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Literatura Brasileira e Portuguesa II

Aula 3
Pré-Modernismo e Transição no Brasil
Objetivo:

Pretende-se que, ao final da aula, o aluno reconheça


as características do Pré-Modernismo, bem como o
contexto no qual ele surgiu e seus principais
representantes no Brasil.
Palavras-Chave: Século XX; Vanguardas; Transição;
Pré-Modernismo.
Livros da disciplina
http://unopar.bv3.digitalpages.com.br/users/publications/9788581439662
Pré-modernismo
Período de transição: mistura valores conservadores e
renovadores;
Conservadorismo: A permanência de traços estético-
ideológicos do século XIX (Realismo-Naturalismo, na prosa;
Parnasianismo-Simbolismo, na poesia);
Renovação: Interesse dos novos escritores em mostrar a
realidade brasileira da época: "Radiografia crítica do país".
Termo proposto por Tristão de Ataíde em Contribuição à
História do Modernismo (1939).
Pré-modernismo

Não constitui propriamente uma escola literária, mas


um período de transição para o Modernismo,
compreendido entre 1902, com a publicação de Os
Sertões, de Euclides da Cunha, e Canaã, de Graça Aranha,
até 1922, com a Semana de Arte Moderna.
O contexto social do Pré-modernismo
No final do século XIX e início do século XX, o mundo
passava por mudanças significativas, desencadeadas pelo
progresso das ciências. As inovações tecnológicas daquele
período (o telégrafo, o automóvel, o telefone, o aeroplano)
anunciavam um futuro promissor para a humanidade. Todo
esse período de euforia ficou conhecido como Belle
Époque.
Vídeo

Teatro Amazonas

https://www.youtube.com/watch?v=-hlObEu-Z4A – acesso
em 17 de ago. 2018
O contexto social do Pré-modernismo
Acentua-se o desenvolvimento industrial – surto de
urbanização;
Período marcado pela hegemonia política das elites do
"café-com-leite" (São Paulo e Minas Gerais);
Período de grande imigração europeia;
Eclodem diversos conflitos na história do Brasil
republicano: Revolução Federalista: Rio Grande do Sul
(1893), Revolta da Armada: Rio de Janeiro, (1894),
República de Cunani: Amapá (1895),
Guerra de Canudos: (1896).
O contexto social do Pré-modernismo

O governo republicano, concentrado nas mãos das


elites, foi marcado pela exclusão social e pelo
autoritarismo. Essa face perversa da República foi retratada
em Triste fim de Policarpo Quaresma (1911), de Lima
Barreto;
Acentua-se a desigualdade social e a pobreza de grande
parte da população;
O contexto social do Pré-modernismo
O Rio de Janeiro, capital do país, precisava se
modernizar e a população de negros e mestiços
representava um empecilho para o desenvolvimento da
cidade;
Por isso, essa parte da população instalou-se nos
subúrbios cariocas sem a menor infraestrutura. Todas essas
condições precárias dos subúrbios, sua gente e seus
hábitos foram retratadas em Clara dos Anjos (1922), de
Lima Barreto.
Autor sui generis: Augusto dos Anjos
Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos é conhecido
como um dos poetas mais críticos do seu tempo, focando
suas críticas ao idealismo egocentrista que se emergia em
sua época, e até hoje sua obra é admirada tanto por leigos
como por críticos literários.

Disponível em: https://bit.ly/2MLADyY Acesso em: 11 ago.


2018.
Autor sui generis: Augusto dos Anjos
Embora tenha publicado sua única obra de poesia,
Eu (1912), durante o período compreendido como pré-
modernista, não é possível classificá-la como tal, pois
não há nela o nacionalismo crítico, característico da
época.

Disponível em: https://bit.ly/2MaSbZc Acesso em: 11 ago. 2018.


