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Leitura feminista da história das mulheres

no Brasil

Nova História das Mulheres no familiares, educação, trabalho, escola, corpo,


beleza, sexualidade, cultura, política, imigração,
Brasil. direito, violência de gênero e formas de lazer.
PINSKY, Carla Bassanezi; PEDRO, Joana Aborda questões éticas e polêmicas relacionadas
à eutanásia, ao aborto e à contracepção. Outros
Maria. temas são ressaltados, como a atuação das mu-
lheres na imprensa feminina e como as que par-
São Paulo: Contexto, 2012, 555p.
ticiparam ativamente em guerras; discursos que
são perpassados por imagens e representações
do feminino em função dos modelos rígidos até
Instigante e, sem sombra de dúvida, ousada, os mais flexíveis, sendo inegável a contribuição
a obra Uma Nova História das Mulheres no Brasil, que baliza a produção da crítica historiográfica
publicada recentemente, contempla uma referente à história das mulheres no corrente
pluralidade de assuntos atualizados para o século século.
XXI e uma série de questionamentos sobre os Os artigos foram escritos com leveza sobre
engajamentos políticos, com temas inovadores temas complexos, abordando problemáticas
e poucos discutidos pelo campo da História e caras às conquistas das mulheres, de modo que
áreas afins. Sob a coordenação de Joana Maria podem ser lidos isolados ou de forma sequencial.
de Pedro e Carla Bassanezi Pinsky, os 22 ensaios Destinam-se aos/às estudantes, professores/as,
que a compõem abordam variados aspectos pesquisadores/as das áreas de História e Ciências
das conquistas femininas atuais, apresentando Sociais, jornalistas, profissionais das áreas do Direito,
mudanças e permanências, recorrendo, por da Saúde Pública, àqueles/as que investem em
vezes, aos fins do século XIX. políticas públicas, ativistas, militantes de
O livro conta com especialistas consagradas movimentos sociais, feministas e ONGs, os quais
na área de gênero e estudos das mulheres no encontram em suas linhas alicerces para executar
Brasil. As temáticas, recorrentes entre os textos, suas demandas e podem adquirir subsídios para
consistem na problematização dos arranjos desenvolver com mais qualidade o seu trabalho,

