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PORQUE
Em 1983, ecoavam na polí tica brasileira as greves
de julho e os quebra-quebras da zona sul de São
Paulo. As manifestações dos bóias- frias estavam
ainda por vir, bem como as greves dos
funcionários e os movimentos dos professores.
Temia-se pelo que viesse a ser o ano de 1984.
Agora, o perfil da transição brasileira se acha
definido. E as apreensões se transferem para 85.
Percebe-se que, uma vez mais em nossa hist ória,
DEMOCRACIA
a transição para a democracia se faz “ pelo alto”.
Este livro, escrito pelo experiente articulista
polí tico e cientista social Francisco Weffort,
.
i
discute o perí odo em que vivemos Mudamos ou
estamos mudando? Que transição é esta?
Por que Democracia?, cujo tí tulo poderia ser
também Por que não Revolução?, é um ensaio
i
polí tico, e,como tal, procura cumprir uma função:
estimular o debate da democracia entre nós.

320.9S106
W399pd rancisco C. Weffort
Exl
LEITURAS Francisco cfweffort
\


— Vol. 4 — A Era de Vargas — A. Mendes Jr.,
•Brasil Históãria
-

R. Maranh o ( orgs J
•O Colapso de uma Alianç a de Classes — L . C. Bresser Pereira
•A Concilia Autorit á rios João Almino M. Debrun
" çã o" e outras Estrat é gias — Michel
•Os Democratas —
Motta
•Empresários e Hegemonia Política — Fernando
• A Estrat égia
Amnéris Maroni
da Recusa — An á lise das Greves

•Explode um Novo Brasil — Diário da Campanha das Diretas —


de Maio / 78 —
Por que
Ricardo Kotscho
• A Fala dos Homens — Análise do Pensamento Tecnocr ático
— M. de Lourdes Covre
democracia?
• A For ç a do Povo — Democracia Participativa em Lajes — J
Márcio Moreira Alves
• Getúlio Vargas e a Oligarquia Paulista — Vavy P. Borges
• A Inven çã o Democr á tica — C /aude Lefort
— Memória Fotográfica — Div. Autores
•PCB — 1922 / 1982Quadros e a Crise Pr é-64 — M. Bandeira
• A Renúncia de J .
• A Revolução de 1930 — Bóris Fausto
• Sentido Dinâmico de Democracia — Elias Chaves Neto
• Sindicatos e DemocratizaçãPol o — R. Maranhão
• Sindicalismo no Processo ítico do Brasil — K . P. Erickson
•Sociedade e Política no Brasil Pó s 64 — Maria Herminia T. de
-

Almeida ( orgJ

Coleçã o Primeiros Passos


Marilena Chauí
3 Biblioteca MA - PUC
•O que é Ideologia G— érard
— Lebrun
• O que é Poder
Maar
•O que é Política — Wolfgang LeoFernandes ,
Nadí
• O que é Revolu ção — Florestan PUC/SP 100053457
Cole çã o Tudo é História
• A Burguesia Brasileira — Jacob Gorender
• 0 Coronelismo — Uma Polí tica de Compromissos — Maria de
Lourdes Janotti
e o Golpe de 64 — Caio N. Toledo

!Í>
• 0 Governo GoulartQuadros
• O Governo Jânio — Maria Victoria Benevides
• O Governo Juscelino Kubitschek — R. Maranhão
•O Golpe de 1954 — Armando Boito Jr .
• Os Liberais e a Crise .
da República Velha — P. G. F Vizentini
•O Movimento de 1932 — Maria Helena Capelato
L
• Revoluçã o de 30 — A Dominação Oculta — Í talo Tronca
. •%
1984
Copyright © Francisco C . Weffort

Capa :
Ettore Bottini

Revisão:
José W . S . Moraes
Gilberto D’ Ángelo Braz

*
índice
priori
l Apresentação
1« Introdu ção

PRIMEIRA PARTE
Que tradi ção é esta?
\
Uma herança de equívocos
A democracia como instrumento
E o golpe como prática habitual
\ .

vJi rt
SEGUNDA PARTE
-
Que transição é esta?

•-* Transição para onde ?


As derrotas da violência ou a questão do Estado
As derrotas da violência ou a questão da democracia .
O Estado na dianteira ou como se faz uma transição
conservadora

I
|
3!

fB
editora brasiliense s. a .
TERCEIRA PARTE
Democracia e revolução

01223 —
r . general jardim , 160 Revoluções da liberdade
são paulo — brasil Por uma democracia revolucioná ria
". . .encontrar a f órmula de um s
lismo que não sacrifique no pro
de sua construção as liberdades d
cráticas .”
(Antonio Când
Para Madalena .
Apresentação

Este livro é um argumento pela democracia no B


É pois, um ensaio político. E a minha esperança é
,
cumpra uma função política , estimulando o debate s
a questão da democracia entre nós.
Há coisa de dois anos atrás , o professor Alfred Ste
da Universidade de Columbia e um dos melhores co
cedores da política militar no Brasil, convidou-me
escrever um artigo para urna obra coletiva a ser publi
nos Estados Unidos sobre a transição brasileira . N ão s
o projetado livro veio a pú blico. Só sei que n ão fiz a m
parte.
É que , em duas outras conversas , tive a impre
de que as perguntas que Stepan me fazia sobre a trans
brasileira dariam bem um roteiro para um trabalho v
do um pú blico mais amplo. Menos a academia e ma
jovens que estão chegando à política, lideran ças sind
e populares , enfim , o pú blico em geral. Uma conversa
vim a ter com um funcioná rio da embaixada ameri
no Centro de Estudos de Cultura Contemporânea