Augusto dos Anjos
Seus poemas apresentam uma mistura de estilos que
retomam a estética naturalista-parnasiana;
Em quase 150 poemas, abordou os mais variados
temas, sempre com ênfase no pessimismo: miséria física e
social, a realidade dos indigentes leprosos e tuberculosos;
Sua poesia é reconhecidamente original. Sua
singularidade está ligada à solidão, que também caracteriza
sua angústia. O uso inusitado dos adjetivos sinestésicos por
Augusto dos Anjos cria dimensões
desconhecidas para a adjetivação
convencional.
Augusto dos Anjos
Manuel Bandeira destaca o uso das sinéreses como forma
de representar a impossibilidade da língua, ou da matéria,
para expressar os ideais do espírito. Portanto, os recursos
estilísticos de Augusto dos Anjos se reconhecem como
geniais;
As condições de nossa cultura dependente dificultam uma
expressão literária como a de Augusto dos Anjos, em que se
rompe com a imitação extemporânea da literatura europeia.
Essa ruptura de Augusto dos Anjos ter-se-ia dado menos por
uma crítica à literatura do que por uma
visão existencial, fruto de sua experiência
pessoal e temperamento, que tentou
expressar na forma de poesia.
“Psicologia de um vencido”, de Augusto dos
Anjos
Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.
“Psicologia de um vencido”, de Augusto dos
Anjos
Já o verme – este operário das ruínas –
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,


E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
(ANJOS, Augusto. Psicologia de um vencido. Disponível em:
https://bit.ly/2B66Akb Acesso em: 11 ago. 2018.)
Atividade 1

Que características do poema lido podem ser


consideradas como antilíricas? E quais retomam
aspectos da poesia tradicional?
A prosa pré-modernista
A literatura reflete os conflitos político-sociais,
retratando os tipos humanos marginalizados pela elite
brasileira: o negro, o caipira, o sertanejo, o analfabeto etc.;
Rompimento com a estilização acadêmica, incorporando
uma linguagem mais próxima da língua falada;
Literatura torna-se mais participante na sociedade, a fim
de mostrar um Brasil problemático, sem idealizações.

Disponível em: https://bit.ly/2w9gtIu Acesso em: 11 ago. 2018


A prosa pré-modernista: autores e temáticas
Alguns escritores, didaticamente denominados pré-
modernistas, optaram por revelar a realidade do Brasil,
suas contradições, seus conflitos sociais, negligenciada pela
literatura até então.
Graça Aranha, com Canaã: tem como foco central a
imigração alemã no Espírito Santo. Personagens de
destaque: Lentz e Milkau.
Euclides da Cunha, com Os Sertões, retrata a
desigualdade de um Brasil urbanizado e
politizado, de um lado, e, de outro,
um Brasil rural, brutalizado e fanatizado;
A prosa pré-modernista: autores e temáticas
Lima Barreto, com Triste fim de Policarpo Quaresma
(1915), tematizou a marginalização do subúrbio carioca do
início do século XX ;
Monteiro Lobato, com Urupês (1918) e Cidades Mortas
(1919), retratou um Brasil anacrônico e analfabeto com a
miséria dos moradores do Sudeste do país.
Os Sertões, de Euclides da Cunha
Euclides, jornalista, engenheiro e militar reformado, a
pedido do jornal O Estado de São Paulo, foi cobrir a Guerra
de Canudos, em 1897;
Ele faz minucioso estudo sobre as condições de vida do
sertanejo, e tem como ponto alto a narração e a análise das
expedições que o exército brasileiro fez a fim de derrotar
Antonio Conselheiro e seus acólitos.

Disponível em: https://bit.ly/2KNL7ME Acesso em: 11 ago. 2018


Vídeo

Os Sertões em um minuto

https://www.youtube.com/watch?v=0ycevG85mqg – acesso em
17 de ago. 2018
Os Sertões

A obra divide-se em três partes:


1. A terra: O autor apresenta os aspectos geológicos
e topográficos das regiões que medeiam entre o Rio
Grande do Norte e o sul de Minas Gerais.
Os Sertões
2. O homem: apresenta um estudo genérico, os
elementos étnicos do meio brasileiro. Fala das raças
(índio, português, negro) e sub-raças (mestiço, como
resultado do cruzamento de dois elementos étnicos:
um superior e outro inferior). Euclides, influenciado
pelas teorias do século XIX, julgava prejudicial a mistura
de raças porque o mestiço, como um intermediário,
não herdava nem a força dos antecedentes selvagens,
nem a capacidade intelectual do branco – ancestral
superior.
Os Sertões
3. A Luta: Compreende a parte mais extensa da obra. O
autor narra as quatro expedições punitivas a Canudos
até o massacre final. O caráter de denúncia contra a
insanidade do governo cresce nessa parte da obra.
Euclides acreditava que os jagunços, considerados
fascínoras pelas elites do litoral, deveriam ser
reitegrados à sociedade.
A Guerra de Canudos seria, portanto, para Euclides,
uma verdadeira tragédia nacional.
Atividade 2

