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Revista Crítica de Ciências Sociais

88 | 2010
Violência, memória e representação

Aguilar Fernández, Paloma, Políticas de la


memoria y memorias de la política. El caso español
en perspectiva comparada

José M. Atiles-Osoria

Editor
Centro de Estudos Sociais da Universidade
de Coimbra
Edición electrónica
URL: http://rccs.revues.org/1674 Edición impresa
ISSN: 2182-7435 Fecha de publicación: 1 mars 2010
Paginación: 235-237
ISSN: 0254-1106

Referencia electrónica
José M. Atiles-Osoria, « Aguilar Fernández, Paloma, Políticas de la memoria y memorias de la política. El
caso español en perspectiva comparada », Revista Crítica de Ciências Sociais [En línea], 88 | 2010, Puesto
en línea el 01 octubre 2012, consultado el 04 octubre 2016. URL : http://rccs.revues.org/1674

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Revista Crítica de Ciências Sociais, 88, Março 2010: 233‑246

Recensões

Santos, Cecília MacDowell; Teles, Édson; Teles, Janaína de Almeida (orgs.)


(2009), Desarquivando a ditadura: memória e justiça no Brasil, vol. 1
e 2. São Paulo: Editora Hucitec, 597 pp.

A memória das violações de direitos hu‑ ­ reocupação intelectual de analisar e dis‑


p
manos perpetradas pelo aparato repres‑ cutir criticamente o complexo processo de
sivo do regime militar no Brasil (1964­‑85) construção da memória da ditadura militar.
e a repercussão deste legado autoritário O livro está organizado em dois volumes
na esfera pública constituem um desafio e 27 capítulos dispostos em quatro partes.
para a contemporaneidade democrática Os volumes estão divididos segundo “um
brasileira. O processo de redemocratiza‑ critério de temporalidade referente às in‑
ção, constituído a partir da negociação terpretações do passado e do presente”,
entre as elites civis e militares, marginali‑ que inclui os períodos do “golpe de 1964
zou o debate público sobre os crimes da até fins dos anos 1970” e da “democrati‑
ditadura, relegando­‑o a um lugar periférico zação até à actualidade”, conforme os or‑
na agenda política da transição. Contudo, ganizadores afirmam na apresentação da
o passado recente de repressão estatal e obra. A organização temática das partes
violência política continua a reverberar no e a coerência no agrupamento dos capí‑
presente democrático e as memórias deste tulos facilitam o entendimento da relação
período são objeto de disputas políticas, entre os diversos trabalhos que compõem
sociais, ideológicas e jurídicas. o livro.
Desarquivando a ditadura está centrado
na discussão da memória deste período O volume I, que reúne as partes I (capí­
histórico recente e das diferentes medidas tulos 1 ao 7) e II (capítulos 8 ao 14), con‑
de justiça que fazem parte do processo de centra os estudos relativos ao período
enfrentamento da herança autoritária pelos autoritário. Na primeira parte, intitulada
regimes democráticos, tais como a respon‑ “Construindo memórias e histórias de
sabilização penal dos repressores, a difusão resistências”, encontramos trabalhos que
pública e oficial da verdade e as políticas de examinam biografias “esquecidas”, como
reparação e indemnização. O livro busca as de operários e militantes envolvidos na
identificar e problematizar, por meio de luta contra a ditadura; a resistência da es‑
uma abordagem crítica e multidisciplinar, querda brasileira; o uso institucionalizado
os diversos aspectos que permeiam a actual da tortura; e as memórias dos filhos de
reflexão acerca da memória política e da exilados e dos familiares de mortos e de‑
justiça no Brasil. saparecidos políticos. A segunda parte do
A obra reúne autores de diversas áreas do
conhecimento, cujos trabalhos inovado‑

  Autores do Volume I: Antonio Luigi Negro, An‑
thony W. Pereira, Douglas Attila Marcelino, Everaldo
res ampliam, aprofundam e enriquecem a de Oliveira Andrade, Flamarion Maués, Janaína de
perspectiva teórica e analítica sobre o tema Almeida Teles, João Roberto Martins Filho, Kathia
em foco. Historiadores, cientistas sociais, Martin­‑Chenut, Mário Sérgio de Moraes, Maurício
Maia, Murilo Leal Pereira Neto, Samantha Viz Qua‑
juristas, profissionais do direito, críticos drat, Silvio Luiz Gonçalves Pereira, Tatiana Moreira
literários e jornalistas compartilham a Campos Paiva.
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volume aborda a repressão, ideologia mili‑ ­ ossuem uma estreita relação com os li‑
p
tar e instituições de Estado e os artigos tra‑ mites impostos pelo tipo de transição e
zem à baila questões relacionadas com as o ainda relevante poder de influência no
práticas repressivas, tais como a influência sistema político dos sectores militares e
da doutrina francesa de guerre révolution‑ segmentos políticos conservadores, ou
naire no Exército brasileiro, os tribunais mesmo, pouco democráticos. Segundo
militares no Cone Sul, o sistema penal de Ruti Teitel, em Transitional Justice Gene‑
excepção, a natureza da censura praticada alogy, as distintas formas de confrontação
pelos órgãos estatais, a Operação Condor; legal dos abusos do regime anterior, as cha‑
assim como examinam o funcionamento de madas iniciativas de “justiça de transição”,
instituições como o Congresso Nacional e são influenciadas pelas condições políticas.
a administração da justiça criminal. Esse argumento é corroborado por Eliza‑
O volume II reúne as partes III (capítulos beth Jelin, em State Repression and Labors
15 a 21) e IV (capítulos 22 a 27); os estudos of Memory, ao afirmar que a apropriação
incluídos referem­‑se ao contexto do pro‑ do passado depende de um complexo ce‑
cesso de redemocratização e às discussões nário político e social e que raramente ela
contemporâneas. A terceira parte aborda pode ser entendida fora do contexto onde
o direito à verdade, à reparação e à puni‑ é objecto de disputa e conflito e do qual,
ção e analisa a problemática que envolve ao mesmo tempo, é produto.
a Lei de Amnistia de 1979; o acesso aos A presente obra, dado seu caráter multi‑
arquivos da ditadura, especialmente aos disciplinar, propicia um rico diálogo entre
documentos públicos relativos à repressão vários campos do conhecimento e enri‑
política; e o papel da justiça transnacional quece a actual produção académica sobre
na construção da memória dos crimes da a memória recente da ditadura no Brasil.
ditadura. E, por fim, os textos da Parte IV Os trabalhos desse livro, ao lançarem luz
– “Imaginando a democracia como uma sobre questões antes pouco estudadas e
memória livre” – apresentam uma reflexão introduzirem novas perspectivas analíticas
crítica sobre o tema da memória política e e teóricas, contribuem para o alargamento
da justiça nos regimes democráticos, su‑ do debate sobre o processo de interpreta‑
blinhando os aspectos políticos, sociais, ção e reelaboração do passado pelas socie‑
históricos e também subjectivos que condi‑ dades democráticas.
cionam a apropriação do passado pelas de‑ Os autores trabalham com a ideia de que
mocracias, com destaque para o processo o “acerto de contas” com o passado de re‑
de transição negociada ocorrida no Brasil pressão e violência é um aspecto essencial
e suas consequências para o tratamento do para o aprofundamento democrático dos
legado de violações de direitos humanos. regimes que emergem após experiências
Percebemos pelos trabalhos que, no caso autoritárias. Todavia, não ficam claras
brasileiro, os poucos avanços e os gran‑ as variáveis determinantes da relação de
des retrocessos no enfrentamento da he‑ causalidade directa ou indirecta entre a
rança autoritária pelos governos pós­‑1985 qualidade da democracia e a aplicação das
medidas de justiça de transição, ou seja, de