CEDEC , onde trabalho , serviu para confirmar esta
10 FRANCISCO C. WEFFORT

Daí nasceu este livro. Como fazemos de hábito com


trabalhos realizados no CEDEC, este ensaio foi lido e dis¬
cutido por diversos colegas de trabalho que compõem a
nossa equipe. Aliás, neste caso, a equipe foi acrescida com
a participação dos professores Denis Goulet, Fabio Com-
parato e Marco Aurelio Garcia, além do próprio Stepan ,
evidentemente. À equipe do CEDEC e a estes colegas o
meu agradecimento. Agradeço também a alguns jornalis¬
tas amigos que roubaram tempo de suas atividades para
trocar idéias comigo: Almyr Gajardoni, Flavio Andrade ,
José Onofre, Mino Carta e Ruy Falcão. Evidentemente , os
pontos de vista aqui apresentados correm por minha con¬ Introduçãa
ta , bem como os possíveis erros. Mas estou certo de que
estes seriam em maior nú mero se eu não tivesse a ajuda
de tantos amigos .
POR QUE NAO REVOLUÇÃO?
Francisco C. W e f f o r t
S ão Paulo , setembro de Í 984 .
Estávamos em outubro de 1983. O assessor d
baixada americana que me procurou para conversar e
o assunto o quanto pôde. Estava visivelmente descon
Lembrou-me nú meros sobre a crise económica, o d
prego, a violência urbana . Era o quadro calamitoso q
sabe. Talvez um pouco menos ruim que o de agora.
Ainda ecoavam na política brasileira as grev
julho de 1983 e os quebra-quebras promovidos pel
sempregados da Zona Sul de São Paulo. As manifes
dos bóias-frias estavam ainda por vir , bem como as
dos funcioná rios e os movimentos dos professores .
haviam ocorrido ainda as greves dos metalú rgicos de
Redonda , no Rio de Janeiro, e da ACESITA , em
Gerais.
Para o assessor político americano isso, porém
tinha maior importâ ncia. Bastavam-lhe os números da
O resto viria como conseqiiência. “ Por que vocês
tanto em democracia no Brasil?” Ele dirigia a pe
12 FRANCISCO C. WEFFORT POR QUE DEMOCRACIA ?

