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Brasília, 02 a 06 de dezembro de 1996 - Nº

56
Data (páginas internas): 11 de dezembro de
1996

Este Informativo, elaborado pela


Assessoria da Presidência do STF a partir de
notas tomadas nas sessões de julgamento das
Turmas e do Plenário, contém resumos não-
oficiais de decisões proferidas na semana pelo
Tribunal. A fidelidade de tais resumos ao
conteúdo efetivo das decisões, embora seja
uma das metas perseguidas neste trabalho,
somente poderá ser aferida após a sua
publicação no Diário da Justiça.

ÍNDICE DE ASSUNTOS
Atualização de Precatório: Dívida Alimentar
Citação-Edital: Nulidade
Convocação de Juízes
Justa Indenização
Lex Mitior e Vacatio Legis
Limitações ao Direito de Propriedade
Medida Cautelar no Processo Trabalhista
Princípio da Irretroatividade da Lei Penal
“Processo de Inconstitucionalização”
Quadrilha Armada e Crime Hediondo
Salário-Educação e Medida Provisória
Vista à PGR: Desnecessidade

PLENÁRIO
Salário-Educação e Medida Provisória - 1
Examinando pedido de concessão de liminar em ação
direta ajuizada por partidos políticos (PCB, PC do B, PDT e
PT) contra a MP 1518/96 que altera a disciplina do salário-
educação, revogando a lei 8150/90 , o Tribunal, por maioria
de votos, teve por insuficiente ao deferimento da medida a
relevância da tese sustentada pelos autores, no sentido de
que, sendo a matéria regulada pela questionada MP objeto da
Emenda Constitucional nº 14, de 12.09.96 que modificou a
redação do § 5º do art. 212 da CF (“O ensino fundamental
público terá como fonte adicional de financiamento a
contribuição do salário-educação, recolhida, na forma da
lei, pelas empresas, que dela poderão deduzir a aplicação
realizada no ensino fundamental de seus empregados e
dependentes.”), para excluir a possibilidade de dedução nele
admitida , estaria o Presidente da República impedido de
sobre ela legislar através de medida provisória, a teor do
disposto no art. 246 da CF (“É vedada a adoção de medida
provisória na regulamentação de artigo da Constituição
cuja redação tenha sido alterada por meio de emenda
promulgada a partir de 1995.”).

Salário-Educação e Medida Provisória - 2


A maioria entendeu que o citado art. 246 só seria
aplicável se a Emenda 14/96 não tivesse tido sua eficácia
diferida para 1º de janeiro de 1997. Vencidos os Ministros
Marco Aurélio e Celso de Mello, que, além de aceitarem a
plausibilidade da tese dos autores, reconheciam a existência
de conflito aparente entre o art. 11 da MP 1518/96 que
revoga a Lei 8150/90, e, com ela, o preceito que autorizava
as empresas a deduzirem da contribuição social as aplicações
realizadas no ensino fundamental de seus empregados e
dependentes e a redação atual do citado § 5º do art. 212 da
CF. A propósito desse fundamento, a maioria entendeu que,
sendo a parte final do § 5º auto-aplicável, a mera revogação
da Lei 8150/90 não eliminaria a possibilidade de dedução
que ela desde logo admite. ADIn 1.418-UF, rel. Min. Octavio
Gallotti, 05.12.96.

“Processo de Inconstitucionalização”
Uma norma que, no momento de sua edição, seja
constitucional pode vir a tornar-se inconstitucional em
virtude da ocorrência ou inocorrência de um fato. Foi o que
ocorreu, aparentemente, com preceitos constantes de
diversas leis criadoras de municípios no Estado do Rio
Grande do Sul, que previam a instalação dessas novas
entidades em 1º de janeiro de 1997, na suposição de que, até
final de 1996, prefeitos, vice-prefeitos e vereadores estariam
eleitos. Sucede que, por força de decisão do Tribunal
Regional Eleitoral do Rio Grande do Sul, as eleições
acabaram não se realizando, tornando inviável a instalação
dos municípios na data prevista pelos dispositivos
impugnados, dada a impossibilidade de cumprir o que
determina o art. 29, III, da CF (“posse do Prefeito e do Vice-
Prefeito no dia 1º de janeiro do ano subseqüente ao da
eleição;”). Julgando, portanto, que as mencionadas normas
se tornaram, à primeira vista, inconstitucionais, o Tribunal
decidiu, por unanimidade, deferir, no ponto, a medida
cautelar requerida na ação direta ajuizada contra essas e
outras leis do referido Estado. ADIn 1.504-RS, rel. Min.
Moreira Alves, 05.12.96.

PRIMEIRA TURMA
Atualização de Precatório: Dívida Alimentar
A atualização de débito alimentar constante de precatório
judicial na data do efetivo pagamento e não em 1º de julho
do ano anterior não ofende, em si mesma, o art. 100, § 1º, da
CF, conforme decidido pelo STF no julgamento da ADIn
446-SP (Pleno 24.06.94) e do RE 189942-SP ( DJ de
24.11.95) no tocante ao art. 57, § 3º, da Constituição do
Estado de São Paulo. Quanto a saber se essa atualização
pode, ou não, ser ordenada relativamente a dívida alimentar
de Estado-membro, a despeito da inexistência de norma local
que a autorize, este problema não concerne ao referido
dispositivo constitucional, que não trata do assunto, mas ao
art. 5º, II, da CF (princípio da reserva legal). Com esse
entendimento, a Turma negou provimento a agravo
regimental interposto pelo Estado do Paraná, no qual se
alegava que, à falta de lei local prevendo a atualização
determinada pelo acórdão recorrido, tal determinação
ofenderia o citado § 1º do art. 100 da CF. Matéria semelhante
foi noticiada nos Informativos 45 e 48. AI 165.690-PR
(AgRg), rel. Min. Moreira Alves, 03.12.96.