  Autores do Volume II: Ana Maria de Almeida
Camargo, Cecília MacDowell Santos, Denise Rol‑ que maneira as políticas de investigação,
lemberg, Edson Teles, Glenda Mezarobba, Heloisa punição e reparação reforçariam as várias
Amelia Greco, Jaime Ginzburg, Larissa Brizola Brito dinâmicas do regime democrático, seja o
Prado, Lucia Elena Arantes Ferreira Bastos, ­Ludmila
da Silva Catela, Márcio Seligmann­‑Silva, Marlon Wei‑ funcionamento das instituições políticas,
chert, Samuel Alves Soares, Zilda Márcia Gricoli Ioki. do poder judiciário, ou a configuração da
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cultura política e da sociedade civil. Assim, passado autoritário com um olhar crítico
os demais vínculos entre memória, justiça e atento sobre o presente e o futuro da
e democracia podem ser explorados por ­democracia no Brasil. Trata­‑se, portanto,
futuras investigações, tal como a obra si‑ de uma leitura fundamental em momento
naliza para o leitor. de intensa batalha contra o silêncio, o
Para concluir, Desarquivando a ditadura ­esquecimento e a impunidade.
apresenta um conjunto de trabalhos que
desafiam o leitor a reflectir sobre o recente Daniela Mateus de Vasconcelos

Aguilar Fernández, Paloma (2008), Políticas de la memoria y memorias


de la política. El caso español en perspectiva comparada. Madrid:
Alianza Editorial, 583 pp.

A partir de la década de 1990, el tema de aparece el texto de Paloma Aguilar Fer‑


la memoria histórica, la memoria colec‑ nández. Este libro representa uno de esos
tiva y social, así como las concepciones pocos estudios que podemos denominar
plurales y conflictivas de la misma, junto como textos vivos y con potenciales de
con el tema de la justicia transicional, se romper con las perspectivas instituciona‑
han convertido en uno de los ámbitos de lizadas de lo que debe ser la construcción
debate socio­‑jurídico­‑político y académico de las memorias. Las razones para afirmar
más importante. El incremento en la pro‑ lo anterior, obedecen a la trayectoria de
ducción académica tiene sus orígenes en la investigación que anteceden y propenden
incipiente “democratización” y/o paso de en este texto: éste representa una segunda
múltiples países de América Latina, África, edición (revisada, aumentada y adaptada
Asia y Europa del Sur y del Este de sistemas a las problemáticas y debates propios de
políticos ”totalitarios/autoritarios/dictato‑ la sociedad española del 2008) del libro
riales” a sistemas democrático­‑liberales. publicado en 1996 bajo el título Memo‑
Aunque en este trabajo no pretendemos ria y olvido de la Guerra Civil española
realizar un análisis pormenorizado de las (Madrid: Alianza Editorial), el que a su
razones que dieron paso a la implemen‑ vez fuera el producto de su tesis doctoral
tación de estas estrategias, y no de otras, presentada en 1995. Este elemento histó‑
en los procesos de democratización y/o rico y dinámico del texto no sólo lo hace
cambios de sistemas políticos, debemos vivo sino que, al mismo tiempo, lo hace
reconocer que la construcción y repre‑ una pieza clave para la comprensión de
sentación de la memoria colectiva y social una parte sustancial de los debates socio­
respecto a hechos políticos que marcaron ‑políticos sobre la Guerra Civil española,
una época, representa un proceso activo la dictadura franquista y la transición a
y dinámico que redunda en la confronta‑ la democracia en el Estado Español, así
ción entre distintas perspectivas, concep‑ como de las políticas implementadas en
ciones y formas plurales de memorias que cada momento histórico y sus efectos en
pueden ser, en mayor o menor grado, do‑ la percepción de la historia y/o memorias
minantes y hegemónicas, así como contra­ de las políticas de las generaciones subsi‑
‑hegemónicas, subalternas o residuales. guientes. Teniendo en cuenta la importan‑
Es en este contexto de producción y debate cia del texto en sus dos ediciones, ya que la
académico y socio­‑político­‑liberal donde primera surge como uno de los primeros
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estudios elaborados sobre las políticas de la recorrido por las principales corrientes
memoria en el Estado Español y la segunda académicas euro­‑norteamericanas y por
surge un año después de la aprobación de los debates socio­‑políticos­‑liberales que
la Ley 52/2007 del 26 de diciembre me‑ han suscitado la integración del concepto
jor conocida como la “Ley de la memoria de la memoria, tanto individual, histórica,
histórica” (ley “por la que se reconoce y institucional, colectiva y sociales, así como
amplían derechos y se establecen medidas las denominadas prácticas de la memo‑
en favor de quienes padecieron persecu‑ rias en las discusiones sobre los procesos
ciones o violencia durante la Guerra Civil ideales de justicia transicional. A su vez, la
y la Dictadura”), damos paso a una breve autora muestra cómo se ha construido la
descripción y análisis de los argumentos, tensión entre las posturas que proponen
las discusiones y críticas suscitadas ante la los usos de las memorias históricas, sociales
lectura del mismo. o colectivas y las posturas que argumentan
El texto tiene por objetivo describir cuáles los usos del olvido y el aprendizaje en los
fueron los efectos que tuvieron sobre la procesos de transición a la democracia y la
Transición los recuerdos, historias y políti‑ reconciliación, tanto en el Estado Español
cas de la memoria y memorias de la política como en otros contextos socio­‑políticos
que se implantaron respecto a la Guerra que han experimentado situaciones simi‑
Civil durante la Dictadura Franquista, así lares. De este modo, entendemos que el
como los recuerdos que se tenían de ésta capítulo en sí mismo constituye una rica
durante la Transición. La autora deja claro fuente bibliográfica sobre las corrientes
que su interés de investigación, más que las euro­‑norteamericanas más importantes so‑
memorias de la política (es decir, los efec‑ bre el tema. Aunque en algunos momentos
tos que tuvo la recepción de la producción el texto carece de críticas profundas a la
de una memoria oficial o institucional del visión orgánico­‑positivada de la memoria
pasado sobre las acciones del estado y las y a las concepciones estado­‑céntricas de
élites que lo representan en la sociedad), la construcción y reproducción de ésta,
es estudiar las políticas de la memoria, es así como no incorpora una discusión de
decir, los discursos, historias y políticas literaturas críticas que planteen la sociedad
implementadas por el Estado y las élites como eje de producción de memoria, sí
políticas, en tanto que agentes emisores que es cierto que en la propia presentación
de una memoria que pretendía ser hege‑ de definiciones, la autora logra romper con
mónica y/o dominante. Concretamente, algunas de estas limitaciones epistemológi‑
su interés hace referencia a la memoria cas que supone el diálogo con las corrien‑
producida de arriba hacia abajo y no al tes de pensamiento liberal.
contrario. Para estos propósitos, la autora El segundo capítulo, “Las políticas de la
divide las 583 páginas que componen su memoria bajo el franquismo: de la justifica‑
texto en cuatro capítulos, un epílogo y una ción de la guerra a la exaltación de la paz”,
extensa área de anexos. parte de una descripción de los discursos,
El primer capítulo, titulado “Acerca de la prácticas políticas y tipos de legitimidad
memoria, el aprendizaje y el olvido”, funge agenciada por el régimen franquista (legiti‑
como una extensa introducción al tema midad de origen y de ejercicio) para funda‑
de la memoria, donde la autora muestra el mentar su permanencia en el poder durante
marco teórico que sostiene el desarrollo de 40 años (1939­‑1976). Aquí, Aguilar Fernán‑
su investigación. En este apartado, Aguilar dez muestra un elemento que, a nuestro
Fernández realiza un breve, pero profundo entender, ha sido escasamente trabajado
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en la literatura relacionada con la justicia democrático­‑liberal, tal y como se muestra