da questão é muito mais geral. Em todo caso, como ele horizonte, não faltam os que falam de riscos de “ expl
tentava conversar com alguém da esquerda , a sua pergunta social ” . Em 1983, porém , as hipóteses de cataclismas e
sobre a democracia trazia embutida uma outra : “ Por que muito mais freqüentes. O debate político estava povo
n ão revolução? ” . de especulações e, como hoje, carregado de eufemism
Eram perguntas embaraçosas, e ele sabia disso . No Diplomatas , em especial os americanos, acreditam
Brasil de após 1964 e , sobretudo, de após 1968, falar de cessá rio ter a sua visão pessoal do país em que de
revolução é entrar num pâ ntano de dolorosas ambigiiida- trabalhar. Isso significa que para muitos intelectuais e
des. O golpe de 1964 chamou-se a si próprio de “ revolu ¬ líticos brasileiros já se tornou rotina receber estrange
ção redentora ” e implantou uma ditadura que já completa que querem entender do país algo mais do que dizem
20 anos. Os jovens de 1968 fizeram a luta de resistência relatórios dos seus serviços de informação. O exercíci
em nome de uma concepção da revolução. Muitos deles dominação em escala mundial tem seu preço. E este
morreram , e os que sobraram comeram o pão que o diabo tamente inclui o envio de pessoas para ouvir e infor
amassou. Não tenho nenhuma dú vida de que pessoas como este
O funcion á rio americano fazia o possível para ate ¬ cioná rio americano andam por todos os países , trabalha
nuar o constrangimento. Bom conhecedor de história , ele por uma melhor informação, ansiosos pelo que pode
apelava para a erudição, lembrando fatos de revoluções ocorrer amanhã.
passadas. Depois de algum tempo, está vamos os dois diva ¬ Eu tenho um ritual definido para situações como
gando, como bons acadêmicos, sobre as circunstâncias que Trato sempre de apresentar a minha imagem da lut
deram origem à Revolução Francesa . Mas a questão incó¬ povo brasileiro pela democracia. Sabe o que é a ideo
moda ficava no ar. “ Por que democracia? Por que não da segurança nacional ? Conhece as leis sindicais que
revolução?” damos do fascismo italiano? Sabe o que significa o
tástico Colégio Eleitoral, pedra de toque da continui
do regime atual ? É o feijão-com-arroz da nossa luta
ATRAVESSANDO O DESERTO tra a ditadura . N ão se trata , evidentemente, de ganhar
o nosso lado um funcioná rio de uma grande potê
Trata-se apenas de dizer-lhe coisas que ele dificilm
Conversas como esta são, muitas vezes, inevitáveis, ouvirá nos corredores do Palácio do Planalto, em Bra
embora bem poucas sejam realmente interessantes . A cam ¬ Neste caso, porém, a minha tática não funcio
panha das diretas ainda não havia saído às ruas e ninguém “ Por que democracia ? Por que não revolução? ” Vind
podia , naquelas circunstâ ncias, dizer , com segurança , quais um diplomata americano, uma pergunta como esta su
seriam os próximos passos da transição política brasileira . em qualquer intelectual brasileiro uma pontinha d
Na falta do que fazer, temia-se pelo que viesse a ser o ranoia .
-
ano de 1984. Especulava se sobre as predições de Orwell
para a Europa e os Estados Unidos e também sobre uma
O assessor americano não é, evidentemente, um
lucioná rio. Além disso, na conversa que tivemos , ele e
possível “ convulsão social ” no Brasil. Havia mesmo quem acompanhado de um outro funcioná rio que me pa
falasse de possibilidades de “ ruptura do tecido social ” . silencioso demais. Embora muito atento, sua particip
Hoje, mesmo depois da campanha das diretas e do se limitava a balançar a cabeça , de vez em quando
14 FRANCISCO C. WEFFORT
POR QUE DEMOCRACIA ?
que situações como essa devem ser coisa t ípica do governo
UMA TRANSIÇÃO INVEROSSÍMIL
Reagan . Ninguém no Brasil falava , naquele momento , em
revolução. Por que um diplomata americano haveria de
interessar-se pelo assunto?
Um amigo meu , a quem contei esta conversa , ficou A pergunta do americano tem sentido. A verda
ainda mais impressionado do que eu . Ele entende que o que h á algo de muito dif ícil de explicar na situação
governo Reagan anda atacado do que ele chama de “ sín tica que vivemos no Brasil de 1974 para cá . Para
drome de John Wayne ” . O fracasso da CIA no Irã , ao
¬
estrangeiro qualquer — mesmo que não seja um asse
considerar estável o agonizante regime do xá Reza Pahíevi , —
de Reagan , o quadro político destes últimos dez
tem algo de inacreditável.
teria aguçado as desconfianças americanas quanto aos paí¬
ses do chamado Terceiro Mundo. Mais do que entender os O que chamamos de transição pol í tica começou
fatos — —
os que aconteceram ou estão acontecendo , a
política externa americana viveria a angústia de compreen ¬
1974, com a “ política de distensão” do general Ge
Antes disso — de 1968 a 1974 — foi o período do
der (se possível adivinhar) o que pode vir a acontecer. lagre económico ” e também da ditadura mais violen
É como o cow -boy atravessando o deserto, perscrutando o criminosa de nossa história. Uma lógica política inspi
que há por trás do silêncio, certo de que o ataque dos no senso comum diria que o melhor momento para
índios virá , mais cedo ou mais tarde. abertura política seria aquele em que a economia s
Paranoias à parte, o fato é que a pergunta , por incó
¬
pande . Com a transição brasileira ocorre o contrá rio
moda que seja , tem sentido. Tinha sentido em 1983 e con ¬ vemos “ fechadura ” política na época de expansão e a
tinua tendo hoje. Com a habitual falta de jeito de qualquer tensão ” pol ítica começando com a depressão económ
estrangeiro em um país que não conhece, o funcion á rio Em 1979, quando o general Figueiredo inaugur
americano tocou num ponto que muitos brasileiros, em sua “ política de abertura” , em seqúência à “ distensão
especial os da esquerda , gostariam de evitar . Geisel , a depressão já havia deitado de ser indício
No campo liberal , os temores de uma “ convulsão so¬ tabelas dos economistas para se converter na experiê
cial ” permanecem . Em certo sentido, todo o curso da tran¬ diá ria de qualquer um . De lá para cá a abertura te
mantido sobre o pano de fundo de uma situação ec
-
sição brasileira , inspirando se num projeto de conciliação
mica cada vez mais grave . O que era depressão torn
cjas elites , tem raiz nesses temores. Para prevenir o risco
do que se vem chamando de “ ruptura do tecido social ” , em 1982 , quando tivemos as eleições diretas para o
procura-se impedir, a todo custo, uma ruptura da transição vernos dos estados , a mais grave crise económica de
o país tem memória .
política. E busca-se, para isso , cimentar o bloco no poder
com a argamassa forte dos interesses conservadores.
Mais talvez do que a esquerda , os liberais e os con¬ tos de nós, pelo menos — —
O inverossímil disso tudo é que os brasileiros
acreditam que estamos em
servadores pressentem a possibilidade de uma revolução. sição para a democracia . “ Temos uma sopa quente
Mas , tanto quanto a esquerda , evitam o assunto o quanto cima da mesa ” , dizia há algum tempo o ministro da A
podem. E quando não podem evitá-lo, usam de eufemis¬ náutica, Délio Jardim de Matos. "O interessante” , a
mos. As palavras perigosas
gosa de todas, revolução —— a começar pela mais peri¬
são cuidadosamente supri¬
centava ele, “ é que ninguém quer virar a mesa ” . O min
pensava , por certo, nos diversos grupos que compõe
regime do qual ele próprio faz parte. Mais interess
16 FRANCISCO C. WEFFORT POR QUE DEMOCRACIA?