Vista à PGR: Desnecessidade


Se a Procuradoria-Geral da República já se manifestou
previamente sobre o agravo interposto contra o
indeferimento do recurso extraordinário, não é necessário
que se manifeste novamente após a prolação do despacho
que manteve a decisão agravada, antes do julgamento do
agravo regimental a ele oposto. Aplicação do disposto no §
1º do art. 103 da CF (“O Procurador-Geral da República
deverá ser ouvido nas ações de inconstitucionalidade e em
todos os processos de competência do Supremo Tribunal
Federal.”). AI 163.587-SP (EDcl), rel. Min. Moreira Alves,
03.12.96.
Justa Indenização
A circunstância de o proprietário não poder explorar a
mata existente em seu imóvel por força de vedação prevista
no Código Florestal não dispensa o expropriante do dever de
indenizá-lo pelo valor dessa mata. Afastando a alegação de
contrariedade aos arts. 5º, XXIII (“a propriedade atenderá a
sua função social;”) e 225, caput, e § 4º, da CF, a Turma
negou provimento a agravo regimental interposto pelo
Estado de São Paulo. Cuidava-se, na espécie, de ação
expropriatória visando à criação de estação ecológica. AI
187.726-SP, rel. Min. Moreira Alves, 03.12.96.

Lex Mitior e Vacatio Legis


Ressalvando a competência do juiz da execução para
apreciar originalmente o pedido nos termos da Súmula 611
do STF (“Transitada em julgado a sentença condenatória,
compete ao Juízo das execuções a aplicação da lei mais
benigna.” ), a Turma indeferiu habeas corpus que imputava
ao Tribunal de Alçada de Minas Gerais o constrangimento de
não haver adotado, no julgamento da apelação interposta
pelo paciente ocorrido no período de vacatio da Lei 9099/95
, o procedimento previsto nos arts. 76 e 89 dessa lei (vista ao
ofendido e ao MP para oferecimento de representação e de
proposta de suspensão do processo, respectivamente).
Considerou-se que as normas invocadas pelo impetrante
ainda não estavam em vigor na data do julgamento da
apelação, motivo pelo qual a decisão impugnada, ao deixar
de aplicá-las, não incorrera na pretendida ilegalidade. HC
74.498-MG, rel. Min. Octavio Gallotti, 03.12.96.

SEGUNDA TURMA
Citação-Edital: Nulidade
A circunstância de o réu haver sido encontrado, por
ocasião do cumprimento do mandado de prisão, no endereço
por ele informado na fase do inquérito e tido por inexistente
quando de sua citação, afinal realizada por edital, é motivo
suficiente para a declaração de nulidade desse ato. Habeas
corpus deferido para anular o processo a partir da citação,
inclusive. HC 74.577-SP, rel. Min. Marco Aurélio, 26.11.96.

Medida Cautelar no Processo Trabalhista


No processo trabalhista, a antecipação da tutela
jurisdicional não se viabiliza, a não ser como medida
preparatória de uma reclamação. Com base nesse
entendimento, a Turma acolheu a alegação de ofensa ao art.
5º, LV, da CF (princípio do devido processo legal) deduzida
contra acórdão do TST que mantivera a procedência de ação
cautelar de índole satisfativa, na qual o recorrente fora
condenado ao pagamento de diferenças salariais,
independentemente do ajuizamento da ação principal. Com o
provimento do recurso extraordinário, o processo foi extinto
sem julgamento do mérito. RE 162.309-PE, rel. Min. Marco
Aurélio, 03.12.96.

Leia em “Transcrições” os trechos essenciais do voto condutor do


acórdão.

Convocação de Juízes
Concluindo o julgamento de habeas corpus em que se
discutia sobre a legalidade da convocação de juízes para
integrar câmara de tribunal por ato do presidente da corte
posteriormente referendado pela maioria do plenário, a
Turma indeferiu o writ, ao fundamento de que a lei estadual
pode regular o procedimento de convocação, já que a
LOMAN não dispõe sobre a matéria, exigindo apenas, em
seu art. 118, que os juízes substitutos sejam “escolhidos por
decisão da maioria absoluta do tribunal respectivo, ou, se
houver, de seu Órgão Especial”. Vencido o Min. Marco
Aurélio, relator, que deferia a ordem por entender que o
procedimento adotado contraria o referido art. 118. HC
74.440-RS, rel. ven. Min. Marco Aurélio, rel. p/ ac. Min.
Maurício Corrêa, 26.11.96.

Limitações ao Direito de Propriedade


Adiado, em virtude de pedido de vista do Min. Néri da
Silveira, o julgamento de recurso extraordinário em que se
discute sobre a validade, em face da CF/69, de decreto do
Município do Rio de Janeiro que, visando à preservação de
conjuntos arquitetônicos de valor histórico, impôs restrições
ao uso de imóveis situados nos bairros de Laranjeiras e
Cosme Velho. Até o momento, foram proferidos três votos:
os dos Ministros Maurício Corrêa, relator, e Francisco Rezek
conhecendo e dando provimento ao recurso do Município,
ao fundamento de que o acórdão recorrido, ao afirmar a
invalidade do questionado decreto, ofendera o art. 15, II, da
Carta de 1969 (“A autonomia municipal será assegurada: II
- pela administração própria, no que respeite ao seu
peculiar interesse;”) , e o do Min. Marco Aurélio,
confirmando a decisão do Tribunal de Justiça local, por
julgar necessária a existência de lei disciplinando a matéria
contida no decreto. RE 121.140-RJ, rel. Min. Maurício
Corrêa, 03.12.96.

Princípio da Irretroatividade da Lei Penal


É de direito material, e não processual, a natureza das
normas que disciplinam o regime de cumprimento da pena.
Com este entendimento, a Turma deferiu em parte habeas
corpus impetrado contra decisão do Tribunal de Justiça do
Estado de São Paulo que aplicara o art. 2º, § 1º, da Lei dos
Crimes Hediondos (“A pena por crime previsto neste artigo
será cumprida integralmente em regime fechado.”) a crime
cometido antes do início de sua vigência. Hipótese de
retroatividade vedada pelo art. 5º, XL, da CF (“a lei penal
não retroagirá, salvo para beneficiar o réu;”). HC 74.410-
SP, rel. Min. Francisco Rezek, 26.11.96.

