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Condições Físicas no Interior Estelar

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Condições Físicas no Interior Estelar

Unidade: Condições Físicas no Interior Estelar


MATERIAL TEÓRICO

Responsável pelo Conteúdo:


Profa. Dra. Lucimara Martins
Revisão Textual:
Profa. Esp. Márcia Ota

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I - Por que as estrelas evoluem?

A energia gerada dentro das estrelas requer combustível, e com o tempo


este combustível deve se esgotar. Isso causa modificações na estrutura estelar,
o que caracteriza uma evolução. Além disso, durante este processo, a própria
composição química das estrelas deve mudar. Isso altera a opacidade de suas
camadas, o que por sua vez altera o transporte de energia do interior estelar
para a superfície.

Tudo o que sabemos do interior das estrelas vem de observações do Sol


e das estrelas mais próximas, assim como de simulações computacionais das
camadas do interior estelar. Isso significa que, para refinar os modelos de como
as estrelas são criadas e mantidas, necessitamos verificar os resultados dos
modelos com as observações mais recentes.

As estrelas se mantêm por gravitação: existe uma atração exercida em


cada parte da estrela por todas as outras partes. Se essa fosse a única força
atuando, elas deveriam colapsar em direção ao centro. Isso apenas não
acontece por causa da resistência devido à pressão térmica interna. Essas
duas forças são primariamente o que determina a estrutura estelar: elas devem
estar em (pelo menos quase) equilíbrio para a estrela se manter estável (veja
Figura 1).

As estrelas estão continuamente irradiando no espaço, então


sabemos que suas propriedades térmicas são constantes ao longo do
tempo. Dessa forma, a fonte de energia nessas estrelas deve ser
constante também. Qualquer modelo ou teoria que seja formulada para
explicar as estrelas deve descrever a origem dessa energia e o
transporte desta energia para a superfície da estrela.

Figura 1 - A representação do equilíbrio


de forças no interior estelar: força
gravitacional em direção ao centro e
força devida à pressão interna em
direção ao exterior.

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Na verdade, a estrutura estelar é bastante complexa. Para descrevê-la com


precisão utilizamos conceitos de termodinâmica, física atômica, física nuclear e
teoria da gravitação. O conjunto de equações que descreve a física do interior
estelar também é complexo, e tem como variáveis a pressão, densidade,
temperatura e luminosidade da estrela. No entanto, com algumas
simplificações, é possível obter algumas estimativas das propriedades básicas.
As hipóteses levadas em consideração são:

I - simetria esférica
Assumimos que todas as estrelas são perfeitamente esféricas. Essa
suposição é muito boa para a maioria das estrelas. Apenas estrelas muito
massivas com rotação alta possuem certo achatamento nos polos.

II - ausência de rotação
Todas as estrelas possuem rotação, mas a maioria delas possuem
velocidades baixas os suficiente para que esse efeito possa ser ignorado no
cálculo da estrutura estelar.

III - ausência de campos magnéticos


Novamente, todas as estrelas possuem campos magnéticos, mas, na
maioria das estrelas, eles são fracos o suficiente para que possam ser
ignorados no cálculo da estrutura estelar.

IV - equilíbrio hidrostático
Foi mencionado anteriormente que as estrelas se mantêm estáveis
porque a força gravitacional é equilibrada pela pressão térmica (o que é
chamado de equilíbrio hidrostático). Porém as estrelas não se mantêm estáveis
indefinidamente, e muitas vezes variam de tamanho. Isso significa que o
equilíbrio hidrostático não é mais válido em determinados estágios da vida da
estrela. No entanto, as estrelas passam a maior parte do tempo estáveis, de
modo que essa consideração pode ser considerada válida.

Admite-se também que as leis da física são válidas em todo o universo.

O modelo mais simples da estrutura estelar é baseado em quatro


equações: duas representando como a matéria e a pressão variam com o raio,
e duas representando como a temperatura e a luminosidade variam com o raio.
Essas equações são:

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Equação de equilíbrio hidrostático: a cada raio, as forças devidas à pressão e à


gravidade se equilibram.

