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Lição 3

MISSÕES TRANSCULTURAIS

Unidade V

5 - SINCRETISMO E CONTEXTUALIZAÇÃO

lntrodução:

Ao chegar num novo campo missionário, o obreiro e sua família


entram não só em um novo continente, mas literalmente em um "novo
mundo", onde toda uma cultura (modo de vida) precisará ser aprendido
e decodificado.

Em diversos contextos se identificará uma realidade sincretista, ou


seja, um contexto adaptado para absorver diversas filosofias e princípios
religiosos diferentes, sob uma única forma religiosa.

5.1. O que é Sincretismo?

Diz NICHOLLS (1987, pág. 24), que "o sincretismo é a tentativa de


reconciliar crenças diversas ou conflitantes, ou práticas religiosas, num
sistema unificado".
Por sua vez, HESSELGRAVE (1994, pág.302) nos mostra que
"algumas cosmovisões são mais abertas ao sincretismo do que outras. O
politeísmo presta-se ao sincretismo em virtude do fato de que novos
deuses podem ser facilmente acrescentados ao panteão, onde
encontram espaço complementar entre os seus antecessores. Se
existem milhares de deuses, alguns a mais simplesmente aperfeiçoarão
o sistema. Quanto melhor".

Mas não só as sociedades politeístas absorvem o sincretismo. As


monoteístas também, conferindo valores menores, ou até intuitivos,
porém de relevância e posto reconhecidos. Exemplo clássico no Brasil é
a elaboração da fé católica romana, afirmando crer na Trindade, porém
admitindo a salvação na Virgem Maria.
Até entre protestantes no mundo todo, o sincretismo religioso é uma
ameaça à pureza da fé cristã. Hesselgrave cita o exemplo de muitos,
que atribuem à hóstia na celebração da ceia valor vital, tal como a etnia
dieres, na Austrália, que partilhavam da carne dos cadáveres a fim de
receber os poderes dos mortos.

5.2. O Sincretismo no Novo Testamento


Mc. GREEN (1989) dedica seu capítulo 6 para descrever sobre a
conversão dos cristãos primitivos. Relata ali corno os helênicos foram
impactados com a mensagem cristã, por seu conceito sincretista
contrastar com a idéia cristã de conversão. Se não vejamos:

a) Eles não achavam ser necessário ter crença pessoal em urna


divindade para poder cultuá-la ou não. Ninguém era obrigado a crer para
adorar.

b) Eles também não associavam ética e religião. Ou seja, não se exigia


mudança de vida, ou compromisso comportamental.

c) Surpreenderam-se com a exigência de exclusividade cristã. O cenário


sincretista permitia a multiplicidade de cultos. Sob este cenário aberto a
várias expressões de fé, a persuasão cristã foi radical e decisiva para a
formação da Igreja primitiva.

5.3. Riscos de sincretismo na Contextualização

Se de um lado são louváveis os esforços para encontrar na cultura


aspectos resgatáveis, para "batizá-los em Cristo", sem defraudar a fé
cristã; de outro, são reais os perigos de comprometer a autenticidade da
fé e vida cristã.
Nicholls ressalta que o sincretismo, corno princípio dinâmico, pode ser
intencionalmente absorvido, ou de forma inconsciente. Assim corno a
Igreja primitiva foi atacada pelo gnosticismo, hoje o mesmo pode ocorre.
Hesselgrave cita que Agostinho não se libertou completamente da
influência neo-platônica. A teologia liberal baseou-se na influência do
iluminismo e existencialismo, tal corno no Oriente houve a pressão
budista e hinduísta.

Duas manifestações sincretistas, citada por Nicholls:


a) Sincretismo cultural – este tem ênfase antropológica, pois visa
associar, sem a percepção crítica, símbolos e práticas religiosas da
cultura receptora. A Igreja Católica desde o século XVI vivencia isso na
América Latina. Atualmente entre evangélicos, se absorve o padrão
americano, consumista e capitalista.
Existe também no sincretismo cultural, urna atitude consciente e
voluntária, exemplificada na pressão do judaísmo-cristão para que os
convertidos gentios se submetessem à prática da circuncisão.
Hoje seu exemplo se vê nas Igrejas que impõem padrão econômico e
estético (roupagem) estranha à cultura receptora.

b) Sincretismo teológico - Este chega ao âmago da cosmologia de urna


cultura, pois envolve valores morais e éticos, Por isso, torna-se mais
destrutivo do que o sincretismo cultural. Relativiza a natureza da

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verdade, levando consigo a suposição de que tudo é expressão da
verdade universal e absoluta.
É de NICHOLLS (1987, pág.26) o alerta: “quando se absorve uma
compreensão teológica estranha, sem sua devida análise, o risco é vital
de transformá-la em um novo Evangelho”.