vale também para o lado de cá, o dos adversá rios do re ¬ que o golpe do AI 5, de dezembro de 1968 , foi feit
gime. Queremos, evidentemente, o fim do regime. Mas isso nome da “ continuidade da revolução” ?
de virar a mesa já é uma outra história. Dos dois lados pretendia-se falar a linguagem d
De 1974 para cá , os brasileiros têm acreditado numa volução ou do que cada um dos lados entendia com
transição para a democracia , mesmo sabendo que uma
crise económica nos leva ladeira abaixo. Isso talvez fosse
f ácil de entender em um país democrá tico e está vel . Se a
Em que pesem as muitas divergências
nitivamente antagónicas — — extremas e
sobre o entendimento que
um dos lados tinha da linguagem da revolução, havia
sopa está quente , esperemos que esfrie. O problema é que menos um ponto comum: a violência. Entre 1968 e 1
o Brasil não é um bom exemplo, nem de democracia , nem n ão houve revolução, nem de um lado nem de outro.
de estabilidade política. vivemos aqueles anos sob o signo da violência . Com
Minha conversa com o assessor americano foi em plicar que muitos da esquerda , e mesmo uma boa
1983, e havia muita gente apreensiva em relação ao que da direita , tenham saído dessa fase falando ( balbucia
poderia vir a ocorrer em 1984. Estamos chegando ao fim pelo menos) a linguagem da democracia ?
de 1984 e as apreensões se transferem para 1985.
Na conversa , nós nos lembramos de 1968, que ele
conhecia de leituras e de outras entrevistas como esta. O UM JEITO NOVO DE CAMINHAR
que é que mudou tanto no Brasil de lá para cá? Em 1968,
setores da esquerda saíram à luta armada na esperança de
tornar real o sonho de uma revolução social. Não se fa ¬ O perfil da transição brasileira se acha, a estas
lava em “ ruptura do tecido social ” naquela época . Até ras, definido. Mais do que em fins de 1983, se pe
mesmo os liberais evitavam usar eufemismos. Ao mesmo agora , em fins de 1984 , que , uma vez mais em nossa
tempo, talvez até um pouco antes, setores da direita militar tória , a transição para a democracia se faz “ pelo a
preparavam mais um golpe de Estado, o do Ato Institu ¬ Em vinte anos de história , o regime segregou o que h
cional número 5, que haveria de transformar o regime de pior para dar-lhe continuidade: a candidatura P
autoritá rio em uma ditadura sangrenta. Maluf , do PDS , representante de uma nova direita ,

Dif ícil reduzir a dupla virada de 1968 a do regime e burguesa , com tons acentuados de direita fascista
e a da esquerda
— à simples eficácia dos fatores econó¬
micos. Mas seria também equivocado esquecer que vínha
mos de uma crise prolongada , que tivera início em 1961 .
¬
outro lado está uma proposta liberal , de marca acent
mente conservadora , a figura de Tancredo Neves , r
sentando o PMDB moderado e as dissidências do
Na esquerda , em especial nos setores que passaram à luta agrupadas na Frente Liberal .
armada e naqueles que lhes deram apoio, muitos acredi ¬ Nas duas hipó teses de saída que se esboçam , são
tavam que o país vivia uma situação de estancamento do fundos os laços com o atual regime. Os militares, em
capitalismo que só poderia ser superada através de uma quer hipótese , saem da linha de frente das respons
saída revolucioná ria no caminho do socialismo. dades pela direção do Estado , deixando o poder em -
Na direita , dizia-se que o país vivia uma situação de que consideram “ confiá veis ” . O povo , em geral , c
“ guerra revolucioná ria ” . Palavras podem ser manejadas à nua à margem , condição que se expressa no mecan
vontade. E nenhuma terá sido mais distorcida no Brasil de sucessório indireto do Colégio Eleitoral . E mesmo
POR QUE DEMOCRACIA?
18 FRANCISCO C. WEFFORT

eleições diretas, não poderá mudar as alternativas pos ¬ estamos mudando ? Tomo a questão do ponto de vis
tas para o jogo. Limitando-se a uma disputa entre os gru ¬ esquerda . Evidentemente , para a esquerda que sobre
pos dominantes e as elites que os representam , n ão há a duas grandes derrotas, permanecem os valores fu
nenhum “ pacto social ” embutido nesse processo sucessó¬ mentais, a liberdade, a igualdade, o sonho do social
rio. Na melhor das hipóteses, haverá , talvez, um “ pacto Mas o que mudou , ou vem mudando, é o modo de c
político” visando a reorganização institucional do pa ís. A ber esses valores e suas relações.
crise económica continua , e já se pode prever que seus Disse recentemente um poeta militante de 1
custos maiores continuar ão sobre os ombros dos trabalha ¬ Thiago de Mello, que “ meus caminhos de hoje sã
dores . Seria esta a democracia pela qual lutamos durante mesmos de ontem, o que é novo em mim é o jeito d
os últimos dez anos ? Seria esta a luz que todos esperá va ¬ minhar ” . Talvez seja apenas isso. O que, aliás, é m
mos no fim do t ú nel? pois, como se sabe, o jeito de caminhar é que, afina
Não tive a oportunidade de uma nova visita do asses¬ cide quais os caminhos a seguir. Em todo caso, não
sor americano. Mas a sua enorme desconfiança em relação que o pessimismo do americano com a democracia b
às possibilidades da democracia no Brasil teriam agora leira encontre acolhida na maioria das pessoas que
mais sentido do que em 1983. Não se podia prever então põem isso que venho chamando de a esquerda brasi
que rumos tomaria , de imediato, a transição. Hoje se pode Como penso que não encontrará acolhida das muita
ver que estes não são os melhores. Ele sugeria , ent ão , uma riantes que compõem o conjunto dos liberais brasile
reflexão sobre uma possível volta ao espírito de 1968 , As razões de uns e de outros são muito diferentes
si . Mas creio que os dois lados concordariam em qu
tanto na esquerda quanto na direita. Hoje a sua descon¬
uma esperança nova no Brasil dos anos 80.
fiança tomaria talvez outras formas. Poderia ser mais ou
menos o seguinte: se só somos capazes de ver no horizonte
imediato uma democracia frágil , n ão teríamos de admitir
a fatalidade da ditadura , mesmo que esta tenha , de novo ,
de usar o nome de revolução?
Olho à minha volta e sinto que, apesar de tudo , n ão
é assim . Sinto, pelo menos, que a maior parte das pessoas
não concebe as coisas assim. Apesar do pouco tempo trans ¬