Quadrilha Armada e Crime Hediondo


Ao determinar o aumento da pena “prevista no art. 288
do Código Penal, quando se tratar de crimes hediondos,
prática da tortura, tráfico ilícito de entropecentes e drogas
afins ou terrorismo”, o art. 8º da Lei 8072/90 não afastou a
qualificadora do parágrafo único do art. 288, que prescreve a
aplicação em dobro da pena se a quadrilha ou bando é
armado. Admitindo embora a possibilidade de concurso
dessas duas causas de aumento de pena, a Turma deferiu em
parte pedido de habeas corpus, tendo em vista a não
observância, na espécie, do art. 68, parágrafo único, do CP
(“No concurso de causas de aumento ou de diminuição
previstas na parte especial, pode o juiz limitar-se a um só
aumento ou a uma só diminuição, prevalecendo, todavia, a
causa que mais aumente ou diminua.”). HC 74.269-RJ, rel.
Min. Néri da Silveira, 03.12.96.

Sessões Ordinárias Extraordinárias Julgamentos

Pleno 04.12.96 05.12.96 07


1ª Turma 03.12.96 ------ 158
2ª Turma 03.12.96 ------ 102

CLIPPING DO DJ
06 de dezembro de 1996

ADIn N. 755-6 *
RELATOR: MIN. MAURÍCIO CORRÊA **
EMENTA: (...)
1. O art. 40, III, b, da Constituição Federal assegura o direito à
aposentadoria especial "aos trinta anos de efetivo exercício nas
funções de magistério, se professor, e vinte e cinco, se professora,
com proventos integrais"; outras exceções podem ser previstas em
lei complementar (CF, art. 40, § 1º), "no caso de exercício de
atividades consideradas penosas, insalubres ou perigosas".
2. A expressão "efetivo exercício em funções de magistério" contém
a exigência de que o direito à aposentadoria especial dos professores
só se aperfeiçoa quando cumprido totalmente este especial requisito
temporal no exercício das específicas funções de magistério,
excluída qualquer outra.
3. Não é permitido ao constituinte estadual nem à lei complementar
federal fundir normas que regem a contagem do tempo de serviço
para aposentarias sob regimes diferentes, contando
proporcionalmente o tempo de serviço exercido em funções
diversas.
4. Ação direta conhecida e julgada procedente, por maioria, para
declarar a inconstitucionalidade do § 6º do art. 126 da Constituição
do Estado de São Paulo, porque o art. 40 da Constituição Federal é
de observância obrigatória por todos os níveis de Poder. Precedente:
ADI nº 178-7/RS.

* Noticiado no Informativo 38.


** Relator originário, Min. Marco Aurélio.

ADIn N. 795-5
RELATOR: MIN. MAURÍCIO CORRÊA
EMENTA: (...)
2. Se a norma inquinada de inconstitucionalidade em sede do
controle abstrato deixa de integrar o ordenamento jurídico, porque
revogada, torna-se insubsistente o interesse de agir, o que implica
prejudicialidade, por perda do objeto.
3. Pedido julgado prejudicado.

ADIn N. 1438-2 *
RELATOR: MIN. ILMAR GALVÃO
EMENTA: AÇÃO DIRETA DE
INCONSTITUCIONALIDADE. LEI Nº 1.007, DE 10 DE
JANEIRO DE 1996, QUE PREVÊ O REAJUSTE DA
REMUNERAÇÃO DOS SERVIDORES PÚBLICOS DO
DISTRITO FEDERAL, A PARTIR DE 1º DE JANEIRO DE 1996,
NOS MESMOS PERCENTUAIS CONCEDIDOS PELO
GOVERNO FEDERAL AOS SERVIDORES DA UNIÃO.
ALEGADA OFENSA AOS PRINCÍPIOS DA AUTONOMIA DA
UNIDADE FEDERADA, DA VEDAÇÃO DE VINCULAÇÃO DE
VENCIMENTOS, DA LIMITAÇÃO DAS DESPESAS
ORÇAMENTÁRIAS COM PESSOAL E DA INICIATIVA
PRIVATIVA DO CHEFE DO PODER EXECUTIVO PARA LEIS
QUE DISPONHAM SOBRE REMUNERAÇÃO DE
SERVIDORES.
Pedido que, não obstante se mostre plausível quanto ao
fundamento da inconstitucionalidade, notadamente no que tange ao
aspecto formal, ressente-se da ausência do requisito do periculum
in mora, dado não se ter verificado a condição a que se achava
subordinada a norma impugnada.
Cautelar indeferida.

* Noticiado no Informativo 34.

ADIn N. 1493-5 *
RELATOR: MIN. SYDNEY SANCHES
EMENTA: (...)
1. Não pode ser conhecida a Ação Direta de Inconstitucionalidade,
no ponto em que impugna Súmulas do T.S.E., por falta de
possibilidade jurídica, já que não se trata de atos normativos (art.
102, I, "a", da C.F.). Precedentes do S.T.F.
2. É cabível a ADI, na parte em que impugna a alínea "e" do inciso
I do art. 1º da LC 64/90 e seu parágrafo 2º.
3. Sua plausibilidade jurídica, porém, não é de ser reconhecida
("fumus boni juris"), para efeito de concessão de medida cautelar,
para sua suspensão.
É que, se tais dispositivos não encontravam apoio claro na
redação originária do § 9º do art. 14 da C.F., passaram a tê-lo em sua
redação atual, dada pela E.C. nº 4/94, que possibilita o
estabelecimento de outros casos de inelegibilidade, por Lei
Complementar, "a fim de proteger a probidade administrativa, a
moralidade para o exercício do mandato, considerada a vida
pregressa do candidato".
4. Não procede, também, a um primeiro exame, a alegação de
ofensa ao art. 15 e seu inciso III da C.F., segundo os quais "é vedada
a cassação de direitos políticos, cuja perda ou suspensão só se dará
nos casos de condenação criminal transitada em julgado, enquanto
durarem seus efeitos".
É que os textos impugnados não tratam de cassação de direitos
políticos, de sua perda ou suspensão, mas, sim, de inelegibilidades.
5. Ação Direta de Inconstitucionalidade conhecida, em parte, mas,
na parte em que conhecida, resta indeferida a medida cautelar de
suspensão da alínea "e" do inc. I do art. 1º e de seu parágrafo 2º,
todos da LC nº 64/90.
6. Decisão unânime.