Conservação de massa: a massa total da estrela é a soma de todas as


camadas no interior

Conservação de energia: a cada raio, a variação no fluxo de energia é igual a


taxa de energia liberada

Equação de transporte: relação entre o fluxo de energia e o gradiente de


temperatura local.

Essas quatro equações são suplementadas com:

Equação de Estado: pressão de um gás em função de sua densidade e


temperatura

Opacidade: quão opaco é o gás ao campo de radiação

Taxa de geração da energia nuclear.

Vamos tentar entender o que significa cada uma destas equações.

II - Equação de Equilíbrio Hidrostático

Um fato observacional importante é que estrelas


não mudam rapidamente (pelo menos durante a maior
parte de sua vida), logo sua estrutura interna deve ser
razoavelmente estável. Na teoria de interiores
estelares, essa observação é descrita pela condição
de equilíbrio hidrostático. Como mencionado
anteriormente, isso significa que a força de atração
gravitacional da estrela é equilibrada pela pressão
térmica, como mostra a Figura 2.

Matematicamente, esta afirmação é escrita como:

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dP − GMρ
=
dr r²

Onde, no primeiro termo da equação temos a força devida à variação da


pressão interna com o raio, e no segundo termo da equação, a força
gravitacional. Nessa equação, P é pressão, r é a distância ao centro da estrela,
M é a massa e ρ é a densidade da estrela. G é a constante gravitacional e vale

6.67 x 10-8 din cm² s-2 .

III - Equação de Continuidade de Massa

Essa equação diz que a massa estelar total é igual a soma da


massa de cada uma das camadas da estrela. Isto é, que a massa
está distribuída de forma contínua através do interior estelar (não há
buracos ou espaços com massa “negativa”). Além disso, a lei de
conservação de massa diz que a massa total não muda com o tempo.

Matematicamente, essa equação é escrita da forma:

dM r
= 4 πr 2 ρ r
dr

Onde M(r) é massa contida na esfera de raio r e ρ(r) é densidade em r,


como mostra a Figura 3. O primeiro termo significa a variação da massa com o
raio, e o segundo termo diz que é o valor da massa contida na casca esférica
de raio dr.

IV - Energia estelar

No começo do século, não era absolutamente claro que as reações


nucleares fossem a principal fonte de energia das estrelas. Durante o século
XIX, quando se descobriu que a Terra era muito velha, as tentativas de explicar
a fonte de energia do Sol se mostraram extremamente difíceis. O grande
problema não era a taxa de produção de energia, mas sua duração. O Sol tem

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a mesma luminosidade por pelo menos 3.5 bilhões de anos, de acordo com
evidências geológicas atuais. Com o estudo dos elementos raioativos nas
rochas da crosta terrestre e seus produtos de decaimento, é possível estimar
por quanto tempo estas rochas têm sido sólidas, o que impede variações
apreciáveis na luminosidade solar.

Além disso, estudando fósseis nas rochas, pode-se estimar o tempo de


ocupação dos seres vivos no planeta, o que leva basicamente às mesmas
conclusões. Reações químicas ordinárias, como queima, por exemplo, não dão
a quantidade de energia necessária por tanto tempo. Se o interior do Sol fosse
composto totalmente de oxigênio e carvão, teria se queimando em cinzas em
alguns milhares de anos. O Sol não pode ser uma fornalha de queima de
carvão: não duraria tempo suficiente.

Na metade do século XIX, tanto Hermann von Helmholtz (1821 – 1894)


quanto William Thomson, o Lord Kelvin (1824 – 1907), propuseram que o Sol
brilhava porque estava liberando energia gravitacional encolhendo. Isto é, a
contração gravitacional converteria energia potencial gravitacional em energia
radiativa: metade iria em calor, metade viraria luz. Por causa da grande massa
do Sol, a taxa de contração de apenas 40 metros por ano liberaria energia
suficiente. A energia gravitacional armazenada no Sol duraria por
aproximadamente 50 milhões de anos, que é maior que a idade estimada para
a Terra naquela época. Mas, quando as investigações geológicas expandiram a
idade da Terra para bilhões de anos, os recursos de energia gravitacional do
Sol não eram mais suficientes para explicar o brilho do Sol.

