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«emas e problemas LIBERDADE RELIGIOSA

ANTÓNIO LEITE

DESENVOLVIMENTO REGIONAL
FRANCISCO P E R E I R A DE MOURA

DA POLITOLOGIA E SUA NECESSIDADE


FLÁVIO RIBEIRO

REFLEXÕES SOBRE O ATEÍSMO


ARTUR MORAO

GÉNIO E UNIVERSO DE RAUL BRANDÃO


ALBERTO SOBREIRA

d e m ê s a m ê s A SANTA SÉ E A RÚSSIA
L. DE CASTRO

GLOBALISMO AMERICANO
VÍTOR RIGORIGE

UNIVERSIDADE, DESENVOLVIMENTO E PLANEAMENTO


RICARDO SILVA

VIDA LITERÁRIA
JOÃO MENDES

PARA O DIÁLOGO
JOÃO MAIA

documentação O B. I N Á C I O DE AZEVEDO
SERAFIM LEITE

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B I B L I O G R A F I A
Teoloaia B A U D R A Z , F r a n c i s : L e s E p i t r e s a u x C o r i n t l i i e n s . San G i o o v a n n i . N I C O -
L A S , M. J . , O. P . : T h é o t o k o s . M A R T I N S , J o s é S a r a i v a , C. M. F . : D e
dogmático collegiatis episcoporum f u n d a m e n t o , secundum Constitutionem «Lúmen
G e n t i u m » . V I L L E T T E , L o u i s : F o i e t s a c r e m e n t . CATÃO, B e r n a r d : S a l u t e t R é -
d e m p t i o n che« S. T h o m a s d ' A q u i n . D I L L E N S C H N E I D E R , C l é m e n t , C. SS. R . : La.
p a r o i s e e t son c u r é d a n s le m y s t è r e d e 1'Êglise. M A T A B O S C H S O L E R , A n t ó n i o :
L a Iglesia y sus esperanzas. ITURRIOZ, Daniel: Revelaciones privadas.
Espiritualidade f o n n a z i o n e s p i r i t u a l e d e i c a n d i d a t o al s a c e r d o z i o . B R U G N O L I ,
P i e t r o : L a s p i r i t u a l i t à d e i laici. J E R P H A G O N , Lucien: Ora-
ciones p a r a los d i a s i n a g u e n t a b l e s . D U A T O G. - N O V E L L A , M a n u e l , S. I . : U n
m a r a v i l l o s o m u n d o d e s c o n o c i d o . R U B I O , R o d r i g o : £ 1 P a p a b u e n o y los e n f e r m o s .
Pastoral D P F L I EG L E R , M i c h a e l : T e o l o g i a P a s t o r a l . 2) D U F O Y E R , Pierre:
A a l m a d a c r i a n ç a . 3) P a s t o r a l d a i n i c i a ç ã o c r i s t ã . 4) H O P F E N B E K .
G a b r i e l : P a s t o r a l e de l a C o n f e s s i o n . 5) H A E R I N G , B e r n a r d : P é d a g o e i e d e la
C o n f e s s i o n . 6) P A R I S S E , L u c i a n o , O. P . : R e c o n c i l i a i - v o s com D e u s . 7) V L A S M A N ,
F r . Guido, O. F . M . : ...E n ã o p e q u e i s m a i s . 8) L A P L A C E , J e a n , S. J- : L a d i r e c t i o n
d e c o n s c i e n c e ou le d i a l o g u e s p i r i t u e l . 9)e R O S S E T I , L u i g i - M a r i a : P r á t i c a d e ca-
r a c t e r o l o g i a r e l i g i o s a . 10) S A N T A N A , P . O r l a n d o R i b e i r o d e : M é t o d o s d e f o r m a -
ção r e l i g i o s a d a c r i a n ç a . 11) I n i t i a t i o n d e s e n f a n t s à l a l i t u r g i e d o m i n i c a l e . 12)
l i s d e m a n d e n t le b a p t ê m e p o u r l e u r enfamt. 13) S M E D T , M g r . E m i t e - J o s e p h d e :
Pour un dialogue parents-adolescents. 14) L A M B E R S , E. B.: J o u r s d'arrière-
- s a i s o n . 15) L a r e l i g i e u s e e t l e s p e r s o n n e s â g é e s . 16) P a s t o r a l e e t c o m m u n a u t é s
n a t u r e l l e s . 17) V A N D E L F T , M., C. SS. R . : L a M i s s i o n P a r o i s s i a l e . 18) As r e s p o n -
s a b i l i d a d e s d a I g r e j a n a A m é r i c a L a t i n a . 19) M A R T I N S , P . ° J o s é : Renovação
paroquial.
Evangelização R A H N E R , K a r l , S. J . : M i s s ã o e g r a ç a . MOELLEJR, Charles:
Mentalidade m o d e r n a e evangelização. M A R I O T T I , M a r i a : Apos-
t o l i c i t à e m i s s i o n e n e l l a C h i e s a P a r t i c o l a r e . N I L E S , D a n i e l T h a m b y r a i a h : S u r la*.
T e r r e . . . L a m i s s i o n de D i e u et de son E g l i s e . R O Y Ana, A g o s t i n h o : A B o a N o v a
é anunciada aos pobres.
Concilio V A T I C A N O I I : D o c u m e n t o s C o n c i l i a r e s . 2) D o c u m e n t o s do Vaticano-
I I . 3) C O N C Í L I O V A T I C A N O I I : C o n s t i t u c i o n e s . D e c r e t o s , D e c l a r a c i o n e s .
4) D o c u m e n t o s dei Concílio V a t i c a n o I I . 5) D o c u m e n t s C o n c i l i a i r e s . 6) K o n z i l s -
d e c r e t . 7) W E N G E R , A n t o i n e : V a t i c a n o I I .

Filosofia GABORIAU, Florent: Nouvelle initiation philosophique. FOULQUIÉ,


P a u l : A D i a l é c t i c a . C H I L D E , V. G o r d o n : T e o r i a s d a H i s t ó r i a .
Ensaio M C G U I R E , M a r t i n : I n t r o d u c t i o n to 3 I e d i a e v a l L a t i n S t u d i e s . O L S C H K I ,
L e o n a r d o : T h e Grail Castle a n d its Mysteries. W I L S O N , E d w a r d M.;
SAGE, J a c k : P o e s i a s l í r í c a s e n Ias o b r a s d r a m á t i c a s d e C a l d e r o n . HERMÀNS,
Francis: L ' H u m a n i s m e religieux de l'Abbé Henri Brémond.
Problemas matrimoniais COLACCI, M á r i o : C h r i s t i a n m a r r i a g e t o d a y . ORIGLIA,
D i n o : A p s i c o l o g i a do c a s a m e n t o . É t u d e s d e Sexologie^
RAY, Jean-Michel: Amour, Sexualité, Régulation des naissances.
Documentação M o n u m e n t a H c n r i c i n a . L i v r o s d e L i n h a g e n s . C o l ó q u i o (V) I n t e r -
n a c i o n a l de E s t u d o s L u s o - B r a s i l e i r o s , C o i m b r a , 1063. O R i o e o
M a r na vida da cidade. P L A T E L L E , H e n r i : J o u r n a l d'un curé de campagne
a u X V I I . e siècle.
Arqueologia e História C H I L D E , V. G o r d o n : I n t r o d u ç ã o à A r q u e o l o g i a . M A C H A D O .
J o ã o L. S a a v e d r a : S u b s í d i o s p a r a a H i s t ó r i a do M u s e u
E t n o l ó g i c o d o D o u t o r L e i t e de V a s c o n c e l o s . COOCK, R o b e r t , M . : O s G r e g o s a t é
Alexandre. F E R R E I R A , Godofredo e FRAGOSO, António: Centenário das Ambu-
lâncias Postais Portuguesas. DOMINGUES, Mário: D. João V. «Do tempo-
e d a H i s t ó r i a I».

(Continua na 3.a página.


VOL. LXXX1V
MARÇO
N.° 3

A LABERDADSE REOJGFLASA
E © SEIS FSDB9E)&iI]EI

por ANTÓNIO LEITE

m artigo precedente C1) mostrámos como se foi pondo através dos


j tempos o problema da liberdade religiosa, e as soluções que
lhe foram dadas, em conformidade com o pensamento da época.
Como é sabido, e também já o notámos, foi este um dos
problemas que maiores e mais vivas discussões provocou durante o
Vaticano II, dentro e fora da aula conciliar.
No primeiro esquema ou projecto de constituição dogmática sobre
a Igreja, incluía-se um capítulo 'intitulado « D a s relações entre a Igreja
e o Estado e da tolerância religiosa». Nele se repetiam, mais ou me-
nos, as posições tradicionais acerca destes problemas. No que se re-
fere à liberdade religiosa esta não era admitida de modo absoluto,
mas sob o aspecto de tolerância, ao menos em Estados de grande
maioria católica, como tivemos ocasião de referir no artigo citado.
Ao mesmo tempo, o Secretariado para a União dos Cristãos, pre-
parou um esquema sobre o Ecumenismo, em que se tratava também
da liberdade religiosa, que se reconhecia ser um direito de todo o
homem. Os primeiros contactos do Secretariado com representantes dos
cristãos separados, em especial protestantes, mostrara que seria quase
impossível um diálogo frutuoso entre estes e os católicos, se a Igreja
não reconhecesse o princípio da liberdade neliigiosa. De facto, acusa-
vam-na de nos países em que estava em minoria proclamar a liberdade
religiosa, para poder pregar a sua doutrina; ao passo que nas nações
tradicionalmente católicas, em especial na Espanha, não a reconhecia,
e quando muito admitia a tolerância das demais confissões religiosas,
dentro de certos limites bastante restritos.
A Comissão Central pré-conciliar julgou que seria mais conve-
(1) Broíério, 82 (Maio de 1966 ) 604 - 614.
282 ANTÓNIO L E I T E

niente que o assunto corresse pelo Secretariado para a União dos Cris-
tãos, dadas as suas implicações ecuménicas. Assim o problema da li-
berdade religiosa desapareceu do esquema da Igreja, e continuou como
uma espécie de apêndice ao decreto sobre o ecumenismo, até que mais
tarde foi decidido fazer-se dele uma declaração à parte, pois o pro-
blema dizia respeito mesmo aos países de maioria ou tradição não
cristã.
O texto proposto foi repetidas vezes remodelado dadas as muitas
advertências de que foi objecto quer oralmente na aula conciliar, quer
por escrito, e afinal só veno a ser votado na última sessão pública, na
véspera d o encerramento do Concílio a 7 de Dezembro de 1965.
Entre as afirmações da Declaração apenas queremos hoje refe-
rir-nos ao princípio da liberdade religiosa e aos fundamentos em que
esta se baseia. As principais consequências de ordem prática, exami-
ná-las-emos noutra oportunidade.
O princípio fundamental é o seguinte:
«Esfle Concílio Vaticano declara que a pessoa humana tem direito à
liberdade religiosa. Esta liberdade consiste no seguinte : todos os homens devem
estar livres de coacção, quer por parte dos indivíduos, quer dos grupos so-
ciais ou qualquer autoridade humana; e de tail modo que, em matéria re-
ligiosa, ninguém seja forçado a agir contra a própria consciência, nem impedido
de proceder segundo a mesma, em privado o u em público, só ou associado
com outros, dentro dos devido® limites» (n. 2 ) .

A primeira observação a fazer é que esta liberdade religiosa pro-


clamada pelo Concílio' difere essencialmente da «liberdade de cons-
ciência », também chamada liberdade religiosa, que foi condenada por
Pio IX especialmente no Syllabus, e que proclamavam os inimigos da
Igreja no século passado, como já tivemos ocasião de dizer. Era a
tese do «laicismo» liberal, ou dos «livre pensadores», que defendia
a plena autonomia da consciência humana, isto é, que esta não está
sujeita a nenhuma lei moral ou religiosa. Consequentemente caíam na
omnipotência do Estado, que constituía o fundamento de todo o direito
visto não existir nenhuma outra fonte dè obrigação moral. Portanto,
todas as religiões são 'igualmente boas, ou melhor igualmente más e
falhas de fundamento, pois não passam de mero produto da imagina-
ção e vontade humanas.
Para evitar todas as dúvidas a este respeito, o Concílio teve ò
cuidado, logo de início, de excluir, ainda que de forma positiva e não
com novas condenações, semelhantes teorias :
LIBERDADE RELIGIOSA 283

« E m primeiro lugar afirma, pois, o Sagrado Concílio que o próprio Deus


deu a conhecer ao género -humano o caminho pelo qual, servindoO, os homens
se possam salvar e ateançar a felicidade em Cristo. AcrediDsunos que esta única
religião verdadeira se encontra na Igreja católica e apostólica, à qual o Senhor
Jesus confiou o encargo de a levar a todos o s homens, dizendo aos Apóstolos. :
«Ide, pois, ensinai todos os povos, 'bapitizando-os em nome do Pai, e do
Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a observar tudo o que vos mandei»
(Mf., 28, 19-20). Por sua paxttie, todos o® homens têm a. obrigação d e .pro-
curar a verdade, sobretudo no que se refere a D e u s e à sua Igreja e, uma vez
conhecida, abraçá-la e pô-ia e m prática'. O Sagrado Concilio declara igualmente
que estes deveres atingem -e obrigam a consciência humana e que a verdade
não se impõe de outro modo senão pela sua própria força, que penetra: nos
espíritos de modo ao mesmo tempo suave e forte. Ora, visto que a liberdade
religiosa que os homens exigem n o exercício d o seu dever de presfer culto
a Deus, diz respeito à .imunidade de coacção ma sociedade civil, em nada
afecta a doutrina católica tradicional acerca' do dever moral que o s homens
e as sociedades têm para com a verdadeira religião e a única Igreja d e Cris-
to s> ( n . 1 ).

Numa palavra, podemos resumir o pensamento do Concílio nestas


quatro afirmações :
1) H á uma lei moral que obriga as consciências.
2) Todos têm o dever moral de procurar e seguir o verdadeiro
caminho por meio do qual devem servir a Deus.-'
3) Este caminho encontra-se na religião © Igreja católicas.
4) Tanto os homens como as sociedades têm deveres morais para
com a verdadeira e única Igreja de Cristo.
Este proémio não se encontrava no penúltimo texto, submetido
à discussão dos Padres conciliares. Mas foi introduzido, devido- a ins-
tâncias repetidas de numerosos Bispos, não fosse a Declaração ser
entendida no sentido da antiga «liberdade de consciência», que o
Concílio de modo. nenhum queria admitir.
Apesar de palavras tão claras, não têm faltado pessoas mal infor-
madas, que julgam ter o Concílio proclamado a plena liberdade reli-
giosa, ou seja que qualquer pessoa tem a liberdade moral de seguir
qualquer religião, ou mesmo não ter nenhuma. Não, a liberdade
religiosa proclamada pelo Concílio, é apenas uma imunidade de coacção
ou uma liberdade externa e civil, ou seja uma imunidade que deve
ser reconhecida pela lei, de ninguém ser obrigado pelo Estado ou por
qualquer outra entidade ou pelas demais pessoas, a abraçar uma reli-
gião ou perseverar na que tem. Isto é, não deve haver coacções por
motivos religiosos. Noutra ocasião esperamos explicitar melhor este ponto.
284 ANTÓNIO LEITE

Muito discutido foi também durante o Concílio o verdadeiro fun-


damento da liberdade religiosa.
Evidentemente, ninguém no Concílio pensou em que esta liberdade
fosse apenas uma concessão do Estado, como defendiam os positivistas.
Mas, no reconhecimento desta liberdade por parte dos Estados e outras
sociedades ou grupos sociais não imperarão sobretudo considerações
de ordem pragmática, isto é, não será apenas uma norma prática de
governo, por os poderes constituídos não deverem intrometer-se sem
razão naquilo que diz respeito às convicções íntimas dos cidadãos?
Consequentemente nao deverá o Estado considerar todas as religiões
como igualmente boas, e assunto de ordem privada que não lhe diz
respeito? É fora de dúvida que este é o modo de pensar de muitos
que elaboraram as constituições políticas dos Estados, em que se cos-
tuma reconhecer a liberdade religiosa, e o artigo 18 da Declaração
Universal dos Direitos do Homem aprovada pela ONU em 1948. Tam-
bém é claro que o Concílioi não se poderia contentar com tal fundamento
pragmático, pois, como se diz expressamente no texto acima citado,
as próprias sociedades têm deveres morais para com a verdadeira reli-
gião e para com a Igreja de Cristo, ainda que, por falta de conhecimento
da verdade ou por motivos de ordem prática em sociedades religiosa-
mente pluralistas, como são hoje quase todos os Estados, na prática
não se possam reconhecer plenamente estes direitos objectivos.
Qual é, então, o verdadeiro fundamento d o princípio da liberdade
religiosa?
Nos primeiros projectos de Declaração baseava-se tal princípio na
obrigação que todo o homem tem de seguir a sua consciência, mesmo
que esta nalgum caso esteja mal formada, e portanto sega errónea.
Já que eu tenho tal dever, segue-se que os demais, incluindo os poderes
públicos, têm o dever correlativo de respeitar este meu dever e conse-
quente direito de proceder segundo a minha consciência.
A primeira objecção que se punha a este fundamento, era que
assim se poderiam justificar as maiores aberrações que, sob capa de
religião e talvez na melhor boa fé, se têm praticado : Deveriam por
exemplo, legitimar-se os sacrifícios humanos, a prostituição ritual que
se pratica em certos templos da índia, a poligamia e o divórcio, a
desobediência a leis civis, mesmo justas, e quantas coisas mais que sob
o pretexto de religião se têm praticado ou defendido. Se a consciência
errónea me dita a obrigação de praticar estas coisas, não terei eu o
LIBERDADE RELIGIOSA 285

direito ide as executar, se a consciência for o fundamento da liberdade


religiosa?
Para obviar em boa iparte a esta dificuldade, estabelecia-se como
limitação àquela liberdade a lei natural e o bem comum, que podia
exigir certos 'sacrifícios.
Mais grave, porém, era outra objecção, que muitos Padres conci-
liares, mesmo dos partidários da liberdade religiosa, não puderam deixar
de mover. O raciocínio referido, diziam, passa indevidamente da ordem
subjectiva para a ordem objectiva e do direito. Um direáto objectivo
nunca se pode fundar no erro. Senão, por exemplo, se alguém julgar
que pode ou até deve matar um doente por compaixão, ou uma criança
mal formada, ou praticar outros actos acima referidos, em virtude de
que princípio se pode impedi-lo de assim proceder? Mais, se o funda-
mento da liberdade religiosa está na consciência, e eu tenho o dever
de lhe obedecer — e os outros, consequentemente, têm obrigação de a
respeitar, — porque é que se hão-de estabelecer limites a esta persuasão
ou melhor ao imperativo da minha consciência, que, por hipótese, é
o fundamento do mau direito à liberdade religiosa? E, por outro lado,
como poderia justificar-se tal direito no caso daqueles que, mais ou
menos culpàvelmente não procuram a verdade, ou se a encontraram
não a põem em prática em matéria religiosa?
Em virtude destas dificuldades reais, os esquemas posteriores e o
texto definitivo da Declaração conciliar enveredaram por outro cami-
nho. Baseiam a liberdade religiosa na dignidade da pessoa humana e
no seu carácter livre.
A Declaração abre logo com a verificação de um facto :

« O s homens do nosso tempo tornam-se oada vez mais conscientes da


dignidade da pessoa humana, e cresce cada dia o número idos que reivindicam
a capacidade de agir segundo a própria convicção e c o m 'liberdade responsável,
não forçado® por coacção, mas movidos pela própria consciência d o dever.
Reclamam igualmente que o poder público seja' delimitado juridicamente, a
fim de que não se restrinjam demasiadamente o s limites da justa liberdade
das pessoas e das associações. Esta exigência de 'liberdade na sociedade humana
diz respeito sobretudo aos bens do espírito humano, e, antes de mais, ao que
se refere ao livre exercício na sociedade» ( n . 1).

Deste facto deduz o Concílio o fundamento da liberdade religiosa.


E reconhece que, neste ponto há progresso com relação à doutrina até
agora geralmente proposta, ainda que nunca definida como dogma de
8 ANTÓNIO L E I T E

fé. É o chamado progresso aoutrinal tantas vezes verificado através


da história. O evoluir do pensamento e a realidade concreta faz incidir
a reflexão sobre determinados princípios até então mais ou menos
obnubilados. E assim, graças a essa reflexão, e à intervenção de novos
factores, das premissas imutáveis do dogma extraem-se conclusões algum
tanto diferentes e mais acomodadas às circunstâncias do momento.

* «Declara ( o CcmcilSo) que o direito à liberdade religiosa se funda na


própria, dignidade humana qual a palfevuai revelada por Deus e a própria razão
a dão a conhecer... Conforme a própria dignidade, todos os homens, visto
que são pessoas dotadas de razão e de vontade (livre e, por isso mesmo, de
liberdade pessoal, são levados pela própria natureza e também obrigados moral-
mente a procurar a verdade, antes de mais no que se refere à «religião. Têm
tainlbéai a obrigação de aderir à verdade conhecida e de ordenar toda a
sua vida seguindo as exigências da verdade. Mas os homens não podem satisfazer
estia obrigação de m o d o conforme com a sua natureza, se não gozarem d e
liberdade psicológica) e imunidade de coacção externa. iPortanto, o direito à
liberdade religiosa não se funda na disposição subjectiva da pessoa, mas na
sua própria natureza. Por esta razão, o direito desta imunidade persevera tam-
bém naqueles que não satisfazem à obrigação de procurar a verdade e de
aderir a elai; e desde que se guarde a (justa ordem pública, o seu exercício
não pode ser impedido» ( n . 2 ) .

Como se vê o Concílio recorda que é próprio do homem proceder


com liberdade psicológica, isto é fazer ou não fazer determinada coisa,
•fazer esta o u aquela, como soem dizer os compêndios de filosofia.
Mais, a justa autonomia da pessoa humana exige que não seja coarctada
indevidamente no exercício desta sua liberdade, isto é a proceder
coagida em pontos importantes e que jogam com a sua consciência,
qual é a matéria religiosa. Se o Estado ou qualquer outro poder se
intrometesse neste particular, fora dos devidos limites do bem comum,
violaria a autonomia ou liberdade do homem, prerrogativa de que ele
mais se preza, particularmente nestes nossos tempos.
Mais, convém que a lei civil consagre esta autonomia em matéria
religiosa, para que não seja violada nem pelas autoridades nem pelos
particulares a justa liberdade. « Este direito, diz o Concílio, da pessoa
humana à liberdade religiosa na ordem jurídica da sociedade deve ser
de tal modo reconhecido que se torne um direito civil». E m geral,
todos os países modernos o fazem inscrevendo tal princípio nas respec-
tivas Constituições. A nossa Constituição política, por exemplo, enumera
a liberdade religiosa entre direitos, liberdades e garantias individuais
LIBERDADE RELIGIOSA 287

dos cidadãos portugueses ( ait. 0 8, 3.°), o que se especifica ainda mais


nos artigos 45 a 48.
Não deixa de ser curioso notar que também nas Constituições da
Rússia e de outros países comunistas se encontra consignado tal direito.
Na prática, porém, não é reconhecido, senão de forma limitadíssima,
a ponto de se ter dito com razão que equivale ao direito de não ter
religião.
O Concílio, depois de assim ter mostrado o fundamento da liber-
dade religiosa, procura declará-lo ainda mais, logo a seguir :

« T u d o isto se torna ainda mais clairo a quem considera que ai norma


suprema da vida humana é a própria) lei divina, eterna, objectiva e universal,
pela qual D e u s ordena, dirige e governa o mundo inteiro e os caminhos da
comunidade humana, segundo os desígnios da sua sabedoria e amor. Deus torna
o homem participante desta sua lei, de maneira que este, segundo a suave
disposição da divina 'Providência, possa conhecer cada vez mais a verdade
imutável. ÍPor isso, cada um tem o dever, e consequentemente o direito de
procurar a verdade e m matéria religiosa para que, empregando os meios
adequados, forme (juízos de consciência rectos e verdadeiros.
«Todavia, a verdade deve procurar-se de modo apropriado à dignidade
da pessoa humana e à natureza) social', ou seja, mediante uma investigação
livre, c o m o auxílio do magistério ou ensino, da comunicação e do diálogo,
com os quais os homens dão a conhecer uns aos outros a verdade que encon-
traram o u julgam ter encontrado, a f i m de se ajudarem mútuamente na busca
da mesma verdade; uma vez esta conhecida, deve aderir-ise a ela firmemente
com assentimento pessoal» ( n . 3).

Como se vê, o Concílio volta a fundamentar o princípio da liber-


dade religiosa, não nos direitos da consciência, mas na natureza livre
e social do homem, e no modo de agir que lhe é próprio, graças a
essa natureza. O homem, pessoa ou ser racional e autónomo, não deve
ser impedido de procurar a verdade nem de comunicar aos outros a
verdade que julga ter encontrado. Nem os poderes públicos nem os
demais homens, sós ou associados, devem, dentro dos justos limites,
impedi-lo de assim proceder em conformidade com a sua natureza livre
e social.
O Concílio insiste de novo no' mesmo argumento, apresentado de
forma algum tanto diversa :

« O homem apreende e conhece o s ditames da Jei divina por meio da


consciência, que ele deve seguir fielmente em toda a sua actividade, para chegar
a õ seu fim1 últinio que é Deus. N ã o deve, portanto, ser forçado a agir contra
10 ANTÓNIO L E I T E

a sua consciência. Nem- deve também ser impedido de actuar de acordo com
ela, sobretudo e m matéria religiosa. C o m efeito, o exercício da religião, por
sua própria índole, consiste a n t e de mai®, em actos internos voluntários e
livres, pelos quais o homem se ordena directamente para Deus; e tais actos
não podem, ser impostos nem impedidos por um poder meramente humano.
Por. sua vez a própria natureza social do homem exige que este manifeste
externamente os actos internos da religião, entre em comunicação com os
demais em matéria religiosa e professe a religião de modo comunitário.
« É , portanto, uma injustiça contra a pessoa humana e contra a própria
ordem estabelecida por Deus, negar ao homem o livre exercício da religião
•em sociedade, desde que se observe a devida ordem pública» ( n . 3).

Notemos mais uma vez, que, ao contrário do que uma leitura


um tanto apressada d a primeira parte deste texto poderia deixar supor,
o Concílio também não funda aqui a liberdade religiosa na consciência
humana. Apenas fala dela para mostrar o modo de proceder inerente
à natureza humana, na qual se baseia em última análise aquela liberdade.
Um último argumento aduz ainda o Concílio para fundamentar
o princípio da liberdade religiosa : o da transcendência dos actos
religiosos :

« A l é m disso, os actos religiosos com que os homens, segundo a sua


íntima convicção se orientem privada e publicamente para Deus, por sua
natureza transcendem a ordem terrena' e temporal. Pelo que o poder civil,
cuijo fim próprio é cuidar do ibem comum temporal, deve reconhecer e favo-
recer a vida religiosa dos cidadãos; mas deve igualmente afirmar-se que excede
os seus limites se (pretender dirigir ou impedir o® actos religiosos» ( n . 3 ).

Por estas palavras afirma-se que Os actos religiosos, por serem


transcendentes, isto é de ordem espiritual ou mesmo sobrenatural, estão
fora da alçada do Estado, cujo fim é de ordem meramente temporal.
Se, portanto, ele pretendesse imiscuir-se nos actos religiosos, impon-
do-os ou impedindo-os, além de violar os legítimos direitos da pessoa
humana, como acima ficou dito, ultrapassava os limites da sua compe-
tência, e por este novo motivo igualmente violaria os direitos dos
seus súbditos.
Neste último texto conciliar in&iouam-se já os deveres do Estado
em-matéria religiosa. Mas como a Declaração trata deles mais expres-
samente um pouco abaixo (n. 6 ) , deixaremos para 'então o nosso
comentário a esse, ponto de grande importância.
Em todos os raciocínios anteriores para fundamentar a liberdade
religiosa, o Concílio, muito embora iluminado pela fé, recorreu apenas
LIBERDADE RELIGIOSA 289

a argumentos de natureza racional, que podem e devem ser admitidos


mesmo pelos não-cristãos. Na segunda parte da Declaração, ao tratar
da liberdade religiosa à luz da Revelação, fundamenta-a também em
argumentos de ordem teológica.
Também neste ponto há verdadeiro progresso doutrinal. Na ver-
dade, era sobretudo por motivos teológicos que outrora não se reconhecia
a liberdade religiosa ou apenas era tolerada a prática de outras religiões
além da católica. Argumentava-se, como dissemos, com os direitos
absolutos da verdade. De si, o erro não tem direitos; quando muito
se .pode tolerá-lo para evitar maiores males. Este argumento, em
abstracto, é verdadeiro. Mas, diz-nos o Concílio, para a solução prá-
tica do problema da liberdade religiosa, temos ide considerar também
outros princípios, em especial, como acabámos de dizer, os direitos
da pessoa humana, e mesmo outros fundados na natureza da verda-
deira fé.
Depois de repetir que o direito à liberdade religiosa se funda na
dignidade da pessoa humana, cujas exigências foram aparecendo mais
claramente com a reflexão e a experiência dos séculos, a Declaração
assevera que esta doutrina tem raízes na revelação divina, pelo que
deve ser ainda mais respeitada pelos cristãos. E acrescenta :

«Embora a (Revelação não afirme expressamente o direito à imunidade


de coacção externa em matéria religiosa, ttodavia manifesta em toda a sua
amplitude a dignidade da pessoa: humana, mostra o respeito de Cristo para
com a -liberdade do homem n o cumprimento do dever de acreditar na palawa
de Deus, e ensina-nos o espírito que o s discípulos de tal Mestre em tudo
devem reconhecer e seguir. Todas estas coisas esclarecem os princípios gerais
sobre que se funda a doutrina' deste Declaração sobre a liberdade reli-
giosa» ( n . 9 ).

Para provar esta afirmação, o Concílio invoca primeiramente a


concordância entre a liberdade religiosa na sociedade e a liberdade do
acto de fé cristã. Realmente, este deve ser voluntário e livre, e por isso
é meritório. Não há dúvida que ninguém pode aderir sobrenatural-
mente a Cristo se não for atraído pelo Pai ( Jo., 6, 44), mas tal atrac-
ção não destrói a liberdade do homem que, portanto, pode recusar a fé.
Esta deve ser um obséquio racional e livre prestado voluntàriamente
a Deus. A doutrina comum da Igreja, inúmeras vezes repetida pelos
Santos Padres, pelos Papas e escritores católicos, e confirmada até pelo
Direito Canónico (cân. 1351) afirma q<ue 'ninguém deve ser forçado a
290 ANTÓNIO L E I T E

abraçar a fé contra a própria vontade. «Por conseguinte, acrescenta a


Declaração conciliar, a exclusão de qualquer coacção humana em maté-
ria religiosa está plenamente de acordo oom a índole da fé. Deste modo,
o regime da liberdade religiosa contribui muito para promover aquele
estado de coisas em que os homens possam sem impedimento ser con-
vidados à fé cristã, abraçá-la espontaneamente e professá-la por obras
em toda a sua vida» ( n . 10).
A mesma doutrina confirma-a o Concílio com o modo de proceder
de Cristo e dos Apóstolos. Cita bastantes texitos dos Evangelhos, em
que se mostra cóm toda a evidênoia como Jesus Cristo convidou os
homens a seguir os seus ensinamentos, sem nunca forçar ninguém.
Mostrou-lhes os prémios que estavam reservados aos que seguissem a
sua doutrina, e os castigos que impendiam sobre os que a rejeitassem;
mas não violentou ninguém : queria a adesão espontânea e livre dos
homens, ajudados pela sua graça que não força ninguém.
Do mesmo modo procederam os Apóstolos. Trabalharam por con-
verter os homens à fé criistã, não por coacção, violência ou outros
estratagemas indignos do Evangelho, mas unicamente pelo convite, se-
cundado pela força interna da palavra de Deus. Os sucessores dos
Apóstolos e inúmeros arautos do Evangelho, desde os primeiros tem-
pos, seguiram em geral estes exemplos, não obstante alguns casos
contrários.

«Portanto, a Igreja-, fiel à verdade evangélica, segue o caminho de Cristo


e dos Apóstolos, quando reconhece e fomenta, como conforme à dignidade
humana e à Revelação divina, o regime da liberdade religiosa. Conservou
e .transmitiu através dos tempos, a douttrina recebida do Mestre e dos Apósi-
tolos. Embora na vida do povo de Deus, peregrino através das vicissitudes
da história humana, tenha havido por vezes modos de agir menos conformes
ou até contrários a o espírito evangélico, todavia, sempre se manteve na Igreja
a douttrina d e que ninguém deve ser coagido a abraçar a fé.
«O fermento, evangélico f o i actuando assim durante longo tempo no
espirito dos homens e contribuiu muito para que eles, n o decorrer dos séculos,
reconhecessem mais plenamente a dignidade da sua pesisoa, e amadurecesse
a convicção de que, em matéria religiosa, ela devia conservar-se imune d e
coacção humana na sociedade» ( n . 12).
®E mmmá© nEai@iiML
EH PORTUGAL
por FRANCISCO PEREIRA DE MOURA

1. Um dos aspectos em que é ambígua a expressão «desenvolvi-


mento regional» vem a ser o grau de espontaneidade que se atribui
ao processo de evolução e transformação económica das regiões.
Pode, efectivamente, esperar-se o desenvolvimento determinado pelo
livre entrechoque das forças e dos planos elementares, em presença
nos mercados — e fala-se, às vezes, em expansão regional espontânea,
desligada de «planos», no sentido técnico desta palavra, que lhe dá
uma dimensão e um significado de coordenação macroeconómica.
Outras vezes, o crescimento e transformação da economia das re-
giões surge como um «sub-produto» das políticas nacionais de desen-
volvimento planeado, em que há esforços de coordenação sectorial. Pois
os projectos e os empreendimentos a algum local se hão-de referir; e
o plano nacional traduz, implicitamente, uma certa opção de desenvol-
vimento para as diferentes regiões. Os nossos planos de fomento, e
os planos sectoriais, designadamente os que se reuniram na «Lei de
reconstituição económica», entre 1935 e 1950, podem incluir-se nesta
categoria de promoção regional.
Mas a concepção mais moderna,, e que tende ,a identificar-se tècnii-
camente com a expressão «desenvolvimento regional», aponta no sen-
tido de resultados obtidos através de uma política deliberadamente
concebida à escala da região, ainda que atendendo às indispensáveis
ligações de cada região com todas as outras do espaço nacional C1),
e à interdependência dos planos e projectos sectoriais e dos respectivos
escalões na região (2).
É dentro deste último modelo de pensamento que vamos procurar
analisar alguns problemas básicos que neste momento se põem à polí-

(!) Evidentemente, em medidà diferente, dependendo das estruturas pecu-


liares e do afastamento geo-económico. Por isso são, muitas vezes, mais ítíttimas
as relações entre tegiõesi de países diferentes, d o que entre certas regiões de
um mesmo país.
(2) Por exempHoi: um .plano nacional de estiadas ou de construções esco-
lares há-de estar compatibilizado com o conjunto dos planos de estradas e de
escolas das regiões.
292 FRANCISCO PEREIRA »E M O U R A .

tica de desenvolvimento nacional. Mas antes de passar a essas concre-


tizações, são necessários mais alguns esclarecimentos teóricos.

2. Dentro da concepção enunciada, o plano regional integrado


no plano nacional constitui o elemento em que se alicerça a política de
desenvolvimento.
Mas para haver plano, requer-se mais do que um texto de maior
ou menor apuro técnico-: terá de haver opções, definindo objectivos
e uma estratégia de desenvolvimento regional. E essa estratégia exprii-
me-se, por sua vez, em alguns projectos fulcrais, que têm a ver com
os recursos naturais ou historicamente acumulados e que, muitas vezes
se identificam com a «vocação» da região; assim como há-de atender-
-se ao'modo de conseguir o máximo- benefício do esforço de promoção
que tais projectos representam ( e o esforço mede-se pelos dispêndios,
pelo sacrifíoio de adaptação das populações a novas estruturas econó-
mico-sociais, e pelo abandono de outras alternativas); e ainda importa
que se atinja tão rapidamente quanto possível o limiar de auto-susten-
tação do processo de desenvolvimento, isto nos casos de regiões sub-
desenvolvidas, que são, aliás, os mais importantes e difíceis do ponto
de vista português.
Quando se fala em grandes projectos fulcrais de um desenvolvi-
mento e plano regional, logo se pensa, em geral, no aproveitamento
integral, para fins múltiplos, de uma bacia hidrográfica — gerando
energia, facultando água para a rega e renovação da agricultura, possi-
bilitando' vias de transporte fluvial, determinando condições para im-
plantação de indústrias, abrindo- perspectivas à vilda urbana ou ao turis-
mo; tudo isto constitui o exemplo clássico desses grandes projectos
em que pode assentar um plano regional.
Todavia, um sistema de obras de hidráulica de mais reduzido porte
e disseminadas num espaço homogéneo, acompanhado da renovação
ou criação de estruturas agrícolas, industriais e de serviços, em especial
as infra-estruturas de transporte de pessoas, mercadorias e energia e
as infra-estruturas sociais e culturais, também pode constituir o funda-
mento de um desenvolvimento regional. Assim como um grande con-
junto de indústrias básicas e derivadas («complexo»), ajproveitando
favoráveis condições de implantação, © estimulador d a expansão no
espaço adjacente; ou um vasto programa de infra-estruturas e outros
empreendimentos para absorver um turismo de massa e contínuo, e
desde que se tomem as necessárias cautelas para tornar a expansão
DESENVOLVIMENTO REGIONAL 293

cada vez mais autónoma em relação a esse surto impulsionador que


pode decair ulteriormente por razões fora do domínio da política re-
gional e nacional — eis mais dois modelos de desenvolvimento espacial,
que podem constituir o esqueleto dos correspondentes planos, e com
interesse evidente na actual .perspectiva das coisas portuguesas.

3. Decorrem algumas consequências importantes do enunciado de


estratégias que se apresentou.
A primeira consequência é que a região não pode descer abaixo
de certos mínimos de dimensão, a avaliar pela população e seu poder
económico, pela área, volume e diversidade dos recursos naturais, pelo
conjunto de aptidões historicamente acumuladas. Tudo isto corresponde
à exigência de se poder formular um plano para basear a política
de desenvolvimento, e plano que assente num ou alguns projectos
fundamentais, necessàriamente com efeitos de difusão importantes.
Outra consequência refere-se à existência de núcleos urbanos gran-
des, onde há-de localizar-se muito do (desenvolvimento a realizar de
modo a tirar-se todo o benefício possível dos projectos de empreen-
dimentos. A metrópole ou capital regional, bem como outras cidades
importantes da região que constituem sub-pólos de desenvolvimento,
tudo ligado como que a tecer uma malha em que assente o progresso,
são as localizações onde se encontram as economias externas e onde se
acumulam as vantagens de aglomeração, em especial para os projectos
de indústrias e para os empreendimentos de índole cultural.
A terceira consequência a tirar da exposição de estratégias feita
atrás refere-se à necessidade de construir os planos e a acção regional
numa perspectiva d e coordenação e integração de projectos, para que
se alcance a meta da auto-sustentação do processo de desenvolvimento
tão rápida e tão seguramente quanto possível. Pode ver-se como enun-
ciamos as estratégias alternativas de modo a cumprir esta orientação
(aproveitamento para fins múltiplos, aproveitamentos para um objec-*
tivo mas acompanhados de amplos complementos estruturais, complexos
de indústrias-básicas com as actividades derivadas e efeitos de difusão,
desenvolvimento à base do impulso turístico mas caminhando para a
superação dessa dependência incontrolável e instável); assim como as
conclusões de dimensão mínima da região, e de estabelecimento de
uma textura de pólos urbanos, vão ambas no sentido de assegurar
a integração e o prosseguimento de processos''coerentes e autónomos
de crescimento.
294 FRANCISCO PEREIRA »E MOURA.

4. Pensemos, agora, abertamente no caso português.


Lisboa e Porto são os únicos núcleos urbanos capazes de asse-
gurar às populações um estilo de vida próprio d o século actual, e pre-
cisamente por satisfazerem as condições de dimensão a que se fez
referência. Efectivamente, é essa dimensão da urbe que garante cons-
tantemente novas oportunidades, através da expansão e transformação
de actividades; assim como torna possível ( e é, também, consequência)
uma vida «política» e cultural, contactos sociais de complementari-
dade, e abertura sobre o mundo exterior, que se não deparam aos
habitantes das cidades de província.
Mesmo assim, ainda podemos notar a sofreguidão pelo jornal e
revista estrangeira; a vinda de um conferencista d a Europa, ou do
teatro e ballet parisiense ou londrino, mobilizam integralmente os gru-
pos cultural ou sócio-econòmicamente de cume; o filme e o livro che-
gam com meses de atraso, assim como determinadas ondas culturais
(Teilhard, a renovação universitária, o novo romance, o «aggiornamien-
to», ou a pílula) vêm por difusão do exterior e não, propriamente,
pela via da acuidade dos problemas e correspondentes reflexão locais.
Não faltará quem atribua todas essas limitações a causas de natu-
reza muito variada e extra-económicas. Na óptica do desenvolvimento
regional, têm de atribuir-se à exiguidade de dimensão, assim como à
posição .periférica das nossas regiões na Europa d o ocidente C3). E
falta de dimensão mesmo para uma urbe lisboeta, ainda que se estenda
à «grande Lisboa», espraiada pelos concelhos limítrofes da capital na
margem norte do Tejo, e pelas concentrações demográficas e industriais
na outra margem do estuário — por maioria de razão para o Porto.
Donde julgamos poder concluir que seria erro a pagar bem caro,
mais tarde, a limitação ao crescimento que se impusesse a essas nossas
duas únicas cidades industriais que já atingiram o limiar da expansão
auto-sustentada. Há, sem dúvida, correcções a operar e orientações a
imprimir ao crescimento, justificando-se assim uma politica de ordena-
mento; mas nunca o cerceamento à implantação de novas actividades,
ou quaisquer veleidades de desconcentração.

5. Deixando de lado as ilhas atlânticas, sempre a tratar à parte,


até por já usufruírem de certa autonomia administrativa que conviria

(3) Mas esse é uin dado, apenas acessível à modulação pefla política por-
tuguesa através das decisões de integração ( O . C. D . E . , N. A. T. O., E. F. T. A.,
CM. E.,...).
DESENVOLVIMENTO REGIONAL 295

não reduzir, parece que às duas metrópoles regionais existentes no con-


tinente (Lisboa e Porto), haveria que fazer corresponder a divisão
do território nas regiões, para planeamento, do Norte e do Sul. É
hipótese a discutir, até porque não anda tão afastada dos modelos
implícitos de pensamento corrente, nos mais variados domínios ( o
clima, a agricultura, o povoamento, as origens étnicas e as virtudes...),
quanto se poderia supor.
Ora, n o plano técnico, também não faltam indicações para dividir
desse modo : por exemplo, olhando aos volumes de população, tería-
mos de cada lado oerca de 5 milhões de pessoas, o que é uma escala
regional de intenção europeia, actualmente.
O que não se responderia era a legítimas expectativas que estão
criadas em torno da ideia regional, nem parece que sob outros aspectos
a solução fosse ideal. Assim, o «sul» teria de ir bem acima do Tejo,
pois a zona de polarização de Lisboa estende-se pela Estremadura e
Ribatejo, até cerca de Leiria, por exemplo — e o desequilíbrio em
áreas já parece excessivo. Por outro lado, certas importantes tendên-
cias ou projectos de regionalização em curso, viriam diluídas numa
divisão desse género : um caso seria o de Coimbra e Beiras à base
do Mondego, e outro é o Alentejo, sempre reconhecido como conjunto
de zonas-problema, e às quais até se dirige, neste momento, o plano
de rega a executar em sucessivas fases.
Noutras ocasiões (4) já sugerimos um esboço de divisão regional
do continente, para efeitos de desenvolvimento planeado, em quatro
grandes regiões :

— uma, constituída pelas províncias do Minho, Douro Litoral


e Trás-os-Montes e Alto Douro;
— outra, abrangendo as Beiras — Litoral, Alta e Baixa;
— ainda outra, com a Estremadura, Ribatejo e Alto Alen-
tejo;
— finalmente, o Baixo Alentejo e o Algarve.

(4) N o mês de Maio passado em Évora, numa conferência promovida


pelo Instituto de Estudos Superiores, em publicação próxima nos Estudos Ebo-
renses; posteriormente, como consultor do Secretariado Técnico da Presidência
do Conselho, para a preparação do H l 'Plano d e Fomento; e em Janeiro último,
em sessão d o «Cunso de Economia Portuguesa», organizado pela Associação
Académica do I.S.G.E.F.
296 FRANCISCO PEREIRA »E M O U R A .

Como todos os esboços análogos que possam estabelecer-se, este


tem' pontos fortes e pontos fracos. Atendamos, particularmente, a estes
últimos.

6. Pode, realmente, objectar-se que estaríamos perante regiões de-


masiadamente grandes. E m confronto com o clima criado em torno do
assunto entre nós, que levou a identificar a região para planeamento
económico com o distrito, quando não com o concelho, na mente de
muitas pessoas, tratar-se-á de regiões demasiadamente extensas — ainda
que nenhuma chegando à dimensão geográfica do «Alentejo», que
todavia constitui uma divisão arreigada.
Mas há que atender, sobretudo, às condições anteriormente ex-
postas acerca da dimensão das regiões ( § § 2 e 3 ). E pode reocrdiar-se
o sentido em que caminham outros países da Europa, sendo elucidativo
o seguinte quadro :
Dimensão média das regiões-
Número de regiões: -plano:
País Regiões-
Administrativas -plano Populasáo Area

Espanha 50 províncias 11 (a) 2,8 milhões .... 45 mil km?


França 90 departamentos . 21 (b) 2,3 » .... 26 »
Reino Unido 93 «counties» 13 4,0 » 19 »
Itália 92 províncias 19 (c) 2,7 » .... 16 »

(a) A® Baleares e as Canárias dão lugar a mais uma ou duas regiões, res-
pectivamente nas divisões1 do Plano ( e Banco de Bilbao ) e do Prof. J. Sampedro
e colaboradores; no estudo inicial da SVIMEZ ,(tinham sido propostas apenas
sele regiões-plano.
(b) N o V Plano consideram-se oito «grandes regiões» para certos tipos
de estudo.
(c) N u m estudo da Comunidade Económica Europeia sugerem-se nove
regiões para a Itália (assim como duas para a Bélgica, por exemplo, e nove
para a França ).

Os nossos dezoito distritos têm uma população média de 480 mil


habitantes, e uma área de 5 mil km 2 ; a dimensão média de quatro
regiões seria de 2,1 milhões de pessoas ( m a s a última das regiões
indicadas estaria muitíssimo abaixo dessa média) e 22 mil km-.
Mas há argumentos adicionais em defesa de um número de regiões-
-plano muito restrito. Por um lado, a inexistência de projectos ou
conjuntos de projectos que possam constituir o núcleo de desenvolvi-
mento para outras regiões, a menos que se cindissem alguns daqueles
DESENVOLVIMENTO REGIONAL 297

fira que se pode pensar — mas isso contraria a concepção do


•desenvolvimento integrado.
Também não se vislumbram capitais regionais ou pólos básicos
urbano-industriais, além de Lisboa e Porto, a não ser no eixo Coimíbra-
- Figueira da Foz; já para a zona extrema do sul surgirão dificuldades,
havendo que examinar potencialidades de Lagos-Portimão, ou Faro-
-Olhão-Tavira, uma vez que Beja deverá apresentar limitações de vária
ordem, a menor das quais não é sua recente vocação militar. Como
admitir ainda novas hipóteses?
Finalmente : mais regiões significaria maior número de autorida-
des regionais (com suas orgânicas e departamentos técnicos), o que
parece difícil de admitir dentro de uma visualização que pretende ser
realista.

7. Outro ponto fraco da divisão regional sugerida tem a ver com


•o facto de, invariàvelmente, as fronteiras regionais seguirem a orienta-
ção dos paralelos, ligando zonas litorais é interiores, em vez de, por
•exemplo, se separarem esses dois tipos de zonas (5).
Mesmo não dispondo de extensos e longos estudos técnicos para
fundamentar qualquer divisão de regiões, avança-se que está em causa
uma opção entre critérios de homogeneidade (regiões litorais contra
regiões do interior) e de complementaridade-polarização (regiões si-
multâneamente compostas por interior e litoral, e tendo neste as me-
trópoles regionais ). É, assim, um problema importante para uma estra-
tégia de desenvolvimento regional.
Não entremos em análises teóricas acerca do melhor fundamento
para a constituição de regiões-plano; basta atender, no caso português,
à autêntica impossibilidade em que ficaríamos de apontar pólos urba-
no-industriais capazes de sustentar o desenvolvimento de regiões exclu-
sivamente interiores, assim como a grave dificuldade que tal tipo de
delimitação regional levantaria ao cindir baciás hidrográficas como as
d o Douro e do Mondego.
Mas vamos, então, inclinar-nos ainda uma vez ao fatalismo histó-
rico que levou a desenvolver-se e povoar-se o litoral, em. detrimento
das zonas pobres e desfavorecidas do interior do país? Não deveria

( 5 ) Uma sujes tão concreta : Minho, Douro e Beira Litoral, Estremadura,


Algarve seriam três regiões-plano litorais; Trás-os-Montes e Beiras Alta le
Baixa, Alentejo, seriam as duas grandes regiões do interior.
3
298 FRANCISCO PEREIRA » E MOURA.

uma política de expansão regional tender, precisamente, a corrigir esse:


desequilíbrio?
Por serem estes argumentos muito comuns, vale a pena determo-
-nos um pouco a analisá-los. E vê-se, primeiramente, que há uma.
reflexão a fazer acerca dos objectivos da política regional : pois não-
podemos propor, como objectivo, a igualização perfeita dos níveis de
desenvolvimento em todas as parcelas do território, antes aceitanido'
diferenças em resposta a divergência nas dotações de meios para ai
produção. De outro modo, haveria que carrear numerosos recursos das.
zonas mais ricas para as mais pobres, o que acarretaria graves pre-
juízos globais, quando o processo fosse além de limites que, no domínio 1
económico se traduzem pela necessidade de contrabalançar tendências
para fuga ou deficiente aproveitamento dos recursos das zonas a t r a -
sadas, e no domínio humano e social são impostos pela solidariedade
que se deve os membros de uma comunidade nacional.
Mas não sendo objectivo a atingir a igualdade de desenvolvimento»
em todas as regiões, não se promoveria melhor certo reequilíbrio tra-
tando, separadamente, as zonas evoluídas e as zonas interiores subde-
senvolvidas? Responde-se pela negativa por se acreditar que a heteroge-
neidade da região, com zonas de níveis evolutivos desiguais, pode-
constituir uma realidade a encarar no próprio plano de desenvolvimento»
da região — assim como haverá que atender a problemas de ordena-
mento urbano em algumas zonas, ou de levantamento e diversificação'
industrial em outras, e até mesmo de desconcentração em casos e s -
peciais, sempre dentro da mesma grande região. Além de tudo isto,
consideramos que a acumulação, historicamente verificada no litoral, das
maiores potencialidades de cresoiimento, deve ser agora posta ao ser-
viço do desenvolvimento do interior através de uma organização em
que tenha seu peso a solidariedade de interesses e anseios; ora, mais
fàcilmente se poderá conseguir isto dentro de cada região, d o que
apenas à escala nacional, transferindo recuflsos financeiros e iniciativas,
das regiões do litoral para as regiões do interior, assim originando t e n -
sões e conflitos que pouco ajudariam ao problema.

8. Há unn último aspecto a discutir na delimitação regional es-


boçada r e é o afastamento das linhas de «corte» em relação a c o n -
cepções que andam estabilizadas.
De um modo geral, constituímos grupos de províncias, em vez de-
distritos, embora reconheoendo que sendo estes a unidade administra?-
DESENVOLVIMENTO REGIONAL 299

tiva actual, ofereceriam algumas vantagens. Simplesmente, como se trata


de grandes regiões, as divergências acabam por se situar quase exclu-
sivamente nos concelhos da margem sul do Douro, e n o desmembra-
mento dos distritos de Leiria e Setúbal, cada um com seu pedaço na
Estremadura e, por aí, na região centrada em Lisboa : ora, quanto a
estes últimos casos, a polarização da capital é justificação sufitoiente
para aceitar a divisão dos distritos, ao passo que a inclusão da parte
norte dos distritos de Aveiro, Viseu e Guarda na grande região do>
Norte se aceita por corresponder à bacia hidrográfica (6).
O outro ponto melindroso deve ser a distribuição do Alentejo-
por duas das regiões. Mas parèce-nos que já não será possível con-
trariar forças de atracção d o Alto-Alentejo por Lisboa ( no sentido
de metrópole industrial, abarcando até Setúbal, mesmo enquanto não-
se faça o canal ligando os dois estuários), agora que se construiu a
ponte, se preparam 1 auto-estradas, se disseminam indústrias para o i n -
terior mas na dependência dos portos ribeirinhos, e quando' da própria-
Espanha se orienta o escoamento de produções novas pelos nossos
portos atlânticos db Setúbal e Lisboa, aíparecendo a Estremaidura es-
panhola como uma espécie de «hinterland» daqueles, o que colocará
Portalegre, Elvas ou Évora em situação análoga. Aliás, esta será uma
razão para mais rápido progresso de todo 'esse Alto-Alentejo.

9. Bem se pode objectar que não é necessária nenhuma divisão


em regiões; e nem por se tratar de um ponto de vista alheio ao tema
deste ensaio, merece menos atenção.
Efectivamente, os grandes projectos ou planos de escala «regional»
que estão em curso ou em perspectiva no continente dão a seguinte
reduzida lista :
a) aproveitamento do Douro, a o qual se podem ligar a ex-
ploração mineira de Trás-os-Montes e o complexo petroquímico d e
Leixões;
b) aproveitamento da bacia do Mondego;
c) plamo de ordenamento urbanístico da região d e Lisboa,
em volta dos estuários do Tejo e Sado;
d) plano de valorização do Alentejo, com rega, e a trans-

( 6 ) Ponto a discutir seria a extensão da região norte mais pelo distrito


da Guarda dentro, seguindo a ibacia do Côa; é ponto parai estudos especiali-
zados.
300 FRANCISCO PEREIRA »E M O U R A .

formação de culturas e tipos de povoamento e actividades que se


lhe seguirá;
e) plano de aproveitamento turístico do Algarve.

