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Nº 1315 . 17/5 A 23/5/2018 . CONT. E ILHAS: €3,50 .

SEMANAL
A NEWSMAGAZINE MAIS LIDA DO PAÍS WWW.VISAO.PT NOVA REVISTA

MEMÓRIA
A SAGA
DOS MELLO
POR MARIA
FILOMENA
MÓNICA

LÍDIA JORGE NAS BANCAS


DIA 19 €4,90 (CONT.)
“HÁ UMA
FUTEBOLIZAÇÃO
DA CULTURA”

QUEM SÃO OS INVESTIDORES DO IMPÉRIO JOSÉ AVILLEZ

A HISTORIA
DA RICA E DISCRETA
FAMILIA ARIE
Dominam o comércio de perfumes em Portugal e compram cadeias de restaurantes.
Mas sem dar nas vistas. Como aprenderam com o patriarca, um negociante
judeu que, em 1954, veio para Portugal... por amor
VISÃO
17 MAIO 2018 / Nº 1315

14 Entrevista: Constantino
Sakellarides

RADAR
18 Imagens da semana HARRY MYERS/REX FEATURES

24 Raios X
26 A semana em 7 pontos
28 Holofote
30 Almanaque
32 Inbox
34 Transições
36 Próximos capítulos 64 Windsor, uma empresa real
Após a morte de Diana, há duas décadas, a monarquia britânica parecia
ter os dias contados. Agora, com o casamento de Harry com Meghan,
FOCAR a família liderada por Isabel II recupera o seu prestígio, com um plano
72 PSD cavalga Justiça de comunicação digno de uma multinacional
76 O que resta do “brutal
aumento de impostos” 40 A “tribo” dos endinheirados
78 Irlanda: o referendo Depois de Os Pobres, Maria Filomena Mónica lança agora Os Ricos,
da polémica um novo livro de biografias de que publicamos um excerto sobre Alfredo
da Silva, Manuel de Mello e Jorge de Mello, três “capitães da indústria” do
80 A que sabe Portugal? século XX

VAGAR
82 Lídia Jorge em entrevista: só
48 A discreta família Arié
Na vida e nos negócios, agem com a máxima reserva. Foi desse modo
a literatura nos pode salvar? que puseram de pé um império que, em Portugal, inclui a distribuição de
88 Joana Ribeiro, a portuguesa dezenas de marcas de luxo, de cosmética e de moda, e a participação no
do filme de Terry Gilliam grupo de restauração de José Avillez. História de uma saga familiar
92 Tendências
58 O braço de ferro do Orçamento
VISÃO SETE Greves, protestos e uma grande manifestação da CGTP marcam estes
meses de maio e junho. Como pano de fundo,as negociações para o
Orçamento de 2019 e o endurecimento da linguagem entre António Costa
e os parceiros à esquerda. Estarão mesmo condenados a entender-se...?

Montra
97 O charme discreto
da Foz do Porto
AUTOBIOGRAFIA
DE STEPHEN HAWKING
OPINIÃO À venda, com esta edição da VISÃO, estará A Minha
10 António Lobo Antunes Breve História, de Stephen Hawking. Trata-se de um
12 Rui Tavares Guedes livro autobiográfico através do qual o cosmólogo
britânico, falecido a 14 de março último, passa em
38 José Manuel Pureza revista o seu próprio percurso: desde a sua infância,
75 José Carlos Vasconcelos no pós-II Guerra Mundial, até aos anos em que se
tornou uma celebridade. A Minha Breve História
96 Miguel Araújo é uma edição da Gradiva, tem revisão científica €4,99
130 Ricardo Araújo Pereira de Carlos Fiolhais e estará à venda por 4,99 euros.

4 VISÃO 17 MAIO 2018


LINHA DIRETA
Cancro Ao longo
de mais de
40 páginas, pode Correio do leitor
descobrir o que
há de novo no
combate à doença

Merece uma medalha


quem consegue
governar uma casa
auferindo o salário mínimo
nacional
Ademar Costa, Póvoa de Varzim

VITÓRIA DE JOÃO SOUSA


Os êxitos desportivos dos portugueses
devem-se, por hábito, ao mero acaso
ou ao empenho e ao investimento
particular. Raramente isso se deve
ao fomento da prática desportiva
generalizada pelas instituições
responsáveis. Por isso, o tenista
João Sousa tem mérito adicional por
ter sucesso numa modalidade da qual
só se ouve falar nos média em parcos
e fugazes momentos por ano. Parabéns
ao atleta e à VISÃO por lhe fazer
as merecidas honras [V1314].

A sua saúde merece a melhor VISÃO


José M. Carvalho, Chaves

CAMILO NO PANTEÃO
A crónica Porque não está Camilo no
Panteão?, de Germano Silva [V1313],
É já no próximo sábado, 19, que chega às bancas a VISÃO Saúde. A nova apenas conta metade da história.
É verdade que não era vontade de
revista será inteiramente dedicada a temas de saúde e terá reportagens Camilo, mas porquê? Há quem diga
e histórias surpreendentes, as últimas novidades da Ciência, notícias, que Camilo escolheu aquele local
portefólios, infografias e a opinião dos melhores especialistas do País. no cemitério para ficar perto de Fanny
Apresenta ainda uma linguagem acessível, uma abordagem didática nos Owen, por quem estaria apaixonado.
Mas há mais: consta que os restos de
artigos e um rigoroso cuidado com a informação. Em todas as edições, Fanny Owen estão em parte incerta...
haverá um tema mais aprofundado que, neste primeiro número, será o Muitos mistérios encerra o Porto.
cancro, concretamente, as novas armas de combate a esta doença – o uso do Adriano Silva, Porto
sistema imunitário para lutar contra os tumores e os novos medicamentos.
A VISÃO Saúde está dividida por cinco secções: a Sala de Espera, onde CORREÇÃO
encontra pequenas novidades; o Dossier, no qual haverá sempre um No artigo Uma conversa dos deuses
tema alargado; o Diagnóstico, em que pode ler histórias e explorar [V1312], resultado do diálogo entre
temas de várias áreas e com abordagens António Lobo Antunes e José
Tolentino Mendonça, no VISÃO Fest,
diferentes; o Consultório, onde alguns onde se lê “o ato de querer é um ato
especialistas respondem às perguntas que de exposição de si” deve ler-se “o ato
todos querem saber; e, por fim, a Alta, que de crer é um ato de exposição em si”.
lhe dá a descobrir livros que lhe podem Aos visados e aos leitores, as nossas
desculpas.
interessar. E porque queremos sempre ser
fiéis ao compromisso com a qualidade, na Contactos
VISÃO Saúde contamos com um Comité CORREIO: Rua Calvet de Magalhães, 242,
Consultivo de 14 figuras de referência que 2770-022 Paço de Arcos
são conceituados especialistas e académicos. visao@visao.pt
Faltam assim poucos dias para que possa ir As cartas devem ter um máximo
às bancas e conhecer a mais recente extensão de 60 palavras e conter nome, morada
de marca VISÃO, que assim se junta à VISÃO e telefone. A revista reserva-se
História e à VISÃO Júnior. Tudo porque para o direito de selecionar os trechos
nós a sua saúde merece a melhor VISÃO. que considerar mais importantes.

6 VISÃO 17 MAIO 2018


O ROSTO DO TEMPO. DESDE 1868.
A CELEBR AR OS 150 ANOS DA IWC SCHAFFHAUSEN.

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ENTREVISTAS COM OS MELHORES ESPECIALISTAS, DICAS E SUGESTÕES
A NOVA REVISTA
PARA QUEM SE INTERESSA POR SAÚDE

PRIMEIRA EDIÇÃO DIA 19 DE MAIO_


PARA ASSINAR LIGUE 21 870 50 50_
DIAS ÚTEIS, DAS 9H ÀS 19H
CRÓNICA

Uma história
de amor
POR ANTÓNIO LOBO ANTUNES
ILUSTRAÇÃO: SUSA MONTEIRO

10 VISÃO 17 MAIO 2018


O
meu pai passou boa parte dos últimos anos cartaginês, ou sei lá, perdido numa bruma confusa de
da sua vida às voltas com a árvore genea- gerações silenciosas, nos acasos de cruzamentos que
lógica da família, juntando papéis de toda desconheço, nos ziguezagues de um cursozinho de
a ordem, fotografias, tralha variadíssima, água que passou por Cabo Verde e por Lagos antes de
esquemas cheios de setas, obsessivo como desaguar no meu pequenino corpo, iniciado no Algar-
sempre, miudinho, numa busca feroz de ve e concluído com as primeiras lágrimas de Lisboa:
exactidão, desejoso de saber quem era na de tanta coisa, meu Deus, é feito o pobre homem que
altura em que ia deixar de ser. Havia na sua uma criatura começou a restaurar no termo da sua
inquietude um desejo confuso de eternida- vida, quando o filho já andava por aqui em busca de
de, como se as raízes pudessem impedir o si mesmo no interior de um corpo a que chamava seu,
arbusto de morrer. Deixou-me aquilo juntamente com porque, ao construir-se numa esperança de duração,
uma página cheia de instruções, entreguei o material o meu pai me entregou a minha própria finitude. E
às minhas filhas, praticamente sem olhar salvo umas talvez fosse essa finitude que eu não quis levantar face
cartas enviadas da guerra da Crimeia, que pensei que à sua eternidade. Muito pouco tenho a ver com ele
talvez pudessem servir-me para um fisicamente, muito pouco tenho a
livro e não serviam, e nunca mais ver com ele por dentro. Se calhar
lhe pus a vista em cima. Para quê? Não andei a disparar sou ainda mais seu filho por ser o
Não era um cemitério de gente, era
uma vala comum de almas opacas
contra os franceses, seu oposto, se calhar estou tão lon-
ge que fiquei pertíssimo. Para o fim
onde o meu nome bruxuleava aqui nem a desmaiar de da vida estava sempre sentado no
e ali, como tristes lampadazinhas
de azeite nos nichos dos caminhos
calor na Amazónia, que tinha sido o meu quarto, com
um poster da editora alemã na pa-
de província, diante de imagens de nem a morrer à fome rede, encostado, de blusão aberto,
barro que iam perdendo a tinta no numa aldeia perto da à Catedral de Colónia e uma foto-
tempo sem fim dos invernos do Mi-
nho ou em terras alemãs e brasilei-
Póvoa do Lanhoso. grafia num restaurante de Paris,
entre Jorge Amado e Ernesto
ras, que nunca conheci e para quem Da aldeia perto da Sábato, tirada por Tom Colchie,
eu seria, quando muito, o contorno
pouco nítido de um futuro de que
Póvoa do Lanhoso então agente de nós três. Nem
um retrato de nenhum dos meus
não faziam parte, demasiado ocupa- ficou-me o Antunes, irmãos lá estava e lembro-me da
dos, como estavam, com o nada da de Belém do Pará o minha mãe me dizer sempre
sua própria morte. Havia retratos de
feições desconhecidas, alguns dos
Lobo, da Alemanha – Vai ter com o pai porque ele
gosta tanto de falar contigo
quais já era eu em esboços arcai- boa parte das feições: quando, na realidade, falávamos
cos, testas que se transformariam
noutra testa, narizes que dariam
que estranha mistura quase nada, ele na cadeira onde o
João estudava, eu de cócoras numa
lugar a outro nariz, às vezes olhos de sangues, latino, ponta da cama, a olhar. Uma tarde
surpreendentemente claros como os judeu, teutónico, sem mostrou-me uma coisa que tinha
meus, um cabelo loiro não intei-
ramente estranho, uma boca que
falar do árabe que a escrito:
– O que é que achas disto?
saltou gerações até eu falar por ela, talassemia da minha respondi
a orelha esquerda um bocadinho
mais descolada, a curva estranha-
mãe me legou, ou – Acho uma merda
e ele guardou-a logo na gaveta
mente evasiva dos sobrolhos. Vim fenício, ou cartaginês, e gastou o resto do gesto a acender
de perto de Braga, de Belém do Pará, ou sei lá o cachimbo, enquanto me fitava com
da fronteira da Alemanha com a as suas duas covinhas azuis,
Suíça, de uma maternidade que já a encher tudo de fumo.
não existe em Lisboa, na qual quase – Uma merda
me extingui ao nascer, mas vim sobremodo do ventre disse ele, depois silêncio e outra vez
da minha mãe, tão distante de todos estes bigodes e – Uma merda
de todas estas senhoras a maior parte delas feias que e depois um silêncio muito mais comprido.
me observavam, como sempre nas fotografias, com Não esqueço a mão magra, não esqueço o peito magro,
uma distância severa. Não andei a disparar contra os não esqueço o gesto com que apontou para mim
franceses, nem a desmaiar de calor na Amazónia, nem – Mas tu vais salvar-me com o que escreves
a morrer à fome numa aldeia perto da Póvoa do La- e palavra de honra que só agora, neste momento,
nhoso. Da aldeia perto da Póvoa do Lanhoso ficou-me compreendi que a árvore genealógica que lhe levou
o Antunes, de Belém do Pará o Lobo, da Alemanha tanto tempo a fazer e quis deixar-me era
boa parte das feições: que estranha mistura de san- (sou uma besta e apetece-me bater em mim mesmo)
gues, latino, judeu, teutónico, sem falar do árabe que a carta de amor mais linda que recebi de alguém.
a talassemia da minha mãe me legou, ou fenício, ou visao@visao.pt

17 MAIO 2018 VISÃO 11


OPINIÃO
HISTÓRIAS
DA CAPA
O mundo está a ficar um
lugar perigoso... outra vez
P O R R U I T A V A R E S G U E D E S / Diretor-executivo
1

P
odemos não nos ter dado conta, nhando o seu isolamento em relação ao resto
porventura por andarmos distraí- do mundo. Mas, apesar do coro de protestos,
dos com outros assuntos tão “ur- nessa altura não soaram propriamente os
gentes” como a final da Eurovisão, alarmes, até porque as consequências desse
mais um folhetim futeboleiro ato só serão visíveis daqui a alguns anos.
ou o 172º sinal de clivagem na No caso do acordo nuclear com o Irão
“Geringonça”, mas a verdade é que – uma das obras finais do mandato de
o mundo mudou muito nas últimas Obama, que conseguiu conciliar os inte-
semanas. Ou melhor: começou a mudar resses norte-americanos com os da Rússia,
uma certa ordem do mundo com que, para China, França, Alemanha e Reino Unido –, Como apresentar
o bem e para o mal, nos habituámos a viver as consequências começam já a ser visíveis. aos leitores uma
família discreta,
desde há várias décadas. Pela primeira vez, vemos os aliados atlânti-
mas com um
A forma como Donald Trump rompeu, a cos a afirmarem abertamente que deixaram
grande império?
8 de maio, o acordo nuclear com o Irão assi- de confiar em Donald Trump. A chanceler É esse o desafio
nala o início dessa mudança e dá, igualmen- alemã Angela Merkel foi a primeira a dizê-lo,
te, o tiro de partida para uma série de outras numa posição imediatamente secundada
ações que, nos próximos dias e semanas, vai pelo francês Emmanuel Macron que, ainda
vincar ainda mais o novo papel que os Esta-
dos Unidos da América querem desempe-
há poucas semanas, se revelava incapaz de
conseguir esconder a admiração que nutria
2
nhar no jogo global: o de potência com uma pelo atual Presidente norte-americano, para
visão unilateral do mundo, cuja força se ba- desconforto de muitos dos seus compatrio-
seia unicamente no seu poderio tas e também de vários estadis-
militar, apenas preocupada com tas europeus. A clivagem entre
os interesses norte-americanos Apesar das a Europa e os EUA é cada vez
e desvalorizando as regras da suas diferenças, maior e por uma única razão:
ordem internacional criadas no os líderes apesar de todas as diferenças
pós-guerra. que possam existir entre eles, os
Foi já nesse papel que Donald europeus líderes europeus querem mos-
Trump concretizou, esta sema- querem trar-se ao mundo como per-
Uma possibilidade
na, a mudança da Embaixada mostrar-se ao sonalidades em quem se pode seria a de apresen-
dos EUA em Israel, de Telavive confiar. Donald Trump está-se
para Jerusalém, à revelia, por
mundo como nas tintas para isso. tar o rosto de uma
exemplo, de todos os seus alia- personalidades
das suas “marcas”,
E se os europeus deixaram de
deixando a família
dos europeus. E, nos próximos em quem se confiar na América de Trump, em fundo
dias, deverá continuar o mesmo pode confiar. o que dizer dos povos de todos
caminho em duas tomadas os outros países que só recen-
de posição importantes: a que Donald Trump temente se aproximaram da
decidirá a sorte do Tratado de está-se nas ordem internacional? No caso
Livre Comércio com o Canadá
e o México, e o destino a dar à
tintas para isso do Irão, por exemplo, este ras-
gar do acordo pode significar o
3
guerra tarifária com a Europa. fim de qualquer tentativa tímida
Pelo caminho, vai dar ares de grande esta- de abertura do regime e um argumento po-
dista, debaixo dos focos globais, quando se deroso para fazer crescer o apoio dos setores
encontrar (se não mudar de ideias, entretan- mais conservadores. E se Trump foi capaz
to) em Singapura, a 12 de junho, com Kim de quebrar o acordo com o Irão, quem pode
Jong-un para discutir o futuro nuclear da garantir aos norte-coreanos que qualquer
Coreia do Norte, cujo líder parece manter, compromisso sobre o seu programa nuclear
em simultâneo, conversações cada vez mais será respeitado?
estreitas com os vizinhos de Pequim. Ao insistir neste caminho unilateral,
É verdade que o Presidente dos EUA alérgico a compromissos ou a negociações,
já tinha rasgado acordos e compromissos a América deixa de basear o seu poder na in- Outra hipótese
assumidos, no passado, por Barack Obama. fluência e limita-se a exercer apenas o da for- seria a de uma
capa mais gráfica,
Fê-lo, nomeadamente, com o Acordo de ça. E esse é o caminho para um mundo muito
com menos poder
Paris, sobre as alterações climáticas, subli- mais perigoso – outra vez. rguedes@visao.pt
da fotografia

12 VISÃO 17 MAIO 2018


QUEREMOS QUE ESTEJA SEGURO
Isso é o que importa, a sua segurança e a dos que o rodeiam. Por isso,
na Nissan apoiamos a renovação do seu automóvel por um Nissan com
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Constantino Sakellarides
Catedrático jubilado de Política de Saúde

Falar em má gestão
na Saúde, como fez o ministro
das Finanças, é uma
banalidade. O problema
é não haver gestão nenhuma.
Está toda centralizada
no Ministério das Finanças
e no da Saúde
E M Í L I A C A E TA N O LUÍS BARRA

14 VISÃO 17 MAIO 2018


E
Está a preparar um livro sobre os últi-
mos 25 anos na Saúde em Portugal.
Hoje catedrático jubilado de Política
de Saúde, em 1993, este médico regres-
sava a Portugal vindo da Dinamarca,
onde tinha sido diretor da Organização
Mundial de Saúde (OMS) de Políticas
para a Saúde na Europa. E iniciava um
caminho por alguns dos mais destaca-
mas para criar condições que permitam
atrair e segurar as pessoas, oferecendo
trabalho interessante, possibilidade de
intervir na gestão, condições mínimas
de equipamento e instalações, enfim,
uma atividade que dê satisfação pes-
soal. Os estudos internacionais mos-
tram que as condições remuneratórias
são importantes, mas o fundamental
é fazer-se aquilo de que se gosta num
ambiente de que se gosta. Não pode-
mos esperar mais por isso.
Já há profissionais em exclusivo, que
ganham mais.
Mas são em número altamente
insuficiente. E a exclusividade não
é tudo. Tem de ser acompanhada
de retribuição do desempenho,
oportunidades de carreira e de
investigação. Sem isto, o SNS não vai
sobreviver. Não tenho qualquer dúvida.
Os privados oferecem salários mais
altos, hospitais bem equipados.
eles e ajudá-los a resolver as coisas.
Noutras, é melhor ficar fora e ajudá-los
a compreender o que vai acontecendo.
A saída pode ser benéfica, quando
se explica porquê. Essa explicação
permite, pelo menos, novo impulso
para resolver situações. Não vou
partilhar intimidades nem informação
privilegiada a que tive acesso. Mas
posso dizer, em termos de conceção
do sistema, o que me preocupa.
E o que é?
O País empobreceu e o SNS, só entre
2011 e 2015, perdeu mil milhões de
euros, e já via os seus recursos a
diminuir desde 2009. Agora, o ministro
das Finanças (Mário Centeno) diz que
já repôs 700 mil euros. Mas a perda
não pode ser avaliada em função do
orçamento corrente. Ao longo desse
tempo, a degradação de equipamentos
e instalações foi-se acumulando.
E o SNS perdeu muitas pessoas
dos lugares do setor, como diretor-geral Parece difícil de recusar. qualificadas. Tinham ficado sem 15%
da Saúde ou diretor da Escola Nacional Não é. A Saúde passou a ser um do salário, eram procuradas no mercado
de Saúde Pública. No final de abril, mercado competitivo, mas é dramático e a gestão tornara-se extremamente
Constantino Sakellarides demitiu-se o SNS assistir passivamente à centralizadora. Não se recupera de toda
de consultor do ministro da Saúde, saída dos seus melhores ativos. Se esta situação em dois anos nem em três.
Adalberto Campos Fernandes, que o en- fosse só dinheiro, então é que não E depois há a questão dos cortes, que
carregara da modernização do sistema. poderia competir. Mas os estudos são cegos, sem nenhuma seletividade,
Acabamos de assistir a três dias de mostram, como disse, que isso não é e que foram centralizados no Ministério
greve de médicos. Compreensível? o fundamental, embora a diferença das Finanças e no da Saúde.
Em muitos países os médicos estão salarial também não deva ser entre Com que resultados?
preocupados e insatisfeitos com a forma oito e 80. O SNS pode oferecer Os diretores dos hospitais e centros
como os sistemas de saúde evoluem, já condições que os outros não têm, com de Saúde não decidem nada. Isso não só
que estão mais complexos, mais restri- a perspetiva de ascensão numa carreira leva a decisões pouco inteligentes mas
tivos. Em Portugal há razões específicas pública. E dá uma coisa extremamente também anula toda a capacidade de ges-
acrescidas, devido ao empobrecimento importante, que é o sentido de tão dos profissionais. Seguem-se apenas
do País e do Serviço Nacional de Saúde trabalhar num bem comum. É como instruções. Agora há uma grande pres-
(SNS), à degradação das condições de trabalhar em casa. Só que não chega são para repor recursos, mas não vale
trabalho que se tem verificado. Mas ma- repor o que o SNS tem vindo a perder. a pena fazê-lo num sistema altamente
nifestações longas também contribuem Precisa de ter meios e capacidade disfuncional, onde irão perder toda
para fragilizar ainda mais o sistema e estratégica para poder transformar-se. a eficiência. Não podemos repor sem
prejudicar os doentes. Há que ponderar Quando recentemente se demitiu transformar, e a modernização do SNS é
todos estes aspetos. de consultor do ministro da Saúde, uma peça fundamental desse processo.
Um dos argumentos foi o de o negou que tivesse havido uma zanga. Temos de começar a fazê-la
Governo gastar 120 milhões de euros Então foi desistência? a nível experimental, criando instru-
ao ano com empresas de trabalho Não. As zangas são reações emocionais mentos de gestão e aumentando a
temporário, em vez de abrir a tempo que as questões desta natureza não me- cultura de colaboração, que não temos
concursos de especialidade. recem. As decisões sobre saúde devem muito. E, depois, é preciso o discurso
Sim, os concursos têm sido sistemati- ser altamente racionais e pensadas. político, para explicar às pessoas que
camente atrasados. Mas a questão de E têm que ver com colaboração e com- essa transformação é indispensável.
fundo é que o SNS não sobreviverá se promissos mútuos. Às vezes, a colabora- E vai traduzir-se em quê?
não tiver um corpo profissional dedica- ção leva a que o caminho se alargue Não foi só em Portugal que o sistema
do a tempo inteiro. Não têm de ser to- e, outras, a que se estreite. Quando foi criado com uma estrutura vertical,
dos. Convém até que haja uma margem o caminho se estreita ao ponto de não como em silos, com cuidados de
flexível, um corpo de 50% ou 60% de se poder passar, é melhor estar fora saúde primários, hospitais e cuidados
pessoas só da casa. Nenhuma empresa do que dentro. Conheci todos os mi- continuados. Tudo separado. Assenta
inteligente partilha os seus recursos nistros da Saúde nos últimos 25 anos. na lógica de que, quando tenho um
fundamentais, o capital humano. Conversei com todos, trabalhei com problema, tento resolvê-lo numa
Está a falar só de médicos? alguns e aprendi certas coisas. urgência, fico bem e logo se vê até
Não, de profissionais em geral. Haver Como por exemplo...? à próxima. A conceção de um SNS
um corpo exclusivo não é por castigo, Algumas vezes, é bom estar com que responde a situações agudas

17 MAIO 2018 VISÃO 15


foi ultrapassada pelo tempo. Hoje
grande parte das pessoas tem vários
A estratégia e contrair uma infeção fatal. São ques-
tões de bem-estar. Se não estiverem in-
problemas de saúde. E não me refiro orçamental não cluídos na estratégia orçamental, serão
apenas à asma, às doenças cardíacas
ou à diabetes, mas também às dores
prevê nada para sempre preteridos em favor de outros.
A nossa intervenção na Saúde tem de
no pescoço ou nas costas, ao dormir a Saúde. Assim, o ser ao nível da estratégia orçamental.
mal, à má sexualidade, às tonturas.
Na Escócia, que tem o estudo mais
nosso bem-estar O ministro da Saúde já disse que a
reposição dos recursos do SNS ao
profundo sobre estes casos, as pessoas será preterido nível anterior à crise é coisa para
com problemas múltiplos de saúde
são um quarto da população. Em
em favor da duas legislaturas.
A questão não é essa. Devido aos
Portugal serão, pelo menos, um terço. cibersegurança ou cortes todos que houve, concordo que
Precisamos de instrumentos que
permitam gerir o percurso dessas
do aumento dos a reposição irá durar mais de uma
legislatura. Mas não se deve fazê-la sem
pessoas, garantir que vão aos sítios preços da energia transformação. Ou então iremos repor
onde terão os cuidados apropriados. o mesmo sistema disfuncional. Não
É por isso que chama disfuncional queremos mais médicos ou mais enfer-
ao sistema? Demiti-me, meiros para o sistema tal como ele era
Uma grande parte da população não
encontra resposta adequada no SNS.
porque quando em 2010. Precisamos é de uma estraté-
gia orçamental a pensar no sistema que
Por isso, apesar de a nossa esperança o caminho se devemos ter em 2020 ou 2025.
de vida ter aumentado, mesmo em
termos europeus, envelhecemos com
estreita ao ponto O presidente da Associação
Portuguesa de Medicina Geral
má qualidade. Uma sueca aos 65 anos de não se poder e Familiar disse que o ministro
tem uma esperança de vida com saúde
de 16 anos, enquanto uma portuguesa
passar, mais vale da Saúde deve sair, porque está
“esgotado”. Concorda?
tem apenas seis. A única estrutura que estar fora do que A nossa capacidade de análise e de criar
pode reverter este caminho é o SNS.
Temos é de começar hoje, e não ir
dentro através dela opinião pública obriga à
seriedade das nossas posições. Não po-
deixando para depois de amanhã. Toda demos ser ligeiros. Quem tem capacida-
a Europa está a fazer isto e nós podemos de para avaliar se um ministro está
até ficar na vanguarda, porque somos ou não gasto é o primeiro-ministro.
um país pequeno, com um SNS bem O julgamento político deve ser feito por
distribuído. Não aceito que sejamos políticos, que eu não sou. E o presidente
incapazes de fazer isto bem. da Associação Portuguesa de Medicina
O ministro da Saúde disse no qualquer coisa que cria insegurança, Geral e Familiar também não.
Parlamento que “no Governo somos os mercados movem-se e isso reflete- O que achou quando ouviu o
todos Centeno”. Já agora, também é -se no Orçamento. E o mesmo sucede ministro das Finanças dizer que
Centeno? se o preço da energia sobe ou se um provavelmente há “má gestão” na
Não. A política tem o seu teatro, a que ataque terrorista faz aumentar o Saúde?
não atribuo grande relevo. Assim parece investimento em cibersegurança. Agora São afirmações ligeiras. Falar em má
uma caricatura da política, como se as previsões indicam que a economia gestão é uma banalidade. O principal
fosse um despique entre Adalberto e europeia vai arrefecer em 2020 ou problema da gestão é não haver gestão
Centeno. É puro folclore. O importante 2021, e há que criar margem para isso. nenhuma. Está toda centralizada
foi o Governo ter dito que o défice para Então, o ministro das Finanças conhece no ministério das Finanças e no da
2018 seria de 1,1% e agora ir revê-lo para este dado e não há nada na estratégia Saúde. Um hospital ou um centro de
0,7%. As pessoas questionam, e com orçamental, nada para o bem-estar Saúde não gere nada. Recentemente
razão, para quê rever o défice e não usar das pessoas? O tempo de espera para perguntaram-me se a Oncologia
essa margem para investir na Saúde. Sou consulta, por exemplo, é um indicador Pediátrica do Hospital de São João
uma pessoa da Saúde, alinho nessa tro- de bem-estar. Se este objetivo não não devia ser uma prioridade. Claro
pa. Se fizermos alguma pressão, talvez estiver lá, não será contemplado, ao que sim, mas não se pode resolver o
consigamos um pouco mais, mas não se contrário da cibersegurança ou do problema localmente. Quando se corta
resolve a questão fundamental. arrefecimento económico. cegamente, por imperativo da Troika
Então? Não há nada sobre Saúde na ou outro, há que centralizar. Mas agora,
Existe o Orçamento anual, que é sempre estratégia orçamental? no momento em que estamos a repor,
uma expectativa, e antes disso há o que Exatamente. Agora na revisão do défice não pode ser assim. Num serviço tão
se chama a estratégia orçamental. Ao podemos chorar muito, para conseguir complexo e sensível como o SNS, a
contrário do que se julga, o Orçamento pouco. E, no entanto, uma pessoa com gestão tem de ser feita perto das pessoas
muda todos os meses, fica condicionado uma depressão séria vê um médico e isso desapareceu. A menos que fosse à
à estratégia orçamental. Vejamos mais de um ano depois do início dos excessiva centralização que o ministro
alguns exemplos atuais. Há imprevistos sintomas. Outro caso é o das infeções da Finanças se referia quando falou em
como incêndios e seca, e o Orçamento hospitalares. Um doente com 40 anos má gestão. Se não era isso, foi apenas
muda. Quando Donald Trump diz pode entrar para uma pequena cirurgia ruído. visao@visao.pt

16 VISÃO 17 MAIO 2018


Orithia
Orithia
II II
RADAR

> Embaixada de sangue


Desde que Donald Trump
anunciou que ia mudar a
embaixada americana de
Telavive para a desejada
Jerusalém que se temiam
dias difíceis. O Presidente dos
EUA justificou que pretendia
assinalar sete décadas de
uma aliança estratégica com
Israel. Mas tudo soou a uma
profunda provocação quando
se soube que a data escolhida
era 14 de maio, o dia que
os palestinianos designam
por Nakba, ou catástrofe,
a lembrar os milhares que
fugiram ou foram expulsos de
suas casas em 1948, depois
da criação de um Estado
para os judeus. Seguiu-se
a suprema ironia: rostos
sorridentes a inaugurar a
nova embaixada enquanto as
suas tropas matavam quem
protestava junto à fronteira.
Aos pedregulhos e pneus
incendiados, Israel respondeu
com gás lacrimogéneo
e outra artilharia pesada.
No fim, um massacre: mais
de 60 mortos e milhares de
feridos, o dia mais sangrento
destes protestos, no conflito
mais antigo do mundo.

Foto: Mohammed Abed/AFP/Getty


Images

18 VISÃO 17 MAIO 2018


17 MAIO 2018 VISÃO 19
> A vida ainda é bela
Em 1998, a sua obra-prima
recebia o Grande Prémio
do Festival de Cannes
e o conhecido ator italiano
Roberto Begnini irrompera
de tal felicidade que não
descansou até fazer rodopiar
a atriz francesa Isabelle
Huppert, antes de finalizar
em grande aos pés de
Martin Scorsese, então
presidente do júri. Vinte anos
depois, aos 65 anos, o ator e
realizador de A Vida É Bela,
essa fábula de amor e de
sobrevivência, permanece
fiel a si mesmo
– e não resiste às mais
diversas palhaçadas perante
os fotógrafos que cobrem a
71ª edição do famoso festival
de cinema que decorre
naquela cidade francesa
até sábado, 19. Solidário
com o movimento simbólico
contra as desigualdades
salariais entre homens
e mulheres na indústria
cinematográfica, que juntou
dezenas de mulheres na
famosa escadaria do festival,
Begnini fez questão de
assinalar que estava ali para
apoiar Lazzaro Felice, o filme
protagonizado pela mulher,
Nicoletta Braschi.

Foto: Antonin Thuillier/AFP


/Getty Images
> A festa do campeão
E foi vê-los, jogadores e
técnicos, no palco dos Aliados,
prontos para comemorar
o campeonato nacional de
futebol, que ganharam pela
28ª vez – e para regressar
à Câmara Municipal do Porto,
onde não iam há 19 anos,
por opção de Rui Rio, então à
frente dos destinos da cidade.
Numa festa acompanhada
por cerca de 200 mil almas
portistas, eram perto das dez
da noite quando a comitiva
entrou na Avenida dos Aliados
para, pouco depois, ser
recebida pelo presidente da
autarquia, Rui Moreira. Houve
ainda tempo para entregar a
Medalha de Honra da cidade
a Pinto da Costa. “Estamos
a fazer-lhe justiça”, afirmou
o autarca, no momento em
que entregou a máxima
condecoração ao eterno
presidente do clube da cidade.
Lá fora, ninguém arredou pé
até de manhã, numa espécie
de São João antecipado.
Os dragões não ganhavam
o campeonato desde a época
de 2012-2013.

Foto: Pedro Correia/Global Imagens

22 VISÃO 17 MAIO 2018


17 MAIO 2018 VISÃO 23
RAIOS X

Uma OPA à meia-luz A China Three Gorges quer ficar com toda a EDP.
Mas, além dos obstáculos regulatórios, há outro
problema: o preço que é considerado baixo

P A U L O Z A C A R I A S G O M E S pzgomes@exame.pt

Vamos
às compras
A empresa pública
chinesa por detrás
da oferta pública
Corrida
com barreiras
Para que a oferta
vingue, há que ultra-
passar 16 condições
10 262
milhões de euros
é quanto a China
Façam o favor
Na primeira reação ao
lançamento da OPA,
o Governo estendeu a
passadeira ao negócio
Presença global
Com mais de
11 600 trabalhadores,
a EDP está em mais
de uma dezena
e disse que cabe ao de mercados,
de aquisição (OPA), colocadas pelos Three Gorges terá
mercado decidir. sobretudo na Europa
que já é a maior chineses, como o OK de investir para
“A China Three Gorges e nas Américas,
acionista da EDP, das autoridades dos comprar as ações
é há muitos anos com produção,
propõe comprar países onde a EDP que ainda não
acionista de referência transporte,
todo o capital está presente. De- detém na EDP e na
da EDP e não temos distribuição
mas contenta-se safio difícil nos EUA, EDP Renováveis
nenhuma reserva a e comercialização
com, pelo menos, onde a administração
opor. As coisas têm de energia.
metade. E também Trump tem torcido o
corrido bem”, disse As renováveis valem
quer a EDP nariz a compras da
o primeiro-ministro 40% do seu EBITDA
Renováveis China no país
António Costa

-5,5%
Quando entrou na empresa,
em 2012, a China Three
Gorges pagou 3,44 euros
por título. Agora propõe
gastar menos 5,5%
por cada ação:
3,26 euros

“O preço oferecido não reflete


adequadamente o valor da EDP
e (...) o prémio implícito
na oferta é baixo.” Tal como Essenciais
os analistas, a elétrica liderada Com um terço do capital disperso por
por António Mexia considerou pequenas participações, os fundos norte-
a oferta curta -americanos Capital Group Companies e
BlackRock, que detêm no total 17% da EDP,
podem ser decisivos para o sucesso da OPA
ou para uma oferta alternativa

Contra-ataque?
O avanço do acionista chinês surge meses
depois dos rumores do interesse de outras
elétricas na EDP, como a espanhola Gas
Natural, a italiana Enel e a francesa Engie.
Poderão agora alimentar uma contra-OPA?

24 VISÃO 17 MAIO 2018


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7
PONTOS DA SEMANA

POR
FILIPE LUÍS*
JOSÉ CARLOS CARVALHO

DOS MILHÕES ÀS AGRESSÕES


A invasão da Academia de Alcochete por faltava medir forças. Mas o pior é que
parte de supostos adeptos (leoninos?) de o odiado concorrente direto, o Benfica,
cara tapada e as agressões a jogadores em caso de qualificação na Champions,
do Sporting foram, na terça-feira à terá acesso a 40 milhões, fruto de um
tarde, à hora do fecho desta edição, o currículo europeu que o Sporting não
culminar de uma ressaca amarga, depois tem. Isto permite uma leitura direta:
do indesejado 3º lugar no campeonato e o adversário terá recursos de que os
do respetivo afastamento do clube da 3ª leões não disporão. E é esta, sobretudo,
pré-eliminatória da Liga dos Campeões. a preocupação de Bruno de Carvalho.
A ação de vandalismo foi o resultado Mas a preocupação principal de adeptos
de um sucessivo acumular de tensão, e desportistas deve centrar-se no ponto
desde a derrota por 2-0 em Madrid, de rutura a que o futebol português
frente ao Atlético, e da guerra surda que chegou e que poderá reclamar medidas
se instalou entre o presidente Bruno da parte de um poder político que
de Carvalho (BdC), por um lado, e a insiste em assobiar para o lado.
equipa técnica e jogadores, pelo outro. Independentemente do que possa
BdC terá desencadeado forças que, na suceder no domingo – o Sporting é
terça-feira, ele deixou de conseguir favorito à conquista da Taça de Portugal
controlar, o que remete para a velha –, o clube apresenta uma equipa
metáfora do aprendiz de feiticeiro. acossada por grupos organizados de
Ironicamente, um dos agredidos terá adeptos, desqualificada pelo presidente
sido o goleador Bas Dost, jogador ao e dirigida por um treinador pré-
qual o Sporting fica a dever, em boa demitido. Sim, Jorge Jesus, que Bruno
parte, a sua qualificação europeia... O foi “roubar” ao Benfica, para ganhar
presidente queixa-se de que o Sporting, títulos e fazer “pirraça”, será “corrido”.
com a derrota por 2-1 na Madeira, E alguns jogadores, que muitos adeptos
frente ao Marítimo, “perdeu muitos acusaram de “perder de propósito”,
milhões” (20 milhões) que já estariam esperam um contrato o mais longe
contabilizados para a próxima época. possível de Alvalade. A semana
Além de se constatar a falta de um horribilis ainda incluiu a revelação
plano B, a declaração de BdC ostenta a de uma investigação por suspeitas
arrogância própria de quem conta com de corrupção no título de Andebol
vitórias antecipadas, menosprezando conquistado no ano passado. O que
o mérito de um adversário com quem faltará acontecer?
*Editor-executivo
fluis@visao.pt

26 VISÃO 17 MAIO 2018


1,2
NÚMERO FRASE

Se eu gastar tudo no aumento


dos funcionários que já tenho,
não tenho dinheiro para contratar
os novos que me faltam”
António Costa, primeiro-ministro, em entrevista
mil milhões ao Diário de Notícias, abordando os temas dos salários
de euros na Administração Pública e a qualidade dos serviços públicos
é o impacto do aumento
do preço do petróleo no
Orçamento português.
ENSINO
As contas, para 2018,
foram feitas com base
em cerca de 55 dólares
A vaga
o barril mas, esta
semana, o preço
do Interior
ultrapassou os Menos 1 100 vagas nas
78 dólares. O aumento universidades de Lisboa
médio calculado em e do Porto – eis o que
20% acabará por refletir- esperam os candidatos ao
-se no PIB nacional. Ensino Superior, no próximo
Entretanto, ao contrário ano letivo. O ministro da
do prometido pelo tutela, Manuel Heitor,
Governo, o imposto sobre justificou a medida com
os produtos petrolíferos a política de distribuição
não tem acompanhado e equilíbrio territorial: em
ANGOLA compensação, vão abrir mais
(em sentido inverso)
vagas nos estabelecimentos
a subida dos preços...
Irritante, mas pouco fora das grandes
Desapareceu o “irritante” que, na equívoca expressão de cidades, beneficiando
Marcelo Rebelo de Sousa, recuperada por António Costa, com isso o Interior do
INCÊNDIOS País. A generalidade
existia a atrapalhar as relações entre Portugal e Angola.
dos politécnicos apoia a
Meios ou A transferência do processo judicial que envolve o ex-
-vice-presidente angolano Manuel Vicente para Luanda, ideia, mas a Universidade
inteiros? dando resposta positiva à reclamação das autoridades de
Angola, veio facilitar o retomar das boas relações entre
de Lisboa (UL) adverte
para vários problemas,
No início desta semana, os dois Estados. Assim, foi já anunciada uma visita oficial nomeadamente, o facto de
de 32 meios aéreos de que do primeiro-ministro português a Angola. Se os acordos se onerar as famílias com a
o País já devia dispor para judiciários entre os dois países servem para umas coisas, deslocação. Desconhece-se
o combate aos incêndios, eles também devem servir para outras: na polémica sobre a posição da UL sobre os
apenas 13 estavam eventuais cedências do Tribunal da Relação de Lisboa, casos em que as famílias do
operacionais. Mas, na percebe-se mal onde acaba o respeito pela independência Interior são oneradas por ter
terça-feira, depois de a dos tribunais e onde começa o preconceito... de instalar os filhos a estudar
imprensa diária chamar na cada vez mais “proibitiva”
a atenção para o atraso, cidade de Lisboa...
o primeiro-ministro
EDP
anunciou o termo das
negociações para a
contratação da totalidade
Os cordões da Bolsa
das aeronaves previstas. Ainda não deve ser desta que logo desatualizada, quando
Com o verão a dar sinais os chineses da China Three as ações atingiram os 3,495
de vida, esta semana, e Gorges conseguem ficar com euros. Depois da própria
a projetada estratégia de a totalidade ou, pelo menos, administração da EDP, que
utilização da frota para a maioria das ações da EDP torceu o nariz, instituições
vigilância e prevenção, o – a não ser que, entretanto, como a JP Morgan, a
tempo urge. Mas quando tenham aberto os cordões Goldman Sachs e o BPI
fechávamos esta edição à... Bolsa. A OPA anunciada, aconselharam calma: estava
FERNANDO VELUDO

ainda não se sabia qual a em que apenas pagariam barato demais. Será uma
verba dos contratos... 3,26 euros por ação, ficou questão de tempo?