corrido desde 1968, alguma coisa mudou no pa ís. Mudou


o país e, com ele , mudamos todos. Uns mais, outros menos,
muitos dos que até ontem serviram o regime militar vão
se passando para o campo das oposições. E mudaram tam¬
bém , ainda mais profundamente, os adversá rios históricos
do regime, tanto os derrotados da primeira fornada , a de
1964, quanto os da segunda , a de 1968. Em alguns casos,
aliás, mudaram muito mais do que muitos gostariam de
admitir.
O passado recente, o presente e o futuro imediato se
PRIMEIRA PARTE
Que tradição é esta?

“ A democracia no Brasil foi sempre


lamentável mal-entendido. Uma ari
cracia rural e semi feudal importou-
tratou de acomodá-la, onde fosse po
vel , aos seus direitos e privilé gios ,
mesmos privilégios que tinham sido,
Velho Mundo, o alvo da luta da b
guesia contra os aristocratas.”
(Sérgio Buarque de Hollan
.
As palavras , afinal , têm algum sentido E palavra
grande nobreza pol í tica como democracia e revolução
têm sentido na história. Quem sabe o lado embaraçoso
uma conversa sobre democracia e revolução não venha
um equí voco sobre o sentido das palavras?
H á paí ses que , em algum momento de sua histó
fizeram uma revolução e , depois, construí ram uma de
cracia. Servem de exemplos a Inglaterra e a França.
tros, como a União Soviética, fizeram uma revolução e
conseguiram ainda chegar a uma democracia. Outros , c
a Itália, construí ram uma democracia sem passar por u
revolução, mas depois da derrocada do fascismo pela
de resistência e pela guerra mundial .
O Brasil constitui , pelo menos até aqui , o caso inf
de um paí s que não fez , nunca, nem uma revolução
dadeira nem uma democracia verdadeira. Se é assim,
poderíamos entender como normais as dificuldades
enfrentamos ao discutir sobre temas como democraci
POR QUE DEMOCRACIA?

irresist ível da história . Temos hoje distâ ncia suficiente p


saber que as coisas não se passavam como eles pensava

-
O MAL ENTENDIDO DA POLITICA

Somos herdeiros , queiramos ou não, de uma tradi


formada desde um passado remoto. E na montanha
equívocos que herdamos desse passado, o primeiro é so
o próprio sentido da política . Há muita gente por aí ha
tuada a tratar as grandes decisões políticas como se foss
frutos da natureza , exigências inelutáveis da necessid
Uma herança de equívocos histórica . N ão se trata, evidentemente, apenas de um e
técnico que se resolvesse com a leitura de um ou dois b
manuais de ciência política .
Nossos equ ívocos habituais sobre o sentido da p
tica são, como muitos outros , o resultado de uma hist ó
em que a pol ítica jamais se tornou , verdadeiramente ,
J á ouvi, mais de uma vez , gente séria , ou tida como mocr á tica. São o resultado de uma história em que a
tal , usando as palavras democracia e revolução com ex ¬
lítica tem sido, quase sempre, o privilégio de uns quan
traordin á ria ligeireza. São pessoas que responderiam à per ¬ oligarcas e assemelhados. Uma história que, até aqui , m
gunta do diplomata americano com a maior facilidade. conseguiu constituir um espaço público onde a ativida
Hoje , dizem , caminhamos para a democracia até porque política , quase sempre limitada às classes dominantes,
não temos, nas circunstâ ncias, nenhum outro lugar para desse se diferenciar das atividades privadas dessas mesm
ir. Como quem diz, é a ú nica saída . Ser á mesmo ? classes dominantes. Uma história , enfim, em que os c
N ão me cabe , evidentemente, questionar um pensa¬ servadores têm sido, desde sempre, vitoriosos.
mento para o qual a democracia se apresenta como a ú nica Penso que tudo isso está mudando. Ainda assim , se
saída . Minha ú nica d ú vida é a de saber se um pensamento ingénuo ignorar o peso do passado. A propósito, M
que só sabe conceber a democracia como uma imposição disse, certa vez , que “ o peso do passado oprime como
das circunstâ ncias pode ser dito um pensamento demo¬ pesadelo o cérebro dos vivos ” . E ele se referia , como
crá tico. sabe, aos povos ‘' que vivem uma época de revoluçã
Eu me lembro que em 1968 havia quem assegurasse Deixo para depois a questão de saber se estamos ou n
que caminhávamos para a revolução por imposição de uma em uma época de revolução. Em todo caso , mesmo re
necessidade histórica . Diziam , também naquela época , que nhecendo as mudanças pelas quais estamos passando, ten
era a ú nica sa ída. N ão eram os verdadeiros revolucioná rios a nítida impressão de que o nosso passado conservador ,
que diziam isso, pois esses sabiam que queriam a revolu ¬ invés de oprimir, invade “ o cérebro dos vivos ” sem ce
, um pouco mais na mónia, com a maior desfaçatez.
26 FRANCISCO C. WEFFORT POR QUE DEMOCRACIA ?
Quem tenha dúvidas sobre isso as resolverá olhando
para o cená rio pol ítico atual. As f órmulas da “ conciliação
nacional ” que aí predominam entre liberais e conservado ¬
se aproximam — pelo menos como propostas —
intenções inovadoras. São o Partido Democr tico Tra
á
daque