5.4. O processo do Sincretismo teológico

Seu encadeamento geralmente segue o seguinte processo:


a) Misturar aspectos cultural com o supra-cultural, objetivando negar a
qualidade definitiva da revelação bíblica e histórica. Assim se reduz a
verdade teológica em detrimento da experiência de fé.
b) O segundo processo é o de universalizar os particulares da fé cristã.
As verdades bíblicas históricas são transformadas em genéricas e
universais, tornando-as idéias transferíveis às culturas locais. Pensando
assim o Jesus histórico não foi um fato, mas um conceito transferível
para a vida. Pensando, assim, Deus corno pessoa e criador é moldado
para um ser absoluto e impessoal.

c) O sincretismo teológico também se vale do conceito de


complementação entre verdades particulares, sendo maior que
verdades individuais. Na busca hodierna pela união da humanidade e
pelo diálogo entre as religiões, procura-se "pontos comuns", que passam
a ter maior valor que um conceito bíblico. Exemplo - a história da
criação, queda e Redenção. Semelhantes conceitos existem no
hinduísmo, islamismo e budismo, porém com pressupostos diferentes a
partir da criação, na doutrina da pessoa de Deus.

d) A absorção progressiva é a quarta e derradeira estratégia do


sincretismo teológico. Práticas e conceitos naturalistas e humanistas
passam a permear a fé cristã, até descaracterizá-la.
Francis Schaeffer diz: "a natureza devora a graça”. No fim de tudo a fé
cristã se limita a urna "presença cristã" na melhor das hipóteses com
urna ação social humanicista - fato já i desenvolvido por diversos grupos
não-cristãos. Morre assim a Igreja, sua missão e a evangelização.

5.5. Fatores determinantes para uma Contextualização

Aprendemos com Bruce J. Nicholls que:

a) Iniciamos da Palavra de Deus para a cultura, e nunca da cultura para


a Palavra. A ênfase da natureza de Deus corno Criador Salvador é o crivo
para a interpretação da cultura

b) De forma relevante, analisar a cultura, fazendo do Evangelho um


árbitro da totalidade cultural, e não só de sua religiosidade.

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c) A Igreja deve adotar um estilo de vida que encarne a cruz. "Urna
Igreja que prega a Cruz deve ser ela mesma marcada pela cruz”.

d) o Espírito Santo será o melhor missionário transcultural. Ele


atravessará as barreiras culturais; criará nelas pontes e nos conduzirá
por elas, convencendo os homens à Cristo.

e) A contextualização verdadeira diz respeito às necessidades da pessoa


na sociedade, bem como no seu relacionamento com Deus.
Como missionários/ profetas somos aptos no julgamento do pecado
individual, porém cegos no diz respeito aos pecados sociais.
f) Ela almejará alcançar a cosmovisão da cultura, alterando seus valores
distorcidos, redimindo outros e criando tantos quanto necessários, para
centralizar Cristo na cultura.

Unidade VI

6 - A IGREJA LOCAL E A MISSÃO TRANSCULTURAL

Introdução:

Provavelmente, grande parte dos estudantes de Missões


Transculturais será mantida pelo Senhor em nossa própria cultura.
Não vemos isso como desperdício, mas como propósito divino. Nosso
desejo é que agora, cada estudante se tome um promotor de missões
transculturais em sua Igreja local.
Como envolver a Igreja em Missões? O que a Igreja local necessita
para conseguir isso?

6.1. A Igreja necessita de Visão Missionária

a) Isso não surge da noite para o dia. Ela nasce em Deus, que transmite
ao(s) líder
(es) . Essa transmissão é gradativa e formativa.
Pode ser iniciada por um processo transcendental ou ocasional. Em
muitos casos, uma visão missionária pode originar-se em um liderado e
impregnar-se no líder e conseqüentemente, em todo o grupo.

b) Qual visão? Da realidade atual dos países, quanto à mortalidade


infantil, crescimento urbano, população, desafios de desenvolvimento,
etc.

