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Ficção e Mundos Possíveis na Teoria da Arte Contemporânea:

o exemplo de Anne Cauquelin


Daniela Pinheiro Machado Kern
Doutora em Letras e Linguística (PUCRS)
Professora do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais (UFRGS)
daniela.kern@ufrgs.br

Resumo

A teoria dos mundos possíveis, primeiramente desenvolvida por Leibniz, em conjunto com seu
conceito de mônada, irá ser retomada no pensamento filosófico do século XX, repercutindo, no
meio literário, em teorias da ficção propostas por autores como Thomas Pavel (Fictional
Worlds) e Lubomír Doležel (Heterocosmica: Fiction and Possible Worlds). O presente trabalho
pretende analisar de que forma tal entendimento da ficção enquanto “criadora de mundos
possíveis” está sendo incorporado agora em outro campo, o da teoria da arte contemporânea,
como modo de lidar com a crescente importância das narrativas e dos meios digitais no cenário
artístico atual. Para tanto, propõe-se aqui a análise da obra No ângulo dos mundos possíveis, da
teórica de arte francesa Anne Cauquelin, a fim de estabelecer relações e diferenciações entre o
conceito de ficção dos mundos possíveis por ela desenvolvido e aquele corrente na teoria da
literatura contemporânea.

A filósofa, escritora e artista plástica francesa Anne Cauquelin, professora


emérita da Universidade de Paris I e bastante lida no Brasil, vem, há muitos anos,
dedicando-se à desafiadora tarefa de elaborar uma teoria geral da arte contemporânea.
Como tantos de sua geração, Cauquelin tem imensa familiaridade com o pensamento
fenomenológico de Husserl, Heidegger e Merleau-Ponty, pensamento que, quando
aplicado pela primeira vez às artes, ainda lidava com o pressuposto da existência de um
objeto artístico que pudesse ser apreciado esteticamente. No entanto, pelo menos desde
a década de 1960 o rumo das artes visuais mudou fortemente de direção, despertando
uma inquietação no meio artístico que a própria Cauquelin, em vários momentos de sua
obra, como veremos, faz questão de enfatizar. Em um livro pequeno, e nem por isso
menos influente, intitulado Arte contemporânea: uma introdução (1992), Cauquelin já
deixa entrever a preocupação que a levará, anos mais tarde, à exploração do conceito de
ficção e da teoria dos mundos possíveis. Na tentativa de compreender esses novos
horizontes artísticos marcados pela ausência dos objetos convencionais que até então
figuravam na história da arte, horizontes que se configuram com o avanço da técnica e
que se materializam na arte digital e na arte virtualizada por meio da Internet, Cauquelin
procura criar uma imagem poética que dê conta, metaforicamente, desse novo “mundo”
que se abre:
As auto-estradas da informação [...] permitem sonhar com uma Cidade
das Artes Virtuais, onde cada um seria artista sem obstáculo de tempo
nem de espaço, em resumo, quebrando o gelo das instituições rígidas e
passando através do espelho, numa viagem sem fim pelas maravilhas
da arte.1

Aquilo que Cauquelin primeiramente visualiza como uma “Cidade das Artes
Virtuais”, esse novo mundo em que não há propriamente objetos a institucionalizar e
musealizar, e sim infinitas práticas e proposições artísticas, tornará a ser perseguido em
obras posteriores, mediante o recurso a uma série de conceitos que não necessariamente
fazem parte do repertório fenomenológico corrente na crítica de arte francesa. Em
Frequentar os Incorporais: contribuição a uma teoria da arte contemporânea (2006),
uma obra que retoma a teoria dos incorporais, formulada pelos estóicos, como um
possível guia para a análise da arte contemporânea, Cauquelin aborda de modo mais
contundente o conceito de ficção. Antes de mais nada, é importante frisar que as
relações entre as teorias literárias e as artísticas enfrentaram uma série de turbulências
desde a Modernidade. Em busca da identificação das especificidades das artes visuais,
não foram poucos os artistas, críticos e teóricos de arte que passaram a rejeitar qualquer
vínculo entre suas atividades e os conceitos de narração, representação ou ficção,
associados primeiramente ao campo literário. O artista trabalharia com linhas, volumes,
cores e matéria, e não com a narração de histórias ou a representação da realidade,
função deixada à então nova técnica da fotografia. Ciente do senso comum que ainda
circula no território das artes visuais, Cauquelin propõe, cautelosamente, uma volta à
noção de ficção. Para tanto, primeiro apresenta uma definição de ficção comum e um
tanto estereotipada. À ficção pertenceriam “imagens, imaginário, apresentação in
absentia, verossímil e inverossímil, possíveis”, e também seriam características suas “a
fantasia e a leveza”, de modo que, ainda segundo sua interpretação, “a atividade
artística, que lança raízes no modo da ficção, viria aliviar o peso das realidades, em um
jogo de distanciamento e de ilusões”.2 Não é essa a definição, no entanto, que interessa
aqui à autora.

1
CAUQUELIN, Anne. Arte contemporânea: uma introdução. São Paulo: Martins Fontes, 2005. p. 159.
2
CAUQUELIN, Anne. Frequentar os Incorporais: contribuição a uma teoria da arte contemporânea. São
Paulo: Martins Fontes, 2008. p. 188.
A retomada do conceito de ficção, para Cauquelin, é uma das alternativas para a
compreensão da nova realidade da arte virtual. Não é à toa que ela chega a definir a
ficção como a “capacidade de imaginar na ausência do objeto”. 3 Uma outra nuance do
conceito de ficção que Cauquelin elabora está na associação com a ideia de afastamento,
de distanciamento presentes na virtualização digital.
Diante dessa nova realidade, cabe ao artista percorrer o “espaço que se estende
entre realidade e ficção”, espaço que será percorrido também por seu público
interagente, e que será caracterizado por uma mescla de “realidades vividas e ficção
abstrata”.4 Esse espaço, o espaço digital, é, na verdade, uma “realidade fictícia”. Dito de
outro modo, o ciberartista estabelece relações “não apenas entre os objetos que circulam
no mundo artificial, entre sites e internautas, mas também entre realidade e ficção, entre
vários modelos de mundo, entre artifício e natureza”.5 Está implicada aqui, bem
entendido, a definição de ficção como conjunto de modelos e fórmulas abstratos não
apreensíveis sensorialmente, esta sim propugnada pela autora.
O conceito de ficção, agora associado à noção de mundos possíveis, irá aparecer
com muito mais força em uma obra recente de Cauquelin, No ângulo dos mundos
possíveis (2010). Cauquelin amplia aqui seu esforço de teorização do advento dos
projetos digitais e virtuais na arte contemporânea, recorrendo dessa vez a uma
importação, a da teoria dos mundos possíveis, desenvolvida e debatida no cenário
intelectual anglo-saxão. Cauquelin, seguindo o exemplo de Deleuze, remonta às origens
da definição do virtual, mediante o estudo da noção de potência em Aristóteles,6 para
então passar àquele que é considerado o pai da teoria dos mundos possíveis, Leibniz.
Segundo Cauquelin, “A virtualidade adentra nosso universo intelectual com os mundos
possíveis de Leibniz”.7 Abramos aqui um parênteses para frisar que Deleuze já havia, na
década de 1980, chamado a atenção da comunidade artística francesa para o pensamento
de Leibniz através de sua obra A dobra: Leibniz e o Barroco (1984).8 Retornando à
Cauquelin, logo o conceito de ficção voltará a ser trabalhado pela autora, que destaca,