No começo do século XX, Albert Einstein apresentou a ideia-chave para


explicar a energia do Sol. Na teoria da relatividade especial, massa e energia
estão relacionadas pela equação:

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E=mc

Onde E é a energia (em joules) liberada na conversão da massa m (em


quilogramas) e c é a velocidade da luz (em m/s). Considerando que c² é um
número grande (aproximadamente 9 x 10¹⁶ ), uma pequena fração de massa
armazena uma grande quantidade de energia. Por exemplo, a massa de uma
noz tem energia suficiente para iluminar toda região sudeste por um dia.

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Existem dois tipos de reações na natureza que liberam a energia presa


no núcleo de um átomo: a fissão nuclear e a fusão nuclear. No caso da fissão
nuclear, o núcleo do átomo de um elemento pesado (como urânio ou plutônio)
se separa em dois núcleos mais leves. Quando isso acontece para elementos
mais pesados que o ferro, a soma da massa desses núcleos mais leves é
menor que a massa do núcleo original. Essa diferença de massa é liberada em
forma de energia. Na fusão nuclear, o núcleo de átomos de elementos mais
leves são fundidos para criar o núcleo de um elemento mais pesado. Para
elementos mais leves que o ferro, a massa do produto final é menor que a
massa dos núcleos originais. Novamente a diferença de massa é convertida
em energia.

Nas estrelas, a energia é produzida através da fusão. A energia do Sol


vem da fusão de hidrogênio, que é o elemento mais leve que existe, e também
o mais abundante nas estrelas. A fusão de dois núcleos de hidrogênio produz
hélio, liberando 4,2 x 10-12 J de energia. Isso é uma quantidade minúscula
(acender um fósforo libera 1000 J)! Para atingir a potência do Sol, uma
quantidade extraordinária de reações deste tipo devem acontecer por segundo.
No entanto, considerando a massa total do Sol, apenas uma pequena fração
do número total de átomos precisa realizar fusão para que isso seja possível.

A equação que descreve a taxa de produção de energia nas estrelas é:

dL r
= 4 πr 2 ρε
dr

Onde L(r) é a luminosidade da estrela, r é a distância ao centro e ε é a


taxa de produção de energia (erg g-1 s-1) na região central. Essa expressão
mostra que a perda de energia da estrela deve ser compensada pela produção
de energia pelas reações nucleares.

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V – A equação de estado

Para descrever como funciona a estrutura interna das estrelas,


precisamos entender como descrever as condições físicas do material dentro
destas. Precisamos relacionar grandezas físicas como pressão, densidade e
temperatura do gás no interior da estrela. Devemos lembrar que as condições
físicas no interior estelar são muito diferentes do que estamos acostumados em
nosso dia a dia. Dentro das estrelas, a temperatura e a pressão são
elevadíssimas. Por causa dessas condições, o material no centro da estrela
não está nas formas como encontramos os materiais aqui na Terra: sólido,
líquido ou gás. No núcleo das estrelas o material está na forma de plasma.

Em física, o plasma é denominado o quarto estado da matéria e é


diferente dos sólidos, líquidos e gases no sentido de que os átomos da matéria
que o compõe estão ionizados. Isso significa que o plasma é composto de íons
(átomos sem elétrons) e elétrons, em uma distribuição quase neutra, que
possuem comportamento coletivo (veja Figura 4).

Figura4 – Os quatro estados da matéria.