17 MAIO 2018 VISÃO 27


HOLOFOTE

Netta Barzilai Um brinquedo envenenado?


Pela quarta vez
A última vez que ISRAEL VOLTA ÀS BOCAS
Israel ganhou
foi há 20 anos. DO MUNDO POR RAZÕES
Apesar de ser
um país do Médio
DISTINTAS: O PRIMEIRO
Oriente, soma
quatro vitórias
LUGAR NA EUROVISÃO
no currículo da E A POLÉMICA
Eurovisão. Na final
Esta vida
de marinheira
do dia 12, no Altice DESLOCAÇÃO DA Outras vitórias E os mortos,
Barzilai nasceu há
25 anos em Hod
Arena, em Lisboa,
Netta triunfou EMBAIXADA AMERICANA Israel ganhou a
Eurovisão aquando
quem os chora?
Enquanto o país ce-
HaSharon, em
com a música Toy,
cuja letra, garante,
DE TELAVIVE PARA da celebração do lebrava todas as vi-
Israel, mas aos
três meses mudou-
se inspirou no
movimento
JERUSALÉM, O QUE Dia de Jerusalém
– o aniversário
tórias – as musicais,
as históricas e as
-se com a família
para a Nigéria,
internacional JÁ PROVOCOU DEZENAS da chamada
unificação da
políticas –, o Exér-
cito israelita atirava
onde viveu até
aos quatro anos,
#Metoo, contra
o assédio sexual DE MORTOS cidade, após a
guerra de 1967 – e
a matar sobre mais
de 60 palestinianos,
às mulheres. Eis
regressou ao seu LUÍSA OLIVEIRA na véspera de os fazendo ainda
o que se ouve
país natal. Como Estados Unidos da milhares de feridos,
no refrão: “Eu
todos os israelitas, América abrirem no seguimento dos
não sou o teu
ao atingir a idade oficialmente a protestos na Faixa
brinquedo, seu
adulta, Netta sua embaixada de Gaza contra a
rapaz estúpido, eu
cumpriu o serviço na cidade, na deslocação norte-
vou-te derrubar.”
militar obrigatório, segunda-feira, dia -americana de
“Muito obrigada
e eis que se viu 14. Também se Telavive para
por escolherem
fardada a rigor na comemoraram Jerusalém. À porta
diferente. Muito
Marinha do seu os 70 anos do da nova embaixada,
obrigada por
país, até que se Estado de Israel, também se acu-
aceitarem as
transformou numa proclamado em mularam manifes-
diferenças
estrela-sensação, 1948. Porém, os tantes – num dos
entre nós.
por culpa da palestinianos cartazes empunha-
Obrigada por
forma excêntrica continuam dos, podia ler-se:
celebrarem a
de se vestir e a reclamar “Trump, Jerusalem
diversidade”,
de se pentear, Jerusalém is not your toy”,
disse Netta,
numa alusão Oriental como numa clara alusão
no seu
clara à cultura a capital do seu à música de Netta.
discurso
pop japonesa. futuro Estado. De notar ainda que
de vitória,
A confiança e A Eurovisão a maioria dos países
anunciando
carisma que ela coincide ainda com europeus (Portugal
que a final,
mostra em palco vitórias de Israel incluído) fez ques-
em 2019, será
fizeram o resto. Na noutras frentes, tão de assinalar a
em Jerusalém.
sua performance, como a decisão de sua ausência na
ajudada por um o Presidente norte- cerimónia, por de-
sintetizador -americano, fender uma solução
que domina na Donald Trump, de paz para o confli-
perfeição, imitou desvincular to no Médio Oriente.
uma galinha e Washington do A ONU também já
ainda entoou acordo nuclear manifestou o seu
palavras difíceis de com o Irão, inimigo repúdio pelo que
decifrar. de Israel. está a passar-se
naquele território.

28 VISÃO 17 MAIO 2018


ALMANAQUE

CASO DA SEMANA

David Goodall
decidiu morrer
O famoso cientista
australiano de 104 anos
despediu-se da vida numa
clínica na Suíça, como
pretendia e ao som do Hino
à Alegria de Beethoven

“Não quero
continuar a viver”,
disse. “A minha
vida já não merece
ser vivida, e obrigar
alguém a manter-se
vivo contra a sua vontade é
cruel.” O conhecido botânico
não tinha nenhuma doença

Ronaldo super-herói
terminal, mas estava cansado
de viver por, aos 104 anos, já
não ter a mesma qualidade
de vida. Há uma semana, fez
O craque português será protagonista da série de desenhos a sua última viagem para a
animados Striker Force 7 Suíça, onde lhe foi concedido
o desejo de terminar com a
própria vida. “Lamento mesmo
Cristiano, Ronaldo ou apenas CR7. comunicado. “Super-heróis
muito ter chegado a esta
Não há no mundo quem não e futebol são formas de união entre
idade. Quero morrer e não há
reconheça o nome – milhares de fãs já as pessoas em todo o mundo. Vamos nada de triste nisso. Triste é
o tomam como um verdadeiro super- unir as duas e ver o que dá”, comparou. querer morrer e ser proibido
herói na vida real. Algo que vai passar “O nome do Cristiano é sinónimo de o fazer.” Há 20 anos que
oficialmente para a ficção: a convite de profissionalismo, dedicação e êxito”, sonhava com este momento:
das produtoras Graphic India e da elogiou o responsável de operações tinha 84 anos e não conseguiu
VMS Communications, o internacional da VMS Communications, Diego renovar a carta de condução.
do Real Madrid, 33 anos, será o rosto Guarderas, justificando que é essa Nos últimos tempos, tornou-
do protagonista da Striker Force 7. a razão pela qual o português -se conhecido como um
“Estou muito entusiasmado com a “inspira pessoas de todo o mundo”. ativista feroz da causa do
possibilidade de ajudar a criar esta Só ainda não se sabe quando será suicídio assistido, depois de
nova série”, afirmou o português, em o lançamento. uma carreira consagrada
como pioneiro do estudo
quantitativo das plantas.
Desde 1964 que publicava na
Nature, e manteve-se ativo
NÚMERO até 2016, quando a Edith

1,89 milhões
Cowan University, onde era
professor emérito, pediu
que ele passasse a fazer as
suas pesquisas de casa. Não
Portugueses que vivem com menos queriam que ele sofresse uma
de 454 euros por mês. Os indicadores queda no campus. Reclamou
de desigualdade e pobreza assinalam e ainda conseguiu manter-se
que há menos pobres em Portugal ativo, até muito recentemente
(a taxa desceu de 19% para 18%) mas sentir uma quebra tremenda
a desigualdade ainda permanece. Esta das suas capacidades.
foi também a semana em que se soube “Levanto-me, tomo o pequeno-
que há 37,5 mil portugueses a ganhar no Instituto Nacional de Estatística. -almoço e fico por casa. Pouco
três mil euros, e foi caso para se dizer Por falar em desigualdades, há ainda depois, almoço e mantenho-
que nunca houve tantos a ganhar tanto, 11 administradores que, só em 2017, -me por ali. Qual é a ideia de
desde que passou a haver registos somaram mais de... um milhão de euros. viver assim?”

30 VISÃO 17 MAIO 2018


INBOX

M O D É S T I A À PA R T E

Há dogmas
da biologia a ser Sou uma
quebrados a todo
o momento
mulher
MÓNICA BETTENCOURT DIAS
Bióloga e nova diretora numa
situação
do Instituto Gulbenkian
de Ciência, a primeira mulher
a assumir o cargo, a falar sobre
o estado da investigação

terrível
GEORGINA CHAPMAN
Estilista e ex-mulher de Harvey Weinstein
a falar da sua vida e, pela primeira
vez, do escândalo que envolve o produtor.
Chapman aproveitou ainda para
agradecer a Scarlett Johansson por
ter usado um vestido seu na gala Met,
evento de beneficência do Metropolitan
Museum of Art Costume Institute

Ninguém fala, falo eu:


os parques naturais
são os próximos
FRASE DA SEMANA
a arder
JACINTO AMARO
Responsável da FENCAÇA
a insistir que está tudo José Sócrates
ao abandono, tal e qual como
estava o pinhal interior conseguiu dominar
a Justiça
Quando recebi a carta C H O Q U E F R O N TA L
MANUELA MOURA GUEDES
Jornalista, depois de dizer ainda
de demissão, senti um que o Parlamento ficou cego e fez
orelhas moucas, e de insistir que
tiro no meio dos olhos foi afastada dos ecrãs a pedido
HENRIQUE GARCIA do mesmo Sócrates
Antigo jornalista da TVI a falar
sobre a sua saída da estação

Tenho pena de não


nascer hoje. Acho que
os meus filhos vão ver
coisas extraordinárias Os irmãos Sobral Não posso deixar
CARLOS MOEDAS são embaixadores de lamentar as
Comissário europeu da Ciência mais qualificados declarações que
e Inovação do que a colocam em causa
generalidade da esta carreira do
nossa diplomacia Estado
A primeira máxima MARCELO REBELO JOÃO RAMOS PINTO
para ter sucesso é DE SOUSA Presidente da Associação
Presidente da República Sindical de Diplomatas a
criar fama de maluco a elogiar a vitoriosa não esconder o mal-estar
BRUNO DE CARVALHO dupla de cantores e com as declarações de
Presidente do Sporting compositores Marcelo

Fonte: Diário de Notícias, El País, Expresso, Jornal i, Sic Notícias e Sol


32 VISÃO 17 MAIO 2018
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MORTE
“Era uma artista de
referência, é uma enorme
perda para o País”, sublinhou
o ministro da Cultura, Luís
Filipe Castro Mendes. Clara
Menéres nasceu em Braga,
em 1943, e estudou Escultura
na Escola Superior de Belas-
-Artes do Porto. Catedrática
de Belas-Artes em Lisboa e
Évora, uma das suas obras
mais conhecidas é Jaz Morto
e Arrefece – representação
de um soldado morto com
a farda da Guerra Colonial,
inspirada no poema O Menino
De Sua Mãe, de Fernando
Pessoa – em exposição
na Fundação Calouste
Gulbenkian. Dia 11

Raul Miguel Rosado


Fernandes, ex-deputado
do CDS-PP, era sobretudo MARGOT KIDDER 1948-2018
conhecido por ser o rosto

A primeira Lois Lane


da Confederação dos
Agricultores Portugueses
(CAP). Autor de várias obras,
chamou à sua autobiografia
Memórias de um Rústico
Erudito. É também sua Foi ela que deu sal e pimenta à icónica personagem, quando esta
a frase: “Não sou um saltou para o grande ecrã e viveu um romance com o Super-Homem
anticomunista primário.
Sou um anticomunista
universitário.” Tinha 83 anos. Há uma cena em Kill Bill, o filme branco vaporoso, ele oferece-
Dia 13 dirigido por Quentin Tarantino, em -se para lhe responder às questões
que se explica porque o Super-Homem que possa haver sobre ele, ela começa
era o único herói a sério. “De manhã, por lhe perguntar pelas suas medidas...
já acordava assim. Depois é que se E esta Lois Lane de que falamos e
disfarçava de Clark Kent. Ao contrário que ficou para a posteridade, naquela
do Batman ou do Homem-Aranha.” produção de 1978, foi exatamente a atriz
Mas Superman – o filme, o original de Margot Kidder, a canadiana entretanto
1978, a primeira grande produção de naturalizada norte-americana, filha de
Tom Wolfe, lendário um super-herói para o grande ecrã, era uma professora e de um engenheiro,
jornalista e escritor também uma comédia romântica. Para que começara a carreira na década
americano, haveria de ficar isso contribuía Lois Lane, a intrépida anterior. Ainda entraria nas três
conhecido do grande público repórter do Daily Planet, onde Clark sequelas de Super-Homem, naquele
em 1987, ao lançar a sua Kent, o alter-ego do herói, se emprega. que seria o seu papel mais marcante,
primeira obra de ficção Ela captou-lhe a essência e tornou-se os mas jamais repetiu o sucesso. Depois de
– A Fogueira das Vaidades nossos olhos: nós víamos o Super- uma carreira de altos e baixos, acabou
contava, ao longo de mais -Homem através do seu olhar. Sofremos por ser diagnosticada com distúrbio
de 600 páginas, a história com ela quando o helicóptero em que bipolar – em 1996, Kidder chegou a
de um negociador de títulos seguia perdeu o piloto, ficando preso viver como sem-abrigo durante uns
em Wall Street, envolvido no topo do edifício do jornal – e em dias. Mais tarde, seria uma ativista na
numa espiral desastrosa que ela é salva pelo também conhecido consciencialização para as doenças
de eventos. Aclamado pela Homem de Aço, já a queda está mais do mentais. Foi ainda uma das muitas vozes
crítica, seria um best-seller que iminente. E também sentimos as norte-americanas contra a Guerra
da década e foi adaptado borboletas na barriga na cena em que o do Iraque e chegou a ser presa em 2011
para cinema por Brian de
mesmo Super-Homem acede a dar-lhe num protesto contra a construção
Palma. Tinha 87 anos. Dia 15
a sua primeira entrevista. Ele aparece- de um oleoduto de Alberta, no Canadá,
-lhe na varanda, ela tem um vestido até ao Texas. Em casa, dia 13. T.C.

34 VISÃO 17 MAIO 2018


Graças
à campanha
PRÓXIMOS CAPÍTULOS eleitoral, muitos
venezuelanos
têm direito
a refeições
dignas

PERISCÓPIO

PICANTE DISTRAÍDO
Sai um franguinho Em casa de
para o sr. ferreiro...
Presidente! ... Espeto de pau, é o
Não, não estamos a mínimo que pode dizer-
falar de futebol nem -se da distração do
de alguma lembrança cidadão – e primeiro-
que um guarda-redes -ministro – António
tenha oferecido a Costa que se esqueceu
um presidente de de renovar o seu cartão
um clube qualquer. de cidadão, entretanto
Estamos a referir-nos, caducado. A confissão
mesmo, a Marcelo foi proferida pelo
Rebelo de Sousa que próprio, em Carnaxide,
foi, esta segunda-feira, Oeiras, durante uma
visto num take away visita à empresa Vision
de Cascais... a comprar Box, especialista
o jantar. Passe a em tecnologias
VENEZUELA publicidade, o Jardim de identificação e
dos Frangos foi uma exportadora para

O caos de Maduro
boa escolha, dado que todo o mundo (há
teria sido esquisito se muitos aeroportos
o mais alto magistrado internacionais
da República tivesse apetrechados com os
optado por um seus equipamentos).
Com as exportações de petróleo a caírem a pique, hipotético monárquico Quer dizer: o Simplex
a crise pode ainda agravar-se. Será que o Presidente “Rei dos Frangos”. é bom e é para os
Faltou a mini... outros...
vai resistir até 2024, caso seja reeleito no domingo?
Uma desgraça nunca vem só, mas na Venezuela elas sucedem-
TRANSPARENTE
-se a cada dia que passa e o pior ainda pode estar por vir. No
próximo domingo, 20, o país vai a votos para decidir a reeleição Desinteressante, eu?!
do atual Presidente, Nicolás Maduro, para um segundo mandato “Não parece que as tuas informações do Facebook
que lhe pode garantir a permanência no Palácio de Miraflores, foram partilhadas [sic] com a Cambridge Analytica
pela This Is Your Digital Life.” Assim termina uma
em Caracas, até 2024. No entanto, o mais provável é que o
tranquilizadora mensagem enviada a milhões de
principal resultado deste escrutínio, cuja validade é posta em
utilizadores daquela rede social, na sequência do
causa pela ONU, União Europeia e Organização de Estados escândalo do uso abusivo de dados pessoais que,
Americanos, acabe por ser uma nova vaga de sanções contra nomeadamente, terá influenciado as eleições
o regime chavista. Os principais líderes da oposição foram norte-americanas. Um deles foi o deputado do
impedidos de entrar na corrida e muitos estão presos ou tiveram PS Ascenso Simões, que decidiu partilhar a
de exilar-se. É o caso de Leopoldo López, antigo economista mensagem do Face, com o seguinte comentário:
e autarca condenado a 14 anos de prisão por ter promovido as “A minha vida, tão desinteressante, nunca poderia
manifestações e motins de 2014. Ou de Henrique Capriles, o interessar à Cambridge Analytica... É o que diz o
antigo governador e candidato presidencial impossibilitado de Facebook :).” Pudera! Pois se foi o próprio quem pôs
desempenhar cargos públicos durante 15 anos. Ou do antigo tudo a nu, ao divulgar a sua remuneração como
ministro e general dissidente Miguel deputado! Assim, também nós! ;)
Rodríguez Torres, detido há dois meses
87% DOS por “atentar contra a pátria”, pela singela
razão de responsabilizar o Chefe de
VENEZUELANOS Estado pela crise económica e social.
ESTÃO NA Na última terça-feira, 15, ficou a saber-
-se que o país com as maiores reservas
POBREZA, de petróleo do mundo está mesmo à
E A ONU DIZ QUE beira do colapso, por não honrar os
seus compromissos internacionais, e
CERCA DE CINCO que a petrolífera nacional, a PDVSA,
MIL PESSOAS está sob o assédio dos seus credores e
enfrenta inúmeros processos judiciais
ABANDONAM que põem em causa cada vez mais o
LUÍS BARRA

DIARIAMENTE seu funcionamento. De acordo com o


Financial Times, a produção venezuelana
O PAÍS de crude caiu 40% no último ano.
36 VISÃO 17 MAIO 2018
confiança
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OPINIÃO

Despenalizar e respeitar:
o desafio ao Parlamento
P O R J O S É M A N U E L P U R E Z A / Professor universitário. Deputado do Bloco de Esquerda

T
em razão o Presidente da República: decisão a preto e branco. Com informação
“Foi um debate muito participado por a menos e emoção a mais. Sucede que a
todos os quadrantes político-partidários, despenalização da eutanásia não é uma questão
religiosos, sociais. Agora seguem o de um simples sim ou não. É uma decisão que
seu curso as iniciativas parlamentares, tem de convocar experiência e conhecimento,
esperarei aqui em Belém.” Marcelo interlocução com a pluralidade de posições
Rebelo de Sousa referia-se ao debate de constitucionalistas e penalistas, médicos e
público aberto pelo Movimento Cívico enfermeiros, filósofos e estudiosos de ética e
pela Despenalização da Morte Assistida. também – e sobretudo – com quem acompanha
E tem razão: foi um debate que, nos histórias de sofrimento desesperante de
últimos dois anos, foi intenso e muito participado. familiares e amigos. Tudo isso para fazer
Agora é o tempo do Parlamento. acompanhar a despenalização de uma definição
Na ânsia de barrarem caminho a uma decisão rigorosa de requisitos para que ela possa operar
democrática sobre este assunto, os adeptos da e de meios de fiscalização da sua verificação.
manutenção da pena de prisão Inquestionavelmente, o
até três anos para quem entenda processo de trabalho do
corresponder ao pedido de A despenalização Parlamento é o que dá mais
antecipação da morte de um
doente sem cura e em destruição
da eutanásia não garantias de acautelar o rigor
que uma lei sobre este assunto
quer do corpo quer da dignidade é uma questão de delicado tem de ter.
aos seus olhos bradam com a
suposta falta de legitimidade
um simples sim ou Nesta reta final do debate,
só o desespero pode explicar
do Parlamento para legislar não. É uma decisão o uso de argumentos
porque os partidos não incluíram que tem de convocar vocacionados para incutir o
este tema nos seus programas
eleitorais. Este apego repentino
experiência e terror. Que eles venham de
pessoas com responsabilidade
à importância dos programas conhecimento institucional na área médica
eleitorais é democraticamente é motivo para especial
comovente, sem dúvida. Imbuído preocupação e repúdio
desta comoção democrática, não lhes perguntarei adicional. Invocar que uma fibromialgia ou
o que dizia o programa eleitoral do partido x sobre uma artrite reumatoide serão motivo suficiente
meios da proteção civil ou o programa eleitoral para a prática de eutanásia podia ser só pouco
do partido y sobre diversificação dos meios de sério. Mas é mais: é uma expressão de desprezo
financiamento da Segurança Social. Poupamo-nos pelo conhecimento dos médicos que virão a
assim à embaraçosa situação de ficar claro que intervir no processo de aferição dos requisitos da
quem agora clama pela importância crucial dos morte medicamente assistida. O que consta dos
programas eleitorais nunca se deu ao trabalho de projetos que vão a debate no dia 29 é claro: uma
ler nenhum. demência, uma doença crónica ou uma doença
Os mesmos defensores do escrúpulo democrático psiquiátrica não são condições suficientes para a
neste assunto – não me recordo de os ver defender antecipação da morte. Muito menos ser velho e
a democracia máxima quando o Parlamento socialmente vulnerável – porque não são doenças
aprovou tratados europeus que diminuem… a e é só de doenças que os projetos apresentados
democracia – sugerem que 230 deputados vão ao Parlamento tratam.
arrogar-se o direito de decidir em conclave fechado O que o Parlamento decidirá no próximo dia 29
aquilo que só o povo tem o direito de decidir. A é se amplia ou não o espaço da tolerância numa
insinuação da falta de genuinidade democrática sociedade plural como felizmente é a nossa. É se
do Parlamento tem perna curta e história longa. acolhe ou não mais um caminho na luta contra
Percebe-se a intenção de aplicar a lógica televisiva o sofrimento e pela dignidade. Confio que sim.
do Prós e Contras que empurraria para uma visao@visao.pt

38 VISÃO 17 MAIO 2018


© ADAM FERGUSON, FOR THE NEW YORK TIMES
EXPOSIÇÃO
2018
27 de abril Hub Criativo do Beato
a 20 de maio Lisboa
De quinta a domingo das 10h às 19h ÚLTIMOS DIAS
ENTRADA LIVRE

www.worldpressphoto.org
Visita solene
Alfredo da Silva (à frente,
à dir., de bigode), recebe
o embaixador dos Estados
Unidos da América, coronel
Birch (à frente, à esq.,
de calças brancas), no
complexo CUF do Barreiro,
em 1918. Atrás de Alfredo
da Silva, com chapéu claro,
vê-se o futuro genro Manuel
de Mello (primeiro à direita)
ARQUIVO MUSEU INDUSTRIAL BAÍA DO TEJO

40 VISÃO 17 MAIO 2018


A saga
dos
Mello
MARIA FILOMENA MÓNICA,
SOCIÓLOGA E INVESTIGADORA,
VAI LANÇAR, A 25 DE MAIO,
O LIVRO OS RICOS , COM
BIOGRAFIAS DE ALGUMAS DAS
FAMÍLIAS MAIS ABASTADAS
DE PORTUGAL. A VISÃO REVELA,
EM PRÉ-PUBLICAÇÃO, UM EXCERTO
DO CAPÍTULO DEDICADO
AOS MELLO, OS DONOS DA CUF.
ALFREDO DA SILVA, MANUEL
DE MELLO E JORGE DE MELLO,
TRÊS “CAPITÃES DA INDÚSTRIA”
DO SÉCULO XX, SÃO
OS PROTAGONISTAS

MARIA FILOMENA
MÓNICA
A
Alfredo da Silva nasceu em Lisboa,
em 1871, numa família abastada da
capital. Em jovem, foi estudar para
França, até que a morte do pai, em
Em 1908, o Barreiro, uma viló-
ria rural da Outra Banda, assistira
à inauguração de uma fábrica de
ácido sulfúrico, a primeira unidade
de um aglomerado que chegou até
aos nossos dias como o símbolo da
CUF. Esta obra, a que inicialmente
estiveram associados Henri Burnay
e Martin Weinstein, acabou por ficar
sobretudo ligada ao nome de Alfre-
do da Silva. A vila cresceu durante a
Primeira Guerra Mundial e nos anos
que imediatamente lhe sucederam.
Em 1917, a CUF empregava dois mil
operários. Treze anos depois, já ali
trabalhavam 16 mil, o que a tornou a
maior empresa da Península Ibérica.
Alfredo da
Silva foi
deputado
franquista,
tendo estado
em Alcântara,
quando,
de pistola
em punho,

FOTOS: ARQUIVO MUSEU INDUSTRIAL BAÍA DO TEJO


1885, o obrigou a regressar a Portugal. POLÍTICA E EXÍLIO
Alfredo da Silva e os irmãos recebe- O esboroamento do constituciona-
ram uma herança em bens sólidos: lismo monárquico, a que assistira em
prédios, terras e acções das grandes
companhias da época (do Gás, dos Ca-
jovem, levou-o a desprezar os par-
tidos, incluindo o Regenerador, que
defendeu
minhos-de-Ferro, do Crédito Predial
e do Banco Lusitano). Dado que um
merecera as simpatias de seu pai. Em
1901, foi um dos primeiros a apoiar a o primeiro-
tio seu morrera sem descendentes, a
firma Silva e Irmão passou integral-
mente para este ramo da família. (...)
cisão de João Franco. Durante algum
tempo foi deputado franquista. Em
1906, acompanhou Franco em várias
-ministro
Aos 22 anos, Alfredo da Silva era tournées de propaganda, tendo esta-
já suficientemente famoso para que do presente na mais célebre de todas,
a Carris, de que a mãe era accionista, em Alcântara, quando, de pistola em
o convidasse para director. Foi ali que punho, defendeu o primeiro-ministro
conheceu o conde de Burnay, a quem dos ataques dos populares. (...) o seu império. O plano consistia em
conseguiu convencer das vantagens da Em Outubro de 1918, o governo concentrar toda a actividade fabril
fusão da União Fabril, que pertencia declarava o estado de emergência. da CUF no Barreiro, desanexando do
àquele, com a sua, e mais pequena, Inicialmente, todos os que haviam complexo tudo o que não fosse pura-
Aliança Fabril. Foi assim que, em 1898, sido excluídos pelo PRP apoiaram mente industrial. É assim que, sob a
nasceu a CUF. (...) Sidónio Pais. Com ele, estavam não denominação de Sociedade Geral de
“A arte monopolista” de Alfredo da só os “heróis” do 5 de Outubro, Ma- Comércio, Indústria e Transportes,
Silva, como se lhe referiria, em 1935, chado Santos e José Carlos Maia, mas Lda., fora constituída, em 15 de Julho
o sociólogo Paul Descamps, cedo co- gente variada, incluindo Alfredo da de 1919, uma sociedade por quotas que
meçou a dar frutos. Verificando que os Silva, o qual viria a aceitar fazer parte albergava quaisquer tipo de estabe-
resíduos do óleo de purgueira, maté- do Senado, tendo em várias ocasiões lecimentos, agências e sucursais. (...)
ria-prima que utilizava no fabrico dos discursado no Parlamento. Na noite de Instalado no Hotel Ritz de Madrid,
sabões, forneciam um óptimo adubo, 14 de Dezembro de 1918, Sidónio Pais montou um escritório, de onde co-
Alfredo da Silva lançou-se na sua pro- era assassinado na estação do Rossio mandava os seus negócios. O número
dução, em que, desde a promulgação por um militante do PRP. Meses de- de unidades marítimas que a Socieda-
da lei dos cereais, em 1889, se abriam pois, no Porto, tinha lugar uma in- de Geral adquiriu em Inglaterra, em
boas perspectivas. A certa altura, Cabo surreição monárquica: durou 25 dias. Portugal, em Espanha, na Alemanha
Verde, onde a CUF costumava abas- Como não podia deixar de ser, a e na Holanda ia em crescendo. Habi-
tecer-se, já não conseguia fornecer as situação económica e as movimenta- tuado a um ritmo de trabalho intenso,
quantidades de que a empresa carecia, ções políticas reflectiram-se na vida Alfredo da Silva suportava mal a vida
tendo Alfredo da Silva recorrido à da CUF. Em Abril de 1919, ao lado de morna de um hotel. Apesar de, em
Guiné e a Angola. outros, os trabalhadores da empresa várias ocasiões, o seu genro, Manuel
Nos finais do século XIX, a la- paralisavam. Directamente envolvido de Mello, se ter deslocado de Lisboa a
voura alentejana estava a consumir nas lutas político-sociais, Alfredo da Madrid para com ele debater os pro-
quantidades crescentes de adubo. Silva foi objecto de dois atentados blemas da CUF, sentia-se infeliz. (...)
Tendo começado por o importar, (em 18 de Julho e em 6 de Novembro Em várias ocasiões, Alfredo da Silva
Alfredo da Silva passou a dedicar-se de 1919), de que sairia ileso. Tomou declarou que os seus negócios corriam
à sua produção no Barreiro, uma vila então a decisão de se exilar, fixando mal, não devido ao estado de Portugal,
estrategicamente situada à beira do a sua residência em Madrid. mas por ele não estar presente onde
caminho-de-ferro que penetrava no Antes de partir, concebera a es- devia: “A CUF precisa de mim. Com um
interior alentejano. (...) tratégia para consolidar e expandir mês de Lisboa, tudo muda de aspecto.” (...)

42 VISÃO 17 MAIO 2018


Na fábrica Instalada no Barreiro, a CUF empregava, em 1917, dois mil trabalhadores. Treze anos depois, já eram 16 mil

Finalmente, na Primavera de 1927, te. Aliás, as ideias de ambos sobre o ções minuciosas no caso de em breve
regressou. Na Assembleia-Geral da futuro do país eram opostas. Alfredo vir a morrer. Declarava que os operá-
CUF, de 21 de Abril desse ano, já estava da Silva desejava instalar as indústrias rios não deveriam fazer um dia de luto
de novo a mandar em toda a gente. por ele consideradas como essenciais, pela sua morte, devendo continuar a
Manuel de Mello, que ganhara alguma Salazar fugia da modernização como trabalhar: “A laboração não deveria
autonomia dentro da empresa, teria, o diabo da cruz. (...) cessar em sinal de luto, mas apenas
a partir de agora, de manter um perfil Em 5 de Agosto de 1942, pouco an- dada tolerância de ponto ao pessoal
baixo. Tinha 32 anos e a vida, pensou, tes de morrer, Alfredo da Silva ainda que o quisesse acompanhar à última
à sua frente. Aliás, o período de crise conseguiu estar presente na reunião morada.” (...)
que o país e o grupo económico atra- do Conselho de Administração da
vessavam aproximou-os. (...) CUF. Preocupava-o a falta de maté- O GENRO MANUEL...
O “Salvador” chegou, em 1928, na rias-primas provocada pela guerra, Apesar do longo estágio que fizera
pessoa de Salazar. O Estado Novo viria uma vez que “não queria que nenhum junto do sogro, era evidente que,
a satisfazer muitas das reivindicações dos seus operários fosse dispensado”. sob a direcção de Manuel de Mello,
dos patrões, do condicionamento Como seria de prever, deixou instru- a CUF iria ser diferente. Este herdara
industrial à legislação que proibia as o motto da família – “Os Mello falam
greves. Alfredo da Silva aplaudiu en- pouco” – pelo que sempre pretendeu
tusiasticamente o novo regime, tendo resolver os conflitos de forma serena.

Como qualquer
até aceitado, em 1934, um lugar na Na família aristocrática (os Sabugosa)
Câmara Corporativa. Consolidado o a que pertencia, os arrebatamentos de
sistema político, passou a dedicar-se, Alfredo da Silva não eram bem vistos.
em exclusivo, aos seus negócios, cada
vez mais prósperos após a aprovação
burguês que se A visão que o sogro tinha do mundo
era burguesa, urbana, industrial; a de
dos decretos relativos à Campanha
do Trigo. prezasse, tinha Manuel de Mello, fidalga, bucólica e
paternalista.
Apesar de apoiar a maior parte
das medidas aprovadas, nem sempre uma amante Alfredo da Silva deixava atrás de si
um império. Não só montara a partir

francesa...
as suas relações com Salazar foram do nada a indústria química como
simples. Ele não apreciava que alguém adquirira, na banca, nos seguros,
interferisse na gestão da CUF e Salazar no comércio colonial, na navegação,
não gostava de quem lhe fizesse fren- na indústria, uma posição invejável.

17 MAIO 2018 VISÃO 43


A CUF absorvera tudo o que estava
nas suas fronteiras, da construção
naval à celulose, do têxtil à metalo-
mecânica, das moagens ao sulfato de
cobre. Num país em que muita gente
pensava que a indústria se deveria
manter artesanal, os seus actos devem
ter parecido a obra de um excêntrico.
Sobre a vida privada de Alfredo
da Silva sabe-se pouco. Em 1894,
casara-se com Maria Cristina Dias
de Oliveira, de quem teria uma única
filha. Ainda novo, instalara-se no belo
palácio que os donos de uma meta-
lurgia lisboeta, os Colares, tinham
construído no Alto de Santa Catarina.
Mandaria ainda edificar, no Monte
ARQUIVO MUSEU INDUSTRIAL BAÍA DO TEJO

Estoril, o palacete em estilo D. João V


que ainda ali existe, tendo depois
comprado uma quinta pombalina
em Sintra. Como qualquer burguês
que se prezasse, tinha uma amante
francesa. Nas suas Memórias, Joaquim
Paço d’Arcos relata um encontro que
tivera, em 1933, num comboio, quan-
do Alfredo da Silva se fazia acompa-
nhar por uma senhora com dois cães
pekinois ao colo.
Não me parece que o industrial planear o casamento de Amélia Silva agitado. (...) A continuada escassez de
fosse atreito a snobeiras aristocráti- com Manuel de Mello. Em Janeiro de alimentos convidava à insurreição, o
cas, mas na sociedade portuguesa era 1918, Manuel, que estava na frente da que levou a que, durante uns meses, e
bom estar relacionado com membros batalha em França, correspondeu-se apesar da forte repressão do governo,
da aristocracia, e Manuel de Mello, o com a menina. O namoro prolongou- as greves se sucedessem. (...)
noivo escolhido para a filha, era des- -se por dois anos. Depois do fim da guerra, o grupo
cendente dos marqueses de Sabugo- Alfredo da Silva preparou cuida- iniciou um processo de transformação
sa. Além disso, a fim de o treinar nos dosamente a entrada do genro na tecnológica, tendo em vista prosseguir
negócios, Alfredo da Silva sentia que empresa. Como não era homem para a diversificação da sua produção. Em
precisava de um sucessor masculino esconder sentimentos, a certa altura 1947, Manuel de Mello associava-se
que com ele trabalhasse. Terá ainda perguntou-lhe se ele estava disposto a outros na fundação da Soponata
imaginado que, descendendo aquele, a casar-se também com a CUF. (...) (Sociedade Portuguesa de Navios
pelo lado materno, da família Lima Quer internacional quer nacio- Tanques). A navegação aérea come-
Mayer – que pertencia à alta burguesia nalmente, o período que se segue à çava igualmente a interessar-lhe, mas
lisboeta – dela poderia ter herdado morte de Alfredo da Silva foi bastante esta iniciativa demorou muitos anos
alguns valores modernos. a concretizar-se: a TAP, em cuja lista
Manuel Augusto José de Mello de sócios fundadores aparece o seu
nascera na Quinta Velha, em Sintra, nome, só nasceria em 1953.
em 26 de Julho de 1895. Durante a
infância, ali viveu, após ter deixado Perguntou ... E O NETO JORGE
Lisboa, onde, no final da Rua do Sa-
litre, se erguia o palacete mandado ao futuro genro Em Junho de 1948, os estatutos da
CUF foram reformados de modo que

se estava
construir pela família. Depois de ter Jorge de Mello, então com 27 anos,
frequentado um liceu em Lisboa, o pai pudesse ocupar o lugar de vogal do
decidiu mandá-lo, juntamente com os Conselho de Administração. Cinco
seus outros dois filhos, para a Suíça,
a fim de prosseguirem estudos, mas
disposto anos depois, chegava a vez do irmão
José Manuel. O primeiro ficaria ligado
os resultados de Manuel não foram
brilhantes, tendo acabado por desistir a casar-se aos ramos químicos, o segundo aos
sectores financeiros e de construção
do curso. Em 1915, devido à Primeira
Guerra Mundial, o pai mandou os também e reparação naval. (...)
Por vezes, a interferência do Estado

com a CUF...
filhos regressar ao país e, dois anos no quotidiano das empresas irritava
depois, Manuel era recrutado para aqueles que, em última análise, dela
a tropa. Foi durante este período beneficiavam. Para só citar um caso,
que as duas famílias começaram a veja-se a fúria de Manuel de Mello, e

44 VISÃO 17 MAIO 2018


ra. Seja como for, durante estes anos, a
CUF manteve um grande dinamismo.
Em 1961, em colaboração com estalei-
ros suecos e holandeses, nascia a Lis-
nave. Seria o último grande projecto
ligado ao nome de Manuel de Mello.
Tal como o sogro, a actividade
política de Manuel de Mello redu-

D.R.
ziu-se a ser procurador na Câmara
Negócio de família Alfredo da Silva, Corporativa e Presidente do Grémio
o fundador, e Jorge de Mello, o seu dos Armadores da Marinha Mercante
neto – dois homens que mudaram e, tal como o sogro, quis deixar uma
a face da indústria em Portugal. marca filantrópica, que se traduziu
Ao lado, uma manifestação na criação do Hospital da CUF, ainda
de trabalhadores da Setenave, hoje em funcionamento, de bairros
nos anos 70. O grupo de Alfredo operários, de escolas, de uma colónia
da Silva sempre foi palco de greves balnear, de farmácias e de creches.
e de contestações, desde os anos 40, Pouco tempo antes de morrer, criaria
quando os trabalhadores começaram
ainda a Fundação Amélia da Silva de
a reivindicar aumentos salariais
Mello, destinada a apoiar projectos
na área da educação e assistência. Em
15 de Outubro de 1966, com 71 anos,
morria, sendo substituído pelo seu
filho mais velho, Jorge de Mello.
Em 1988, tive oportunidade de
falar com ele. (...) Antes da entrevis-
ta, recolhi alguns dados biográficos.
Jorge Augusto Caetano da Silva José
sobretudo de seu filho Jorge, quando, de Mello nascera em Sintra, em 1921,
em Maio de 1954, o então ministro das durante um dos mais agitados perío-
Corporações, Soares da Fonseca, de- dos da República. Com poucos meses
cidiu castigar os operários da fábrica de vida, conheceu o seu primeiro
Sol, uma empresa têxtil que pertencia exílio, quando, ao lado do avô, dei-
à CUF, por terem faltado durante o xou Portugal. Sabe-se pouco sobre
1º de Maio, coisa que a direcção tinha a sua infância e a sua adolescência,
autorizado. Segundo o relato que o excepto que Alfredo da Silva lhe dera
ministro enviou a Salazar, Manuel “uma educação germânica”. Em 1945,
de Mello sentira-se tocado no seu casava-se com Maria Eugénia d’Orey
“prestígio”, enquanto o filho, Jorge, Mendonça e Menezes, filha do 4.º
lhe comunicara que considerava a marquês de Olhão e 3º marquês de
medida “negadora dos seus direitos
de patrão”. Exaltado, este até sugerira
ao ministro que o mandasse para a
Dos afortunados Valada, de quem teve 10 filhos, e de
quem, após o 25 de Abril, se viria a
divorciar, tendo-se casado, em se-
cadeia, enquanto, pelo meio, amea- Dois anos depois de ter publicado gundas núpcias, com Maria do Pilar
çava com o recurso directo a Salazar. Os Pobres, Maria Filomena Salazar de Sousa.
Mas as escaramuças de orgulho ferido Mónica regressa com Os Ricos (...) A certa altura, pedi a Jorge de
depressa passaram. (A Esfera dos Livros, €16,90), Mello que me contasse a forma como a
(...) Nos anos 1960, as actividades a “tribo” que conheceu ainda CUF se tornara o maior grupo econó-
da CUF intensificaram-se, pelo que criança, em Cascais. Trata-se mico português. Fê-lo com exemplar
Manuel de Mello sentiu que era neces- de um livro de biografias em que clareza. Como eram precisos sacos
a socióloga (a primeira mulher
sário reforçar a administração, tendo para os adubos que a empresa produ-
portuguesa a doutorar-se em
decidido convidar alguns membros zia, o grupo lançara-se no ramo têxtil;
Sociologia) escreve sobre várias
da família Sabugosa. O recrutamento famílias, além dos Mello. Dos
como eram necessários barcos para
fez-se com a entrada de José Antó- aristocratas como o 1º duque ir buscar a juta, o grupo carecia de
nio Maria José de Mello, 3º conde do de Palmela ou o conde de Burnay, uma companhia de navegação; como
Cartaxo (irmão mais velho de Manuel passando por industriais como já tinha uma rede comercial montada
de Mello) e dos seus irmãos João Ma- Champalimaud, Américo Amorim para os adubos, o grupo lançou-se na
ria José de Mello e de Diogo José de ou Belmiro de Azevedo e outros produção de sulfato de cobre para as
Mello. Não era a primeira vez que o milionários como Eugénio de vinhas. Numa palavra, num país onde
assunto era abordado. Em tempos, Almeida ou Antónia Ferreira. nada existia, a CUF teve de fazer tudo.
Alfredo da Silva olhara um pedido Nascida em 1943, Maria Em dada altura, disse-me que,
similar com condescendência: “Mande Filomena Mónica é autora antes do 25 de Abril, já existiam na
então vir o primo que é nobre”, disse- de uma vasta obra. CUF comissões de trabalhadores

17 MAIO 2018 VISÃO 45


que, nas alturas em que havia coisas
importantes a discutir, se sentavam
ao lado dos patrões. Não o fez para
se gabar de quaisquer pergaminhos
democráticos – longe dele tal ideia
– mas por o assunto vir no decorrer
da conversa. Ao contrário do que se
pensa, excepto possivelmente duran-
te as lutas dos anos 1940, o PCP teve
dificuldade em se implantar entre os
operários da CUF, não só por, num
contexto de extrema miséria, serem
favorecidos como por permanecer
forte a tradição obreirista que levaria
FOTOS: ARQUIVO MUSEU INDUSTRIAL BAÍA DO TEJO

os trabalhadores a admirar mais o


anarquismo do que o marxismo. (...)