3
CAUQUELIN, Anne. Frequentar os Incorporais: contribuição a uma teoria da arte contemporânea. São
Paulo: Martins Fontes, 2008. p. 191.
4
CAUQUELIN, Anne. Frequentar os Incorporais: contribuição a uma teoria da arte contemporânea. São
Paulo: Martins Fontes, 2008. p. 193-194.
5
CAUQUELIN, Anne. Frequentar os Incorporais: contribuição a uma teoria da arte contemporânea. São
Paulo: Martins Fontes, 2008. p. 196.
6
CAUQUELIN, Anne. No ângulo dos mundos possíveis. São Paulo: Martins Fontes, 2011. p. 59. Para
uma comparação entre as conceituações de Aristóteles e Leibniz, cf. op. cit., p. 60.
7
CAUQUELIN, Anne. No ângulo dos mundos possíveis. São Paulo: Martins Fontes, 2011. p. 59
8
Cf. DELEUZE, Gilles. A dobra: Leibniz e o Barroco. 6. ed. Campinas: Papirus Editora, 2011.
em primeiro lugar, o modo como Aristóteles e Leibniz o valorizavam ao considerá-lo
uma espécie de “via de escape do único mundo que realmente existe”. Tal via de escape
nos ofereceria uma “pluralidade de pontos de vista”, aos quais não teríamos acesso
através, simplesmente, de nossas experiências comuns.9 Ficção e mundos possíveis se
associam, ainda que, para Lebniz, os mundos possíveis tenham realidade metafísica,
como se pode ler na Monadologia:

E assim como uma mesma cidade contemplada de diversos lados


parece totalmente outra, e sendo como que multiplicada
perspectivamente, o mesmo ocorre quando, devido à multiplicidade
infinita de substâncias simples, parece haver outros tantos universos
diferentes que, entretanto, nada mais são do que as perspectivas de um
só, segundo os diferentes pontos de vista de cada Mônada.10

Cauquelin aproveita a passagem por Leibniz para enfatizar a estreita e muitas


vezes ignorada relação entre a disciplina criada por Alexander Baumgarten, a Estética
(disciplina que entra em crise, no campo das artes visuais, justamente com as mudanças
que Cauquelin tenta ajudar a compreender), e a teoria dos mundos possíveis de Leibniz:

Pode-se dizer que a estética é uma ciência dos acessos aos mundos
possíveis. Ela tende a balizar, talhar e cultivar a passagem do possível
para o real e do real para os possíveis, contribuindo assim para nos
fazer compreender o mundo atual em sua totalidade, com sua
‘heterocosmicidade’, segundo o termo do próprio Baumgarten.11

Cauquelin propõe que talvez o que tenha restado, no senso comum do campo
teórico das artes visuais, da relação estreita entre a Estética de Baumgarten e os mundos
possíveis de Leibniz seja a desgastada imagem “a arte abre um mundo”. 12 Cauquelin, a
partir desse ponto do texto, usará tal clichê como pedra de toque e tratará de atualizá-lo,
indagando se, ao invés de abrir um mundo, a arte não abriria mundos diversos, “uma
pluralidade de mundos sobrepostos ou emaranhados”.13 Cauquelin já deixa entrever
que, ao contrário de Deleuze, não irá apresentar uma releitura profundamente pessoal

9
CAUQUELIN, Anne. No ângulo dos mundos possíveis. São Paulo: Martins Fontes, 2011. p. 69-70 e p.
71.
10
LEIBNIZ, G. W. Discurso de metafísica e outros textos. São Paulo: Martins Fontes, 2004. p. 141.
11
CAUQUELIN, Anne. No ângulo dos mundos possíveis. São Paulo: Martins Fontes, 2011. p. 69-70 e p.
73. O conceito de heterocosmicidade terá, de resto, importância central em DOLEZEL, Lubomir.
Heterocósmica: ficción y mundos posibles. Madrid: Arco/Libros, 1999. Já sobre as relações possíveis
entre a teoria de Leibniz, a Estética de Baumgarten e a releitura leibniziana empreendida por Deleuze cf.
KAISER, Barbara. On aesthetics, aisthetics and sensation – reading Baumgarten with Leibniz with
Deleuze. Esttetica: Tijdschrift voor Kuns em Filosofie, Amsterdam, 2011. Disponível em:
http://www.estheticatijdschrift.nl/magazine/2011/artikelen/aesthetics-aisthetics-and-sensation-
%E2%80%93-reading-baumgarten-leibniz-deleuze. Acesso em: 01 jan. 2013.
12
CAUQUELIN, Anne. No ângulo dos mundos possíveis. São Paulo: Martins Fontes, 2011. p. 83.
13
CAUQUELIN, Anne. No ângulo dos mundos possíveis. São Paulo: Martins Fontes, 2011. p. 84.
dos mundos possíveis de Leibniz. O que ela se propõe a fazer é discutir a tradição de
pensamento anglo-saxão que enfrenta sérias resistências na França. Daí a necessidade
de lançar luz sobre a própria existência de tais resistências: “...introduzir outro tipo de
discurso é tido como superficial, pragmático e ‘anglo-saxão’”.14 Mas Cauquelin adota
previdentemente, como estratégia, não discutir as versões anglo-saxônicas da teoria dos
mundos possíveis sem antes rememorar a noção de abertura de mundo no pensamento
de Heidegger e de Merleau-Ponty, ou seja, sem antes retomar as concepções
fenomenológicas bem aceitas na França. A autora conclui essa retomada da ideia de
mundo como leitmotiv em Merleau-Ponty,15 por exemplo, a ideia de que “Dentro e pelas
obras é que o mundo se tornaria visível”,16 comparando então a imagem
fenomenológica da obra como abertura para o mundo, uma abertura vertical ou mesmo
um salto, com a dos mundos como extensão propostos por filósofos analíticos e
semiólogos, sobretudo (mas não somente) no cenário intelectual anglo-saxônico.17 A
concepção de abertura de mundos, na visão de Cauquelin, permaneceu diferente em
essência nas duas tradições de pensamento: “O tema da abertura, embora tão pregnante,
não conduziu aos mundos plurais, e a arte abriu tão somente seu próprio
aprofundamento em forma de mundo. Não há nenhum exterior, nenhum escape além da
essência da arte”.18 Cauquelin não deixa de apontar o fundo religioso perceptível em tal
concepção fenomenológica de mundo, a pressuposição de uma “metafísica da arte”, que
prevalece nos textos da crítica de arte francesa, em sua opinião.19

Agora cada vez mais próxima das teorias atuais dos mundos possíveis,
Cauquelin passa rapidamente por Nelson Goodman e por Umberto Eco. Ambos se
vinculam de um modo ou outro a essas teorias, ainda que Cauquelin não explore em
profundidade esse aspecto. Goodman, por exemplo, em Ways of worldmaking, deixa
claro o seu relativismo radical quando renuncia a qualquer especulação sobre a origem
ou a natureza dos mundos possíveis:

14
CAUQUELIN, Anne. No ângulo dos mundos possíveis. São Paulo: Martins Fontes, 2011. p. 85.
15
CAUQUELIN, Anne. No ângulo dos mundos possíveis. São Paulo: Martins Fontes, 2011. p. 87.
16
CAUQUELIN, Anne. No ângulo dos mundos possíveis. São Paulo: Martins Fontes, 2011. p. 90-91.
17
CAUQUELIN, Anne. No ângulo dos mundos possíveis. São Paulo: Martins Fontes, 2011. p. 95.
18
CAUQUELIN, Anne. No ângulo dos mundos possíveis. São Paulo: Martins Fontes, 2011. p. 98.
19
CAUQUELIN, Anne. No ângulo dos mundos possíveis. São Paulo: Martins Fontes, 2011. p. 99.
... but the search for a universal or necessary beginning is best left to
theology. My interest here is rather with the processes involved in
building a world out of others.20

Para Goodman os mundos são construções humanas e intencionais. Mundos


envolvem representações, logo, eleição e costume: “Se a representação é uma questão
de escolha e a correcção uma questão de informação, o realismo é uma questão de
hábito”.21

Já Umberto Eco se engajou criticamente na discussão sobre os mundos possíveis


sobretudo em Lector in Fabula, de 1979 (ainda que Cauquelin conceda maior atenção
ao seu Obra aberta, de 1962, obra de grande circulação na área das artes visuais). Eco
ali também ataca o argumento de que mundos possíveis (culturais) pudessem ter
substancialidade, defendido por semioticistas como Volli:

O que interessa a uma semiótica textual é a representação estrutural


dessas possibilidades, e não a trabalhosa indagação que Volli [...] faz
quando pergunta se ele existe em todos os mundos que espera,
imagina ou sonha, ou só naquele em que afirma existir. [...]. Um
mundo cultural é mobiliado, mas nem por isso é substantivo. Dizer
que se pode descrever esse mundo pleno em termos de indivíduos-
propriedade, isso significa afirmar que ele se atribui alguma
substancialidade.22

Voltando ao raciocínio de Cauquelin, o terreno agora está preparado para o que


ela chama de abordagem extensionalista dos mundos possíveis. Ainda mantendo os
paralelos com o horizonte fenomenológico, Cauquelin introduz mais algumas
características desse extensionalismo:

Ao se distanciar de uma metafísica da arte, a versão extensionalista


coloca os problemas de perspectivas e horizontes de maneira mais
concreta, e segundo um espectro mais amplo: com efeito, a pintura
(Merleau-Ponty com Cézanne) e a poesia (Heidegger com Hölderlin)
já não são as principais figuras convocadas: [...] a identidade das
obras, ao invés de ser colocada de saída como um tema autêntico
dependendo de uma revelação da verdade, torna-se sujeita a
controvérsias.23

Deixando para trás Heidegger e Merleau-Ponty, remando contra a corrente


fenomenológica da teoria da arte francesa, Cauquelin mergulha nas teorias sobre

20
GOODMAN, Nelson. Ways of worldmaking. Indianápolis, Indiana: Hackett Publishing, 1978. p. 7.
21
GOODMAN, Nelson. Linguagens da arte: uma abordagem a uma teoria dos símbolos. Lisboa:
Gradiva, 2006. p. 68.
22
ECO, Umberto. Lector in Fabula: a cooperação interpretativa nos textos narrativos. 2. ed. São Paulo:
Perspectiva, 2004. p. 107.
23
CAUQUELIN, Anne. No ângulo dos mundos possíveis. São Paulo: Martins Fontes, 2011. p. 117.
mundos possíveis desenvolvidas entre as décadas de 1960 e 1980 pelos filósofos Saul
Kripke (considerado o primeiro a resgatar tal teoria de Leibniz na filosofia), Jaako
Hintikka e, em especial, David Lewis.24 Em suas próprias palavras, trata-se de
“abandonar as zonas obscuras da ontologia” em prol de “uma visão pragmática da
obra”.25 Entre os autores recém citados, sem dúvida a preferência de Cauquelin vai para
David Lewis. Logo no começo de sua obra magna sobre o tema, On the Plurality of
Worlds (1986), Lewis anuncia o que chama de realismo modal, a ideia de que vivemos
em um mundo que é “but one world among many”. Segundo ele “There are so many
other worlds, in fact, that absolutely every way that world could possibly be is a way
that some world is”.26 Diferentemente de Goodman, Lewis não acredita que façamos
mundos:

We make languages and concepts and descriptions and imaginary


representations that apply to worlds. We make stipulations that
select some worlds rather than others for our attention. Some of us
even make assertions to the effect that other worlds exist. But none
of these things we make are the worlds themselves.27

