigas políticas.
D. Luis Antonio Furtado de Castro Mendonça e Faro, 6o Visconde de
Barbacena (1754-1830) foi um dos membros que trabalhou para a formação da
Academia Real de Ciências em Lisboa, tendo sido um dos primeiros a conseguir o
título de doutor na Faculdade de Filosofia. D. João Carlos de Bragança e Ligne de
Sousa Tavares Mascarenhas da Silva, 2o Duque de Lafões (1719-1806) foi outro dos
responsáveis pela formação da instituição. Este era filho de d. Miguel de Bragança
(irmão de D. João V) e de d. Luísa Casimira de Nassau e Sousa. Estudou
humanidades e filosofia, frequentando em seguida a Universidade de Coimbra e
realizou viagens pela Europa e Oriente Médio. Pertencia à alta nobreza de Portugal,
exercendo influência política no século XVIII e ocupou o cargo de marechal e general
do exército.340 Como ex-aluno da Universidade de Coimbra, realizou trabalhos com o
intuito de instituir a Academia, sendo ele o responsável pelo pedido oficial feito à
rainha d. Maria I, neste sentido.
Desde a primeira metade do século XVIII havia um grupo de pessoas que
estimulava o debate sobre as ciências e que formaram gabinetes de curiosidades,
como: d. João de Almeida Portugal, 2º conde de Assumar (1663-1733), que governou
as Minas Gerais e prestou serviços como embaixador em Barcelona, ingressando na
Academia Real de História em 1721 e a Duquesa do Cadaval, d. Margarida Armanda
de Lorena-Armagnac (1675-1730), casada com d. Nuno Álvares Pereira de Melo, 1º
duque de Cadaval (1648-1725), que era filha do Conde de Armagnac e de Harcourt, d.
Luís de Lorena, estribeiro-mor de Luís XV. Conforme registros estes foram os
responsáveis pela montagem de gabinetes de raridades. Conforme está consignado,
outros nobres portugueses também tiveram como ocupação a formação de gabinete de
curiosidades como d. Francisco Xavier de Menezes, 4º conde de Ericeira (1673-
1643),341 cuja paixão pela História Natural era reconhecida por muitos, pois havia
constituído uma biblioteca contando com mais de quinze mil volumes.
O desejo de criar a Academia de Ciências de Lisboa advinha do interesse em
reunir os pensadores mais expressivos da comunidade portuguesa, sem interferências,
visando unicamente ao progresso do pensamento científico. A Universidade de

155
Coimbra, apesar de reunir um grupo de acadêmicos, estava envolta em uma série de
disputas internas e interesses pessoais que acabavam por gerar a inércia da instituição.
Em 24 de dezembro de 1779 foi fundada a Academia Real de Ciências de
Lisboa, formada pelo esforço de um grupo de intelectuais que defendia a ideia de que
o pensamento científico deveria estar voltado para os interesses da nação lusitana.
Dentre os objetivos da instituição, pretendiam estimular o aumento da agricultura, das
artes e da indústria, a fim de favorecer as atividades do reino. Na realidade, a intenção
era aplicar os saberes em benefício do desenvolvimento de Portugal, sendo
necessário, para tanto, a união das artes com as técnicas. 342
Dentre as atividades da Academia de Ciências de Lisboa, estava a publicação
de estudos para a divulgação de informações sobre a agricultura em favor da
sociedade. Naquele momento, entendia-se que cada nação deveria conhecer
adequadamente o seu território, suas riquezas e seus recursos de forma que pudessem
ser explorados. A História Natural poderia revelar conhecimentos fundamentais que
em benefício da nação.343 Por decorrência, observa-se o aumento das publicações
sobre temas desta disciplina, a fim de atender aos interesses do Estado, bem como dos
homens envolvidos em atividades agrícolas, comerciais e industriais. Esta circulação
de obras, em parte, foi impulsionada pelas viagens filosóficas empreendidas nas
décadas de 1780 e 1790.
A criação da Casa Literária do Arco do Cego, em 1799, permitiu que a
comunidade científica divulgasse o seu trabalho e discutisse os problemas de Portugal
e das terras coloniais portuguesas, conquistando destaque e mesmo tempo dando
visibilidade aos trabalhos de muitos naturalistas, como analisaremos
oportunamente.344
A Tipografia do Arco do Cego foi um espaço de editoração criado para a
divulgação da produção científica do reino. A criação fazia parte do projeto político
de d. Rodrigo de Sousa Coutinho (1755-1812), que via na pesquisa científica e sua
disseminação um elemento importante para formar as novas elites. Deve-se considerar
ainda a preocupação com as novas técnicas agrícolas, num momento em que Portugal
buscava explorar seus recursos naturais com maior propriedade. Outro aspecto
importante é que a Tipografia do Arco do Cego, além dos trabalhos que publicou, se
tornou um espaço de sociabilidade intelectual, identificável no grupo que se formou

156
no entorno de Frei Mariano da Conceição Velloso, responsável pela tipografia, e nas
publicações que realizou.
D. Rodrigo de Souza Coutinho era afilhado de Sebastião José de Carvalho
Melo. Estudou no Colégio dos Nobres e se formou na Universidade de Coimbra.
Viajou pela Suíça e França, interagindo com pensadores iluministas. Nos idos de
1778, foi nomeado diplomata português junto à Corte da Sardenha, em Turim,
retornando a Portugal. Assumiu o cargo de secretário de Estado da Marinha e
Domínios Ultramarinos (1796-1801), sendo posteriormente presidente do Real Erário
(1801-1803) e ministro da Guerra e Negócios Estrangeiros (1808- 12) na regência de
d. João VI. Atento à conjuntura política, percebeu que as debilidades administrativas
de Portugal causariam a fragmentação do território colonial, principalmente após a
independência dos Estados Unidos (1776).
Para resolver uma série de problemas, d. Rodrigo de Souza Coutinho recorreu
aideias ilustradas para administrar o reino. Era preciso racionalizar as práticas
administrativas, a fim de aliviar aos súditos o peso tributário. Seu objetivo era reforçar
a unidade do império, por meio de administradores talentosos, escolhendo para tanto
os membros mais preparados da elite colonial.345
Domingos Vandelli indicou seus alunos de Filosofia Natural, formados pela
Universidade de Coimbra, para viagens de exploração científica nas colônias
portuguesas do ultramar, a fim investirem seus conhecimentos na exploração e
aproveitamento dos recursos naturais. O projeto delineado por Vandelli consistia num
detalhado levantamento sobre o reino vegetal, mineral e animal para aproveitado
econômico pelo Estado português; esse trabalho seria compartilhado por d. Rodrigo
de Souza Coutinho.
A proposta incluía que as espécies encontradas nas colônias fossem
devidamente acondicionadas e enviadas para Portugal. Domingos Vandelli, no seu
“Diccionario dos termos technicus de historia natural extraídos das obras de Linneo,
com a sua explicação e estampas abertas em cobre, para facilitar a inteligência dos
mesmos e a memoria sobre a utilidade dos jardins botânicos”, de 1787, afirmava que
o homem: “só com a força da sua imaginação não podia comer, nem vestir-se, nem
executar os seus desejos; enfim nada podia fazem sem o auxilio das produções
naturais, que são a base de todas as Artes, de que dependem principalmente os

157
comodos, e prazeres da vida. Pois que o conhecimento delas contribui à felicidade
humana”.346
A natureza não era importante somente pela alimentação, ela servia ao homem
para os momentos de recreação, principalmente para aquelas pessoas cujos ofícios
impediam contato com o mundo natural.
Segundo Vandelli, no século XVIII a História Natural era mais cultivada do
que nos séculos anteriores. Tal fato podia ser comprovado pela quantidade de
descobertas desse período e pelo crescimento de museus naturais. Estas instituições
eram importantes, pois “a impossibilidade de se poderem ver todas as produções da
Natureza espalhadas em países tão remotos, supre o Museu, no qual como em um
Amphitheatro aparece em uma vista de olhos, o que o nosso Globo contem”.347 O
museu era um livro sempre aberto, no qual o observador se instruía com prazer e
facilidade. Nele era fácil apreender a nomenclatura das produções da natureza, fazer
comparações e observações para investigar a origem e a formação das espécies, bem
como dos seus usos na economia. O museu era de grande utilidade, porque auxiliava o
homem a estimar a natureza. O filósofo poderia admirar a natureza e seus fenômenos.
O químico poderia descobrir os segredos no mundo natural, já que a natureza amava
esconder-se. O agricultor fazia experimentos que permitiam a multiplicação de
espécies que poderiam ser úteis aos homens. Além disso, o museu servia para a
instrução e diversão humana.348
O conhecimento da História Natural abrangia a extensão do universo, sendo
necessário dividi-lo em vários gêneros, causando confusões, algumas vezes. Para
Vandelli a Anatomia, Medicina, Economia e outras Artes eram ramos da ciência, que
se dividia em Zoologia, Botânica e Mineralogia. A natureza era um espetáculo digno
de ser contemplo nessa ampla diversidade, dotada de leis e dinâmicas próprias.
A Zoologia não consistia apenas no conhecimento dos nomes de cada animal.
Era importante conhecer a sua anatomia, “seu modo de viver, e multiplicar, os seus
alimentos, as utilidades, que deles se podem tirar; e saber aumentar, e curar, e
sustentar os que são necessários na economia”. Era preciso descobrir os uso dos
animais desconhecidos ou “extingui-los se são nocivos, ou defender-se deles”.349
Da mesma maneira, deveria ser compreendida a Botânica. Não bastava ao
botânico saber o nome das plantas, mas que ele conhecesse outras coisas mais difíceis

158
ou interessantes como “as suas propriedades, usos econômicos, e medicinais; saber a
sua vegetação, modo de multiplicar as mais úteis, os terrenos mais convenientes para
isso, e o modo de os fertilizar”. 350
Quanto à Mineralogia, Domingos Vandelli afirmava que os naturalistas
antigos conheciam as minas de ferro, mas não observaram sua propriedade magnética.
Tal situação havia privado, por muitos séculos, que eles comercializassem com as
351
“Nações mais distantes, e de saber a grandeza, e figura da Terra”. Os naturalistas
modernos, observando o mineral, o empregaram na navegação e chegaram a regiões
da África, Ásia e à América.
Domingos Vandelli enfatizava que o estudo da História Natural não se
restringia ao conhecimento da nomenclatura. Era fundamental observar e realizar
experiências para conhecer as relações existentes na natureza. Tal processo induzia ao
conhecimento, ao uso das espécies, aos tipos de terra e alterações sofridas com a
exploração do homem, dentre outros aspectos que contribuíam para o entendimento e
aplicação de suas respectivas utilidades. Por conseguinte, era necessária a dedicação a
esse estudo, na verdade um desafio à inteligência humana, desde o conhecimento da
352
nomenclatura, principalmente aqueles criados por Lineu.
Esta situação o motivou a escrever um dicionário para fornecer ao estudioso,
com clareza, os termos técnicos utilizados nas pesquisas de História Natural. A
tradução ficou inicialmente a cargo do Dr. Francisco José Simões da Serra,
demonstrador de História Natural, que faleceu, e Domingos Vandelli executou o
projeto.
O Dicionário dividia-se em oito partes que compreendiam a terminologia de
mamíferos, aves, peixes, anfíbios, insetos, vermes, botânica e mineralogia. O
naturalista ressaltava que, para os gêneros das gramas, pela dificuldade de reconhecê-
las, acrescentara duas tábuas com os riscos de todas as frutificações dos ditos gêneros.
353

A elaboração de uma obra como esta era vital, por não haver “até agora uma
Flora de Portugal, e do Brasil, ajuntamos a este Dicionário um ensaio delas, com os
nomes Portugueses, virtudes medicinais, e uso na tinturaria”. 354 Em Portugal, a única
obra de Botânica era a “Viridarium Lusitanicum” de Gabriel Grisley (1661). Segundo
Vandelli, em correspondência com Lineu, tal trabalho era “miserrimum opus” pela

159
forma de classificação e registro das espécies, o que justificava a elaboração do
dicionário.
Uma obra sobre a natureza poderia revelar como a matéria viva estava
organizada e como todos dependiam dela. Era preciso conhecer a diversidade e a
complexidade da natureza e estudar as cadeias de dependência. Domingos Vandelli,
na obra “Memória sobre a utilidade dos jardins botânicos a respeito da agricultura
especialmente da cultivação das charnecas”, afirmava que a ciência da agricultura
consistia no conhecimento dos vegetais, da sua natureza, do clima e do terreno em que
eram cultivados. Estes condicionantes permitiam compreender a fertilidade e a
abundância de determinadas espécies sobre outras. 355
Para tanto, era importante o estudo da Botânica e a realização de experiências
e reflexões físicas. Além disso, era fundamental a existência de um jardim botânico
que abrigasse vegetais de todos os climas e terrenos. Conforme Domingos Vandelli,
um botânico ignorava inteiramente quais seriam os terrenos estéreis, a não ser quando
a terra fosse marcada pela presença de enxofre e sal. A existência de mais de treze mil
plantas catalogadas fazia que o botânico tivesse que estudar os tipos de terreno para
identificar quais eram os mais propícios para o cultivo, e por decorrência de interesse
para a economia. Cada espécie de planta se adaptava melhor a um tipo de terra
influenciando diretamente na sua produtividade. Para o estudioso duas eram as
opiniões a respeito da fertilidade da terra:
“A primeira, é que a terra serve somente de matriz aos vegetais, e de nada
mais: a segunda, que os vegetais tomam o maior nutrimento da terra. O que é porém
incontestável, é que o maior nutrimento das plantas depende da água, e
principalmente da chuva, a qual com as partículas diferentes que trás da atmosfera, e
dos sais, e óleos depositados na terra concorre muito para a vegetação. Além do que
contribui o calor, a luz, e matéria elétrica”.356
O assunto era vasto e difuso e já vinha sendo discutido por vários autores. Para
Vandelli, bastava saber que uma terra que impedia a passagem das águas nem do ar,
como o barro, era estéril para o cultivo de determinadas espécies e fecunda para
outras. Da mesma maneira, um solo arenoso, que não retinha as águas e os sais
minerais necessários, poderia ser infecundo para algumas espécies e não para outras.
Tal fato tornava o jardim botânico um local privilegiado para identificar estas

160
situações. Além de possibilitar a reunião de diferentes plantas, provenientes de
diversas partes do mundo, era possível conhecer os usos que se poderia fazer delas na
medicina, nas artes, no comércio e na agricultura. 357
A importância dos jardins botânicos poderia ser observada, segundo Vandelli,
identificando-se a existência deles em outros países. Naquele momento, havia na
França doze jardins botânicos, na Espanha dois, em Sabóia um, na Itália treze, na
Alemanha vinte, em Inglaterra três, na Prússia quatro, na Holanda oito, na Dinamarca
um, na Suécia três, na Polônia um e na Rússia um. Havia ainda muitos jardins
particulares. Esta profusão de jardins era fruto do desejo e do apoio financeiro dos
monarcas que mandavam pesquisadores pelo mundo para descobrirem novas
plantas.358
O jardim botânico e o conhecimento das espécies poderiam ser constatados
pela circulação das plantas. Muitas delas vindas de áreas distantes se aclimataram na
Europa e ali proliferam. Por estes conhecimentos dos ingleses e dos franceses (em que
se incluíam o reconhecimento das plantas da América conquistada e levadas para a
Europa), Vandelli considerava os benefícios: “imensa utilidade, e cada vez poderão
tirar maior lucro".359 Nos jardins botânicos por serem cultivadas diferentes espécies
de plantas de todos os climas e terrenos era possível escolher as mais próprias e
adequadas ao país. Desta forma, Vandelli elencava alguns exemplos de plantas que
não eram nativas da Europa, mas que conseguiram se adaptar com êxito ao solo e
clima europeu:
“O trigo, ainda que se não saiba verdadeiramente o lugar do nascimento não é
planta da Europa. O milho painço é da Índia. A aveia é da Ilha de João Fernandes, as
borragens vieram de Alepo. O rabão da China; o milho da América; o Arroz é planta,
que se julga da Etiópia, e que antes se cultivava na Índia; a Fava é do Egito; a
Amoreira branca da China; Os Tomates da America; o Pimentão é do Brasil; a
cidreira o Limoeiro da Ásia, Media, Assíria; a Laranjeira da China; o Igname, a
Asafroa é do Egito; a Piteira é da América &c.”360
O naturalista afirmava que quase todas as árvores frutíferas existentes em
Portugal eram provenientes de outros países. Além daquelas que eram úteis à
alimentação humana, havia plantas e árvores que eram utilizadas como ornamentos. A
pesquisa dos jardins botânicos indicava que plantas de climas e solos diferentes da

161
Europa, quando transplantados para este continente se adaptavam e poderiam ser
utilizadas para fins econômicos. Este trabalho de prospecção levava è análise de
terrenos incultos e à possibilidade de seu uso para tirar proveito para a nação. Estes
terrenos incultos eram chamados comumente de charnecas, que não eram estéreis e se
poderia fazer uso deles, como era possível constatar pelas experiências inglesas,
irlandesas, suecas e francesas. Nas charnecas, como aquelas do Alentejo, nasciam
várias espécies de plantas naturais como o tomilho, a quarqueja, o rosmaninho, a
aroeira, o zimbro, dentre outros. Todavia, uma grande parte do Alentejo era inculta,
por ser terreno arenoso, não se podendo semear trigo ou milho com proveito.361
A grande indagação de Domingos Vandelli era: “Por ventura faltam meios
para fazer melhor este terreno? Ou faltam plantas úteis em alguma parte da Economia,
que lhes sejam próprias? Certamente não.” A solução parcial para o problema era
simples, bastava fertilizar estes lugares incultos. Para tanto, deveria proceder a queima
das plantas com as suas raízes, cujas cinzas faziam o terreno mais fértil. 362 Em alguns
locais não faltavam bancos de barro que faziam os terrenos melhores por impedirem a
passagem da água. Nos casos em que, debaixo do terreno arenoso, não se achasse nem
barro, nem greda, que pudessem ser localizados por meio de uma sonda, havia ainda
alguns terrenos vizinhos, outeiros, onde era possível encontrar conchas marítimas, que
eram excelentes para o cultivo de plantas.
Outras práticas poderiam ser empregadas, desde que se tivesse conhecimento
das qualidades do solo. Caso o terreno a ser cultivado, estivesse nas proximidades do
mar, era possível valer-se de testáceos marítimos ou da turfa que poderiam ser
utilizados na fertilização do solo. Nas localidades em que houvesse rio, deveria fazer
uso das águas para o cultivo, ou nos casos em que as terras fossem encharcadas seria
possível plantar trigo. Se estas orientações não pudessem ser seguidas, poder-se-ia
atentar para o tipo de espécies que se adaptariam ao local ou que pudessem ser mais
favoráveis a uma recomposição do solo. No caso do Alentejo, que era uma das
preocupações da coroa portuguesa, seria possível explorar a região com plantas
“suculentas” como a figueira do inferno e a alcaparra, que se conservavam por muitos
anos em lugares onde a raiz não recebia grande quantidade de água. Para tanto, era
preciso que se procedessem a estudos, como os suecos haviam feito com resultados
positivos em terras com qualidades inferiores àquelas do Alentejo.363

162
Domingos Vandelli indagava ainda: que proveito se tiraria caso se reduzissem
a pastos estes lugares incultos? Segundo o estudioso, havia plantas próprias para estes
terrenos que permitiriam a manutenção do pasto e a multiplicação dos rebanhos.
Outra alternativa para a região do Alentejo, era o plantio de pinheiros que em poucos
anos daria muito lucro. A amoreira branca, por exemplo, nascia e se criava bem
naquele terreno, sendo as suas folhas mais secas. Estas, por sua vez, eram adequadas
ao sustento dos bichos da seda, além do que, plantando os ramos das raízes velhas das
amoreiras era possível, dentro de quatro anos, encontrar plantas grandes.364
O assunto merecia diferentes considerações; entretanto, a vastidão delas
impedia que se aprofundasse o assunto. O naturalista, afirmava que seu objetivo era:
“fazer experiências sobre as plantas que se cultivam, e se cultivarão neste
Real Jardim Botânico a fim de conhecer as mais adequadas para este feliz clima, e
aquelas que multiplicadas poderão dar maior utilidade: farei mais exatas observações
sobre os lugares incultos, indicarei os meios proporcionados conforme as situações, e
produções, tratando fundamentalmente de todos estes objetos”. 365
Desta maneira, os jardins botânicos eram os locais que permitiam a
observação de processos sistemáticos de experimentação e demonstração da utilidade
econômica das espécies. Estes constituíam instrumentos privilegiados na construção
do conhecimento sobre os recursos existentes. Cabia ao estudioso de História Natural
analisar e identificar a utilidade.
Em 1788 Domingos Vandelli publicou a sua obra “Florae Lusitanicae et
brasiliensis specimen”, demonstrando que a atenção aos recursos naturais poderia
contribuir para a economia portuguesa, em se considerando principalmente a colônia
brasílica. Seu objetivo era proceder a um inventário, seguindo as orientações de
Lineu, para o qual o estudo da natureza seria capaz de fundamentar as práticas
econômicas do Estado se este soubesse aproveitar os recursos naturais, com as
tecnologias adequadas.
A bibliografia consultada nos autoriza a afirmar que no final do século XVIII
havia maior compreensão do mundo natural. A busca por informações mais
detalhadas e a euforia dos novos achamentos aguçavam a curiosidade do corpo social.
O mundo natural agora fascinava os homens que demonstravam prazer ao descobrir
os mistérios da natureza. A circulação da informação cada vez mais rápida fazia que o

163
saber sobre o mundo natural conquistasse também um discurso que não era apenas o
científico. O interesse de uma camada interessada em assuntos ligados à natureza fez
que jornais circulassem no período, dando a dimensão o avanço conquistado.
A pesquisa da natureza contribuía para a melhoria das condições de vida da
população. O pensamento ilustrado português enfatizava a leitura da natureza e os
caminhos especulativos da razão. Neste intuito, Domingos Vandelli concebeu a
formação de expedições para diferentes pontos do império colonial português, com o
objetivo de catalogar e descobrir novas espécies, como fizeram outros expedicionários
anteriormente. Vandelli planejou as viagens filosóficas de 1783, que no contexto das
terras coloniais brasílicas, foi empreendida com destaque por Alexandre Rodrigues
Ferreira (1756-1815). Esta naturalista tinha a função de dirigir a expedição,
preparando os diários, bem como os demais registros, além de verificar as amostras de
produtos naturais que seriam enviados a Portugal. Da expedição participaram também
Manuel Galvão da Silva (1750 - depois 1790), encarregado de providenciar as
condições necessárias para a realização da viagem e da preparação de animais e
plantas para serem remetidos a Europa e Angelo Donati, responsável pelos desenhos a
serem realizados.366
É nesse contexto, após a reforma pombalina, que podemos identificar a
presença de naturalistas brasileiros comprometidos com o projeto político
administrativo concebido por Sebastião José de Carvalho Melo, que viveu no decorrer
do reinado de D. Maria I. O que se pode observar é que as políticas lusitanas de
governo conjugaram esforços para promover o desenvolvimento dos três elementos
fundamentais da economia: a indústria, a agricultura e o comércio. Os trabalhos dos
naturalistas foram guiados pelos interesses do Estado lusitano e as ações que estes
empreenderam estavam diretamente ligadas aos ao Ministério dos Negócios
Estrangeiros do Ultramar. Martinho de Mello e Castro (1769-1796) e seu sucessor D.
Rodrigo de Sousa Coutinho (1796-1801)367 estabeleceram como meta o
reconhecimento das potencialidades econômicas do império colonial, tendo como um
dos planos de ação o projeto das viagens filosóficas.
Como vimos, a intenção do governo lusitano era reunir uma série de
informações sobre a agricultura das diferentes regiões e a forma de exploração dos
recursos naturais, seguindo o movimento da época; a ideia era fazer um extenso

164
conhecimento sobre um território imperial imenso. Para tanto, foi de suma
importância o conhecimento gerado na Academia Real de Ciências de Lisboa e os
avanços que o estudo sobre a natureza conquistou até aquele momento. Como
destacou Prestes:
“O século XVIII vive o apogeu da História Natural, mais comumente
caracterizado pela atenção especial à descrição e classificação dos seres vivos. Trata-
se de um momento em que não apenas o mundo científico, mas também as elites
‘esclarecidas’ da Europa preocupavam-se em coletar, catalogar e colecionar minerais,
vegetais e animais em seus gabinetes de curiosidades. Momento em que o europeu se
encantava com a exuberante flora e fauna trazida das terras do Novo Mundo e em que
se multiplicavam os herbários, jardins e coleções de espécimes, tanto oficiais quanto
privados. Também é ali que se começam a fazer sentir as consequências dos danos
que o homem é capaz de causar na natureza”.368
O quadro aqui apresentado permite compreender as expedições feitas pelo
interior das terras brasílicas e os diferentes interesses que as moveram. Muitas das
viagens exploratórias não tiveram como preocupação o método científico, mas
procuraram, da forma que era possível, registrar o que a terra poderia oferecer. As
expedições científicas que ocorreram nas últimas décadas do século XVIII apontavam
um maior rigor em alguns registros. Contudo, este momento era a fase inicial de um
processo que se consolidaria no decorrer do século seguinte, e por decorrência as
formas narrativas eram oscilantes. A forma e os motivos dos discursos haviam se
alterado no decorrer do século XVI até XVIII, sendo oportuno marcar estas diferenças
para apresentarmos posteriormente as descrições sobre as terras brasílicas.

165
Quarto Capítulo

Dos relatos de viagens


às descrições dos naturalistas

“Conhecer o mundo não adianta nada:


as viagens apenas complicam a ignorância”.

Mário Quintana

“Começar a pensar é começar a ser atormentado.”

Albert Camus

166
4.1 Dos relatos de descoberta
aos registros da conquista

Os primeiros relatos povoaram o imaginário europeu com representações


idílicas, onde preponderavam uma natureza exuberante permeada de riqueza e
ausência de trabalho árduo. A maioria dos relatos, numa visão emblemática,
claramente utilitária do mundo natural, destacava as propriedades produtivas dos
novos espaços, paisagens bucólicas, fauna e flora abundantes, variadas e exóticas,
eivada de elementos fantásticos. As representações proporcionavam uma aproximação
com a idéia de paraíso terrestre de abundância e riqueza, cuja obtenção não requeria
grande esforço humano. Se o jardim de delícias não havia sido descoberto, algo
próximo disto poderia ser contemplado.369
A construção da imagem do Novo Mundo foi feita a partir de associações que
remetiam ao referencial europeu, dando significado a um universo desconhecido.
Conforme afirmou Sérgio Buarque de Holanda, os marinheiros e exploradores
portugueses do período, tendo a experiência como mestra, constituíam “os olhos que
enxergam, as mãos que tateiam” e que iriam mostrar “constantemente a primeira e
última palavra do saber” ao mundo.370
A conquista territorial conduziu ao conhecimento de um mundo natural
adverso, onde viviam povos em estágios culturais diferentes dos europeus e de outros
povos conhecidos. A ocupação do espaço pressupôs o rompimento da natureza no seu
estado originário de desordem. O processo de ocupação territorial, com o
estabelecimento de feitorias, aldeias e vilas simbolizava a tentativa de domínio do
homem europeu sobre a natureza brasílica. A atitude predatória e dominadora em
relação ao mundo natural, característica deste primeiro momento de ocupação do
espaço, evidenciava a forma como o pensamento cristão decodificava a diferenciação
clara entre o espaço civilizado, cristão (ordem) próximo ao paraíso de delícia, e o não-

167
civilizado, não-cristão (desordem) próximo ao inferno. O mundo natural existia para
servir ao ser humano, independente do local onde estivesse. Os relatos de viagem
eram o meio pelo qual se apresentavam as novidades que faziam parte do universo de
outras culturas, incluindo também menções e descrições da natureza.371 Cada registro
comportava uma dimensão distinta, pois os registros refletiam a vivência dos
navegadores e viajantes. Na realidade, estes procuravam dar sentido às novidades que
tinha oportunidade de experienciar. De fato, precisavam compreender o novo mundo,
reavaliando e dando sentido ao seu próprio mundo.372 Contudo, nem sempre a fixação
de registro era adequada. João de Barros, no prólogo às “Décadas da Ásia”, lamentava
a falta de cuidados dos cronistas em relação aos grandes feitos das descobertas.
Damião de Góis, na sua “Crónica de D. João lI”, também aponta falhas na obra de Rui
de Pina, que não mencionava a viagem de Bartolomeu Dias na sua crônica do reinado.
Se havia escassez de registros, havia também deficiências na preservação de registros
e documentos legais, bem como o caráter secreto de muitos que restringiram o
conhecimento sobre a saga das descobertas. É provável que as informações que
chegaram sobre o Novo Mundo foram muitas, mais diversificadas do que aquelas que
temos hoje para consulta.373
O desafio fez parte da aventura dos deslocamentos. Perigos reais e imaginários
faziam parte das experiências dos deslocamentos que foram registradas por diversos
tipos de viajantes. Alguns dos registros davam conta do itinerário que constituía o fio
condutor da narrativa, lembrando em muito as epopéias do mundo antigo, onde a
imagem de Odisseu aflorava com toda a intensidade, na sua aventura em busca da ilha
de Itaca. A sequência temporal era importante para contextualizar o processo da
viagem e ser fiel à realidade histórica. A cada parada, emergiam as referências sobre
os povos e os lugares. Normalmente, as localidades mais representativas são
mencionadas, em especial as cidades e as diferenças do mundo natural. Estas
passavam a ser essenciais nas narrativas e poderiam dar a tônica do registro, tendo em
vista a dinâmica do comércio, do artesanato, das festas e de outros movimentos que
abrigava. Porém, deve-se ressaltar que o tom do relato enfatizava as peripécias, as
dificuldades, as possibilidades de fazer fortuna, ou a luta pela defesa da fé cristã, que
poderia garantir o papel de mártir. O sofrimento era uma constante. A felicidade
contida.

168
O maravilhoso fazia parte dos escritos que apresentavam os temores em
relação ao desconhecido. Os elementos de realidade faziam parte de um discurso
narrativo importante para aqueles que tivessem o privilégio de conhecê-los. A viagem
era por excelência o momento propício para refletir sobre si próprio, o tempo, a vida,
a Criação, e o devir humano. Como bem salientou Lévi-Strauss, as descobertas
permitiram aos homens refletir sobre si próprios:
“A experiência dos antigos viajantes, e, por meio dela, esse momento crucial
do pensamento moderno onde, mercê das grandes descobertas, uma humanidade que
acreditava ser completa e acabada recebeu de repente, como que numa contra-
revelação, o anúncio de que não estava sozinha, que era parte de um conjunto mais
amplo e que, para conhecer-se, devia antes contemplar a sua imagem irreconhecível
neste espelho, do qual uma parcela, esquecida durante séculos, ia, só para mim, lançar
o seu primeiro e último reflexo”.374
Viajar era poder conhecer o mundo natural, criado ou não por um Deus
superior. Era fugir da monotonia do cotidiano. O homem não desejava apenas ver a
semelhança, mas sim o extraordinário, aquilo que pudesse surpreendê-lo e
surpreender aos outros.375
No decorrer dos séculos XV e XVI, os relatos e a literatura de viagens
conquistaram maior ressonância devido às viagens marítimas. Os registros dos
navegadores pormenorizavam sociedades desconhecidas. Um universo totalmente
novo a ser comunicado. A viagem pelos mares exigia uma reunião de interesses
econômicos, políticos e, sem dúvida, culturais. Todavia, a racionalidade dos interesses
econômicos nem sempre explicou o gosto pela aventura, pelo desconhecido ou pela
novidade, que só a mentalidade medieval tinha alimentado. A escrita sobre estas
aventuras ainda era um privilégio de poucos, mas havia um público ávido por
conhecer ou saber sobre o que havia além dos limites da Europa.
Um amplo público e uma profusão de experiências de viagens fizeram que os
editores identificassem nesse segmento uma oportunidade para maiores lucros. As
coleções de viagem se popularizaram e ganharam o domínio público. Neste momento,
as contribuições para o saber eram sensivelmente ampliadas, na economia, na
organização social e cultural, nas técnicas náuticas e principalmente em relação ao
mundo natural, como tivemos oportunidade de salientar nos capítulos anteriores.

169
Para as mensagens serem compreensíveis, as descrições do novo faziam
associações de semelhança como o universo de coisas conhecidas na Europa. O
desconhecido deveria ser captado na dimensão do conhecido. Os relatos dos cronistas
forneciam exemplos da realidade que por vezes eram acrescidos de elementos
fantásticos. A narrativa de viagem era um dos aspectos do deslocamento, que poderia
ser feita no decorrer do percurso ou após ele ter ocorrido. O ato de escrita implicava
reflexão e síntese da experiência vivenciada pelo viajante-escritor. Como destaca
Luciana de Lima Martins, o ato da escrita adquire autoridade tanto sobre sua própria
experiência no campo, quanto para o leitor sedentário, que reanima, com sua
imaginação, as imagens grafadas no papel.376
A leitura dos livros de viagem permitiu outras viagens. Pelas linhas do texto
um universo diferente se abria. Novas pessoas, culturas, imagens, sensações eram
apresentadas ao leitor, que construía um universo imaginário. A leitura permitia que
novas imagens emergissem dos territórios distantes, ao mesmo tempo em que uma
plêiade de viajantes, que nunca haviam deixado o seu universo, viajasse com os olhos
da mente.
Nos séculos XV e XVI surgem inúmeros registros de viagem, normalmente
relatos e diários que descreveram as aventuras que os descobridores e navegadores
enfrentaram. Conforme afirma Manuel Simões, o século XVI é o “período áureo” da
literatura de viagens em Portugal, que oscilou entre os textos de “euforia”
relacionados aos descobrimentos e os textos de “disforia”, que compreendia o
conjunto de relatos de naufrágios.377
O avanço pelo mar não foi coroado somente de êxitos. A cobiça fez que
muitos se aventurassem de forma arriscada pelo Oceano e o resultado deste
empreendimento nem sempre foi o melhor. Navios grandes e carregados de forma
excessiva comprometiam a vida de todos a bordo, e não raras vezes era necessário
lançar ao mar as mercadorias para que se evitasse o desastre. A falta de velas e o mau
estado delas comprometiam as ações de salvar as embarcações, quando ventos fortes e
o balanço do mar acometiam as mesmas. Os registros sobre estes acontecimentos
procuram dar a dimensão da tragédia. Eles foram construídos a partir dos relatos orais
dos sobreviventes que forneceram detalhes sobre as dificuldades do avanço pelo mar,
a chegada a terras desconhecidas, após o naufrágio, a busca por alimentos que levava

170
os homens a avançar pelo território enfrentando serras, rios e o perigo dos ataques dos
aborígenes, como aquele que seria relato por Hans Staden. Contudo, o referencial
emblemático das agruras das viagens está nas trovas da obra de Luis Vaz de Camões
(c. 1524-1580), os “Lusíadas”, poema épico que relatava a expedição de Vasco da
Gama à Índia, exaltando a conquista portuguesa e de toda a Europa.
Os registros de viagens se diversificavam na medida em que diários de bordos,
relatos de campanhas militares, visitas de embaixadas estrangeiras passaram a ser
outros tipos de fontes para a compreensão das viagens. Neles era também possível
encontrar as descrições sobre os locais, as tradições, os costumes, o regime político e
administrativo. Rapidamente, cresceu o público interessado pelas aventuras e
novidades das descobertas. As coleções de viagem se popularizariam e ganhariam o
domínio público nos séculos seguintes, nos formatos mais diferentes.
O escrito, ou o impresso, resgatou parcialmente a relação ver-conhecer que, a
partir daí, passa a ser, ler-conhecer, em consonância com o espírito do período. Os
registros pressupunham que uma das partes - os leitores - estivesse distanciada do
universo ao qual se referia, mas tão presentes quanto os redatores, pois como lembra
Todorov, “o destinatário é tão responsável pelo conteúdo de um discurso quanto seu
autor”.378 As descrições só seriam compreendidas se um processo de comunicação
efetiva ocorresse ou, como Roger Chartier destaca, é preciso existir circulações
fluídas, com “práticas partilhadas que atravessam os horizontes sociais”,379 unindo
vivências comuns.
No decorrer do século XVI, diferentes viajantes que ancoraram nas terras
brasileiras deixaram informações sobre a terra e sua gente. Nos registros dos
missionários era comum que, antes de registrar os feitos da propagação da fé, se
fizesse uma caracterização da terra, na medida do possível, descrevendo clima,
montes, rios, limites do território, coisas notáveis naturais como fontes, frutos,
plantas, minerais, animais terrestres, aves, peixes. Além disso, era conveniente
registrar as feições dos habitantes, seus costumes, religião, política, dentre outros
aspectos.
Os jesuítas foram os responsáveis pela elaboração dos primeiros documentos
sistematizados e constantes sobre as terras brasílicas. Conforme as orientações dos
padres superiores da Companhia de Jesus, as cartas deveriam ser elaboradas

171
regularmente pelo Provincial ou seu substituto. O conteúdo essencial foi definido pelo
do Pe. Inácio de Loyola, em carta de 15 de agosto de 1553, ao Provincial Pe. Manoel
de Nóbrega.380 O texto deveria anotar as características das casas que os religiosos
habitavam, o que havia em cada uma, as formas de comer e beber, as condições de
vida na região, o clima, os costumes dos povos. Informações que serviriam para
aperfeiçoamento moral e religioso de outras pessoas, que leriam ou ouviriam o
relato.381 As cartas faziam parte de um sistema de interna comunicação da Companhia
de Jesus com interesses diversos e abrangentes, sendo reguladas por uma sequência de
procedimentos administrativos rígidos da ordem, que atendiam a uma multiplicidade
de funções da própria instituição religiosa, bem como dos governos aos serviam.
Registros de experiências incomuns daqueles que se aventuram em longos
deslocamentos, apresentadas de forma edificante que revelavam a ação jesuítica no
mundo.
As cartas e relatórios quadrimestrais produzidos pelos jesuítas, além de
consubstanciarem os frutos obtidos na catequização do gentio, permitem compreender
aqueles que viveram a experiência transoceânica e continuariam os seus
deslocamentos em busca de índios para as suas reduções. As informações registradas
pelos religiosos satisfaziam a curiosidade da mentalidade européia. Por vezes, as
cartas passavam ao domínio público que as reproduziam e as espalhavam
oralmente.382 A conquista religiosa implicou a redação de cartas e informações que
com o objetivo de participar aos superiores da Companhia de Jesus suas atividades.383
Parte dos relatos, devidamente selecionados, circularam pela Europa a fim de atender
a curiosidade de um amplo grupo de curiosos. Como destacou Adriano Prosperi, a
ordem religiosa:
“as tipografias produziam incessantemente novas colectâneas de Cartas e de
Avisos que tornavam acessíveis a todas as categorias de leitores os relatos das viagens
e das experiências dos missionários europeus no mundo. Mas não foi por acaso que
Bartoli referiu que as suas fontes eram os <textos originais>: de facto, o que tinha
sido impresso não era o texto real das cartas enviadas pelos missionários, mas o fruto
de um trabalho editorial complexo, feito de selecção e de censura, destinado a
fornecer uma determinada imagem e a controlar rigorosamente as reacções dos
leitores. Em suma, um trabalho destinado à propaganda”.384

172
As cartas e outros relatos produzidos no período, que apresentaremos a seguir,
são importantes documentos informativos sobre a natureza da terra dos brasis.
Registros sobre uma vivência que contribuía para amenizar o erro das informações
fantásticas. Documentos que devem ser valorizados, pois contribuem para enriquecer
o conjunto de experiências e conhecimentos históricos, geográficos e naturais sobre as
terras brasílicas.
As descrições ás vezes continham poucas descrições para evitar confusão. As
informações marcavam as diferenças. A organização se preocupava com a
informação, marcando claramente as diferenças. Os aspectos mais importantes eram
selecionados, sendo omitidas a experiência do autor. Este movimento de construção
selecionava aspectos mais importantes, ignorando a experiência do autor. Alguns
discursos preferiam marcar as oposições e as inversões de valores observadas no
contato com as tribos indígenas, em detrimento do mundo natural. As práticas
antropofágicas, os perigos do desconhecido e uma valorização da aventura ganhavam
relevo em relação a um mundo natural e exótico.