Leia o trecho da obra Os Sertões, no material


complementar, e responda: De que maneira Euclides da
Cunha retrata o sertanejo?
Lima Barreto (1881-1922)

Pode-se atribuir a Lima Barreto o mérito de ter


denunciado, com maior profundidade, a condição dos
marginalizados, sobretudo dos negros;
Sua literatura representa não apenas uma acusação
contra o racismo, mas procura mostrar a opressão sofrida
pelas classes minoritárias;
O escritor mulato supera seu drama
pessoal para ser, através da literatura,
o porta-voz dos negros e dos excluídos;
Fonte da imagem: https://bit.ly/2rDSD58 Acesso em: 11 ago. 2018.
Temáticas em Lima Barreto
Sua obra, sempre voltada para a temática social,
privilegia os pobres, os suburbanos, os boêmios e os
marginalizados;
Severamente criticado pelos parnasianos em razão de
seu estilo despojado, coloquial, prosaico, antecipa uma
nova tendência de uso da linguagem literária (modernistas
brasileiros);
Criticou duramente os costumes da época, sobretudo o
sistema falido das instituições públicas.
O Triste Fim de Policarpo Quaresma
O Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, narra
a trajetória de Policarpo Quaresma, um patriota ímpar, que
causa estranheza nas pessoas pelos seus ideais e coragem;
O livro é dividido em três partes, que representam os três
grandes sonhos do personagem. Na primeira, Policarpo começa
a apreender violão. Ele busca nas modinhas brasileiras o resgate
da cultura. Na segunda, ele se muda para o sítio, buscando
assim retirar das terras brasileiras seu sustento e acreditando
que com tanta terra fértil, o melhor a ser feito era ser
aproveitado. Já na terceira e última parte,
o Major busca através de sua participação
na revolta transformar o país;
Major Policarpo não era realmente
Major, o título era só um apelido.
Clara dos Anjos
Concluído em 1922, ano da morte do autor, Clara dos
Anjos foi publicado apenas em 1948;
A história é contada no subúrbio do Rio de Janeiro. Clara
dos Anjos, filha do carteiro Joaquim dos Anjos, é uma
mulata muito bem educada por bons valores ao lado de
sua família, mas um dia se apaixona pelo malandro Cassi
Jones, um jovem ignorante, mas ruivo e descendente de
um lorde inglês. As desventuras de Clara, a humilhação e o
descaso, revelam o preconceito racial
que marcou também a vida do autor.
Vídeo

Lima Barreto, o Brasileiro do Século | Lilia Moritz


Schwarcz

https://www.youtube.com/watch?v=XeIBp7D9DBE –
acesso em 17 de ago. 2018
Monteiro Lobato (1882-1948)
José Bento Monteiro Lobato nasceu em Taubaté, em
1882. Homem de grande diversidade e talento foi
considerado gênio e pioneiro da literatura infanto-juvenil.
Formou-se em advocacia por imposição do avô, o Visconde
de Tremembé. Contudo, sua vocação era mesmo as artes:
pintura, fotografia e o mundo das letras.

Disponível em: https://abr.ai/2MHshIZ Acesso em: 11 ago. 2018


Monteiro Lobato (1882-1948)

Sua obra revela traços da estética pré-moderna:


regionalismo, denúncia dos contrastes, mazelas e
desigualdades na sociedade oligárquica na época da 1ª
República;
Regionalismo: retrata o Brasil rural (região do Vale do
Paraíba) do início do século, revelando, de forma satírica,
sentimental e patética, a decadência de sua gente.
Monteiro Lobato (1882-1948)
Os textos retratam um Brasil atrasado, tendo como
símbolo o caipira, o Jeca Tatu;
No conto "Urupês", Lobato faz a caricatura do caboclo
vagabundo, o Jeca Tatu – caipira que, marginalizado social e
historicamente, é analfabeto, sofre de desnutrição (homem
típico das regiões interioranas do país);
"Jeca Tatu não é assim, ele está assim".

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