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UFCD ACTIVIDADES PEDAGÓGICAS DO

3281 QUOTIDIANO DA CRIANÇA


Actividades pedagógicas do quotidiano da criança

Índice

1.Observação e conhecimento individualizado das crianças - técnicas e procedimentos…..2


2.Relação e comunicação com as crianças…………………………………………………………………..13
3.Relação e comunicação com os diferentes adultos………………………………………………….18
4.Desenvolvimento do trabalho em equipa………………………………………………………………….23
5.Desenvolvimento de atitudes e comportamentos………………………………………………………30
5.1.Responsabilidade……………………………………………………………………………..………30
5.2.Iniciativas pessoais………………………………………………………………………..…………31
5.3.Capacidade de autocrítica……………………………………………………………..………….34
5.4.Capacidade de reformular as suas acções………………………………………..………...36

Bibliografia………………………………………………………………………………………………………………40

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Actividades pedagógicas do quotidiano da criança

1.Observação e conhecimento individualizado das crianças -


técnicas e procedimentos

A observação e o registo constituem os principais instrumentos de que o educador dispõe


para apoiar a sua prática. Por meio deles o educador pode registar, contextualmente, os
processos de aprendizagem das crianças; a qualidade das interacções estabelecidas com
outras crianças, funcionários e com o educador e acompanhar os processos de
desenvolvimento obtendo informações sobre as experiências das crianças na instituição.

Esta observação e seu registo fornecem aos educadores uma visão integral das crianças ao
mesmo tempo que revelam suas particularidades.

São várias as maneiras pelas quais a observação pode ser registada. A escrita é, sem
dúvida, a mais comum e acessível. O registo diário de suas observações, impressões, ideias
pode compor um rico material de reflexão e ajuda para o panejamento educativo. Outras
formas de registo podem ainda ser consideradas, como a gravação em áudio e vídeo;
produções das crianças ao longo do tempo; fotografias etc.

No que se refere à avaliação formativa, deve-se ter em conta que não se trata de avaliar a
criança, mas sim as situações de aprendizagem que foram oferecidas. Isso significa dizer
que a expectativa em relação à aprendizagem da criança deve estar sempre vinculada às
oportunidades e experiências que foram oferecidas a ela. ´

Assim, pode-se esperar, por exemplo, que a criança identifique os seus colegas pelo nome
apenas se foi dado a ela oportunidade para que pudesse conhecer o nome de todos e
pudesse perceber que isso, além de ser algo importante e valorizado, tem uma função real.

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Actividades pedagógicas do quotidiano da criança

No que se refere à formação da identidade e ao desenvolvimento progressivo da


independência e autonomia, são apontadas aqui aprendizagens prioritárias para crianças
até os três anos de idade: reconhecer o próprio nome, o nome de algumas crianças de seu
grupo e dos adultos responsáveis por ele e valorizar algumas de suas conquistas pessoais.

Para que a criança possa compreender seu próprio nome e o das outras pessoas como uma
forma de identificação, é necessário que os adultos e as outras crianças utilizem o nome
próprio de cada um com esse fim.

Assim, chamar as crianças sempre pelo nome e facilitar que elas se chamem, entre si, pelo
nome próprio sempre que isso for desejável, em vez de apelidos depreciativos ou
pronomes que diluem a identidade, como “ele” ou “ela”, bem como utilizar o nome para
identificar pertences pessoais, são algumas das condições necessárias para que essa
aprendizagem ocorra. Da mesma forma, é importante que as crianças saibam o nome do
educador.

A valorização das suas conquistas pessoais, sejam elas comer sem ajuda, conhecer o nome
de todos, cantar uma música, fazer um desenho etc. pode ser uma atitude esperada das
crianças desde que tenha havido condições para que elas próprias avaliem de forma
positiva suas acções e, da mesma forma, recebam uma avaliação positiva delas.

O educador pode ajudar as crianças a perceberem seu desenvolvimento e promover


situações que favoreçam satisfazer-se com as suas acções. Uma expressão de aprovação
diante de novas conquistas é uma das acções que pode ajudar as crianças a valorizarem as
suas conquistas.

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Actividades pedagógicas do quotidiano da criança

A partir dos três e até os seis anos, pode-se esperar que as crianças manifestem suas
preferências, seus desejos e desagrados, que demonstrem o desejo de independência em
relação aos adultos no que se refere às acções quotidianas.

Ainda no que se refere à observação das crianças, algumas das suas manifestações podem
sinalizar desconforto, e devem ser compreendidas e considerados pelo educador no
planeamento das suas acções.

O esforço para compreender as necessidades expressas pelas crianças, bem como as suas
reacções, auxilia o educador a manter a calma necessária para encontrar formas de
resolver a situação.

Destacam-se, ainda, duas situações relacionadas ao processo de construção da identidade


que merecem atenção especial do educador e de outros profissionais da instituição, por
estarem relacionadas directamente com a auto-estima.

Uma delas refere-se a algumas crianças que podem manifestar falta de confiança em si
próprias ou exibir atitudes de auto desvalorização. Para o planeamento das acções a serem
realizadas, será necessária uma observação cuidadosa das crianças em questão,
procurando compreender as situações que contribuem para esse sentimento. A valorização
de suas competências e características positivas é uma orientação que pode ser útil para
que se reverta esse quadro.

A outra diz respeito a manifestações de preconceitos e discriminações dirigidas a algumas


crianças. Essas situações devem ser alvo de reflexão dos educadores para que avaliem sua
prática e a da instituição. Além do diálogo, pode-se planear a realização de projectos
específicos, em que a questão-alvo de preconceito seja trabalhada com as crianças.

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Actividades pedagógicas do quotidiano da criança

Existem alguns aspectos importantes como, listar situações susceptíveis de dar informação:
dinâmica de um canto da sala, realização de um projecto, visita ao bairro, aldeia, etc.,
presença de um pai na sala, um animal que encontraram no passeio, uma festa de
crianças, utilização do material, etc.

Algumas perguntas que podem ajudar a pormenorizar a informação:


 Quem fez o quê?
 Quando?
 Com quem?
 Como?
 Quem está só?
 Quem está com os outros?
 Quem parece ter necessidade de ajuda?
 Quantas vezes intervim?
 Quem não necessita de ajuda?
 etc.

Para que as observações não se percam e possam ser utilizadas como instrumento de
trabalho, é necessário que sejam registadas.