4.2 Relatos com princípios científicos e ideológicos

Os relatos de viagens, no decorrer dos séculos XVII e XVIII, apresentavam-se


de formas diferentes e dependentes da atitude perante a viagem. Muitos adotavam um
tom de documentário, tendo como meta informar e instruir. Alguns viajantes,
principalmente os naturalistas a partir da segunda metade do século XVII,
empreenderam uma leitura a partir de princípios científicos e ideológicos, cujo
objetivo era dar a conhecer determinados elementos do mundo natural.
Estes registros, que possuíam diferentes formas de concepção e estruturação,
eram bem diferentes daqueles que no passado procuravam apresentar as sensações e o
prazer de apreciar as paisagens e reconhecer novas culturas. Alguns textos foram
organizados como diários e procuraram apresentar numa sequência rigorosa das
etapas das viagens, empregando uma linguagem objetiva e neutra. Outros eram

173
concebidos a partir de categorias básicas como aspectos geográficos de localização,
mundo natural, hábitos e costumes, aspectos históricos etc., procurando fazer um
registro isento de juízo.
A possibilidade de encontro de minerais preciosos e outras espécies que
pudessem obter um alto valor no mercado intensificaram os deslocamentos,
especialmente durante o século XVII, da Europa para América. O reconhecimento e
exploração do território ganhava força pelas diversas expedições exploratórias,
permitindo a coleta de novas informações.
Nesta época, a Europa oferece melhores condições para deslocamentos em
períodos mais longos, por interesses comerciais ou culturais, dentre outros; de
qualquer forma, viajar torna-se uma nova forma de viver. Em vista disso, surgem
manuais orientando sobre a “a arte de viajar”. Apresentavam uma lista do que era
digno de observar, como locais e edifícios a serem visitados. Da mesma forma,
orientava o viajante quanto às anotações, descrições e sugestões de como organizar as
idéias. Esse guia facultava ao viajante preservar na memória aspectos interessantes de
sua viagem.
Sempre que possível, os viajantes deveriam cruzar as informações com outras
leituras ou relatos orais a fim de se confirmarem suas análises. Havia trabalhos
editados amplamente conhecidos na Europa e poderiam ser utilizados. Isto comprova
a importância da leitura sobre o tema das viagens antes da partida, assim como a
circulação de obras sobre viagens.
Alguns viajantes habilidosos tornavam seus relatos agradáveis, favorecendo a
divulgação da literatura de viagem com seus conteúdos sobre cultura, religião,
costumes, política, sem incorrer em erros ou preconceitos. A contextualização da
experiência e a explicação sobre o significativo de determinadas práticas e
comportamentos eram responsáveis pelo correto entendimento sobre o que o viajante
acreditava ter conhecido.
Nesse século também se nota o desejo de observar, mensurar e classificar,
como um reflexo dos debates em voga na Europa. O sujeito, ávido pelo
conhecimento, ansiava por novas experiências que conduzissem a novos olhares; ver e
ler em função de uma utilidade que, pouco a pouco, era transformada pelas discussões
impostas pelo pensamento científico. 385

174
A publicação dos relatos foi sendo acompanhada de gravuras que registravam
com maior clareza o quotidiano das terras tropicais e o hábito dos seus habitantes. No
século XVII, cartógrafos holandeses publicaram seus registros e compilações de
mapas que ilustravam a região de Pernambuco, detalhando sua fauna, flora,
autóctones e as cidades. Pouco a pouco, os mapas foram incorporando os saberes
existentes sobre as terras tropicais, com novas informações, movimento de abertura,
crescimento e circulação de informações.
Desse período, podemos destacar as obras de Frans Janszoon Post (1612-
1680) que nasceu em Harlem, onde estudou. Ele era irmão de Pieter Post (1608-
1669), arquiteto responsável pelo urbanismo da cidade Maurícia. No período
compreendido entre 1636 e 1640, Franz Post pintou diversas paisagens no entorno da
vila de Olinda e do Recife, algumas observando a própria natureza, outras a partir da
memória e dos esboços que fizera quando esteve no nordeste da América Portuguesa,
estimulando a curiosidade européia sobre as terras coloniais lusitanas, cujo acesso
estava interditado a outras nações. Ele próprio completaria algumas obras no país de
origem, procurando reconstituir as experiências que tivera nas terras exóticas dos
trópicos.
Algumas gravuras revelam um olhar distanciado da experiência, vago e
impreciso. Se os registros apontam de certa forma uma natureza edênica, num
primeiro momento, o avanço pelo interior fazia que esta imagem fosse ou não
reforçada. A descrição pictórica dava ordem ao espaço. Uma paisagem, enquanto uma
composição de pintor-viajante, tinha uma função pedagógica, além de registrar o
momento. Brancos, negros e mestiços compunham a sociedade dos trópicos,
delineando uma paisagem social ímpar. Retrato de uma cultura bem diferente da
européia e que aguçava as mentes mais afeitas à cultura de outros povos.
As dificuldades na ocupação do interior podem ser observadas nos diferentes
registros sobre a aspereza das matas e dos caminhos. As serras com seus declives e
aclives exigiam esforço humano e cuidado. Era preciso atentar para as armadilhas do
caminho, apoiar-se em galhos e ramos, enfrentar lameiros e aguardar toda sorte de
surpresas.
Os relatos de viagem, em formato de cartas, seriam mais difundidos no século
XVIII. As cartas, pelo tratamento simples e mais íntimo, agradavam ao leitor. Como

175
observa Tiago dos Reis Miranda, as cartas fizeram parte da arte de escrever no século
XVIII, registrando serviços, apresentando cumprimentos ou reivindicações, dando
conta das novidades e das ações. As cartas atendiam a uma informação mais objetiva
e direta, sem os inconvenientes da imprensa, marcada pela lentidão e pelos interesses
políticos. A correspondência satisfazia às necessidades de comunicação de um
viajante com o seu interlocutor e, muitas obras, posteriormente consideradas como
literatura de viagem, foram compostas a partir de cartas e apresentadas como tais em
publicações. Para tanto, era importante seguir um modelo de organização para que o
futuro leitor tivesse a sua leitura facilitada.
A construção do texto revelava uma rede de relações elaborada
intencionalmente; faziam-se comparações, procurava-se facilitar o entendimento
sobre a especificidade do contexto, naquilo que o autor considerava fundamental. Um
registro cadenciado, abordando certos aspectos da história, da vida política,
econômica e cultural portuguesa, ao mesmo tempo em que permitia a compreensão
das feições locais e as condições em que as viagens foram realizadas. Numa leitura
atenta dessas cartas, observa-se que a redação, ao refletir a subjetividade do autor,
constituía, por vezes, uma verdadeira autobiografia; uma leitura carregada da
amplitude do olhar e das experiências de quem redigia. As descrições variavam, em
função das formações diferentes e do fenômeno social que envolvia o deslocamento,
bem como da quantidade de informação disponível para se fazer um arrazoado. Neste
sentido, como bem observa Peter Burke, existiam limites para o conhecimento,
principalmente no que concerne à seleção feita por estes viajantes-narradores que, em
face de um conjunto de vivências, criaram diversos significados e classificações:
“sem mencionar aquela seleção de informação que podemos chamar de auto-
protetora que nos permite dar significado ao mundo e funcionar de modo eficaz. A
quantidade e a qualidade de tal informação não são, entretanto, socialmente
uniformes, e por isso é necessário examinar a pluralidade de formas de racionalidade
limitada que atua na realidade particular em observação”.386
Os autores normalmente se apresentavam como viajantes empenhados na
intermediação entre duas culturas. Dominando dois universos culturais distintos, suas
comparações constituíram relatos interessantes. Numa tentativa de organizar o mundo

176
das coisas que via, os autores concebiam a apresentação dos textos para dar maior
sentido às suas observações.
Alguns viajantes, além de fazerem as descrições, procuraram em diversas
ocasiões contextualizar as informações e fornecer um quadro completo do contexto
histórico em que fizeram a observação. Os registros advinham de conversas,
informações e contatos mantidos no decorrer das viagens. Enfim, os relatos
procuravam de forma instrutiva apresentar informações específicas sobre a realidade.
Como muitos dicionários geográficos e livros de viagens comerciais
identificavam a posição geográfica dos locais, os viajantes nem sempre tiveram a
preocupação de fazer esta caracterização. De forma direta, convidavam o seu leitor a
fazer consulta a estes materiais, passando em seguida a detalhar aspectos singulares e
que dificilmente seriam conhecidos e apresentados nos guias de grande circulação. A
viagem, como meio de instrução, passou a ser uma referência no movimento das
idéias do século XVIII. 387
O progresso científico da Europa foi sendo construído a partir do
deslocamento por diversas partes do mundo, como vimos anteriormente. Muitos
naturalistas empreenderam expedições que visavam a identificar e descobrir novas
espécies animais e vegetais em diversas partes do mundo, estabelecendo novos
paradigmas científicos. As terras da América foram um dos destinos destes viajantes
que, num longo processo de interações, contribuíram para construir o conhecimento
científico dos séculos XVIII e XIX.
Os livros de viagem conseguiram, por meio de suas imagens e relatos, exercer
uma grande influência na formação e informação dos leitores e fomentaram muitas
pesquisas de gabinete. Os registros, por seus detalhes, forneciam conhecimentos sobre
história, geografia, cultura, economia e aconselhamentos. Como destaca Attilio Brilli,
o viajante "filosófico" da primeira metade do século XVIII reunia no seu relato a
observação das maneiras e dos costumes, das crônicas de viagem, guardando ao
mesmo tempo o silêncio sobre o seu próprio papel de testemunho itinerante. Este
viajante se diferenciava do viajante sentimental, que transmitia o próprio estado da
alma.388
Na segunda metade século XVIII, o ato de viajar passou a ter um valor
superior. O rompimento com a vida cotidiana era desejável e os atrativos de uma

177
localidade estavam diretamente ligados à novidade e ao exótico. O anseio de conhecer
e ver mais claramente certos aspectos do mundo permeava os interesses de alguns
grupos da sociedade, especialmente aqueles ligados a interesses comerciais e aos
trabalhos desenvolvidos em academias científicas. O conhecimento de outras culturas
exerceu fascínio sobre os homens imbuídos das idéias iluministas. Seduzidos pela
diferença, muitos viajavam a fim de identificar os padrões que moviam as sociedades
ou o faziam por interesses econômicos e políticos. Muitos seguiram para outros
continentes, a fim de percorrer terras pouco visitadas. Outros procuravam no próprio
continente europeu a diversidade da cultura ocidental.
Por vezes, as palavras não conseguiam transmitir exatamente as idéias. As
imagens possibilitam a representação do concreto, ou fato particular, possuindo um
forte valor, revelando melhor o conhecimento. Os desenhistas faziam esboços que
eram a base para futuros trabalhos. Estes poderiam ser feitos rapidamente, captando
os aspectos mais importantes e feitos em pranchas separadas. No trabalho final poder-
se-ia compor os desenhos, dando uma dimensão visual mais ampla, exigindo
normalmente um tempo maior para serem construídos. Nesse sentido, a representação
fazia parte de um processo de composição que visava a dar uma idéia mais próxima
da realidade.
Os viajantes e seus desenhistas ofereceram pranchas de desenhos com
panorâmicas de paisagens e cidades, detalhes sobre edificações e elementos
arquitetônicos do passado, na verdade, lembranças visuais e ao mesmo tempo
documentos sobre a viagem.
A literatura de viagem foi enriquecida pela adoção das pranchas de ilustração
(mapas e gravuras), um importante complemento para crônicas sobre regiões, por
fornecer aos leitores uma idéia aproximada do local, dos tipos humanos, das paisagens
e dos animais. Descobrir o mundo natural e novas culturas propiciou o delineamento
de contornos de costas marítimas, localidades, registros de trajetos, cursos de rios,
montanhas e acidentes geográficos. As imagens dos mapas se aperfeiçoaram,
tornando-se importantes recursos nas obras ilustradas. Os desenhos e gravuras
passaram a constar dos registros como informações geográficas e históricas e
permitiam aos leitores compreenderem os itinerários descritos.389

178
Conforme já afirmamos, os mapas passaram a constar dos registros com
informações geográficas e históricas permitindo aos leitores compreenderem os
itinerários descritos. A presença de pintores e desenhistas nas expedições era
fundamental para fazer o registro mais fiel em relação às espécies encontradas. O
objetivo era fazer desenhos exatos e detalhados. Normalmente, eles passavam a fazer
parte das publicações como legendas e outros desenhos com cenas dos hábitos e
costumes da população, seguidos de textos explicativos. Os trabalhos dos desenhistas
das expedições de pesquisa tinham como preocupação a exatidão das formas e das
cores das espécies representadas, visando à difusão das pranchas de gravura da
sociedade científica do período. Desta maneira, a representação científica era bem
distinta das formas de pintura de flores, frutos e animais como parte de um cenário,
típico das pinturas da natureza-morta. Os desenhos deveriam consignar a espécie
individualizada em suas especificidades e ângulos.
Os livros ilustrados de viagem, principalmente com paisagens, conquistavam
também um público cada vez maior. Os leitores eram atraídos pela representação de
paisagens exóticas. Muitos desenhos sofreram alterações quando as imagens
passavam a constituir parte de uma publicação. Os gravadores de madeira ou metal
faziam adaptações da imagem para o livro de viagem, interferindo na representação
original. Nestes casos, a questão estética se sobrepunha ao registro técnico.
Intervenções nem sempre identificáveis, tidas como realidade, mas verdadeiros
simulacros. Há, porém nesse momento, uma aproximação dos filósofos naturais e os
artistas desenhistas, As técnicas de ilustração contribuíam para um melhor estudo
analítico das espécies, com ênfase na elaboração de gravuras registrando fielmente as
imagens.
A literatura de viagem passou a ser moda no seio da sociedade letrada que
consumia avidamente as memórias e os relatos. Em vista disso, o gênero literário
ganhou contornos definidos, por fornecer a caracterização da beleza natural, do
patrimônio histórico e cultural, informar sobre tradições, costumes e hábitos
alimentares dos locais exóticos. Guias que cristalizaram as imagens de algumas
localidades que poderiam ser ou não condizentes com a realidade. Os guias de viagem
do período do Grand Tour são ricos em informações e oferecem diversas
possibilidades ao viajante para conhecer os locais. Da mesma maneira, eles são

179
responsáveis por definir o melhor comportamento em outras sociedades e sugerir
interações com outras culturas. Estes manuais também forneciam orientações para o
viajante construir ele próprio o seu relato, sendo conveniente apresentar aspectos da
natureza humana dos grupos com que o viajante teve oportunidade de interagir.390
Tal como no século anterior, para se empreender a viagem, era preciso que ela
fosse devidamente preparada, ou sistematizada, com base nas orientações dos guias.
Era aconselhável que se verificasse a situação geográfica do percurso, as formas de
governo e as práticas comerciais, agrícolas e industriais. Não deveria ser excluída da
pesquisa uma sondagem sobre aspectos históricos, usos, costumes, e um prévio
conhecimento da língua. Outras informações sobre edifícios históricos, públicos,
caminhos, rios e fortificações também eram importantes para a compreensão dos
locais que se desejasse conhecer.
Os mapas, ou cartas geográficas como eram chamadas, também passaram a
constituir um elemento importante na bagagem do viajante. Enquanto no século XVI
e XVII eles eram reduzidos e praticamente utilizados por navegadores, a partir do
século XVIII nota-se uma difusão desse tipo de material que recebe modificações e
alterações na medida em que ocorre um melhor reconhecimento de algumas áreas.
Estes mapas contribuíam com indicações de caminho, dando orientações sobre
localizações e percursos aliados aos guias de viagem.391
392
Bárbara Maria Stafford em “Voyage into Substance” faz um estudo
analítico-comparativo sobre os relatos de viagem Setecentista e Oitocentista,
identificando que, na medida em que o pensamento científico se consolida, os tipos de
registros escritos e pictóricos sofrem transformações. Identifica-se ruptura entre uma
forma livre de registro, utilizada pelos viajantes, de outros tipos de registros mais
detalhados, fornecendo características das espécies retratadas com fidedignidade, mais
comuns nos trabalhos de viajantes científicos.
Nos relatos do século XVI observava-se um conjunto de aventuras vividas
pelo viajante, que poderia conter registros exagerados e fantasiosos, facilmente
assimilados no universo daquele período. Havia neles aspectos pessoais, impressões
vividas no transcorrer da viagem, a construção de espaços e homens que faziam parte
de um universo traduzido também por cheiros, sabores e sons dos mais diversos. Este

180
conhecimento continuava sendo importante, mas sua forma de captação e exposição
era mais apurada.
Nos relatos científicos do século XVIII, os viajantes naturalistas faziam
anotações em seus diários, reuniam amostras e outros tipos de evidências que
poderiam ser estudados em momento oportuno. O registro deveria ser marcado pela
objetividade e contar com a sensibilidade humana na fixação de cheiros, sabores,
texturas, sons e outras características que poderiam ser alteradas no envio para a
Europa. A figura do viajante naturalista representou a ligação entre as colônias e os
museus, hortos e jardins botânicos das metrópoles. O viajante tinha uma missão pré-
definida, estando parcialmente ciente do que estavam procurando. Além disso, todos
eles possuíam um prévio conhecimento, muitos deles, no caso das terras brasílicas, já
tinham frequentado a Universidade de Coimbra.393
A literatura de viagem estimulou o fascínio pelo "outro". Viajar era um
paciente ato de observação, para obter informações e aprender. Um viajante era o
espectador que contemplava os diversos quadros que compunham a viagem. Os
viajantes europeus criaram um novo campo discursivo, tendo como objetivo fornecer
informações sobre a expansão capitalista no mundo colonial. Mary Louise Pratt,
valendo-se do conceito de transculturação, aborda a constituição de um conjunto de
símbolos e discursos sobre o modo de viver da América. Os viajantes, principalmente
a partir do século XIX, estabeleceram zonas de contato com os habitantes locais,
promovendo troca e influência na construção dos registros sobre a viagem. Para Mary
Louise Pratt, "a 'zona de contato', ou 'espaços sociais onde culturas díspares se
encontram', choca-se, se entrelaça uma com a outra, frequentemente em relações
extremamente assimétricas de dominação e subordinação".394 Fica evidente na leitura
dos relatos que muitos dos viajantes demonstravam possuir um olhar imperialista
sobre as antigas terras coloniais portuguesas. Afinal de contas, muitos deles
empreenderam suas viagens a fim de fornecer informações à coroa portuguesa, sobre
os recursos existentes e a melhor forma de explorá-los.
Pratt defende que o imperialismo não pode ser visto somente como um
processo político e econômico, mas também deve ser entendido como “um produto e
agente responsável pela construção de visões de mundo, auto-imagens, estereótipos
étnicos, sociais, geográficos, que se legitima não apenas pela dominação externa, mas

181
pela interferência direta nas mentes das pessoas com ele envolvidas”.395 A leitura de
Mary Louise Pratt enfatiza que os relatos de viagem contêm uma ideologia do
imperialismo. O olhar eurocêntrico da maioria dos viajantes condicionou as leituras
subsequentes dos povos da América Portuguesa. Não podemos esquecer que os
relatos de viagem também tinham como objetivo afirmar o referencial cultural e
ideológico do viajante, mostrando a superioridade do seu conhecimento.
O olhar dos viajantes naturalistas, de certa forma, aproximava-se do olhar
conquistador dos primeiros que visitaram o território americano. Os viajantes
revelavam um desejo acentuado de conhecer os povos e o mundo natural, agora a
partir de métodos científicos.396
As florestas brasileiras, com suas plantas e animais, permitiam incontáveis
estudos que só poderiam ser feitos com a reunião de recursos financeiros e muitos
pesquisadores. Sem dúvida, na medida em que os registros e as pesquisas avançavam,
a ciência era beneficiada por novas descobertas. Concomitantemente, erros e
imprecisões construídos nos séculos anteriores iam sendo dirimidos para possibilitar a
compreensão de uma nova realidade que alimentava as expectativas da Europa em
relação à América. Os registros dos viajantes também contribuíram de forma positiva
para a construção da identidade da nação brasileira. O solo fértil, o clima, o povo
afetivo e receptivo facultavam a difusão de imagens sobre as terras tropicais.
As narrativas descreviam situações de contato ou interação cotidiana entre os
viajantes e os habitantes da terra. Cada encontro era marcado por peculiaridades,
revelando que as experiências de convívio intercultural foram diversas e nem sempre
fáceis de serem expressas por escrito. Sentimentos e emoções que eram manifestadas
em uma outra linguagem no jogo de relações sociais.
Intensifica-se a valorização do desenho de paisagens e de aspectos da natureza
como uma complementação do texto que, às vezes, constituíam a síntese de páginas e
páginas escritas. Como bem observou Luciana de Lima Martins no seu estudo sobre
os viajantes no Rio de Janeiro, o mapeamento do terreno, elaborado por alguns
naturalistas e seus desenhistas, apesar de “parecer simples atividade técnica, não era
completamente isento de considerações estéticas”. A transposição de uma paisagem
tridimensional para o plano exigia que o desenhista tivesse uma visão espacial
aguçada, conhecimento de perspectiva e habilidade na construção da composição. Era

182
necessário dominar as técnicas de representação que poderiam dar maior ênfase ao
que se desejava registrar, sem se afastar da realidade. Isto exigia um compromisso do
desenhista para com a sua obra, que ele procurava na maioria das vezes respeitar.397
Há também registro em imagens de viajantes que não tiveram uma formação
técnica para a representação no plano dimensional. Muitos deles, ao tentar retratar
com fidelidade o que visualizavam, tendo em vista a escassez de recursos, muitas
vezes agregavam alguns elementos que acabam distorcendo a realidade.
As diferentes Academias de Ciência existentes pelo mundo disputavam entre
si pesquisas e debatiam controvérsias teóricas. Por decorrência, determinados tipos de
relatos sofreram acusações por não possuírem o rigor científico conveniente para a
Academia. O fato é que naquele momento os viajantes naturalistas possuíam maneiras
distintas de viajar e aproximar-se da natureza americana para colher informações
corretas sobre localizações. Da mesma forma, havia uma pluralidade de registros
despreocupada com a fidelidade do foco observado, nem ultrapassava os limites de
uma observação comum.
No decorrer do século XVIII, o homem desejava conhecer mais
detalhadamente. Precisava ordenar o mundo segundo uma lógica de base científica.
Neste sentido, os viajantes naturalistas tenderam a produzir relatórios científicos
destinados a fornecer informações mais precisas para as Academias de Ciências às
quais pertenciam e também ao público que apreciavam a divulgação de informações
sobre novas áreas.
Os viajantes científicos valeram-se da descrição das rotas e itinerários das
paisagens exóticas, dos tipos humanos, dos usos e costumes desconhecidos. Suas
narrativas passaram a ganhar cada vez mais uma representação gráfica desses
itinerários, pela reconstituição geográfica dos países, com detalhes da flora e fauna,
permitindo a compreensão dos leitores. Conforme Roberto Ventura, a “filosofia da
Ilustração inverteu a visão paradisíaca da América, ao formar um novo discurso sobre
o homem e a natureza americanos, marcado pela ‘negatividade’”.398 O olhar dos
viajantes naturalistas não se ateve somente aos registros sobre a fauna e a flora, mas
também, como já afirmamos, aos hábitos e costumes, à descrição dos povos e às
particularidades das regiões, iconograficamente representados.

183
A nacionalidade, a personalidade, a cultura e a religião, dentre outros aspectos,
influenciavam no registro. Por vezes, o estilo das redações difere mais do que o modo
de observação, que tende a seguir uma cadência convencional. Aquilo que não fosse
possível de ser transportado deveria ser registrado com minúcia, e as descrições e os
desenhos eram importantes para a fixação das informações: relatos sobre locais,
paisagens, rochas e detalhes de espécies impossíveis de serem remetidas ganham
atenção maior.
As expedições realizadas no século XVIII tornaram o mundo mais conhecido
e estabeleceu novos parâmetros. As grandes navegações do século XV e XVI tinham
ampliado os horizontes descobrindo novas terras. Contudo, a ocupação e exploração a
partir do século XVIII promoveriam um novo conjunto de descobertas que seriam
decisivas para o desenvolvimento material da sociedade.
Os relatos dos viajantes diferiram entre si em função da formação do autor,
como ressaltamos. Muitos possuíam formação acadêmica mais aprofundada e
receberam apoio institucional. Alguns eram viajantes independentes, em busca da
aventura e do conhecimento, não escondendo serem autodidatas. Estas diferenças
básicas apresentavam sensibilidades distintas nos registros. Muitos, desejando
contribuir com as atividades das Academias de Ciências, remetiam seus registros,
bem como amostras para que estudos mais específicos.
Para os desenhistas que acompanhavam os viajantes naturalistas era
fundamental saber pintar e traçar cartas. Era conveniente saber escrever em latim e ser
uma pessoa detalhista, preocupada em observar e descrever de forma clara e precisa
os locais visitados. Os desenhos possuíam uma característica descritiva e deveriam
representar de maneira fiel à espécie encontrada, que deveria ser mais próxima do
natural. O desenho tinha a função de documentar com o máximo de realismo possível,
era minucioso quanto às características de cada espécie e atraía tanto os leitores
comuns, como os pesquisadores.

184
4.3 O trabalho científico e a forma de relatar

A obra “Dissertação Física sobre a antiga União e Separação do Velho e do


Novo Mundo, e sobre o Povoamento das Índias Ocidentais; com uma Pesquisa Física
sobre a Origem dos Lagos”, realizada por J. W. C. A. von Honvlez-Ardenn, Barão
von Hüpsch-Lontzen zu Krickelshausen, em 1764, revela uma preocupação técnica e
objetiva na exploração do conhecimento sobre o mundo natural. O texto foi dedicado
ao Príncipe e Duque, Anton Ignaz, Príncipe do Sacro Império Romano, Preboste e
Duque de Elwangen, Conde Imperial Fugger zu Kirchberg e Weissenhorn, conhecido
pela sua erudição.
O texto reunia elementos da ciência da história com as ciências naturais,
entendendo que a união do Velho e do Novo Mundo e o povoamento das Índias
Ocidentais eram:
“um ponto útil e importante da História, através do qual podemos admirar e
venerar, com a devida modéstia, o admirável governo e os extremamente sábios
desígnios de Deus. E como a história nos dá escassas provas desse fato, a ciência
natural oferece-nos motivos para sua confirmação, através de experimentos e
conclusões lógicas.” Segundo o autor, a natureza era capaz de conceder “à alma uma
felicidade tão portentosa que nenhuma outra no mundo se lhe iguala”. 399
J. W. C. A. von Honvlez-Ardenn ressaltava no início da sua obra, que o Velho
Mundo compreendia três partes do Mundo, chamadas Europa, Ásia e África. Ao
Novo Mundo ou Índias Ocidentais, foi dado o nome América, sendo considerada,
naquele momento, a quarta parte do mundo. O Velho e o Novo Mundo eram
separados pelo grande Oceano Mundial (Atlântico), que conforme “alguns sábios”, no
passado, constituíam uma única terra. Segundo o autor, terremotos violentos com
subsequentes inundações fizeram alterações importantes no contorno de ambos os
continentes, havendo diversos registros desde a Antiguidade que confirmavam isto,
inclusive os acontecimentos mais recentes, como o terremoto que destruiu parte da
cidade de Lisboa.400

185
Em parte, estes fenômenos explicariam a passagem de seres humanos e
animais de um para outro continente e que era “muito provável ter-se separado a
América da África, através de uma única inundação”.401 Contudo, desde o
descobrimento do Novo Mundo surgiram muitas divergências entre os “sábios sobre o
seu povoamento. O fenômeno do deslocamento, segundo a tese que defendiam, teria
ocorrido pela região do Mar do Norte, em decorrência de congelamento. Por
conseguinte, a origem dos povos americanos, considerando seus usos e costumes,
línguas e aparências “teriam uma marcante relação e semelhança com a língua e os
hábitos de lapões e outros povos nórdicos”. 402
O autor refletia que, mesmo em se admitindo essa hipótese, não seria fácil
entender como “as diversas espécies de animais, sem mesmo falar dos homens,
vieram do Velho Mundo para a América, quando se consideram as terríveis condições
atmosféricas e o frio, insuportável para todas as criaturas vivas, que reina sob o Pólo
Norte”.403 A viagem empreendida pelo astrônomo francês Reginald Outhier, membro
da Academia Francesa de Ciências, que acompanhou Pierre Louis Moreau de
Maupertuis na viagem para a Lapônia, com o objetivo de medir o meridiano no
círculo polar, registraram as dificuldades de sobrevivência nessa região, em virtude do
violento frio. Desta forma, era questionável a hipótese da ocupação da América.
Outras possibilidades se apresentavam, defendendo a ideia de que a ocupação do
continente teria sido feita em tempo mais recente, a partir da Europa ou da África, ou
ainda por meio de outras grandes ilhas habitadas, ou pelo mar. Caso estas situações
fossem verdadeiras, haveria ainda uma questão a ser respondida que era como os
animais quadrúpedes teriam chegado às ilhas, uma vez que estas “foram separadas da
terra firme do Velho Mundo pelo Dilúvio Universal”. Os animais quadrúpedes não
poderiam ter chegado às ilhas, por si próprios, nem era plausível que os habitantes do:
“Velho Mundo tivessem levado consigo os animais selvagens, através do mar, para as
Índias Ocidentais e outras grandes ilhas, porque quem quereria transportar para
alguma terra animais não domesticados, cuja multiplicação poderia apenas originar
mais perigo e dano que benefícios?”.404
Além disso, como observava Abraham van der Myl (ou der Mijl – 1553-
1637), autor do livro “De origine animalium et migratione populorum” (Da origem
dos animais e da migração das populações), publicado em 1667, nas Índias

186
Ocidentais, achavam-se animais que só ali eram gerados. Para J. W. C. A. von
Honvlez-Ardenn, aquele estudioso tinha investigado muito pouco do livro da
natureza, pois em todas as regiões “da superfície da Terra são achados vestígios
incontestáveis do grande dilúvio”.405
Considerando os elementos estudados, von Honvlez-Ardenn concluía que
“muito provavelmente, a América antigamente constituía uma única terra com a
África” não havendo obstáculos, em tempos remotos, para a chegada do homem e dos
animais, que se multiplicaram e habitaram essa “então desconhecida parte da Terra”.
Os dois continentes teriam ficado separados por “uma distância considerável”, até que
Cristóvão Colombo (1451-1506), Américo Vespúcio (1454-1512), Fernão de
Magalhães (c. 1480-1521), e outros navegadores fizeram a descoberta e o
reconhecimento daquele quarto continente.406 Segundo o autor, por longo tempo se
pensou que:
“o Velho e o Novo Mundos, assim como algumas das ilhas oceânicas,
pudessem ter formado uma única terra firme, desde que achamos evidências, em
nosso ora habitado solo da Terra, de ter ele constituído o fundo do mar em tempos
antigos. Isso prova, ao mesmo tempo, que o mar mudou de leito em épocas passadas.
Consequentemente, o vasto oceano deve haver ainda provocado modificações mais
estranhas por grandes irrupções e inundações. Ao supor que o Velho e o Novo
Mundo, assim como as ilhas adjacentes, antes formassem uma única terra firme ou
unida, é possível explicar como as ilhas posteriormente separadas foram ocupadas por
animais. Ao modificar o mar seu leito, inundando regiões inteiras, podemos supor
que, em tempos muito antigos, houve inúmeras incursões dele sobre a terra firme e
que, em consequência, uma grande extensão de terra foi separada por uma
inundação”.407
Esta teria sido a provável origem das grandes ilhas, e os animais quadrúpedes
que já se encontravam numa ilha por ocasião da inundação permaneceram ali, devido
à inundação. O resultado dessa situação foi a propagação das espécies. Para ele, era
indiferente se a causa dessas modificações teria sido um terremoto ou uma incursão
do oceano sobre a terra firme. Pois, uma simples penetração do mar poderia espalhar-
se a ponto de dividir a região em duas partes. Os argumentos apresentados eram
suficientes para defender a possibilidade de o Velho e o Novo Mundo terem sido

187
antigamente uma única terra.408 Em seguida, o autor apresentava outro argumento que
era o mito de Atlântida, que teria chegado à Grécia, por meio de registros egípcios e
que fora fixado por Platão. Von Honvlez-Ardenn entendia que as referências do
filósofo ateniense deveriam ser consideradas, como já defendiam outros estudiosos
antigos, posteriores a Platão. Isto o induzia a afirmar que:
“as Ilhas Canárias e os Açores, além da Ilha de Cabo Verde ou Promontório
Verde, assim como outras das grandes ilhas do Mar do Norte, são remanescentes da
vasta região inundada pelas vagas, que formava uma terra firme com o Velho e o
Novo Mundo, pois que outra coisa são as ilhas senão altas montanhas rochosas e
elevações da superfície terrestre, que as águas do oceano não podem cobrir por causa
de sua altura?”.409
O texto Von Honvlez-Ardenn demonstra preocupação pelo conhecimento dos
antigos, originado pelas experiências e pelo saber adquiridos nos séculos seguintes ao
pensador ateniense. O olhar questionador sobre a origem dos homens, a circulação de
plantas e animais, as similaridades e as diferenças entre os continentes aguçavam os
debates acadêmicos e as pesquisas para se buscar explicações plausíveis para entender
o mundo, pelos próprios elementos do mundo.
Neste sentido, a figura dos viajantes naturalistas foi de fundamental
importância, pois, por meio de seus relatos e levantamentos, era possível formular
indagações com as propostas acima. Se a diversidade das coisas do mundo natural era
grande, era necessário ordenar o discurso e as práticas de trabalho e registro, a fim de
tornar a experiência das viagens úteis para futuros estudos.
Desde o século XVII, havia preocupação em sistematizar orientações/
instruções para aqueles que se dedicassem à coleta de informações sobre o mundo
natural. Em 1695, John Woodward (1665-1728) escreveu a obra “Brief instructions
for making observations in all parts of the world”, conforme solicitação da Royal
Society. O texto fornecia orientações aos viajantes: como observar o mundo natural e
os habitantes do local; desenhar com detalhes as espécies; dar atenção aos elementos
fundamentais para serem levados numa bagagem.410
A descrição da realidade natural, presente em muitos pintores entre os séculos
XV e XVII, mostrava a importância que as imagens têm para a construção do
conhecimento do período. Como menciona Paolo Rossi:

188
“As ilustrações dos livros de botânica, anatomia e zoologia não são meras
integrações do texto. A insuficiência das descrições verbais dependia também da
ausência de uma linguagem técnica (que pela botânica é alcançada somente no
decorrer do século XIX). Por isso, a colaboração dos artistas nas ciências descritivas,
teve efeitos revolucionários.”411
O filósofo naturalista, em suas peregrinações, deveria observar as seguintes
orientações: iniciar o registro montanhas, pois estas tinham diversos usos para os
homens, fosse como fronteira, ou pelas fontes de água, ou potencial local para
obtenção de minérios. O naturalista deveria atentar para as montanhas mais primitivas
(formação primária) e para a altura e a conformação do relevo, para em seguida
identificar os possíveis veios de metais preciosos, bem como a distância que estes se
encontravam do povoamento mais próximo e este do litoral. Da mesma forma, deveria
se proceder com os demais reinos, fazendo anotações que fossem úteis para as
pesquisas.
Dentre os trabalhos que conquistaram uma difusão acentuada encontra-se o de
Étienne-François Turgot (1721-1789), que realizou viagens de pesquisas pela colônia
francesa da Guiana. Sua experiência o levou a escrever “Memóire instrutif sur La
maniére de rassembler, de prepare, de conserver et d’envoyer les diverses curiosités
d’histoire naturelle, auquel on a joint un m`emoire intitulée: Avis pour le transport par
mer, des Arbes, des plants vivaces, de Semences, & de diverses autres Curiosités
d’Histoire naturelle” (1758). O trabalho tinha como objetivo instruir sobre a escolha,
o preparo e a conservação das espécies que fossem enviadas para a Europa. Alertava
que as condições inadequadas de manuseio e transporte, bem como as condições
adversas do clima poderiam comprometer as amostras que estavam sendo
transportadas.412
Outro trabalho que se atinha à questão de instruções era o de Joseph Martin
que elaborou o manual de procedimentos intitulado: “Instructions pour servir aux 30
caisses et 105 Barriques d’arbres, plantes et graines remisses au Sr Martin pour le
jardin royal des plantes de Paris” (1788).413
O que se nota é que cada instituição procurou produzir normatizações para
orientar os pesquisadores e seus auxiliares. Na primeira metade do século XVIII
circulou por Portugal, algumas instruções, normalmente publicadas em inglês ou

189
francês que ganhou difusão a partir da reformulação da Universidade de Coimbra e da
atuação da Academia de Ciências de Lisboa.
Domingos Vandelli, que manteve estreito contato com Lineu, registrado num
amplo conjunto de missivas, procurou estabelecer algumas diretrizes para que seus
alunos tivessem um padrão nas suas observações. Esta iniciativa seguia o movimento
que acontecia na Europa publicando de manuais de instrução que visavam a fornecer
procedimentos para os viajantes naturalistas. Em 1779, Domingos Vandelli redigiu a
obra intitulada: “Viagens filosóficas ou Dissertação sobre as importantes regras que o
filósofo naturalista, nas suas peregrinações deve principalmente observar”. Texto
conciso, fornecendo orientações aos naturalistas que provavelmente começavam a
utilizar o material ainda na Universidade de Coimbra. Pelo teor das orientações, é
possível inferir que a obra foi composta com base nos diversos registros efetuados
anteriormente em terras brasileiras. Nas instruções constavam orientações para que se
registrasse o histórico das terras a serem exploradas e a caracterização etnográfica dos
habitantes, bem como outras informações que fossem importantes para o
reconhecimento de novas espécies da natureza e que fosse de utilidade para a coroa
portuguesa.414
O trabalho de Domingos Vandelli era um estímulo para que a Academia das
Ciências de Lisboa elaborasse as orientações da instituição. A obra “Breves
instrucções aos correspondentes da Academia das Sciencias de Lisboa sobre as
remessas dos productos, e noticias pertencentes à Historia da Natureza, para formar
hum Museo Nacional”, publicado em 1781, tinha como objetivo fornecer diretrizes
para a aquisição de conhecimentos sobre as diversas espécimes de animais vegetais e
minerais, encontradas em diferentes países. A obra reunia o aprendizado de uma série
de experiências anteriores e visava a fornecer orientações para que o trabalho do
viajante não fosse perdido. Da mesma forma, fornecia os elementos básicos para
observar, coletar e catalogar espécies dos diferentes reinos da natureza.415
A Academia Real de Ciências de Lisboa, entendendo que os trabalhos de
pesquisa serviam ao bem público e eram de utilidade, definiu pela publicação desta
obra por servir para o “o adiantamento das Artes, Commercio, Manufacturas e todos
os mais ramos da Economia”. Em se considerando, que o objetivo principal era o de
formar em Lisboa um Museu Nacional que reunisse e conservasse produtos de várias

190
partes do reino, era importante estabelecer alguns procedimentos para que as espécies
chegassem ao reino, das diversas partes do império, de forma integra. Havia
preocupação para que os exemplares não sofressem dano, o que permitiria um melhor
estudo e exposição ao público. A experiência mostrou que o mau preparo e
acondicionamento de alguns materiais se perderam. Desta forma, era importante
estabelecer um conjunto de instruções para se fazer a escolha, preparo e
acondicionamento das espécies, pois nem todas as pessoas envolvidas no processo
eram instruídas sobre o assunto.
As instruções, pressupondo dificuldade para efetuar os registros, orientavam
para que pelo menos em parte o trabalho fosse realizado. Conforme o texto, a remessa
dos animais eram as mais difíceis, na medida em que se deveria “impedir a corrupção,
a que estão mais sujeitos, que os indivíduos dos outros dois reinos”. O preparo de
cada animal seria diferente, porém, sem exceção alguma deveriam ser remetidos com
a cabeça. Nos quadrúpedes dever-se-ia preservar também as unhas, os dentes e não se
fazer “rotura consideravel na pelle”. As aves deveriam ter o bico, pés e penas
preservados. Os peixes deveriam ser enviados com todas as barbatanas e caudas.
Com relação aos quadrúpedes, os cuidados específicos se atinham à
preservação do tamanho e da característica do animal. Como a carne do animal se
corrompia com facilidade, era necessário esfolá-los, “de modo que, cheia a sua pelle
com alguma materia estranha, se lhes dê a mesma fórma exterior, que tinhão em
quanto vivos”. Para tanto, seria necessário fazer uma incisão direta da parte mais
inferior do ventre até o ânus, ou duas se fossem necessárias. Estas também deveriam
ser feitas a partir do ânus e continuar pela parte interior das coxas ate atingir as
pernas. Por esta abertura, a pele seria afastada das coxas para cortar as articulações e
descarnar o animal. A operação deveria prosseguir despegando a pele das costas até
chegar à cauda que, caso não pudesse ser esfolada, deveria ser cortada na junta que
unia ao corpo. A seguir, deveria se repetir a mesma operação na parte da cabeça do
animal, fazendo o mesmo com as patas dianteiras. A pele deveria ser retirada até
descobrir a metade da cabeça para descarnar. Uma vez separada esta do corpo pela
junta, dever-se-ia extrair as substâncias do cérebro e depois limpá-las com “algodão
misturado com pedra hume calcinada em pó, ou com outras materias de cheiro astivo,

191
como tabaco, pimenta, alcanfor, &c., ensopando primeiro tudo em oleo de
therebentina”.
A língua deveria ser cortada pela raiz e sendo aconselhável “descarnar bem os
queixos, se encherá a parte da goélla que restar pegada á cabeça”. Os olhos deveriam
ser arrancados, de forma que as pálpebras não fossem rompidas. Proceder-se-ia a
limpeza e, após o enchimento, o local dos olhos deveria ser preenchido com outros
artificiais, fosse de vidro, esmalte ou outra matéria sólida que imitasse “na figura e
cores os naturaes”. Caso isto, não fosse possível, dever-se-ia remeter desenhos com as
cores próprias e uma descrição exata das características. Uma vez separada a pele do
corpo, era necessário raspar bem o interior dela com instrumento afiado, tomando o
cuidado para que não se rompesse. A pele deveria ser lavada com “sabão desfeito em
agua tepida, até que fique sem o menor resto de carne, sangue ou gordura, que possa
ser principio de corrupção”.
Terminada a lavagem, a pele deveria ser seca e para garantir esta situação era
necessário pulverizar cal extinta ao ar, reduzida a pó por si mesma. A operação
poderia ser feita com cal viva misturada com uma dose de greda.416 Esta operação
deveria ser repetida quantas vezes fosse necessário, até que a pele estivesse
inteiramente seca. Para evitar o dano que alguns insetos viessem a causar, era
conveniente defumar as peles com vapor de enxofre inflamado, sendo em seguida
acondicionados em panos bem tampados, para que outros insetos não depositassem
ovos.
Findada esta operação, tinha início o preenchimento do corpo do animal com
alguma matéria mole e seca e de drogas antiputridas. O naturalista deveria ser valer de
um arame para a operação, tendo como objetivo garantir a constituição do animal
quando estava vivo, inclusive o da sua postura natural. Posteriormente, deveria
proceder à limpeza do animal, excluindo qualquer vestígio que impregnasse a pele, no
momento do preparo da mesma. A pele deveria ser posta dentro de um caixão e
transportada com cuidado, evitando que no transporte fosse danificada. Além disso, as
juntas das tábuas deveriam ser vedadas para que a umidade não comprometesse a
integridade da amostra.
Estes procedimentos só eram possíveis com animais de “mediana grandeza”.
Para os de grande porte, deveriam remeter as peles com a cabeça pegada e com todas

192
as unhas, seguindo os procedimentos anteriormente descritos. Caso o processo de
secagem não fosse suficiente, deveria colocar a pele no forno, por um período de seis
horas, em condições que o calor não queimasse a pele nem o cabelo. Com cada uma
das partes, o procedimento de acondicionamento era o mesmo. Neste caso, era
fundamental que se enviassem pranchas de desenhos com descrições detalhadas, em
especial daqueles que não eram vulgarmente conhecidos, ou possuíam alguma “coisa
de extraordinário”.
As orientações não se atinham somente aos que preparavam as amostras, mas
também àqueles que a recebiam. Em se identificando algum indício de corrupção, o
técnico deveria conservar a pele do animal pelo espaço de dois dias em algum “licor
espirituoso”, e depois a secaria acomodando-a adequadamente.
Com os quadrúpedes de pequeno porte, não se podendo seguir o procedimento
acima, dever-se-ia proceder a uma incisão pequena junto ao ânus extraindo os
intestinos, e depois de bem limpa e enxuta a cavidade seria feito o enchimento com
estopa ou algodão, misturando drogas antiputridas. Arrancados os olhos, e seguindo o
procedimento acima, estes deveriam ser imersos em água ardente por algum tempo,
repetindo a operação pelo menos uma vez. Em seguida, os olhos deveriam ser
acondicionados em vasos cheios de licor, composto de “tres partes de agoa pura e
uma de espírito de vinho, no qual se tenha dissolvido huma boa porção de pedra hume
calcinada”. A vedação do bocal dos vasos deveria ser feita por tampas justas e
betumadas com mistura de cera e resina, tomando-se cuidado para que eles não
quebrassem no movimento de transporte.
Quanto aos esqueletos dos animais, que também entravam na “classe das
preciosidades que merecem hum lugar distinto nos Gabinetes”, estes não
necessitavam uma preparação tão delicada. Findada a limpeza dos ossos, bastava
numerá-los, tomando o cuidado para repetir nas duas extremidades o número, por
onde se uniam uns aos outros. Esta operação possibilitava armar novamente o
esqueleto. Era prudente empacotar os ossos de cada animal em pacotes diferentes e
acomodá-los nos caixotes de forma que não se quebrassem no transporte. Se não fosse
possível enviar os esqueletos inteiros, dever-se-ia remeter pelo menos as partes mais
“notaveis dos animaes pouco vulgares; e dos outros, aquellas partes que tenhão
alguma coisa de extraordinário”.

193
O método de preparar as aves não diferia substancialmente dos quadrúpedes.
Neste caso, a incisão seria feita no ventre desde o ânus até o osso do peito. Era
aconselhável que se fizessem duas incisões, saindo do ânus e seguindo pelas coxas até
encontrar a asa da ave. Em seguida seria separada a pele do corpo, procedendo à
operação do ânus para as asas e da cabeça para as asas. Feita a separação, as patas
deveriam ser cortadas nas juntas e os ossos bem descarnados. A pele das costas
deveria ser separada até chegar ao uropígio, cortando em seguida com uma tesoura
pela articulação que unia ao corpo. A pele deveria se retirada do corpo da ave com
cuidado para que não rompesse, tanto nas asas, como na cabeça, separando os ossos o
máximo que fosse possível.
O esvaziamento do crânio seguia o procedimento similar ao dos quadrúpedes.
Todavia, nas aves aquáticas e naquelas que a cabeça fosse grande, cujo pescoço não
era fácil de se esfolar até chegar ao crânio, sem o perigo de romper, era aconselhável
que se separasse a cabeça do pescoço pela última junta.
Antes de revirar a pele, era orientado que se raspasse o interior dela, para
limpá-la do sangue e gordura. O procedimento de pulverizar ocupava a fase seguinte,
que deveria ser composto de “huma parte de pedra hume queimada, outra de alcanfor,
duas de solimão, duas de nitro puro, duas de flor de enxofre, quatro de pimenta, e
outras quatro de tabaco”. Para que a operação de virar a pele, sem estragar as penas,
era adequado passar, antes de iniciar a operação, um fio comprido e forte pelos
orifícios dos “narizes”, o que auxiliaria a puxar a cabeça para fora e voltar à situação
original.417
O método de encher as cavidades do corpo, da boca, e dos olhos era idêntico
ao que foi descrito anteriormente, levando-se em conta que era adequado proceder
com delicadeza, para que as características das aves fossem preservadas. Preparadas
as penas, a amostra deveria ser envolvida numa pano, acomodado entre materiais
moles e secos, sendo o caixote embebido de óleo de terebintina.
Em relação às aves pequenas, deveriam seguir os mesmos procedimentos
aconselhados para os quadrúpedes pequenos. A ressalva era a de quebrar o osso do
peito, para não ficarem com deformação e serem acondicionadas de forma adequada
para preservar as penas. Para o transporte, em se considerando a distância, era
conveniente lançar uma infusão de espírito de vinho bem forte, contendo uma boa

194
porção de pedra ume e alcanfor. Esta infusão deveria ser feita por um período de
quinze dias.
Os ovos, que também eram importantes para os gabinetes de raridade,
deveriam ser esvaziados por um pequeno orifício, feito em uma das extremidades, ou
em ambas. Os mesmos deveriam ser acomodados em bolsas de algodão para não se
quebrarem. Aqueles que fossem enviados para fecundar antes deveriam ser
acomodados nos caixotes, e cobertos pelo “methodo sabido de ‘Reaumur".418
Os ninhos, objetos de alguma curiosidade, deveriam ser acondicionados com o
mesmo cuidado, tomando-se a precaução de eliminar os insetos comuns. Para tanto,
deveriam se colocar os ninhos no forno, somente para neutralizar as infecções,
envolvendo em pano a fim de impedir novos insetos. Répteis, serpentes e cobras
grandes, sendo possível separar a pele do corpo, deveria se proceder de forma similar
aos quadrúpedes de porte médio. Todavia, nos répteis era necessário tomar cuidado
com a incisão que deveria ser da parte do ventre, do meio da cauda até o pescoço,
seguindo pelo interior das coxas e patas até as articulações.
No texto é relevante a ressalva em relação às cobras: aconselhava-se que “nas
cobras grandes, como as giboias, se fará em todo o seu comprimento, por onde as
escamas das costas se ajuntão com as do ventre”. Deveriam ser enroladas em espiral
para o acondicionamento nas caixas.
Os répteis, de tamanhos pequenos, eram suficientes serem imersos em licores
espirituosos, que contivesse grande quantidade de pedra ume e alcanfor, renovando-se
preparo duas vezes antes de enviar.
Os peixes, que os naturalistas chamão ‘cetáceos’ com a pele parecida com a
dos quadrúpedes, deveriam ser preparados do mesmo modo que estes. A diferença era
uma incisão que se deveria fazer na parte inferior, pela extensão do comprimento. Tal
operação auxiliava no processo de evacuação. Dos peixes de maior porte, bastava que
fossem enviadas as peles secas e preparadas.
Caso os peixes a serem enviados fossem chatos e delgados, de forma que se
pudesse secar bem, extraídas as entranhas com algum instrumento acomodado e
lavada bem a cavidade, deveria ficar em infusão em água ardente pelo espaço de doze
a quinze dias. Após esta operação, o peixe deveria ser estendido com o lado mais
branco para baixo sobre uma lamina de vidro, ou madeira, “tendo particular cuidado,

195
em que as barbas, cauda e barbatanas fiquem na sua situação natural: e para que estas
á medida, que forem seccando, se não torção, e descomponhão”. Uma vez arrumados
e enquanto estivessem úmidos com a cola natural, pregavam-se algumas tiras de papel
na parte superior, a fim de conservá-los sempre a mesma posição. Após esta operação,
os peixes deveriam ser expostos ao Sol ou a um vento forte, durante quatro ou cinco
dias; depois disso dizia o manual: “despegará o peixe por meio de huma agulha de
fardo, ou outro instrumento similhante, que mettendo-se entre o peixe e a lamina, se
faça caminhar da cabeça até á cauda, para não desconcertar as barbatanas; o que
succederia, conduzindo-se a agulha em sentido contrario”. Voltando a parte inferior
do peixe para cima, ficava exposto ao sol ou ao vento, pelo tempo necessário. A
operação deveria ser repetida até que o peixe estivesse perfeitamente seco. A etapa
seguinte era untar o peixe com verniz transparente para ser acomodado nos caixotes.
Os peixes com escamas, pela delicadeza da pele, não poderiam ser preparados
como os “cetáceos”. Além disso, a espessura da carne impedia o processo de
secagem. Neste caso, os peixes deveriam ser cortados em duas partes, conduzindo o
corte pelo umbigo desde a cabeça até a cauda, cuidando-se para que todas as
barbatanas e a cauda ficassem inteiras e pegadas a uma das duas metades. Esta parte é
que deveria ser destinada à conservação; limpavam-se as escamas com o gume de
uma faca, que a tocava levemente e corria desde a cabeça até a cauda. A operação
feita em sentido contrário poderia arrancar as escamas “em cujas cores e lustre
consiste hum dos principaes merecimentos dos peixes escamosos”.
Com a mesma faca, dever-se-ia despegar pouco a pouco a carne até que
ficasse só a pele com a metade da cabeça pegada. Tiravam-se o cérebro e todas as
porções de ossos que formavam diferentes separações no interior do crânio. Os olhos
seriam extraídos, mas a forma e as cores deveriam ser detalhadamente anotadas. Caso
a cabeça do peixe fosse curva era aconselhável que se aplanasse com algum peso.
Esta meia pele deveria ser manuseada pela parte interior e fixada com a sua cola
natural numa folha de papel, tomando o cuidado para preservar a integridade das
barbatanas e da cauda. Após a secagem cobria-se com uma camada de verniz
transparente. Com os peixes de pequeno porte, os procedimentos recomendados eram
os mesmos indicados aos répteis pequenos.