Vendo com. cuidado, os dois primeiros projectos correspondem às


duas grandes regiões de que falámos, e que tinham como empreenr
dimentos motores precisamente esses aproveitamentos dos rios, além
de se basearem na metrópole industrial já existente no Porto e nas
poteruciaiidadfes da zona Figueira-Coimbra. Quanto ao plano de Lis-
boa, parece convir ir mais lailém do ordenamento urbano, mesmo no
sentido lato em que está a ser abarcado, pois sendo muito forte a
tendência polarizante, e estendendo-se até bem longe, mais vale tentar
domá-la dentro de fronteiras relativamente afastadas, dando lugar a
outras grandes çidades-pólos que se desenvolvam na região e estabe-
leçam transições «pacíficas» com ,as regiões exteriores. Finalmente, à
separação Alentejo-orla marítima do Algarve, que é a dos planos actual-
mente em curso, contrapomos a divisão pela fronteira entre o Alto
e o Baixo-Alentejo. Pois se é certo que a serra algarvia e o planalto
têm afinidades com o sul alentejano; que uma região constituída ape-
nas polo litoral e terras baixas do Algarve nunca teria dimensão eco-
nómica aceitável; e que são bem: problemáticas as afinidiades entre
Portalegre e Lagos, por exemplo ( o que não impediu aparecesse a
ideia da região do Alentejo e Algarve); se tudo isto é assim, também
é verdade que há um rio Guadiana em que estão previstos aproveita-
mentos, e que a fronteira com as regiões espanholas e seu novo pólo
de Huelva não é obstáculo intransponível à escala europeia, que é aque-
la em que acabará por ter de pensar-se.
Qualquer coisa de muito importante haverá, porventura, a reter
deste confronto de ;«divisões» regionais : e é a necessidade d>e não
cair em hipóteses rígidas ou em soluções pretensamente definitivas,
sobretudo mesta primeira fase de acção que se avizinha.

10. E pouoas observações mais, acerca daquilo que conviria fa-


zer destíe já nos domínios de acção regional.
Conta-se com estudos de estrutura e evolução regional, seja qual
for a baise tomada piara essas regiões, e que estão a ser ultimados
em organismos oficiais (em ligação com o III Plano de Fomento).
Mas piarece que tem de prosseguir imediatamente o estudo das
regiões, tanto no que respeita aos efeitos de projectos em curso (por
DESENVOLVIMENTO REGIONAL 301

exemplo, nas zonas alentejanas), como em relação a novos projectos


(caso do Mondego) ou a potencial idades de evolução ( minérios, ex-
ploração florestal, indústrias paria: p mercado (internacional, etc.): E
n ã o deixaria de ser conveniente a análise, até onde se puder fazer
das incidências regionais d o s planos nacionais e sectoriais de desenvol-
vimento :até hoje cumpridos.
Um perigo grave que se vai correr é o de querer seguir com estas
análises sem haver estruturas de estudo e planeamento nas regiões, facil-
mente se caindo na tentação de realiízar tudo em Lisboa — quandò
muito em algum bairro fora do centro! Urge, (portanto, distribuir fun-
ções, poderes e meios de trabalho a entidades e autoridades regionais,
o que implica definir-lhes o âmbito e, portanto, o das regiões. Não é
tema a explorar aqui; mas conviria tirar proveito das experiências,
fracassos e progressos alheios — ,e por toda a parte está a caminhar-se
no sentido d a descentralização de poderes, único modo de mobilizar
esforços e recursos locais e; de aí fixar elementos humanos com ca-
pacidade de planeamento, arranque e promoção d o progresso.
É, pois, uma orgânica de desenvolvimento regional que se impõe
delineasr e estabelecer, com sua autoridade executiva, seus quadros
técnicos, e sua estrutura representativa dos interesses e valores regio-
nais. Mas é, tambéto, um inventário dos meios de acção regional, que
se impõe fazer : p logo acode a o espírito que, afiliai, já existe muita
coisa dispersa, em deltegações de serviços públicos (zonas agrárias,
circunscrições industriais, etc.... com seus técnicos), em empresas de
economia mista ( p o r exemplo, as hidroeléctricas), e, mesmo, em im-
portantes empresas |do sector privado. E até se dispõe do indispensável
«armamento» cultural nas três cidades universitárias, em iniciativas
COTIO a dos Estudos Supeiiortes de Évora, não faltando estudiosos do
desenvolvimento regional. Em que emperramos?
DDA PGBHJTOLOGIA E SUA HS£©ESSBIB&®E
por FLÁVIO RIBEIRO

V em artigo recente desta revista (*) que os homens, em


IMOS
geral, e os homens do Ocidente, em particular, têm consu-
mido, desde há dois séculos para cá, vastas quantidades de
ideologia. Nem sempre para seu bem, quer moral, quer mental, quer
mesmo físico. E a prova está hoje a administrá-la, a uma escala gi-
gantesca, o drama da Ghina comunista.
A ideologia prospera sobretudo no terreno fertilíssimo da sócio-
-política. Por isso é sobre ele, principalmente, que deve incidir a aten-
ção dos que se preocupam com dar aos homens um pouco mais de
realidade e um pouco menos de abstracção, um pouco mais de ciência
e um pouco menos de mitologia, um pouco mais de consciência e um
pouco menos de propaganda, um pouco mais de serenidade e um pouco
menos de agitação.

Desde longa data que a política tem apaixonado os homens. Foi,


porém, na Grécia que essa paixão começou a subir vertiginosamente.
Mas — facto impressionante — começou a subir quase ao mesmo
ritmo que a razão se ia libertando do mito, que o indivíduo se ia
consciencializando como sujeito e objecto das leis da cidade, que o
homem se ia afirmando como senhor do seu próprio destino sem pre-
juízo da crença d e que <um Destino superior regia tudo : o mundo e
a história, mortais e imortais, escravos e livres.
Foi então que a politologia nasceu. Nasceu rudimentar, ao nível
d e uma experiência que não excedia as 'dimensões da pequena «pólis»
helénica, mas nasceu exigindo fórmulas e leis universais. Sólon e os
pitagóricos, Heraclito e Empédocles, os Trágicos e os Sofistas, Sócrates
e Aristófanes, seu adversário, e, noutro plano, Clístenes e Péricles, todos
eles, ao nível da empiria ou ao nível da metafísica ou, mais geral-
mente, na intersecção1 dos dois, procuraram dar uma visão racional
das relações do homem e d o Estado, da arte do comando e do dever

(1) Cf. Ideologia e não-ideoíogia. Fev. de 1967, págs. 181 - 190.


DA POLITOLOGIA E S U A NECESSIDADE 303-

da obediência, da ordem instituída ou da ordem a instituir, do facto


e do direito, do ser e do dever-ser do cidadão enquanto tal.
Depois vieram os dois grandes sistematizadores, Platão e Aristóteles
que, ricos do pensamento dos que os precederam e mais informados
do que eles das experiências feitas, puderam traçar as grandes linhas,
as linhas fundamentais, da filosofia política. Uma filosofia política,
mais metafísica e raiando pela utopia em Platão; uma filosofia polí-
tica mais próxima dos factos observados, quase deles extraída, em Aris-
tóteles.
Finalmente, na última fase d o pensamento antigo, uma grande cor-
pesite de filosofia política se afirma que procura dar significação e
sentido à realidade de vastos Estados helenizados que todos serão in-
cluídos no Império Romano : o estoicismo. O estoicismo, unindo um
.certo panteísmo metafísico ao dinamismo da história contemporânea en-
•gíobadora de povos diversíssimos pela raça, pela geografia, pelo de-
senvolvimento económico e pela cultura, dará uma fundamentação do
poder político e tentará uma justificação do seu exercício mesmo, por
vezes, despótico. Do estoicismo partirá Cícero, n ã o decerto para a
formulação de todos os seus grandes conceitos políticos, mas para o
dessenvolvimento dos dois fundamentais : o conceito de direito natural
e o conceito de pacto social, um e outro fundados sobre a recta Razão
que governa o Mundo e deve governar a História. Do estoicismo par-
tirá também Marco Aurélio, a filosofia sentada no trono imperial.
No espaço que nos separa dos grandes clássicos d o pensamento
político antigo, durante esse longo intervalo de dois milénios de obser-
vação e de especulação, muitos foram os sistemas, as teorias e as sim-
ples receitas formuladas pelos homens para o bom governo dos seus
semelhantes. Não é para aqui anumerá-los sequer. No entanto, impos-
sível omitir nomes como o de S. Agostinho e o de S. Tomás de Aquino,
o de Occam e o de Maquiavel, o de Jean Bodin e o de Hobbes, o
de Suárez e o de Pufendorff., o de Montesquieu e o de Locke, o de
Rousseau e o de Kant, o de Hegel e o de Com te, o de Tocqueville
e o de Marx. Sem dúvida, as mais recentes tendências em politologia,
quer como filosofia quer, sobretudo, como ciência, diferem não pouco
«da politologia que esses nomes «sagrados» representam. Mas é claro
<que, sem eles, aquelas tendências, muito possivelmente, nem sequer
teriam nascido. O presente é sempre filho do passado. Mesmo, quase
s e poderia dizer, principalmente, se ele se opõe ao passado.
Quais essas tendências? São múltiplas e diversas. Porém, nessa
304 FLÁVIO RTBEURO?

multiplicidade e diversidade, elas levam um sinal comum : o sentido d o


positivo. Cientistas e filósofos parecem cansados tanto da ideologia como
da utopia, no domínio político. Conscientes, a espaços porventura ex-
cessivamente consoientes dos malefícios que a proliferação das mitolo-
gias causou nos tempos mais chegados a nós, eles exigem que se pise
o terreno firme da experiência, que, por amor das «causas», não se
perca a vida, e que tanto o presente como o futuro imediato não sejam
alienados, absorvidos por um sonho remoto e sem consistência. A ca-
tegoria do «possível» tende a ser reduzida, progressiva mas rápida^
mente, em proveito da categoria do «real». Tanto que não poucos-
politólogos são levados a proclamar a total empiricidade da sua disci-
plina, refugindo de propor normas e valores, ideais e aspirações. Bas-
ta-lhes o terreno dos factos. Só ele é sólido, só ele é seguro.
Nessa perspectiva, a politologia actual .pode definir-se, em boa .parte,,
como acção contra os mitos, como operação catártica, como processo
de desintoxicação. Por isso mesmo, profundo é o seu significado na
semiologia, dos tempos. Quem quiser «ler» o seu sentido e perscrutar
o seu rumo não poderá prescindir de um domínio que os analistas
apressados e os especialistas unilaterais facilmente podem relegar para
o terreno «inócuo» das competências que, de tão altas, não afloram
sequer a terra.
Ora a experiência de todos os povos — superdesenvolvidos, sim-
plesmente evoluídos e subdesenvolvidos — continua a demonstrar, hoje,
a importância capital d o factor político, no grande sentido desta p a -
lavra. Contràriamente à predição de Marx, afirmativa d o desapareci-
mento do Estado, pouco tempo volvido sobre a instauração da ditadura
do proletariado, e contràriamente à predição de Saint-Simon, anuncia-
dora da administração das coisas a substituir o governo dos homens,
assiste-se à importância crescente e decisiva do factor político. Mandar
e obedecer, criar objectivos concretos que polarizem as imensas aspi-
rações dos homens traduzindo-as em acção, «tornar o Estado próspero
o os cidadãos virtuosos», continua a ser necessário. Hoje como ontem.
Porventura, mais hoje d o que ontem e mais amanhã do que hoje.
Com efeito, à medida que as necessidades primárias do homem deixarem-
de constituir problema e à medida que as suas relações com o se-
melhante se complexificarem situando-se a u m nível propriamente
humano e não animal, nessa mesma medida aparecerá a exigência' de-
-quem formule, agindo, um sentido para a existência em comunidade,
de quem suscite a adesão voluntária ao comando, de quem trace novas;
D A POLITOLOGIA E S U A NECESSIDADE 305-

fronteiras a serem atingidas e ultrapassadas pelas gigantes energias dos


homens. Caso contrário, sociedades saciadas e sociedades estagnadas
fàcilmente .poderão tornar-se sinónimo. No pólo oposto, importa que às
aspirações não se sigam frustrações, ao menos de fundo ou generali-
zadas. Porque é das frustrações que, não raro, derivam as agressões.
Se a política continua e continuará necessária, não menos necessá-
ria será a politologia. Hoje que ó homem pode passar o seu olhar sobre
mais de cinco milénios de história humana em vários continentes, povos
e raças, hoje ele pode dar-se conta de quanto o mundo tem sofrido
por ter confiado a direcção dos Estados à improvisação do momento,,
ao impulso das paixões, a um utopismo sem base, a um repetitivismo-
sem inspiração, a um empirismo sem horizonte, a um aventurei rismo-
de engano daqueles que querem ser enganados.
Uma politologia à altura da idade científica que está a começar..
Em artigo recente do Observar de Londres, artigo de sensação, o ex-
-chefe do partido liberal inglês, Jo Grirnond, denuncia com violência
o anacronismo do sistema bipartido do seu país. Segundo ele, um p a r -
tido político assenta ou sobre interesses económicos, ou sobre uma
ideologia ou sobre um sentimento nacional. Ora qualquer destes três-
elernentos não passa de um resíduo do séc. XIX. Hoje e, mais ainda,,
no futuro, .a verdadeira oposição não será entre partido e partido, mas
entre governantes e governados, entre aqueles que se realizaram e-
aqueles que falharam. Ao mesmo tempo, em França, a terra clássica
do multipartidismo, estão a correr rios de tinta a tentar canalizar as
actividades políticas pelo modelo do actual sistema bipolar inglês ou"
norte-americaiio. Na Alemanha Federal, na Itália e na Bélgica vai-se
instalando a ideia d o governo .pela coligação partidária. Nas demo-
cracias populares da Europa e na União Soviética o monolitismo do
Pàrtido Único vai remitindo progressiva, embora lentamente, alguma
coisa do rigor e estreiteza de há apenas uns anos atrás. Certos jovens
países da Ásia e sobretudo da África, depois de terem celebrado as delí-
cias do Partido Único de orientação mais ou menos socializante, pendenr
agora para um regime militarista que lhes dê um pouco de ordem,
de disciplina e de progresso indispensáveis à sua nova -condição de-
actores da história. Na América Latina continua o regime dos golpes
de Estado de clanista inspiração caserneira, servindo, com frequência,
de escudo protector a interesses alheios.
Numa palavra : grande é a variedade e grande é a confusão nos-
reinos de Témis. A aumentar essa confusão, continua a vontade, pro-
306 FLÁVIO R I B E I R O

veniente sobretudo de países com responsabilidades mundiais — os


Estados Unidos, a União Soviética e a China — de exportar a sua
própria ideologia e de moldar o dos outros pelo próprio sistema. Par-
te-se da ideia de que a própria ideologia e o próprio sistema são os
-melhores e de que o mundo andará mal enquanto a oentena, acrescida
de algumas dezenas, de Estados, que constituem o «governo» do Pla-
neta, os não adoptarem.
Decerto, ao lado de Témis, Clio e Mnemósine testemunham que,
desde longa data, essa vontade exportadora e moldadora existiu. Pelo
menos, desde os tempos das cidades gregas. Porém, acima das Musas
veneráveis, Palas Atena adverte que, com frequência, essa vontade
não passa de «imperialismo» camuflado, .por brilhantes que sejam as
cores idealistas da sua aparição. Mais adverte que, se sempre ou quase
sempre foi-assim, não se segue, nem é desejável, que sempre haja de
ser assim. Deusa forte e sábia, expressão personificada da ordem e da
harmonia, da inteligência perene e da organização modificável que
devem presidir ao governo das cidades, Palas Atena assiste decerto
às novas orientações da politologia.
Orientações que estão a exigir o concurso de várias ciências. A
politologia pode constituir, hoje por hoje, um dos espaços privilegiados
d e domínio interdisciplinar. A filosofia e a história, a antropologia e a
moral, a economia e a sociologia, a demografia e o direito, a geografia
humana e a psicologia por ela passam ou ela passa através delas criando
uma verdadeira rosa dos ventos de interesses diversificados e conver-
•gentes.
Naturalmente que esse concreto domínio interdisciplinar não terá o
acordo de certos «especialistas» de fresca data, impantes de uma ciên-
•cia que ainda não têm e de uma suficiência que evidentemente lhes
sobra. Naturalmente que as oposições continuarão entre os «teóricos»,
•por um lado, e os «pragmáticos», por outro,. entre os partidários da
politologia científica e os partidários da politologia filosófica, entre os
«expertos» e os «disertos». Mas as disciplinas do espírito, sobretudo
as que têm como objecto a acção humana, não assistem ao próprio de-
senvolvimento senão graças ao contraste. Ao contrário das ciências
-abstractas que avançam operatòriamente, criando entes de razão, cons-
tructos mentais em que o desenrolar lógico não aparece entravado por
obstáculos de natureza alheia, às ciências humanas está interdito o reino
da pura homogeneidade. Nelas, a «diferença» assume tanta importância
•como a «identidade». Compô-las em sistema, eis o problema. Problema
DA POLITOLOGIA E SUA NECESSIDADE 307-

xanto mais difícil quanto, não raro, ele deriva do facto de que a dife-
rença mergulha raízes fundas no irracional e no passional.
Pelo que à politologia se refere, os que se esforçam por torná-la
uma verdadeira «oiência», em parâmetros de mensuração e de experi-
mentação, porfiam em separá-la das disciplinas com as quais tradicio-
nalmente andava ligada : a filosofia, o direito e a 'história. É a orien-
tação americana que, partindo do modelo mais próximo, a sociologia,
se encontra larguissimamente representada pela corrente maior que do-
mina os cerca de 10 000 -membros, individuais e colectivos, da «Ame-
rican Politicai Science Association». Por seu lado, os que querem con-
servá-la no domínio da filosofia — mais geralmente, os seus cultores
na Europa Ocidental, latina e germânica — tendem a reduzi-la aos seus
elementos essenciais, àqueles que constituem a sua especificidade dentro
do humano, independentemente das variações concretas de espaço,
tempo e número. Tal, por exemplo, a orientação d o «Instituí Interna-
tional de Philosophie Politique» que, no volume colectivo L'idée de
philosophie poikique C2) expôs, mais claramente que nos anteriores, a
sua linha de rumo. Tal, ainda por exemplo, a orientação de J. Freund
na obra monumental de quase 800 págs. in 4.°, intitulada L'essence du
pdttique í3).
Mas, qualquer que seja a tendência, o que importa é que a dis-
ciplina se desenvolva tanto ao nível científico como ao nível filosófico.
Desenvolvendo-se, surgirá, imprescriptível, a necessidade do recurso a
outras disciplinas para mais completa e exacta formulação dos seus
princípios • e, sobretudo, para a sua melhor aplicação. Fazendo-o,
estar-se-á a praticar a erosão de uma grande potência: a mitocracia.
Mitocracia do governo ideal, à imagem e semelhança de certas aspira-
ções escatológicas de fim-da-história, mitocracia do primado radical
d o económico, mitocracia da suficiência tecnocrática, mitocracia da
embriaguês eleutérica e várias outras formas de mitocracia que não
vale sequer a pena enumerar.
Potência de inúmeras cabeças e de -muitos esteios que, quando se
estabelece, parece sólida e é, de facto, sólida. Até ao .momento em que
se verifica que os seus fundamentos são de argamassa. Argamassa que
dá conforto a alguns e que aos outros, em geral, à maioria, dá a
impressão do granito.

(2) P. U. F-, Paris, 1965.


(3) Sirey, Pari®, -1965.
RETFB.EXFIES. g®HBiE @ &YEÉ8P©
por A. MORÃO

O Ateísmo num mundo ã busca da sua imagem. Quando


se contempla atentamente o mundo de hoje, ficamos'
impressionados com a sua paisagem contrastada, e equí-
voca. Por um- lado, deu-se um alargamento,, inimaginável para
os nossos maiiores, da experiência humana, promovida pelos meios-
de transporte e pelos meios audio-visuais de comunicação. Amplia-
ram-se, sem limites, as dimensões espaciais e temporais do cosmos..
As ciências naturais adentraram-se pelo espaço ainda virgem, revolu^
cionaram com suas descobertas e resultados, os conceitos tradicionais-
de ambiente e de habitat-, as ciências históricas e pré-históricas expio^
raram profundidades do tempo até aqui desconhecidas e ignoradas.
Por outro lado, surgiram e alargaram-se as ciências humanas, com'
as inevitáveis e cada vez mais numerosas especializações e particula-
rismos, com a diversidade dos seus resultados e princípios metodoló-
gicos, com os seus conflitos, quer de fronteiras e de tendências, quer
de orientação e de inspiração : atomismo ou gestaltismo, historicismo
ou estruturalismo, etc. E se é exacto afirmar que sé esforçam por obter
uma síntese, uma mutualidade compreensiva e reciprocamente conver-
gente, também é real a sua desconfiança e hostilidade para com a
metafísica' e a filosofia — sem as quais, aliás, se afigura impossível a
convergência dinâmica para a unificação do saber e do conhecimento-
do homem. Não falando já do predomínio uniforme do conhecimento
quantitativo e operatório, a cuja tentação nem sequer as ciências huma-
nas resistiram plenamente — é por isso que P. Sorokin as diagnostica
como atacadas de quantojrenia — não falando, pois, da acentuação
quase exclusiva do saber prático ( para empregarmos a terminologia de
M. Scheler), que é essencialmente praxis e cujo objectivo é o domínio
e a transformação do ser das coisas, hoje, o saber cultural, enquanto
perscrutador da estrutura idética do ser e das coisas e enquanto trans-
formador da cultura humana, juntamente com o saber metafísico ou
meta-antropológico, que busca a salvação e visa o absoluto, acha-se
em crise e concorre para o abalo geral das consciências.
O eihos e o -ethnos em que vivemos por vários séculos aparecem
agora como culturalmente estreitos. Na nossa época de revolução e d e
"REFLEXÕES SOBRE O A T E Í S M O 309

metamorfose, a paleontologia, a arqueologia, a etnologia, a psicologia


e a sociologia' revêem e criticam tudo o que sabíamos sobre a idade
dá terra e sua estrutura, sobre a aparição do homem e suas iniciativas
•culturais, sobre a constituição da sua psique e seus comportamentos
sociais.
Mas uma coisa que causa espanto é que tendo as ciências humanas
posto em relevo os conceitos de tempo e de história, nos nossos dias,
assistimos a uma crise de história : não se crê suficientemente no tes-
temunho histórico e humano enquanto fonte de conhecimento, ou então,
"tem-se apenas como certeza de segunda zona, com uma margem pro-
vável de incerteza. Tal desconfiança para com o testemunho humano
verifica-se noutros campos, na falta de maturidade política, no choque
das gerações, na luta e descrédito da tradição, na queda dos valores
-ancestrais, na valorização do devir mais que do ser, na hipostasiação
do relativo, quer na filosofia e na ciência, quer na atitude religiosa.
Já não se aceitam dogmatismos nem ideologias. Crise, ao mesmo tempo,
teorética e prática a da nossa época, que não mais admite a possi-
bilidade de posições absolutas, inconciliáveis com a multiplicidade
heteróclita das modernas correntes. Desapareceu a noção de qualquer
fundamento, religião, pátria ou família, como sintoma de um indivi-
dualismo desenfreado, como sigla da desintegração e da morte da
metafísica do «eu», que ocupou o Ocidente de há três séculos para cá.
Certamente, o pluralismo de aspectos das ciências e das ideologias
.antagónicas actualmente reinante pode ter valor em si : a multiplicidade
é lei do finito e do histórico. Mas não existe ainda uma imagem sin-
tética e global, como ponto de referência e de orientação. O predo-
mínio do analítico na ciência contemporânea obteve resultados admirá-
veis nalgumas esferas do real, mas não se abarca ainda a totalidade,
nem se antevê qualquer espécie de convergência na multiplicidade.
Quanto ao ateísmo, constitui o movimento fundamental do quadro
cultural hodierno. No nosso tempo de «des-teologização» e de «des-
mitização», é ele que constitui o tema, a atmosfera característica, que
anima grande parte das suas linhas e estruturas. Na literatura filosó-
fica dos últimos anos, várias expressões se deram para qualificar a
.-ausência geral do Sagrado : eclipse de Deus, segundo M. Buber, di-
mensão perdida, segundo P. Tillich, fuga perante Deus, segundo Max
Ticard. E olhando mais peculiarmente à situação da Igreja católica
dentro das tremendas possibilidades históricas do presente e do futuro,
K. Rahner fala de uma Igreja da «diáspora».
310 A. MOKû

Existe,' hoje, como diz algures M. Buber, um silêncio de Deus,,


um mutismo da transcendência, ou melhor, uma incapacidade do homem
actual para ouvir a sua voz. O pensamento moderno, por um lado,,
esforça-se por salvar e conservar a ideia de Deus como conteúdo d e
religião e como categoria cultural de certos grupos sociais; mas, por
outro, nenhum carácter de realidade lhe confere e elimina a relação
com o Absoluto, não só existencialmente, mas até no campo concei-
tuai. Conserva-se o termo Deus, mas a sua ligação com a concreticidade
da vida perde-se, recusa-se. A vacuidade do seu sentido admite-se oculta;
ou manifestamente, apodíctica ou hipotèticamente, metafísica ou psico-
lògicamente.
É frequente e habitual dizer que assistimos a uma mutação da:
humanidade provocada pela difusão e progresso do saber científico,
das ciências aplicadas e das técnicas modernas de administração dos
homens. O universo, a sociedade, o homem parecem plenamente expli-
cáveis racionalmente. Aumentou a eficácia da acção humana, e o homem-,,
em cada um dos novos progressos, vê-se sempre mais responsável das
suas faltas de gestão. À fatalidade do destino, ao fluxo de correntes
ocultas que antes dominavam aparentemente o curso da história, substi-
tui-se, pouco a pouco, a responsabilidade dos regimes políticos, dos go-
vernantes e dos cientistas. Na mente da alguns, à anterior opressão que
a presumível existência do divino causava sobre o dinamismo humano,
sugando energias e iniciativas com seus tabus e normas, sucede hoje
a imensa diástole de expansão em todos os campos, como anúncio e-
início de uma nova época, mais verdadeira, mais integral, mais convin-
cente. E de facto, sociologicamente, o sagrado recua, vai-se apagando.
As relações humanas secularizam-se, o aumento da descrença e da in-
diferença, segundo a sociologia religiosa, acentua-se progressivamente,,
no seio das classes dissidentes dos países industrializados.
É verdade que o ateísmo, enquanto negação da afirmação de Deus,,
é um fenómeno cultural do Ocidente, relativamente recente. Mais : é
um fenómeno post-cristão, nascido dentro de matrizes cristãs. Olhado
no interior da globalidade da história, representa um acontecimento'
único na evolução dos homens. Nenhuma civilização, tribu, cultura ou
época se julgara capaz de viver sem Deus. Mas o Ocidente, hoje, pres-
cinde da consciência de Deus para progredir, dominar e invadir o
mundo. Empregando um termo de Ortega y Gasset, é lícito afirmar què
o ateísmo se está metamorfoseando em crença, isto é, pura realidade
33
" R E F L E X Õ E S SOBRE o ATEÍSMO

em que «nos movemos, vivemos e somos», terreno onde acontece a


existência, continente das opções, das actividades e das vivências.
Tempo, espaço, técnica, lei e antropologia, que antes se associaram;
intimamente ao religioso, foram submetidos a reduções históricas do>
sagrado. Este não entra mais na visão do universo do homem actual..
E se alguma coloração permanece, será tida pelo ateu como resíduo»
da apatia ou da passividade dos hábitos e costumes colectivos.
O ateísmo é um fenómeno específico do Ocidente. Mas, com a.
invasão mundial do tecnicismo, que apaga e diminui os contrastes das;
diversas civilizações, que uniformiza a vida nas necessidades práticas,
nos bens de consumo e na actividade multiforme do homem, também*
o processo de des-sacralização começa à operar, por exemplo, no seio
das civilizações tradicionais do Terceiro Mundo, tão impregnadas d e
sacralidade. Começa a abalar a África animista e a África muçulmana,
penetra igualmenite no Próximo Oriente, e, de certo modo, possui;
já, na América Latina, o terreno preparado pela desigualdade econó-
mica. Pela primeira vez na história dos povos o ateísmo se tornou-
imperativo de Estados e sociedades, para as quais o conceito de civi-
lização e condição de progresso implica a redução da religião e de-
todas as formas de fé. Actualmente, todas as religiões estão à prova.
Sentem-se conjuntamente ameaçadas, surgem como associadas a civi-
lizações por elas modeladas, mas que agora se encontram em transfor-
mação irreversível, levadas pelo ritmo acelerado d o tempo, que as-
lança para a aventura do futuro. Daí, que todas procurem ganhar
novas estruturas, novos condicionamentos, novas encarnações da fé nos
valores actuais.

P a r a uma tipologia O ateísmo, seja qual for a sua modalidade, brota-


do ateísmo. sempre de um acto pessoal. Falando com rigor,
há tantos ateísmos quantas as atitudes negadoras
de Deus e quantas as orientações básicas da vida. Segundo E. Borne,,
o ateísmo contemporâneo nasce de uma recusa inicial; não interroga-
a história, nem a natureza, nem a consciência humana para ver se-
realmente há Deus. O ateísmo é actualmente um primeiro princípio.
Apesar de tudo, na sua existência e manifestações, está longe de ser
uniforme. Apresenta-se como um mundo complexo e polimorfo, •multi-
fàriamente motivado e definido. H á ateísmos de solidariedade e ateís-
mos da solidão, ateísmos da liberdade e ateísmos da libertinagem,
ateísmos individuais e ateísmos políticos ou institucionalizados, ateísmos;
.312 A. MORÃO

teóricos e ateísmos práticos, ateísmos do humanismo optimista e ateís-


mos do humanismo trágico, e, se todo o ateísmo promana de uma opção
pessoal, há sempre um ateísmo virtual no fundo de cada homem, como
uma possibilidade sempre aberta e jamais estancada. As dimensões do
:ateísmo e o seu poder de encarnação são imensamente variáveis. Podem
ir, por ex., desde o cientista que se sente à vontade num mundo mate-
mático-tecnológico e onde o esquema canónico da cibernética exclui
qualquer transcendência, até ao mundo dos técnicos, desta nova classe
-social e «nova classe trabalhadora» qualificada, que aspira ao conforto
burguês, ao bem-estar material, e é indiferente aos valores culturais
e religiosos. Aquele, seja ele engenheiro, físico, biólogo, sociólogo,
economista, psicólogo ou psicanalista, historiador ou médico, geralmente
"homem de cultura vasta e de horizontes dilatados, coutenta-se com viver
dentro da analogia do humano, com a imagem do mundo proposta
pela ciência, sem apelar para o fim «último» do homem ou da huma-
nidade. Quanto a saber se há um Deus transcendente, mostra-sé res-
peitosamente agnóstico ou céptico, como, por ex., Jean Rostand ou
B. Russell, ou então, pode orientar-se para uma espécie de panteísmo
-racionalista (Einstein) ou evolucionista (Julian Huxley), de religiosidade
muito difusa e amorfa. Também não faltam alguns que, sob a influência
marxista, adoptam uma atitude declaradamente ateia e materialista. De
qualquer modo, todos eles dispensam um Deus «fórmula do mundo»
e princípio hermenêutico da realidade.
Vindo novamente aos técnicos, o traço que os individualiza é uma
'cultura científica limitada e utilitária. Vivem para a transformação da
matéria, tocam e apreciam o real, visam a eficácia, a utilidade e a
produção, a satisfação das necessidades puramente materiais.
Semelhante imediatismo psíquico não deixa lugar para detectar,
•com o órgão da compreensão espiritual, a consciência dos laços com
-o divino. E neste universo cerrado, só é possível encontrar absolutos
de substituição : dinheiro, estatuto social, segurança. de classe, prazer,
etc., com os quais se vive, aliás, pacificamente, sem angústias meta-
físicas, porque nem todos nasceram para ser Kierkegaard ou Pascal.
Nomeemos de passagem os Neopositivistas, cujo sistema doutrinal
nasce do encontro do empirismo tradicional com a nova lógica formal.
Segundo eles, as afirmações religiosas, visto não serem verificáveis nem
.satisfazerem à categoria das proposições analíticas da lógica e das pro-
posições sintéticas das ciências exactas, não têm razão de ser. Quando
muito revelam atitudes sem comprovação teorética, limitam-se a ser
" R E F L E X Õ E S SOBRE O A T E Í S M O 313

pura experiência psicológica ou expressão emotiva endopsíquica, e nada


mais. O comportamento religioso revela-se, pois, sem conteúdo noemá-
tico, não aponta para qualquer realidade.
Por seu lado, o ateu marxista não se satisfaz com ter Deus como
inútil na exploração do fenómeno humano e histórico. Obedece a uma
ideologia exigente e militante, se bem que agora comece, a estender
a mão aos católicos, glorifique João XXIII, dialogue e reconheça que
os cristãos não se resignam à injustiça social nem se calam perante
a opressão. Mas, para ele, o ateísmo continua a identificar-se com a
liberdade, e enquanto acontecimento cultural post-cristão, esforça-se por
reconciliar a humanidade consigo mesma, por eliminar todas as alie-
nações, por restaurar e reintegrar o homem total numa nova ordem
de coisas, onde já não existam mediadores nem intercessores alienantes
ou desnecessários.
Mas, no fundo, a sua dinâmica causal é, em parte, desencadeada
pelo mito da «cidade ideal» das utopias, que não o impede de se
revelar imensamente concreto, desmascarando injustiças e mercadorias
humanas. Contudo, se ele ainda pode parecer vivo para as massas
dos países subdesenvolvidos, vê diminuir a sua aura no Ocidente.
Muitos ocidentais lutam: e empenham-se igualmente contra a injustiça
social, mas não estão para sacrificar os homens concretos de hoje à
humanidade de amanhã, nem acreditam que a supressão da alienação
económica acabe com o complexo de todas as outras.
Há uma forma mais radical de ateísmo, simultaneamente mais
lúcida e mais global : o ateísmo da revolta. Passando pelo homem
gideano e sua fome voraz de sentir, deixando de parte o ateísmo pos-
tulatório de N. Hartmann, segundo o qual Deus não deve existir para
que a palavra responsabilidade tenha sentido, chegamos a Camus e
ao seu mundo absurdo, mundo da peste e dos mal-entendidos, mundo
do irracional e do exílio, mundo da morte e do escândalo do mal, onde
é possível, por vezes, beber da taça de Dioniso e da sua exaltação
trágica, com a consciência nítida e a convicção profunda de que o
campo do homem é o tempo e a sua .pátria a criatura; encontramo-nos
com Sartre, que,. depois de Nietzsche, não só proclama a morte de
Deus, mas se apresenta complacentemente como coveiro da divindade,
cujo cadáver, aliás, parece envenenar a sua vida, quer seja na boca
de Goetz, quer na liberdade de Orestes, quer ainda na reflexão filo-
sófica. E à volta de Sartre, F. Jeanson/ Simone de Beauvoir e outros
satélites, conhecidos ou ignotos, com- a sua liberdade a excluir toda
3
314 A. MORÃO

a dependência. O ateísmo adquire neles valor moral, enquanto caminho


de libertação e promotor de um humanismo íntegro. Havia ainda que
falar de Bataille e da sua «experiência interior», da imagem de Deus
dissolvida nalguns cultores das ciências humanas, no indiferentismo re-
ligioso das massas, da má fé e dos «ateus interiores» (segundo E.
Mounier), que podem existir e existem de facto entre os crentes.
Mas, fiquemo-nos por aqui. O ateísmo existe, impõe-se, oprime.
Os homens fogem diante de Deus : eis a realidade.

Sentido histórico Que significado histórico pode conter em si


e espiritual do ateísmo, o fenómeno da fuga generalizada perante
Deus? Como alguém já notou, a Igreja
actual, de modo semelhante à Igreja primitiva, enfrenta-se com uma
cultura estranha, hostil e independente, uma cultura que domina a
maioria dòs campos da existência pública e privada. A Cristandade, o
mundo objectivo englobante da fé, enquanto inspirador de uma cultura
onde o homem pensava e actuava na política, na vida social, econó-
mica, artística e científica, sob a configuração do espírito cristão, ter-
minou para o Ocidente, ao mesmo tempo que este vê agonizar o seu
proselitismo e a sua vontade de domínio. A idade presente assinala o
ponto terminal da crise que habitou o Ocidente desde a sua consti-
tuição. Manifesta a bipolaridade da alma europeia, na dissociação que
a possui. Ostenta o clímax do seu antagonismo interno. A originalidade
humana do europeu é ser simultâneamente Grego, Romano e Cristão.
Começou por aprender a perfeição pagã do humanismo antropocêntrico
da Grécia e da política de Roma, sabedoria de equilíbrio harmonioso,
fundado na auto-afirmação. Mas, com o Cristianismo, ficou a saber
que não é centro de si mesmo nem do mundo. E desde aí, a alma
do europeu teve sempre subjacente a si um estado de ambivalência,
de rompimento interno; vive distendida entre dois pólos, entre o sentido
da eternidade e o sentido da terra, entre a liberdade e a vocação do
indivíduo e o totalitarismo invasor da política, entre a civilização e
a religião. Teve as experiências escaldantes do Renascimento, da Re-
forma e do Iluminismo, do Liberalismo e do Naturalismo, com a auto-
nomia das várias esferas do saber, o particularismo dos povos e das
ideologias, com o abalo das guerras e a presente ameaça de uma
catástrofe total.
O ateísmo, contudo, não é a conclusão ou o fruto da lógica ima-
nente da história ocidental. Nasce de uma opção que é, por um lado,
" R E F L E X Õ E S SOBRE O A T E Í S M O 315

resultante da hybris, do homem enquanto quer ser senhor absoluto,


enquanto rebelde no seu poder de realização e de transformação do
mundo; nasce de uma opção que pode, por outro lado, significar
um protesto contra as falsificações da imagem de Deus, contra as
objectivações que, em vez de salvaguardarem o mistério de Deus, o
empobrecem e mascaram. Quantos teologúmenos racionalistas, que, des-
figurando o Deus santo. O reduziram a esquemas abstractos e desper-
sonificantes («Deus criador do melhor mundo possível», Deus «fórmula
do mundo», «pura perfeição a ,priori», etc.), e que, em parte, estão
na'raiz da regressão religiosa da civilização ocidental!
Noutros casos, a realidade trágica dos acontecimentos, a plenitude
sentida do êxito ou do amor humano, a impressão de força da colec-
tividade, a eficácia da acção humana, produzirão um apagamento da
presença da acção de Deus, que parecerá nula ou insignificante. .
De qualquer modo, o ateísmo tem algo a dizer ao crente. Pelo
exame do seu núcleo intencional, é possível intuir nele, como dissemos
há pouco, se bem que não absolutamente, um ataque contra certas
representações de Deus, contra a mistura impura da natureza e do
divino, da política e do sagrado. Por aqui, pode revelar uma função
purificadora indirecta e concorrer para separar a fé de todos os ele-
mentos imaginativos e abstractamente conceituais. Serve de pedagogia
dolorosa, que nos obriga a aprofundar o sentido do mistério em rela-
ção ao Deus que transcende todas as imagens e não se identifica com
nenhuma. Daqui, a obrigação, para o crente, de instaurar a sua con-
cepção da realidade divina a partir da Teologia bíblica e de aprender
a ver Deus na perspectiva da mística cristã, isto é, de o contemplar,
para lá de todas as imagens, como Realidade infinitamente activa, a
Deus que quis coexistir com os homens e é essencialmente Agápe,
«liberdade de amar», como diz algures K. Barth.
O desafio do ateísmo oferece à consciência cristã a possibilidade
de uma renovação e de um progresso, obriga-a a formar uma sã esca-
tologia à luz do Evangelho e da razão iluminada, despojada de todos
os infantilismos ou ressaibos de uma ideologia mágico-arcaica. Pro-
põe-lhe a difícil tarefa — como afirma E. Borne — de unir estreitamente
o sentido de Deus, o sentido da história e o sentido da pessoa, inter-
conexos no destino da humanidade e de cada um.
Mas importa também persuadir-se de que nenhuma época é alheia
à graça, de que todas as idades ou ciclos históricos são tempo da
salvação e da redenção de Cristo, e de que, consequentemente, o pe-
316 ALBERTO SOBREIRA

ríodo actual está igual e imediatamente diante de Deus, pois o mistério


escatológico penetra todas as dimensões da história humana. A esta
luz, o ateísmo, dentro do horizonte fechado da existência contemporâ-
nea, tão dobrada sobre si mesma, é prova para os crentes, e segundo
D. Bonhoeffer, a sua permissão é o modo de participar no mysterium
crucis, no abandono do Crucificado.

©ÉH1® E UNDWERSO BE emtDL BRAHBB&A)


por ALBERTO SOBREIRA

Q UANDO Raul Brandão andava nos 23 anos — nascera a 2 de


Março de 1867, faz agora precisamente um século — dois
acontecimentos se deram que determinaram, em parte e mes-
mo, talvez, em boa parte, o seu destino de homem na cidade e de
escritor. Foi o primeiro o Vltimaíum inglês de 11 de Janeiro de 1890;
foi o segundo a implantação de uma nova visão do mundo, de uma
nova atitude perante a vida, de uma nova sensibilidade estética.
O Ul limai um, provocando um grande abalo na consciência nacional,
desde os intelectuais ao -povo, abriu a crise que conduziria, volvidos
pouco mais de vinte anos, à mudança do Regime. Espectador curioso,
sentidor com subtilíssimas antenas para perceber os movimentos da
alma colectiva, espírito suficientemente ingénuo para acreditar nas
possibilidades dos idealistas e suficientemente céptico para se dar
conta da «farsa» da vida, sobretudo d a vida política do tempo,
R. B., oficial do exército sem vocação, jornalista com passagem por
alguns dos órgãos mais representativos da imprensa contemporânea,
escritor revelado, desde 1890, em Impressões e paisagens e afirmado,
em 1895, em História de um palhaça. R. B., pôde dar-nos, a partir
de 1900 — data do primeiro apontamento das suas Memórias — a
atmosfera da última década da Monarquia e das duas primeiras décadas
da República. A atmosfera, é o termo que ele próprio usa ao apre-
sentar, em 1918, o I volume dessas Memórias. Através da anedota
ouvida num café, dos traços considerados mais significativos de alguns
dos grandes figurantes do tempo, d o relato de uma conversa com
qualquer dos protagonistas ou dos actores da agitada cena trági-cómica
G É N I O E UNIVERSO DE R A U LBRANDAO39

da auscultação do movimento das pobres massas humanas, arrastadas,


à deriva,, por boatos, lendas, aspirações sinceras, ímpetos apaixonados,
através de tudo isso, é boa parte da pequena história de quase trinta
anos que passa.
Verdadeira? Falsa? Nem o autor o sabe : «entendo que é tão
difícil asseverar a exactidão dum facto como julgar um homem com
justiça. Todos os dias mudamos ide opinião. Todos os dias somos em-
purrados para léguas de distância por uma coisa frenética, que nos
leva não sei para onde. Sucede sempre què, passados meses sobre o
que escrevo eu próprio duvido e hesito. Sinto que não me pertenço.
É por isso que não condeno nem explico nada, e fujo até de descer
dentro de mim próprio, para não reconhecer com espanto que sou
absurdo — para não ter de discriminar até que ponto creio ou não
creio, e de verificar o que me pertence e o que pertence aos mor-
tos» C1)- E : «Só vemos máscaras, só lidamos com fantasmas, e nin-
guém, por mais que queira, se livra de paixões» (2).

Por volta de 1890 uma nova geração literária se afirma. Entram


em crise os ideais humanistas da grande geração de 70 : o socialismo
e o cientismo, o naturalismo e o positivismo, que os tinham inspirado
e alentado, são postos em questão; os próprios que os tinham defen-
dido ou deixam de acreditar neles ou os metem em surdina; uma nova
mentalidade e uma nova sensibilidade tendem a impor-se que arrastam
na sua corrente mesmo alguns dos homens da geração anterior.
Agora o movimento passa a ser ou para a torre-de-marfim de um
egotismo mimado e sofredor ( António Nobre), ou para um «símbolo»
que servirá de pretexto ou de veículo a erguer um mundo de sumptuo-
sidades litúrgicas e renascentistas, com música de palácio e túnicas
roçagantes, perfumes embriagadores e pedrarias raras, tendo a regê-lo,
ao fundo, um remoto Fado ,pagão (Eugénio de Castro) ou para o
passado da Grei, românticamente sentido ( M . da Silva Gaio e Alberto
de Oliveira) ou para um vago sentimento de comunhão panteísta ( o
Junqueiro de Os simples) ou para um mundo de sonho e de mistério,
de música e de fluidez em que os jovens de diversas obediências as-
piram a participar.
O «novo» universo mental tem como seus altos inspiradores Scho-

(!) M„ voa. I, <pág. 20.


(2) lb. pág. 21.
40
ALBERTO SOBREIRA

penhauer e Ed. von Hartmann, já conhecidos da geração anterior, Berg-


son que, em 1889, publicara o celebérrimo Es sai sur les données im-
médi&es de la conscienoe e que, em 1896, publicará o não menos céle-
bre Matière et Mémoire. Noutro plano, os decadentistas franceses Henri
de Régnier e Jean Moréas, mais do que os grandes simbolistas Mallar-
mé e Rimbaud e mesmo mais do que o acessível Verlaine, Baudelaire,
a quem os jovens rebeldes dos anos 60 já tinham prestado culto er-
guendo o mito do seu satanismo, Edgar Poe e Hoffmann. E os russos,
Tolstoi e Dostoievski, revelados ao público português, desde 1889, por
Jaime de Magalhães Lima, em Cidades e paisagens, viriam a exercer
grande influência sobre o autor de Húmus.
É nesta atmosfera que se forma o espírito de Raul Brandão. A
fase decisiva da sua obra, aquela que começa na viragem do século,
negará ou podará certos aspectos e certos excessos cultivados entre
1890 e 1900, em particular : o alheamento do mal dos outros pela
complacência no próprio que é, na hipótese, o mal du siècle, o sata-
nismo de artifício, a crença na metempsicose, o virtuosismo aliteratado
e sem autenticidade de fundo, o banroquismo torrencial das imagens
sinestésicas ao gosto dos receituários decadentistas, a truculência de
uma imaginação delirante, demasiado fantástica para poder impressionar
realmente, o convencionalismo do ataque ao burguês e a substituição
da vida pela imaginação. Há, porém, outros aspectos que permanecerão
e, depurados ou aprofundados, definirão a genuína personalidade, lite-
rária e humana, de R. B., um dos casos mais exemplares da aliança
do escritor e do homem, em Portugal, de há um século para cá.
Esses aspectos são, em geral, aqueles em que a cultura vem ao
encontro, para a elevar, da natureza do artista e do pensador. Uma
natureza muito mais contemplação do que acção; uma natureza alta-
mente imaginativa e profundamente sensitiva, que se exalta, espanta
e abisma em sonhos impossíveis e que, ao mesmo tempo, pode extrair
ternura de uma pedra : uma natureza que entra em simpatia, com
rapidez impressionante, com todos os seres do Mundo e da Vida, so-
bretudo com os mais humildes, os mais verdadeiros, os mais abando-
nados, aqueles que nunca ninguém amou, aqueles que são levados no
«enxurro» que é a história; uma natureza na qual vivem e intercomuni-
cam, até por vezes se confundirem, o sentido do fantástico mais audaz
e o sentido do concreto mais rigoroso e mais exacto.
Por outro lado, uma natureza a quem uma infância tranquila e
sã no meio pacato da Foz do Douro de há quase século e no . seio de
G É N I O E UNIVERSO DE R A U L BRANDAO 41

uma família afectuosa e unida deu-lhe não só a estabilidade e o equi-


líbrio necessários para a personalidade do adulto não se dissolver no
tumulto das paixões e da agitação, mas também o sentido de compre-
ensão e admiração por aquilo que tem raízes e «dura», por aqueles
que, ignorados, cumprem o dever de existir e, corajosos, sem meios e
sem ruído, «vão além da vida». #

Uma natureza assim predisposta deixou-se fàcilmente envolver e


penetrar por uma concepção do Universo e da Existência em que o
antideterminismo e o anti-intelectualismo, o vitalismo e o misticismo,
o onirismo e o pessimismo, o esteticismo e o anarquismo consentem
singulares vizinhanças e mesmo convivem em estranhas simbioses. Não
é que qualquer desses «ismos» assuma em R. B. carácter sistemático,
ordenador dos restantes, nem que todos eles constituam um verdadeiro,
um real ecleticismo. Não. O autor de Húmus era demasiado «primi-
tivo» e demasiado «inculto», demasiado boémio e demasiado crente nas
forças da inspiração e do instinto para tentar sequer um trabalho desse
género. Talvez o menos construído dos grandes prosadores portugue-
ses — tanto ou tão .pouco que, tendo-nos deixado dezenas e dezenas
de páginas altamente impressivas, jamais compôs um livro — R. B.,
não foi um intelectual. Faltou-lhe, para isso, talento e sobrou-lhe gé-
nio. Foi, sim, um espiritual. Um dos raros extraordinários casos de
espiritualidade natural ou de naturalidade espiritual da literatura por-
tuguesa de há um século para cá.
O que distingue fundamentalmente um do outro —- o intelectual do
espiritual — é que o primèiro sabe e sabe que sabe, ao passo què o
segundo sabe apenas que ignora nem cuida, por aí além, de desvendar
o último «como» e o último «porquê», consciente, pela experiência que
a Vida lhe deu, da inutilidade desse trabalho. Ou se cuida, fá-ió com
a angústia e a convicção antecipada de que, por mais que se interro-
gue, a existência permanecerá sempre um enigma, de que as suas situa-
ções-limite se erguem diante do homem qual abismo insondável de ser
c de mistério, de que o sofrimento e a culpa, a luta e a morte, a história
e o destino interpelam, sem darem resposta, provocam mas escondem-se,
rasgam a sangue e a fogo a noite milenária, sumindo-se sem deixarem
à razão a notificação exacta ou sequer cifrada do seu começo e do
seu fim.
Esta «ignorância douta» exprime-a R. B., de mil modos. «Ignoro
tudo, acho tudo esplêndido, até as coisas vulgares», escreve ele no pre-
fácio ao I vol. das Memórias. E, em Setembro de 1910 : «Não entendo
320 ALBERTO SOBREIRA

nada da vida. Cada dia que avança entendo menos da vida. Contudo
há horas, as horas .perdidas — e só essas — que queria tornar a viver
e a perder. Deus, a vida, os grandes problemas, não são os filósofos
que os resolvem, são os pobres vivendo. O resto é engenho e mais
nada. As coisas belas reduzem-se a meia dúzia : o tecto que me cobre,
o lume que me aquece, o pão que como, a estopa e a luz» í 3 ). E em
o Vale de Josafat : «Sejamos humildes, porque a gente chega ao fim
da vida sem ter entendido nada deste mundo, quanto mais do outro...»
( 1933, pág. 33). E pergunta, na página final desse «balanço à vida»:
«Se vale a pena viver a vida esplêndida — esta fantasmagoria de cores,
de grotesco, esta mescla de estrelas e de sonho?... Só a luz! só a luz
vale a vida! A luz interior ou a luz exterior. Doente ou com saúde,
triste ou alegre, procuro a luz com avidez. A luz para mim é a felici-
dade. Vivo de luz. Impregno-me, olho-a num êxtase. Valho o que ela
vale. Sinto-me caído quando o dia amanhece baço e turvo. Sonho com
ela e de manhã é a luz o meu primeiro pensamento. Qualquer fio me
prende, qualquer reflexo me encanta. E agora mais doente, mais perto
do túmulo, busco-a com ânsia [...]. O futuro é Jesus no alto da mon-
tanha» (4).
No prefáoio ao II vol. das Memórias, terna e significativamente
intitulado «O silêncio e o lume», dissera : «Foi nesse silêncio que a
minha alma se criou. Foi esse silêncio que nos uniu indestrutivelmente.
No corredor escuro onde entrei e onde tacteio como um cego, fazendo
alguns riscos a carvão nas paredes, encontrei a tua mão ( a da mulher)
que me ampara e nunca mais a larguei. Aprendi que h á outras exis-
tências, as dos humildes, maiores que a nossa. E vi Deus» ( 5 ).
Sim. Foi a ignorância douta que a Vida — essa mestra d o es-
critor R. B., — lhe ensinou, foi essa douta ignorância que o tornou
permeável ao mistério dos .pobres e dos humildes como antes o tor-
nara angustiadamente sensível ao secreto enigma da paisagem e ao
«absurdo» da Existência. Foi essa ignorância ainda que tornou a sua
obra, a um tempo, tão fragmentária e tão monótona : «Algumas sen-
sações, ternura, cor, e pouco mais. Tinta. Pequenas coisas frívolas,
o calor do ninho, e sempre dois traços na retina, o cabedelo de oiro,
a outra-banda verde...» (®).

(3) Ib„ 5." ed., .pág. 17.