Não só disso, mas da realidade da Igreja ao redor das nações, e a


perspectiva de realização para a evangelização mundial.

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Nos anexos 10 passamos estes dados.

6.2. Informação

Ela surgirá do interesse visionário. A visão será alimentada pela


informação, que surgirá de leitura especializada, correspondências com
missionários e agências, bem como em Conferências, Simpósios e
Congressos Missionários.

Quanto mais informações, maior recurso para a Igreja local se envolver


com Missões. Sugerimos a leitura de Ted Limpic/Sepal para informação e
correspondência.

6.3. Compaixão
A intercessão missionária nutrirá a Igreja de profunda compaixão.
Com as informações obtidas, grupos poderão ser formados e certamente
Deus se moverá no Corpo de Cristo.
Veja anexo 04 a relação das 100 cidades- chaves na Janela 10/40.
Este material pode ser reproduzido se divulgado sua fonte (AD 2000).
Veja anexo 11 com orientações para formação de um Conselho
Missionário extraído do material da JMM.

6.4. Mobilização

A leitura de QUEIROZ (1985) ajudará a informar-se como organizar


um Conselho Missionário em sua Igreja. A organização e ação em
direção à obra missionária transcultural fará nascer na Igreja urna nova
mentalidade, brotando um verdadeiro avivamento espiritual.

Para urna mobilização efetiva, deve-se começar com projetos


evangelísticos locais, atingindo segmentos da sociedade ainda não
alcançados. Numa visão crescente a Igreja local pode passar a
corresponder e adotar missionários que atuem em etnias sem o
testemunho cristão efetivo. O resultado poderá ser a própria Igreja local
enviando equipes de apoio missionário, bem corno treinando seus
líderes comissionados para enviá-los e sustentá-los.

Bibliografia da disciplina

CARRIKER, Timóteo. Missão Integral, Uma Teologia Bíblica. São Paulo:


Sepal. 1992.
317p.
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua
Portuguesa. 2ª

5
Ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1986. 1838p.
GREEN, Michael. Evangelização na Igreja Primitiva. Trad.Hans Udo Fuchs.
2ª Edição.
São Paulo: Vida Nova, 1989.
HESSELGRAVE, David J. Plantar Igrejas. Um guia para Missões Nacionais
e
Transculturais. São Paulo: Vida Nova, 1984. 324 p.
HESSELGRAVE, David J. A Comunicação Transcultural do Evangelho. Vol.1
Trad. Márcio Loureiro Redondo. São Paulo: Vida Nova. 1994,
pág.143.
HESSELGRAVE, David J. Comunicação Transcultural do Evangelho. Vol. 2.
São
Paulo, Vida Nova. 1995.
KRAFT, Charles. Antropologia Missionária (Apostila). Viçosa: Centro
Evangélico de
Missões. 1991. 101p.
LIMPIC, Ted. Panorama Estatístico do Trabalho Missionário Brasileiro no
Mundo. São
Paulo, Sepal, 1993.
NIDA, E.A. Costumes e Culturas. Uma introdução a Antropologia
Missionária. São
Paulo, Vida Nova, 1985. 108p.
NICHOLLS, Bruce. Contextualização: Uma Teologia do Evangelho e
Cultura. São
Paulo, Vida Nova, 1987.
PATE, Larry D. Missiologia, a Missão Transcultural da Igreja. São Paulo:
Vida Nova.
1987.401p.
QUEIROZ, Edson. A Igreja local e Missões, São Paulo, Vida Nova, 1985.
RICHARDSON, Don. O Fator Melquisedeque. São Paulo: Ed. Vida Nova.
1986.
. ____________________. O Desafio Urgente de Missões Mundiais, B.
Horizonte, Missão Editora & JMM da CBB, 1995.

Atividade de avaliação

1. Explique com suas palavras o que é sincretismo.


2. Diferencie sincretismo religioso de sincretismo teológico.
3. Dos seis fatores citados como determinantes para a contextualização,
escolha três e explique-os.
4. Analisando a realidade de sua igreja local, qual (is) a (s) sua (s)
sugestão (ões) para maior mobilização em missões?