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TEXTO DE APOIO A AULA

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A CHAMADA


REVOLUÇÃO DOS ALFAIATES / 1798

Ao final do século XVIII, a Europa testemunhou um dos mais célebres acontecimentos


da história, a Revolução Francesa, cujo marco foi o ano de 1789, sustentada, dentre
outros valores, pela famosa tríade da “liberdade, igualdade e fraternidade”. Várias
fases pontuaram esse acontecimento que propiciou novos rumos à história dos povos,
realçando-se, consequentemente, a chamada fase do terror, quando a guilhotina
desceu sobre cabeças coroadas, inclusive sobre algumas que, contraditória e
ironicamente, arquitetaram as mudanças em curso.

Os ideais expostos em terras francesas ganharam o mundo e atravessaram fronteiras,


oceanos e mares, chegando, com adaptações e novas interpretações, aos domínios
coloniais da América, aportando no Brasil, então principal colônia portuguesa naqueles
tempos.

Na Capitania da Bahia, sob regime escravista, palco constante de movimentos sociais e


das mais variadas agitações políticas, as idéias revolucionárias ganharam adeptos,
causando sérias preocupações nas autoridades e no seio das elites dominantes,
fortemente vinculadas ao sistema opressor colonial-escravista. Através de livros e de
jornais clandestinamente chegados ao porto de Salvador, trazidos pelos que estudavam
em terras européias – e pelos seus próprios testemunhos -, assim foi se tomando
conhecimentos dos fatos alvissareiros.

Na preparação do Movimento dos Alfaiates, quando pululavam as tais idéias


inovadoras, havia, dentre os rebeldes, o objetivo primacial de promover a libertação da
Capitania da Bahia, logicamente do domínio português.

Notícias atestam que, além dos intelectuais e cidadãos de boa situação social na Bahia,
homens simples, pertencentes aos segmentos menos favorecidos da sociedade baiana
daquele conturbado período, também disseminaram tais ideais “subversivos”, no caso
em questão através dos alcunhados “papéis sediciosos”, ou seja, pequenos boletins
informativos, que clamavam pelo fim do jugo português e até pela liberdade dos
cativos da terra.

Somando-se aos escritos, a essa propaganda inteligentemente exposta nas portas dos
prédios públicos de reconhecida presença popular, no coração da cidade, dava-se, à
boca pequena, a preparação de uma reunião conspiratória à ordem vigente,
combinada para o Campo do Desterro, próximo às margens do famoso e bucólico
Dique do Tororó. Tudo isso se deu no mês de agosto dos idos de 1798.

Importante destacar, com relação a mais esse movimento contestador ocorrido na


velha “Cidade da Bahia”, o perfil dos principais condenados – as cabeças eleitas! – da
conspiração: os soldados Luis Gonzaga das Virgens e Lucas Dantas de Amorim Torres; e
os alfaiates Manoel Faustino dos Santos Lira (aprendiz) e João de Deus do Nascimento
(mestre), os quais, depois de presos e interrogados, foram enforcados em praça
pública, na conhecida Piedade, no dia 8 de novembro de 1799, seus corpos
esquartejados, talvez para exemplo e possível inibição dos que almejassem igual
objetivo de subversão à ordem estabelecida.

Interessante ressaltar que, sob o dito comando dos líderes acima supliciados, foram
identificados vários escravos e forros, portanto gente da “arraia miúda” da população
baiana, que certamente estava esgotada em face dos sofrimentos de sua cruel labuta e
condição social! O severo Tribunal da Relação da Bahia, órgão que averiguou os fatos e
inquiriu os implicados, julgou culpados esses cativos, a eles imputando pesadas
sentenças, a exemplo de castigos em público, degredos para regiões inóspitas do
Continente Africano, além de obrigá-los a assistir a execução dos seus comandantes na
macabra solenidade da Praça da Piedade. Interessante a contradição do nome do local
para tão sinistro evento!

Os escravos acreditaram, com fervor e coragem, na perspectiva da liberdade, razão por


demais emblemática para o seu efetivo envolvimento. Os que já eram forros também
tinham motivos suficientes para a rebeldia, na medida em que passavam reais
dificuldades numa sociedade excludente, de domínio branco, onde o racismo e a
intolerância aos chamados homens de cor, fossem livres ou libertos, eram
violentamente vivenciados, esmagando-os no cotidiano de suas vidas.

A Conjura Baiana, ou Sedição de 1798, ou ainda, como é mais conhecida, A Revolta dos
Alfaiates, teve importância basilar no contexto das lutas sociais da história colonial
brasileira, pois que, além da influência dos ideais revolucionários franceses, da
coragem de propugnar pela libertação da Bahia do domínio colonial português,
colocou, em sua pauta de lutas, a questão da liberdade dos cativos, contemplando aos
que nela acreditaram e que, por isso mesmo, atenderam a sua convocação, ou seja, os
escravos.

Termino essa breve abordagem com as palavras da maior autoridade no assunto, o


eminente professor Luis Henrique Dias Tavares: “Os quatro mártires do 1798 foram
enforcados e tiveram os seus corpos esquartejados...também aparecem aos pedaços,
numa lembrança de suas cabeças, mãos, braços, troncos, pernas e pés expostos na
forca e em diversos locais da cidade de Salvador de 1799. Assim permanecem até o
reconhecimento que ainda não tiveram na História do Brasil”.

Prof. Roberto Dantas


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