(4) Ib. ipág. 34.
(5) 4.' ed., pág. 22.
C8) M„ I, pág. 9.
G É N I O E UNIVERSO DE R A U L BRANDAO 321

Esta confissão, partindo, como parte, de um autêntico espiritual,


é uma confissão de modéstia. Para além daquilo que ela exprime —
e é a verdade — há toda a grandeza de um poema, entre lírico, épico
e dramático, em que o protagonista, para não dizer a única persona-
gem, é o Pobre ou a Desgraça. O Pobre de mil rostos, a Desgraça nas
variadíssimas situações em que a condição humana a faz surgir.
O Pobre enche a obra de R. B. O mundo do escritor, o seu sistema
de realidades e de valores, o seu tropel de figuras, de significações e
de destinos, a sua floresta de sonhos e de fantasmas, tudo isso é ininte-
ligível sem a referência ao arquétipo do Pobre. Natural e aberto na sua
pequenez, como a árvore silvestre no seu elemento, ou grotesco nos seus
modos, como algo que nasceu torto, inadaptado e disforme, repelente
pelo seu ódio, a sua inveja, a sua hipocrisia, ou simpático pela sua
insignificância de violeta, a sua paciência de séculos, a sua vontade de
serviço e a sua ternura, sólido nas suas convenções e na secura
da sua vida, convertida «em restos; em palavras, em cinza» ou pena
solta ao vento da inclemência e da tempestade, essa figura, que reveste
os extremos da realidade mais trivial e da fantasmagoria mais delirante,
passa no drama e na prosa poética de R. B. polarizando o nosso olhar,
atraindo a nossa compaixão, dando-nos o sentimento da nossa contin-
gência e da nossa radical finitude.
Passa e é, n o fundo, o próprio escritor. É o Pobre de pedir da
obra que leva esse nome. Nome ambíguo que designa o Grande Pobre,
Aquele que um dia pronunciou a palavra misteriosa «Pobres sempre
os tereis convosco», e é ele, R. B. Ele que confessa :

«O meu verdadeiro ser não é aquele que compus, recalcando lá para o


fundo os instintos e a® paixões; o meu verdadeiro ser é urna árvore desgre-
nhada — é o fantasma que n o s momentos de exaltação m® leva a rasto ipara
actos que reprovo. Só a custo o contenho. Pareoe que está morto, -e está mais
v-.vo que o histrião que represento. Asseguro este simulacro adé à cova c o m
os hábitos de compressão que adquiri. N ã o sei se a maior parte dos homens
é assim —- e u sou assim : s o u um fantasma desesperado. O meu primeiro
impuJlso é destruir. Depois recuo. E o meu segundo impulso é tailvez atraiçoar
e mentir. É ipratòcar actos 'horríveis de sensualidade e d'e instinto. E ®e resisto,
•resisto esfarrapado. Resisto c o m discussões interiores que nunca acabam e uni
esforço que m e deixa inutilizado e exausto. Resisto, ainrependido de não m e
deixar ilevar até ao f i m — © talvez para me dar em, espectáculo a ouitira perso-
nagem que assiste e comenta, que assisit» e aplaude c o m escánneo. Por isso,
quando m e venço, n ã o tenho mérito nenhum : é por fraqueza ou por vaidade
que não pratico o mail. E c o m o temipo tenho ficado cada vez pior. Mais seco
44
ALBERTO SOBREIRA

e pior. Desesperado e pior. A vida, em lugar de me elevar, tem-ote transfor-


mado numa ruína, ande nenhuma raiz encontra suco».

Esta página, de espírito tão tragicamente dostoievskiano, aparece-nos


quase como um eco, em angústia, solidão e deserto, daquele admirável
diálogo com a mulher, que é «O silêncio e o lume», prefácio ao vol. II
das Memórias : «Tenho passado o tempo a comentar-me e poucas al-
mas me interessam como a minha. O que eu amo sobretudo é o diálogo
com esse ser esfarrapado. Dêem-me um touraco e papéis e condenem-me
à solidão perpétua. É-me indiferente... Isto é um erro — e tu fizeste-mo
sentir. Sem mo dizeres — compreendi que a nossa vida é, principal-
mente, a vida dos outros... Melhor : compreendi que a ternura era o
melhor da vida. O resto não vale nada» Q .
A ternura é brisa alada e ligeira que sopra sobre a «vila» «anti-
quíssima e idêntica», sobre a «vila» que é «um simulacro», sobre a
«vida que é unj simulacro» fazendo-lhe perder um pouco do bafio,
do marasmo e da asfixia dos mesmos gestos, das mesmas palavras
mentirosas, das.mesmas regras vazias de som e de sentido. A ternura
é fonte e é rio, é «fio de água humedecendo a frincha de uma pedra
ou levada impetuosa e aos jorros. É ela que tira à vida a sua secura.
Em certos seres pobres e simples quase se ouve essa água correr tão
amoràvelmente, que dá vontade de nos chegarmos à sua beira. É emo-
ção. Minai, não na dejxeis secar» O - A ternura é chuva que desce,
irmã do sonho e da memória, sobre o «Prédio» construído de «pedra,
de árvores e de gritos», sobre o «Prédio» onde moram o Gebo, as
prostitutas, o Gabiru e o Pita, sobre o «Prédio» cujos fundões são
atravessados .pelo «enxurro» e cujo s muros são batidos pelos ventos
de todas as tempestades e inclemências.
Pode talvez dizer-se que é a ternura que torna comunicável os dois
hemisférios do universo de R- B. fazendo-os filhos do mesmo autor.
O primeiro, produto de uma imaginação exaltada e nocturna, é som-
brio e fantástico, a escorrer humidade e verdete, a ressumar irremediável,
transido de frio, e onde ecoam os gritos lancinantes dos desesperados
e dos loucos, as palavras convencionais dos condenados à morte, que
é a vida, dos viciosos, dos neurasténicos, dos fracos de espírito, dos
grotescos, a vozearia das discussões inúteis e das paixões estéreis, o

C7) ib„ pég. i a


(8) Húmus, 2.* ed., .pég. 20.
(9) Os pobres, 7.» ed., pág. 32 - 33.
G É N I O E UNIVERSO DE R A U L BRANDAO 45

murmúrio — ou o tumulto — das lágrimas choradas, e, sobretudo, os


ditos profundos daqueles que sabem que viver é sofrer e é sonhar.
É sofrer porque sofrer é sentir e sentir é ser : «não é inútil nem sofrer
nem fazer sofrer, e não há grito que se perca no mundo. Nem o mais
ignorado nem o mais humilde. Escusas de te rir. E todo o esforço
humano é no fundo uma lenta aproximação de Deus, assim como tudo
na vida se resolve segundo a forma por que cada um encara
Deus...» C10). É sonhar porque 6 sonho arrasa fronteiras, levita e li-
berta, gera e cria. Cria, ao lado da vida, outra vida, ao lado dos seres,
outros seres, ao lado da realidade, que é concreta e resiste, uma outra
realidade que envolve e impregna como um fluido, uma exalação, uma
atmosfera.
É este o hemisfério que se ergue, a um tempo, como construção
modificável e como representação estática de tipo fantástico, é este o
hemisfério que se ergue da obra teatral, da História dum palhaço,
d' A morte de um palhaço, d' Os pobres, d' A farsa, d' O padre,, de
Húmus, d' O Pobr\e de pedir e mesmo de certas páginas das Memórias
e das obras «históricas» El Rei Junot e A conspiração de Gomes Freire.
Algumas das linhas mais acusadas desse universo mais tipicamente
brandoniano são-nos dadas por todo o poema em prosa, que é Húmus,
por todo o drama estático, que são Os pobres, e pela abertura empol-
gante d' A farsa :

« — Ai que ma levam! ai que ma levam!


U m a nuvem desce da senra : arrastam-se os rolos pelas encostas pedre-
gosas e depois as 'baforadas espessas aibafam de todo a vi-la. E noite, cerração
compacta, névoa e granito, formam um todo homogéneo para construírem um
'imenso e esfanrapado burgo d e pedra e sonho. (Pastas sdbre pastas de nuvens
áilgidas, que a noite transforma em crepes, amontoam-se na escuridão. O granito
revê água. E sob a chuva ininterrupta, sob as cordas incessantes, a vila, erwollta
na terra gilacial, parece (lavada em Jágrimas...
— Ai que tna 'levam!
É o único grito que irrompe do escuro, lúgubre, aflitivo, raspado. Depois
o silêncio, a mudez concentrada da noite, a nuivem negra coalhada sobre as
ruínag da vila toda lavada em 'lágrimas. S ó aquele grito ressoa na ipraça
sdlitária. A torre da Sé defoimou-sie : o granito ailiado à névoa de mistura
com a noite, aibriratn arcarias, alongaram a s portas e fizeram dos Testos da
muralha antiga um tropel caótico. É um amailgama de realidade e pesadelo,
trapos de nuvens e palácios desmedidos. Á escuridão remexe. N ã o se sabe bem
onde o sonho acaba e começa a matéria, se é uma cidade descortforme, sepulta

0">) El Rei Junot, 1." ed., pág. 6.


46 ALBERTO SOBREIRA

em treva e lavada emi •lágrima®, ou imeia dúzia de casebres e uma torre 'banal.
Uma luzinha alumia um Cristo aflitivo na abóbada de pedra sustentada por
quatro arcos ogivais. Mas a luz treme à ve-ntanáa, os arcos 'balouçam, a abóbada
estremece, e, ao repelão do vento, grandes sombras esvoaçam, afundaodo-se
no megpume. Há uma -sufocação, um egpaaito, o terror de que a candeia se
apague, e s ó fique o nada, a •escuridão imensa e compacta e o grito raspado
— Lá a (levam! dá a l e v a m ! . . . — É como a úlítima claridade dum barco de
náufragos, tragado sem remissão n o redemoinho duim indefenido oceano polar.
Adivinha-se a porta da igreja, uma golfada de tinta, e o telingue-telingue eterno
duma fonte — o choro baixinho daquela escuridão cerrada. A luz estrebucha.
Se o vento a sumisse levaria consigo o último sinail de vida. Ficava apenas
na noite infinita, impenetrável e rervolita, o grito d e angústia :
— Ai que ma devam!»

O outro hemisfério do universo brandoniano é um hemisfério diurno


ou quase. É um mundo mais «objectivo», um mundo em que as coisas
surgem no seu contorno e na sua cor, no seu ritmo ou no seu silêncio,
nítidas e impressivas : «O traço do Cabedelo separa o azul do rio do
pó verde do mar. O hálito salgado que respiro renova todas as tintas,
e a outra banda, como um biombo verde, emerge no fundo do qua-
dro» C11). «Um grande lanço de água vem até mim em .pequenas ondu-
lações azuis e por camadas sucessivas, como estas manchas que os
•pintores acumulam nos quadros com a ajuda da espátula» C12). •
De um modo mais geral, é esse o mundo de Os pescadores e d' As
ilhas desconhecidas. Aqui, .porém, menos. Quando a ocasião se lhe
oferece, R. B. retoma ao hemisfério da sua .predilecção. Veja-se ainda
esta página soberba :

«Largamos e vem a .tarde, vem a noite, e o cair da noite no imar é um


espectáculo trágico. Este movimento que não o essa, das ondas avançando e m
colunas cerradas, umas atrás das outras, sempre, tpõe-me dianite do que mais
temo mo mundo — d o universo com mistificação e acaso... Lá vão as cores
— as tintas — o doirado... Sou aquiale fragmento de tábua que as ondas
ilevaim sem destino, sempre no mesmo negrume, no mesmo movimento perpétuo
e inútil:... N ã o é s ó a ameaça, a grandeza- da noite, do mar, das vozes;
é outra coisa pior que se afirma — a 'tragédia do universo descarnada e posta
a nu diamte d o s ineus olhos. C o m todas a® suas complicações e o seu génio,
a s suas máquinas portentosas, c o m a s stuas ideias e a arquitectura que teim
erguido e que chega aos céus — o hoimem nestes momentos sente qoie vaile
tanto c o m o um cisco para esta ooisa imensa e negra, .para estia agitação

C11) Os pescadores, 1.* ed_, pág. 25.


(12) ib. pág. 95.
GÉNIO E UNIVERSO DE R A U L BRANDAO 325

incessante. Isto é pior que implacável, é pior que ameaçador : — não


nos conhece».

A ligar as duas metades desse universo, como dissemos, o mar


da emoção. Um mar largo e fundo, que extravasa ou se contém, se
exalta ou se acalma, se abisma no escuro ou transparece na luz, con-
forme as situações. Através dele coexistem, comunicando-se por vezes,
o poético mais alucinado e visionário e o concreto mais terra a terra,
o elementar tulmultuoso da natureza e o típico da existência, o instinto
determinante e um certo discernimento.
No plano simplesmente artístico, a emoção constituiu a grande
força e a grande fraqueza do autor de Húmus. A grande força porque
o abriu ao mundo e aos outros, sobretudo àqueles a quem afectam ou
a doença, ou a .pobreza, ou o grotesco, ou a fraqueza de espírito, ou
a decadência social, ou a demência, ou a neurastenia e àqueles que,
•pela sua simplicidade, se encontram ainda perto da natureza. A grande
fraqueza, porque, concentrando-o na intensidade afectiva, o inibiu para
a construção de uma obra que, assim, só em fragmentos existe.
Fragmentos, não raro, admiráveis, sem dúvida alguma, pelo poder
de comunicação e simpatia que os investe, pela sua magnífica expressão
verbal, toda som e cor, mas fragmentos, no fim. Fragmentos em que
palpitam intuições de génio mas que nenhuma arquitectura ideal aguenta
ou prolonga ao contrário do que sucede, por exemplo, nos fragmentos
de um Heraclito, de um Pascal ou de um Nietzsche.
Nestas condições, torna-se compreensível a série de confissões,
espalhadas um pouco por toda a sua obra, em que o autor declara
ter desistido de compreender. Mas, se ele desistiu de compreender,
não desistiu nunca de amar.
Num mundo que está a converter-se, cada vez mais, em selva de
interesses, de mecanismos 'gigantes, de coisas mais que de pessoas, num
mundo sobre o qual estão a soprar, convergentes, os ventos de muitas
charnecas, próximas e distantes, essa continua a ser a grande men-
sagem de R. B. Encarnada num estilo .poderoso e expressivo, embora,
com frequência, caótico e violento, essa mensagem, à semelhança da
de Dostoievski, não morre. Brota das fontes da vida e é, como elas,
fecunda e imortal. Podem modificar-se as condições da existênoia a
um ritmo mais ou menos acelerado. Porém, as exigências mais pro-
fundas do seu coração humano essas permanecerão. É delas e só delas
que fala, no fim de contas, o discurso brandoniano.
Actualidade Religiosa 48"

A SANTA SÉ E A RÚSSIA
por L. DE CASTRO

A visita de Podgnorny, presidente do Soviete Supremo — o equi-


valente a Chefe do Estado Soviético — ao Papa Paulo VI, efectuada
no dia 30 de Janeiro passado, veio naturalmente chamar a atençção
para as relações entoe a U.R.S.S. e a Igreja Católica.
Antes, porém, de nos referirmos a essa visita, ao seu significado
e consequências práticas, apresentemos ao menos uma ideia muito
sumária das relações entre a Rússia e Roma no passado, a qual nos
ajude a compreender melhor a situação actual e a .prever o futuro.
Ôs territórios actuais da Rússia europeia foram evangelizados erii
época relativamente tardia, sobretudo por monges missionários enviados
por Constantinopla, que lhes mandava também Bispos para regerem
as novas cristandades. Pelo século IX-X, o sul, que formava o ducado
de Kiev, estava praticamente convertido à fé cristã, sob a dependência
dos Patriarcas de Constantinopla. Havia também algumas partes evan-
gelizadas por missionários latinos, e directamente dependentes de Roma.
Pouco a pouco a evangelização foi caminhando para o Norte, tendo
pelo séc. XI atingido Moscovo, então povoação sem importância, mas
que por essa altura começava a desenvolver-se e daria origem ao
ducado do mesmo nome, que adquiriria a preponderância, ao mesmo
tempo que Kiev entrava em declínio C1).
Quando em 1054 Constantinopla se separou de Roma, a Igreja
russa continuou na órbita daquela Sé, e foi-se quase insensivelmente
separando do Papado. Sobretudo Kiev e a Ucrânia actual ficaram
ainda algum tempo unidas a Roma. A união sofreu várias vicissitudes,
mas mesmo ali a Igreja russa separada foi-se impondo, não sem que
ficassem sempre alguns núcleos mais ou menos numerosos de cató-
licos, quer latinos quer de rito oriental.
Em 1453 os turcos tomaram Constantinopla, e terminou assim
o império do Oriente. O Patriarcado daquela cidade entrou também

(!) Um bom resumo das relações entne a Santa Sé e Moscovo, pode


ver-se em artigo de G. - A. Zaniri, «L'Ami du Ctergé», n." 2, 3 e 4 de 1967.
ACTUALIDADE RELIGIOSA 327

em decadência. 0 $ czares da Rússia sonharam então com assumir o


•papel dos antigos imperadores romanos do Ocidente e do Oriente. E por
sua vez os Metropolitâs de Moscovo pretenderam alcançar a chefia de
todos os ortodoxos, ou mesmo de todas as Igrejas cristãs. Já em 1492
o Metropolita daquela cidade escrevia no cânon pascal estas palavras,
muitas vezes depois repetidas : «Duas Romãs caíram; a terceira é
Moscovo, e não haverá quarta».
Admitia, assim, um princípio, outrora muito caro aos bizantinos,
e que haveria de estar na base da cisão entre Constantinopla e Roma.
Os bizantinos, de facto, alegavam que a supremacia da Sé de Roma
se devia, não ao facto de os Papas serem os sucessores de S. Pedro,
mas por ali se encontrar então a capital do Império. Caído pois o
império do Ocidente, a supremacia na Igreja devia passar para o Bispo
da nova cidade imperial, Constantinopla, a nova Roma, como a cha-
mara também o seu fundador, Constantino. Agora, os Metropolitâs
de Moscovo, secundados ou instigados pelos czares, completavam o
raciocínio : o império passou de Roma e de Constantinopla para Mos-
covo, a terceira Roma; logo também com ele deve passar o poder
espiritual, ou a supremacia na Igreja. E acrescentavam mesmo que
nunca acabaria o império moscovita, nem consequentemente o primado
da sua sé, por outras palavras não haveria quarta Roma!
E m conformidade com esta ideia, em 1589 Bóris Godounov, que
então dominava em Moscovo, conseguiu que o Patriarca de Constan-
tinopla Jeremias Tranos elevasse a sé daquela cidade à dignidade
patriarcal. Sobretudo desde então, os Patriarcas de Moscovo, forte-
mente apoiados pelos czares, esforçaram-se por exercer a primazia,
ao menos de influência, sobre toda a Igreja ortodoxa, bastante deca-
dente nas demais regiões, quase todas em território dominado pelos
turcos, onde levava uma vida muito difícil. Nestas condições, com-
preende-se que as fracas relações existentes com os Papas de Roma
se tivessem tornado ainda mais difíceis.
Seguindo uma tradição muito bizantina, os czares exerceram sem-
pre forte influência sobre os patriarcas de Moscovo e sobre toda a
Igreja russa, de que na prática se consideravam chefes.
Em 1721, Pedro-o-Grande, que partilhava do absolutismo então
no auge em toda a Europa, molestado com a pouca docilidade dos
Patriarcas de Moscovo e com a influência que exerciam em toda a
Igreja russa, impediu a eleição de novo Patriarca e substituiu a sua
autoridade pelo Santo Sínodo, assembleia composta de Bispos e sacer-

i
328 L . DE CASTRO-

dotes- nomeados pelo czar, que ficou de facto a ser o verdadeiro chefe
da Igreja russa. Aumentou assim ainda mais a união, ou melhor a sujei-
ção da Igreja ao Estado. Tal situação perseverou, sem grandes mudanças,
até 1917.
Dada esta união, para não dizermos, identificação do Estado com
a Igreja russa, os sequazes de outras religiões, em especial os cató-
licos, foram sempre considerados como maus súbditos do czar, sobre
os quais recaíam contínuas suspeitas, de que resultavam frequentes
perseguições. Só o facto de serem em número bastante reduzido fazia
que não constituíssem problema nacional, e portanto gozassem longos
períodos de certa tolerância. Para mais havia então o costume de os
convertidos ao catolicismo passarem habitualmente para o rito latino,
o que era considerado tripla traição : à fé ortodoxa, à Igreja russa
de rito bizantino, e ao Estado com ela identificado. As raras inter-
venções da Santa Sé na vida dos católicos da Rússia eram muito
vigiadas e dificilmente permitidas.
Em 1769, a imperatriz Catarina II intentou subtrair à jurisdição
do Papa os católicos de rito latino existentes nos seus estados, e man-
dou que Os de rito oriental se integrassem na Igreja russa. De nada
serviram as diligências de Roma para que fossem abolidas tais deter-
minações.
Três anos depois surge a primeira partilha da Polónia. A mesma
imperatriz compromete-se, no tratado que a sancionou, a respeitar a
religião dos seus novos súbditos quase todos católicos (uns 100000
de rito latino e 800 000 de rito oriental) e garantiu à Igreja a proprie-
dade dos templos e demais bens eclesiásticos. Mas pouco depois pre-
tendeu dar aos católicos latinos um Bispo nomeado por ela sem inter-
venção de Roma, e integrar os orientais na Igreja russa. Pio VI enviou
a S. Petersburgo, o Núncio Mons. Archeti, para tentar regularizar a
situação, o que conseguiu só em parte no que respeitava aos católicos
latinos «para os quais foi criada a arquidiocese de Moghilev.
Por ocasião das novas divisões da Polónia {1793 e 1795 ) foram
anexadas à Rússia 6 dioceses latinas e três orientais católicas. A impe-
ratriz procedeu de igual forma, reduzindo, sem contar com a Santa
Sé, a três as dioceses latinas, e pretendendo integrar as orientais na
Igreja russa. O Papa voltou a enviar um emissário a S. Petersburgo,
para solucionar o assunto, mas a morte da imperatriz em 1796, inter-
rompeu as negociações.
O seu filho e sucessor, Paulo I, viajara muito pela Europa, e com
ACTUALIDADE RELIGIOSA 329"

ó desejo de oçidentalizar a Rússia mostrava até simpatias para com à


Igreja Católica, cujo chefe Pio VI visitara em Roma em 1781, durante
uma das suas digressões. Quis que um representante do Papa assistisse à
sua coroação, e ofereceu asilo seguro ao Pontífice, em 1802, nas lutas
•que este travava com Napoleão. Chegou mesmo a pensar na união da
Igreja russa com a de Roma, mas concebida a seu modo, de forma
•que tal tentativa não teve nenhum resultado ou melhor suscitou ainda
maiores desconfianças contra Roma sobretudo nos meios eclesiásticos
ortodoxos. Em 1814, a Rússia, empenhada em intervir na política eu-
ropeia, quis enviar um representante diplomático para Roma, o que
de facto se executou, mas recusou-se a receber em contrapartida um
núncio ou enviado oficial do Papa.
A situação dos católicos na Rússia continuou sempre precária. Em
1845, o czar Nicolau I, em viagem pela Europa, visitou Roma, onde foi
recebido solenemente pelo Papa Gregório XVI. Tratou-se naturalmente
da situação da Igreja católica na Rússia, mas com poucos resultados.
O Papa quis enviar um núncio para S. Petersburgo, mas 0 czar recusou
a proposta, alegando que para tratar os negócios entre as duas cortes
bastava o embaixador que ele mantinha em Roma. No entanto, após
longas e difíceis negociações, assinou-se dois anos depois uma con-
cordata entre a' Santa Sé e a Rússia, ainda que de carácter bastante
restrito, e respeitante quase só aos católicos de rito latino. Esta concor-
data foi repudiada .pela Rússia em 1866, ao mesmo tempo que se
interrompiam as relações diplomáticas, retomadas depois em 1883.
A situação dos católicos continuou difícil. Em 1905 o czar N i -
colau II publicou um «ukase» de tolerância, de que'beneficiaram sobre-
tudo os orientais católicos ainda existentes na Rússia, que até aí quase
tinham de viver na clandestinidade.
Assim se chegou a 1917, ano em que a Revolução russa derrubou
o império, assassinando o czar Nicolau II e quase toda a família im-
perial. Os novos governantes proclamaram a liberdade religiosa, medida
•que a Igreja russa recebeu com alívio, por se julgar por fim libertada
da pesada sujeição aos czares. E assim o Santo Sínodo convocou um
•Concílio Nacional que (restabeleceu o Patriarcado de Moscovo, elegendo
para tal cargo o metropolita Tykhon. Os católicos " também julgaram
terminada a difícil situação em que se encontravam de longa data.
Mas tais esperanças de um lado e do outro depressa se desvaneceram
•com a vitória dos bolchevistas chefiados por Lenine. Imediatamente
começou a perseguição religiosa, não obstante o preceito da nova Còns-
330 L . DE CASTRO-

tituição que garantia a liberdade religiosa e a de não ter nenhuma.


religião, e a de propaganda religiosa e anti-religosa (art.° 13.°).
Havia então na Rússia cerca de 1 630 000 católicos latinos, er
um número difícil de determinar de orientais. Quase todo s eles vieram?
a ser incorporados na Polónia renascida ou nos Estados bálticos tam-
bém tornados independentes, pelo que o número de fiéis a Roma
ficou reduzido a uma minoria bastante pequena, mas que nem
por isso deixou de sofrer feroz perseguição dos novos senhores;
do Kremlin.
Nos anos de 192Í-22 assolou a Rússia, até então o celeiro da E u -
ropa, uma imensa fome, que vitimou segundo se disse alguns milhões
de pessoas. Tal calamidade ficou a dever-se sobretudo às medidas de-
confiscação e socialização das terras cultivadas, que os agricultores ti-
veram de abandonar; sem que se organizasse convenientemente outro'
sistema de exploração agrícola colectiva. Bento XV e o seu sucessor
Pio XI decidiram, não obstante a •perseguição religiosa, levar o possível'
auxílio ao infeliz e esfomeado povo russo. O governo soviético, ainda
que com pouco agrado, viu-se na necessidade de aceitar este auxílio;,
bastânte vultuoso graças à generosidade dos católicos de tòdO' o mundo-
a quem os Pontífices recorreram. Depois de várias negociações, foi'
enviada uma missão pontifícia à Rússia, encarregada de distribuir os'
subsídios. Esta missão encontrou bastantes dificuldades no desempenho--
da sua -missão caritativa, pois a todo o custo se pretendia esconder a
generosidade da Igreja católica, sempre considerada inimiga do povo
russo e agora do comunismo recentemente implantado.
Entretanto na Rússia continuava a perseguição religiosa. Na espe-
rança de melhores dias e que -mais tarde pudessem penetrar naquela
nação missionários, e ainda para poderem trabalhar entre os numerosos-
russos que, para -fugirem ao comunismo, se tinham refugiado no oci-
dente, em Roma e em outras partes fundaram-se diversos institutos:
para a formação d e sacerdotes de rito bizantino-eslavo, em^uso na-,
Igreja russa. Em especial em Roma erigiu-se o Instituto Oriental, de:
que foi primeiro director o jesuíta francês P. d'Herbigny. Este, a p r o -
veitando" uma acalmia na perseguição religiosa e os bons ofícios das
França, conseguiu licença para -visitar a Rússia durante um mês. Antes"
de partir' foi secretamente sagrado bispo, por ordem de Pio XI, pelo-
então núncio em Berlim, Mons. E. Pacelli, futuro Papá Pio XII. Urna-,
vez chegado à Rússia, pôde ali sagrar, também secretamente, 10 bispos;
católiòoSi para atenderem os fiéis perseguidos. As suas actividades,.
ACTUALIDADE RELIGIOSA 331"

porém, despertaram suspeitas das autoridades soviéticas, pelo que teve


de sair apressadamente da Rússia. ;
A perseguição religiosa aumentou de rigor. A 8 de Abril de 1929
o governo soviético promulgou um decreto severíssimo sobre as asso-
ciações de todas as religiões, que tornava quase impossível de realizar
qualquer acto de culto público. Ao mesmo tempo apareciam as asso-
ciações dos sem-Deus, e dos ateus militantes, que pretendiam destruir
não só na Rússia mas em todo o mundo, a ideia de Deus, e consequen-
temente todas as religiões.
Pio XI, vivamente impressionado com tal campanha, dirigiu a 2
de Fevereiro de 1930 uma carta ao Cardeal Pompili, Vigário de Roma,,
em que referia as diligências da Santa Sé, primeiramente em favor da
liberdade religiosa na Rússia, na Conferência intèr-aliada de Génova, e
depois o auxílio enviado pelos católicos e pelo Papa em favor das
vítimas da fome em 1921-22. Recordava em seguida as .perseguições
de que tinham sido vítimas os bispos e sacerdotes, tanto católicos como
ortodoxos, e os leigos que se tinham querido mostrar fiéis a Jesus Cristo..
Deplorava a campanha anti-religiosa empreendida na U.R.S.S., os:
abusos e profanações dos lugares e coisas sagradas, em especial as
cometidas em Moscovo,' por ocasião 'do último Natal, à vista dos di-
plomatas estrangeiros. O Papa já numerosas vezes pedira orações pela
conversão da Rússia, e instituíra uma Comissão especial em Roma
para tratar dos assuntos relativos àquela nação. Por fim, em reparação
de tantos atentados sacrílegos, convidava todo o mundo a orar p o r
esta intenção, pela qual ele mesmo celebraria missa na Basílica de
S. Pedro, no dia de S. José, 19 de Março.
A reacção dos meios ortodoxos russos e sobretudo por parte dos.
dirigentes soviéticos foi violenta. Logo a 10 de Fevereiro seguinte, A.1
Rykov, presidente dos comissários do povo protestou contra esta cam-
panha anti-soviética promovida pelo Papa, declarando que a constituição
russa garantia a liberdade de culto, e acrescentava que se tivesse-
havido abusos neste sentido, seriam imediatamente reprimidos ( m a s
de facto não o foram).
A campanha contra o Vaticano continuou viva especialmente nos
jornais é na rádio, nas escolas e em livros, apresentando-o como aliado
dos países ocidentais e do capitalismo contra o comunismo e â U.R.S.S.
Em 1935, por ocasião da visita a Moscovo de Pierre Lavai, chefe
do Governo Francês, este insinuou a Estaline a conveniência de me-'
332 L. DE CASTRO-

lhorar as relações entre a U.R.S.S. e o Vaticano. Ao que Estaline res-


pondeu : — «Quantas divisões tem o exército do Papa?»
Como a campanha prosseguisse, e o comunismo se espalhasse bas-
tante pelos países ocidentais, Pio XI a 19 de Março de 1937 .publicou
a encíclica «Divini Redemptoris» em que mais uma vez condenava o
comunismo e os seus fundamentos, o ateísmo e o materialismo. Tam-
bém esta encíclica foi violentamente atacada na U.R.S.S., sem no en-
tanto se permitir a divulgação do seu texto.
' Em 1939, morria Pio XI e pouco depois subia ao sólio Pontifício
o Papa Pio XII. Já então se adensavam as nuvens que trariam a se-
gunda grande guerra. Os esforços em favor da paz feitos pelo Papa
ou foram ignorados ou deturpados na U.R.S.S.
Durante a guerra mudou bastante a atitude de Estaline em relação
à Igreja ortodoxa russa. E m 1943 autorizou a eleição de um novo
Patriarca — a que até ali sempre se tinha oposto, depois da morte de
Tyckon em 1925 — e estabeleceu um acordo com a Igreja russa, que
permitiu a esta reorganizar-se, e gozar de um pouco mais de liberdade,
contanto que não se opusesse às medidas do Governo. Nunca se-soube
ao certo a causa desta mudança de atitude : supôs-se que foi sobretudo
para unificar todas as forças nacionais para o terrível esforço de guerra
que se pediu ao povo russo, e ainda para, por meio da Igreja ortodoxa
russa, exercer influência nas outras Igrejas ortodoxas autocéfalas dos
países do leste europeu que entraram para a órbita da U.R.S.S.
Por motivos semelhantes, e talvez sobretudo para agradar aos seus
aliados ocidentais, a quem repugnava muito a perseguição religiosa,
Estaline mais ou menos pela mesma.ocasião começou a mostrar-se menos
hostil à Igreja católica. Parece ter compreendido melhor a profunda
autoridade 'moral que esta gozava em todo o mundo. Em 1944, chegou
mesmo a receber por duas vezes um sacerdote católico americano, de
origem polaca, o P. Olemansky, ao qual se mostrou mais compreensivo
com relação à Igreja católica, ainda que oficialmente se mantinha a
mesma atitude hostil anterior e se continuva a propaganda anti-religiosa.
Entretanto, com as novas fronteiras da Rússia após a segunda'
grande guerra aumentou muito o número de católicos das regiões antes
•da Polónia, Alemanha Oriental, e países bálticos. Ao princípio benefi-
ciaram um pouco da nova atitude do Kremlin com relação à Igreja
ortodoxa e católica. Mas depressa se voltou ao sistema antigo : per-
seguição ou quase extermínio dos católicos latinos, e tentativa de in-
corporar os de rito oriental ha Igreja ortodoxa russa.
ACTUALIDADE RELIGIOSA 333

Numerosos Bispos, sacerdotes e leigos foram presos, deportados


e condenados a trabalhos forçados na Sibéria, pelo único crime de pra-
ticarem a religião ou de defenderem a fé cristã. Entre essas vítimas da
sanha anti-religiosa dos dirigentes soviéticos destaca-se Mons. José
Slipyi, Arcebispo de Lowow (Lemberg), na Ucrânia, antes polaca e
hoje russa, que esteve 18 anos preso e que foi recentemente libertado,
e depois elevado por Paulo VI à dignidade cardinalícia e hoje reside
em Roma. Muitos outros perderam a vida nas prisões.
Bastantes desses tristes episódios da perseguição religiosa foram
relatados na Brotéria, pelo nosso colaborador N. Belina-Podgaestky, que,'
de 1948 a 1962, manteve na nossa revista uma apreciada crónica de
assuntos russos.
À morte de. Estaline, em 1953, as relações entre a U.R.S.S. e R o m a
— se é que de relações se pode falar — pareciam não poder ser piores,
ainda que já se prenunciava alguma melhoria futura.
Como é sabido, no dia 31 de Outubro de 1942,. Pio XII, numa
radiomensagem para Fátima, consagrou o mundo ao Imaculado Cora-
ção de Maria, com uma especial, ainda que discreta, referência à Rússia,
consagração que havia de ratificar pouco depois em acto solene reali-
zado na Basílica de S. Pedro. Mais tarde exortou os Bispos de todo
o mundo a fazerem consagrações semelhantes. E m 7 de Julho de 1952»
pouco antes, portanto, da morte de Estaline, dirigiu ao povo russo a
carta Sacro vergente. armo em que historiava brevemente as relações
entre Roma e Moscovo, no passado, expunha o papel puramente espi-
ritual da actividade da Santa Sé e, em geral, da Igreja católica, lou-
vava a grande fé cristã do povo russo, a sua devoção filial para com
a Santíssima Virgem, e por fim renovava a consagração da Rússia a o
Imaculado Coração de Maria. O documento foi diversamente interpre-
tado, mas não faltou quem nele visse uma discreta tentativa de melhorar
as relações entre a Santa Sé e Moscovo.
De facto, depois do breve interregno' que se seguiu à morte de
Estaline, Krutchev inaugurou a sua política de «coexistência pacífica»
com o Ocidente. Desta política fazia também parte certo abrandamento
da perseguição religiosa. E m 10 de Novembro de 1954, o Comité Cen-
tral do Partido Comunista da U.R.S.S. publicou uma nota, assinada
por Krutchev, em que se repetia a necessidade da propaganda sistemá-
tica do atei a n o científico; mas acrescenta va-se que «não se deviam
ferir os sentimentos religiosos dos crentes e dos ministros do culto».
334 L. DE CASTRO-

E ainda : «As perseguições religiosas só conseguem prejudicar os fins


do partido comunista e acabam por consolidar e reforçar os preconceitos
contra ele». O jornal oficioso «Pravda» recomendava que a propa-
ganda se limitasse ao plano dialéctico marxista-ateísta. Era evidente que
se tinha encetado nova era com algum maior respeito pela liberdade
religiosa consignada na Constituição russa. Gestos semelhantes, eviden-
temente comandados, produziram-se nos demais países do bloco comu-
nista.
Em 1957, o Santo Sínodo da Igreja russa apelou para as Igrejas
ortodoxas dos emigrantes russos para as exortar a unirem-se à Igreja-
-Mãe, «já que tinham passado as causas que provocaram a separação».
Exortavam-se também os russos que' tinham emigrado para o estran-
geiro a regressar à pátria, pois fora concedida amnistia geral. Passaram
também a convidar-se representantes das demais Igrejas cristãs, em es-
pecial ortodoxos, anglicanos, protestantes e mesmo católicos a visitarem
a Igreja russa. Esta em 1958 entrou para o Conselho mundial das
Igrejas, e , f e z - s s representar na reunião de Nova Delhi desse mesmo
ano. Tudo isto, evidentemente, com a aprovação ou até o incentivo
do Governo soviético, sem o qual nenhum passo podia ser dado neste
sentido.
Por isso, se começou a faiar em tentativas de entabular negocia-
ções entre a U. R. S. S. e a Santa Sé, sobre a situação da Igreja cató-
lica tanto na Rússia como nos países satélites.
Quando morreu Pio XII, a 9 de Outubro de 1958, a imprensa e
rádio russas mostraram-se bastante deferentes para com o Pontífice
falecido, facto que contrastava claramente com a atitude, que anterior-
mente sempre tinham evidenciado.
A eleição do novo Papa, como era natural, foi, recebida na Rússia
com prudente expectativa. Quando, pouco depois, l o ã o XXIII anunciou
a convocação da Concílio, a revista do Patriarcado de Moscovo mos-
trou-se bastante reticente com a iniciativa, que dizia ser assunto mera-
mente interno da Igreja de Roma. Pouco a pouco, no entanto, foi
abandonando esta reserva, e seguindo com interesse os trabalhos pre-
paratórios do Concílio e as actividades do Secretariado para a União
dos Cristãos. A Igreja russa veio até a ser a primeira das Igrejas orto-
doxas a enviar observadores ao Concílio. •
Por ocasião do 80.° aniversário de João XXIII, Krutchev enviou-lhe
uma mensagem de felicitações, em que fazia «votos de boa saúde e
de sucesso para o nobre desejo de contribuir para a consolidação da
ACTUALIDADE RELIGIOSA 335

p a z no mundo e para a solução dos problemas internacionais por meio


d e negociações francas».
João XXIII anotou no seu Diário: «Hoje, Krutchev enviou-me
"felicitações pelo meu 80.° aniversário. Pode ser uma ilusão, e é preciso
tomar cuidado.- Mas pode ser também um fio da Providência e não
tenho o direito de o cortar. Deixemos agir o Senhor; deixemo-
-nos conduzir pelo Senhor; deixemos o Senhor decidir e dizer
a última palavra».
Em conformidade com este espírito, o Papa respondeu em tom
muito cordial, julgando que mais valia esquecer as afrontas passadas,
•e olhar só para o possível bem futuro.
A atitude do Governo soviético foi, entretanto, evoluindo no sen-
tido de melhorar as relações com o Vaticano. A imprensa e a rádio
russas, na absoluta dependência do Governo, começaram a tratar com
muito maior consideração, e por vezes até com simpatia, o Papa e
em geral a Igreja católica. Em especial, deram bastante realce às activi-
dades de João XXIII em favor da paz. Quando, em 1 de Março de
1963, os dirigentes da Fundação Baizan propuseram que o prémio in-
ternacional da paz daquele ano fosse atribuído ao Papa João XXIII,
•com surpresa geral os quatro membros russos da comissão internacional
•encarregada de escolher o candidato, votaram unânimemente no Pontí-
fice, declarando ao mesmo tempo o apreço que mereciam ao Governo
soviético as iniciativas de João XXIII em favor da paz.
Poucos dias depois, a 7 de Março, o Papa recebia em audiência
•o genro de Krutchev, director do grande jornal oficioso «Izvestia»,
.acompanhado da mulher.
Enfim, na Páscoa desse mesmo ano, João XXIII publicava a sua
célebre encíclica Pacem in terrvs, sobre a verdadeira paz e as suas
condições. O documento teve no mundo uma ressonância espantosa,
maior talvez que nenhum outro escrito pontifício. -Na Rússia a encíclica
foi bastante aplaudida, o próprio Krutchev, em entrevista concedida ao
jornal italiano II Giorno, reproduzida em toda a imprensa mundial, de-
clarou que João XXIII tinha adoptado uma atitude realista, ao contrário
de alguns dos seus antecessores. Como comunista, não podia admitir
a concepção religiosa em que se baseava a encíclica, mas reconhecia
<que ela constituía um grande contributo para a causa da paz.
A imprensa, a rádio e a televisão soviéticas,- falaram bastante elo-
•giosamente da encíclica, e pouco depois, quando faleceu João XXIII,
prestaram homenagens à sua actuação e propósitos. O Patriarca de Mos-
336 L . DE CASTRO-

covo enviou uma delegação aos funerais do Pontífice ,e à coroação do


novo Papa.
Precisamente na mesma altura celebravam-se em Moscovo as festas
jubilares do 50.° aniversário da consagração episcopal do Patriarca
Aleixo, com a aprovação discreta do Kremlin, que contrastava com a
atitude hostil anterior. Um dos primeiros actos de Paulo VI foi con-
firmar o envio duma delegação pontifícia às festas jubilares, composta
pelo Bispo de Lausana e Friburgo (Suíça) e pelo P. Dumont, director
do centro de estudos ecuménicos Istina. A delegação papal foi rece-
bida muito bem em Moscovo, não só pelo Patriarca Aleixo e outros
dignitários da Igreja russa — outrora sempre muito hostis a Roma —,
mas até pelas autoridades soviéticas.
A visita de Paulo VI a Jerusalém e o encontro com o Patriarca
Atenágoras, de Constantinopla, mereceu também a aprovação do Pa-
triarca Aleixo de Moscovo. Este declarou mesmo que, se a sua idade
e saúde lho permitissem, teria muito gosto de também empreender
à mesma peregrinação e ali se encontrar com Paulo VI e Ate-
nágoras.
A 4 de Outubro de 1965, por ocasião da sua visita à ONU, Pau-
lo VI teve ensejo de se encontrar por duas vezes com o Ministro
dos Negócios Estrangeiros da U.R.S.S., Gromyko. A primeira, nos cum-
primentos protocolares que lhe apresentaram todos os chefes de missão
da ONU. Depois, numa breve entrevista, realizada no gabinete
de U Thant, quando o Papa recebeu individualmente os repre-
sentantes das nações que são membros permanentes do Conselho
de Segurança.
No mês de Abril seguinte, o mesmo Gromyko veio a Roma e
pediu para ser recebido por Paulo VI. O Osservatore Romano de 28 dè
Abril esclarecia que esta audiência continuava a que tivera lugar por
ocasião da visita do Papa à ONU. De ambas as vezes se tratou sobre-
tudo das condições para a verdadeira paz no mundo, e também, dis-
cretamente, da situação dos católicos na Rússia e países satélites.
De facto, nos últimos tempos tem havido certas negociações entre
os países comunistas europeus e a Santa Sé. A Brotéria ainda no mês
de Janeiro passado se referiu às negociações e acordos que se reali-
zaram com a Hungria ( 1 5 de Setembro de 1964) e com a Jugoslávia
( 2 5 de Junho de 1966). No passado mês de Fevereiro, o principaf
negociador deste acordos, Mons. Casaroli, foi também a Varsóvia, na-
turalmente para negociações e acordos semelhantes .
ACTUALIDADE RELIGIOSA 337"

É neste clima que se situa a visita de Podgnorny ao Papa. H á alguns-


anos tal visita era completamente inconcebível : por certo nenhum
governante soviético quereria solicitá-la, nem estamos certos d e que o=
Sumo Pontífice anuísse ao pedido, ao menos sem garantias prévias de-
melhoria na situação dos católicos na U.R.S.S.
Como sublinharam o Osservatore Romano e o comunicado de im-
prensa do Vaticano, não se tratava de visita oficial, mas simplesmente
particular, «privadíssima». Não decorreu, .portanto, com o cerimoniaií
solene usado nas recepções aos Chefes de Estado que visitam o Papa.
Este facto talvez tivesse contribuído para dar maior intimidade à vi-
sita e, de parte a parte, se ter podido falar com mais franqueza. Por ter
adoecido não pôde encontrar-se presente o Vice-Ministro dos Negócios-
Estrangeiros da U.R.S.S., que acompanhou o Presidente a Roma, .pelo
que só participaram na audiência o embaixador da U. R. S. S., junto do-
Quirinal, e Ministro Conselheiro Medvesdovski. Junto do Papa estavam
o Cardeal Cicognani, Secretário de Estado, Mons. Mário Brini, Secre-
tário da S. Congregação Oriental, e Mons. Casaroli, da Secretaria de-
Estado. No fim da audiência, foram apresentados ao Papa os restantes-,
membros da Comitiva de Podgnorny. O Papa ofereceu ao visitante a
reprodução monumental da obra «Códice Atlântico di Leonardo da
Vinci» com belas reproduções das pinturas e desenhos do grande ar-
tista. Depois, o Presidente e comitiva visitaram a Capela Sistina, algu-
mas salas do Museu Vaticano e a Basílica de S. Pedro.
Não se publicou nenhum comunicado sobre os assuntos tratados;
na visita, nem de uma parte e outra se fizeram declarações. Apenas;
o Osservatore Romano na breve descrição da visita escreveu : «No-
decurso da conversação, na qual se tratou amplamente dos problemas;
relativos à manutenção da paz e ao desenvolvimento de melhores r e -
lações entre os povos, o Santo Padre falou também ao Senhor Presi-
dente Podgnorny acerca dos problemas respeitantes à vida religiosa e-
presença da Igreja Católica nos territórios da União Soviética».
Algum jornal chegou mesmo a sugerir se não teria sido posta a
hipótese de relações oficiosas entre a U. R. S. S. e a Santa Sé, do tipo
das estabelecidas com a Jugoslávia,
Como é natural, não faltou quem ficasse surpreendido com a au-
diência concedida pelo Papa ao Presidente Podgnorny. Paulo VI, porém,
já dera antecipadamente a resposta no discurso proferido na habitual
audiência concedida ao Corpo diplomático por ocasião do Natal de-
1965 : «•Estamos disposto, declarava o Pontífice, a tentar todas as d i -
338 L. DE CASTRO-

ligências — mesmo fora das formas protocolares habitualmente rece-


bidas — em vista da manutenção e do progresso duma. justa paz entre
os homens e entre os povos».
O mesmo Pontífice, escrevera já na sua primeira encíclica Eccleskan
suam : «Recordando que o nosso Predecessor de veneranda memória,
• o Papa João XXIII escreveu na encíclica Pficem in terris, que as dou-
trinas de tais movimentos (comunistas ateus), uma vez elaboradas e
•definidas, se mantêm sempre as mesmas, mas que esses movimentos não
podem deixar de evoluir nem logram subtrair-se a mudanças profundas
(n.°- 54), não perdemos a esperança de que eles venham um dia a
entabular com a Igreja um colóquio positivo, diferente do que ele pode-
ria ser actualmente para nós». Não foram realmente proféticas estas
palavras?
Mas não nos devemos fazer demasiadas ilusões. O famoso rela-
tório Ilytchev, apresentado e aprovado em Novembro de 1964 pela
Comissão ideológica do Comité Central do Partido Comunista da
U.R.S.S., e a que a Brotéria sé referiu oportunamente, não deixa lugar
a dúvidas. Nele descrevia-se 'pormenorizadamente a luta anti-religiosa
nos últimos anos, as suas vicissitudes e motivos da sua relativa
ineficácia. Ao mesmo tempo estabeleciam-se planos para o futuro,
que notícias posteriores nos asseguram terem sido postos em prática,
-com a tenacidade e exactidão que os comunistas costumam empregar
na execução dos planos aprovados. A luta trava-se agora sobretudo
no campo ideológico e «científico». Haverá talvez menos perseguição
religiosa violenta; mas o combate pela extinção da ideia de Deus,
•sobretudo entre a juventude, continua como antes.
Nestas condições será possível a «coexistência pacífica» com a
Igreja Católica? Esta evolução nítida que se tem verificado nos últimos
.anos em matéria religiosa, será o primeiro passo para a conversão da
Rússia que Nossa Senhora prometeu em Fátima, se se realizassem de-
terminadas condições?
Horizonte do Mundo

GLOBALISMO AMERICANO

por VÍTOR REGORIGE

Cumpriram-se no dia 6 de Fevereiro p. p., dois anos de «escalada»


aérea dos Estados Unidos ao Vietnam do Norte. Durante esse período,
•a opinião mundial e a opinião norte-americana, sobretudo, viram-se
polarizadas por esse facto novo de guerra parcelar. Mês após mês,
semana após semana, dia após dia, enquanto as esquadrilhas de aviões
iam penetrando cada vez mais fundo no espaço inimigo, destruindo-lhe
.as comunicações, detectando os movimentos das suas tropas e aniqui-
lando a sua indústria de fresca data, e enquanto os navios da famosa
7." esquadra vigiavam e protegiam os desembarques cada vez mais
numerosos e maciços de forças terrestres, um drama de consciência ia
alastrando na mentalidade norte-americana. Inspirado pelos meios mais
•cultos e responsáveis as igrejas e as universidades — esse drama
tem aumentado à medida que a resistência do Vietnam do Norte se
tem mantido mais heróica. No plano político, esse drama está a tra-
duzir-se numa certa vontade de criar um isolacionismo de nova espécie,
réplica actualizada da história dos Estados Unidos até há uns vinte
•e cinco anos atrás. Vingará essa vontade de que é intérprete, além de
vários outros, um Walter Lippman?
De facto, o fenómeno vietnamita tornou-se um «test» do globa-
lismo americano. Da sua impossibilidade — moral — de ganhar a
guerra ràpidamente e da sua dificuldade de fazer a paz. Poderia ser
de outra maneira? Claro está que poderia. O mal está em entrar por
certos caminhos que parecem fáceis, em adoptar certos métodos que
parecem óbvios dados os esquemas da «política de poderio» em que
•os responsáveis dos dois lados se movem. Mas vamos devagar.
O globalismo americano nasceu à raiz da última Guerra mundial:
De repente, como de um salto, os Estados Unidos viram-se alçapre-
mados a nação piloto do Globo. Sem aquele vagaroso caminhar por
•entre dificuldades que deu ao Senado da República Romana a pru-
*dênoia e a sabedoria indispensáveis à administração de um vasto im-
pério, diverso pelas raças, as religiões, os níveis económicos e culturais,
340 VÍTOR RISGOKIGE:

c sem aquele lento relacionar-se e interrelacionar-se com outros povos:


que deu ao Parlamento inglês, durante mais de dois séculos e meio,,
a plasticidade, a energia e a consciência do .possível que os poli-
tólogos e historiadores lhe reconhecem. Suprir a experiência histórica:,
pela ciência incipiente que é a sociologia das relações internacionais,
é certamente, na conjuntura, alguma coisa. Mas não basta. Tem faltado,.
durante os últimos vinte e cinco anos, aos Estados Unidos a política,
para os seus meios como a outros faltam os meios para a sua política.
Ora o axioma inglês continua a ser válido : Leaclers_ must lead..
Os dirigentes devem, de facto, dirigir. Mas dirigir um mundo, tão vasto,
tão complexo, tão difícil, um mundo, a um tempo, tão antigo e tão*
novo, um mundo em que os jovens Estados proliferam, não sendo-
alguns deles sequer nações, e em que os velhos, justamente .porque
perderam a hegemonia, se mostram ciosos da sua independência até
à susceptibilidade, um mundo profundamente dividido por -'interesses,
por ideologias, por -tradições e pela .vontade de mando, dirigir um tal*
mundo constitui, quase tarefa sobre-humana. E os líderes americanos,
relativamente à vontade, n o tempo «áureo» da guerra fria, quando
podiam dividir o Globo em branco e preto, bom e mau, parece não se~
encontrarem,, como tais, num universo político em que todos os gatos;
são pardos.
Com uma espantosa capacidade de resposta aos desafios concretos
que os inimigos lhes lançam — capacidade que lhes é outorgada pelos,
meios de prodígio de que o seu país pode dispor — esses líderes vêem-se
quase desamparados quando se trata, não de realizar no imediato, mas-
de tomar grandes iniciativas, a um tempo audaciosas e exequíveis, de-
formular grandes ideias, que não sejam nem utopias descabeladas nem*
prepotências mal veladas, de esboçar as linhas de um mundo f u t u r o
de onde, na eficácia necessária, estejam ausentes tanto o despotismo
universal como o imperialismo que tem como limites o «espaço infi-
nito».
A política americana dos últimos vinte anos tem oscilado entre-
o «poderio» e o «auxílio». Com mais frequência, a balança tem-se
inclinado, decisivamente, para o primeiro membro : os teóricos mais-
seguidos — i. é, os sociólogos — são os que formulam a sua doutrina;:
a linha do roil back ou a linha do containment lançam de pólo a pólo-
uma política servida por mais de 2 000 'bases, por esquadras que d o -
minam os mares, por mísseis de vária espécie prontos a intervir ao?
primeiro sinal, por forças económicas que comandam ou controlam;
GLOBALISMO AMERICANO 341"-

•os grandes mercados do Mundo Livre e cada vez estendem mais o


seu império ao Terceiro Mundo. Porém, mesmo no segundo caso, o
-auxílio tem sido,- as mais das vezes, ou improvisado, ou intermitente,
o u interessado ou dado na relação de esmola de rico a pobre, ou for-
.necido em pura perda. As sucessivas «administrações» que têm pas-
sado pela Casa Branca — com raras e honrosas excepções — não têm
sabido ou não têm podido compreender que a forma de um futuro
.aceitável para o género humano depende muito mais de um processo
social que de uma política de poderio.
É claro que esta política não tem dependido só dos que a traçam
ou se lhe submetem. Tem dependido também, em larga escala, do
-outro Super-grande com quem eles têm dividido os destinos do Mundo,
por igual política de domínio. Um domínio que, para exercer-se, tem
recorrido ao processo tradicional das esferas de influência e a outros
processos, mais subtis e mais recentes, que os vocábulos «pressão» e.
«subversão» podem resumir com certa verosimilhança. Um domínio.,
porém, ao qual o regime da «dissuasão recíproca» tira não pouco da
sua temível eficácia.
É graças a esse regime, que melhor se chamaria de «aliança da
negatividade» ou da «neutralização do terror» e que se traduz pela
corrida alucinada .aos armamentos nucleares, é graças a esse regime-
-qué têm sido possíveis o cisma si-no-soviético, o «policentrismo» socia-
lista, a «rebelião» do general de Gaulle e o simples facto, apesar do
imperialismo dos dois Super-grandes, da subsistência e do reconheci-
:mento formal da soberania de tantos Estados nacionais. A" «sateliti-
zação» é hoje, volvidos mais de vinte anos sobre Yalta, menos forte
-do que nunca. A «Yalta .permanente» que estava no espírito dos «con-
ferencista» da Crimeia, há pouco mais de duas décadas, sofreu o
:gelo da «guerra fria», começada em 1947 e praticamente só acabada
-com a crise de Cuba no Outono de 1962. Reinstituída, de modo tácito,
-a partir de então, jamais voltou a conhecer os primitivos tempos idílicos.