lhista ( PDT) e o Partido dos Trabalhadores ( PT ) . M


res são tão velhas quanto a “ política de conciliação ” do mesmo o PDT , que conta , desde as origens, com a l
II Reinado. N ão seria normal num país conservador como rança de um pol ítico formado antes de 1964, o engenhe
este que nos escapasse o sentido da própria atividade po¬ Leonel Brizóla , só pôde captar uma pequena parte daq
lítica ? les pol íticos de esquerda que vinham pensando em prop
Para tornar mais f ácil a compreensão do que pretendo tas semelhantes. Quanto ao PT , este nasce diretamente
dizer apresento um exemplo. Conheço uns tantos políticos
, um setor avançado do movimento operá rio, sob a dire
da esquerda independente, isto é, não filiados à esquerda do metal ú rgico Lula , e conta com uma participação ai
tradicional, definida no âmbito do PCB e do PC do B , que menor dos independentes de esquerda formados na sa
tomaram boa parte dos seus anos de ostracismo , após 1964 , anterior.
refletindo sobre as debilidades do movimento popular
em particular , o operá rio—

e da democracia do período
É que embora viesse namorando a idéia de um ca
nho novo, a maioria desses desistiu quando chegou o
populista . Alguns no exílio, outros no país, embora estes mento da ação, das decisões que permitiriam começa
na triste condição de “ emigrados do interior ” , enquanto converter o sonho em realidade . Depois de considerar
meditavam sobre as causas da queda de Goulart em 1964 , uma vez mais, as dificuldades, naturais em tudo qu
acompanhavam a saga da guerrilha na América Latina . novo e , aliás, já conhecidas de antemão, retomaram gal
Esses aos quais me refiro nunca puseram uma arma na mão . damente a velha estrada, que lhes permite continuar se
Mas nunca se afastaram tanto que não pudessem expres¬ o que sempre foram , “ independentes ” em partidos que
sar, de quando em quando, a sua simpatia . Seria um exa ¬ são os seus ou em frentes nas quais estão condenado
gero dizer que se apaixonaram pela idéia de revolução. uma posição apenas marginal . É a velha estrada de s
Mas, com toda certeza, flertaram com ela. E, mais de uma pre , conduzindo às mesmas debilidades do movimento

— —
vez, falaram em privado e, às vezes, até mesmo, em pular e da democracia que eles próprios compartilha
pú blico do seu próprio passado como quem fala de suas antes de 1964 e que criticaram , depois, com tanta clar
ilusões perdidas. Ao invés de plantar a sua própria semente na sua pró
Depois do regresso às atividades políticas, acalenta ¬ terra , preferiram o caminho, certamente mais f ácil , de
ram , por algum tempo, a idéia de contribuir para a forma ¬
tar colher de semeadura alheia .
ção de um novo partido político. Houve mais de uma Este é um exemplo de como são dif íceis certas
proposta nesse sentido, mas todas visando o fortalecimento
do movimento popular e a reorganização da democracia .
danças de mentalidade política . E casos como este
não são poucos — —
me levam a pensar sobre o real si
N ão queriam repetir o passado, mas assentar os funda¬ ficado da célebre frase de Marx em um país tão conse
mentos do futuro. Em que pesem divergências sobre pon ¬
dor como o Brasil .
tos secundá rios entre esta ou aquela liderança , eram pro¬ Minha impressão é que , aqui , o peso do passado
postas tendentes a criar um partido de novo tipo, aberto, que Marx falava , ou seja , o do passado “ de todas as
democr ático, enraizado nas lutas populares, com uma pers¬
pectiva visando ao socialismo.
rações mortas ” , se confunde — de certo modo se dilui
no peso do passado dos vivos. Às vezes, é o passado
, o, depois de 1978, dois partidos que
28 FRANCISCO C. WEFFORT POR QUE DEMOCRACIA ?