As fichas de observação da criança devem:


 Descrever o mais objectivamente possível o comportamento das crianças;
 Descrever a intervenção escolhida,
 Descrever os resultados dessa intervenção,
 Pôr em evidência os factos observados, descrevendo um comportamento.

As conclusões só serão tiradas se houver comportamentos repetitivos e, depois de haver


esses comportamentos, fazer uma análise cuidada da sua frequência.

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Actividades pedagógicas do quotidiano da criança

O educador deve assegurar-se que cada criança seja observada em situações variadas. O
conjunto dessas observações pode dar ao educador uma visão global do desenvolvimento
da criança.

Cada registo pode ser elaborado ao gosto de cada um. Darei alguns exemplos, tal como
estes que se seguem. Observa-se as fotografias e os nomes de cada um. Faz-se um
registo, para ajudar a cada um a se reencontrar.

Pode-se aproveitar as fotografias para fazer um gráfico móvel, sabendo a cada momento
quantos somos com 3 anos, com 4 anos e com 5 anos. O calendário dos aniversários ajuda
para saber quando temos que mudar um cartão de sítio.

As grelhas de observação e registo são instrumentos de trabalho que servirão de apoio


para a nossa prática, uma vez que é importante observarmos as crianças para podermos
direccionar a nossa prática no caminho certo. Pode-se observar como exemplo, a escolha
das áreas; o comportamento da criança; a frequência de um determinado comportamento;
a actividade orientada; a rotina diária; espaço exterior; espaço interior…

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Actividades pedagógicas do quotidiano da criança

EXEMPLO DE FICHA DE REGISTO

Área de Síntese Competências 1º Per 2º Per 3ºPer


conteúdo
A B C A B C A B C
Sabe o nome
CONHECIMENTO DE

Sabe a idade
Sabe a morada
Sabe o sexo
Conhece o núcleo familiar
SI

Age por iniciativa própria


Leva a tarefa até ao fim
Arruma espontaneamente o que desarrumou
NOMIA
AUTO

Aceita regras
Veste-se sem ajuda
Despe-se sem ajuda
PENDÊNCIA

Lava-se sozinho
INDE

Sabe utilizar os materiais lápis, tintas…


Interage com o adulto e comas outras
crianças
Respeita as decisões do grande grupo
Dá oportunidade aos outros de intervirem
nos seus jogos ou conversas
RES RELAÇÃO COM OS OUTROS
FORMAÇÃO PESSOAL E SOCIAL

Respeita os colegas
Sabe partilhar
Revela comportamentos de tolerância
Revela espírito crítico
Conhece e nomeia sentimentos
Utiliza formas de saudação e cortesia
Tem o lado dominante definido
EXP

MO
TO
RA

O

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Actividades pedagógicas do quotidiano da criança

Nomeia e identifica partes do corpo


Realiza enfiamentos
Segura correctamente no lápis/pincel
Utiliza a tesoura correctamente
Sobe e desce escadas
Salta a pés juntos
Salta ao pé coxinho
Corre sem cair
Anda em bicos dos pés
Caminha sobre uma linha no chão
Apanha e lança a bola
Pontapeia uma bola parada
Pontapeia uma bola em andamento
Tem controlo motor respondendo a
estímulos(ritmos)
Rasteja
Rebola
Segue um percurso transpondo obstáculos
Verbaliza situações vividas
Mima e dramatiza vivências e experiências
Expressão

do quotidiano (jogo simbólico)


DRAMÁ
TICA

Dramatiza histórias com vários materiais

Faz rasgagens/recorte
EXPRESSÃO PLÁSTICA

EXPRESSÃO PLÁSTICA

Faz colagem
Faz digitinta
Faz pintura com o dedo e com o pincel
Gosta de experimentar novas técnicas de
pintura

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Actividades pedagógicas do quotidiano da criança

Faz modelagem
Contorna figuras
Pinta dentro de contornos
No desenho faz:
Garatuja
Girino
Figura humana
Pormenores da figura humana
Faz desenhos figurativos
Reproduz vivências, histórias
Desenha elementos no espaço de forma
correcta
Identifica e nomeia cores primárias
Identifica e nomeia cores secundárias
Utiliza materiais de diferentes texturas
Revela criatividade e sentido estético
Escuta, identifica e reproduz sons
Canta canções completas
EXPRESSÃO MUSICAL

Identifica músicas
Dança com ritmo
Conhece e utiliza instrumentos musicais
Distingue sons pela intensidade, altura,
timbre e duração
Constrói frases correctamente
Compreende/responde a questões
Mantém diálogo
EXPRESSÃO ORAL

Articula correctamente as palavras


Tem um vocabulário diversificado
Reproduz histórias (poesia,lengaslengas e
travalínguas)

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Actividades pedagógicas do quotidiano da criança

Inventa histórias
Conta histórias a partir de imagens
Descreve imagens
Narra acontecimentos
Transmite mensagens ou recados
Escreve o nome
Imita a escrita
Faz leitura de imagens
LINGUAGEM ESCRITA

Faz exercícios de pré-escrita com facilidade


Diferencia números e letras
Sabe que o sentido da escrita é da esquerda
para a direita
Realiza registos de actividades

Identifica e nomeia as noções de


espaço
Longe/perto
Dentro/fora/entre
Aberto/fechado
Cima/baixo
Identifica e nomeia noções de tempo
Ontem/hoje/amanhã
Noite/dia
EXPRESSÃO E COMUNICAÇÃO

Manhã/tarde
Antes/agora/depois
Dias da semana
Meses do ano
MATEMÁTICA

MATEMÁTICA

Estações do ano
Noções lógico-matemáticas
Faz classificação pela cor
-

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Actividades pedagógicas do quotidiano da criança

Faz classificação pela forma


Faz classificações pela espessura
Faz classificações pelo tamanho
Tem noção de mais/menos
Tem a noção de muito/pouco
Tem a noção de curto/comprido
Tem a noção de grosso/fino
Tem a noção de claro/escuro
Tem a noção de rápido/lento
Distingue formas geométricas  
Faz seriações
Faz ordenações
Forma conjuntos segundo as propriedades
Tem noção de quantidade
Associa o número à quantidade
Preenche quadros de dupla entrada
Faz jogos de associação e correspondência
Constrói puzzles
Nomeia esquerda direita
Capacidade de observar
Desejo de experimentar
Curiosidade de saber
REVELA

Atitude crítica
CONHECIMENTO DO MUNDO

Acontecimentos do mundo
MANIFESTA DESEJO DE

Personalidades
Povos e países
SABER SOBRE

Conhece e nomeia partes do corpo


Conhece o seu meio envolvente(físico e
social)

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Actividades pedagógicas do quotidiano da criança

Fenómenos naturais: vento, chuva, sol,


água,…
Explora equipamentos e utensílios
Participa nas negociações das questões a
aprofundar

A – NÃO ADQUIRIDO B – EM DESENVOLVIMENTO C - ADQUIRIDO

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Actividades pedagógicas do quotidiano da criança

2.Relação e comunicação com as crianças

Comunicação significa entrada e saída: o que chega vindo de ti para mim, o que vai de
mim para ti, e o que vai de mim para ti. Significa entrar em contacto usando todo o teu
ser: o teu pensamento mágico, o teu corpo e o seu movimento, os teus efeitos de som, os
sentidos – algumas vezes separadamente, outras em conjunto.