Qual é, hoje, o alcance do globalismo americano? Quando, a


-6 d e Agosto de 1945, a explosão da primeira bomba A sobre Hiros-
hima alumiou o Mundo de uma luz sinistra, o Mundo teve possibilidade
d e pressentir nesse facto que seria seu senhor virtual aquele que de-
tivesse o engenho (terrífico. Confiados nesse monopólio, os Estados
Unidos puderam dar-se ao luxo de cometer vários disparates, não sendo
•o menor deles o abandono, quase tranquilo, da China continental aos
342 VÍTOR REGORIGE.

guerrilheiros de Mao-Tse-Tung. Abandono trágico, como a história veio-


a demonstrar: Abandono que era o desmentido mais categórico da
«doutrina Truman», formulada a 12 de Março de 1947 e em virtude
da qual os Estados Unidos se comprometiam a «apoiar os povos livres-
que resistem às tentativas de subjugação pelas armas da parte de mi-
norias ou por pressão do exterior. Ss vacilarmos — acrescentava o
seu autor — poremos em perigo a paz do mundo e, certamente, pore-
mos em perigo a paz da nossa própria nação».
Cinco anos passados sobre Hiroshima, em 1950, a . Rússia apa-
recia também como detentora da arma temível. Conscientes do perigo-
que representa o novo elemento, os políticos e estrategas de Washington
multiplicam os esforços por" estabelecer em torno do bloco comunista
um verdadeiro cerco que tornasse vulneráveis os seus centros vitais
aos aviões das U. S. Air Forces. Reforço da iNATO, erguida em Abril'
de 1949 e estabelecimento de novas bases, pactos e alianças : SEATO,
a 4 de Setembro de 1954; entrada parcial, nos planos económico e-
militar, para o Pacto de Bagdade, em Maio e Junho de 1957; criação
da CENTO, a 21 de Agosto de 1959.
Enquanto o globalismo americano assim se expandia, o Alto
Comando soviético punha em marcha uma nova arma destinada a
tomar mais vulnerável o território dos Estados Unidos às bombas A
e H do que o era o território da UtRSS aos aviões das U. S. A i r
Forces: os foguetões. A 15 de Novembro de 1957, N. S. Krutchev,
ao tempo apenas Secretário Geral do PCUS convocava o representante
da United Press em Moscovo- para lhe declarar o seguinte :

«A iUiRSS possuí uma superioridade absoluta em matéria de foguetões,


digam o que disserem os militares americanos. ÍPodemos aniquilar as bases
da Europa, da Ásia e dai África. Os aviões estão fora de moda. Quantos
bombardeiros ultrapassariam as nossas defesas para 1 ançarem as suas bombas?
Os nossos engenhos fcalfeticos1, pelo con^ário, acertam em cheio. Os nossos
submarinos podem bloquear os porto® da- América e bombardear o interior-
do território. Os centros vitais americanos são tão vulneráveis como as bases
da NATO».

Fanfarranada do Secretário Geral ? Na hipótese, não o era. E o •


Strategic Air Command compreendeu que o desequilíbrio do terror se
tinha operado contra os Estados Unidos. Por isso, a ordem surgiu,
terminante, para que houvesse aviões a patrulhar, de contínuo; o e s -
paço aéreo. Mais. Com -a espantosa capacidade: de resposta que pos--
GLOBALISMO AMERICANO 343"-

suem, os americanos dedicaram-se â (recuperar o enorme atraso em-


matéria d e estratégia nuclear que os distanciava dos sovietes. E no'
espaço de cinco anos, quase dia por dia, eles atingiram a superiori-
dade díe quatro para um. Em fins de Outubro de 1962, o mesmo
Krutchev que em 15 de Novembro fazia a sensacional revelação ao-
Mundo, dava ordens de enfeixar os mísseis expedidos para Cuba.
E daí por diante nunca mais os dois poderios se enfrentaram. O
globalismo americano pôde continuar o seu caminho : tentando novas
vias sob a administração Kennedy; retornando ao roll back republicano-
e ao containmení democrático, sob' a administração Johnson.
Hoje, a necessidade de seguir ruímos diferentes faz-se sentir, pre-
mente. São dos americanos mais lúcidos os primeiros a dizê-lo. Mas
quais? Quais se, entretanto, a guerra continua feroz no Vietname?
Quais se, um pouco por toda a parte, os Estados Unidos impõem
restriçõeís à livre expansão dos povos, tanto no plano demográfico como-
no plano económico?
Seria mau para a paz do Mundo e mau para os ^próprios Estados
Uniidos que, numa viragem súbita, ele>s se pusessem a seguir a via
neo-isolacionista que alguns dos seus politólogos e jornalistas preco-
nizam. O globalismo americano tornou-se demasiado efectivo para que-
a sua eradicação não acarretasse efeitos funestos. É preferível que
exista uma certa «ordem», embora defeituosa, a que não exista ordem
nenhuma. Dada a ineficácia da ONU quando se trata de questões de
maior momento — as questões de Berlim, da Hungria, de Cuba, do
Vietnam, etc. —, aos Estados Unidos tem Competido assumir o papel:
de polícia. Papel nada fácil como vários exemplos demonstram que-
todos culminam no caso vietnamita.
Essa dificuldade provém de várias causas, avultando entre todas
a inexperiência americana das relações internacionais complexas e a
vontade de 'transpor para o plano mundial a história das realidades e
dos comportamentos dentro da União. Daí a espécie de imperialismo;
que o seu globalismo tem revestido aos olhos de tantos.
De facto, nesse globalismo tem havido de tudo. Tem havido pre-
potências, esbulhos e atitudes maltusianas muito graves e tem havido
idealismo a rodos. Um idealismo muito americano e muito dogmático,
por vezes altruísta e não pouco ingénuo, que pensa a ainerican way
of life a melhor coisa do Mundo e que deseja ampliá-la às dimensões-
do mesmo Mundo.
Consequentemente — parece — chegou para o globalismo a m e -
344 — RICARDO SILVA

.ricano a hora não da supressão mas da revisão e da transformação.


Essa (transformação ou será de ordem política ou não passará de uma
sombra. O mundo de hoje deixou de ter a simplicidade de há vinte
.anos atrás. Então a resposta para as dificuldades podia situar-se a um
nível principalmente técnico. A doutrina Truman, o plano Marshall,
.a N A T O e quejandos podiam considerar-se respostas satisfatórias para
o momento. Nelas a leadersMp americana aparecia incontestada e in-
contestável. No seu exercício, os dirigentes de Washington não se viam
seriamente perturbados por nenhuma intervenção que parecesse es-
tranha.
Mas os tempos correram, o Mundo cresceu e tornou-se incompa-
ràvelmente mais complexo. Conduzi-lo como há vinte anos deixou de
:ser viável. A leadersMp, indispensável, não pode continuar desacompa-
nhada de uma real purtmership. O presidente Kennedy foi o primeiro
a dar-se conta dessa impossibilidade. A sua passagem, demasiado rá-
pida, pela Casa Branca e a sua acção globalista, por vezes contraditória,
não consentiram o desbravamento do terreno para os novos caminhos
• que se impunham.

Vida económica

UNIVERSIDADE, DESENVOLVIMENTO E PLANEAMENTO

por RICARDO SILVA

No fim do ano corrente completa-se o período de vigência de mais


um plano de fomento, oficialmente denominado Plano Intercalar de
Fomento e cuja duração foi de 3 anos.
E m 1968 terá início um novo plano, o III Plano de Fomento,
•cuja acção se estenderá no tempo por um período de mais 6 anos.
Seria pois inteiramente justificado, que se abordassem aqui alguns
-dos problemas que muito naturalmente preocuparão neste momento
os interessados por assuntos de natureza económico-social, nomeada-
mente os que se prendem ao desenvolvimento do País e que resumo
<em • d uas • perguntas :
UNIVERSIDADE DESENVOLVIMENTO E PLANEAMENTO 345

— o que foi o Plano Intercalar do ponto de vista da sua realização?


— o que é o III Plano de Fomento, quais as suas opções funda-
mentais com vista ao desenvolvimento económico e social do País?

Abandonando hoje porém qualquer destas perspectivas, procurarei


analisar um outro aspecto cuja oportunidade pela mesma razão parece
incontestável, e que se prende com o papel da Universidade" em face
do binómio desenvolvimento - planeamento, num país como Portugal.
Para compreender claramente a missão da Universidade no nosso
país, cujo processo de desenvolvimento entrou deliberadamente numa
via de planeamento, é necessário primeiramente definir alguns termos
e conceitos.
- Não me alongarei sobre o próprio conceito de Universidade a não
ser para afirmar que ela não pode restringir-se a um estabelecimento
de ensino cuja tarefa seja formar, embora ao mais alto nível, os
recursos humanos de que o país necessita. Esta é sem dúvida uma das
suas missões directas mais importantes, mas a Universidade, para servir
de facto o país tem de ser muito mais do que isto. Ela é ou deveria
ser, a inteligência da Nação, o centro da actividade intelectual, ondeo
se processa e donde irradia a renovação da vida científica, social, cul-
tural e política do país; o centro do pensamento onde se concentra
o esforço de interpretação da própria sociedade quer pelo estudo do
sentido da sua história, quer contribuindo para revelar a sua imagem
futura.
Em suma, se concebermos o processo de aperfeiçoamento da vida
em sociedade como um caminhar continuado no sentido da liberdade
e da razão, então a Universidade será a sede, por excelência, dessa
razão e dessa liberdade.
O segundo conceito exige uma definição mais rigorosa, uma vez
que dele se tem usado e abusado : trata-se do de desenvolvimento.
Cada fase da vida duma sociedade se caracteriza pela existência de
um problema fundamental, produto de uma dada situação histórica
e cuja solução é indispensável para que a sociedade possa prosseguir
o seu caminho realizando-se enquanto tal. Creio, e não.julgo que por
simples deformação profissional que o grande problema histórico qué
se põe à nossa época é o dó desenvolvimento. Outros terão sidò ós
problemas fundamentais em épocas passadas tais como : a indepen-
dência política, a constituição jurídica dum Estado e a sua organização
constitucional, a separação da Igreja e do Estado, a participação do
346 — RICARDO SILVA

cidadão na vida política, o conflito ideológico entre capitalismo e so-


cialismo, etc. O que não significa que alguns deles não tenham ainda
interesse.
Acontece porém que nem sempre se encara de frente o fulcro da
nossa verdadeira problemática. Este gira em torno da expansão da eco-
nomia nacional, do problema da agricultura, do processo inflacionista
em aceleràção, do desemprego e das perspectivas das nossas exporta-
ções. Tais são as questões que estão na base do desenvolvimento do
nosso país. Resolvê-las tornou-se uma necessidade fundamental para
virmos a constituir uma sociedade moderna, mais humana e mais di-
nâmica.
Consideremos então os problemas da nossa época segundo a óptica
que nos preocupa, isto é, em função da imagem que temos do tipo
de sociedade que aspiramos ver surgir. Concebemos o desenvolvimento
económico não como um fim em si mas como a base material neces-
sária à transformação de oertas condições e ao estabelecimento duma
sociedade dinâmica, isto é, capaz de oferecer mais numerosas e justas
oportunidades a todos os seus membros.
^ Em resumo o desenvolvimento será algo de muito mais vasto do
que o simples crescimento ou a mera expansão económica. Se hou-
vesse que sintetizar o seu conceito diria que se trata de um verdadeiro,
de um autêntico processo de transformação social deliberada, com
objectivos definidos e amplamente aceites pela comunidade a quem
se dirige.
Foi a necessidade de proceder a modificações e ajustamentos na
política económica e social com vista a atingir tais objectivos que levou
à criação dum instrumento racional de política de desenvolvimento : o
plano. O plano, dada a sua inspiração de fundo, não pode ser tido,
entre nós, como uma simples técnica administrativa, mas antes com-
preendido como um instrumento de acção racional para promover mo-
dificações sociais e imprimir-lhes uma direcção bem definida. Este
instrumento só será porém eficaz na medida em que os objectivos do
desenvolvimento sejam definidos com precisão, os meios utilizados para
atingir esses objectivos escolhidos com cuidado, as condições à partida
claramente estabelecidas, instaurada uma organização institucional apro-
priada e preparados os recursos humanos capazes de levar a bom termo
a tarefa do desenvolvimento planeado.
Nesta perspectiva pode resumir-se do seguinte modo a nossa actual
problemática :
UNIVERSIDADE DESENVOLVIMENTO E PLANEAMENTO 347

a) a sociedade portuguesa tomou consciência do novo problema


que se lhe põe;
b) vem-se definindo a imagem do novo tipo de sociedade a que
todos aspiram;
c) existe uma nova concepção das possibilidades de acção da
sociedade sobre a própria história;
d) dispõe-se de um novo meio de agir na sociedade : o planea-
mento ;
e) esta acção de reorientação social exige realizadores.

Esta problemática, de certo modo recente, que caracteriza actual-


mente o País dmpõe-se uma série de novas e imperiosas tarefas que
é necessário empreender urgentemente ou que, eventualmente iniciadas,
devem ser fortemente aceleradas.
Os objectivos concretos aos quais a sociedade portugeusa aspira
devem ser definidos de maneira muito precisa. Tal definição não é
tarefa, simples nem fácil pois que é necessária uma autêntica intros-
pecção social para que se revelem à própria Comunidade as tendências
de que esta não tem consciência.
Uma vez que os fins não são independentes dos meios mas pelo
contrário lhes estão estreitamente associados será necessário estudar
uma série de alternativas no que respeita aos meios de acção a utili-
zar, às formas de organização mais apropriadas, aos tipos de institui-
ções mais adaptadas e por fim às diferentes opções que se oferecem.
Esta tentativa de escolha dos meios de acção social levanta porém
não somente problemas práticos como põe em jogo conhecimentos
teóricos e de base. Uma vez que o próprio conceito duma acção
social deliberada por parte do Estado no sentido de transformar a
sociedade, é pràticamente novo, tendo-se manifestado espontâneamente
na história, as ciências sociais não se encontram preparadas para in-
terpretar correctamente os elementos motoros duma tal evolução nem
consequentemente para orientar uma política de desenvolvimento e autên-
tica transformação social. A economia, e apenas em parte, faz excepção
mas raras são ainda as orientações práticas que para este efeito podem
ser recolhidas da sociologia, das ciências políticas ou das outras ciências
sociais.
No entanto, apesar da falta de maturidade que ainda se revela neste
ramo da ciência é um facto que entre nós se processa há alguns anos
um esforço de desenvolvimento planeado. Nestes termos e para evitar
348 — RICARDO SILVA

que um pragmatismo se instale neste domínio, apesar da limitação dos


nossos conhecimentos, é necessário proporcionar aos indivíduos já res-
ponsáveis, ou que o venham a ser por esse esforço, a formação e a
técnica indispensáveis.
Não se trata só da preparação de planificadores a nível nacional
ou regional, mas principalmente de dar a conhecer os conceitos ele-
mentares do desenvolvimento planeado incutindo-os nas diferentes
unidades de acção muito particularmente ao nível do Estado e seus
diferentes serviços e ao nível da empresa, não esquecendo também a
sua introdução na elaboração dos programas sociais, nacionais ou re-
gionais.
E mais ainda, que o conhecimento dos conceitos e das técnicas
do planeamento não fique restrito apena s àqueles que profissionalmente
os devem utilizar na elaboração ou execução da política de desenvol-
vimento nos diferentes níveis, sectores ou unidades de acção.
É necessário, impõe-se mesmo como condição indispensável de
êxito, que a opinião pública adquira as noções de base e as ideias fun-
damentais sobre o desenvolvimento e respectivo planeamento, para
poder compreender e julgar com algum conhecimento de causa as gran-
des opções da política económica contemporânea. De facto, a formação
duma opinião pública consciente no seu julgamento é por si uma con-
dição importante, mesmo imprescindível, para elevar o nível de raciona-
lização e de responsabilidade que em definitivo é determinante.
A enumeração que acaba de fazer-se relativa às novas tarefas que
há a enfrentar em resposta ao grande problema da hora presente pode
resumir-se a três aspectos fundamentais : a investigação, o ensino, e a
criação do que poderíamos chamar «o espírito do serviço público».
Que organismo da sociedade mais qualificado que a Universi-
dade para levar a efeito essa tarefa? Será possível reunir, pelo menos
teòricamente, um maior número de experiências, um conjunto mais
vasto de especialistas, de homens de ciência e humanistas; uma atitude
mais independente, .imparcial, honesta, desinteressada e aberta, e uma
achega mais científica, mais racional e mais inteligente para o problema
do desenvolvimento? Onde então, senão no seio do órgão da socie-
dade que tem por missão inculcar o respeito pela verdade, armar-se
de coragem intelectual necessária à busca dessa mesma verdade e fazer
prova de uma energia moral suficiente para a exprimir?
São estes os imperativos da vida de investigação e de ensino, os
pilares sobre os quais assenta a verdadeira Universidade. São aquelas
UNIVERSIDADE DESENVOLVIMENTO E PLANEAMENTO 349

as condições que a Universidade deve possuir para preencher a sua


missão fundamental : assumir a direcção intelectual duma nação, quer
dizer, tirar da sociedade, revelando-lhe os objectivos para os quais tende
e as vias que se lhe oferecem, contribuindo assim para a racionalização
dos processos governativos. Creio pois que se as nossas Universidades
não conseguem desempenhar eficazmente esta tarefa mas antes se li-
mitam a produzir técnicos mais ou menos bem qualificados, não rea-
lizam parte da sua missão fundamental.
Este facto acarreta um risco de que devemos estar conscientes. Se
no meio universitário não se forma uma corrente original responsabili-
zada e consciente das nossas aspirações, das nossas realidades, das
nossas tradições, dos nossos hábitos de vida, é de facto bem reduzida
a possibilidade de o desenvolvimento da sociedade portuguesa se processar
segundo as vias e com os objectivos que possamos considerar como
autênticos, isto é, com os quais nos possamos plenamente identificar
enquanto comunidade nacional.
Não se trata, é evidente, de encorajar uma atitude de ostracismo
intelectual, de recusar a ajuda generosa de outros países cujas expe-
riências históricas, os organismos institucionais, as formas de vida e
as aspirações sejam diferentes. Uma tal atitude estaria manifestamente
em conflito com os valores essenciais da atitude científica, valores que
são por natureza universais.
Porém, se nos não apoiamos em valores próprios, sobre uma von-
tade de encontrar as soluções autênticas, a ajuda exterior não produzirá
senão falsas cópias inadaptadas de instituições e de sistemas estrangeiros
e não conseguiremos aproveitar essas experiências para enriquecer e
facilitar o nosso próprio trabalho de desenvolvimento, tarefa da qual
somos, em última análise, os únicos responsáveis e em relação à qual
tenhamos ou não consciência disso, teremos de dar contas às gerações
futuras.
A concepção que acabo de expor sobre a missão fundamental da
Universidade vai conscientemente contra a opinião daqueles que consi-
deram as tarefas académicas e de investigação na Universidade como
um luxo no qual um país pobre não deveria delapidar os seus recursos.
Muito pelo contrário, creio até que aquelas tarefas devidamente orienta-
das no sentido das realidades, com adequado senso crítico e em am-
biente de completa independência intelectual constituem a base necessária
à elaboração duma política de desenvolvimento racional e adaptado
às necessidades próprias, a única capaz de criar uma consciência clara
350 — RICARDO SILVA

dos nossos problemas e das nossas possibilidades. e capaz por isso de


mobilizar toda a nação na grande «cruzada do desenvolvimento».
O trabalho de investigação constitui também uma necessidade
essencial para renovar e melhorar o ensino superior afim de formar
técnicos conscientes das suas capacidades mas também das suas limita-
ções, capazes de adaptar inteligentemente os conhecimentos teóricos
à realidade na qual têm de actuar, respeitadores das prioridades sociais
em relação às quais a sua acção se situará, compenetrados da missão
que devem desempenhar numa sociedade que os favoreceu permitin-
do-lhes o acesso à formação universitária e comprometidos, deliberada
e racionalmente, na tarefa da própria transformação dessa mesma
sociedade.
Para que a Universidade atinja todos estes fins é porém neces-
sário que ela própria se transforme tornando-se simultaneamente mais
aberta e mais selectiva. Mais aberta no sentido de que os alunos, os
professores e os investigadores devem ser verdadeiramente represen-
tativos da nação na sua diversidade de regiões e de classes sociais.
Mais selectiva porque os professores e investigadores devem ser recru-
tados dentre os que o país possua intelectualmente melhores.
Por outro lado, a Universidade deverá ainda tornar-se mais activa
e participar em mais larga escala na vida nacional, elevando-se simul-
tâneamente acima das circunstâncias de momento a fim de as colocar
no seu verdadeiro contexto histórico; deverá .contribuir para o esta-
belecimento de uma plataforma de entendimento a nível verdadeira-
mente nacional procurando eliminar controvérsias passadas e levando
a opinião pública a debruçar-se sobre os verdadeiros problemas do
presente; deverá proporcionar o clima intelectual propício à circula-
ção da informação objectiva e verdadeira; deverá enfim afastar as
numerosas interpretações e opiniões de argumentação política, substi-
tuindo-as pelo resultado de uma atitude científica e de análise séria
dos problemas. Tudo isto, evidentemente, respeitando as convicções
filosóficas e políticas de cada indivíduo, devidamente enquadradas no
entanto por uma atitude científica, séria e honesta por excelência que
tenha em vista o bem comum.
Vida Literária iSS

N O V A TÉCNICA ROMANESCA?

«A sangue frio» de Truman Capote, ou «o romance-realidade-».

por J O Ã O MENDES

Uma nova técnica de romance, já se lhe tem chamado, a que


se vulgarizou com este romance sensacional de Truman Capote C1).
E com alguma razão. Mas só alguma.
Trata-se de um relato-investigação acerca de um crime famoso,
nos Estados Unidos, em que dois cadastrados mataram, na noite de
15 de Novembro de 1959, quatro membros da família Qutter: os dois
pais, um filho e uma filha. Mataram para roubar, mas em vão1, por-
que na casa não havia cofre, e o fazendeiro tinha por hábito fazer
pagamentos com cheques. De maneira que acabaram por levar pouco
mais de quarenta dólares. O absurdo de semelhante crime levantou uma
onda geral de indignação, pois que, ainda para mais, as vítimas eram
uma família irradiante de simpatia e honradez.
Truman Capote apresenta-se no local do crime, a pequena aldeia
de Holcomb no estado de Kansas, investiga os factos, e ao fim de seis
meses, resolve-se a construir, sobre o grande desvairo, um romance
acontecido. Ele próprio contou a um jornalista italiano, em entrevista
transcrita pelo Figara Littérmre (2\ como levou seis anos, na aldeia
de Holcomb e na cidade onde estavam encarcerados os presos, inter-
rogando, conversando com uns e com outros, com todos aqueles que
formavam o ambiente das vítimas e, mais, ainda com os dois delin-
quentes, a cuja execução acabou por assistir, a pedido deles próprios.
De todo esse conhecimento, adquirido por contacto e simpatia,
nasceu o presente livro que assim se apresenta com o ar de romance
vivido. Convincente? Sensacional, sem dúvida nenhuma; e sensacional
no bom sentido da palavra já que o romancista não explora passiona-
lismos fáceis, antes os refreia, numa grande contenção descritiva.

(!) Ed. Livros do Brasil. Lisboa, 1966.


(2) 14 de Abril de 1966.
352 JOÃO M E N D E S

E psicològicamente muito hábil, também, no inventário e dispo-


sição de todas as peças do processo, na naturalidade •perfeita com que
nos apresenta as figuras, sem esforço artístico, exactamente ao modo
como os membros da família Clutter que pareciam ser, por natureza,
tão bons e simpáticos.
No entanto, confessamos que ao terminar o livro, um certo mal-
-estar se pode dnfiltrar no espírito do leitor e perturbar-lhe o entusiasmo
de apreciador.
Três dúvidas nos assaltam, sem vermos para elas resposta tran-
quilizadora. Diante desta obra, que, logo de, começo, se nos apresenta
um pouco híbrida — a fórmula « romance-realidadfe» pode, instinti-
vamente, inspirar-nos certa reserva — o homem de boa fé será levado a
perguntar-se: Será possível esta empresa de fazer o romance rieal de
um crime? E se for possível, será legítimo? E mesmo que seja pos-
sível e legítimo, será o mais humano e artístico?
Tentemos responder às três perguntas. Em primeiro lugar, o ro-
mancista, ao tomar como assunto este crime acontecido, entra no ca-
minho de uma inquirição criminal, no terreno 'perigoso das intenções
morais. Vai portanto, mais longe que a inquirição judicial dos acon-
tecimentos que se fica no apuramento dos factos externos e por eles
julga das intenções. Nesse momento, entram em jogo advogados de de-
fesa e psiquiatras, a restringirem o valor comprobativo dos factos e a
dificultarem a sentença legal, perante as atenuantes da responsabilidade
pessoal. Mas, ou o juiz se engane condenando ou se engane absol-
vendo, não entra no santuário da liberdade, e julga sempre por factos
exteriores.
O romancista, esse, por ofício,-é o olhar impessoal e omnisciente
da justiça, vai mais além que o juiz, porque devassa as consciências e
tende, de algum modo, a sentenciar, em tribunal interior, sobre as úl-
timas causas. Pode dar-nos casos dúbios, quando toca nos confins do
mistério da liberdade. Mas, de ordinário, decide de quem é bom e quem
é mau. E que mal tem, quando se trata de criaturas fictícias, santos
ou criminosos imaginários, que bem se podem venerar, ou queimar,
em efígie, sem grandes consequências...
Mas no romance-realidade, não se meterá o romancista num beco
sem saída, ou, pelo menos, não enveredará por direcção proibida?
Estamos na segunda perplexidade que se apresenta ao espírito
do leitor. Por mais que faça, o romancista, terá de condenar ou absol-
ver um caso real, acontecido. E poderá fazê-lo? poderá condenar e
V I D A LITERÁRIA iSS

absolver, por um código interior, mais .profundo e definitivo que o dos


tribunais? Estes julgam segundo a letra da lei, não se imiscuindo, senão
indirectamente, e como que por refracção, no segredo da consciência.
Mas o romancista poderá arriscar as sentenças definitivas em que estão
em jogo os destinos de outros homens, seus irmãos de hoje? Com que
direito?
Dir-se-á, como disse T. Capote, na entrevista citada, que se abstém
de julgar e se limita a apresentar «entre inumeráveis parcelas de ver-
dade, os pormenores que lhe parecem mais significativos ». Mas quem
poderá aceitar a desculpa? Se me diz que são « o s pormenores que
lhe .parecem mais significativos », não está a dizer que já os escolheu
e dispôs, em ordem a uma conclusão? E é, de facto, o que nós vemos.
De modo muito subtil, ao ladò das peças de acusação e dos indícios
de culpabilidade, vão-se-nos dando outros « pormenores significativos »
que já nos fazem duvidar da saúde moral dos réus. De facto, o ro-
mancista, toma partido, de modo especial pelo Perry, o que executou
as quatro vítimas, e que é sempre mostrado a uma luz mais favorável
que a de Dick, o que organizou o assalto nocturno.
Mas não podemos deixar-nos arrastar a uma discussão, mesmo
dos factos que nos são apresentados, porque, além de empresa inútil,
seria ir dar contra o mesmo muro defeso. Não nos diz respeito, a
nós, a última sentença, sobretudo depois das sucessivas apelações
que se arrastaram por seis anos.
De modo que, pràticamente, o romancista absolve os réus. Menos
mal, dir-se-á. Se há defeito aceitável será, certamente, o da bondade
excessiva. Mas, poderia também absolver? E as vítimas? E a socie-
dade que fica à mercê de gente que perdeu toda a noção de respeito
pela vida alheia? Faz impressão vermos a facilidade com que estes
criminosos — e outros que com eles contracenam — falam com a maior
tranquilidade, em desfazer-se da vida dos outros. E faz mais impres-
são ainda, ver que, passada a primeira reacção de horror, já daí a
pouco, os criminosos é que atraem os sentimentos de comiseração de
boa parte do público.
Estamos, pois, em que o romancista que se intromete em casos
reais, se verá obrigado, fatalmente, ou a condenar ou a absolver, no
foro da consciência, coisa para a qual não está certamente qualificado.
Não falando, aqui no caso, das muitas conversas particulares que teve
com os dois criminosos. Se eles, por acaso, não deram licença para
que lhes utilizassem publicamente as confidências, como são elas Ian-,
354 JOÃO M E N D E S

çadas a todos os ventos e continentes? Pois não nos diz T. Capote, que
sempre esperou que os réus fossem indultados? E que, se adivinhasse
o desfecho, não escreveria o livro? Parece sentir qualquer remorso ou
escrúpulo... Mas se fossem indultados? Haveria, também, direito a
assoalhar-lhes as vidas e as confidências, permanecendo eles vivos?
Ainda seria pior. Não falando nas pessoas de família que lhes estão
ligadas. Gostarão de toda esta publicidade?

Finalmente, ainda que fosse possível e ' q u e fosse legítimo, este


romance-realidade representará progresso humano e artístico? Já disse-
mos que a narrativa está belamente conduzida, num sistema cinema-
tográfico de planos cruzados, a dar-nos a sinopse das linhas simultâ-
neas dos destinos, no jogo de carrascos, vítimas e detectives. O modo
como nos vamos aproximando do crime fatal e, a seguir, da sua des-
coberta e confissão, é magistral na economia dos elementos informati-
vos. Romance policial? Sim, mas aprofundado pela investigação e ex-
ploração das causas psicológicas, e apresentado quanto aos elementos
do processo, com a técnica do cinema, num perfeito recorte das cenas
que se nos mostram em pequenos capítulos, como quem oferece os
elementos de conclusão. Temos a impressão perfeita de alguma coisa
que amadurece e se resolve, naturalmente, por efeito espontâneo de
três técnicas conjugadas: a da novela policial, a do romance psicológico
e a do cinema.
E tudo isto com o atractivo suplementar de tratar-se de um facto
acontecido que sobressaltou a opinião pública. Quer dizer: às técnicas
apontadas sobrepõe-se uma excitante curiosidade do acontecido. Que
faria o historiador com sentido histórico, senão o mesmo que Truman
Capote? E aí temos nós um quadro magnífico da América, em dois
batentes contrastados : o lado tradicional, burguês, honrado, puritano
sem embiocamentos — e o lado absurdo, desenraizado e aventureiro,
do automatismo amoral, da aventura doida e do crime sem paixão,
« a sangue frio ».

No entanto, o que, para o êxito sensacional é óptima recomenda-


ção, para um critério objectivo, constitui mais um motivo de perplexi-
dade. Poderíamos formulá-lo da seguinte maneira : poderá haver ro-
mance histórico da actualidade? Entre nós já tivemos o caso de Rocha
Martins, que romanceou a vida de personagens próximos. Mas o caso
era diferente, porque não entrava tão dentro das almas como aqui. O
V I D A LITERÁRIA iSS

biógrafo ficava-se numa espécie de reconstituição por fora. Dá-nos a


sua interpretação, apresentando casos e testemunhos; descrevia e nar-
rava, ficando-se naquela zona em que se detém o tribunal da justiça
humana, depois de ouvidos os depoimentos das testemunhas. O mesmo
se diga do romance histórico do passado. É uma reconstituição, mais
ou menos problemática e pessoal, que nesses limites nos é apresentada
— e a distância...
Mas o romance-realidade, ou romance histórico do presente procura
as últimas causas, procede como a filosofia da história : aquela que
desvenda, para além das aparências, as moções profundas da alma da
humanidade. De modo que, no caso do criminoso, de duas uma : ou
penetra, decididamente, no santuário das consciências, julgando, não
se vê bem com que direito — ou se contenta com os comportamentos
exteriores, a que terá dé confinar a reserva da análise psicológica. E
não será um pouco o que acontece aqui? Um caso destes, não digo
já nas mãos de Dostoievsky, mas mesmo nas mãos de Bernanos ou
Mauriac, daria sondagens em profundidade, na região abissal das últi-
mas decisões. Não assim neste livro, onde pouco, ou nada, se fala de
consciência moral; se a irmã de Perry lhe escreve uma carta morali-
zante, logo se cita ao lado, a análise desmascaradora dos mecanismos
psicológicos que a teriam ditado, feita por um companheiro de prisão
do criminoso. E o Perry concluía que o tipo era realmente, forte em
psicologia... Por outras palvras, o drama passa-se no domínio dos com-
portamentos, e n ã o no da moral e da responsabilidade.
É certo que o acto livre, enquanto livre, não é analisável, porque,
precisamente, não se explica só pelos motivos. Mas para além deles
abre-se o indevassável abismo da liberdade, região misteriosa, que o
romancista deve, pelo menos, supor e nunca ignorar. Ora neste livro,
parece que sentimos fechado o mundo da responsabilidade : ou por
outra : parece que a responsabilidade se confunde exactamente com
Tazões de agir ou que não há mais do que mecanismos de acção;
quando é certo que a liberdade consiste em poder determinar-se mesmo
para além, ou contra, os motivos que solicitam a vontade. Quando
é que eles são tão fortes que suprimem o alvedrio, é o que nós não
sabemos, e permanece o segredo de Deus.
Que o romancista, em casos fictícios, se pronuncie pela culpa ou
pela inocência, não há mal nenhum no caso; mas, em romances acon-
tecidos, junto de nós, essa pretensão levá-lo-á ou a violar consciências,
ou a ficar de fora, nos comportamentos que as simplificam. Suponha-
356 JOÃO M E N D E S

mos que o exemplo prolifera e se toma moda, daqui em diante, o


romance-realidade. Teremos uma série de casos humanos acontecidos
a serem devassados e julgados, com um à-vontade que não pode deixar
de incomodar-nos. Já houve tentativas parecidas relativamente à figura
histórica do presidente Kennedy, e parece que os tribunais tiveram que
cortar o fio romanesco.
Será só a tentação do sensacionalismo publicitário? Não cremos.
Ou, se quisermos, será essa tentação, mas enquanto expressão de um
humanismo superficial sem a terceira dimensão, pois que se reduziu
voluntàriamente aos comportamentos motivados, e se esqueceu da li-
berdade, desse núcleo sacrossanto onde, em face dos últimos fins, a
incomensurável a aparelhos e laboratórios experimentais, tudo ficará
reduzido a forças, mais ou menos irresponsáveis, onde o criminoso re-
presenta o sinal negativo, e a vítima honrada o sinal positivo das for-
ças da criação — tão culpadas, ou tão meritórias, umas como as outras,
personalidade joga os destinos da vida e da morte. Sem esse elemento,
« O crime fora um acidente psicológico, virtualmente um acto impes-
soal : era como se as vítimas tivessem sido mortas por um raio » ( p .
264) — Vai pensando não sabemos se um dos detectives, ou se o pró-
prio romancista.
E o próprio momento do crime, na relação feita pelo criminoso
Perry, é escamoteado, ficando o leitor sem saber bem ao certo como
foi: « . . . n ã o tive consciênoia do que fizera... » Quanto haveria a dizer
acerca desta palavra. O acto livre oriminoso deixa-nos sempre espan-
tados de nós mesmos porque justamente, sendo livres, não é explicável
por motivos. Mas não entremos na discussão inútil. Só queremos dizer
que o livro, não querendo concluir, nos deixa a impressão vaga de que
tudo se equivale neste mundo, numa pobreza humana que descai para
o autómato.
Bobby Rupp, o inconsolável noivo de Nancy, uma das vítimas, já
se casara quando os assassinos foram executados. • Mesmo até uma das
filhas mais velhas do casal assassinado, sob pretexto de convites feitos
e da presença das pessoas de família vindas para o enterro, resolveu
casar-se, três dias depois do assassínio dos pais, e na mesma igreja
0
em que se, lhes haviam celebrado os ofícios. Ao mesmo tempo um
irmão da senhora Olutter faz uma declaração pública de benignidade
ACTIVIDADE H U M A N A NA G A U D I U M ET S P E S 357

para com os criminosos. E ao fim do livro, depois da última conversa


de resignada melancolia entre o detective Dewey e Sue, amiga de Nan-
cy, a gente fica com a impressão de que a vida passa e vai curando
as feridas, com uma soberana indiferença por quem é bom e por quem
é mau. E ficamos também a pensar se o romance-realidade nos não terá
trazido um .pouco para a superfície da vida, diminuindo-nos aquela fé
no homem responsável, que é suposto de toda a literatura...

Para o diálogo

ACTIVIDADE H U M A N A N A GAUDIUM E T SPES

por J O Ã O MAIA

A Constituição Pastoral Gaudium et Spes tem, para o homem de


hoje, alçapremado ou ilaqueado por fainas terrenas, uma importância
extraordinária. Pela vez primeira a Igreja se enfrenta em plano dialo-
gai com problemas que, directamente, não tangem à religião. Pela
primeira vez o que poderíamos chamar o estatuto da ciência em face
da religião recebe configuração e norma a nível mundial. Já houve quem
comparasse o Concílio Vaticano II com o chamado Concílio de Jeru-
salém que por volta do ano 51 reuniu os Apóstolos. Em que se funda
a comparação? No Concílio de Jerusalém tratava-se de saber que im-
posições se fariam aos gentios que postulavam a entrada na Igreja.
Haveriam de submeter-se às práticas do judaísmo, dolorosas algumas
como a circuncisão e meras observâncias exteriores outras, ou passariam
directamente, pela porta do baptismo, para o novo clima de religião
espiritualizada muito embora com incidência modificadora nas fainas
e no procedimento? A despeito do esboçado conflito entre mentes re-
gressivas e impulso simplificador prevaleceu, sancionado por Pedro, o
gesto de libertação. Abóliu-se o desvio pelo judaísmo. S. Tiago conse-
guiu umas leves cedências que o tempo, no que diz respeito a meras
usanças, iria apagar sem mais guerra. Passado um século já os cristãos
comiam, com vivo apetite, carne de animal sufocado ou degolado
à unha.
358 JOÃO M A I A

O Concílio Vaticano II igualmente se aproximou do homem paga-


nizado dos dias de hoje. Viu-o nas suas fainas, emoldurado nas criações
do seu engenho e veio dizer o que nelas havia de bom e promovente.
Em risco resumidor : — O homem ao longo dos séculos foi-se apode-
rando dos segredos da Natureza, abrindo à sua volta um âmbito de
conforto, em cujos muros foi dependurando as maravilhas da sua in-
venção. Que valor têm? Qual a sua finalidade? Que relação existe
entre essa transformação do cosmos e a última transformação do Uni-
verso anunciada nos Livros Santos? O homem pôs as mãos na face
da Terra. Modificou-a. Pô-la ao seu serviço, podou-lhe os espinhos,
matou a víbora, acontoou a fera, domou as águas dos rios e transfor-
mou, pouco a pouco, as grutas de Altamira e outros sítios, sacros para
os arqueólogos e outros buscantes de pedras epigrafadas, — transfor-
mou-as nos arranha-céus e outros alçados, orgulho das urbes de hoje
e objecto, podemos crê-lo, de misericordiosa pena aos olhos dos por-
vindouros.
O Documento Conciliar diz-nos que toda essa actividade é boa,
está nos desígnios de Deus e se orienta para o homem. O agir humano
tem como que duas faces : — uma interior que diz com o aperfei-
çoamento das faculdades e dá um precitado de vida melhorada, de
círculo mais aberto de liberdade; — outra, exterior que vai gravar na
bruteza da Natura a marca das mãos guiadas pela inteligência. Logo
no início dos mundos se o homem se admirou com a estrela alumiante
e com a pedra prestimosa, mais se deve ter admirado com as duas
mãos que o serviam. Com elas apontava a estrela e sopesava o rebolo.
Nos poemas homéricos quem queria elogios tinha de fazer alguma coisa
com as mãos : domar cavalos, construir navios de alto e harmonioso
rebordo, fazer portas para moradas formosas, mungir a ovelha e alinhar
devidamente os tarros, fechar contra a noite e contra o ladro a porta
pondo-lhe a devida tranca, cortar a azagaia em rijo freixo e despedi-la,
no jogo imprescindível das duas mãos. Sempre o homem se admirou
e louvou os membros onde o seu agir bulia com maior frémito. Aris-
tóteles que lia Homero quase todos os dias veio-nos dizer que, na
verdade, as mãos são a melhor coisa que os deuses deram ao homem :
— com elas atacamos, elas nos defendem e de, ao longe e ao largo,
vão trazendo utensílios que nos rodeiam em verdadeiro ninho de doçu-
ras e facilidades. Os filósofos medievais muito lidos em Aristóteles com-
pletaram-no com dizerem que as mãos conduzidas pela inteligência vão
até ao cabo do Universo. Meu dito, meu feito. Hoje os homens lá
ACTIVIDADE H U M A N A NA G A U D I U M ET S P E S 359

andam por esses astros a tentear moradias possíveis, a apalpar a resis-


tência dos metais, a friúra dos ares A norma da nossa actividade e
produtos vem a ser : boa a que serve para a nossa plena ou ordenada
realização e má a que atraiçoar o homem.
A famigerada opinião errada de que a Fé pugna com a Ciência e
é seu tropeço é afastada pela Gaiidkun et Spes. Existe uma verdadeira
autonomia na pesquisa metódica das leis escondidas no âmago dos seres.
Quem vai ao encontro dessas leis torna-se dócil ao aceno da verdade
e marca encontro com todas as mentes que, por igual procederem. Os
dois coelhos da clássica cajadada, seja dito com o devido respeto. O
homem, livre e dócil e inquiridor vai ao encontro de Deus e ao en-
oontro do seu irmão ocupado na mesma lide. Não há conflito real
posto que Deus é iluminador pela Fé e iluminador pelas verdades de
ordem natural.
As aquisições, porém, da técnica e da ciência, as vitórias alcan-
çadas da matéria que nos constitui ou circunda bem como aqueloutras
ganhas sobre os enigmas que andam connosco, não se orientam fatal
e unicamente para nosso bem, como se o progresso indefinido nos fosse
levando em linha inquebrável para o alto dos céus. Devido ao pecado
original o homem pode desviar, pelos caminhos da ambiçção, da vai-
dade, do egoísmo, da soberba de vida — pode desviar o oiro do seu
amanho e convertê-lo em grelha de seus infernos.
E a Igreja, maternalmente, nos empresta uma interrogação para
lhe responder, com graça e mistério. — Então que faremos nós de
tanto invento e maravilha que dimanou de nossas mãos e inteligência?
— Passá-lo pelo fogo da mortificação e da Cruz, deixar que o toque
o fulgor da Ressurreição.
A uma nova pergunta, se acaso as transformações impressas na
matéria, e as relações de fraternidade acrescidas e aperfeiçoadas terão
que ver com a criação dos novos céus e da terra prometidos —-
a Igreja, com modéstia igual à verdade, diz que não tem uma resposta
imediata. Haverá uma intervenção vertical que transformará o Uni-
verso, o homem e as suas criações. Perdurarão, transfigurados os frutos
da caridade. Mas se haverá relação de causa a efeito, de condição a
realização — fica isso à especulação dos filósofos. E enquanto eles
•pensam, nós ficamos a saber que Deus respeita o ser em desenvolvi-
mento e vamos entrandp numa concepção dinâmica do Universo em
que tudo assume a silhueta da imagem bíblica — um homem de bordão
e enrolando sobre si o caminho rumo à Casa de Deus.
360 JOÃO M A I A

Em resumo chão, sem o aprumo dos sábios que aqui viria a ma-
tar, é esse o ensinamento da Constituição' pastoral acerca da actividade
humana no mundo. Exorta-nos, tanto aqui, como noutros documentos
a tomar parte lucidamente nos trabalhos melhoradores da vida intra-
-mundana. Como antes citámos Homero, lembramos agora Hesíodo o
autor da obra famosa — Os Trabalhos e os Dk/s. Já na longínqua e
pobreta Beócia tudo estava em aproveitar o tempinho e melhorar o
viver trabalhando e com o maço dando.
O impacto de um tal documento como a Constituição Pastoral
sobre a espiritualidade católica não há aí palavras a descrevê-lo.
Sempre a Igreja esteve presente na transformação da terra em prol
da vida humana. Louvou sempre os criadores de instituições sociais
promoventes do homem ou suas amparadoras nos frequentes descala-
bros físicos e morais. Aconteceu, .porém, que o mundo foi, por vezes,
considerado apenas como o âmbito das ambições desvairadas e da per-
dição. E o homem religioso fugiu dele como para dentro de uma Itaca
minúscula onde se aferrolhou, tendo tudo mais como' cinza e nada.
De facto esta visão das coisas e da vida tem seu fundamento evangé-
lico e sua cobertura de psicologia pobre.
De facto Cristo veio a um mundo gafado pela culpa, que estava
sob o poder de Satanás. O remido, o liberto, deve viver como se não
fosse do mundo, para quem o mundo esteja crucificado e crucificado
ele para o mundo. Cidadão de duas cidades tem possibilidade de, em
favor da transcendência que é sua já, a partir deste mundo, — ins-
taurar uma vida de testemunho dessa mesma realidade transcendente.
Vida anacorética e monástica, isso dizem. Na realidade não deve ser
em desprezo das realidades boas deste universo criado por Deus. O
mundo de que se retiram religiosos e homens espirituais é sobretudo
aquele «locus spiritualis» considerado como conjunto de máximas con-
trárias ao espírito de Cristo. Teilhard de Chardin sofreu com a ca-
nhestra consideração ascética de que o mundo e as acções que lidam
com ele nenhum ou diminuto valor tinham. Apenas através do fio del-
gado da boa intenção se ia atando a lida humana à eternidade. E
escreveu O Milteu Divin. Sim, porque o homem pode, através duma
espiritualidade escapista e pessimista, fazer passar por santidade o seu
medo ao conpromisso e ao trabalho e espalhar sobre as fainas terrenas
um bafo de desdém a que umas vagas rezas r^o tiram a chancela de
vidinha posta a salvo de naufrágios e labores suados. No entanto, ( e
isto de navegar entre Cila e Caribdes já de antigo é obra fatigosa!)
'UM TEÓLOGO A C T U A L ,361

•também houve, ultimamente, quem cobrasse ousio demasiado, no com-


prometimento com as fainas do mundo, como se fossem d e .per si
santificantes e dispensassem... a Imitação de Cristo. O certo é que
nem dispensam o olhar, o gesto e a obra de imitar Jesus Cristo, nem
•dispensam o livrinho que irrompe das sombras hujnildes da Idade Mé-
dia, e é tão sóbrio, tão verdadeiro, tão despojado de adjectivos que
-outro melhor se não enxerga para cá dos Livros Santos. Se alguém
não aprendeu a lição que ele dá, é que o leu com olhos torvos. Tal
livro não condena as fainas da actividade terrestre, condena ,a freima
qúe as prostitui e perverte.
Assim, a Constituição pastoral Gauéium et Spes no seu capítulo III
^da primeira parte, ensina-nos a olhar para as actividades humanas com
olhos claros que predispõem ao trabalho amoroso e fraternizante; e
ensina-nos a passar pelo lume da mortificação os vapores de um mundo
-que, em sua instância de adversário de Cristo, o é, também dos que
ouvem as Suas palavras (entenda-se, as do Concílio ecuménico.!.) e
a s vão seguindo. .. .-

U M TEÓLOGO A C T U A L

por J O Ã O MAIA

Karl Raliner é, lioje, um teólogo de quem muito se fala sem que


s e explicite ao certo a base da sua celebridade. Quando um pensador
cai no goto da publicidade lembra um nateiro onde desaguam •muitos
riachos cantantes. Cresça o monte, dizem outros. Quer dizer que desde
-a simples anedota aos parágrafos fundos, duros de roer, tudo con-
•córre para arrastar ao centro da ribalta iluminada o herói da festa.
Digamos que K. Rahner nasceu em 1904 não longe da floresta
negra, logradouro de filósofos profundos. Conheceu e tratou o jovem
italiano Pedro Jorge Frassati que foi hóspede de .seus pais e v ao ter-
minar os estudos secundários entrou no Noviciado da Çompaiiliia de
•Jesus, Ordem que já contava no seu activo com o irmão mais velho
Hugo Rahner. No Noviciado, como é de estilo e ,uso , corrente, atirou-se
à ascética prática e teórica e com tão 'boa sorte nos livros escolhidos
•que lhe deram matéria para elucubrações não despiciendas que vieram
lume num jornal privativo dos noviços. Na Filosofia entusiasmour.se
<çom iKant e com o P. Maréchal, que o situava no Jfonto dç iPí&tída. - dç
s
362 JOÃO MATAÍ

Metafísijca. Já se sabe que para um alemão de cepa o achar-se nos


pontos de partida seja lá do que for é uma graça. Entre a filosofia
e a teologia teve um curto magistério em que ensinou latim adquirindo 1
tal facilidade nesse idioma que nos dias do Concílio ecuménico lhe
permitiu longas palestras a bispos e amplos contactos com teólogos d©
todos os quadrantes. Na teologia em Valkenburg na Holanda topou
comi mestres exigentes como Hiirth e Grisar. No final quiseram os-
superiores orientá-lo para a Filosofia. Dito e feito. Foi para Friburgo
e èi-lo à retomar a metafísica d o conhecimento em S. Tomás. S. To-
mas foi sobretudo teólogo : cumpria isolar o a priori do conhecimentos..
Os neo-kantianos já haviam suado a desnovelar o problema do conhe-
cimento. U m filósofo havia de que Rahner tinha algumas luzes quer
retomara ou inventara de raiz o problema não do conhecimento mas;
do Pensamento; esse filósofo era Blondel. O certo é que em Friburgo:
Rahner labuta nos caboucos metafísicos e no fim, operário da undé-
cima ou da primeira hora, sobrecarregado com a caloraça do dia —
vê a sua tese recusada pelo velho pretexto de que contaminara com-
coisas modernas a linfa medieva que gorgolejava por compêndios e-
apostilas. De pouco lhe valeu socorrer-se da razão de que S. Tomás-
só lhe poderia interessar na medida em que os problemas de hoje-
nele tivessem andamento e solução. O problema antes, a receita depois..
Tenho aqui uma botica cheia de remédios. —• Mas não estou doente,
meu senhor. Não se doutorou, e fez falta, que um doutor a menos-
no mundo é flébil e memoranda moléstia. Não se doutorou mas publi-
cou o seu trabalho Geist und Welt, o Espírito e o Mundo. Boa sorte-
teve. ainda em Friburgo pois que em 1928 ali chegara o maior filósofo
dos nossos tempos Martinho Heidegger e Karl Ràhner pôde, durante-
dois anos, assistir aos seus cursos.
A intuição metafísica de Karl Rahner vinha a ser que o espírito»
humano está essencialmente orientado e aberto para Deus e para o
mundo. Essencialmente. De maneira que para o estudar e lhe ser fief ;
importa averiguar-lhe essas estruturas a priori que o sustentam, que o»
constituem. Por aqui já estamos a ver que Heidegger tão perscrutador
do homem-ser-no-mundo haveria de constituir engodo cabonde para o>
futuro filósofo-téólogó.
Em 1957 K. Rahner reedita a sua tese mas com largos acrescentos-
que levam o livro às germânicas quatrocentas páginas. Urs von Baltha--
zar, seu amigo, escreve : «S. Tomá.s está no centro dá obra, S. Agos-
tinho dá-lhe a ampliação, e a problemática da filosofia modernas
U M -TEÓLOGO A C T U A L 363

desde o idealismo à fenomenologia e a Heidegger dá-ihe plena


actualidade.
Heidegger sai, por excepção, dos pinheirais da floresta negra e
•vai visitar o seu aluno a Innsbruck.
Antes, porém, já Rahner se formara em teologia. Não se julgue
que um homem destes ficava sem borlas. Cortou-as na «sacra pagina»
e com todo o êxito. O fracasso e o triunfo no mesmo homem dão uma
experiência a ter-se muito em conta. Há, hoje, muitos que desconfiam
dos que apenas averbam triunfos, sobretudo triunfos fáceis, gratuitos,
triunfos cujas bandeiras recebem, a pleno, a brisa das palavras da Es-*
critura : — «contai-nos mentiras, contai-nos mentiras».
E agora o que vemos é um teólogo agarrado ao tinteiro com in-
defesso esforço. São livros, são artigos, são enciclopédias. 'Professor, n ã o
fez travesseira do compêndio de seu tio, o outro professor. Lançou-se,.
a partir do Tratado da Graça, a elaborar, em bom latim, os seus cursos..
A fundura da sua formação filosófica situou-o numa antropologia só-
lida e numa atenção à Palavra de -Deus alimentada no constante estudo-
da Bíblia e no estudo dos Padres gregos. Nisto começa a cair na conta
lastimosa de que a Teologia, tal como era ensinada, não preparava
devidamente os alunos para virem a ser condutores de almas e trans-
missores da Palavra, do Verbo, do Kerigma. Derivava ela, no melhor
dos casos, pelos elíseos campos da abstracção, especulativa de todo,,
sem a mais leve olhadela às humildes azinhagas onde andam, gemendo-
e chorando, os míseros filhos de Eva. Com o maior zelo apostólico-
ajudado e colaborado por teólogos de bom cerne, ei-lo a programar e
pôr por obra uma teologia que não fosse só para os anjinhos ( q u e
a dispensam) e para os senhores doutores ( q u e o pior mal era n ã o
a dispensarem aos outros e de se abotoarem com ela...). Inaugura uma
colecção de quaestiones disputatae — questões que andam no ar, diría-
mos. Já se publicaram três dezenas de bons volumes! Nisto surge a
tormenta dos nazis que destroem o primeiro sementio. Roubam, tiram
cátedras, dispersam faculdades. Não só de católicos. O grande teólogo
Karl Barth vê-se relegado para a Suíça onde desencadeia um glo-
rioso ataque à ideologia nazi.
Karl Rahner esteve no Tirol, depois ingressou na Alemanha e
andou, com o credo na boca, de cidade em cidade a fazer conferências.
E m 1943 deu-se um facto que merece um claro, embora discreto,
apontamento.
O arcebispo de Friburgo em Brisgóvia mandou «a todos os bispos
364 JOÃO M A I A

da Grande Alemanha» Um memorando de vinte páginas, pondo o brado


no céu oontra as novidades doutrinais e litúrgicas : abandono da teolo-
gia natural e do pensamento escolástico em favor duma teologia kerig-
mática contaminada de infiltrações protestantes; engodo pelas concepções
e linguagem da .patrística oriental e pelo regresso a diversas práticas
da Igreja primitiva; movimento de abertura para as outras confissões
cristãs; alteração da teologia por um sobrenaturalismo místico; intro-
dução de língua vulgar na liturgia, etc.
O cardeal Iúnitzer encarregou Karl Rahner de elaborar um dó-
cúmento-resposta. Tinha 53 páginas e ficou inédito. Refuta, ponto por
ponto, os motivos de terror invocados. Fá-lo, porém, a julgar pelas
amostras recolhidas num tom de irenismo perfeito, de profunda doci-
lidade à jerarquia apoiado como estava pelo cardeal Iúnitzer. As suas
palavras e consignas orientavam-se em cheio para o clima de Concílio
que sè via crescer.
E m 1944 K. Rahner trabalhou numa vilória perdida num valé da
Baviera. O impacto da vida dura e das necessidades humanas, bem
como a filosofiá do concreto e da análise existencial fizeram que a
sua teologia de cariz germânico e especulativo fosse sempre ao longo
de artigos e volumes pisando terra. O vale de lágrimas e a Jerusalém
celeste sempre no orbicular da sua vista. Chegou o Concílio. Karl Rahner
não é convidado para as comissões teológicas. O espanto desfaz-se
quando o Cardeal Kõnig o leva como seu teólogo particular e daí a
pouco vemo-lo de factó núrna comissão teológica. Instalado no Colégio
germânico lá acorrem os famintos de Teologia viva e actual.
A obra de Karl Rahner toca, em profundidade, quase todos os
campos da Teologia. Dizem os entendidos que falta agora a sistema-
tização (se ela é possível). O que é certo é que sistematizações fáceis,
feitas uma vez para sempre essas viram o seu dia findo na tenacidade
deste obreiro, na boa vontade deste irenista que tem, em filosofia, um
irmão em Maurício Blóndel. Umá nota humanista, preciosa nestes tem-
pós que arrastam espuma de ódios, esverdinhàdas invejas e deblatera-
mentos de mau mòdo — é a da amizade entre os teólogos mais emi-
nentes. Karl Rahner, Yves de Congar, Lubac, Daniélou, Urs Von
Balthazar, Kiing è muitos mais fazem, lá rio alto de suãs cátedras e
famas, uns ademãs 'fraternos sobràdamente èdificativos. Nao resmun-
gam, não condenam, não se estomàgarii. Numa palavra não serviam
para inquisidores embora servissem para ser assados a não amaciarem
*òs tempos os seus costumes e modos. "
O IS. B H Á G I O ®E fòZEWEQO
K E B T 0 R B)0 -'e®LÉffiB©-IDE M T f t ©
® E U Í S © I ( 0 5 B 8 - Q B 5 5 )

por SERAFIM LEITE

C em 1970 o IV centenário de Inácio de: Azevedo,


ELEBRA-SE
O facto de ter morrido pela Fé concentra mais no martírio
a atenção dos homens. Mas quem lhe estuda a vida em
pormenor acha outros títulos, que justificariam a introdução da sua
causa canónica ainda que não fosse mártir; verifica, além disso, que
o B. Inácio de Azevedo ocupa insigne lugar na história da pedagogia
portuguesa como reitor dos colégios de Lisboa, Coimbra ( incluindo o
das Artes) e Braga de que foi fundador. Tudo, num tempo em que
tais estabelecimentos de ensino público davam em Portugal ainda os
primeiros passos.
Matéria em si vasta, de hagiografia e cultura. Para proceder com
método — e com espaço limitado -— não entramos aqui no aspecto
formal da virtude, fixando-nos só nos reitorados; — e hoje, no pri-
meiro que foi o do Colégio de S. Antão de Lisboa.
Inácio de Azevedo nasceu no Porto (arredores) por 1526, entrou
r«a Companhia de Jesus em Coimbra em 1548, ordenou-se de sacerdote
em fevereiro de 53; e durante as férias grandes desse mesmo ano,
com apenas 27 de idade, assumiu o cargo de reitor de Santo Antão
de Lisboa.
O Colégio de S. Antão situava-se na encosta do Castelo, no bairro
da Mouraria, em casa inicialmente modesta, antiga' mesquita de mou-
ros ; " a qual, depois de ter conhecido outros senhorios, passou para
a Companhia de Jesus por ordem: régia de 1541; e nela entrou a 5
de janeiro de 1542, o Padre Mestre Simão Rodrigues, com alguns
companheiros (').
Exercitavam-se os padres de S. Antão em ministérios apostólicos,
quando o Provincial Simão 'Rodrigues recebeu carta de S. Inácio, da?
tada de Roma, 1 de dezembro de 1551, em que o exortava a abrir
escolas públicas em Coimbra e Évora e outras cidades. Nomeiam-se as

(1) Cf. FRANCISCO 'RODRIGUES, História da Companhia de Jesus na Assis-


tência de Portugal 3/1 (Porto 1931 ) 287.
\

366 SERAFIM LEITE

duas, porque em Coimbra já existia o Colégio de Jesus desde 1542


e em Évora o Colégio do Espírito Santo desde 1551, ambos com ensino
privado para os de casa, nem o vieram a ter público antes do Colégio
de S. Antão (2). O parecer de S. Inácio foi toam recebido por Simão
Rodrigues, mas a abertura das aulas executou-se já durante o governo
do seu sucessor Diogo Miro, que recrutou no Colégio de Coimbra
os primeiros mestres de S. Antão, Cipriano Suárez e Manuel Álvares,
dois humanistas conhecidos, sobretudo o segundo com a sua «Gramá-
tica Latina» que iria ensinar a língua do Lácio a meia Europa e a
meio mundo nas missões ultramarinas durante mais de dois séculos —
e ainda hoje é estimada. Os dois mestres saíram de Coimbra a 25. de
janeiro de 1553, e sem nenhuma solenidade se abriram as escolas de
S. Antão no mês seguinte, sendo primeiro reitor o P. Melchior Car-
neiro, enquanto nesse mesmo fevereiro de 53 se mandava ordenar de
sacerdote em Braga a Inácio de Azevedo talvez já com a intenção de .o
colocarem à frente d o Colégio de Lisboa, depois daquele primeiro en-
saio .bem recebido logo pelos lisboetas. O que mais urgia por então
era dar forma definitiva ao Colégio para efeito de subsistências oficiais.
Os Padres da Companhia recorreram a D. João III, o qual os remeteu
para a Câmara da cidade, de que era vereador principal Francisco
Correia, senhor de Belas, homem diligente e muito empenhado em dotar
Lisboa com escolas públicas. Estava então em Portugal o P. Jerónimo
Nadal, com poderes de comissário, e elé em nome da Companhia,
junto com D. Pedro Mascarenhas, antigo embaixador em Roma e que
em breve iria ser vice-rei da índia, se apresentou na Câmara no dia
22 de julho de 1553. Consistia a proposta em organizar um colégio,
como os já existentes na Sicilia e em Itália, onde se ensinassem três
classes de gramática (latim ), uma d e humanidades e outra de retórica;
e, além disto, lições de grego, hebraico, e casos de consciência ( teolo-
gia moral). A Câmara aceitou com regozijo a proposta e os encargos
materiais repartiram-se entre ela e a fazenda real f 3 ). Tocou à Câmara
a adaptação do edifício a colégio com salas apropriadas a fins esco-
lares; e, assim antes mesmo, das obras concluídas, — e já Com o
B. Inácio de Azevedo como reitor -— se deu por fundado © se inau-
gurou solenemente o Colégio de S. Antão de Lisboa.

(2) FRANCISCO RODRIGUES, A Companhia de Jesus em Portugal e MOS


Miss.ões. Esboço Histórico — Superiores -r- Cotégios 1540-1934 ( P o r t o 1935 ) 57,
notas 1-3. ' "'"•' '
(3) FRANCISCO RODRIGUES, História I7A 1 292-296. » -
S 0 B . INÁCIO DE A Z E V E D O 367

Na festa de abertura do ano escolar, dia de S. Lucas ( 1.8 de ou-


tubro de 1553 ), tomaram parte os mestres e os discípulos, assistiram
« i vereadores da Câmara e as famílias dos alunos. Da parte da manhã,
seguindo a praxe universitária da «Oração d e Sapientia», Cipriano
Suárez dissertou sobre a cultura clássica e a formação religiosa da
juventude, isto é, sobre o estudo das línguas latina, grega e hebraica,
e sobre o método da Companhia de Jesus em dar aos que frequentam
as suas escolas a teoria e a prática da vida cristã. Manuel Álvares
ornou as 16 colunas do pátio com pequenas poesias latinas ( o s cha-
mados «epigramas» no sentido clássico do t e r m o ) ; e os alunos, que
então já eram 500 sem contar os ouvintes de Teologia Moral, contri-
buíram com1 composições em prosa e verso, enchendo oom elas as
paredes do claustro. Houve à tarde disputas de estudantes sobre orar
tória, honrada com a presença de homens doutos de fora, que inter-
vieram com os seus argumentos (4).
Foi a primeira festa escolar pública dos Padres da Companhia
d e Jesus em Portugal, e ela iria repetir-se, mutatis mutandis, cente-
nares de vezes, tanto neste colégio de Lisboa, como nos outros à
proporção que se foram erigindo com escolas públicas.
O curso de 1553-1554 principiou com cinco classes de letras com
e s respectivos professores, entre os quais os dois já referidos Cipriano
Suárez, prefeito dos estudos, e Manuel Álvares. Mestre de Moral, o
P. Francisco Rodrigues, que atraía à igreja do colégio numerosa au-
diência.
O Reitor B. Inácio de Azevedo escreveu em novembro a S. Inácio
sobre o colégio, carta que se não conservou; mas existe outra sua.
de 2 de dezembro. Quatro das cinco classes já estão prontas — diz
ele — falta uma; o edifício já se começou. «Os estudos de Humani-
dades, vão muito bem e faz-se fruto com os estudantes assim em letras
çomo em virtudes. Em número também cresceram muito. São poucos
os dias em que não venham de novo, e muitos nobres, e será necessário
duplicar os mestres nas aulas ou daqui a poucos dias não admitir
mais, porque n ã o poderão reger a tantos; alguma aula há em que
passam já de 130 escolares» (5).

( 4 ) Cf. carta d e Cipriana Suárez, Lisboa 31 de dezembro d e 1553, Moao-


memta Histórica Societatíis Iesu, LUneroe Quadrimestre* n (Madrid 1895}
495-4%.
.... ( 5 ) Carta d o B. Inácio d e Azevedo a S. «Inácio, do. Colégio de Jesus
dSg. . Lisboa, 2 de dezembro de 1553, Archivum feomanum Societòtis lesa;'
90 SERAFIM LEITE

Em abril de 54 torna Azevedo a escrever para Roma e depois


dfe expor o tocante à edificação geral entra na matéria dos alunos :
«Vêin tantos de novo que parece que agora começam pela cidade
á-saber deste colégio; e se não se fechar a porta a receber, parece:
qiie crescerá em grande maneira o número deles. Alguns se fazem re-
ligiosos, um se recebeu para a Companhia; outros muitos pedem que
Os recebam, que por agora se diferem. Algumas pessoas se movem-
para dotar alguma renda para este colégio. Umas boas escolas dese-
jámos que se façam separadas d o nosso claustro, e que sejam capazes..
Há : aqui muita comodidade para isso. Uma aula que a cidade manda,
fazei", faz-se em ordem às outras» ( 6 ).
- O colégio progredia e consolidava-se. Pouco depois nova carta de-
Azevedo a S. Inácio : «No princípio de fevereiro se começou a ler
a lição de Casos de Consciência e matéria «De restitutione», na pri-
meira classe o 4.° de «Rhetorica ad Herennium», e na segunda a gra-
mática grega. Puseram-se primeiro escritos por diversas partes da ci-
dade. Acodem muitos de novo cada dia, tanto que pensávamos já em
não ; receber mais, porque as classes mais baixas estavam sobrecarre-
gadas e não podiam já levar mais; e Os que vinham de novo eraim
todos principiantes, que não podiam ouvir nas mais altas. Soube o
Candeal Infante que estávamos pára não receber mais e disse ao Padie
Miro qué de maneira alguma o fizéssemos [...]. Agora serão por todos-
eerca de 540 {sem os que ouvem Casos), muitos deles filhos dos mais
nobres do reino : estes serão mais de 30, e outros muitos nobres;
e. é tão grande esta terra que diziam os senhores da Vereação que não-
bastaria o dobro dos mestres que tínhamos para o número dós estu-
dantes que nos hâ-de vir. Aproveitàm-se muito no « t u d o , especial-
mente pela muita suficiência e boa indústria do P. Cipriano, que i s
3 .primeira e é prefeito das escolas. Fazem os seus discípulos compo-
sições em grego, em prosa e verso. Os que continuam o grego serão-
até i 40 e todos se aproveitam bem : ouvem Homero» C7).

Epp) NN. 103, í: STSV. — Como se vê, Azevedo ainda não ;usa a designação-
Bocal de «Colégio de S. Antão», que depois prevaleceu, mas apenas a genérica
de «Colégio de Jesus».
.,,;_.. Carta d o B. Inácio de Azevedo a S. Inácio, Lisboa 6 de' abril de-
Epp. NN. 103, í. 9r-9v. .. .
(7) Carta d o B. Inácio de Azevedo a S. Inácio, Lisboa 8 de maio de-
1.5J5*, ARSI, Epp: NN. 103, ff. 10r-ll-v. Toda' autõgrafa. Desta carta existear
alguínas <?ópias;uma das quais sé imprimiu em Cartes âe San Ignacio IV { M a -
S0 B . INÁCIO DE A Z E V E D O 369

:
Noutra carta, dtf setembro de 54, a S. Inácio, exalta Azevedo a
benevolência de toda a casa real para com a Companhia. D. João III
«mandou fazer o plano de umas escolas aqui, para que as aulas que-
se forem fazendo sigam em ordem a todo o edifício. Veio aqui para
ó fazer um mestre das suas obras e veio Francisco Correia, que e-
principal da vereação desta cidade [...]. Receberam-se muitos alunos,
Sendo contínuos uns 585 e há sempre novos pedidos dos pais. Até estes-
últimos meses não tinham os estudantes as conclusões do princípio de
eáda mês. Agora as têm e dão muito boa mostra do seu aproveita-
mento. Propõe os argumentos com breve discurso em latim e grego e-
com versos. Vêm pessoas de fora vê-los e eles andam com grande-
fervor nos estudos. Para o princípio das lições, que é -dia de S. Re-
mígío, se preparam agora com grandes discursos e muitos versos para
pôr pelas paredes do claustro. A Oração do Princípio fá-la um sacer-
dote 1 que anda na l. a classe. Dizia nela coisas de muito louvor da
Companhia, e mostrando-a em casa ( o que ele temia pelo que podia
ser) lhe tiraram tudo aquilo, ficando outras cousas boas, porque ele
é muito entendido. O aluno, que tem as conclusões de Retórica, as-
manda imprimir, e todos andam muito animados. Na lição de Casos
há um bom auditório, multiplicam-se os ouvintes e andam muito bem;
vêm antes da lição e movem dúvidas uns com outros e o mesmo fazem-
depois de ela acabada, que parece que lhes agrada muito. Com O'
Padre, que lê, vêm consultar muitos casos de consciência e têm dele-
grande opinião» (8).
Passados quatro meses torna Azevedo a escrever ao fundador da.
Companhia de Jesus. Depois de referir que um irmão, perito na língua
árabe, a ensinou primeiro ao' Padre Cipriano, passando a seguir para
o colégio de Évora, expõe a necessidade de fechar a porta a novas
admissões pela impossibilidade de atender a tantos alunos; e dá o-
estado das classes :
«Na primeira fazem as suas declamações prívatim na sua escola
e, pubfêce entre ano; compõem muito bem em grego, versos e prosa,
ç ,p mesmo em latim; são muito doutos. Os que vão com o grego
muito adiantado serão 30 e por todos na primeira serão 50. Este Natal

drid 1889) 510-518. Conserva-se -também uma versão latina sem assinatura.^
publicada c o m o anónima em MHSI, Litt. Quadr. II ( M a d r i d 1895) 671-679..
lilaft1 a data e o tejcto identifícaai" o ' aótor: J
(8) Carta do B. Inácio de Azevedo a- S. Inácio, Lisboa 3 de setembro
-de 1554, ARSI- Epp. NN-. 103, f f . 19r-2«V7 '
370 SERAFIM LEITE

iizeram grande quantidade de versos ( que seriam bem 2 000 ) em louvor


do nascimento de Nosso Senhor. Nas disputas que se fazem no pri-
meiro sábado do mês, em que se juntam as três classes superiores,
.apresentam-se muito bem e o fazem com quietação e modéstia.
Na segunda classe começa-se agora a gramática grega, compõem
-muitos versos em latim e propõem os argumentos no princípio do mês.
Na terceira também vão muito adiante; começaram agora a ouvir a
Sintaxim de Bespauterio ( 9 ); e do que têm ouvido dão boa conta e lha
tomam amiúde. Os da quarta vão iguais com estes. Nas duas outras
ínfimas, numa se lêem declinações de Despautério, na outra têm-se
lido o género e rudimentos; e em todas se aproveitam muito e com-
põem em todas e andam mui álacres e com muito fervor no estudo pela
graça divina.
Uma pessoa devota, por nos comprazer, tomou a seu cargo mandar
imprimir os versos de Despautério para que os lessem aqui aos estu-
dantes e dá os livros a muito bom preço e a alguns pobres por amor
de Deus; e isto se lê aqui e em Évora. Logo compraram 1 200 daqueles
livros».
Do elenco das matérias de ensino no Colégio de S. Antão se infere
-que o hebraico não era disciplina escolar. Contudo na sequência da
narrativa se encontra a notícia de que um mestre d o colégio ensina
hebreu aos Padres que hão-de ir para a Etiópia «por parecer que
lhes será lá muito necessário».
A festa do «princípio» ou abertura do ano escolar de 1554-1555,
realizou-se a 1 de outubro de 1554. Magnífica, trancendeu o âmbito
-do colégio, interessando a cidade e a corte. Escreve Azevedo :
«O princípio do ano por S. Retmígio fez-se aqui muito bem. Teve
a oração [ d e Sapiência] um clérigo que ouve na primeira classe de
Retórica, que é aio de uns quatro filhos do camareiro-mor d e El-Rei,
que aqui estudam. Fê-la muito bem e muito douta e com muito boa
acção. Veio a vereação; ç muitos senhores eclesiásticos, tendo outra
obrigação em que cada ano por esse dia se juntam, a deixaram para
vir aqui. Vieram muitos religiosos, o provincial de S. Domingos e outros
muitos da sua religião e de outras, e muitos fidalgos muito principais
e muita outra gente. Estavam bancos num pátio do nosso claustro,

( 9 ) Despautério ( v a n Pauteren), gramático flamengo, falecido em 1520.


.Mas 'já era mestre do Colégio d e 5. Antão, o P. Manudl Álvares ( ARSI, Lus. 43,
t. 53r), cuja graanáitíca 'latina em breve substituiria a d e Despautério.
S0 B . INÁCIO DE A Z E V E D O 371

o ali a cátedra onde se teve a oração, que a todos deu muita satisfação
no Senhor.
à tarde realizaram-se as conclusões de Retórica. Duraram duas
horas. Argumentaram pessoas de muita maneira. Os principais mestres
d e Coimbra acharam-se aqui, e argumentaram, e outros mestres de
aqui, o mestre do sobrinho de El-Rei, um religioso muito douto C10)-
e uns fidalgos muito principais; dos escolares do nosso estudo só dois,-
por não haver lugar para mais. Veio vê-las o senhor Dom Duarte C11),
sobrinho do Red, e esteve todo o tempo até à noite e andou pelo,
claustro a examinar os papéis que estavam postos e apontando alguns
versos. E outra vez tinha já vindo e andado por todas as classes ou-
vindo os mestres com grande prazer e gosto destas coisas. Veio também
à s ' conclusões um irmão do Duque de Bragança. Vieram muitos fidal-,
gos muito principais da casa de El-Rei e foi um acto de muita satis-
fação e ficaram contentes e edificados. Vinham os pais dos estudantes
•e mostravam muita satisfação de tudo por graça do Senhor.
Havia ao redor do claustro muitos e ibons discursos de letras ilu-
minadas, que os estudantes prepararam durante muitos dias, e muitos
versos em latim e discursos em grego, e enigmas, que as pessoas doutas,
c os religiosos, e de toda a sorte, andavam por adivinhar, dando em
tudo glória ao Senhor, porque tudo era de coisas boas. Havia pelas
colunas muitos epigramas em grego e latim muito bons, que fizeram
os nossos mestres, que toda a manhã e de tarde pessoas de fora copia-
vam e liam. Era tanta a gente que não tinha conta. Vieram de S. Ro-
que os Padres para estarem presentes e satisfazerem às pessoas de fora.
Na véspera também mandou o Padre Provincial que viessem os Irmãos
dè lá para nos ajudar a pôr tudo em ordem. E pela bondade de Nosso
Senhor foi tudo muito bem».. No dia seguinte foi o Provincial Miró
falar cóm D. João IH. «Já lhe tinham contado o que aqui passara

(1°) .O mestre do sobrinho de EA-tRei ( D . António mais conhecido por


Prior do Crato) era Frei Bartolomeu d o s Mártires. Este® primeiros contactos
e amizade entre o futuro mártir e o futuro arcebispo primaz desabrochariam
depois na. fundação do Colégio de Braga, de que o próprio B. Inácio da
Azevedo iria ser organizador e primeiro reitor ( 1 5 6 0 ) .
( l i ) « D o m Duarte, duque de Guimarães, décimo condestável deste reyno,
filho do infante D o m Duarte e da senhora infante Doma Isabel, e irmam da
senhora D o n a Maria, princesa de Parma, e da senhora. D o n a Catherina duquesa
de-Bragança, avó dei rei D o m . Joam o Quarto, nosso senhor» (BALTASAR
T E L E S , Chronica da Companhia de. lesa tia Província de Portugal Tf [Lisboa
1647 ] 376).
372 SERAFIM LEITE

no , princípio. Levou-lhe alguns epigramas que tinham feito a Sua Al-


teza e a seus -irmãos C12) e ao príncipe seu neto O3), com que mostrou
muito prazer, seja glória ao senhor que para tudo lhe dá benevolência;
e tanto ele como os seus .irmãos estão muito contentes desta obra;
e • em geral toda. a gente está muito edificada deste colégio. Estando
os dias passados um fidalgo, principal da Vereação C14) com o Doutor
[ António ] Pinheiro, pessoa de muita maneira, pregador régio, dizia,
o doutor que a cousa mais insigne que tinha havido nestes 'tempos,
era o Colégio de Santo Antão» f 15 ).
A quadrimestre seguinte,, de fins de abril, não foi escrita por
Azevedo. Encarregou-a ele a um Irmão de nome João Lopes, -filho de*
Vila do Conde, e que faleceu antes de 1564 f1^), o qual esta mesma
comissão e carta salvou do anonimato de tantos outros falecidos pre-
maturamente. Diz João Lopes que na lição de casos de Consciência
se lê agora a -matéria De matrimonio : ouvem-no os sacerdotes de-
casa e alguns irmãos e outra gente de fora. Antes de entrar à . lição
repetem eles diante do mestre a do dia passado, e aos sábados têm
perguntas sobre o que se leu naquela semana ( sabatinas). O professo.r
de Moral P. Francisco Rodrigues, continuava a ser muito consultado-
sobre dúvidas e casos ocorrentes.
«Os mestres de Humanidades prosseguem seus autores, como come-
çaram no princípio do. ano. Os estudantes estão muito bem aprovei-
tados. Na segunda [ classe ] compõem- versos com diligência e vão-
muito bem na gramática grega; na primeira vão com muito fervor,,
ouvem muitos Homero, e em pouco tempo aproveitam bem no grego-
e retórica. Bnsinam-se entre si uns aos outros» O17).
Introduziu-se por este tempo no Colégio de Santo Antão a lição*
da Esfera, de John of Hollywood, mais conhecido por João de Sacro
Bosco C18); e, pelo mesmo desenvolvimento e renome dos estudos, du^

(12) Os infantes D. Henrique ( C a r d e a l ) e D. Luís, pai de D. A n t ó n i o


Prior do Crato.
(13) O futuro rei D. Sebastião. . . .
(14) Francisco Correia, senhor de Belas.
(15) Carta do B. Inácio de Azevedo a S. -Inácio, Lisboa 3 de janeiro-
4 e 1555, ARSI, Epp. NN. 103, ff. 21r-23-v.
(16) ARSI. LUS. 43, f. 25r.
(17) ' Cartta do Irmão João Lopes, por comissão do B. Inácio de Azevedo,.
a ' S . Inácio, .Lisboa 30 de abril de 1555, A3RSI, Epp. NN. 70, £f. 60Lr-602y.
JMpressa em MK9T, IMt. Quádr. IH (Madrid 1896 ) 399-406.
(18) Cf. Litt. Quadr. i l l 601. • ,
373
S0 B . INÁCIO DE AZEVEDO

junte o reitorado do B. Inácio de Azevedo, se infere e compreende


perfeitamente, como nasceu, ganhou raiz e se impôs em Lisboa a idéiã
•de passar o Colégio das Artes de Coimbra à administração de tais
mestres. Trataram do assunto por parte da Companhia de Jesus o Pro-
vincial Diogo Miró, por parte da corte o Doutor António Pinheiro,
que exercia nela funções que hoje diríamos de Ministro da Educação.
Explica-se tudo isso e também o que se lê na mencionada quadrimestre
de 30 de abril de 1555 : '
«O Padre Mestre Miró veio aqui [ ao Colégio de S. Antão ] morar
-alguns dias, e parece que Nosso Senhor o ordenou assim para neste
tempo levar muito adiante as coisas deste colégio. Veio aqui o Doutor
António Pinheiro, que com El-Rei trata todos os negócios que tocam
aos estudos de Coimbra e outras cousas muito importantes, por ser
homem de grande talento, engenho e virtude. Contentou-o muito a
maneira dos nossos estudos, e logo tratou de que nos fizessem duas
classes além da outra, que então se acabava, e logo nos deram o di-
nheiro para se fazerem mais depressa. Além destas, quer El-Rei que
se faça outra em que se ensinem meninos a escrever e ler, para que
as outras escolas que há pela cidade tomassem daí exemplo e bons
costumes. Começou também o Doutor a pensar na dotação deste colé-
gio, porque até o pouco que temos não é perpétuo».
Por sua vez, quis a corte ver e apreciar pessoalmente como pro-
cediam os estudantes de S. Antão nas disputas públicas. A seguinte
cena passa-se no paço real perante D. João III e D. Catarina :
«Desejou El-Rei ver um acto dos estudantes que aqui ensinamos.
Mandou o Padre Mestre Miró ao P. Cipriano, prefeito dos estudos,
que fizesse preparar alguns. Fez-se assim, e no dia que tinham de ir,
se confessaram e receberam o Santíssimo Sacramento. Sustentou um
•estudante pequeno umas conclusões em retórica; argumentaram-lhe os
•outros, propondo com proposições em grego e tudo muito bem, de que
El-Rei se satisfez muito. Estava presente a rainha; estava ali o Doutor
António Pinheiro, e o P. Miró dando razão de tudo a Suas Altezas.
Mostram tanta satisfação da Companhia assim estes príncipes como a
outra mais gente, quer secular, quer religiosa, que é muito para louvar
a Nosso Senhor» C19).
(19) AR&r, Epp. NN. 70, í. 602r.
374 SERAFIM LEITE.

Azevedo deixou o reitorado de S. Antão por meados de 1555, para


se ocupar duma prévia e delicada missão conexa já com o Colégio-
das Artes de Coimbra. Nos primeiros dias de Agosto partiu para Cas-
tela, a fim de angariar, com S. Francisco de Borja, comissário d a
Companhia de Jesus em toda a Península Ibérica, novos e competentes
professores para o Colégio das Artes da cidade dó Mondego, que em
breve passaria à administração dos Padres da Companhia de Jesus.
Matéria de próximo e novo estudo, no qual acharemos o B. Inácio de
Azevedo reitor do Colégio de Coimbra (incluindo já o Colégio das.
Artes ).
REVISTA; l E ^ l i T l i

contribuição do Ultramar no alargamento da cultura portuguesa, poir A'..


Borges de Melo. — Até há ,pouco tempo, apenas se conhecia por'
«cultura portuguesa» a contribuição metropolitana nas artes e roas
iletras, na® ciências e noutros quaisquer ramos espirituais. Evidente-
mente que • é mo concurso da Mãe-Pátria que assenta a parte maior da nossa
cultura, quer peila sua já larga projecção no temipo, quer mesmo peio seu
inegável valor critico, histórico e artístico. Tem assim eido, ao longo dós
séculos, e ninguém mesmo hoje negará que o mais completo escol da inite-
lectuailidade portuguesa e o somatório maior do nosso património ouilitural estão-
contidos ina Metrópole.
Mas, como quer que seja, far-se-á urna gravíssima amputação à cullifcura-
nacional, se apenas a virmos por este limitado caimpo. Com efeito, em quase-
tedos os pedaços de Portugal repartidos pelo Mundo floresce um raimo cultu-
ral próprio, com a sua poesia e arte específicas, e com a sua maneira espe-
cofica de analisar as coisas, as gentes e a vida. Oremos que todos possuem o*
seu vailor intrínseco, <mas, para já, pelos frutos 'libertados, destâcanvse as flo-
rações culturais de Cabo Verde, Angola e Moçambique.
Cabo Verde, o arquipélago de dez ilhas -batidas peilo mar, onde há d e s -
graça se não vem chuva e onde há alegria se o céu se compadece. A eterna.,
luta do homem arreigado à terra, mas com os olhos voltados para o fim do
oceano, que 'lhe acena promessas de riqueza e felicidade... Aqui se gerou uma.
literatura específica, simbolizada ern «Chinquilho», esse maravilhoso romance
de Bailtazar Lopes e noutros imiil /poemas de desespero e de esperança, de
nostalgia e de calidez, fruío de unia verdadeira estirpe de poetas, que a cri-
tica de há muito ijá consagrou.

Angola e Moçambique, coei a sua- ante negra, com o seu folclore diver-
sificado em mil matizes com a sua 'literatura a todos o s títulos vállida e que
alcança a sublimação na poesia, com a siua música e com outros mil valores
espirituais, de que é mister fazer inventário, arquivando-os no escrínio da
cultura portuguesa. Também os frutos culturais libertados por estas duas gram-
des províncias são jâ vailiososi, sendo d o conhecimentto público muitos deles..
Mas há imenso ainda a pesquisar e a prospectar, arrancando-o de um estado
de passiva existência (para o campo das nealidades ouilturaig válidas.
N ã o está realmente inventariado o grandioso somatório das florações cul-
turais ultramarinas-, embora estás já não possam passar despercebidas a "todo-
o português que se diga culto. Mas tal inventário ,é um dos trabalhos que se
•ifiàpõe, paira a completa recolha, classificação, selecção e total integração dos
valores culturais e espirituais ultramarinos, no seio da cultura portuguesa. Isto
alargar-lhe-á sobremaneira os horizontes e lorná-3a-á mais rica e .mais univer-
salista.—Boletim Gerai do Ultramar, Lisboa, Agosto - Setembro • de 1966.,.
•pága..417.419. . : . . , . - • : . : - • • >
1376 REVISTA, DE R E V I S T A S

O Nahal cm Israel, poir J. G. — E m muitos países, sobretudo nos que se


^encontram em fase de desenvolvimento, têm sido experimentadas diversas mo-
dalidades de formação civil, para os recrutas que prestam serviço militar :
campanhas de alfabetização, formação profissional intensiva, etc. É nesta ordem
«le ideias que merecem' particular referência, pelas suas dimensões sociais, ap
realizações d o organismo criado em 1948, no n o v o Estado de IsTael, sob
o patrocínio d o Ministério da Defesa Nacional, e que tem o nome de Nahal.
A sua finalidade é a de acompanhar a preparação militar dos recrutas
c o m uma formação paralela desses recrutas para o desenvolvimento e progresso
geral do país. Dá-se grande importância à formação estrictamente técnica e
profissional, mas o traço mais característico do Niahai é o relevo aíribuá«d*>
•à formação para a convivência , e desenvolvimento comunitário.
É 'bem conhecida a importância de que se revestem, no Estado de IsraeJ,
as comunidades cooperativas, -particularmente no sector da agricultura. O tipo
-original d e convivência que caracteriza o s khbbutzitn, ou empresas colectivas.
<e os moshav ovdim, ou aldeias cooperativas, é coisa que s e não improvisa.
Poir isso as autoridades de Israel pretendem utilizar o Nahal para imbuir
•de espírito comunitário o s rapazes e as raparigas que, aos 18 anos, principiam
•obrigatòriamente o seu serviço militar, destinado a prolongar-se por um período
de dois anos. É desta forma que se integram no movimento do Nahai os
^grupos voluntários de soldados, que trabalham, em regime de estágio, nas
empresas cooperativas, especialmente nas de carácter agrícola. Isto porque,
-embotra a agricultura seja o campo mais frequente d e actuação dos grupos
integrados no Nahal, não é todavia o íinico, colaborando também, por vezes,
e m diversas outras modalidades de desenvolvimento comunitário, e m zonas
fronteiriças, em iniciativas industriais comunitárias, na aprendizagem ou ensino
•do hebreu, como 'língua nacional, etc.
A maior parte dos jovens orientados para a agricultura começam por
agregar-se, em grupos organizados, a diversos estabelecimentos agrícolas
-colectivos, gerailmeinite aos kabbutzim. Ai, ao longo dum ano inteiro, cada grupo
inicia-se mo rtiraibajlho da terra-, -tomando parte nas adtòvidades aigrícolas das
-comunidades que os acolhem. A o -mesmo tempo que a sua permanência no
kibbutz oferece aos jovens tim exemplo dum tipo de vida a que poderão
•consagTar-se, constitui também esta- experiência uma prova concreta a que terá
•de submeter-se a coesão do grupo.
Algumas destas comunidades são estabelecimentos criados pelo próprio
.Nahal, que com o tempo se transformaram e m colectividades civis e são,
em iboa parte, integrados por antigos membros do Ntahal. Noutros casos, t-rata-
- s e d e comunidades já existentes de há muito, ou, então, de povoações fron-
teiriças. A sua escolha obedece, por um lado, às vantagens concretas que possam
apresentar para a formação dos jovens: por outro, a diversos outros factores,
c o m o as necessidades da defesa nacional, as condições -locais da mão-de-oibra,
.a 'possibilidade duma. eventual instalação ulterior de novos membros, etc.
A designação de um kibbutz para -receber -.grupos do Nahal é regulamen-
tada por acordo prévio entre o próprio kibbutz e o Ministério da Deíesa.
O s gru-pos em questão continuam a constituir tinia unidade do serviço d e defesa
R E V I S T A DE R E V I S T A S 377

e têm quairtjéás próprio®. Quanto às actividades específicas da sua colaboração


com o kibbutz, variam conforme as circunstâncias, dedicandó-se normalmente
as raparigas aos serviços domésticos e ao cuidado do gado, enquanto os rapa-
s

zes trabalham preferentemente no campo. Como paga do trabalho prestado,


é entregue pelo kibbutz ao Ministério da Dtefesa uma quamtfa correspondente
aos salários normais, depois de deduzidos os gastos da alimentação. A escolha
dos kibbutzim em que hajam de Colaborar o® grupos do Nahal nem sempre
obedece a considerações de ordem estrictamente económica, interferindo aqui
diferentes ouitros factores, como o interesse da colectividade, a segurança e a
política da povoação em causa.
O s salários ' percebidos pelos joviens, durante este período, bem como o
rendimento dos seus próprios estabelecimentos, constitui, para o Nahal, uma
boa fonte de auitofinanciamento, que coibre pràticamente todos o s seus gastos
o que constitui uma característica muito notável, havendo leni funcionamento,
no Instituito Agrícola Central d o Nahal, cursos intensivos e ibem equipados paia
diversas especialidades agropecuárias : projecções, maquetas, campos experi-
mentais, ete.
'Depois do período de formação, o® rapazes e raparigas do Nahal, embora
continuando a ser elementos d o serviço d e defesa, constituem uma e6péci;e
de destacamento especializado, qiue passará a empreender, com a ajuda dos
respectivos instrutores1 e monitores, uma experiência pessoalmente responsável
dá vida em comunidade agrícola, encarregando-se das diversas funções socdais
e económicas duma colectividade no género dum kibbutz, cultivando pessoal-
mente a tenra, criando gado e montando instalações, havendo instituições
pública® ou siemipúMicas que proporcionam o material apropriado para a
construção dos edifícios necessários.
Para julgar do resultado prático desía campanha, poder-se-á tomar como
referência a percentagem dos antigos membros do Nahai que ainda permane-
cem, nestas comunidades agrícolas, ao cabo de três anos. A sua . média, para
os últimos 10 anos é da ordem dos 34 %, correspondendo a percentagem imais
elevada ( 4 0 % ) aos grupos constituídos pelas organizações da juventude, e
descendo, a o contrário, essa percentagem a valores da ordem apenas de 15%,
eittre indivíduos de menor formação idealista e social.
N o seu comjumto, as realizações do Naihal devem considerar-se verda-
deiramente notáveis1, estenden do-ee o laibor destes (joivens, ao iongo dos tMitli-
mos 15 anos, a uma® 200 comunidades agirícodas, figurando, ao lado de uima
centena de comunidade® que apenas receberam ajuda, outras tantas comuni-
dades cuja fundação o.u estruturação se lhes deve, em grande parte, o u mesmo
na sua totalidade : 30 estaibelecwnenitlos criados d e raiz, uns 10 reconstituídos,
e uns 60 cuja população completaram, no período da respectiva criação. E,
se se consideram este® resultados e m relação com o desenvolvimento de todo
o conjunto das comunidades rurais ultimamente criadas e que somam para
cima de 700 aldeias ou comunidades colectivas, pode-se verificar q u e o Nahal,
sem pretensões de comst&tuir o ed emento princiipail do desenvolvimento e colo-
nização sistemática das zonas rurais, ocupa, neste movimento, um lugar de
7
1376
R E V I S T A , DE R E V I S T A S

primeira importância. — Revista de Fomento Social, Madrid, . Julho - Setembro


de 1966, pàgs. 307-309.

D o índice dos livros probidos a profeta do Concílio Vaticano II. — A s edi-


ções Mordelifanade Bréscia, acabam de apresentar ao público uma edição,
autorizada por uma caarta do Cardeal Oítaviarmi, das «Cinca chagde, da Igrefa»
do albade Rosimini ( 1797- 1855), aconit!ecimein,to que despertou imenso eco
na opinião pública italiana.
Tirata-se, efectivamente, d o livro duma das mais interessante® figuras d o
catolicismo italiano do século passado, escrito e m 1823, puibilicado n o s princi-
pio» do pontificado de Pio IX e posto n o hrdrce em 1849. 'Muito estimado
por Gregório XVI e 'Pio IX, que o nomeara Consultor do- Santo Ofício e o
destinava ao cardinailato, Rosmini analisai e denuncia-, nesse seu livro, os males
que, a seu ver, dificultavam, nesisa época, o impulso da Igreja, e qu)e ele reduz
a estes cinco aspectos fumdamentais: ignorância d o s fiéis e seu afastamento
da liturgia; formação defeituosa dos seminaristas; desunião dos bispos; sujeição
da Igreja aos poderes temporais; servidões politicas Sobre o s bens eclesiás-
lácos. N u m a visão quase profética da realidade, propõe 'Rosimini, como remé-
dios para estas cinco chagas, medidas e instituições quie hoje encontramos
preconizadas, era boa parte, n o s 16 documentos promulgados pelo Concilio
Vaticano II. Baste citar a reforma litúrgica, a colegialidade dos bispos, o
decreto sohre a fommação d o olero, etc.
N a opinião de uta dos redactores da Civiltà CattoHca, a condenação
desta obra de Rosmini obedeceu imais a motivos de ordem externa do que
(propriamente a erros doutrinais : mostrava-se, nessa altura, a Áustria parti-
cularmente ciosa dos seus direito® e m matéria de nomeação dos bispos, directos
esses àsperamemte criticados por Rosmini; escutavam-®e ijá os primeiros rumo-
res do movimento que levaria à supressão do poder temporal' dos 'Papas, e a
Cúria receava que uma independência total da Igreja, eim face dos vários
Estado®, pusesse e m risco a manutenção d o s respectivos direitos e privilégios.
N ã o podia ter sido melhor a atitude prática d e iRoamn.ni. F i l h o humilde
mas esclarecido da Igreja, submeteu-se siem uma hesitação. N a própria itlarde
do dia e m que l h e condenaram a s Cinco chagas e « n a outra da® suas obras,
começava ele uma carita por estes termos : «Bendito seja o nome do Senhor,
a quem aprouve que fossem condenados dois do® meus fivros...»
•Por oima da porta da cela q u e ocupava iRosoiini, na Casa-Mãe da família
religiosa por el© fundada, em Domodossotla, o Instituto da Caridade, ainda
hoje se (pode ver este (versículo do profeta Jeremias : «É 'bom esperar, e m
silêncio, a aijuda do Senhor». — Hiechm y Dicho]s, Saragoça, Dezembro de 1966,
pàgs. 1081 - 1082.

O s movimentos populacionais entre a Metrópole e o Ultramar Português, por


Óscar Soares Baratte.—Assiste-se, n o s nossos dias, a u m fenómeno de expan-
são migratória, que elevou as saídas de metropolitanos para palse® estrangeiros
a uma média; anual de mais de 36 000, no quinquénio de 1950-1954, definindo
um novo nível que tem vindo a manter-sie, e que leva a um contacto mais
R E V I S T A DE R E V I S T A S 379

íntimo comi o estrangeiro, cujas consequências sobre a renovação dos padrões


de vida são já evidentes.
Menos bem conhecida parece ser a expansão, a que igualmente se assiste,
nas deslocações de metropolitanos para as Províncias Ultramarinas, quie é
da maior importância na vida portuguesa. A s deslocações para o Ultramar não
são consideradas, nas estatísticas portuguesas, n o s mesmos termos que as
saída® de emigrantes, pois trata-se de oim movimento verificado entre parcelas
do território nacional;. Os dados que no® fornecem as informações referentes
ao movimento d e passageiros entre a Metrópole e o Ultramar, por via marí-
tima, e m navios nacionais, (excluídos os militares, tripulantes e viajantes em
trânsito), embora não abranjam a totalidade do fenómeno, e m virtude do
uso já corrente das carreiras aéreas, permitem uma análise globai e aproxi-
mada das suas principais características. Acrescem, como eáemento® de apoio,
os resultados d o s censos populacionais d o s anos de 1940, 1950 e 1960.
EMzem-nos estes último®, por exemplo, que a população de tipo europeu
aumentou, em Moçambique, 75% n o decénio 1940-1950; e um pouco mais
de 100% de 1950- 1960. E m Angola, esse aumento foi, respectivamente, de
7 9 % nesse primeiro decénio, e de 119% n o segundo. A própria dimensão
deste acréscimo mostra que se trata da afluência de europeus provenientes de
outras parcelas do território nacional, principalmente da Metirópole.
Ma® as estatísticas do movimento dos passageiros são ainda mais expres-
sivas. Mostram el'as que foi a partir die 1946 e 1947 que o ritmo das deslo-
cações para o Ultramar começou a acelerar-se. E m 1947 ultrapassou o s 10000
embarcados anuais; e em 1955 os 20000, número este que se tem mantido
ulteriormente, com excepção d e um único ano. Este movimento tem-se verifi-
cado sobretudo com destino às grande® Províncias de Angola e Moçambique,
tendo embarcado para Angola, de 1943 a 1963, cerca de 238 000 habitantes
da Metrópole, contra apenas 122 000 desembarcados. Analogamente, embar-
caram para Moçambique 114 000 metropolitanos, tendo desembarcado, de lá,
apenas 48 000.
Pelo que respeita às características desta massa migrante, é interessante
notar que a maioria eram pessoas viajando em família e frequentemente famí-
lias numerosas. N o s anos de 1945 - 1 9 4 9 os passageiros que seguiam para o
Ultramar c o m as respectivas família^ representam 50 % do total dos embar-
cados; atingindo já perto de 6 0 % do mesmo total n o s anos de 1960-1962.
iEsta realidade contrasta nitidamente com o que se sabe das saída® para
países, estrangeiros, em que, de 1955 a. 1963, mais de 7 0 % dos emigrantes do
sexo masculino saíram isolados, embora, entre os com mais de 15 anos, nos
ano® d e 1960- 1963, 50,7 % fossem casados. Nesse mesmo período de. tempo,
a proporção, para o s indivíduos de mai® de 15 anos, f o i de 155 homens para
100 mulheres. Aliás, das mulheres c o m mais de 15 anos, que saíram do país
como emigrantes, quase 70% eram casada®, partindo iporém muitas delas
isoladas o u c o m familiares, mas sem o chefe de família, o que confirma o
fenómeno da junção ulterioT das famílias, abrangendo embora apenas uma
pequena parte dos emigrantes, que em geral não parecem partir com intenção
de s« estabelecerem por longo tempo nos locais de destino, A ser correcta esta
1376
R E V I S T A , DE R E V I S T A S

•interpretação do sentido da saída com ou sem famália, pode-se pensar que


o s números relativos aos movimentos de passageiros entre a Metrópole e ò
Ultramar indicam uma deslocação com intenções mais estáveis, dando ao fenó-
meno uma perspectiva bastante diversa.
N o que' se refere à composição profissional da corrente estabelecida entre
a Metrópole e o Ultramar, ( à parte a elevada percentagem dos que se desti-
nam a serviços domésticos, e que reflecte a situação das mulheres que seguem
em família), a maioria dos passageiros destina-se a • actividades relacionadas com
a 'indústria, os transportes,, o comércio e os serviços públicos. Apenas uma per-
centagem reduzida se destina a actividades relacionadas com o sector. primá-
rio. O s dados indicam, por outro lado, que o s funcionários representam apenas
uma percentagem reduzida d o total. Este movimento parece assim dever ser
interpretado como reflectindo as crescentes capacidade® das economias ultra-
marinas para. absorverem- mào-dc-obra qualificada.
Este é„ aliás, mais um aspecto em que os que seguem para o Ultramar
se distinguem caracteristicamente d o s que saem para países estrangeiros. Com
efeito, a emigração portuguesa tem sido, e m geral, uma emigração de agricul-
tores. Assim1, n o s anos d e 1960 - 1963, entre o s saídos para o estrangeiro,
53,4 % eram trabalhadores do sector primário e 31,6 % do sector secundário,
c o m predomínio aqui dos destinados à , contrução civil] em França, entre o s
quais a maioria se ocupava, de facto, anteriormente, também da terra.
•Do ponto de vista de instrução, parece igualmente oportuno referir que
se regista uma percentagem relevante de indivíduos com cursos Secundárias
e superiores entre os que se deslocam para o Ultramar.
Esta afluência de tão largo número de metropolitanos à® províncias do
Ultramar parece um facto novo, cujo interesse dificilmente poderá ser exagé-
rado. É certo que se atravessa uma' fase de expansão geral da emigração portu-
guesa e que o presente fenómeno se liga intimamente com isso. Todavia, à anterior
fase de expansão das últimas décadas do século passado e primeiras décadas
do século actual ficou assinalada por grossas correnties migratórias para o
Brasil e, em menor grau, para os Estados Unidos e outros destino®, com' pre-
domínio da América do Sul. E m contraposição, foi muito reduzido o aumento
da população de origem europeia dos territórios portugueses e m África. É
bastante diferente o fenómeno actual, em que vemos, por outíro lado, que
se deslocam para o nosso Ultramar pessoas profissionalmente qualificadas e,
em boa parte, n o seio das próprias famíitds, aparecendo assim como uma cor-
rente populacional c o m certas características d e estabilidade, capaz de ajudar
á estruturar e dinamizar o s meios sociais ultramarinos. Afigura-se-nos, por
isso, que estornos aqui perante um dos desenvolvimentos importantes da socie-
dade portuguesa, neste período posterior à segunda guerra mundial — Estu-
das políticos e sociais, Lisboa, 1966, n.° 3, págs. 1009 - 1012.
B r B L I O G R A F 1 A

as normas preconizadas pelo Concílio


Vaticano II para o estudo da teologia^
começa por nos apresentar os princi-
BAUDRAZ, Francis. — Lcs Epitres aux pais dados da S. Escritura e da Tra-
Oorinthiens — Vol. de 210X150 mm. dição viva sobre Maria Santíssima.
e 210 págs. Labor et Fides. Genebra, Vem depois a elaboração teológica;
1965. enquadrada ein quatro capítulos : «Ma-
Neste volume o pastor protestante ria, Mãe de Deus; Maria, cheia de
F. B. apresenta-nos um comentário graça; Maria e à Salvação dos ho-
exegético, às duas epístolas de S. Pau- mens; Maria é a Igreja. Particular-
lo aos Coríntios. Depois de uma boa mente nestes dois últimos tem-se em
introdução, vêm as duas epístolas, em conta a doutrina mariológica do Vati-
tradução francesa muito cuidada, di- cano II, em especial no último capí-
vidida em breves perícopa® a que se tulo da Constituição dogmática Lúmen
segue o comentário breve mas subs- Gentium, cujos ensinamentos são ainda
tancioso, e não demasiado técnico, para desenvolvidos num apêndice especial.
poder estar ao alcance mesmo dos que O A. está muito ao corrente e. refe-
não estão especializados ma S. Escri- re-sie às últimas tendências da Mario-
tura. Em geral o autor cinge-se a de- logia. Numa palavra, uma boa síntese
olárar o sentido da passagem referida, da teologia mariana, exposta de forma
com algumas considerações de ordem clara e acessível, mesmo a quem .não
teológica. — L. de Castro. tem grandes conhecimentos teológicos.
— L. de Castro.
San Gioovanni. — Atti delia XVII
Settimana bíblica. — Vol. de 240X175 MARTINS, José Saraiva, C. M. F. .—
mm. ie 368 págs. Paideia. Brescia, 1964. De dogmático collegiatis episcoporum
' À XVH semana -bíblica italiana, rea- fundamento, secundum Constitutionem
lizada como todas as anteriores, no «Lúmen Gentium». — Vol. de 240X165
Instituto Bíblico .de Roma, em Setem- mm. e 70 págs. Claretianum Roma,
bro de 1962, teve por tema S. João, 1965.
apóstolo e evangelista. João XXHI quis Qual é o fundamento dogmático da
ele mesmo abrir os trabalhos da Se- colegialidade episcopal, proclamada na
mana, com um discurso dirigido aos constituição dogmática «Lúmen Gen-
semanistas reunidos no palácio apos- tium» do Concílio Vaticano II? O A.
tólico do Vaticano, e que se reproduz estuda-o primeiramente na S. Escri-
•logo no início do volume. Seguem-se tura, quando se refere ao Colégio
depois os 15 trabalhos apresentados à apostólico, à sua estrutura interna e a
Semana, em que, (especialistas em S. acção colegial exercida pelos Apósto-
Escritura, tratam de diversos proble- los e' seus próximos cooperadores.
mas relacionados com os escritos joa- Depois mostra qual foi a concepção
ninos — o quarto Evangelho, as três da colegialidade dos .bispos, manifes-
Epístolas e o Apocalipse. — L. de tada sobretudo na prática da acção
Castro. episcopal nos primeiros tempos • da
Igreja. Deste volume conclui-se que á
NICOLAS, M. J., O. P. — T h é o t o k o s . doutrina da colegialidade episcopal;
— Le Mistère de Marie. — Vol. de exposta pelo Vaticano II nãò é coisa
210X140 mm. e 238 págs. Desclée & nova na Igreja, visto ter sólidos fun-
C.° Tournai, 1965. damentos nàs fontes da Revelação, a
Neste volume o conhecido teólogo S. Escritura e a Tradição viva da
dominicano, P. e M. J. Nicolas, apre- Igreja.
senta-nos um conspecto, bastante de- Estudo metódico e bem elaborado,
senvolvido, da Mariologia. Seguindo que ajuda a clarificar ideias sobre este
104
BIBLIOGRAFIA

complexo problema da colegi alidade de 200X135 min. e 216 págs. CoL


episcopal. — A. Leite. «Théologie». Aubier. Paris, 1965.
Neste erudito trabalho, que consti-
VLLLETTE, Louis. — Foi et sacrement. tuiu a tese de doutoramento do A.,
— II. De Saint Thomas a Karl Rarth. estuda-Se o problema da salvação e da
— Val. de 250X165 mm. e 400 págs. redenção em S. Tomás de Aquino.
Travaux de 1'Institut Catholique de Pa- Depois de um exame minucioso e
ris. B'oud & Gay. Paris, 1964. pertinente dos muitos textos em que
. O problema da necessidade da fé o Doutor Angélico trata do assunto de
nos sacramentos há muito que é obje- forma mais ou menos explícita, o A.
cto de discussões teológicas. Pôs-se chega a esta conclusão : «Qual é, pois,
logo desde os tempos apostólicos, e o elemento central da soteriologia, da
pouco a pouco a doutrina foi emer- antropologia e da eclesioiogia cristãs?
gindo do meio da prática sacramental, A resposta de S. Tomás parece indu-
como o A. mostrou no primeiro vo- bitável : e o Amor. O mistério da
lume desta obra que vai até Santo missão do Filho é o mistério d o amor
Agostinho. Neste segundo volume e9- de D e u s aos homens O mistério da
tuda-se o problema desde a época de acção salutar de Cristo é o mistério
S. Tomás até à actualidade. D e facto, do amor obediente e do dom de si
desde o século V até ao apogeu da mesmo até à morte. O mistério da
teologia medieval, pode dizer-se que união a Cristo, mistério do cristão e
nada se adiantou rao esclarecimento da mistério da Igreja, é portanto também
questão. S. Tomás e os escolásticos mistério de Amor. O amor não ex-
seus contemporâneos, em especial S. clui o resgate, nem a satisfação, nem
Boaventura, estudaram profundamente o sacrifício. Pelo contrário, inspira
a matéria, e apresentaram uma síntese e confere a cada um o seu valor
brilhante em que delimitavam harmo- O amor ordena para Deus toda a vida
niosamente o papel da fé e dos ritos de Cristo e do cristão, como num s ó
na eficácia sacramental. Lutero e os acto meritório. O amor é a fonte
seus continuadores, porém, estabelece- do dom da Graça, que nos é dado
ram o principio que não é o sacra- pela acção instrumental de Cristo nos
mento mas a fé que justifica. Como sacramentos e pela fé. O amor é o
é natiural, a teologia católica após o coroamento da graça e a realização
Concílio de Trento, reagiu contra da obra de Deus. Só o amor nos faz
aquelas afirmações e insistiu sobretudo compreender o mistério do Pai que
na necessidade dos ritos sacramentais sailva pelo Filho, e do próprio Filho
que produzem efeito «ex opere opera- que nos saliva na Igreja em que. uni-
to», contra o que afirmavam os re-
formadores. N o s nossos dias a reno- dos em Cristo, nós vivemos de D e u s
vação bíblica, eclesiológica e litúrgica e para Deus. Tal é, se descemos ao
veio dar nova actualidade ao proble- fundo, a soteriologia de S. Tomás de
ma, tanto no campo católico como no Aquino».
protestante Os dois temas dos «sacra- Belo trabalho que nos mostra a
mentos da fé» e dos «sacramentos da plena actualidade dá doutrina do Dou-
Igreja» orientam actualmente a investi- tor angélico. — A. Leite.
gação teológica neste particular.
DILLENSCHNEIDER, Clément, C . SS. R
É o que com muita erudição e pro- — La paroisse et son cure dans le mys-
fundo conhecimento do problema e tère de l'Église. — Vol. de 235X150
dos seus vários aspectos e soluções mm. e 200 págs. Éditions Alsatia. Pa-
propostas através dos tempos, nos mos- ris, 1965.
tra este belo estudo de teologia histó- Uma das novidades da pastoral mo-
rica, incluído na .excelente colecção derna é não considerar a paróquia
que vem publicando a Faculdade de apenas sob o aspecto jurídico e admi-
Teologia d o Instituto Católico de Pa- nistrativo. Procuram-se-lhe as suas
ris. — L. de Castro. características teológicas que devem
servir de base a toda a sua organiza-
CATÃO, Bernard. — Salut et Rédemp- ção e actuação. Este volume aproveita
tion chez S, Thomas d'Aqura. — Vol. e condensa, como refere o Autor, o
BIBLIÓGRÁFÍÀ 383