o de uma mesma geração ditando seus caminhos no pre¬ posições de Estado . O pressuposto é de que cargos e
sente . Ou mesmo o de um indivíduo definindo o seu ca ¬ ções são a matéria-prima do poder. Foi o que ficou de
minho de agora. O passado que cada um carrega consigo rá pidas leituras de Maquiavel. Política é o que se faz
pesa mais, ou menos , do que o das gerações mortas ? Di ¬ conquistar (ou manter) o poder . E o que é o poder ?
f ícil saber . Em todo caso, seria um exagero dizer que “ opri¬ o poder é o que se faz no Estado ou a partir do Es
me como um pesadelo ” .
UM ÁLIBI PERFEITO
UM FALSO REALISMO

Falo da noção de política deixada pela nossa tra


Na tradição brasileira , esta mistura de passado , de e, nesse campo, as distinções entre esquerda e direit
sensibilidade conservadora e de boas intenções para o fu ¬ quase irrelevantes. Nesse campo, pelo menos, pode-se
turo é chamada de realismo político. Antigamente, as idéias não apenas de um conservadorismo liberal como até
novas chegavam de navio. Depois, começaram a vir pelo
r ádio e hoje , cada vez mais, pela televisão. Converse com
mo de um conservadorismo de esquerda
que o dos verdadeiros conservadores — — mais su
mas nem po
qualquer político liberal ou conservador e verá quq as in ¬ menos real.
tenções que ele expressa em particular — isto é , com os Os políticos de esquerda que tomei como exe
acima estavam certos de que iriam mudar. O golp
amigos e com a família — são, em geral, as de pessoa
moderna e razoavelmente civilizada. Nenhum deles ficará Estado, o ostracismo, a experiência distante da gue
escandalizado se você lhe falar de liberdade sindical , de
reforma agrá ria, etc. Pelo contrá rio, eles tender ão sempre
— como passar por isso tudo sem mudar? E, de fat
gumas mudanças ocorreram com eles e vêm ocorrendo
a manifestar simpatia por mudanças, embora com algumas todos os brasileiros que passaram , mesmo a distâ ncia
ressalvas sobre pontos secundá rios. experiências semelhantes.
A pol ítica real, porém, é outra coisa. Esta se rege Submetidos , porém , à concepção tradicional da
pelo que chamam de realismo, na verdade uma mistura de tica , voltaram ao velho jogo de um modo tão “ nat
conservadorismo e de duas ou três idéias saídas de um que alguns nem sentiram a necessidade de explicar as
maquiavelismo primá rio. As boas intenções de mudança decisões. Como o cachorro dando voltas sobre o pr
ficam para as conversas com os amigos. rabo, nem pareceram dar-se conta de que o velho cam
Daí esta pontinha de má consciência , tão comum em os leva de volta ao mesmo lugar de antes. O passado
nossos políticos. É o resíduo que vai ficando , ao longo do va tão presente em suas decisões que nem se deixav
caminho, das muitas promessas que não se cumprem ja ¬ conhecer como tal. Suas decisões lhe pareciam tão “
mais. Da í, também , esta reação tão freq üente nos políticos rais” que nem lhe pareciam o que eram, ou seja , dec
diante de qualquer idéia nova: consideram, primeiro, a A concepção de política que nos deixou a tra
sua viabilidade (em geral para concluir pela inviabilidade) , conservadora é um álibi perfeito. Se os caminhos que
antes mesmo de a considerarem no mérito. Da í , também , toma não são percebidos como uma escolha , você
que mesmo os nossos pol íticos mais ideológicps se deixem considerar-se absolvido ex ante de qualquer respons
POR QUE DEMOCRACIA?
30 FRANCISCO C. WEFFORT
mais que o passado se imponha , sempre há escolhas a
você atuasse sob o impulso de algo superior às suas pró
prias forças. Tudo se passa como se você apenas atendesse ,
como um bom funcioná rio da história , às exigências da
¬
zer . De outro modo , a ação política
lência , um ato de liberdade — — que é , por e
perde a sua qualidade e
cífica e se reverte em um simples automatismo.
situação. Revolução ? Sim. Democracia ? Sim . E o que mais Qual o sentido dessa rápida digressão sobre o conc
vier , até mesmo a ditadura . Você terá sempre de carregar
de política em nossa busca de uma resposta para a i
consigo um ressaibo de má consciência . Mas que é que se
moda pergunta do assessor americano ? É que uma a
pode fazer ? Tudo depende das circunstâncias, não é
política que se concebe como livre só será conservador
mesmo ?
o caminho conservador for o escolhido por seus prot
nistas. Em troca, se a ação política for concebida c
A POLÍTICA COMO LIBERDADE reflexo, como é de há bito em nosso realismo político
dicional , ela será sempre conservadora , e, além disso, a
rit á ria , quaisquer que sejam as intenções dos seus pr
O grande problema desta concepção da atividade po¬ gonistas.
Nenhuma democracia se construiu jamais como
lítica é que— se continuar predominando — a democra ¬
cia que teremos daqui para a frente será tão capenga quan ¬
ples reflexo de exigências supostamente inelutáveis
to a que já tivemos no passado. Mais ainda , a continuar história . Nenhuma revolução chegou jamais à vitória c
prevalecendo este conceito conservador de política , se a reflexo de uma suposta necessidade histórica . Tant
democracia ser á capenga , uma revolução será simplesmen democracias quanto as revoluções se constroem na
de vontades políticas conscientes e responsáveis. Daí
¬