transicional desde las perspectivas de arriba en el cuarto capítulo “Políticas de la me‑
hacia abajo. Este elemento se refiere a que moria y justicia transicional en España,
las transiciones, y con ello la justicia tran‑ Chile y Argentina”, careció de la imple‑
sicional, no sólo está dirigida, como han mentación de las estrategias de justicia
supuesto las literaturas antes mencionadas, transicional. Es decir, que salvo la gran
a la democratización y reconciliación de las cantidad de Amnistías aprobadas desde la
sociedades luego de periodos de violencia Coronación del Rey Juan Carlos I (1975)
política, sino que incluso en los procesos y las leyes de remuneración económica
de transición de un sistema democrático­ a los vencidos, no hubo procesos de de‑
‑republicano a un sistema dictatorial, exis‑ puración, ni comisiones de la verdad, ni
ten formas implícitas y explícitas de justicia ninguna de aquellas estrategias señaladas
transicional, lo que supone una ruptura con en la literatura oficial sobre justicia de
la visión positivada o idealizada de la justi‑ transición, tal y como sí ocurrió en Chile
cia transicional. Así, la autora da cuenta de y Argentina. De ahí que la autora dedique
las estrategias jurídico­‑políticas implemen‑ el epílogo del texto a argumentar algunas
tadas por el franquismo para instaurar su de las principales estrategias jurídicas, más
régimen durante el periodo de la posguerra: no políticas, que podrían ser aplicadas en
depuraciones, purgas y un sinnúmero de el caso del Estado Español 35 años luego
discriminaciones legales e ilegales contra el de haber dado inicio la Transición.
bando de los vencidos y la aprobación de El texto de Aguilar Fernández ejemplifica
leyes de amnistía y de restituciones econó‑ un trabajo exhaustivo y metódico sobre un
micas dirigidas únicamente al bando de los tema que continúa produciendo polaridad
vencedores. De esta forma, se instauró la social y profundos silencios, los que no se‑
memoria oficial de la Guerra Civil en tanto rán subsanados hasta que la memoria de
que “Cruzada y Guerra de liberación”, ne‑ la guerra civil, del franquismo y de la pro‑
gando que ésta haya sido una guerra civil, pia Transición no sean tratados de forma
ya que se consideraba al vencido un agente abierta, crítica y plural y, especialmente,
externo a la Patria española. Así, se estable‑ desde una perspectiva democrática que
ció una memoria dominante (más no hege‑ surja desde abajo para que, de esta forma,
mónica) que tuvo sus efectos considerables sean los vencidos, los sujetos silenciados y
en el momento de la Transición y que, en la población en general los protagonistas
cierta manera, perduran hasta el día de hoy. de una transición real. Es en este contexto
En el tercer capítulo, titulado “Memo‑ que la aportación de la autora, respecto a
rias de Guerra y lecciones de paz en la la construcción de una verdad falseada y
transición democrática”, la autora analiza parcial, encuentra sus posibilidades de am‑
cómo toda la Transición se vio afectada pliación en investigaciones futuras: es de‑
por la memoria creada por la dictadura cir, por una parte, deberíamos considerar
franquista sobre la Guerra Civil, sobre cuáles fueron las memorias de las políticas
la supuesta incapacidad de los españoles construidas desde las posturas subalternas,
para vivir en democracia y, sobre todo, oprimidas y residuales y, por otra parte,
los efectos que tuvo la difusión del miedo cómo será construida una memoria plural
a la participación política. Estos elementos e integradora que surja desde la sociedad
condujeron a que la Transición en el Es‑ y no de las élites.
tado Español, al contrario de otras transi‑
ciones llevadas a cabo bajo el ­paradigma José M. Atiles­‑Osoria
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McEvoy, Kieran; McGregor, Lorna (orgs.) (2008), Transitional Justice


from below. Grassroots Activism and the Struggle for Change. Oxford
& Portland, Oregon: Hart Publishing, 240 pp.