A PRISÃO
Na madrugada de 25 de Abril, na sua
quinta de Riba Fria, Jorge de Mello re-
cebeu um telefonema de um dirigente
da Legião Portuguesa, avisando-o de
que havia tropa insurrecta na rua.
Interrogado pela mulher, respon-
deu-lhe: “Está tudo perdido, esquece
as nossas casas, esquece a nossa vida,
esquece tudo. O grupo CUF está a ruir a Setenave, os Estaleiros Navais de pensou em usar a pistola que tinha na
nesta noite.” Pouco depois, António Viana do Castelo, a Fisipe, a Sopo- gaveta, mas considerou que seria uma
Serra Lopes, um jovem e brilhante ad- nata, a Companhia de Nacional de estupidez. Já na rua, [o tenente Eduar-
vogado, entrou no seu escritório para Navegação, o Banco Totta & Açores do] Rosário Dias comunicou-lhe irem
lhe mostrar o programa do MFA (Mo- e a Companhia de Seguros Império. para Caxias, o que sossegou Jorge de
vimento das Forças Armadas). Jorge (...) Nos meses seguintes, a vida de Mello, uma vez que chegou a pôr a
de Mello pediu-lhe que lho lesse. Serra Jorge de Mello não seria fácil. Ao hipótese de ir ser fuzilado.
Lopes foi interrompido antes de pas- lado de alguns dos mais importantes Fuzilado não seria, mas foi sujeito
sar à 2ª página, pois o dono da CUF industriais, incluindo o seu irmão a humilhações, tal como a de se ter
estava ansioso por saber a sua opinião. José Manuel de Mello e o cunhado de despir várias vezes. Às 18 horas,
O seu colaborador voltou a ler o ponto 6 António Champalimaud, esteve activo entrava na cela 7, no 2º piso. Na cela
do programa, que dizia: “O Governo na organização de alguns movimen- contígua estavam, desde a véspera,
Provisório lançará os fundamentos de: tos de empresários, como o efémero alguns membros da família Espírito
a) Uma nova política económica, pos- MDS/E38. Sem tradição de activismo, Santo. As celas – pequenas, húmidas
ta ao serviço do Povo Português, em os empresários não souberam organi- e sem condições sanitárias – eram as
particular das camadas da população zar-se, acabando quase tudo em ruínas mesmas onde tinham vivido, duran-
até agora mais desfavorecidas, tendo após o golpe de 11 de Março de 1975. te anos, os prisioneiros políticos do
como preocupação imediata a luta Em 12 de Março de 1975 (...), os mi- Estado Novo. (...)
contra a inflação e a alta excessiva do litares entraram no gabinete de Jorge Seja como for, estas detenções
custo de vida, o que necessariamente de Mello, para o prender. Este ainda não duraram muito tempo. Embora
implicará uma estratégia antimono- o suspense sobre o que lhes poderia
polista.” Eis como o Jorge de Mello acontecer certamente tivesse causado
reagiu: “Não me parece mal.” E logo a insónias aos presos, os dias em Caxias
seguir perguntou-lhe: “Ó Serra Lopes, foram suportáveis. O grupo de gran-
temos algum monopólio no grupo?”
A CUF era, de facto, o maior grupo Jorge de Mello des patrões e banqueiros ali detidos
optou por se distrair com brincadei-

foi preso no
económico nacional, detendo perto de ras infantis, tais como jogos da bata-
180 empresas, responsáveis por cerca lha naval, o Monopólio e a bisca. Em
de 4% da economia portuguesa e por 15 de Março, em nome do Conse-
quase 50 mil postos de trabalho. Em
rigor, não era um monopólio, mas era
ano de 1975 em lho da Revolução, o almirante Rosa
Coutinho ordenou a “libertação ime-
assim que era visto e, como tal, um
alvo a abater. Na altura, o grupo alar- Caxias e sujeito diata” de Jorge de Mello e de outros
seis presos ligados ao Banco Espíri-
gara a sua presença a Moçambique,
Angola, São Tomé e Guiné-Bissau.
No leque das empresas contava-se
a humilhações to Santo. A isto não terá sido alheia
a intervenção de José Manuel de
Mello, quer junto do Presidente da
a Compal, a Tabaqueira, a Lisnave, República, marechal Costa Gomes,

46 VISÃO 17 MAIO 2018


Obra social O primeiro hospital
da CUF foi construído para
os trabalhadores. O grupo erigiu
ainda vários bairros operários,
escolas e creches

Foi ao som da
quer junto das embaixadas brasilei- tactos internacionais para formar
ra e francesa. O Presidente Giscard uma sociedade destinada a canalizar
d’Estaing – que gostava de caçar os investimentos estrangeiros para
em Portugal – enviou mesmo um
ultimatum a Vasco Gonçalves: “Se
“Internacional” Portugal, a MHW, em colaboração
com os ingleses da Hambros e os
Jorge de Mello não for libertado
rapidamente, a França tomará as que os manos franceses da Worm. Começou por
investir o dinheiro que recebera das
devidas opções.”
Mello entraram indemnizações (cujo pagamento se
iria prolongar por 28 anos, à taxa de

na fábrica Sol...
RENASCER 2,5% ao ano), nas áreas alimentares, na
No Verão de 1975, após a tomada de metalomecânica ligeira e em compo-
posse do V Governo por Vasco Gon- nentes para automóveis. Dedicou-se
çalves, o bispo de Braga incitou os ainda a negócios na área do azeite e
povos à rebelião, pelo que ocorreram dos óleos alimentares, com uma das
motins no Norte, tendo sido queima- mais fortes marcas portuguesas, o
das sedes do PCP. Muitos pensaram azeite Oliveira da Serra. Finalmente, a
estar o país à beira de uma guerra civil. Nutrinveste ressuscitou em força, com
Em 12 de Agosto, a Comissão Unitária depois, Jorge de Mello seguia para o negócios em cinco países. (...)
dos Trabalhadores da CUF reunia-se, exílio. Como disse numa entrevista, Ao longo das décadas, Alfredo da
na fábrica Sol, com delegados sindi- “andei por aí” – viveria em Espanha, na Silva e os Mello souberam criar uma
cais do grupo, tendo decidido “averi- Suíça e no Brasil – durante alguns anos. “cultura CUF”. Ser ali engenheiro era
guar as informações, segundo as quais A situação, dele e do irmão, era caricata. quase um diploma. É verdade que
constava que o Dr. Jorge de Mello e o As Forças Armadas determinaram que estavam ligados ao regime e que, em
Sr. José Manuel de Mello teriam fugi- nunca poderiam sair os dois ao mesmo várias ocasiões, utilizaram formas
do do país”. Pelo meio, a Comissão de tempo: um tinha de ficar “sequestrado” de repressão duríssimas sobre os
Trabalhadores informava a secretária no país. Em 1981, quando lhe pareceu grevistas, mas isto não exclui a outra
de Jorge de Mello que ou este se apre- que se voltara “a reconhecer, na socie- face da moeda, ou seja, que os Mello
sentava na CUF ou “o povo” tomaria dade e na política, o papel indispensável faziam parte de um tipo de empresa-
as fábricas de assalto. Foi ao som da dos empresários privados”, regressou. riado raro em Portugal. Um operário
Internacional que os manos Mello Queria começar tudo de novo. que ali tivesse emprego sabia que era
entraram na fábrica Sol. Devem ter O relançamento empresarial foi feito melhor trabalhar na CUF – onde ha-
sido momentos desagradáveis, mas, na base de financiamentos bancários via creches, escolas e hospitais – do
quando com ele falei, nunca Jorge de e com o produto da venda da casa que na maioria das outras empresas.
Mello se exaltou ao contar-me o que onde nascera, a Quinta da Riba Fria, Mais do que o pai, Jorge de Mello
se passara. (...) e de uma grande herdade, a do Peral, herdou do avô a vontade de deixar
Após alguns meses de agitação la- que possuía no Alentejo. No campo obra feita. (...) visao@visao.pt
boral, a CUF foi nacionalizada. Pouco financeiro, aproveitou os seus con- Título e subtítulos da responsabilidade da VISÃO

17 MAIO 2018 VISÃO 47


A DISCRETA
FAMILIA
POR DETRAS
DO CHEFE
AVILLEZ
Eva
48 VISÃO 17 MAIO 2018
OS ARIÉ, UMA FAMÍLIA JUDIA,
ESTÃO HÁ NOVE ANOS NOS
BASTIDORES A CRIAR O IMPÉRIO
DE RESTAURAÇÃO AVILLEZ. TRÊS
IRMÃOS GEREM UM PATRIMÓNIO
GIGANTE QUE INCLUI PERFUMES,
COSMÉTICOS E MODA, UMA
HERANÇA DO PAI, UM BÚLGARO QUE
VEIO PARA PORTUGAL POR AMOR.
PELA PRIMEIRA VEZ, ACEITARAM
FALAR SOBRE OS SEUS NEGÓCIOS
C ATA R I N A G U E R R E I R O *

Renato Jacqueline Charles Susana Helena


O império Arié
Desde os anos 50 que a família assume a
representação em Portugal de marcas de luxo de
perfumes e de cosméticos. Com a participação nos
negócios de José Avillez, já neste século, estendeu
os seus investimentos à área da restauração

Fechados numa sala no edifício em Tires, em TODA A NOSSA VIDA


Carcavelos, onde funcionava a sede do Gru-
po Arié, sentaram-se os quatro, várias vezes PROFISSIONAL FOI
ao longo de meses, e delinearam o que hoje SEMPRE NO SENTIDO
é o império de restauração de José Avillez.
Corria o ano de 2010 e, naqueles encontros, DE FAZER CRESCER
além do chefe, participavam os três descen- AS MARCAS QUE
dentes de uma das famílias mais ricas e mais
discretas do País – os Arié. TRABALHAMOS.
Foi durante essas reuniões que o clã de ori- O ESTRELATO ESTÁ,
gem judaica, que se tornou, entretanto, o
gigante português das perfumarias, decidiu POR ISSO, NELAS
apostar no jovem cozinheiro. “Foi empatia E NÃO NA NOSSA MODA
imediata”, recorda hoje Renato Arié, 57 anos,
um dos três irmãos que lideram os negócios FAMÍLIA. HÁ CAMPOS Atualmente, o grupo detém a
da família. Nas conversas estava também DO NEGÓCIO E DA representação da Stefanel em
presente o irmão mais velho, Charles Arié, Portugal. A primeira loja da marca
e a filha deste, Ana. Tinha sido ela, depois de VIDA PRIVADA QUE italiana no nosso país foi inaugura-
concluir os estudos de hotelaria em Lausan- PROCURAMOS da em 1987. Antes disso, em 1964,
ne, na Suíça, quem lançara na família a ideia abriu a Boutique Ayer. Na década
de avançarem com uma parceria na área da PRESERVAR”, DIZ de 80, representava ainda a DIM,
restauração. “Nós conhecíamos o José Avil- RENATO ARIÉ bem como outras marcas
lez, como clientes, do restaurante Albatroz”, de lingerie do grupo Sara Lee
conta Renato, explicando que, sabendo do
projeto de catering que o chefe tinha em Stefanel

50 VISÃO 17 MAIO 2018


RESTAURANTES
A compra do Grupo Doca de Santo em
2017 foi o negócio mais recente dos
Arié, na área da restauração. Com esta
aquisição, nasceu o grupo Capricciosa,
gerido por Ana Arié.
Mas desde 2010 que existe uma ligação
acionista a José Avillez

PARCERIA COM JOSÉ AVILLEZ


O Cantinho do Avillez, Belcanto,
Pizzaria Lisboa, Café Lisboa, Mini
Bar, Bairro do Avillez (Taberna, COSMÉTICA E PERFUMARIA
Páteo, Beco e Cantina Peruana),
Pitaria, Cantina Zé Avillez, Tasca REPRESENTAÇÃO E DISTRIBUIÇÃO GROSSISTA
Chic, Jacaré e Barra Cascabel (estes A ligação da família às marcas de cosmética nasceu
três últimos localizados no El Corte em 1954, com a representação em Portugal do Instituto
Inglés, em Lisboa) Ayer. Hoje, assegura a representação e a distribuição
grossista de diversas marcas de luxo de perfumes e de
GRUPO CAPRICCIOSA cosméticos, abastecendo as lojas de terceiros e, mais
Doca de Santo, pizzarias Capricciosa recentemente, os próprios pontos de venda
(duas em Lisboa, uma em Carcavelos
e uma em Cascais), Otto, Popolo, COSMÉTICA
República da Cerveja, Irish & Co. Ayer, Carita, Juvena, La Prairie,
(Parque das Nações e Doca de Santo Marlies Möller, Shiseido e Valmont
Amaro), Doca Peixe e DOC COD
PERFUMARIA
Bulgari, Dolce & Gabbana, Elie Saab,
Givenchy, Hermès, Issey Miyake, Kenzo, Narciso
Rodriguez e Zadig & Voltaire

DISTRIBUIÇÃO RETALHISTA
Com a compra, no início de 2015, do
Grupo Barreiros Faria, detentor de uma
quota de 40% no mercado de retalho nas
áreas de perfumaria e cosmética, o grupo
Arié ganhou acesso a cerca de 150 lojas
próprias que, hoje, ostentam a designação
de Perfumes & Companhia

Perfumes & Companhia (150 lojas)

17 MAIO 2018 VISÃO 51


Longe da ribalta
Charles Arié, 61 anos,
num evento da empresa
Perfumes & Companhia,
numa das poucas
ocasiões em que
se deixou fotografar

FOTO: HIPERSUPER

Cascais, decidiram conversar para avaliar a reservados e não pretendem mudar. Não são
possibilidade de se juntarem. frequentadores de festas e não gostam de ser
Naqueles tempos em que debatiam ideias fotografados.
com o futuro sócio, “nunca pensaram” que o Vivem assim, discretamente, desde peque-
plano de restauração viesse a assumir a di- nos. Renato e os irmãos, Charles e Jacqueli-
mensão e o mediatismo que tem atualmente, ne, herdaram um já considerável negócio de
admite Renato Arié. “Mas desde aí que a ideia família, criado pelo pai Roudolph Arié, um
é ter um projeto consistente. E, por isso, os NO INÍCIO NINGUÉM negociante judeu que, durante o Estado Novo,
passos dados foram sempre conscientes”, trouxe para Portugal os cremes de uma das
garante. Assim, tempos depois, nesse mesmo IMAGINAVA A marcas mais luxuosas do mundo, a Harriet
ano de 2010, a família entrou para a empresa DIMENSÃO QUE Hubbard Ayer.
José Avillez. E, em 2011, abriram o primeiro
restaurante em conjunto – o Cantinho do O PROJETO COM PAIS APAIXONARAM-SE EM PARIS
Avillez, no movimentado bairro do Chiado, O JOSÉ AVILLEZ VIRIA Roudolph veio para Portugal por amor. Corria
em Lisboa. o ano de 1954 quando chegou a Lisboa, para
Hoje, têm dificuldade em saber de cor os A TER. MAS, DESDE se casar com Eva Jablonsky, uma rapariga de
locais que exploram em conjunto. Este ano, SEMPRE, TIVEMOS origem polaca que vivia na capital portuguesa
chegaram às duas dezenas, com a inauguração com os pais desde os seis anos. A família dela
de um novo espaço, na zona do Parque das A VISÃO DE CRIAR tinha emigrado e instalara-se em Lisboa em
Nações, em Lisboa. Nestes nove anos de par- UMA MARCA FORTE 1936, onde lançou um pequeno negócio de
ceria, a família que investiu no talento de José malhas. Numa viagem a França, Roudolph e
Avillez decidiu ficar sempre nos bastidores. E DE REFERÊNCIA”, Eva conheceram-se e apaixonaram-se.
Nem Renato nem a mãe nem os irmãos AFIRMA RENATO ARIÉ Ele, nascido em Sofia em 1915, pertencia a
gostam de aparecer. São extremamente dis- uma família búlgara com jeito para o negó-
cretos, e esta é a primeira vez que aceitam cio. Na Bulgária, os seus pais tinham uma fá-
falar abertamente sobre o assunto. “O que brica de produtos de higiene e exportavam a
temos de valorizar são as nossas marcas”, rosa da Bulgária – também conhecida como
sublinha Renato, contando que o lema dos rosa-damascena, uma fragrância que se diz
Arié foi sempre o de centrar “o estrelato nas ter múltiplas propriedades terapêuticas
marcas e não na família”. Assumem ser muito para a pele. Roudolph estudou Engenharia

52 VISÃO 17 MAIO 2018


Três gerações discretas
A família Arié resulta da união de um búlgaro e de uma polaca que, em 1954, se casaram
em Lisboa. Têm origem judaica e nasceram em famílias com jeito para o negócio

Roudolph Arié Eva Jablonsky Arié


Pai Mãe
Nasceu em Sofia, Bulgária, no ano de 1915, em plena I Guerra Nasceu na Polónia e veio para Portugal quando tinha seis
Mundial. Estudou Engenharia Química em Lyon, França, com anos, em 1936. O seu pai, de apelido Jablonsky, e a sua
o objetivo de trabalhar nos negócios da família, na área dos mãe montaram um negócio de malhas em Lisboa, onde se
perfumes (com exportação da Rosa da Bulgária, uma famosa estabeleceram. Era filha única. Casou-se com Roudolph Arié
fragrância). Mas depois de estudar em França foi para Israel, em 1954. Foi a alma da Boutique Ayer, indo várias vezes por
onde trabalhou em diversas empresas, nomeadamente na ano aos salões de moda a Paris e a Milão, onde encomendava
Revlon. Conheceu Eva em Paris e veio viver para Lisboa para os modelos e comprava padrões que depois mandava
se casar com ela. Não tinha cá família. Durante o Estado Novo, reproduzir em fábricas portuguesas. A loja de alta-costura
deu início ao império Arié em Portugal. A primeira marca de funcionou primeiro na Rua Manuel Jesus Coelho e, em 1995,
cosméticos que trouxe, logo em 1954, foi a Harriet Hubbard Ayer. passou para a Avenida da Liberdade, onde esteve aberta até
De imediato abriu um instituto de beleza Ayer e, a partir daí, 2004. Hoje, Eva é viúva e vive em Cascais. Gosta de jogar
montou o império familiar. Morreu em 2002, com 87 anos bridge. E continua a ter um forte papel na família

Charles Chuna Arié Jacqueline Arié Renato Rafael Arié


Filho Filha Filho
Tem 61 anos e é o filho do meio. Lidera os É a filha mais velha É o filho mais novo. Tem 57
negócios da família, incluindo a empresa do casal. Arquiteta de anos e, como o irmão Charles,
de distribuição e de retalho de cosmética, formação, estudou na lidera os negócios da família.
perfumes e moda. Estudou no Brasil Suíça, em Lausanne. Não Casou-se com Susana
e casou-se com Helena Leote, uma teve filhos e hoje está Drozdzinski Ruah Arié, filha
católica que se converteu ao judaísmo casada com Jorge de do urologista Joshua Ruah,
e com quem teve três filhos: Ana, David Almeida, irmão do conde também uma família judaica.
e Alexandre. Os dois primeiros são do Lavradio. Vive em Têm dois filhos, um rapaz
ativos nos negócios de família: Ana no Cascais e, como a mãe, e uma rapariga.
grupo José Avillez; David na empresa de gosta de jogar bridge com
retalho Perfumes & Companhia. Costuma as amigas
aparecer nos eventos da empresa
Perfumes & Companhia, deixando-se
fotografar, uma exceção na forma de
atuar da família. Já é avô

Raquel
Neta
Rafael
Neto

David Arié
Neto
Responsável pela área digital
e de desenvolvimento de negócio
na Perfumes & Companhia

Alexandre Arié
Neto Ana Arié
Neta
Filha de Charles e Helena Arié. Estudou
Hotelaria e trabalhou na Quinta das
Lágrimas, em Coimbra, gerindo o
catering. Foi ela quem levou a família a
juntar-se a José Avillez e a apostar na
restauração. Casou-se com um jovem
católico e tem três filhos
17 MAIO 2018 VISÃO 53
Expansão O chefe no Bairro
do Avillez, no Chiado, um dos
17 restaurantes que tem em
parceria com a família Arié

O menino de ouro
À aptidão para a gestão de José Avillez aliou-se
a capacidade de investimento da família Arié

Os que desde há muito lhe seguem o percurso


costumam dizer que o espanto é que, com
tudo isto, José Avillez permaneça o mesmo
de sempre. Sem deslumbramentos nem
excentricidades, o rapaz de Cascais, que queria
ser carpinteiro e que se casou com uma das
filhas de Fernando Ulrich, continua a trabalhar
16 horas por dia, assegurando a criação das
ementas e o quotidiano dos vários restaurantes.
O facto é que, aos 38 anos, o menino de ouro
da matriarca da gastronomia portuguesa Maria
de Lourdes Modesto é a cara da nova cozinha
nacional. Em 2010, acabado de chegar aos 30,
Avillez teve a sorte (e o mérito) de encontrar na
família Arié a capacidade de investimento que a
sua aptidão para a gestão e para a liderança na
restauração requeriam. Recorde-se que, um ano
antes, o chefe havia conseguido a sua primeira
Estrela Michelin à frente do histórico restaurante
Tavares. Logo a seguir, foi capaz de dar vida nova
ao Belcanto, outro clássico de Lisboa, fundado
em 1958. Quando o Belcanto reabriu, Avillez
confessou à VISÃO que não desistia de alta
cozinha “só porque é mais difícil”: “A viabilização
do negócio é importante, mas nem tudo precisa
de dar milhões. E pagar estes 17 ordenados não
é de somenos importância.” Hoje, mantém a
empresa de catering onde tudo começou, mas
o seu império estende-se a quase duas dezenas
de restaurantes (para breve, está prevista a
inauguração do Cantinho do Avillez, em Cascais,
e do Mini Bar, no Porto). Note-se ainda que não há
quaisquer registos de encerramentos, o que, num
mundo como este (em que os restaurantes tanto
começam como acabam no momento seguinte),
pode, por si só, querer dizer muita coisa.

Nove anos de união


Como, em pouco 2010 2011 2012 2013
tempo, José Avillez
e a família Arié A família Arié entra Inaugura, no Chiado, Em janeiro, o Belcanto, Na primavera deste ano,
transformaram na sociedade de uma o primeiro Cantinho do um dos restaurantes Avillez abre a Pizzaria
uma empresa empresa de catering e Avillez, com uma ementa clássicos de Lisboa, volta Lisboa. Na rentrée, toma
de catering num de take away que José de inspiração portuguesa. a abrir portas, totalmente conta do antigo bar do
verdadeiro império Avillez tinha com outros Na decoração, o chefe conta renovado. É aqui que, Teatro Nacional de São
de restauração sócios desde 2007 com a ajuda de Joana Astolfi, em termos de técnica Carlos – o restaurante
que mais tarde viria a ser e de criatividade, José leva o nome Café Lisboa
fundamental na criação Avillez joga todo o seu e estende-se ao próprio
dos ambientes de outros saber e toda a sua arte. largo em frente do
restaurantes. Para Distinguido com duas edifício do teatro lírico.
o Cantinho, a artista imaginou Estrelas Michelin Por falta de tempo, deixa
uma instalação, intitulada a parceria com tinha o
A Conversa Não Chegou grupo H3, a Empadaria
à Cozinha, que permanece do Chef
no local

54 VISÃO 17 MAIO 2018


J O S É AV I L L E Z

“Temos uma relação química em Lyon, França, com o objetivo

de total confiança”
de vir a liderar a firma de perfumes da fa-
mília. Porém, acabou por ir trabalhar para
Israel, onde passou por várias empresas,
incluindo a Revlon.
Como se movimentava bem na área dos
O chefe com duas Estrelas Michelin fala da parceria perfumes e cosméticos, logo que chegou a
que tem com os Arié e explica como, no dia a dia, Portugal, em 1954, conseguiu obter a repre-
trabalha com a família
sentação da marca Harriet Hubbard Ayer.
“Ele começou por trazer a marca de produtos
cosméticos, abriu logo um instituto de bele-
Como nasceu esta sua “união” za, com um cabeleireiro e depois até teve um
com a família Arié? ginásio”, lembra Renato.
A relação com a família Arié teve início em 2010. Em 1964, o patriarca Roudolph inaugurou
No começo desse ano, foi-me pedido que reunisse a boutique Ayer, que se tornou um ponto
com Charles Arié e com Ana Arié para falarmos sobre de encontro da alta sociedade portuguesa.
um projeto de consultoria. Na altura, Ana Arié queria Funcionou inicialmente na Rua Manuel Je-
abrir uma empresa de catering para escritórios e sus Coelho, em Lisboa, mas, em 1995, a loja
gostava de contar comigo para construir o projeto. de alta-costura passou para a requintada
Dessa reunião, nasceu a ideia de fazermos uma Avenida da Liberdade. No estabelecimento
sociedade para uma empresa de catering e take away. vendiam-se as mais conceituadas marcas do
E assim surgiu a participação da família Arié na JA mundo da moda e este era frequentado pelas
Cooking, empresa da qual eu já era sócio e que, mais mulheres mais ricas do País. Eva Arié viajava
tarde, se transformaria no Grupo José Avillez. várias vezes ao ano para visitar os melhores
Quem, da família, acompanha mais o dia a dia salões de moda de Paris e de Milão. Chegou
do seu grupo e como é essa relação? a ser notícia no jornal International Herald
É uma relação próxima e de total confiança. Estamos Tribune, onde se contava que, naqueles paí-
sempre em contacto. A família Arié participa na ses, a matriarca dos Arié costumava comprar
administração do Grupo José Avillez e recebe padrões para depois reproduzi-los em Por-
informações diárias. tugal. Foram anos de muito sucesso para o
O que preza mais na família Arié casal judeu.
e na forma discreta como os seus membros Pelo meio, Roudolph e a mulher, que ti-
atuam na vida e nos negócios? nham 15 anos de diferença de idade, ainda
A forma discreta com que atua, a total confiança abriram um health center, na Rua Rodrigues
que têm em mim e na minha equipa, o entusiasmo Sampaio, também em Lisboa, que mais tarde
e o permanente incentivo. acabou por fechar.
Algum dos seus pratos tem a “mão”
de alguém da família? Uma sugestão, um O MISTÉRIO DOS NOMES FRANCESES
ingrediente, uma história, uma viagem… Ao mesmo tempo que o negócio ia crescendo,
Poderia ter, mas isso ainda não aconteceu... a família foi aumentando. Em 1955, nasceu
LUÍS BARRA

Jacqueline e, dois anos depois, Charles. Em


1961, chegou o terceiro filho, René, que todos
conhecem como Renato. O casal decidiu dar

2014 2015 2016 2017 2018


Com o Mini Bar, onde O único ano em que, Em agosto, inaugura o O último piso do El Corte Num ambiente
“nem tudo o que neste período, José Bairro do Avillez, uma área Inglés é completamente descontraído, em frente
parece é”, o império de Avillez não abriu um com mil metros quadrados renovado e, na zona ao Bairro do Avillez, nasce
José Avillez assegura restaurante. No rescaldo que ocupa parte dos Gourmet Experience, a Pitaria, com sabores do
também o espaço de da segunda Estrela claustros do antigo Avillez é responsável Médio Oriente e playlist
restauração de outro Michelin (atribuída em Convento da Trindade, em pela Tasca Chic, pelo criada pela equipa do
teatro do Chiado, o São novembro de 2014), o Lisboa. Abriu com dois Jacaré e pela Barra restaurante. Já este ano,
Luiz. No final deste ano, grupo dedicou toda a sua restaurantes (Taberna Cascabel (esta última estreou-se ainda a Cantina
o Cantinho do Avillez atenção ao grande projeto e Pátio), mas entretanto com o chefe mexicano Zé Avillez em duas zonas
ainda chega ao Porto do Bairro do Avillez, também já integra mais Roberto Ruiz) de Lisboa: no Campo das
que haveria de nascer dois, o Beco (alta cozinha) Cebolas (em março) e no
em meados de 2016 e o Cantina Peruana (em Parque das Nações (em
parceria com o chefe maio). Aqui, o chefe aposta
Diego Muñoz) em pratos tradicionais da
cozinha portuguesa

17 MAIO 2018 VISÃO 55


União Ana Arié e José Avillez trabalham juntos
desde 2011, ano em que abriram o primeiro projeto
juntos, o Cantinho do Avillez, no Chiado

LUÍS BARRA

nomes franceses aos descendentes por ser netos do fundador à empresa, surgiria uma
essa a língua em que falavam quando se co- nova revolução no património da família. Ana
nheceram em Paris. Arié, filha de Charles, acaba por empurrar o
Aos poucos, a empresa foi ganhando terre- pai e os tios para o seu sonho de investir na
no no mercado da perfumaria e da cosmética. área da restauração. Tinha um projeto em
Jacqueline, que se formou em Arquitetura, foi mente que queria pôr em prática. Foi assim
para a Suíça estudar, e Charles partiu para o que o caminho do então jovem José Avillez e
Brasil. Renato permaneceu junto dos pais. E, da família Arié se cruzaram.
à medida que se iam formando e concluindo Desde 2011 que têm negócios juntos, mas só
os cursos, foram integrando e participando o chefe costuma dar a cara. Os sócios têm
ativamente nos negócios familiares. Acaba- O QUE MAIS PREZO preferido manter-se discretos e fazem ques-
ram por ser eles a causar a primeira grande tão de garantir que pouco se sabe sobre eles.
mudança no mundo empresarial dos Arié. NA FAMÍLIA ARIÉ É “É uma forma de estar na vida”, explicam.
“A nova geração veio alargar a área de A FORMA DISCRETA Quem os conhece garante que são das fa-
negócios que existia”, descreve Renato Arié, mílias mais reservadas que existem no País.
falando dos anos 80, quando a família apos- COM QUE ATUA, A Vivem em boas casas, uns em Lisboa, outros
tou na Stefanel – a marca de roupa que eles TOTAL CONFIANÇA em Cascais, mas não gostam de exibir grandes
ainda mantêm e que foi criada em Itália, no luxos, como barcos e outras extravagâncias.
ano de 1959, por Carlo Stefanel. QUE TEM EM MIM Têm por hábito reunir-se em família, e Eva, a
Nessa época, começaram também a co- E NA MINHA EQUIPA, viúva de Roudolph, ainda é vista como a ma-
mercializar marcas de lingerie como a DIM, triarca que não perdeu a tentação de mandar
entre outras, e a expandir cada vez mais o O ENTUSIASMO em todos. Ela e a filha Jacqueline, que não tem
grupo para a área têxtil. Jacqueline dedicava- E O PERMANENTE descendência, gostam de jogar bridge com as
-se em grande parte à Ayer, sendo conhecida amigas. Já os homens assumem claramente o
por todas as clientes. Já os irmãos seguiram INCENTIVO”, CONTA controlo do dia a dia do Grupo Arié.
de perto a gestão de todos os negócios. JOSÉ AVILLEZ Este integra uma empresa de distribuição (a
Roudolph SA) – através da qual o clã detém a
NETOS FAZEM REVOLUÇÃO exclusividade de várias das melhores marcas
Em 2002, os três irmãos perdem o pai. de cosméticos e de perfumes do mundo – e
O patriarca morre aos 87 anos, deixando um outra de retalho (a P&C – Perfumes & Com-
império bem montado em Portugal. Porém, panhia SA), através da qual são donos de 150
tempos depois, em 2004, conta Renato, co- lojas. Além disso, os Arié têm participação em
meçou a dar-se um desinvestimento do grupo várias outras áreas de atividade, por meio de
na área têxtil e um reforço nas perfumarias e empresas detidas pelo grupo – como sucede
cosméticos. Foi, de certa forma, um regresso na parceria com José Avillez.
às origens. No entanto, com a chegada dos Muitos dos familiares trabalham na empre-

56 VISÃO 17 MAIO 2018


MOMENTOS-CHAVE
DOS NEGÓCIOS
DA FAMÍLIA
1964
Inauguração da Boutique
Ayer. A loja era das
poucas que, na Lisboa de
então, vendiam as marcas
mais célebres da moda
internacional

1987
Família abre a primeira
loja Stefanel, marca que
Roudolph e Eva Na boutique Ayer, hoje ainda representa em
na Avenida da Liberdade Portugal

1995
Boutique Ayer muda-se
para uma localização
nobre: a Avenida da
Liberdade, em Lisboa

sa. Na topo da hierarquia da holding está qual Ana Arié integra o conselho de adminis-
Jacqueline e os dois irmãos. Depois, nas vá- 2010 tração e tem, desde o início, um papel ativo.
rias unidades operacionais, surgem outros Participação na empresa Estão todos a par, diariamente, dos valores de
de catering de José
familiares, como Susana Ruah, casada com Avillez, dando assim faturação de cada um dos restaurantes, conta
Renato, e David Leote Arié, filho de Charles início a um novo ramo Renato, e acompanham a gestão dos vários
e de Helena Arié. Nenhum deles leva para de investimento, o da estabelecimentos. Gostam de frequentar os
casa ordenados milionários, conta quem os restauração espaços. “Há uns Arié mais gourmets do que
conhece, nem são gastadores. Vão trabalhar outros”, brincam. Por vezes, levam os amigos
todos os dias e costumam encontrar-se na 2015
para jantar nos restaurantes, e é habitual
atual sede da empresa, na Rua Mouzinho Compra do Grupo ouvirem elogios, principalmente de quem
da Silveira, onde definem ao pormenor os Barreiros Faria, com uma vem do estrangeiro. “O restaurante Páteo é
passos a dar. quota de mercado de 40% o que mais impressiona pela sua dimensão”,
Juntos decidiram avançar para um dos na área da perfumaria e revela Renato, falando do espaço que se situa
negócios mais importantes dos últimos anos: cosmética. Hoje, todas na Rua Nova da Trindade.
as 150 lojas ostentam a
a compra da totalidade das sociedades que designação Perfumes & Em breve, os Arié preparam-se para investir
integram o Grupo Barreiros Faria. “A aquisi- Companhia na cidade do Porto. Estão em negociações
ção da Perfumes & Companhia foi um grande com o empresário Vasco Mourão, dono de
marco, pois são 150 lojas”, admite o filho mais restaurantes como o Cafeína, o Terra, o
novo do fundador do Grupo Arié. Em 2015, a 2017 Portarossa e a Casa Vasco. Os Arié assumem
Compra do grupo de
dimensão do negócio obrigou a uma tomada restaurantes Doca de que há vontade de investir, mas garantem
de posição da Autoridade da Concorrência. Santo, a partir do qual que a parceria passará sempre por incluir
Os Arié já tinham a distribuição grossista criou o atual Grupo no negócio o próprio Vasco Mourão – um
de marcas de cosmética (Ayer, Carita, Juve- Capricciosa empresário da Foz do Porto que também
na, La Prairie, Marlies Möller e Valmont) e de se assume como uma pessoa low-profile e
perfumes (Bvlgari, Elie Saab, Fendi, Givenchy, que conta com a admiração de José Avillez.
Hermès, Issey Miake, Jean-Paul Gaultier, “É quase uma condição o Vasco manter-se
Kenzo, Lolita Lempicka e Narciso Rodriguez) na gestão e na constituição do projeto para
e, com esta operação que acabou por ter a que isto avance”, adianta Renato. O negócio
luz verde da Autoridade da Concorrência, está ainda a ser feito em segredo.
ficaram também com o comércio de retalho, Apesar de o império ser já grande, a famí-
ou seja, as lojas. lia promete não ficar por aqui. Está apenas
à espera de encontrar o melhor parceiro do
NOVOS NEGÓCIOS PARA BREVE NO PORTO mundo em outras áreas, tal como acon-
Apesar de se dedicarem a variadas áreas, teceu ao descobrirem o chefe que acabou
Renato e Charles fazem questão de seguir de por tirá-los do secretismo onde viviam.
perto os negócios do grupo José Avillez, no cguerreiro@visao.pt *Com Clara Teixeira e Sara Belo Luís

17 MAIO 2018 VISÃO 57


O ÚLTIMO
BRAÇO DE FERRO
PARA COSTA
A cinco meses da
apresentação do Orçamento
do Estado, a troika BE-PCP-
-sindicatos intensifica a luta
e apresenta o caderno de encargos.
O Governo sonha com défice zero,
mas Marcelo avisou Costa
e Centeno: sem acordo,
há eleições antecipadas
O C TÁV I O L O U S A D A O L I V E I R A

58 VISÃO 17 MAIO 2018


17 MAIO 2018 VISÃO 59
S
“Se me perguntar o que é mais importan-
te, aumentar o número de funcionários
[públicos] ou o vencimento dos funcioná-
rios, respondo que aumento o número dos
funcionários. Neste momento, isso é mais
importante para melhorar a qualidade dos
serviços e responder melhor àquilo que são
as necessidades dos portugueses, e também
para melhorar a qualidade de vida de quem já
está hoje na Administração Pública.” Foi esta a
frase, proferida por António Costa na segunda
parte da entrevista concedida ao Diário de e, inevitavelmente, isso implica a queda do
Notícias esta semana, que deixou a esquerda Governo”, enfatizou o primeiro-ministro,
parlamentar e também os líderes da CGTP depois de Marcelo Rebelo de Sousa ter avi-
e da UGT à beira de um ataque de nervos. sado, numa entrevista ao Público, que se “não
A cinco meses da entrega do Orçamento houver Orçamento aprovado, aí coloca-se
do Estado para 2019 (OE) na Assembleia da um problema complicado: seria o reinício do
República, o primeiro-ministro quis alertar processo orçamental e provavelmente teria
os parceiros de que a margem de manobra de se pensar duas vezes sobre se faz sentido
do Governo continua a ser escassa e que as não antecipar as eleições”.
opções dificilmente agradarão a toda a gente.
Catarina Martins e Jerónimo de Sousa não AINDA O SONHO DO DÉFICE ZERO?
esconderam o desagrado, até porque a rei- “CONTINUAMOS A estratégia da cúpula socialista em relação ao
vindicação de aumentos salariais (nominais OE, embora mais dilatada no tempo, parece de-
e reais) para os trabalhadores do Estado está COM A LEGISLAÇÃO calcada da que tinha sido ensaiada há um mês,
no topo da agenda do Bloco de Esquerda e do DO TRABALHO DA aquando da apresentação do Programa de Estabi-
PCP – sem esquecer as duas principais cen- lidade (PE) e do Programa Nacional de Reformas
trais sindicais. E, como todos têm recordado, POLÍTICA DE DIREITA. (PNR): à esquerda, existe a convicção de que An-
já não se veem atualizações remuneratórias OU É ALTERADA tónio Costa e Mário Centeno tencionam chegar
na Função Pública desde 2009, quando José à próxima campanha eleitoral com o trunfo do
Sócrates ainda era chefe do executivo.
RAPIDAMENTE OU défice zero – basta ver que o documento enviado
Apesar de este ser um “maio quente”, como VAMOS CONTINUAR para Bruxelas prevê um saldo negativo de apenas
lhe chamou Arménio Carlos no Dia do Tra- 0,2% nas contas públicas em 2019.
balhador, com greves e manifestações por
A TER PROBLEMAS No fundo, esse triunfo poderia ajudar
todo o País, e da pressão da esquerda para QUE RESULTAM DA a garantir, na ótica de fontes da plataforma de
que o Governo PS abra os cordões à bolsa no esquerda ouvidas pela VISÃO, a tão desejada
próximo OE, o último até às legislativas de
FALTA DE RESPOSTA maioria absoluta com os votos do centro.
2019, António Costa dramatizou, à boleia do ÀS REIVINDICAÇÕES O PS seria o partido politicamente moderado
que, dias antes, fizera o Presidente da Repú- e financeiramente disciplinado, em contra-
blica. “O chumbo do Orçamento tinha como
DOS TRABALHADORES, ponto com as forças à sua esquerda, que se
consequência inevitável a queda do Governo. QUE LEVAM têm batido pela necessidade de se reforçar
(...) É evidente que no dia em que esta maioria o investimento público e os serviços do Esta-
não for capaz de produzir um Orçamento,
AO AUMENTO do, e ainda aumentar a despesa permanente
esse é o dia em que este Governo se esgotou DA CONTESTAÇÃO” com pessoal.