que de melhor se tem publicado sobre cos sobretudo de uma opinião mode-
este tema novo e fecundo especial- rada, mas de tendência optimista, que
mente nas línguas franoesa e alemã. prevê para a Igreja num futuro mais
A primeira parte é consagrada à o u menos próximo uma época de es-
paróquia : desde a sua noção espiri- plendor, não externo e triunfai, mas
tual primitiva à paróquia de hoje; sobretudo espiritual e de vasta influên-
o conceito jurídico de paróquia e as cia no mundo. Parece-Uhe até já se
suas implicações teológicas; ensaio e divisarem no horizonte longínquo o s
síntese de uma teologia da paróquia; primeiros alvores desta nova época.
a paróquia comunidade de f é ; a pa- Limita a sua investigação aos Auto-
róquia comunidade de culto e de cari- res que têm tratado do assunto desde
dadie; a paróquia comunidade mis- meados do século passado. Atém-se,
sionária ; a paróquia comunidade de modo particular, à opinião do P.°
•escatológica; os sucedâneos da paró- Henrique Ramière, «Les espérances
quia normal : as paróquias pessoais. d e 1'Église» (Lyon, 1861) que, nas
A segunda parte é consagrada ao suas •linhas gerais lhe parece fundada
pároco : o pároco, chefe da família quer na S. Escritura quer na teologia.
paroquiai!; o pároco, pai da paróquia; Esta idieia, na sua essência rece-
o pároco, ajpóstolo da comunidade beu novos irmpulsos com as teorias do
paroquial; o pároco, liturgo da comu- P.° Tejlihard de Ohardin, e mais ainda
nidade paroquial; o pároco, pastor da Constituição Gaudiam et Spes do
da comunidade paroquial. Em forma Concílio Vaticano II.
de epígolo traçam-se as linhas mestras Mesmo que a tese do Autor seja
da espiritualidade do pároco. discutível, trata-se de um estudo su-
Esta simples 'enumeração dos temas gestivo, muito 'bem' documentado e
desenvolvidos no volume mostra bem que pode trazer luzes para quem s e
a sua importância ipara a pastoral preocupa com o problema, para muitos
das paróquias modernas. É pois angustiante, d o futuro da Igreja no
muito de recomendar não só ao® pá- meio de um mundo cada vez mais
rocos e seus coadjutores, mas a todos descristianizado e dessacralizado. — L.
os fiéis, em especial aos responsáveis de Castro.
pelas actividades das nossas paróquias.
— L. de Castro. ITURRIOZ, Daniel. — Revelaciones
privadas. — Vol. de 220X140 mm. e
MATABOSCH SOLER, Antonio. — La 206 págs. Razón y Fe. Madrid, 1966.
Iglesia y sus esperanzas. — Vol. de O s tempos apocalípticos que vive-
240X170 mm. e 234 págs. Colectanea m o s prestam-se a confusões. N o plano
San Paciano. Editorial Cásullerasi. Bar- lógico e no ontológico; no histórico
celona, 1965. e no mítico; no político-social e no
Através dos temipos sempre tem havi- religioso; no verdadeiramente carismá-
do pessimistas que 'profetizam o declí- tico e no patológico. A s manifestações
nio da Igreja que ficaria, com os anos, do divino são, em certos casos, u m
reduzida ao «pusillus grex» de que facto histórico adquirido. Houve-as de
fala o Evangelho. Outros acredita- carácter individual e colectivo, público
ram no milenarismo, ou seja no reino e privado. Que elementos autenticam
futuro temporal' de Cristo neste mun- estias últimas? Como discerni-las?
do que dominaria sobre uma socie- Efectivamente, nem toda® se apresen-
dade perfeita da quail estaria pràtica- tam da mesma maneira, nem com os
mente ausente o erro e o mal. U n s mesmos resultados. Se a verdade e
e outros procuram basear-se sobretu- objectividade são apanágio dumas, o
do no Apocalipse e nas profecias subjectivismo, quando não a alucina-
tanto da S. Escritura, como de particu- ção e fraude ou inanidade ridícula
lares. Entre estes dois extremos existe comprometem, irreparàvelmente, a cre-
uma gama imensa de opiniões que vão dibilidade de outras. Deus é senhor
de um pessimismo menos radical' a do® seus carismas, mas estes não po-
um optimismo triurifalista aoerca do dem intervir ou inserir-se na vida
futuro da Igreja. O A. examina os individual e comunitária cristã de qual-
fundamentos teológicos e escriturísti- quer modo. Se é verdade que á acção
106 BIBLIOGRAFIA

carismática do divino, no plano privado, mm. e 414 págs. Tipografia Poliglota


se manifesta com mais insistência pelo Vaticana. Città dei Vaticano, 1965.
decurso da história religiosa do mun- A Sagrada Congregação dos Semi-
do e m épocas de crise, é também nários e Universidades promoveu em
indiscutível que' ela nem sempre se Roma, de 9 a 14 de Setembro de
faz de modo tão claro, insofismável 1962, u m encontro dos directores espi-
e incontrovertível que não exija, por rituais dos seminários italianos. A orga-
parte d e toda a consciência cristã e nização das conferências e palestras foi
daqueles que têm missão de a orien- confiada à Universidade Gregoriana.
tar, o s critérios de identificação e Neste volume, publicado pela mes-
valorização correspondentes. A o ma- ma S. Congregação, reúnem-se as con-
gistério hierárquico cabe essa missão ferências o u lições proferidas durante
e à. teologia, servida pela psicologia e aqueles dias de estudo, devidas a pro-
pela medicina, a tarefa de o coadjuvar fessores da Universidade Gregoriana e
para a olarificação das ideias e deter- outros especialistas na matéria. Abre o
minação das atitudes a assumir em volume com a alocução de João
cada caso. A acção carismática de XXTTT aos participantes naqueles dias
Deus tem-se manifestado, também, e m de estudo, os discursos de abertura
nossos dias. Mas tal qual aconteceu dos mesmos pelo Cardeal Pizzardo,
nos tempos evangélicos e no decurso prefeito daquela S. Congregação e pelo
da história do cristianismo, para não Reitor da Universidade ' Gregoriana.
recordar a antiga história de Israel, Seguem-se os trabalhos divididos em
não isentou prèviamente o mundo dos duas patifes : a primeira sobretudo
mimetismos irresponsáveis ou de enga- teológica sobre o s princípios funda-
nos criminosos, permitindo que ela seja mentais da vida espiritual; a segunda,
acompanhada de réplicas ou arremedos mais prática, acerca dos diversos pro-
que nada têm de divino. Daí a neces- blemas psicológicos e ascéticos que
sidade de estudar semelhantes mani- hoje mais frequentemente se põem na
festações em si e nas repercussões educação dos candidatos ao sacerdó-
pessoais ou colectivas, que elas têm ou cio. A» conclusões são tiradas pelo
podem ter. Secretário da Congregação dos Se-
O presente volume cinge-se ao es- minários, Mons. Dino Staffa.
tudo dogmático das chamadas revela- Ainda que estes trabalhos sejam
ções privadas e da missão e autoridade anteriores ao decreto conciliar sobre a
que a seu respeito compete ao magis- formação sacerdotal, a S. Congrega-
tério da Igreja, sem entrar na expo- ção julgou oportuno puiblicá-dos pois
sição das regras que a mística e a psi- seguem na linha traçada pelo Concilio
cologia têm de ter em conta para e contêm normas muito oportunas
distinguir as verdadeiras e sobrenatu- para a actualização da direcção espi-
rais das falsas, culpáveis ou inculpá- ritual dos Seminários. Desnecessário,
veis, positivamente fraudulentas ou portanto, encarecer a importância do
puramente patológicas. volume. — A. Leite.
Tomando a teologia carismátioa no
seu conjunto, à luz dos grandes mes- BRUGNOLI, Pietro. — La spiritualità
tres, a que o Concilio Vaticano I I dá dei laici. — 2.° Ed. — Vol. de 225X
oportuna confirmação, faz-nos discer- X145 mm. e 308 págs. Morceliana.
nir o valor genuíno e finalidade pro- Brescia, 1965.
videncial que as revelações privadas, U m dos principais campos de inves-
quando autenticadas em todos o s seus tigação da teologia espiritual, contem-
aspectos, desempenham na vida espi- porânea é a relativa aos leigos. N o s
ritual da Igreja e no desenrolar do últimos séculos, força é confessá-ilo,
mistério da salvação. — D. M. e salvo algumas excepções, os escrito-
res espirituais referiam-se sobretudo
aos religiosos, de fomna que a espi-
ESsfpBPÉtâQQSiBãQÍi&agflè ritualidade laical era considerada como
uma espécie de aplicação da espiri-
La fonnazione spirituale dei candidato tualidade religiosa aos leigos. Recen-
al sacerdozio. — Vol. de 215X150 temente, porém, numerosos escritores
BIBLIÔGRÂFÍÃ — -385

— em boa parte devido aos movi- é a sexta castelhana — mostra bem a


mentos da Acção Católica e outros de oportunidade do livro que muito' pode
apostolado , leigo — têm estudado a ajudar o cristão a levar com paciên-
espiritualidade laical em si mesma. E cia e até com alegria o s dias maus
não há dúvida que estes estudos tive- que. costumam ser muitos na vida. —
ram grande 'importância para a parte A. Leite.
relativa aos leigos na Constituição
dogmâtioa Lúmen G-entium e outros DUATO G- - NOVELLA, Manuel, S. I.
documentos do Vaticano IX. — Un maravilloso mundo desconocido.
O P." P. de Brugnoli já em 1963 ao — Vol, de 165X115 mm. e 132 págs.
publicar a primeira edição desta obra Editorial Hechos y Dichos. Zaragoza.
tinha procurado sintetizar os resulta- O mundo maravilhoso desconhecido
dos da investigação teológica acerca de que nós fala o Autor é o mundo
da espiritualidade d o s leigos. O livro dos doentes e • dos diminuídos fisica-
foi recebido com aplauso e agrado, mente. Como assistente, longos anos,
de modo que, passados dois ano®, era da Fraternidade Católica dos Doentes
necessária nova edição <na qual já ipôdè e com .a sua própria experiência- • de
aproveitar boa parte dos documentos oito operações que teve. de fazer, e no
conciliares. ' trato com inúmeros enfermos, ,o A.
Os problema® fundamentais estuda- pôde penetrar como ninguém no mun-
d o s são sobretudo três : 1) Haverá, do da dor. Experimentou palpa vel-
em sentido teológico, e não meramente mente a generosidade e a grandeza
descritivo, uma espiritualidade «especi- de alma de inúmeros doentes ou dimi-:
fica» dos cristãos que vivem nó mun- nuídòs fisicamente e, como, c o m a
d o ? Por outras palavras, existe um graça de Deus, conseguem levar a sua
modo próprio de o s leigo® amarem cruz com resignação cristã e até .ale-
a D e u s e de se santificarem, quer seja gria. Ajudá-los a subir assim espiri-
pela sua «inserção no mundo» quer tualmente e dar a. conhecer ao® sãos
pela «consagração do mundo»? Em este mundo desconhecido .ma® ali-
que sentido se pode dizer que essa ciante, tal é o fim destas páginas
espiritualidade se distingue da dos sugestivas e muito oportunas, integra-
outros estados de vida na Igreja? 2) das numa colecção que tem por título
Quais são as características psicoló- significativo «Cruz e alegria». — L.
gicas de tal espiritualidade? 3) Será <te Castro.
um caminho verdadeiramente válido e
eficaz para conduzir à perfeição
cristã ? RUBIO, Rodrigo. — El Papa buenó
A estas três .perguntas procura o y los enfermos. —- Vol. de 16.5X 110
A. dar a resposta mais conforme com mm. e 160 págs. Editorial Hechos y
a doutrina e espírito do Concilio e Dichos. Saragoça.
com o melhor pensamento teológico O «bom Papa João» manifestou
contemporâneo. Apnesenta-nos com sempre amor e carinho muito espe-
método e muita clareza 09 problemas ciais pelos doentes. Já antes de ele-
e as soluções que se ilhe afiguram mais vado ao Sólio Pontifício dera inúme-
verdadeiras e que hoje vão sendo cada ras provas de amor para com os
vez mais comuns entre os teólogos doentes, os infelizes, os desprotegidos
que ®e têm ocupado — e são muitos da sorte, numa palavra para com todos
— d e problema de tanta 'actualidade. os que sofrem. Depois de Papa que-
— A. Late. brou muitas vezes a. rigidez do proto-
colo quer para acarinhar doentes,
JERPHAGON, Luciem. — Oraciones para sobretudo crianças, quer para o s ir
los dias inaguentables. — 6. a Ed. — visitar nos hospitais de Roma.
Vol. de 165X105 mm. e 144 págs. Edi- Tudo feito com grande naturalidade
torial Heahos y Dichos. Saragoça. e simplicidade, que mostravam bem
Diversas vezes n o s temos referido sair-lhes d o fundo da sua bela alma,
a este livro quer n o original francês cheia de bondade.'Tal é o que se nos
quer na versão espanhola. O facto de conta nestas breves páginas, cheias de
se multiplicarem as edições — esta exemplos belíssimos de verdadeira'cá-
jBiBLtOGkÀFÍÁ

ridade que inundava a alma de João concluindo o volume com um brevís-


xxra. simo «como educar os nossos filhos».
N o final a 'lista das numerosas alo- Os variaidog . fenómenos próprios
cuções ou escritos em que o Papa se das diversas fases da evolução psico-
referiu aos doentes. — L. de Castro. lógica da ailma infantil são ilustrados
oom factos da vida normal de todas
as crianças, de um modo eminente-
PaS8®l?®B mente prático, o que torna o livro
acessível, a leitura amena e o proveito
1) PFLIEGLER, Michael. — Teologia assegurado.
Pastoral. — Trad. do alemão por Ale-
jandra Ros. — Vol. de 140X215 mm. 3) Pastoral da iniciação cristã. —
e 472 págs. Editorial Herder. Barce- Vol. de 130X185 mm. e 296 págs. Edi-
íona, 1966. tôra Vozes Ld.a Petrópolis, 1966.
A «teologia pastoral» é, entre as O presente volume contém os estu-
ciências eclesiásticas, a que maior in- dos, conclusões e esquemas de traba-
teresse tem suscitado nos últimos anos. lhos e círculos de estudos apresentados
Está a Igreja sob o signo da «pas- pelos participantes no II Encontro Na-
toral!» : não foi o próprio Vaticano II cional de Liturgia realizado em Vali-
um concílio pastoral? nhos, São Paulo (Brasil), de 30 de
Dentro do vastíssimo campo desta Junho a 5 de Julho de 1965.
disciplina ealesiástica, limitou-se o O tema foi o da «pastoral da inicia-
autor ao sector-base da pastoral, isto ção cristã no Brasil», tomando «inicia-
é, à hodegética. Ciência prática, que ção cristã» como designando a pro-
arranca da eolesioilogia, da ascética e gressiva inserção do homem no
da moral, cabe-lihe o papel de ditar mistério de Cristo até à sua plena
o que deve fazer o pastor de almas, participação sacramental (não ministe-
neste momento histórico, com esta rial) .na comunidade visível' do Povo
classe de pessoas ou indivíduos que de Deus.
lhe cumpre trazer à prática da vida Os estudos versaram, por isso, sobre
cristã. a renovação pastoral do Baptismo
Responde largamente a estes requi- tanto o conferido às crianças ( portan-
sitos o -livro que vamos folheando. to na parte referente ao® pais e pa-
Suficiente base dogmática quanto à drinhos) como aos adultos, da Primei-
função do pastor de almas e quanto ra Comunhão e do Crisma.
à meta que ele se deve propor, e A® condusões incidem sobre a ne-
superabundante informação sobre a cessidade premente da estruturação do
realidade antropológica, .psicológica e ministério da Palavra em ordem ao
sociológica com que hoje depara o sa- ressurgimento da fé individual de con-
cerdote com encargo de almas. versão e adiesão, da instituição do
O índice analítico vem tornar fácil catecumenato como preparação indis-
o manuseio desta autêntica enciclopé- pensável à recepção frutuosa dos Sa-
dia de pastoral, valorizada com mais cramentos, da consciencialização da
de trinta páginas de selecta bibliogra- família paroquial como comunidade
fia, diferenciada segundo os diversos missionária com a obrigação de teste-
•lemas suscitados por tão premente munhar a vida de fé, esperança e ca-
problema que intenta resolver sati/5- ridade.
fatòriamente a Igreja dos nossos dias. As considerações, tanto na sua mo-
tivação teológica como na sua aplica-
2) DUFOYER, Pierre. — À alma da ção pastorai! imediata, são válidas para
criança. — Trad. do francês por' Fer- toda a zona geográfica d© língua por-
nanda Falcão. — Vol. de 140X200 tuguesa. São, pois, dignas da maior
mm. e 216 págs. Editorial Aster. Lis- consideração por quem se consagra à
boa, s./d. ingente tarefa de uma adequada re-
Estamos perante uma síntese psico- novação pastoral.
-pedagógica sobre a «alma da crian-
ça». Nela se estuda a estrutura e evo- 4) HOPFENBECK, Gabriel. — Pasto'
lução da personalidade da criança, rale de la. Confession. — Trad. do ale-
109 BIBLIOGRAFIA

mão por Mareei Giandclaudon. — Urge, pois, apresentar a confissão


Vol. de 135X185 mm. e 184 págs. como ela é : encontro pessoalíssimo
Éditions Salvatoi. Mulhouse, 1966. com D e u s misericordioso, Médico que
N ã o se trata aqui da pastoral do cura, Mestre que ensina, Pai que es-
Sacramento da Penitência, a mão ser timula a maior correspondência ao
na parte final do livro que considera amor sem limites que Ele nos consa-
o caso 'peculiar da confissão dos an- gra. Este o caminho da «pedagogia da
ciãos e dos doentes, mas sim de como confissão».
aproveitar a administração do Sacra-
mento da Penitência para a instrução 6) PARISSE, Luciano, O. P. —
adequada do penitente em ordem ao Reconciliai-vos com Deus. — Vol.. de
seu progresso espiritual. 120X185 mm. e 102 págs. Editora Vo-
Assim o tema central deste livro é zes Ld.*. Petrópolis, 1965.
a alocução do sacerdote feita a o pe- O presente livrinho apresenta c o m o
nitente, ou como instrução sobre as subtítulo o de «guia da participação
verdades da -fé ou como exortação a do cristão no Sacramento da penitên-
uma vida mais unida a D e u s segundo cia».
o esitado espiritual da alma manifesta- Dentro do espírito da actual reno-
do na acusação dos pecados. vação litúrgica pela consciencialização
Propõe o autor esquemas vários dos fiéis do significado dos ritos sa-
adequados a mil e uma circunstâncias grados e pela participação activa na
tendo como melhor recomendação a acção sagrada, o autor recorda a di-
eficácia muitas vezes comprovada. mensão bíblica e eolesial dò Sacra-
mento da Penitência, integrando-o uai
5) HAERING, Bernard. — Pédagogie História da 'Salvação, explicitando a
de la Confession. — Trad. do alemão atitude interior e exterior d o cristão
por Maroel Grandclaudon. — Vol. de que participa na celebração deste Sa-
135X185 mm. e 132 págs. Éditions cramento de reconciliação com o Deus
Salvator. Mulhouse, 1966. vivo.
Sòmente o primeiro estudo, dos três A conversão do coração — atitude
aqui editados, é da autoria do conhe- fundamental do cristão — conversão
cido redentorista alemão. Todos eles dinâmica, incessantemente renovada,
foram proferidos numa reunião orga- não é sòmente a fonte da reconcilia-
nizada pelo Instituto Catequético de ção com D e u s : é também a irneta
Graz, na Áustria. de toda a vida cristã até à adesão
Trata o primeiro da formação da definitiva na eternidade. Ora esta con-
consciência segundo o Evangelho; o versão é exigida is alimentada pelo
segundo estuda a noção de falta e de Saoramento da Penitência... frutuosa-
conversão na experiência intima d a mente recebido segundo o que a teo-
criança; o terceiro propõe-se dar a logia pastoral recorda neste utilíssimo
pedagogia da confissão na catequese. guia de «formação litúrgica».
Se todos os Sacramentos são «prop-
ter homines», e portanto um dom es- 7) VLASMAN, Fr. G u i d o , O . F. M.
pecialíssimo de Deus sòmente para ... E não pequeis mais. — Vol. de
proveito dos homens, um há — o da 130X185 mm. e 208 págs. Editôra Vo-
Penitência — que é olhado por grande zes, Ltd.*. Petrópolis, 1966.
parte dos fiéis não como um grande Propósito manifesto deste livro é
benefício mas como uma carga insu- contribuir para a renovação litúrgica
portável. Com ser, por excelência, para do Sacramento da Penitência d e modo
os adultos, o Saoramento da misericór- a que se exprimam com fidelidade a
dia, e portanto aqueile que mais devia sua natureza e 03 seus efeitos, segundo
atrair o s homens aos pés do Divino exige a Constituição Sacroscmctum
Médico das almas, na realidade é olha- ConcUium.
do como obstáculo intransponível na É u m facto que a administração
prática da vida cristã ou então como usual deste Sacramento desde há sé-
gesto inevitável que se faz mecanica- culos o esvaziou de alguns dos seus
mente sòmente para cumprir e assim elementos. E o que é ainda pior, a
obter o cartão de desobriga.
rotina das confissões feitas fora • do
M BIBLIÓGRÁFÍÀ

seu verdadeiro contexto espiritual, tem muito, do pedagogo que acompanhe,


feitio com que o Sacramento ,da recon- do- mestre que ensine, do guia que
ciliação de Deus, da conversão sin- oriente. Pedagogo ou mestre ou guia...
cera do coração, se tenha transfor- competente!
mado, muitas vezes, num rito mágico Por isso se explica que o autor
a que por necessidade social se su- comece por integrar a direcção espi-
jeita o fiel para obter um atestado de ritual na actividade sacerdotal e no
purificação temporária recebido pas- quadro pessoal da vida de cada fiel.
sivamente a modo de roupa que su- D e cada fiel ohamado pelo Espírito à
porta o ser lavada para depois se maturidade espiritual : é neste enqua-
sujar outra vez. dramento que é apresentado o exercício
Assegurada a disposição essencial da direcção espiritual, sempre -tendo
para a válida e frutuosa recepção do em conta que «cada um é cada qual»
Sacramento, suiblinha o autor o aspecto e que por isso o diálogo espiritual
comunitário ou. eclesial em que se inte- •tem por meta ilevar o dirigido a saber
gra todo o acto litúrgico, e, portanto; usar da sua liberdade a fim de sempre
também o Sacramento da Penitência. escolher o que mais conduz à obten-
A o chamar a atenção para este as- ção do fim pretendido.
pecto, que tão descurado tem sido na Este livro interessa a iodos na me-
pastoral da confissão, é menos fializ dida em que faz ver a directores e
a afirmação do prefaciador ao escre- dirigidos, que o diálogo, tão necessário
ver que « o efeito primário d o sacra- normalmente para- o progresso espiri-
mento da Penitência é, pois, a recon- tual, para ser verdadeiramente eficaz
ciliação com a Igreja». Este aspecto requer do director e do dirigido uma
da reconciliação com a Igreja era' grande docilidade sempre atenta às
«socialmente primário» na . prática an- inspirações da graça, às manifestações
tiga penitencial e sòmente quando se -tantas vezes misteriosas do Espírito
tratava de gravíssimos pecados públi- Santo.
cos; dá-se reconciliação com a Igre-
ja sempre que há reconciliação com 9) ROSSETI, Luigi-Mariai.— Práti-
Deus, mas não se verifica a inversa : ca de caracterologia religiosa. — Trad.
e s ó se verifica o Sacramento quando do italiano por Gerardo Dantas Bar-
há reconciliação com Deus. Importa reto. — Vol. de 1 5 0 X 2 2 0 mm. e 1 7 6
sublinhar o aspecto, da confissão como págs. Editora Vozes, Ltd.". Petrópolis,
reintegração no meio vital em que se 1965.
expande a vida divina e donde dève • É um livro prático, espécie de ma-
proceder a autêntica vida da' comuni- nual de caraoterologia acomodado, de
dade cristã, mas sem desvirtuar o m o d o muito acessível, a pais, pedago-
essencial do Sacramento. gos e, de um modo especial, a sacer-
Após ter recordado os princípios dotes com encargo de direcção espi-
teológicos em que se baseia a reno- ritual de jovens.
vação pastoral deste Sacramento, apre- Após breve® noções dé caracterolo-
senta o autor onze celebrações comu- gia geral, o autor toma cada um dos
nitárias, aptas a criar o clima religioso oito tipos da caracterologia de Le
penitencial, pelo avivar da fé em Deus Senne, dando as notas quie os definem
misericordioso, o que tornará mais fe- e a correlativa educação psicológica
cunda a recepção do Sacramento aos e a apropriada pedagogia da vida so-
pés do confessor. brenatural.
Dada a finalidade de este livro —
. 8) LAPLACE, J.ean, S. J. — La di- a de pôr ao alcance dos educadores
rection de conscience ou le dialogue elementos indisjpensáveis fornecidos pela
spirituel. .— Vol. de 125X180 mm. e psicologia em ordem a uma pedagogia
224 págs. Mame. Paris, 1965. eficiente poupando-lfaes o dispêndio de
, .Ninguém , nasce ensinado. Daí a tempo e energias para buscar alhures
necessidade de pedagogos, .mestres e os conhecimentos necessários — acha-
guias. O aforisma é . válido também m o s grave lacuna a ausência de um
•nas vias do espírito, nos caminhos da quéstionârio que ràpidamente, mas com
vida espiritual, onde. se necessita, e segurança, proporcionasse ao educador
BIBLIOGRAFIA 389

a indicação do tipo caracteroiógicò a camente aquilo mesmo que se ensina


que pertence o educando o u dirigido. na catequese e é fundamental a o longo
da vida cristã.
10) SANTANA, P. c Orlando Ribeiro ' É estie contexto que dá o justo valor
de. — Métodos de formação religiosa aos excelentes esquemas, acomodados
da criança. — Vol. de 125X160 m m aos domingos e festas do ano litúr-
e 40 págs. Sá da Bandeira, 1965. gico, desde o 14.° domingo do Pente-
Nesta palestra, proferida na aber- costes até à festa do Espírito Santo.
tura solene das aulas da Escola do Diversos apêndices — como cartas-cir-
Magistério Primário de Sá da Ban- culares dirigidas aos pais e questioná-
deira ( A n g o l a ) em Outubro de 1965, rios para as crianças destinados a avi-
o autor aponta sumàriamente os ele- var o sentido profundo da celebração
mentos de que o educador dispõe c o m o vida da Igreja e de cada fiel
pára' conseguir a formação religiosa da nela integrado — completam o exce-
criança na idade pré-escodar e durante lente material aqui posto à disposição
o ensino primário. Tais são : o dese- dos catequistas e pastores de almas em
nho, o canto, os versos, o gesto, os ordem a uma eficaz pedagogia da vida
exemplos bíblicos e a vida litúrgicai Sobrenatural.
Todos estes métodos são proveitosos
na medida em que' a meta a atingir 12) ' Us demandent le baptême pour
esteja bem definida nas preocupações leur enfànt. — Vol. de 130X 205 mm.
do educador, na medida em que etle e 256 págs. Les Éditions du Cerf.
esteja bem consciente das característi- Paris, 1966.
cas vitais de engajamento requeridas D e v e m ser 'baptizadas as crianças
pela autêntica formação religiosa. cujos pais não praticam? É que o
baptismo não é u m rito mágico dé
11) Initiation des enfants ã la litur- folclore religioso, mas sim a inserção
gie dominicais. Célébrations et activi- na família divina. Daí o problema :
tés paroissiales. — Vol. de 155X215 pode-se agregar à família de Deus,
mm. e 228 págs. Bíblica. Bruges, 1965. pelo baptismo, as crianças cujos pais
Recolhe este volume um trabalho de não dão garantias de as ensinar a viver
equipa realizado .por catequistas, dele segundo o sinal da fé que para sempre
fazendo pairte sacerdotes, religiosas e as marcou, e que - portanto desprezam,
mães de família sob a orientação d'o se é que não renegam, a verdadeira
beneditino belga Thierry Maertens. natureza do baptismo de que devem
A catequese tem por meta a activi- ser os fiadores perante a Igreja?
dade sobrenatural na alma de cada A resposta, segundo o dogma e a
um. Se bem que esta actividade seja pastoral, dá-a o presente volume ao
um problema pessoal, de cada indiví- recolher estudos feitos por uma equipa
duo, contudo o ambiente, favorável Sacerdotal da Missão de França. Assim
ou desfavorável, contribui em muito à solidez d os princípios teológicos
para a sua plena expansão. a-lia-se a comprovada experiência pas-
Este condicionalismo toma um pa- toral. A solução a dar ao problema
pel mais importante ainda quando se não está e m decidir-se -por um dos
trata de crianças : para elas o teste- termos d o dilema, mas em aproveitar
munho da vida cristã nos adultos é este momento tão propicio para dar
factor primordial que as convence de uma catequização apropriada aos cris-
que, o que aprenderam no catecismo, tãos de mera tradição social.
não é assunto de criança® mas apren- Vários documentos anexos indicam
dizagem para toda a vida. É neces- o caminho a seguir ipara assegurar a
sário que as crianças vejam o s adultos adequada catequização dos pais por
praticarem aquilo mesmo que lhes é ocasião do baptismo das crianças.
ensinado no catecismo.
Esta função comunitária, que con- 13) SMEDT, Mgr. Emile-Joseph de.
solida a catequese infantil, deve ser — Pour un dialogue parents-adolescents.
exercida pela família e pela paróquia. — Vol. de 115X195 mm. e 80 págs.
D e que maneira? Fazendo viver sa- Éditions Beyaert. Bruges, 1965.
cramentalmente, comunitária, e litúrgi- É Um complemento à carta pastoral
390 BIBLIOGRAFIA

sobre a família, da autoria do conhe- arquivados; Justifica-o o facto de to-


cido bispo de Bruges, baseado em gua- das estas conferências serem proferida®
trocentos depoimentos de rapazes e num curso para religiosas dedicada® a
raparigas entlre os dezasseis e os vinte tratar pessoas de idade.
e dois anos. Os diversos problemas da última ida-
Diz-se ser característica da juven- de da vida são versado® com compe-
tude de hoje ( porque não da de todos tência técnica e pastoral-, sendo a
o® tempos? ) a aversão radical a toda velhice encarada em seus aspectos
a espécie de formalismo, unida a um psico-sociais, espirituais e apostólicos.
sentido crítico plieno de exactidão. Ca- Este livro mostra como compreender
racterística que se revela, n o diálogo, e amar as pessoas idosas, e c o m o aju-
nelo realismo sadio, sinceridade reso- dá-las a integrar-se na vida da Igreja,
luta e lúcida ponderação. tornando úteis e fecundos o® últimos
Excelentes qualidade® com oue os anos tidos habitualmente como fardo
pai? devem contar para um diáloao insuoortável.
confiante, certos: de oue conhecerão Bibliografia complementar e indica-
melhoT a verdade total, e para a® ção dos organismos católico® que, em
miaie os educadore® dievem apelar a França, se consagram a ajudar as
fim de incutir, aos educandos, con- pessoas de idade, tiorna mai® valiosa
fiança nop pais de morto a pô-los ao esta modelar colectânea de estudos
corrente de seus problemas. Só assim sobre um problema de .pastoral cada
se desvanecerão mal-entendidos e in- dia mais avolumado, uma vez quie
compreensões recíprocas. tende a aumentar a: percentagem das
É neste clima de optimismo realista pessoas idosas graça® aos ; progressos
aue se restabelecerá a confiança mútua, da medicina. É necessário que o espí-
base da paz estável n o lar e sólido rito lute pelas alturas mesmo quando
ponto de parilida ipara uma acção o corpo pende para a terra.
conjunta de velho® e novos na edifi-
cação de um mundo melhor. 16) Pastorale et communautés natu-
refles. — Vol. de 135X195 mm. e 128
14) LAMBÉRS, E. B. — Toars d'arriè- págs Les Éditions Ouvrières. Paris,
re-saison. — Vol. de 135X190 mm. e 1965.
132 págsi. Éditions Salvator Mulhouse, A evangelização d o mundo actual
1966. não ê possível sem ter em conta os
Livro de ficção", espécie de diário grupos espontâneos que se formam na
de uma respeitável senhora perten- dinâmica da vida social.
cente à designada «terceira idade» da A acção individual, quando se trata
vida. A tomada de consciência de que de fazer levedar a grande massa des-
já-não-é-nova e a surpresa do dia- cristianizada que ameaça abafar o tes-
-a-dia visto sob o prisma de uma lú- temunho vivo da fé, é um ideal que
cida pessoa d e idade, tafl é o conteúdo se tem de pôr de parte pela falta afli-
romanesco deste volume. tiva de pastores. A acção pastoral tem,
A leitura poderá ajudar as pessoas -portanto, que começar, não pelas insti-
idosas, ou a comprovar os frutos dà tuições iparoquiais, ma® pelas pequenas
própria experiência, ou a esclarecer comunidades naturais, pequenas células
situações fàciimeníe deformada® por vi.vas originadas <por um conjunto de
uma óptica possivelmente desactuali- interesses comuns : o emprego, a can-
zada, e, em qualquer hipótese, tornar tina, local de diversões, etc.
mais lúcidos e, portanto, mais úteis Entrar em contacto com estas pe-
ò s dias de um Outono que Deus per- quenas comunidades naturais, -favore-
mita seja a estação de abundante cendo-as pondo-a® em -ligação com
colheita. outras similares até as integrar na
família paroquial, tal deve ser a técni-
15) La religieuse et les personnes ca sociológica do pastor de almas
âgées. — Vol. de 140X200 mm. e 16S empenhado em fazer levedar, com o
págs. Éditions Fleurus. Paris, 1965. fermento de Cristo, a grande massa
O título deste volume corresponde dos fiéis confiados à sua guarda.
somente a dois do® nove estudos nele Tal é o quadro de sociologia reli-
BIBLIOGRAFIA 391

giosa sabre o qual se debruçaram o s tina, sendo a sua redacção definitiva


intervenientes na sessão pastoral reali- obra de conscienciosos teólogos e so-
zada em Troyes de 15 a 17 de Junho ciólogos.
de 1964, e cujos estudos s e encontram Duas partes contém este livro : as
enfaixados no presente volume. relações enitire a Igreja e o desenvol-
vimento da América Latina, e a pas-
17) VAN DELFT, M., C. SS. R. — toral que a Igreja deve adoptar pe-
La Mission Paroissiale. — Trad. do rante as realidadesi concretas desse
holandês por Fr. Van Groennedael. — sector tão vasto do N o v o Mundo.
Vol. de 140X190 mm. e 214 págs. P. Cada uma das duas partes está divi-
Lethielileux, Éditeur. Paris, 1964 dida em três capítulos : a situação
O tema deste livro é o que entre real tanto do desenvolvimento como
nós se designa por «missões popula- da pastoral, reflexão teológica sobre
res», «santa missão» ou simplesmente esta realidade, e conclusões a tirar,
«missão». por parte da Igreja, para desempenho
Denois de enquadrar esta aceocão da Sua missão no sector geográfico em
peculiar do termo dentro da multipli- questão.
cidade de sentidos que envolve o vocá- A panorâmica apresentada por estes
bulo «missão» " na terminologia canó- estudos sociológicos e teolóeicos terá
nico-reiliVosa, o autor estuda a história de ser matizada em cada oaís do bloco
da«i missões noipuilarec. e a sua sistema- iibero-americano : mas não há dúvida
tização segundo as nações e as famílias de ane é excelente meio de conscien-
reli ciosas a elas devotadas, apresenta cialização de um problema que inte-
a documentação eclesiástica relativa a ressa vitalmente aos pastores de
este género de apostolado e finalmente almas, aos quais aponta o caminho da
expõe a disposição canónica ( c â n o n renovação pastoral, isto é, do desem-
1349) que prescreve a «sagrada mis- penho eficiente das próprias responsa-
são», em cada paróquia, pelo menos bilidades.
cada dez anos.
O livro data de 1950 : fica, por isso, 19) MARINS. P.° José. — Renovação
em suspenso (para o leitor) o pro- paroouial. — A ) S. Paulo de Poterigi.
blema da função da «missão popular» — B) Cravinhos. — Vols. de J60X
dentro da renovação empreendida pelo X 2 3 0 mm. e 108 e 80 págs., respectiva-
II Conoílio do Vaticano como ele- mente. Editora Vozes, Ltd.'. Petrópo-
mento da recristianização das massas. lis. 1965.
Responde, em parte, à dúvida levan- Em estilo directo, amenizado por
tada, o apêndice redigido por outro diálogo vivo e espontâneo, dá-nos o
autor, sobre o «Centre pastoral des autor um -relato pormenorizado da
Missions à 1'intérieur», órgão, em vida paroquial em dois centros brasi-
França, da renovação das missões leiros : um no Rio Grande do Norte
populares. - e o ouitiro na arquidiocese de Ribeirão
A verdadeira reforma das almas, é Preto, S. Paulo.
a das consciências, é a dos critérios A comprovada experiência alheia,
pelos quais cada um pauta o seu dia- com seus pequenos fracassos e retum-
-a-idia : e esta s ó se pode operar, bantes sucessos, é de molde a estimu-
normalmente, à luz da eternidade — lar iniciativa® e incentivar esforços em
luz quie faz brilhar intensamente, à quem sente pesar sobre seus ombros
escala popular, o método secularmente a responsabilidade da recristianizacão
comprovado das missões populares. d e um mundo cada vez mai® enfeu-
dado às realidades terrestres. — M.
18) A s responsabilidades da Igreja Alves de Oliveira.
na América Latina. — Trad. do cas-
telhano por Rosa Maria Brito Cosenza.
— Vol. de 150X220 m e 120 págs.
Editora Vozes, Ltd." Petrópolis, 1965.
Este estudo ibaseia-se em informa- RAHNER, Karl, S. J. — Missão e
ções recolhidas em dez países da Amé- graça. — Trad de Odilo Jaeger, S. J.
rica Latina desde o México à Argen- — 3 Vols. de 180X125 mm. e 208, 224
392 BIBLIOGRAFIA

e 238 págs, respectivamente. Editorial MOELLER, Charles. — Mentalidade


Vozes. "Petrópolis, 1964, 1965. moderna e evangelização. — I. Deus,
K. R., não se tem consagrado ape- lesus Cristo. — Trad. de Maria Luisa
Neri. — VoL de 255X145 mm. e 200
nas a especulação teológica, como era
págs. Editora Vozes. Petrópolis, 1966.
costume quase geral dós maioresi teó- A evangelização nos nossos dias tem
logos até aos nossos dias. Tem pro- de ter em conta a mentalidade actual
curado aplicar a teologia à prática, para lograr ser eficaz. Neste volume
sobretudo à pastoral, para que esta se Mons. C. Moeller, actual subsecretá-
revitlalilize e encha de espírito que rio da Congregação .para a doutrina da
transforme as massas. Para divu-lgar as Fé, em Roma, examina qual seja a
suas ideias tem proferido numerosas mentalidade contemporânea acerca de
D e u s e de. Jesus Cristo. A seguir,
conferências ou publicado breves es- indica as orientações doutrinais que im-
critos sob temas pastorais que se reu- porta seguir e as 'perspectivas catequé-
niram nestes volumes. ticas para que os homens de hoje admi-
O I que tem por subtítulo Pastoral tam a D e u s e a Jesus Cristo. Examina
em pleno século XX, reúne temas da de modo particular a situação presen-
maior actualidade como a posição do te do ateísmo, teórico e sobretudo
cristão no mundo moderno à luz da prático, e o modo de combater este
Teolloaia, a realidade da redenção n o fenómeno que constitui, sem dúvida,
mundo criado, a situação do indivíduo um dos maiores perigos para a religião
•na Igreja n o que respeita à história nos nossos dias. Indica também o
da salvação, Maria e o Apostolado, modo como importa falar de Deus ao
Paulo, apóstolo d e hoje, apostolado homem contemporâneo.
nas estações ferroviárias... O A. conhece muito bem as ten-
O II tomo, subordinado à epígrafe dênciasi do pensamento actual, como
Funções e estiados de vida na Igreja mostrou na conhecida obra Literatura
trata de diversos géneros de pessoas do século XX e Cristianismo ( 4 vols.,
e sua missão na Igreja de hoie : o traduzidos em português no Brasil).
bispo, o pároco, o neo-presbítero, o Por isso, ninguém mais indicado para
'diácono, o teólogo, a obediência na traçar as linhas de rumo que deve
Igreja, a vida religiosa e a vida leiga, seguir a evangelização do nosso mun-
o intelectual, o educador, o homem na do descristianizado, segundo as orien-
Igreja. tações dadas por Pauilo V I na encíclica
Finalmente n o IH volume sob o tí- Ecclesiam Suam. — A. Leite.
tuilo Problemas de espiritualidade e
pastoral, estudam-se diversos temas MARIOTTI, Maria. — Apostolicità e
todos de grande actualidade : o sacri- missione nella Chiesa particolare. —
fício da missa e a ascese juvenil, missa Vol. de 185X115 mm. e 96 págs. Edi-
e televisão, a educação da piedade trice Stludium. Roma, 1965.
eucarística, sentido teológico da devo- U m dos aspectos de • certo i modo
ção a o S. Coração de Jesu®, espiri- novo® da Constituição dogmática Lú-
tualidade inaciana e culto ao divino men Gentium do Vaticano II é a aten-
Coração, centros de trabalho e paró- ção prestada às «Igrejas particulares»
quia, a livraria paroquial, cura de isto é às diocese®. O Concilio etncara-
almas nos cárceres, etc. -as não sòimente sob o aspecto jurídico,
Todos estes temas são versados com mas sob o aspecto teológico, como
originalidade e com profundeza teoló- membros que são do corpo total da
gica, ainda que por vezes seja um Igreja, de forma. análoga às provin-
pouco difícil compreender q pensa- d a s que formam uma nação. Como
mento do Autor. N o momento em que se verifica nelas a apostoíicidade?
•por toda a parte se procura, feliz- Qual é a sua missão dentro da mis-
mente, renovar a pastoral cristã e são geral da Igreja universal'?
adaptá-la aos tempos actuais, estes Tal é o traia versado neste opús-
escritos muito sugestivos e nada vulga- culo. A Autora, como ela mesma con-
res são particularmente bem-vindos. — fessa, não é teóloga. Mas ao fazer a
A. Leite, história de algumas dioceses, ocorreu-
BIBLIOGRAFIA 393

-lhe a ideia de investigar à luz dos que ensina o catecismo nà® pobres
escritos dos teólogos mais recentes «faveías» da mesma cidade. Para aju-
aqueles pontos. Como nota' o prefa- dar os demais catequistas compôs este®
ciador, Mons. C. Colombo, não se tra- 30 esquemas de lições muito aptos para
ta de um estudo completo; são sobre- dar a conhecer à® crianças pobres da-
tudo sugestões para o aprofundamento queles bairros, e mesmo a quaisquei
dum tema ainda pouco estudado, e que outras crianças, a boa nova da Salva-
pode ser de grande interesse para a ção. Numa breve introdução dá indi-
pastoral diocesana e para toda a vida cações práticas sobre o modo de pro-
da Igreja. — A. Leite. ceder para as lições serem mais
frutuosa®. — A. L.
NILES, Daniel Thambyrajah. — Sur la
Terre... La mission de Dieu et de son
Eglise. — Trad. de Cécile Bodmer-de
Traz e Etienne de Peyer. •— Vol. de S®GD£Í@B®
200X130 mm. e 300 págs. Éditions
Laibor et Fides. Genebra, 1965. 1) VATICANO I I . — Documentos Con-
O pastor metodista tamil D. T. ciliares. — Vol. de 200X150 mm. e
Niles tem-«e distinguido n o seu país, 550 págs. União Gráfica. Lisboa, 1966.
Ceilão, e fora dele, pela sua activi- É a versão portuguesa ( s e m o texto
dade missionária te tamibém ecuménica latino ) dos documentos publicados pelo
e m favor da união de todos os cris- Concílio Vaticano II (Constituições,
tãos, designadamente das Igreja® pro- Decretos e Declarações). A tradução
testante® da Ásia e da África. Neste é esmerada e, quanto possível, fiel U m
volume ele pretende, como declara ao índice analítico bastante desenvolvido
princdpio, responder às seguintes per- permite a melhor utilização do® do-
guntas : Qual é a natureza da missão cumentos. Boa apresentação.
da Igreja no mundo? Como se justi-
fica esta missão? Quem é responsável 2) Documentos do Vaticano II. —
por ela? Qual o motivo porque as Vol. de 215X155 mm. e 702 págsi. Edi-
missões de um país para outros são tora Vozes. Petirópolis, 1966
elemento essencial da obediência mis- Edição bilíngue (latina e portugue-
sionária da Igreja? Quais são os fac- sa ) dos documentos conciliares. Publi-
tores que nos dão a certeza da urgên- ca-se também a tradução da bula con-
cia desta missão? Porque se hão-de vocatória do Concílio de João XXIII,
manter as missões c o m o um ramo à e o breve de Paiulo V I que o encer-
parte do ministério da Igreja? U m a rou. A versão portuguesa foi revista
estratégia adequada onde conduzirá pelos Subsecretários da Conferência
as missões dos nossos dias? Nacional' dos Bispos do Brasil. Quatro
N u m momento em que a Igreja bons índices ( d e citações da S. Escri-
católica, à luz do decreto conciliar tura, de fontes e nomes próprios,, ana-
sobre as missões, examina mais pro- lítico e sistemático) ajudam o leitor a
fundamente os problemas missioná- aproveitar as riquezas do® textos con-
rios, será muito útil conhecer o pensa- ciliares.
mento, em muitos pontos concordante
com o católico, de um dos principais 3) C O N C Í L I O VATICANO II. — Cons-
arautos do movimento missionário pro- tituciones, Decretos, Declaraciones. 2."
testante actual. — L. de Castro. Ed. — Vol. de 195X125 mm. e 918
págs. La Editorial Católica. Madrid,
ROY, Ana Agostinho. — A Boa N o v a 1966.
é anunciada aos pobres. — 30 peque- Tradução espanhola, muito cuidada,
no® fascículo® de 225X150 mm. Edi- dos documentos conciliares, acompa-
tôra Vozes. Petrópolis, 1966. nhada do texto original latino. Publi-
A Irmã Ana Agostinho Roy rege cam-se também a versão das duas
a cadeira de Pedagogia Catequética mensagens dos Padres d o Concílio
Geral no Instituto Superior de Pasto- {21.X. 1962 e 8.XII.1965), e o s discur-
ral Catequética do Rio de Janeiro. so® de João XXilil e Paulo VI ,nas
Aliando a teoria à prática, há anos sessões do Conoílio. Acrescentam-se ain-
8
394 BIBLIOGRAFIA

da o Breve «Ambulate in dilectione» hàltnis der katolischen Kirche zu den


em que se levantam as excomunhões 1 Nichtkatholiken. — C) Lebensfragen
contra o Patriarca de Constantinopla der Priester und Ordenslenle. — D)
Miguel Cerulário, a Constituição Apos- Deir Christ in der Wett. — Vols. de
tólica «Minificus eventus» sobre o ju- 205X145 mm. e 178, 122, 78 e 176
bileu pós-conciliar, a exortação de págs. Paulus Verlag. Recklinghausen,
Paulo VI (24.Xf.1965) sobre o traba- 1966.
lho apostólico na América Latina, e a Tradução alemã do® textos concilia-
Declaração Colectiva do Episcopado res. Os diversos documentos agrupam-
'Espanhol para a execução d o Concílio. -se por ordem sistemática, como indi-
Bons índices, analítico, dos textos da cam os subtítulos de cada volume.
S. Escritura e d e matérias, completam
esta excelente edição dos documentos 7) WENGER, Antoine. — Vaticano II.
conciliares. ChrOnique de la quatrième séssion. —
Vol. de 180X135 mm. e 514 págs. Édi-
4) Documentos dei Concílio Vatica- tions du Centurion. Paris, 1966.
no H. — V o l de 170X115. mm. e 1206 Asi crónicas do Concílio publicadas
págs. Editorial Sal Terrae. Santander. por A- W. redactor principal de La
Outra edição bilingue dos documen- Croix, de Paris, foram sem dúvida,
tos conciliares. A versão espanhola é das melhores que apareceram na im-
muito cuidada. N o princípio, um bom prensa mundial sobre o magno acon-
estudo preliminar de J. Salaverri, tecimento. Essas crónicas serviram de
professor d e teologia na Universidade base aos quatro volumes que o A.
Pontifícia de Comi!has e perito do publicou sobre os trabalhos conciliares.
Concílio, sobre a índole e o valor Mas refundiu-as inteiramente .para lhes
teológico dos diversos documentos pro- dar uma ordem mais sistemática e útil
mulgados pelo Vaticano U. Apresenta- para o s leitores.
ção gráfica muito boa. Este quarto tomo é consagrado à
5) Documents Concitiaires. — A) última sessão do Concílio, n o Outono
VÉgfíse; UOecumèntsme; Les Églises de 1965. Primeiramente dá-nos uma
Orfantales. — B) Les Êvêques; La víe idecai geral da marcha dos trabalhos
religieuse; La formaliort efes prêtres; conciliares, temas versados nas Con-
L'Éducation chrétienne; Les Religions gregações Gerais, peripécias ocorridas,
itonckrétiennes. — C) VÊglrse dons etc. Depois vem — e esta é talvez a
le monde; Uaposfolat des lates; La, parte mais importante deste volume —
liberté religieuse; Les moyens de com- uma. síntese dos grandes debates tra-
munication sociale. — T>) La Révétai- vados durante a sessão: a liberdade
tion; UactMté missionnaire; Ministère religiosa, o «esquema X H J » , o ateís-
et v/e des prêtres. — Vols. de 180X mo, o casamento, cultura, economia e
X I 3 5 mm. e 256, 232 e 432 pág». política, guerra e paz, actividade mis-
Éditions du Centurion. Paris. 1965- sionária. o ministério e vida dos sacer-
-1966. dotes.
Esta. edição francesa dos textos con- A seguir o A. apresenta-nos, em sín-
ciliares recomenda-se não s ó pelo es- tese, os diversos textos votados na
mero da versão, como pela® boas in- quarta sessão, procurando determinar
troduções que antecedem cada 'docu- o seu verdadeiro sentido e alcance.
mento (para as constituições Lúmen Uma última parte é consagrada às con-
Gentium e Gaudfum at Spes apresen- clusões: o caminho andado no campo
ta-«e mesmo uma breve introdução do ecumenismo, o fim das excomu-
para cada capítulo), e devida® a.emi- nhões entre Roma e- Constantinopla,
nentes especialistas que procuram si- o 'Papa e o Concílio, a obra realizada
tuar e dar-nos a ideia exacta do pen- pelo Vaticano H e as perspectivas fu-
samento do Concílio. Bons índices de turas. '
matérias ao fim de cada volume. Estes volumes são sem dúvida dos
melhores até hoje publicados, sobre o
6) Konzilsdecret. — A) Frugen des Concilio, e por certo de grande impor-
Giauben der kirchtichen Ordnung uruf tância para a futura história do Va-
des Gottesdienstex. — B) J>er Ver- ticano II. — A. Leite,
BIBLIOGRAFIA 395

IFõOtssoííS© pois, confrange-nos muita coisa no


mesmo saco. Perdem-se as linhas vin-
culares, os primeiros princípios nu-
GABORIAU. Florent. — Nouvelle ini- blam-se e caímos num divaguear onde
tiation philosophique. — Tom. I. L'en- surgem e desaparecem vultos de filó-
trée en métaphysique. — Tom. II. sofos hodiernos não sabemos se com
Phénoménalogie de texisfence. — Vols aplauso se com censura. Para iniciação
de 225X115 mm., e 461, 389 págs., achamos .a mangedoura cheia de feno
respectivamente. Casterman. Tournai, heteróclito : algo da gavela escolástica
1966. e muita febra de existencialismo com
Há-de o leitor pensar e talvez dizer algum retraço alemão e por cima, de
entre si : — mais outra! Outra intro- tudo um que outro poeta a cantar
dução à filosofia. Louvores aos céus a sua estrofe.
que já sobram hoje os propedeutas O livro tem conteúdo, mas c mo-
aplana,dores da entrada ao sancta sanc- roso, enrodilhado é bebedor de fontes
torum da filosofia. Valha a verdade tão diversas que perdemos o tino da
que alguns nascem mui parecidos aos boa linfa. Estes senões refinam no'
indicadores de caminhos que de tão segundo volume onde são tantos os
verbosamente minudenciarem as direc- temas e os filósofos analisados que
ções e cotovelos do itinerário pespe- realmente se perde fôlego; tanto mais
gam com o viajor na orientação mais que a: reflexão crítica deriva ténue.
desviada e oposta. Cuidava a sente Há muitos esquemas, muitas citações,
que entrava na Academia de Platão bons textos de filósofos antigos e
e darnoç, connosco no botequim dos modernos — mas um iniciado a duras
Parras Mas enfim hoje não faltam penas se vai orientar em tamanha flo-
bons introdutores. Diga-se que a obra resta onde tudo aparece especado con;
que recenseamos, reforçou na humilda- o mesmo valor e o mesmo direito.
de com dizer-se; iniciação-. Finda a lei- A matéria oferecida, é de respeito, mas
tura o que perguntamos é se falta lá as linhas formais quebram-se a cada
alguma coisa do aue tem vigência no página e o livro parece-nos escas-
campo filosófico. É um curso de filo- samente estruturado. Muito me temo
sofia dos mais espessos. N ã o são las- que os caloiros se desorientem e pra-
cas — é o pão todo ainda fumegante guejem da filosofia. H á quem opine
( u m nadinha mal amassado ) a sair aue um curso, uma iniciação digamos à
do forno. De feito, uma boa introdu- filosofia nada perde com o traçado
ção concebc-se em linhas muito mais que a chamada filosofia perene riscou.
sóbrias. Peritos são os. franceses em Foi o que fez Maritain. O intelecto
introduzir seja ao que for. E Maritain fica de certo com. fome, mas akrta
escreveu uma introdução à filosofia para os alimentos, capaiz de julga-
que é modelar em sua simnlicidade mento, de reflexão, de escolha. Aca-
hispida e profunda. N ã o atulha nem brunhá-lo de inicio 'com os temas mais
escurece. Esta não é nem de longe desencontrados, zarandeá-lo de escola
tão meritória porque longe de querer em escola será condená-lo. ao cepti-
confinar-se a introduzir, a iniciar, am- cismo. Criticamos o método. A pala-
biciona abranger toda a faina filosó- vra fala de caminho. Seja aberto e o
fica. Com a característica de queirer mais curto. Este é abundoso e tão
admitir quanto de moderno, em letras longo e labiríntico que nem o filho
e filosofia, se tem ido congeminando de Tese,u se arrisca a ir por ele a fim
por escolas e ancoradouros mais ou de matar o touro mugidor que escoma
menos especulativos. Agradou-nost o ao fundo dos nossos enigmas. Este
capitulo de aproximação à Metafísica, curso revela imenso trabalho, recolha
a lista dos autores aconselhados e os e selecção de textos, proposição de
próprios alvitres em que se nos aponta temas, exercícios, repetitórios, ma-
o exercício filosófico — mais de medi- pas, etc., mas o aprendiz que lá entre
tação activa sobre a vida do que de desprevenido arrisca-se a sair desorien-
deglutimento bovino de 'livralhada. tado. N ã o é o .muito saber que faz
Bom o resumo da problemática desde o filósofo. É a muita reflexão e o
os pré-socráticos aos modernos. De- dolorido sentir. — Joõo Maio.
396 BIBLIOGRAFIA

FOULQUIÉ, Paul. — A Dialéctica. —' a começar pela informação e a aca-


Vol. de 115X180 mm. e 122 págs. bar nas destrinças feita® com pitoresco
Publicações Europa-América Lisboa, empirismo muito do gosto inglês. Cha-
1966. mar empirista a u m inglês é vê-lo
Propõe-se o A. precisar o signifi- cair no mel, fica satisfeito para todo
cado do termo «dialéctica», tão fre- o' dia! À .pequena bibliografia adjun-
quentemente encontradiço na pena ta é de facto pequena e somenos para
apurada ou no linguajar corrente dos tamanho assunto.
nossos contemporâneos, quando mor- A tradução é de bom toque e lê-se
didos pela preocupação de estarem ou com agrado. — João Maia.
de, parecerem do seu tempo. N a con-
clusão d o trabalho, pergunta-se se o
leitor estará finalmente apto a dar
uma definição definitiva, e responde-se ErosaO®
com uma dúvida, pelo facto de serem
diversas as concepções da dialéctica. MCGUIRE, Martin. — Introduction tó
Distingue-se, porém, pelo seu dina- Mediaeval Latin Studies. — A Syltabus
mismo, da lógica, que é estática. and Bibtíographical Guide. — Vol. de
Contra o que dizem os marxistas, a 280X210 mm. e X V I + 1 5 2 págs. The
dialéctica não é um método como a Catholic University of America Press.
lógica, visto consistir num carácter par- Washington, 1964.
ticular da actividade mental. É dialéc- O s trabalhos de literatura medieval
tico o pensamento, no esforço da auito- latina revestem-se, hoie, duma vastidão
-superação, quer em luta com as im- e complexidade que não é fácil a qual-
plicações lógicas, quanto ao passado, quer estudante encontrar, ràpidamienfe,
quer a caminho do futuro, na pro- Knha segura d e orientação. Esta in-
cura de novos pontos de vista, mesmo trodução quer ser uma espécie de su-
quando pareçam contradizer as primei- mário ou Índice e guia bibliográfico
ras aquisições mentais. — A. Veloso. das disciplinas capitais a ter em vista
com a indicação para cada uma delas
CHIIDE, V. Gordon. — Teorias da e seu® aspectos mais relevantes de
História. — Trad. de Rui de Moura bibliografia seleccionada. Marcado o
— Vol. de 195X145 mm. e 183 págs. objectivo dos estudos sobre o latim
Col. «Problemas». Portugália Editora. medieval e suas relações com outras
Lisboa. disoiplinas, em que incidentalmente se
«Clareza, extremo rigor cientifico, foca a origem e história do termo
objectividade larga e sólida visão da Idade Média, dá-se um relanoe do
História e dos seus processos evoluti- latim medieval escrito, os marcos mi-
vos» eis qualidades apregoadas na iliários da história da paleografia e da
orelha d e capa deste livro. O acento diplomática, as principais fases ná evo-
cientifico é evidente ou sejá o de apro- lução da escritura latina: romana
ximar das leis científicas as invocadas (maiúscula capital quadrada e rústi-
lei®, também a • seu modo científicas, ca; uncial, maiúscula cursiva, minús-
do evoluir histórico. O autor parece- cuja cursiva e semi-cursiva) post-ro-
-nos muito mais dotado para a Ar- mana (vetero-itálica, montecassino-
queologia e Paleontologia dò que prò- -beneventana, merovíngia, visigótica,
priamente para filósofo da história. irlandesa - anglo - saxónica, carolingia
Assim o inventário das teorias, da His- minúscula, gótica minúscula, humanís-
tória é por demais escasso. Moderna- tica e neo-gótica ) Segue-se a produção
mente apenas Spengler e Toynbee lhe dos códices medievai® e das livrarias na
ferem a atenção e .lhe arrancam uma Idade Média com os respectivos catá-
critica perfunctória. O grande movi- logos de espécies, organizados moder-
mento' histórico do sec. XIX com qs namente. Investigam-se, depois, as ori-
Ranke, os Mommsen, o s Fustel de Cou- gens e elementos constitutivos do pri-
lange® — passe-Jhe a jusante sem dis- mitivo latim medieval, desde ó fim do
cussão. Á parte expositiva, de sua século até ao período mais recente
la/vra, é que desperta o nosso inte- (séc. H - séc. VI), em que se verifica
resse. A parte crítica é muito débil a transição da antiguidade para a Ida-
MIBLIÒGRAFXÁ

de Média, tendo em conta os elemen- a evidenciar as relações entre a l i t e - '


tos alássicos, os elementos populares ratura e as artes visuais da Idade
e os elementos cristãos, rasteando o seu Média; A famosa arquivolta de Móde-
itinerário pre-carolíngio através de na é que l h e sugeriu o interesse pelas
Boécio e Cassiodoro até Ailcuino ( c . origens do ròmànce do ciclo arturiano,
5 0 0 - c . 7 8 ) , na Itália, na África, na que ©le desenvolveu no ensaio II Cas-
Espanha, na Gália, na Irlanda e nos tell)o dei Re Pessatore e i $uoi trtis-
países angto-saxões, e na época da re- teri neT Conte dei Graal di Chrétien
nascença caroilíngia até ao renascimen- . di Troyes que J. A. Scott taaduz neste
to italiano, à volta da morte de Dante volume para inglês e Eugène Vina-
( c . 780 - 1321 ). Neste ílongo percurso, ver prefacia. Chrétien de Troyes, na
não se deve perder de vista o conhe- sua obra, põe e m arte o drama da
cimento d o grego nos derradeiros sé- luta entre a heresia e a fé, a conde-
culos da antiguidade ocidental e du- nação e a redenção com o triunfo
rante a Idade Média, bem como o dos final, como não podia deixar de ser,
idiomas orientais e suas respectivas li- desta sobre aquela. Olschki é mestre
teraturas. Simultaneamente, cumpre consumado em duas tarefas da exege-
acompanhar a formação das línguas e s e literária : situar a obra que analisa
literaturas vernáculas na Europa Ooi- no seu contexto histlórkxMciíltural' e
dental da Idade Média, a® fontes le- pôr em evidência o que nela há de
xicográficas do latim medieval, os autónomo ou original. Tomando dois
estudos de gramática, retórica e poéti- episódios do Conte dei Graal — a
ca, o conhecimento e influência dos procissão do Santo Graal è o ban-
autores clássicos pagãos e cristãos na quete do Rei Pescador, por um lado
época medieval e, finalmente, a edição (versos 3187 - 333Õ ), com a confissão
dos textos latinos medievos. Como e conversão de Pansifal, -por outro
complemento das orientações dadas a (versos 6 3 7 2 - 6 5 1 5 da ed. Afonso
respeito de todas estas alíneas, uma HiUca), o arguto filólogo mostra como
bibliografia seleccionada, mas abun- na obra do célebre trovador francês,
dante, para constituir um excelente c o m o aliás na dos seus imitadores, se
instrumento de trabalho para quem se reflecte toda a angústia espiritual do
deseja inioiar na matéria. C o m o pro- mundo seu contemporâneo. A análise
fessor de grego e llatim na Universi- de Olschki, poderosamente iluminada
dade Católica da América, McGuire pelas notas que a acompanham, com-
põe ao dispor do aluno toda a sua prova-o à saciedade. — G. S.
experiência de mestre e dedicação de
pedagogo. Com tão excelente apetre- WILSON, Edward M . ; SAGE, Jack. —
chamento, não é penoso nem estéril o Poesias líricas en las obras dramáticas
trabalho. — D. M. de Calderon. — Vol; de 250X175 mm.
e 1688 págs. Tamesis BoocV, Lt. Lon-
OLSCHKI, Leonardo, — The Grail dres, 1964.
Castle and its Mysteries. — Vol de Calderon de -la Barca entremeou nas
190X125 mm. e X + 9 4 págs. Man- suas numerosas obras dramáticas bas-
chester University Press. Manchester, tantes poesia® líricas, umas originais
1966. outras tiradas de outros autores. Por
O A. deste trabalho sobre os ro- vezes a citação textual reduz-se a um
mances de cavalaria, falecido n o de- ou outro verso, outras vezes é apenas
cumso de 1961 e professor emériitk) o sentido que se reproduz. E. Wilson
de filologia românica e m Heidelberg, e J. Sage procuram catalogar ao me-
tornou-se bem conhecido, sobretudo n o s as principais poesias líricas, quer
por Die Ramwtischen Literaturen des as que são da autoria de Calderón,
Mittelliers, Der ideale Mittíelpunkt quer as que pertencem a outros poe-
Frankreichs im Mittelalter, StriMura tas que procuram identificar.
spirituale e linguística dei mondo neor Trabalho minucioso que ajudará por
'latino, Genitus of Italy, Sforia Lette- certo a avaliar melhor os métodos de
raria deite scoperte geografiche, Marco trabalho, a originalidade e a cultura
>Polo's Precursora, e tantos outros. Foi do grande dramaturgo espanhol seis-
um dos primeiros filólogos romanistas centista. — A. B.
398 BIBLIOGRAFIA

HBRMANS, Francis. — L'Humanisme terária e espiritualmente complexa. —


religieux de l'Abbé Henri Brémond. — L. de Castro.
Vol. de 220X145 mm. • e 286 págs.
Éditions Alsatia. Paris, 1965.
Em 1965 ocorreu o centenário da PD»®BDD®0BQ®S mroafiFSBBB®O0Da0S
morte do grande escritor e humanista
francês que foi o P.* Henri Brémond. COLAOCI, Mário. — Christian raarria-
Como diz o A. deste volume, Bré- ge today. -— A camparison of Roman
mond, como muitos outros grandes- Cathatic and Protestante vietvs. — Vol.
escritores da sua época, encontra-se de 210X145 mm. e 204 págs. Augs-
agora, imerecidamente, no limbo. Mas burg Publishing House. Minneapolis,
pouco a pouco vai-se-lhies fazendo Minnesota, 1965.
justiça >e a figura deles surge n o seu
verdadeiro valor. F. H. quis também O A., sacerdote católico, doutorado
com este volume prestar a sua home- em teologia e licenciado e m S. Escri-
nagem grata a Henri Brémond Mais tura e m Roma,, tornou-se depois pas-
do que uma biografia propriamente tor luterano nos Estados Unidos- onde
dita do académico de França, o A. é professor d o N o v o Testamento e de
quis mostrar-nos a personalidade do teologia protestante. Encontrava-se,
grande escritor, e como ele procurou portanto e m boas condições -para
realizar o ideal do humanismo cris- conhecer 'bem a® diversidades entre a
tão : era um misto, diz-nos, de Eras- concepção católica e protestante acerca
mo e de S. Francisco de Sales, que do matrimónio, quer sob o ponto de
procurava justapor ou melhor integrar vista teológico quer sob o aspecto da
os valores humanos e cristãos numa legislação positiva. Ainda que se incli-
síntese harmónica difícil de realizar. na para as ideia® luteranas neste par-
Procurou encarnar na primeira meta- ticular, expõe com objectividade, -a dou-
de do século XX, u m ideal entrevisto trina católica, mostrando bem aquilo
pelos humanistas do século XVI. A em que concorda ou em que diverge
par das suas reais qualidades de es- dai» ideias mai® comuns entre os pro-
critor, Brémond distinguiu-se por ter testantes.— A. Leite.
chamado a atenção, melhor dito por
ter feito entrar no cenáculo das letras ORIGLIA, Dino. — A psicologia do
e da investigação literária e científica casamento. — Trad. de Jorge Feio. —
os escritores espirituais e místicos, até Vol. de 200X135 mm. e 574 -págs Ar-
então olhados com desdém pela crí- cádia. Lisboa.
tica literária ou simplesmente humana. Pio XII, num discurso que o Autor
cita, teve palavras severas para os que
A sua Histoire Htféraire du sentiment publicam pormenores excessivos da
religieux en France e outras suas obras vida. sexual, que deveriam manter-se
não menos importantes marcam uma em recato, ou ao menos em livros
viragem decisiva, e inão s ó e m França, destinados apenas a especialistas.
nos estudos de espiritualidade cristã D. O., médico especializado em pe-
que assim adquirem, foros d e cidade dagogia e psicopedagogia, e com bas-
e «penetram mesmo nas Universidades tantes conhecimentos de psicanálise
até então ferozmente fechada® a tal não foge, por certo, àquela censura
género de trabalhos. -pontifícia. Desenvolve com muitos por-
Mas s o b muitos outro^ aspectos menores nestas extensas páginas ó
Brémonld foi um verdadeiro precursor, tema da psicologia- do casamento :
ou como diz o P " de Guiibert um psicologia de ambos os sexos, prepa-
«excitador sugestivo e que faz reflec- ração para o casamento, escolha do
tir, mesmo quando se engana manifes- companheiro, 'psicologia do sentido
tamente, abrindo caminhos- e -pondo amoroso, noivado, vida conjugal, infe-
problemas, estimulando o pensamento licidades e desarmonia® conjugais, se-
mais do que dirigindo-o». paração e interrupção da vida e m co-
Eí9, muito sumàriamente, o que se mum, etc. Todos estes problemas são
procura mostrar nesta® páginas de tratados com minúcia e por vezes adu-
grande interesse eobre íyna figura li- zindo-se casos que passaram pelas
BLBUOGRAFTÁ

mãos do Autor. Este procura coío- sentado péíó Cardeal Lienart, Bispo
car-se em plano meramente objectivo., de Lille. — L. de C.
relatando o s factos e as suas interpre-
tações ou explicações mais ou menos RAY, Jean-Michel. — Araour, Sexua-
admissíveis. Quase não se alude aos lité, Régulation des naissances. — Vol.
problemas morais, a não ser na me- de 190X140 mm. e 200 págs. Les Édi-
dida em que afectam a psicologia dos tions Ouvrières. tParis, 1965.
que neles intervêm. .Parece-nos haver Exposição breve, mas clara, dos prin-
certo exagero de pormenores e descri- cipais- problemas acerca do amor e da
ções que mais valeria passar d e todo sexualidade à iuz da doutrina cristã
em silêncio ou com simples alusões, E m especial expõe-se a questão da
ao menos em livro destinado a amdar regulação dos nascimentos, principais
nas mãos de toda a gente. Precisa- métodos usados e sua moralidade.
mente por este último motivo mão Apresenta-se a doutrina católica e
podemos concordar com a simples protestante sobre este ponto.
exposição dos factos, sem que deles Livro prático, apropriado -para pes-
se dê, ainda que s ó d e passagem, o soas de nível cultural não muito ele-
juízo moral'. Boa tradução, com um vado, a que se destina. A orientação
ou outro ilapso, como por exemplo na é, em geral, boa, mesmo que uma ou
pág. 63 e m que para S. Inês e S. Je- outra opinião expendida não- alcance
rónimo se conservam as formas italia- talvez aprovação unânime dos mora-
nas Agnese e Girolamo. — A. S. listas. — L. dc C.

Études de Sexologie. — Vol. de


190X185 mm. e 454 págs. BÍoud &
Gay. Paris.
Em 1962 nas Faculdades Católicas Monumenta Henricina. — Vol. VII
de Lille ( F r a n ç a ) organizou-se um ( 1439- 1443). — Voí. de 290X220
«Grupo de Estudos Sexológicos e Fa- mm. e XXV.IIT-r454 págs. Coimbra.
miliares» constituído por médicos, teó- 1965.
logos, sociólogos, demógrafos, psicó- A documentação henriquina recolhi-
logos, com o fim de promover o da neste volume diz respeito a um
ensino de nível universitário sobre os período particularmente delicado da
problemas sexuais, conforme se põem vida do Infante — o que se seguiu à
na sociedade contemporânea. Deseja- morte die D. Duarte. Ele é dominado
vam. de modo especial contribuir com pelos problemas decorrentes da regên-
a s suas investigações f>ara a questão cia do reino, entregue por indicação
da limitação da natalidade ou d o pla- testamentária do defunto monarca à
neamento familiar. Para divulgar as sua viúva. D. Duarte era homem pro-
suas investigações o grupo organizou bo. O país, todavia, mantimha-se no
cursos em que se inscreveram sobre- receio constante da ameaça castelhana.
tudo numerosos casais jovens. Como O próprio Rei Eloquente o sentira na
havia outros muitos que se interes- intransigência com que, sob o ponto
savam pelo assunto sem poderem assis- de vista administrativo eclesiástico, se
tir às lições, decidiu-se publicar esses opôs sempre à intervenção de bispos
estudos. Tal 6 a origem deste volume espanhóis em territórios portugueses. O
dividido em três partes : ideia geral país dividiu-se quanto, à regência da
sobre a sexualidade, sexualidade dos rainha D. Leonor e as cortes de Tor-
indivíduos e dos casais, limitação da res N o v a s tomaram a decisão de que
natalidade. a regente ficasse, apenas, tutora e
curadora dos filhos e o Infante D.
Todos o s estudos, num total de Pedro tomasse conta da defesa dó
vinte e írês, procuram dar-nos o reino. A suprema administração da jus-
estado actual dos problemas versados, tiça ficaria a cargo do Conde de
segundo o s progressos mais recentes Arraiolos. Tudo o mais, referente ao
da ciência, de forma- acessível às pes- regimento ido reino, «arraynha soomen-
soas não especializadas, e tudo à luz te o mandasse». Era uma situação
da sã moral. equivoca.
O volume, de real valor, é apre-
4ÔÔ BlBLIÔGRÁFfA

Os campos estremaram-se e a ini- Colóquio ( V ) Internacional de Es-


ciativa da Câmara de Lisboa para que tudos Luso-Brasileiros, Coimbra, 1963.
a regência total fosse entregue a D. — Actas. Vol. IV. — Vol. de 245'X
Pedro preponderou, em 1439 A mu- X'170 mm. e 576 págs. Coimbra, 1966.
dança não se operou sem incidentes. O V Colóquio Internacional de Es-
De,pois de 5 meses de concórdia, surge tudos Luso-Brasileiros, celebrado em
a guerra contra D. Leonor, fortificada Coimbra em 1963, revelou uma abun-
no Crato, le seu aliado o rei de Cas- dância e nível de comunicações suma-
tela. O regente consegue subjugar as mente 'estimáveis. Este IV volume
praças rebeldes à sua autoridade su- recolhe mais 19 trabalhos ou comuni-
prema e D. Leonor toma o caminho do cações da V seoção, consagrados à
exílio com boa parte dos seus parti- literatura, e 2 relatórios e 9 trabalhos
dários. O venoedor teve cuidado de de comunicações respeitantes à VI
reorganizar a administração pública e secção destinada à Música e Artes
fazer face ao agravamento da situa- Plásticas.' Nem todas as comunicações
ção económica. Interessa saher a ati- revestem, nàturalmente, o mesmo nível
tude assumida nesta e outras emer- científico. Há alguma suposta desco-
gências pelo Infante D. Henrique, berta de manuscrito inédito, que não
nomeadamente na reconciliação tempo- o é. N a secção das artes plásticas,
rária de D. Pedro com o Conde de a comunicação de Paulo F. Santo® —
Barcelos. A documentação, que foi Contribuição ao estudo da arquitectura
possível coligir, embora não seja ex- dia Companhia de Jesus em Portugal
cessivamente abundante, esolarece-o e no Brasil — reveste-se dum inte-
notàvelmente. Outro aspecto relevado resse muito particular. Apesar das
é o das Telações d o N a v e g a d o r com autoridades que abonam a dependência
o Ultramar marroquino e as iniciativas arquitectónioa da Igreja do Espírito
descobridoras ao Rio do Ouro, à Pedra Santo de Évora da Igreja de S. Fran-
da Galé e ao Cabo Branco. A bio- cisco da mesma cidade, dada a diver-
grafia dé muitos servidores do Infan- sidade de estilos —• renascença e gó-
te recebe nova luz dos elementos coli- tico, respectivamente — tratar-se-á de
gidos. A transcrição documental é feita verdadeiro influxo inspirativo ou duma
com o máximo cuidado e as notas coincidência de problemas funcionais
numerosas valorizam incessantemente o idênticos a resolver e cuja solução,
texto. Com colectâneas como esta é naturalmente, oferece, também, Hermos
que a História de Portugal pode pro- de semelhança? • Dicant Padmttti. —
gredir — D. M. G. S.

Livros de Linhagens. índice Onomás- O Rio e o Mar na vida da cidade.


tico 2. — Val. de 245X180 mm. e — Exposição documental. — Vol. de
e 74 págs. Gaibinete de Estudos Herál- 245X180 mm. e 404 págs. de texto,
dicos e Genealógicos. Caderno de Es- com 80 gravuras (estampas antigas do
tudos. Lisboa, 1965. Porto, plantas topográficas, esculturas,
Qualquer livro de linhagens é, quan- pinturas e desenhos). Publicações da
Câmara Municipal do Porto. Gabine-
do 'bem feito, um precioso instrumento te de História da Cidade. Porto, 1966.
de identificação de personagens. -. Mias A série dos ' Documento» e Memó-
Sem índice torna-se um poço de tra- rias para a História do Porto enri-
balhos. Depois de publicado o Livro queceu-se com mais .um volume : o
Velho II, dá-nos o Gabinete de Estu- XXXVII. Quando se inaugurou a nova
dos Heráldicos e Genealógicos, já tão Ponte da Arrábida, que nas suas pro-
benemérito, este índice Onomástico II porções grandiosas, na sua estética e
do Livro Velho II, nos mesmos mol- no seu destino utilitário, tanto veio
des do índice Onomástico I. Oxalá avolumar a monumentalidade paisa-
èsté trabalho prossiga para outros li- gística e o progresso da Invicta, o
vros de linhagens que dele careçam. Gabinete de História da Cidade or-
ganizou uma exposição documental.
Luís Stuhbs Saldanha Monteiro Ban-
Realizada na tradicional Casa do In-
deira, bem merecerá, por isso. — D. M. fante, em plena Rua da Alfândega, e
SIBLÍÔGRAFÍA 4Ô1

promovida pela Câmara Municipal, Amand. Esta abadia, fundada por 'Da-
presidiu ao certame um tema sugesti- goberto ( + 6 3 9 ) , era a padroeira da
vo : o rio e o mar na vida citadina. paróquia, què, de 1686 a 1739, foi pas-
O Douro e o Atlântico, efectiva- toreada por Alexandre Dubois. Mal
mente, não são meros apêndices paisa- entrado no seu redil, o novo pastor
gísticos na vida e história do Porto. inicia um diário de pastoral. O registo
São o eixo funcional d e toda a sua itorna-se o espelho da vida da aldeia,
vida político-administrativa, económica em todos o s seus aspectos : demográ-
e até cultural. A inauguração da nova ficos, fiscais, religiosos, políticos, dou-
ponte deu, assim, azo oportuno a su- trinais. N a fronteira da Franja com
blinhá-lo c o m vigor. A s espécies ex- os Países Baixos, as guerras da liga
postas foram umas 470. Além das de Augsburgo (1688-1697), terminada
estampas antigas do Porto que figuram pela paz de Ryswick, e da sucessão da
reproduzidas neste catálogo parcial, Espanha ( 1702-1713), a que pôs termo
outras foram expostas. O texto, a mais o tratado de Utrecht, fizeram-se sen-
de dar a s razões da exposição (págs. tir duramente em Rumegies e o dia-
13 - 2 0 ) , inclui as conferências feitas rista faz-nos vislumbrar efeitos deplo-
( 3 ) , vários estudos sobre o étimo ráveis dos conflitos nas suas ovelhas.
Durius e sua projecção linguística; A s vicissitudes religiosas do tempo,
considerações sobre o rio e o mar nos sobretudo as do Jansenismo e do Gâili-
destinos portuenses; o rio Douro na canismo, também encontraram na alma
vida da cidade do Porto; «Nótuilas de Alexandre Dubois, jansenista e ga-
do Passado»; «As cheias do Rio D o u - licanista fervoroso em seus prinoipios,
ro» ; uma «Breve notícia de Milagres- embora depois atenuasse os seus fer-
-«ex-votos» relacionados com o rio vores intransigentes, eco profundo.
e barra do Douro; Nossa Senhora Por todos estes títulos, o seu diário,
protectora dos mareantes do velho apresentado, editado e anotado por
burgo do Porto; uma série de X no- Henri Platelle, é uma obra b e m repre-
tícias referentes a outras tantas cape- sentativa do género, sem descontar a
las ou ermidas, dedicadas à Vingem, ponta de anti-jesuitismo com <jue o
nos termos do Porto e Vila N o v a de diarista interpreta a acção dos Inacia-
Gaia; três notas sobre o triptico do nos na promulgação da Bula Unigé-
Espírito Santo (incluindo o artigo que nitas. — G. S.
José d e Figueiredo lhe dedicou em
1927), o triptico de prata do Museu
Alberto Sanjpaio, comummente chama-
Zã\cq]B3ffi®DcãXg)3S) (£ DOÕSÍltÊffaSí
do «Altar de Aljubarrota», e as tape-
çarias de Pastrana, cuja reprodução
feita para os Paços dos Duques de CHILDE, V. Gordon. — Introdução à
Bragança, em Guimarães, foi exposta, Arqueologia. -— Trad. de Jorge Borges
também, nesta ocasião. O texto ter- de Macedo. — Vol. de 180X115 mm.
mina com a Balada do Rio Douro, de e 160 págs. Colecção «Saber». Publi-
Pedro Homem de Mello. É inexplicá- cações Buropa-América. Lisboa, 1961-
vel como neste memorial da exposi- Gordon Childe ( + 1957) foi um
ção, feito com tanto esmero tipográ- dos mais notáveis arqueólogos do nosso
fico, escapou a falta de um simples tempo. E m seis capítulos, dá-nos as
índice de matérias ou capítulos — noções elementares da arqueologia ge-
G. S. ral : conceito de arqueologia e suas
relações com a história, classificação
PLATELLE, Henri. — Journal d'un curé do material arqueológico e sua distri-
de campagne au XVII.* siècle. — Vol. buição por períodos e culturas, as
de 175X115 mm. e 268 págs. Les Édi- estações arqueológicas e sua estraiti-.
tions du Cerf. Paris, 1965. grafia, algumas ideias sobre a desco-
N ã o se trata do célebre romance de berta de monumentos arqueológicos no
Bernanos. É um diário verdadeiro dum campo, interpretação dos dados ar-
pároco de aldeia do Norte da França, queológicos e respectiva tecnologia ele-
riã antiga diocese de Tournai — Ru- mentar com a . reconstituição a que,
megies — a 8 quilómetros de S. após a recolha dos materiais, se pro-
402 BIBLIOGRAFIA

cede. Portugal é um riquíssimo campo gando a projecção das suas actividades


de explorações. D a leitura deste pe- culturais em benefício da ciência dos
queno manual, pode resultar, ao menos, especialistas, do público em geral e da
a. preocupação de não deixar destruir, educação nacional. Para que o pais
alvarmente, tantas preciosidades que, a se apercebesse dos resultados obtidos,
cada passo, surgem incidentalmente de neste segundo período da sua vida
Norte a Sul do país. — G. 5. ( 1915- 1964), ainda não divulgados,
empreendeu Saaevedra Machado a com-
MACHADO, João L. Saavedra. — pilação destes subsídios colhidos, no
Subsídios para a História do Museu próprio Museu Etnológico, com a s suas
Etnológico do Doutor Leite de Vascon- actuais colecções, nos relatórios das
celos. Num. I ( 1954- 1964). — Vol. escavações e explorações arqueológicas,
de 275 X 210 mm. e X V I + 4 3 6 págs. das investigações e inquéritos etnográ-
Ministério da Educação Naciona.1. Lis- ficos, das colheitas antropológicas e
boa, 1965. numismáticas, bem como nos livro® de
O Museu Etnológico do Doutor registo das entradas de objectos, nos
Leite d e ' Vasconcelos, organizado no inventários, nos catálogos manuscritos
velho Mosteiro dos Jerónimos em e impressos e outras fontes de infor-
Lisboa, é o mais opulento expositório mação. Foi, assim, possível dar ba-
de relíquias pré-históricas, proto-histó- lanço objectivo à investigação cientí-
ricas, arqueológicas lusitano-romanas, fica realizada sob a orientação do
visigóticas, torêuticas, epigráficas. nu- benemérito fundador e do seu dedicado
mismáticas, medalhísticas, etnográficas continuador e discípulo Prof. Manuel
e antropológicas que existe e m Portu- Heleno, em diversos sectores, ao tra-
gal. N ã o é, porém, uma arca fúnebre balho de inventário, de catalogação e
de velharias cheirando a bafio sob uma arranjos das colecções, bem como à
respeitável mortalha de p ó e indife- acção de extensão cultural e pedagó-
rença que algum rato vadio visita por gica, intercâmbio cultural, movimento
curiosidade excêntrica nas horas vagas dos institutos que funcionam no museu,
de roedor. É uma realidade viva nessa movimento de visitantes nacionais e
jóia arquifectónioa que dá por convento estrangeiros e de publicações, desen-
de Belém, tornado universidade do pas- volvidos, principalmente, no decénio de
sado antropológico e cultural portu- 1954 a 1964, finalizando o volume com
guês, desde as origens mais remotas. um relance ao estado actual do Museu,
Fora do mundo erudito que o fre- e uma nota sobre a jóia inestimá-
quenta na ânsia de decifrar os- mistérios
da vida do homem no Ocidente Pe- vel do torques de Vilas Boas de Trás
ninsular, poucos o conhecem nos tesoi- os- Montes, além de X aipénidices ilus-
ros etnológicos que encerra e no movi- trativos de diversos aspectos respeitan-
mento cultural, que, dentro das suas tes a esta última década da sua vida
paredes, se processa, actualmente. interna. As 126 gravuras, que ilustram
o texto, valorizam extraordinàriamente,
Foi seu organizador inicial, em 1893. as informações recolhidas sobre tão
o Prof. Dr. Leite de Vasconcelos, cuja prestimosa instituição, para a qual,
intenção científica e incansável dedi- dada a sua função altamente educativa,
cação investigadora foram denegridas são de prever instalações- apropriadas
em 1913 por um deputado lorpa em na nova Cidade Universitária. — D.
pleno Parlamento. Esse benemérito M.
fundador, para dissipar ignorâncias e
preconceitos, fez era 1915, a sua pri- COOK, Robert M. — Os Gregos até
meira história. De então até_ hoje, a Alexandre. — . Vol. de 150X205 mm.
actividade cientifica da instituição não e 274 págs. Ed. Venbo. Lisboa, 1966.
esmoreceu, promovendo numerosas e Eternamente lá iremos. Ã Grécia,
fecundas explorações arqueológicas, bem entendido. A terra é ipobre es-
vastas investigações etnográficas, abun- quartejada em- ,geio® calcários ofere-
dantes colheitas' antropológicas e cendo um sóbrio .pão, uns bagos de
numismáticas, que dia a dia enriquece- uvas e algumas azeitonas. Mas foi
ram extraordinàriamente as suas colec- mãe de Sócrates, de 'Platão e de Aris-
ções, ao mesmo témpo que se foi alar- tóteles. O homem é que sagra o monte.
BIBLIOGRAFIA 403

o rio, a cidade. Que seriam para nós dos visigodos, e m boa hora a mandou
o Taigeto se ilá não pairasse a som- traduzir. O translator saiu do silvedo
bra do costume negro, o Eurotas sem inglês sem arranhadura d e maior e
a vizinhança dos espartanos, as Ter- merecia que seu nome viesse na pri-
mópilesi sem Leónidas? A grandeza meira página. Quem se humilha .será
humana sigila o pedacinho de terra exaltado. N a 2." edição o nome do
que a levanta. tradutor tem de vir à boca do palco
Aqui temos uma síntese da civili- ou saja à primeira lauda. —; João
zação grega até aos tempos de Ale- Maia.
xandre. Os tópicos, os dados que a
constituem, estão, em geral bem apon- FERREIRA. G o d o f r e d o e FRAGOSO, A n -
tados. Quem não for hóspede nestas tónio. — Centenário das Ambulâncias
matérias há-de. .por força, aqui e acolá, Postais Portuguesas. — Vol. de 160X
torcer-se em desacordo ou com os si- X220 mm. e 64 págs Lisboa, 1966.
lêncios ou com as interpretações. Depois de passageiras notas sobre
Assim, não se falar, hoje, na civiliza- meios de locomoção, até à invenção
ção cretense é deixar na sombra e da máquina a vapor, nos fins do sé-
na pedra a civilização micénica e qui- culo XVIII, por fim aplicada ao carro
çá a sua arte. N o atinente à Arte sobre via-férrea. informa-se que, mon-
é generosa esta síntese. Ã Arte plás^ tada a linha férrea, logo o Correio
tica, digo — à Cerâmica, à Arquitec- aproveitou a s vantagens que este novo
tura, à Escultura. Muito bem aponta-, meio de locomoção lhe oferecia. N o
dos os elementos políticos, económicos, contrato celebrado c o m a Companhia
de convivência e de belicismo. Magros Real dos Caminhos de Ferro, e apro-
nos pareceram os dizeres sobre a Li- vado pela Carta de Lei de 5 de Maio
teratura e a Filosofia. N ã o sentimos de 1850, o Governo fazia inscrever a
devidamente relevados os vultos dos cláusula constante do art." 55.°, que
grandes homens — sobretudo dos de impunha à Companhia a obrigação de
gesticulação política e moral. O autor transportar gratuitamente as malas do
como que espalha por todos os gregos correio e seus condutores em vagões
a lumínea pres.tância dos expoentes bem acondicionados, nos comboios de
das cidades helénicas que eram muitas maior velocidade. Depois, nunca mais
e mui diversas em manhas e exem- o nosso Correio deixou de estar aten-
plaridade. N o todo a síntese é convin- to à ampliação e rapidez dos seus
cente, no pormenor tal frontão de bom serviços. E, no dia 1 de Dezembro
templo há seu escalavramento. de 1866, inaugurava-se o serviço postal
O livro vem graficamente ilustrado entre Lisboa e Badajoz em ligação com
com mapas e desenhos. A o f i m foto- as ambulâncias da linha Badajoz-Ma-
grafias da melhor escolha, explicadas. drid. N a passagem do primeiro cen-
N o perdimento de tantas obras-primas, tenário, celebrou-ss a data com a
as que restam, a despeito das injúrias publicação deste trabalho, que vai ser
do tempo que passa sem: ver onde põe para muita gente uma agradável reve-
o sapato, — bastam para n ó s prender lação. — A. Veloso.
aos mármores afeiçoados por martelos
que não há aí louvá-los. Após a ex- DOMINGUES, Mário. — D. João V .
plicação das fotografias, embora sem — O Homem e a sua época. — Vol.
avergar o livro, correm os índices que d e 195X130 mm. e 398 págs. Romano
são de estilo em obras alisadas com Torres. Lisboa, 1964.
a pedra-pomes de Oxford ou de Cam- N ã o é uma história do «Magnâni-
bridge. Livros destíes têm hoje mer- mo». As aspirações de Mário Domin-
cado hiante posto que nas nossa s . Uni- gues e também os seus recursos são
versidades o fogo clássico vai lavrando mais modestos. O A. pretende, apenas,
suscitado por bons mestres que tam- realizar uma evocação histórica d o rei
bém se não descuidam de nos ir dando absoluto, educado por eclesiásticos,
obras do mesmo pulso científico ou cujos cofres abarrotavam de dobrões,
superior ao de esta que recenseamos. malbaratados em construções de con-
Por isso a editorial Verbo, atenta a o ventos, capelas e alguns serviços públi-
paladar do leitor de hoje e não ao cos ou a negociar privilégios e honra-
126
BIBLIOGRAFIA

lias eclesiásticas, alfaias e paramentos científico da produção histórica deixa


'litúrgicos de alto preço, alheio às ne- muito a desejar, quer nas deficiências
cessidades culturais do país, às suas heurísticas, quer na análise crítica,
urgências económico-sociais, à moder- quer na definição dos temas, quer na
nização da administração pública, das isua relacionação e articulação ambiên-
via® de comunicações ou à conjuntura cia! ou filiação e evolução genética.
política europeia, desperdiçando a Para aproveitamento dos resultados
ocasião de se impor além fronteiras. alcançados, grande parte dos nossos
Propositadamente, por certo, já que estudo® históricos frustra lamentàvel-
alude a este aspecto no prólogo — mente as esperanças que neles depo-
e aliás pouco se .perdeu com isso, sitam os que desejariam beneficiar dos
porque tem dado pano para mangas dados adquiridos. Os seu® autores não
de literatura ligeira — foi deixada na s ó se dispensam dum índice sistemático
penumbra a vida amorosa do monarca. de matérias, mas d o mais comezinho
O resultado foi uma verdadeira carica- de antropónimos e topónimos. O s his-
tura como aliás era de esperar nas toriaidores portugueses são já célebres,
fraca® tintas espatulada® na paleta bi- lá fora, por esta incúria, sem sombra
bliográfica, preparada de antemão de vantagem para o seu renome cien-
(págs. 396 }. N ã o vale a pena derno- tífico.
rar-nos em qualquer análise. Basta a Vem isto a propósito do n o v o cen-
leitura do índice (págs. 397 - 398) tro de Estudo® Históricos, criado sob
para depreender como Mário Domin- o patrooínio do Instituto de Alia Cul-
gues se abalançou a evocar o reinado tura e anexo à Faculdade de Letras
de D. João V sob um pesadelo nega- da Universidade Clássica de Lisboa, o
tivista. Como índice de conhecimento qual passa a dispor de um órgão pró-
das instituições da época, esta amostra prio a que deu o lindo nome « D o Tem-
na descrição da morte do rei. « N o dia po e da História». Temos diante de nós
11 die Julho, o monarca pediu o viá- o primeiro volume. Destina-se ele a
tico Como era irmão das ordens acolher «trabalhos de historiadores na-
Terceiras do Santíssimo e do Caratio, cionais e estrangeiros, cujos métodos,
os respectivos comissários foram lan- problemática e conclusões revistam
çar-lhe as absolvições pleníssimás» interesse para a cultura histórica por-
(págs. 390). Em Portugal, nunca tuguesa» e, antes de mais, os «realiza-
houve ordens terceiras do Santíssimo. dos por investigadores do Centro e
Só as tiveram os Carmelitas, os Fran- cuja divulgação se torna desejável, com
ciscanos e os Dominicanos. O A., pro- vista a dar a conhecer o s resultados
vàvelmente, queria aludir à Ordem preliminares do seu labor científico».
Terceira de S. Francisco, já que o A par deste objectivo, a nova revista
Magnânimo foi amortalhado no hábi- destina-se a fazer a recensão da biblio-
to do PovereMo (págs. 392). — G. S. grafia mais recente e promover a aná-
lise crítica de obras sobre as quais
«Do tempo e da História I». — Vol. importe formuilar um juízo.
de 240X170 mm. e 218 págs. Instituto O Centro, desde princípio, estabe-
de Alta Cultura. Centro de Estudos leceu um programa de vasto alcance,
Históricos anexo à Faculdade de Le- articulando as investigações dos seus
tras da Universidade de Lisboa. Lis- membros à volta de três núcleos fun-
boa, 1965. damentais : a história das estruturas
Há, decerto, um recrudescimento dos da sociedade portuguesa (desde as cul-
estudo® históricos em Portugal. Maior turais às administrativas, oficiais ou
seria, talvez, se as condições econó- particulares ), a demografia histórica e a
micas, em que, geralmente, trabalham história das relações internacionais de
os historiadores, fossem de molde a Portugal. O s dois primeiros visam à
possibilitar a investigação, não s ó em articulação «em termos» realmente
forma fragmentária e intermitente, mas concretos, quer dizer positivos e à
de modo orgânico e estável para se margem de interpretações doutrinárias,
poder chegar a resultados de vulto. de uma história da sociedade portu-
Apesar. do esforço dispendido pelos guesa, «assentando sobre o prévio
nossas Faculdades de Letras, o valor estudo das reai® condições da sua evo-
BIBLIOGRAFIA 405

lução». O terceiro procura, na® relações petência apurou-se em 294 casos : 111
internacionais de Portugal, apurar o de físicos e 183 de cirurgiões. O tra-
papel que elas tiveram na história do balho seria completo, se nos apêndi-
país, quebrando assim o isolamento em ces se juntassem aos quadros de exami-
que tão frequentemente se realiza a nadores e examinados, em cada caso,
investigação histórica nacional e que as respectivas fontes comprovativas. .
tantos reparos suscita, não s ó «pela Maria José Lagos Trindade, em Al-
insuficiência de perspectivas», mas até guns problemas do pastoreio em Por-
pelo desenfoque positivo d o s problemas, tugal, no$ séculos XV e XVI. retoma
cuja solução se processou, efectiva- o f i o dum tema económico já explo-
mente, a nível .internacional. rado, anteriormente, num inquérito à
-É evidente que tão ambicioso pro- vida pastoril e pastoreio em Portugal,
grama ultrapassa, hoje, as -possibili- nos séculos X3J a XVI, e cuja ascen-
dades realizadoras dum indivíduo, poi dência peninsular tem ressonâncias no
mais bem dotado que o suponhamos-. próprio monacato visigodo de S Fru-
O espírito de equipa criado pelo Cen- tuoso c o m o problema sótão-económico
tro e o entusiasmo que anima o s seus da transumância. A propósito do gado
orientadores e os membros que actual- espanhol que pastava em Portugal, lem-
mente., o compõem e ulteriormente bramos o s privilégios alcançados pelo
virão a ser aglutinados, são uma pro- Mosteiro de Guadalupe para os seus
miessa fundada de que ele será, com rebanhos, precisamente nesta época.
o tempo, levado a cabo sem desfale- . Manuel Henrique Côrte-Real, que já
cimentoe. historiou A feitoria portuguesa na An-
• Para já, o presente 1.° volume da daluzia ( 1500 -1532 ) dá-nos, agora, a
nova revista, depois da Apresentação, ementa do» feitores e escrivães na
brinda-nos com 7 estudos de inegável Andaluzia durante o reinado de D.
interesse e valor. O primeiro é da João Hl, servindo-se de copiosa docu-
Professora Virgínia Rau Para a histó- mentação vasculhada pacientemente no
ria da população portuguesa dos sé- Arquivo Nacional da Torre d o Tombo.
culos XV e XVI (Resultados e proble- iBm Engenhos de moagem no século
mas de métodos). Trata-se duma série XVI (Técnicas e estruturais), Maria
de considerações, bordadas à volta Olímpia da Rocha Gil dá-nos uni in-
do inquérito populacional ordenado por ventário de azenhas e moinhos, docu-
D Manuel, em 1496, para a Beira e mentados- no mesmo Arquivo Nacional,
cuja interpretação demográfica se tenta, com as condições técnicas e fiscais de
tendo em vista o significado de fogo, laboração. Os resultados obtidos estão
morador e vizinho que nem sempre, em longe de ser exaustivos, pois s ó para
•tais operações, é idêntico, dada a di- a região de Aveiro o número de uni-
vensidaide de fins a que elas obedeciam dades podia ser muito mais avultado.
e que é preciso ter em conta para apu- Para a história da música, em Por-
rar com objectividade a evolução do tugal no século XVHI, é boa contri-
quantitativo populacional do país. buição o trabalho de Maria Adelaide
Eduardo Nunes apresenta-nos algu- Marques : Músicos de Câmara no rei-
mas excelentes notas sobre o reinado de nado de D. José. N o final da noticia
D. Duarte no referente à contenda luso- sobre António de Figueiredo (págs.
-castelhana sobre o s bispados e mes- 211), escapou um solecismo lamentá-
trados com jurisdição em terras de vel. Esta observação somenos, leva-nos
Portugal e Castela, sobre um autógra- a outras considerações de fundo. N a
f o do Monarca Eloquente, e sobre a transcrição de documentos nãó seria
data da composição d o Leal Conse- de sugerir a uniformização de normas :
lheiro, obra que o abade D o m Gomes desenvolvimento de braquigrafias, su-
teve em mente fazer traduzir para pressão de maiúsculas injustificada®,
latim em 1437 substituição d e minúsculas iniciais por
Iria Gonçalves um documentado maiúsculas em aritropónimos e topó-
artigo sobre «Físicos .e Cirurgiões Qua- nimos? Reina entre nós, no mundo dos
trooentistav»' e seu enquadramento investigadores, a maior arbitrariedade te
profissional à luz das respectivas anarquia. Do tempo e da história
cartas de exame. A verificação d é com- poidia exercer uma função pedagógica
406 BIBLIOGRAFIA

exemplar, a .este respeito. Se cada PERI, Vittorio. — I Concili e le


número acrescentasse um índice de Chiese. — Vol. de 225X115 mm. e
nomes próprios e de .bibliografia talvez 128 págs. Editrice Studium Roma,
duplicasse o valor utilitário de toda a 1965.
investigação feita como instrumento de A celebração do Vaticano II veio
trabalho para outros investigadores. de novo pôr o problema da ecumeni-
Isto são sugestões de quem leu com cidade dos Concílios. Que significa, em
o maior agrado e proveito tão pro- rigor, concílio ecuménico, universal ou
missora tentativa. geral? Quais são os atributos neces-
Quando a arte é longa e a vida sários para a ecumenicidade? 6 sa-
breve, todos somos usurários do tempo. bido que não tem sido pacífico na
— D. M. Igreja se alguns Concílios do passado
foram ecuménicos ou- não. Os ortodo-
xos só admitem comummente sete con-
KJBOGCSpbs) EsBffisSásSisai cílios ecuménicos ( o s sete primeiros);
alguns aceitam ainda o oitavo em que
foi condenado Fócio, outros rejeitam-
FRANZEN. August. — Kleine Kirchen- -no; e há também entre eles quem
geschichte. — Vol. de 180X105 mm. e admita, ao menos em .parte, a ecume-
400 págs. Herder. Freiburg, 1965. nicidade do Concilio de Florença, em
Entre os seus livros de algibeira, a que estiveram representadas as Igrejas
editorial Herder incluiu esta pequena orientais-. Mesmo no Ocidente tem
história da Igreja. Distribui-se a ma- havido dúvidas sobre a ecumenicidade
téria em três períodos cronológicos : de alguns concílios. Por isso o Autor
o antigo, o medieval e o moderno. O deste volume procura determinar qual
primeiro reparte-se em duas épocas. A a característica da ecumenicidade,
primeira, do início da era cristã a 311 apontando as ideias dos teólogos an-
(fundação da Igreja até Constantino tigos e ma>s recentes- sobre este parti-
Magno. A segunda de Constantino cular. — L. àe Castro.
Magno até S. Gregório Magno ( 312-
- 6 0 4 ) O segundo período compreende VAUSSARD. Maurice. — La fin du
quatro épocas: A primeira de 500 - 700. pouvoir temporel des Papes. — Vol. de
185X120 mm e 228 págs. Spes- Pa-
A segunda de 700 - 1050. A terceira de ris, 1965.
1050- 1300. A quarta de 1300- 1500. O Vaussard tem-se especializado na
terceiro período, em que o Ocidente história contemporânea da Itália. O
perde a sua unidade espiritual, envol- problema do poder temporal dos Pa-
ve três, épocas. A primeira de 1500- pas apaixonou, na segunda metade do
-1700, em que Franzen contrapõe à século XIX e primeiro quartel do
que ele chama Reformação (protes- -actual, o mundo católico. A França
tante ) a Reforma Católica. A segunda empenhou-se, directamente, na solução,
de 1789 a 1918, isto é, da Revolução por motivos- políticos. Quando a guerra
Francesa à primeira Grande Guerra com a Alemanha, em. 1870, compro-
Mundial. A terceira de 1918 a 1965. meteu o s seus interesses, Napoleão III
A parte mais interessante parece-nos abandonou Pio IX. A verdadeira solu-
a referente à primeira época da Igre- ção viria, mais* tarde, do diálogo tra-
ja dos tempos modernos ( 1 5 0 0 - 1700 ), vado, directamente, entre as dua® par-
em que, com toda a irazão, não se tes em causa, com a feliz solução
fixa, apenas, mos aspectos negativos da encontrada no Tratado Lateranense de
Igreija no» últimos decénios da Idade 11 de Fevereiro de 1929. Para quem
Média, mas sublinha também os valo- quiser entrar nos meandros- destas ne-
gociações da Santa Sé com o Governo
res positivos e, particularmente, a sim- italiano, estas páginas dão uma inicia-
biose da religião e da vida. Embora ção Clara e objectiva. O oferecimento
escrita- para o público médio ger- dó Escurial a Bento XV, durante a
mânico, tem aspectos muito relevantes, guerra de 1914-1918 é. talvez, um
dignos de atenção, sobretiído para a pouco escamoteado (págs. 173-175).
interpretação do luteranismo. — P, M. O Governo português ou, melhor, D.
btbli06rafia 407