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de forma crítica e exequível, pois a obra atende Trajetórias femininas relacionadas a
a todos os públicos. trabalho, escola e lazer são abordadas por Silvia
Os temas oriundos das reflexões contidas Fávero Arend. Essa autora mostra como foram
nesse livro trazem, para a ordem do dia, várias elaboradas regras morais e de comportamento
modificações nas legislações civis e penais sobre para meninas e jovens mulheres, num contexto
família, aborto e divórcio, decorrentes das trans- de desigualdades que se desencadeou até o
formações pelas quais passou o país em termos século XX. A divisão sexual do trabalho, brinca-
urbanísticos, higienistas e de ordem moral. Mu- deiras de crianças, socialização dos papéis para
danças essas que faziam eco às campanhas por homens e mulheres, casamento, regras de eti-
modernização que já vinham ocorrendo desde quetas, noções de elegância teriam sido assuntos
os fins do século XIX. De acordo com Ana Silvia de pauta de médicos, pedagogos, psicólogos e
Scott, à medida que o século XX seguia o seu moralistas. A partir de análises bastante consisten-
curso, foi requerido o modelo de uma “nova famí- tes, Arend contextualiza a emergência de leis,
lia”, cuja protagonista, a mãe, teria sido responsá- como o Estatuto da Criança e do Adolescente,
vel por dispensar especial atenção ao cuidado em 1990. Ela reitera ainda suas preocupações
e à educação dos filhos, responsabilizando-se com os sentidos que a Psicologia e, sobretudo, o
pela formação moral das crianças no interior dos ponto de vista jurídico passaram a perceber
lares. Os espaços públicos teriam sido reservados acerca da adolescência e, em especial, a cono-
aos homens, vistos como provedores e chefes tação que se dá à experiência de “ser menina”.
da família. A autora destaca as mudanças ocor- Com diferentes visões e sob um ponto de
ridas na legislação brasileira quanto à formação vista inovador, a socióloga Alda Britto da Motta
de novos arranjos familiares, desatualizando a traz a temática das mulheres velhas, entrecruzan-
ideia de família nuclear, constituída somente pelo do a história e a memória. A autora ressalta as
pai, mãe e filhos. Mostra como outras formas de mudanças políticas decorrentes das ditaduras no
relacionamentos afetivos têm sido reconhecidos Brasil, por meio das quais as mulheres aparecem
pelo Supremo Tribunal da Justiça, como as uniões em luta pela anistia de seus familiares, então
homoafetivas e a permissão para esses casais presos políticos ou exilados. Atualmente, mulheres
adotarem crianças. da classe média que têm pensões, aposenta-
Com base em relatos de viajantes do final dorias, e que dispõem de tempo livre, desfrutam
do século XIX, a historiadora June E. Hahner das atividades que são designadas para a
retoma o tema da família, pontuando os sentidos “terceira idade”. Para elas são oferecidos serviços
de honra e da distinção constitutivos de modelos específicos de viagens, festas, congressos, cursos,
pautados no feminino. A honra das senhoras de grupos de convivência e universidades,
elite era baseada em sinais de pureza e recato, galgando, assim, a uma categoria social dentro
que, por sua vez, permanecia ligada à honra do mercado consumidor. Além disso, são vistas
familiar e à hierarquia social. Hahner pondera como “idosas jovens”, em razão dos avanços da
que muitas delas desempenhavam importantes ciência – medicina e saúde pública.
papéis na sociedade patriarcal. Apesar do As técnicas de beleza e de rejuvenescimen-
poder dos maridos dentro dos lares, viúvas de to não têm sido alvos da atenção somente das
fazendeiros, no interior da província de Minas idosas. Denise Bernuzzi de Sant’Anna traça os
Gerais, costumavam gerir sozinhas suas fazendas caminhos percorridos pelos cuidados de si e
e escravos, assumindo o papel e o fardo de embelezamento, aliados às técnicas modernas
seus maridos em todos os aspectos. Mulheres do século XX. É contemplada aqui a historicidade
da alta sociedade teriam desempenhado um em torno do corpo segundo as normas médicas
papel ativo durante o movimento abolicionista, e os códigos de elegância, indicando como ca-
ajudando a angariar fundos para escravos da época designa certos conceitos acerca do
libertos. Na segunda metade do século XIX, o corpo, a começar de quando a beleza física
aumento da urbanização, das exportações e era vista como uma dádiva divina na primeira
da industrialização criou uma economia mais metade do século XX. Atualmente, cirurgias
diversificada, e teria sido nesse contexto que plásticas, preenchimento facial, rejuvenescimento
crescera o letramento entre as mulheres. Essa por laser, branqueamento, aliados à indústria da
configuração possibilitou que algumas delas moda, regimes e meditação têm corroborado
exercessem uma grande influência nos assuntos para reforçar o modelo “beleza-magreza-juven-
culturais, econômicos e políticos da família, bem tude”. Desse modo, o século XXI é anunciado
como na luta pela educação e pelo direito ao como a era do culto ao corpo em toda a sua
voto. dimensão orgânica, estética, física, tonando-se