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Os crustáceos, os pequenos e os grandes, dependendo do seu porte, poderiam
ser preparados de duas formas diferentes. Em relação aos primeiros, quando fosse
impossível eliminar as substâncias moles e corruptíveis, ou que não as pudessem
secar em detrimento de sua forma e cores naturais, o crustáceo deveria ser acomodado
sobre o ventre as suas pernas, acondicionado de forma cuidadosa as suas antenas,
separadamente, cada uma delas em um pequeno pano que deveria ser amarrado por
um fio. Estando assim embrulhados, deveriam ser mergulhados em espírito de vinho
para serem remetidos. O preparo dos crustáceos grandes era mais fácil; separava-se a
casca que cobre o corpo da parte inferior, a qual fica presa às pernas na substância
mole do animal. Para uma boa preservação, esta substância seria extraída de todas as
pernas, ou pelo menos das mais grossas. Depois de lavadas e limpas todas as
cavidades, tinha início o enchimento com as mesmas substâncias mencionadas nos
casos anteriores, devendo permanecer ao sol para secagem. Em seguida, deveriam ser
acondicionadas com as precauções comuns para que as amostras chegassem intactas
ao seu destino.
No que dizia respeito ao preparo de insetos, apesar da sua variedade, três
eram os procedimentos. O primeiro grupo incluía os insetos que possuíam a casca
dura e asas fortes, possíveis de conservar a sua forma externa após a secagem. Neste
caso, os exemplares deveriam ser colocados em fornos aquecidos na temperatura ideal
para dissipar a umidade interior, sendo possível ter o mesmo resultado com o calor do
sol em países quentes. No segundo caso, que incluía borboletas e algumas espécies de
moscas, o procedimento seria o mesmo mencionado acima. Porém, como “todo o
merecimento destes insectos consiste na delicadeza de suas azas, e na vivacidade e
formosura de suas cores”, era importante, que ao se apanharem as amostras fossem
postas entre duas folhas de papel com as asas bem estendidas e postas ao sol até que
fossem perfeitamente secas. O terceiro e último grupo era composto por todos os
insetos que possuíssem uma substância mole e que após a secagem perdessem o seu
aspecto e suas cores naturais. Estas espécies deveriam ser conservadas em licores,
como os descritos acima.
As instruções da Academia Real de Ciências de Lisboa previam ainda
orientações, em especial para conchas e outras espécies marítimas.

197
As estrelas do mar, pela sua delicadeza, principalmente quando pequenas e de
pouca espessura, deveriam ser imersas em conservante à base de vinho, ou em água
fervendo, a fim de coagular a substância interior. Em seguida, os exemplares
deveriam ser expostos ao vento para secarem, sendo cobertos posteriormente por um
verniz, antes de serem encaixotados. As estrelas de maior porte exigiam a extração da
parte interna uma “espécie de carne, ou parenchyma”. Para extrair a substância
interior era preciso fazer uma incisão circular, incompleta, na região central, onde se
unem as “pernas” das estrelas marinhas, para que esta parte ficasse unida à parte
externa. Por meio de um instrumento curvo, que se deveria introduzir na parte
interior, a substância era retirada para depois secar e proceder às operações
subsequentes.
As estrelas marinhas, após apanhadas e ainda vivas, deveriam ser postas de
ventre para baixo em uma mesa. Tal cuidado visava a que elas estendessem as pernas
até ficarem na sua postura natural. As estrelas assim deveriam permanecer durante
três a quatro dias, tempo suficiente morrerem e ter início o processo de tratamento
acima descrito.
Nos animais marinhos que tivessem espinhos agudos, delicados e duros era
necessário introduzir um arame de extremidade curva na abertura natural existente na
parte inferior, para extrair a substância mole que ali existe. Após a retirada, era feita
uma lavagem com água ardente e secagem, sendo acondicionadas com o cuidado para
que os espinhos não se quebrassem durante a viagem.
O naturalista deveria atentar para o fato de que as conchas “univalves ou
polyvalves” eram importantes para se preservarem em gabinetes. Neste caso, não era
aconselhável enviar conchas que se apanhavam nas costas do mar, pois o movimento
das águas e a fricção da areia eliminavam parte de suas propriedades. Por isso, a
espécie deveria ser coletada ainda viva. Recomendava-se desenhar o animal com
todos os detalhes.
Por fim, o manual ressaltava que, para todas as espécies provenientes do mar,
antes que se realizasse o processo de secagem, era preciso lavá-las em água doce,
tendo em conta que o sal marinho atraía umidade, a qual poderia corromper o
material.

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A segunda parte das Instruções continha orientação sobre a remessa dos
vegetais. O texto reforçava a idéia de que o objetivo das instruções era o de enriquecer
o Museu Nacional e não formar um Jardim Botânico; por isso, não se detinha a
métodos de como transportar árvores e plantas de locais no estrangeiro para o
território português, matéria que já fora tratada por outros autores.
O objetivo principal era orientar sobre a forma de remeter as plantas secas ao
museu. As plantas pequenas, com raiz, tronco, folhas e frutos deveriam ser colhidas,
tomando-se o cuidado para que nos casos em que não produziam ao mesmo tempo as
flores e frutos, que se colhessem duas amostras representativas de cada fase.
Das árvores de maior porte, era suficiente colher um ou dois ramos mais
tenros com os frutos ou flores a serem enviados. Contudo, era conveniente que se eles
não pudessem seguir juntos, se identificasse nas remessas a que planta, frutos e flores
pertenciam. Os ramos ou plantas deveriam ser secos e as folhas deveriam ser
estendidas entre papéis pardos. Estas folhas, envoltas em papel, deveriam ser
comprimidas numa prensa, mudando-se os papéis até que a umidade delas fosse
extraída. O conveniente era que ao termino da operação elas fossem expostas ao sol.
Para o envio das amostras era aconselhável utilizar caixas de folha de Flandres
e na falta delas o acondicionamento se faria em bolsas vedadas, com drogas de cheiro
forte, ou tabaco para afastar insetos. Possuindo folhas, flores e frutos espessos que não
se pudessem secar pelo método acima, por estes ficarem “desfigurados”, as plantas
deveriam ser enviadas em vasos de água aguardente, com os devidos cuidados.
Os frutos, que pela sua dureza pudessem se conservar por muito tempo sem
corrupção, deveriam ser colhidos maduros e expostos ao sol por algum tempo, para
poder evaporar alguma umidade e posteriormente colocados em caixas. Da mesma
forma, proceder-se-iam com raízes tuberosas ou plantas bulbosas, que se conservam
sem corrupção por muito tempo, como o gengibre, cúrcuma, amomum e outras. O
período mais adequado para a colheita em terras de clima temperado era a primavera
ou o final de outono.
Cascas de troncos das árvores deveriam ser remetidas como também amostras
de madeira, devido às suas características após o polimento ou textura, ou cor, ou
outra qualidade/ utilidade que pudesse ter para “as manufacturas, e usos da
Sociedade”.

199
Em relação às sementes as instruções eram sintéticas pela prática difundida na
sociedade. O maior cuidado implicava colher as sementes depois de maduras e,
estando secas, acomodá-las com musgo fresco, sem comprimi-las. As sementes
grandes poderiam ser cobertas por cera derretida e um pouco de óleo de terebintina,
para evitar que a temperatura da untura não afetasse o fruto. As sementes que
amadurecem dentro de “cápsulas”, onde se conservam, assim deveriam ser enviadas.
Em relação aos produtos do reino mineral, os cuidados não eram tantos, mas
foram feitas algumas ressalvas, considerando a divisão em terras, pedras e fósseis. As
diversas espécies de terra poderiam ser remetidas em pequenos sacos diferentes.
Aquelas que apresentassem alguma concentração salina ou propriedade que pudesse
se fazer uso deveriam ser remetidas em maior quantidade. A exigência para remessa
de pedras é que elas deveriam se destacar pela raridade: “ou pelos saes, que
contenhão, ou pela sua côr, dureza, figura, transparencia, &c., como são os crystaes,
agathas, marmores, congelações, amiantos, &c”
Os fósseis considerados importantes para os estudos dos filósofos naturalistas
deveriam ser preservados num museu. Por decorrência, era recomendável que de
todos os metais e outros gêneros de petrificações importantes fossem obtidas
amostras. Os exemplares acima deveriam ser enviados em caixões separados e
embrulhados com números diferentes, facilmente identificáveis na relação que fosse
remetida junto.
Deveriam ser colhidas amostras de espécies consideradas pertencentes à classe
marinha como madrepérolas, corais, litofitos e outras formas. O procedimento
adequado era escolher as mais inteiras com o maior número de ramos. Como na
operação de extração estas poderiam vir com fragmentos de rochas e de outros
exemplares menores, era aconselhável que se remetesse tudo, pois o conjunto seria
objeto de análise. Em se considerando, que estas espécies não estavam sujeitas a
corrupção, bastava que fossem acomodadas em caixões, bem forrados para que não se
danificassem durante o trajeto.
Como as espécies acima eram as “casas habitadas por animaes do genero dos
polypos, os quaes se multiplicão huns sobre os outros de hum modo analogo, ao modo
com que crescem os ramos das plantas”, estas deveriam ser extraídas diretamente do
mar. As massas duras, que os contém, deveriam ser postas em vasos cheios d’água do

200
mar. O material ficaria em repouso por uma hora, após isto, com o auxílio de uma
lente se examinariam os animais fora das grutas. Nesse instante, com os dedos ou
outro instrumento, aprisionava-se o animal, que deveria ser colocado imediatamente
em vinho, de forma que ele não tivesse tempo de se contrair, estando na sua forma
natural antes de morrer. Os cuidados posteriores eram os mesmos para que o material
chegasse ao destino sem corrupção.
Os musgos marinhos ou coralinas, para serem enviados, era suficiente que
fossem lavados em água doce e depois secos e acomodados de forma similar às
remessas das plantas terrestres. As esponjas marinhas, cuja natureza não era
adequadamente conhecida, também mereciam fazer parte das coleções de gabinetes.
A operação de coleta e envio era simples, bastava serem lavadas em água doce, passar
pelo processo de secagem e depois serem devidamente acondicionadas.
O último capítulo das Instruções tratava da forma como deveria se proceder à
elaboração de notícias referentes à História Natural, sempre levando em consideração
as coisas mais notáveis do terreno onde se acharam os “productos, e os costumes dos
povos que o habitão”.
Era fundamental que cada caixote que seguisse com amostras, contivesse uma
relação exata das espécies acomodadas, devidamente identificadas. A relação deveria
conter debaixo de cada número “o nome tanto indígena, como estrangeiro da dita
especie, e o nome com que a costumão distinguir os Naturalistas”. Nas anotações era
importante registrar todas as qualidades, em especial as menos conhecidas. Em
relação aos animais a descrição deveria ter os aspectos que:
“distinguem mutuamente as differentes especies, como he tudo, o que
pertence á sua geração, lugares que habitão, tempo de coito e de parto, instinto,
artificios, alimentos, doenças, duração, &c.; mas com mais particularidade se
demorará sobre as utilidades, que do uso delles póde resultar para a vida humana.”
No que dizia respeito aos vegetais, a descrição deveria declarar os lugares
onde foram encontrados, a estação de plantio, o tempo da frutificação, os usos que se
fazia das espécies, evidenciando se poderiam ser utilizadas como alimento, para
práticas medicinais ou a utilidade para outras artes.

201
Nos registros sobre minerais era mandatório identificar os lugares onde foram
encontrados, a profundidade de seus veios, a natureza dos terrenos circunvizinhos e os
usos que se fazia do mesmo.
Além das relações particulares era conveniente que fossem enviados relatos
gerais. O naturalista deveria guardar consigo uma cópia fiel dos exemplares enviados,
para evitar o envio de uma segunda remessa dos mesmos.
A descrição geográfica do local deveria conter tudo o que “lhes parecer mais
digno da attenção de hum Filosofo”. Para tanto, a fim de evitar confusões, poderiam
fazer suas anotações separando as que “pertencem á terra, as que pertencem ao ar, e as
que pertencem á agoa”.
Deveriam constar do registro os elementos fundamentais, como: longitude e
latitude do lugar, o clima, as dimensões e posição em relação aos pontos cardeais, e a
sua figura. Para as particularidades havia a seguinte orientação:
Primeiro, quanto aos montes, deveria declarar a sua existência e quantidade, se
havia promontórios e vulcões, com suas alturas, descrevendo os vales, vizinhos e as
características do mar, identificando “quaes as suas direcções, quaes as grossuras de
seus bancos, e mais qualidades interiores, e exteriores”.
Outro registro era quanto à natureza do terreno, seus animais, aves, insetos e
todos os tipos de espécies que produziam ou que habitavam o local. Da mesma
maneira, deveria se proceder com os vegetais e minerais, onde foram encontrados, a
sua abundância e os usos que os habitantes faziam deles.
A terceira categoria de registros era referente às características físicas e
culturais dos homens que habitavam a região, identificando as feições, a cor, a força
dos indivíduos, a fecundidade das mulheres, os partos, as doenças e outros aspectos
correlatos.
Por último, o relato deveria contemplar a estrutura interior do terreno,
descrevendo cavidades subterrâneas, vulcões, veios metálicos e as camadas do solo.
Outros aspectos também eram importantes de serem identificados como a
qualidade do ar, se era seco ou úmido, e o calor e frio da região. Indicar a existência
de meteoros e suas espécies e o tempo de sua duração. Em relação aos ventos era
preciso mencionar os gerais e os particulares, com suas freqüências, da mesma forma

202
se procederia no registro das estações e sua regularidade. Os efeitos do ar sobre as
doenças dos habitantes deveria também ser objeto das informações.
No que dizia resto à água era preciso indicar as qualidades da água do mar,
destacando profundidade, peso específico, distâncias e alturas, variedades de peixes,
insetos, plantas e outras variedades, bem como os períodos de maré e a influência da
lua. Quanto aos rios se faria a descrição dos mais notáveis, indicando a foz, os peixes,
os insetos e as plantas existentes, além das matérias que poderiam ser encontradas no
seu leito. Das fontes mais importantes, era necessário ressaltar as propriedades
minerais com as qualidades e virtudes. Caso a região explorada fosse vizinha ao mar,
era indicado fazer um desenho claro das costas e apontar as diferenças observáveis
nas diversas estações do ano.
O importante era que o correspondente tivesse clara a importância de se fazer
relatos completos sobre todas as características sobre o local, podendo dividir seu
texto em título, sendo sugerida a seguinte divisão: “Religião, Politica, Economica,
Artes, Tradições etc.”419
Em 1783, a obra de José Antonio de Sá, “Compêndio de Observações que
formam o plano da Viagem Política e Filosófica que se deve fazer dentro da
Pátria...”,420 salientava a importância da viagem para a economia portuguesa,
preocupado em fornecer elementos para um conhecimento sistemático dos recursos
naturais, que pudessem ser utilizados pelos funcionários da coroa. O texto ressaltava
a importância que do uso da ilustração com riscos e pinturas que auxiliassem na
descrição do objeto, quando a narrativa não conseguisse fazê-lo com clareza.
O texto aconselhava aos viajantes naturalistas que utilizassem nos seus
registros as orientações propostas por Lineu, quanto a classes, ordens, gêneros e
espécies dos reinos animal, mineral e vegetal. O texto tem preocupação didática,
procura estabelecer regras para que os naturalistas relatem adequadamente suas
observações e estudos de viagens, procedendo com precisão e técnica, conforme as
normas da ciência naquele período, facultando a realização de estudos subsequentes.
Em 1800, Frei José Mariano Velloso publicou a obra “Naturalista instruído
nos diversos methodos antigos, e modernos de ajuntar, preparar, e conservar as
produções dos reinos da natureza, coligido de diferentes autores” pela Casa Literária

203
do Arco do Cego. O texto dava uma dimensão adequada de como a História Natural
conquistara um papel de destaque.
Enquanto religioso, louvava a Deus por haver dotado cada reino terrestre com
características naturais diferentes. Tal situação era propicia para se formar “prosélitos
de historia Natural, ciência me de todas, as que podem formar a felicidade do homem,
enquanto vive, e por consequência, fazer que ele seja um cidadão útil, um vassalo
necessário”. Seu trabalho era útil para formar vassalos humildes, pois reunia um
conjunto de escritos de diferentes autores e línguas. No primeiro tomo, Frei Velloso
dedicou-se ao tratado do modo como encher e conservar animais. Conforme o texto
do Abade Manesse, sendo a “Historia Natural entre todas as Ciências a mais
agradável, deveria em todos os tempos ter amadores, fixar a atenção do verdadeiro
Filósofo, formar-lhe o objeto da sua admiração, dos seus exames do seu divertimento,
e da sua curiosidade”.421 Frei Mariano Velloso entendia que a natureza oferecia
maravilhas aos homens que não poderiam ser insensíveis a ela. O animal, um ser vivo,
causava maior impressão aos sentidos humanos do que uma árvore, planta, flor ou
minério qualquer. O animal encantava pela sua elegância e “fisionomia”, pela sua
dimensão, pelo seu comportamento, bem como por sua variedade.422 Ele entendia que
era impossível conservar por muito tempo os animais cheios para envio a um museu
ou jardim botânico, pois inevitavelmente seriam consumidos por insetos. O uso de
drogas combinadas sem nenhum critério não poderia garantir a preservação.
Para provar sua hipótese, o Frei Mariano Velloso observou e constatou que,
em alguns casos, mesmo com os cuidados dispensados, havia a destruição dos animais
cheios, uns resistindo mais do que outros, pois:
“ainda que fossem preparados do mesmo modo, com as mesmas precauções;
porque no mesmo animal certas partes eram atacadas pelos insetos por preferência a
outras, que não pareciam tão bem preparadas: porque isso acontecia mais em um
tempo, do que em outro, em o qual a temperie do ar parecia igualmente favorável ao
desenrolamento, e a propagação dos insetos: porque finalmente as cores dos animais
se alteram algumas vezes dentro de pouco tempo”.423
Pelo seu método investigativo, o religioso encontrava os efeitos e identificava
a verdadeira causa da corrupção do animal. Seu estudo lhe facultou perceber que a
decomposição de animais cheios ocorria especialmente quando a gordura passava por

204
uma fermentação que rapidamente causava putrefação e atraia os insetos.
Comparando animais com muita e pouca gordura, percebeu que os primeiros se
decompunham mais rapidamente, principalmente pelos efeitos do calor. A mudança
de cor advinha do licor oleoso que desprendia do animal no processo de
fermentação.424 Mediante isto, constatava que o único método para conservar animais
cheiros era destruir a gordura contida na pele deles. Abandonou, então, os métodos
antigos “pela pouca propriedade, que tinham, para encher o meu objeto” e criou
outros. Criticava os venenos que causavam danos aos animais e faziam mal ao próprio
preparador. Declarou que o estudo iniciado em 1762 e prosseguido até 1768, quando
realizou diversas experiências, nunca indicou deterioração; desde que o espécime
fosse abrigado da chuva e da umidade todos permaneciam “belos, e tão frescos, como
se acabassem de ser cheios”. Isto permitiu chegar ao método em cujo processo
empregavam-se um ácido e um “alcali”. Este era usado em peles mais velhas que
também passavam por alguma preparação, e em pássaros. Para garantir bom
resultado, era aconselhado o uso de alume puro que, devido ao sal e sua virtude acre,
e cáustica, fixava a gordura, que era a causadora da corrupção.425 O alcali fixo da soda
era à base de outro método, empregado em peles secas, e que tivessem passado por
preparações. O estudioso afirmava que:
“tendo já tido um certo grau de fermentação, está, pelo dizer assim, nu, e fora
dos seus receptáculos: e por isso neste caso somente os alkalis são, os que se podem
combinar com ele; e desta combinação resulta um legítimo sabão, que nenhum inseto
pode acometer: o álcali tem também esta vantagem, vem a ser, que logo que se aplica
ao interior destas peles, as quais pelo ordinário estão engrovinhadas, duras e
quebradiças, ficam no mesmo instante tão moles e tão brandas, como se estivessem
frescas, o que dá a maior facilidade para as voltar a uma, e outra parte tirar-lhes o
tecume celular, e a matéria gorda, e oleosa que contém”.426
Este e outros detalhamentos exigiam atenção e rigor no uso das substâncias.
Para que os animais fossem devidamente preparados, Frei Mariano Velloso orientava
o naturalista na preparação dos animais, cujo teor remetia ao texto “Breves
instrucções aos correspondentes da Academia das Sciencias de Lisboa sobre as
remessas dos productos, e noticias pertencentes à Historia da Natureza, para formar
hum Museo Nacional”.

205
Para tanto, Frei Mariano Veloso concebia suas instruções em cinco partes. A
primeira, que apresentava o modo de esfolar quadrúpedes, répteis, rãs, lagartos e
como deveria ser preparada a pele e o enchimento. Num segundo momento, ele
explicava a forma de esfolar os pássaros e os procedimentos adequados para realizar a
operação. Na terceira parte, indicava como se deveriam preparar as peles vindas do
estrangeiro, que só poderiam vir secas, tendo passado por um tratamento. Em outro
momento, relatava o resultado de suas experiências combinadas, conforme os
princípios científicos; e por último, apresentava o modo de fazer a cor dos os olhos,
imitando os naturais.427 Estavam aí as orientações essenciais para um viajante
naturalista atuar de forma condizente com os princípios científicos, que
paulatinamente tinham sido aprimorados, embora ainda estivessem longe do ideal.
A viagem no século XVIII incorporou a evolução do conhecimento e das
técnicas dos séculos anteriores. O avanço da física, química, biologia, anatomia,
zoologia, astronomia e outras ciências permitiram que a própria condição da viagem
se alterasse, bem como a forma de ver o mundo e reunir novos conhecimentos. A
viagem passou a fazer parte do processo de práticas culturais que poderiam conduzir à
construção e aperfeiçoamento do conhecimento científico. A viagem instrutiva fazia
que muitos tivessem como objetivo viajar para conhecer o mundo natural de regiões
desconhecidas, a fim de coletarem espécies e colecionarem tudo o que fosse possível.
A natureza poderia extasiar o viajante a cada momento, na medida em que este
descobria a diversidade de espécimes. Contudo, para a investigação científica, era
necessário um registro que incorporasse uma leitura exata e pautada numa
metodologia. Da mesma forma, a precisão atingia as representações cartográficas e os
primeiros Atlas universais de ampla circulação conquistam o público.428 Marie-Noëlle
Bourget ao estudar o perfil dos exploradores observa que:
“Completamente diferente é a situação do explorador que viaja em solo firme:
só ou na companhia de alguns colegas, ajudado por vezes por um intérprete, sem qual-
quer outra bagagem para além de um maço de mapas, um relógio, uma bússola e
alguns instrumentos de astronomia, uma espingarda, agendas, alguns frascos e um
herbário, o viajante atravessa países por vezes hostis, caminha, esgota-se, treme de
frio ou de febre, sem hipótese de regressar”.429

206
Tal alteração pode ser constada no material de orientação ao viajante
naturalista, elaborado para que ele não perdesse o foco e os padrões científicos. Pode-
se afirmar que as instruções visavam a estabelecer um procedimento de leitura mais
uniforme sobre a natureza. O olhar deveria estar atento para registrar tudo que fosse
novo/diferente, dando a localização e as características principais, pelo menos do que
conhecia. Tendo em conta as condições da viagem e os recursos disponíveis, os
registros deveriam ser breves e diários, para que se pudesse ter uma dimensão mais
adequada do dia-a-dia da expedição. Dever-se-ia fazer anotações concisas durante o
percurso e nos momentos de descanso fazer descrições mais pormenorizadas. Não
bastava descrever apenas a espécime, era fundamental que se se considerasse o
sistema da natureza em que estava inserida, com a maior quantidade de detalhes, para
que se pudesse ter uma clara dimensão da variedade. O cuidado também se estendia
às amostras a serem enviadas, que deveriam ser preparadas de maneira adequada para
não se corrompessem, e para que fossem analisadas. Este conjunto de procedimentos
contribuíra no processo de aprimoramento das ciências.

207
Quinto Capítulo

A natureza brasílica:
dimensões da descoberta
e da conquista

“Só se pode vencer a natureza obecendo-lhe”.


Francis Bacon

“A sabedoria da natureza é tal que não produz nada de supérfulo ou inútil”


Nicolau Copérnico

208
5.1 A natureza exótica dos trópicos

Num primeiro momento, os relatos do século XVI procuraram descrever as


espécies da natureza sem outra preocupação que não fosse informar e reconhecer.
Conhecer, neste momento, era verificar a utilidade das espécies e prevenir-se dos
perigos que por ventura elas poderiam causar. Descrever os animais e as plantas era
um desafio que começava a partir da informação sobre a forma, tamanho,
comportamento, cor, odor, som e outros aspectos possíveis de serem constatados por
meio do olhar, da audição, do tato, do olfato e do paladar. Ao descrever o resultado
dessa observação sensorial, procurando dimensionar o mundo natural, foram se
construindo seres, cuja somatória incluía características de espécies que normalmente
existiam na Europa. Não raro, algumas plantas foram associadas ao jardim de delícias,
há muito sonhado pelos europeus. O universo da natureza brasílica, no que era
possível, aproximava-se de aspectos de uma natureza ora imaginada, ora real.430
No caso brasileiro, o primeiro relato histórico sobre as terras e a natureza está
diretamente vinculado à descoberta. A “Carta de Pero Vaz de Caminha”, que
registrou o achamento da Ilha de Vera Cruz, posteriormente Terra de Santa Cruz e
que viria a ser conhecidas como Brasil, é um dos documentos que revela um tipo de
registro que se fazia no período. O relato historiava ao rei português, D. Manuel I
(1469-1521), sobre a descoberta e conquista de seus vassalos. O olhar atento de Pero
Vaz de Caminha (1450-1500) descreveu, de forma sucinta, a viagem de Portugal às
Ilhas do Atlântico e destas às novas terras. A chegada e os primeiros contatos fizeram
parte do relato que visava a dar a idéia completa das terras encontradas. Natureza e
homens distintos do europeu. Receios de ambas as partes e também o desejo de
reconhecimento. Interações e trocas culturais sem uma compreensão maior do que
aquele momento representaria. Uma experiência antropológica que ficaria sendo um
marco para a nação brasileira. O Brasil nascia na pena de um relato de viagem dentre

209
muitos outros que se seguiriam e permitiriam compor um amplo quadro das terras
brasileiras.
A “Carta de Pero Vaz de Caminha” cumpriu a sua função ideológica, no
sentido de mostrar a necessidade da ação portuguesa na conversão religiosa do
indígena. Concomitantemente, o registro forneceu um conjunto de informações que
ampliava o conhecimento sobre a terra recém-descoberta e seus habitantes. O
princípio axiológico, que justificou o estabelecimento de narrativa das novas terras e
gentes, era a grandiosidade e a diferença nele contida. A singularidade e
grandiosidade suscitavam a admiração decorrente do acontecimento.
Os relatos dos viajantes contribuíram para a estruturação do saber sobre a
alteridade e as novas terras. A experiência por eles vivida era o arcabouço que
norteava o verdadeiro e o tornava digno de ser narrado. No primeiro relato sobre as
Terras de Santa Cruz, a idealização da natureza já estava presente. Este registro
constrói uma imagem idílica, um paraíso terral repleto de atrativos naturais.431 Como
bem destacou Sérgio Buarque de Holanda, a mentalidade da época abraçava “alguns
modos de pensar de cunho analógico”.432
Pero Vaz de Caminha, após relatar o descobrimento em si e os contatos com
os nativos, descreve os elementos naturais da terra, ressaltando a sua grandiosidade e
as suas qualidades, onde o mundo natural é percebido na sua diversidade. dizia que de
ponta a ponta era possível visualizar uma praia rasa muito plana e bem formosa. O
sertão parecia se estender pelo interior, e do mar era possível ver terra e arvoredos,
parecendo muito extensa. Em primeiro lugar, não tinha sido possível identificar nem
ouro, nem prata, nem outros recursos que pudessem ser rentáveis, porém a terra era
boa de ares, tão frios e temperados, com abundância de água. A terra era graciosa.433
A carta de Pero Vaz de Caminha transmitia a imagem de uma natureza com
inúmeras promessas. Sem dúvida, a mais desejada era a obtenção de riquezas
extraordinárias. Imagem de uma terra paradisíaca que se prolongaria por muitos anos,
principalmente no que dizia respeito à riqueza natural da terra. Desde a visualização
do monte Pascal até os momentos finais da missiva, a potencialidade da terra e de
suas belezas são exaltadas. Pero Vaz de Caminha procurou fornecer uma visão de
conjunto sobre a vegetação; "o sertão era imenso e por grandes extensões era possível
ver senão terra com arvoredos, que nos parecia muito longa".434 Pero Vaz de Caminha

210
distingue algumas plantas e pelas ribeiras identificou a existência de palmas, não
muito altas, em que havia muito bons palmitos. Afirmara que haviam colhido e
consumido muito deles. A natureza brasílica fornecia aos homens europeus o seu
primeiro sabor.
Enfatizando a possibilidade de exploração da natureza, Caminha salientou que
alguns selvagens traziam uns ouriços verdes, de árvore, que, na cor, queriam parecer
de castanheiros, embora menores. E eram cheios duns grãos vermelhos pequenos que,
esmagados entre os dedos, apresentava uma tintura muito vermelha, com as quais os
selvagens pintavam os próprios corpos.435 Em outro trecho da carta, diz que Pedro
Álvares Cabral determinara que os dois condenados que seguiam na embarcação
passassem a noite em terra firme na companhia dos indígenas; estes retornaram
dizendo os habitantes lhes haviam oferecido muito inhame e outras sementes como
alimento.436 Desta forma, a natureza brasílica era capturada no momento da
descoberta.
Os relatos de viagens do século XVI e XVII foram marcados pelo tom da
aventura. As agruras da experiência marítima e a sobrevivência fizeram parte de um
conjunto de registros que misturavam conquistas aos naufrágios e às catástrofes. Nos
primeiros anos após a descoberta, o litoral brasileiro foi visitado por diversos
navegadores de Portugal e de outras nacionalidades que, de alguma forma,
registraram suas impressões sobre as terras da América Portuguesa.
A partir da instituição dos Governos Gerais, a presença de missionários
jesuítas foi marcante durante o período colonial. As cartas e relatórios desses
religiosos, como observamos anteriormente, revelaram aspectos das terras brasílicas.
Na maioria das vezes, esses religiosos provenientes de diversas partes da Europa, em
grande parte de Portugal e da Espanha, foram os primeiros a fornecerem informações
sobre as terras. Enquanto religiosos, tinham a missão de catequizar e converter,
trabalhando com muito esforço numa terra ocupada por aborígenes e pouco conforto
material poderiam encontrar. Personagens de um primeiro movimento de
deslocamentos deixaram as suas marcas em registros na segunda metade do século
XVI. Ser membro da Companhia de Jesus implicava liberdade de deslocamentos para
qualquer parte do mundo. A obediência definia que a designação para uma missão não

211
poderia ser questionada. A vontade que prevalecia era o dos interesses da instituição
religiosa e da coroa portuguesa.
A natureza das terras brasílicas possuía singularidades e pouco a pouco era
conhecida pelos europeus, mesclando nos registros o novo e o estranho com o exótico
da fauna e da flora. A natureza, descrita como um conjunto homogêneo, com
qualidades positivas e negativas, é relatada neste momento sem diferenças
significativas quanto à fauna e à flora. Todavia, esta primeira impressão apresenta as
terras com toda a potencialidade de atrativos naturais possíveis.
A primeira descrição da terra feita pelo padre Manuel da Nóbrega em abril de
1549, logo após sua chegada à Bahia, confirmou as condições do local: “a terra cá
achamo-la boa e sã”.437 Em outra missiva escrita no mesmo ano, o padre Manuel da
Nóbrega deu ênfase aos atrativos da natureza, delineando-nos com nuances do
maravilhoso e do paradisíaco. O religioso procurava criar textos conforme suas
impressões sensoriais, delineando quadros de um cenário monumental pela beleza
incomensurável. Para ele, a terra brasílica era sã e de bons ares, permitindo o trabalho
e a sobrevivência humana. Os doentes logo saram, tendo em vista as condições
climáticas serem mais adequadas nas diferentes estações do ano. Na terra havia:
“muitas frutas e de diversas maneiras, e muito boas e tem pouca inveja as de
Portugal. Mora no mar muito pescado e bom. Os montes parecem formosos jardins e
hortas, e certamente nunca eu vi tapete de Flandres tão formoso, nos quais andam
animais de muitas diversas maneiras, do quais Plínio nem escreveu nem supôs. Tem
muitas ervas de diversos odores e muito diferentes das d’Espanha, e certamente bem
resplandece a grandeza, formosura e saber do Criador em tantas, tão diversas e
formosas criaturas”.438
O tom inflamado na descrição destacava os atrativos das terras da América
Portuguesa. O olhar deslumbrado dos viajantes era marcado pelo violento contraste
entre as paisagens, os animais e plantas da Europa e aqueles aqui encontrados. A
viagem permitia novas experiências e exigia uma percepção aguçada, para identificar
semelhanças e afinidades. Afinal de contas, a natureza comportava todos os tipos de
mistérios possíveis.439
A natureza e seus atrativos iam se tornando tema central dos registros por
aqueles que passavam pelas terras da América Portuguesa. O padre José de Anchieta

212
foi um dos cronistas cujos textos eram organizados e sistematizados sobre a
diversidade encontrada. Na Carta do Irmão José de Anchieta ao padre Diego Laynes,
escrita em São Vicente a 31 de maio de 1560, a descrição de alguns aspectos da
natureza ocupa boa parte da longa missiva. Descrevendo principalmente o mundo
animal, a carta se destaca pelo tom didático informando e instruindo o leitor quanto às
peculiaridades da terra, a exuberância e o esplendor da fauna brasílica. Com olhar
atento, o religioso registrou as peculiaridades clima e de cada espécie, chamando a
atenção para a diversidade, sem a preocupação de enumerá-las ou classificá-las,
tampouco em explicar as relações entre as várias espécies ou sua interdependência,
como foi comum nos registros dos viajantes científicos do século XVIII.
As condições climáticas permitiram que os viandantes se referissem às terras
brasileiras das formas mais variadas, conforme o que consideravam mais adequado
para a existência humana. No passado, aqueles que se aventuravam nas viagens não
tinham dimensão clara das variações climáticas existentes nos hemisférios norte e sul.
A viagem permitia que o viajante tivesse contato com diferentes climas e descobrisse
as variações existentes entre as diversas partes do mundo. Desejava-se encontrar uma
região que tivesse bons ares e que não houvesse nem frio nem calor, um clima que se
aproximasse daquele que existiria no paraíso terreal.
Nos relatos de viagem, desde o século XVI, é comum encontrar referências às
características ao clima. A temperatura chama a atenção dos viajantes que chegam às
terras brasileiras. Conforme destacamos anteriormente Hitlodeu, na obra “Utopia”, o
calor tórrido do Equador diminuía com a latitude em direção do polo Antártico. Além
disso, o clima nas regiões abaixo da região do Equador era mais ameno e agradável do
que o do continente europeu. Um tempo ameno marcava o limite entre o nem frio e
nem calor da terra dos brasis.
Os ventos, as chuvas, os ares eram constantemente observados pelos viajantes.
O movimento de ar nas regiões litorâneas, que soprava no final da tarde sobre a terra,
acompanhado algumas vezes de precipitações atmosféricas abundantes, contrapunha-
se àqueles encontrados na Europa. O jesuíta José de Anchieta observou que:
“As estações do ano (olhando de perto) são aqui inteiramente às avessas de lá;
no tempo em que lá é primavera cá é inverno e vice-versa; mas são tão temperadas
que não faltam no inverno os calores do sol para suavizar o rigor do frio, nem no

213
verão as brandas brisas e as úmidas chuvas para regalo dos sentidos; ainda que como
já disse esta terra, da beira-mar, é quase todo o ano regada por águas da chuva”.440
O clima nas terras brasileiras era oposto ao da Europa, o inverno começava em
março e acabava em agosto. O verão, por sua vez, começava em setembro e acabava
no fim de fevereiro. Desta maneira, o Advento e o Natal ocorriam em pleno verão.441
Apesar das imprecisões em relação às quatro estações, padre José de Anchieta
expressou sua experiência, não sendo fácil para ele estabelecer as separações entre
cada estação, como se fazia na Europa. As irregularidades do clima tropical causavam
confusão e nem sempre era possível distinguir como facilidade a época da primavera
e do inverno.442
As chuvas ou a ausência delas chamavam a atenção. Em alguns anos não
chovia na quantidade necessária. Apesar do calor, que não era excessivo, havia falta
de água e por consequência os homens padeciam com a seca. Não havia água para
beber, os frutos não vingavam e as raízes apodreciam.443 Se o clima causava
padecimentos, por outro lado ele foi visto como benigno para a longevidade de seus
habitantes. O próprio José de Anchieta, em “Informação da Província do Brasil de
1585”, registrou que o clima do Brasil era muito temperado, de bons e delicados ares
e muito sadios, onde os homens viviam muito, até oitenta, noventa e mais anos, e a
terra estava cheia de velhos. As condições climáticas, bem diferentes da Europa, eram
um atrativo para aqueles que desejassem viver em uma região em que não houvesse
nem frio, nem calor intensos. Para o religioso, merecia destaque o céu que era muito
puro. A noite era prejudicial à saúde, entretanto, as manhãs eram saudáveis, pois logo
o calor do sol se fazia presente.444
Na terra dos brasis eram poucos os animais criados pelos indígenas, que
viviam basicamente de caça. Uma fauna abundante pelos campos facilitava a caça e a
pesca. Azpilcueta Navarro enumerou a diversidade de exemplares da fauna silvestre.
Assim fala o missionário:
“Há muita caça assim de animais como de aves; há uns animais que se
chamam antas, pouco menos que mulas, e parecem-se com elas, senão que tem os pés
como de boi. Também ai muitos porcos monteses e outros animais que tem uma capa
por cima a maneira de um cavalo armado; (tatu): há raposas, lebres e coelhos como
nessa terra; ai muitas castas de macacos, e entre eles umas paradas com barbas como

214
homens; há veados, gatos monteses, onças, tigres e muitas cobras, entre as quais há
umas que tem na cauda uma coisa a maneira de cascavel, e também soa, e quando
topam alguma pessoa bulem e fazem soar com ele, e se acerta de não apartar-se,
mordem-la, e poucos escapam dos mordidos que não morrem. Há umas aves que são
perdizes, otras como faisões, com outras muitas diversidades. Também vi em poder
de índios dois avestruzes”.445
Para Anchieta, a fauna também era exótica e impressionante, pois havia
veados de dois gêneros: “uns armados de chifres como os da nossa terra, e estes raros;
outros, brancos, sem chifres, que nunca entram nos matos, mas sempre pastam em
bandos pelos descampados”. Abundavam também gatos monteses, gamos, porcos
bravos, de várias espécies. Pontuando as diferenças entre o litoral e o sertão,
destacava que, pelo interior do território, “para os lados do Peru, que dizem Nova
Espanha, há ovelhas monteses, do tamanho de vacas, revestidas de lá branca e bela,
das quais os unidos se servem, para levar e trazer cargas, como de jumentos”.446
Na maioria dos relatos iniciais, elaborados pelos jesuítas sobre as terras
brasílicas, a fauna ocupa referências pontuais e escassas. Contudo, na Carta do Irmão
José de Anchieta ao Pe. Diego Laynes, escrita em São Vicente a 31 de maio de 1560,
destaca-se a atenção à fauna. A carta tinha a intenção didática de informar e instruir o
leitor quanto às peculiaridades da fauna, constatadas no cotidiano e dignas de serem
mencionadas, pois respondiam às preocupações de sobrevivência humana. Anchieta,
neste relato, traz à tona a exuberância e o esplendor da fauna brasílica, revelando a
novidade do mundo animal na América Portuguesa. Há nele um contido
deslumbramento com as espécies, em relação ao novo; descrições físicas de cada
animal, peculiaridades de cada espécie, bem como os seus benefícios e malefícios.
Tendo como linha mestra estes três enfoques na descrição, é que Anchieta descreve as
onças, notando que as diferenças físicas permitiam dividi-las em duas variedades:
“Também há aqui onças, que são de duas variedades: umas cor de veado, mais
pequenas e mais cruéis; outras malhadas e pintadas de diversas cores, que são mais
freqüentes em toda a parte, e estas, ao menos os machos, são maiores que os maiores
carneiros, porque as fêmeas são mais pequenas, em tudo semelhantes aos gatos e
servem para se comer, como por vezes experimentamos. Em geral são medrosas e
acometem pelas costas, mas têm tanta força que com um golpe das unhas ou dentada

215
dilaceram o que tomam. As presas dizem os índios que as enterraram e as vão
comendo até acabar”.447
A fauna desconhecida exigia maior atenção de seus cronistas, como por
exemplo, a onça. Esta, passível de ser utilizada na alimentação diária, também
poderia ser causa de morte, como alertava Anchieta que, para comprovar a ferocidade
do animal, relatou alguns casos sobre a dimensão de sua crueldade.448 Identificando
quatro castas para os macacos, Anchieta nomeou características específicas do animal
e sua utilidade para a alimentação, excluindo qualquer informação que pudesse gerar
confusão e as alegorias sobre o animal. Os macacos, informava o jesuíta:
“em quantidade infinita, são de quatro castas muito boas todas para se
comerem, como com freqüência o experimentamos, alimento muito são até para
doentes. Vivem sempre nos matos, saltando em bandos pelos cimos das árvores, onde
se, por causa da pequenez do seu corpo, não podem saltar duma árvore a outra, o
maior e como chefe do bando, agarra-se de cauda e pés a um ramo curvado, pega
outro com as mãos, faz de si mesmo caminho e como ponte para os restantes, e assim
todos passam com facilidade. As fêmeas têm as mamas no peito como as mulheres, e
com as crias pequenas sempre pegadas às costas e aos ombros vão de um lado para o
outro, até elas poderem andar por si. Contam-se deles coisas maravilhosas, mas
incríveis por isso as omito”.449
O registro de Anchieta refere a diversidade e tenta traçar hábitos dos animais,
suas características físicas, procurando construir uma imagem deles. Detalhes sobre a
procriação e alimentação dos filhotes são registrados conforme as prescrições de
Plínio, o Velho. Outros, menos relevantes, configuravam o caráter seletivo do
cronista Anchieta. O macaco foi destacado pelo seu convívio grupal, sendo sua carne
comumente utilizada na dieta alimentar. A exuberância da fauna brasílica aguçava a
curiosidade do religioso. Entrelaçando aspectos curiosos com a utilidade da carne do
animal, o missionário sistematiza detalhes de exemplares da fauna, quando dignos de
menção e pelo caráter ímpar, sob o seu ponto de vista. Um dos exemplos mais
completos é o do tamanduá:
“Há também outro animal de feio aspecto, que os índios chamam tamanduá,
de corpo maior que um cão grande; mas, curto de pernas, pouco se ergue do chão, e
por isso é vagaroso, e o homem pode alcançá-lo na carreira. As suas cerdas (negras,