60 VISÃO 17 MAIO 2018


BLOCO E PCP EXIGEM MAIS
As principais bandeiras do BE, essas, estão
definidas e o PS já as conhece: o investimento
nos serviços públicos é “urgente”, sobretudo
na Saúde e na Educação; o caminho de va-
lorização de rendimentos deve prosseguir,
através do descongelamento das carreiras e
da valorização das horas extraordinárias, bem
como do aumento salarial na Função Pública
– “é uma matéria que temos claramente de
pôr em cima da mesa”, antecipa; terá de haver
maior “proteção do emprego e da qualidade
do emprego”, com o combate à precariedade
e a revisão do Código do Trabalho; e ainda o
regresso ao tema da eficiência energética, pois
o BE recusa que “o sobrecusto das renováveis,
pago aos produtores” seja “um assunto fe-
chado” (após o voto contra de última hora da
bancada socialista no ano passado).
Sem passar cheques em branco ao Governo
ou quantificar os montantes das exigências
bloquistas, Pedro Filipe Soares recusa ante-
ver cenários que envolvam o chumbo do OE
e eleições antecipadas. A cautela impõe-se e
o BE garante não ter “motivos para acreditar
que as nossas [suas] reivindicações não sejam
alcançadas”.
Há menos de um mês, João Oliveira tam-
bém adiantou algumas das respostas incon-
tornáveis para que o PCP viabilizasse o OE.
A verdade é que o Governo parece imune à Luta aquece No 1º “Temos ideia de um conjunto de matérias
contestação nas ruas. Este mês estiveram (ou de Maio deste ano, que já vem de trás e que tem concretização
ainda vão estar) em greve ou em protesto os os discursos e projeção para 2019: a eliminação das res-
profissionais da Educação, da Saúde, profes- dos líderes sindicais trições aos direitos dos trabalhadores – está
sores, médicos e enfermeiros, os trabalhado- foram mais duros fixado no OE de 2018 que a partir de 2019
res da inspeção sanitária, os funcionários de e os trabalhadores desaparecem –, o descongelamento das car-
supermercados e de grandes superfícies, bem subiram o tom reiras (que vai prosseguir em 2019), o fim do
como da Infraestruturas de Portugal, mas, para das reivindicações corte de 10% nos subsídios de desemprego...
já, são poucas as garantias que lhes chegam. Relativamente a outros passos, é no quadro
Pedro Filipe Soares solidariza-se com a luta do exame que essa decisão virá a ser tomada”,
e deixa também alguns recados ao Governo. afirmara, em entrevista à VISÃO, o líder da
“Não me parece que a mobilização social ad- bancada comunista, antes de sublinhar que
venha de uma agenda político-partidária ou “há um sentimento de descontentamento
eleitoral. Existiu uma expectativa positiva nos por parte de quem alimentou expectativas
diversos setores de que chegaria a sua vez e, e vai verificando que os seus problemas têm
passados dois anos e meio, estes estão a ver que sido parcialmente resolvidos ou adiados”.
a sua vez chega mais tarde ou, em alguns casos, Conclusão? “É natural que isso leve ao de-
nem chegou, ou chegou de forma muito tími- senvolvimento da luta.” O aviso ficou dado.
da. As pessoas estão a ficar cansadas e exigem
respostas”, assinala o líder parlamentar do BE. “EU NÃO SOU CENTENO”
Respostas, de resto, é algo que também As centrais sindicais também não poupam o
espera do Executivo, uma vez que, até ao mo- Governo. O secretário-geral da CGTP frisa
mento, as negociações em torno do OE “estão que no OE têm de ficar garantidas medidas
extremamente atrasadas”. O dirigente bloquista “fundamentais”: atualizar os salários dos tra-
critica o Governo por perder mais tempo a balhadores do setor público; avançar mais no
“falar em público e a fazer análise política” que respeita às carreiras profissionais e tam-
sobre o documento do que a afiná-lo com o bém formalizar o combate objetivo à preca-
seu partido: “Como é que se vê o Presidente riedade; apostar na melhoria dos serviços do
da República e o primeiro-ministro falarem Estado e promover uma reforma do sistema
com tanta importância sobre um OE que o fiscal, nomeadamente no que respeita ao IRS,
próprio Governo está a desvalorizar ao adiar “tornando-o mais progressivo, de forma a
a sua negociação? Tem-se falado muito, mas taxar menos o trabalho e mais o capital”. Ar-
feito pouco.” ménio Carlos e a Intersindical querem nove

17 MAIO 2018 VISÃO 61


Maio e junho quentes
Médicos, enfermeiros, professores, auxiliares
de Educação, trabalhadores de supermercados
e grandes superfícies, e até os funcionários da AO MESMO TEMPO
Infraestruturas de Portugal – todos exigem algo
QUE [O PRIMEIRO-
-MINISTRO] AFIRMA
A PRESSÃO
Nas comemorações A luta NÃO SER POSSÍVEL
Défice em
do Dia do Trabalhador, intensifica-se segundo plano UM JUSTO AUMENTO
do palco montado na
Alameda D. Afonso Já neste sábado, 19, os INVESTIMENTO
SALARIAL PARA
Henriques, em Lisboa, professores saem à rua Pedro Filipe Soares QUEM NÃO RECEBE
Arménio Carlos avisou para uma manifestação faz um discurso
que maio seria um que terá início também similar ao que AUMENTOS HÁ NOVE
“mês de luta intensa no Marquês de Pombal,
em todos os locais de conforme Mário Nogueira,
ensaiara aquando ANOS, NÃO FALTARÃO
da discussão do
trabalho”. Também o líder da FENPROF, Programa de 35 MIL MILHÕES
líder Carlos Silva, em anunciou. O protesto
Figueiró dos Vinhos, tem como intenção que
Estabilidade: se há DE EUROS PARA
folga financeira, esta
assinalou que, “quando o Governo reconheça deve ser usada para UMA DÍVIDA QUE NÃO
a via do diálogo conduz todo o período de serviço melhorar os serviços
a resultado zero, então dos docentes, cuja públicos e aumentar
É PAGÁVEL SEM
chega o momento de ir progressão na carreira rendimentos. SER NEGOCIADA”
para a rua”. esteve congelada. “Não E avisa que, sendo
Os dois responsáveis o vamos fazer num dia este o último OE,
pelas centrais sindicais da semana, não será um o partido não aceitará
convergem na ideia de pré-aviso de greve e não “restrições” que não
que é preciso “acordar vai afetar as escolas”, existiam
o País”, e maio está a disse o sindicalista.
ser marcado por muitas Para sexta-feira seguinte, escalões, mas ainda não se sentaram à mesa
greves, paralisações 25, os sindicatos com o Governo para abordarem o assunto.
e protestos. Um da Saúde afetos O líder sindical, filiado no PCP, exige em
movimento nacional à CGTP agendaram simultâneo “a dinamização da contratação
para Mário Centeno uma paralisação, que coletiva e a revogação das normas gravosas
ver, até porque as não abrange médicos da legislação do trabalho, desde logo a da ca-
duas confederações e enfermeiros, que ducidade [das convenções coletivas]”, ao passo
entendem que o servirá para reivindicar que, quanto ao salário mínimo nacional, ad-
Orçamento do Estado a aplicação das 35 horas voga uma subida para 650 euros, até porque,
para 2019 tem de ser semanais para todos sustenta, “se tivesse sido atualizado desde maio
mais generoso para os trabalhadores com de 1974, de acordo com a produtividade e com
com os trabalhadores. contratos individuais
A NEGOCIAÇÃO a inflação, o valor no final de 2017 seria 1 237
Arménio Carlos (cerca de 75 mil Recursos euros”. Assim, questiona e responde: “Quem é
chamou-lhe “maio funcionários) e para para o futuro que não tem condições para dar um aumento
quente”, mas preparou negociar uma carreira pouco superior a dois euros aos seus traba-
o próximo passo: para os assistentes CAUTELA lhadores? Toda a gente tem.”
a Intersindical vai operacionais, “os únicos Pedro Nuno Santos, Em nome da UGT, Carlos Silva não con-
juntar milhares de sem uma carreira secretário de Estado funde as reivindicações dos trabalhadores com
pessoas numa “grande específica”, como dos Assuntos
as legislativas do próximo ano, mas assume o
manifestação nacional” notou Ana Avoila. Parlamentares,
forcing visando a preparação do OE. “Temos
em Lisboa, com início Recorde-se ainda tem sido um dos
junto ao Marquês de que em maio já houve responsáveis
os professores em pé de guerra, as forças de
Pombal e encerramento paralisações pela harmonia na segurança a dizer que não são aumentadas há
na Praça dos dos trabalhadores geringonça. Cabe- dez anos, os problemas no Ministério da Saú-
Restauradores. Uma de inspeção sanitária, -lhe explicar aos de com médicos, enfermeiros, enfim, há uma
ação de luta, antecipou dos funcionários parceiros que no sucessão de discussões e nós acompanhamos
o líder da CGTP, que dos supermercados Governo não são essas reivindicações. Tudo isto arrasta-se há
vai “expressar as e grandes superfícies, todos Centeno, muito tempo e está a atingir um ponto de não
reivindicações dos dos profissionais embora acelerar retorno, precisamente até depois da última
trabalhadores e do de saúde e também a consolidação intervenção do primeiro-ministro [sobre sa-
povo, exigindo a rutura dos trabalhadores da orçamental possa lários e contratações].”
com a política de Infraestruturas servir para libertar Para a confederação que lidera, nota Carlos
direita”. de Portugal. dinheiro mais cedo Silva, as questões são “compagináveis”, mas “é

62 VISÃO 17 MAIO 2018


muito mais importante que se prepare um au-
mento salarial”. “É disso que estamos à espera
[aumentos no OE]. É um mês de maio impor-
tante, como são os próximos meses”, completa
o também militante do PS. O secretário-geral
da UGT sobe o tom e realça que o Governo
“não pode esquecer-se dessa matéria”. “Não
vamos permitir que isso aconteça, senão temos
o caldo entornado”, ameaça, ao mesmo tempo
que sublinha que “as pessoas estão cansadas”
de não verem as suas expectativas realizadas
ou, na semântica do Terreiro do Paço, de se
verem “cativadas”. “Eu não sou Centeno, nem
me interessa isso”, atira. “O ministro das Fi-
nanças tem conseguido bons resultados muito
à custa dos trabalhadores”, acrescenta por fim.
Em 2019, para a UGT, o salário mínimo
terá de subir, no mínimo, para 615 euros, mas
há mais: é preciso alterar a legislação laboral
e promover a contratação coletiva, quer seto-
rial quer empresa a empresa. Em todo o caso,
aponta, “o paradigma está invertido”: “É o pri-
vado que está a dar o exemplo no turismo, na
metalomecânica, na metalurgia, no comércio,
na agricultura: há um conjunto de decisões, até
ao nível de salários e da negociação coletiva,
que deveria deixar o Governo envergonhado.”
Até outubro, tem a palavra o Governo. É a
Costa que cabe decidir se quer ou não antecipar
eleições. Marcelo estará atento. ooliveira@visao.pt

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17 MAIO 2018 VISÃO 63


OS WINDSOR,
UMA EMPRESA
REAL
Após a morte de Diana, há duas
décadas, a monarquia britânica
parecia ter os dias contados
e a maioria dos súbditos de Isabel II
dizia-se a favor de uma república.
Agora, com o casamento
de Harry e Meghan, a casa
real britânica recupera o seu
prestígio, com um plano
de comunicação digno
de uma multinacional
FILIPE FIALHO
A 24 de novembro de 1992, num famoso dis-
curso proferido no Guildhall, o emblemático
edifício que foi durante mais de três séculos
a sede do município de Londres, a rainha
Isabel II falou de um annus horribilis. Para
si e para a sua família. Quatro dias antes, o
Castelo de Windsor, uma das suas residên-
cias oficiais, fora pasto de violentas chamas
que quase destruíam esta joia arquitetónica
com mais de mil anos de história.
Só que o incêndio estava longe de ser a
principal preocupação da monarca. A sua
grande dor de cabeça era a monarquia e a
forma como esta poderia sobreviver à quan-
tidade de escândalos que se sucediam e a de-
sacreditavam perante os seus súbditos. Nos
meses anteriores, a imprensa revelou todo
o tipo de pormenores sobre a vida privada
“A MONARQUIA É UMA
dos seus filhos e o balanço era catastrófico. INSTITUIÇÃO QUE SABE QUE TEM
O príncipe André decidira separar-se de
Sarah Ferguson. Esta última, então duquesa DE MUDAR PARA SOBREVIVER,
de York, deixou-se fotografar por paparazzi
quando estava na companhia de um “amigo CRIANDO A ILUSÃO DE QUE
e consultor financeiro” a chupar-lhe os de-
dos dos pés. O príncipe Carlos, o herdeiro
É IMUTÁVEL”, DIZ CATHERINE
do trono, não escondia a sua infidelidade a
Diana de Gales nem a paixão pela sua na-
MAYER, AUTORA DE UMA
morada de sempre, Camilla Parker-Bowles. BIOGRAFIA DO PRÍNCIPE CARLOS
66 VISÃO 17 MAIO 2018
Diana, por seu turno, admitiu que a trai- Espetáculo televisivo dos tablóides. A 31 de agosto de 1997, o caso
ção do marido a convertera numa bulímica A coroação de Isabel II, torna-se ainda mais grave. Diana morre em
que se automutilava e acedeu contar a sua a 2 de junho de 1953, na Paris, aos 36 anos, num acidente de viação
triste história a um jornalista, Andrew Mor- abadia de Westminster, que viria a cobrar também a vida a Dodi
ton, que viria depois a revelar tudo – por foi transmitida em Al-Fayed, o homem com quem planeava
fascículos – no Sunday Times e, a seguir, direto pela rádio e, casar-se e do qual estaria grávida.
num livro condenado a ser um best-seller algo nunca visto, pela As cerimónias fúnebres e o luto pela
global. Para compor o ramalhete da desgra- televisão. Mais de “Princesa do Povo” acabariam por colocar
ça, a princesa Ana, a única filha da rainha, 27 milhões de pessoas em causa o papel da monarquia e até de
assistiram assim
decidiu também pôr um ponto final no seu Isabel II. Como se não bastasse, os súbdi-
à cerimónia
matrimónio com o capitão Mark Phillips, tos de sua majestade interrogavam-se ainda
após anos de discórdia e muitos esquemas por que motivo os Windsor acumulavam
adúlteros – de ambos – pelo meio. fortuna e um património incalculáveis, ao
Na data em que Isabel II cumpria quatro mesmo tempo que beneficiavam de isenções
décadas de reinado, pouco ou nada havia e privilégios fiscais com que os plebeus e os
para celebrar. E a realidade demonstrou que, contribuintes só podiam sonhar. Os britâ-
nos anos imediatamente a seguir, a história nicos davam sinais de clara desconfiança
iria repetir-se. A atribulada vida sentimen- aos royals, como também é conhecida a
tal dos filhos e as polémicas entrevistas da família real.
princesa de Gales – que voltara a ser Diana No dealbar do século XXI, a crise da mo-
Spencer – continuaram a fazer as delícias narquia estava definitivamente instalada e as

17 MAIO 2018 VISÃO 67


questões de regime eram abertamente discu- Piquenique real O rei
tidas no Reino Unido. O jornal The Guardian Jorge VI com a mulher
dava o mote ao falar em “monarquia inútil” e e as duas filhas, as
ao promover uma campanha para instaurar a princesas Margarida
república. Os resultados ganharam tradução e Isabel, nos jardins
imediata nas sondagens: uma clara maioria do Palácio de Windsor,
dos habitantes da velha Albion dizia-se a em julho de 1947
favor da mudança e defendia a abolição da
realeza num prazo de 50 anos.
Nesta altura, Isabel II sabia já que se impu-
nham medidas urgentes. Ela percebera-o logo
HOJE, 68% DOS BRITÂNICOS
em 1992, no tal ano horrível. E, agora, em CONSIDERAM QUE
2018, pode muito bem dizer que está a viver
um annus mirabilis – um ano maravilhoso. A MONARQUIA É BOA PARA
Nas primeiras páginas dos tabloides há sor-
risos, amor e bebés, em vez de escândalos. O PAÍS (OS REPUBLICANOS
E a economia britânica prospera com estas
histórias de encantar. Só o casamento de
RESUMEM-SE A 17%)
Harry e Meghan gerará mais de 500 mi-
lhões de euros. Como é que a então deca-
E 80% TÊM UMA OPINIÃO
dente monarquia britânica se reinventou? FAVORÁVEL DE ISABEL II
68 VISÃO 17 MAIO 2018
Casamentos reais e de conveniência
Desde o século XIV que os nobres das ilhas britânicas
UMA QUESTÃO DE MARKETING
Em abril, Isabel II celebrou o seu 92º ani-
versário com saúde e expectativa face ao
alargar da sua prole. Nasceu mais um seu
sabem tirar dividendos políticos e económicos dos seus bisneto, Luís, o terceiro filho de William
matrimónios. E Portugal serve também de exemplo e Kate Middleton, duques de Cambridge,
o que lhe garante descendência direta até
praticamente ao século XXII... No início do
outono, deverá ser novamente bisavó quando
1387 Roménia. Quando ela morre, George
Zara Phillips, a filha única da princesa Ana,
V sucede-lhe – este último era primo
der à luz o seu bebé.
O rei D. João I casa-se com a direito de Guilherme II, imperador da
princesa Filipa de Lencastre, na Alemanha e da Prússia, e de Nicolau
Por outro lado, vai ainda dar a sua bênção
sequência do pacto de amizade II, o czar da Rússia. a dois casamentos reais: o do seu neto Harry
perpétua entre Portugal e Inglaterra com a antiga atriz afro-americana Meghan
– mais conhecido por Tratado de 1981 Markle, já no próximo sábado, 19; e o da
Windsor, e apontado como a mais sua também neta Eugénia, filha de André e
antiga aliança político-militar da O príncipe Carlos casa-se com Diana de Sarah Ferguson, com o empresário Jack
História. Lisboa e Londres tentavam Spencer na abadia de Westminster, Brooksbank, cujo matrimónio deverá ocorrer
assim contrariar o poder de França e em Londres, numa cerimónia a que em outubro.
de Castela. assistiram 750 milhões de pessoas A reconciliação do povo britânico com
pela televisão. O casamento, encenado os seus royals nota-se em cada esquina de
1554 como um conto de fadas, dura 13 anos Londres, inundada por estes dias com mer-
e compromete os objetivos de Isabel chandising alusivo ao casamento do filho
O rei Filipe II de Espanha (futuro Filipe II. O divórcio torna-se vulgar entre mais novo de Carlos, mas aconteceu antes.
I de Portugal) casa-se com a rainha os Windsor (os príncipes Margarida, Quando William se casou com Kate Mid-
Maria I de Inglaterra, numa união André e Ana imitam Carlos) e a
dleton, em 2011, já os fantasmas de Diana e
impopular e destinada a reforçar monarquia alimenta escândalos e
a fé católica nas ilhas britânicas
as teorias da conspiração em torno da sua
polémicas em série.
e, sobretudo, a tentar aumentar morte não pairavam sobre a família real. O
a influência da monarquia ibérica. “segredo” foi apenas um: marketing.
O casal não teve filhos e, após a morte A própria Isabel II soube que era impe-
de “Bloody Mary” (como lhe chamavam rioso salvar a “marca” Windsor logo após
os protestantes), Madrid enviou para a morte da princesa de Gales. Tony Blair,
Londres a Armada Invencível com então primeiro-ministro, conta que isso foi
os resultados que se conhecem. notório na primeira conversa que teve com
a rainha, após o acidente de Paris. “Disse-
-me que estava preocupada que o luto e a
raiva sentidos pelo povo se virassem contra
a monarquia”, revelou o antigo governante à
BBC, no documentário 7 Days.
Nessa entrevista, realizada no ano passa-
do, o governante explicou ainda que ofereceu
à monarca os préstimos dos seus colabora-
dores mais próximos. [Noticiou-se na altura
que um deles seria Alastair Campbell, um
2011 “génio” do marketing político]. A proposta
terá sido aceite mas, nas palavras de Blair,
O casamento do príncipe William
“a rainha tem um instinto muito forte sobre
com uma plebeia, Kate Middleton,
a opinião pública e a forma como esta fun-
demonstrou que a monarquia
britânica estava disposta a
ciona”. Ou seja, ela terá impedido um envol-
modernizar-se para garantir a sua vimento maior do spin doctor que muitos
sobrevivência. O casal conheceu-se responsabilizam pelas principais vitórias do
na universidade, soube ganhar a Partido Trabalhista por um outro motivo: o
simpatia dos seus compatriotas e Palácio de Buckingham já contava com vários
1840 conta já com três filhos. O enlace especialistas em relações públicas.
de Harry com Meghan Markle, uma Afinal, foram eles que cuidaram e reju-
A rainha Vitória casa-se com o atriz afro-americana divorciada, venesceram a imagem da família real nas
príncipe germânico Alberto de vem provar que os Windsor de últimas décadas. E fizeram-no através de
Saxe-Coburgo-Gota e o casal tem hoje já nada têm que ver com os algo conhecido como “estratégia Marmite”
nove filhos que iriam depois contrair conturbados tempos de Eduardo VIII, – uma alusão à famosa pasta salgada com
matrimónio com outras casas reais o monarca obrigado a abdicar em que os ingleses barram as suas torradas ao
por toda a Europa. Entre os 42 netos 1936 por se ter perdido de amores pequeno-almoço. Convém explicar que este
da monarca britânica, contavam- por Wallis Simpson, uma americana produto, lançado há mais de um século, se
se os reis da Grécia, Noruega e que já tivera dois maridos... foi adaptando aos gostos dos consumidores

17 MAIO 2018 VISÃO 69


Pose palaciana A ainda princesa Isabel pouco
depois da Segunda Guerra Mundial, nos seus ISABEL,
aposentos da residência oficial, em Buckingham A MEDIÁTICA
Aos 92 anos,
a monarca britânica
continua a ser uma
figura emblemática

CHARME MAGAZINESCO
Em 2016, por ocasião
do seu 90º aniversário,
a rainha deixou que a
fotógrafa americana
Anne Leibovitz lhe
tirasse vários retratos e
foi capa da revista Vanity
Fair. Uma operação de
relações públicas sem
precedentes

britânicos, num processo de rebranding


permanente e considerado exemplar pelos
profissionais de marketing e publicidade.

PALAVRA DE RAINHA
“A monarquia é uma instituição que sabe
que tem de mudar para sobreviver, criando ESTRELA TELEVISIVA
a ilusão de que é imutável”, considera Cathe- No mesmo ano, a Netflix
rine Mayer, autora da biografia do príncipe estreou a série The
Carlos The Heart of a King (não editada em Crown e o sucesso foi
Portugal). Isabel II tem-no feito habilmente imediato – incluindo
desde o período da sua coroação, em 1952. um Globo de Ouro para
Esse momento solene, reservado até então Claire Foy, a atriz que faz
aos olhares de alguns eleitos, foi o primeiro a de Isabel II. O primeiro
episódio da segunda
ser filmado e transmitido para todo o mun-
temporada (estão
do, permitindo ao povo – mesmo que iluso-
previstas seis) arranca
riamente – a sensação de proximidade com com imagens de Setúbal,
a monarca, numa ocasião tão marcante. Nos alusivas à passagem da
anos seguintes, Isabel II instituiu comunica- rainha por Portugal,
ções regulares com os seus súbditos através em 1957
dos serviços de rádio e televisão da BBC e,
em 1969, aceitou participar num documen-
tário destinado a revelar alguns detalhes do
seu quotidiano e da intimidade da família
real. Contudo, consciente da artificialidade “NÃO SE DIZ A UMA SOBERANA
desse registo, o Palácio de Buckingham não
voltou a permitir a sua exibição. DE 92 ANOS O QUE DEVE
“Não há diferença entre uma multina-
cional e a família real. As exigências para FAZER. ELA É MAIS EFICAZ
construir e preservar a reputação da sua
marca são as mesmas – uma estratégia de
DO QUE QUALQUER OUTRO
símbolos, êxitos comerciais, líderes e uma
conexão de qualidade no mundo”, garante
COMUNICADOR”, AVISA ROBERT
John Mahony, diretor da agência Reputatio- LACEY, BIÓGRAFO DA RAINHA
70 VISÃO 17 MAIO 2018
Rainha ao volante Isabel II num
passeio de automóvel com os seus
dois filhos mais velhos, Carlos
e Ana, em 1957, perante o olhar
atento dos transeuntes de Windsor

nInc, citado pelo Le Monde. Talvez por isso


a rainha se rodeie de pessoas com provas
BODA POLITICAMENTE dadas no domínio da comunicação e das in-
INCORRETA formações. O seu antigo secretário privado,
Christopher Geidt, um antigo professor na
Entre os mais de 800
academia militar de Sandhurst formado em
convidados para o
Cambridge e no King’s College, foi consul-
casamento de Harry
e Meghan não há
tor das Nações Unidas e, durante as guerras
quaisquer figuras da na ex-Jugoslávia, foi um dos negociadores
política. Nem a primeira- internacionais que lidaram com Ratko Mla-
ministra, Theresa May, dic, o líder dos sérvios da Bósnia, e com
nem o ex-Presidente Slobodan Milosevic, o presidente sérvio.
dos EUA Barack Obama, Quanto ao atual secretário privado, Edward
com quem o casal tem Young, foi diretor do Barclays e principal
uma boa relação, vão responsável por alguns dos mais recentes
estar presentes sucessos mediáticos da rainha, incluindo a
sua histórica visita à Irlanda e o surpreen-
dente salto de paraquedas (de um duplo)
Os convidados com James Bond que marcou a abertura
receberam uma lista de dos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012.
sete páginas com regras Depois do fenómeno Diana, os royals
muito claras para as passaram também a dedicar mais atenção
cerimónias. Exemplos: os ao diálogo com a sociedade civil e às causas
telefones portáteis estão sociais e humanitárias. Só a rainha é patro-
interditos e quaisquer na e mecenas de mais de 700 entidades e a
prendas devem ser restante família real apoia quase quatro mil.
dadas a instituições
Compromissos que preenchem boa parte das
filantrópicas e de
agendas diárias de Carlos, William e Harry.
solidariedade
Todas as iniciativas são cuidadosamente
planeadas e testadas em função dos inúme-
ros estudos de opinião encomendados pelo
A boda vai ter lugar na palácio, embora nunca revelados ao público.
Capela de São Jorge, É o que garante o ex-cronista real do The
no Castelo de Windsor, Guardian, Stephen Bates, no livro Royalty
e não na Abadia de Inc. – Britain’s Best-Known Brand. A es-
Westminster, onde Carlos tratégia tem funcionado, como comprovam
e Diana – e também os níveis de popularidade reconquistados.
William e Kate – se Hoje, 68% dos britânicos consideram que
casaram a monarquia é boa para o país (os republi-
canos resumem-se a 17%) e 80% têm uma
opinião favorável de Isabel II.
Meghan iniciou Contudo, ainda que rodeada pelos me-
o processo de lhores profissionais, a última palavra é sem-
naturalização, mas pre dela. “Não se diz a uma soberana de 92
ainda não é uma anos o que deve fazer. Ela é mais eficaz do
cidadã britânica. Em que qualquer outro comunicador”, garan-
contrapartida, a antiga te Robert Lacey, biógrafo da rainha. Essa
atriz que recebeu uma eficácia deve-se à forma como consegue
educação católica já permanecer conservadora das tradições e,
foi batizada segundo
simultaneamente, surpreender até mesmo
os rituais da Igreja
alguns dos seus mais próximos – como
Anglicana
sucedeu quando aprovou o casamento do
neto mais novo com uma atriz americana,
mestiça e divorciada.
O sacerdote A rainha pode não querer abdicar a favor
responsável pelo do seu filho Carlos – até porque as sonda-
sermão na cerimónia gens indicam que 56% dos britânicos pre-
de casamento será ferem William –, mas sabe interpretar os
o reverendo Michael sinais dos tempos. Como escreveu Frederick
Curry, um afro-americano Studemann no Financial Times, a monar-
de Chicago que quia e a rainha, em particular, são hoje um
é defensor do casamento pilar e um símbolo reconfortante numa era
homossexual
de grandes incertezas. ffialho@visao.pt

17 MAIO 2018 VISÃO 71


FOCAR

“Se um homem
falhar em
conciliar a justiça
com a liberdade,
falhará em tudo”
Albert Camus
Escritor francês
de origem argelina
(1913-1960)

72 VISÃO 17 MAIO 2018


Rui Rio Eleito a 13 de janeiro, tomou posse
no dia 18 de fevereiro. Três meses depois,

T
nem todos os balanços são positivos

rês meses depois de ter che-


gado à liderança do PSD,
Rui Rio parece ter encon-
trado uma forma de fazer
oposição. Ainda não deu
entrevistas, mas aparece
quase todos os dias na te-
levisão a falar à comunica-
ção social. Assinou acordos
com o Governo, mas criou
um executivo-sombra, que
chamou Conselho Estraté-
gico Nacional. Não está no Parlamento,
mas consegue marcar a agenda política.
O cenário em que o faz é, aliás, muitas
vezes semelhante e sintomático do seu
estilo: no terreno, respaldado por uma
muralha humana em que apenas se re-
conhece um par de rostos da direção do
PSD, depois de visitar um hospital, uma
faculdade ou de se reunir com sindicatos
ou associações. Os temas que escolhe são
muitas vezes aqueles tidos como os mais
populares: saúde, justiça, corrupção e
PSD banca. O discurso, por seu lado, é nor-
malmente pouco inflamado. O combate

Afinal, Rui Rio tem


mais crispado fica para os deputados.
A estratégia começa a ficar cada vez mais
clara, mas a máquina ainda não está to-
talmente oleada – e há casos recentes
em que a dessincronização é evidente.
A vice-presidente do PSD, Elina Fra-
ga, afirmou ao Expresso ter “absolu-

uma estratégia
ta confiança na procuradora-geral da
República (PGR).” A ex-bastonária da
Ordem dos Advogados faz um balanço
positivo do mandato de Joana Marques
Vidal e deixou transparecer que apoia a
sua eventual recondução ao cargo. Uma
posição que Rui Rio ainda não revelou

–e está a funcionar?
se apoia mas que, ao que tudo indica,
não será tão clara quanto a da sua vice.
O ex-autarca do Porto, sempre que
confrontado com o tema, tem adiado a
revelar a sua posição. Num debate com
Pedro Santana Lopes, na altura das au-
tárquicas, deixou mesmo escapar que o
balanço que faz da atuação da PGR “não
Um primeiro mês turbulento, é positivo”.
um segundo de consensos, um terceiro Enquanto esta frase continua a ecoar
ao ataque. A oposição que parecia no silêncio que o líder laranja se autoim-
adormecida está, afinal, a marcar pôs sobre o tema, o partido parece remar
todo no mesmo sentido: o do apoio à re-
a agenda. “Temas como o de Sócrates condução de Joana Marques Vidal. Além
não são para largar.” Enquanto assim for, da tomada de posição de Elina Fraga, um
JOSÉ CARLOS CARVALHO

Rio estará mais perto da paz interna. conjunto de cinco deputados sociais-
-democratas – António Leitão Amaro,
Mas ainda há telhados de vidro Duarte Marques, Hugo Soares, Marga-
rida Balseiro Lopes e Miguel Morgado
JOSÉ PEDRO MOZOS –, assinou na passada sexta-feira, 11,

17 MAIO 2018 VISÃO 73


PSD

um artigo de opinião no jornal digital


Observador em que considerava que
“seria inaceitável e até suspeita a não
recondução de Joana Marques Vidal na
PGR”. Antes ainda, na reunião do gru-
po parlamentar do PSD, que aconteceu
na quinta-feira, 10, já vários deputados
tinham manifestado a mesma posição.

VISÃO DE RIO SOBRE MP PREOCUPA


Neste caso, o partido parece estar
unido em torno de uma posição que Rui
Rio nunca assumiu, mas que fica cada
vez mais difícil de ignorar. Há até quem
acredite que o líder social-democrata
não está a fazer ouvidos de mercador
a esta crescente onda de apoio a Joana
Marques Vidal dentro do partido. “Assim
como não acredito que Francisca van
Dunem tenha falado sobre a PGR sem
ter consultado o primeiro-ministro,
não creio que Elina Fraga o tenha feito

MARCOS BORGA
sem se concertar primeiro com Rui Rio”,
afirma à VISÃO António Leitão Amaro.
O vice-presidente da bancada parlamen-
tar lê assim nas entrelinhas das palavras Mais um mandato Grande parte do PSD defende a recondução
da ex-bastonária aquela que, entende, de Joana Marques Vidal na PGR. Rio tem mantido o silêncio. O que fará?
acabará por ser a posição que o presi-
dente do partido vai adotar. O social-democrata foi um dos que, na popular. A oposição e as tomadas de
No entanto, o sentimento que paira reunião da bancada, mais apoiaram a in- posição mais importantes são “obvia-
noutras paragens da mesma bancada é tervenção de Fernando Negrão no último mente combinadas”, explica à VISÃO
outro, mais cético. “O discurso de al- debate quinzenal – que se centrou na o presidente do grupo parlamentar do
guns membros da direção do PSD sobre leitura política da investigação a José Só- PSD. Além de se cruzarem nas reuniões
o Ministério Público não faz parte do crates – e que defenderam a recondução da Comissão Permanente e da Comissão
património do nosso partido”, come- de Joana Marques Vidal na PGR. À seme- Política Nacional, Fernando Negrão e Rui
ça por dizer Paula Teixeira da Cruz. lhança de António Leitão Amaro, Duarte Rio concertam posições de modo a defi-
À VISÃO, a ex-ministra da Justiça revela Marques acredita que o líder laranja possa nir os temas que são abordados em cada
estar “expectante” em relação à posição vir a apoiar a posição que ambos defendem. momento. O primeiro exemplo dessa
que o partido vai assumir neste caso, consonância é apontado pelo próprio
mas não esquece “as posições de alguns A ESTRATÉGIA DE RIO FUNCIONA? líder parlamentar. Aconteceu no debate
dirigentes sobre o segredo de justiça, a A recuperar do “estado de desgraça” quinzenal no qual se estreou nas novas
delação premiada e o Ministério Públi- com que começou a liderar a bancada funções e em que o tema eleito foi o da
co”. E acrescenta: “Com esse discurso, parlamentar do PSD, Fernando Negrão entrada da Santa Casa da Misericórdia
o PSD aproxima-se daquilo que foi a tem conseguido reunir cada vez mais no Montepio. O tema “foi escolhido
tentativa de condicionamento do poder consensos entre os deputados. Através pelos dois”, assegura. A polémica fazia
judicial na era Sócrates.” Por isso, para a da sua liderança, tem levado as causas correr tinta nos jornais dos dias seguin-
deputada, só há uma análise que se pode do partido a debate, enquanto Rui Rio tes, mas no círculo próximo de Rui Rio
fazer não só da atuação da direção neste vai estando no terreno, no contacto já se preparava a próxima estocada no
caso mas também, e principalmente, dos
três meses que Rui Rio leva à frente do Margarida
partido: “Uma análise de preocupação.” Balseiro Hugo
Soares
Menos cética é a leitura que o deputa- Miguel Lopes António
do Duarte Marques faz. “Era importante Morgado Duarte Leitão
que Rui Rio tivesse iniciado a liderança Marques Amaro
de outra maneira e mostrado o rumo Os cinco
que queria seguir mais cedo, mas acho Deputados
que o balanço que se pode fazer destes do PSD assinaram
primeiros três meses é positivo.” Afinal artigo conjunto
de contas, e apesar de ter demorado, em que defendem
“o partido já percebeu a estratégia de Rui recondução
Rio e é mais fácil concordar com ele.” da PGR

74 VISÃO 17 MAIO 2018


OPINIÃO

O peso das sombras


Governo. Tentava jogar-se na antecipa-
ção: enquanto o primeiro-ministro era
confrontado a propósito deste caso já se
P O R J O S É C A R L O S D E VA S C O N C E L O S
cozinhava mais um ataque ao Governo.

1
“NÃO SE PODE LARGAR SÓCRATES”
Seguiu-se o pedido para que se divulgas- O Congresso do PS tem na agen- Justiça, que tem de ser independente
sem os nomes dos principais devedores da, por via da moção de António e soberana na sua área de ação/juris-
da Caixa Geral de Depósitos e depois Costa, alguns temas de fundo re- dição; “à política o que é da política”
deram-se as reações à investigação a levantes. Ainda bem. São temas quer dizer que, sem interferir com a
Manuel Pinho. O primeiro a falar foi Rui não conjunturais nem polémicos, Justiça, os factos e comportamen-
Rio. Em catadupa, começaram a reagir os sobre os quais será fácil obter con- tos nesta apurados e julgados são
restantes partidos, incluindo o próprio sensos. E compreende-se que embora suscetíveis de – ou mesmo impõem
PS, que se viu obrigado a falar pela pri- muito importantes não estejam em – um juízo de valoração política, ou
meira vez das suspeitas que recaem não pauta temas quentes e no imediato ético/política.
apenas sobre Pinho mas também sobre complexos – das reformas do sistema

3
José Sócrates – tendo o caso terminado político à luta contra a corrupção. Isto Ainda em sede de Justiça, volta
com o divórcio entre o ex-primeiro- não exclui, porém, que nele se fale da à ribalta a recondução ou não da
-ministro e os socialistas. Entretanto, necessidade de aprofundar o combate procuradora-geral da República.
Rui Rio continuava no terreno, a visitar à corrupção e de ao serem escolhidos Tema ainda fora de prazo, por isso
tanto faculdades como centros de saúde, os titulares de cargos públicos ter na Marcelo ter dito, e bem, semanas
e ainda os locais afetados pelos incên- devida conta os seus perfis e percursos, atrás, que era um “não assunto”. Po-
dios no ano passado. Mas ia mantendo mormente as ligações a grandes grupos rém, após uma interpretação errada
o contacto com Fernando Negrão, fosse e interesses, sobretudo económicos. e uma declaração infeliz da ministra
diretamente fosse através de David Jus- Mais, do Congresso deveria sair uma da Justiça, dirigentes e comentado-
tino, vice-presidente do partido, homem tomada de posição nesse res afetos à anterior
de confiança de Rio e coordenador do sentido. Ou pelo menos o maioria começaram a
Conselho Estratégico Nacional, que tem secretário-geral tomá-la, Não é justa pugnar pela sua recon-
passado muito tempo no Parlamento. com veemência, na sua para Joana dução, e a dizer que o
Entre os três, havia uma ideia clara: no intervenção de encerra- Marques Vidal Governo a ela se opu-
debate quinzenal seguinte não se podia mento. nha, insinuando às ve-
largar o tema Sócrates. E assim foi. Os e só a pode zes que devido ao pro-

2
deputados gostaram do que viram e Creio, aliás, que face prejudicar cesso contra Sócrates.
identificaram-se com a estratégia deli- aos casos de José como Há muito conhecen-
neada pela tríade riista. Rui Rio parece Sócrates e Manuel do e respeitando Joana
ter encontrado nos pecados do governo Pinho o discurso mais
procuradora- Marques Vidal (JMV)
Sócrates o calcanhar de Aquiles do atual. adequado do PS, na boa -geral da considero lamentável,
“Temas como os de Sócrates não se po- fase que vive, não é in- República a além do mais, que o ní-
dem largar”, desabafa Duarte Marques. vocar um passado ima- atual espécie tido objetivo (também?)
Tudo estaria a correr bem se não fos- culado que não existe, político dessa espécie
sem os pequenos desentendimentos que nem nele nem nos ou- de campanha de campanha possa le-
continuam a surgir no PSD. Além da re- tros partidos que foram a favor da sua var a identificá-la com
condução da PGR, existem posições opos- poder, ou limitar-se a recondução o setor político dos que
tas dentro do próprio partido sobre ou- repetir “à Justiça o que a promovem. O que não
tros temas, como a demissão do ministro é da Justiça, à política o é justo para JMV e só
da Saúde – pedida por um deputado, mas que é da política”. É vergonhoso insi- pode prejudicar a posição e ação da
desautorizada pelo próprio presidente nuar o que quer que seja em relação procuradora-geral – como a prejudi-
do partido – ou o enriquecimento ilícito. a membros do Governo de Costa por caria por igual se o setor fosse outro.
A nova fórmula demorou a ser entendida também o terem sido de Sócrates, ou Com o peso destas sombras, valha-nos
no PSD e, para muitos, a sua afirmação foi querer que eles soubessem o que não ao menos a sensatez de Rui Rio ao não
lenta demais. É hoje certamente mais fácil poderiam saber. E Costa, ele próprio, se pronunciar a esse respeito, o que
de entender do que era no início, mas ainda até como ministro fez o que nenhum levou um jornal com responsabilida-
há no seio do PSD muita expectativa – assim outro terá feito contra a corrupção. des a titular que ele “mantém o tabu”
como arestas por limar. Entre os militantes Isto dito, todos os que defendem sobre aquela recondução! Tabu? De
há de tudo: quem se tenha convertido, quem o Estado de Direito sabem como é resto, após Marcelo não ter respon-
pareça conformado, quem esteja expec- essencial o que se contém naquele dido sim ou não à pergunta, absurda
tante e quem não goste do que vê. Para o brocardo. Que, no entanto, tem dois a mais de dois anos de prazo, sobre
bem e para o mal, parece estar encontra- sentidos: “à Justiça o que é da Justiça” se iria recandidatar-se, já vi também
do o caminho que Rio quer seguir para quer dizer que a política não pode o título “Presidente mantém o tabu”...
tentar roubar o lugar a António Costa. substituir-se à, nem influenciar a, Assim vamos. visao@visao.pt
jpmozos@visao.pt

17 MAIO 2018 VISÃO 75


C O N TA S P Ú B L I C A S

O estranho caso
do sobe e desce
dos impostos
A carga fiscal aumentou, mas as medidas
de Mário Centeno aliviaram os impostos.
Confuso? Os detetives do Banco
de Portugal tentam explicar

O
NUNO AGUIAR

Governo agravou ou não os Ainda que se mantenha abaixo da


impostos sobre os portugue- média europeia, este maior peso dos
ses? A pergunta tem flutuado impostos foi bastante criticado, uma vez
na discussão pública depois que ele ocorre pela mão de um Governo
de termos ficado a saber que que prometia precisamente desagravar
a carga fiscal aumentou em a carga fiscal. Mais: não só é um valor
2017 e tem servido de arma recorde, como Centeno espera que ele Banco de Portugal vestem a pele de
de arremesso político. A opo- praticamente não desça até 2022. “Esta Poirot neste mistério económico, escla-
sição acusa Mário Centeno de opção de insistir em manter a carga fis- recendo, afinal, o que esteve por detrás
recorrer pela calada aos anes- cal mais elevada de sempre significa que da subida da carga fiscal. E, neste caso,
tesiantes impostos sobre o consumo. este Governo e esta maioria de esquerda não encontraram impressões digitais de
O Executivo argumenta que é a força da querem continuar a cobrar aos portu- Mário Centeno. As contas do banco cen-
economia que está a puxar pela receita. gueses uma parte do seu rendimento que tral mostram que a atuação do Governo
Números divulgados na semana passada, nunca tiveram de entregar em impostos”, serviu para diminuir o peso dos impos-
pelo Banco de Portugal, permitem des- sublinhou o deputado do PSD António tos, ainda que em 2017 esse efeito tenha
codificar o que fez subir a carga fiscal. Leitão Amaro. sido marginal. As alterações à legislação
O mais recente Boletim Económico es- O ministro das Finanças defendeu-se, contribuíram para a subida da carga
clarece que as iniciativas legislativas dos apontando que a subida da carga fiscal não fiscal, através do aumento de impostos
últimos dois anos contribuíram para re- se traduziu em menos dinheiro na carteira indiretos, desde as bebidas açucaradas e
duzir o peso dos impostos na economia, das famílias. “Não houve um aumento de alcoólicas até ao imposto sobre combus-
embora tenham ficado longe de apagar esforço fiscal de cada português”, afirmou tíveis. No entanto, foi também aprovado
o “enorme” agravamento fiscal de 2013. o governante. Acusou o PSD de “iliteracia um alívio do IRS (via sobretaxa) e do IVA
Como em qualquer mistério policial, financeira” e deu como exemplo a receita da restauração, que mais do que com-
primeiro é necessário encontrar a víti- de IVA, que cresceu mais de 6% no ano pensaram o agravamento anterior. Tudo
ma. Isso aconteceu no final de março, passado sem que tenha existido um agra- somado, observa-se um ligeiro alívio.
quando foi noticiado que a carga fiscal vamento das taxas (pelo contrário, até
aumentou em 2017 para o valor mais caíram na restauração). “Mas se não houve AGRAVAMENTO DE 2013 RESISTE
elevado em, pelo menos, 22 anos. Essa aumento da taxa de IVA, como aumentou Para chegar a esta conclusão, o Banco de
conclusão é verdadeira qualquer que seja a carga fiscal do IVA? Pelo aumento do Portugal olha para “receita estrutural”.
o ângulo de análise: no ano passado, o consumo, de residentes, mas também do Isto é, exclui os efeitos do crescimento
Estado absorveu mais recursos produ- turismo”, argumentou. ou da contração da economia, bem como
zidos pela economia. Inadvertidamente, os técnicos do medidas temporárias (por exemplo, um

76 VISÃO 17 MAIO 2018


+1,79 Impacto das medidas do Governo na carga fiscal
ALTERAÇÕES NA LEGISLAÇÃO
Em pontos percentuais do PIB
2016 2017
Alterações
na legislação -0,18 -0,03
Elasticidade
orçamental 0,02 0,04
Discrepância entre
a base macro e o PIB -0,12 0,02

+0,43 Resíduo -0,57 0,44

+0,18 2016 2017 VARIAÇÃO TOTAL -0,84 0,47


2013 2014 2015 -0,18 -0,03 FONTE Banco de Portugal INFOGRAFIA VISÃO

perdão fiscal). Nessa ótica, verifica-se reembolsos caíram em rácio do PIB ten- perspetiva. As medidas contribuíram
que a carga fiscal deu dois grandes sal- dencial e o Banco de Portugal reconhece para descer a carga fiscal estrutural em
tos nas últimas duas décadas, em 2011 também problemas de ajustamento e de 0,2 pontos do PIB, entre 2015 e 2017. Por
e, principalmente, em 2013. O “enorme estimativa em alguns indicadores. comparação, o aumento de impostos de
aumento de impostos” de Vítor Gaspar Mesmo sem aprofundar mais os de- Gaspar aumentou-a 1,79 pontos, seguin-
trouxe subidas de IRS, IRC, IMI e im- talhes técnicos, podemos concluir que do-se mais dois anos de iniciativas que
posto de selo, levando a receita fiscal em dois anos a atuação agregada do Go- subiram os impostos. A melhoria dos
estrutural a saltar de 34,8% para 37,2% verno aliviou as famílias e as empresas. últimos dois anos representa menos
do PIB. Uma descida significativa só che- Contudo, é importante colocá-la em de 10% do agravamento dos três anos
garia em 2016, mas foi quase totalmente anteriores (embora 2018 possa trazer
revertida no ano passado. um maior alívio com a mudança dos
Mas se a investigação confere um escalões de IRS).
álibi ao Governo, quem é o culpado? Há Além disso, embora a atuação do
sempre quatro suspeitos para a evolu- Governo não tenha aumentado a carga
ção da receita estrutural: as já referidas fiscal, a sua inação pode ser responsa-
medidas permanentes de política fiscal; bilizada. Mesmo que a receita esteja a
a variação automática da receita devido crescer porque o emprego e a economia
à elasticidade orçamental; a discrepân- estão a recuperar mais depressa do que
cia entre a base macroeconómica da se previa, o Executivo podia sempre des-
economia portuguesa e a evolução do
PIB; e o “resíduo” (onde estão todas as “NÃO HOUVE cer ainda mais os impostos, de forma a
deixar a economia respirar mais. É uma
explicações que não as anteriores).
O agravamento de 2017 foi essencial-
AUMENTO escolha política não o fazer e é também
conveniente numa altura em que Mário
mente provocado pelo “resíduo”, a tal
fatia que não faz parte das outras cate-
DO ESFORÇO FISCAL” Centeno e António Costa ainda acham
que é decisivo carregar no pedal do
gorias. Porquê? No IRC, por exemplo, os DIZ MÁRIO CENTENO ajustamento orçamental. naguiar@exame.pt

17 MAIO 2018 VISÃO 77


IRLANDA

Aborto, o último tabu irlandês


A 25 de maio vota-se, em referendo, a retirada da Constituição
de uma cláusula que confere a fetos e mães o mesmo direito
à vida. As sondagens revelam uma sociedade muito dividida

S
PAT R Í C I A F O N S E C A

e uma adolescente for violada o catolicismo, já foi levado a referendo


e engravidar, deve ter o direito por seis vezes nos últimos 35 anos –
de abortar? Se os exames mé- mas nunca como agora os defensores
dicos revelarem graves mal- do “Sim” tiveram verdadeiras hipóteses
formações num feto, poderá SE O “SIM” VENCER de vitória. Ajudará o facto de, a 25 de maio,
interromper-se a gravidez? os eleitores não terem de se pronunciar
E se uma mulher não sentir O REFERENDO, sobre questões tão concretas como
simplesmente condições (eco-
nómicas, sociais, emocionais) O GOVERNO as aqui enunciadas; irão responder ape-
nas se querem revogar o artigo 40.3.3
para ser mãe, pode decidir
não o ser? A todas estas questões, tantas
DE LEO VARADKAR da Constituição – conhecido como
a oitava emenda – que dá aos fetos e às
vezes debatidas de forma emotiva por IRÁ PROPOR QUE mães gestantes o mesmo direito à vida,
toda a Europa no último meio século, tornando inviável qualquer interrupção
a lei irlandesa continua a dizer “não”. AS IRLANDESAS de gravidez.
É um dos últimos países europeus a
manter o crime de aborto no código POSSAM INTERROMPER Até 2013, o aborto permanecia proi-
bido, mesmo em último recurso para
penal, prevendo 14 anos de prisão para
as mulheres que, em qualquer circuns-
A GRAVIDEZ ATÉ salvar a vida da mãe. A Irlanda era a
única democracia ocidental a manter
tância, o pratiquem.
O tema, verdadeiramente fraturante
ÀS 12 SEMANAS esta posição e, em 2013, foi acrescentada
à lei essa única exceção. Foi uma alte-
num país que tem como pilar identitário DE GESTAÇÃO ração imposta por uma sociedade em

78 VISÃO 17 MAIO 2018


ISLÂNDIA

FINLÂNDIA

Teste-piloto do Facebook IRLANDA


DO NORTE

Após as revelações de que a mais


popular rede social do mundo foi
utilizada para influenciar inúmeras
eleições, das presidenciais norte- REINO
-americanas ao referendo do Brexit, IRLANDA UNIDO
a empresa de Mark Zuckerberg POLÓNIA
decidiu criar novas regras na
publicação de anúncios – e a
Irlanda, onde o Facebook tem
LIECHTENSTEIN
a sua sede, será o primeiro país
a testá-las. Todos os anúncios
sobre o referendo de 25 de maio
serão bloqueados se forem criados
noutro país e os utilizadores
poderão também rastrear
o perfil de quem publica e partilha
MÓNACO
o anúncio. O sistema não será ANDORRA
infalível, mas estabelece SÃO
as primeiras regras num mundo MARINO
GETTYIMES

que, até agora, estava à mercê


de todas as manipulações.

estado de choque, revoltada com o caso Um longo caminho CHIPRE

de uma jovem indiana que estudava O direito à interrupção voluntária da gravidez está consagrado na lei de
medicina dentária no país. Entrara no quase todos os países europeus. A Irlanda subsiste como um dos últimos
hospital grávida de 17 semanas, com bastiões proibicionistas, prevendo 14 anos de prisão pelo crime de aborto
sinais de um aborto espontâneo. Não
havia forma de manter a gravidez, disse- Proibido ou permitido apenas em último Realizado apenas nalgumas circunstâncias,
ram-lhe. Mas também não podiam fazer recurso, quando há risco de vida para por indicação médica ou legal (Polónia,
qualquer intervenção médica para lhe a mãe (Irlanda, Malta, Andorra, São Marino) Irlanda do Norte, Mónaco, Liechtenstein)
salvar a vida porque o feto ainda revelava
batimento cardíaco. A jovem acabou por Lei permissiva, embora não contemple a livre
morrer uma semana depois, com uma escolha da mulher (Reino Unido – exceto na Permitido a pedido da mulher
infeção generalizada. Irlanda do Norte –, Finlândia, Chipre e Islândia)
Mais de 20 mil pessoas juntaram-
-se nessa noite à porta do hospital de
Galway, com velas na mão. As manifes- ficam reféns das parteiras clandesti- Kitty Holland, jornalista do Irish Times,
tações estenderam-se a toda a República, nas na Irlanda, ou compram pílulas não se atreve a dar como certa a vitória
com mulheres empunhando cartazes abortivas através da internet, com to- do “Sim” no referendo, apesar de notar
que não defendiam o “Sim” ou o “Não” dos os riscos de saúde associados. Em uma “grande mudança” na forma como
– pediam apenas “Nunca mais”. caso de complicações, acabam entre o assunto está a ser debatido publica-
a vida e a morte nos mesmos locais sem mente. Na hora de votar poderá haver
O FIM DAS VIAGENS A INGLATERRA? condições médicas, porque uma ida às surpresas, escreveu esta semana no The
A oitava emenda foi inscrita na Cons- urgências pode implicar uma denúncia Guardian. “Aqueles que se dizem contra
tituição em 1983, após aprovação em que as atira para a prisão. a revogação da oitava emenda expres-
referendo (67% dos votos). Desde então, Este tema subsiste como o último sam preocupações sobre o fim de uma
multiplicou-se o número de mulheres tabu da sociedade irlandesa, que aprovou Irlanda que sempre valorizou a família
a procurar Inglaterra para abortar: os o casamento entre pessoas do mesmo e os filhos, uma Irlanda construída em
dados oficiais britânicos referenciam sexo em 2015 e, em junho do ano pas- torno da comunidade, da proteção dos
170 mil irlandesas como utentes. sado, elegeu Leo Varadkar, de 39 anos mais vulneráveis e profundamente res-
Ao contrário das britânicas, que têm e homossexual assumido, como primei- peitadora da sua fé. O aborto, dizendo
a interrupção voluntária da gravidez ro-ministro do país. É ele quem promete respeito aos direitos individuais, vis-
gratuita no serviço nacional de saúde, liderar a discussão parlamentar sobre to até como uma questão egoísta das
as irlandesas têm de pagar entre 700 a interrupção voluntária da gravidez, mulheres, aparentemente colide com
e 2000 euros, consoante o tempo de caso o “Sim” vença o referendo. O gover- essa ideia de Irlanda. E muitos cida-
gestação. Por isso, esta é também uma no irá propor que as irlandesas possam dãos permanecem divididos por isso
questão de classes – as mais pobres fazê-lo até às 12 semanas de gestação. mesmo.” pfonseca@visao.pt

17 MAIO 2018 VISÃO 79


GASTRONOMIA

“Caco cake” A chefe Antonieta


prepara o bolo do caco,
no restaurante londrino
de Jorge de Jesus

Como se diz bolo do caco em inglês?


Fomos ver como o programa Taste Portugal anda a criar uma rede
de restaurantes portugueses espalhados pelo mundo, certificando
estes verdadeiros embaixadores da gastronomia nacional

A
LUÍSA OLIVEIRA J O S É C A R L O S C A R VA L H O , E M L O N D R E S

quela aterragem no Aero- Este projeto nasceu há um ano e meio, mesa, claro, a comer, garantindo que as
porto da Portela, já à noite, quando a Associação da Hotelaria, Restau- ementas são de facto portuguesas, os
depois de um voo tranquilo ração e Similares de Portugal (AHRESP) se empregados falam bem a língua e co-
de duas horas e meia, vindo candidatou ao Compete 2020 e ganhou nhecem a nossa cultura. Nesta primeira
da capital inglesa, tem um dois milhões de euros para certificar res- fase, assumem, o grau de exigência foi
simbolismo especial. Para a taurantes nos maiores mercados emissores menor, para que a rede ganhasse lastro.
equipa do programa Taste de turistas, para que eles possam transfor- À primeira vista, Leandro Carreira,
Portugal, trata-se do ponto mar-se em embaixadores do País e, mais 39 anos, chefe do Londrino, que abriu
final de seis meses de péri- especificamente, da gastronomia nacional. há sete meses na capital inglesa, não
plo por cinco países, a visi- Nas visitas, levam na mala produtos preencheria os requisitos para entrar no
tar os restaurantes portugueses que lá portugueses, organizam feiras para os Taste Portugal, apesar de viver há vários
existem. Acabou a primeira fase, mas a mostrar, e os restaurantes aderentes anos fora do País, sempre a trabalhar em
segunda já está na calha, agendada para também participam com demonstrações cozinhas. “Não queremos ser um restau-
depois do verão e em mais meia dezena ao vivo da vasta culinária portuguesa. rante tipicamente português e os nossos
de cidades, da China aos Estados Unidos Depois, fazem auditorias, controlam produtos, à exceção do porco Bísaro, do
da América. tudo com uma checklist e acabam à azeite e de alguns queijos, não vêm de

80 VISÃO 17 MAIO 2018


Diversidade A rede Taste Portugal aceitou
as candidaturas do mais tradicional Grelha
D’Ouro (à esq.) ao mais arrojado Londrino
(à dir.), passando ainda pelo descontraído
Caco & Co., dedicado ao típico pão da Madeira

Portugal.” Acrescenta que a sua ideia é


dar aos ingleses alguns sabores nacionais
misturados com os produtos do Reino
98 de todos. Depois, acrescentam-se-lhes
recheios que variam entre caranguejo de
casca mole, bife de vaca e hambúrguer.
Unido. Talvez se refira, por exemplo, ao Número de restaurantes atualmente Jorge, que nasceu na África do Sul, mas
bolo do caco com anchovas, pimentos e inscritos no programa Taste Portugal já viveu na Madeira, em França e, nos
azedas que serviu no jantar na Embaixada últimos anos, em Londres, explica aos
de Portugal, por ocasião da entrega de
certificados aos donos dos restaurantes
que, como ele, aderiram a esta nova rede
102 ingleses que um prego em bolo do caco
não é mais do que uma “sandwich gour-
met made with fresh cow”. Eles apreciam
de embaixadores informais. Número de estabelecimentos que se e voltam para experimentar outra coisa.
candidataram à primeira fase do programa Na lista também há pica-pau, presun-
DAR A PROVAR to, queijo de Azeitão e bolinhos de baca-
Afinal, quais as vantagens de obter essa
placa distintiva, sem qualquer custo adi-
cional? Susana Leitão, coordenadora do
523 lhau. E pastéis de nata, claro, que chegam
congelados e são cozidos no restaurante
– vendem-se cerca de 150 por dia. “Em
programa Taste Portugal, explica: “Passam Quantidade de restaurantes portugueses alguns casos, como a ginjinha de Óbidos
a fazer parte de uma plataforma online. oficialmente encontrados em Espanha, em copo de chocolate, temos de oferecer,
Tentaremos ajudá-los a resolver os seus França, Alemanha, Inglaterra e Brasil para provarem, e fazer trabalho de divul-
problemas e facilitar o acesso aos produ- gação. Daí a importância de a equipa ser

€2 milhões
tos. Além disso, são convidados para as portuguesa”, afirma Jorge de Jesus.
nossas ações de formação e podem rece- Entrar no Grelha D’Ouro, de José Ro-
ber os estagiários das escolas de turismo, drigues, situado em Stockwell, onde se
porque estabelecemos essa parceria.” O montante do programa Compete 2020 encontra a maior parte da comunidade
O chefe Vítor Sobral é o rosto do setor para estabelecer esta rede portuguesa, é viajar até casa. A televi-
que dá visibilidade a esta iniciativa. de restaurantes portugueses no mundo são está sintonizada na SIC Notícias, os
O embaixador Manuel Lobo Antunes, empregados são todos portugueses e, na
59 anos, a representar o País no Reino esplanada do café que também é da famí-
Unido, conhece alguns dos restaurantes lia Rodrigues, bebe-se galão. Não fossem
portugueses da cidade onde vive, por- as casas em tijolo do outro lado da rua e
que já lá foi experimentar a ementa para os carros que nos aparecem do sentido
matar saudades da nossa gastronomia. contrário, esqueceríamos depressa que
“Existe uma certa diversidade de esco- estamos em Londres. Até porque, nas
lha, do conceptual ao tradicional, que mesas, há azeitonas e queijo fresco para
agrada a públicos muito diferentes”, um feliz arranque de qualquer conversa.
diz, satisfeito por ter à disposição muita José conta-nos que é de Celorico de Basto,
variedade quando decide ir jantar fora. mas que se mudou para a capital inglesa
Sabemos que, apesar do arrojo do che- há 16 anos, trazendo os sabores nacionais
fe Leandro, aprecia bastante o sofisticado
Londrino. Muito diferente do descon-
O CHEFE VÍTOR SOBRAL na mala. A ementa do Grelha D’Ouro, de
que é proprietário há dois anos, enche-se
traído Caco & Co., que Jorge de Jesus, É UM DOS ROSTOS de sugestões como feijoada à transmon-
40 anos, abriu há cinco meses numa tana, caldo-verde, fritada mista de peixe,
zona de escritórios, especializado essen- DA INICIATIVA QUE porco-preto e bacalhau. Mas também são
cialmente em bolo do caco (há um ano,
inaugurou o primeiro em Askew Road). PROMOVE UMA REDE famosas as travessas de marisco. “Curio-
samente, o peixe e o marisco são muito
A chefe Antonieta está quase a reformar-
-se, mas por enquanto é ela quem faz a
DE RESTAURANTES mais baratos do que em Portugal”, garante
José Rodrigues, de 49 anos, enquanto se
massa com cinco ingredientes – uma
receita da família Jesus – e finaliza os
PORTUGUESES serve de mais uma dose de amêijoas à
Bulhão Pato – um irrepreensível “voo”
pães madeirenses na chapa quente, à vista PELO MUNDO direto para Portugal. loliveira@visao.pt

17 MAIO 2018 VISÃO 81


VAGA R

LIVROS

Lídia Jorge
“A maior
desgraça que
pode acontecer
a um artista
é começar pela
literatura, em
vez de começar
pela vida”

Só a literatura
Miguel Torga
Escritor
(1907-1995)

nos pode salvar?


“ESTUÁRIO” É O NOVO ROMANCE
DA ESCRITORA. INSPIRADA NA IDEIA
DE APOCALIPSE E NO MEDO DO FIM
DO MUNDO, NESTA “DOBRA DO TEMPO”
EM QUE VIVEMOS, LEVA-NOS PARA
DENTRO DUMA CASA DE FAMÍLIA
LISBOETA A QUE CINCO IRMÃOS
REGRESSAM EM TEMPO DE CRISE
PEDRO DIAS DE ALMEIDA DIANA TINOCO

82 VISÃO 17 MAIO 2018


17 MAIO 2018 VISÃO 83
E
Recolhimento A escritora na
LIVROS sua casa, em Lisboa. Já publicou
teatro, contos, livros infantis...
Estuário é o seu 12º romance

Edmundo Galeano copia excertos da uns nomes escolhidos que depois fui
Ode Marítima e da Ilíada para treinar alterando à medida que as personagens
a sua mão direita, onde só o polegar iam aparecendo e crescendo. Sílvio, por
e o indicador sobraram depois de um exemplo, parecia-me apropriado ao
acidente num poeirento campo de irmão mais frívolo...
refugiados em que prestava assistência Um eco do Silvio Berlusconi?
humanitária. De regresso a Lisboa, à Talvez. Pode estar no inconsciente...
frente dos olhos vê flutuar uma pequena Muitas coisas são inconscientes, não só
e perfeita bola azul: a forma que toma o na escrita, em tudo na vida. Vivemos com
livro que sonha escrever para “avisar a um mundo submerso, sem darmos conta
Humanidade”. Lídia Jorge, 71 anos, iden- dele... Os escritores perdem o pudor de
tifica-se com a mistura de ambição e in- mostrar esse mundo e vão, muitas vezes,
genuidade dessa personagem que criou, buscar aí o alimento para as suas páginas.
um dos cinco irmãos que regressam Um dos temas centrais deste roman-
à casa do Largo do Corpo Santo num ce é a própria literatura, através da
momento difícil da família Galeano, que ambição do protagonista, Edmundo.
tem encalhado um avultado negócio Também a Lídia sonha, ou sonhou,
com barcos de grande porte. ao longo da sua carreira literária,
Depois da utopia revolucionária do 25 “escrever um livro para avisar a
de Abril revisitada no anterior romance, Humanidade que tome cuidado com
Os Memoráveis (2014), a escritora, que o seu destino”?
prodigiosamente se estreou na literatu- Acho que, na totalidade, é isso que eu
ra em 1980 com O Dia dos Prodígios, faço. Mesmo que não seja um desígnio
apresenta em Estuário um livro com vista explícito, é para isso que a literatura
para o apocalipse − tão longe, tão perto. serve; é uma espécie de testemunho
Para ler mesmo “depois da última página”. subversivo, alucinado, que não tem só
Uma primeira curiosidade: a escolha como objetivo não deixar esquecer o
dos nomes das personagens nos passado mas avisar que há leis intem-
seus romances é um processo quase porais que comandam a História e os
aleatório? O livro começa logo sucessos dos homens. Neste roman-
com o nome “Edmundo Galeano” ce fala-se muito da Ilíada, um livro
que, inevitavelmente, faz pensar precisamente sobre isso: diz-nos que do apocalipse. Esse medo é um tema
em Eduardo Galeano, o escritor a violência será eterna e é perigosa, que atravessa a nossa literatura. Não
uruguaio... É uma coincidência? destrói os homens. Mesmo Cervantes, só herdámos isso do mundo bíblico,
Não é um processo aleatório, tem com o Dom Quixote, avisa-nos sobre como é mesmo algo inerente à Hu-
muito que ver com a sonoridade dos o fim do mundo, uma loucura que é manidade: pensar que além de um fim
nomes, com o peso que quero dar-lhes. salvadora mas, ao mesmo tempo, tem dos homens, haverá um fim da Terra...
Escolhi a palavra Galeano sem pensar o extermínio à frente... Neste momen- Hoje estamos numa dobra do tempo,
no Eduardo Galeano, apesar de ser um to em que estamos aqui a falar, deve percebe-se perfeitamente. E, por isso,
escritor que aprecio e criou um género haver centenas e centenas de escritores acho que imensos escritores escre-
muito próprio. Mas não pensei em nada sentados à frente dos computadores vem sobre isso, quase todos. Seja pela
disso. O nome Galeano, realmente, a escreverem sobre isso, sobre a ideia denúncia dos abusos sobre a Terra, os
tem que ver com Gales, mas há tam- abusos da política. Até a melancolia
bém uma associação sonora à palavra que atravessa a literatura em relação ao
“galeão”, que remete para viagens, o amor... Também é um aviso sobre um
imaginário marítimo, uma ligação com desentendimento latente. A literatura
o exterior. A escolha não foi aleatória, “HOJE, RARAMENTE serve para isso, para nos avisarmos uns
mas o efeito pode ser... Os nomes das
outras personagens também resultam OFEREÇO OS MEUS aos outros. Não de forma sádica, mas
embalados pela beleza das palavras.
muito pela sonoridade. Charlote, por
exemplo, não é um nome muito por-
LIVROS... TENHO Um livro bom nunca pode ser só sobre
o mal, é sempre também sobre a bele-
tuguês. Mas coincide com a invasão de A SENSAÇÃO DE QUE za, e é essa parte que é sempre reden-
nomes estrangeiros que se deu há uns tora na literatura. Pode-se escrever
30, 40 anos. Como queria que ela fosse AS PESSOAS sobre o fim do mundo, mas há sempre
diferente, com um percurso especial
e um peso às costas, achei o nome LAMENTAM TER MAIS uma janela que é redentora, que é a da
beleza. Respondendo mais concisa-
apropriado.
Mas é uma escolha prévia a todo o
UM LIVRO EM CASA, mente: sim, se eu somar todos os meus
livros, acho que eles também são isso,
processo de escrita?
Estive a ver ontem os apontamentos
DE QUE NÃO TÊM esse aviso sobre um fim do mundo que
pode acontecer e nós queremos adiar
para este livro e a verdade é que tinha TEMPO PARA ELE” indefinidamente.

84 VISÃO 17 MAIO 2018


Há esse impulso inicial, sim. Há um
mundo que pode decompor-se de um
momento para o outro, mas ele é en-
saiado perto de nós. Não são só as pla-
nícies da China cheias de poluição ou
os rios e oceanos em risco... O princípio
do mal, da decomposição, está perto
de nós. Esse foi o movimento inicial.
Comecei a escrever este livro há quatro
anos e depois interrompi-o durante
três. Quando voltei a ele, percebi que a
personagem que me era mais próxima
era, sem dúvida, o Edmundo. E o facto
de ele ter perdido três dedos da mão
direita é importante. Porque, para mim,
a arte, sobretudo a escrita, que é a que
conheço melhor, vive de sentimentos
muito profundos. O vistoso não existe
na literatura, nem o aparato, a lantejou-
la, o brilho, a luz exterior... Tem de ser
tudo denso e interno. E os escritores
só conseguem esse nível quando têm
o sentimento da perda. Só através da
perda se fica habilitado a entender a
perda dos outros.
Em que ponto está a sua fé na lite-
ratura? Falando aqui, também, dos
escritores mais jovens. Há um capítulo
em que, num bar, várias personagens
ridicularizam a ideia de livros longos...
Tenho muito mais fé nos escritores do
Sente, então, empatia com que nos leitores, devo dizer. Encontro
o Edmundo, que parece ter uma am- escritores jovens que estão continuan-
bição quase impossível de concreti- do, com muito denodo, a literatura.
zar: alguém que nunca escreveu uma Não há perigo nenhum, por aí, de ela
linha e sonha construir um livro que se extinguir. Há perigo do lado dos
muda tudo e pode influenciar leitores. Há uma desorientação enorme,
o mundo... promovida também pelos responsáveis
Ele é a minha parte ingénua. pela difusão, que, hoje, parecem não
O Edmundo tem a ambição total, sabe entender que preparar os leitores é um
exatamente o que quer mas ainda trabalho lento... Um leitor demora uns
não tem experiência suficiente, é um 20 anos a fazer. É um trabalho duro
inexperiente da vida... Ele só estará apto mas seguro. E o que acontece neste
a escrever depois da última página. Sin- momento é que há uma visão fútil em
to-me muito na pele dele, sim.
A Lídia também vê aquela bola azul Ganhar experiência torno da atração pela literatura. O que
está acontecendo é que parece que tem
suspensa à sua frente enquanto de haver vários engodos para se chegar
escreve um livro? Apesar de a ação de Estuário à literatura. Como se ela estivesse
Há um estado de encantamento (Dom Quixote, 288 págs., fechada no centro de uma floresta e só
€16,60) se passar ao longo
quando escrevemos e pensamos que a se chegasse lá se, antes, se recebesse um
de apenas alguns meses,
nossa história vai ser o livro absoluto. copo de vinho, queijos, futebol, sexo...
este pode ser visto como um
Ninguém conseguiria escrever se não “romance de aprendizagem”,
Se se oferecer espetáculo. E a certa
imaginasse que está a escrever a página construído à volta altura, pensa-se, as pessoas chegarão lá.
absoluta, o livro absoluto... Mas, quan- da personagem de Edmundo Acho que é um erro, não deve ser assim.
do se chega à última página, há sempre Galeano. A ambição Está a falar das políticas públicas
uma desilusão e descobrimos que não de escrever o livro absoluto para a promoção do livro e da leitura?
foi isso que fizemos. e necessário esbarra na sua Sim. É trágico ver como hoje se promo-
Na génese deste livro está, então, a inexperiência, até perceber ve a literatura. É um saquinho fechado,
ideia de apocalipse, de fim do mun- “que iria começar pelo que de que toda a gente diz “é maravilho-
do, e dessa “dobra do tempo” de que melhor conhecia e mais so!”, mas que nunca chega a ser aberto.
falava? amava.” Acho que há uma futebolização da

17 MAIO 2018 VISÃO 85


LIVROS

cultura. Em todos os domínios... Até


na própria representação dos escri-
tores, que antes se fazia com cuidado,
colocavam-se os escritores no mesmo
plano para que houvesse respeito por
todos. Hoje é exatamente o contrário,
estabelece-se uma hierarquia violenta e
muitas vezes aleatória, que correspon-
de ao que se faz no futebol. Pergun-
ta-me se tenho fé na literatura... Eu
continuo a ter. Figuras de proa como
George Steiner ou o Alberto Manguel
têm dito que a literatura não nos faz,
necessariamente, melhores pessoas.
Concordo... Mas faz de nós pessoas
mais ricas, mais amplas. E eu acredito
que a literatura melhora a vida. E que
tem poder, um poder lento e invisível...
Há dias, voltei a um livro de meados
do século XIX, A Dama das Camélias
[de Alexandre Dumas filho] e pus-me
a pensar se ele melhorou a Humani-
dade... Concluí que sim, melhorou, de
facto! Na altura, diriam: mas como é
que falar duma prostituta de classe alta
pode melhorar alguma coisa? Eu acho Sim, e isso significa, sobretudo, que há tras... Quem percebe o que é a literatura,
que melhorou, denunciou um cinismo, um segmento que luta pela literatura. e como ela é indispensável tem o dever
desmantelaram-se processos... A lite- A proposta desses festivais é sempre de espalhar a boa nova, a boa notícia,
ratura tem redenção dentro, promete positiva, mas também percebo o lado e dizer “olha, encontrei um livro que
uma redenção. de superficialidade e degradação que vale a pena”. E vou encontrando muitas
Sente, mesmo, que há menos leitores? contêm. Num festival, serão tocadas pessoas que o fazem.
Nas narrativas mais longas, densas, três ou quatro pessoas, talvez, não sei... Sente que os jovens escritores
mesmo as pessoas que dizem que Já me aconteceu, num desses festivais, mantêm esse fogo vivo na literatura
leram o livro inteiro muitas vezes só uma senhora tratar-me, do princípio portuguesa...
leram as primeiras páginas e as últi- ao fim, por Lígia Borges. Eu não disse Sim... Não vou dizer nomes porque eles
mas... Sinto isso, sim. Antigamente, ia nada. Mas nem no meu nome acerta- são muitos e ficam zangados se cito três
encontrar-me com os meus amigos e va... Eu respeito. Tudo é ínvio, não faz ou quatro e não outros, como se os ex-
oferecia os meus livros. Hoje, rara- mal. É importante, por exemplo, que cluísse. Existem jovens que falam sobre
mente ofereço os meus livros... Tenho a se encontre um poema de Sophia de o País e sobre o mundo de uma forma
sensação de que as pessoas lamentam Mello Breyner num escaparate; podem não fútil. Os melhores, sem dizer no-
ter mais um livro em casa, de que não passar 20 crianças que nem reparam, mes, são aqueles que seguem uma tradi-
têm tempo para ele. Hoje não há tempo mas depois há uma que lê e reconhece ção da literatura portuguesa que é ser
para os longos segmentos... E eu acho que está ali a usar-se uma linguagem uma literatura que tem um cerimonial,
que eles são indispensáveis porque que não é a sua de todos os dias, e de que não tem pressa, tem algo de barroco
alimentam aquela parte da nossa vida que pode gostar. e de repetição. Uma literatura com um
onde se criam os valores, onde se Ao mesmo tempo, parece que nunca formato litúrgico e que tem algo de
tem disponibilidade para a reflexão. se publicou tanto... Há uma voragem religioso no processo, na construção. Há
Quando formos autómatos que reagem rápida de novidades nas livrarias. muitos, felizmente, que seguem o cami-
só a curtos segmentos, penso que a Sim, e torna-se difícil escolher alguma nho dos escritores dos anos 80 e 90 que
Humanidade será pior. As pessoas que coisa... É o nosso tempo. É como os foram magníficos em Portugal...
pensam assim − e acho que são muitas, iogurtes: é difícil comprar um simples Também há o contrário, os que
ainda −, não devem ter vergonha de o iogurte, há variedades para tudo, às tan- ensaiam um corte completo...
dizer. Essa vergonha existe, como se tas não sabemos qual escolher... Quando Exatamente. Há escritores mais jovens
pensar assim não fosse coisa do nosso era muito pequena, vivia da escassez dos que... quando os leio parece que estou
tempo. Se calhar, um dia seremos uma livros. Qualquer um que me chegava a ler traduções. Não têm raiz. São
pequena seita. às mãos era uma alegria. As crianças, livros que podem ser escritos por um
Como no filme do François Truffaut e hoje, têm milhares de livros disponíveis. búlgaro, um irlandês, um tailandês, ou
livro do Ray Bradbury Fahrenheit 451... Quando encontram um bom, será tam- um português... Como se fossem todos
Exatamente. bém uma alegria. O caminho é diferente. traduzidos pelo Google. Fica a ideia de
Por outro lado, nunca houve tantos É muito importante que as pessoas que que fizeram muitas leituras dos best-
festivais literários em Portugal... gostam de livros o digam umas às ou- -sellers americanos.

86 VISÃO 17 MAIO 2018


e uma provocação, sim. Ela está desa- de que começam a eternizar-se campos
fiando. Quanto à questão do #metoo... de refugiados em África há décadas,
Durante muito tempo, o assédio era um com pessoas que nasceram lá, vivem lá...
assunto tabu. De repente, começou-se Situações de prolongamento infinito, e
a falar e pode haver, agora, algum exage- uma incapacidade da ONU de superar o
ro. Mas não se pode ultrapassar essa egoísmo das nações. Um homem bom,
situação sem esse exagerar, esta fase como António Guterres, não vai conse-
conduzirá provavelmente a uma nova guir ultrapassar essas situações, parece
visão muito mais equilibrada. que estão ali reunidos todos os males do
É um movimento positivo. Mas também mundo. Esse médico torna-se cons-
perigoso: há homens, agora, que assu- ciente do cinismo que existe na distri-
mem medo das mulheres e do relacio- buição do dinheiro e nas estratégias dos
namento, pode perder-se o encanto da governos que não têm como prioridade
sedução mútua entre homens e mulhe- resolver essas situações.
res... Mas o exagero, como digo, levará Em Portugal tem havido a sensa-
a um ponto de equilíbrio, e os homens ção de que invertemos o ciclo de
que não continuem a pensar que trocam uma crise profunda, há até algum
um emprego, ou um contrato, por dois otimismo...
ou três apalpões. As mulheres estão a Há uma maior autoconfiança, sim. Mas
reivindicar a sua dignidade. o livro ainda se centra num contexto
Outro assunto bem contemporâneo. difícil, apesar de não ter querido fazer
A questão dos campos de refugiados uma crónica direta dessa crise. Na ver-
e da ajuda humanitária. Põe na boca dade, hoje vive-se um momento de con-
de um médico finlandês uma pers- fiança acompanhada pela desconfiança e
petiva cínica, pessimista. Diz ele: pelo medo de que esta situação positiva
Costuma dizer que a sua literatura “Para quê todo aquele sacrifício? possa não ter bases assim tão sólidas. O
é também uma “crónica do tempo Se o caminho seria sempre o martí- cuidado de tentarmos que esta autocon-
que passa”. Em Estuário, tocam-se rio da vida de uns pela sobrevivência fiança não resulte na repetição de erros
muitos temas bem contemporâneos. de outros.” Está difícil ser otimista... anteriores é prudente. Nesse sentido,
Lembro-me, por exemplo, do levan- Sim, hoje chocamo-nos muito com es- acho que Portugal está vivendo um
tamento contra o assédio, o movi- tes refugiados que batem à porta da for- momento de equilíbrio. Um equilíbrio
mento #metoo. Em vários momentos taleza europeia e quase nos esquecemos como há muito não se vivia.
do livro, Charlote veste-se de forma Sente que este é o seu livro mais
provocante, com saias curtas e gran- desencantado?
des decotes, e pensa para si própria: Não... Os livros nunca serão desencan-
“irei protegida, irei armada”... tados se depois da última página obri-
Sim... Há uma figura de estilo que “HÁ ESCRITORES garem a rever a matéria, percebendo
consiste em conseguir-se o que se quer por que motivo houve esse desencanto.
usando o elemento oposto. Acho que MAIS JOVENS QUE... Não há livros pessimistas na literatura,
isso tem que ver com algo que as jovens
fazem muito hoje: a exposição de uma QUANDO OS LEIO há é livros bem ou mal escritos.
E os livros literários servem para isso:
feminilidade que não é erótica, é para
dizer: “eu sou diferente, eu ponho a mi-
PARECE QUE ESTOU para serem lidos depois da última pá-
gina. Esse é o movimento fundamental
nha pele à vista mas a mim ninguém me
toca”. Pode ser uma exposição estética,
A LER TRADUÇÕES. do grande leitor, aquele que lê depois
da última página. Não há desencanto,
mas não é erótica. É uma prova de força NÃO TÊM RAIZ” o que há é aviso. palmeida@visao.pt
CINEMA

A donzela portuguesa
de um Quixote maldito
Joana Ribeiro é a estrela portuguesa de O Homem que Matou Dom
Quixote, de Terry Gilliam, o mais adiado (e esperado) filme dos últimos
20 anos, que encerra o Festival de Cannes, neste sábado, 19

A
MANUEL HALPERN

o que tudo indica, 20 anos poderá ser o derradeiro capítulo deste dora NOS não se comprometeu com
depois, O Homem que autêntico romance de cavalaria está um uma data de estreia.
Matou Dom Quixote vai conflito aberto entre o realizador, Terry Quando o filme de Terry Gilliam fi-
finalmente ver a “luz” do Gilliam, e o produtor, Paulo Branco, que nalmente for exibido em Cannes, neste
público. E dizemos, pru- tinha adquirido os direitos do filme e sábado, 19, muitos se questionarão sobre
dentemente, “ao que tudo não autoriza a sua projeção, tendo pe- quem é aquela bela e jovem atriz que faz
indica”, porque, atenden- dido inclusive uma providência cautelar o papel de Angélica. Joana conta-nos
do ao historial de azares para impedir a exibição em Cannes. Um como chegou ao filme: “Foi feito um cas-
e peripécias que a produ- tribunal francês autorizou a projeção no ting em Portugal, quase uma self tape.
ção do filme tem sofrido, festival, mas com a ressalva de que deve Passadas duas ou três semanas, soube
todos os imponderáveis ser mencionado que os direitos perten- que tinha ficado com o papel.” Na altura,
devem ser considerados. cem ao produtor português. E, apesar de a produção era ainda de Paulo Branco,
Pode ainda ocorrer um cataclismo, um a exibição no circuito comercial já estar que foi essencial para o início da carreira
tremor de terra, um tsunâmi, uma falha anunciada para França e China, ainda de Joana. A única longa-metragem em
elétrica global ou algum revés jurídico nada é certo. Em Portugal, a distribui- que tinha participado antes fora A Uma
que impeçam a estreia. E então o filme Hora Incerta, de Carlos Saboga (também
reforçará o seu karma do mais oculto produzida por Branco). De resto, só cur-
dos objetos de culto do cinema contem- tas e telenovelas. A participação no filme
porâneo, o mais longo making of, a mais de Gilliam foi um inesperado e altíssimo
frustrante história de cinema, tanto ou voo. “De início, pensei que poderia ser
mais quixotesca quanto o próprio Dom um passo demasiado grande para mim.
Quixote. Joana Ribeiro, a atriz portugue- Mas, mesmo quando estava mais ner-
sa que participa no filme, contracenando vosa, o Adam Driver e os outros atores
com Adam Driver, revela à VISÃO que, ajudaram-me muito. Nunca me trataram
durante as rodagens, a malapata deste como se fosse uma novata, sempre me
Dom Quixote era muitas vezes referida, fizeram sentir parte do grupo.”
até com sentido de humor, não fosse A participação no filme envolveu um
Gilliam um dos Monty Python: “Havia longo tempo de preparação. “Trabalhei
D.R.

sempre uma piada. Ao mínimo percalço, muito com o Manuel Gorjão. Fizemos
dizia-se logo: “Ainda não é desta...” Mas, o estudo da personagem, das cenas, de
na verdade, não aconteceu nada de grave. “LOGO NA PRIMEIRA como andava, de como falava. Vi muitos
Eram mais as questões meteorológicas, filmes com a Penélope Cruz e a Anna
se bem que a equipa estava preparada CENA QUE FILMEI, TIVE Magnani, tudo o que pudesse servir de
para, em caso de chuva, filmar as cenas
em estúdio.” DE IR PARA DEBAIXO DE referência de mulheres resilientes. Pre-
parei-me ao máximo para que, chegando

A BELEZA E A FORÇA DE ANGÉLICA


UMA CASCATA COM UM lá, fosse só deixar as coisas acontecerem.”
Mesmo assim, há sempre imponderáveis:
FRIO DE RACHAR. NÃO
DIANA TINOCO

A aventura da produção desta versão “Logo na primeira cena que filmei, tive
de Dom Quixote é também uma his- de ir para debaixo de uma cascata, com
tória portuguesa. Na base daquele que FOI NADA FÁCIL” um frio de rachar. Não foi nada fácil...”

88 VISÃO 17 MAIO 2018


Joana Ribeiro A atriz
portuguesa faz de Angélica
no Quixote, de Terry
Gilliam. “De início, pensei
que poderia ser um passo
demasiado grande para
mim”, confessa

17 MAIO 2018 VISÃO 89


CINEMA

Sobre a personagem, conta: “As pes-


soas terão a tendência de olhar para
Angélica como uma vítima, mas ela é
O Quixote de Welles
uma mulher muito forte. Quando co- Muito antes da quixotesca aventura
nhece o Toby [Adam Driver], é ainda de Terry Gilliam, já Orson Welles
uma criança ignorante do mundo. Mas havia tido uma traumática
quando a encontramos, dois anos mais e ainda mais inglória experiência
tarde, já foi conspurcada pela sociedade, na adaptação do clássico
pela vida, por ir atrás de um sonho que de Cervantes. O Dom Quixote,
o Toby lhe deu.” de Orson Welles, começou por ser
De resto, não poupa elogios ao traba- filmado na Cidade do México, em
lho de Gilliam: “É um génio. Visualiza as 1957, como uma curta-metragem,
cenas, mostra para onde quer ir e depois de 30 minutos, para a CBS. Tal
como no caso de Gilliam, tratava-
deixa-nos encontrar a forma de lá che-
-se de uma adaptação muito livre
garmos. O guião estava sempre a mudar.
e assumidamente anacrónica.
Ele dizia que o guião se escrevia a si pró- Welles optou por um estilo
prio.” E recorda um exemplo concreto, experimental, não seguindo um
que mostra o modo particular de Gilliam guião predefinido e apostando
trabalhar: “Certa vez, estava a ensaiar com na espontaneidade dos atores.
o Adam Driver e divagámos para fora do Contudo, por problemas
texto. O Terry estava a visualizar e disse de financiamento, a rodagem
que era exatamente aquilo que queria.” seria interrompida. O realizador
americano, no entanto, nunca
UM FILME MALDITO desistiu do projeto. Durante
A primeira tentativa de produção do os anos 60, voltou a filmar algumas
filme remonta a 1998. Terry Gilliam es- cenas em Espanha e em Itália,
creveu um guião ambicioso, mas que não à velocidade que o orçamento
conseguiu convencer produtores ame- lhe permitia. Mas, apesar de as
ricanos. Voltou-se então para a Europa, filmagens terem teoricamente
onde encontrou quem o financiasse. Mas terminado, em 1969, com a morte
O Homem que Matou Dom Quixote seria do ator Francisco Reiguera, Welles
um dos filmes europeus mais caros de continuou a mudar o conceito
sempre. Filmado em Espanha, incluiria do filme e a acrescentar-lhe
cenas... Ainda estava a trabalhar no
no elenco Johnny Depp e Vanessa Para-
seu Dom Quixote, em 1985, quando
dis. Durante a rodagem, aconteceu de
morreu. Uma versão possível
tudo um pouco. Joana Ribeiro confessa: do, para sempre inacabado, Dom
“Só depois de ter sido escolhida é que Quixote de Welles (com montagem
vi o documentário Lost in La Mancha, do espanhol Jesús Franco)
e fiquei um pouco assustada. No docu- foi estreada, em 1992, 35 anos
mentário, fica-se com muita pena do depois da primeira cena filmada. Outras tentativas colapsaram, quase
Terry, porque tudo lhe aconteceu, desde sempre devido a questões de financia-
tempestades a aviões a sobrevoarem a mento. Até que, em 2016, durante o Fes-
rodagem estragando o som, só porque tival de Cannes, foi anunciado novamente
queriam ver o Johnny Depp...” O golpe o início das rodagens do filme. Desta vez
de misericórdia foi a hérnia discal do a produção estava a cargo de Paulo Bran-
ator Jean Rochefort, que fazia de Dom co, o mais relevante produtor português
Quixote. A equipa ainda esperou algum de sempre, com um notável percurso
tempo pela sua recuperação, mas o rela- internacional. Dom Quixote deveria ser
tório médico revelou que era totalmente interpretado por Michael Palin, parceiro
impossível que ele voltasse a montar um e amigo de Gilliam nos Monty Python.
cavalo nos meses seguintes. Só que, mais uma vez, não foi possível
Em 2005, Terry Gilliam fez nova montar a estrutura financeira do filme
tentativa. O elenco incluía, agora, Ro- e a rodagem foi cancelada.
bert Duvall, Michael Pallin, John Hurt, Em março de 2017, já com outro pro-
Johnny Depp, Ewan McGregor e Jack dutor, as filmagens finalmente avançaram,
O’Connell. A produção começou por em Espanha e em Portugal (no Convento
ser adiada por falta de fundos. E, entre- de Cristo, em Tomar), com Jonathan Pryce
tanto, Johnny Depp afastou-se devido à no papel de Dom Quixote. Mas quando
sua agenda sobrecarregada, e John Hurt o filme terminou, iniciou-se uma novela
abandonou o filme depois de lhe ser jurídica, com Paulo Branco a reclamar-se
diagnosticado um cancro. ainda detentor dos direitos da obra.

90 VISÃO 17 MAIO 2018


Rodagem de “O Homem que
Matou Dom Quixote” Joana
Ribeiro e Adam Driver recebem
as indicações de Terry Gilliam

D.R.

O desespero, o ónus do filme mal-


dito, voltou a afligir Gilliam. A pró-
pria Joana confessa o pessimismo do
momento: “Quando houve uma nova
confusão, achei que o filme nunca iria
acontecer e que este seria mais um ca-
pítulo dessa história.”
Só que, aparentemente, o filme vai
mesmo estrear-se, apesar do ambien-
te de alta tensão, com Paulo Branco
a ameaçar processar o Festival de Cannes.
Joana não disfarça a sua curiosidade: “Só
vi algumas cenas mínimas que tinham
de ser dobradas. Estou muito curiosa.
Embora seja um bocado assustador ver
o filme pela primeira vez em Cannes...”
E acrescenta: “O Terry fala sempre do
poder da imaginação para ultrapassar
obstáculos e tornar as pessoas melhores.
Essa é uma mensagem importante do
filme. A imaginação é o que acaba por
nos salvar.” mhalpern@trustinnews.pt

17 MAIO 2018 VISÃO 91


Irreverência O Palais de Tokyo,
TENDÊNCIAS um dos mais importantes museus
de arte contemporânea de Paris,
acolheu uma visita naturista

Museu
não é
mausoléu
Praticar ioga rodeado
de obras-primas,
abordar a arte de
uma perspetiva
feminista ou visitar
uma exposição
completamente nu…
Sim, é possível

O
VÂ N I A M A I A

s bilhetes esgotaram em tantes adultos (a criatividade sempre fez des têm em comum a origem geográfica.
48 horas. O entusiasmo pela parte das iniciativas dirigidas às crianças). “Temos a preocupação de garantir sempre
exposição Discorde, Fille de Portugal não é exceção, sobretudo quan- uma ligação ao Oriente. É uma forma de
la Nuit, sobre o impacto da do se aproximam dois dias de atividades prolongarmos a missão do museu en-
História na arte contempo- intensas (ver caixa). quanto espaço de encontro”, contextualiza
rânea, não se devia, apenas, As visitas nudistas ainda não chegaram Margarida Mascarenhas, responsável pelo
às obras dos artistas. A cor- a Portugal, mas o Museu da Farmácia, Serviço Educativo do Museu do Oriente.
rida à bilheteira deveu-se, em Lisboa, criou um percurso temático Os museus sacrossantos já lá vão.
antes, a um acontecimento dedicado à História da Sexualidade. Os Agora, até há os que aceitam visitantes
inédito no Palais de Tokyo, participantes deparam-se, por exemplo, de quatro patas, como o Museu Nacio-
um dos mais emblemáticos com um preservativo desenvolvido es-
museus de Paris: uma visita pecialmente para prevenir a sífilis, um
guiada em modo naturista, ou seja, até o pioneiro vibrador medicinal de dínamos
guia tinha de estar despido. A iniciativa, ou um cinto de castidade usado para pro-
promovida pela Associação dos Naturis-
tas de Paris, mobilizou mais de três mil
teger as operárias fabris de abusos sexuais.
A próxima visita realiza-se na sexta-feira,
FESTAS PELA NOITE
pessoas no início deste mês. 18 de maio, Dia Internacional dos Museus. DENTRO, DIAS ABERTOS
Nem todos os museus estão dispo- Não é só o corpo que merece atenção, a
níveis para acolher eventos tão extre- mente também. Ioga, tai chi, chi kung ou AOS ANIMAIS OU
mos, mas multiplicam-se as iniciativas
que ajudam a desconstruir preconceitos
dança oriental. Estas são algumas das ati-
vidades disponíveis quase em permanên- AULAS DE MEDITAÇÃO
sobre o que se deve esperar (ou não) de
um museu. Festas pela noite dentro, dias
cia na programação do Museu do Oriente,
em Lisboa. Também há workshops de
SÃO ALGUMAS DAS
abertos aos animais de estimação ou aulas
de meditação são algumas das estratégias
alimentação ayurveda (inspirada na me-
dicina tradicional indiana) ou de estética
ESTRATÉGIAS PARA
menos convencionais para atrair visi- e cultivo de bonsais. Todas estas ativida- ATRAIR VISITANTES

92 VISÃO 17 MAIO 2018


Movimento
Uma aula de
ioga num dos
Museus Reais
de Belas-Artes
da Bélgica, junto
a obras de Gao
Xingjian (à dir.);
e uma atividade
desportiva
organizada pelo
Museum Hack
(em baixo)

REUTERS
GETTYIMAGES

D.R.
nal de Cinema de Turim que, à VISÃO, Em território nacional, o deus dos um Baile Barroco de Carnaval, que inclui
confirmou receber animais dentro das prazeres vínicos é invocado no Teatro Ro- concertos e até aulas de dança de roda,
instalações, desde que “sejam pequenos mano, um dos polos do Museu de Lisboa, fazendo justiça à herança barroca do
e possam ser levados ao colo ou trans- na última quinta-feira do mês, através da edifício. Por ocasião do Dia Internacio-
portados em bolsas para animais de Hora de Baco, uma degustação de vinhos, nal dos Museus (sexta, 18), o baile será
estimação”. Também os populares Dog patrocinada pela Adega de Pegões, que in- multicultural e dedicado à diversidade da
Film Festival e Cat Film Festival, festivais clui concertos em pleno museu. Há quem capital. “Procuramos promover eventos
dedicados aos filmes em que cães e gatos o visite pela primeira vez motivado apenas que estejam relacionados com a história
são os protagonistas, têm sido acolhidos pela experiência da prova, e, depois, se do museu ou da cidade, potenciando
em vários museus dos Estados Unidos da torne seu frequentador habitual. o que temos para oferecer”, esclarece a
América que, até ver, só aceitam especta- E se há bebidas alcoólicas, também há diretora, Joana Sousa Monteiro.
dores bípedes... festas, claro. Uma das iniciativas pioneiras
As bebidas alcoólicas também se tor- a levar vida noturna para dentro dos mu- A EXPOSIÇÃO SAI À RUA
naram ferramentas de atração. O Ex- seus saltou diretamente da ficção para a O que têm em comum o estilista Filipe
ploratorium, o museu de Ciência de São realidade. Após a estreia do filme À Noite Faísca, o realizador João Canijo e a escri-
Francisco, EUA, organiza uma iniciativa no Museu (2006), o Museu Americano de tora Maria Teresa Horta? Os três vão con-
dedicada à Ciência nos cocktails. Além História Natural, em Manhattan, onde duzir visitas guiadas à exposição Pós-Pop.
de provar as bebidas, o público aprende se passava a trama, instituiu as pernoitas Fora do lugar-comum, patente no Museu
como são fabricadas, se é problemático exclusivamente para adultos. Habitual- Gulbenkian, em Lisboa, na sexta-feira, 18,
fazer misturas ou o que acontece ao cé- mente esgotadas, apesar de custarem que também será dia de festa, dedicada
rebro quando se bebe álcool. Semanal- quase €300 por pessoa, incluem jantar aos anos 60 e 70, até à meia-noite.
mente, o museu transforma-se num bar e, volante, brinde com champanhe, sessões Tornar figuras públicas embaixado-
enquanto os convidados bebem, assistem de cinema, jazz ao vivo e visitas guiadas à ras dos museus está a generalizar-se
a palestras de cientistas, legisladores ou luz de lanternas. como uma forma de influenciar futuros
outros especialistas sobre temas tão po- Já o Palácio Pimenta, o polo do Cam- visitantes – ou não vivêssemos na so-
larizadores como o consumo de canábis. po Grande do Museu de Lisboa, instituiu ciedade do espetáculo. O Museu Nacio-

17 MAIO 2018 VISÃO 93


TENDÊNCIAS

nal de Arte Antiga (MNAA), em Lisboa,


apresenta esta semana a iniciativa 12 Es-
AGITAÇÃO CULTURAL de oito pontos percentuais relativamente
a 2016, facilmente explicável pelo atual
colhas, no âmbito da qual uma dúzia de O Dia Internacional dos Museus magnetismo turístico do País.
personalidades escolheram outras tan- celebra-se na sexta-feira, 18,
tas peças, com inteira liberdade, criando e a Noite Europeia dos Museus OS REVOLUCIONÁRIOS DO MUSEU
12 percursos alternativos pelo museu, no dia seguinte, sábado, 19. A startup norte-americana Museum
que serão revelados ao longo de um ano. Toda a programação em Hack é especialista em revolucionar os
O primeiro, inaugurado no Dia Inter- www.patrimoniocultural.pt museus. No ano passado, 20 mil pessoas
nacional dos Museus, é da responsa- participaram nos seus tours. À VISÃO, o
bilidade do Presidente da República, fundador, Nick Gray, nega que as novas
Marcelo Rebelo de Sousa. Haverá um gerações sejam desinteressadas: “Na sua
desdobrável com textos destes “cura- maioria as pessoas que fazem visitas con-
dores emocionais”, justificando as nosco são millennials. Esta geração quer
suas escolhas, além de informação ir aos museus e quer que captemos a sua
histórica sobre cada uma das obras atenção, mas temos de o fazer de maneira
selecionadas. “O museu nunca está diferente do passado.”
visto”, salienta o diretor do MNAA, “Diferente” é o adjetivo que melhor
António Filipe Pimentel. “A cada visi- assenta à empresa. Os seus tours mais
MUSEU DO AR (POLO DE SINTRA)
ta, veem-se sempre coisas diferentes.” Da passagem de um F-16
populares são as visitas feministas, fo-
E é essa singularidade que os percursos à demonstração da inativação cadas nas artistas presentes nas coleções
pretendem demonstrar. de engenhos explosivos, são e nas razões da sub-representação das
O MNAA tem tradição na aproxima- várias as atividades, no sábado, mulheres no mundo da arte, e o nome é
ção ao grande público. Já expuseram que culminam com o sorteio revelador: Badass Bitches Tour (qualquer
peças das suas coleções em centros de dez batismos de voo coisa como “cabras destemidas”…). Os per-
comerciais e, em 2015, reproduziram cursos são adaptados às coleções de cada
três dezenas das suas obras-primas e MUSEU NACIONAL DE ETNOLOGIA um dos seus parceiros, entre os quais está
penduraram-nas em ruas do Chiado, do No sábado, estará aberto até o Metropolitan Museum of Art de Nova
Bairro Alto e do Príncipe Real. Curio- às duas da manhã para celebrar Iorque, o qual já acolheu visitas dedica-
samente, as poucas que desapareceram a música cabo-verdiana das às suas obras de arte que refletem a
não foram vandalizadas, mas levadas temática lésbica, gay, bissexual e transgé-
para bairros de contextos socialmente MUSEU DA MARIONETA nero. Chegaram a fazer tours dedicados à
vulneráveis, “também eles dignos de A música de Sérgio Godinho forma como a realidade inspirou a série
as receberem”, sublinha António Filipe e do pianista Filipe Raposo A Guerra dos Tronos, estabelecendo pa-
Pimentel. Agora, “o museu não é um invade o museu na noite de ralelismos, por exemplo, entre o real Co-
roadshow”, alerta. “Deve comunicar, mas sexta-feira, às 21h30 losso de Rodes e o ficcional Titã de Bravos.
não banalizar. Deve seduzir através da O museu recebe, ainda, despedidas de
MUSEU NACIONAL DA MÚSICA
paixão pelo conhecimento, equilibrando solteiro que podem incluir uma digressão
A noite de sábado será dedicada
o rigor e a compreensão, mas sem faci- por seis mil anos de História segundo a
aos fãs do Festival da Eurovisão
litar.” Daí o perigo de procurar museus com um quiz especial sobre
representação na arte dos… rabos.
puramente celebrativos de determinados o tema Terão sido os museus inevitavelmente
acontecimentos ou épocas históricas. capturados pela pura diversão? “Muitos
O espírito crítico é indispensável. Nesse visitantes dão prioridade ao entrete-
sentido, o MNAA organiza visitas subor- nimento e não à educação”, defende o
dinadas a temas tão pertinentes como os fundador da Museum Hack. “Os nossos
testemunhos da escravatura presentes tours são entretenimento, mas é óbvio
nas suas obras. A exposição temporária que também ensinam”, sublinha.
Explícita. Arte Proibida?, que será inau- O artista plástico Pedro Portugal escre-
gurada esta semana, inclui nus mascu- veu recentemente um artigo de opinião
linos e femininos, fomentando o debate em que identificava sinais da decadência
em torno de uma questão amplamente das grandes superfícies culturais: “O de-
discutida: pode a arte ser censurada? MUSEU NACIONAL DOS COCHES partamento de marketing é hoje o mais
É difícil contabilizar até que ponto Decorre um passatempo poderoso na gestão destas estruturas; é
estas estratégias contribuíram para o fotográfico inspirado no edifício estratégico na economia da atenção destas
aumento dos visitantes do MNAA, que e na coleção do museu, de sexta sempre mais caras superfícies culturais
duplicaram nos últimos sete anos. Aliás, a domingo que se aumente a circulação de artistas
os museus, os monumentos e os palácios celebridades e a arte seja apresentada
tutelados pela Direção-Geral do Patrimó- PALÁCIO NACIONAL DA AJUDA como um lifestyle equivalente à música
Num horário inesperado, às dez
nio Cultural bateram recordes no ano pop.” Aliás, a Museum Hack promete
da noite de sábado, realiza-se
passado. Pela primeira vez, receberam “toneladas de selfies com obras-primas”...
uma aula de ioga em pleno
mais de cinco milhões de visitantes num palácio
Está visto que os museus já não são o que
só ano, o que representa um crescimento eram. Nem os seus visitantes. vfmaia@visao.pt

94 VISÃO 17 MAIO 2018


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CRÓNICA

T
em sido através da música que a vida me tem trazido
tudo aquilo que de melhor me tem acontecido. Não são
muitas as pessoas que se sujeitam a esta empreitada
estranha, não são muitos aqueles que entregam a sua
existência a esta tarefa bizarra. “Ninguém entende,
nessa aparência bizarra, como é que a gente se prende
às cordas duma guitarra”, conforme cantava o Carlos
P O R M I G U E L A R A Ú J O / Músico Ramos. Ninguém entende a não ser uns aos outros.
Aquele que ofereceu a sua vida a esta forma de arte tosca, popular, ligeira,
menor, maior, encontra no seu semelhante um amigo de infância, de

Tower
sempre, numa amizade que se pode rebobinar até ao dia em que um “Deus
sonso e ladrão fez das tripas a primeira liga e animou todos os sons”,
como garante o Chico Buarque. São almas que reconhecem a importância

of Song
urgente e aflitiva de munir este mundo de mais uma canção, mesmo que o
mundo não precise de mais canções, como disse o Bob Dylan há 30 anos.
Andar a bordar refrões durante o pequeno-almoço em família, emparelhar
palavras e melodias no comboio, rematar refrões durante o sono, é
uma empreitada que ocupa a existência duma pessoa de forma tirana,
permanente, exclusiva, inconsciente, inteira, numa demanda que reclama
a vida toda duma pobre alma desde que, ainda criança, se põe ali de pé,
a mendigar cá em baixo, à porta da torre da canção, na esperança de que o
Hank Williams atire de lá de cima uma côdea. “Dá-me um refrão, torre da
canção”, implora o Samuel Úria em forma de prece-canção. E a coisa mais
maravilhosa é encontrar outros. As pessoas reconhecem-se e unem-se
numa cumplicidade sincera e antiga, numa amizade de sempre. Conheci
a Mafalda Veiga há poucas semanas e é para mim um bálsamo para a alma
andar por perto, ouvir as histórias. A Planície (a miraculosa e maravilhosa
canção dos pássaros do sul) nasceu em cinco minutos, quando a sua
autora nem 20 anos tinha. A melodia dessa música é um milagre, como
é que uma coisa dessas é possível? Como é que se faz para ser tão bom?
Uma pessoa ouve uma música a tocar dentro da cabeça e tenta sacar os
acordes, como se estivesse a tentar sacar os acordes duma música do Cat
Stevens, daquelas de sempre, só que é uma música que não existia e de
repente passa a existir, é literalmente assim. O Marcelo Camelo, a falar da
canção Despedida, diz que nasceu feita, diz que veio com o princípio do
mundo. Esta vida deu-me a conhecer o João Gil, o Carlos Tê, o Rui Veloso,
os meus maestros soberanos, e eu massacro-os com perguntas e eles
falam, contam, uma pessoa nesta vida junta-se e são soldados a mostrar as
suas feridas de guerra, pessoas que confiam em mim porque sabem que eu
ando também a tentar, dizem como foi, também não sabem de onde veio,
de onde vem. “But while they search for a mate my type hibernate
In bedrooms above, composing their songs of love”, explica o Neil Hannon.
O Leonard Cohen já rastejou em cuecas na alcatifa de um motel à
procura duma palavra. O Chico Buarque fala da descida aos infernos.
O Jorge Cruz conta que sai de casa e anda dum lado para o outro sem
rumo, desesperado. O João Gil diz que um dia foi em tronco nu para a
janela e começou a cantar “Querida mãe, querido pai então que tal”,
como um louco, a gesticular. É difícil, quanto mais simples mais difícil.
Aquele que ofereceu “I said to Hank Williams, how lonely does it get?
Hank Williams hasn’t answered yet.” Mas as canções lá vão
a sua vida a esta aparecendo. “Mesmo miseráveis os poetas como eu, são bonitas, não
forma de arte tosca, importa, são bonitas as canções”, voltando ao choro bandido do Chico
Buarque. E são. Para mim, são. Tem que se ir fazendo, mesmo que não se
popular, ligeira, acredite, como se se acreditasse num fim último, em que tudo faz sentido,
menor, maior, até as canções. Uma pessoa agarra-se às palavras sábias do Daniel Faria
e segue seguindo. É o poema mais simples e mais importante do mundo:
encontra no seu
semelhante um amigo “Seja o que for
Será bom.
de infância, de sempre É tudo.” visao@visao.pt

96 VISÃO 17 MAIO 2018


O CHARME
DISCRETO DA FOZ
Roteiro pelo bairro mais nobre do Porto,
à procura das novidades, sem esquecer os lugares
de sempre – onde a tradição ainda é o que era
Pelos caminhos
da Foz
Das casas apalaçadas da Avenida
do Brasil às ruas estreitas da Foz
Velha – passeio pela zona mais
nobre do Porto, onde os lugares
da tradição se juntam com as
novidades que, também por ali,
não param de aparecer
F L O R B E L A A L V E S falves@visao.pt

LUCÍLIA MONTEIRO

Q
Quem atravesse a Rua de Gondarém, na Foz, mal caia a
noite, não dará conta de que na Padaria Formosa se prepara
a massa para a broa de milho e para as 45 variedades de pão
que hão de entrar no forno lá pelas duas ou três da manhã.
Numa das padarias mais antigas do Porto (1898), a noite é de
trabalho para os 11 padeiros que, manhã cedo, levam o pão da
Formosa a hotéis e restaurantes da cidade, e até aos barcos-
-hotel que sobem o Douro. Às sete, abrem-se as portas a
Esplanada Praia da Luz

quem queira comprar pão fresco para o pequeno-almoço.


Além de bijou, regueifa, mistura ou centeio alemão, há
também o de frutos vermelhos, espinafres, milho e girassol.
“Ou com tudo o que os clientes quiserem”, garante Rui
Freitas, gerente da padaria, na família da mulher desde 1922.
Na fila da Formosa, anónimos cruzam-se com
celebridades da Foz. Dos nomes da bola (Pepe, jogador do
Besiktas, Iker Casillas, guarda-redes do Futebol Clube do
Porto, “respetiva” Sara Carbonero, e por aí fora...) aos da
política, como Augusto Santos Silva, ministro dos Negócios
Estrangeiros. É um cenário habitual desta zona, a mais
burguesa do Porto. Muitos consideram a Foz um bairro,
“uma aldeia dentro da cidade”, dir-nos-á o escritor Richard
Zimler, que lá vive há quase 30 anos. “Para quem está

98 VISÃO 17 MAIO 2018


habituado a viver na Foz, é difícil sair daqui”, atira RICHARD
ZIMLER
a costureira Maria Celeste, que já perdeu a conta aos 62 ANOS
vestidos que fez para as meninas levarem ao baile de ESCRITOR
debutantes e as senhoras aos bailes de gala do Clube
Portuense. Maria Celeste só lamenta que as lojas antigas
tenham fechado. Na Rua Senhora da Luz, só a Morgado
resiste (fez 75 anos). “Os cabeleireiros estão por todo o lado, Conheço quase
mas nem uma boa retrosaria existe”, nota. todos os lojistas
Na Rua de Gondarém, às terças, quintas e sábados de da Foz. As pessoas
manhã, a carroça de Domingos Almeida está estacionada são supersimpáticas.
com os legumes de Negovilde. Há mais de 20 anos que
o último agricultor da Foz vende legumes por estas ruas. Costumo dizer:
Nesta semana traz cebola nova, alface, pencas, favas e não moro no Porto,
batata. O negócio “já foi melhor”, embora ainda se venda vivo numa aldeia’’

17 MAIO 2018 VISÃO 99


Na fila da Padaria Formosa, anónimos
cruzam-se com celebridades da Foz.
Dos nomes da bola (Pepe, Iker Casillas,
“respetiva” Sara Carbonero, e por aí
fora...) aos da política, como o ministro
Augusto Santos Silva

tanto “aos mais velhos como aos mais novos”, conta o sr.
Almeida, 78 anos, conhecido por aqui andar com o seu
cavalo Castelo. Agora é o novato Rafa que o acompanha, foi
trazido da Golegã por mão amiga desta figura típica da Foz.
“Está bom, sr. Almeida?”, acenam-lhe do outro lado da rua.
Pelas 11 horas, há de ir-se embora “montado no Ferrari”,
como chama à sua carroça.
Antigamente, a Foz era separada do Porto por montes
e terrenos, lugar de longas férias de verão. Atraídos pelo
mar, também aqui continuam a chegar os turistas, à boleia
do elétrico no1, com paragem no Passeio Alegre, quase em
frente à casa (fechada) de Eugénio de Andrade. Amalia
Naveira e Marie-Claude Triquet, de Lyon, confessam que
não esperavam “encontrar uma cidade tão bonita e com
este mar”, depois de terem percorrido a Avenida do Brasil.
Toda a marginal do Douro à Foz, desde a Cantareira até
ao Castelo do Queijo, é escolhida por quem gosta de fazer
caminhadas ou andar de bicicleta. Apreciando, por vezes,
a forte ondulação do mar na Barra ou parando aqui e ali,
nas muitas esplanadas, como a da Praia da Luz, onde tanto
se saboreiam ostras ao natural (€12) como se come uma
cataplana de peixes e mariscos (€35/duas pessoas) ou se
bebe um gin (a partir de €9).

AS MÍTICAS NOITES DO TWINS


Eugénio de Andrade escreveu sobre o jardim romântico do
Passeio Alegre: “Chegaram tarde à minha vida as palmeiras.
Em Marraquexe vi uma que Ulisses teria comparado a Mercearia do Mercado da Foz
Náusicaa, mas só no jardim do Passeio Alegre comecei a
amá-las. São altas como os marinheiros de Homero.” Aqui
são vários os motivos para uma visita. O coreto, as fontes,
as casas de banho com azulejos de Arte Nova e loiças
inglesas, o Chalé Suisso (1873) – o quiosque de Camilo
Castelo Branco e Ramalho Ortigão –, o minigolfe e o Lawn
Tennis Club da Foz. É ainda a zona das míticas discotecas
Twins (1974) e D. Urraca, a mais antiga do Porto (1967),
que, a par do bar Bonaparte e do Indústria, formavam a
meca notívaga da cidade. “A origem da noite do Porto foi
aqui”, lembra Álvaro Silva, filho do fundador da D. Urraca,
que agora só abre para festas privadas com jantar incluído.
“As pessoas estão a voltar às origens e gostam de reviver
um bocadinho as festas dos anos 70-80”, diz-nos, entre
cadeiras e sofás estofados, paredes revestidas a tecido, chão
de madeira e a mesma decoração de outrora com alusões
à rainha de Castela e Leão e da Galiza.
Apesar de ser uma zona nobre da cidade, com um dos
preços mais altos por metro quadrado, a Foz ainda se faz
de costumes antigos. Dos pãezinhos de leite da Mercearia
Augusto (1954), que tanto vende foie gras como queijos,
Pérgola da Foz

100 VISÃO 17 MAIO 2018


Restaurante Cafeína

R. do Padrão, 100, Porto > T. 22 610
8059 > seg-dom 12h30-18h, 19h30-
-00h30, sex-sáb até às 01h30

Casa Aberta
Cozinha portuguesa
reinventada e de partilha


R. Padre Luís Cabral, 1080, Porto
> T. 91 596 3272 > ter-qui 12h30-
-14h30, 19h30-22h30, sex-sáb
até às 23h, dom 12h30-15h

Confeitaria Tavi
Fundada em 1935, é um dos
ícones da Foz. Destaca-se pela
pastelaria cuidada e pela es-
planada com vista para o mar


R. Senhora da Luz, 363, Porto >
T. 22 618 0152 > seg-dom 8h30-20h

Mercearia Augusto

R. Passeio Alegre, 924, Porto >
T. 22 618 0301 > seg-sáb 9h-20h30,
dom 10h30-13h30, 15h-20h

Padaria Formosa

R. de Gondarém, 362, Porto >
T. 22 618 0781 > seg-sex 7h-19h,
ANABELA sáb 7h-17h, dom 8h-13h
BALDAQUE
52 ANOS
DESIGNER DE MODA
Restaurante
Pedro Lemos
Moro na Foz Velha, 
genuinamente antiga. R. Padre Luís Cabral, 974, Porto
> T. 22 011 5986 > ter-sáb 12h30-
É quase um esconderijo, -15h, 19h30-23h
um bocadinho
de campo, de mar,
de pesca, de ruralidade’’
Sabores da Herdade
É loja gourmet e garrafeira,
mas também serve petiscos
e vinhos a copo


R. da Cerca, 450, Porto > T. 22 616
1160 > seg-qui 10h30-20h, sex-sáb
10h-21h

17 MAIO 2018 VISÃO 101


Loja Piupiuchick

fiambre à fatia ou pão. Do sabor dos queques caseiros de massa fina do Peco, a comida saudável dos Frascos,
do Café Moreira, onde Eugénio de Andrade costumava os brigadeiros coloridos da Brigadão, da brasileira Luísa
almoçar, feitos por Maria Lúcia há mais de 40 anos, “com Werfel, ou o sushi da Origami.
ovos caseiros”. Ou dos croissants da Doce Mar, na Avenida Por aqui, juntam-se moradores com turistas, que
do Brasil, de onde há mais de 60 anos saem quentinhos fotografam e acham graça ao mercado antigo, mas,
duas vezes por dia (de manhã cedo e a partir das 16 horas, sobretudo, empregadas que vêm fazer as compras para
e paredes meias com a casa, ao abandono, de António encher a despensa da casa dos patrões. “Setenta por cento
Nobre). Até o velhinho Mercado da Foz – tem mais de 70 das vendas da nossa banca de peixe são feitas por elas logo
anos e servia para os agricultores escoarem os produtos de manhã”, conta a peixeira Celeste Cadilhe. Foi na banca da
– tem vindo a ser renovado pela junta de freguesia. Entre fruta que encontrámos Helena Cruz, 55 anos, que trabalha
as antigas bancas de legumes, fruta, peixe e carne, novos há mais 30 com uma família da Foz. Veio comprar laranjas
projetos também têm surgido: os cachorros gourmet do para fazer “o sumo dos meninos, os netos da senhora”.
Famous Dog, com nomes de cães célebres do cinema
(Lassie, Scooby, Snoopy, Rex), a Hamburgueria, as pizzas NEGÓCIOS À MESA DO CAFEÍNA
Muitos negócios se terão consumado à mesa do Cafeína,
um dos restaurantes mais especiais de Vasco Mourão,
nascido há 23 anos na Rua do Padrão. Da cozinha de Camilo
Jaña saem propostas tão diferentes como o carpaccio
com lascas de foie gras e queijo São Jorge DOP (€10,50),
“Vendo pratos, bebidas, mas também bacalhau gratinado com creme de cebola assada e migas de
ambiente, decoração, atmosfera. broa (€19) – adaptação do prato que chegou a chamar-se
É a mesma coisa que pôr sal na comida”, bacalhau à Dilma, depois de, em 2012, a antiga Presidente
do Brasil ter feito escala no Porto, a caminho da Alemanha,
explicou-nos Vasco Mourão, só para o provar – ou o magret de pato com molho de vinho
o empresário que pôs a Foz do Porto e cuscus de cogumelos (€18,50). “Vendo pratos,
no mapa da restauração de luxo bebidas, mas também ambiente, decoração, atmosfera. É

102 VISÃO 17 MAIO 2018


Anabela Baldaque

R. Padre Luís Cabral, 1075, Porto
> T. 93 405 6264 > ter-sáb
11h-13h30, 14h30-19h

Hip Hop Hooray


Decoração para festas
com diferentes temáticas.
Padaria Formosa

R. Senhora da Luz, 79, Porto
> T. 22 017 8667 > seg 14h30-
-19h30, ter-sex 10h30-19h30,
sáb 10h30-13h30, 15h-19h

Patuska
Marca portuguesa de roupa
para criança até aos dez anos.


R. Senhora da Luz, 204, Porto
> T. 96 179 0106 > seg-sáb 10h30-
-13h30, 15h-19h30

Piupiuchick

R. de Diu, 222, Porto
> T. 22 610 3026 > seg-sex 10h30-
-19h, sáb 10h30-13h30

Loja The – Design & Moda


Rhino Home Store
Decoração e acessórios
a mesma coisa que pôr sal na comida”, explicou-nos, um R I C A R D O T R Ê PA para a casa
dia, Vasco Mourão, o empresário que pôs a Foz no mapa da 45 ANOS
AT O R
restauração de luxo. Além do Cafeína, tem o Terra, a Casa

Vasco e o Portarossa. Já nas ruas estreitas da Foz Velha, R. do Padrão, 99 > T. 22 616 8021 >
é Pedro Lemos quem brilha. O chefe distinguido com uma seg-sáb 10h30-13h30, 14h30-19h30
Estrela Michelin aumentou a fasquia do seu restaurante, que Vivi na Foz
leva o seu nome e que está aberto há oito anos (dois menus
de degustação, €110 e €130 por pessoa).
até aos 35
anos. Lembra-
THE – Design & Moda
Na Foz, também as lojas são especiais. É o caso da
The - Design & Moda que se mudou, em 2016, para a -me a minha 
Av. Brasil, 446, Porto > T. 93 651
vistosa Avenida do Brasil e aposta “em peças únicas com infância: 9324 > seg-sáb 10h-19h30
intemporalidade e conforto”, resume Teresa Pimentel, brincava na
uma das sócias. As peças de Moyuru, Simona Tagliaferri
ou Issey Miyake não serão para todas as bolsas, já que
rua, andava Bonaparte Foz
podemos chegar aos 1800 euros. Por aqui, as lojas de roupa de bicicleta, Pub com mais de 30 anos,
de criança de marca própria também se multiplicam. jogava ao pião’’ cheio de antiguidades
Muitas começaram online e foram aparecendo, quase por
brincadeira. Por exemplo, a Piupiuchick, das irmãs Mariana 
Av. do Brasil, 130, Porto > T. 22 618
e Inês Pimentel que, com a prima Marta Moreira, abriram 8404 > seg-qui, dom 17-02h, sex-
a loja na Rua de Diu. Nascidas e criadas na Foz, desenham -sáb 17h-03h
coleções para bebés e crianças até 14 anos. A deste verão

D. Urraca
tem alusões a David Bowie e ao rock “escutado pelos pais
nos anos 80”. A Foz, contam, “é um bairrinho”, onde os
filhos ainda se divertem nas ruas e andam, de casa em casa, 
a brincar com os amigos. E onde ainda se ouve (os mais R. Padre Luís Cabral, 1086, Porto
velhos, claro) dizer: “Vou ao Porto.” > T. 91 537 8322

17 MAIO 2018 VISÃO 103


Manifesto
O QUE ANDAMOS A GOSTAR (OU NEM POR ISSO) DE DESCOBRIR POR AÍ

S U S A N A L O P E S F A U S T I N O slopes@visao.pt

> muitíssimo bom > bom


O REGRESSO ARCOLISBOA
DE VINCENT FARGES A Cordoaria Nacional recebe a 3ª
edição da Feira Internacional de Arte
Contemporânea, Contemporânea de Lisboa a partir
de quinta, 17, até domingo, 20. Estão
autêntica e sem nada representadas 72 galerias, 28 das
de supérfluo, assim quais portuguesas, e há um programa
especial em colaboração com mu-
é a alta cozinha do Epur, seus e instituições de todo o País

o novo restaurante
do chefe francês > bonzinho
Vincent Farges.
Fica no Largo da RALLY NO CENTRO DO PORTO
Academia das Belas- Entre quinta, 17, e domingo, 20, dispu-
ta-se o Rally de Portugal, entre Guima-
-Artes, no Chiado, rães e Fafe. Na sexta, 18, o percurso
passa pelo Porto e pode ser acompa-
e tem uma das nhado no hotel Palácio das Cardosas,
melhores vistas com bar aberto e buffet (€150)

sobre Lisboa
> assim-assim
NATUREZA AUMENTADA
Viajar até ao Jurássico, mergulhar no
Ártico e conhecer animais selvagens
é a proposta de Natureza Aumenta-
da, espetáculo interativo e imersivo,
grátis, que acontece até domingo,
20, na praça central do Amoreiras
Shopping Center, em Lisboa

> para esquecer


DEVAGAR, DEVAGARINHO
Por questões de segurança, os com-
boios Alfa Pendular e Intercidades vão
andar mais devagar nas viagens entre
Santa Apolónia e Campanhã. O mau
estado dos caminhos de ferro por-
tugueses provoca atrasos e faz-nos
sonhar com o comboio-bala japonês

104 VISÃO 17 MAIO 2018


“Apesar de ter
uma nuvem suspensa
sobre a minha cabeça,
percebi que estava
a apreciar a vida”
Stephen Hawking

Apenas

4,99€

Na autobiografia de Stephen Hawking, à venda com a VISÃO, CARAS


e TVmais, o cientista revela facetas desconhecidas da sua vida.
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CO MER E BEBER

São Gabriel Almancil


Do Lab para a mesa, sempre com olho no mar
Os jantares que começam com um pirolito no mar e terminam num chupa de marmelada de rosas
só podem ter um entretanto surpreendente. É isso, e muito mais, o novo menu de Leonel Pereira

No campeonato São Gabriel, estamos máquina destiladora a baixa temperatura,


Leonel Perei- na primeira divisão. E, como tal, e até já aplicou essa técnica à caldeirada.
ra faz notar um menu degustação não se faz para “Fica com uma concentração única de sabor.”
que no São
fraquinhos. Há que contar com um Larguemos o ambiente laboratorial, que pode
Gabriel não
bom par de horas à mesa, para apreciar tornar-se bolorento (na melhor aceção da palavra),
servem gela-
dos, porque
e dar vazão à dúzia de iguarias que o para ascendermos à sala de jantar.
se cansou chefe Leonel Pereira demorou muito mais do que Já sabemos que o ADN do chefe é o mar e,
deles. “Faço isso a idealizar. Algumas delas terão nascido na por isso, não estranhamos quando nos manda
cremes que sua “garagem de criação”, mas chamemos-lhe começar a refeição com uma dose de plâncton
ligam, com Lab, porque espelha melhor o que se passa lá – um crocante verde que corresponde exatamente
leite, e por dentro. O laboratório pode estar na cave, ser a um pirolito de água salgada. No centro da mesa,
ebulição. pequeno e não ter janelas – era onde antes se em vasos, há folhas de “pão” de alga esverdeadas.
Não uso esta- guardavam os cerca de dois mil vinhos que agora “Os catos não se comem”, avisam-nos, ufa!
bilizantes ou se acomodam na garrafeira envidraçada à entrada – já estávamos preparados para o fazer. Podíamos
espessantes”, do restaurante –, mas se há coisa que circula por continuar a prosa, referindo os tipos de pão e de
garante. lá são ideias e experiências gastronómicas manteigas que alegram qualquer refeição, mas isso
Sabem explosivas, que depois acabam na mesa, quase seria perder espaço precioso para momentos mais
mesmo bem, disfarçadas, em pratos que misturam xarém originais. Como a estrela-do-mar crocante que
garantimos com carabineiro e alga tetraselmis (ainda em fase traz no seu dorso um pedaço de lagostim, para ser
nós. de investigação na Universidade do Algarve). comido com pinças antes de se acabar o serviço
Além da parceria com os académicos de Ciências com as mãos. Para apreciar a vieira norueguesa
do Mar, o chefe anda encantado com a sua que se segue, há que procurá-la dentro do sal

106 VISÃO 17 MAIO 2018


Biferia Vila do Conde
No ponto
À carne maturada e aos cortes premium da nova carta,
o chefe Gonçalo Guedes junta o T-Bone e a “posta japonesa”

A Biferia, o restaurante que abriu, há pouco mais


de um ano, em Vila do Conde, ocupa um edifício
histórico, de 1700, junto à igreja matriz.
Numa homenagem à ligação da cidade aos
pescadores, a sala é de madeira e com
pormenores de corda, mas o que chega ao prato
está longe de vir do mar. A carne (com maturação de 30 a
60 dias) é de cortes premium (€58/kg), como o Tomahawk
e o Chuleton, apenas temperados com flor de sal e
cozinhados na brasa. “Não é preciso mais nada”, garante
Pedro Maia, o proprietário. A estas opções o chefe Gonçalo
Guedes juntou o T-Bone (de um lado é filet mignon e do
outro vazio) e a “posta japonesa”, uma carne descansada
(menos de 30 dias de maturação) adocicada e extremamente
tenra, como descreve Pedro.
D.R.