Comunicação pode acontecer de um para um, de muitos para muitos. Ela tem lugar entre
pessoas, algumas vezes entre não-pessoas (animais, coisas com vida).

Os seres humanos não têm de falar para comunicar, mas não há dúvida de que as palavras
clarificam muito melhor a transmissão de informações e pensamentos. Nos primeiros anos
de vida, a linguagem corporal desempenha um papel mais importante.

Não é só o rosto que revela emoções, são também os gestos. Podemos abrir os braços por
nos sentirmos alegres ou tristes. Mas toda a gente sabe ler os sinais mais deliberados,
como as expressões faciais, o apontar, o tocar, o encolher os ombros, os abraços e os
beijos.

As crianças começam a fazer estes sinais nas primeiras semanas de vida, embora não se
apercebam disso. Começam a usar sinais para comunicar intenções cerca dos 7 ou 8
meses.

Um bebé que chora e deixa de o fazer quando um adulto chega está a mostrar que tem
presente um sinal comunicativo com que chama a atenção de outra pessoa e a que esta

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Actividades pedagógicas do quotidiano da criança

responde. Nós os adultos atribuímos intenções de comunicação às expressões dos bebés,


mesmo que estes sejam muito pequenos. A importância deste facto é que facilita as
interacções entre crianças e adultos. A acção constante de interpretação que os adultos
fazem das expressões das crianças permite que a interacção continue e que a criança
tenha acesso aos significados.

A crescente capacidade da criança para utilizar a linguagem, um sistema de comunicação


baseado em palavras e gramática, é um elemento crucial no desenvolvimento cognitivo. A
partir do momento em que conhece as palavras, ela pode utilizá-las para representar
objectos e acções. Ela pode reflectir acerca das pessoas, locais e objectos; pode comunicar
as suas necessidades, sentimentos e ideias para exercer controlo sobre a sua própria vida.

O crescimento da linguagem ilustra a interacção entre todos os aspectos do


desenvolvimento: físico, cognitivo, emocional e social. À medida que as estruturas físicas,
necessárias à produção de sons, sofrem maturação, e que as conexões neuronais,
necessárias à associação de sons e de significados se tornam activadas, a interacção social
com os adultos inicia os bebés na natureza comunicativa do discurso.

O educador e auxiliar educativo, no jardim-de-infância, têm um papel único a desempenhar


na descoberta da utilização que a criança faz da linguagem (para que a utiliza e como o
faz). Devem observá-la primeiro na relação com os outros, adultos e crianças, e só depois
na situação escolar.

Deverão estar atentos a quaisquer sinais de dificuldade da linguagem e fala da criança, que
podem confundir-se com atrasos de desenvolvimento ou virem a criar-lhe problemas nas
suas relações com os outros e na aprendizagem.

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Actividades pedagógicas do quotidiano da criança

Alguns destes comportamentos são naturais numa determinada fase do desenvolvimento


da criança, ou em determinadas situações, e só são consideradas dificuldades se
permanecerem durante muito tempo, fora da fase correspondente ou da situação em que
surgem. Mesmo assim, é necessário ter em conta que o desenvolvimento da linguagem e
da fala, fazem parte de um processo altamente individual e influenciado pelo meio.

Se o educador ou o educador identificarem as dificuldades da criança, poderão facilitar a


comunicação com ela e entre ela e as outras crianças, o que influenciará positivamente a
aprendizagem e desenvolvimento social de todas.

Os seres humanos não têm de falar para comunicar, mas não há dúvida de que as palavras
clarificam muito melhor a transmissão de informações e pensamentos. Nos primeiros anos
de vida, a linguagem corporal desempenha um papel mais importante.

Não é só o rosto que revela emoções, são também os gestos. Podemos abrir os braços por
nos sentirmos alegres ou tristes. Mas toda a gente sabe ler os sinais mais deliberados,
como as expressões faciais, o apontar, o tocar, o encolher os ombros, os abraços e os
beijos.

A principal prioridade do educador deverá ser sempre a construção de um relacionamento


empático e afectivo com cada uma das suas crianças. A segunda prioridade, mas não
menos importante, deverá ser com as aprendizagens e com o desenvolvimento de
competências dos mesmos.

Desde o nascimento, as crianças orientam-se prioritariamente para o outro, inicialmente


para os adultos próximos, que lhes garantem a sobrevivência, propiciando sua alimentação,
higiene, descanso etc. O bebé nasce e cresce, pois, em íntimo contacto com o outro, o que
lhe possibilita o acesso ao mundo. Ele expressa seu estado de bem ou mal-estar pelas

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Actividades pedagógicas do quotidiano da criança

vocalizações, gestos e posturas que são percebidas, interpretadas e respondidas pelo(s)


outro(s), conforme aprenderam em suas experiências na cultura à qual pertencem.

Entre o bebé e as pessoas que cuidam, interagem e brincam com ele se estabelece uma
forte relação afectiva (a qual envolve sentimentos complexos e contraditórios como amor,
carinho, encantamento, frustração, raiva, culpa etc.). Essas pessoas não apenas cuidam da
criança, mas também medeiam seus contactos com o mundo, actuando com ela,
organizando e interpretando para ela esse mundo. É nessas interacções que se constroem
as suas características.

É importante que o educador conduza os trabalhos no sentido da descoberta de formas


assertivas de relacionamento, estabelecendo com os participantes um clima de auto-
afirmação, que permita desenvolver:
• O sentido do humor, da simpatia e do acolhimento;
• A capacidade de observação das situações;
• Um relacionamento aberto e franco fundado na segurança da personalidade;
• A qualidade da informação/comunicação, ou de dar/receber feedback;
• A capacidade de escutar e apreciar os outros.