te impossível . É inteiramente evidente que qualquer situa ¬


ção histórica tem as suas exigências. E também é evidente
qualquer esfor ço por esclarecer o significado da demo
que uma parte da sabedoria política consiste em reconhe- cia e da revolução só pode servir para torná-las possí
cê-las. Mas a verdade é que aqueles que em 1968 insisti¬
ram na inevitabilidade daquilo que chamavam de revolu¬
ção , incidem no mesmo erro dos que hoje insistem em uma
suposta inelutabilidade do caminho democrá tico . Captam
um aspecto da verdade política mas perdem um outro. E o
aspecto que perdem é , precisamente, o essencial .
Os seguidores do realismo conservador pretendem-se
inspirados em Maquiavel e , contudo, deixam de lado um
ensinamento essencial do mestre florentino. O verdadeiro
realismo político consiste em ver os acontecimentos como
cose a jare. Isso significa que não apenas se pode , como
dizia o poeta , seguir o mesmo caminho de uma maneira
nova , como também se pode , no jeito novo de andar , in ¬

ventar caminhos novos. Isso significa ainda que não são


as condições nas quais se exerce a ação política que defi¬
POR QUE DEMOCRACIA ?

da lógica . Mas lembremo-nos de que só excepcionalme


tal contradição se manifesta de maneira nua e crua.
modo geral , ela é amaciada por uma tradição conservad
cuja principal virtude é esta mesmo: fazer com que a c
tradição passe despercebida . E uma contradição cujos
mos só se esclarecem de vez em quando pode durar mu
Esta , pelo menos , vem de longe , de muito antes
atual regime , vem do mais fundo da história brasile
embaralhando todas as idéias que herdamos do pass
sobre as relações entre a sociedade e o Estado, sobre
A democracia relações entre o poder e a liberdade . A grande vítima
todas estas confusões é o conceito de democracia e , na
como instrumento... esteira , o de revolução.
Existem , por certo , na tradição brasileira , verdade
democratas . E também verdadeiros autoritá rios de que
exemplos os fascistas , que nos anos 30 e 40 se expressar
através do movimento integralista. Democratas podem
encontrados em diversas correntes políticas ao longo
O conservadorismo brasileiro nos legou uma concep¬ toda a nossa história , mas em particular nos momentos
ção de democracia e uma idéia de revolução. O problema tentativa de renovação , como na chamada Revolução
é que nos legou uma concepção autoritá ria de democracia . 1930 ou na também chamada redemocratização de 19
E , por conseqiiência , a ú nica idéia que pôde nos legar de ou na atual transição.
revolução é a do golpe de Estado. Mas o forte da tradição pol ítica brasileira é a am
Quando o general Figueiredo, recém-empossado na güidade que a muitos permite serem — ou pretender
Presidência da República , disse , em inícios de 1979 , “ eu
hei de fazer deste país uma democracia ” , ele resumiu , no
ser — autoritá rios e democratas ao mesmo tempo. S
exemplos disso o Get ú lio Vargas de 1945 e o general
seu jeito rude, toda a nossa tradição. Elevado ao poder na gueiredo neste fim de regime militar. A propósito , um
sucessão de golpes chamada de “ processo revolucion á rio ” , lhante sociólogo, Alain Touraine , definiu o sentido his
que caracteriza o regime de 1964 , ele só consegue entender rico do desenvolvimento do Brasil dos anos 30 aos a
a transição para a democracia à custa de golpes. Não é o 60 com uma expressão característica: “ democratização
povo quem faz a democracia , mas o representante maior via autorit á ria ” . O que sugere que a nossa tradição pol ít
da ditadura. foi capaz do milagre de distinguir uma eficácia democ
tica no autoritarismo daquela época . O ú nico milagre
que a tradição não tem sido capaz , até aqui , é o de disc
DEMOCRATIZAÇÃO POR VIA AUTORITÁRIA nir na democracia o seu próprio sentido.
Uma concepção autoritá ria da democracia signifi
além de uma certa preferência pela ambigüidade , o go
É uma contradição e , como tal , insustentável no plano
34 FRANCISCO C. WEFFORT
POR QUE DEMOCRACIA ?
vérbios que povoam o linguajar político brasileiro. “ Voto
não enche barriga .” “ Em política vale a versão, n ão o exceções . Regra geral , estamos preparados para per
fato.” “ Lei , ora a lei .” “ Para os amigos tudo, para os sentido da política antes na violência do que no d
adversá rios a lei .” “ Deixa como est á para ver como é que antes na coerção do que na liberdade.
fica .” São prové rbios compartilhados à s vezes pelo povo. E quanto ao poder , se alguém nos pergunta o
Parecem simples, espontâ neos, saborosos como as expres ¬
isso as primeiras imagens que nos ocorrem são so
,
sões do senso comum . Mas, na verdade, traduzem critérios aparatos de poder. São sobre o poder como coisa
sofisticados
política .
— e extremamente autoritá rios — de ação casual na tradição política brasileira a referência tã
tante nos discursos oficiais aos “ poderes constitu
Aparentemente populares, estas são, na verdade , f ó r¬ É que a tradição — conservadora e autoritá ria
tudo para obscurecer a dimensão essencialmente

mulas contra o povo . Se examinarmos com atenção o que
significam , elas só se adequam à comodidade de quem está tuinte da noção de poder , ou seja , o poder como al
no poder e , além do mais, habituado ao arbítrio. São f ór ¬
se cria , como associação livre de vontades. