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UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE

INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E FILOSOFIA


DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA

Disciplina: Filosofia Geral - Problemas Metafísicos V


Docente: Luis Antônio Ribeiro
Discente: Patrícia da Silva Lima Moreira

DIVAGAÇÕES SOBRE A QUESTÃO DA DURAÇÃO EM BERGSON

Trabalho final para a disciplina

Niterói
2018
Em “Ensaio sobre os dados imediatos da consciência”, Bergson, propõe logo em seu prefácio
uma problemática: a de que para nos exprimir, comunicar, viver em sociedade, nos
expressamos através de palavras e de que com isso, nos exprimimos no espaço. A proposta é
a de que a linguagem propriamente e necessariamente tem uma ligação intrínseca com o
espaço, com o que ele chama de extensão; portanto, nos exprimimos por contornos, por
divisões, e, inevitavelmente, temos na própria maneira de expressão o alocamento de
intervalos para delimitar o que pensamos e comunicamos. Esta é uma espécie de organização
para a vida social, uma demanda da vida prática.

A problemática da linguagem surge por conta de que tentamos falar de coisas que não são do
domínio da extensão - que seriam os estados psicológicos -, através de palavras que se
expressam espacialmente. É o que ele vai chamar de “tradução ilegítima” do inextenso em
extenso. E para fomentar e discutir esse problema, Bergson realiza uma divisão para fins
elucidativos: da ordem da extensão ele põe ao lado a quantidade e a simultaneidade; da ordem
do inextenso ou duração ele põe a qualidade e a sucessão. Ele tomará esses conceitos para
tratar do problema filosófico da liberdade ao longo da obra, de como nos aprisionamos
através da materialização e, portanto, da dotação de descontinuidade quando falamos dos
estados subjetivos do “eu”.

Primeiramente é tratado o problema de traduzir qualidades em quantidades: comumente


quando falamos sobre nossos estados psicológicos, falamos de intensidades que crescem ou
diminuem, que eles são mais ou menos intensos. O problema que aí reside é de que esses
estados são qualidades puras, e que quando tratados dessa forma - de quantidade -, perdem
seu real sentido; uma vez que quando quantificamos faz parecer que é apenas um único
sentimento que existe, e que experimentamos eles quantificando os diversos de intensidades,
mas o sentimento em si, seria só um, cristalizado e materializado. Para elucidar tomemos o
exemplo de um sentimento de tristeza: podemos senti-lo mas ele nunca será o mesmo, a
tristeza que senti há um tempo passado, não é a mesma que sinto agora; mas se digo que ela
cresceu em decorrência desse tempo, significaria dizer que é a mesma tristeza, que só
experienciou um crescimento quantitativo. Entretanto isto não é o que de fato acontece, por
isso o mais próximo que a linguagem permite para que se chegue próximo do que realmente
se tem experienciado é a palavra qualidade. Porque são sentimentos diferentes e que se

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diferem pela sua qualidade e não pela sua quantidade. Falar em quantidade é tratar, portanto,
do inextenso em extenso.

Essas distinções quantitativas, na vida prática, acabam servindo a fins comparativos.


Comparar esses sentimentos é como formar uma imagem deles no espaço, com níveis de
grandeza - maior ou menor -, mas quando se sente a sensação e se é invadido por ela, não há
essa comparação, porque apenas se encontra num estado de apenas “sentir”, mas é depois que
modificamos isso e falamos em intensidades quantitativas, em coisas que crescem ou
diminuem. Ou seja, é só depois, através do intelecto/inteligência, que pensamos sobre e
colocamos os sentimentos no espaço. E apenas se pode comparar o que deve ser idêntico, ou
seja, homogêneo, e sabe-se que os sentimentos não são iguais, por isso, mais uma vez, é uma
tradução ilegítima do inextenso em extenso. Em terapia essa tradução é muito utilizada: é
buscado um certo nível, que é espacial, para a visualização do que se sente e ter um certo tipo
de poder sobre a coisa sentida, isso é pura materialização do sentimento com vistas em
termos de se ter, possuir, tal como possuímos objetos materiais. É uma espécie de capa da
espacialidade para tornar o que é invisível (estados psicológicos puros) em visível,
consequentemente palpável. Isto em psicologia é muito anterior aos tempos atuais, era uma
problemática da época de Bergson também, que ele irá criticar muito em sua obra, que é a
psicofísica, uma espécie de psicologia positivista, das medições e da busca por fórmulas que
pudessem exprimir e, por que não, prever os estados psicológicos. Esse positivismo ainda se
encontra muito nas práticas psicológicas atualmente, assim, a discussão proposta em Bergson,
é pertinente para se pensar em uma nova espécie de psicologia, uma que tente se debruçar
sobre os estados psicológicos puros.