Há certas estratégias, comportamentos e atitudes que sendo levadas a cabo pelos adultos,
usadas com paciência e de forma persistente permitem às crianças desenvolver uma
capacidade de controlo interno e aprender a resolver os seus conflitos com os outros,
utilizando formas de interacção adequadas.

Ao nível das estratégias são:


• Organização do ambiente físico, do espaço e materiais;
• Estruturação de uma rotina diária consistente;

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Actividades pedagógicas do quotidiano da criança

• Adopção por parte do adulto de um papel de apoio (nem permissivo, nem


autoritário.

Ao nível dos comportamentos e atitudes são:


• Intervir imediatamente para parar um comportamento que seja destrutivo ou que
ponha em perigo a segurança da criança;
• Usar a linguagem verbal para identificar os sentimentos e as preocupações das
crianças;
• Pedir às crianças que exprimam por palavras os seus desejos e sentimentos;
• Levar as crianças a apresentar as suas próprias soluções para a resolução de
problemas;
• Dar às crianças escolha para a resolução de um problema, apenas quando elas se
apresentem como opções possíveis de concretizar;
• Evitar o uso de linguagem punitiva ou que expresse julgamento;
• Quando se depara um comportamento que é inaceitável, deve-se explicar as
razões às crianças;
• Antes de aparecer uma situação de conflito, verificar se as crianças conseguem
resolvê-la sem o apoio do adulto.

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Actividades pedagógicas do quotidiano da criança

3.Relação e comunicação com os diferentes adultos

Em instituições de cuidado às crianças o adulto desempenha sempre o papel de vigilante. É


ele o responsável pela segurança e óptimo desenvolvimento da criança.

O vigilante/adulto desempenha assim, diferentes papéis. O papel de animador do grupo,


facilitador do processo de desenvolvimento e aprendizagem da criança e de coordenador
dos comportamentos da criança.

Ao assumir-se como animador das crianças nas diferentes situações que ocorrem, o
vigilante tem por finalidade chegar à personalidade de cada criança e ao mesmo tempo do
grupo. Este desempenho por parte do adulto requer que se dê importância ao registo
afectivo e relacional adoptado pela criança.

Ser facilitador, é situar-se para além do “instrutor”, do “mestre todo-poderoso” ou do


“deixar andar” e “eles que venham ter comigo”. Ao contrário, o vigilante é um educador
que observa pessoas/grupos/situações, um catalizador da mudança no caminho que a
criança tem a percorrer.

Neste processo posiciona-se como gerador de situações diferentes e moderador de


conflitos que há-de saber usar como instrumento de transformações pessoais e grupais.

Face à emergência cada vez mais clara da responsabilização, por parte de todos os adultos
que trabalham em instituições educativas, toma vulto a dimensão de coordenador dos
comportamentos da criança.

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Actividades pedagógicas do quotidiano da criança

Estando no papel de quem garante a transmissão de uma mensagem, o vigilante incentiva


as crianças a apropriaram-se dos diferentes desempenhos que pode adquirir.

Há uma série de comportamentos e atitudes de apoio e colaboração que os adultos podem


pôr em prática, que vão proporcionar uma relação de diálogo, apoio e colaboração entre a
criança e o adulto, favorecendo a confiança da criança.

São elas:
1. Apoio do adulto nos momentos de chegada e de partida da criança.
2. Apoio do adulto ao longo das actividades livres.
3. Apoio do adulto ao longo do tempo de grupo.
4. Apoio do adulto nos momentos de refeição.
5. Apoio do adulto nos momentos de rotina de cuidado do corpo.
6. Apoio do adulto nos momentos de descanso.

Os adultos respondem directa e o mais rapidamente possível às necessidades,


desejos e mensagens das crianças e adaptam as suas respostas aos diferentes
estilos e capacidades das crianças.

As respostas adequadas variam com as idades da criança. Os adultos devem responder


imediatamente ao choro aflito dos bebés. A resposta deve ser calorosa e calmante, ao
mesmo tempo que o adulto identifica a necessidade da criança.

Os adultos devem responder apropriadamente às vocalizações do bebé, à manipulação que


fazem dos objectos e aos seus movimentos, já que estes são os meios deles comunicarem.
Os adultos pegam e tocam frequentemente nos bebés; falam e cantam para eles numa voz
calmante e segura; sorriem e mantêm contacto visual.

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Actividades pedagógicas do quotidiano da criança

Em relação às crianças de 1-2 anos, os adultos mantêm-se por perto, dando atenção e
conforto físico sempre que necessário. Repetem as palavras das crianças, parafraseiam ou
usam sinónimos ou acções para as ajudar a ter a certeza de que são compreendidas.

À medida que as crianças crescem, as respostas dos adultos são caracterizadas por menor
comunicação física e maior resposta verbal, apesar de que um imediatismo seja ainda mais
importante.

São importantes também as respostas positivas como, por exemplo, um sorriso de


interesse e atenção concentrada na actividade da criança. Os adultos movimentam-se
calmamente e circulam entre crianças isoladas e grupos para comunicar com elas de uma
forma amigável e descontraída.

Entre a idade de creche e a escola básica, a comunicação do adulto com a criança é


facilitada com o sentar-se ao mesmo nível da criança e ajoelhar-se fazendo contacto visual.

Os adultos deveriam também ter consciência, com todos os grupos etários, da poderosa
influência do exemplo e de formas de comunicação não-verbal; as acções dos adultos
devem ser compatíveis com as suas mensagens verbais e devem confirmar que as crianças
compreendam o que elas querem comunicar.

Os adultos facilitam à criança a realização de tarefas com sucesso,


proporcionando apoio, atenção focalizada, individualizada, proximidade física e
encorajamento verbal.

Os adultos reconhecem que as crianças aprendem por tentativa e erro e que os erros das
crianças reflectem o seu pensamento em desenvolvimento.

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Actividades pedagógicas do quotidiano da criança

Experiências concretas de sucesso são incentivos importantes para que pessoas de todas
as idades continuem a aprender e se mantenham motivadas. As crianças aprendem a partir
dos seus próprios erros. Os adultos examinam o problema com a criança e, caso venha a
propósito, encorajam a criança para que experimente novamente e para que encontre
alternativas.

Os adultos facilitam o desenvolvimento da auto-estima exprimindo respeito, aceitação e


conforto em relação às crianças, independentemente do seu comportamento.