O comportamento de um plasma pode ser descrito pelo formalismo de


um gás perfeito. Um gás perfeito é um modelo idealizado para o
comportamento de um gás, em que partículas pontuais se movem
aleatoriamente e não interagem. Os gases perfeitos obedecem a seguinte
equação:

P=nkT

Onde P é a pressão do gás, n é a densidade de partículas, ou seja, o número


de partículas por unidade de volume, k é uma constante chamada constante de

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Boltzman (k = 1,38 x 10-23 m² kg s-2 K-1) e T é a temperatura. Esta equação


significa que se a pressão for alta, a temperatura e/ou a densidade também
devem ser. No caso das estrelas, o equilíbrio hidrostático requer uma pressão
alta para contrabalancear a força gravitacional da estrela. Assim, nas estelas, a
temperatura e a densidade devem ser muito altas.

VI – Matéria Degenerada

O processo de queima de hidrogênio em hélio no interior estelar


continua até a exaustão do combustível nuclear. Quando isso acontece, a
pressão da radiação gerada no núcleo diminui, e a pressão gravitacional se
torna maior. Isso significa que o núcleo da estrela começa a contrair,
aumentando sua densidade. Segundo a equação dos gases perfeitos, esse
aumento na densidade deve levar a uma pressão mais alta, e por sua vez, a
uma temperatura mais alta. Porém, existe um certo limite na densidade do
meio, em que a matéria sofre uma transformação e se torna degenerada.

Quando a matéria é condensada em densidades muito altas, ela não se


comporta mais como um gás perfeito. Em um gás normal, as partículas estão
amplamente separadas, e quando “batem” umas nas outras, ricocheteiam em
sentidos contrários. Em um material altamente comprimido, existe pouco
espaço entre as partículas para que elas se movam pelo meio.

Os elétrons obedecem a uma propriedade quântica chamada princípio


de exclusão de Pauli. Esse princípio diz que dois elétrons não podem ocupar o
mesmo estado de energia. Imagine uma pequena caixa contendo um elétron
em um determinado estado de energia. Este elétron provavelmente ocupa o
estado de menor energia. Ao adicionarmos outro elétron nesta caixa, ele deve
ocupar o segundo nível de menor energia disponível, e assim por diante. No
caso de um gás de baixa densidade, deve haver vários níveis de energia
disponíveis para a ocupação. Para altas densidades, no entanto, esses níveis
são rapidamente preenchidos. Dessa forma, ao adicionarmos cada vez mais
elétrons, pelo principio de exclusão de Pauli, esses elétrons devem procurar
níveis de energia cada vez maiores, que não seriam ocupados em um gás
normal.

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Para exemplificar melhor, vamos fazer uma analogia com um balão. Por
exemplo, se colocarmos um balão cheio de um dados gás normal perto de uma
lareira acesa, o calor produzido provocará um aumento no seu volume,
consequência da temperatura do gás no interior do balão ter aumentado (de
acordo com a equação dos gases perfeitos). Se pelo contrário, colocamos o
mesmo balão em um frigorífico, o seu volume diminuirá, pois a temperatura no
interior do balão diminui. Em condições degeneradas, o gás terá um
comportamento diferente, ou seja, a pressão do gás deixa de ser função da
temperatura do gás. No caso do balão, por exemplo, se fosse possível enchê-lo
com gás degenerado, poderíamos verificar que ele não aumentaria de volume
ao aumentarmos a temperatura de seu interior.

Quando o gás se encontra degenerado, os elétrons não “orbitam” mais


em torno de um núcleo, mas encontram-se comprimidos (veja Figura 5). Uma
vez que eles tenham que obedecer ao princípio de Pauli, quando todos os
compartimentos estiverem ocupados, haverá elétrons nos estados mais altos
de energia, “pressionados” pelos elétrons ocupando os níveis de energia mais
baixos. Esses elétrons com energia mais alta são os que contribuem mais para
a pressão do gás, que neste caso é chamada de pressão de degenerescência.

Figura 5 – Esquematização da matéria degenerada.

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Anotações

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Referências

Zeilik, M., Astronomy: The Evolvin Universe, 9th Edition, Publication: SKY
AND TELESCOPE, 1997

Maciel, W., Introdução à Estrutura e Evolução Estelar, EDUSP, 1999

http://pt.wikipedia.org/wiki/Mat%C3%A9ria_degenerada

http://astro.if.ufrgs.br/evol/node13.htm

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