Maria II, fizera idêntico oferecimento, surto de vitalidade que, todavia, se não
a Pio IX, em 184S. — G. S. operou sem o sacrifício do rito his-
pânico, sob imposição dè S. Gregório
COCHERIL, D o m Maur. — Éfrudes sur Magno. Cister, no século XII, consti-
(e monachisme en Espagne et au Por- tui uma nova onda de vigor, cuja pro-
tugal. — Vol. de 230X145 mm. e 448 jecção, no Ocidente peninsular, foi
págs. Livraria Bertrand Lisbonne, favorecida pela conjuntura polltico-
1966. -religiosa.
. Os estudos monásticos em Portugal, Moreruela, suposta primeira filiação
depois de um período de grande acti- beneditina na reforma cisterciense em
vidade nos séculos XVH e XVIH, ao Espanha, merece a D. Mauro investi-
menos sob o ponto de vista histórico, gação -particular, dando-lhe azo a cha-
entraram na maior estagnação D e mar a atenção para o cuidado com
quando em quando, há uns breves que é preciso interpretar os documen-
estremecimentos; mas o enorme mate- to® fundacionais, nem sempre claros e
rial, que ainda existe, prossegue em coerentes, no seu significado imediato.
quietude. Foram as abadias cistercienses do Sul
O cisterciense D. Mauro Cocheril, da França que introduziram os mon-
que há tempos se vem interessando ges brancos, em Espanha, por esta
pela história da Ordem de S. Ber- ordem: FItero (25.11.1140), Valpa-
nardo em Portugal, no presente volu- raiso (11.10.1143) e Moreruela (1153-
me procura investigar as suas ligações -11-58).
não só com as abadias francesas do Em Portugal, os cistercienses apa-
século XII, mas com o monaquismo recem por 1143. Até ao Concílio de
hispânico, desde as origens até à mes- Coyanza ( 1055), vigoravam nos nume-
ma centúria. Este quadro mai® amplo rosos mosteiros existentes, muitos dos
proporciona-lhe a oportunidade de re- quais duplos, as regras de S. Lean-
fazer a história da organização civil e dro, de S. Isidoro e, sobretudo, de S.
eclesiástica da península, antes da Frutuoso-. Nessa data, intervém a regra
invasão árabe e no período da recon- beneditina, conhecida, em Bouro, .por
quista cristã para sublinhar, depois, 1174. Como ela segue a supressão do
a importância das instituições monás- rito hispânico e este se mantém, ain-
ticas. Tal objectivo leva, naturalmente, da, em Portugal, mesmo depois de
ao estudo dos grandes legisladores suprimido pelo Concílio de .Burgos
peninsulares de inspiração oriental, (1077), para só ser substituído pelo
de Martinho de Dame, Leandro e rito romano ao Sul do Douro, depois
Isidoro de Sevilha, a Frutuoso de de 1092, e em Braga com S. Geraldo
Braga, com a reacção do monaquis- de .Moissac, depois de 1096, pode, to-
m o mozârabe sobre o do noroeste ga- davia, dizer-se que a sua expansão,
laico. O visigótico reveste-se de carac- attravés da maneira- cluniacense, foi
rísticas muito particulares, embora Testrita.
com deficiências inegáveis na estrutura
delicada dos mosteiros duplos e patri- Depois de procurar fazer um pouco
moniais!, em que a austeridade disci- de luz na vida monástica d o Minho
plinar, com o tempo, -não podia dei- e das Beiras, no século XII, tão obscu-
xar de ser precária. S. Bento de Núr- recida por Fr. Bernardo de Brito e
sia com a sua regra, mais humana pouco olarificada, ainda, apesar dos
e prudente, coexistindo com os estaitu- esforço® da critica documental, e
tos locais nos cenóbios hispânicos', nomeadamente através de Rui de Aze-
veio permitir uma renovação do mo- vedo, para o «ciolo de Tarouca», cuja
naquismo, que o Conoílio de Coyanza interdependência parece manifesta, po-
( 1055) estimulou, mas só tardiamente dem estabelecer-se estes quadros : La-
se reflectiu em Portugal. fões — a existência de eremitas em
Outubro de 1137; a forma .beneditina,
Foi a Congregação de Cluny, atra- em Novembro de 1161; a reforma cis-
vés da grande figura de Hugo de Sé- terciense, em 18 de Agosto de 1163
rnur, seu abade, cuijo papel Herculano Para Tarouca, a forma beneditina, em
não compreendeu, quem deu à vida mo- Julho de 1140: a forma cisterciense, em
nástica da. reconquista um maravilhoso Abril de 1144. Para Salzedas, sabe-ae
408 BIBLIOGRAFIA

que, e m Junho de 1155, vivia sob a capítulos, documentados -em primeira


regra beneditina; e, em 1196, sob a re- mão, traça a biografia do arquitecto
gTa cisterciense. Explicar a metamorfo- toscano e suas relações com os Clé-
se é que não é fácil. A origem de rigos ( 1731 - 1763), a fundação da
Alcobaça ( 1 1 5 3 ) liga-se a. Claraval, célebre irmandade pela fusão de três
què desde 1141 começa a contar com confrarias ( 1707), a aouisicão dos
numerosas afiliações, sobretudo na terrenos para a construção da nova
Galiza e em Portugal. Até a o fim do igreja ( 1731 ), as cerimónias da pri-
século XII, havia 13 abadias ci&tercien- meira pedra e arrematação das obras
ses no nosso país ( págs. 230-232). ( 1732), o início da construção e nro-
A parte mais importante do volume Memas da sua segurança (1732-
é a consagrada a Alcobaça, cujos -1759). a celebração da primeira missa
enigmas se resolvem, corrigindo-se a ( 1 7 4 8 ) , sagração do templo ( 1779) e
data da sagração da igreja abacial e aceitação de irmãos seculares ( 1 7 3 9 ) ,
dando-se a lista dos primeiros abades a construção da enfermaria, casa do
O estudo da estrutura arquitectónica despacho e da torre ( 1 7 5 0 - 1 7 6 3 ) ,
leva à descoberta duma Alcobaça I e com a capela anexa de N. Senhora
de outra Alcobaça H. A s relações com da Lapa na cripta à entrada da igreja,
S. Bernardo são dissipadas, na sua a meio da escadaria M754>, e os
parte lendária, longamente inveterada. acessos do conjunto, desde as escadas
Os dois últimos capítulos versam sobre primitiva*. C1750), ao Adro dos Enfor-
a implantação e localização das aba- cados ( 1 7 7 7 ) e arruamentos circun-
dias cistercienses da península e sobre vizinhos e m princípios do século XIX.
as relações de Morimond com as Or- A descrição d o s altares da isreiia, da en-
dens Militares cistercienses peninsulares. fermaria e da sacristia ( 1 7 4 9 - 1764),
Entre o s apêndices, o IH sobre as com o estudo da talha e das ima-
origens cistercienses das ordens milita- gens ( 1762- 1767), as obras de pintura
res de Avis e de Cristo é, certamente, ( 1753 - 1812), a estrutura da sacristia
o mais importante. D. Mauro é um
discálpulo de Pierre David e honra o e seu recheio ( 1770- 1783 ), segue a do»
seu mestre. — D. M. sinos, o relógio, retirado do Convento
dos Lóios para o s Clérigos por ordem do
Duque de Bragança, e m 1832, e cons-
COUTINHO, B. Xavier. — A Igreja e tituído marcador oficial das horas para
a Irmandade dos Clérigos. Apontamen- a cidade, c o m o a tórre o era da abor-
tos para a sua história. — Vol. de dagem do® paquetes comerciais, consti-
240X180 mm. e X V I + 6 7 6 págs. Publi- tuindo, assim, um verdadeiro telégrafo
cações da Câmara Municipal' do Porto. público. Depois, a análise das pratas
Gabinete de História da Cidade. Por- litúrgicas e a história do retábulo da
to, 1965. capela-mor ( 1767- 1773), bem como
A Igreja dos Clérigos com a sua dos órgãos e actividade musical no
esbelta torre barroca põe unia nota decurso dos actos do culto, principal-
característica na paisagem do velho mente d e 1750 a 1759. A vida da ir-
•burgo portuense. O monumento era mandade com seus privilégios e rega-
bem merecedor duma monografia lias, a sua participação religiosa nas
condigna. Com o já reconhecido ca- grandes horas de júbilo ou calamida-
rinho que tem votado às obras de des nacionais ( 1753- 1785 ), fazem coro
arte do Porto, Xavier Coutinho brin- às relações com o Estado nas lutas li-
da-lhe este alentado volume, feito berais, solução de dificuldades inter-
para o bicentenário da mais bela torre nas, demonstração de reverência a
barroca de Portugal ( 1763- 1963), Pio IX, etic. Os últimos capítulos
construída por Nicolau Nasoni. Depois (XXII - XXVIII) são consagrados às
de um preâmbulo, em que J. A. Pinto relíquias notáveis existentes na Igreja
Ferreira explica a razão de ser da dos Clérigos, embaraços da Irmanda-
obra, vem um introito do Professor de de, sua actividade caritativa ( 1 7 6 3 -
Pensilvânia, R. C. Smith, sobre a ar- - 1866), graças e indulgências conce-
quitectura dós Clérigos, cuja inspira- didas pela Santa Sé, inscrições epigrá-
ção substancialmente italiana se acen- ficas do templo, observações à planta
tua. Xavier Coutinho em XXV IH de Nasoni e referência a um prelado
BIBLIOGRAFIA 409

francês, vitima da (Revolução no seu contemporâneo, e das jornadas que o


país e falecido no Porto em 1803. A precederam, cheias de consolações mas
copiosa documentação aproveitada e as também de angústias e sobressaltos, de
numerosas estampas dão um carácter que s ó uma f é inabalável que remove
de objectividade histórica a esta mo- montanhas de obstáculos prevaleceu,
nografia que a Câmara Municipal do faltava apenas a crónica. E aqui a
Porto .muito justamente inseriu na sua temos, «sem pretensões literárias, em
colecção de Documentos e Memórias linguagem desataviada e simples, mas
para a Histórikt do Porto. — D. M. arquivo fiel, absolutamente verídico e
quanto possível pormenorizado, da ori-
Monumento Nacional a Cristo-Rei. gem e dos sucessos que, ano por ano,
— Memória histórica. 1936-1959. Coor- foram acompanhando até final a reali-
denada e editada pelo Secretariado Na- zação de um empreendimento do maior
cional do Monumento. — Vol. de alcance religioso e patriótico da Nação
235X185 mm. e XTV+238 págs. de Portuguesa». Assim é. Se a grandeza
texto e 108 de documentos gráficos, do feito reclamava este Documento,
índices e corrigenda. Lisboa, 1965. e os vindoiros não perdoariam, ao be-
O Monumento a Crisfo-Rei erguido nemérito editor, se ele lhes faltasse, a
por subscrição nacional em cumpri- aspiração legítima fica satisfeita. Como
mento dum voto feito pelo Episcopado obreiro incansável, o P. e Sebastião
Português em Fátima, a 20 de Abril Pinto, S. J., liga, assim, duplamente,
de 1940, deve a sua primeira inspira- o seu nome ao Monumento de Cristo-
ção ao Sr. Cardeal; Patriarca de Lis- -Rei. Alma da construção, fica a sê-lo,
boa, D. Manuel Gonçalves Cerejeira, também, do seu memorial histórico.
quando em 1934, ao voltar d o Con- — D. M.
gresso Eucarístico Internacional, con-
templava deslumbrado, sobre a monta- MARIZ, Pedro de. — Historia da
nha do Corcovado do Rio de Janeiro, vida, milagres e canonização do Bem-
a estátua colossal, erguida ali pelo aventurado S. Hyacintho da Ordem dos
Brasil a Cristo Redentor. O s braços Pregadores. — Edição de Virgínia Rau
divino* que se estendiam de Além e Jorge B. de Macedo. Transcrição
Atlântico para cá pediam outros que de 'Eduardo Borges Nunes — Vol. de
de Portugal se estendessem para o 240X170 mm. e 224 págs.'Instituto de
Brasil a Cristo R:edentor. Os braços Alta Cultura. Centro de Estudos His-
comunhão luso-brasiileira. Considerada tóricos. Lisboa, 1965.
utóioica a empresa, ela aí está de há S. Jacinto foi um religioso polaco
muito realizada, mercê d o fervor e de- da Ordem dos Pregadores.. Natural de
dicação de um grupo de almas gene- Saxo junto a Cracóvia, nasceu por
rosa^ que. recebida a incumbência do 1183. Admitido na Ordem por S. D o -
Episcopado Nacional, encontrou através mingos,. morreu em 1257, célebre em
do País e entre todas as. comunidades virtudes e milagres, como diriam os
portuguesas dispersa® pelo mundo, a antigos hagiógrafos, sendo canonizado
mais generosa cooperação, secundada por Olemenitie VII, em 1594. Nes.se
pelos poderes públicos aue ;lihe pres- mesmo ano ( 2 8 - V U I ) , foi-lhe pres-
taram, de princípio ao fim, exemplar tado culto público na Igreja de S.
acolhimento. D e tão feliz empreendi- Domingos em Lisboa e organizou-se
mento levado a bom termo foi coroa uma confraria d© devotos. E m 16ill
felicíssima a inaueuração do Monu- (pág. 214), empreendeu 'Pedro de Ma-
mento, a 17 de Maio de 1959, com riz esta biografia d o Santo com a no-
o momento emocionante da solene con- tícia da sua oanonização, festas cele-
sagração de Portugal realizada pelo Sr. bradas e m Lisboa, graças recebidas
Cardeal Patriarca ao Saierado Coração nessa ocasião, e n o s anos seguintes,
de Jesus e a sua ratificação oficial, instituição da irmandade do santo na
feita pelo venerando chefe de Estado capela de Nossa Senhora das Virtudes,
Almirante Américo de D e u s Tomás, no privilégios dela e divulgação do culto
seu primeiro mandato presidencial. pelo pais, desde 1594 a 1611.
' Desse dia. memorável, entre os maio- Como obra característica da hagio-
res da 'história religiosa, de Portugal grafía d o século XV®, não confirma
9
410 BIBLIOGRAFIA

a evolução operada no autor dos Diá- A propósito das «Vinte Horas de


logos de Vária História, onde os es- Liteira», Esther de Lemos estuda fina-
treitos esquemas da crónica se abri- mente a figura de António Joaquim,
ram a horizontes cronológicos e geo- personagem, • interlocutor, outro-eu de
gráficos mais amplos e em que à se- Camilo. É dialogando com ele que o
riação tumultuária dos factos se subs- Autor vai reflectindo sobre a arte de
titui uma selecção e organização que compor romances e fazendo uma cla-
com novos recursos de exposição de- rividente autocrítica.
nunciam um novo estilo historiográ- António Coimbra Martins, introdutor
fico de fundo e forma. Esta História das «Aventuras de B. F. Enxertado»,
da Vida Milagrosa e Canonização do traça um paralelo engenhoso entre este
Bem-aventurado S. Hyacintho," exu- Basílio e o seu homónimo igualmente
mada do arquivo da Casa Cadaval, fictício, o «primo Basílio».
constitui, por isso, tècnicamente, um Ruben Andresen Leitão, à sua ma-
retrocesso. Obra de devoção popular neira saborosa e sugestiva, facilita-nos
e de ocasião, parece ter sido encomen- a entrada nas «Memórias do Cárcere»
dada para propagar a confraria q u e os com uma nota sobre «Três símbolos
Dominicanos estabeleceram em S. D o - de uma época», que vêm a ser o José
mingos em honra do piedoso apóstolo do Telhado, D. Pedro V e o próprio
da Polónia. A biografia de Pedro de Camilo.
Mariz, de que a antecederam os bene- «Agulha em Palheiro» não é das
méritos editores, traça o perfil huma- mafe reputadas novelas de Camilo mas,
no e literário do solícito bibliotecá- como bem diz Castelo Branco Chaves,
rio da Universidade de Coimbra. Pena autor da «Nota 'Preliminar» à presente
foi que mais esta obra inédita do sé- edição, o menos cuidado dos seus li-
culo x v n , e para mais de carácter vros nunca poderá ser classificado ao
histórico, viesse a lume sem um índi- nível da literatura vulgar e insignifi-
ce de topónimos e antroponímicos. cante. Aliás, melhor ou pior, não dei-
— G.S. xa de ser tuna novela tipicamente
camiliana, com «quase todos os ingre-
dientes do seu laboratório de ficcio-
nista : o amor fulminante l o g o ao
primeiro olhar, a resistência infelici-
ta d ora dos preconceitos sociais e da
C A S T E L O BRANCO, Camilo. — 1) O
tirania paterna, o angelismo da menina
Senhor do Paco de Ninães. — 2) Vinte namorada, o s pundonores do plebeu
horas de Kteira. — 31 Aventuras de virtuoso, os lances melodramáticos...»
Basílio Fernandes Enxertado. — 4> (pág, 13).
Memórias do Cárcere. ( 2 vols. ). — 5) « A Queda de um Anjo» — esta1 sim,
Agulha em palheiro. — 61 A queda de uma obra-prima — é introduzida por
um Anjo. — Vols. de 195X130 mm. um estudo de Túlio Ramires Ferro,
e 264, 306, 272, 265+230, 240 e 290 que alud.e sumàriamente ao contexto
págs.. respectivamente. Parceria A. M. sociológio e económico em1 que se in-
Pereira. Lisboa, 1966. sere a acção na novela; economia
Com regularidade exemplar, conti- agrária, instituição dos morgadios...
nuam a vir a ilume as obras de Ca- Analisa também o tipo de humorismo
milo, sob a orientação do Prof Dr. da novela e o carácter de Calisto Elói,
Jacinto dó Prado Coelho, assistido de a1 que não faltam traços de formação
excelente equipa de colaboradores. e cultura que o assemelham ao seu
Assim, Castelo Branco Chaves, na criador. — A. R.
introdução a «O Senhor do Paço de
Ninães», tece reflexões inteligentes a SÁ - CARNEIRO, M á r i o de. — Céu em
•respeito do romance histórico em geral fogo. — Vol. de 195X140 mm. e 354
e da novela histórica camiliana, e mos- •págs. Edições Ática. Lisboa.
tra o pouco ou nenhum fundamento O livro de novelas «Céu em Fogo»
histórico daquele romance, sem lhe saiu em 1915, à custa dó Autor.
negar contudo certa verosimilhança Levando ao paroxismo as tendências
histórica. esteticistas de entSo ( n e l e se cruzam
133 BIBLIOGRAFIA

•influências simbolistas, decadentistas, perante uma movimentada crónica, al-


«paúlicas».'.. apontando já ao surrealis- deã, correspondente aos anos difíceis
mo ), falhou como obra de arte lite- do A. A certa altura do 2.°, tomamos
rária e decerto .jazeria quase comple- já contacto com a gente citadina, amas-
tamente esquecida ( c o m o o estão, por sada- afinal n o mesmo barro e ma
exemplo, as novela® de Vilia-Moura, mesma miséria. É ver «O Crime»,'
com as quais se aparenta ), se não fora ronda impressionante pelos bairros
o nome d o Autor. Ainda assim, foi onde se acoitam a miséria e os males
preciso que decorressem cinquenta anos sem esperança.
para se fazer esta segunda, edição, Obra humaníssima, .bem merecedora
comemorativa e documental (2." e da bela carreira que vai fazendo, e
não 3.", como se poderia concluir de decerto prosseguirá.—A. R.
uma errada indicação da tábua das
«obras do Autor»). ROSA, Faure da. — A s imagens des-
N u m reflectido estudo preliminar truídas (Romance). — Vol. de 130X
sobre «Formalismo, invenção e real X190 mm. e 238 págs. Portugália Edi-
na novela de M de S. C.», Maria tora. Lisboa, 1966.
Aliete Galhoz procura meritòriamente Este romance é enfeixado, com nota
libertar-se do prestígio e do sortilégio preliminar, como «um livro que mar-
de Sà-Carneiro para sobre este aspecto cará época pela forma superior como
da sua obra se pronunciar com inde- diagnostica e universaliza a crise da
pendência e justiça. E não deixa de pequena- burguesia e do mundo con-
o conseguir. -— A. R. temporâneo em geral, a sua decadên-
cia, a sua inquietação e a solicitude
NAMORA, Fernando. — Retalhos da ou incomunicabilidade a que, fatal-
vida de um médico. — 2 Volis. de mente, condena os seres, destruindo
210X143 mm. e 258 e 322 págs., res- mútuament© as imagens que se fazem
pectivamente. Publicações Europa-Amé- uns dos outros ou da vida». N ã o sabe-
rica. Lisboa, 1966. mos o que o A. entende por «pequena
Nesta nova série das obras de F. burguesia». Pela referida nota, vê-se
N., belamente apresentadas, temos que foi intenção sua frisar «a inquieta-
agora os dois volumes do» «Retalhos», ção, a solitude e a incomunicabilidade
narrativas exemplares, fruto duma já a que fatalmente condena os seres».
longa e rica experiência de médico. Porém, se a intenção foi essa, o que
Histórias geralmente muito b e m con- nos deu, f o i outra coisa. Foi um
tadas, c o m um bom sentido da sur- quadro resultante da demissão do
presa ou, para falarmos cinematogrà- homem em face da vida. Quanto à
ficamente, do «suspense», que mantêm destruição das imagens parece-me
a atenção e o interesse, despertos. outra ilusão de perspectiva.
Para além do valor literário destas C o m efeito ifalta-lhe® o espírito,
páginas, abala-nos e comove-nos a sua pelo qual o homem se pode elevar
significação simplesmente humana : acima dos instintos cego® e destruido-
respeito e ternura pelos humildes, o s res. E falta-lhe® o suplemento de alma,
pobres, os rudes, os ciganos; drama- a. que Bergson se refere, e pode situar
de todos o® doentes, especialmente dos o homem muito acima dos interesses
sem recursos; e .drama do médico de ocasião. — A. Veloso.
também, sobretudo quando principian-
te, -inexperiente, suspeitado e guerreado ROLLAND, Romain. — Jean Christo-
por comadres, barbeiro® e curandei- phe. — 5 Vols. de 190X145 mm. e
ros, quando não .pelos próprios cole- 484, 384, 366, 412 e 448 págs., res-
gas. pectivamente Edição Livros do Brasil.
A preocupação social do A. é evi- Lisboa.
dente — e honra- lhe seja — mas 1966 f o i o ano centenário de Ro-
temos por vezes a impressão de que main1 Rolland e, para o celebrar, se
há uma certa maneira ressentida de publicou esta tradução do seu grande
falar dos «ricos» que traduz sentimen- •romance oíolico. A edição recomenda-
tos mais complexo® do que o puro -se pela qualidade da apresentação
anseio de justiça. N o 1.° vol. estamos gráfica e do papel, mas é pena que
412 BIBLIOGRAFIA

a .tradução peque por vezes por certa nas à conta de umas baforadas ilorpas,
falta de vigor e de rigor. rudemente despeitoradas, à mistura
Após tantos e tão excelentes «ro- com um anticlericalismo de taberna.
mans-fleuve» que vieram depois deste, Ema Bovary não resiste à tentação.
não faltará quem o considere ultra- Engana o marido, primeiro com um
passado, hoje que .tudo se ultrapassa fidalgo dos arredores e, depois, com
com tanta rapidez e demasiada facili- um ajudante de notário! Desiludida
dade, até mesmo, as obras-primas. e afogada, em dívidas, procura no ve-
Mas cremos que não lhe faltarão ain- neno, a solução fatal dos seus proble-
da os fiéis e os que, ilendo-o agora mas. Tema banal, de que só o estilo
pela primeira! vez, se sintam conquis- de Flaubert era capaz de extrair uma
tados. Sejam quais forem as limita- verdadeira obra de arte. O romance
ções d e R. R. ( excursos de tema mu- introduziu nas letras um novo vocá-
sical, divagações mais oui menos filo- bulo : o «bovarismo», para significar
sóficas o u moralizantes, esquemaitismo, o sentimento de insatisfação n o s domí-
pendor didáctico... ), não se .lhe pode nios da afectividade e da vida social,
negar grandeza na concepção, conti- frequentemente encontradiço em certas
nuidade na "realização, sopro poético nevroses femininas. — A. Veloso.
e, sobretudo, um invenoível idealismo.
Por isso diz «não escrevo uma obra BALZAC, H o n o r é de. — Le tys de
literária. Escrevo uma obra de fé.» la vallée (Romance). — Vol. de 115X
(pág. 14). Por isso a dedica «Às alL X185 mm. e C + 5 5 4 págs. Garnier
m a s livres, de todas as .nações, que Frères. Paris, 1966.
sofrem, lutam >e hão-de vencer.» Esta obra de Balzac é, nesta edição,
Na Introdução, escrita em 1931, enriquecida com uma longa Introdu-
.trinta anos após a primeira, publica- ção, assinada por Moise Le Yaouanc,
ção, R. iR. faz a história do lento ama- ao qual, além d e uma excelente .biblio-
durecimento desta obra no seu espí- grafia, pertence também uma exaus-
rito, e da sua redacção. Bem pode dd- tiva selecção de variantes.
zer-se a obra de uma vida, vida aliás O livro foi, com razão, considerado
fecunda de outras obras e de outras pelo autor como uma descrição roma-
empresas. — A. R. nesca de cenas da vida que então se
vivia na província ( 1835). N u m baile,
FLAUBERT, Gustave. — Madame Bo- em Tours, Félix de Vandenesse encon-
vary (Romance). — Vol. de 115X180 tra uma desconhecida, que depois
mm. e 444 págs. Garnier-Flammarion. reencontrou num castelo do vale do
Paris, 1966. Indre, onde ela, com uma dedicação
Precedida de uma breve cronologia sem limites e com inexcedível paciên-
e de um prefácio, com a assinatura cia, se consagra à educação dos filhos
de Jacques Suffel, esta edição assume e aos cuidados com o marido, o conde
hoje perspectivas literárias, que a tor- de Mortsauf, que além de egoísta, era
nam mais aoessivel do que ao .tempo demente. Vandenesse chega a conquis-
da primeira publicação, em seis nú- tar a amizade desta mulher, amizade
meros sucessivos da Revue de Paris fundamentalmente pura, mas parado-
( 1856 ) e do volume, que saiu no ano xalmente amorosa e até ciumenta.
seguinte. Porém a intriga é a mesma, Ohamado à Corte, Vandenesse agrada
e o interesse romanesco não parece à marquesa Dudley, que consegue
ter. diminuído. A protagonista, filha de prendê-lo pelos laços de u m a . p a i x ã o
um oamponês, e educada num con- puramente sensual, enquanto, consu-
vento elegante, desposa um burguês mida por uma vida de ciúme e de
medíocre, que não a satisfaz. Ema martírio, a senhora Mortsauf morre
Bovary vive de aspirações romanescas numa agonia dolorosa, muitas vezes
e de sonhos de luxo, que a desgostam perturbada «pelos gritos rebeldes da
da vida real que tem de viver, numa carne». Esta história de um amor
casa vulgar, para as bandas da Nor- simultaneamente sensual e platónico,
mandia. Mais em voga, lá na iterra, que alguns têm apresentado como o
s ó o ®r. Homais, farmacêutico de triste reverso da Princesa de Cléves, de M. m c
memória, que se cuida infalível ape- La Fayette, pode ter inspirado, até
BIBLIOGRAFIA 413

certo ponto, Dominique, de Fromen- CHAIA, Josephína. — Financiamento


tin, e Educação sentimental, de Flau- escolar no Segundo Império. — Vol.
bert. — A. Veloso, de 230X155 mm. e 200 págs. Faculda-
de de Filosofia, Ciências e Letras de
CLARKE, Arthur C. — Náufragos da Marília. São Paulo, 1965.
Lua (Romance). — Vol. de 110X160 A A., a que se devem 3 vols. sobre
mm. e 176 págs. Livros do Brasil. Lis- «A Educação Brasileira», já aprecia-
boa, 1965. dos nesta Revista, (Ag.-Set. 1966),
Como o título sugere, trata-se de prossegue as suas pesquisas de Histó-
um romance de ficção científica. A tra- ria da Educação no Brasil. Este livro
dução de Jorge da Fonseca é primo- mereceu o «Primeiro Prémio Nacional
rosa. O volume lê-se com interesse de Administração Escolar de 1965», e
sempre crescente, como em geral acon- é na realidade um contributo de pri-
tece com romances desta natureza. meira ordem para o conhecimento dos
— A. Veloso. problemas que a instrução pública tem
encontrado no Brasil; problemas que
aguardam ainda hoje uma solução.
P>®g0®çiffi§gia e J&meffitâ&eeie A A. ahre o livro com duas citações
de Rui Barbosa em 1882, e do Minis-
tro da Educação em 1963. O parale-
SCHNEIDER, Friedrich. — La peda- lismo é flagrante. E como mostram os
gogia comparada. — Trad. de J. Tus- dado® estatísticos apresentados em pro-
quets. — Vol. de 2 1 5 X 1 4 0 mm. e 308 fusão nesta obra, os Poderes públicos
págs. Editorial Herder. Barcelona, 1966. nunca dotaram a instrução com os
F. S., bem conhecido pelas suas recursos necessários; o que vale dizer,
obras notáveis n o campo da pedago- jamais deram a atenção devida a um
gia, apresenta neste volume mais do problema essencial. Ora quando um
que o título indica N ã o é apenas um problema desta monta fica secular-
estudo de pedagogia comparada; pro- mente sem solução, isto não suoede
cura enquadrar esta ciência no campo por acaso; deixa entender que a pró-
mais vasto da cultura integral e da pria estrutura do Poder no Brasil tem
vida social dos povos mais desenvol- sido tal que impossibilitou o acesso da
vidos. Traça primeiramente, em linhas grande massa do povo brasileiro à
gerais, a história da ciência compara- instrução. Sem explicitamente demons-
tiva da educação, nos Estados Uni- trar tal intuito, o livro de Josephina
dos, onde ela começou, n a Inglaterra, Chaia é uma reivindicação impressio-
na Alemanha, na Rússia, no Canadá, nante a favor das reformas de base
no Japão e na Espanha. Depois de- indispensáveis no Brasil. — J. Oliveira.
termina com mais exactidão o con-
ceito de «ciência comparativa da edu- 1) CLAUDE, Robert. — 2 000 anos
cação», como convém investigar nieste depois. — O Evangelho comentado aos
campo, como se deve ensinar esta nova jovens. — Vol. de 180X122 mm. e
ciência de grande alcance para o pro- 186 págs. Livraria Apostolado da Im-
gresso educativo- das nações. Refere- prensa. Porto, 1966. — 2) BIEDER-
-se, por último, aos principais factores MANN, A. — Encontros. — Meditações
comparativos da 'pedagogia dos pbvos, para meninas. — Vol. de 170X120
como são a situação geográfica, a eco- mm. e 188 págs. Edições- Salesianas.
nomia, a cultura, a religião, as ciên- Porto.
cias, as estruturas politicas! e sociais, Dizia Bernanos não compreender
a influência estrangeira e certos fac- nada da civilização moderna quem não
tores, endógenos cuijo influxo no de- admitisse ser ela antes de mais uma
senvolvimento pedagógico não pode conspiração universal contra toda a
deixar de se ter em conta. espécie de vida interior. Se assim é,
Bom estudo, muito oportuno num razão têm os que sabem reagir contra
momento em que por toda a parte essa tendência, reservando, no decorrer
se fazem planos educativos à escala do seu dia, tempos de sossego e si-
nacional ou mesmo internacional. — lêncio para reflectir sobre a s verdades
L. de Castro. fundamentais de D e u s e do destino
BIBLIOGRAFIA
414

humano. Tal hábito pode e deve con- enamorados percorrer o s quatro cantos
trair-se desde novo. Para o facilitar de Espanha. Através dos seus olhos
temos estes dois livros recentemente extasiados vamos, contemplando as be-
traduzidos. O primeiro para jovens de lezas da paisagem, a riqueza do fol-
ambos os sexos, o segundo para me- clore, os maig célebres monumentos do
ninas. — A. A. país vizinho.
•Narrativa agradável que alia às
PUY DE CLINCHAMPS, Philippe du. pinceladas impressionistas .leves notas
— História breve da cavalaria. — Vol. eruditas, num conjunto harmonioso,
de 180X115 mm. e 140 págs. Ed. que se l ê com prazer. N ã o nos sur-
Verbo. Lisboa, 1965. preendeu, portanto, que o Ministério
Uma instituição que marcou entre o de Informação e Turismo de Madrid
século IX e o século XV a Europa tivesse .patrocinado esta obra, que fi-
militar, isto é, a classe dominante da cará bem nas mãos de todos — e
época, mereoe ser melhor conhecida. são tantos — que vão passear por
Assim o A. explica em capítulos su- terras de Espanha. — A. B.
cessivos, o Nascimento da Cavalaria,
A Cavalaria actuante, a Decadência 1) PAYS, Jean-François. — A última
da Cavalaria, A pseudo cavalaria con- carga. — 2) A R N A U D - VALENCE, Suzy.
temporânea. E na conclusão sugere — A longa vigília. — 3) ALMEIDA,
que o 'escutismo católico é o herdeiro Eduardo Sousa d' — W a p , o índio
do ideal cavaleiresco da Idade Média, branco. — 4) MARAIRE, Mane. —
que não pode existir sem a Fé. — / . Aldeia S . O . S . — 5) D I É L E T T E . —
Oliveira. Flores da Escócia. — 6 ) BRISSON,
Syivetite. — Manuela vai à guerra. —
CONDE JÚNIOR, B. Guerra. — O Vol®. de 193X123 mm. e respectiva-
grande amor da Princesa Santa Joana. mente, 21; 250 ; 208 ; 246; 211; 260
— Vol. de 165X115 mm. e 148 págs. págs. Portugália Editora. Lisboa.
Edições Salesianas. Porto. Últimas publicações das bem conhe-
Biografia romanceada da princesa cidas «Biblioteca dos Rapazes» ( o s
Santa Joana, irmã de D João II que, três primeiros títulos) e «Biblioteca
voluntàriamente e contíra a vontade das Raparigas» ( o s três últimos).
do pai e do irmão, deixou as galas Obras bem adaptadas aos maiores de
da corte e não poucos pretendentes 12 anos, pois exaltam a coragem, a
que a ambicionavam em casamento, amizade, a abnegação, sem lhes faltar
para. viver recolhida no Mosteiro de uma nota de ternura. — M. H. C.
Jesus de Aveiro, onde faleceu em
odor de santidade, pelo que veio 1 ) DEFRASNE, J e a n . — Histórias da
a ser beatificada. Mesmo que muitos História de Roma. — 2) DIVIN, M a r -
dos pormenores da narração não se guerite. — Contos e Lendas do Egipto
comprovem documentalmente, a linha Antigo. — Voils. de 180X118 mm. e,
geral está certa, e apresenta-se-nos. um respectivamente, 282 e 246 págs. Cot.
bom retrato da Santa Princesa. A lei- Lancelote. Livraria Moraás. Lisboa.
tura destas páginas, além de agradável, As obras desta série obedecem à
só fará bem particularmente à juven- preocupação, não s ó de entreter, como
tude a que sobretudo se destinam. — também de instruir a juventude, pro-
A. B. porcionando-lhe leitura aprazível e
cheia de interesse, num estilo simples
CONDE JÚNIOR, B . Guerra. — Mara- e vivo. TaJ é o caso destes dois vo-
vilhosas aventuras no Mundo Hispâ- lumes de narrativas romanceadas de
nico. — Vol. de 180X125 mm e 232 acontecimentos do Egipto e da Roma
págs. Figueira da Foz, 1966. antigos. Mesmo os adultos não os des-
U m jovem engenheiro inglês de- denharão. — M. H C.
sembarca no aeroporto de Lisboa, e
pelo Algarve penetra em Espanha, onde BUCFC, Pearl S. — Histórias maravi-
vai passar as férias. Logo em Sevilha lhosas do Oriente. — Val. de 210X145
encontra vima linda andaluza, com a mm. e 328 págs. Edição «Livros do
qual vem a casar. E lá vão os dois Brasil». Lisboa.
BIBLIOGRAFIA 415

Autênticos contos de encantar os que WYNNE, Barry. — A pele do tambor.


P. S. B. nos oferece. Arrastando-nos — Vol. de 120X190 mm. e 344 págs.
numa excursão de sonho, comunica-nos Clássica Editora. Lisboa, 1966.
toda a poiesia e toda a sabedoria do Conta-se neste livro, meio história,
oriente antigo. Elegantemente apresen- meio romance, a vida heróica de Mary
tada, esta edição tem a valorizá-la su- Ghita Lindei!, condessa de Milleville,
gestivas ilustrações de Jeany.ee Wong na realidade condessa de Money e. no
e capa de Infante do Carmo. — M. livro, simplesmente Marie-Claire, que
H. C. foi, aliás, o seu nome de Guerra.
Comparticipou na Primeira Grande
Guerra, onde conquistou a condecora-
COLLAS, T h é r è s e . — A rapariga do
ção russa de Santa Ana e a Cruz de
Saxo-Bar. — Vol. de 180X109 mm. e Guerra da França. Entrou depois na
207 págs. Liv. Sampedro Editora. Lis- Segunda Guerra Mundial, onde mere-
boa. ceu do Governo francês outra Cruz
O diário de T. C. é o testemunho de Guerra.
vivo e aotluail da evolução espiritual Por duas vezes caiu na® malhas da
duma rapariga francesa de 18 anos. Gestapo, sendo deportada para o terrí-
A sua passagem de militante comunis- vel campo de concentração de Ravens-
ta a militante jocista não foi conse- briick, onde a sua acção humanitária
quência de estudos ou debates de .pro- foi admirável. Mais tarde, quando cha-
blemas Teligiosos, mas resultou de um mada a depor .no julgamento dos
imperativo chamamento divino. Desco- criminosos de Guerra, responsáveis por
briu que só Deus pode saciar as suas esse campo, a sua voz, no meio dos
ânsias de «vida», de liberdade e de ódios e da repulsa, foi um nobre ape-
amizade. O diário é apresentado e ano- lo da justiça. Nesta hora de entre-
tado por (Michel Quoist. — M. H. C. guismo miserável e de greve dos bra-
ços caldos, faz bem conviver, na
SAINT - M A U R I C E , Odettle de. — Sou leitura deste livro, com a alma. ar-
ama rapariga do Liceu. — Vol. de dente desta mulher extraordinária. —
1 7 5 X 1 1 0 mm. e 3 1 6 págs. Cdl. Gôn- .4 Veloso.
dola Juvenil». Editorial Presença Lis-
boa. CONDE J Ú N I O R , B . G u e r r a . — A bur-
Odette de Saint-Maurice que .já se rinha do Menino Jesus. — Vol. de
distinguira .por duas notáveis séries de 205X150 mm. e 56 págs. Agência In-
volumes de literatura infantil e juvenil, .tternacional de Livraria e Publicações.
junte agora mais um volume a esta Lisboa.
última. Neile se nevelam as qualidades Graciosas histórias da burrinha que
já evidenciadas nas oibras anteriores : ilevou o Menino Jesus para o Egipto,
narrativa bem conduzida, sensibilidade que farão as delícias dos pequenos
muito feminina, e poder de análise leitores a que se destinam. Boa apre-
psicológica a par de um estilo sóbrio sentação gráfica. — A. B.
e fácil.
Uma rapariga do sexto ano do Liceu
conta na primeira pessoa, com verdade GDIeS©eá[?Q©s
e simplicidade, o que lhe vai passando
pela alma na época em que deixa de
ser criança. Desperta para a vida qua- Dicionário Geral Luso-Brasileiro da
se violentamente, perante graves pro- Língua Portuguesa. — Coordenação e
blemas de família ocasionados sobre- direcção técnica de Afonso Zúquetle.
tudo por um irmão mais velho que se — Vol. H de 250X150 mm. e 956
transvia, levado por uma rapariga a pág® Editorial Enciclopédia, Ld.\
quem os pais por caridade tinham Lisboa, 1963-1966.
recolhido em oasa, e sobretudo ao Este segundo volume do novo dicio-
sursírem os primeiros amores. nário geral lusojbrasileiro prossegue a
Boa leitura, particularmente para resenha dos vocábulos da letra A,
raparigas a ouem sobretudo se desti- começando por Aperta e terminando
nam estas página®, — A. B. na letra C, em Canguinho. Na® cita-
416 BIBLIOGRAFIA

ções de autores para justificar as comparações, sempre odiosas. Portanto,


acepções dos vocábulos, não se regista este Quem ê Quem internacional me-
a edição da obra donde se tira a rece apreço pela sua objectividade e
citação. O uso duma abreviatura con- exactidão de informações básicas sobre
vencional para o topónimo e a inser- figuras marcantes do mundo de hoje.
ção do ano da edição aproveitada  volta dos mais eminentes homens e
muito facilitariam a identificação. Dar- mulheres- das mais variadas esferas da
-se-á ao fim do dicionário o elenco actividade humana — ciência, diplo-
dos autores, e obras citadas com estas macia, negócios, religião, política, edu-
•indicações? O dicionário regista mui- cação, teatro, literatura e outras —
tos termos novos, não consignados condensaram-se os dados essenciais da
geralmente noutras obras similiares. sua vida e acção para os situar no
Dada a amplitude da empresa, pena é tempo e no espaço. A vida humana
que em contrapartida omitisse alguns universal é, assim, mais compreensível
já conhecidos. O tesoiro da linguagem no seu curso evolutivo, ao .perto e
merece ser guardado, ciosamente, de ao longe. — D. Aí.
modo integral. — G. S.
Der Neue Herder. — Neu in seóhs
Bãnden mit einem Grossatlas. Zweiter
International ( T h e ) Who's W h o : Band : Chrom bis Ginsberg.— Vol. de
1966 - 1967. — ( 3 0 th. Edition ). — 245X160 mm. e 720 págs. Herder. Frei-
Vol. de 225X195 mm. e X V I + 1 3 6 6 burg-Basel-Wien, 1966.
págs. Europa Publícations, Ltd. 18, Mais outro tiomo deste novo dicio-
Bedford Square, w. c. 1. Londres, 1966. nário enciclopédico editado pela Her-
iBstes repertórios de personagens de der Dificilmente se poderia reunir
relevo são da máxima utilidade nestes maior soma de .informações biográfi-
nossos tempos ecuménicos, em. que tão cas, cientificas, artísticas, históricas,
insistentemente é preciso identificar políticas, sociais e religiosas e m tão
individualidades, a que a imprensa e reduzido espaço. A clareza, o bom
os meios audio-visuais- de comunica- gosto e eficiência prática compegam-
ção se referem. É claro que em obras -se à disposição gráfica para tornar o
desta natureza, embora volumosas, mas N o v o Herder num instrumento de con-
sem excesso, cumpre obedecer a um sulta ideal para os dados mais ime-
critério selectivo. Ble adoece sempre diatos de trabalho e e m diai c o m o s
do subjectivismo ou preocupações progressos da ciência e da técnica.
dominantes do selector. Deste modo, Como é natural, a zona prevalente de
não se trata propriamente dum índice informação é a que respeita aos paí-
de va-lor, pois nem todos os que me- ses de cultura alemã. Ainda assim, a
reciam ser incluídos o foram, de cultura latina não é esquecida. Ver,
facto, nem todos os que, de facto, por exemplo o artigo sobre Eça de
figuram no elenco mereciam, talvez, Queirós embora a tradução alemã do
figurar. O caso poderia mesmo exem- título do romance «A Cidade e as
plificar-se com respeito a Portugal, o Serras» pudesse ser mais exacta.
que não fazemos pelo melindre das — G. S.
B ROT EB 1 A I

.Obras recebidas ' na Redacção'


OFERTA DOS AUTORES Biblioteca Geral da Universidade de
Coimbra :
C. Lobo de Oliveira. Meditação do J. Martins de Carvalho, A pontumen-
tempo. Braga, 1966. . tos aos «.Apontamentos /krra a histó-
G. de Santa-Rita, Sociologia rural. ria contemporânea» publicados por
Sep. do «Arquivo CoimbTão». Vols. M. Lopes de Almeida. Sep. do « A r r
>ÒCI-XXH. Coimbra 1965. . quivo Coimbrão», vol. 23. Coimbra
Rómulo de Carvalho, Os nomes, por- 1966.
tugueses na carta da lua. Sep. do Éditions- Buchet./Chastel — Paris :
n.° 27 da revista «Palestra». M. Sauvage. Uaventure philosophi-
Ilídio Fernandes, ' Deserto a florir. que. 1966.
Lamego, 1966. Desclée D e Brouwer — Bruges ( Bél-
Abbé H. HuveMn, Cours sur fhlmoi- gica) :
re de 1'Êglise. Vols. 6, 7. Présen- 1) K. Rahner. Êcrit® théologiqites.
tés et annotés .par M.-Th. et Fr. Vol. VI. 1966.'
•Louis-Lefebvre. Éditions- Saint-Paul 2) J. Maritain, Le paysan de la
Paris, 1966. Garortne. XJn vieux laic s'interrogue
à propos du temps présent'. 5." ed.
1966.
OFERTA' DOS EDITORES Prelo — Sociedade Gráfica - -Editorial
— Lisboa : . .
La Editorial Católica — Biblioteca de F. .Viana, Chão nosso. 1966.
Autores Cristianos — Madrid : Kósel Verlag — Miinchen (Alema-
San Ambrosio, Obras.. Vol I: Tra- nha ) :
tado sobre ei Evangelio de San . 1) H. R. Schletté, I. Hermann, Re-
Lucas. 1966. volution der Vernunft. Philosophie
Éditions Nagel — Paris : des Palitischen bei John F. Kenriedy.
T. Tzara, Le surréalisme et Vasprès- 1966.
-guerre. 1966. 2) H. R. Schlette, Epiphanie ais
Thomas Nelson and Sons Ltd. — Geschichte. 1966.
Londres : 3) H. Kraft. Kirchen valer lexikon.
K. Kaunda, Zambia. Independence 1966.
and Beyond. Ed. de C. Legum, 1966.
; Editorial Pórtico — Lisboa :
Europa Publications Ltd. — Londres:
' 1) F. Nepveu-Nivelle, Conquista
The International Who's Whò 1966-
dos mercados, ou «Marketing» à eu-
- -67.
ropeia.
Editorial Herder — Barcelona : 2) F. dé Cesco, As falésias de Aca-
America' LaAVía e desarrollo social. pulco.
2." ed. 2 .vòtls. Desail.— Centro- paira 3). L. Grisard, Quem semeia ven-
ali OesarrfflUo Economico y Social; de tos...
America Latina. Santiago de Chile. Edições Ática — Lisboa :
1966. 1) F. Pessoa, Páginas de estética e
Verlag J. Pfeiffer — Munchen " (Ale- de teoria e crítica literárias. Textos-
manha ) : estabelecidos e prefaciados por G.
F. Betz, Neue Kreise. Anregungen R Lind e I. do Prado Coelho.
und Arbeitsmateriai fur Famillen-
gruppen. 1966. 2) M." Amélia Neto, O silêncio de
Àmon.

N. B. — Ânunclam-se aqui todos os livros enviados à Redacção; sim que


Isso signifique aprovação da nossa parte. Para a critica, na secção Bibliografia,
requerem-se dois exemplares, a nfio ser que Be trate dal guina obra de maior
valor comercial. Separatas e folhetos de menor Importância serSo apenas re-
gistados cesta oeoc&o.
II BROTARIA

Éditions du Centurion —- Paris : 2) Use Losa, Nós e a criança. 2 *


Le courage des tenderruríns, 1966. ed. corrigida e aumentada.
Sheed & Ward — Londres : Ediciones Guadarrama. — Madrid:
G. 'Bgner, Birith regulation and J.-P Borel, El teatro de lo impo-
' caihoiic belief. 1966. slble. 1966.
Banco de Fomento Nacional — Lis- Editora Arcádia — Lisboa:
boa : 1) N. Kazamtzaki, A úiltimá tenta-
Sociedade Financeira Internacional. ção. 1966. •
1966. 2) História Universal Ilustrada.
Giulio Einaudi Editore — Torino (Itá- Fases. 50, 51; 52.
lia ) : Editora. Vozes — Petrópolis (Brasil):
J. Davydov, 11 lavoro e la liberta. 1) W. Trilling, O Evangelho ser
1966. gundo S. Mateus. Parte I. 1966.
Publisher® Biutterworth & Co. Ltd. 2) M. Zerwick, S. J., A Epístola
— Londres : ; aos Efésios. 1966. • ..
Ph. S. James. Introduction to Engtísh 3) Oh. Moeller, Mentalidade mo-
Law. 6." ed. 1966. derna e evangelização. Vol. II :
Oxford Urtiver-sity Press —: Londres : Maria, a Igreja. 1966.
C. G. SeLigman, Roces of ' Africa. Livraria Civilização — Porto:
• 4." Ed. 1966. 1) F. Lopes, Crónica de D. Fér-
Dover Publications, Inc. — New natido. Introd. de S Dias Arnaut.
York : 1966.
1) Donald H. Menzel, Selected Pa- 2) Shakespeare, Teatro : As Ale-
'.pers/ion- the 'transfer of radiation. gres comadtes de Windsor; O Mer-
1966. cador de Veneza. 1965.
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, tion theory,. langiiage and cyberni- •1966
tics. 4) St. Crane, A máquina rubra da
Editorial Minerva — Lisboa : coragem.. 1965.
1) J. Kerouac, Os vagabundos da 5) G. -W. Cable, Histórias criou-
vérdidde. las. 1965.
2) Antologia polilcial Minerva. 5." 6) • J. London, Nas florestas do
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Dialogue. 1966 Creta. 1966.
Editorial. Aster Lisboa.: 13) B Appel. Na. conquista do Mé-
E. Welty, Manual de Ética Social. xico. 1-965.
Vol. III : Propriedade e Trabalho: 14) E. Lamo.nte Meadoworoft, Was-
EdcçSes* Salesianas—Porto: hhngton: 1965. . -
S. Martins dos Reis. O milagre do •15) K. Heldy Zora a Ruiva e o
sol e o segredo de Fátima. Inconse- seu bando. O castelo' dos fantasmas.
quãnáas e especulações. 1956. 1966
Livraria Portugal — Lisboa: 16) ,K. Held, Zora .a Ruiva e o
M. de Campos Pereira, As pobres seu bando. O filho do violinista
Susanas. • 8.* Ed. 1966. 1966
Porto Editora — Porto: 17) £ . Spence, Uma casa com raí-
1) F. J. Cardoso Júnior, Em prol 18) J. Spyri; 0,s filhos de gritli.
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ção. «O Mundo» de 5 de Outubro Librairie Hatier — Paris:
de 1910. 1966. L'Odyssée. L'épopée d'Homère racon-
Biblioteca Nacional .de Lisboa — Lis- fée en images par E. Lessirig. 1966.
boa : Agência Geral do Ultramar — Lis-
Boletim de Bibliografia Portuguesa. boa:
Vol. 30. n.°" 8, 9, 10. 1964. Armoriai do Ultramar Português.
Éditions Labor et Fides Genève Estudado, organizado e revisto por
(Suiça): F. P. de Almeida Lainghans. 1966.
Ch. Brutseh, La clarté de l'Apo- Editorial «El . Siglo de .las Misiones
calypse. 5.° ed. "1966. — Bilbao (Espanha):
Editorial Verbo — Lisboa: T. Ryan, S. J., Sucesor.es de Javier.
1) As Grandes Polémicas Portu- Los jesuítas en China. 1966.
guesas Fase. 25. Éditions . du Seuil — Paris:
2) Enciclopédia Luso-Brasifeira de P.-H. Simon, Pour un garçon ide 20
Cultura. Fase. 60. ans. 1966.
Secretariado Nacional da Informação Publicações Dom. Quixote — Lisboa:
— Lisboa: 1) Ievtuchenko, Autobiografia pre-
Ávila de Azevedo, A geração de matura. 1966.
Mouzinho e o pensamento da Re- 2) G. Lund, A 'beleza da mulher.
volução Nacional. '1966. 1966
Éditions du Cerf — .Paris: 3) G. Knutsson, E agora, Pélé?
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tin Stõhr. 1966.' Ediçõeg Ouro — Porto:
Livraria Apostolado da Imprensa — A Virgem e Portugal. Fase. 31.
Porto: Penguin Books — MiddJesex (Ingla-
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admirador obscuro, durante as come- Ages. 1966.
morações do seu V centenário. 1966. ' 6) O. Handilin, The American Peo-
Librairie Beauoheane — Paris: ple. The history of a society. 1966.
J. de Fabrègues, J. Madaule, Chré- 7) Buddhist Scriptures selected and
tien de drovte... ou de gaúche? 1966. translated by Edward Conze. 1966.
Editorial Estampa — Lisboa; Parceria António Maria Pereira — Lis-
A Igreja do presente e do. futuro. boa : ' - •
História do Concilio Ecuménico Ruben A.. A torre da Barbela, 3."
Vaticano 11. Fase 17.
Ed. 1966. '

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quando escreverem às Casas nqui mencionadas
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Sede: Calçada do Sacrameoto, n . ° 1 4 - 1 . ° esq. — LISBOA
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DIRECÇÃO
Dr. Carlos Zeferino Pinto Coelho Dr. José Gabriel Pinto Coelho

Principais operações — Administração geral de proprie-


dades, cobrança de rendas, pagamento de impostos, licenças
e seguros, execução de obras, assistência nas repartições públicas
e fiscais, administração de propriedade horizontal, etc.
Esta Sociedade, já pela longa prática de todos os serviços
de administração, já pelo seu capital e por ser uma sociedade
sujeita à fiscalização, oferece as melhores garantias a todas
as pessoas que por qualquer motivo não possam dedicar-ee à
administração dos seus bens.

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B ROTÉ RI A

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quando - escrevereis às Casas aqui mencionadas
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quando, escreverem à s Casas-'aqui' ãnunciaãasK
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quando escreverem à s Casas aqui anunciadas
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IV. A Igreja do Renascimento e da Reforma:
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V. A Igreja dos Tempos Clássicos:
1.° O Grande Século das Almas (em preparação)
2.° A Era dos Grandes Abalos (em preparação)

VI. A Igreja das Revoluções:

1." Perante Novos Destinos (em preparação)


2° Um Combate por Deus (em preparação)
3.9 Esses Cristãos, Nossos Irmãos (em preparação)

VII. A Igreja dos Novos Apóstolos (em preparação)

Pede-se,, aos ^ leitores o,.favor demeneioiíarem a « Brotéria »


quando escreverem às Casas aqoJ mencionadas
História Eclesiástica F R A N Z E N , August: Kleine Kirchengeschichte. P E R I , Vitto-
rio: I Concili e le C h i e s e . VAUSSARD, Maurice: La
f i n d u p o u v o i r t e m p o r e l d e s P a p e s , C O C H E R I L , D o m M a u r : Ê t u d e s s u r le m o n a -
c h i s m e e n E s p a g n e et au P o r t u g a l . C O U T I N H O , B. X a v i e r : A I g r e j a e a I r m a n d a d e
dos Clérigos. M o n u m e n t o Nacional a Cristo-Rei. MAR1Z, P e d r o d e : H i s t ó r i a d a vida,
m i l a g r e s e c a n o n i z a ç ã o d o B e m a v e n t u r a d o S. H y a c i n t h o d a O r d e m d o s P r e g a d o r e s .

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h o r a s d e l i t e i r a . 3) A v e n t u r a s d e B a s í l i o F e r n a n d e s E n x e r t a d o . 4) M e -
m ó r i a s d o C á r c e r e . 5) A g u l h a e m p a l h e i r o . 6) A q u e d a d e u m A n j o . S A - C A R N E I R O .
M á r i o d e : Céu cm fogo. N A M O R A . F e r n a n d o : R e t a l h o s da vida de u m médico.
ROSA, F a u r e da: As imagens destruídas. R O L L A N D , R o m a i n : J e a n Cristophe.
F L A U B E R T , Gustave: M a d a m e Bovary. BALZAC, H o n o r é de: Le L y s de lã vallée.
C L A R K E . A r t h u r C.: N á u f r a g o s da L u a .
Pedagogia e Juventude S C H N E I D E R , Friedrich: La pedagogia comparada. CHAIA,
Josephina: Financiamento escolar no S e g u n d o Império.
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Correspondentes d a BROTÉRIA

Angola: Manuel Bento Ribeiro — Banco de Angola — Luanda.


H a n s H e l l m u t : A noite dos generais. MAUGHAM, S o m e r s e t : Um gosto e seis vinténs.

Brasil: P." Andreini Júlio — Colégio António Vieira — Salvador — Bahia.

Visado pe!a Comissão de Censura


A SUA ENCICLOPÉDIA
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