Todos esses mundos possíveis, apresentada por Lewis em termos que não são
metafísico-religiosos, Cauquelin interpreta como sendo “acobertados pela ficção”,
mundos que envolvem “o núcleo duro da realidade” e que equivaleriam aos “mundos
artificiais elaborados pela técnica”.28 Esta última aproximação entre mundos possíveis
acessados pela ficção e os ambientes tecnológicos virtuais, cada vez mais presentes
também na arte contemporânea, pode ser percebida aqui como uma apropriação
eminentemente metafórica do conceito, que talvez passe longe das intenções iniciais de
Lewis, por exemplo. Cauquelin equivale com muita facilidade conceitos com
especificidades próprias, como os de mundos possíveis ou alternos e de ficção – alguns
teóricos contemporâneos da literatura, como Pavel, Dolezel e Ronen, são mais
cuidadosos nas definições de tais termos. Assim procedendo, Cauquelin se enquadra em
alguns momentos de sua argumentação em uma prática que marca parte da transferência
de conceitos entre áreas distintas das chamadas Humanidades: o uso poético e

24
CAUQUELIN, Anne. No ângulo dos mundos possíveis. São Paulo: Martins Fontes, 2011. p. 120.
25
CAUQUELIN, Anne. No ângulo dos mundos possíveis. São Paulo: Martins Fontes, 2011. p. 121.
26
LEWIS, David K. On the Plurality of Worlds. Oxford: Blackwell, 1986. p. 2.
27
LEWIS, David K. On the Plurality of Worlds. Oxford: Blackwell, 1986. p. 3.
28
CAUQUELIN, Anne. No ângulo dos mundos possíveis. São Paulo: Martins Fontes, 2011. p. 166.
metafórico de termos descolados de contexto e não adequadamente testados nos novos
campos em que são implantados.

Outro ponto que merece destaque é o fato de Cauquelin se ocupar em tornar


palatável a teoria dos mundos possíveis de Lewis a um público mais amplo, prevendo
em vários momentos os argumentos contrários e insistindo na existência (ainda que não
na atualidade) desses mundos:

Percebe-se que não faltam argumentos contra a hipótese da realidade


desses mundos. Lewis refuta-os palmo a palmo e ponto por ponto: É,
todavia, de outra maneira, por um outro viés, que essa hipótese é útil e
defensável. Há que encontra-la, ao que me parece, numa prática da
contraparte.29

O realismo modal de Lewis é uma solução tentadora para o já tão alardeado


pluralismo do cenário artístico contemporâneo, e Cauquelin chega a afirmar que “o
realismo modal é a melhor teoria possível para pensar aquilo que se relaciona à arte”.30
Essa defesa é reforçada nas páginas finais de No ângulo dos mundos possíveis:

Devemos a David Lewis uma hipótese que satisfaz inúmeras


interrogações a esse respeito. Segundo ele, se considerarmos a
realidade dos mundos alternos como uma ‘hipótese útil’,
conseguiremos aceitar a realidade dos outros mundos e, quem sabe,
contrariamente à intuição comum, acreditar neles.31

Os mundos possíveis de Lewis aportam ao campo da arte contemporânea, para


Cauquelin, um relativismo ontológico saudável.32 Por outro lado, não deixa de ser
curioso observar que alguns dos argumentos admirados por Cauquelin em Lewis estão
justamente entre os mais criticados por estudiosos da literatura que pesquisam
contemporaneamente o tema. Pavel insiste no extremismo do realismo modal de
Lewis,33 e Ruth Ronen o acusa de “extravagância ontológica”.34

A teoria dos mundos possíveis, como Cauquelin bem percebeu, se por um lado
permite o entendimento da ficção não como uma propriedade textual ou como um