El texto editado por Kieran McEvoy y e­ stadocéntrica, eurocéntrica y técnica de la


Lorna McGregor representa un esfuerzo justicia transicional desarrollada a lo largo
por repensar, redefinir e introducir un de los últimos 20 años en la academia euro­
debate en el seno de la literatura y de ‑norteamericana y por parte de las organi‑
las corrientes de estudio sobre la justicia zaciones internacionales. Esta perspectiva
transicional. Generalmente, la justicia surge a partir de las experiencias de los
transicional ha sido pensada como un con‑ autores en distintos procesos de transición
glomerado de estrategias jurídico­‑políticas y como producto de las reflexiones verti‑
y socio­‑económicas implementadas para das en un sinnúmero de literaturas, tales
lidiar con las violaciones de los derechos como los estudios subalternos, que critican
humanos, con la violencia política del pa‑ la centralidad del derecho en las prácticas
sado y los procesos de reconstrucción del políticas, la falta de participación demo‑
Estado posteriores a un conflicto, desde crática en los procesos políticos y la falta
una perspectiva de arriba hacia abajo (top de inclusión de sectores no especializados,
down approaches). Es así que la justicia de las comunidades y de sus intereses en
transicional se ha convertido en un campo los procesos políticos. La lógica interna
de trabajo focalizado principalmente en el del texto puede ser dividida en dos partes
Estado y en las élites que, en nombre del fundamentales: la primera parte atiende a
mismo, efectúan las transiciones de siste‑ las propuestas y debates teóricos, mientras
mas dictatoriales/totalitarios/autoritarios a que, la segunda parte, atiende a una serie
sistemas democrático­‑liberales­‑capitalistas, de estudios de caso. Aunque esta división
dejando de lado a los movimientos socio­ es un tanto evidente, uno de los aspectos
‑políticos, a las comunidades y a las di‑ positivos del texto es esa confluencia cons‑
versidades inherentes a los procesos de tante entre la teoría y las referencias a los
trasformación social. Es precisamente este estudios de caso. Dicho esto, damos paso
espacio, poco teorizado y en cierta forma a una descripción de los principales aporte
olvidado por los principales teóricos, el de cada área.
que viene a cubrir el presente texto, es En el primer artículo titulado “Transitional
decir, el conglomerado de artículos que Justice From Below: An Agenda for Re‑
aquí encontramos ejemplifican que son search, Policy and Practices”, los editores
posibles otras transiciones, otras formas exponen los aportes que sustentan la pers‑
de pensar los procesos de cambio social pectiva del texto, muestran las influencias
desde otros lugares. teóricas, los problemas encontrados en
Este texto contiene diez artículos que abor‑ la literatura institucional, además de dar
dan procesos de transición, propuestas cuenta de las motivaciones que dieron paso
para su realización y reflexiones a posteriori a esta edición. Ya en el artículo “Letting
de algunas transiciones desde una perspec‑ Go of Legalism: Developing a 'Thicker'
tiva inclusiva, plural y/o lo que se ha deno‑ Version of Transitional Justice”, Kieran
minado con el termino de abajo hacia arriba McEvoy plantea uno de los principales
(from below approaches). El acercamiento aportes del libro: la crítica a la centralidad
desde abajo representa una postura crí‑ del derecho en los procesos de transición,
tica a la concepción lineal, ­institucional o así como el rol dominante que juegan las
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élites y los expertos que dicen represen‑ así como otras propuestas que redundan
tar al Estado en las transiciones. McEvoy en el ámbito del pluralismo jurídico. Esta
critica la versión dominante de la justicia postura implica la ruptura con la visión
transicional, entendida bajo los preceptos legalista o juridificada y con la visión li‑
del derecho penal internacional y local, la neal de las transiciones a la democracia
criminología y la imposición del discurso en las agendas postconflictivas. Es decir,
juridificado sobre los derechos humanos, hacer del proceso constituyente un pro‑
concebidos desde una perspectiva alta‑ ceso realmente participativo, inclusivo y
mente liberal y poco emancipadora. Otra democrático que surja desde abajo. Estos
de las contribuciones fundamentales del argumentos, en cierta forma, se repiten
texto aparece en el artículo “International en el artículo “The Role of Comunity in
Law as a 'Tiered Process': Transitional Participatory Transitional Justice”, donde
Justice at the Local, National and Inter‑ Patricia Lundy y Mark McGregor cuestio‑
national Level”, donde Lorna McGre‑ nan los presupuestos establecidos por la
gor desarrolla una crítica a la hegemonía comunidad internacional y la ONU en lo
eurocéntrica del derecho internacional y que respecta a los procesos de transición.
a su imposición en las transiciones a la Para los autores, los actores internaciona‑
democracia. Para la autora, los derechos les han focalizado la transición en varios
humanos y toda la producción jurídica elementos fundamentales: la justicia y/o
liberal relativa al derecho internacional la implementación de reformas legales y
suponen un proyecto cultural eurocén‑ jurídicas que conduzcan a la imposición
trico que, en la mayoría de las ocasiones, de un estado de derecho fuerte que se rija
no representa, ni satisface las necesidades bajo los principios euro­‑norteamericanos
de las comunidades y los Estados en vías de derecho, la reconstrucción económica,
de transición. Las propuestas concretas la integración del Estado en organismos