Compreender um comportamento que é normal numa criança como, por exemplo,


desordem e falta de limpeza, interesse pelas partes do corpo e pelas diferenças genitais,
choro e resistência, agressão e, mais tarde, infracção das regras e da verdade, é a base
para a orientação apropriada das crianças pequenas.

Uma orientação apropriada em termos do desenvolvimento demonstra o respeito pela


criança. Ajuda-as a compreender e a crescer e ajuda as crianças a desenvolverem o auto
controlo e a capacidade de tomar melhores decisões no futuro.

Os comportamentos dos adultos em relação às crianças que nunca devem ser aceitáveis,
incluem: gritar alto e com zanga; negligenciar; infligir dor física ou emocional; criticismo na
pessoa da criança ou da família, ridicularizando, atribuindo culpas, gozando, insultando, ou
usando castigos ameaçadores ou humilhantes.

Os adultos não devem rir do comportamento da criança, nem discuti-lo entre si na


presença das crianças.

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Actividades pedagógicas do quotidiano da criança

Os adultos facilitam o desenvolvimento do auto controle nas crianças.

As crianças aprendem auto controlo quando os adultos as tratam com dignidade e usam
técnicas de disciplina, tais como:
• Orientar as crianças através de limites claros, consistentes e justos em relação ao
comportamento na sala, ou no caso de crianças mais velhas, ajudando-as a
estabelecer os seus próprios limites;
• Valorizar os erros como oportunidades da aprendizagem;
• Reorientaras crianças para comportamentos ou actividades mais aceitáveis;
• Escutar as crianças quando falam sobre os seus sentimentos e frustrações;
• Guiar as crianças para que elas resolvam conflitos, modelando competências que
ajudem as crianças a resolver os seus próprios problemas;
• Lembrar pacientemente às crianças, quando tal seja necessário, as regras e as
razões para essas mesmas regras.

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Actividades pedagógicas do quotidiano da criança

4.Desenvolvimento do trabalho em equipa

As diferentes modalidades de educação pré-escolar podem agrupar-se entre si ou em


estabelecimentos próximos de outros níveis de ensino. Esta inserção num estabelecimento
ou num território educativo constitui uma modalidade organizacional que permite tirar
proveito de recursos humanos e materiais, facilitando ainda a continuidade educativa.

Qualquer que seja a modalidade organizacional, trata-se de um contexto que permite o


trabalho em equipa dos adultos que, na instituição ou instituições, têm um papel na
educação das crianças. As reuniões regulares, entre educadores e auxiliares de acção
educativa, entre educadores e educadores, são um meio importante de formação
profissional com efeitos na educação das crianças.

Cabe ao director pedagógico de cada estabelecimento ou estabelecimentos, em


colaboração com os educadores, encontrar as formas e os momentos de trabalho em
equipa.

Estas equipas podem ainda beneficiar do apoio de diferentes profissionais, tais como
educadores de educação especial, psicólogos, trabalhadores sociais, animadores e outros
que, enriquecendo o trabalho da equipa, facilitam a procura de respostas mas adequadas
às crianças e às famílias.

O trabalho em equipa torna-se fundamental para reflectir sobre a melhor forma de


organizar o tempo e os recursos humanos, no sentido de uma acção articulada que
responda às necessidades das crianças e dos pais.

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Actividades pedagógicas do quotidiano da criança

Porque o projecto educativo do estabelecimento ou território deve ter em conta o meio


social em que vivem as crianças, há vantagens em que inclua a participação de outros
parceiros da comunidade, como autarcas e outros serviços e instituições locais que podem
contribuir para melhorar a resposta educativa.

O projecto educativo do estabelecimento ou território, como base de orientação da sua


estratégia educativa, é um instrumento dinâmico que evolui e se adapta às mudanças da
comunidade, por isso este projecto deverá ir sendo repensado e reformulado, num
processo que implica uma avaliação e reflexão de todos os intervenientes.

Exemplo de interacção: a organização da componente de apoio á família

O projecto educativo, enquanto orientador da política de uma instituição, terá de


contemplar os princípios e meios de apoio à família.

Este projecto será, por isso, construído com a participação de todos os interessados:
pessoal do estabelecimento (director pedagógico, educadores e pessoal auxiliar) e pais ou
encarregados de educação e ainda outros parceiros da comunidade que, em conjunto,
deliberam sobre os processos educativos mais adequados, sobre as soluções mais
convenientes para responder à educação das crianças e ao seu bem-estar, bem como às
necessidades dos pais.

Se todo o projecto de estabelecimento implica a participação da comunidade nas decisões


sobre a sua política educativa, as responsabilidades da componente de apoio à família,
enquanto resposta social, serão com vantagem partilhadas com a comunidade.

Dito de outro modo, se a comunidade é chamada a participar na definição da política


educativa do estabelecimento, no caso da componente de apoio à família, é a instituição

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Actividades pedagógicas do quotidiano da criança

que contribui para o desenvolvimento de uma política social local, como parceira da própria
comunidade.

As decisões relativas à componente de apoio à família não dizem apenas respeito a cada
educador e ao seu grupo, implicam todo o estabelecimento ou vários estabelecimentos
educativos sendo, por isso, de natureza organizacional.

A contribuição de instituições e serviços locais, tais como autarquias, associações culturais


e recreativas, ludotecas, centros de recursos, centros de saúde etc. Contribuindo para
diversificar e enriquecer a componente curricular, torna-se também indispensável para um
atendimento de qualidade na componente de apoio à família.

Esta participação alargada permitirá encontrar as soluções específicas e contextualizadas


que melhor respondam às necessidades das crianças e dos pais. Embora algumas destas
parcerias tenham uma tradição mais longa nalguns estabelecimentos, nada impede que
qualquer instituição pública ou privada da rede nacional possa realizar acordos com as
instituições e serviços locais que considerar mais convenientes, para encontrar as soluções
mais adequadas.

Quaisquer que sejam as características da instituição, a resposta a esta necessidade social


tem consequências na gestão interna do estabelecimento, que passam por recrutamento
(se necessário) e organização de pessoal.

Uma optimização da gestão dos horários de trabalho é indispensável para que se possa
fazer um atendimento de qualidade, pelo que importa realizar um levantamento de
recursos disponíveis na instituição e na comunidade que garantam as melhores condições
de funcionamento.

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Actividades pedagógicas do quotidiano da criança

A organização desta componente terá que ter em conta as necessidades dos pais, os seus
horários e locais de trabalho (distância entre a casa e o trabalho, tempo de percurso), bem
como os recursos humanos (pessoas disponíveis na comunidade) e materiais (salas
utilizáveis, materiais a adquirir ou a construir através de recuperação de material de
desperdício e/ou pedindo a colaboração de pais, avós e outros familiares, que possam
contribuir para enriquecer os recursos disponíveis).

Materiais, equipamentos e espaços

O espaço será, sempre que possível, diferente do espaço habitual da sala em que se
realizam as actividades curriculares. Como comentava uma educadora, "pensar, como nós
adultos, não gostamos de estar todo o dia no mesmo local de trabalho, e aproveitamos a
oportunidade para sair um pouco à hora do almoço, ou durante um pequeno intervalo,
ajuda a perceber como a permanência num mesmo espaço pode ser cansativa para as
crianças".

De acordo com as possibilidades de cada comunidade, poderão ser também utilizados


diferentes espaços comunitários: ludotecas, ginásios, associações recreativas e culturais,
etc. Neste processo é fundamental o papel das Autarquias.

Sempre que possível, o espaço exterior é um local privilegiado do tempo de animação


sócio-educativa.

Convém assim reflectir sobre:


• Quais os espaços possíveis? Como rentabilizar espaços existentes na comunidade?
• Como organizar esse espaço para o tornar mais atraente e íntimo? Como pode o
espaço facilitar a escolha de actividades e as brincadeiras das crianças?

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Actividades pedagógicas do quotidiano da criança

• Qual o contributo das crianças para a escolha do(s) espaço(s) e para a sua
organização?

Esta organização passa pela escolha de materiais e pela forma como estão dispostos.

Na escolha dos materiais serão de privilegiar a originalidade – diferentes dos que são
habitualmente utilizados em tempo curricular, a versatilidade – possibilidades diversas de
utilização e transformação.

Assim, serão de privilegiar materiais com mais de uma utilização e facilmente deslocáveis,
destacando-se dois tipos-base: materiais de jogo simbólico e de psicomotricidade.

A título de exemplo citam-se alguns materiais de entre estes dois tipos. Como recursos
para a motricidade podem citar-se – bolas de vários tamanhos e texturas, arcos, triciclos,
carrinhos para andar e empurrar, ringues e também blocos grandes de espuma, ou outro
material leve, que permitam várias construções (casas, castelos, barcos), onde as crianças
possam entrar e sair e, ainda, "papagaios" ou paraquedas que possam lançar.

Os materiais de jogo simbólico podem incluir – bonecos, arca de trapalhadas e adereços de


várias profissões, que as próprias crianças poderão fabricar.

Poderá ainda haver animais em miniatura, domésticos ou selvagens, etc. Também os


fantoches são um recurso importante que as crianças poderão utilizar livremente.

Será ainda de pensar em instrumentos musicais – feitos pelas crianças, materiais de


carpintaria, etc.

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Actividades pedagógicas do quotidiano da criança

A utilização criativa de materiais de desperdício pode ser ainda uma solução económica,
que permite uma grande variedade de utilizações, que desafia a criatividade dos adultos e
permite às crianças uma grande liberdade na sua utilização.

Também os livros poderão ser um recurso privilegiado para as crianças verem, comentarem
e "lerem".

Podendo destacar-se dois tipos de organização, ou uma área totalmente aberta, ou seja,
sem "áreas" delimitadas, ou uma organização por ateliers por onde as crianças possam
"rodar", sem esquecer um espaço mais reservado e acolhedor onde as crianças possam
estar a conversar ou a descansar, com um mobiliário que permita essa intimidade:
almofadas, colchões, mesas redondas, etc.

Trabalho em equipa

Será necessário que todos os profissionais envolvidos nos tempos de animação e nas
refeições (num estabelecimento ou agrupamento de estabelecimentos) tenham um tempo
calendarizado de reuniões, coordenadas pelo director pedagógico, para poderem reflectir,
planear e avaliar o seu trabalho.

Será um espaço formativo em que todos terão voz para porem em comum os seus saberes,
as suas dificuldades, as suas resistências, num clima de apoio mútuo, de solidariedade
profissional e formação cooperada.

Haverá certamente recuos, fragilizações, conflitos a gerir, respostas a criar. Viver tudo isto
num clima de progresso profissional nem sempre é fácil. Talvez ajude ouvir o que diz
Perrenoud: "...o verdadeiro objectivo da formação não é dispensar competências mas sim

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Actividades pedagógicas do quotidiano da criança

dar identidade, um projecto, meios para se encontrar prazer profissional numa prática
exigente".

Será necessário que, embora de forma mais espaçada, os profissionais de animação se


possam reunir com o corpo docente trocando êxitos e dificuldades, articulando
comportamentos e preocupações, securizando-se mutuamente sobre a existência efectiva
de um continuum educativo para todas as crianças.

A componente de apoio à família necessita de ser desenvolvida pelas equipas educativas


que encontrarão formas de a enriquecer e aprofundar, adequando-a às características
específicas da comunidade a que se destina.

A troca e a reflexão alargada de experiências permitirá uma componente de apoio à família


qualificada, que dignificará os profissionais que a dinamizarem e dará uma enorme
satisfação às crianças e aos seus pais.

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Actividades pedagógicas do quotidiano da criança

5.Desenvolvimento de atitudes e comportamentos

5.1.Responsabilidade

A responsabilidade bem como a autonomia vão-se adquirindo como consequência da


liberdade e do sentido de autoridade com que fomos orientados. É um valor que se vai
traduzindo nos comportamentos de forma progressiva ao longo da vida. Aos poucos as
crianças vão aprendendo a decidir e pensar por si, embora sabendo ouvir e atender à
opinião dos outros.

O papel dos pais e dos adultos com funções educativas é estimular, dar confiança, criar
oportunidades para que a criança possa fazer escolhas, assumir responsabilidades e
adquirir o gosto pela independência de forma equilibrada.

Esta necessidade é satisfeita permitindo à criança a conquista da independência pessoal, a


começar pela aprendizagem de cuidar de si mesma no dia-a-dia, como por exemplo ao
comer, vestir-se e lavar-se sozinha. É correspondida também através das coisas que a
criança possui, por muito pequenas e baratas que sejam e sobre as quais ela pode exercer
total direito de propriedade.

À medida que a criança cresce, a responsabilidade tem de se alargar a esferas mais


importantes, garantindo-lhe a liberdade nas suas acções. Quando, mais tarde, atingir uma
plena maturidade, deverá ser capaz de aceitar ser responsável por outrem.

Conceder independência crescente não significa para o adulto calar o seu ponto de vista,
preferências e opções, nem as razões que as fundamentam; também não quer dizer que se

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Actividades pedagógicas do quotidiano da criança

deixe de orientar e participar na vida dos filhos, nem tão pouco que se fechem os olhos a
tudo o que eles fazem.

Pelo contrário, as crianças necessitam de estruturas orientadoras e de limites. É uma ajuda


saberem o que é exigido ou permitido e quais são as regras, juntamente com as razões
que as fundamentam, bem como o saberem se estas regras são no seu interesse ou no
interesse de outros.

5.2.Iniciativas pessoais

A inteligência de uma criança só se desenvolverá de forma satisfatória se esta necessidade


for correspondida durante a infância. Tal como o corpo requer alimento para permitir o
desenvolvimento físico e tal como uma dieta equilibrada é essencial para o crescimento
normal, assim as novas experiências são um requisito para o intelecto.

Os ingredientes vitais desta dieta são, na primeira infância, o jogo e a linguagem. Através
deles, a criança explora o mundo e aprende a enfrentá-lo. Isto é tão verdadeiro em relação
ao mundo subjectivo e interior dos pensamentos e dos sentimentos.

As novas experiências facilitam a aprendizagem de uma das lições mais importantes nos
primeiros anos de vida: aprender a aprender, e aprender que o domínio sobre algo traz
consigo alegria e um sentimento de realização. A educabilidade não depende só das
capacidades inatas, mas tanto — ou mais — das oportunidades e estímulos fornecidos pelo
meio.

O clima emocional e cultural do lar, bem como o envolvimento e as aspirações dos pais
podem acalentar, limitar ou prejudicar o crescimento mental.

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Actividades pedagógicas do quotidiano da criança

O jogo corresponde, principalmente de duas formas, à necessidade de novas experiências:


dando à criança a possibilidade de conhecer o mundo; e fornecendo-lhe meios para
enfrentar e resolver emoções contraditórias, visto permitir que a fantasia se sobreponha à
realidade e à lógica.

A qualidade do ambiente linguístico em que a criança vive é provavelmente, e a longo


prazo, o factor crucial do seu crescimento intelectual: não importa apenas se lhe falam
muito ou pouco, mas se essa conversa é relevante, nítida e rica. A linguagem falada ajuda
na aprendizagem do raciocínio e do pensamento e também no estabelecimento de
relações.

A entrada para a escola constitui só por si uma experiência nova e primordial, que abre um
mundo mais vasto e mais impessoal. O progresso da criança será profundamente afectado
pelas atitudes, valores e convicções do educador. Interesses alargados, entusiasmo pelos
assuntos da mente e receptividade às ideias novas são características contagiosas.

Os educadores estão numa posição que lhes permite manter, despertar ou reacender a
curiosidade e a alegria de aprender novas coisas que quase todas as crianças pequenas
manifestam.

Os assuntos trabalhados com as crianças devem guardar relações específicas com os níveis
de desenvolvimento das crianças em cada grupo e faixa etária e, também, respeitar e
propiciar a amplitude das mais diversas experiências em relação aos eixos de trabalho
propostos.

O processo que permite a construção de aprendizagens significativas pelas crianças requer


uma intensa actividade interna por parte delas.

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Actividades pedagógicas do quotidiano da criança

Nessa actividade, as crianças podem estabelecer relações entre novos conteúdos e os


conhecimentos prévios (conhecimentos que já possuem), usando para isso os recursos de
que dispõem.

Esse processo possibilitará modificarem seus conhecimentos prévios, matizá-los, ampliá-los


ou diferenciá-los em função de novas informações, capacitando-as a realizar novas
aprendizagens, tornando-as significativas.

É, portanto, função do educador considerar, como ponto de partida para sua acção
educativa, os conhecimentos que as crianças possuem, advindos das mais variadas
experiências sociais, afectivas e cognitivas a que estão expostas.

Detectar os conhecimentos prévios das crianças não é uma tarefa fácil. Implica que o
educador estabeleça estratégias didácticas para fazê-lo. Quanto menores são as crianças,
mais difícil é a explicitação de tais conhecimentos, uma vez que elas não se comunicam
verbalmente.

A observação acurada das crianças é um instrumento essencial nesse processo. Os gestos,


movimentos corporais, sons produzidos, expressões faciais, as brincadeiras e toda forma de
expressão, representação e comunicação devem ser consideradas como fonte de
conhecimento para o educador sobre o que a criança já sabe.

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Actividades pedagógicas do quotidiano da criança

5.3.Capacidade de autocrítica

Os colaboradores procuram que todas as crianças evidenciem empatia e autoconfiança, no


contacto com as outras crianças, independentemente das suas diferenças.

O comportamento dos colaboradores demonstra às crianças que devem tratar as outras


com respeito e igualdade, encorajando-as activamente para que mantenham uma atitude
de aceitação perante crianças com capacidades e meios socioculturais diferentes do seu
(p.e. os colaboradores encorajam as crianças a utilizar frases ou palavras específicas de
meios socioculturais e linguísticos diferentes do seu, na comunicação com crianças desses
meios) e propondo a realização de actividades inclusivas.

A auto-estima que a criança desenvolve é, em grande parte, interiorização da estima que


se tem por ela e da confiança da qual é alvo. Disso resulta a necessidade do adulto confiar
e acreditar na capacidade de todas as crianças com as quais trabalha.

A postura corporal, somada à linguagem gestual, verbal etc., do adulto transmite


informações às crianças, possibilitando formas particulares e significativas de estabelecer
vínculos com elas.

É importante criar situações educativas para que, dentro dos limites impostos pela vivência
em colectividade, cada criança possa ter respeitados os seus hábitos, ritmos e preferências
individuais.

Da mesma forma, ouvir as falas das crianças, compreender o que elas querem comunicar,
fortalece a sua autoconfiança.

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Actividades pedagógicas do quotidiano da criança

O processo de construção da autoconfiança envolve avanços e retrocessos. As crianças


podem fazer birra diante de frustrações, demonstrar sentimentos como vergonha e medo
ou ter pesadelos, necessitando de apoio e compreensão dos pais e educadores.

O adulto deve ter em relação a elas uma atitude continente, apoiando-as e controlando-as
de forma flexível, porém segura. A colaboração entre pais e educadores é fundamental no
acompanhamento conjunto dos progressos que a criança realiza na construção de sua
identidade e progressiva autonomia pessoal.