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impossível o seu enquadramento em uma rede Tema inovador é a participação feminina
de significação única. na arena política brasileira, conferindo legitimi-
Neste último século, houve vários avanços, dade e visibilidade às atividades intelectuais e
inclusive no campo da profissionalização das políticas das mulheres. Maria Ligia Prado e Stella
mulheres, embora haja muito a ser feito. Dentro Scatena Franco ponderam sobre a atuação de
do contexto da vida moderna, o trabalho mulheres em projetos a partir final do século XIX.
feminino no mercado reprodutivo é visto como Nomes como Nísia Floresta – que lutou pelo
um espaço conquistado pelas mulheres, reconhecimento da capacitação intelectual das
fomentado pela crescente urbanização, mulheres e pelo direito à educação, sendo
industrialização e imigração. Tema esse abor- considerada por muitos a primeira feminista
dado por Maria Izilda Matos e Andrea Borelli, as brasileira – ganham relevo na obra dessas autoras.
quais demostram de forma crítica as ambiguida- Igualmente, outras aparecem como protago-
des e os percalços, indicando como o trabalho nistas de lutas que abriram caminhos para as
feminino foi considerado, por muito tempo, como conquistas dos séculos que se seguiram.
uma atividade complementar ao trabalho A luta feminina pela conquista do espaço
exercido pelo chamado chefe de família. Frente público foi abordada por Rachel Soihet. Feministas
às lutas como greves e manifestações por pioneiras, como Bertha Lutz, na primeira metade
melhores salários, bem como por condições de do século XX, contribuíram para a participação
trabalho, muitas mulheres questionaram a das mulheres como membros ativos da
legislação trabalhista, denunciando os abusos, sociedade, conferindo êxito às reinvindicações
lutando por equiparação salarial e maiores sufragistas e educacionais. Enfoque desafiador é
possibilidades de ascensão nas carreiras, o que traz Joana Maria Pedro, inquirindo o/a leitor/
reivindicando a criação de creches. a a posicionar-se frente às demandas feministas
Raquel de Barros Miguel e Carmen Rial que balizaram a produção de imagens em torno
discutem como o lazer feminino é uma prática do corpo, trabalho e prazer. Com amplo poder
social, indicando as normas reguladoras que de argumentação, a autora nos instiga a pensar
ditam como as mulheres devem ocupar o seu acerca de posturas que tomamos, por vezes,
tempo, ligado às funções de mãe, esposa e dona frente à discriminação sexual e à violência de
de casa. Distintas formas de lazer no tempo são gênero, posturas essas que referendam os
citadas, desde o entretenimento das fotonovelas, sentidos que normalmente são atribuídos à
livros, novelas, até os passeios esportivos que as nomenclatura “ser feminista”.
mulheres fazem, atualmente, com os filhos, etc. No tocante à legislação, Iáris Ramalho Cortês
O consumo e os cuidados com a aparência são contextualiza a emergência e as mudanças refe-
vistos como outros requisitos imprescindíveis pelo rentes às leis civis, penais e trabalhistas, de-
círculo feminino dentro do ponto de vista do lazer. monstrando como foram significativas no sistema
Imigrantes que chegam ao Brasil e as jurídico nos últimos 100 anos. Um exemplo notável
brasileiras que emigram são retratados por Maria é a Lei Maria da Penha, que visa combater a vio-
Sílvia Bassanezi. A autora cartografa um país lência doméstica, sexual, psicológica, patrimonial
marcado por uma ampla diversidade ética e e moral. De acordo com a advogada, ainda
classe social, por uma acentuada clandestini- faltam garantias maiores para o cumprimento
dade e pela multiplicidade de relações que os de leis existentes, como políticas que viabilizem a
imigrantes estabelecem entre o local de destino participação das mulheres na vida pública.
e o de origem. Eram mulheres trazidas da Europa A violência de gênero aparece no artigo
que atuavam no mundo da prostituição em terras de Lana Lage e Maria Beatriz Nader, as quais de-
brasileiras nas décadas finais do século XIX e nas monstram com rigor as transformações concer-
primeiras do século XX. Entre as várias formas de nentes à opinião pública e jurídica com relação
migração, a autora destaca a presença de à violência contra mulheres, a partir de casos
algumas jovens pobres que adentraram no ofício que estamparam manchetes e comoveram o
como forma de sobrevivência, após serem país ao longo de 112 anos. O artigo denuncia
enganadas por homens ligados ao tráfico como muitas autoridades jurídicas, ainda hoje,
internacional de mulheres. Denuncia outras desconsideram os casos de violência contra mul-
formas de migrações em direção às fazendas heres, como uma banalização de brigas entre
cafeeiras, aos núcleos coloniais ou às cidades. casais, ao mesmo tempo que chama a atenção
Outro movimento desta natureza é o de brasileiras para as mudanças históricas nas quais a violência
envolvidas no turismo sexual fora do país. de gênero não será mais aceita em nossa socie-
dade.