216
entremeadas de cinzentas) são muito mais arrepiadas que as do porco, sobretudo na
cauda, provida de longas cerdas dispostas umas de cima para baixo e outras
transversalmente, com a qual recebe e repele o golpe das armas. Recobre-se de pele
dura, que as flechas não penetram com facilidade: a do ventre é mais mole. O pescoço
é comprido e fino, a cabeça pequena muito desproporcionada ao tamanho do corpo, a
boca redonda, da medida de um quanto muito dois anéis, a língua estirada com três
palmos de comprido na porção que pode deitar fora, sem contar a que fica dentro (que
eu medi); e deitando-a de fora, costuma-a estender nas covas das formigas, e, assim
que estas a enchem inteiramente, a recolhe dentro da boca. E este é o seu ordinário
comer”.450
Atraído por esta espécie, Anchieta não deixava de mencionar que o seu
testemunho era comprovado pelo contato direto com o animal, alegando que ele
próprio fizera a medição. Outro jesuíta, Fernão Cardim, no século seguinte, dedica-se
às particularidades do animal, especialmente a anatomia da boca que o obrigava a
alimentar-se de forma distinta. O tamanduá se deitava ao longo de um formigueiro
com a língua de fora, recolhendo formigas, repetindo a operação até saciar-se: “e
deitando a língua de fora pegam-se nela as formigas, e assim a sorve porque não tem
boca para mais que quanto lhe cabe a língua cheia delas”.451 Como sugeriu Gerbi, a
descrição da diversidade era o primeiro passo para captar a nova realidade, e os
jesuítas tinham uma necessidade implícita de capturar esta nova realidade tornando-a
parte de um universo cristão. A multiplicidade de exemplares, antes de remeter a um
mundo animal exuberante, confirmava que a Arca de Noé teria sido muito maior do
que até então se imaginara.
O Padre de Anchieta também faz menção à anta e ao seu uso alimentar,
destacando que era um animal fácil de ser encontrado, “próprio para comer, que os
índios chamam tapiira, os hispânicos “anta” e os latinos, segundo creio, “alce”. Para
ele, o animal era parecido com a mula, sendo um pouco mais curto de pernas. As
patas eram fendidas em três pontas e o beiço superior era proeminente. A cor oscilava
entre o camelo e o veado, mas uma pouco mais intensa. Havia um músculo no lugar
das crinas, que auxiliava o animal a abrir caminho nos cerrados. A cauda era curta,
sem nenhuma cerda. Era uma espécie noturna; dormia durante o dia e à noite nutria-se
de diversos frutos das árvores; na falta destes, comia as cascas. Quando perseguida

217
por cães repelia-os a dentadas ou coices, ou atirava-se aos rios e ficava muito tempo
escondido debaixo d'água. Por isso, vivia de preferência perto dos rios, em cujas
ribanceiras costumava escavar a terra e mastigar o barro.452
O tatu era outro animal que chamava a atenção por suas características e por
sua carne ser consumida por habitantes da terra. Este animal era frequente e vivia
pelos campos em cavidades subterrâneas, sendo a cauda e a cabeça semelhantes à dos
lagartos. O corpo era coberto por couraça que impedia a penetração de flechas, “muito
parecida armadura do cavalo”. Quando era perseguido, procurava se defender
escavando a terra com rapidez e ali se abrigava. Era difícil retirar o animal de seu
esconderijo, pois ele resistia agarrando-se à terra com as patas.453
As descrições tendiam a reforçar o sentido de posse, pois como afirmou Gerbi,
em “La natureza de las Indias nuevas”, reconhecer era já um ato de conquista e
sujeição.454 Capturar a diversidade da nova realidade do mundo natural implicava a
adoção de um modelo invariável, normalmente sugerindo a fauna européia,
destacando apenas características especificas da fauna da América Portuguesa. As
espécies atraíam pelas diferenças de forma e hábito, revelando que a natureza
existente sobre a face da terra era muito mais ampla do que aquela encontrada e
imaginada na Europa e nem sempre fácil de ser descrita nos séculos XVI e XVII.
A preguiça era um animal lento, com uma cara que, segundo o jesuíta José de
Anchieta, se assemelhava à da mulher. O “aîg”, como era chamado, era um animal
preguiçoso, “mais vagaroso que um caracol”. O corpo era grande e cinzento. O
focinho se assemelha ao “rosto de mulher, longos braços munidos de unhas também
compridas e recurvadas, com que o dotou a natureza para subir a certas árvores, de
cujas folhas e rebentos tenros se alimentam, no que gasta boa parte do dia”. Para os
narradores não era fácil dizer quanto tempo o animal demorava a mover um braço. A
preguiça, após subir nas árvores, ficava lá até esgotar a árvore toda, passando em
seguida para outra. O animal agarrava-se com tanta força ao tronco da árvore que não
era possível arrancá-lo senão cortando-lhe os braços.455
Não menos curioso era o gambá. José de Anchieta descreveu o animal como
sendo semelhante a uma raposa pequena, que cheirava “muito mal” e gostava de
comer galinhas. Na parte inferior do ventre havia uma abertura de cima para baixo,
onde se localizavam os mamilos das fêmeas. Quando estas davam cria, os filhotes

218
eram acolhidos nessa bolsa, saindo dela somente quando já tinham condições de
sobreviver pelos próprios esforços próprios. O religioso salientava que quando se
matava a mãe, era difícil arrancá-los com vida da bolsa em suas tetas.456
Outro animal que atraiu o olhar de religiosos e viajantes foi a capivara, que se
alimentava de erva e não era tão diferente dos porcos. A espécie possuía uma cor
“ruiva” e “dentes como os da lebre, exceto os molares, parte dos quais se fixam nas
mandíbulas, parte no meio do céu-da-boca”. Sua carne era consumida em grande
quantidade, pois o animal era facilmente domesticado e criavam-se em casa como
cães, pois saíam “a pastar e voltam a casa por si mesmo”.457
No primeiro século após a descoberta, as descrições dos atrativos da fauna se
deviam à possibilidade de algumas espécies serem incluídas na dieta alimentar dos
viajantes, que no percorrer do território tiveram que se valer dos recursos existentes,
adaptando-se aos hábitos locais. A lontra, que também vivia nos rios, era consumida
com regularidade e sua pele servia para cintos e os pelos eram macios. Porém, para
aprisionar o animal corria-se perigo, pois o caçador tinha que se lançar no rio e lutar
com o animal que possuía unhas e dentes afiados e provocavam feridas graves. 458
Se a fauna atraía pelos seus recursos ilimitados, ela também ocupou espaço
pelos perigos que oferecia. A natureza seduzia, mas não os isentava dos riscos. As
narrativas privilegiaram aquelas espécies que, ao mesmo tempo em que constituíam
uma fonte alimentar, eram um perigo para o homem que deveria empregar o seu
engenho para saber livrar-se das ameaças durante os deslocamentos pelo território.
Neste sentido, foi descrito o jacaré, que apesar da sua corpulência e
ferocidade, nem sempre era uma ameaça. Esta espécie era encontrada nos rios sendo
“cobertos de duríssimas escamas e armados de agudíssimos dentes”. Por vezes, saíam
da água, momento que era possível a sua caça, sempre feita com “grande trabalho e
perigo, como é óbvio em tamanho animal”. A carne era própria para consumo, sendo
uma iguaria apreciada.459
No silêncio da floresta, os aventureiros sentiam solidão, melancolia. Os sons
dos pássaros e de outros animais interrompiam o vazio sonoro e davam ao viajante
oportunidade para imaginar. As aves das terras brasileiras chamaram a atenção pela
variedade de espécies e pelas ricas plumagens que encantaram os olhos, ao mesmo
tempo em que os cantos dos pássaros encantavam os ouvidos. Aves de todos os portes

219
eram possíveis de serem encontradas e foram registradas pelos relatos daqueles que
tiveram como preocupação fornecer aos seus pares a dimensão das experiências que
tiveram no solo americano.
As descrições de araras, tucanos e papagaios foram comuns, com suas penas
multicoloridas que enfeitavam os cocares indígenas. As emas eram aves cujo tamanho
do corpo as impedia de voar, mas que chamavam a atenção pelo seu porte. O
mergulhão, os guarás e outras espécies de aves da costa com seus bicos e hábitos
particulares de alimentação foram apreendidos pelos registros dos viajantes.460
Conforme destacou Paulo de Assunção, as descrições dos animais seguiam uma
sequência similar àquelas dos bestiários medievais, onde os animais eram descritos,
um subsequente ao outro, sem nenhuma afinidade genética ou qualquer outra diretriz
que não fosse a divisão de Plínio, o Velho, que ordenava a fauna em quatro castas:
terrestres, aquáticos voadores e insetos.461
Os relatos de viagens e descrições sobre as novas regiões descobertas
ganharam maior importância a partir da segunda metade do século XVI. O geógrafo
italiano Giovanni Battista Ramusio (1485-1557) publicou em 1550 a obra “Delle
navigationi et viaggi”. Nesta obra se encontra um dos registros mais antigos sobre o
contorno das terras brasileiras, onde o autor procurou corrigir as imprecisões das
idéias defendidas por Ptolomeu. Segundo o autor, a Terra de Vera Cruz, conforme
registros de Américo Vespúcio, tinha boa caça e verzino (pau-brasil),462 sendo
contudo a terra tão vasta que não era possível recolher as diferentes produções desse
local.463 As descrições sobre o clima, as plantas e os animais foram ressaltados com a
mesma intensidade presente nos registros dos jesuítas, merecendo algumas pranchas
com gravuras ilustrativas.464 Outros registros sobre o Brasil surgiriam, a fim de suprir
a curiosidade que existia sobre a natureza e os habitantes da América.465

220
5.2 As revelações da natureza tropical

Na segunda metade do século XVI algumas crônicas foram escritas sobre as


terras brasílicas. Algumas delas ganharam ampla circulação e foram referenciadas por
outros viajantes e pelos naturalistas que identificaram a importância dos registros.
Contudo, alguns textos ficariam guardados em bibliotecas e arquivos e só viriam a ser
conhecidos publicamente no século XIX.
De forma simplificada, apontamos como documentos importantes, para
conhecer esse momento e a natureza das terras brasílicas, as obras de: Hans Staden,
“Duas Viagens ao Brasil” (1557); André Thévet, “As Curiosidades da França
Antártica” (1558); Pero de Magalhães Gandavo, “Tratado da Terra do Brasil”, (1570 -
impresso pela primeira vez em Lisboa em 1826) e “História da Província de Santa
Cruz - a que vulgarmente chamamos de Brasil – (1576); Jean de Léry, “Viagem à
Terra do Brasil” (1578) e Gabriel Soares de Souza, Tratado Descritivo do Brasil
(impresso pela primeira vez no início do século XIX).466
Hans Staden foi um dos primeiros viajantes a fornecer registros sobre as terras
brasileiras. Sua trajetória era desconhecida até chegar ao continente americano, que
visitou por duas vezes.467 O período que permaneceu em viagem foi de mais de seis
anos, sendo que a primeira estada durou mais de um ano e meio (1547-1548) e a
segunda quase cinco anos (1550-1555).468
Em 1557 publicou a obra “Duas viagens ao Brasil”, que tratava das questões
étnicas das nações sul-americanas, com várias edições em línguas diferentes, sendo
até hoje alvo de interesse de estudiosos e apreciadores de registros antropológicos.469
Se a obra conseguiu ressonância naquele período e influenciou registros posteriores,
pouco se sabe sobre o seu autor. O texto de Hans Staden difere de outros registros, na
medida em que ele foi forçado a um longo convívio com os tupinambás. Segundo ele,
o trabalho deveria conter “alguma coisa nova”, pois o intuito era trazer à luz os
benefícios que Deus lhe havia conferido.470

221
Hans Staden de Homberg nasceu em Hess, para onde retornou ao final de suas
viagens, e onde escreveu a obra que o consagraria, no segundo semestre de 1556.471
Hans Staden dedicou sua obra ao Príncipe e Senhor Felipe, Landgrave de Héssia,
Conde de Katzenelnbogen, Diez, Ziegenhain e Nidda.472 No texto ele agradecia a
Deus por ter-lhe salvo dos selvagens tupinambás das terras brasílicas. Seu martírio
durou nove meses, enquanto prisioneiro, e muitos outros foram os dissabores e
provações que sofreu. Estes percalços e suas outras experiências o incentivaram a
relatar suas viagens. Esperava o príncipe Filipe Landgrave tivesse:
“oportunidade, para ouvir a leitura de como eu, com a ajuda de Deus, transpus
a terra e os mares, e como o Todo-Poderoso me conduziu através de estranhos aci-
dentes e provações. A-fim, porém, de que não duvide Vossa Serena Alteza da verdade
de minhas palavras, junto a esta narração o meu passaporte. A Deus somente toda a
honra! Recomendo-me com a humildade máxima a Vossa Serena Alteza”.473
O principal objetivo da obra era dar a conhecer a sua história, com palavras
desprovidas de “ornato e pompa” que pela sua “sinceridade e veracidade” permitisse
compreender a sua experiência e o universo com o qual interagira. Estas observações
eram importantes, pois o número de aventureiros espalhados pela Europa eram muitos
e com “suas mentiras disparatadas, suas falsidades e narrações fantasiosas
contribuíram para que se dê pouca consideração às pessoas honestas e amantes da
verdade, que vêm de terras estranhas”. Naqueles idos, como lembrava o autor, quem
quisesse mentir, bastava discursas sobre coisas distantes, “pois ninguém lá vai
verificá-las”, pois era:
“[...] mais cômodo do que certificar-se. Quem quiser mentir, discurse sobre
cousas distantes, pois ninguém lá vai verificá-las. É mais cômodo acreditar do que
certificar-se. Nada se ganha em não aceitar a verdade por causa das mentiras, e deve-
se considerar que há cousas que parecem impossíveis a um homem simples, ao passo
que para o erudito, quando lhe são expostas, são fatos seguros e incontestáveis, como
realmente o são”. 474
Sua interação foi maior do que os contatos simples que a maioria dos viajantes
manteve com aborígenes em pontos da costa litorânea. Ele conviveu com os
indígenas, coletando importantes informações para compor seu registro e as
xilogravuras que o ilustraram .475

222
Hans Staden tinha como meta “conhecer a Índia” e nesse intuito viajou de
Bremen para a Holanda. Em Kampen encontrou navios destinados ao carregamento
de sal para Portugal. Em 29 de abril de 1547 estava na cidade de Setúbal e logo seguiu
para Lisboa. Conseguiu uma vaga como artilheiro num navio cujo capitão era um
homem chamado Penteado. A viagem partiu em direção ao Brasil, sofrendo com o
calor do Equador e a calmaria que causava a maior angústia. Estes não eram os únicos
problemas, havia as tempestades tropicais, com chuva e ventos fortes, que
rapidamente se formavam e se dissipavam. A falta de víveres e de água potável
tornava cada dia de viagem mais temeroso. Após oitenta e quatro dias no mar, desde a
última vez que tinham avistado terra, as embarcações vislumbraram no horizonte o
outeiro no cabo de Santo Agostinho. Navegando oito milhas chegaram a Pernambuco,
onde desembarcaram prisioneiros e mercadorias.476
Esta primeira viagem e contato com os indígenas não foi muito prazerosa.
Staden narrou que e ele e seus companheiros foram sitiados e levados ao combate
com os aborígenes. A ferocidade e inclemência deles evidenciavam a iminência de
serem devorados.477 Desvencilhados dos problemas com os habitantes da terra, o
grupo seguiu para o porto da Paraíba, onde pretendia fazer carregamento de pau-brasil
e obter alimentos junto aos índios. No local encontraram um navio francês, que
carregava a madeira da terra e foi atacado pelos companheiros de Staden que tinham o
intuito de capturar o navio. A embarcação francesa revidou com tiros, provocando
mortos e feridos. A malograda operação os obrigou a retornarem a Portugal.478
A falta de recursos e os ventos fortes fizeram da viagem de retorno um
calvário. A penúria era tanta que cabia a cada homem um copo com água e um pouco
de farinha de mandioca, ração insuficiente; a fome era tanta que alguns homens
comeram “as peles de cabras que trazíamos a bordo”.479 Os imprevistos foram tantos
que o objetivo de observar e descrever a natureza foi preterido em função das
aventuras do cronista; o mundo natural foi o cenário ou palco dos acontecimentos,
enfatizados pelo drama da vida de Staden.
Na segunda viagem de Hans Staden partiu de Sevilha. Em 1549, quatro dias
após a Páscoa, saiu daquela cidade em direção a Lisboa e depois para as ilhas
Canárias. A experiência adquirida com a viagem à América revelava a dificuldade
que os navegadores enfrentavam com relação às informações e localizações

223
imprecisas que haviam sido fornecidas. Entre a partida e a chegada as terras tropicais,
em finais de novembro, a tripulação da embarcação tinha permanecido seis meses no
mar. A prudência fez que não ancorassem em portos desconhecidos, procurando um
local adequado para fazer o desembarque. 480
As embarcações seguiram para o sul da América, passando pela ilha de São
Vicente em direção à ilha de Santa Catarina, aonde chegaram em dezembro de 1550.
Ali o grupo desembarcou, uma vez constatada a garantia da segurança.481 Permaneceu
dois anos naquelas paragens, apesar das dificuldades para viver em uma região
inabitada, um cenário em que a natureza se impunha, conforme o relato de Hans
Staden:
“Padecemos grande fome, tivemos que comer lagartos e ratos silvestres e
outros animais assim estranhos, que podíamos apanhar, e também crustáceos, que se
prendiam às pedras na água, e outros alimentos igualmente desconhecidos. No
começo os selvagens nos trouxeram víveres suficientes, enquanto receberam de nós
bastante mercadoria em troca. Depois seguiu a maioria para outras regiões. Não
devíamos também confiar muito neles”.482
Em 1553, velejando em direção à ilha de São Vicente, a fim de obter uma
embarcação dos portugueses, os viajantes foram atingidos por uma tempestade que
avariou o barco e os tripulantes, à deriva, ignoravam a distância que os separavam de
seu destino.483 Os sobreviventes foram para uma ilha, onde havia “muitas gaivotas
marinhas, chamadas alcatrazes. Como era tempo de sua procriação, era fácil matá-
las”. Chegando a terra foram em busca de água, e encontraram ocas desabitadas. Pela
necessidade, abateram “muitas gaivotas” e que colheram seus ovos para cozinhar.484
Os dias seguintes foram de incertezas, sendo as tempestades tropicais um medo
constante. Católico, Staden, agradecia a Deus, por ter chegado vivo a um ponto do
litoral. Todavia, as dificuldades não haviam terminado. A falta de alimentos e de
roupas, a iminência dos ataques indígenas traziam insegurança a todos. Ao fazerem o
reconhecimento da região, identificaram uma povoação formada por portugueses,
chamada Itanhaém, distante aproximadamente duas milhas de São Vicente.
Os habitantes do povoado ouviram os relatos do naufrágio e se compadeceram
dos sobreviventes. Forneceram alimentos, roupas e acolhida, auxiliando-os a chegar
ao seu destino, a vila de São Vicente. A população desta vila, durante algum tempo,

224
manteve o grupo e arrumou trabalho para que os seus membros pudessem ganhar o
próprio sustento. Mas a região estava longe de oferecer segurança, pois os
tupinambás:
“[...] duas vezes por ano, épocas em que, com violência, penetram na região
dos tupiniquins. Uma destas épocas é em novembro, quando amadurece o milho, que
chamam abatí, e com o qual preparam uma bebida chamada cauim. Empregam
também aí a raiz de mandioca, de que misturam um pouco. Logo que voltam de sua
excursão guerreira com abatí maduro, preparam a bebida e devoram nesta ocasião os
seus inimigos se conseguiram aprisionar alguns. Já um ano inteiro antes esperam com
alegria o tempo do abati”.485
Havia um selvagem da tribo dos carijós que pertencia a Hans Staden. Era
responsável pela caça e por acompanhar Hans Staden pela floresta. Mesmo assim,
numa dessas aventuras, “levantou-se de ambos os lados do caminho um grande
alarido, como é hábito entre os selvagens. Essa gente correu para mim, e reconheci
que eram Índios.” Portando arcos e flechas os indígenas o cercaram, feriram e
renderam. Despojaram-no de suas vestes para serem disputadas entre eles. Hans
Staden foi conduzido pela mata até o mar, onde se encontravam as canoas em que
embarcaram.486
Prisioneiro dos tupinambás, Hans Staden foi levado para a região de Bertioga.
Ciente das práticas destes índios, todos os gestos que faziam representavam o
prenúncio do fim, sem dúvida, seria devorado. Staden registrou a aflição, a miséria e o
“triste vale de lágrimas” em que viveu.487
Depois de três dias de viagem, foi conduzido à aldeia dos tupinambás
(composta de sete choças), que ficavam na região de Ubatuba. Observou que as
mulheres cultivavam “plantas de raízes, que êles chamam mandioca”. A chegada foi
comemorada com muito alvoroço e o cativo foi apresentado a um francês que os
índios chamavam de “Caruatá-uára”.
Embora não entendesse a fala do francês, Staden inferiu que ele estivesse
dando ordem para que os índios o devorasse. O tom dramático da narrativa mostra
que o cativo estava desesperado, lançado à própria sorte. Conduzido a uma choça,
aguardou na rede, o dia que seria “aniquilado”.

225
Durante aquele convívio com os indígenas, Hans Staden foi construindo um
quadro da vida deles; descreveu as danças que antecediam o ritual de antropofagia,
como realizavam as atividades cotidianas, seus objetos, as mulheres e as práticas de
casamento e, em seguida, dedicou-se a alguns animais e plantas.
Em agosto de 1554, Hans Staden observou que os índios capturavam tainhas e
piratis, que desovavam naquela época do ano, conhecida como piracema. Nessa época
os índios partiam para as guerras e se alimentavam de peixes.488 Sobre os animais,
Staden registra que havia muitos veados como os encontrados na Europa e “duas
espécies de porcos do mato, das quais uma se parece com o porco selvagem daqui e a
outra é pequena, parecendo-se com porquinhos novos. Chamam-se estes tanhaçú-tatú,
sendo difícil pegá-los nas armadilhas que utilizam para a caça os nativos”.489
Havia também espécies diferentes de macacos, como já observara José de
Anchieta. A fauna brasílica já era conhecida na Europa, mas este observador dava
conta da existência de que uma espécie chamada “caí.” Outro era o “acacaí”, que
saltitavam nas árvores em grandes bandos, fazendo “terriel gritaria no mato”. Havia
ainda uma terceira espécie vermelha chama de buriqui, cuja descrição ressalta: “tem
barba como cabras e São grandes como um cachorro de porte médio”.490
O tatu era um animal que merecia destaque no registro de Staden, inclusive
com gravura: “O tatu mede cerca de um palmo de alto e palmo e meio de comprido.
Tem o corpo todo encouraçado, com exceção do ventre. A couraça é como chifre,
fechando-se com junturas, como numa armadura. Tem um focinho longo e pontudo,
uma cauda comprida e vive bem nas rochas. Seu alimento são formigas. É de carne
491
gorda. Comi dela muitas vezes”. Da mesma forma que fizera José de Anchieta,
Staden chamava a atenção para a resistência do casco, os hábitos do animal e o uso da
sua carne como alimento.
Dos animais de caça havia o saruê, ou gambá. O jesuíta José de Anchieta,
vivendo nas aldeias, deu ênfase aos ataques que estes animais faziam aos galinheiros.
Hans Staden não fez menção ao cheiro do gambá, nem registrou os danos que este
causava, demonstrando compartilhar das práticas indígenas, mas chamava a atenção
para outros aspectos:
“o tamanho de um gato, tem pelo cinzento escuro ou claro, e uma cauda
também como um gato. Quando dá cria, tem seis filhos mais ou menos. No ventre há

226
uma fenda de cerda de meio palmo, e no interior da fazenda uma outra pele, pois o
ventre não é aberto. Dentro desta bolsa estão também as tetas. Para onde vai, leva
consigo os filhotes na bolsa, entre as duas peles. Ajudei muitas vezes a caçar saruês e
retirei os filhotes de dentro da bolsa”.492
Os “tigres” eram animais que, segundo Staden, “estraçalhavam homens” e
causavam grandes danos, como também o “leopardo, que significa leão pardacento, e
muitos outros diversos animais”. Tigre foi a forma utilizada por Staden para se referir
à onça pintada, e leopardo designava a onça parda ou suassuarana. As aproximações
baseadas nos traços principais facultavam ao leitor alguma visualização dos animais,
sendo condizentes com as particularidades de um mundo natural marcado por
variações, a que o século XVIII se dedicaria.493
A capivara que vivia em terra e na água e se alimentavam dos caniços que
ficavam nas margens dos rios e se lançavam no fundo das águas, quando se sentiam
ameaçadas, mereceram a atenção de Staden. Para ele, as capivaras eram “maiores que
uma ovelha e tem cabeça semelhante à lebre, conquanto maior, orelhas curtas, cauda
romba e pernas bastante altas. O pelo é cinzento escuro. Têm três dedos em cada pé e
correm velozes em terra, de umas águas às outras. A carne tem sabor da de porco”.494
Staden registrou grandes lagartos que viviam na água e que eram “bons para
comer”.495
O clima tropical era propiciava a proliferação de insetos. Staden destacou
aqueles que lhe causavam asco, como o tunga. Parecido como uma pulga, este inseto
entrava nas cabanas dos indígenas, onde tinham um ambiente adequado para se
proliferarem devido à “imundície das gentes”. E o tunga entra pelo pé e se “coça
quando entra, e sem que se sinta especialmente, penetra na carne. Quando não se
percebe a tunga ali permanece vai formando uma espécie de massa abrigada numa
casa redonda, como uma ervilha. Se retirada antes de tal processo, fica no tecido "um
buraquinho do tamanho de uma ervilha”.496
Havia animais que, que tamanho, causavam espanto, como os morcegos.
Staden afirmava que aqueles que vira nas terras tropicais eram maiores do que os
existentes na Alemanha. Fazia referência ao morcego porque este mordia à noite,
durante o sono: “Quando percebem que alguém dorme e não os afugenta, voam-lhe
aos pés, mordem e sugam, ou mordem a testa, voando depois em retirada. Quando

227
estava entre os índios, arrancavam e muitas vezes um pedaços dos artelhos. Quando
acordava, iam os dedos sangrando. Mordem os selvagens, porém habitualmente na
testa”.497
Nas terras tropicais havia três tipos de abelhas, conforme o seu relato. Uma
casta era parecida com as da Europa, outra eram “pretas e grandes como moscas; a
terceira, pequena como mosquitos”. No convívio com os indígenas Staden aprendeu a
obter mel em árvores ocas, onde as abelhas o depositavam. Ele, de corpo nu, “muitas
vezes, como os selvagens”, retirara mel dos três tipos, mas aquele que era produzido
pelas abelhas menores era o mais apreciado. A coleta do mel o fizera sentir as picadas
das abelhas, correndo para a água para despegá-las do corpo.498
Pelas matas havia “pássaros estranhos”, aos olhos de Hans Staden. Um deles
era o guará-piranga, que se alimentava no mar e fazia ninho só nos recifes do litoral.
Esta ave era “aproximadamente do tamanho de uma galinha, tem o bico longo e
pernas como a garça, mas não tão compridas”. 499 Uma das particularidades do animal
era que as primeiras penas que nasciam nos filhotes eram de tom cinza-claro, para
depois passarem ao tom cinza-escuro, quando podiam voar. Após um ano de terem
alçado vôo trocavam de pena, aparecendo penas de cor vermelha as quais eram
apreciadas pelos índios. Conforme observou Sérgio Buarque de Holanda, o relato de
base analógica era comum, por ser o meio efetivo de se estabelecer a comunicação.
Das plantas da terra brasílica, Hans Staden fez breves menções. Digna de ser
distinguida era a árvore do genipapo, que se “parecia um pouco com a maça”. O uso
que os indígenas faziam dela foi assim descrito: “Os selvagens mascam este fruto e
expremem o suco em uma vasilha. Com ele se pintam. Quando esfregam o suco sobre
a pele, a princípio parece água. Mas ao cabo de alguns momentos se torna a pele tanto
negra como tinta. Assim dura nove dias”.500
O arbusto do algodão chamava a atenção na florada onde as cápsulas se
abriam depois de estarem maduras. Segundo Staden, o algodão ficava num pequeno
caroço preto.501 Sua explicação findava na constatação empírica. Talvez não possuísse
maiores recursos para aprofundar-se em outros aspectos, bela brevidade com que fez a
menção. De forma curta e objetiva também se referia à pimenta. Havia duas
qualidades de pimenta, uma amarela e outra vermelha:

228
“Quando a pimenta está verde, tem o tamanho do fruto da roseira brava, que
cresce no espinheiro. O pimenteiro é um pequeno arbusto de mais ou menos uma
braça de alto. Tem pequenas folhas e fica cheio de pimenta. A pimenta tem gosto
ardido. Os selvagens a colhem quando está madura e secam-na ao sol. A outra espécie
de pimentinhas, que se parece bastante com esta, seca do mesmo modo”. 502
Hans Staden dramatizou sua aventura, seguindo o estilo das epopéias. Outros
viajantes passariam pelas terras brasílicas, cujas ponderações contribuíram para
compor o quadro da natureza nos trópicos.
O frei franciscano, André de Thevet, estudou cosmografia e cartografia, vindo
a se tornar cosmógrafo oficial do rei Henrique II, da França (1519-1559). Publicou
trabalhos sobre o assunto e embarcou na expedição de Nicolas Durand de
Villegaignon (1510-1579). No decorrer das dez semanas que passou em terras
brasílicas, fez observações sobre a experiência colonial francesa conhecida como
França Antártica.
André de Thevet publicou em 1557 e 1558 a obra “Les singularitez de la
France Antarctique” (As Singularidades da França Antártica). Dando conta das terras
brasileiras e sua riqueza natural. Mas como bem observou Frank Lestringant, era
"fruto de um levantamento coletivo e anônimo no qual, por causa da doença
prolongada, quase não tomou parte".503 Na mesma época em que Hans Staden que
visitou as terras tropicais, André de Thevet relatou suas experiências no texto “As
singularidades da França Antártica”, obra permeada de imprecisões que historiava a
experiência francesa na região do Rio de Janeiro; suas imagens sobre a riqueza natural
do local só foram escritas vinte anos após o retorno do cronista. O texto de Thevet
demonstra preocupação com verdade, mas esta oscila entre as partes da obra.
Omitindo sua presença no texto, ressaltou várias vezes que suas afirmações eram
dignas de fé, embora admitisse que algumas de suas informações não fossem obtidas
diretamente. O texto apresenta ilustrações de indígenas, plantas e animais e segue o
modo recomendado desde a Antiguidade para descrever o local, os acidentes
geográficos, a flora e a fauna. 504
O recurso das analogias utilizado também por muitos de seus contemporâneos
expressa uma forma de estreitamento dos laços do mundo, criando uma visão unitária
e perpetuando um saber tradicional.505

229
O português Pero de Magalhães Gandavo nasceu em Braga, sendo
desconhecido na sua trajetória em Portugal e os motivos que o levaram a ir às terras
brasílicas. Pero Magalhães Gandavo escreveu o Tratado da terra do Brasil e a
História da província Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil (impresso pela
primeira vez em Lisboa em 1826) e História da Província de Santa Cruz (a que
vulgarmente chamamos de Brasil), publicada em 1576. Pelo teor das obras, é possível
inferir que Pero de Magalhães Gandavo conheceu várias regiões, como Ilhéus e São
Vicente. O texto, que é considerado a primeira história do Brasil, faz abundantes
referências a animais, plantas e à agradável temperatura dos trópicos.
O clima da terra dos brasis foi considerado benigno pela preponderância de
temperaturas moderadas que favoreciam a saúde e facilitavam a adaptação do homem.
As condições climáticas prenunciavam indiretamente as potencialidades produtivas da
terra. Climas amenos eram propícios também ao cultivo agrícola desde que a
fertilidade da terra o permitisse, como foi observado por muitos viajantes. Sobre o
tema, Pero de Magalhães Gandavo afirmou:
“Esta província é à vista mui deliciosa e fresca em grão maneira: toda está
vestida de bastante alto e espesso arvoredo, regada com as águas de muitas e mui
preciosas ribeiras de que abundantemente participa toda a terra: onde permanece
sempre a verdura com aquela temperança da Primavera que cá nos oferece Abril e
Maio. E isto causa não haver lá frios nem ruínas de Inverno que ofendam as suas
plantas, como cá ofendem as nossas. Enfim, que assim se houve a natureza com todas
as coisas desta província, e de tal maneira se comediu na temperança dos ares que
nunca nelas se sente frio nem quentura excessiva”.506
Na “História da Província de Santa Cruz”, de Pêro de Magalhães Gandavo
salientou a fertilidade do território, louvando a sua potencialidade. O autor registrou a
beleza e a variedade da natureza, exaltando a terra como deliciosa e fresca, com
muitas árvores, sendo as terras irrigadas por muitas águas. A temperatura amena era
agradável aos homens, mais também às plantas que não ficavam sujeitas às variações
térmicas.
Os papagaios, que deram a seu tempo identidade às terras, adquiriram valor
comercial.507 Os índios os aprisionavam para vender aos portugueses, capturando

230
filhotes das espécies mais comuns, sendo usual tingirem suas penas para enganar os
portugueses. Afirmava Pero de Magalhães Gandavo que:
“Os índios da terra costumam depenar alguns enquanto são novos e tingi-los
com o sangue de umas certas rãs, com outras misturas que lhes ajuntam: e depois que
se tornam a cobrir de pena ficam nem mais nem menos da cor dos verdadeiros: e
assim acontece muitas vezes enganarem com eles a algumas pessoas vendendo-lhos
por tais”.508
No que dizia respeito aos sabores das frutas brasileiras, o ananás foi o mais
exaltado nos relatos. Gandavo descreveu o ananás como sendo a melhor fruta do
reino:
“Outra fruta há nesta terra muito melhor, e mais prezada dos moradores de
todas, que se cria em uma planta humilde junto do chão: a qual planta tem umas
pencas como de erva babosa. A esta fruta chamam ananases e nascem como
alcachofras, os quais parecem naturalmente pinhas, e são do mesmo tamanho e alguns
maiores. Depois que são maduros, têm um cheiro mui suave, e comem-se aparados
feitos em talhadas. São tão saborosos que, a juízo de todos, não há fruta neste reino
que no gosto lhes faça vantagem”.509
Esta fruta, como outras também exóticas ao paladar europeu, despertou a
sensibilidade dos viajantes, que também ficavam impressionados pela diversidade de
cores e formatos.
Sobre a madeira que estava associada ao nome da terra, o pau-brasil, Pero de
Magalhães de Gandavo dizia que “o qual pau se mostra claro, ser produzido da
quentura do Sol e criado com a influência dos seus raios, porque não se acha senão
debaixo da tórrida zona: e assim, quanto mais perto está da linha equinocial, tanto é
mais fino e de melhor tinta”.510 Pela sua experiência, Pero de Magalhães de Gandavo
fez uma registro mais detalhado do algodão, que era considerado a segunda atividade
econômica da colônia:
“[...] há outras de que os moradores fazem suas fazendas, convém, a saber,
muitas canas-de-açúcar e algodoais, que é a principal fazenda que há nestas partes, de
que todos se ajudam e fazem muito proveito em cada uma destas capitanias,
especialmente na de Pernambuco [...], e se dá infinito algodão, e mais sem

231
comparação que em nenhuma das outras. Também há muito pau-brasil nestas
capitanias, de que os mesmos moradores alcançam grande proveito”.511
O registro de Pero de Magalhães Gandavo foi minucioso e procurou destacar
as potencialidades econômicas da terra e sua exploração, desde que houvesse
predisposição e recursos.
Joachim de Centellas, por sua vez, lembrava ao historiador o seu compromisso
com a verdade,512 fazendo entender que era este o seu próprio objetivo. Realizou um
breve histórico sobre a formação histórica de Portugal, discorrendo sobre a origem da
palavra Portugal, passando pelas ações da Dinastia de Borgonha e Avis.513 As ações
de D. Manuel I foram exaltadas e as terras da América descritas pela sua riqueza.514 A
região ressaltada pelas suas riquezas era orgulho para os reis católicos que, além
explorar pérolas e pedras preciosas, ainda dispunham de uma grande riqueza de ervas
e plantas nunca vistas na Europa. Os pastos permitiam que os gados se alimentassem
fartamente.515 O clima era agradável e Centellas afirmava superficialmente que os
índios deixavam o seu barbarismo pela interação com os cristãos.
A América se destacava pelas ervas cujas propriedades serviam para fins
medicinais como o “lignum sanctum”. No Brasil a cochinila servia para colorir
516
mantos e outras mercadorias que conquistavam valores inestimáveis no mercado.
O foco da narrativa de Centelas era o Oriente, as expedições de D. Sebastião ao norte
da África e as disputas com os mouros até a sua morte.517 A morte do rei português
impunha a Portugal uma nova fase na qual continuava vivo o interesse pelas terras
coloniais.
O francês Jean de Léry (1534-1611) nasceu em uma família da pequena
nobreza, vindo a abraçar o calvinismo. Estudou teologia em Genebra, sendo
incumbido de participar da missão da França Antártica. Esta se revelou uma
oportunidade para difundir o calvinismo para além das fronteiras européias. Em 1557
estabeleceu os primeiros contatos com os aborígenes das terras americanas, que foram
importantes para a elaboração da sua obra. As disputas religiosas e as desavenças
entre os membros da expedição foram um dos motivos que o fizeram a retornar à
Suíça a fim de prosseguir os seus estudos em Teologia. Vinte anos depois escrevia a
obra Viagem à terra do Brasil (publicada em 1578),518 com a intenção de questionar
as afirmativas de André de Thevet.

232
Jean de Léry partiu da França a 20 de novembro de 1556, acompanhando uma
comitiva composta por quatorze missionários que iriam auxiliar Villegaignon na
conquista da Guanabara. Estando na região do Espírito Santo, a descida foi cuidadosa
por temor aos índios que poderiam torná-los reféns. Porém, a recepção pacífica foi um
passo para conseguirem dos índios farinha de mandioca, carne de anta ou capivara e
frutas, alimentos estranhos ao paladar, mas lhes pareceram muito saborosos.
Léry chegou às terras da América Portuguesa em 1557, permanecendo nela até
janeiro do ano seguinte. Nesse período, visitou a Ilha de Villeganinon e o litoral.
Somente vinte anos depois é que concluiria a redação de sua obra, tendo trabalhado
no texto o poder da imagem. Apesar de mencionar que sua memória não lhe auxiliava
mais, tendo em conta a distância entre a viagem que empreendera e a redação da obra,
ele construiu uma descrição rica. A obra revela a memória de um viajante
deslumbrado ante uma nova cultura e um exótico mundo natural.519
O calvinista francês Jean de Léry descreve, a anta (Tapirus terrestris) como
uma espécie de centauro. O caráter híbrido e fantástico do animal, meio asno, meio
vaca é assim descrito:
“O primeiro e mais comum é o tapirussú de pêlo avermelhado e assaz
comprido, do tamanho mais ou menos de uma vaca, mas sem chifres, com pescoço
mais curto, orelhas mais longas e pendentes, pernas mais finas e pé inteiriço com a
forma de casco de asno. Pode-se dizer que, participando de um e outro animal, é
semivaca e semi-asno. Difere entretanto de ambos pela cauda, que é muito curta (há
aqui na América inúmeras alimárias sem cauda), pelos dentes que são cortantes e
aguçados; não é entretanto animal perigoso, pois só se defende fugindo”.520
Fazendo associações a fim de que o interlocutor também apreendesse a
espécie por suas próprias impressões sensoriais, a mesma espécie foi vista e descrita
de maneira diferenciada. Neste processo de descrição baseado em aproximações,
animal deixava de ter as suas características próprias, para uma representação que
mais se assemelhava ao existente na Europa.
Jean de Léry procurou organizar o campo visível facultando ao leitor o
entendimento da realidade. A ideia de uma visão in loco era um argumento forte. Não
podemos esquecer que Léry questionou a obra de Thevet apontando uma série de
equívocos e imprecisões. Jean de Léry apelou para a técnica da persuasão para fazer

233
crer ao seu leitor que suas informações eram corretas em detrimento do que Thevet
havia exposto. Isto não era uma tarefa fácil na medida em que o leitor não poderia
verificar o que estava sendo afirmado. O novo paradigma era compreender as coisas a
partir da sua própria especificidade e reconhecer a identidade.
Para isto, recorre a elementos que o ajudem a comprovar seus argumentos. Às
vezes, recorre a outros depoimentos como comprovação. O trabalho de Michel Mollat
“Les explorateurs du XIII au XVIe siecle” destaca que os viajantes entre o século XV
e XVI tinham mais orgulho das suas ações do que os que os antecederam. Eles
Justificavam as diferenças nas informações porque os antigos não tinham razão
naquilo que afirmavam.521 Michel Jeannert, ao estudar o trabalho de Léry, afirma que
a forma desse autor apreender a natureza é diferente do que havia no período. A
natureza era vista a partir de um conjunto de elementos, sendo importante
compreender as diferenças.522 A descrição da espécie constitui uma prova da verdade.
A enumeração do mundo natural, dos aborígenes, dos costumes visa a corrigir as
imprecisões dos textos antigos.
Jean de Léry interessou-se pela cultura indígena, mas não escondeu o medo
das práticas e rituais antropofágicos que considerou ter um caráter demoníaco.
Contudo, a integração das tribos indígenas em relação à natureza era destacada de
forma elogiosa. A terra brasílica oscilava entre a imagem de uma terra paradisíaca e a
de uma terra povoada de demônios.523
O português Gabriel Soares de Sousa (1540-1591) nasceu no Ribatejo e
quanto contava com aproximadamente trinta anos chegou às terras brasileiras. A
priori, o seu destino era a Índia; contudo, notou que as terras tinham recursos
infindáveis para serem explorados. Casou com Ana de Argolo, filha de família
destaca da cidade de Salvador, e montou um engenho em Jequiriça e uma fazenda
onde mantinha a criação de gado em Jaguaripe.
Gabriel Soares de Sousa redigiu a obra “Tratado descritivo do Brasil” (1587)
um dos textos mais completos sobre a flora e a fauna dos Quinhentos, que foi
oferecido ao nobre português D. Cristóvão de Moura, conde e marquês de Castelo
Rodrigo (1538-1613).524 A obra foi elaborada a partir da sua experiência e vivência
como senhor de engenho e fazendeiro, fornecendo informações importantes sobre as
propriedades do Recôncavo baiano. A primeira parte da obra “Roteiro geral da costa

234
brasílica” fazia caracterização geográfica da região da Bahia. A segunda parte,
“Memorial e declaração das grandezas do Brasil”, refere a ocupação da Bahia e as
interações entre colonos e índios.
Tornou-se um homem de posse, considerando o conteúdo de seu testamento,
indicando os recursos que amealhou entre 1569 e 1584. Mas em seus registros consta
que ele estava convencido de que pelo “sertão” era impossível encontrar muitas
riquezas, como ouro e pedras preciosas.
Retornou a Portugal em 1586, tendo como meta obter autorização e privilégios
para empreender entradas pelo território a fim de encontrar minerais preciosos. Nesta
ocasião, apresentou a obra a D. Cristóvão de Moura. Porém, o seu pedido demoraria a
receber resposta. Em 1590 foi autorizado a fazer as explorações recebendo o título de
capitão-mor e governador da conquista e descobrimento. A autorização lhe dava
poderes para conceder mercês aos que o acompanhassem, inclusive foro de fidalgo.
Em abril de 1591, Gabriel Soares de Sousa seguiu para o Brasil acompanhado de mais
de trezentas pessoas, inclusive de religiosos carmelitas destinados a estruturar a ordem
religiosa no Brasil. A sorte não acompanhava a embarcação que naufragou no litoral
de Sergipe, fazendo muitos mortos. Dentre os sobreviventes estava Gabriel Soares de
Souza e outros companheiros que se aventuraram pelo rio Paraguaçu, em busca de
ouro. Este não seria encontrado e o aventureiro Gabriel Soares de Souza morreria sem
encontrar nada que indicasse uma riqueza incomensurável.
No texto “Roteiro geral da costa Brasílica”, o autor procura traçar o histórico
dos primeiros descobridores do Brasil e de como os reis de Portugal e Espanha
haviam feito a repartição das terras pelo Tratado de Tordesilhas. Nos capítulos
seguintes ele apresente as expedições de reconhecimento ocorridas no litoral em
direção ao norte, passando pelo Maranhão e Amazonas, dando ênfase à ocupação da
Paraíba e de Pernambuco. A grandeza do rio São Francisco é exaltada por descrições
das regiões que ficavam nas margens desse rio. Da mesma forma é o relato
pormenorizado sobre a Bahia, na região de Ilhéus e Porto Seguro, fazendo menções às
tribos indígenas que ocupavam a região, pontuando as diferenças existentes entre elas.
Quanto à região sul, estuda o recôncavo do Cabo Frio e o Rio de Janeiro com o Pão
de Açúcar, destacando o governo de Mem de Sá e do governador do Rio de Janeiro,
Antonio Salema. A expedição de reconhecimento segue em direção ao sul, passando

235
pela capitania de São Vicente e Santo Amaro, pontuando as particularidades dos
índios tamoios e guaianazes. A região de Cananéia, São Francisco do Sul, Rio dos
Patos, o porto de São Pedro são visitados até o cabo de Santa Maria e o Rio da Prata,
com ênfase aos costumes carijós.525
O texto “Memorial e declaração das grandezas da Bahia”, Gabriel de Souza
descreve com mais detalhes aspectos específicos da potencialidade das terras
brasileiras. O texto é divido em vinte títulos. O primeiro trata da história da
colonização da Bahia, o segundo da descrição topográfica da região e o terceiro das
características da enseada da Bahia, suas ilhas ribeiros e engenhos. O quarto título é
dedicado à agricultura, opinando sobre o cultivo de árvores europeias e sua adaptação
ao clima tropical. A descrição de frutos e da raiz da mandioca ocupava uma parte
extensa do texto, detalhando o preparo e o consumo da mesma na colônia. Milho,
legumes, amendoins cajus, bananas e mamões, compõem o quadro da atividade
agrícola. No quinto capítulo ele se dedica às árvores e plantas frutíferas como os
umbus, sapucaia, piquiá, macugé, genipapo, anases, dentro outros. O título sexto e
sétimo tratavam respectivamente das árvores e ervas medicinais, sendo apresentada a
embaíba e outras arvores; refere também o algodão e o tabaco. No título oitavo as
árvores reais e a madeira de lei são os objetos de análise. Na nona parte, ele fez a
apresentação das árvores menores com diferentes propriedades, destacando o uso dos
cipós e das folhas. O título dez é dedicado às aves, sendo mencionadas, águias, emas,
mutuns, canindés, araras, tucanos, perdizes, papagaios, aves de rapina e noturnas,
especificando cores e costumes. No capítulo seguinte é apresentado um quadro dos
insetos existentes na terra, como abelhas, vespas, mosquitos, grilos, besouros, dentre
outros. Os mamíferos terrestres e anfíbios são elencados no título doze. Gabriel
Soares de Sousa faz a descrição de antas, veados, porcos do mato, tatus, pacas, cotias,
bugios, preguiça, dentre as espécies. O título treze fala de cobras, lagartos, camaleões,
lagartas, aranhas sapos e rãs. O título seguinte consiste numa ponderação sobre os
danos causados pelas formigas e as diversas castas em que se dividiam. Na etapa
seguinte, o autor olha para as riquezas do mar. No décimo quinto título são registrados
os mamíferos marinhos, peixes marítimos e camarões. As baleias, os tubarões, as
tuninhas, as cavalas, pescadas, bonitos, e outras espécies são destacadas pelas suas
qualidades. No título seguinte, há um detalhamento sobre crustáceos, moluscos, e

236
peixes d’água doce. Os títulos dezessete e dezoito são resultados de leituras
etnográficas sobre tupinambás e outras nações indígenas como os tupinaé, amoirés,
dentre outros. Na penúltima parte destaca os recursos da Bahia para a defesa, a
existência de pedras para fortificações e os recursos que faltavam para melhorar a
navegação. Por fim, é dada distinção aos metais e pedras preciosas, apontando a
existência de ferro, cobre, pedras veres e azuis, ouro e prata. Registro que justificaria
o seu pedido de autorização para adentrar pelo território.
O texto de Gabriel Soares de Sousa revela seu potencial descritivo e
organizacional na classificação das espécies. A forma sistemática como organiza as
informações demonstra preocupação com interlocutor para que este tenha uma visão
clara do que lhe é apresentado e a necessária compreensão.
As saborosas frutas brasílicas constituíram uma verdadeira festa para os
sentidos. Gabriel Soares de Sousa dedicou um capítulo inteiro ao ananás, salientando
a quantidade de sumo:
“Para se comerem os ananases hão-de-se aparar muito bem, lançando-lhe a
casca toda fora e a ponta de junto do olho por não ser tão doce e depois de aparado
este fruto, o cortam em talhadas redondas como de laranja ou ao comprido ficando-lhe
o grelo que vai correndo do pé e até ao olho e quando se corta, fica o prato cheio de
sumo que dele sai como é de cor dos gomos da laranja e alguns há de cor mais
amarela e desfaz-se todo o sumo na boca como o gomo de laranja, mas é muito mais
sumarento”. 526
O maracujá com sabor e aroma atraentes era abundante nas terras brasileiras:
“dá uma flor branca muito formosa e grande que cheira muito bem, donde nascem
umas frutas como laranjas pequenas, muito lisas por fora, a casca é da grossura da das
laranjas de cor verde clara; o que tem dentro se come, que além de ter bom cheiro tem
suave sabor ...]”.527
O caju, desconhecido na Europa, foi descrito pelo exotismo:
“Estas árvores são como figueiras grandes, têm a casca da mesma cor e a
madeira branca e mole como figueira, cujas folhas são da feição das da cidreira e mais
macias. As folhas dos olhos novos são vermelhas e muito brandas e frescas, a flor é
como a do sabugueiro de bom cheiro mas muito breve. [...], o fruto é formosíssimo,
algumas árvores dão fruto vermelho e comprido, outras o dão da mesma cor e da

237
mesma feição, mas há partes vermelhas, há outras de cor almecegada e há outras
árvores que dão o fruto amarelo e comprido como peros-de-el-rei, mas são em tudo
maiores que peros e da mesma cor. Há outras árvores que dão este fruto redondo e um
e outro são muito gostosos e sumarentos e de suave cheiro, os quais se desfazem todos
em água”.528
Gabriel Soares de Sousa dedica à mandioca uma atenção especial,
considerando-a como o principal alimento da terra. Explica a utilidade da mandioca e
o modo de torná-la comestível:
“[...] e para se aproveitarem os Índios e mais gentes destas raízes depois de
arrancadas, rapam-nas muito bem até ficarem alvíssimas, o que fazem com cascas de
ostras e depois de lavadas, ralam-nas em uma pedra ou ralo que para isso têm depois
de bem raladas espremem esta massa em um engenho de palma a que chamam
tupitim, que lhe faz lançar a água que tem toda fora e fica toda esta massa toda enxuta
muito bem, da qual se faz a farinha que se come, que cozem em um alguidar para isso
feito em o qual deitam esta massa e a enxugam sobre o fogo onde uma índia a mexe
com um meio cabaço como quem faz confeitos, até que fica enxuta e sem nenhuma
umidade e fica como cuscuz, mas mais branda e desta maneira se come e é muito
saborosa.”529
Gabriel Soares de Souza descreveu o amendoim fazendo esclarecimentos
sobre os diferentes modos de consumi-lo. Quando consumidos crus eles tinham o
gosto de ervanços, mas quando assados e cozidos com a própria casca eram saborosos
deixando um paladar pronunciado se fossem torrados. Seu uso era difundido,
inclusive para doces. 530
Para o autor, a aparência do tatu era alvo de atenção, como registravam outros
cronistas, pois tinha as pernas curtas e cheias de escamas. O focinho era comprido,
cheio de conchas, as orelhas pequenas e a cabeça toda “cheia de conchinhas”. Os
olhos eram pequeninos e o rabo era comprido cheio de lâminas sobrepostas, “que
atravessam o corpo todo, de que tem armado uma formosa coberta; e quando este
animal teme de outro, mete-se todo debaixo destas armas sem lhe ficar nada de fora,
as quais são muito fortes; têm as unhas grandes, com que fazem as covas debaixo do
chão, onde criam; e parem duas crianças”.531

238
O tamanho e corpulência da anta eram comparados a um boi ou a uma vaca,
porém possuía particularidades difíceis de serem descritas. Gabriel Soares de Sousa é
quem procurou dar uma mais clareza ao animal:
“[...] são pardas com o cabelo assentado, do tamanho de uma mula mas mais
baixas de pernas e têm as unhas fendidas como vaca e o rabo muito curto sem mais
cabelo que nas ancas e têm o focinho como mula e o beiço de cima mais comprido
que o de baixo em que têm muita força”.532
A preguiça, descrita por Gabriel Soares de Sousa, é acinzentada, do tamanho
de um cão de água, As patas são compridas e magras, com olhos e dentes como os de
um gato. Causam-lhe estranheza e curiosidade o focinho e a lentidão nos
movimentos.533
O marsupial, ou sarigué, é descrito como um animal do tamanho de um gato,
sem pelos, parecido com raposas:
“tem o focinho comprido, e o rabao, em o qual, nem na cabeça, não tem
cabello: as fêmeas tem na barriga um bolso em que trazem os filhos metidos,
emquanto são pequenos, e parem quatro e cicno; tem as tentas junto do bolso, onde os
filhos mamam; e quando emprenham geram os filhos neste bolso, que está fechado, e
se abre quando parem; onde trazem os filhos que podem andar com a mãe; que se lhe
fecha o bolso. Vivem estes de rapina, e andam pelo chão, escondidos espreitando as
aves, e em povoado as gallinhas; e são tão ligeiros que lhes não escapam”.534
As terras brasílicas situavam-se em posição estratégica para aqueles que cruza-
vam o Oceano Atlântico tendo como destino o Oriente. Conforme os interesses dos
navegantes e da coroa, as terras da América serviram de apoio à circulação de
mercadorias e pessoas, tendo em vista a dinâmica do sistema colonial português. Nas
terras era possível a aquisição de alimentos, água potável, madeira, além do açúcar e
do ouro, dentre outros produtos que foram destacados nos registros.
Apesar de no litoral do Brasil os navegantes poderem contar com inúmeras
árvores de excelentes madeiras que serviam para os reparos dos navios, não houve
preocupação conhecê-las profundamente. A classificação foi simples, aquelas que
serviam para o uso de navio, devido às suas propriedades, e aquelas que não atendiam
a essas necessidades. Desta maneira, Gabriel Soares de Sousa, em “Tratado descritivo

239
do Brasil”, dava conta do acaycá-tinga e o cedro como madeiras mais indicadas para o
revestimento da embarcação na parte acima da linha d'água.535
Utilizaram também outras variedades de madeira, como o angelim, tanto o
angelim verdadeiro como o angelim de coco e angelim canafístula, que devido às suas
propriedades serviam para reforço da estrutura de navio, como também para a popa.
Para esta parte da embarcação poderia ser utilizado o jetaipeba ou a jetaipeboçu. Se o
uso da matéria fosse para serrar e lavrar, e para as partes que ficassem acima da linha
d’água, aconselhava-se o uso da jataúba, a oiticica e a sucupira acarii. Como observa
Lucy Maffei Hutter, as madeiras para o tabuado do navio eram de tipos diferentes. Era
possível utilizar cedro, biriba, peroba, canela-preta, canela mirim, canela-tapinhoã,
camaçari, mirindiba, dentre outras.536
Madeiras resinosas eram úteis para a calafetagem dos navios, como a
almecegueira e a biriba. Na medida em que a Europa devastava as florestas
explorando seus recursos, as novas regiões se configuravam como locais importantes
para o fornecimento de matérias-primas alternativas. A imensidade das matas
tropicais poderia abastecer a Europa, não só com suas madeiras, mas também com
outros recursos não explorados. Neste sentido, o texto de Gabriel Soares de Sousa é
representativo por expressar um olhar sobre aspectos do mundo natural, identificando
a potencialidade da terra, desde que esta fosse devidamente explorada, conforme era
seu intento.
Como lembra Ana Maria Belluzzo, é possível identificar que as imagens das
terras brasileiras foram construídas, por um lado, a partir da
“projeção sobre o desconhecido, os símbolos e mitos, os contos maravilhosos
e as fábulas. De outro, a observação direta e o cálculo, que proporcionam descrições
geográficas na forma cartográfica, de cartas náuticas a roteiros de conquista, pelos
quais se definem domínios e limites entre terra e mar, e nas quais a representação é
um meio de orientar a ação. De um lado, a construção simbólica mais vaga. De outro,
a precisão do desenho que defende o navegador da geografia fantástica. Contudo,
forma poética e ação política sempre estão combinadas nesse amálgama, que é a
imagem”.537
Os textos produzidos nesse momento revelavam uma leitura múltipla
composta em forma de palimpsesto. Cada autor a partir de um ponto de vista

240
privilegiado procurou fixar impressões da natureza, que paulatinamente iam sendo
sobrepostos. Em suma, os registros elaborados no decorrer do século XVI teciam,
num primeiro momento, um mosaico que unia realidade e imaginário, que visava a
apresentar o mundo natural das terras brasílicas. No final desse século, os registros e
narrações, quando comparados, davam uma dimensão maior da realidade, mas os
narradores não conseguiam construir grandes categorias. O mundo natural era
registrado conforme o modelo proposto por Plínio, o Velho, que permitia ilustrar um
mundo natural novo.

241
Sexto Capítulo

A natureza brasílica:
das coisas notáveis
aos fins científicos

"Temo que os bichos considerem o homem como


um semelhante que se privou da razão animal sadia,
como um animal no delírio, que ri e que chora,
como um animal infeliz."

Nietzwche – A Gaia ciência

242
6.1 A natureza nos relatos de
reconhecimento do território no século XVII

No decorrer do século XVII, os seres humanos estavam mais propensos a


explorar os sentidos, a fim de estabelecer uma nova ordem que pudesse unir a
sensibilidade em relação ao mundo externo e a razão. A idéia de um observador que
deseja apreender a estrutura da natureza está cada vez mais presente, visando a
conhecer a singularidade existente nas coisas. As regras de observação tornavam-se
comuns, havendo necessidade de organizar o que era visualizado, numa ordem de
raciocínio que fosse capaz de analisar as coisas naturais. Lentamente, davam-se os
primeiros passos em busca da classificação em gêneros e espécies.
A presença jesuítica estruturou-se no decorrer do século XVII nas terras
coloniais portuguesas, assim como a presença de outras ordens religiosas; dando
continuidade às ações de seus antecessores, muitos realizaram uma série de registros
reportando suas atividades, produzindo relatos específicos e contribuindo para a
composição do quadro natural das terras brasílicas.
O jesuíta Padre Fernão Cardim (1549 – 1625) nasceu em Viana do Alentejo,
ingressando na Companhia de Jesus em 1566. Conquistou destaque pelos trabalhos
que realizou em Évora, vindo a ocupar o cargo de ministro do colégio local. Em 1583
foi para as terras coloniais portuguesas da América. Na Bahia foi secretário do padre
Cristóvão de Gouveia, visitador da província jesuítica do Brasil. Rigoroso nos
registros, narrou as visitas que empreendeu à Bahia, Ilhéus, Porto Seguro,
Pernambuco, Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Vicente. Em 1587, Fernão Cardim
assumiu o cargo de reitor do colégio da Bahia, permanecendo no cargo até 1592. A
União Ibérica (1580-1640) causou a intensificação da atuação do Tribunal da
Inquisição em terras coloniais. Nesse momento, a região nordeste da colônia recebeu

243
a visitação do Santo Ofício do Pe. Heitor Furtado de Mendonça e, como ressaltamos
anteriormente, a Companhia de Jesus torna-se alvo de acirradas críticas.
Naqueles idos, Gabriel Soares de Sousa reclamava aos membros da
administração colonial pelos inconvenientes causados aos religiosos por serem
contrários à escravização dos índios. Respondendo às acusações, Fernão Cardim e
outros religiosos elaboraram um documento em que defendiam os jesuítas acusados
pelos conflitos que permeavam a sociedade colonial. Esse mal-estar se intensificaria
no decorrer do século XVII.538 Entre 1594 e 1598, Fernão Cardim foi reitor do colégio
do Rio de Janeiro, sendo nomeado em princípio do século XVII, procurador das
missões do Brasil junto à cúria romana. Depois de uma breve estada em Roma,
retornava ao Brasil quando a embarcação que o conduzia foi atacada por Francis
Cook, e ele foi detido e levado para a Inglaterra. Segundo os registros, levava consigo
uma série de manuscritos para serem publicados na coleção de viagens de Samuel
Purchas sob o título de "A treatise of Brazil written by a Portuguese which had long
lived there" (1625). Ao se desvencilhar dos problemas gerados pelo aprisionamento
do navio, Fernão Cardim seguiu para a América Portuguesa, onde passou a exercer a
função de provincial da Companhia de Jesus.
O texto publicado em inglês, permaneceu inédito em português. Porém,
Capistrano de Abreu, ao realizar pesquisas na Biblioteca de Évora, encontrou um
manuscrito comparável ao texto de Fernão Cardim em inglês. Em 1925 era publicada,
em português, a obra “Tratados da terra e da gente do Brasil” cujo conteúdo reunia
descrições o mundo natural, além de detalhados registros etnográficos. O religioso
demonstrava entusiasmo ao redigir sobre as terras.
A primeira parte da obra que reúne texto de Fernão Cardim foi dedicada ao
clima da terra do Brasil “e de algumas cousas notáveis que se achão assi na terra
como no mar”. Apesar de a terra ser um “tanto melancólica”, era regada por águas
abundantes. A terra possuía montes, com penedos e rochedos. Havia variações de
tempo entre as diferentes regiões, conforme pudera experienciar durante as suas
visitas.539 Em seguida, o texto nomeia e descreve as coisas notáveis. Primeiramente,
foram apresentados os animais, ressaltando as cobras que “andavam na terra e não
tem peçonha” e as cobras peçonhentas.540 Nos itens subsequentes foram apresentadas
as aves da terra que eram consumidas pela população, as árvores que davam frutos e

244
aquelas que serviam para usos medicinais; os óleos que os índios utilizavam para se
untarem, as árvores contendo água, as espécies de madeira, as ervas que forneciam
frutos comestíveis, as ervas que serviam para mezinhas e aquelas que eram
“cheirosas”, a cana, os peixes de água salgada e os peixes peçonhentos. O fabuloso
não estava ausente: Fernão Cardim dedicou atenção aos homens marinhos e monstros
do mar que, segundo os registros indígenas, aquele que via tal homem marinho
morria: “e nenhum que o vê escapa”. Estes seres perseguiam os pescadores sendo o
terror daqueles que viviam no litoral. Dando continuidade ao registro, ele apresentou
mariscos, caranguejos, árvores que se criavam com água salgada, pássaros que viviam
no litoral, rios, cobras, lagartos, lobos de água doce e por fim elencou os animais,
arvores e ervas que vieram de Portugal.
O tom de aventura e conquista estava presente, sendo importante registrar os
detalhes da fauna e da flora brasílica de maneira que fosse possível criar uma imagem
sobre o que era descrito. O padre Fernão Cardim afirmava sobre os porcos monteses:
“Estes acometem os cães, e os homens, e tomando-os, os comem, e são tão bravos que
é necessário subirem-se os homens nas árvores para lhes escapar, e alguns esperam ao
pé das árvores alguns dias até que o homem se desça, e por que lhes sabem esta
manha, sobem-se logo com os arcos e frechas às árvores e de lá os matam”.541
Os “bugios” despertaram o interesse dos viajantes pela proximidade com os
comportamentos do homem. Fernão Cardim descrevia objetivamente o bugio
atentando para a particularidade do órgão que possuíam próximo à laringe,
responsável som inconfundível do animal:
“[...]têm uma cousa muito para notar, e é, que se põem em uma árvore, e
fazem tamanho ruído que se ouve muito longe, no qual atura muito sem descansar, e
para isto tem particular instrumento esta casta, o instrumento é certa cousa côncava
como feita de pergaminho muito rijo, e tão rija que serve para brunir, do tamanho de
um ovo de pata e começa do princípio da goela até junto da campainha, entre ambos
os queixos e é este instrumento tão ligeiro que em lhe tocando se move como a tecla
de um cravo”.542
Se o ruído chamava a atenção do religioso por parecer um som de instrumento,
o peixe-boi despertava a curiosidade por se assemelhar a animais terrestres, fato

245
gerador de estranheza e de questionamentos sobre a forma de classificá-lo. O Pe.
Fernão Cardim fez uma descrição minuciosa desta espécie:
“Este peixe nas feições parece animal terrestre, e principalmente boi com
couro, e cabelos, orelhas, olhos e língua; os olhos são muito pequenos em extremo
para o corpo que tem; fecha-os, e abre-os, quando quer, o que não têm os outros
peixes; sobre as ventas tem dois courinhos com que as fecha, e por elas resfolega; e
não pode estar muito tempo debaixo de água sem resfolegar; não tem mais barbatana
que o rabo, o qual é todo redondo e fechado; o corpo é de grande grandura, todo cheio
de cabelos ruivos; tem dois braços de comprimento de um côvado com suas mãos
redondas como pás, e nelas tem cinco dedos pegados todos uns com os outros, e cada
um tem sua unha como humana; debaixo destes braços têm as fêmeas duas mamas
com que criam seus filhos, e não parem mais que um; o interior deste peixe, e
intestinos são propriamente como de boi, com fígados, bofes, etc. Na cabeça sobre os
olhos junto aos miolos tem duas pedras de bom tamanho, alvas e pesadas”.543
A denominação que permaneceu até os dias atuais devido à dificuldade de
explicar o animal. Cardim se referiu ainda ao peixe voador: “parecem pedras
preciosas; a cabeça também é muito formosa. Têm asas como de morcegos, mas
muito prateadas [...]. Também são bons para comer, e quando voam alegram os
mareantes, e muitas vezes caem dentro das naus, e entram pelas janelas dos
camarotes”.544 Este peixe, além da carne, oferecia alguma distração para aqueles que
viajavam durante meses pelo mar.
Se algumas espécies da fauna eram indescritíveis, outras eram mais
conhecidas e causavam medo, aparecendo com mais constância nos registros, como é
o caso das cobras. O Pe. Fernão Cardim, ao ser referir às cobras, atribui ao clima a
razão de elas e outros animais peçonhentos existirem em profusão: “Parece que este
clima influi peçonha, assim pelas infinitas cobras que há, como pelos muitos Alacrás
(lacraus), aranhas e outros animais imundos, e as lagartixas são tantas que cobrem as
paredes das casas, e agulheiros delas”.545
Mas havia aves exuberantes, que compensavam as experiências negativas com
animais tropicais que causavam asco ao europeu. Os hábitos do tangará foram
destacados por Fernão Cardim; animal de tamanho aproximado ao de um pardal, com
exceção da cabeça de um amarelo alaranjado:

246
“[...] não canta, mas tem uma cousa maravilhosa que tem acidentes como de
gota coral, e por esta razão o não comem os índios por não terem a doença; tem um
género de baile gracioso, um deles se faz de morto, e os outros o cercam ao redor,
saltando, e fazendo um cantar de gritos estranhos que se ouve muito longe, e como
acabam esta festa, grita, e então todos se vão, e acabam sua festa, e nela estão tão
embebidos quando a fazem que ainda que sejam vistos, e os espreitem não fogem”. 546
A plumagem e o bico longo do tucano o tornaram uma das aves que mais
mencionadas pelos viajantes. O Pe. Fernão Cardim o descreve:
“[...] preto por fora e amarelo pelo meio e por dentro vermelho; alguns têm os
olhos azuis; toda a cor é boa desta pena; os papos são amarelos e já vi mais de quatro
mil papos juntos nos Carijós; é vestido dos naturais, alguns quando se querem vestir
de festa, scilicet suas carapuças e outras coisas; há outros mais pequenos, têm o peito
vermelho, os olhos verdes e os pés”.547
Neste relatório sobre o clima a e terra do Brasil, o Pe. Fernão Cardim dedica
um capítulo às árvores frutíferas. Como outros viajantes, o padre registra o cajueiro
destacando seu o tamanho e formosura, a beleza do fruto e o paladar inigualável da
castanha, que não ficava a dever nada à castanha portuguesa.548 Outra fruta exaltada
foi a mangaba. A mangabeira, em tom amarelo avermelhado, produzia frutos duas
vezes ao ano:
“[...] na feição se parece com macieira de anafega, e na folha com a de freixo;
são árvores graciosas, e sempre têm folhas verdes. Dão duas vezes fruto no ano: a
primeira de botão, porque não deitam então flor, mas o mesmo botão é a fruta;
acabada esta camada que dura dous ou três meses, dá outra, tomando primeiro flor, a
qual é toda como de jasmim, e de tão bom cheiro, mas mais esperto”.549
A sapucaia, de acordo com Cardim, também era notável, ele a considera
como: “[...] uma fruta como panela, do tamanho de uma grande bola de grossura de
dois dedos, com uma cobertura por cima, e dentro está cheia de umas castanhas como
mirabolanos [...]”.550
Ao final do texto, discorria sobre o clima e a terra do Brasil. O Pe. Fernão
Cardim dedicava atenção aos animais, árvores e ervas que vieram de Portugal. Se o
clima produzia animais inconvenientes como as cobras, ele era por vezes temperado,

247
o que convinha para a criação de animais e plantas européias. Os colonos haviam
introduzido a cultura deles, sem grande dificuldade, fazendo a exploração e o cultivo
com bom proveito. Cavalos, vacas, porcos, ovelhas, cabras, galinhas, perus, cães
haviam se multiplicado com facilidade, garantindo um sustento adequado à
população.
Da mesma maneira, as árvores como figueiras, marmeleiros, parreiras, trigo,
ervas de cheiro e legumes foram destacados pelas diferentes castas e por uma
produção abundante que superava aquelas das terras da metrópole.
“Sobretudo tem este Brasil uma grande comodidade para os homens viverem
que não se dão nela percevejos, nem piolhos, e pulgas há poucas, porém entre os
Índios, e negros da Guiné achão piolhos; porém, não faltam baratas, traças, vésperas,
moscas e mosquitos de tantas castas, e tão cruéis, e peçonhentos, que mordendo em
uma pessoa fica a mão inchada por três ou quatro dias, máxime aos Reinóis, que
trazem sangue fresco, e cioso do pão e vinho, e mantimentos de Portugal”.551
Se nos relatos do século XVI a natureza apareceu como se fosse um belo
tapete de Flandres, jamais visto, como afirmou o padre Manoel da Nóbrega, esta
imagem iria sendo alterada. As descrições do século XVII deixavam o
deslumbramento e a pujança do mundo natural, dedicando-se à compreensão do
sistema das terras tropicais com as suas espécies, que diferenciavam muito da Europa.
Com bem observara o Pe. Fernão Cardim, os reinóis sentiam essa diferença na pele.
Os registros continuam a dar uma dimensão da exuberância natural, sem preocupação
com as divisões em categorias ou em espécies; todavia, os relatos tendem a dar uma
dimensão mais exata e objetiva do real.
No século XVII, os textos registram com maior atenção as características das
terras brasílicas. Neste momento, podemos destacar os trabalhos de: Claude
d’Abbeville, “Histoire de la mission despères capucins en Visle de Maragnan etc.”,
(História da Missão dos Padres Capuchinhos na Ilha do Maranhão e Terra
Circunvizinhas), de 1615; Yves d’Evreux, “Sequencia da História dos
Acontecimentos memoráveis Acontecidos no Maranhão nos Anos de 1613 e 1614”,
de 1615; Ambrósio Fernandes Brandão, “Diálogos das Grandezas do Brasil”, de 1618
e de Frei Vicente do Salvador, “História do Brasil”, de 1627 (impressa pela primeira
vez em 1887).

248
Daniel de La Touche, Senhor da Ravardiere, obteve carta patente de Henrique
IV para organizar uma expedição, tendo o Maranhão como destino. A expedição
partiu de Cancale em março de 1612. Após uma série de reveses, as embarcações
chegaram à colônia da guiana. O projeto de Daniel de La Touche era subir o rio
Amazonas, ato que teve início em 8 de julho de 1613. O grupo seguiu com o
acompanhamento de indígenas e teve que enfrentar as dificuldades naturais da região.
As investidas duraram mais de um ano e os sacrifícios humanos e a fome foram
intensos. Além disso, o embate do grupo de franceses com os índios tupinambás na
região do Maranhão mostrou as dificuldades de se estabelecer o controle sobre a
região.
A presença religiosa, em diversos pontos da colônia portuguesa, produziu o
relato das experiências com as missões, compondo uma obra com sessenta e dois
capítulos. Em 1615, o francês Claude d'Abbeville (? -1616),552 nascido em Lyon,
registrou os acontecimentos da missão de padres capuchinhos ligada à fundação de
São Luis do Maranhão. Ele foi acompanhado dos padres Yves d’Evreux, Arsène de
Paris e de Ambroise d’Amiens. A missão permaneceu na região do Maranhão por
quatro meses, tendo como objetivo consolidar o domínio francês na localidade e
permitir que os índios tivessem oportunidade de conhecer a fé católica. O projeto
político e religioso francês visava à legitimação da posse do território, que em parte
era justificada pelo movimento de cristianização dos indígenas.
Claude d’Abbeville registrou a viagem e o estabelecimento dos religiosos na
região do Maranhão e por decorrência a interação que mantiveram como os
tupinambás, contendo ilustrações de autoria de Leonard Gaulthier, Louis Henri, Louis
Marie, Jacques Patoua e François Carypyra que permitem compreender o olhar
europeu sobre os indígenas. O convívio com os aborígines visava à conversão destes
para a fé católica, preocupação constante no registro, que reiteradas vezes menciona a
importância da salvação. Além deste tema, a obra de Claude d’Abbeville relatou os
hábitos alimentares dos indígenas e aspectos da fauna e flora regionais. Conforme o
registro, feito em abril de 1613, seis indígenas foram enviados a Paris como presente
para o monarca francês, causando um verdadeiro furor na corte. Diversos nobres
desejavam ver os habitantes da América que foram apresentados devidamente
vestidos à moda francesa. O espetáculo de apresentação incluía os nativos dançando,

249
fazendo manobras para divertir a corte francesa. O exótico imperava no registro que
destacava o trabalho dos religiosos na conversão e batismo dos índios, com ênfase ao
canibalismo.
A crônica inclui a viagem da França até a região do Maranhão, fazendo
referências às paragens durante o percurso e as descrições das práticas aborígenes. No
capítulo XXXV, Claude d’Abbeville pondera sobre a temperatura, em especial do
Maranhão. Segundo ele, sempre “pensarão os físicos e naturalistas que a temperatura
ou a má constituição das regiões forma os seus diversos aspectos, e que são diferentes
os climas conforme a diversidade das partes celestes mais ou menos remotas da
passagem do sol”. Salientava que os céus não tinham temperatura, “visto serem
corpos simples, e, portanto sem qualidades elementares, mais debaixo do ponto de
vista de cada uma destas partes celestes é a região temperada ou não, e assim se lhe
553
atribuem tais qualidades”. O religioso demonstrava conhecimento dos debates em
curso na Europa, ao argumentar que o calor local era proveniente dos raios do sol,
atribuindo à reverberação deles maior intensidade de calor. A leitura não estava isenta
da idéia de que Deus era o grande articulador do sistema. Estes elementos serviam
para informar sobre a boa temperatura da região, com um clima agradável, sem
impurezas, não havendo ventos ou furacões fortes que causassem inconvenientes aos
homens. Na região do Maranhão a temperatura era quase a mesma de uma estação
para a outra, sempre com a presença do verde, mostrando a terra “plantas bonitas, e
flores diversas e raras”.554
Seu conhecimento da natureza foi parcial e de forma sintética. Afirmou que no
Brasil “não há animais ferozes, e nem serpentes venenosas, para infeccionar a terra e
corromper o ar, formando vapores maus e perigosas exaltações.” Isto poderia ser
observado em animais como crocodilos, serpentes, cobras, sapos que até serviam “de
bom alimento”.555
O religioso confessava a dificuldade de enumerar quantas espécies de pássaros
e animais havia na terra, que não poderiam ser comparadas com a Europa. Faz
menção às coisas que ordinariamente se encontravam na Ilha do Maranhão e suas
circunvizinhanças e em primeiro lugar das árvores frutíferas. O texto é objetivo e com
mínimas descrições. Em relação ao caju, ou caju grande, afirma que este fruto era:

250
“parecido com a pêpra, e quando maduro é todo amarelo por fora e branco por
dentro, muito doce e agradável, e ótimo para se comer. Tem uma castanha muito
parecida com o rim do carneiro, a qual está contida numa concha, muito semelhante a
uma das nossas castanhas grandes, porém muito mais duro por dentro, e oleosa, e por
isso, chegando-o ao lume, arde como se estivesse cheia de fogo artificial”.556
Das diferentes castas apresenta apenas as marcas distintivas em relação à
espécie principal.
A bananeira era, conforme o seu registro, uma árvore alta, “com folhas de uma
braça de comprimento e dois pés de largura. Dá um fruto chamado banana, do
tamanho de meio pé e menos grosso do que os pepinos; casca amarela, e o fruto é
branco por dentro como maça”.557
Mencionava a existência de árvores como: mangabeira, jaracatiara, jenipapo,
araticu, sendo que de algumas o autor revela não ter certeza sobre o nome. Em relação
às palmeiras, mencionou a existência de cinco qualidades diferentes. A mais
importante era a uacuri (pindoba), havendo ainda a palmeira muriti, a anajá, a
carnaúba, e a tucum. O uso delas, como cobertura para as ocas, palmitos, ou pelos
frutos, é que tinha despertado o interesse de Claude D’Abbeville que notou a
importância da planta para o indígena.558 Outras árvores com seus frutos foram
destacados, como o umbu, a pitomba, a mucajuba, o araçá, o oitim, o jutai, numa
sequência que lembra uma lista de planta com suas propriedades.559 Ressaltava que
era impossível particularizar todas as qualidades de árvores frutíferas que existiam e
enriqueciam a terra, além daquelas que eram estéreis.
Em relação às frutas, o seu registro procurou enumerar somente as mais
triviais e notáveis. Em primeiro lugar, o abacaxi, que além das características comuns,
conforme já fizeram outros viajantes, foi registrada como tendo a cor amarela de ouro
fino, “muito cheiroso, e interiormente no seu âmago é muito claro, branco, sem uma
só pevide ou noz. É fruta muito boa e saborosa, e nada há em França que lhe
assemelhe em bondade e beleza”.560 Outras espécies dignas de destaque eram: o fruto
do mandacaru, a melancia, o cara e a macaxeira.
Os animais também foram elencados, mas o religioso sabia que se “fosse
possível representá-los todos em particular e ao vivo, ninguém deixaria de admirar-
se”.561 Ciente de que não era possível descrever todos os animais “que tem alma

251
sensitiva somente”, optou por mencionar os mais representativos, dentre as aves, os
peixes e os quadrúpedes. As aves de rapina, como o gavião real, e outras espécies são
apresentadas pelo tamanho e cor. Das aves que despertavam interesse, pelas suas
penas e beleza, estavam os papagaios, o canindé, a arara, jacu, tucano, dentre outros,
que eram também utilizados na alimentação. As espécies de aves eram notáveis pela
beleza, e algumas como os pássaros noturnos, como o aratauí, o morocututu e os
morcegos. Estes últimos se assemelhavam aos europeus e produziam “gritos fortes e
medonhos”, sendo perigosos, pois entravam:
“de noite pelas cãs, e, se encontram alguém dormindo, atacam, escolhem as
extremidade do dedo grande de qualquer pé, e sem que se perceba, toca-o e suga-lhe
insensivelmente o sangue em grande quantidade deixando-lhe alguma dor, e embora
não seja grande, obriga contudo o paciente a ficar deitado em sua rede por espaço de
24 horas por causa de sangue perdido, que somente se pode estancar em repouso”. 562
Nem todas as aves, como considerava Claude d’Abbeville, eram belas de se
admirar. A lista de peixes também era imensa, destacando-se o sabor deles e a
descrição essencial como foi feito sobre o uara; “peixe chato com dois pés de
comprimento e mais de um de largura. Sua cor é prateada, e suas barbatanas
amareladas”. O religioso observava o real sendo fiel ao que experienciava.
Os animais terrestres são apresentados uns por correrem outros por se
arrastarem. O registro menciona o coendu (porco espinho), o tamanduá, o tatu, a paca,
a cutia, a suçuarana, dentre outros, inclusive cães domésticos. Dentre os animais
rasteiros a jibóia era destacada por ter a:
“grossura superior a uma coxa e do comprimento de duas braças, sem pés, e
com a pela lisa e rajada, de diversas cores, que o fazem muito agradável a vista. Tem
esta serpente quatro dentes unicamente, porém mui cortantes, e na língua dois
aguilhões, tão finos como pontas de lancetas, ferindo com eles maravilhosamente, e o
mesmo pratica com a cauda sendo a picada desta mais perigosa e mortal. No fim da
cauda tem um pequeno chocalho, ou para melhor dizer, uma pequena bexiga, que faz
barulho como se estivesse cheia de ervilhas e parece ter-lhe sido dada por deus para
avisar o homem de que deve precaver-se de tão perigosa serpente, e assim acontece
aos índios, pois apenas ouvem o sussurro desses chocalhos ou campainhas previnem-
se logo para matá-la”.563

252
O padre capuchinho Cláudio D'Abbeville num capítulo específico fez o
registro dos “animais imperfeitos, a que uns dão o nome de insetos, e outros de
anulosa ou anulata, (como Aristóteles e Plínio)” considerava os animais que “sem
membros distintos, uns sem cabeça outros sem o ventre, ou sem a parte media, que
lhes serve de dorso e peito, com a pele golpeada, ou enrugada, ou cheia de pequenos
círculos ou chapas redondas”.564 O Maranhão não estava livre de insetos, pois o
próprio clima era propício para que alguns se desenvolvessem em profusão. Abelhas,
moscas, formigas e vermes compunham este universo tropical, exigindo cuidados,
principalmente porque alguns vermes eram temíveis e furavam barricas e tonéis,
cheios de vinho, aguardente e outros líquidos doces, num curto período de tempo,
causando danos significativos.
Yves d’Evreux Simon Michellet (1577-1632) participou da expedição Daniel
de La Touche, senhor da Ravardiere, encarregados dos freis Claude d'Abbeville,
Arsène de Amiens e Ambroise de Amiens. O religioso foi escolhido para evangelizar
os índios das terras brasílicas e também nos legou um texto importante sobre a difícil
tarefa da conversão, devido à inconstância dos índios, sujeitos às tentações negativas
das trevas. Acreditava que somente uma obediência cega às leis divinas levaria a
libertação dos indígenas.
Ao retornar a Paris, em 1615, o religioso registrou sua experiência na obra
“Suite de l'histoire des choses plus mémorables advenues en Maragnan, les années
1613 et 1614” (Viagem ao norte do Brasil feita nos annos de 1613 a 1614).565
Destacou o espírito nobre do francês na luta pela defesa da fé católica e o projeto
colonial. Entendia que o trabalho da coroa necessitava da catequese, deixando
evidente este aspecto na dedicatória que fez ao monarca Luís XIII (1601-1643). Tal
como Claude d’Abbeville, as terras do Maranhão, apesar das riquezas, tinham a
presença do demônio que influenciava os indígenas.
Yves d'Evreux reconhecia a exuberância das terras brasílicas, todavia não
identificava a existência de diferenças em relação à Europa. Para este autor, as
espécies nativas poderiam ser comparadas com aquelas encontradas na Europa. E não
haveria nenhum problema na sobrevivência dos homens que viessem da França. Na
terra havia tamanha e inacreditável abundância de alimentos, sendo necessário apenas
cultivá-los.566

253
Seu trabalho enfatiza os aspectos da conquista, a construção das capelas de
São Francisco e São Luis do Maranhão, discorre sobre aspectos do poder temporal na
região. Afirma que os anjos bem aventurados “auxiliam os homens em todos os seus
santos projetos, e especialmente quando se trata de procurar a salvação das almas,
porque caminham adiante estes felizes espíritos e rompem a turba dos diabos”.567
Desta forma, a construção da capela o enchia de orgulho, pois mesmo feito de
madeira e coberta de folhas de palmeira, era “semelhante ao presépio de Belém”.568
Segundo Yves d’Evreux, a terra possuía os recursos necessários. Encontrava-
se sal para a comodidade da vida a algumas léguas da ilha, em terrenos arenosos onde
se “mostra naturalmente, em forma de gelo, duro e luzente como cristal, por ocasião
do fluxo e refluxo do mar, e quando este se retira o sol o cresta e é melhor que o sal de
França e de Espanha”.569
Na construção do forte de São Luis, o interesse dos indígenas em ajudar foi
destacado, mostrando uma interação cordial com os aborígines. Distingue também a
viagem pelo Amazonas com os índios tupinambás.
Yves d’Evreux especifica aspectos da cultura indígenas, ressaltando os valores
dos costumes, como a escravidão dos índios de tribos inimigas e quais eram as
práticas do cativeiro. Ele acreditava que seria fácil “civilizar os selvagens” à maneira
dos franceses, ensinando os ofícios praticados na Europa. Pela experiência, percebera
que quando eram instruídos em determinadas operações, os índios aprendiam com
perfeição.570 As práticas de casamento, a economia, os cuidados com o corpo também
foram alvos do olhar do religioso.571
Em alguns momentos, a obra lembra o registro feito por Claude d’Abbeville,
principalmente quando trata do sol, do mar e das águas do Maranhão.572 Para Yves
d’Evreux, no Maranhão os ventos sempre aumentavam de agosto até janeiro, que era
a época de estio:
“pelo curso do sol que regressando do solstício de Câncer para o de
Capricórnio surgem debaixo da zona tórrida grandes vapores, aquosos e úmidos, e
quanto mais se aproxima dessas terras mais se levanta, e portanto mais se reforçam
esses ventos que não são outra coisa senão esses vapores misturados com ar”.573
As tempestades, os trovões eram comuns e causavam temor aos indígenas. A
partir de março, começava a diminuir as temperaturas e o ar ficava cheio de umidade

254
com muitas chuvas e trovões. Afirma que, como o país era coberto de florestas e
repleto de árvores de uma altura admirável, “é bem fácil cair o raio
desapercebidamente”. Isto poderia ser constatado, “todos os dias com arvores caídas e
queimadas, que se encontram nas florestas”.574
Algumas árvores que chamavam a atenção por serem singulares. Um ponto a
ser destacado era natureza sempre verde, pois, nas terras brasílicas, vivendo o calor e
a umidade em boa harmonia, não se admira que sempre que novas folhas nascem,
caem as velhas. Como todas as coisas, as folhas tinham o seu tempo para crescerem,
permanecerem vistosas e, na fase seguinte, decresciam até morrerem. Entre as árvores
que mereciam destaque estavam aquelas dos mangues. Árvores que cresciam nas
barreiras do mar e espalhavam os seus ramos e fibras sobre as areias do mar.
Fortificavam e engrossavam, chegavam à sua plenitude, deitando em seguida novas
fibras, reproduzindo-se sempre. Estas árvores não atingiam grande altura, mantinham-
se baixas e nutridas.575
A árvore do cajueiro foi descrita pelo fruto que fornecia e pelo vinho que se
poderia obter. O religioso analisou a planta, associando-a à vida e ao calvário de
Cristo, sem se preocupar com a catalogação de outras espécies, ou pormenorizar mais
detalhada e objetivamente a natureza, como fizera Claude d’Abbeville.576
Dos pássaros do Maranhão, Yves d’Evreux poderia dizer maravilhas, mas se
ateve a comentários sobre uma espécie. O guará era uma ave que, ao sair do ovo era
branco, passando a ter penas escuras e na fase adulta exibia penas avermelhadas.577
Para ele, o tom vermelho devia-se ao consumo de caranguejos,
“os quais consumidos no estomago, ai se transformam e chylo vermelho como
escarlate, e este caindo no fígado, se dele não receber alguma cor, como acontece com
outros animais tinge-o com sua cor e sempre assim passa para as veias, das veias para
a carne, da carne para as penas, e tão perfeitamente, que si fosse um metido dentro de
uma panela para cozinhar, podia dizer-se que havia dentro uma porção de
vermelhão”.578
A explicação era pessoal, sem nenhuma base científica, apenas um processo
de associação. O religioso deixava-se atrair pelo que fosse mais notável, como no
caso dos lagartos: “para uma espécie bem monstruosa" [...]. “um animal que vive
umas vezes n’água, outras em terra, e também nas árvores, contendo em si as três

255
esferas com que vivem todos os animais do mundo”. Yves d’Evreux explicava que,
como os peixes, partilhavam do elemento água, como quadrúpede, do elemento terra,
e como pássaro, repousava nas árvores.579 A pele do lagarto era aos seus olhos
esmaltas e de cor prateada e azulada, “como a abobada celeste quando serena”. O
calor o obrigava a sair da água, indo refugiar-se ao abrigo nas árvores vizinhas.
Nessas árvores também depositava seus ovos que, aquecidos pelo calor do Sol,
eclodiam expelindo lagartinhos, que logo acompanhavam os pais. Para este fato, o
religioso tinha uma explicação:
“Entre todas as espécies de animais esta sorte de lagartos é úmida e fria, e por
tanto sujeita ao dormir, e como seja mais agradável o sono quando se tem os membros
em certo grau de calor, eis por que eles buscam soalheiros. Reconhecendo pequeno o
seu calor natural, eis porque põem seus ovos em lugar expostos aos raios do Sol”.
Ficava evidente que o registro era feito a partir da observação, desejando o
religioso dar a entender como seriam os hábitos deste lagarto.580 Outro aspecto
importante do texto de Yves d’Evreux é que as suas descrições tendem a ser mais
genéricas, sem diferenciar as espécies, apenas traçando os principais aspectos de cada
grupo que considerou relevante. No caso dos lagartos, registrou a profusão deles, em
diversas castas, sendo uma das iguarias que os índios no litoral consumiam com
frequência.581
O jacaré era uma caça dos índios, sendo “pequenos crocodilos com 8 ou 10
pés de comprimento, de pele dura, ventre mole, sem língua, com olhos vivos, sempre
alerta e maus: accommettem o homem, cortam e devoram o primeiro membro que
agarram”. A voracidade maligna do animal causava medo, principalmente porque eles
se escondiam em grutas, nas margens dos rios, onde armavam emboscadas.
Aproximavam-se sorrateiramente e abriam a boca abocanhando sua presa. O animal
botava “ovos iguais aos de galinha, porém cobertos de protuberâncias, como as
castanhas; dizem que são bons para comer, mas eu não afianço porque nunca os
provei, pois sempre tive muito horror à estes bichos”. Apesar de não ter
experimentado, afirmava que a carne cheirava a almíscar e era “doce e desagradável”,
mas isto não era empecilho para os indígenas, que assim que encontravam algum
tentavam capturar.582 Os franceses, conforme lhe informaram, afirmavam que a carne

256
do animal era semelhante à do porco, “um pouco mais adocicada, oleosa, e com o
cheiro de almíscar”.
O paladar adocicado da carne não correspondia aos hábitos do jacaré. Yves
d’Evreux explica que era perigoso banhar-se nas águas de rios, mas os animais
poderiam aparecer e se atirar sobre as pessoas. Ressaltava que tivera informação que
uma criança ao cair no riacho foi agarrada e devorada por jacarés. Como os animais
não tinham língua, o religioso dizia: “segundo creio, tem a garganta e o pescoço,
inteiramente inflexíveis, a ponto de não poderem olhar nem para traz nem para o lado
sem moverem o corpo todo: além disso, eles têm o maxilar inferior duro e imóvel,
tudo isto contrário ao uso da língua, e só mastigam com o maxilar superior”. Yves
d’Evreux tentava compreender esse animal sem dispor de recursos necessários;
deixou-se seduzir pela experiência chegando a conclusões que nem sempre condiziam
com a verdade. Suas ponderações estavam referenciadas em passagem da vida de
santos ou na tradição oral, que não conseguia identificar corretamente.583 Lembrava,
complementando suas ponderações, de “um fisiologista, que quando ele devora
alguém chora a sua desgraça: não sei se será verdade”. 584
Dos insetos, mencionou moscas, aranhas e mosquitos. Estes eram encontrados
em profusão. Havia os chamados de “maringoins” pelos selvagens, que existiam em
diversos tamanhos e volumes. Conforme observara, ele se originava de “um humor
acre, gostam dos sabores picantes e ácidos e por isso encontram-se muito no mar e
suas praias no tempo do inverno, formados pelo humor e vapores do mar”.585
Incomodavam os homens com suas picadas na pele, por meio de seu “bico
pontiagudo”, sugando todo o “humor salgado, que corre entre a pele e a carne”. A
fumaça incomodava o animal que fugia das fogueiras, e diz ter notado que a
incidência dele era maior perto de locais onde havia abundância d’água. Yves
d’Evreux também registrava que os mosquitos eram caçados pelos morcegos que os
envolviam com suas asas e depois os comiam.586
A onça foi por ele considerada o mais furioso animal do Brasil. Era detalhada
como tendo bigodes “horrivelmente dispostos, vista perspicaz e aterradora, pele como
a de lobo, manchada de negro à maneira da do leopardo garras muito compridas, patas
como de gato, cauda grande e maior que todo o corpo diminuindo pouco a pouco até a
ponta, e com ela brinca num areal voltando-se par apanhá-la, e correndo para o

257
mesmo fim, como fazem os gatinhos no meio da sala, divertindo-se cada um com o
rabinho”.587 O animal gostava de viver só pela floresta. Não atacava os homens com
frequência e tinham medo do fogo. Contudo, atacava cães e macacos que eram
devorados rapidamente, depois de serem estrangulados. A espécie só dava cria uma
vez por ano, “como a Leoa, e eis a razão de haverem poucas no Brasil”. Os filhotes
rasgavam “o útero de sua mãe, que o nutre mui curiosamente até que fique em estado
de cuidar por si de sua alimentação. Apesar de tal ruptura, unem-se em tempo próprio,
porém não há frutos desta união”.588
Se os perigos eram comuns, isto não impedia que os franceses viessem para
aquelas terras onde havia recursos suficientes para garantir a sobrevivência de todos.
Bastava que os homens abraçassem causas maiores em nome da fé católica e da
nação.
O português cristão-novo Ambrósio Fernandes Brandão (1555-depois de
1618) viveu entre o Brasil e Portugal. Pelos registros chegou à região de Olinda, em
1583, onde permaneceu até 1597. Retornou a Portugal nesse ano, permanecendo lá até
1606. Regressou ao Brasil no ano seguinte, passando a viver na Paraíba, onde foi
proprietário de dois engenhos. Em 1618 concluiu a obra “Diálogos das grandezas do
Brasil”, onde faz uma descrição da sociedade e da economia colonial. O texto foi
escrito na forma de diálogo e destinava-se a debater as questões que envolviam as
potencialidades das terras brasílicas. Um dos interlocutores era Brandônio, português,
que vivia há muito tempo na terra e defendia as riquezas da terra, contrapondo-se a
Alvino, colono recém-chegado, que considerava a colônia um lugar ruim.589
Brandônio dizia que a umidade da terra a tornava produtiva, pois muitas
árvores em pouco tempo davam frutos.590 A dimensão do território era desconhecida,
na sua maior parte, sendo o cultivo da cana-de-açúcar, apenas um dos que se fazia. Na
terra era possível haver todas as agriculturas do mundo, pela sua fertilidade e clima,
principalmente pelo caráter salutar dos ares.591 As carnes abundavam em todos os
tipos, o pescado, por exemplo; havia caranguejos e mariscos, muitos legumes e leite,
sendo possível alimentar várias pessoas.592
No terceiro diálogo, Brandônio argumentou com Alvino sobre as mercancias
de açúcar, pau, algodão e madeira. Estes produtos eram explorados em abundância,
sendo o pau-brasil de comércio exclusivo do rei, que a cada ano rendia divisas

258
significativas para os cofres da coroa.593 Segundo ele, a exploração do pau-brasil
ocorria da seguinte maneira:
“vão-no buscar doze, quinze e ainda vinte léguas distantes da Capitania de
Pernambuco, aonde há o maior concurso dêle, porque se não pode achar mais perto
pelo muito que é buscado, e ali, entre grandes matas o acham, o qual tem uma fôlha
miúda e alguns espinhos pelo tronco, e êstes homens ocupados neste exercício levam
consigo para a feitura do pau muitos escravos da Guiné e da terra, que, a golpes de
machados, derribam a árvore, à qual, depois de estar no chão, lhe tiram todo o branco,
porque no âmago dêle está o Brasil; e por este modo uma árvore de muita grossura
vem a dar o pau que a não tem maior de uma perna, o qual, depois de limpo, se ajunta
em rumas, donde o vão acarretando em carros por pousas, até o porem nos passos
para que os batéis o possam vir a tomar”.594
Mas esta não era a única madeira. A terra oferecia inúmeras áreas que
poderiam ser utilizadas nas embarcações e na construção, bem como no fabrico de
móveis e outros objetos necessários, como as mungubas, buraremas, vigueiro, pau-de-
gamela, camaçaris, pau-d’alho e outras madeiras consideradas “moles”, por serem
fáceis de serrar.595 Outras muitas existiam e Brandônio confessava que não tinha
condições de enumerar todas. Pela qualidade delas, as mais importantes eram: a
jataúba vermelho, a piquiá, a jataúba, a maçaranduba, a cabaraíba, o jacarandá o
conduru, a sapupira, o camará, o pau-ferro, a burapiroca, a guandim, dentre outras.
O mangue também era um ambiente rico para o homem. Este era formado no
encontro dos rios com o mar. O fluxo e refluxo da maré facilitava o desenvolvimento
das espécies, inclusive da árvore de duas qualidades diferentes, uma vermelha mais
rígida e outra mais branca e de madeira mole.596
Os mantimentos, hortaliças, frutas e legumes da terra davam para o sustento de
todos. A mandioca, como era tradicional, ocupava o papel de destaque, sendo
mencionada a farinha de pau e o seu consumo. Outros produtos como a tapioca e seu
preparo também são destacados, contrapondo aos perigos já conhecidos que a
ingestão dessa raiz poderia causar ao homem. Brandônio colocava em segundo lugar
o arroz que se produzia em abundância em diferentes partes da colônia e a baixo
custo. Contudo, a população o explorava de forma incipiente e por “acharem a farinha
de mais sustância”.597 O milho não foi esquecido, sendo considerado um mantimento

259
proveitoso para o sustento do escravo da Guiné e dos índios. Este poderia ser
consumido assado ou cozido, como também era comum consumi-lo em iguarias como
bolo, por exemplo. Além do consumo humano, o grão era utilizado na alimentação de
cavalos e aves. 598
Outros mantimentos eram produzidos na época que os campos não produziam;
dentre as plantas que poderiam ser consumidas ele destacava:
“a raiz do carauatá, que sé dá pelos campos sem nenhum benefício, da qual se
faz farinha de boa sustentação; o segundo é as folhas de mandioca cozidas, e a que
chamam maniçoba, as quais são também excelentes para tempo de fome, e ainda sem
ela a usam muitas pessoas por mantimento; o terceiro é o fruto de uma árvore grande
a que chama umari, o qual serve também de mantimento; o quarto, uns coquinhos que
pelo nome da terra se chamam aquês. Estes tais se colhem dos pequenos coqueiros em
que se dão em cachos, depois de maduros, e se espreme deles uma substância doce e
gostosa, que se lhes tira dentre a casca, espremidos com as mãos dentro na água, e de
tudo junto, sendo cozido ao fogo, se formam umas papás que comem e com elas
juntamente os coquinhos, que estão dentro do caroço, depois de esbrugado e partido; e
deste mantimento se sustenta grande parte do gentio da terra e dos negros de Guiné. O
quinto é a raiz de cipó a que chamam macuna, a qual desfazem em farinha, que
comem depois de cozida”. 599
Alvino, como colono recém-chegado e descrente, não se convenceu facilmente
que as terras tinham tanta potencialidade e por vezes ouviu o seu interlocutor com
desconfiança. Estranhara saber que havia feijões em árvores. Brandônio confirmou a
existência deles que eram diferentes dos conhecidos na Europa, como o sapotaia.
Havia ainda o gergelim e o amendoim que permitiu grandes colheitas. Este último era
consumido na maioria das vezes assado ou cozido, sendo seu sabor apreciado. Às
vezes, era possível de consumi-lo cru.
O jerimum, a batata, o caju e outras frutas são descritas principalmente pela
forma como eram consumidas, pouco se acrescentava à descrição de detalhes e
características próprias da espécie. O diálogo visava a convencer o novato sobre
fartura que existia na terra e os benefícios que estas espécies poderiam oferecer ao
homem, tanto na alimentação, como para o comércio. Brandônio, quando interpelado

260
por Alviano, destacou a abundância das drogas da terra para a comercialização, ou as
madeiras que poderiam ser exportadas.600
Aves, peixes e animais terrestres havia em grande quantidade. Além dos
animais domésticos, havia pelas matas e florestas uma fauna desconhecida. Daquelas
que eram mais comuns, Brandônio salientou as aves que havia:
“pelos bosques e campos grande multidão de jacus, que são como galinhas
silvestres, de tanta estima que lhes não fazem vantagem as mesmas galinhas, posto
que sejam muito gordas; e outra ave, chamada aquaham, da mesma maneira e não de
menos estima; outras a que chamam mutus, que são do tamanho de um grande
galipavo e não menos prezados que eles; jaburu, que é muito maior que um pavão,
bastante pela sua grandeza a abundar meia dúzia de companheiros, posto que
famintos, com ser carne assaz saborosa. Outra ave a que chamam uruis, que não
desmerece o nome de boa; juhuapupe, semelhantes às perdizes de nossa Espanha e
não sei se alargue a dizer que são melhores; inhambu, também como as mesmas
perdizes e do seu tamanho; nambus, não maiores que as codornizes, as quais não
invejam em bondade, gosto e sabor aos tão estimados faisões da Europa; rolas, sem
conto, assaz gordas, que a pouco trabalho se toma; da mesma maneira codornizes e
pombos torcazes. Em todas estas aves agrestes se faz presa à custa de pouco trabalho,
e assim ficam servindo, quase como as domésticas, aos moradores da terra”. 601
A descrição foi rápida e o processo de associação suficiente para se ter uma
idéia aproximada da espécie. Como outras aves que foram mencionadas em seguida,
Brandônio tentou destacar as propriedades da carne e seu consumo. A visão utilitária
da natureza estava evidente. Isto não significa que outras espécies, como o pica-pau,
jirubas, quirejuabe, papagaios, coricas, tuins, araras e outras aves não fossem
apreciadas pela emissão de sons ou pela beleza das penas, que ajudam a compor um
quadro multicolorido dos trópicos. 602
Como os seus antecessores, elenca a profusão de pescado e de animais de
caça, sendo as pacas, cotias, quatis, tamanduás, preguiças, e tatus destacados como
elementos que poderiam contribuir para o sustento.603 Ao final, Brandônio afirmava a
Alviano, que havia chegado ao limite da sua obrigação, “o menos mal que pude,
deixando-vos agora o campo aberto para poderdes condenar o Brasil por ruim terra,
como no princípio fizestes, se virdes que com as verdades que dele tenho dito, se lhe

261
pode de justiça atribuir semelhante nome dos avisado; porque dos néscios não trato,
que os seus ruins discursos os desculpam”. Alviano se dava por convencido e
declarava: “Tendes-me já tão convertido à vossa seita, que por toda a parte, por onde
quer que me achar, apregoarei do Brasil e de suas grandezas os louvores que elas
merecem”.604

6.2 Novos olhares:


a riqueza natural capturada para fins científicos

No século XVII, as invasões holandesas no Brasil fizeram parte do complexo


jogo de interesses do mercantilismo europeu na América Portuguesa.605 O principal
objetivo das invasões era a recuperação do controle sobre as principais áreas em que
se desenvolvia a economia açucareira, prejudicadas pelo domínio espanhol sobre
Portugal.
O fechamento dos portos do império luso-espanhol aos holandeses,
empreendido pelos reis espanhóis durante a União Ibérica, prejudicou sensivelmente
os interesses comerciais dos mercadores holandeses que reagiram contra a perda do
controle, transporte e distribuição de produtos importantes. Os holandeses foram
parceiros dos portugueses no comércio de açúcar e na exploração da mão de obra
escrava, principalmente após a nação portuguesa ver com os próprios olhos o entrave
contra a Espanha.
A relação tumultuada entre a coroa espanhola e os Países Baixos levou a
Espanha a proibir os navios holandeses de aportarem em terras portuguesas,
perdendo, também, os privilégios que até então gozavam no comércio de açúcar. No
decorrer das investidas dos holandeses contra o território português da América,
foram realizados importantes registros. Dentre eles podemos destacar os dos seguintes
navegantes: Jan Baptist Syens (1600), Hendryck Hendryckssen Cop e Claes
Adriaensen Cluyt (1610), Dirk Symonsen (1626) e Hessel Gerritsz (1629).

262
O clero calvinista era simpático às idéias propostas por Usselincx o que
permitiu a criação da Companhia das Índias Ocidentais, incorporada por uma Carta-
Patente datada de três de junho de 1621. Pelo documento era concedido o monopólio
do tráfico e da navegação por 24 anos.
O governo holandês, com companhias privadas, formou a Companhia
Holandesa das Índias Ocidentais, formalmente criada por uma Carta-Patente, datada
de três de junho de 1621.606 Este empreendimento contou com um investimento
superior a sete milhões de florins e concedia a liberdade de construir fortes nas
regiões conquistadas, bem como liberdade para realizar negociações com chefes
locais. Esta companhia era uma empresa comercial que aliava interesses militares e
colonizadores, tendo como meta invadir e ocupar as terras produtoras de cana-de-
açúcar, visando a controlar a produção de açúcar. Desta maneira, os Países Baixos
procuravam recuperar os lucrativos negócios do açúcar, que haviam sido obliterados
pelas determinações da coroa espanhola, num momento que coincida com o fim da
trégua dos doze anos. A nova política a ser empreendida pela Companhia era a da
colonização e do comércio, mediante o uso de meios bélicos. Desta maneira, podemos
observar que a invasão holandesa ao Nordeste não pode ser considerada somente no
âmbito do jogo político das nações européias.
O primeiro ataque planejado contra o império colonial português da América
ocorreu em maio de 1624, tendo como palco a cidade de Salvador, sede do Governo-
Geral e de um bispado. A tomada da cidade foi narrada por moradores e jesuítas que
descreveram em detalhes a ocupação. O governador da Bahia, D. Diogo de Mendonça
Furtado (1621-1624), era conhecedor da possibilidade da invasão dos holandeses.
Contudo, não empreendeu nenhum esforço maior para evitá-lo. O governante acabou
sendo detido pelos inimigos e enviando preso para Amsterdã.607
A rendição dos holandeses, em 1625, não significou o final dos ataques ou a
desistência do plano de tomada das zonas produtoras de açúcar, como analisamos no
primeiro capítulo. Uma esquadra de catorze navios partiu da Holanda na primavera de
1626, tendo como destino a Bahia. O comandante era Pieter Heyn (1577-1629) que
enfrentou os piratas e as dificuldades do mar por dez meses. Em 1627, novamente a
cidade de Salvador foi alvo de investidas malogradas, e os navios holandeses
deixaram a cidade carregados de açúcar, fumo, algodão, dentre outros produtos da

263
terra. Neste mesmo período, os holandeses acometeriam com êxito as Antilhas, tendo
como alvo principal os navios espanhóis carregados de prata americana.608
A possibilidade de ganho fácil estimulou a cobiça dos holandeses e justificou a
continuidade dos ataques. Uma nova investida dos Países Baixos é feita em 1630,
porém desta vez a invasão se volta para a Capitania de Pernambuco, menos protegida
que Salvador, e com uma produção de açúcar expressiva. A região contava com
povoações importantes como Olinda, Porto Calvo, Muribeca dentre outras, que
realizavam a exploração da cana-de-açúcar, com resultados favoráveis e notoriamente
conhecidos.
Na manhã de 15 de fevereiro, o litoral de Olinda amanheceu com a frota
holandesa prestes a invadir a cidade. O planejamento do ataque fora feito em segredo,
sem que o monarca espanhol pudesse obter informações por meio dos seus espiões. A
esquadra era composta por mais de cinquenta navios sob o comando do General
Hendrik Corneliszoon Lonck (1568-1634), conhecido pelas ações de latrocínio que
praticava no mar.609 Os bombardeios começaram e os moradores defenderam-se dos
inimigos com parcos recursos. A ocupação eminente fez que boa parte da população
seguisse para o interior à procura de abrigo. Numa ação rápida, os batavos invadiram
e ocuparam a cidade do Recife e de Olinda. A esquadra composta por mais de setenta
navios e sete mil homens não teve dificuldades na ofensiva, apesar da resistência do
governador da capitania, Matias de Albuquerque (1580-1647), que organizou a
população na região de Porto Calvo (atual Alagoas), dificultando a ação de conquista
dos holandeses e permitindo que alguns questionassem sobre a viabilidade de
permanecer no local.610
Dominada a região, era necessário consolidar o empreendimento comercial
que obtivesse lucros para a Companhia das Índias Ocidentais. Neste processo de
conquista, destaca-se a figura de João Maurício de Nassau - Johann Mauritius Van
Nassau-Siegen (1604-1679),611 administrador e militar que chegou a Pernambuco em
23 de janeiro de 1637, nomeado pela Companhia Holandesa das Índias Ocidentais.
Valendo-se de uma política tolerante, inclusive no âmbito religioso, Nassau conseguiu
estabelecer vínculos mais fortes com os proprietários de terra, realizando uma
administração favorável para eles.612

264
Uma nova cidade foi projetada por Nassau segundo planos urbanísticos
definidos: ruas cortadas regularmente, saneamento da zona, escoamento das camboas,
construção de pontes e diques. Atualmente, põe-se em dúvida a estada de Pieter Post
no Brasil (1608-1669); mas o fato é que, graças a ele ou a outro qualquer engenheiro
– como, por exemplo, o engenheiro Pistor, sob a assídua assistência do conde, a futura
capital foi iniciada com as características de cidade segundo a concepção norte-
européia.
No século XVII, Georg Marcgraf, geógrafo e astrônomo de origem saxônia,
foi encarregado da elaboração das Cartas do Brasil durante o domínio a ocupação
holandesa.613 O trabalho de Georg Marcgraf (1610-1644) e de Guilherme Piso (1611-
1678), que também veio para Pernambuco a convite de Mauricio de Nassau, resultou
na obra “Historia Naturalis Brasiliae” um dos textos de referencia para o estudo do
mundo natural, não só pela descrição mais técnica como também pelo conjunto de
gravuras que ilustravam a obra.614
A obra é composta de duas partes. A primeira, de autoria de Guilherme Piso,
intitulada “De Medicina Brasiliensi”, foi dividida em quatro livros assim
apresentados: Livro I, que tratava dos ares, das águas e dos lugares do Brasil; Livro II,
que tratava das moléstias endêmicas e comuns no Brasil; Livro III, que tratava dos
venenos e seus antídotos e o Livro IV, que tratava das faculdades dos símplices.
A segunda parte, de autoria de Georg Marcgraf, intitulada “Historia rerum
naturalium Brasiliae”, era formada por oito livros. Os três primeiros foram dedicados
à botânica, o quarto, aos peixes, o quinto, aos pássaros, o sexto, aos quadrúpedes e
serpentes e o último dedicado à região do nordeste brasileiro e suas gentes. Este
último livro teria sido de autoria de Joannes de Laet que estudou a língua e a cultura
tupi.615
Guilhermo Piso exaltava as condições agradáveis das terras brasílicas com
ares e águas clementes. As condições propiciavam uma vida longa à população. Se a
terra tinha atrativos como outros cronistas já haviam relatado, Guilhermo Piso
também entendia que os indígenas gostavam em demasia de danças e bebidas.
Reprovava as práticas de canibalismo que, conforme assinalou, mesmo causando a
morte de um ser humano, havia alegria, pois os que participavam do ritual

265
demonstravam estar contentes. Em seguida ele discorre sobre os alimentos, as águas e
outros produtos da terra, tendo como preocupação o equilíbrio do organismo.
No segundo capítulo, a preocupação com as moléstias endêmicas merece
atenção especial. Em se considerando que nos climas tropicais havia condições para o
desenvolvimento de diversas doenças, a natureza tinha sido benevolente em fornecer
diversas espécies para curar. Neste capítulo bem detalhista, o autor pondera sobre
febres, espasmos, catarros, hidropisia, opilação do fígado e do baço, lombrigas, fluxo
do vente, cólera, disenteria, ulceras, doenças comuns às mulheres e às crianças,
doenças venéreas, dentre outras. Sua preocupação era identificar os sintomas das
doenças, as reações orgânicas, os tratamentos e os seus resultados.
No terceiro livro, os venenos e seus antídotos foram os objetos de estudo. O
autor procurou identificar os diferentes venenos que existiam nos trópicos e os
possíveis meios para atalhar seus efeitos. Para tanto, apresentou os animais mais
venenosos ou plantas, como a mandioca, que chamava a atenção pela sua toxicidade,
caso não fosse adequadamente preparada. Da mesma forma, foi dada atenção especial
às serpentes, como a jararaca, o sapo-cururu, descrevendo os órgãos pelos quais este
lançava o veneno.
No último capítulo, Piso dedicou-se às culturas mais destacadas da terra, como
a cana-de-açúcar, fazendo uma descrição pormenorizada do seu cultivo e do preparo
do açúcar. Observou atentamente o que a natureza poderia oferecer à exploração
humana, desde as propriedades da mandioca, palmeira, urucu, umbu, muricia, ananás,
dentre outras espécies. Desta forma, o texto de Piso foi o primeiro a tentar
sistematizar os elementos da fauna e da flora brasileiras de maneira mais ordenada e
coerente.
Os registros feitos por Marcgraf revelam preocupação em mostrar a riqueza
natural da terra, com fins científicos. Dedicou-se ao seu objeto de estudo, cujo
resultado facilita a identificação de uma atividade descritiva e sistemática, nos moldes
dos trabalhos dos viajantes científicos no decorrer do século XVIII. 616
Marcgrave, ou Marcgraf, nasceu na Saxônia, nos idos de 1610. Tendo como
meta participar do governo de Maurício de Nassau, veio para o Brasil em 1638. Era
astrônomo e convenceu Maurício de Nassau a construir o primeiro observatório do
Novo Mundo. A obra “Historia Naturalis Brasiliae”, além dos registros sobre a

266
natureza, apresentava importantes ilustrações.617 Georg Marcgraf estudou História
Natural e demonstra, pelos seus registros, um caráter minucioso em suas observações.
A qualidade de suas referências contribuiu para que Lineu, na décima edição da obra
“Systema Naturae”, citasse seu trabalho em que constavam 14 mamíferos, 15 aves, 2
répteis e 8 peixes. O trabalho de Marcgraf é considerado o primeiro tratado sobre a
História Natural, tendo sido amplamente difundido nos séculos XVIII e XIX; foi
mencionado por diferentes naturalistas, como: Alexander von Humboldt, na sua
grandiosa obra "Voyages aux régions équinoxiales du Nouveau Continent ...." (30
volumes, Paris, 1807-1825).
Marcgraf localizava as espécies, registrava-as com nomes vulgares, e as
gravuras complementavam para a identificação das mesmas. A pujança da natureza
americana daqueles idos dominava e instigava pintores a representarem nos seus
quadros a realidade da nação. A natureza revela também o exotismo do desconhecido
e estimula a imaginação poética a representar o mundo natural. Pintores holandeses
como Albert Eckhout (1610-1666) e Frans Post (1612-1680) foram sensíveis ao
assinalarem as terras brasílicas, procurando avivar a vida natural dos trópicos.618
Em 1652, Jacob Josten publicou “Historische beschreibung der kleinen
wunderwelt” (Descrição histórica do admirável pequeno mundo). Jacob Josten veio
para o Brasil a serviço da Companhia das Índias Ocidentais e viveu em Pernambuco
de 1638 a 1644, descrevendo importantes aspectos das disputas entre portugueses,
colonos e holandeses, ao mesmo tempo em que noticiava aspectos das terras
ocupadas.
Nas primeiras décadas do século XVII, outros religiosos se dedicaram a esse
mister. O frei capuchinho Cristóvão de Lisboa (1583-1652)619 estudou na
universidade de Évora e escreveu a obra “História dos animais e árvores do
Maranhão”, entre 1625 e 1631. O texto resultou de sua estada na região do Maranhão
e pode ser comparada ao trabalho de Claude de d’Abbeville e de Yves d’Evreux. Frei
Cristovão de Lisboa identificava várias espécies com desenhos em nanquim e
descrições sintéticas. O nível de detalhamento das imagens impressiona pelo cuidado
da representação. A vivência na região propiciou ao religioso sua participação em
práticas de caça; descreveu plantas, no seu estado natural, e também aves e a forma

267
como poderiam ser consumidas. Contudo, a metodologia utilizada pelo religioso foi
simples, podendo ser considerada como apontamentos sobre formas de vida tropical.
A região do rio Amazonas foi alvo de registros feitos por espanhóis. Em 1641
era publicado o “Nuevo descobrimento del gran rio de las Amazonas por el padre
Christóval de Acuña”.620 Cristóbal de Acunã (1597-1676?) era um jesuíta que
explorou a região e foi reitor do colégio de Cuenca, no Equador. Em 1639, o religioso
acompanhado de Andrés de Artieda e do capitão português Pedro de Teixeira
empreendem uma viagem pelo rio Amazonas, de Napo até a desembocadura na região
do Pará, a aventura foi incluída no texto acima mencionado. São textos que
proliferaram na medida em que as expedições religiosas e as disputas pela ocupação
da região iam se intensificando. A restauração do trono português, a partir de 1o. de
dezembro de 1640, estimularia a disputa na região e exigiria também um
reconhecimento da extensão do território.621
Os viajantes observavam em seus avanços pelo território que, na medida em
que se afastavam da faixa litorânea e das cidades e vilas, as povoações escasseavam.
Em parte, este cenário se devia, em algumas regiões, às áreas típicas da caatinga e do
semi-árido impondo dificuldades aos que as desafiavam. Mesmo assim, a
multiplicidade de paisagens exibia belos quadros da natureza.
A diversidade da paisagem natural foi marcada constantemente nos registros
dos viajantes que tiveram uma percepção mais aguçada em relação ao território,
baseados nos elementos da vegetação, hidrografia, relevo etc. Para o viajante, era
possível fazer distinções sobre os espaços. O movimento de subida e descida das
serras permitia que o viandante percebesse uma infinidade de montes que compunham
as serras. A variação de áreas cobertas por uma vegetação densa e outras de morros
descobertos sem matos marca os contrastes da natureza e uma diversidade de
espécies. Se a exuberância do mundo natural criava uma sensação de
deslumbramento, esta não se mantinha por muito tempo. As dificuldades impondo
morosidade ao percurso tornavam as árvores e matos responsáveis por um cenário
melancólico, palco do desconhecido e do medo.622
Ao avançar pelo interior, os viajantes tinham oportunidade de visualizar as
colinas, que poderiam ser de “terra argilosa ou verdadeiros desertos de areias
movediças ou ainda capim seco”. Pelo caminho, em meio às florestas com suas

268
espessas árvores, ao viandante era oferecida a dimensão da pujança do território, que
contrastava com as choças miseráveis que se poderiam encontrar, cujos habitantes
tentavam sobreviver à fome e às ameaças devido ao afastamento do litoral. Para John
Monteiro, “a penetração dos sertões sempre girou em torno do mesmo motivo básico:
a necessidade crônica da mão-de-obra indígena para tocar os empreendimentos
agrícolas dos paulistas”.623
Em 1684, o jesuíta Manuel Rodriguez publicou a obra “El Marañon y
Amazonas - historia de los descubrimientos, entradas, y reduccion de naciones,
trabajos malogrados de algunos conquistadores, y dichosos otros, assi temporales
como espirituales, en las dilatadas montañas, y mayores ríos de la América”,624
demonstrando interesse temporal e religioso na região, tendo em conta a riqueza
natural. Este momento coincide com uma intensa pulsação de missões religiosas pelo
mundo e também um aumento de circulação de pessoas e informações, na medida em
que a imprensa conquistava maior popularidade e que a demanda por relatos de
viagem, como destacamos anteriormente.
Em 1688, Urbain Souchu de Rennefôrt escreveu “Histoire des Indes
Orientales”,625 cujo conteúdo refere sua experiência de viagem em direção à Índia,
tendo passado por Pernambuco. Algumas crônicas, de forma pontual, como esta,
tocavam em aspectos de um efêmero contato com o litoral, não sendo, porém, o foco
principal.
Em 1698, é publicada a obra “Relation d'un voyage fait en 1695, 1696 et 1697,
aux côtes d'Afrique, Détroit de Magellan, Brezil, Cayenne et Isles Antilles, par une
escadre des vaisseaux du Roy, commandèè par M. de Gennes”, por Sieur Froger. O
texto demonstra o interesse da Academia de Ciências Francesa pelas terras coloniais,
sem dúvida para atender aos interesses políticos e econômicos do Estado, que compôs
uma esquadra sob o comando de M. De Genes. Aos poucos, outras expedições vão
sendo financiadas, fazendo que o planejamento das viagens exploratórias seja mais
elaborado. Por decorrência, também os relatos de viagens são elaborados com maior
definição, tendo em vista os interesses de estudiosos e a influência do avanço do
pensamento científico.
Sieur Froger, autor do texto, afirmava que sempre desejara ver países
estrangeiros e de tudo que pudesse formar um homem honesto. Sua viagem tinha

269
como objetivo conhecer o mundo e as coisas e de ser útil ao seu país. Ele exercitou o
desenho e estudou matemática. Em 1695 ele realiza a sua primeira saída, tendo
oportunidade de conhecer o universo da navegação e dos portos, permanecendo em
alguns locais por muito tempo. Nestas ocasiões, além de observar os costumes, a
religião, o povo, colheu informações sobre frutos, plantas, pássaros, peixes e animais
que pareciam extraordinários. 626
O início da sua viagem ocorreu em junho de 1695 em Rochelle, numa frota
composta por diversos navios que ficaram à espera de ventos favoráveis.627
Prosseguiu viagem anotando a passagem das ilhas do Cabo Verde, onde os primeiros
contatos com a população local o impressionaram, principalmente o comércio de
escravos que Portugal empreendia na localidade.628 Numa das paradas sumariou uma
série de frutos ali existentes e a forma como os habitantes da região os consumiam;
havia também o mandanaz, um pequeno e saboroso fruto como uma noz de forma e
cor de um abricó.629 O viajante impressionou-se com as palmeiras e os cocos dos
quais os negros extraíam do seu interior um licor "branco”.630 Nas páginas seguintes,
tratava dos usos e costumes dos aborígenes, destacando aspectos da religião e das
práticas de sepultamento, ao passar pela região do rio Gâmbia. 631
Depois de algumas interações com os nativos, a viagem seguiu em direção ao
Brasil. Como o número de viajantes doentes aumentava a cada dia, a comitiva
retornou às ilhas do Cabo Verde, para que os doentes se recuperassem.632 Nesse
movimento, visitaram as ilhas de Santo Antonio e São Vicente, procurando por ares
saudáveis, uma alimentação mais rica e produtos para carregar os navios e prosseguir
a viagem em direção à América.633 Nesse percurso tiveram que suportar os efeitos do
calor excessivo; entre o final de outubro e começo de novembro observou-se a
calmaria do mar. Dourados e arenques em abundância obsequiavam a pescaria. As
aves as quais impressionavam pela cor das penas. A primeira ilha identificada foi a da
Ascensão, pequena e escarpada, a mais de 150 léguas da costa.634 A ilha de Santo
Antonio, que servira aos holandeses, quando estes invadiram a região, foi o local da
parada seguinte. Na realidade, era um conjunto de três ilhas, a maior ficava no centro,
sendo possível encontrar ali alguns frutos selvagens.635 Os pássaros em revoada
chamavam a atenção e deles o autor destacou o cardeal e o colibri. O primeiro era
descrito como pequeno com as asas escuras e o resto do corpo de uma cor escarlate

270
muito viva. O colibri era um pássaro pequeno de plumagem verde e de bico longo que
tirava sua alimentação das flores, de forma similar à operação praticada pelas abelhas.
Havia no mar aves marítimas em abundância.636
Mas o destino da expedição era o Rio de Janeiro. a referência era a grande
rocha do “pão-de-açúcar”.637 Froger e seus companheiros tiveram dificuldades para o
desembarque na cidade do Rio de Janeiro, tendo sido alegado como motivo a
existência de doenças nos navios. Na verdade, o governador temia um ataque dos
franceses na região. Ao constatarem a aproximação dos navios, muitas mulheres se
638
retiraram para o campo, a fim de se protegerem de um possível ataque. As
negociações com o governador para desembarque foram difíceis; havia o temos de
ataques dos franceses aos moradores.639 Após alguns dias, foi autorizado o
desembarque dos doentes em um vilarejo, distante da cidade. Froger observou o
movimento de navios na região, como a chegada de embarcações vindas da Bahia e
também de Angola, com carregamento de escravos. Anotou seu ressentimento pelos
modos pouco honestos do governador, ao proibir a comercialização de mercadorias
com os navios de origem francesa, determinando que só com a expressa autorização
dele é que seria realizada tal negociação.640 Porém este impasse não o impediu a
apreciar a beleza da região com suas elevadas montanhas Na cidade do Rio de Janeiro
se destacavam as residências dos jesuítas e beneditinos, cada uma delas sobre uma
pequena elevação.641 Segundo o olhar do viajante, a população era asseada. O tráfico
negreiro era forte, como a produção de açúcar era elevada. Os escravos, encontrados
por todas as partes, faziam todos os tipos de trabalho.642 Ele constatou também a
existência de uma grande quantidade de indígenas que convivia e interagia com os
colonos. A experiência que alguns dos tripulantes tiveram não foi das melhores, um
amigo de Froger, aventurando-se pela cidade, se viu pressionado por um grupo de
portugueses. Atemorizado, procurou abrigo no convento dos carmelitas.. Os religiosos
não foram pacíficos, nem cordiais, e lhe deram um golpe de espada, marca que ficaria
para sempre, além de levar inúmeras pancadas. Mas o infeliz francês sobrevivera à
fúria dos religiosos.
Quando às potencialidades da região, ele destacou o arroz, o milho e a
mandioca, descrita como um arbusto de quatro a cinco pés de altura com raízes que
poderiam ficar na terra até por três anos. As raízes grossas eram o alimento comum da

271
643
América. O consumo ao natural e o beiju foram registrados. Abundavam legumes
e frutos. Melões, melancias, uvas, laranjas, bananas, abacaxis, cocos, goiabas, dentre
outros foram catalogados como alimentação básica da população. O abacaxi, como
em outros registros, ganhou um mais amplo detalhamento; era uma planta grossa
como “pomme de pin”, com folhas longas e espessas com uma coroa e que merecia o
título de ser a melhor fruta da América.644 A batata e o inhame foram mencionados
como alimento trivial. O coqueiro foi descrito como uma árvore que produzia um
fruto com uma noz dura e ovalada. Em seu interior havia um líquido branco, possível
de encher um copo, sendo capaz de sustentar um homem. A goiaba, com sua casca
verde e o interior vermelho, para Froger lembrava o gosto do pêssego.645 Às vezes, os
viajantes, desobrigados com a realidade, faziam associações que tornavam fauna mais
exótica e distante das suas características originais.
Deixando o Rio de Janeiro, a frota, onde seguia Sieur Froger, passou pela Ilha
Grande, coberta de uma floresta densa, onde encontrou algumas frutas e a “poire de
mapou” que produzia um algodão roxo, com o qual era possível fazer colcha para
cama.646 Foi possível também observar tatus, cuja carne tinha o gosto de porco fresco.
Era final de 1695 e a viagem prosseguia para outras conquistas na região da Terra do
Fogo.
Da última década do século XVII, identificamos importantes registros dando a
dimensão da ocupação do território em regiões diferentes, seguindo o ímpeto da
aventura dos habitantes ou o desejo da coroa em efetivar a posse do território, a partir
do litoral. O padre jesuíta João Felipe Bettendorf (1625-1698), nascido em
Luxemburgo, estudou Teologia e Filosofia em universidades alemãs. Foi indicado
como missionário na região do Maranhão, por intermédio do padre Antonio Vieira.
Em 1661, o religioso chegou às terras brasílicas, para realizar as suas atividades
missionárias, iniciadas há pouco tempo pelo padre Luís Figueira (1575-1643). A
dedicação do religioso o levou a ocupar cargos de direção e o reitorado do colégio de
São Luis. Posteriormente, foi visitador das missões, observando os vários conflitos na
região que conduziriam à expulsão dos jesuítas da região em 1684. Pe. Francisco
Bettendorf foi um dos responsáveis por negociar o retorno dos religiosos ao local,
conforme o decreto de D. Pedro II (1648-1706) referente ao “Regimento das Missões"
(1686). O jesuíta escreveu, dentre outros trabalhos, a “Crônica da Companhia de Jesus

272
no Estado do Maranhão” (1698). No seu conjunto, havia importantes informações
históricas sobre o processo da colonização portuguesa na região do Maranhão e a
atuação dos jesuítas.647 O discurso sobre a natureza emergia como parte do processo
de conquista, de forma similar a algumas referências feitas pelos primeiros jesuítas no
século XVI. O trabalho aborda inicialmente as dificuldades de exploração da região
amazônica, sendo o rio o elemento fundamental do processo. Informações sobre os
principais rios, suas condições de navegabilidade, com detalhes sobre a largura e a
intensidade da correnteza, foram consideradas essenciais para a compreensão da
região. O clima e a temperatura, como nos registros anteriores, foram destacados a
partir da oscilação do forte calor para temperaturas mais brandas. A descrição das
demais espécies não foge à tradicional forma de apontar as semelhanças entre elas.
Uma série de expedições, por incentivo oficial ou particular, ocorreu pelo
território na busca de riquezas. Este movimento de expansão a partir de pontos
diferentes do litoral revela o anseio por descobertas que rendessem lucro para os
aventureiros e para a coroa portuguesa. Os itinerários foram sendo construídos ao
sabor dos interesses e das possibilidades dos habitantes. Os rios foram as vias
utilizadas por muitas bandeiras que penetraram pelo interior. Os rios encachoeirados,
apesar de imporem dificuldades, não desestimularam os aventureiros. O sonho de um
eldorado movia muita gente, mas a maioria das expedições foi infrutífera quanto ao
seu objetivo principal. Na segunda metade do século XVII, há uma intensificação das
bandeiras paulistas para os sertões setentrionais do Brasil, responsáveis pela
descoberta de ouro na última década desse século. A febre pela busca do ouro fez que
um verdadeiro movimento de interiorização ocorresse, principalmente na região das
Minas Gerais.648
Como pudemos observar, os relatos sobre a natureza são díspares, e o discurso
variava conforme o narrador. Registros mais elaborados destacavam-se pela precisão
da informação, como também pelo desejo de fixar o objeto observado por meio de
gravuras.
A paisagem das terras tropicais enchia os olhos dos viajantes. Árvores e
arbustos de diversos tamanhos e variedades eram encontrados pelos caminhos, bem
como os seus habitantes, formando um registro único. A abundância de flores e a
beleza das suas cores e formas contribuíam para dar à paisagem um caráter sui

273
generis. A hostilidade do indígena fazia dos caminhos um perigo constante, pois, para
muitos, o comportamento deles era similar aos dos animais ferozes: “gente tão má,
bestial e carniceira”.649 Desta maneira, os relatos aproximam os nativos da natureza,
num estágio de desenvolvimento inferior ao experienciado pela civilidade cristã
européia. As longas distâncias que separavam as aldeias das vilas impediam a ação
missionária e o controle efetivo sobre os hábitos, costumes e padrões
comportamentais do indígena, dificultando a conversão. Contudo, ficava evidente que
a rica natureza poderia oferecer os recursos necessários para a ocupação de qualquer
parte do território. A insistente comparação com o continente europeu, revela que os
recursos da terra brasílica superavam em muito os da Europa. Havia um grande
desconhecimento sobre a fauna e flora brasílica, que aos poucos estes trabalhos
ajudaram a construir. Não podemos ignorar a importância do trabalho de Georg
Marcgraf para o estabelecimento de espécies únicas, conforme consagrou
posteriormente Lineu. Tudo isto confirma a necessidade de ousar e saber conhecer a
natureza.

274
Sétimo Capítulo

A natureza brasílica sob investigação

A natureza não faz nada bruscamente.


Jean Lamarck

Não se precoupe em entender, viver ultrapassa todo o entendimento.


Clarice Lispector

275
7.1 – A ocupação do interior e a riqueza mineral

No período colonial o que se observa é um grande isolamento entre as regiões


e uma lenta ocupação em direção ao interior; os caminhos estavam para ser
consolidados, principalmente na segunda metade do século XVIII e no decorrer do
século XIX.650 As andanças pelo sertão implicavam inúmeras privações, tidas como
provações pelos religiosos e uma realidade a ser enfrentada pelos viajantes que
procuravam desbravar o território. O povoamento das Minas Gerais ganharia maior
intensidade com Antônio Rodrigues Arzão (? – 1700) nos sertões do Rio Casca, a
partir de 1692. A notícia de achamento de ouro na região das Minas Gerais fez que
um número elevado de pessoas se dirigisse para a região. Aventureiros vindos de
Portugal ou de outras partes da América procuraram a riqueza sonhada desde a
descoberta do Brasil. Na maioria das vezes, os bandeirantes não devassaram florestas,
mas se valeram dos caminhos abertos pelos índios. Muitas trilhas também poderiam
ser atribuídas aos animais como observa Sérgio Buarque de Holanda:
“E assim como o branco e o mameluco se aproveitaram não raro das veredas
dos índios, há motivo para pensar que estes, por sua vez, foram, em muitos casos,
simples sucessores dos animais selvagens, do tapir especialmente, cujos carreiros ao
longo de rios e riachos, ou em direção às nascentes d’água, se adaptavam
perfeitamente às necessidades e hábitos daquelas populações. Hábitos a que os
europeus e seus descendentes tiveram de se acomodar com freqüência nas viagens
terrestres[...]”.651
Caminhar pelos sertões impunha provações e também conhecer a trama das
matas. A possibilidade de ficar sem água nas incursões era uma das grandes
preocupações. O contato com o índio obrigou os colonos a conhecessem determinadas
espécies vegetais, como o umbuzeiro, o taquaruçu, o caraguatá e algumas espécies de
cipó, que poderiam aliviar a sede daqueles que seguiam pelas matas. Caminhos iam
sendo abertos pelos sertanistas e os deslocamentos se intensificaram pelo interior do

276
território. Os rios e os caminhos sinuosos e íngremes faziam parte da aventura em
busca do ouro.652 O movimento desordenado de ocupação impediu a criação de uma
infra-estrutura para amenizar as condições de vida. O desejo de enriquecimento rápido
fez que pouca ou nenhuma atenção fosse dada à possibilidade de sobrevivência na
região no início do século XVIII.653
As menções ao mundo natural são muitas, porém registram uma visão de
paisagem sem aprofundamento na descrição do espaço, nas diferentes espécies da
fauna e da flora e suas particularidades. A penetração pelo território, por via terrestre,
ou por meio da bacia hidrográfica do Tietê, do Paraná, do Amazonas etc., registra
diferentes referências sobre a natureza brasílica.654 Na medida em que as terras foram
desbravadas, novos universos foram incorporados. Nas cartas e relatos, o mundo
natural pode aparecer em referências dispersas e comentários ou, de forma mais
elaborada ou detalhada, dependendo da intenção que movia a realização do registro.
Nos relatos dando conta do avanço pelo interior, a natureza foi observada pelo
caminho, impondo dificuldades ou dando prazer ao homem pela sua beleza. Além
disso, ela pode ser descrita pelos sabores mais diversos. A necessidade de alimentos,
em especial para os grandes deslocamentos, impunha ao viajante conhecer os sabores
de plantas, frutas, carnes de animais, aves e peixes.
Os núcleos que se formaram não tinham os recursos suficientes para se
manterem. A maioria dos produtos era trazida de fora para abastecer determinadas
regiões no interior do território. Uma complexa rede comercial se estabeleceu e de
diversas partes do território se formaram caminhos para atender às necessidades da
população, quanto a alimentos, tecidos e outros tipos de recursos, principalmente na
região das Minas Gerais, onde o ouro estimulava estas práticas. O ouro despertara a
cobiça de muitos homens e também o desejo de enriquecimento rápido, dando ensejo
às práticas de contrabando. O governo português procurou coibir os desvios de ouro,
exercendo controle sobre a entrada e saída na região mineradora. Os caminhos foram
sendo controlados como também a abertura de novas trilhas e picadas. Aventurar-se
pelo sertão era uma tarefa árdua, tendo em conta que a região oferecia grandes
dificuldades de acesso e as áreas povoadas eram escassas e sem mínima estrutura. Tal
condição deixava o viandante quase sem recursos de apoio pelo caminho.655

277
Como se as dificuldades do relevo, do clima, da falta de recursos alimentares
não bastassem, havia os perigos da mata. Animais poderiam tornar a aventura mais
tenebrosa, como também os indígenas que se poderia encontrar pelo caminho, como
os relatos nos informam. Sem dúvida, a ousadia de se aventurar pelo interior deveria
ser grande, pois um ambiente inóspito e fantástico poderia se apresentar a qualquer
momento. Uma flora e uma fauna que precisavam ser enfrentadas.
Os tropeiros, naqueles idos, representavam um elo entre centros urbanos e as
regiões mais afastadas. Eram eles que levavam mercadoria, informações das mais
diversas, fazendo de fato uma circulação cultural e econômica. O povoamento e a
colonização de Minas Gerais no século XVIII constituíam um passo fundamental no
sentido da penetração rumo ao interior da colônia. O movimento bandeirantista e
posteriormente a exploração aurífera fizeram que Portugal abrisse novas rotas
comerciais que ligassem o litoral ao interior ou ao “sertão”.656
O sertão era temido pela diversidade de tribos indígenas. A fama dos
botocudos, por exemplo, uma das tribos mais temidas, marcava o imaginário daqueles
que se aventuravam pelas matas. A circulação de tropeiros e vaqueiros de diversas
regiões para Minas Gerais foi constante no decorrer do século XVIII. Estes homens
venciam o recortado relevo subindo e descendo morros e serras para abastecer a
região. São eles que registram as dificuldades do caminho, não só no que diz respeito
a aspectos geográficos, mas também no que tange à ação dos salteadores que
poderiam surpreender o viajante incauto. Contudo, a possibilidade de um
enriquecimento rápido fez que desvios e rotas alternativas fossem abertos na região
das Minas Gerais. Apesar da repressão dos governadores, as práticas de contrabando
foram constantes. A abertura de caminhos sem a prévia autorização da coroa
portuguesa era considerada crime de lesa-majestade, por colocar em risco a cobrança
de impostos.
O “sertão”, enquanto interior do território, estava presente nos relatos e
documentos desde o século XVI. O termo utilizado pelos portugueses desde a Idade
Média se referia de maneira genérica às áreas situadas em Portugal e distantes de
Lisboa. Após o movimento da descoberta, o termo passou também a ser empregado
para as possessões ultramarinas. A idéia que se tinha era de uma área desconhecida,
com a ausência da ocupação humana; de forma geral, o sentido era de grandes

278
espaços interiores, pouco ou nada conhecidos. A descoberta de ouro, a partir do final
do século XVII e as transformações advindas desse fenômeno fizeram que o sertão
fosse mais ocupado e conhecido. Portanto, mais referenciado nos registros elaborados
pelas autoridades administrativas e viajantes. A imensidão do sertão, apesar de um
movimento de povoação, continuava a ser um território vasto, local de terras
afastadas, indomadas e habitadas por índios. Durante o período colonial, a idéia de
sertão estava envolvida em aspectos negativos, pois as terras desconhecidas eram
ameaçadoras para os homens, e para o colonizador o sertão era o espaço do outro. A
partir da leitura de oposição entre litoral e sertão, o conceito sobre o termo se altera e
evidencia uma percepção de espaços diferentes, mas complementares.
As bandeiras que saíam pelo território ampliaram os limites das terras
portuguesas da América. O movimento em busca de metais preciosos e do
aprisionamento dos indígenas permitiu que os bandeirantes paulistas rompessem com
os limites da ocupação litorânea.657
No final do século XVI e início do XVII realizaram-se as primeiras
expedições de investida pelo interior. A expedição de Nicolau Barreto, de 1602, é um
marco neste sentido. Contudo, a mais destacada é a de Antonio Raposo Tavares
(1598-1658), que avançou pelo sul em busca de reduções jesuíticas localizadas nas
terras pertencentes à Espanha, como também participou de outras expedições de
aprisionamento de índios, nos idos de 1628. A busca do ouro e as diversas tentativas
de penetração no interior para além dos rios do Planalto de Piratininga deixaram os
caminhos marcados por arraiais. Rapidamente, uma rede de pequenos núcleos
dispersos é formada ao longo dos vales e rios, obedecendo às práticas lusitanas na
escolha do sítio urbano. Se, por um lado os bandeirantes paulistas tiveram como
objetivo devassar sertões e explorar minas, por outro, foram responsáveis por abater e
dizimar milhares de índios, prática empreendida desde o século XVI. Muitos
moradores da vila se envolveram nas bandeiras e aventuraram-se pelos sertões,
caçando índios. Vencendo dificuldades, e por vezes sem recursos para se manterem,
estes homens acabaram por atacar tribos indígenas levando-as à destruição. Se o
espírito empreendedor e aventureiro era necessário para a exploração do interior, a
violência também era um dos elementos comuns nas relações entres os próprios
bandeirantes e deles para com os índios.

279
Fernão Dias Paes Leme (1608-1681), morador da vila de São Paulo,
aventurou-se pelos sertões das Minas, caçando índios na serra de Apucarana. Com o
apoio da coroa portuguesa, explorou as matas do Serro Frio. Descobriu as minas de
Sabarabuçu e do Sumidouro. Seu poder não impediu que ele sofresse um atentado,
cometido por um filho bastardo, chamado José Dias Paes Leme. Ao tomar
conhecimento do atentado, Fernão Dias, entendendo que o caso exigia um castigo
exemplar a fim de evitar outras revoltas “negou-se ao amor e piedade do pai, e
obedecendo aos ditames da reta justiça, fez confessar ao réu e enforcá-lo à vista de
todo o arraial”.658
A violência, a miséria e as incertezas dos caminhos não impediram que outros
bandeirantes seguissem pelo sertão, criando pequenos aldeamentos que dariam origem
às primeiras povoações do interior paulistas. Violência que muitos dos relatos
apontavam apenas existir na natureza.
A descoberta de ouro em pequenas quantidades, na atual região das Minas
Gerais, acabou por estimular os sertanistas a explorarem mais o local. Neste sentido,
destaca-se a exploração das minas de Cataguás, em 1676, por Lourenço Castanho
Taques. No final do século XVII, quando as descobertas de ouro de aluvião nos leitos
dos rios do interior aumentavam, alguns arraiais, como o de Sabará, já se destacavam.
Em 22 de março de 1682, por meio de uma provisão, a vila de São Paulo foi elevada à
categoria de cabeça de capitania, revelando que o planalto sobrepujava o litoral.
Contudo, o avanço pelo interior ficava comprometido devido às dificuldades
dos caminhos que ligavam São Paulo ao sertão. O governo português esboçou ações
no sentido de melhorar as condições de acesso de São Paulo e do Rio de Janeiro para
o interior, mas não havia recursos, nem tampouco meios adequados para fazê-lo. A
vastidão do território aprofundava ainda mais as dificuldades.
Nos caminhos formaram-se pequenos núcleos urbanos e rurais que visavam a
dar suporte ao viandante. Contudo, estas áreas tinham carências enormes. Dentre os
grandes caminhos se destacavam o Caminho Velho, que se aproximava da Bandeira
de Fernão Dias, de 1674-1681. Ele ligava as vilas paulistas e Parati a São João del-Rei
e seguia para Vila Rica. O Caminho Novo, aberto entre 1698 e 1725, fazia a ligação
entre o Rio de Janeiro e Ouro Preto. Outro trajeto importante era o Caminho da Bahia,
que unia a região de Sabará ao Recôncavo Baiano. Na região interiorana havia

280
caminhos que ligavam as vilas, como o caminho que ligava Vila Rica ao Arraial do
Tijuco.
No caminho que ligava o Rio de Janeiro a Vila Rica, havia diversas
propriedades em que os moradores tinham feito roças e paióis e aberto caminhos fora
do alcance da patrulha do mato. Estes, como outros caminhos, revelavam que a
administração portuguesa não conseguia controlar o povoamento na região das Minas
Gerais e nos caminhos de acesso.
A necessidade de deslocamento por terra ou mar fazia que os viajantes
enfrentassem ora um rio colossal, ora tempestades mortais. Era preciso ser um homem
bravo e valente, persistente e engenhoso, para se deslocar das terras européias e
enfrentar as rotas desconhecidos das terras americanas. Provações que provocavam o
desânimo revelado por alguns sinais de cansaço.659
Manoel de Borba Gato (1649-1718) ao explorar o ouro na região de Sabará e
obter êxito, acabou dando início a uma ocupação desenfreada na região. A notícia de
achamento de ouro logo atraiu grande quantidade de indivíduos. Aventureiros em
busca de riquezas, criminosos fugidos da justiça, dentre outros, seguiram em busca do
sonho do ouro. Enfim, descobriram-se vestígios do metal precioso há tanto tempo
desejado pela coroa portuguesa.
A produção mineradora ocorreu primeiro na beira dos rios e córregos, onde os
exploradores arrancavam o cascalho, lavando e apurando para encontrar ouro nas
bateias, sendo que, nesta fase, a maior parte do ouro era de aluvião. Deste movimento
surgiu a ocupação das minas, com arraiais no final do século XVII e início do XVIII,
sendo erguidas as primeiras capelas como a de São João, Padre Faria e Antônio Dias.
As condições de ocupação eram as piores possíveis, tendo em vista a maioria dos
exploradores não se preocuparem em criar bases adequadas para a sobrevivência
numa região marcada pela ausência de recursos. A miséria contrastava com a riqueza
do ouro: se o ouro era encontrado cada vez em maiores quantidades, a ausência de
gêneros alimentícios era um problema a ser enfrentado, como observou Laura de
Mello e Souza.
Não tardaram as disputas violentas pela posse do local e pelo direito de
exploração. Os paulistas alegavam que tinham o direito exclusivo às terras por eles

281
descobertas, enquanto os forasteiros (emboabas), na maioria vindos de outras regiões,
desejavam ter acesso às terras e as riquezas.
A Guerra dos Emboabas (1707-1709) revelou antagonismo de interesses entre
paulistas e forasteiros, e o desejo de ambos quanto a defenderem o controle sobre a
região. Manuel Nunes Vianna, que lutava pela causa dos emboabas, foi aclamado
chefe das Minas, despertando a ira dos paulistas que diante da ameaça dos ataques já
tinham fortificado alguns arraiais para a defesa. O confronto foi inevitável. Os dois
grupos se enfrentaram em 1708 nas proximidades do rio, atualmente conhecido como
Rio das Mortes. Após algumas batalhas, os paulistas foram derrotados, o que levou a
coroa portuguesa a intervir de forma a manter o controle sobre a região, frente às
disputas sangrentas que ocorreram.
A notícia da derrota dos paulistas chegou à vila de São Paulo e logo a
população se manifestou no sentido de preparar a vingança, que foi atalhada por
interferência do governo português. Caberia ainda aos paulistas um novo momento de
conquistas. O sonho de descobrir e lavrar minas para conquistar fortuna tornou-se
uma febre. Na medida em que cresceu a exploração na região das minas, outras
regiões foram sendo exploradas. Paschoal Moreira Cabral (1654-1730) descobriu as
minas de Cuiabá em 1719 e Bartolomeu Bueno filho, entre 1725 e 1726, descobriu as
minas de Goiás.660
No século XVII, a província de São Paulo tinha conquistado um espaço
importante no cenário colonial. As povoações do litoral e do interior cresciam com o
avanço dos bandeirantes. Em janeiro de 1711, a Vila de São Paulo de Piratininga foi
elevada à categoria de cidade. Contava então com uma população reduzida de três mil
habitantes, incluindo brancos, índios e negros. O governo português atuou no sentido
de efetivar um controle mais rígido nas capitanias do sul, tendo em vista a crescente
exploração aurífera na região bem como o aumento de levantes populares.
Em 1720, a região das minas é desmembrada de São Paulo, recebendo o nome
de capitania de Minas Gerais. São Paulo continuava a compreender todo o sertão
interior que ia até a região do rio da Prata, excetuando as Minas Gerais. Em 1748, a
região das minas de Cuiabá e Goiás foi desmembrada de São Paulo, dando origem
respectivamente as capitanias de Mato Grosso e Goiás.

282
A transferência da capital da colônia para o Rio de Janeiro permitiu utilizar o
porto da cidade para abastecer o mercado consumidor da região mineradora. Por
decorrência, a fluxo de mercadorias no porto de Santos decai. Concomitantemente, há
o fortalecimento do governo do Rio de Janeiro passando para a sua jurisdição os
distritos marítimos de Santa Catarina, Laguna e São Pedro do Sul (atual Rio Grande
do Sul), que pertenciam à capitania de São Paulo. A própria capitania de São Paulo
foi submetida ao governo do Rio de Janeiro, e a cidade de Santos ficou sendo o local
de residência dos governadores, a fim de que a comunicação com o governo do Rio de
Janeiro fosse mais adequada, e também para garantir a defesa do território na região
sul ameaçado pelo ataques de espanhóis.
Os paulistas manifestaram-se contrários à determinação real e fizeram
representação para que a liberdade da capitania fosse restaurada, com sede na cidade
de São Paulo. Pela Carta Régia, de seis de janeiro de 1765, a solicitação dos paulistas
é acolhida; foi restabelecida a Capitania de São Paulo e nomeado o primeiro
governador da província dom Luiz Antonio de Souza Botelho Mourão (1722-1798),
conhecido como Morgado de Mateus, que passou a governar no Palácio do Governo,
localizado no antigo colégio jesuítico, tendo em vista a expulsão dos jesuítas, cujos
bens passaram para o governo.661
A posse do novo governador foi um dos grandes momentos da cidade, que
festejou com intensidade; a Câmara Municipal ordenou aos moradores limparem suas
casas e as ruas e manterem acesas as luminárias durante três dias. Morgado Mateus,
após assumir o governo empreendeu o recenseamento da população dos moradores da
área central, não incluindo o número de escravos. Em 1766, São Paulo contava com
mais de mil e quinhentas pessoas.
As descobertas de ouro pelos bandeirantes paulistas provocaram um impacto a
São Paulo. A partir do momento em que as notícias das descobertas se espalharam
pelas diversas regiões da colônia portuguesa, o fluxo de aventureiros em direção às
minas foi intenso. As conseqüências desse movimento para São Paulo podem ser
observadas na diminuição da atividade agrícola e pastoril, uma vez que havia falta de
braços para o cultivo e a criação.
O abastecimento da região mineradora foi um desafio pois, havia gente demais
para ser alimentada.662 Esta situação agravava-se se considerarmos a longa distância

283
que separava a região dos centros de produção, as dificuldades de produção e de
obtenção de moedas, bem como de transporte, aprofundando a crise.663
Com o decorrer dos anos e a crescente necessidade de abastecer a população
da região mineradora, observa-se um estímulo às atividades econômicas na região
Centro-Sul, sendo que os paulistas seriam responsáveis pelo abastecimento da região
com suas tropas. Nos caminhos que levavam às minas era possível encontrar diversos
tropeiros que seguiam para a região a fim de vender toda a sorte de mercadorias que
fossem necessárias.664
No interior da província destaca-se a região de Sorocaba que se especializou
na comercialização de muares para a carga, que normalmente acontecia entre os
meses de abril e maio. Os tropeiros que circulavam pela cidade tinham como destino a
região das Minas Gerais. Eram eles que abasteciam a cidade com produtos de
necessidade básica para a alimentação, bem como de produtos de luxo, procurados
por aqueles que enriqueceram com a atividade mineradora. Nos primeiros anos as
mercadorias eram conduzidas nas costas dos escravos, mas após a abertura de novos
caminhos e a manutenção dos trechos terrestres o uso de mulas passou a ser comum
para o transporte de mercadorias.
O descobrimento e a exploração do ouro e das pedras preciosas definiram a
forma de ocupação da capitania mineira. A concentração de habitantes no interior
dinamizou um movimento de rotas de abastecimento pelo interior. Nas adjacências e
nos caminhos que conduziam às minas, pequenos produtores rurais se estabeleceram,
visando a obter lucro com a exploração aurífera. Maria Odila Leite da Silva Dias foi
uma das primeiras historiadoras a chamar a atenção para “a interiorização dos
interesses metropolitanos na colônia” na obra organizada por Carlos Guilherme Mota,
“1822: dimensões”. 665
Claudia Maria das Graças Chaves na obra “Perfeitos Negociantes: Mercadores
das Minas Setecentistas” abordou a interiorização da metrópole e do comércio nas
Minas Setecentistas, explorando como se formou a rede para fornecimentos de
gêneros básicos para o sustento da população. A dinâmica de comércio envolveu tanto
os pequenos produtores rurais como comerciantes estabelecidos em Portugal e nas
cidades do Rio de Janeiro e Salvador, procurando atender às necessidades da
população, com a oferta de produtos necessários para a sobrevivência. Do reino

284
provinham diversos produtos como alimentos, roupas, móveis, objetos, instrumentos
agrícolas, dentre outros, contribuindo para dar uma nova dinâmica à economia
colonial, até então baseada na economia açucareira. O trabalho contribui no sentido de
problematizar a importância da agricultura de subsistência e a constituição de um
mercado de abastecimento interno, questões que já tinham sido apresentados por
alguns cronistas. Ao analisar o mercado interno colonial, a autora buscou caracterizar
a especificidade do comércio na região das minas e como este se articulava aos
demais mercados regionais.
Os tropeiros seguiram as veias abertas pelas trilhas indígenas e abriram novos
acessos às mais diversas regiões que foram sendo incorporadas no decorrer da
ocupação portuguesa. O casco das mulas transformava os caminhos, marcando o
traçado das vias de acesso. O lamaçal era comum e nele as mulas carregadas
atolavam, exigindo esforço dos tropeiros para recuperar a carga e não perder o animal.
Esta era a aventura que todos tinham que vencer para chegar a alguma localidade no
interior do território brasileiro. Moradores e viajantes compartilhavam de um caminho
cheio de aventuras e de uma natureza muito mais contemplada do que registrada nos
seus detalhes. Mafalda Zemella, explica sobre o papel dos tropeiros como homens
que:
“Passaram a serem respeitados por seu poder econômico e político, além de ter
também se tornado figura extremamente popular, o tropeiro, se no princípio da era
mineradora teve qualquer cousa do antipático, pela especulação que fazia dos gêneros,
aos poucos foi adquirindo, ao lado da função puramente econômica de abastecedor
das Gerais, um papel mais social e simpático de portador de notícias, mensageiro de
cartas e recados [...]”.666
A dinâmica do comércio e as práticas dos comerciantes foram objetos de
estudos a fim de compreender a complexa estrutura de abastecimento. Neste sentido,
destaca-se, como mencionamos acima, a figura do tropeiro que era o responsável pelo
transporte de mercadorias de diversas regiões para as minas. Era por meio dele que se
garantia a circulação dos produtos, tanto aqueles da colônia, como aqueles
provenientes de Portugal e de outras partes do império português. A pulsação
comercial que se estabeleceu, principalmente na segunda metade do século XVIII,

285
revela uma intensa circulação de produtos como o de um mercado ávido pelo
consumo.667
Neste aspecto, destacaram-se duas práticas de comércio: a de produtos
internos e os provenientes das metrópoles, com modo de funcionamento próprio; as
práticas comerciais internas gozavam de uma relativa autonomia e não chegavam a
ser totalmente controlados pela metrópole; isto é o que indicam os documentos
consultados referentes aos códices dos livros de registro ou de passagem da Delegacia
Fiscal, analisados pelo estudo. Claudia Maria das Graças Chaves procurou identificar
as rotas que levavam às Minas, buscando conhecer os produtos controlados pela
fiscalização. Nessa rede de circulação foi possível identificar diversos comerciantes
de diferentes produtos que eram registrados como milho, feijão, linho, açúcar, arroz,
trigo etc., indicando o crescimento da exploração agrícola.668
Júnia Furtado contribuiu para a discussão das atividades comerciais nas Minas
Gerais, na sua obra "Homens de Negócio: A Interiorização da Metrópole e do
Comércio nas Minas Setecentistas”. Ao analisar a correspondência entre o homem de
negócio português Francisco Pinheiro e seus agentes comerciais, estabelecidos nas
comarcas de Rio das Velhas, Serro Frio e Ouro Preto, entre 1712 e 1744, a autora
traçou o perfil de um grande comerciante que trabalhava entre Portugal e o Brasil,
considerando o momento econômico de Portugal, em especial as Companhias de
Comércio. Seu objetivo foi ressaltar as relações que se estabeleceram nas minas e os
interesses da coroa portuguesa no comércio, revelando os diferentes propósitos
circundantes nas práticas comerciais. Num primeiro momento, foram evidenciados os
interesses portugueses que se expandiam nas Minas Gerais. A exploração aurífera
demonstrou preocupação com o controle do abastecimento e transporte de
mercadorias, no que dizia respeito à arrecadação de impostos. A aparente riqueza da
capital das Minas Gerais foi questionada por Junia Furtado que lançou luz sobre o
mecanismo de endividamento da população, muitos deles extremamente dependentes
dos comerciantes. 669
Ao estudar o perfil dos interesses de Francisco Pinheiro, a historiadora observa
que o comerciante procurou diversificar as suas atividades, com interesses nas áreas
de mineração, agricultura e pecuária, além daquelas ligadas diretamente às práticas
comerciais no meio urbano. Além disso, há preocupação com a gestão dos negócios,

286
demonstrada pela expedição de instruções e ordenações para que o sistema
funcionasse, fazendo as cobranças aos seus agentes. Nesse sentido, o trabalho
contribui para entender o processo de expansão e interiorização da colônia para o
interior da América Portuguesa. O estudo estava atento à conjuntura histórica onde o
comerciante atuou, destacando os principais entraves com os administradores, as
dificuldades que o tempo impunha os levantes, dentre outros aspectos.
Este movimento de interiorização ganhou dimensões diferentes em outras
regiões do território, principalmente naquelas áreas onde a defesa da soberania
portuguesa se fazia necessária.
O bandeirante paulista Manoel de Campos Bicudo (? – 1681), chegou a
Cuiabá por volta de 1673, formando o primeiro arraial conhecido pelo nome de São
Gonçalo, santo padroeiro dos navegantes. Antônio Pires de Campos, filho de Manoel
de Campos Bicudo (? -1681), retornou à região em 1717, aprisionando alguns índios.
Naquele momento, a Bandeira de Pascoal Moreira também realizava suas investidas
pela região, capturando índios, ao mesmo tempo em que se dedicava ao garimpo e às
primeiras descobertas de ouro.
Em 8 de abril de 1719, Pascoal Moreira Cabral assinou a Ata de Fundação de
Cuiabá, notificando, em seguia, o Governador da Capitania, Dom Pedro de Almeida
Portugal (1688-1756), Conde de Assumar. No momento seguinte, observa-se uma
intensa migração para a região, causando um desordenado povoamento. A
organização e administração da região, mais efetiva, só ocorreriam em 1726, com a
chegada do Capitão-General, Governador da Capitania de São Paulo, Dom Rodrigo
César de Menezes. Em 1.º de janeiro de 1727, o arraial foi elevado à categoria de vila,
com o nome de Vila Real do Senhor Bom Jesus de Cuiabá. A cobrança de impostos e
a produção aurífera incipientes forçaram muitos habitantes a abandonar a região.
O pantanal representou uma barreira, para muitos, intransponível ao avanço
rumo ao centro e noroeste de Mato Grosso. As dificuldades que a natureza impunha
fizeram que as intenções expansionistas fossem sendo construídas num processo mais
intenso no decorrer do século XVII. As investidas do bandeirante Antônio Raposo
Tavares, sob o auspício régio, é um exemplo marcante desse momento. Como bem
lembra Sérgio Buarque de Holanda, em “Visões do Paraíso”, “o que saiam a buscar
em nossos sertões tantas expedições custosamente organizadas, não era tanto o ouro

287
como a prata. E nem eram diamantes, senão esmeraldas. Em outras palavras: o que no
Brasil se queria encontrar era o Peru, não era o Brasil”.670
Para estabelecer os tratados que definiram as fronteiras da América, entre
Espanha e Portugal, o reino lusitano determinou a organização de expedições que
tivessem como objetivo a exploração dos rios e o conhecimento das áreas limítrofes
empreendendo-se registros potamográficos e o levantamento de todas as informações
possíveis sobre a região.671 As cartas enviadas por Marco Antônio de Azevedo
Coutinho, secretário de Estado, ao Visconde Tomás da Silva Teles, incumbido das
negociações apontam para o cuidado do levantamento da região entre os anos de 1733
e 1737. As bacias dos rios Amazonas, Paraguai e Prata eram consideradas pelo
governo português como fronteiras naturais das suas possessões na América.672 A
construção do conhecimento sobre a natureza na segunda metade do século XVIII
tinha um objetivo pragmático que era o de apresentar suporte para a administração
portuguesa. Contudo, o problema da ocupação e defesa do interior do território era
mais premente.
Em 9 de maio de 1748, o governo português criou a Capitania de Mato
Grosso, desmembrando-a da Capitania de São Paulo, e nomeou para o cargo de
governador o capitão-general dom Antônio Rolim de Moura Tavares. Um dos
objetivos do novo capitão era fundar a capital da província à margem direita do rio
Guaporé. No dia 19 de março de 1752, era fundada a Vila Bela da Santíssima
Trindade, atual capital do Estado de Mato Grosso.
A região de fronteira preocupava a coroa portuguesa, tanto pela falta de
controle da saída de ouro das minas do rio Cuiabá, como pelos quilombos e pelas
práticas de comércio ilícito. Os governadores e seus oficiais não tinham controle
sobre os desvios e desmandos de revoltosos e aquilombados. Além disso, a região era
procurada por vadios e criminosos que procuravam faiscar na região. Eles
atravessavam a fronteira, avançavam para terras espanholas e seguiam para as missões
religiosas de Moxos e Chiquitos.
A descoberta de ouro nas terras brasílicas despertou o interesse de outras
nações, que nem sempre respeitaram o domínio português sobre a região. Du Guay-
Trouin, comandando uma esquadra de navios corsários, armada por homens de
negócio de Saint-Malo (França), bombardeou a cidade do Rio de Janeiro, em 1711.

288
Seu olhar para esta cidade mirava a estrutura militar. René Du Guay-Trouin foi
comandante geral da armada de França e comendador da ordem real e militar de São
Luís, que era considerada de grande distinção na França. Ele era conhecedor dos
mares e das artes militares, atuando como corsário, conforme os interesses da coroa
francesa. Guay-Trouin dirigiu-se ao Brasil para servir aos interesses do seu reino.
Montou uma expedição com recursos amealhados entre burgueses e nobres. Nos idos
de 1689, ele partiu para a vida no mar, com a permissão da família; como voluntário,
serviu na fragata armada para atacar os inimigos da França.
Seu início no mar não foi fácil, principalmente por causa das tempestades, em
meio às batalhas. Num dos confrontos com o poderoso corsário de Fessinge, a fragata
em que seguia o atacou. Ao se aproximar da embarcação para saltar e duelar com os
inimigos, Guay-Trouin registra que a embarcação foi lançada em direção à outra; com
esse movimento, o contramestre da fragata francesa caiu entre as duas naves;
repetindo-se o movimento, ele foi esmagado, conforme registra Guay-Trouin: “parte
do cérebro veio colar-se-me à roupa”. Esta experiência traumática mostrava a
importância de saber equilibrar-se no navio quando as vagas arremessavam o navio. A
morte pavorosa foi uma das lições que Guay-Trouin aprendera, junto com todos os
horrores de um naufrágio. Outras lições revelaram ainda mais o infortúnio dos mares
levando grande parte de tripulações à morte, quando uma epidemia se instalava a
bordo. Tudo era possível, quase nada era previsível.673 O ataque à cidade foi rápido e
Guay-Trouin obteve êxito. Após o saque da cidade, negociou a liberdade em troca de
resgate.674
O interesse pelas terras coloniais da América Portuguesa causou a circulação
de registros históricos sobre a colonização. O coronel Sebastião da Rocha Pita (1660-
1738) escreveu a “História da América Portuguesa”, texto que contribui para a
compreensão da história das terras brasílicas. Segundo o autor, o novo mundo ficara
muitos séculos escondido, sem que nenhum por aqui passasse. As terras eram
vastíssimas e havia um:
“felicíssimo terreno em cuja superfície tudo são frutos, em cujo centro tudo
são tesouros, em cujas montanhas e costas tudo são aromas; tributando os seus
campos o mais útil alimento, as suas minas o mais fino ouro, os seus troncos o mais
suave bálsamo, e os seus mares o âmbar mais selecto; admirável país, a togas as luzes

289
rico, onde prodigamente profusa a natureza se desentranha nas férteis produções, que
em opulência da monarquia e benefício do mundo apura a arte, brotando as suas canas
espremido néctar, e dando as suas frutas sazonada ambrosia, de que foram metida
sombra o licor e vianda que aos seus falsos deuses atribuiu a culta gentilidade”.675
Sebastião da Rocha Pita exaltava as terras com elementos que remetiam ao
século XVI, onde o espaço de um local fantástico conquistava grande dimensão. A
região mostrava um céu sereno e o sol brilhava de forma diferente dos outros
hemisférios, destacando-se pelos raios dourados. A noite não impunha o frio europeu
e o seu estrelado era digno de ser contemplado. As águas abundantes e puras
tornavam a terra atrativa:
“é enfim o Brasil terreal paraíso descoberto, onde têm nascimento e curso os
maiores rios; domina salutífero clima; influem benignos astros, e respiram auras
suavíssimas, que o fazem fértil e povoado de inumeráveis habitadores, posto que por
ficar debaixo da tórrida zona o desacreditassem e dessem por inabitável Aristóteles,
Plínio e Cícero, e com gentios os padres da Igreja Santo Agostinho e Beda, que a
terem experiência deste feliz orbe, seria famoso assunto das suas elevadas penas,
aonde a minha receia voar, posto que o amor da pátria me dê as asas, e a sua grandeza
me dilate a esfera”.676
De forma breve e ufanista faz o registro de como se processou a descoberta
das terras de Santa Cruz, segundo ele, este foi “o primeiro nome desta região, que
depois esquecida de título tão superior, se chamou América, por Américo Vespúcio, e
ultimamente Brasil pelo pau vermelho, ou cor de brasas, que produz”.677 O “opulento
império do Brasil” localizado no hemisfério antártico era vasto e possuía uma forma
triangular que principiava no rio das Amazonas e terminava na região do Rio da Prata.
As terras eram dignas pela sua imensidão e riquezas, sendo algumas florestas
impenetráveis. O território era representado de forma oscilante, pois, “aquela mesma
rudeza, que o representa horrível, o faz admirável”. A natureza provera o local de
serras, terras férteis e algumas delas inúteis. A descrição não difere de um paraíso
terral, onde a natureza:
“Fez portentosas lagoas, umas doces, e outras salgadas, navegáveis de
embarcações e abundantes de peixes; estupendas grutas, ásperos domicílios de feras;
densos bosques, confusas congregações de caças, sendo também deste gênero

290
abundantíssimo este terreno, no qual a natureza por várias partes depositou os seus
maiores tesouros de finos metais e pedras preciosas. E deixou em todo ele o retrato
mais vivo e o mais constante testemunho daquela estupenda e agradável variedade
que a faz mais bela”.678
As serras e os montes das terras brasílicas, possíveis de serem encontrados em
toda a extensão do território, não poderiam ser desmerecidos quando comparados com
os da África e os da Grécia. Da mesma forma, diferentes rios, de larguras variadas,
com abundância de água, eram localizados por toda extensão dos domínios
portugueses.679 Estas propriedades com grande produção de frutos, árvores e lavouras
fizeram da sua exploração um elemento importante para a economia portuguesa. A
terra produzia de forma copiosa o que se plantava nela. A cana-de-açúcar era
cultivada por diversos sítios e em maior profusão nas terras chamadas de massapés.
Sebastião da Rocha Pita descreveu brevemente o processo produtivo nas suas distintas
etapas, destacando os instrumentos necessários para o fabrico do açúcar.680
Dentre as produções se destacava a do tabaco, sendo de várias qualidades,
chamado “erva santa, o luxo dos homens lhe faz degenerar em vícios as virtudes, é tão
melindrosa, que na sua criação qualquer acidente a destrói, assim como no seu uso
qualquer sopro a desvanece”. Seu cultivo, nas capitanias do norte, exigia cuidado,
pois o sol e a chuva em excesso poderiam causar danos às plantas, com lagartas e
mosquitos. A colheita, feita entre agosto e fevereiro, exigia que as folhas estivessem
amarelas. Retirado o talo, as folhas sobrepostas eram torcidas, repetindo-se a operação
por diversas vezes, fazendo rolos que eram cobertos por couro. Sebastião da Rocha
Pita demonstrava preocupação em esclarecer as melhores formas de exploração, como
era a produção, conforme a qualidade das terras.681
De forma idêntica aos seus antecessores, deu papel de relevo para a raiz de
mandioca, destacando o cultivo e suas formas de preparo, que servia de alimento
básico para os índios e colonos. A característica das raízes enterradas e ao natural
serem venenosas, davam a distinção à espécie. Do mesmo gênero, ressaltava que
havia outras raízes que eram consumidas cozidas ou assadas e lembravam as
“castanhas de Portugal”.682
O arroz era cultivado com grande produtividade na capitania da Bahia, e na
região do Pará a produção era feita sem necessidade de semear, pois os brejos

291
produziam em abundância. Todavia, a qualidade do arroz variava; os cultivados nas
capitanias do sul produziam grãos maiores. Outros cultivos se destacavam como trigo,
feijão, milho, favas, ervilhas, gergelim, batatas, inhames, carás brancos, roxos e de
outras espécies. As árvores produziam pinhões e castanhas que eram consumidos ao
natural, cozidos ou assados.
Das ervas naturais havia quiabos, jilós, maxixes, taiobas, dentre outras. Estas,
com as hortaliças vindas da Europa como as alfaces, couves, repolhos, nabos,
cenouras, pepinos, espinafres, abóboras, cebolas, alhos, mostarda, hortelã, poejo,
coentro, salsa, manjerona, manjericão, alecrim, arruda e losna, garantiam um sustento
farto. Conhecendo as referências feitas pelos antigos afirmava que:
“As outras ervas naturais são inumeráveis, e tão ativa a virtude de algumas,
que se alcançaram a notícia e experiência delas Dioscórides e Plínio, seriam o maior
emprego das suas penas e observações. O conhecimento dos seus efeitos nos
ocultaram sempre os gentios, tenazes do segredo e avaros dos bens que lhes concedeu
a natureza; porém de alguns mais domésticos, e da experiência que a falta de outros
remédios deu aos penetradores dos sertões, onde não havia boticas, nem medicinais,
se veio a conhecer a sua força, e a exercer a sua prática”.683
Para Sebastião da Rocha Pita, a natureza amava esconder-se e que dela
provinham os recursos para alimentação e para a cura. Seu conhecimento sobre as
propriedades de algumas plantas, referenciado no senso comum, foi apresentado na
obra. Para ele as ervas mais célebres eram:
“a samambaia, que solda todas as quebraduras; a capeba, que desfaz todos os
apostemas; a erva-de-leite, que alimpa de todas as belidas e névoas aos olhos; o mata-
pasto, que tira as febres; a caroba, que tira as boubas; o ananás, que expulsa a pedra; o
coroatá, que arroja as lombrigas; a butua, que conforta os estômagos, e expele as
dores de cabeça; o mil-homens para mil enfermidades, e outras para várias queixas,
ou tomadas em potagens, ou postas como remédios tópicos: há também erva-de-rato
para matar, e tanharon para atrair; outras libidinosas, que provocam a lascívia, das
quais é mais conveniente ocultar a notícia, e calar os nomes”.684
As ervas serviam para curar as enfermidades, mas também para despertar
desejos lascivos indesejáveis numa sociedade cristã. A natureza poderia regular o

292
organismo a partir das espécies da flora, mas também poderia conduzir a
desregramentos do comportamento.
As flores européias e de outras partes haviam se aclimatado com facilidade nas
terras tropicais, que também possuíam outras de igual beleza. A flor do maracujá,
associada de forma sistemática a paixão de Cristo, descrita como: “folhas cumuladas
ao pé o calvário, em outras peças a coluna, os três cravos, a coroa de espinhos, e
pendentes em cinco braços, que com igual proporção se abrem da coluna para a
circunferência, as cinco chagas; de cada três, com atenção, se forma a cruz, e no ramo
em que se prende o pé, se vê a lança”. Dentre as flores que mais se destacavam,
estavam as rosas nativas, as flores de São João, com seu amarelo intenso, além de
boninas de diversas qualidades, roxas e brancas, flores da quaresma, jasmins,
açucenas e outras mais.685
Das frutas naturais da terra, o ananás era citado como o rei de todas, associado
à sua coroa. Na seqüência eram mencionadas pitombas, pitangas, maracujás, araçás,
goiabas. Cada uma delas possuía características diferentes, umas consumidas ao
natural, permitiam um efeito refrescante ao paladar. Juntando-se o açúcar poderiam se
fazer conservas e doces que deleitavam a todos. Havia cocos, de diferentes gêneros,
que além de fornecerem a água suave e fresca eram utilizados na composição de
diversos pratos. Frutas-do-conde, bananas, mangabas, mocujés, mamões, muricis,
cajus, cajás, jenipapos, jabuticaba, umbu, dentre outras frutas eram um banquete ao
paladar, além de possuírem um aroma atraente. 686
As descrições feitas por Sebastião da Rocha Pita procuraram destacar sempre
a utilidade da natureza para o homem, evidenciando que este tipo de registro não
desapareceu no universo de caracterização da terra brasílica. Enquanto algumas
espécies são descritas de forma rápida, outras, como o cacau, merecem descrições
detalhadas incluindo o seu benefício e os problemas enfrentados no cultivo. Afirmava
o autor que:
“O cacau, cujo fruto não tem flor, é árvore de mediana altura, de ramos mui
apartados do tronco; nasce o pomo todas as luas, sendo mais perfeitos os do verão;
tem a forma de um pequeno melão, a cor amarela, suave o cheiro, e dentro umas
poucas pevides menores que as amêndoas, mas do mesmo feitio, que são o que
propriamente chamam cacau, e dão o nome à árvore e ao pomo; a polpa deste,

293
desfeita em licor suave, serve de regalado vinho aos naturais; as amêndoas ou pevides
secas ao sol é a matéria principal do chocolate: produzem em terras úmidas e
alagadiças; semeiam-se os grãos, frescos, porque secos não nascem, e os troncos se
vão dispondo em forma de bem ordenados pomares: o benefício é mais fácil aos que
cultivam as árvores, que o resguardo dos frutos, sempre combatidos e penetrados dos
pássaros”.687
A baunilha nascia em delgadas varas compridas, sempre verdes e cheias de
apartados nós, com duas folhas em cada um. Na época certa ficavam negras e no
miolo dela havia uns grãos pequenos que pareciam óleo, com um aroma pronunciado,
“sendo o primeiro ingrediente do chocolate”. O anil, o algodão, o urucum, a tarajuba
existiam em quantidade e eram exploradas e utilizadas.
As madeiras também foram exaltadas, lembrando o texto de Gabriel Soares de
Souza. Sebastião da Rocha Pita destacava as madeiras pela “formosura, preço,
grandeza e incorruptibilidade”, afirmando enfático: “são as melhores do mundo”. A
importância delas era significativa e, segundo ele, uma delas daria o nome à terra.
Além do pau-brasil, foi destacado o jacarandá, o sassafrás, o pequiá, o vinhático, os
angelins, o cedro, a jataipeva, a maçaranduba, o potumuju, o louro, o bacuri, a
guabirana, o jandiroba, o pau-ferro, o pau-de-arco, a sapucaia e outros troncos de
qualidades variadas.
Dentre os animais, designados por Sebastião da Rocha Pita como “irracionais
viventes sensitivos”, além daqueles se criavam pela terra como bois, carneiros,
cabritos e porcos, havia outras feras, como:
“tigres, onças, antas, suçuaranas e javalis, que chamam porcos-domato; estes
de duas castas, uns nomeados caetetus, outros queixadas-brancas. Em gêneros de
cobras monstruosas, a jibóia, tão grande, que se alcança o maior touro, o prende com
a cauda, e apertando-lhe os ossos lhos quebra e o come. A surucucu, posto que
inferior, faz o próprio ao gado menor. Dos bichos asquerosos, a preguiça, de tão tardo
movimento, que apenas se lhe enxerga o curso, e em poucos passos gasta todo um dia.
O camaleão, também fleumático, sem embargo de beber as cóleras ao vento. Os
sarigués, piratas das criações domésticas. Os guaribas, de triste e porfiado canto nas
árvores, e os guassinins, que são do seu coro e solfa”.688

294
Este quadro, que dava uma composição sintética da fauna brasílica, registrava
uma visão superficial, sendo mencionados também sagüis, gambás (destacado pelo
seu cheiro), capivaras, cotias, tatu, pacas e veados que eram caçados. De maneira
similar, era apresentado o conjunto das aves, que se destacavam pela plumagem ou
por sua carne ser consumida com regalo, como: juritis, perdizes, arapongas, mutuns,
jacus, jacutingas, emas e outras castas. Papagaios, periquitos, tucanos, araras e
canindés eram registrados pelos sons que emitiam, como os sábias, patativas, canários
que agradavam pelo canto e pela cor “que os fazem parecer flores volantes nos jardins
da esfera”.
Se na terra havia muitas espécies dignas de registros, no mar e rios não
faltavam “riquezas da nossa América portuguesa”. O pescado era infinito, e Sebastião
da Rocha Pita só mencionasse os “mais notáveis”: “baleias, beijupirás, cavalas,
garoupas, vermelhos, corimás, pâmpanos, carapebas, parus, ubaranas, guaracemas,
jaguaraçás, camoropins, olhos-de-boi, dourados e xaréus; este último, ainda que muito
vulgar pela sua quantidade, merece especial notícia pela grandeza de sua pescaria, e
por ser o sustento dos escravos e do povo miúdo da Bahia”.689
O vasto litoral da colônia brasílica favorecia o pescado o ano todo. A pesca da
baleia permitia a abundância de toucinho e carne, mas o animal tinha “olhos
medonhos”, bem como a boca com uma língua pesada medindo “doze palmos, seis de
grossura, e destila uma pipa de azeite: dezesseis a baleia toda”. A carne da baleia era
toda aproveitada e rendia aos cofres da coroa portuguesa uma soma vultosa a cada
ano. Sebastião da Rocha Pita ressaltava que o “amor, que este monstro tem aos filhos,
é também monstruoso, por eles se deixam matar, pois segurando-os a este fim
primeiro os arpoadores, os seguem elas até à última respiração dos seus alentos”. O
consumo era difundido, gerava ganância; o autor registrou que a carne da baleia era
utilizada na alimentação de escravos, e o óleo na iluminação das casas e oficinas. Os
mariscos, polvos, lagostas, lagostins, santolas, sapateiras, camarões, mexilhões,
caranguejos que se encontravam nas águas do litoral, compunham o quadro da
alimentação dos moradores da terra. 690 Por fim, Sebastião da Rocha Pita afirma que
apesar de ter narrado o que era mais comum e essencial, era preciso declarar que em
todas as partes era possível encontrar as diferentes espécies:

295
“em umas se dão uns gêneros, em outras se colhem outros, porque os
movimentos do sol, a disposição da terra, e as distâncias em que se vão diferenciando
os climas, fazem esta diversidade nos frutos e minerais; mas sempre a natureza, em
todas pródiga, aqueles gêneros que doou a qualquer delas, os produz em grandíssima
abundância, posto que mais generosamente em uns lugares que em outros, exceto nas
partes que quis deixar estéreis, para ostentar nesta mesma diferença de terrenos em
uma região a constante variedade da sua formosura”.691
Sebastião da Rocha Pita sintetizou na sua obra os elementos principais da
exploração da terra, dando a conhecer de forma superficial as características de uma
terra que reluzia aos olhos da Europa, mas que ainda era desconhecida. Contudo, as
restrições de acesso ao território colonial, pela coroa portuguesa, a fim de preservar a
área mineradora, reduziu o número de relatos.
Em 1722 foi publicada a obra “Voyages de François Coreal aux Indes
Occidentales, contenant ce qu'il y a vil de plus remarquable pendant son séjour depuis
1666 jusqu'a 1697”.692 O texto registra os costumes dos habitantes de Salvador e do
Rio de Janeiro, na segunda metade do século XVII. Seis anos depois, foi publicado
“Nouveau voyage au tour du monde”, de Le Gentil de La Barbinais,693 sobre a viagem
feita pelo autor entre 1714 a 1718. Na ida, passou pelo Rio de Janeiro, seguindo em
direção ao Chile e depois para a China. Em 1717, no retorno, pelas condições da
embarcação, foi forçado a parar na Bahia, onde foi recepcionado. A hospitalidade fora
diferente daquela que tivera no Rio de Janeiro. Uma alimentação farta, dança e
música também fizeram parte do evento.
O movimento e deslocamento nesse período revelam não só o interesse pelas
terras brasílicas, mas também um ativo comércio dentro do império colonial
português. A economia portuguesa pulsava com intensidade e a corte de d. João V era
admirada. Porém, o desejo de encontrar mais riquezas, num vasto território
continental, animou muitos aventureiros e também curiosos, que tinham o desejo de
conhecer mais a fauna e a flora tropical.
As investidas pelo sertão não ficaram circunscritas a uma única área. A
mobilidade do homem colonial fez que outras áreas passassem por prospecção, o que
torna difícil completar todos os movimentos neste trabalho. Desta forma,
procuraremos apontar alguns das andanças e explorações feitas no decorrer do século

296
XVIII, sem a pretensão de esgotar o tema, mas sim indicar registros que permitem
uma leitura de conjunto.
A região do rio Madeira foi explorada por Francisco de Mello Palheta (1670 -
?) entre 1722 e 1723 por ordem do governador do Estado do Maranhão, João da Maia
da Gama (1722-1728). A região não era de todo desconhecida por Francisco de Mello
Palheta, que em 1691 havia conduzido o padre Samuel Fritz pelo Amazonas até a
região do Peru. Conforme registro em 1695, numa nova expedição seguiu até a região
da Guiana Francesa de onde trouxe as primeiras mudas de café.694
A expedição de Francisco de Mello Palheta era composta por soldados que se
distribuíram pelas embarcações: Santa Eufrosina, Santo Inácio, Santa Rita e Almas,
Menino Deus e Santa Rosa e uma canoa-armazém, São José e Almas. O percurso pelo
rio Madeira foi longo e penoso, tendo que vencer mais de vinte cachoeiras. Em 1o de
agosto chegou ao encontro dos rios Guaporé e Mamoré que davam origem ao rio
Madeira. Seguindo pelo rio Mamoré fez parada na aldeia de Santa Cruz dos Cajuavas,
onde por meio de jesuítas espanhóis obteve informações sobre Santa Cruz de la
Sierra. Em onze de agosto, Francisco de Mello Palheta retornou pelo rio Mamoré até
encontrar novamente o rio Madeira, explorando a região.
O objetivo da expedição era identificar mais precisamente a região e encontrar
caminhos fluviais que facilitasse a comunicação e o comércio da região de Belém
com as terras espanholas. Este movimento era alimentado pelo interesse de chegar
próximo à região de exploração de prata, cobiçada desde o século XVI.695 Não estava
ausente a idéia de ser possível identificar pelo caminho alguma serra que possuísse
metais preciosos.
No século XVIIII um conjunto amplo de manuscritos sobre História Natural
foi elaborado, dentre eles o texto de Caetano de Brito e Figueiredo: “Dissertações
Acadêmicas e Históricas nas quais se trata da Historia Natural das Cousas do Brasil
Recitadas na Academia Brasílica dos Esquecidos que na Cidade da Bahia mandou
erigir: Declarando-se por seu Protetor Excelentíssimo Senhor Vasco Cesar de
Menezes Vice-Rey de Mar e Terra de todo este Estado Pelo Desembargador
Chanceler Caetano de Brito e Figueiredo - No Ano de 1724".696
O texto foi composto por oito dissertações que tratam da natureza brasílica. A
primeira dissertação fazia uma descrição abreviada da geografia da América,

297
salientando os elementos mais admiráveis da natureza. A segunda, delineava o perfil
dos habitantes autóctones, traçando a origem dos povos da América e como se
caracterizavam até aquele momento. A terceira dissertação foi dedicada à descrição
do Brasil e às particularidades da natureza. Nas duas partes seguintes, o autor tratava
dos céus, planetas, constelações, meteoros e climas brasílicos. Na sexta e sétima, o
tema das dissertações eram as aves do Brasil, onde eram descritos os seus nomes
cores e diferenças. Na última dissertação o foco da descrição eram os insetos.
Caetano de Brito Figueiredo nasceu em Lisboa na década de 1670. Formou-se
em Direito e assumiu cargos administrados em Portugal e no Brasil. Durante o
exercício da função de desembargador da relação da Bahia, redigiu o texto
mencionado acima. Caetano de Brito arrola suas fontes, fundamentando suas
referências e inspirando-se em Francisco Hernández (1517-1578). Este foi médico de
Filipe II, de Espanha (1527-1598), prestando serviços na corte e foi enviado para o
México, onde pesquisou o mundo natural (1571-1578), fazendo um levantamento de
quatro mil plantas da região. Ao retornar à Espanha redigiu diversos textos sobre o
assunto, mas boa parte deles se perdeu. Alguns manuscritos integrais e parciais foram
publicados e apresentados por outros estudiosos, como Nardo Antono Recchi,
Francisco Ximénez e Agustín Farfán.697
Caetano de Brito não estava preocupado com uma sistematização científica.
Seu registro era apresentado de forma lógica. Catalogava as aves a partir de
classificações funcionais que observou. Nota-se que a primeira categoria era aquela
das aves úteis aos seres humanos, por comporem a sua dieta alimentar. Esta
preocupação coincide com a dos registros feitos pelos jesuítas e outros viajantes no
século XVI, quando a questão da sobrevivência em terras tropicais era fundamental. O
mesmo esquema de comparação foi realizado, procurando destacar espécies
congêneres existentes na Europa. Aspectos com dimensão, hábitos, sons, cor, tipos de
pena e sabor da carne fazem parte da construção de um saber que ultrapassa o aspecto
científico.
Num segundo momento, o autor se atém às aves sonoras, que são descritas
pelos sons agradáveis aos ouvidos humanos. Uma variedade dessas espécies foi
comparada às espécies européias. No terceiro grupo, as aves que repetiam sons

298
humanos, as de rapina e aquáticas eram consideradas pela sua diferença. Por último,
as aves de hábitos noturnos, como corujas e morcegos, dentre outras.
Se as conquistas continuavam, alguns religiosos aproveitavam para exaltar a
obra evangélica e a importância de cuidar do rebanho cristão. Em 1732 foi publicada
“Primazia seráfica na regiam da América, novo descobrimento de Santos, e
veneráveis religiosos da ordem seráfica”,698 de frei Apolinário da Conceição,
registrando o percurso do franciscano no Brasil. O texto apresenta a aventura das
descobertas e do avanço das ordens religiosas pelo território. Sempre guiado pelas
mãos divinas, faz constar no texto a experiência da viagem e do conhecimento da
região do Rio de Janeiro: “Viagem devota, e feliz... dedicada à Imaculada Conceição
Nossa Senhora, patrona especialíssima da Província Capucha do Rio de Janeiro em o
estado do Brasil ...”.699
A viagem de Manuel Félix de Lima, realizada entre 1742-1743, foi analisada
por Robert Southey.700 Pelas referências, Southey teve acesso ao manuscrito do
viajante, dando conta de que a expedição era composta por cerca de 50 pessoas,
contando com a presença de escravos africanos e índios. Os aventureiros seguiram em
canoas pelo rio Sararé até o rio Guaporé, onde permaneceram para abastecer de
viveres e fazer a construção de mais duas canoas. Dando continuidade à viagem pelo
Guaporé foi para o acampamento do paulista Antônio de Almeida e Morais. Logo
chegaram notícias sobre a hostilidade dos índios da região, e a expedição foi
desmembrasse. Parte dela retornou para as margens do rio Sararé, e os demais deram
continuidade à viagem pelo rio Guaporé, saindo pelo afluente conhecido como
Baurés, chegando à aldeia de São Miguel, dirigida por um jesuíta alemão, o padre
Gaspar de Prado. Após permanecerem algum tempo, estes retornaram pelo rio Buarés
até o Guaporé descendo este rio até a confluência do rio Ubaí, navegando por ele até
chegar à redução de Santa Maria Madalena, que estava sob a administração do jesuíta
José Reiter, auxiliado pelo padre Atanásio Teodoro. Alguns dos membros da comitiva
foram até Exaltação da Cruz, nas margens do Mamoré, demorando naquelas paragens.
O restante dos aventureiros, não acreditando que os companheiros retornassem,
prosseguiu viagem até entrarem no rio Guaporé e desceram até atingir o rio Mamoré,
onde se formava o rio Madeira. A expedição continuou por esta via fluvial,
enfrentando o naufrágio de embarcação e ataques de índios até chegar a Belém. A

299
ousadia de Manuel Félix de Lima fez que ele fosse o primeiro a identificar a
comunicação entre o Mato Grosso e o Pará.701
Em 22 de abril 1748 entrou no porto do Rio de Janeiro o navio francês L’Arc-
en-ciel, pertencente à frota do Marques D’Albert. Ao contrário do que aconteceu com
Duguay-Trouin, a interação com os habitantes da cidade foi amistosa e permitiu a
realização de um relato anônimo.702 Conforme o “Relâche du Vaisseau L'Arc-en-ciel
à Rio de Janeiro, 1748”, a terra produzia uma grande quantidade de frutas: laranjas,
limões de diferentes espécies, figos, bananas, abacaxis, batatas-doces, melões d'água,
pistaches etc. Havia também muitas hortaliças e legumes variados (couves, jerimuns,
ervilhas, abóboras etc.). Pela abundância, o peixe era passado pelo processo de
secagem para ser estocado tanto para consumo dos familiares, como para a
alimentação dos escravos. Apesar desta prática, sobrava ainda uma grande quantidade
de pescado para alimentar os porcos. O clima local do Rio de Janeiro era agradável e
são. O calor excessivo, que poderia ter consequências funestas, era amenizado por
duas brisas: uma que soprava pela manhã, de noroeste, e outra que soprava à tarde, de
sudeste. Verifica-se que as impressões sobre a terra não diferem das anteriores e
compõem um quadro da utilidade da natureza, constatado por muitos viajantes.
No interior, as expedições avançavam pelos rios, pela necessidade de
ocupação do território, num momento em que estavam em curso as negociações dos
limites da colônia entre Portugal e Espanha, conforme o Tratado de Madrid (1750).
Em 1752, Francisco Xavier de Mendonça Furtado informou a partida do porto
da cidade de Santa Maria de Belém do Grão-Pará, para a Vila Nova de São José de
Macapá, com três canoas; levava consigo o capitão da guarda Manoel da Silva, o
secretário, capitão Gaspar da Costa, o sargento-mor engenheiro Carlos Varjão Bolim,
o capitão das fortificações Antonio Gonçalves, o ajudante Aniceto de Távora, e com
infantaria da guarda o doutor físico mor Manoel Ignácio, o capelão d. José dos Anjoz
Lopes, bem como outros membros da comitiva. Antonio Nunes de Souza foi quem
registrou a viagem que teve início no dia 24 de fevereiro de 1752, partindo ao meio
dia, quando a reponta da maré de enchente entrava pelo rio Muju.
O percurso pelos rios da região considerava as cheias por darem o ritmo da
viagem. O relato focava a atenção no movimento das águas, descrevendo as áreas
habitadas e revelando a natureza num denso quadro paisagístico, sem grandes

300
definições das espécies. Ao final do relato, afirmava-se que a navegação dependia do
favorecimento das velas. Os navegantes estavam sujeitos a um grande trabalho devido
ao aos perigos encontrados no rio e às pragas; esta era a lida do rio Amazonas. A
cheia do rio afugentava os peixes, na vazante havia a abundância deles. Aconselhava-
se que a viagem fosse feita em pequenas embarcações e que o aventureiro levasse
consigo anzóis e arpões para peixes, para garantir o sustento. As longas distâncias e os
percalços do caminho isolavam a região interiorana, lançada à natureza e alheia à
“Santa Fé de Jesus Cristo”. Todavia, havia pelos rios condições dilatadas para
sobreviver, esperando por aqueles que se arriscassem em tal empreitada.703 Em 1753,
segue a comissão para a região de Belém, contando com a presença do desenhador e
arquiteto Antonio Giuseppe Landi (1713-1791), natural da Bolonha, que viria a
elaborar, possivelmente em 1772, a “Descrição de várias Plantas, Frutas, Animais,
Aves, Peixes, Cobras, raízes e outras coisas semelhantes quês e acham nesta Capitania
do Grão Pará (...)”.704
Em 1759 foi publicado em Paris por Charles Marie de La Condamine,
“Relation abrégée du voyage fait dans l’intérieur de l'Amerique Meridionale”
(Viagem na América Meridional descendo o rio das Amazonas). Charles Marie de La
Condamine nasceu em Paris e iniciou carreira militar. Passado algum tempo,
redirecionou o seu interesse para as ciências físicas e naturais, tornando-se membro da
Academia de Ciências francesa. Realizou expedições científicas pelo Mediterrâneo,
África e Ásia Menor, como mencionamos anteriormente. Charles Marie de la
Condamine participou da expedição de Maupertius e Godin. O primeiro seguiu para a
Lapônia e o segundo para o Peru. La Condamine acompanhou este último, fazendo a
descrição da viagem. A expedição marcava um novo momento do conhecimento, pois
reunia uma série de especialistas, como médicos, astrônomos, cartógrafos, naturalistas
tendo como objetivo fazer levantamento e comprovar a teoria newtoniana. No Peru,
La Condamine conheceu Pedro Vicente Maldonado que o acompanhou na viagem
pelo interior do território até a desembocadura do rio Amazonas. Demonstrando
preocupação científica, fez medições de temperatura e as variações de pressão
atmosférica. No texto, “Viagem pelo Amazonas”, Condamine identificou novas
espécies, chamando a atenção para a riqueza do mundo natural.

301
Entre 1743 e 1744, La Condamine percorreu todo o rio Amazonas, alcançando
Belém e depois Caiena. Durante a trajetória, descreveu a natureza e os índios,
fenômenos como a pororoca e plantas como o urucum. No relatório, encontram-se
interessantes comentários do naturalista sobre os vários cronistas da Amazônia: como
Cristobal de Acuña e Samuel Fritz.
O objetivo da expedição era o exato conhecimento dos diâmetros terrestres,
visando a aperfeiçoar a geografia e a astronomia. Os estudos poderiam auxiliar os
navegadores na arte de navegar. Interessava-se pelo levantamento de áreas e o registro
dos lugares mais notáveis, seguindo uma ordem na narrativa. Muitos dos locais e rios
pelos quais passara poderiam ser objeto de uma dissertação. As medições foram uma
constante e La Condamine procurou precisar cálculos de rotas e distâncias. Na
produção do seu registro, contou com o apoio de Jean-Baptiste Boruguignon
d´Anville (1697-1782). Confessava que a reunião de fragmentos de textos não era
fácil.
A primeira parte do registro foi destinada à medição da Terra e o seu
achatamento. La Condamine entendia que o seu trabalho, que seria remetido à
Academia de Ciências de Paris, seria de grande valia para outros estudos acadêmicos.
Escolheu para fazer sua exploração um rio “quase ignorado”, o Amazonas, que
atravessa todo continente da América Meridional, do Ocidente ao Levante, “e passa
com razão por ser o maior curso do mundo”. Sua intenção era tornar a viagem útil,
fazendo o levantamento da carta do rio e recolhendo “observações de todo gênero que
705
tivesse ocasião de fazer num país tão pouco conhecido”. Salienta que seu registro
trataria de hábitos e costumes singulares dos habitantes das margens do rio. Contudo,
nota que: "eu acreditei que em presença de um público ao qual é familiar a linguagem
dos físicos e geômetras, não me era permitido versar matérias estranhas ao objetivo
desta Academia”.706
O rio foi navegado por Francisco d’Orellana (1490-1550) que deixou Quito em
1539, segundo a sua referência.707 Após este registro, não havia menções de
explorações por este rio. Em 1638 Pedro Teixeira (1570-1641) foi enviado pelo
governador do Pará para subir o rio até a confluência do Napo, por terra, retornando
apos um ano.708 Pelo cálculo feito por Pedro Teixeira e seus acompanhantes (dentre
eles o jesuíta Pe. Cristobal de Acuña), a aldeia de Napo distava 1.356 léguas em

302
relação ao Pará.709 Os registros dessa viagem foram publicados com mapas, e serviu
de referencia até o início do século XVIII. Em 1717, foi publicada na França, no
duodécimo tomo das cartas edificantes, dirigida pelo Pe. Samuel Fritz uma carta, que
afirmava ser o rio Napo a verdadeira fonte do Rio Amazonas. Lamentava La
Condamine que o padre “sem pêndulo e sem luneta, não pôde determinar nenhum
ponto em longitude. Ele não dispunha senão de um pequeno semicírculo de madeira,
de três polegadas de raio, para as latitudes; enfim, ele estava doente quando desceu o
rio até o Pará”. Os obstáculos enfrentados Pe. Samuel Fritz impediram o traçado de
um mapa mais bem elaborado.710
La Condamine localiza o rio e seu percurso, registra distâncias e a existência
de vários afluentes de extensões consideráveis comparáveis ao Danúbio e ao Nilo.
Nas margens se encontravam algumas aldeias indígenas, muitas delas formadas pela
ação de missionários. Os estudiosos identificaram três caminhos que atravessavam a
cordilheira dos Andes, por onde os nativos faziam a circulação de mercadorias e suas
marchas a pé.711
Pelo caminho encontrou vários rios sendo preciso atravessá-los em “pontes de
corda, de cascas de árvore, ou dessas espécies de cipó que se chamam lianas, nas
nossas ilhas da América”.712 A oscilação de temperatura era perceptível e a chuva
uma constante na floresta, ainda em terras pertencentes à Espanha. A umidade
causava um odor insuportável aos cestos cobertos de pele que os viajantes
transportavam.
Seguindo pelos rios, as dificuldades da navegação e o esforço físico são
destacados em meio aos registros sobre a localização, que eram calculados
geometricamente. O contato com os indígenas permitia conhecer os hábitos deles
quanto ao viver às margens dos rios.713
O perigo se acentuava quando as águas de um rio se encontravam com outro ou
quando havia rochas. Dependendo da correnteza, a navegação era feita como mais
receio e, como tivera oportunidade de vivenciar, a embarcação em que seguia foi
lançada contra os rochedos.714 O registro de inúmeras barreiras servia para reforçar o
árduo trabalho de medição. Na medida em que avançava pela floresta, o aspecto da
paisagem era mais uniforme “água, verdura e nada mais”. Caminhava-se sobre a terra
sem vê-la, pois estava “recoberta de tufos de ervas, plantas e abrolhos, que daria

303
grande trabalho lá descobrir o espaço de um pé”.715
Nessas andanças encontrou diversas nações indígenas, identificando diferentes
culturas, o que o encorajou a afirmar que:
“todos os índios da América, das diversas regiões que tive ocasião de percorrer,
pareceram-me ter certos traços de semelhança uns com os outros; e, tanto quanto é
permitido a um viajante que não registra as coisas senão de passagem, suponho
reconhecer em todos eles um mesmo fundo de caráter. A insensibilidade é o
fundamental. Fica a decidir se a devemos honrar com o nome de apatia, ou se lhe
devemos dar o apodo de estupidez. Ela nasce indubitavelmente do número limitado de
suas idéias, que não vai além de suas necessidades”.716
O olhar eurocêntrico aflorava apontando a voracidade e a embriaguez dos
índios. Para ele, os índios estavam preocupados com o presente, sem preocupação
com o futuro: “incapazes de previdência e reflexão; entregues, quando nada os
molesta, a brincadeiras pueris, que manifestam por saltos e gargalhadas sem objeto
nem desígnio; passam a vida sem pensar, e envelhecem sem sair da infância, cujos
defeitos todos são conservados”. La Condamine procurava encontrar resposta para tal
comportamento, entendendo que tal situação acontecia por estarem eles no
“abandonado à natureza, privado de educação e sociedade”, pouco diferindo “das
bestas”.717
Pelo conhecimento das línguas da América, mesmo que incipiente, contatou a
falta de expressões como “‘Tempo’, ‘duração’, ‘espaço’, ‘ser’, ‘substância’, ‘matéria’,
‘corpo’”. Não havia também no vocabulário termos como: virtude, justiça, liberdade,
reconhecimento e ingratidão.718 Estes eram os indicadores das diferenças entre índios
e europeus; a proximidade da natureza conferia aos índios uma condição inferior ao
homem europeu, que acreditava poder capturar e transformar o mundo natural, em
consonância com os seus interesses.
A monotonia e a inatividade durante a tranquila navegação facultaram a La
Condamine a contínua observação da bússola, apontando as mudanças do curso
d’água e o tempo gasto entre um ponto e outro. O exame da largura do leito do rio, as
desembocaduras dos afluentes e seus ângulos contribuíam para o calculo da
velocidade da correnteza.719

304
A abundância e variedade das plantas em uma região com umidade e calor
contribuem para torná-la fértil. Por tal condição, dizia que:
"a multidão e a diversidade das árvores e plantas que se descobrem nos bordos
do rio das Amazonas, desde a cordilheira dos Andes até o mar, inclusive todos os
afluentes que para ele concorrem, dariam vários anos de trabalho aos mais laboriosos
botânicos, e empregariam mais de um desenhador. Não falo senão do trabalho que
exigiria a descrição exata de tais plantas, e sua arrolação em classes, gêneros e
espécies. Que será se alguém quiser considerar as virtudes que são atribuídas a várias
delas pelos naturais do país? Exame que é, sem dúvida, a parte mais interessante de
semelhante estudo”. 720
La Condamine entendia que a ignorância e o preconceito haviam multiplicado
erros. Havia outras plantas úteis, além da quinina, ipecacuanha, simaruba,
salsaparrilha, guáiaco, cacau e baunilha, cuja utilidade já fora devidamente
comprovada. Para contribuir com a ampliação do conhecimento, sempre que possível,
recolhia sementes pelos lugares por onde passava. A planta que chamou a atenção
pela singularidade foi a liana, uma espécie de vime, que se enrosca nas árvores e
arbustos que encontra pelos galhos. Estes cipós "abraçam" uma árvore, a ela seca e
apodrece, observou o viajante. As árvores das florestas também possuíam gomas,
resina e bálsamos que eram obtidos com incisões nos troncos. A palmeira ungurave
dava um azeite, similar ao produzido pela azeitona. Havia as resinas da andiroba, do
copal e do caucho. Esta última destacava-se pela utilidade. Pois, quando “ela está
fresca, dá-se-lhe com moldes a forma que se quer; ela é impenetrável à chuva, mas o
que a torna digna de nota é a sua grande elasticidade. Fazem-se com elas garrafas que
não são friáveis, e botas, e bolas ocas, que se achatam quando se apertam, mas que
retornam a sua primitiva forma desde que livres”.721
Na continuidade da viagem, além do conhecimento dos rios, foram também
apontados os hábitos de moradia, o convívio dos indígenas e os que falavam sobre as
mulheres amazonas. A floresta ainda alimentava lendas que a tradição oral
preservava. No encontro do rio Negro como o rio Amazonas, La Condamine
registrava que se não fosse a cor do referido rio não seria possível identificá-lo,
confundindo-o com um braço do próprio Amazonas, separado por alguma ilha.722 Nas
margens do rio Negro havia diversas missões portuguesas, principalmente dos

305
carmelitas e jesuítas. No fluxo da correnteza aparecia o rio Madeira com os troncos
que normalmente seguiam pelo seu curso. O ritmo da viagem aumentava ou diminuía
em função da correnteza.
No rio Tapajós, o viajante observou que nessa região se encontravam facilmente
“pedras verdes, conhecidas pelo nome de pedras das amazonas, cuja origem se ignora,
e que foram tão procuradas outrora, por causa da virtude que se lhes atribuía, para
curar a `pedra` a cólica nefrítica, e a epilepsia”. Segundo ele, foi impresso um tratado
com o título de “Pedra Divina”. Estas pedras não diferiam da pedra jade, tanto na cor,
como na dureza, sendo utilizadas pelos nativos para fazer pequenos artifícios. Este
tipo de pedra era cada vez mais raro, porque os “índios, que lhes dão grande
importância, delas se não desfazem de boa vontade, já porque grande número delas
foi enviado à Europa”.723 Nas margens do rio Xingu se encontravam espécies de
árvores aromáticas, chamadas cuxiri e puxiri. Os frutos se assemelhavam ao da
azeitona e quando ralados, como a noz-moscada, eles tinham a mesma utilidade:
“A casca do primeiro tem o sabor e cheiro do cravo-da-índia, que os
portugueses chamam `cravo`; isto fez com que os franceses de Caiena chamassem,
por corrupção à árvore que produz tal casca, bois de crabe, ou seja, `pé de caranguejo'.
Se as especiarias que nos chegam do Oriente deixassem algo a desejar neste gênero,
estas seriam mais conhecidas na Europa. Entram na composição de diversos licores
fortes na Itália e na Inglaterra”. 724
O olhar de La Condamine estava voltado para as espécies de maior interesse
para as pesquisas. Contudo, as informações sobre a flora são esparsas, sem
aprofundamento em detalhes específicos das plantas.
A quantidade de mosquitos e moscas diminuía lentamente. Estes traziam para o
viajante muitos incômodos. Os próprios índios, segundo La Condamine, não viajavam
sem uma “barraca de tela de algodão, para aí se abrigarem durante a noite. Há tempos
e lugares, particularmente na região dos omáguas, onde se está continuamente
envolvido numa nuvem espessa desses insetos, e suas picadas causam coceiras
excessivas”. 725
A expedição chegou a Curupá, cidade portuguesa, localizada na margem austral
do rio Amazonas. Daí por diante o fluxo e refluxo se tornavam muito sensíveis, os
barcos não navegavam senão ao sabor das marés.

306
Após descrever o trajeto da sua viagem, dedicou maior atenção às espécies da
fauna e da flora. Desenhou um peixe-boi, cuidando para não ser confundido com a
foca. O peixe-boi se alimenta das ervas das margens do rio e:
“sua carne e gordura têm bastante semelhança com a de vitela. A fêmea tem
tetas com que amamenta os filhotes. Alguns tornaram a semelhança com o boi ainda
mais completa, atribuindo-lhe chifres que a natureza não lhe deu. Ele não é anfíbio
propriamente, pois que não sai d’água, nem pode fazê-lo porque tem duas nadadeiras
muito perto da cabeça, em forma de barbatana de 16 polegadas de comprimento, e que
lhe fazem as vezes de braço e pernas: vi depois maiores. Os olhos desse animal não
estão em proporção com o corpo: são redondos e não passam de três linhas de
diâmetro. O buraco de suas orelhas é ainda menor, e parece um furo de alfinete”.726
Sobre o lugar onde frequentemente se encontrava a espécie havia dúvidas, por
entender que existissem outras castas muito parecidas. Outro peixe que despertava
atenção era o mixano, “tão pequeno este quanto é o outro grande, não chegando
alguns a ter o tamanho de um dedo”. Estes peixes vinham em cardume, quando as
águas baixavam em final de junho. A característica marcante era a forma com que
seguiam na contracorrente, sendo possível apanhá-los com as mãos quando a água
estava baixa.727
As tartarugas do Amazonas eram procuradas em Caiena, por serem mais
delicadas do que qualquer outra. Estas eram encontradas em diferentes espécies e em
grande quantidade e, juntamente como os seus ovos, poderiam abastecer muitos
moradores das margens dos rios. Havia também o jabuti com hábitos terrestres. La
Condamine afirma sobre a riqueza da Amazônia:
“A natureza parece ter favorecido a preguiça dos índios, e ter ultrapassado suas
necessidades: os lagos e os mangues que se encontram a cada passo nas proximidades
do Amazonas, e não raro bem no interior das terras, são enchidos de peixes de todas
as qualidades, nos tempos do extravasamento; e quando as águas baixam, aí eles
ficam encerrados como em tanques ou reservatórios naturais, e onde se pescam com a
maior facilidade”. 728
Teria sido a natureza injusta ou o paraíso fora dado àqueles que não
professavam a fé católica. Dúvidas que permeavam a sua mente, num local onde
havia plantas e animais desconhecidos dos europeus. Havia raízes que lançadas na

307
água serviam para entorpecer o peixe e assim eram apanhados facilmente com as
mãos. 729
Os jacarés, designado por ele como crocodilos, eram comuns no curso do rio
Amazonas, podendo atingir mais de seis metros de comprimento. Ficavam dias
inteiros sobre o lodo estendidos ao sol e imóveis. Tal imobilidade levava o incauto a
confundi-los como um tronco de árvore. No tempo das enchentes eles penetravam nas
cabanas dos índios e não era raro ouvir notícias de terem devorado alguns deles. O
predador natural do jacaré era o “tigre”, segundo o autor. Este cravava suas unhas nos
olhos “do crocodilo, o único lugar por onde ele pode ser ofendido, visto a dureza de
suas escamas; mas este, mergulhando n’água, arrasta o tigre, que se afoga de
preferência a abandonar a presa. Os tigres que vi na América, e que são vulgares em
todas as regiões quentes e boscosas, não me pareceram diferir dos africanos, nem em
beleza nem em tamanho”.730
Para La Condamine era difícil descrever sem recorrer às analogias com outras
espécies. Porém, ressalta a existência de diferentes castas. Passando entre os jameus,
ele desenhou uma espécie de doninha que se domesticava com facilidade: “não pude
pronunciar nem escrever o nome que aí lhe dão; achei-a depois nas cercanias do Pará,
onde lhe chamam quati, na língua do Brasil. Laet a menciona”. Como os registros dos
demais cronistas, nem sempre era possível fazer o reconhecimento da espécie de
imediato pela incompreensão do nome e o desconhecimento dos hábitos. Tal situação
ampliava a importância dos desenhos que por si só forneciam um conjunto de
informações mais preciso.
Os macacos eram de muitas castas, com pelos longos e lustrosos, como o
“sapajus”, ou sagüis. Tinha pelo castanho e às vezes pintalgado de amarelo e possuía
uma “cauda dois tantos mais longa que o corpo, a cabeça pequenina e quadrada, as
orelhas pontudas e salientes como cães ou gatos, e não como os outros símios, com os
quais pouco se parecem, pois têm antes o ar e o porte dum leãozinho”. Pela
singularidade de as orelhas e faces serem vermelhas, de um vivo que dificilmente se
acreditasse ser natural, ele procurou manter um exemplar para levá-lo para a Europa.
Todavia, apesar dos cuidados para preservá-lo, o animal morreu. “Como eu não tinha
nenhum recurso a bordo para o dissecar no forno, da maneira que M. De Réaumur
imaginou para conservar os pássaros, o que pude fazer foi metê-lo no álcool; isto

308
bastará pode ser para demonstrar que nada exagerei na descrição”. 731
Para esse viajante, não era de espantar que, em regiões tão quentes e úmidas
quanto aquelas se encontrassem serpentes de todos os gêneros. Dizia: “Li não sei onde
que todas as do Amazonas são sem veneno, e é certo que algumas não são nocivas de
todo; mas as picadas de várias são quase sempre mortais”. Sem dúvida, o
conhecimento sobre a natureza das terras brasílicas ganhara difusão na Europa. Os
viajantes estavam precavidos sobre cobras como a cascavel, com o seu guiso já
conhecido. A cobra coral, pelas cores vivas, era digna de destaque. A cobra d’água,
que era capaz de matar a presa e engoli-la totalmente era algo inacreditável,
“Diversos portugueses do Pará tentaram persuadir-me de casos quase tão pouco
de acreditar, como a maneira por que outra grande cobra mata os homens com a
cauda. Suspeito que esta mesma espécie habita os bosques de Caiena. Aí todo esse
maravilhoso se reduz a um fato confirmado pela experiência: é que a gente pode ser
por ela mordida e ser por ela marcada sem perigo, malgrado seus dentes serem bem
próprios para infundir o terror. Dela tenho duas peles, uma das quais não tem nada
menos de quinze pés de comprimento, está seca e tem um pé de largura. Sem dúvida
há maiores”.732
Estas amostras, na verdade uma curiosidade da História Natural, foram
oferecidas pelos padres jesuítas de Caiena.
Os morcegos que atacavam cavalos, burros e até seres humanos eram um
flagelo na região, principalmente quando o alvo era o gado. Os pássaros eram em
número infinito e superavam os quadrúpedes. O tucano, “cujo bico vermelho e
amarelo é monstruoso em proporção com o corpo, e cuja língua a modo de pluma
solta passa por ter grandes virtudes, não é tampouco particular ao país de que trato. As
variedades de papagaios e araras, em tamanho, cor e aspecto, são sem conto; entre os
primeiros rareiam os inteiramente amarelos, com manchas verdes nas extremidades
das asas”.733
A beleza das penas também foi registrada nos artefatos dos indígenas. Além
disso, havia alguns procedimentos que deveriam ser verificados:
“Os índios das margens do Oiapoque têm a habilidade de dar artificialmente aos
papagaios cores naturais diferentes daquelas que eles receberam na natureza, tirando-

309
lhes as penas e esfregando-os com sangue de certas rãs: é o que se chama em Caiena
‘tapirer um perroquet’ (avermelhar um papagaio); talvez o segredo não consista senão
em molhar com algum líquido ácido o lugar que foi depenado; talvez não seja mesmo
necessária nenhuma preparação: é uma experiência a fazer. Com efeito, não parece
extraordinário ver nascer num pássaro penas vermelhas ou amarelas, em lugar das
verdes que lhe foram arrancadas: é como ver repontar pêlo branco em lugar de negro,
no dorso de um cavalo que foi ferido”.734
Ao chegar ao Pará, permaneceu em Belém, de onde fez pequenas viagens para
dar continuidade às suas medições, passando pela ilha do Marajó e indo rumo a
Caiena. Nesta localidade fez medições com o pêndulo equinocial, lamentando que a:
“diversidade das línguas, inconveniente que durará ainda séculos, não traz bastantes
obstáculos ao progresso das ciências e artes, pela falta de uma comunicação suficiente
entre os diversos povos; é necessário ainda, por assim dizer, aumentá-lo
deliberadamente, servindo-se cada uma de diferentes medidas e diferentes pesos, em
cada país e em cada lugar”.735
Antonio de Ulloa y de la Torre-Giralt (1716-1795) nasceu em Sevilha.
Ingressou na Real Academia de Marinha da Espanha. Foi tenente de fragata e realizou
diversas expedições em nome da coroa Castela. Em 1745, seu navio foi apreendido
por ingleses, e Antonio de Ulloa foi levado para Inglaterra. Durante sua estada
forçada naquela nação, entrou em contato com a Royal Society, vindo a ser admitido
com membro da instituição, conquistando posteriormente o direito de retornar à
Espanha. Seu espírito científico facultou-lhe participar da formação do Museu de
Ciências Naturais de Madri e a estabelecer o primeiro observatório astronômico em
Cádiz. Foi governador em Huancavelica, no Peru, onde colaborou na exploração e
recuperação da produção das minas da região. Em 1752 escreveu “Tratado Físico e
historia de la aurora boreal” e vinte anos depois escreveu “Noticias americanas:
entretenimentos fisico-históricos sobre la América meridional y la septentrional
oriental: comparación general de los territórios, climas y producciones en las três
espécies vegetal, animal y mineral”.736
Antonio de Ulloa, no volume dois da sua obra “A Voyage to south America”,
registrou a sua jornada pela região no vice-reinado do Peru. No livro sétimo o autor
registrou sua passagem pela região de Quito e Lima, referindo o clima da região e a

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fertilidade que permitia o cultivo na área. Nas suas andanças passou por Tuxillo,
Guamonga, Cuzco e Arequipa, fazendo relatos sobre as dioceses de La Paz, Santa
Cruz de la Sierra e Tucumã, ponderando também sobre o Paraguai e Buenos Aires,
tendo como foco principal as missões dos jesuítas. Em seguida, o viajante retornou a
Lima e realizou outras visitas, com Juan Fernandes, à região de Santa Maria, no Chile,
fazendo descrições sobre as terras da América Espanhola. Novamente retorna a Lima,
passando por Quito. A etapa seguinte foi o retorno à Espanha, passando por Fernando
de Noronha. Ele imaginava, a priori, que a ilha fosse deserta. Contudo, notara que
navios vindos da região do Oriente rumo à Europa passavam por lá, ocasião em que
poderiam abastecer-se com água.737 A ilha possuía dois portos capazes de acolher
navios de grande porte, sendo o único inconveniente o fato de as embarcações ficarem
expostas. Dependendo da estação do ano e dos ventos, não era fácil navegar na região.
A violência do mar e as rochas tornaram as manobras mais perigosas.738 A ilha estava
sob jurisdição do governo de Pernambuco, merecendo de Ulloa uma descrição física
dos rochedos e características geográficas, chamando a atenção para o fato de não
haver chovido na região há dois anos dois anos e a população se abastecia da água
armazenada em cisternas.739 A alimentação da população da ilha era constituída de
farinha de pau ou de mandioca, substituindo o pão.740 De forma similar ao que outros
viajantes fizeram, as propriedades da mandioca ocupavam o discurso de Ulloa,
principalmente no que dizia respeito ao seu caráter maligno.741 Na sequência, o autor
apresenta algumas observações sobre partes do Brasil feitas por Mr. John Adams.742
Descreveu diferentes partes da América Portuguesa, incluindo observações sobre os
indígenas, principalmente na região de Pernambuco. Esta área foi descrita em função
das diversas vilas e pela produção de açúcar, tabaco e mandioca. Localizou os rios e
informou o sentido em que correriam.743 A região da Bahia merecia destaque por ser a
capital da colônia. As praias e as elevações do litoral chamavam a atenção,
principalmente na região do rio Camamu e Ilhéus.744
Esta quantidade de registros, dos quais selecionamos apenas alguns, apresenta
novas informações e uma dimensão objetiva da experiência. Muitos destes testes
procurava omitir juízo de valores a fim de não comprometer a leitura.
Em 1759, Pedro Noberto de Aucourt e Padilha745 escreveu a obra "Raridades
da Natureza e da arte", abrangendo os quarto Elementos. A obra foi dedicada a D.

311
José I, tendo como objetivo apresentar as raridades existentes no mundo. Na primeira
e segunda parte focou a terra; na terceira e quarta, abordou as qualidades raras da
água; na quinta e sexta, fez considerações sobre o ar e na sétima e oitava parte,
dedicou-se a ponderações sobre o fogo. Pedro Noberto Aucourt e Padilha afirmavam
que:
“Em todo o tempo quiz o homem indagalla, ou para refugio das suas doencas,
ou para satisfação da sua curiosidade; porem depois do primeiro Pay do genero
humano só sabemos, que Salomão conhecesse as virtudes das plantas, e a natureza
dos animais, com aquella sciencia, que os mais naturalistas não alcançarão. Com
perda irreparável nos privou dos seus livros o Santo Rey Ezechias, queimando-os pelo
receyo de que os homens confiados na eficácia dos remédios se esqueciam de recorrer
a Deus para alcançar saúde”.746

7.2 A natureza brasílica: pesquisas e debates

No século XVIII, o estudo da natureza era dificultado pela dispersão de livros


espalhados pelo mundo. Por esta razão, Pedro Padilha punha em dúvida os relatos dos
filósofos naturalistas:
“nem devemos crer tudo como ignorantes, nem refutá-lo segundo a modo dos
Críticos modernos, que para se habilitarem doutos, nada há exquisito, que elles não
façam apócrifo. Eu estou persuadido, que mais teriam de que admirar-se os passados,
se vissem o que hoje se tem descoberto,do que nós para nos parecer incrível o que
elles nos deixarão na historia”.747
Pedro Padilha demonstrava estar extasiado pelas conquistas feitas pela ciência
como a eletrização de um corpo humano, que era digno de admiração. Como também
era a reprodução de um terremoto artificial produzida por Monsieur l’Emery,
ensinando como fazê-lo. Refletiu sobre as experiências para atrair os raios e a criação
de equipamento de vento artificial: “O certo he, que vemos tantas cousas, que antes de
vistas pareciam impossíveis; que já tem a Natureza ganhado crédito para poder

312
produzir toda a maravilha: tantas serão as verdades, que passam por mentiras, como
as mentiras, que passam por verdades.”748
Pedro Noberto de Aucourt Padilha concordava com o aspecto fantástico sobre
a jiboia reportado pelo Pe. Frei Lourenço, irmão de Luiz de Mendonça Furtado e o Pe.
Fernando de Santo Antônio, também capucho da Província do Rio de Janeiro por
devorar suas presas. Na opinião de Pedro Noberto, o ato consistia “na virtude, ou
veneno do bafo desta cobra, que depois de matar o boi o bafeja, e com seu hálito lhe
desfaz de forte os ossos, e deixa tão moído, que parece hum odre cheio de água, e
nesta forma he que o pode engolir inteiro. Também he circunstancia da raridade, que
o dito bafo, que desfaz os ossos, não tenha a mesma efficacia para desfazer-lhe a
armação”.749
A imprensa do século XVIII, como no “Journal de Savants”, de junho de
1731, publicava as experiências realizadas por estudiosos naquele momento. Uma
observação feita nas lagartixas chamava a atenção.750 Afirmava-se que arrancado o
coração de uma lagartixa, e feito em “bocadinhos” duravam muito tempo a “bolir”.
Da mesma forma, era salientado que a “tartaruga ainda passados vinte e três dias de
morta, se lhe acha movimento, por pouco que a piquem com um alfinete”.751
Animais fabulosos que nasciam das plantas também faziam parte do relato de
raridades da natureza. Apoiados nos textos antigos de Aristóteles e Teofrasto os
estudiosos depuseram sobre a caça veados, que eram agarrados pelos esgalhos. O
mesmo fez Pedro Padilha ao afirmar que Silvestre Ribeiro, o Cirurgião das Freiras de
Odivelas, e natural do Rio de Janeiro, lhe afirmara:
“ser cousa tão comum, como certa, haver no Brasil uma planta chamada do
Passarinho, que dá algum certo fruto, que costuma comer um pássaro chamado
Senhasu, que em este excretando sobre as folhas das laranjeiras, nasce a semente da
dita herva, que se enlaça com grande prejuízo nas árvores, de sorte que se põem todo
o cuidado em tirar-lha aliás as destroe”. 752
Pedro Padilha afirmava também: “He observação rara, que todas as produções
da Natureza quanto mais pequenas são, mais perfeitas se descobrem com o
microscópio; e ao contrario quanto mais delicada são as obras da Arte, vista com o
microscópio, ficam disformes, e grosseiras”.753

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O movimento das águas do mar causava indagações. As marés e seus
movimentos poderiam causar transtornos terríveis, mas era inegável a beleza desse
movimento. Contudo, as profundezas do oceano guardavam segredos e o abismo
insondável provocava medo e levava os filósofos naturalistas a questionar e estudar o
movimento das águas do mar. Sobre o conhecimento científico que se contrapunha às
crenças populares, Pedro Padilha afirmava que: “Geral opinião he, que não se morre
senão ao tempo da maré; mas por ordem da Academia de França se fez uma exata
averiguação do tempo, e horas, a que morriam os doentes nos hospitais, e se a