de la autora son: cambiar las percepciones financieros internacionales y la inclusión
estado­‑céntricas de la transición; valorar e en la economía de mercado, dejando de
incluir los intereses y propuestas surgidas lado los intereses y propuestas de las co‑
al nivel local; democratizar los procesos munidades locales y de las “víctimas” de
de transición incluyendo la participación las distintas actuaciones ilegales o extra‑
popular, incluso aquellos más técnicos; así judiciales llevadas acabo por el régimen
como reconceptualizar múltiples estrate‑ anterior.
gias de justicia transicional que no satisfa‑ De esta primera parte que, en cierta me‑
cen las necesidades de las comunidades y dida, aparenta ser la más teórica, el texto
de las víctimas de la violencia y la represión da un salto y pasa a considerar ciertos
del pasado. estudios de caso que denotan, en mayor
La perspectiva de focalizar los procesos o en menor medida, la inclusión de las
en las comunidades continua vigente en comunidades en los procesos de transi‑
el artículo “Constitution­‑making, Tran‑ ción. Un ejemplo de ello es el artículo
sition and the Reconstitution of Society”, “The Lost Agenda: Economic Crimes and
elaborado por Kirsten McConnachie y Truth Commissions in Latin America and
John Morison. En éste se plantea un ar‑ Beyond”, donde James Cavallaro y Sebas‑
gumento radical en lo relativo a los pro‑ tián Albuja evalúan los efectos que han
cesos constituyentes, esto es, la inclusión tenido la gran cantidad de comisiones de
de las comunidades, de los intereses so‑ la verdad impuestas en América Latina si‑
ciales, de las prácticas normativas locales, guiendo los esquemas internacionales, que
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en ocasiones, no responden a las realida‑ Catalina Díaz muestra cómo algunas co‑
des del conflicto y a las realidades cultura‑ munidades han iniciado procesos locales
les de las sociedades. Es decir, que a pesar para romper con la impunidad de la que
de los efectos positivos que tienen las co‑ gozan los paramilitares en Colombia. Así,
misiones de la verdad en desvelar muchas critica la implementación de la idea de
de las violaciones y acciones del pasado, que Colombia se encuentra en un pro‑
éstas en algunos casos no logran ser real‑ ceso de transición, argumentando que la
mente efectivas en la medida que no sur‑ denominada “Ley de Justicia y Paz” ha
gen como procesos endógenos o propios representado una estrategia para mani‑
de las sociedades. No obstante, y como pular y provocar la desmovilización de
contrapartida, los autores muestran cómo ciertos actores socio­‑políticos. Para Díaz,
algunas comisiones de la verdad estable‑ Colombia es un ejemplo de cómo la justi‑
cidas por las comunidades se dedicaron a cia transicional, en el momento actual, no
desvelar las acciones que redundaron en la puede ser equiparada a los procesos de
violaciones de los derechos económicos de transición de un sistema represivo a uno
las comunidades y de sus componentes, la democrático, sino que se ha convertido en
corrupción y otros elementos que no sue‑ una herramienta de acción y contención
len ser considerados por las comisiones jurídico­‑política. Finalmente, en el artí‑
y tribunales establecidos por el Estado y culo “Burden or Benefit? Paradoxes of
por las organizaciones internacionales. El ­Penal Transition in Russia”, Laura Piacen‑
enfoque sobre las comunidades y las comi‑ tini elabora un detallado análisis del valor
siones de la verdad continua presente en el simbólico de la transición (en su forma
artículo “Social Repair at the Local Level: liberal) en las prisiones rusas, mostrando
The Case of Guatemala”, en el que Laura una importante corrección a la literatura
Arriaza y Naomi Roht­‑Arriaza trabajan el antes presentada, esto es, que la perspec‑
tema de la reparación de los crimines co‑ tiva de abajo hacia arriba no debe ser ne‑
metidos por el Estado y por otras organi‑ cesariamente pensada fuera del Estado,
zaciones paramilitares durante el conflicto sino que también puede ser pensada en su
en Guatemala. Del mismo modo, en el interior, tal y como ocurrió en el sistema
artículo “The Political Economy of Tran‑ carcelario ruso donde los guardias pena‑
sitional Justice in Timor­‑Leste”, Elizabeth les iniciaron una ruptura con las prácticas
Stanley observa la tensión experimentada totalitarias del régimen anterior.
en el proceso de transición en Timor del Este texto nos brinda una visión novedosa
Este, tensión generada entre el hecho de sobre la justicia transicional, sobre sus
atender a las violaciones de los derechos perspectivas dominantes y, sobre todo,
económicos, políticos y sociales y el hecho nos brinda una invitación para repensar las
de contar la verdad y/o hacer justicia. Es concepciones institucionalizadas existentes
interesante notar que, ante esta tensión y sobre el tema. Éste representa una invita‑
ante el número de tribunales instaurados ción para reflexionar e iniciar procesos de
para atender el caso, así como el desarrollo democratización y participación que pro‑
epistemológico que tenía la justicia transi‑ pendan en la configuración de sociedades
cional en ese momento, las comunidades más justas. De ahí que, algunas de nuestras
continuaron siendo rezagadas del proceso. propuestas para futuras investigaciones
En el artículo “Challenging Impunity irían en la línea de ampliar el marco de es‑
from Below: The Contested Ownership tudio y la inclusión de otros casos donde
of ­ Transitional Justice in ­ Colombia”, las transiciones han redundado en un
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s­ olapamiento de los intereses de las comu‑ producción e instauración de la memoria