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Discussões extremamente produtivas e cena nomes consagrados, como Maria Quitéria,
polêmicas sobre a contracepção e o aborto Anita Garibaldi, Ana Nery, entre outras,
são abordadas pela antropóloga Debora Diniz. A representativos em contextos de guerras. Suas
luta pela garantia às mulheres ao direito ao aborto reflexões perpassam pelas lutas pela Indepen-
continua abrindo novas perspectivas para a dência do Brasil à guerrilha contra a ditadura
própria história da sexualidade feminina. Lan- militar, pela Guerra do Paraguai, o cangaço e a
çando mão de dados reveladores de um marco Segunda Guerra Mundial, dando visibilidade à
político em favor dos direitos reprodutivos das atuação de mulheres que combateram nas
mulheres no mundo, Diniz afirma que ainda hoje guerras.
o entrecruzamento do aborto, contracepção e Tânia Regina de Luca enfatiza os diferentes
parto é indicativo de morte de muitas mulheres momentos nos quais o assunto mulheres aparece
no país. na imprensa, acompanhando as conquistas e a
Fúlvia Rosemberg reconstitui o processo da igualdade formal de direitos políticos. Também
educação das mulheres no Brasil e o papel que questiona acerca de um notável desiquilíbrio
elas desempenharam nesse terreno. Os dados entre a presença de figuras públicas masculinas
encontrados aqui permitem identificar como, e femininas no noticiário, assim como certos este-
cada vez mais, as mulheres têm se desinteressado reótipos em torno de mulheres que adentraram
por carreiras no âmbito do magistério, optando na arena do poder. Carla Bassanezi Pinsky con-
por áreas do conhecimento até então monopo- textualiza as mudanças acerca dos modelos
lizadas pelos homens. A história das mulheres rígidos e as representações imagéticas em torno
negras ganha um capítulo especial na pena de da figura feminina, contribuindo com enfoques
Bebel Nepomuceno, que contempla as dimen- inovadores quanto à percepção de determi-
sões do trabalho, educação, chefia de família, nadas expressões de época por meio das quais
mobilização e visibilidade com destaque para o muitas mulheres foram enquadradas e/ou
protagonismo exercido por elas ao longo da histó- estereotipadas. A autora mostra-se competente
ria. Apesar de algumas conquistas, muitas delas quanto à visualização de um cenário de imagens
vêm enfrentando até hoje formas de exclusão e e à sua complexidade no processo da história.
desigualdades, provocando mudanças relevan- É inegável que as reflexões contidas nesses
tes na agenda social dos governantes. textos instituem certos princípios formadores de
Outro tema abordado são as formas de uma nova teoria e práticas de se pensar os dife-
resistência e sobrevivência com as quais muitas rentes espaços das mulheres brasileiras, contribuin-
escravas tiveram que se deparar ao longo do do para o reconhecimento de nossa própria
século XIX. Maria Odila Dias mostra como elas história enquanto mulher. A obra é um marco na
enfrentaram a opressão racial, o preconceito e história das mulheres no Brasil, pois aponta, no
a violência de gênero, tanto da parte de seus mínimo, para a reavaliação de concepções e
senhores quanto de seus companheiros igual- formas múltiplas de discriminação, instigando o/
mente escravos. Emocionante é o depoimento a leitor/a a refletir e a questionar certos tabus e
da militante e socióloga Azelene Kaingáng, ao valores que permanecem em torno das mulheres
mostrar como as indígenas são capazes de se nos últimos dois séculos. Coloca ainda em xeque
impor sobre papéis sexuais, espaços políticos e certas posturas excludentes acerca do feminino,
de se fazerem representativas. A autora conta- reflexão esta que vem ao encontro da ideia de
nos sobre as tradições, mudanças de comporta- que não se devem abandonar as bandeiras de
mento e como as mulheres agem frente à luta luta, embora estas já não se traduzam com base
por reconhecimento social. O texto é inovador em verdades incontestes, e sim em verdades
porque nos informa como muitas mulheres enfren- verossímeis no que diz respeito às novas práticas
tam até hoje os costumes e a violência com a e discursos das mulheres em diversos âmbitos da
qual são tratadas no interior de suas comunidades. sociedade vigente.
Cristina Sheibe Wolf desnaturaliza estereóti-
pos em torno de mulheres que participaram de
guerras, revoltas e guerrilhas, atividade vista Gilmária Salviano Ramos
exclusivamente como sendo dos homens. Traz à Universidade Federal de Santa Catarina

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