As crianças aprendem auto controlo quando os adultos as tratam com dignidade e usam
técnicas de disciplina, tais como:
• Orientar as crianças através de limites claros, consistentes e justos em relação ao
comportamento na sala, ou no caso de crianças mais velhas, ajudando-as a
estabelecer os seus próprios limites;
• Valorizar os erros como oportunidades da aprendizagem;
• Reorientaras crianças para comportamentos ou actividades mais aceitáveis;
• Escutar as crianças quando falam sobre os seus sentimentos e frustrações;
• Guiar as crianças para que elas resolvam conflitos, modelando competências que
ajudem as crianças a resolver os seus próprios problemas;
• Lembrar pacientemente às crianças, quando tal seja necessário, as regras e as
razões para essas mesmas regras.

As crianças são encorajadas para que compreendam e ajudem outras que se encontrem
em dificuldade.

São promovidas oportunidades sob supervisão para que as crianças possam interagir entre
si e dessa forma ajudar a desenvolver sentimentos de pertença ao grupo, através de:

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Actividades pedagógicas do quotidiano da criança

• Dinamização de actividades/brincadeiras em que as crianças sejam incentivadas a


estarem junto das outras crianças do seu grupo:
• As crianças mais novas são, sempre que possível, colocadas a brincar junto das
outras crianças (p.e. os bebés encontram-se no mesmo espaço que as crianças mais
velhas sem que estas lhes retirem os brinquedos);
• As crianças mais velhas são envolvidas em actividades que impliquem trabalhar
em conjunto para encontrar a solução;
• As crianças são incentivadas a partilhar os brinquedos, a esperar pela sua vez e a
realizar actividades e tarefas em conjunto com outras crianças.
• Os colaboradores regularmente encorajam as crianças a pensar no que os outros
poderão estar a sentir.

5.4.Capacidade de reformular as suas acções

Em cada dia deparamos com sinais de insegurança, que conduzem a expressões


desajustadas dos sentimentos. Aí surge a assertividade: um processo de auto-afirmação
construtiva que se vai aprendendo e mantendo progressivamente com os outros, no nosso
agir diário.

À medida que a assertividade se vai desenvolvendo, aumenta na pessoa a capacidade de


se afirmar como ser único e original: expõe mais os seus desejos íntimos, revela mais
claramente as suas intenções e preocupações, aumenta a sua percepção do real e de
análise/resolução dos preconceitos próprios.

Numa palavra: adquire maior confiança para fazer opções e maior abertura face aos
outros, permitindo reformular as suas acções.

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Actividades pedagógicas do quotidiano da criança

É importante que o educador conduza os trabalhos no sentido da descoberta de formas


assertivas de relacionamento, estabelecendo com os participantes um clima de auto-
afirmação, que permita desenvolver:
• O sentido do humor, da simpatia e do acolhimento;
• A capacidade de observação das situações;
• Um relacionamento aberto e franco fundado na segurança da personalidade;
• A qualidade da informação/comunicação, ou de dar/receber feedback;
• A capacidade de escutar e apreciar os outros.

Há certas estratégias, comportamentos e atitudes que sendo levadas a cabo pelos adultos,
usadas com paciência e de forma persistente permite às crianças desenvolver uma
capacidade de controlo interno e aprender a resolver os seus conflitos com os outros,
utilizando formas de interacção adequadas.

Ao nível das estratégias são:


• Organização do ambiente físico, do espaço e materiais;
• Estruturação de uma rotina diária consistente;
• Adopção por parte do adulto de um papel de apoio (nem permissivo, nem
autoritário.

Ao nível dos comportamentos e atitudes são:


• Intervir imediatamente para parar um comportamento que seja destrutivo ou que
ponha em perigo a segurança da criança;
• Usar a linguagem verbal para identificar os sentimentos e as preocupações das
crianças;
• Pedir às crianças que exprimam por palavras os seus desejos e sentimentos;

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Actividades pedagógicas do quotidiano da criança

• Levar as crianças a apresentar as suas próprias soluções para a resolução de


problemas;
• Dar às crianças escolha para a resolução de um problema, apenas quando elas se
apresentem como opções possíveis de concretizar;
• Evitar o uso de linguagem punitiva ou que expresse julgamento;
• Quando se depara um comportamento que é inaceitável, deve-se explicar as
razões às crianças;
• Antes de aparecer uma situação de conflito, verificar se as crianças conseguem
resolvê-la sem o apoio do adulto.

As crianças vão, gradualmente, percebendo-se e percebendo os outros como diferentes,


permitindo que possam accionar seus próprios recursos e em questões situadas no plano
das acções concretas, poderão gradualmente fazê-lo no plano das ideias e dos valores.

Do ponto de vista do juízo moral, a criança encontra-se numa fase denominada de


heteronomia, em que dá legitimidade a regras e valores porque provêm de fora, em geral
de um adulto a quem ela atribui força e prestígio.

Na moral autónoma, ao contrário, a maturidade da criança lhe permite compreender que as


regras são passíveis de discussão e reformulação, desde que haja acordo entre os
elementos do grupo. Além disso, vê a igualdade e reciprocidade como componentes
necessários da justiça e torna-se capaz de coordenar seus pontos de vista e acções com os
de outros, em interacções de cooperação.

A passagem da heteronomia para a autonomia supõe recursos internos (afectivos e


cognitivos) e externos (sociais e culturais). Para que as crianças possam aprender a gerir
as suas acções e julgamentos conforme princípios outros que não o da simples obediência,
e para que possam ter noção da importância da reciprocidade e da cooperação numa

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Actividades pedagógicas do quotidiano da criança

sociedade que se propõe a atender o bem comum, é preciso que exercitem o auto-
controlo, usufruindo de gradativa independência para agir, tendo condições de escolher e
tomar decisões, participando do estabelecimento de regras e sanções.

Assim, é preciso planejar oportunidades em que as crianças dirijam as suas próprias


acções, tendo em vista seus recursos individuais e os limites inerentes ao ambiente.

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Actividades pedagógicas do quotidiano da criança

Bibliografia

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AA VV., Pensar formação – Formação de pessoal não-docente (animadores e auxiliares/


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Básica, 2003

AA VV., Qualidade e projecto na educação pré-escolar, Ministério de Educação:


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Fachada, Maria Odete, Psicologia das relações interpessoais, Edições Sílabo, 2010

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