nidades. Del mismo modo, proponemos colectiva, histórica y social sobre las tran‑
una reflexión profunda y la inclusión de siciones aquí presentadas.
temas que, en cierta medida, no han sido
considerados, tales como los procesos de José M. Atiles-Osoria

Nobles, Melissa (2008), The Politics of Official Apologies. New York:


­Cambridge University Press, 200 p.

“Desculpe parece ser a palavra mais difí‑ a­ rrependimento pelos seus crimes é sinal
cil”, como nos lembrou Elton John. Como de uma hipocrisia “liberal” ecuménica? Ou
bem de mais sabemos, isto é verdade para será que os pedidos de desculpas são meios
as relações interpessoais. E no que se refere essenciais de um auto­‑aperfeiçoamento de‑
às tentativas colectivas de pedir desculpas? mocrático, permitindo corrigir práticas de
Por motivos óbvios, os grupos enfrentam discriminação e de opressão?
problemas ainda maiores quando pro­ The Politics of Official Apologies, de Me‑
curam expressar arrependimento pelas lissa Nobles, merece elogios por tornar
suas acções: quem é que está em posição claro que a resposta à última pergunta não
de pedir desculpas em nome do colectivo? pode senão ser afirmativa. Trata­‑se de uma
Pode alguém pedir desculpas por alguma obra de uma clareza exemplar que propõe
coisa que não fez pessoalmente? Para que uma tese com incisividade e estilo. A tese
servem as desculpas quando o que está é bastante simples: as desculpas pedidas
em causa é uma injustiça em larga escala, por estados ou, mais precisamente, por
como, por exemplo, a escravatura? governos (e não por chefes de Estado)
Para alguns, perguntas como estas põem ­visam, em primeira linha, reformular os
em causa a própria noção de desculpas “termos da pertença a uma nação” (36).
colectivas. Não obstante, recentemente, Isto significa que as desculpas procuram
as coisas parece terem mudado de forma rectificar injustiças resultantes da discrimi‑
­s ignificativa, ao ponto de haver agora nação e opressão de minorias no seio do
quem chame à nossa época “a era das Estado. Há uma forma específica de injus‑
desculpas”. Muitos agentes colectivos, da tiça que conduziu a uma discriminação e
Igreja Católica dos Estados Unidos a um opressão em larga escala, a injustiça histó‑
conjunto de empresas privadas, vieram nos rica. A injustiça histórica é especialmente
últimos anos a público exprimir arrepen‑ – mas não apenas – visível relativamente a
dimento por actos passados. Ainda mais grupos indígenas. Estes grupos têm sido
digno de nota é o facto de estarmos agora a permanentemente maltratados no mais
assistir a uma vaga de pedidos de desculpas elementar dos sentidos: nas palavras de
apresentados por estados, tanto aos seus Duncan Ivison, espoliar os aborígenes das
próprios cidadãos como a outros estados. suas terras não é apenas problemático por
Já não é possível negar que pedir desculpas se tratar de um roubo de propriedade, mas
se tornou numa espécie de tendência tanto sim, num sentido determinante, por ser
no plano interno como no plano interna‑ uma “violação dos termos de associação
cional. Do que se trata, evidentemente, é justos”.
de como interpretar esta tendência: será A injustiça histórica é, assim, radicalmente
que exigir aos estados que exprimam incompatível com as normas igualitárias
242 | Recensões

da democracia. É esta, de acordo com ­exemplo, o pedido de desculpas do Ca‑


Nobles, a razão principal pela qual as des‑ nadá, em 1998, pelos maus tratos infligidos
culpas surgem no contexto da renegocia‑ às crianças aborígenes no programa escolar
ção de formas de cidadania. Quanto a este residencial era inteiramente coerente com
ponto, a autora distingue, com um sentido uma política geral de autogoverno por
apurado, entre três estratos de cidadania parte dos índios. Por conseguinte, Nobles
que estão interligados: jurídico, político mostra que a relação entre as reparações
e afectivo. Contra uma perspectiva mais e os pedidos de desculpas não tem neces‑
formalista relativamente à participação cí‑ sariamente de ser vista como dicotómica.
vica, Nobles insiste em que o estatuto de Pelo contrário, ela argumenta que a com‑
cidadão necessita de ganhar vida através pensação material por uma injustiça his‑
de um sentido de pertença; além disso, é tórica está necessariamente virada para o
necessário reconhecer certos direitos de passado, ao passo que os pedidos de des‑
autogoverno, se se quer reparar a injus‑ culpas dão sempre azo a conversas futuras.
tiça histórica de uma maneira séria. Os Uma vez que o Estado tenha reconhecido
grupos indígenas são frequentemente víti‑ crimes passados, há consequências ine‑
mas de discriminação e opressão em todos vitáveis a tirar. Esta é uma chamada de
os aspectos, e as desculpas têm de ter em atenção fundamental para todos aqueles
mente estes três estratos de cidadania para que não vêem nos pedidos de desculpas
serem eficazes. senão “conversa fiada”.
Nobles defende a sua tese comparando Um caso analisado por Nobles transformou­
quatro casos – Austrália, Nova Zelândia, ‑se por via de acontecimentos recentes: a
Canadá e EUA – em que a questão de pe‑ Austrália é apresentada na obra como um
dir ou não desculpas foi levantada e rece‑ estado que tem vindo a recusar­‑se teimo‑
beu respostas diferentes. A metodologia samente a pedir desculpas pelas injustiças
desta comparação é sensível à especifici‑ históricas de que foram vítimas os abo‑
dade de cada caso: Nobles prepara o ter‑ rígenes; no entanto, o actual primeiro­
reno recontando as histórias nacionais de ‑ministro, Kevin Rudd, decidiu, no início
pertença, com relação ao modo como são de 2009, apresentar desculpas pela discri‑
construídos os cidadãos no plano jurídico, minação e opressão de minorias indígenas
político e afectivo. Esta contextualização no passado. Esta mudança de atitude, con‑
é extremamente útil para explicar os de‑ tudo, de modo nenhum destrói a tese de
bates posteriores a respeito dos pedidos Nobles, porque Rudd usou no seu discurso
de desculpas. No tocante aos agentes por precisamente a linguagem da pertença na‑
detrás desses pedidos, a autora observa cional e da reconciliação que constitui o
que o apoio das elites políticas é absolu‑ argumento central da obra. A autora de‑
tamente necessário para as expressões de fende a sua tese de modo tão veemente que
arrependimento, mas que, normalmente, quem quer que tenha perguntas a fazer a
especialistas universitários, em especial respeito das tragédias associadas à injustiça
historiadores, também desempenham um histórica irá colher da leitura perspectivas
papel importante na conformação da dis‑ novas e instrutivas. Uma lista dos pedidos
cussão pública. As elites políticas usam os de desculpas apresentados nos séculos xx
pedidos de desculpas para propor visões e xxi torna ainda mais relevante o contri‑
da história nacional e para promover po‑ buto de Nobles.
líticas específicas. Os efeitos dos pedidos Naturalmente que a focalização exclusiva
de desculpas podem diferir muito: por de quatro países que são antigas colónias
Recensões | 243

britânicas não constitui uma amostra re‑ não tem que ser visto como uma limitação
presentativa de um ponto de vista global. grave; talvez devêssemos tomá­‑lo como um
É evidente que os pedidos de desculpas incentivo para expandir o quadro compa‑
por injustiças históricas são extremamente rativo, de modo a comprovar se a tese de
controversos numa série de contextos Nobles sobre a pertença nacional passa o
­pós­‑coloniais, da América do Sul à África. teste da realidade numa perspectiva glo‑
O governo peruano, por exemplo, pediu bal. Seja como for, temos de estar gratos à
desculpas em finais de 2009 aos seus ci‑ autora de The Politics of Official Apologies
dadãos com ascendência africana, com a por nos ter oferecido um estudo tão infor‑
intenção de promover “uma verdadeira mado e interessante sobre os estados que
integração de toda a população multicultu‑ apresentam desculpas.
ral do Perú”. Mas o facto de o âmbito geo­
gráfico e cultural desta obra ser reduzido Mathias Thaler

Sousa, António Francisco (2009), Direito de reunião e de manifestação.


Lisboa: Quid Juris, 206 pp.

Tendo já contribuído com outras análises português, o autor vai construindo pontes,
sobre o direito de manifestação e os movi‑ enumerando contradições e avaliando os
mentos de contestação ou protesto, assim efeitos recíprocos que se estabelecem entre
como sobre outras questões relacionadas, a Constituição da República Portuguesa
António Francisco Sousa consegue elevar (CRP) e a Lei Ordinária, mas também
este livro ao estatuto de verdadeiro ma‑ entre (e com) os dispositivos do direito
nual, tanto na perspectiva da compreensão internacional. Tudo isto cerzido com um
como do exercício do direito de reunião grande suporte teórico, sobretudo no uni‑
e de manifestação. De forma simples e verso jurídico. Por outro lado, embarca tão
eloquente, o autor permite a transposição retrospectivamente quanto possível numa
– para muitos leitores – dos inacessíveis viagem pela história comparativa do direito
muros da análise jurídica, colocando em de reunião e de manifestação, confron‑
diálogo esta disciplina com outras áreas tando a realidade portuguesa com outras
das ciências sociais. realidades, sobretudo europeias.
A análise empreendida conduz­‑nos numa O livro estrutura­‑se em seis partes, in‑
leitura em forma de puzzle, que vai acres‑ cluindo um importante acervo de legis‑
centando em cada parágrafo mais uma lação em anexo à obra, para além de um
peça, num esforço de interrelacionar, inter‑ índice remissivo de assuntos.
pretar e colocar em diálogo o saber jurídico O ponto I dá conta da liberdade de reu‑
com a interpretação perita. Simultanea‑ nião e de manifestação em face da CRP
mente, ao ancorar a escrita na antecipação e ao ­ Estado de Direito, analisando não
das múltiplas dúvidas que deste ponto de só a ­realidade portuguesa como a de ou‑
vista possam surgir para os mais leigos, tros países (Inglaterra, França, Espanha,
consegue contrariar a visão espartilhada Alemanha, Itália, entre outros). Neste
e dispersa que encontramos nos vários di‑ sentido, deixa­‑se claro que a evolução
plomas legais que regulam estas questões. do(s) direito(s)/liberdade(s) se fez acom‑
Assumindo como ponto de partida os panhar da trajectória socioeconómica de
dispositivos jurídicos em vigor no direito cada país até o(s) mesmo(s) se tornar(em)
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indissociável(eis) do quotidiano político da aos fins (podendo preconizar­‑se quaisquer


generalidade das sociedades democráticas fins de carácter público, mas também pri‑
ocidentais. vado) e ao objecto (sendo possível consi‑
Na versão da última revisão constitu‑ derar reuniões e manifestações de carácter
cional, a todo o cidadão português é político ou de natureza particular, desde
consagrado o direito de reunião e de ma‑ que circunscritas a propósitos lícitos). Me‑
nifestação, como estabelece o capítulo dos nos consensual, e por isso mais discutível, é
“direitos, liberdades e garantias pessoais” o número mínimo de pessoas exigido para
da Constituição da República Portuguesa, que se possa estar juridicamente perante
de 2 de Abril de 1976 (direito que está o exercício deste(s) direito(s). Na CRP o
igualmente consagrado na Convenção conceito apenas exclui o cidadão isolado,
Europeia dos Direitos do Homem, em enquanto a lei ordinária estabelece o mí‑
vigor desde 1953). nimo de 3 promotores.
Uma questão central do direito de reunião Partindo dos pressupostos anteriores, o
e de manifestação é a pertinência e a ina‑ autor define de forma bastante completa
lienabilidade do seu exercício em respeito o que é o direito de reunião e de manifes‑
pela fórmula “de forma pacífica e sem tação: “faculdade que duas ou mais pessoas
armas” (art. 45.º da CRP), surgindo aqui têm de se encontrar, de forma temporária,
um primeiro questionamento que a leitura pacífica e sem armas, num determinado
não esclarece totalmente. Ou seja, como local, público ou aberto ao público, geral‑
se pode exigir pacificidade a uma acção mente mediante uma convocatória prévia
que é enquadrada enquanto direito de e com o mínimo de organização, para ou‑
manifestação? Isto é, por uma acção cujo vir, debater e/ou manifestar ideias e opi‑
motivo pode estar longe de ser “pacífico”? niões ou para prosseguir outros interesses
Talvez o problema resida na ambiguidade ­comuns lícitos” (17).
da palavra “pacífico” (questionamento que O autor discute ainda – sobretudo do
se ­coloca também para o termo “sem ar‑ ponto de vista do direito – se reunião e
mas”). Neste sentido, o autor assinala que manifestação são partes de um mesmo
a CRP não define, mas exige, pacificidade, direito ou antes direitos distintos. Perfi‑
podendo concluir­‑se que nem toda a reu‑ lhando a corrente jurídica que advoga a
nião e manifestação sem armas pode ser clara distinção entre o exercício destas
pacífica e interpretando­‑se que o seu con‑ duas liberdades, passa a definir direito de
trário é quase inevitavelmente a “violência” reunião como acção colectiva, de âmbito
ou o “tumulto”, encerrando­‑se assim a exi‑ privado ou público, que serve propósitos
gida pacificidade, sem maiores explicações variados (desde recreativos e profissionais
ou definições, no respeito pela integridade a políticos, etc.), e o direito de manifesta‑
física (no âmbito dos crimes contra a vida ção como capacidade de acção individual,
e a liberdade de outros e contra bens jurí‑ de carácter exclusivamente público, que
dicos de terceiros). serve normalmente propósitos ou moti‑
Igualmente central na obra em análise vações políticas. Mas talvez o traço mais
é a discussão sobre a amplitude do(s) distintivo entre reunião e manifestação
conceito(s) de “reunião e manifestação”, incida no entendimento do direito de ma‑
tanto no que se refere ao fim e ao objecto, nifestação como “simples estorvo demons‑
como ao número de participantes que trativo”, o que supõe a “expressão de uma
implica(m). Pela análise empreendida fica mensagem dirigida contra ou em direcção
clara a ampla adopção do conceito quanto a terceiros” (38).
Recensões | 245