Quem gosta de carne maturada não vai estranhar a


chegada à mesa do Tomahawk com cerca de dois quilos,
servindo-se apenas o rib eye ou o centro do vazio. É prato
em que se cozinhou, desembrulhar a alga que a para deixar oito comensais satisfeitos. Para acompanhar,
protege de ficar salgada e, depois, parti-la ao meio é preciso escolher entre arroz caldoso, linguini de legumes
para ser degustada, ora com molho emulsionado e batata ao sal. Nas entradas, sugere-se o carpaccio com
de rábano ora com alface-do-mar e caviar. rúcula, parmesão, alcaparras e trufa branca (€8) ou ovos
“Podíamos fazer tudo na cozinha, mas as pessoas rotos (€3,50) e, nas sobremesas, a tatin de pera com gelado
gostam de trabalhar um pouco o produto”, de iogurte artesanal ou chocolate com frutos vermelhos
defende Leonel Pereira. Aquilo que vem anunciado (€4 a €5). Na carta de vinhos há cerca de 50 referências,
no menu como canja de amêijoas e ostra da ria cinco a copo (€2,50 a €4). Ao almoço, o menu executivo
Formosa está acomodado numa taça de cerâmica inclui entrada, bife, bebida e café (€9,50). Também existem
lindíssima, e começa a revelar-se imediatamente opções vegan ou vegetarianas, como os bifes de atum
pelo aroma: um creme de bivalves em Bulhão Pato e tofu – claro. S.S.O
com uma ostra lá mergulhada. Voltamos a precisar
das mãos para chupar a cabeça do tal carabineiro
que leva alga tetraselmis – apesar da molhanga
do mar que se espalha, apreciamos bastante
a experiência.
Os vinhos apresentam-se como desafios,
propostos por Victor d'Avó, sendo o mais
impressionante um branco velho da Bairrada,
de 1994, servido em copo-túlipa, para abrir
lentamente. Se estivéssemos de olhos fechados,
juraríamos que era um tinto, assim como,
quando comemos porco-bísaro com feijão-
-preto, laranja e cogumelos, ele nos sabe a
presunto pata negra. Se há coisas que não
resistem a este campeonato de primeira divisão,
LUCÍLIA MONTEIRO

essas são as certezas e as ideias feitas à mesa.


Luísa Oliveira

 
Estr. de Vale do Lobo > T. 289 394 521 > ter-sáb 19h-22h30, R. da Igreja, 12, Vila do Conde > T. 252 081 795 > seg-qui 12h-15h, 19h-23h,
dom 12h30-14h30 > menu degustação €120 sex-dom 12h-15h, 19h-24h

17 MAIO 2018 VISÃO 107


COMER E B E B E R

Toca da Formiga Ermesinde


Comida nortenha tal qual ela é
POR
MANUEL
O conforto da cozinha portuguesa feita com produtos do dia
G O N ÇA LV E S e com o esmero de quem a conhece e a defende
D A S I LVA

comer&beber@visao.pt

D.R.
Nos pratos Daqui a três semanas, a 11 de junho, Serra, alheiras de fabrico caseiro, saladinhas de
principais, para ser rigoroso, o restaurante Toca da polvo e de caça, entre outras. O capítulo principal
destaque para Formiga, em Ermesinde, comemora 35 tem alguns destaques: peixe fresco, seja na
o peixe fresco, anos de atividade a servir os melhores caçarola com uma base simples de azeite, cebola e
seja na caçarola pratos da cozinha nortenha, tomate com o tempero certo e a cozedura correta,
com uma base confecionados com mestria por seja no arroz caldoso, em regra de robalo ou de
simples de Arnaldo Azevedo (cujo filho, a quem passou garoupa, com sabores delicados; polvo laminado,
azeite, cebola o nome e o talento, faz no mesmo dia 33 anos, que é cozido e depois volta ao fogão, desta vez
e tomate com sendo um dos mais conceituados chefes de à frigideira com azeite, alho e orégãos para, além
o tempero certo
cozinha portugueses da nova geração, agora da cor e do sabor, ganhar a textura macia que
e a cozedura
à frente do restaurante Palco, no Porto). No Lugar o torna aliciante; arroz de entrecosto em vinha-
correta, seja no
arroz caldoso,
da Formiga, ponto mais elevado da freguesia -d’alhos, porventura o ex-líbris da casa, húmido,
em regra de de Ermesinde, concelho de Valongo, a Toca da mas consistente, com a carne macia e o sabor
robalo ou Formiga é a casa do mestre Arnaldo Azevedo, com intenso que denota a influência da marinada;
de garoupa, a sua cozinha genuinamente portuguesa, alheia a bochechas de porco preto em vinho tinto que
com sabores modas ou a conveniências. Tem uma sala se desfazem na boca. E, ainda, a testemunhar a
delicados acolhedora com balcão a separá-la da cozinha, qualidade dos produtos, naco de boi com queijo
atoalhados de algodão, decoração singela e da Serra e lombo de boi na frigideira, ambos
ambiente tranquilo a convidar para refeições tenros e suculentos. Tudo simples, natural e bom,
de negócios ou em família. como é próprio da cozinha portuguesa autêntica.
A ementa muda diariamente, de acordo com Doçaria igualmente apelativa, como evidenciam
o mercado, porque se baseia em produtos frescos o pudim Abade de Priscos e o doce de chila, por
da região e da época. Para entrada, há propostas exemplo. Garrafeira selecionada com critério,
apelativas: enchidos de Montalegre, queijo da vendo-se algumas raridades. Serviço simpático.


R. de Chãos, 516, Formiga, Ermesinde > T. 229 747 485 > seg-sex 12h-15h, encerra feriados > €20

108 VISÃO 17 MAIO 2018


O Tarro Odemira Adega Mayor Seleção
Branco 2016
Quem conhece Odemira De uvas das
certamente sabe que castas Verdelho,
O Tarro é uma referência Antão Vaz e Arinto,
gastronómica da vila tem cor citrina,
e da região. Junto do rio, aroma floral e
o restaurante tem um longo frutado, com notas
historial que remonta também citrinas.
ao final da década Paladar fresco
60 do século passado e com apontamen-
que assenta na gastronomia tos tropicais, final
regional alentejana, suave. Beber só

Adega Mayor Alentejo


incluindo receitas de família ou a acompanhar
do seu proprietário. aperitivos e pratos
Orgulha-se de ser a casa leves. €8,99
de comidas e bebidas

Paixão, diz ele


mais antiga da região, mas
nem por isso deixa de ter Reserva do Comen-
instalações modernas e
confortáveis com três salas dador Branco 2016
e esplanada. Depois do café, que lhe deu notoriedade a vários Castas brancas
Na ementa, que é extensa, Antão Vaz, Verde-
facilmente se descobrem títulos, Rui Nabeiro pensou no vinho e numa adega lho e Viognier num
coisas conhecidas com o traço de Siza Vieira, para que tudo fosse arte vinho de cor citrina,
e apetecíveis, como aroma intenso
as empadas de galinha, com notas de fruta
as amêijoas à Bulhão Pato, Uma visita à Adega Mayor leva-nos por madura e alguma
os queijos (de ovelha e de caminhos compridos, Alentejo fora, a baunilha (da barri-
cabra) e outros petiscos descobrir horizontes tão vastos como belos, ca). Paladar fresco,
para entrada. E sopas, até ao lugar onde o empresário Rui Nabeiro final elegante.
as boas sopas do Alentejo, concretizou o seu último (até agora…) grande €17,45
sendo especialmente
projeto com a vinha – a casa que está no meio
recomendadas a açorda
dela e os vinhos. Tudo obras de arte: a vinha no topo da
à alentejana e a sopa de
paisagem do montado de azinho, olival e campos de
Adega Mayor Touriga
cação com vinagre. Há ainda
alguns pratos emblemáticos, cultivo, com a serra de Portalegre e as terras de Espanha Nacional Tinto 2015
como o borrego à Tarro, que também à vista; a casa desenhada a branco por Siza Da gama Adega
é um ensopado a rescender Vieira, para não perturbar a harmonia daquele quadro Mayor Monocasta,
a hortelã com o molho bucólico a que acrescenta, digamos, um ponto de luz; e tem cor rubi pro-
derramado sobre o pão, os vinhos, cujo carácter é moldado pelo solo granítico e funda, aroma com-
com a carne acompanhada pelo clima temperado e pela influência benéfica da serra plexo com notas de
pelas batatas cozidas, ou de Portalegre. frutos pretos e um
as amêijoas à alentejana, “São as paixões que nos movem, quando criamos”, toque floral a vio-
em versão rica da carne afirma Rui Nabeiro, a quem foi outorgado o título leta. Paladar com
de porco à alentejana com distintivo de comendador por ter deixado levar-se volume e frescura,
predomínio dos bivalves. Os por elas ao ponto de criar coisas admiráveis, como e final longo. Pede
diferentes bifes de vaca, com a Adega Mayor, que o fazem confessar: “Nascidos em pratos condimenta-
carne de produção própria Campo Maior e inspirados pelo mundo, em cada vinho dos. €13,90
da raça Limousine, também engarrafamos parte de nós. Dentro de cada garrafa
merecem atenção, tal como guardamos o respeito pelo que a terra nos oferece.
o peixe fresco da costa. Renovamos a tradição do vinho alentejano ao atribuir Grande Reserva Pai
Doçaria tradicional, segundo
receitas de família, como
uma nova perspetiva de atenção aos pormenores e à sua Chão Tinto 2014
dimensão estética, criando vinhos que satisfazem os
o pudim alentejano Das castas Ali-
sentidos. Mostramos mais do que os olhos veem,
(amêndoa e gila) e o pudim cante Bouschet e
as mãos tocam, o nariz sente, a boca prova e os ouvidos Touriga Nacional,
de mel. Garrafeira alentejana
com um branco e um tinto a
interpretam.” tem cor granada,
copo. Serviço profissional. Não fomos ao Alentejo, desta vez, porque veio a Adega aroma com notas
Mayor ao VISÃO Fest, na terceira etapa da “viagem a de frutos pretos
Portugal através do vinho”, e foi excelente, graças à prova e de especiarias.

Estr. da Circunvalação, Odemira dos vinhos abaixo descritos e aos ensinamentos do Paladar encorpado,
> T. 283 322 161 > seg-dom 12h-23h enólogo Carlos Rodrigues. Porém, Campo Maior ficou boa acidez e final
(junho a setembro 12h-24h) > €18 no horizonte para a próxima viagem. com grande persis-
tência. €39,90

17 MAIO 2018 VISÃO 109


COMER E B E B E R

Loco Lisboa
Queijos para não esquecer
A irreverência do restaurante do chefe Alexandre Silva revela-se agora, igualmente, nos queijos artesanais
ali produzidos. Uma aventura – também para o palato

D.R.
A Ciência há muito desfez hesitações. “A parte mais difícil de ser O chefe do Loco arrisca dizer que será
o mito de que o queijo criativo é, a dado momento, ter a “o rebanho mais ocidental da Europa
prejudica a memória, mas capacidade de travar essa criatividade”, continental”. Entre o leite de vaca e o
o chefe Alexandre Silva sublinha Alexandre Silva. Mas houve de cabra que foram buscar a Alcobaça
e o subchefe Ricardo Leite criatividade q.b. para fazer justiça ao e o de ovelha trazido de Sesimbra,
decidiram eliminar arrojo deste restaurante premiado percorreram mais de 400 quilómetros.
quaisquer dúvidas e tentar criar com uma estrela Michelin. Há queijo A aventura continuou, a seguir, no
queijos verdadeiramente inesquecíveis. parmesão de cabra encerado com cera I+D, uma espécie de laboratório de
A aventura começou há sete meses, de abelha, queijo de ovelha curado cozinha contíguo ao restaurante, onde
motivada pelos clientes do restaurante em folhas de figueira e aguardente, Ricardo Leite passou horas infindas
Loco que, no final do jantar, lhes e queijo azul também de ovelha. a aperfeiçoar os queijos. O parmesão
perguntavam se havia queijo. “Não A busca pelos melhores de vaca, por exemplo, precisa de ser
podíamos correr o risco de comprar fornecedores de leite obrigou-os amassado, durante mais de uma hora,
os queijos e, depois, as pessoas a fazerem-se à estrada. “Chegámos enquanto a temperatura sobe dos 32oC
dizerem que tinha sido a melhor parte a percorrer dezenas de quilómetros até aos 51oC. As suas mãos acabaram
da refeição”, brinca Alexandre Silva, para ir buscar cinco litros de leite “bem quentinhas”… Habituou-se a ter
sentado numa das mesas do Loco. de cabra, que não chegam nem para a cabeça cheia de fórmulas matemáticas
A ideia inicial era fazer um único fazer meio quilo de queijo”, recorda que revelam a quantidade exata de
queijo, mas os chefes entusiasmaram- Alexandre Silva, com um entusiasmo coalho ou fermento necessária para
-se e já criaram… onze. A teoria, surpreendente. O leite utilizado cada queijo. “Houve dias muito longos
sabiam-na bem, mas só no terreno nos queijos de ovelha é de animais e continuo a vir ao restaurante mesmo
começaram a dominar o processo de que pastam em campos de cevada quando estou de folga”, conta
fabrico e a experimentar sem fresca, junto ao cabo Espichel. o subchefe. “Alguns queijos precisam

110 VISÃO 17 MAIO 2018


de ser virados todos os dias”,
acrescenta. A estes cuidados junta-
-se a preocupação com o desperdício
alimentar – o que não é utilizado nos
queijos é aproveitado para fazer um
requeijão exclusivo do restaurante.
Ricardo Leite confessa que só
a total confiança nos produtos DELÍCIA NINHO COMBINAÇÕES
desenvolvidos lhe amaina a ansiedade BOLORENTA DE SABORES INESPERADAS
até conhecer as reações dos convivas Esta espécie de Há dois meses que Uma das criações
do Loco. Alguns queijos já fazem parte Stilton, um queijo este queijo de ovelha mais originais dos
da ementa, outros só estarão prontos azul originário de descansa num ninho chefes Alexandre
daqui a um ano. Os próximos desafios Inglaterra, é feita de feno de camomila Silva e Ricardo
são os queijos brie e camembert. exclusivamente com embebido em Leite é um queijo de
Afinal, a criatividade está longe leite de ovelha. aguardente. ovelha curado em
O gado pasta junto O subchefe do folhas de figueira
de se esgotar. Alexandre Silva não
ao cabo Espichel, Loco, Ricardo Leite, e aguardente.
tem dúvidas de que esta aventura é
em Sesimbra, e não duvida de que O resultado será
“tremendamente arriscada”. Contudo... será o rebanho mais o resultado será semelhante a um
“nem o melhor mestre queijeiro faria ocidental da Europa surpreendente queijo Serra da
melhor do que nós porque não saberia continental. e sublinha o Estrela, mas
nada sobre estes queijos. Eles são Tem um sabor contributo com sabores mais
muito nossos”. Muito “locos”, dizemos mais forte do que o da qualidade do originais
nós. Vânia Maia tradicional Stilton, leite, vindo de
feito com leite de animais que pastam
vaca ao ar livre

R. dos Navegantes, 53B, Lisboa
> T. 21 395 1861 > ter-sáb 19h-23h
> €96 ou €126 (com queijos)

17 MAIO 2018 VISÃO 111


SAIR PORTO INSÓLITO
G E R M A N O S I LVA

O dragão
no escudo
da cidade
Em 1833, em pleno Cerco
do Porto, D. Pedro IV – para
demonstrar o afeto que
nutria pela cidade, onde
estava cercado pelas
tropas miguelistas, e como
reconhecimento pela adesão
dos portuenses à causa
da rainha D. Maria II, pela
qual lutava – ordenou que
ao segundo filho ou filha
dos reis de Portugal fosse
dado o título de duque ou

D.R.
duquesa do Porto. Quatro

Quiosque Oitava Colina Lisboa


anos depois (1837), a
própria rainha D. Maria II
confirmou a decisão do pai
e ordenou que no escudo

À pressão da cidade se colocasse a


coroa ducal e, como timbre,
“o dragão negro, símbolo
das antigas armas dos reis
Neste novo quiosque, na Graça, bebem-se cervejas de Portugal…” Foi desta
maneira que o dragão
artesanais portuguesas, acompanhadas por queijos apareceu nas armas da
e enchidos cidade do Porto. Em reunião
de 19 de janeiro de 1922, a
Câmara Municipal autorizou
Ao passar no renovado Largo da Graça, em o Futebol Clube do Porto
Na lista con- Lisboa, ao lado da casinha de madeira que vende
ta-se mais de flores, é impossível não parar para beber uma
uma dezena
cerveja artesanal na esplanada da Oitava Colina,
de cervejas
inaugurada oficialmente a 25 de abril. Este
da Oitava Co-
lina, fabricada
antigo quiosque da Carris, construído em 1928,
na Graça, em que começou por servir de espaço de descanso para o
Lisboa. Os controlador de tráfego e posteriormente para venda de
preços come- bilhetes e passes, é agora a casa da Urraca e da Zé Arnaldo,
çam nos 2 e duas das mais conhecidas cervejas artesanais desta marca
podem ir até lisboeta fundada em 2014, cada uma com a sua história e a
a usar as armas da cidade
aos 4 euros. sua personalidade. Se a Urraca é uma India Pale, de sabor
“na sua bandeira e no seu
amargo, rica em maltes e aromas cítricos, já a Zé Arnaldo distintivo administrativo”.
define-se como uma Robust Porter, de cor escura, cremosa Em 1940, o chamado Estado
e com espuma densa. Ali, à pressão, existem cinco Novo alterou o simbolismo
variedades, “sempre com sabores diferentes a rodar, do brasão da cidade do
costumamos dizer que é o maior número de torneiras Porto. A coroa ducal foi
de cerveja por metro quadrado do mundo”, brinca Pedro substituída por uma coroa
Romão, um dos responsáveis da Oitava Colina. Para lá mural de cinco torres e o
destas variedades, são servidas as restantes cervejas desta dragão foi eliminado. Mas
marca lisboeta, como a Florinda, de cor dourada, tipo lager o Futebol Clube do Porto
e mais fácil de beber. Para comer, destacam-se a tosta manteve intacto o emblema
de frango com framboesa (€6) e as tábuas de queijos antigo, com a coroa ducal
e de enchidos (€5,50), boas companhias para esta bebida e o dragão. E esta acabou
fabricada ali bem perto. S.P. por se tornar, para regozijo
dos portistas, o verdadeiro
símbolo do clube, como tem
 sido evidente nos últimos
Lg. da Graça, Lisboa > T. 96 397 2091 > ter 12h-20h, qua 15h-21h, dias.
qui 15h-22h, sex 15h-24h, sáb 12h-24h, dom 12h-22h

112 VISÃO 17 MAIO 2018


Mercado de Ofícios do Bairro Alto Lisboa
Aprender com os melhores
Mestres e artífices da Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva e da Casa Maciel vão mostrar
e ensinar a trabalhar artes tradicionais portuguesas como douramento, talha e passamanaria

MARCOS BORGA

Foi a teimosia em não deixar morrer da responsabilidade da FRESS a programação Rui Gamito
um legado de sete gerações que levou dos cursos e oficinas (6, 12 ou 30 horas) que é um apaixonado
a Casa Maciel a aceitar o convite da aqui vão decorrer às terças, quintas e sábados, pelas lanternas
Câmara Municipal de Lisboa para e nos quais qualquer pessoa poderá participar: de latão que
fazer parte do Mercado de Ofícios do passamanaria, tecelagem, douramento, gravação aprendeu
Bairro Alto. “Achei maravilhosa e decoração de pele, embutidos, talha e cerâmica. a fazer. Ao lado
a ideia de se transformar um antigo mercado As segundas e sextas-feiras são open days, em da mulher,
de Lisboa num lugar dedicado à promoção que é permitida a utilização livre e gratuita das Margarida
e à transmissão deste saber-fazer tradicional, de máquinas, da serra elétrica à mufla. “As pessoas Pargana
Gamito, o casal
artes que são muito portuguesas, como a latoaria, inscrevem-se referindo o que querem fazer,
representa
a que nos dedicamos desde 1798”, diz Margarida sempre com supervisão. Podem até vir fazer
a sétima
Pargana Gamito, a sétima geração da empresa. o empalhamento de uma cadeira, nós teremos cá geração da Casa
A sala ocupada pela Casa Maciel serve, por agora, alguém da FRESS para ajudar. A formação é feita Maciel
de oficina mas em breve será também uma escola com o apoio dos mestres e artífices da fundação,
de latoaria, acompanhando assim a nova função assim como de alunos nossos, certificados, uma
de promoção e divulgação das artes tradicionais, forma de os incluir no mercado de trabalho”, diz
do renovado Mercado do Bairro Alto. Conceição Amaral, administradora-executiva da
“Era impossível não nos associarmos a este instituição. Embora o edifício do mercado seja
projeto tão importante para a preservação de pequeno, haverá ainda tempo e espaço para
ofícios tão portugueses”, explica Pedro Santana o ocupar com conversas, conferências e exibição
Lopes, presidente da Fundação Ricardo do de filmes, sempre à quarta-feira, de 15 em 15
Espírito Santo Silva (FRESS), outra das entidades dias, entre as 18h e as 20h, e com entrada livre.
envolvidas na dinamização do mercado. É, aliás, Susana Lopes Faustino


Tv. da Boa-Hora, Lisboa > T. 21 881 4600, fress.moba@gmail.com / fress.moba@fress.pt > ter, qui e sáb: oficinas criativas;
seg-sex: open days > a partir de €10 (oficinas)

17 MAIO 2018 VISÃO 113


SA IR 7 FA C T OS S OB RE ...

Indo eu, indo eu, pelas ruas de Viseu J O A N A L O U R E I R O jloureiro@visao.pt

O festival de arte urbana Tons da Primavera regressa nesta quinta, 17, convidando o público a redescobrir a cidade
e as freguesias rurais. Até domingo, 20, haverá música, passeios, provas de vinho e animação a colorir as ruas

1. 3. 5. 6. 7.
Arte Urbana Concertos Vinhos Conhecer Produtos locais
Viseu ganhará 11 Pelo Mercado 2 de Maio e petiscos o ofício As empresas locais
intervenções artísticas passa, nesta quinta, 17, O festival terá, no O contacto dos também foram
(a juntar às 28 a dupla viseense Gallo Mercado 2 de Maio, artistas com o convidadas
existentes), assinadas Cant’Às Duas, uma zona dedicada aos público é promovido a apresentarem
por artistas locais com a sua música vinhos do Dão, o Entre por Tons da os seus produtos,
(Ana Seia de Matos, exótica e psicadélica. Aduelas, que contará Primavera em no Mercado 2 de Maio.
Ergo Bandits, Juliana Nas restantes noites, com a presença de conversas sobre A Amor Luso,
Ferreira e Carlos soarão vozes femininas, enólogos e produtores arte urbana e ainda com uma linha de
Sousa), nacionais com muita atitude: Da da região. Além de em workshops cosmética e de
(DRAW & Contra, Chick, na sexta, 18, e um wine bar com para todas as aromas para o lar,
Godmess, Glam, Capicua, no sábado, 19. cocktails e vinhos a idades, conduzidos ensinará alguns
Halfstudio, Nuno Ambos os concertos copo, ali vão decorrer pelos artistas, segredos numa oficina,
Pimenta e Nuno Palha estão marcados para workshops e provas nomeadamente assim como a Sortido
AKA Third) e pelo as 22h, na Fonte das (ao final da tarde). Foi DRAW (o curador Flash, conhecida
argentino Eduardo 3 Bicas. Os fins de também criada uma do festival) e pelas almofadas
Relero, autor de uma tarde e as noites praça de alimentação Godmess, com com enchimento
pintura 3D numa das contarão também com com “comida de rua”, estilos e técnicas de grão de trigo.
portas da Feira de DJ sets de Fernando onde não faltará uma muito distintos. O Centropontoarte,
São Mateus. As obras Alvim e Ary Rock, entre esplanada. um atelier de artes
estão espalhadas pelo outros. gráficas, terá uma
centro da cidade e oficina de gravura para
por cinco freguesias
das redondezas 4. crianças.

(Abraveses, Bodiosa, À prova


Santo-Êvos, Mundão de crianças
e Calde), e haverá O programa não
passeios de jipe, esqueceu os miúdos.
comboio, bicicleta No Espaço Dão Petiz
e tuk-tuk para irão realizar-se várias
conhecer o roteiro. oficinas: de criação em
papel, de construção
de marionetas com
2. material reciclado
Mural de azulejo e de pinturas com
A memória popular aguarelas. No sábado,
e a etnografia são os 19, às 15h, decorrerá
temas desta edição o espetáculo infantil
do festival, no ano em Quiquiriqui.
que Viseu é Cidade
Europeia do Folclore.
Caberá à dupla
portuense DRAW
& Contra a criação de
um mural de azulejo,
com mais de 1 100
peças, junto ao edifício
da PSP, numa parceria
com o Centro de Artes
e Ofícios de Ovar.
RUI DA CRUZ

San Pietro, de Basik

114 VISÃO 17 MAIO 2018


COMPRA R

LUCÍLIA MONTEIRO
Garagem Central Porto
A toda a velocidade
Uma antiga estação de serviço transformada em oficina de motos, que é também loja,
cabeleireiro, estúdio de tatuagens e café

Além de fes- Ninguém sai da Garagem Central antes experiente”, reforça João Riem. Segue-se a loja,
tas e festivais, de partilhar uma boa história de no mesmo piso, onde há roupa da marca
a Garagem velocidade e “borboletas na barriga”. australiana Deus Ex Machina, com um estilo
Central orga- Instalada em mil metros quadrados de surfista e de aventura, e as botas feitas à mão da
niza ativida- uma antiga estação de serviço de 1930, americana Red Wing Shoes. Ao lado, numa espécie
des ligadas esta concept store é uma ideia de de aquário, encontra-se a oficina de reparação.
ao universo Raquel e João Riem, que acaba de abrir no Porto. “Queremos crescer de uma forma orgânica para
motard, como A montra, pintada por Hugo Moura, dá as isto ir carburando devagarinho”, continua João.
passeios primeiras pistas sobre o que vamos encontrar ao Subindo ao primeiro andar, há fios, tubos,
de moto, entrar. Há uma oficina, com stand exclusivo da ferro e traves de madeira escura à vista, além de
conversas, italiana Morini – sim, essa mesma de motos feitas claraboias no teto, a deixar entrar a luz natural.
apresenta- à mão –, mas também se pode compor o guarda- Apesar da renovação, o edifício mantém o
ções, cursos -roupa, cortar o cabelo ou fazer uma tatuagem. carácter industrial e ganhou uma mezzanine,
e exposições. E nada é um exclusivo masculino, claro. “As motos onde fica o cabeleireiro Carlos Gago, o estúdio
são a base, mas não somos um stand, agregamos de tatuagem da Fruta da Época, uma sala
várias filosofias”, diz João Riem, consultor de reuniões e um open space multiusos com
imobiliário e apaixonado pelas duas rodas. flippers recuperadas. Em breve, vai abrir também
Depois de um ano de renovação, Raquel e João um café. A completar o cenário, as cadeiras dos
criaram “uma experiência” que envolve mais de 20 anos 50 ou recuperadas de uma escola primária,
marcas em paralelo. A começar pela Morini, cujo as mesas de uma velha tipografia e o balcão de
modelo básico tem 1200 centímetros cúbicos e uma antiga loja dos CTT. É uma garagem para
pode custar mais de dez mil euros. “É uma peça de agitar a cidade, com mais ou menos adrenalina.
gama alta e tecnologia avançada, para um motard Susana Silva Oliveira


R. da Alegria, 1023, Porto > T. 22 316 9611 > ter-sáb 10h-13h, 14h-19h

17 MAIO 2018 VISÃO 115


VE R

Sam Smith Lisboa


Um único disco
bastou para que
o cantor britânico
atingisse o estatuto de
quase superestrela.
Canções pop de uma
perfeição intemporal,
como Like I Can e Stay
With Me, valeram-lhe,

D.R.
há três anos, quatro

Porto Blues Fest Porto


Grammys. Neste
regresso a Lisboa,
onde já atuou no
Festival NOS Alive,

Do delta do Mississípi à foz do Douro vem apresentar o


segundo álbum de
originais, The Thrill
of It All, num há muito
Depois do sucesso da edição inaugural, a cidade volta a celebrar aguardado concerto
em nome próprio.
este estilo musical, nascido dos espirituais negros dos escravos
afro-americanos 
Altice Arena
> R. dos Olivais, Lisboa
> T. 21 891 8409 > 18 mai,
Foram quase duas mil pessoas, as que em 2017 se sex 21h > €41 a €61
A zona de res- deslocaram ao Palácio de Cristal para a primeira edição
tauração abre deste festival dedicado aos blues. Um género que, mesmo
portas antes
dos concertos
sem o sabermos, influencia muita da música que ouvimos
– é não só o pai do rock como também o avô, o tio
Baila com o Sol
começarem,
possibilitando
também ao
e o primo de quase todos os estilos musicais nascidos
no século XX, sejam eles o jazz, a soul e mesmo a pop. É este legado
Lisboa
público visitar único que o Porto Blues Fest celebra, juntando músicos de variadas Cachupa Psicadélica,
com tempo a latitudes que têm em comum esta mesma raiz, oriunda do delta JP Simões e Bruno
exposição de do Mississípi algures no final do século XIX. Pernadas são os
Cigar Box Gui- Os primeiros a subir ao palco, nesta sexta, 18, são os North South nomes presentes na
tars, patente Blues Connection, projeto de António Casado (guitarra), João André primeira edição do
no recinto. (baixo), Hugo Danin (bateria) e do também líder dos The Black Mamba, Baila com o Sol, ciclo
Tatanka (voz e guitarra), que junta músicos do Porto e de Lisboa. integrado no Festival
A seguir, chega Pat “Mother Blues” Cohen, cantora norte-americana Solar, que decorre
que, aos 61 anos, é uma encarnação do espírito original dos blues. Pat foi no Museu da Eletrici-
uma das figuras maiores dos palcos de Nova Orleães, onde atuava seis dade e no Museu de
noites por semana, em vários locais, incluindo o mítico House of Blues, Arte, Arquitetura e
até que em 2005 o furacão Katrina lhe destruiu a casa, obrigando-a a Tecnologia (MAAT), na
mudar-se para a Carolina do Norte, onde recomeçou a cantar. Já no defesa da “visão de
sábado, 19, a noite começa ao som dos espanhóis Chino & The Big Bet, uma sociedade solar,
um dos mais ativos representantes da cena blues de Barcelona, em que sustentável e eficien-
a sua inconfundível slide guitar é já um clássico. Para fechar, a melhor te”. Os artistas foram
banda de blues nacional, como há muito é apelidada, a Budda Power convidados a criar um
Blues, que aqui atua com dois convidados de peso: a cantora Maria João espetáculo inspirado
nesses temas.
e, a jogar em casa, Pedro Abrunhosa. Miguel Judas

 MAAT > Av. de Brasília,
Jardins do Palácio de Cristal > R. de D. Manuel II, 282, Porto > T. 22 209 7000 Lisboa > T. 21 002 8130
> 18-19 mai, sex-sáb 22h > €20 a €25 (passe) > 18-20 mai, sex-dom 19h
> grátis

116 VISÃO 17 MAIO 2018


Roger Waters Lisboa Orquestra Metropolitana
de Lisboa Lisboa
Um pé no passado, outro no presente O maestro e compositor
finlandês Magnus Lindberg
está de regresso a Portugal
para se apresentar à frente
O fundador dos Pink Floyd está de regresso à estrada com uma digressão da Orquestra Metropolitana
que recupera alguns dos maiores clássicos da sua antiga banda de Lisboa, que vai interpretar
duas partituras da sua
autoria, Chorale e Concerto
para Clarinete, com o solista
Já lá vão sete anos desde Moon, tocados e cantados por um Nuno Silva no clarinete.
a última passagem de Roger dos seus criadores. Segundo o próprio O programa encerra com
Waters por Lisboa. Roger Waters, este novo espetáculo o Concerto para Orquestra
Na altura, recuperou o vai “misturar uma longa carreira”, do compositor polaco
lendário espetáculo The desde “os anos com os Pink Floyd Witold Lutosławski.
Wall, replicado em 219 a algumas coisas novas.”
concertos, assistidos por mais de “Provavelmente 80% será material 
quatro milhões de espectadores, antigo”, conclui. Era precisamente Centro Cultural de Belém
naquela que é considerada uma das o que os fãs mais queriam ouvir, > Pç. do Império, Lisboa > T. 21 361
2400 > 20 mai, dom 17h > €5 a €20
digressões mais rentáveis de sempre depois de tantos anos de ausência dos
da história do rock. Tal como então, palcos. Não é inocente o nome dado
a nova digressão tem início em
Portugal e outra vez os muitos fãs
à atual tour: Us + Them, que recorda a
música, com o mesmo título, incluída Impulso Caldas da Rainha
nacionais deram uma resposta no lendário álbum The Dark Side
à altura, como se comprova pela of the Moon (de 1974). Mas a verdade A abertura oficial dos festi-
rapidez com que o concerto esgotou. é que Roger Waters também está vais de verão, em pequena
Afinal, já não é assim tão comum interessado em tocar canções do seu escala, acontece, este ano,
ouvir alguns dos maiores clássicos último, e muito elogiado, álbum a nas Caldas da Rainha, com
de álbuns, como Wish You Were Here, solo, editado em 2017: Is This the Life a primeira edição de Impulso
The Wall, Animals e Dark Side of the We Really Want? M.J. que junta música, fotografia,
video mapping e cinema.
Serão mais de 30 as bandas
que ao longo de três dias irão
passar pelo festival, desta-
cando-se nomes como Paus,
Octa Push, Gala Drop, Filho
da Mãe, Memória de Peixe,
Cave Story, Mike El Nite,
DJ Firmeza e Democrash.


Centro da Juventude das Caldas
da Rainha > R. de Vitorino Fróis, 22,
Caldas da Rainha > T. 262 840 900
> 23-25 mai, qua-sex 18h30 >
€10 a €20 (passe)
D.R.


Altice Arena > R. dos Olivais, Lisboa > T. 21 891 8409 > 20 e 21 mai, dom e seg 21h > €45 a €90

17 MAIO 2018 VISÃO 117


VER

Passo + Toccata e Fuga


Grant’s Stand Together Lisboa e Porto Lisboa
Conta-me histórias Diretora artística do Centro
Coreográfico Nacional
de Nantes desde 2016,
a italiana Ambra Senatore
Salvador Sobral, Bruno Nogueira e Enrique Arce estão entre os convidados apresenta agora duas
do festival de “storytelling”, apresentado por Joaquim de Almeida peças suas no Teatro
Camões: Passo, de 2010,
e uma criação nova,
Toccata e Fuga. Passo
Ficou conhecido pela pessoa será testada pelo ator e por começa com uma mulher
interpretação de Arturito, artistas de diferentes gerações e áreas. imóvel em palco, braços
uma das personagens mais Antes do Porto, o festival arranca em semilevantados, a indiciar
caricatas de La Casa de Lisboa no dia 18, sexta, no Cinema uma posição de ponto de
Papel, a série espanhola São Jorge, com os músicos Pedro partida, de ponto zero
transformada em fenómeno Abrunhosa e Carolina Deslandes, do movimento. A mulher
planetário da plataforma Netflix. o ator Ivo Canelas, a humorista Marta começa a mexer-se e,
O ator Enrique Arce é um dos Gautier, a radialista Vera Fernandes a certa altura, desequilibra-
convidados da sétima edição do e o produtor musical Manuel Moura -se. Sai de campo e
Grant’s Stand Together e terá, dos Santos. Haverá ainda uma regressa sem sapatos
certamente, muito a dizer sobre as conversa sobre moda, com Eduarda calçados. Mais à frente,
filmagens do assalto fictício à Casa da Abbondanza, o músico Alex D’Alva passam a ser duas
Moeda. O “refém” fará parte do elenco Teixeira e a blogger Mafalda Teixeira. bailarinas em palco,
da sessão de encerramento do festival No sábado, 19, a sessão cruza áreas com roupa, maquilhagem
de storytelling, sábado, dia 26, diferentes e contará com o contributo e penteados iguais.
no Coliseu do Porto, cujo palco dos músicos Salvador Sobral e Mallu E passarão a três, quatro,
receberá ainda a fadista Gisela João, Magalhães, do chefe de cozinha cinco...
a atriz Mariana Monteiro, o músico Henrique Sá Pessoa, do apresentador Até que é introduzido
um elemento disruptivo.
Kalaf, a videoblogger Beatriz Gosta Pedro Fernandes, da atriz Joana
Já Toccata e Fuga é uma
e o humorista Guilherme Duarte. Solnado e do futebolista Cédric
criação feita a convite
A conduzir esta e outras conversas Soares. A jornalista Anabela Mota da Companhia Nacional
– que podem ser acompanhadas por Ribeiro convidará ainda o comediante de Bailado, pensada para
cocktails da Grant’s – estará mais e ator Bruno Nogueira a partilhar ser interpretada por
uma vez Joaquim de Almeida. A arte alguns segredos com o público. 18 bailarinos da casa, e que
de partilhar histórias na primeira Para ouvir atentamente. J.L. pretende dar importância
a gestos do quotidiano
que consideramos banais.
C.M.S.


Teatro Camões > Passeio
do Neptuno, Parque das Nações,
Lisboa > T. 21 892 3470
> 18-27 mai, qua 15h, qui-sex 21h,
sáb 18h30, dom 16h > €5-€25
DR


Cinema São Jorge > Av. da Liberdade, 175, Lisboa > T. 21 310 3400 > 18-19 mai, sex-sáb 21h30 >
€8 e €14 > Coliseu do Porto > R. Passos Manuel, 137, Porto > T. 22 339 4940 > 26 mai, sáb 22h > €14

118 VISÃO 17 MAIO 2018


KERSTIN BEHERENDT
Inoah, de Bruno Beltrão & Grupo de Rua

Alkantara Lisboa
25 anos de construção
Começa mais uma edição do festival, a última com direção artística
assinada por Thomas Walgrave. Falámos com o programador belga

A metáfora podia estar no uso das Mundial, o Japão fez parte de uma operação
cores. Os totes – também conhecidos militar. E há uma espécie de indiferença por parte Aldara Bi-
como “sacolas de pano” – da edição da juventude...”, continua Walgrave. “Quinze anos zarro, João
Fiadeiro e
comemorativa dos 25 anos do Festival depois, Toshiki faz agora uma reencenação com
Vera Mantero,
Alkantara misturam roxo-bebé com atores muito novos, tendo esta ideia em mente:
coreógrafos
laranja-salmão-choque, laranja- é para comemorar, mas é também para perceber fundamentais
-salmão-bebé com verde-água-choque. O saco, o que aconteceu desde então.” da chamada
feito de cores e tons suaves, discreto, traduz a No último ano em que está à frente do nova dança
bagagem, a história da iniciativa e da associação, festival, Walgrave refere que a sua linha é... não portuguesa
que foi fundada em 1993 por Mónica Lapa ter linha, a escolha dos artistas tem que ver com que fizeram
e começou por chamar-se Danças na Cidade. a sensibilidade de “perceberem o que está à sua parte da pri-
As letras impressas, de tons garridos que quase volta antes de fazerem as primeiras páginas meira edição
brilham no escuro, representam o lado visível, dos jornais”. “Nesta edição, isso traduz-se em do Festival
o lado festivo, a jovialidade, a projeção no futuro. preocupações como a identidade, o local [por Alkantara,
“A tentação de entrar na nostalgia é grande. oposição ao global], os refugiados, a água, a apresentam
Uma das questões, para mim, é fazer mesmo a arte que se pensa a si própria, a arquitetura...” agora novas
festa. Quase como um drone que vai sobrevoar a E lembra também os 50 anos do Maio de 68 e criações.
festa e tentar perceber o que ela é...”, diz Thomas do Tropicalismo. Christiane Jatahy, a Artista na
Walgrave. “Um exemplo fortíssimo disso é o Cidade deste ano (uma iniciativa da EGEAC),
trabalho do coreógrafo japonês Toshiki Okada, também regressa ao festival, desta vez com Ítaca
que fez, em 2003, um espetáculo histórico e que – Nossa Odisseia I. Walgrave fala da importância
foi uma bomba no teatro contemporâneo no da ideia de recorrência e continuidade.
Japão. Chama-se Five Days in March e fala sobre “A primeira vez que trazes um autor, isso é
uma geração de jovens japoneses no momento considerado autoria, como programador.
em que os aliados invadem o Iraque. Pela primeira Quando volta pela terceira vez, a ligação já é direta
vez, desde os traumas da Segunda Guerra entre ele e o público.” Cláudia Marques Santos


Castelo de São Jorge, Culturgest, Espaço Alkantara, Maria Matos Teatro Municipal, São Luiz Teatro Municipal, Teatro
Nacional D. Maria II > Lisboa > T. 21 315 2267 > 23 mai-9 jun

17 MAIO 2018 VISÃO 119


VER

Michael Biberstein Lisboa


A melhor oportunidade para
descobrir ou reencontrar a
obra do artista plástico suíço-
-americano Michael Biberstein
(1948-2013). E não são raros

D.R.
em Portugal os admiradores
do seu trabalho. Biberstein

O Jardim das Delícias Lisboa


nasceu em Solothurn, na
Suíça, mas passou mais de
três décadas em Portugal
(morreria, aliás, no Alandroal,

Tiremos os pecados do mundo na casa onde vivia).