29
CAUQUELIN, Anne. No ângulo dos mundos possíveis. São Paulo: Martins Fontes, 2011. p. 250.
30
CAUQUELIN, Anne. No ângulo dos mundos possíveis. São Paulo: Martins Fontes, 2011. p. 125.
31
CAUQUELIN, Anne. No ângulo dos mundos possíveis. São Paulo: Martins Fontes, 2011. p. 242.
32
CAUQUELIN, Anne. No ângulo dos mundos possíveis. São Paulo: Martins Fontes, 2011. p. 260-261:
33
PAVEL, Thomas G. Fictional Worlds. Cambridge, Massachusetts; London, England: Harvard
University Press, 1986. p. 49.
34
RONEN, Ruth. Possible worlds in literary theory. Cambridge: Cambridge University Press, 2004. p.
22. Merece destaque ainda o modo como Ronen contrasta, na p. 24, as posições de Lewis e Goodman:
“Lewis sees all worlds as equally real and concrete (although he distinguishes between genres of worlds);
Goodman sees all worlds as versions subject to radical relativism”.
“fenômeno excepcional isolado”,35 mas como uma “estructura ‘emergente’, de orden
superior, el mundo ficcional”,36 como terreno comum às artes visuais, à literatura e à
história,37 que favorece a atenção à diversidade de perspectivas tão característica do
momento contemporâneo, por outro lado demanda atenção e cuidado redobrados em sua
complexa adaptação às diferentes áreas, pois, como insiste Ronen, “the connection
between fictionality and the philosophical concept of possible worlds is far from self-
evident”.38

Referências
CAUQUELIN, Anne. Arte contemporânea: uma introdução. São Paulo: Martins Fontes,
2005.

CAUQUELIN, Anne. Frequentar os Incorporais: contribuição a uma teoria da arte


contemporânea. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

CAUQUELIN, Anne. No ângulo dos mundos possíveis. São Paulo: Martins Fontes,
2011.

DELEUZE, Gilles. A dobra: Leibniz e o Barroco. 6. ed. Campinas: Papirus Editora,


2011.

DOLEZEL, Lubomir. Heterocósmica: ficción y mundos posibles. Madrid: Arco/Libros,


1999.

DOLEZEL, Lubomir. Possible worlds of fiction and history: the Postmodern Stage.
Baltimore: The John Hopkins University Press, 2010.

ECO, Umberto. Lector in Fabula: a cooperação interpretativa nos textos narrativos. 2.


ed. São Paulo: Perspectiva, 2004.

GOODMAN, Nelson. Linguagens da arte: uma abordagem a uma teoria dos símbolos.
Lisboa: Gradiva, 2006.

GOODMAN, Nelson. Ways of worldmaking. Indianápolis, Indiana: Hackett Publishing,


1978.

35
RONEN, Ruth. Possible worlds in literary theory. Cambridge: Cambridge University Press, 2004. p. 7.
36
DOLEZEL, Lubomir. Heterocósmica: ficción y mundos posibles. Madrid: Arco/Libros, 1999. p. 34.
37
Cf. DOLEZEL, Lubomir. Possible worlds of fiction and history: the Postmodern Stage. Baltimore: The
John Hopkins University Press, 2010. Na p. 33 ele propõe uma distinção entre mundos históricos e
ficcionais, apresentando neste ponto leitura mais nuançada do que a de Cauquelin: “Fictional worlds are
imaginary alternates of the actual world […]; historical worlds are cognitive models of the actual past”.
38
RONEN, Ruth. Possible worlds in literary theory. Cambridge: Cambridge University Press, 2004. p.
17.
KAISER, Barbara. On aesthetics, aisthetics and sensation – reading Baumgarten with
Leibniz with Deleuze. Esttetica: Tijdschrift voor Kuns em Filosofie, Amsterdam, 2011.
Disponível em: http://www.estheticatijdschrift.nl/magazine/2011/artikelen/aesthetics-
aisthetics-and-sensation-%E2%80%93-reading-baumgarten-leibniz-deleuze. Acesso
em: 01 jan. 2013.

LEIBNIZ, G. W. Discurso de metafísica e outros textos. São Paulo: Martins Fontes,


2004.

LEWIS, David K. On the Plurality of Worlds. Oxford: Blackwell, 1986.

PAVEL, Thomas G. Fictional Worlds. Cambridge, Massachusetts; London, England:


Harvard University Press, 1986.
RONEN, Ruth. Possible worlds in literary theory. Cambridge: Cambridge University
Press, 2004.

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