Ainda nesta primeira parte, António Fran‑ público? Tal indagação suscita, aliás, ou‑
cisco Sousa assume o direito de reunião tras questões inevitáveis como, por exem‑
e de manifestação enquanto indicadores plo, a de saber o que pode ser considerado
preciosos do tipo de democracia vivida espaço público.
por uma determinada sociedade, isto é, Para o autor “a organização política que
como “elementos vitais da democracia e não reconheça o direito de reunião e de
sedes da soberania popular” (34). Ao con‑ manifestação revela a sua incapacidade
siderar que “as reuniões e manifestações para responder aos desafios das demo‑
são uma verdadeira válvula de segurança cracias modernas” (33). Deve, contudo,
da sociedade democrática, porque através sublinhar­‑se que essa incapacidade é bem
das reuniões e manifestações, as minorias, mais complexa, não residindo só no não
normalmente afastadas dos centros de reconhecimento destes direitos essenciais,
decisão, podem erguer a sua voz e dar a mas também – à luz das verdadeiras demo‑
conhecer as suas exigências” (33), o au‑ cracias modernas – na promoção de outras
tor vem reforçar a noção de que o cenário formas de participação.
privilegiado para o exercício destes direi‑ Nesse mesmo sentido, refere­‑se que o di‑
tos é aquele que se pinta com as cores da reito de manifestação e de reunião são uma
democracia representativa, ignorando por “janela por onde se fazem ouvir as mino‑
conseguinte as possibilidades de enquadrar rias” (34), numa visão talvez demasiado
estes direitos em articulação com uma pa‑ redutora desses direitos. Considerando­‑os
lete de mecanismos mais coloridos, capazes como indicadores indissociáveis do tipo
de estimular uma democracia de mais alta de democracia praticada numa sociedade,
intensidade, de base participativa. esperar­‑se­‑ia que o autor os fizesse entrar
Apesar disso, o autor envereda por uma pela porta principal da democracia.
linha argumentativa que considera estes O ponto II dedica especial atenção à ques‑
direitos como dos “mais fundamentais” tão jurídico­‑procedimental, identificando
direitos políticos, inscritos no campo do as partes envolvidas nestes processos, a
direito básico de participação política necessidade de aviso prévio e a constitu‑
democrática, contrariamente às áreas de cionalidade deste dever, consolidando a
análise das ciências sociais que se dedicam ideia de que o livro pode servir de manual
às questões da participação cidadã na vida de funcionamento sobre o direito de reu‑
política e que, muitas vezes, resistem a con‑ nião e manifestação, já que discute, por
ceder protagonismo à contestação e aos exemplo, a utilidade funcional de meios
protestos (ou ao direito de manifestação), materiais usados em reuniões e manifes‑
enquanto mecanismos nobres de partici‑ tações (altifalantes, cartazes, bancas de in‑
pação na vida pública. formação, etc.), bem como da pertinência
Nesse sentido, aprofunda ainda a defini‑ que assume a total liberdade de escolha do
ção de participação, entendendo­‑a como visual, dos objectos, de exercício artístico e
“o envolvimento das pessoas presentes”, de expressão (nos limites da lei).
o que sugere a limitação da participação à No ponto III analisam­‑se as manifestações
sua dimensão presencial num determinado de bloqueio, discutindo­‑se a controvérsia
espaço público. Como entender, ­assim, suscitada, por exemplo, por corpos acor‑
o direito de manifestação, e portanto de rentados ou deitados num acto de bloqueio
participação, a partir das novas formas e explorando até onde levar os limites da
de protesto virtual que dispensam o avis‑ violência e do exercício deste direito, in‑
tamento físico do participante no espaço cluindo a questão da sua licitude.
246 | Recensões

A matéria de suspensão e dissolução das cidadão e para o Estado de direito demo‑


reuniões e manifestações é tratada no crático” (169).
ponto IV, sendo as questões alusivas à António Francisco Sousa conclui a obra
intervenção policial analisadas com mais aludindo à dificuldade de delimitar os
detalhe no ponto V, no qual é interessante contornos de certas liberdades, como a
notar o recurso à psicologia de massas liberdade artística, de expressão e de crí‑
para explicar a polícia como “faísca no bi‑ tica, bem como à dificuldade em delimitar
dão de pólvora” (163) no desencadear de o significado de ordem pública. O livro
uma escalada de violência em que ­podem encerra com uma séria advertência, no sen‑
converter­‑se as reuniões e manifestações. tido de que o legislador passe a elaborar
Faz uma alusão, ainda que vaga, ao que normas claras e precisas, capazes de definir
considera serem “medidas mínimas” ou satisfatoriamente os limites dos direitos e
“suaves” (163) a aplicar sempre que a liberdades dos cidadãos e da própria ac‑
ordem é perturbada durante o exercício ção policial.
destas liberdades. Esta obra apresenta­‑se, assim, como uma
Finalmente, a parte VI explora as ques‑ reflexão profunda e crucial, plena de ac‑
tões do regime sancionatório a aplicar. tualidade, elaborada a partir da óptica
Reconhece­‑se, neste âmbito, que “as jurídica sobre as mais diversas questões
reuniões e manifestações constituem um implicadas no exercício do direito de reu‑
domínio dos mais ricos e expressivos, em nião e de manifestação.
termos de análise da intervenção policial,
mas também dos mais sensíveis para o Ana Raquel Matos