É reconhecido, sobretudo,
pelos seus quadros de
grande formato nos quais
A propósito de um ciclo dedicado a Hieronymus Bosch, a coreógrafa canadiana um abstracionismo esfumado
em cores neutras (os pretos
Marie Chouinard faz uma interpretação muito própria de um dos quadros mais e cinzentos sempre muito
célebres do pintor holandês presentes) se transforma, aos
nossos olhos, em paisagens
enevoadas que evocam
O paraíso é igual à terra com a diferença de não se passar, ali, facilmente um imaginário
praticamente nada; o inferno é um decalque obscuro da vida terrena. oriental. Apesar da ambição
Já o dizia Buñuel no filme Simão do Deserto: o paraíso e o inferno, antológica, a exposição,
vivemo-los na terra. Mas o quadro de Hieronymus Bosch foi pintado que ocupa as duas galerias
500 anos antes. A celebração da vida – amor livre, criaturas de várias da Culturgest (é a maior
espécies em salutar convívio, a comunhão com a Natureza, construções de sempre dedicada à obra
arquitetónicas que bem podiam ter sido imaginadas por Salvador Dalí do pintor), não se apresenta
– é representada no quadro central do tríptico e, por isso, se chama O Jardim das em ordem cronológica.
Delícias Terrenas. Comissionada pela Fundação Hieronymus Bosch em 2016, ano Foi, antes, dividida em temas
− a saber: A Linguagem
em que se assinalou o quinto centenário da morte do pintor, a coreógrafa canadiana
da Pintura; A Espacialidade
Marie Chouinard estreia agora um espetáculo inspirado no histórico quadro.
e a Escala; A Relação com
“Em 1500 e tal, era muito comum, nas artes e sobretudo na literatura, o tópico do a Paisagem como Dispositivo
mundo às avessas, do desmoronamento moral. Esse desmoronamento é-nos dado Histórico.
por figuras bizarras, figuras essas que estarão agora também em palco”, diz à VISÃO Em 2008, o realizador
Se7e Fernando Luís Sampaio, programador de dança do Centro Cultural de Belém. Fernando Lopes apresentou
“Esse desmoronamento tem que ver, sobretudo, com a dimensão de uma certa o filme Michael Biberstein, o
sensualidade, de uma certa sexualidade, com mundos que são da ordem do pecado Meu Amigo Mike ao Trabalho,
e da perdição. E é tudo isso que Chouinard consegue pôr em cena.” que nos aproximava do
A ideia de sexo, de nascimento, está necessariamente ligada à de morte, fim. artista, trabalhando no seu
“Marie Chouinard leva os corpos, os bailarinos, a momentos de grande sensualidade, atelier na Fonte Santa (entre
mas também de grande tensão entre eles. É uma leitura bastante forte, visualmente, o Redondo e o Alandroal).
e que se enquadra muito na linguagem desta coreógrafa, a de clivar a dinâmica do No sentido de abrir horizontes
gesto através do uso de certas próteses.” Estas próteses, elementos cénicos retirados e facilitar a aproximação
da iconografia de O Jardim das Delícias Terrenas, servem de extensão aos corpos, possível nos dias de hoje,
como que a permitir-lhes a sobrevivência. Temos também pormenores do quadro serão organizados, em datas
projetados em palco para ajudarem à narrativa. “Há momentos em que aquilo parece a anunciar, encontros com
mais um freak show do que propriamente uma reprodução pictórica, mas essa Julião Sarmento, Fernando
estranheza faz parte da leitura que Chouinard faz de Bosch”, acrescenta Fernando Bello, Norberto Lobo e Nuno
Luís Sampaio. C.M.S. Crespo. P.D.A.


 Culturgest > R. Arco do Cego,
Centro Cultural de Belém > Pç. do Império, Lisboa > T. 21 361 2400 > 18-19 mai, sex-sáb 21h 50, Lisboa > T. 21 790 5155
> €25-€30 > 19 mai-9 set, ter-sex 11h-18h,
sáb-dom, 11h-19h > €4

120 VISÃO 17 MAIO 2018


Territórios Dramáticos Vila Nova de Famalicão UM [Unimal] Lisboa
Depois de um prólogo que se

O teatro é para comer (e beber)


apresenta como uma espécie
de ritual preparativo, a bai-
larina Daniela Cruz entra em
cena e posiciona-se à frente
Um encontro da dramaturgia nacional que quer afirmar-se como de uma folha de papel branco
de cenário. As luzes apagam-
observatório das tendências e das motivações dos criadores contemporâneos -se e ela começa a bater com
os pés, à vez, sempre no mes-
mo sítio. Este é um sentido de
Na primeira edição do da companhia Amarelo Silvestre,
marcha que tanto pode apelar
Territórios Dramáticos, cuja dramaturgia é constantemente à ação como à inação. Depois
a diversidade geográfica reescrita e construída a partir de da estreia, em abril do ano
das companhias convidadas objetos cedidos pela comunidade local, passado, no Teatro Gil Vicen-
e a forma como os próprios e Portugal Não é um País Pequeno, te, em Coimbra, UM [Unimal],
lugares de origem de André Amálio/Hotel Europa, da autoria de Cristina Planas
influenciavam as criações constituíam o reflexão sobre a ditadura e a presença Leitão, chega agora ao Grande
tema central do encontro. Uma questão portuguesa em África, através de Auditório da Culturgest, em
primordial para o Teatro da Didascália, testemunhos reais. O “Teatro Fora de Lisboa. A bailarina fica dez
companhia responsável pela sua Formato” é o segundo tema. Aí surgem minutos neste formalismo
organização, sedeado em Joane. Nesta peças de difícil catalogação, “focadas até que as luzes cénicas
segunda edição estão determinados a no universo particular e na linguagem começam a alterar-se e, do
continuar a mexer com o quotidiano da artística transdisciplinar de cada escuro de onde sobressaía o
pequena vila do concelho de Vila Nova criador”. É o caso de Manipula#som, tom quente da pele da cara
de Famalicão e a “trazer a este público da Radar 360o, diálogo entre a e das pernas, a iluminação
um repertório a que, de outra forma, manipulação de objetos e a música branca simula a luz do dia.
dificilmente teria acesso”, sublinha interativa, e de Brisa ou Tufão, um As variações dos batimentos
Bruno Martins, o diretor artístico. espetáculo sobre a beleza das coisas dos pés vão sendo ínfimas
O programa trabalha dois temas simples, criado por Mafalda Saloio. – e a música que acompanha
centrais. A “Reescrita da História”, No final de cada espetáculo, decorrem o som das botas é como um
coração a bater acelerado...
ou seja, “o nome encontrado para uma as sessões Cear e Falar, conversas
Cristina Planas Leitão explo-
tendência que temos observado, à volta da mesa entre os artistas
ra, aqui, a significação dupla
em bastantes criadores, de desenvolver e o público, em que o anfitrião garante da ideia de marcha: esta pode
questões ligadas à memória, sejam o vinho verde e os convidados trazem ser vista como um protesto
experiências de vida ou memórias uma iguaria da sua região ou dos mas também como um sinal
coletivas do País”, explica Bruno territórios evocados pelos espetáculos. de opressão. E nós ficamos a
Martins. Aqui se inserem espetáculos Haverá melhor desbloqueador pensar na resiliência e no que
como Museu da Existência, de conversas? Joana Loureiro podemos ou queremos fazer
com ela. C.M.S.


Culturgest > R. Arco do Cego, 50,
Lisboa > T. 21 790 5155 > 18-19 mai,
sex-sáb 21h30, dom 17h > €5-€12
MARIA JOANA FIGUEIREDO


Fauna > Quinta da Bemposta, Travessa da Quinta, 1, Joane > Centro Cultural da Juventude de Joane
> Rua Dr. Agostinho Fernandes, 113, Joane > T. 91 276 1740 > 18-28 mai > €4

17 MAIO 2018 VISÃO 121


VER

O Segredo da Câmara Escura 17 Raparigas


Numa espécie de histeria

A arte da imobilidade
coletiva, um grupo de
17 adolescentes, todas
da mesma escola, resolve
engravidar e “fazer nascer”
os seus filhos. Baseado
O filme francês, do mestre do terror japonês, não prega sustos em factos reais, o filme de
mas mexe com a alma Delphine e de Muriel Coulin,
datado de 2011, mas que
só agora chega ao circuito
Apesar de, ao longo da sua carreira, ter experimentado diferentes
comercial, funciona como
géneros cinematográficos, Kiyoshi Kurosawa é conhecido como uma espécie de case study,
um dos mais desafiantes mestres do cinema de terror japonês. tanto para comportamentos
Neste O Segredo da Câmara Escura, extravasa fronteiras, extremos na adolescência
demonstrando a abrangência do seu talento. Sai do típico ambiente como para a forma como
japonês para se localizar em Paris e adapta o argumento ao meio a sociedade acolhe os casos
envolvente. Está longe de ser um clássico de género. Não é daqueles filmes que de gravidez precoce.
pregam sustos ou exploram o obsceno imagético do universo gore. Há antes uma Em termos de olhar sobre
cautelosa aproximação do sobrenatural, partindo de um ambiente naturalmente a adolescência, este é
fantástico, com imagens sugestivas que nos aproximam subtilmente de clássicos desarmante: a decisão
do género, como Drácula ou Frankenstein. coletiva das jovens, tão
De início, encontramos Jean, à porta de uma decrépita mansão francesa, forte e intransponível, não
respondendo a uma oferta de emprego pouco comum. O “senhor” da mansão deixa de ser tratada como
é um artista, de nome Stéphane, bem cotado no mundo da moda, que tem como uma moda seguidista e de
especialidade a reprodução de daguerreótipos à escala humana. Para quem não confronto com a geração
sabe, esta foi uma técnica pioneira de fotografia, ainda da primeira metade do dos pais – tal como se elas
século XIX, que permitia a reprodução de imagens únicas e obrigava a longos fossem fazer um piercing
tempos de exposição e imobilidade. A obsessão de Stéphane por daguerreótipos no umbigo ou tomar drogas
é elevada a limites para além do concebível. Os seus modelos sujeitam-se leves. As consequências,
a um sistema imobilizador que faz com que não esbocem qualquer movimento claro, são outras e,
por aí, há uma estranha
durante um tempo que pode ir até aos 120 minutos. As reproduções mais ousadas
coincidência de
e artísticas de Stéphane são feitas com a filha (e anteriormente com a mulher).
responsabilidade absoluta
Se determinadas tribos indígenas acreditam que a fotografia lhes rouba a com a irresponsabilidade
alma, aqui fica a ideia de que os daguerreótipos, no limite do seu perfecionismo, total. Assistimos a uma
replicam os corpos em formato etéreo. É neste ponto que, no filme de Kurosawa, sociedade impreparada
aquilo que é realisticamente fantástico comunica com o sobrenaturalmente para lidar com o assunto
palpável. Manuel Halpern e, feitas as contas,
17 Raparigas traz mais
perguntas do que respostas.
M.H.


De Delphine e Muriel Coulin,
com Louise Grinberg, Roxane Duran
e Esther Garrel > 90 minutos
DR


De Kiyoshi Kurosawa, com Tahar Rahim, Olivier Gourmet, Constance Rousseau e Mathieu Amalric
> 131 minutos

122 VISÃO 17 MAIO 2018


LIVROS E DISCOS

Pátria Fernando Aramburu


Ode (e elegia) ao País Basco
A luta armada da ETA e o impacto nas vidas comuns, num romance
que pode, com justiça e mérito, reclamar o estatuto de “clássico”

Uma Semana
nos Rios Concord
e Merrimack
Henry David Thoreau
É um desafio
à velocidade
contemporânea ler
o primeiro livro de
Henri David Thoreau
(1817-1862), poeta,
ensaísta e nome
maior do naturalismo
americano. Em Uma
D.R.

Semana nos Rios


Chamem-lhe Txato, como Fernando Aramburu faz Concord e Merrimack
no seu romance, Pátria. O nome, no entanto, tem pouca (Antígona, 432 págs.,
importância. Poderíamos substituí-lo por outro, por muitos €21) sucedem-
outros. Em 40 anos de luta armada, a ETA foi responsável -se minuciosas
pela morte de 829 pessoas. A organização independentista descrições de
basca, que no passado dia 2 anunciou a sua extinção, árvores, frutos
e colheitas, peixes,
já lamentou a dor causada. Mas as feridas ficaram.
rios e correntes,
Podemos ler Pátria como um contributo para atenuar e sarar
pensamentos,
essa chaga. É um romance no qual um povo inteiro pode rever-se, histórias e mitos.
um espelho que nos devolve a dimensão humana de um conflito O livro relata a
Em Pátria atravessado por pessoas de carne e osso, como nós. Esse é, entre viagem que fez com
(D. Quixote, muitos outros, o grande mérito de Fernando Aramburu. Nada de o irmão, rio acima.
720 págs., épico ou heroico encontramos nestas páginas. O escritor, nascido À semelhança do
€23,90), no País Basco em 1959 e há muito radicado na Alemanha, não segue que acontece em
primeiro o caminho de uma certa literatura que privilegia o ponto de vista Walden ou a Vida
romance do assassino. Todos são vítimas, até quem mata. nos Bosques, a sua
de Fernando Longo romance de capítulos curtos (125), Pátria divide-se por duas obra mais conhecida,
Aramburu famílias. A de Txato, empresário basco que ama a sua terra mas se tudo é pretexto para
publicado em recusa a pagar o imposto revolucionário que a ETA impõe. E a de Joxe a divagação, para
Portugal, lê-se o lento rememorar
Mari, jovem que se radicalizou e aderiu à luta armada. Sobressaem,
nove vezes a da artesanal
assim, nove personagens bem definidas. Pela sua diversidade social,
mesma morte, sabedoria que se
uma por cada
profissional e ideológica, valem por uma sociedade inteira.
As interações entre personagens, e a qualidade da prosa de Aramburu, passa de geração
personagem. em geração. Nessa
Todas iguais, resgatam a narrativa de qualquer rigidez. Com subtis variações entre
a primeira e a terceira pessoas, às vezes dentro do mesmo parágrafo, lentidão, Thoreau
todas diferentes afirma o primado
inclusive em frases seguidas, o escritor tece uma admirável espiral
da Natureza, numa
narrativa, ora mais próxima, ora mais distante de um mesmo centro:
defesa da dimensão
a morte, a culpa, a redenção. Ode (e elegia) ao País Basco, Pátria será,
humana tantas vezes
para qualquer leitor, um romance obrigatório. Chamem-lhe esquecida pelo
um clássico. Luís Ricardo Duarte progresso. L.R.D.

17 MAIO 2018 VISÃO 123


L IVROS E DI S C OS

Contrário da Escuridão
Espírito
O baterista e guitarrista
dos GNR, Tóli César
Machado, edita pela

D.R.
primeira vez em nome

Tranquility Base Hotel & Casino


próprio, assumindo uma
veia de compositor ainda
desconhecida por muitos

Arctic Monkeys
(apesar de serem da sua
autoria muitos dos grandes
êxitos da banda que fundou
em 1980). Tóli − ou Espírito,

Crise de identidade?
como assina este trabalho
− apresenta-se a solo mas
não sozinho. Está, aliás,
muito bem acompanhado:
Sem riffs de guitarra, mas com o mesmo sentido para escrever as letras,
convidou José Luís
de observação, o sexto disco da banda tem tudo Peixoto, Tiago Torres
para dividir opiniões. E ainda bem da Silva, Mário João
Alves, Adolfo Luxúria
Canibal e Jónatas Pires,
Alex Turner podia ter feito um álbum a solo e seria para, segundo o próprio,
mais ou menos a mesma coisa. Doze anos depois participarem num “jogo
de o ouvirmos cantar sobre porteiros de discoteca de sedução criativa”, no
mal-encarados ou a falta de romance da música qual, alguns temas, para
feita para toque de telemóvel, o vocalista dos o compositor se inspirou
Arctic Monkeys não podia estar mais longe das nas letras, e noutros os
ruas de Sheffield, Inglaterra, onde a banda cresceu. Viver na letristas se inspiraram
artificialidade de Los Angeles tem destas coisas, e nem a na música. O resultado
última das bandas indie, como escreveu The Guardian, podia O sexto disco são dez canções (duas
ficar igual para sempre. Mas era preciso querer chegar à Lua? dos Arctic delas instrumentais) que,
“A guitarra perdeu a capacidade de me inspirar”, disse Monkeys, tendo como bitola uma
Turner numa entrevista à BBC. É ele, como sempre, o homem Tranquility assumida sonoridade pop,
Base Hotel se vão alargando a outros
de todas as palavras e ideias, quem desta vez decidiu pôr em
& Casino, é uma territórios mais ambientais
prática ao piano, presente de aniversário que recebeu aos 30,
homenagem e eruditos. Para dar voz às
e que passou os dois anos seguintes a explorar. Na verdade, palavras, foram chamados
há muito que os Arctic Monkeys procuravam evoluir sem à elegância
musical nomes como o fadista
perder a crueza dos primeiros dois álbuns, conseguindo com Ricardo Ribeiro, Adolfo
dos anos 70
AM, de 2013, uma mistura entre as letras irrepreensíveis de Luxúria Canibal, Selma
combinada
Turner e guitarras de encher estádios. A mudança de direção Uamusse, Marcela Freitas
com a destreza
que é Tranquility Base Hotel & Casino não será exatamente de Alex Turner (que canta em três temas)
uma surpresa: quem tem estado atento aos Last Shadow com as palavras e a brasileira Dom La
Puppets, banda que Turner divide com o amigo Miles Kane, Nena. Na sua variedade,
já tinha percebido que havia por ali um fascínio pelos anos acabam por contribuir
70, a languidez de Serge Gainsbourg com uns laivos de David para a identidade deste
Bowie, os fatos impecáveis e o cabelo escorregadio. Four Out Contrário da Escuridão,
of Five, o candidato mais natural a single, num disco feito concentrando na música
para não os ter, tem um vídeo a dar ares de Stanley Kubrick, e na exemplar produção
todo ele surrealismo e cores fortes. Não é coincidência que de Rui Maia (X-Wife
Turner encaixe neste cenário egomaníaco na perfeição – mas e Mirror People) o fio
um pouco de megalomania nunca fez mal a ninguém. R.M.C. condutor desta luminosa
viagem. M.J.

124 VISÃO 17 MAIO 2018


TV

Por 13 Razões Netflix


Novas pistas em polaroides sinistras
Na segunda temporada da série, o mistério da morte de Hannah Baker continua por resolver.
Há segredos por revelar em fotografias, e os temas do suicídio, abuso sexual, drogas, armas
e “bullying” permanecem como pano de fundo

“No momento em que começares Se, na primeira temporada, a narração coube


a falar sobre estes temas difíceis, tudo a Hannah Baker, papel desempenhado por
se tornará mais fácil”, alertam alguns Katherine Langford, que lhe valeu a nomeação
dos atores de Por 13 Razões, logo no para Melhor Atriz nos Globos de Ouro, agora,
início da segunda temporada da série em cada um dos 13 novos episódios, é a voz de
norte-americana que, no ano passado, outros dos seus colegas a guiar o espectador pela
pôs o mundo a discutir o suicídio juvenil e o conspiração que se desenrola através de polaroides
assédio sexual, ainda antes do movimento Me Too. que aparecem de forma misteriosa. O clima de
A verdade continua sem se saber. Passaram suspeição, a pairar sobre todos os estudantes do
cinco meses após o suicídio de Hannah Baker liceu Liberty, serve para voltar a abordar temáticas
e a população de Liberty, principalmente polémicas como suicídio juvenil, abuso sexual
os estudantes da escola secundária, querem continuado, violação, homossexualidade, uso de
seguir em frente com as suas vidas. Parecem, armas de fogo, bullying e consumo de drogas.
porém, estar presos àquela tragédia, ainda sem A segunda temporada da série – criada, escrita
explicações e muitas suspeitas. Bryce Walker e produzida por Brian Yorkey – volta a ter Selena
confessou ter violado a colega de liceu, mas Gomez entre os produtores-executivos e conta
parece não ser o suficiente para a Justiça, por isso com os conselhos de especialistas em recuperação
a mãe de Hannah Baker vai levar por diante uma de lesões cerebrais, vícios, sobrevivência e defesa
ação em tribunal contra a escola, que deveria ter de agressões sexuais. E se “as cassetes foram só o
protegido estes adolescentes. O caso afetou todos princípio”, como anuncia o trailer, Brian Yorkey,
na pequena cidade e, à medida que as sessões que adaptou o best-seller de Jay Asher ao formato
em tribunal avançam, é preciso relembrar como televisivo, já revelou em diversas entrevistas que
Hannah viveu e que circunstâncias poderão tê-la “há 12 miúdos que têm outra perspetiva da história
encaminhado para a morte. que não chegámos a ouvir”. Sónia Calheiros

Em 13rea-
sonswhy.info,
o elenco da
série fala de
temas como
a agressão
sexual.
O site inclui
os contactos
de linhas de
apoio de cada
país – em Por-
tugal, é a SOS
Voz Amiga.
D.R.


Estreia 18 mai, sex

17 MAIO 2018 VISÃO 125


E SCA PA R

HUMBERTO MOUCO
Moinho do Maneio Penamacor
Viver numa bolha
Nesta casa de campo, dorme-se a ver as estrelas. E não é forma de escrever:
aqui existe mesmo uma tenda em forma bolha para estar mais perto da Natureza

Além de É por um caminho de terra batida, Esta última, que é a maior, recebe até cinco pessoas
cultivarem rodeado de árvores, que se chega de e destaca-se pela sua banheira feita de uma antiga
framboesas, carro ao Moinho do Maneio, a oito pipa de vinho. No Moinho do Maneio, há mais
os responsáveis quilómetros de Penamacor. Nesta casa quartos para espreitar, como o Andorinhas, o
pelo Moinho do de campo, é-se recebido por Mimosa, Amieiro e o Trigo, com decorações alusivas a cada
Maneio também Berry e Júnior, três cães dóceis que nome. Descobre-se ainda uma zona de piscina,
levam a Lisboa esperam os hóspedes com euforia e brincadeiras. perfeita para fugir às altas temperaturas do verão
mel, queijo, É também nesta entrada que se pode guardar na região. Dali até à ribeira que vem da serra da
cerejas do o telemóvel e deixar o stresse na mala de viagem. Malcata são mais uns metros, e logo se mergulha
Fundão, mirtilos
Ali não há rede, televisão nem nada que possa ou se conhece os encantos desta zona num passeio
e amoras
perturbar o silêncio ou distrair o olhar da de canoa. Já os mais pequenos não vão conseguir
de pequenos
produtores
Natureza. Mas há muito para descobrir nesta resistir ao grande trampolim que ocupa uma das
da região. Tudo propriedade que se estende por cerca de bermas. “Queremos virar as atenções para esta
por encomenda 20 hectares, como a pequena ribeira da Bazágueda, ribeira e aproveitar a água para outras atividades”,
ali tão perto, entre outros recantos verdejantes. diz Rui Marcelo, que também cultiva framboesas
Antes da engenheira Anabela Martins e do em terrenos próximos, os quais depois chegam
jornalista Rui Marcelo porem mãos à obra, em aos pratos dos hóspedes. Por fim, sobe-se uma
2002, não havia água, luz ou esgotos. “Só ruínas”, pequena ladeira e vê-se um dos destaques desta
diz o casal em uníssono. Com as profundas casa de campo: a tenda em forma de bolha que
renovações, os antigos palheiros, o curral dos é transparente à frente e em cima e que, por isso,
porcos e outras infraestruturas quase destruídas deixa-nos adormecer a ver o céu estrelado.
deram lugar a duas casas com lareira e uma Pode não haver rede, mas carrega-se baterias
pequena cozinha de apoio: a Alecrim e a Pipa. com a simplicidade da Natureza. Sandra Pinto


Estrada Municipal km 7,5, Bazágueda, Penamacor > T. 277 394 399 > quarto duplo a partir de €70, casa €85 (época baixa); quarto
duplo a partir de €80, casa €95, bolha €100 (época alta)

126 VISÃO 17 MAIO 2018


O gosto dos outros

“Sputnik, Meu Amor”


Isaura
Haruki Murakami A compositora Taberna A Preciosa Lisboa
do tema O Jardim, “Naqueles dias em que não apetece
“Um livro faz-nos sempre viajar”, que representou confusão nem decidir o que jantar, este
sublinha a cantora e compositora, é o meu sítio favorito”, conta Isaura,
embora ultimamente não leia tanto Portugal no Festival natural de Gouveia, a viver em Lisboa
quanto gostaria. “Sputnik, Meu Amor, da Eurovisão, revela há alguns anos. Fica na Rua do Lumiar,
de Murakami, é uma viagem de sonho
por menos de dez euros. Já o li há uns
os seus lugares de e serve uma grande variedade de petis-
cos em rodízio, sempre a sair.
anos, mas nunca me esqueci dele.” eleição. Em junho,
lança Human,
o novo álbum
J O A N A L O U R E I R O jloureiro@visao.pt

Gosta de discos e livros em Ilha do Sal Cabo Verde


segunda mão. “Todas as cidades Foi a última viagem que fez antes do
têm lojas de discos e livros a “rebuliço” do Festival da Canção, e
precisar de uma segunda, terceira, ficou rendida. “Fui em setembro e a
quarta oportunidade. E ainda água estava sempre quente. A frase
encontramos as dedicatórias mais que mais se ouve é “no stress” e é
belas que alguém escreveu” precisamente assim que se vive lá. Sei
que há muita coisa para ver no mundo,
mas eu prefiro voltar a Cabo Verde.”

Toscana Itália Sobre “American Teen”,


de Khalid, diz: “Adoro ouvir
“Se ainda não foram à Toscana, de- este disco no carro, abrir
viam”, recomenda. Razões não faltam, as janelas e fingir que já
desde paisagens a lugares históricos. é verão. Faz-nos viajar,
“É ficar em Florença e alugar um carro voltar à escola e às tardes
para passear pelo campo.” que não tinham fim”

17 MAIO 2018 VISÃO 127


JOGOS

Palavras cruzadas O S T E R M O S - C H AV E D A AT U A L I D A D E

>> HORIZONTAIS >> 1. Larva da mosca varejeira. Adolescente em (…) terminal tem
recuperação “milagrosa” depois de a mãe lhe dar canábis às escondidas – em 2013,
Deryn Blackwell, 14 anos, tinha apenas dias de vida, segundo os médicos
– diagnosticado com dois tipos de cancro, o adolescente contava as horas até à
próxima dose de morfina. // 2. Vereador. Acafelou. // 3. Tipo de memória mais usada nos
computadores. O m. q. raridade. // 4. Género de plantas a que pertencem a erva-moura,
a batateira, o tabaco, etc. // 5. Muito oiro. Som imitativo da campainha. // 6. Emprega-se
para excitar ou animar (interj.). Cargo, função ou dignidade de deão. // 7. “O grande erro do
século XX foi acharmos que o amor era só um sentimento que vai e vem – na realidade,
é um ato de vontade e inteligência” – entrevista ao psiquiatra e (…) espanhol Enrique
Rojas, o homem do momento em Espanha. Extraterrestre (abrev.). // 8. Ecoo. Nome de
duas espécies de cotovias. Vende a crédito. // 9. Cultivador. Ave pernalta africana.
// 10. Letra do alfabeto arábico. Cerimónia pública e solene (pl.). // 11. Contr. do pron.
pess. compl. “lhe” ou “lhes” com o pron. pess. compl. ou pron. dem. “a”. Violino fabricado
em Cremona (Itália). >> VERTICAIS >> 1. Os melhores locais para voltar à costa
antes do (…) – a VISÃO percorreu o País à beira-mar para, do Sotavento Algarvio ao
Alto Minho, descobrir os melhores sítios para regressar ao Litoral antes das enchentes
estivais. Conjunto das pessoas mais cultas. // 2. Sufixo de filiação, descendência. Tenho a
natureza de. // 3. Órgão excretor que tem a função de formação da urina. Paulo Paiva dos
Santos, fundador da farmacêutica portuguesa Generis, vai promover uma campanha de
(…) de fundos para manter de pé a colónia balnear d’ “O Século” – o objetivo é levar 640
crianças à praia e angariar mais 100 mil euros para a obra social da fundação. // 4. Artigo
antigo. Brotar. Basta. // 5. Referente aos gregos modernos. // 6. Causa inquietação. Extrair.
// 7. Altar cristão. Capital do Catar. A ti. // 8. O ranger os dentes. Grau de abaixamento ou
elevação de voz. // 9. Planta anual da família das compostas. Pequeno instrumento de
madeira roliço com que se fia. // 10. Ecoa. Representação abstrata e geral de um objeto
ou relação. // 11. A minha pessoa. Terra que se amontoa em volta das árvores.
Contr. da prep. “de” com o art. def. “a”.

>> Q U I Z >> 1. C. // 2. B // 3. A // 4. B // 5. C // 6. B // 7. C // 8. C // 9. A // 10. B


SOLUÇÕES

// 4. El, Sair, Tá. // 5. Romai, // 6. Abala, Tirar. // 7. Ara, Doa, Te. // 8. Frender, Tom. // 9. Arzola, Fuso. // 10. Soa, Ideia. // 11. Eu, Amota, Da.
// 8. Soo, Cia, Fia. // 9. Cultor, Tua. // 10. Há, Atos. // 11. Lha, Cremona. >> VERTICAIS >> 1. Verão, Escol. // 2. Ada, Sou. // 3. Rim, Recolha.
>> HORIZONTAIS >> 1. Vareja, Fase. // 2. Edil, Barrou. // 3. RAM, Rareza. // 4. Solano. // 5. Oirama, Dlim. // 6. Eia, Deado. // 7. Escritor, Et.

Sudoku DIFÍCIL Quiz


POR PEDRO DIAS DE ALMEIDA

1. Onde nasceu, em 1842, 6. Quem realizou o filme


o escritor Antero de Quental? Papa Francisco: Um Homem
A. Funchal de Palavra?
B. Angra do Heroísmo A. Martin Scorsese
C. Ponta Delgada B. Wim Wenders
C. Paolo Sorrentino
2. No Fame é o novo disco de...
A. Kanye West 7. Qual destes romances
B. Agir não é de Vergílio Ferreira?
C. Françoise Hardy A. Até ao Fim
B. Para Sempre
3. Qual o Sir que Herman José cari- C. Outrora Agora
caturou num sketch transmitido nas
semifinais do festival da Eurovisão? 8. Onde fica o centro comercial
A. Sir David Attenborough Palácio do Gelo?
B. Sir Mick Jagger A. Guarda
C. Sir Elton John B. Covilhã
C. Viseu
4. Quantos andares tem o Empire
State Building, arranha-céus 9. Em que ano aconteceu
inaugurado em 1931, em Nova Iorque? a primeira edição
A. 82 do Festival de Cinema
B. 102 de Cannes?
C. 115 A. 1946
B. 1955
5. Onde fica o Museu dos C. 1964
Descobrimentos, inaugurado
em 2009? 10. Onde fica o Estádio do Mar?
A. Sagres A. Aveiro
DÊ-NOS NOTÍCIAS > T.21 469 8101 > T. 22 043 7025 B. Vila Nova de Gaia B. Matosinhos
> VISAOSE7E@VISAO.PT C. Belmonte C. Loulé

128 VISÃO 17 MAIO 2018


Proprietária/Editora: TRUST IN NEWS, UNIPESSOAL LDA.
Sede: Rua Rodrigo Reinel, 9, 1.º - Esq. 1400-319 Lisboa.
NIPC: 514674520.
Gerência da TRUST IN NEWS: Luís Delgado,
Filipe Passadouro e Cláudia Serra Campos.
Composição do Capital da Entidade Proprietária: 10.000,00 euros,
Principal acionista: Luís Delgado (100%)
Publisher: Mafalda Anjos
GUERLAIN
Terracota Summer Escape

APETECE-LHE FUGIR DE TUDO? Desesperadamente


Diretora: Mafalda Anjos à espera do verão? A coleção Terracotta Summer
Di­re­to­r-Executivo: Rui Ta­va­res Gue­des Escape de Guerlain CONVIDA-A A VIAJAR... Embarque
Subdiretora: Sara Belo Luís
Edi­to­res-Exe­cu­ti­vos: Catarina Guerreiro e Filipe Luís
de imediato com destino a três ilhas paradisíacas,
Ga­bi­ne­te Edi­to­rial: Jo­sé Car­los de Vas­con­ce­los (Coor­de­na­dor) nos passos de globetrotters apaixonadas pelo sol e
EXAME/Economia: Tiago Freire (diretor) desejosas de fugir às rotinas quotidianas... Aventureiras,
Edi­to­res: Alexandra Correia (So­cie­da­de), Fi­li­pe Fia­lho (Mun­do), Inês Be­lo românticas ou glamorosas, só têm um desejo: EXIBIR
(VISÃO Se7e), João Car­los Men­des (Grafismo), Ma­nuel Bar­ros Mou­ra (vi­sao.pt)
e Pe­dro Dias de Al­mei­da (Cul­tu­ra)
A INTENSIDADE DO SEU BRONZEADO, intensificar
Re­datores Prin­ci­pais e Gran­des Re­pór­te­res: Cláudia Lobo, José Plácido a luminosidade vibrante da sua pele e USAR AS
Júnior, Mi­guel Car­va­lho, Patrícia Fonseca e Ro­sa Rue­la CORES MAIS ALEGRES. Nós também queremos!
Re­da­ção: André Moreira, Carmo Lico (online), Cesaltina Pinto, Cla­ra Car­do­so,
Cla­ra Soa­res, Clara Teixeira, Flor­be­la Al­ves (Coor­de­na­do­ra VI­SÃO Se7e/Por­to),
Joana Loureiro, José Pedro Mozos, Luí­sa Oli­vei­ra, Luís Ri­bei­ro (Coor­de­na­do­r
Sociedade), Margarida Vaqueiro Lopes, Nuno Aguiar, Octávio Lousada Oliveira,
Paulo C. Santos, Paulo Zacarias Gomes, Rosário Mello e Castro (Coor­de­na­do­ra VI­SÃO
CARITA PARIS Les Précis
Sete), Rui Antunes, San­dra Pin­to, Sa­ra Ro­dri­gues, Sara Santos (redes sociais), Sa­ra Sá,
Síl­via Caneco, Síl­via Sou­to Cu­nha, Só­nia Ca­lhei­ros, Su­sa­na Lo­pes Faustino, Su­sa­na
Silva Oli­vei­ra, Te­re­sa Cam­pos (Coordenadora Radar) e Vânia Maia Quatro concentrados específicos para uma pele
Gra­fis­mo: Pau­lo Reis (Editor adjunto), Te­re­sa Sen­go (Coor­de­na­do­ra), perfeita a qualquer momento. Cada uma das 4
Ana Ri­ta Ro­sa, Edgar Antunes, Hugo Filipe e Patrícia Pereira
fórmulas contém ingredientes ativos essenciais
In­fo­gra­fia: Álva­ro Ro­sen­do e Ma­nue­la To­mé
Fo­to­gra­fia: Fer­nan­do Ne­grei­ra (Coordenador), Diana Tinoco, concentrados para uma ação específica e uma eficácia
José Carlos Carvalho, Lucília Monteiro, Luís Barra e Marcos Borga ótima. Glicopolímero marinho para um concentrado
Co­pydesk: Rui Car­va­lho alisador; Ácido Hialurónico para um concentrado
Se­cre­ta­ria­do: Sofia Vicente (Di­reção), Te­re­sa Ro­dri­gues (Coor­de­na­do­ra), hidro-redensificador; 10% de vitamina C para um
Ana Pau­la Fi­guei­re­do e Luís Pin­to
Co­lunistas: Adolfo Mesquita Nunes, An­tó­nio Lo­bo An­tu­nes, Capicua, concentrado revelador da luminosidade; AHA para
Ger­ma­no Sil­va, Isabel Moreira, João Semedo, José Eduardo Martins, Paul Krugman, um concentrado anti-imperfeições da textura.
Pe­dro Nor­ton, Ricardo Araújo Pereira, Rita Rato e Thomas Piketty
Co­la­bo­ra­do­res Texto: Manuel Gonçalves da Silva, Manuel Halpern, Mi­guel Ju­das
Ilus­tra­ção: João Fazenda (Boca do Inferno), Susa Monteiro (António Lobo Antunes)
Centro de Documentação: Gesco
Redação, Administração e Serviços Comerciais: Rua Calvet de Magalhães,
TOMMY HILFIGERSporty and cool this summer!
nº 242, 2770-022 Paço de Arcos – Tel.: 214 698 000 Fax: 214 698 500
Delegação Norte: Rua Conselheiro Costa Braga nº 502 – 4450-102 MATOSINHOS
Telefone – 220 993 810 Inspire-se nas novidades Tommy Hilfiger Watches
Marketing: Marta Silva Carvalho (diretora) e Teresa Gomes (gestora de marca)
& Jewelry que prometem trazer
Publicidade: Directora Comercial – Vânia Delgado – vdelgado@trustinnews.pt
Directora Coordenadora Publicidade – Maria João Costa – mjcosta@trustinnews.pt ainda mais estilo a este verão.
Gestora de Marca – Ana Ribas – aribas@trustinnews.pt Náutico e desportivo?
Gestor de Marca – José Carolino – jcarolino@trustinnews.pt Yes please! O relógio
Gestora de Marca – Mariana Jesus – mjesus@trustinnews.pt multifunções da Tommy
Assistente Comercial – Elisabete Anacleto – eanacleto@trustinnews.pt
Assistente Comercial – Florbela Figueiras – ffigueiras@trustinnews.pt Hilfiger Watches surge
Delegação Porto: Gestora marca – Margarida Vasconcelos este verão para o
– mvasconcelos@trustinnews.pt acompanhar em todas
Assistente Comercial – Rita Gencsi – rgencsi@trustinnews.pt as aventuras, sejam à
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beira-mar ou na cidade.
Branded Content: Directora – Rita Ibérico Nogueira – rnogueira@trustinnews.pt
Produção, circulação e assinaturas: Vasco Fernandez (Diretor), LISBON MARRIOTT O novo modelo, com
Nuno Carvalho, Nuno Gonçalves, Pedro Guilhermino e Paulo Duarte (Produtores).
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Hotel. O evento vai reunir no jardim uma seleção de complemento ideal para os dias mais quentes da estação.
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e exclusiva responsabilidade dos anunciantes e agências ou empresas
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fins, inclusive comerciais. petiscos, música, animação e outras surpresas.
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de venda aderentes, locais habituais como Fnac,
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Party” terá um custo de 10 ¤ com oferta de petisco
ASSINATURAS e copo de prova, no dia do evento o mesmo bilhete
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custará 15 ¤ e terá de oferta o copo de prova.
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Dias úteis – 9h às 19h
BOCA DO INFERNO

A sedução do nojo
POR RICARDO ARAÚJO PEREIRA

A
extraordinária popularidade da palavra bastante diferentes. A expressão “uma pessoa no-
nojo no debate público português só tem jenta” tanto pode designar uma pessoa que mete
duas explicações possíveis: ou Portugal nojo como uma pessoa que se deixa enojar com
está cada vez mais nojento ou os inter- facilidade. Ou seja, quando acusamos os outros de
venientes no debate têm um vocabulário serem nojentos, estamos a ser nojentos. E fica difícil
cada vez menos vasto. Inclino-me para a distinguir o nojento que inflige nojo do nojento que
segunda hipótese. Portugal tem muitos sofre nojo – o que acaba por ser nojento. Além do
defeitos, mas (mesmo sem estar na posse mais, estar sempre a bradar nojo parece mesmo
de dados do INE) parece-me que se tem coisa de mete-nojo.
mantido relativamente estável em ter- E há ainda uma questão adicional. No nosso com-
mos de nojo – o que contrasta com a cada vez maior plexo idioma, o nojo não é necessariamente mau.
frequência com que se assinala a ocorrência de múl- É frequente, por exemplo, determinada sobremesa
tiplos nojos: a divulgação de certos vídeos é um nojo; ser tão boa que até mete nojo. Fica claro, por isso,
determinado artigo de jornal é um nojo; esta opinião que é preciso encontrar outra estratégia para dimi-
é um nojo; aquela gente mete nojo; essa pergunta é nuir preguiçosamente o adversário. Esta é um nojo.
um completo nojo. A discussão decorre, pelos vistos, visao@visao.pt
numa pocilga argumentativa e o objectivo é ser o
primeiro a apontar o nojo da posição do adversário.
A grande vantagem deste modelo é a rapidez. Não
é preciso aperfeiçoar argumentos e debater: não se
discute com o nojo. Há a nossa opinião e o resto é
nojo. Quem decreta nojo encontra-se numa imba-
tível posição de superioridade moral: é, ao mesmo
tempo, mais sensível e mais limpo do que o seu opo-
sitor, que é demasiado bruto e porco para perceber
que está a ser nojento. Após sentenciado o nojo, não
há discussão: aguarda-se que o nojento seja retirado
da presença das pessoas asseadas.
Este vómito perpétuo tem o mérito de introduzir
alguma energia num ambiente que costuma ser titu-
beante. Num país em que os factos são sempre ale-
gados, é bom que o nojo seja comprovado. Podemos
não ter a certeza de nada, mas sabemos
que é nojento. Sempre conseguimos
agarrar-nos a qualquer coisa.
O problema deste método é que, em
português, a palavra nojo tem significados

No nosso complexo idioma,


ILUSTRAÇÃO: JOÃO FAZENDA

o nojo não é necessariamente


mau. É frequente, por exemplo,
determinada sobremesa ser
tão boa que até mete nojo

130 VISÃO 17 MAIO 2018


anos

25 ANOS
A CELEBRAR
OS SEUS PROJETOS
Chegámos a Portugal em 1993. Vimos o país a mudar, a evoluir e a tornar-se grande. E, claro, crescemos com ele. Retribuímos
apoiando a concretização dos projetos de mais de um milhão de portugueses, nos momentos mais importantes das suas vidas.
Acompanhámos os sucessos dos parceiros e comemorámos as conquistas em equipa. Hoje, festejamos 25 anos de ideias que
ganharam vida, de projetos que se tornaram reais e de votos de confiança que se traduziram em prémios. Obrigado por celebrar
estes momentos connosco.

Um crédito claro. Há 25 anos no Cetelem.

Categoria: Pequeno e Médio Banco.


Estes 3 prémios são da exclusiva responsabilidade das entidades que o atribuíram.

Cetelem é uma marca do Banco BNP Paribas Personal Finance S.A. Rua Galileu Galilei, n.º 2, 8º Piso – Torre Ocidente Centro Colombo, 1500-392 Lisboa. cetelem.pt