Noticiado no Informativo 46.

HABEAS CORPUS N. 70633-9


RELATOR: MIN. NÉRI DA SILVEIRA
EMENTA: - Habeas Corpus. 2. Representação, em matéria
eleitoral, apresentada pelo Ministério Público Eleitoral, com base no
art. 22, da Lei Complementar nº 64/1990. 3. Não se cuida, no caso,
de processo criminal, não sendo a espécie enquadrável no art. 102, I,
letra b, da Constituição, quando o representado é parlamentar
federal. Não cabe, nesse caso, falar em competência originária do
STF, para o processo e julgamento da representação nem em licença
prévia da Casa do Congresso Nacional a que pertença o parlamentar.
4. Precedente do STF, no HC 70.140-0 - RJ, impetrado em favor da
mesma paciente. 5. Habeas Corpus não conhecido.

HABEAS CORPUS N. 71039-5


RELATOR: MIN. PAULO BROSSARD
EMENTA: Ao Supremo Tribunal Federal compete exercer,
originariamente, o controle jurisdicional sobre atos de comissão
parlamentar de inquérito que envolvam ilegalidade ou ofensa a
direito individual, dado que a ele compete processar e julgar habeas-
corpus e mandado de segurança contra atos das Mesas da Câmara
dos Deputados e do Senado Federal, art. 102, I, i, da Constituição, e
a comissão parlamentar de inquérito procede como se fora a Câmara
dos Deputados ou o Senado Federal ou o Congresso Nacional.
Construção constitucional consagrada, MS 1959, de 1953 e HC
92.678, de 1953.
Às câmaras legislativas pertencem poderes investigatórios, bem
como os meio instrumentais destinados a torná-los efetivos. Por uma
questão de funcionalidade elas os exercem por intermédio de
comissões parlamentares de inquérito, que fazem as suas vezes.
Mesmo quando as comissões parlamentares de inquérito não eram
sequer mencionadas na Constituição, estavam elas armadas de
poderes congressuais, porque sempre se entendeu que o poder de
investigar era inerente ao poder de legislar e de fiscalizar, e sem ele
o Poder Legislativo estaria defectivo para o exercício de suas
atribuições.
O poder investigatório é auxiliar necessário do poder de legislar;
"conditio sine qua non" de seu exercício regular.
Podem ser objeto de investigação todos os assuntos que estejam na
competência legislativa ou fiscalizatória do Congresso.
Se os poderes da comissão parlamentar de inquérito são
dimensionados pelos poderes da entidade matriz, os poderes desta
delimitam a competência da comissão. Ela não terá poderes maiores
do que os de sua matriz. De outro lado, o poder da comissão
parlamentar de inquérito é coextensivo ao da Câmara dos
Deputados, do Senado Federal o do Congresso Nacional.
São amplos os poderes da comissão parlamentar de inquérito, pois
são os necessários e úteis para o cabal desempenho de suas
atribuições. Contudo, não são ilimitados. Toda autoridade, seja ela
qual for, está sujeita à Constituição. O Poder Legislativo também e
com ele as suas comissões. A comissão parlamentar de inquérito
encontra na jurisdição constitucional do Congresso seus limites.
Por uma necessidade funcional, a comissão parlamentar de inquérito
não tem poderes universais, mas limitados a fatos determinados, o
que não quer dizer não possa haver tantas comissões quantas as
necessárias para realizar as investigações recomendáveis, e que
outros fatos, inicialmente imprevistos, não possam ser aditados aos
objetivos da comissão de inquérito, já em ação.
O poder de investigar não é um fim em si mesmo, mas um poder
instrumental ou ancilar relacionado com as atribuições do Poder
Legislativo.
Quem quer o fim dá os meios. A comissão parlamentar de inquérito,
destinada a investigar fatos relacionados com as atribuições
congressuais, tem poderes imanentes ao natural exercício de suas
atribuições, como de colher depoimentos, ouvir indiciados, inquirir
testemunhas, notificando-as a comparecer perante ela e a depor; a
este poder corresponde o dever de, comparecendo a pessoa perante a
comissão, prestar-lhe depoimento, não podendo calar a verdade.
Comete crime a testemunha que o fizer. A Constituição, art. 58, § 3º,
a Lei 1579, art. 4º, e a jurisprudência são nesse sentido.
Também pode requisitar documentos e buscar todos os meios de
provas legalmente admitidos.
Ao poder de investigar corresponde, necessariamente, a posse dos
meios coercitivos adequados para o bom desempenho de suas
finalidades; eles são diretos, até onde se revelam eficazes, e
indiretos, quando falharem aqueles, caso em que se servirá da
colaboração do aparelho judiciário.
Os poderes congressuais, de legislar e fiscalizar, hão de estar
investidos dos meios apropriados e eficazes ao seu normal
desempenho.
O poder de fiscalizar, expresso no inciso X do art. 49 da
Constituição, não pode ficar condicionado a arrimo que lhe venha a
dar outro Poder, ainda que, em certas circunstâncias, ele possa vir a
ser necessário.
A comissão parlamentar de inquérito se destina a apurar fatos
relacionados com a administração, Constituição, art. 49, X, com a
finalidade de conhecer situações que possam ou devam ser
disciplinadas em lei, ou ainda para verificar os efeitos de
determinada legislação, sua excelência, inocuidade ou nocividade.
Não se destina a apurar crimes nem a puni-los, da competência dos
Poderes Executivo e Judiciário; entretanto, se no curso de uma
investigação, vem a deparar fato criminoso, dele dará ciência ao
Ministério Público, para os fins de direito, como qualquer
autoridade, e mesmo como qualquer do povo. Constituição, art. 58, §
3º, in fine.
A comissão parlamentar de inquérito tem meios para o desempenho
de suas atribuições e finalidades. Procede regularmente com os seus
meios, intimando testemunhas, requisitando papéis, servindo-se dos
meios ordinários e habituais, o contacto direto do relator, o telefone,
o ofício, a intimação por funcionário seu, posto à sua disposição, e
só por exceção se serve da colaboração de outro poder.
Dificilmente a comissão poderia cumprir sua missão se, a todo
momento e a cada passo, tivesse de solicitar a colaboração do Poder
Judiciário para intimar uma testemunha a comparecer e a depor. (...)
A comissão pode, em princípio, determinar buscas e apreensões, sem
o que essas medidas poderiam tornar-se inócuas e quando viessem a
ser executadas cairiam no vazio. Prudência, moderação e adequação
recomendáveis nessa matéria, que pode constituir o "punctum
dollens" da comissão parlamentar de inquérito no exercício de seus
poderes, que, entretanto, devem ser exercidos, sob pena da
investigação tornar-se ilusória e destituída de qualquer sentido útil.
Em caso de desacato, à entidade ofendida cabe tomar as
providências devidas ato contínuo, sem prejuízo do oportuno envio
das peças respectivas ou do auto correspondente ao Ministério
Público para a instauração do processo criminal.
Ninguém pode escusar-se de comparecer a comissão parlamentar de
inquérito para depor. Ninguém pode recusar-se a depor.
Contudo, a testemunha pode escusar-se a prestar depoimento se este
colidir com o dever de guardar sigilo. O sigilo profissional tem
alcance geral e se aplica a qualquer juízo, cível, criminal,
administrativo ou parlamentar.
Não basta invocar sigilo profissional para que a pessoa fique isenta
de prestar depoimento. É preciso haver um mínimo de credibilidade
na alegação e só a posteriori pode ser apreciado caso a caso. A
testemunha, não pode prever todas as perguntas que lhe serão feitas.
O Judiciário deve ser prudente nessa matéria, para evitar que a
pessoa venha a obter HC para calar a verdade, o que é modalidade
de falso testemunho.
Prisão decretada pelo presidente da CPI que extravasa claramente os
limites legais. "Habeas Corpus" concedido para cassar o decreto
ilegal, sem prejuízo do dever de seu comparecimento à Comissão,
para ser inquirido como testemunha ou ouvido como indiciado.

HABEAS CORPUS N. 73755-2 *


RELATOR: MIN. NÉRI DA SILVEIRA
EMENTA: - Habeas Corpus. 2. Alegação de cerceamento
de defesa que não é de acolher-se, diante das circunstâncias do caso
concreto. É dever do juiz, no curso do processo, coibir atos e
estratégias da defesa que tenham por fito procrastinar o andamento
do feito. Na espécie, não comparecendo novo defensor constituído
pelo réu, o magistrado nomeou o Defensor Público do Estado, o qual
prestou assistência judiciária ao réu, de forma competente. 3.
Deferimento do habeas corpus, pelo segundo fundamento, para
excluir a pena restritiva de direito, consistente na prestação de
serviços à comunidade, mantendo-se, destarte, a substituição da pena
de detenção de três meses pela de multa estabelecida em vinte (20)
dias-multa, nos termos da sentença. Ofensa ao art. 60, § 2º, do
Código Penal. Não incide, na espécie, o parágrafo único do art. 44
do mesmo Código. Precedente do STF.

* Noticiado no Informativo 36.


HABEAS CORPUS N. 73761-7 *
RELATOR: MIN. MAURÍCIO CORRÊA
EMENTA: (...)
1.Não implica nulidade processual, por violação ao princípio
constitucional da plenitude de defesa e ofensa ao primado do due
process of law, a decisão do Tribunal de Justiça que, em sessão
realizada sem a presença do defensor constituído, cuja ausência não
foi justificada, apesar de regularmente intimado, manifestou-se, sem
nomeação de defensor dativo para a sustentação oral, pelo
afastamento do acusado do exercício do cargo de prefeito municipal
enquanto durar a instrução criminal, sem que tal afastamento tenha
sido objeto da denúncia recebida.
2.Com ou sem pedido formal do Ministério Público no sentido do
afastamento do exercício do cargo de prefeito municipal, em sendo
hipótese de crimes capitulados no art. 1º do Decreto-lei nº 201/67,
ao Tribunal compete, se recebida a denúncia, manifestar-se a
respeito, no seu juízo de avaliação (art. 2º, inciso II).
3.Sendo a sustentação oral um ato facultativo às partes, dispensável
a nomeação de defensor dativo, tanto mais porque o denunciado já
havia se manifestado nos autos, ao responder os termos da denúncia.
4.Habeas corpus conhecido mas indeferido.

* Noticiado no Informativo 41.

HABEAS CORPUS N. 74022-7


RELATOR: MIN. MARCO AURÉLIO
RECURSO - DECISÃO DO TRIBUNAL DO JÚRI - NOVO
JULGAMENTO - FIXAÇÃO DA PENA. Ainda que se trate de
sentença decorrente de um segundo júri, porque anulado o primeiro,
ao fundamento de haver se mostrado o veredicto dos jurados
contrário à prova dos autos, cabível a apelação no que impugnado
ato do Juiz Presidente que implicou a fixação da pena. Vedada é a
reapreciação do novo veredicto, nada impedindo que se recorra
contra a dosimetria da pena.

HABEAS CORPUS N. 74067-7 *


RELATOR: MIN. OCTAVIO GALLOTTI
EMENTA: - Ordem impetrada contra acórdão que negou
provimento a apelação oposta, pelo réu, a julgamento do Tribunal do
Júri que não devolve à Corte de segundo grau, o conhecimento
integral do processo.
Versando o habeas corpus matéria estranha ao acórdão da
apelação interposta com fundamento no art. 593, III, d, do Cód.
Proc. Penal, competente para originariamente apreciá-lo é o Tribunal
de Justiça e não o Supremo Tribunal Federal.

* Noticiado no Informativo 40.

MANDADO DE INJUNÇÃO N. 108-1


RELATOR: MIN. MAURÍCIO CORRÊA
EMENTA: MANDADO DE INJUNÇÃO. ESTABILIDADE.
OFICIAIS MILITARES TEMPORÁRIOS. CONSTITUIÇÃO
FEDERAL - ART. 42, § 9º. FALTA DE LEGITIMIDADE AD
CAUSAM. NÃO CONHECIMENTO.
O art. 42, § 9º, da CF/88 não concedeu aos impetrantes garantia à
estabilidade. Determinou somente que a norma regulamentadora
estabelecesse os pressupostos a serem preenchidos para adquirir tal
direito.
A condição de temporariedade prevista nos regulamentos do
Exército é contrária à aquisição da estabilidade. Carecem os
recorrentes de legitimidade para buscar na via judicial o direito que
perseguem.
Mandado de Injunção não conhecido.