Comumente o que se faz para poder transformar em quantidade, e portanto, em extensão, o


que não é deste domínio - os estados psicológicos-, é buscar a causa, a origem da sensação,
que é esse contato do sujeito com a materialidade. É nessa reflexão sobre a sensação, na
busca pelo fato que pode tê-la desencadeado, na busca pelo espaço, a fim de poder mensurar
conforme o senso comum (daí temos uma espécie de consenso para determinar um estado
psicológico), que podemos ter uma ideia do que faz a psiquiatria quando se propõe em
construir uma espécie de catálogo para organizar os estados psicológicos, traduzindo-os por
meios científicos por ordem de comportamentos e padrões de sentimentos. É basicamente
através de um enquadramento por meio deste manual físico que as pessoas são classificadas

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como “doentes” ou não. É claro que essa discussão é muito mais complicada e também
perigosa (no caso de cair em soluções muito simples para questões muito complexas),
entretanto é interessante colocar em pauta como age a psiquiatria e até onde ela de fato
auxilia no conforto para o sujeito. Temos por detrás dessa discussão, ainda, a própria
farmacologia para esse tipo de “diagnóstico”, promovendo “tratamentos”. É portanto,
demasiada extensa, e seriam necessários diversos estudos para por de fato em xeque o modo
de agir da psiquiatria. Mas ela não é tão diferente daqueles psicofísicos que Bergson trata de
questionar a veracidade em sua obra. A psiquiatria busca de certa forma uma
homogeneização dos sujeitos e de seus estados psicológicos, inclusive e, principalmente,
quando se tem um catálogo de causas que levariam ao sujeito certos tipos de
comportamentos, como consequências daquela causa primeira. O que acaba comprometendo
de certa forma, a própria liberdade do indivíduo, como será tratado mais adiante quando se
falar da duração e do que seria o ato livre para Bergson.

Porém, mesmo buscando as causas, muitas vezes não as conseguimos encontrar, e mesmo
assim falamos em quantidades, em sensações que possuem crescimentos e diminuições.
Seriam portanto os estados psicológicos profundos, que “nascem” apenas em nós e não
possuem causa externa. Então, ainda, como quantificar essa espécie de sentimento se é um
aspecto puramente subjetivo? São estados que possuem uma intensidade pura, e são
puramente qualitativos, não possuindo medida. Podemos falar de progressos qualitativos, mas
não em grandezas. É então que Bergson introduz mais dois conceitos: o da consciência
reflexiva e o da consciência imediata. Essa busca pela quantidade seria própria da consciência
reflexa, uma busca por traduzir o que a consciência imediata experimenta - que é a própria
intuição; a reflexa opera por meio de justaposição das sensações e sentimentos, atribuindo
grandezas a elas, ela age por meio da espacialidade, delimitando contornos, tentando
objetivar os aspectos subjetivos. Mas as emoções são mais como um emaranhado de
sensações que se penetram, ou seja, falar em contornos, em delimitações, acaba por perder
toda a feição da própria emoção, que não comporta divisões.

Bergson introduz dois novos de conceito: o de tempo e o de multiplicidade; o tempo podendo


ser qualitativo e quantitativo; a multiplicidade de justaposição e a de penetração mútua. Para
melhor compreensão destes conceitos é importante tratar do número, pois nele podemos
observar como algo que se pensa ser totalmente abstrato, ainda assim se encontra traduzido

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pela espacialidade. O número é como uma síntese de uma multiplicidade, através de somas e
subdivisões ele pode ser tratado, e ele necessita para isso que exista uma homogeneidade de
seus termos, como que a par de uma igualdade para que possam ser tratados da mesma forma,
sempre tendo em vista sua função. Nessa pequena introdução sobre o número percebe-se que
quando se usa o termo função, estaríamos falando de um objetivo do número, e apenas esse
fato, aliado à ideia de que ele deva ser homogêneo para que se possam realizar operações,
nota-se que ele em si já perde sua abstração - o pensamos no espaço, por meios espaciais; o
termo função tende a remeter aquele utilitarismo que adota-se quanto a vida espacial, da
ordem da extensão, esse é um dos fatores que já emitem ao número esse caráter extensivo. A
multiplicidade de justaposição, que é da ordem da extensão, da quantidade, é exatamente
como o número: deixam-se as diferenças de lado (homogeneizando) e para realizar uma
espécie de síntese, os termos são justapostos no espaço, e são percepcionados, assim,
simultaneamente.

Ainda tomando a explicação do número, deve-se pensar sobre o tempo. O tempo ao contrário
do que se pode pensar, é uma sucessão pura e simples, mas que não comporta soma, tomando
as palavras de Bergson. Ora, se não comporta soma, ele acaba por se diferenciar do número, e
portanto, por não possuir essa característica, não pode ser homogêneo. O tempo seria uma
sucessão heterogênea que em seu estado puro e qualitativo não caberia em uma espacialidade,
embora muitas vezes seja traduzido desta maneira. O tempo enquanto
passado-presente-futuro, principalmente na relação passado-presente que se pode atentar para
a condição de que ele não se dá na extensão: um momento quando decorrido, desapareceria
por completo, ele só não desaparece, porque algo desse momento dura em nós - que o
percebemos. O movimento só é percepcionado quando se retém na memória toda a trajetória
de suas sucessões, e é com essa percepção que podemos perceber o tempo e o próprio
movimento das coisas no espaço (que por isso possuiria uma certa imobilidade se nós não
estamos o percepcionando).