AI N. 171909-5 (AgRg)
RELATOR: MIN. MAURÍCIO CORRÊA
EMENTA: AGRAVO REGIMENTAL EM AGRAVO DE
INSTRUMENTO. CONSTITUCIONAL. CONCURSO PÚBLICO
PARA O CARGO DE SECRETÁRIO DE ESCOLA. LIMITE
MÁXIMO DE IDADE. IMPOSSIBILIDADE.
O cargo de secretário de escola não pressupõe qualquer situação
peculiar que necessite impor-se um limite máximo de idade para o
seu exercício, a não ser aquela estabelecida pelo texto constitucional,
para o ingresso no serviço público.
Agravo regimental não provido.

RECURSO EXTRAORDINÁRIO N. 193969-9 *


RELATOR: MIN. CARLOS VELLOSO
EMENTA: - CONSTITUCIONAL. TRIBUTÁRIO. ICMS.
IMUNIDADE TRIBUTÁRIA. INSTITUIÇÃO DE EDUCAÇÃO
SEM FINS LUCRATIVOS. C.F., art. 150, VI, "c".
I. - Não há invocar, para o fim de ser restringida a aplicação da
imunidade, critérios de classificação dos impostos adotados por
normas infraconstitucionais, mesmo porque não é adequado
distinguir entre bens e patrimônio, dado que este se constitui do
conjunto daqueles. O que cumpre perquirir, portanto, é se o bem
adquirido, no mercado interno ou externo, integra o patrimônio da
entidade abrangida pela imunidade.
II. - Precedentes do STF.
III. - R.E. conhecido e provido.

* Noticiado no Informativo 45.

RECURSO EXTRAORDINÁRIO N. 180624-9


RELATOR: MIN. CARLOS VELLOSO
EMENTA: CONSTITUCIONAL. SINDICATO.
CONTRIBUIÇÃO INSTITUÍDA PELA ASSEMBLÉIA GERAL:
CARÁTER NÃO TRIBUTÁRIO. NÃO COMPULSORIEDADE.
EMPREGADOS NÃO
SINDICALIZADOS: IMPOSSIBILIDADE DO DESCONTO. C.F.,
art. 8º, IV.
I. - A contribuição confederativa, instituída pela Assembléia Geral
C.F., art. 8º, IV distingue-se da contribuição sindical, instituída por
lei, com caráter tributário C.F., art. 149 assim compulsória. A
primeira é
compulsória apenas para os filiados do sindicato.
II. - R.E. não conhecido.

Acórdãos publicados: 371

T R A N S C R I Ç Õ E
S

Com a finalidade de proporcionar aos leitores


do INFORMATIVO STF uma compreensão mais
aprofundada do pensamento do Tribunal,
divulgamos neste espaço trechos de decisões que
tenham despertado ou possam despertar de modo
especial o interesse da comunidade jurídica.

Medida Cautelar no Processo Trabalhista


RE 162.309-PE *

Ministro Marco Aurélio (relator)


Relatório: - Valho-me, em parte, do relato feito na decisão
do agravo em apenso:

“O Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos


Bancários de Garanhuns, atuando na qualidade de
substituto processual dos associados que prestam
serviços ao Recorrente nas agências mencionadas à
folha 16, ajuizou medida cautelar inominada na qual,
apontando o conflito do artigo 1º do Decreto-lei nº
2.425/88 com a própria Constituição Federal em vigor,
pleiteou fosse o Recorrente compelido a aplicar aos
salários dos substituídos os percentuais da Unidade de
Referência de Preços (URP) pertinentes aos meses de
abril e maio de 1988, observando-se os reajustes
posteriores. O pedido foi agasalhado pela Junta de
Conciliação e Julgamento que, mediante a sentença de
folhas 37 a 42, concluiu pelo cabimento da cautelar e
impôs condenação no sentido de o Banco efetuar o
pagamento das diferenças salariais requeridas,
incorporando-se tal reajuste aos salários. Na
oportunidade, o Colegiado de primeiro grau reportou-se
ao caráter provisório da decisão, assinando como termo
final de vigência o julgamento da ação principal ou
"contra-ordem deste Juízo ou de órgão jurisdicional
superior" (folha 42).
Após o julgamento de embargos declaratórios, nos
quais veiculados os vícios de omissão e contradição
(folhas 45 a 47), o Banco interpôs recurso ordinário,
alegando a nulidade da sentença, a incompetência
absoluta do Juízo, a carência da ação, a
constitucionalidade do Decreto-lei nº 2.425/88, a
inexistência de direito adquirido à correção e a
harmonia do diploma legal disciplinador da URP e do
procedimento adotado com o artigo 170, § 2º, da
Constituição Federal. Argüiu, mais, a necessidade de
prestação de caução e a impertinência dos honorários
advocatícios (folhas 48 a 63).
A egrégia Terceira Turma do Tribunal Regional do
Trabalho da Sexta Região negou acolhida ao pedido
formulado no recurso. Na oportunidade, refutou a tese
no sentido da impossibilidade jurídica do pedido.
Asseverou que "no processo trabalhista, dependendo do
caráter ou objeto constante da cautelar, a sua natureza
preventiva se transforma em satisfativa, sem ser
definitiva", para, a seguir, consignar que "no caso sub
judice, seria o cumprimento temporário da liminar, até o
julgamento da medida definitiva, em face da
probabilidade da certeza do direito violado". Assentou o
Colegiado que as medidas cautelares têm por objeto
pronunciamento provisório do Judiciário, especialmente
quando se nota a demora na entrega da prestação
jurisdicional definitiva, concluindo que a pretensão do
Sindicato encontra agasalho no preceito do § 3º do
artigo 153 da Constituição Federal, já que o Decreto-
Lei nº 2.425/88 feriu o princípio nele insculpido (folhas
68 a 73) O Banco opôs embargos
declaratórios objetivando ver enfrentada a matéria sob
o ângulo do devido processo legal e da impossibilidade
de ser compelido a satisfazer as diferenças salariais sem
lei que o obrigue a tanto (folhas 74 a 77). Os
declaratórios foram acolhidos em parte, para expungir
contradição no que se fez remissão ao parecer do
Ministério Público. No mais, rechaçou-se a pertinência
dos embargos, afirmando-se a emissão de juízo quanto à
inconstitucionalidade do Decreto-Lei nº 2.425/88, em
face da cláusula pétrea atinente ao direito adquirido
(folhas 79 a 81).
No recurso que interpôs perante o Tribunal Superior
do Trabalho, o Banco sustentou que a Corte de origem,
ao prolatar as decisões impugnadas, olvidou a norma do
inciso LIV do artigo 5º e do inciso IX do artigo 93 da
Constituição Federal. Atribuiu aos provimentos judiciais
a pecha de contrários aos dois dispositivos
constitucionais, propugnando, mais uma vez, pela
impossibilidade de ser condenado sem que tenham sido
observados os meios adequados a alcançar a prestação
jurisdicional. Argumentou que a hipótese não comporta
a medida cautelar deferida, cujo objeto confunde-se
com o que é próprio ao processo principal.

O ilustre Juiz Presidente do Tribunal Regional do


Trabalho da Sexta Região negou seguimento à revista
(folha 87) e, interposto agravo de instrumento, a Turma
teve como irrelevante o que contido na respectiva
minuta. Refutou a alegação de malferimento aos artigos
mencionados pelo Recorrente, assinalando a ausência
de prequestionamento no tocante ao devido processo
legal (folhas 102 a 104). Ainda uma vez o Banco
protocolou embargos declaratórios, salientando
aspectos que estariam a merecer apreciação do
Colegiado (folhas 106 e 107). Os embargos foram
acolhidos, consignando-se que a suposta ofensa ao
inciso II do artigo 5º da Lei Básica Federal foi afastada
e que os demais preceitos evocados pelo Embargante
não foram veiculados na revista (folhas 101 e 102).
Daí o recurso extraordinário de folhas 114 a 121,
insistindo o Banco que o decidido revela desrespeito às
garantias inseridas na ordem jurídica pelos incisos II,
XXXV, XXXVI e LIV do artigo 5º da Constituição
Federal.
O ilustre Presidente do Tribunal Superior do
Trabalho indicou como óbice ao trânsito do
extraordinário a falta de prequestionamento, aludindo à
circunstância de a decisão impugnada conter referência
ao verbete n.º 297 da Súmula daquela Corte. Assentou,
noutro passo, que a simples afirmativa de que houve
malferimento à Lei Básica ou mesmo a citação de
dispositivos da Constituição não caracterizam a
veiculação da temática constitucional (folha 132).”

Em 13 de maio de 1993, encaminhei os autos à


Procuradoria Geral da República que, em parecer de folhas
159 e 160, versando sobre o mérito da controvérsia,
preconiza o provimento parcial do recurso para limitar a
condenação ao pagamento de sete trinta avos de 16,19%
sobre os vencimentos de abril e maio de 1988 não
cumulativamente, mas corrigidos monetariamente.
Os autos voltaram-me conclusos em 28 de junho de
1996, sendo que os liberei em 17 seguinte.

Voto: [...] Na verdade, a única matéria que se faz presente é


a relativa ao devido processo legal, no que, considerada a
via estrita da demanda cautelar, ter-se-ia julgado pedido
somente passível de ser analisado em reclamação trabalhista
e, portanto, em processo principal. Valho-me do que tive
oportunidade de consignar ao prover o agravo em apenso:

“Quanto à questão de fundo, constata-se que o


Agravante foi condenado a satisfazer diferenças
salariais em demanda a que se emprestou a
nomenclatura de cautelar e que, como tal, tramitou
perante a Junta de Conciliação e Julgamento de
Garanhuns, o Tribunal Regional do Trabalho da Sexta
Região e o Tribunal Superior do Trabalho. Dirimindo a
controvérsia, o Colegiado Regional, mediante
pronunciamento do Órgão fracionado, teve como
inconstitucional determinado ato normativo. Venho
frisando, em votos e decisões singulares, que o devido
processo legal há de ser preservado em sua extensão
maior. Descabe articular como óbice à atuação
principal desta Corte, de guardiã da Carta, o fato de a
decisão atacada mediante o extraordinário estar
lastreada em interpretação de preceitos da legislação
ordinária. A alçar-se a dogma a jurisprudência pretérita
segundo a qual a vulneração à Carta deve ser frontal e
direta, não impulsionando o extraordinário aquela
resultante do desrespeito à legislação ordinária, tornar-
se-á letra morta a garantia insculpida no inciso LV do
artigo 5º da Lei Básica Federal, já que, ao cogitar do
direito dos litigantes a processo em que assegurados o
contraditório e a ampla defesa, o dispositivo
constitucional remete explicitamente aos meios e
recursos a ela inerentes e estes não estão compreendidos
na própria Constituição, mas nos diplomas
instrumentais. A este aspecto somo o fato de o recurso
extraordinário ter sido interposto com base na alínea
"b" do inciso III do artigo 102 da Constituição Federal.
Declarou-se, no caso dos autos, a inconstitucionalidade
de lei federal, matéria que iniludivelmente deve merecer
o crivo de Colegiado desta Corte.”

Ademais, em uma das últimas publicações do primeiro


semestre judiciário de 1996, o Diário da Justiça veiculou o
que decidido por esta Turma no recurso extraordinário nº
158.215-4-RS:

DEFESA - DEVIDO PROCESSO LEGAL - INCISO


LV DO ROL DAS GARANTIAS CONSTITUCIONAIS -
EXAME - LEGISLAÇÃO COMUM. A intangibilidade do
preceito constitucional assegurador do devido processo
legal direciona ao exame da legislação comum. Daí a
insubsistência da óptica segundo a qual a violência à
Carta Política da República, suficiente a ensejar o
conhecimento de extraordinário, há de ser direta e
frontal. Caso a caso, compete ao Supremo Tribunal
Federal exercer crivo sobre a matéria, distinguindo os
recursos protelatórios daqueles em que versada, com
procedência, a transgressão a texto constitucional,
muito embora torne-se necessário, até mesmo, partir-se
do que previsto na legislação comum. Entendimento
diverso implica relegar à inocuidade dois princípios
básicos em um Estado Democrático de Direito - o da
legalidade e do devido processo legal, com a garantia
da ampla defesa, sempre a pressuporem a consideração
de normas estritamente legais.
COOPERATIVA - EXCLUSÃO DE ASSOCIADO -
CARÁTER PUNITIVO - DEVIDO PROCESSO LEGAL.
Na hipótese de exclusão de associado decorrente de
conduta contrária aos estatutos, impõe-se a observância
ao devido processo legal, viabilizado o exercício amplo
da defesa. Simples desafio do associado à assembléia
geral, no que toca à exclusão, não é de molde a atrair
adoção de processo sumário. Observância obrigatória
do próprio estatuto da cooperativa. (Diário da Justiça de
7 de junho de 1996, página 19.830).

Essa é a óptica que mais se coaduna com a organicidade


própria ao Direito e, mais ainda, com a função precípua desta
Corte, no que voltada à preservação dos ditames
constitucionais, especialmente considerados os direitos e
garantias individuais.
Conforme consta do relatório, até aqui o Banco do Brasil
tem contra si decisão prolatada em demanda cautelar,
reconhecendo aos substituídos pelo Sindicato o direito ao
reajuste dos respectivos salários, de acordo com a Unidade
de Referência de Preços, de abril e maio de 1988. Atribuiu-se
ao provimento judicial o caráter provisório. Entrementes,
impôs-se condenação que somente poderia ser alcançada
mediante a ação principal: a reclamação trabalhista. A
demanda cautelar tem como objetivo maior a eficácia de uma
decisão favorável a ser proferida em ação na qual,
observados os parâmetros legais alusivos ao direito de
defesa, houve a prolação de uma sentença condenatória
propriamente dita. Descabe transmudar a ação cautelar em
meio visando a alcançar a antecipação, embora provisória, de
prestação jurisdicional somente viável uma vez ajuizada
ação de cobrança. Tanto é assim que, somente com a reforma
do Código de Processo Civil decorrente da Lei nº 8.952 e
seguintes, foi introduzido preceito autorizando o Órgão
investido do ofício judicante a proceder, uma vez ajuizada
não a demanda cautelar, mas a principal, à antecipação da
tutela:

“Art. 273 O juiz poderá, a requerimento da parte,


antecipar, total ou parcialmente, os efeitos da tutela
pretendida no pedido inicial, desde que, existindo prova
inequívoca, se convença da verossimilhança da
alegação e:
I - haja fundado receio de dano irreparável ou de
difícil reparação; ou
II - fique caracterizado o abuso de direito de defesa
ou o manifesto propósito protelatório do réu.
§ 1º Na decisão que antecipar a tutela, o juiz
indicará, de modo claro e preciso, as razões do seu
convencimento.
§ 2º Não se concederá a antecipação da tutela
quando houver perigo de irreversibilidade do
provimento antecipado.
§ 3º A execução da tutela antecipada observará, no
que couber, o disposto nos incisos II e III do art. 588.
§ 4º A tutela antecipada poderá ser revogada ou
modificada a qualquer tempo, em decisão
fundamentada.
§ 5º Concedida ou não a antecipação da tutela,
prosseguirá o processo até o final do julgamento.”

Ora, na espécie dos autos, chegou-se à imposição do


reajuste via demanda cautelar, tudo ocorrendo antes da
reforma do Código de Processo Civil. Cumpre ter presente,
ainda, a revelar que, no caso, o Banco do Brasil foi
condenado mediante processo que não se coaduna com a
garantia constitucional, que a Consolidação das Lei do
Trabalho não é omissa sobre a possibilidade de chegar-se a
antecipação provisória da prestação jurisdicional. O fato
atrai, inclusive, fundadas dúvidas quanto à aplicabilidade do
disposto no artigo 273 do Código de Processo Civil ao
processo trabalhista. O preceito do inciso IX do artigo 659
da Consolidação apenas prevê a possibilidade de o juiz
conceder medida liminar, a viger até a decisão final do
processo, em reclamação trabalhista, e não em demandas
cautelares, que visem a tornar sem efeito a transferência
disciplinada pelos parágrafos do artigo 469.
Destarte, tenho como transgredido o referido inciso LV
do rol das garantias constitucionais. O precedente
estabelecido é nefasto, em face da desejável procura da
observância dos ditames instrumentais, ensejando, assim, o
direito de defesa. Utilizou-se o instrumento da demanda
cautelar com a finalidade única de se ter, de imediato, o
reconhecimento do direito, uma vez contemplada a liminar.
Repita-se: o tema somente era passível de análise pelo
Judiciário uma vez ajuizada a reclamação trabalhista. O que
se nota é que, a esta altura, mantido o quadro, a reclamação
trabalhista servirá, unicamente, à definitividade do
reconhecimento do direito ao reajuste. Ao Colegiado,
informo que não cabe a solução preconizada pela
Procuradoria Geral da República, vez que a matéria alusiva à
inconstitucionalidade do Decreto-Lei nº 2.425/88, no que
afastou o reajustamento salarial a partir da Unidade de
Referência de Preços de abril e maio de 1988, ficou restrita
ao âmbito do Regional. No recurso de revista, apenas
veiculou-se a problemática concernente à transgressão ao
devido processo legal. Confira-se o que se contém às folhas
82 a 86. Apreciar-se, agora, mesmo que a partir de
jurisprudência sedimentada na Corte, o direito ao reajuste,
será admitir o recurso extraordinário contra a decisão do
próprio Regional, olvidando-se a necessidade de
esgotamento dos recursos no âmbito da jurisdição
especializada, que é a do trabalho.
Conheço do extraordinário e o provejo para, reformando
a decisão proferida pelo Tribunal Superior do Trabalho,
julgar extinto o processo sem a apreciação do mérito, em
face da incompatibilidade do pedido formulado com a ordem
jurídica em vigor e, portanto, com a ação ajuizada.
É o meu voto.

Assessor responsável pelo Informativo


Miguel Francisco Urbano Nagib
nagib@stf.gov.br