Na multiplicidade de penetração mútua o que ocorre é a sucessão pura, num meio


heterogêneo, onde não cabe separação por meio de intervalos vazios, é um verdadeiro
emaranhado, e é essa a multiplicidade dos nossos estados internos. Muitas vezes para tratar
desses estados, atuamos através de uma representação simbólica desse tipo de multiplicidade,
falamos em sucessão e em heterogeneidade, mas ao tentar separar os estados psicológicos,

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acabamos por dar espacialidade a eles, e portanto, os homogeneizamos, os transformamos em
números e então pode-se falar que estamos justapondo esses estados, tal como numa
multiplicidade de justaposição. Esse é um ato próprio da consciência reflexa, que, também
atua de forma parecida quando falamos sobre o tempo e de como tentamos trazer a
espacialidade para ele.

É importante enfatizar que surge outro conceito que é central na obra de Bergson: o da
duração; que não comporta a multiplicidade de justaposição, pois esta é espacial, e a duração
pertence à consciência pura, ou seja, não admite espacialidade. Logo, se não é de uma
multiplicidade de justaposição que se fala, então só pode ser uma multiplicidade de
penetração mútua. A duração é o tempo em seu estado puro, e ela é algo da consciência pura.
Ela seria característica de quando o “eu” se deixa viver, um estado de sucessão pura em que
não se pode diferenciar os momentos e estados psicológicos, não admitindo intervalos, logo,
não cabendo falar de um passado e um presente, mas apenas o fluxo constante, uma espécie
de eterno devir da consciência. Essa sucessão seria uma de mudanças qualitativas, que se
penetram e se fundem, logo seria a pura heterogeneidade.

Por mais que se fale em duração, dificilmente a percepcionamos, pois ainda tentamos
transportá-la quase que na maior parte dos momentos da vida para a extensão e em termos
extensos, através da linguagem que não comporta falar da duração em si. Mas em casos nos
quais ficamos mais afastados de nossa tendência orgânica para uma vida prática (na
extensão), conseguimos entrar em contato com a duração pura. Geralmente isso se dá quando
somos invadidos por sentimentos de muita intensidade (isso seria inexato dizer, pois, como se
sabe, não se pode traduzir em termos de quantidade; entretanto, por falta de termo melhor, já
que a linguagem é limitada, foi utilizado este), quase como se fôssemos devastados por eles, e
ficamos absortos no próprio sentimento, não tentando mensurá-lo, nem classificá-lo. Uma
experiência quase que transcendente, onde tomamos mais consciência de nós mesmos e assim
possamos nos compreender melhor. Experiências com drogas ditas psicodélicas muitas vezes
são descritas como transcendentes, provavelmente por uma mudança na percepção e
principalmente, por geralmente ocorrer essa invasão de sensações puras, que não comportam
quantidade. Talvez aí estejamos mais receptíveis a não contar os graus de intensidade, e
apenas nos propomos a viver a experiência em sua duração pura.

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Assim como são raros os momentos em que entramos em contato com a duração pura, sem
que a espacialidade a recorte, também serão raros os momentos em que somos
verdadeiramente livres, pois a liberdade está na dimensão da duração, e enquanto tomamos
posse de nós mesmos e porquanto, dela. Para compreender melhor é necessário mais dois
termos: o “eu profundo” e o “eu superficial”. O “eu profundo” seria aquele que está em um
fluxo constante de formação, no qual está presente a multiplicidade de penetração mútua dos
estados internos e onde se encontra a sucessão pura, seria portanto a pura duração. Já o “eu
superficial” seria aquele que possui características da extensão, onde se encontra a
multiplicidade de justaposição, o tempo que está situado no espaço, que é, portanto,
quantitativo, ele seria a projeção exterior do “eu profundo”. Vivemos de tal forma que
projetamos quase sempre para o espaço esse “eu profundo”, de acordo com as demandas que
a vida social impõe a nós, vivemos, assim, mais na espacialidade do que propriamente na
duração, isso é visível principalmente pela linguagem, como dito anteriormente, tendemos a
nos expressar mais pela quantidade do que pela qualidade, é um vício de linguagem. Não
entrando em contato com esse “eu profundo”, com a duração, e não tomando posse disto, não
agimos de forma livre, acabamos por agir de maneira totalmente condicionada às regras da
extensão. Para agir livremente precisa-se agir, como diz Bergson, no tempo que se decorre,
pois esse é o tempo da duração, do fluxo constante em que nossos estados psicológicos estão
indissociáveis.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BERGSON, Henri. ​Ensaio sobre os dados imediatos da consciência​. Trad. João da Silva
Gama. Lisboa: Edições 70, 1988.

SILVA, Franklin Leopoldo e. ​Henri Bergson​: intuição e duração. Casa do saber, 2017.
5min46seg. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=xIh2hQhArn4>. Acesso
em: 15 jul. 2018.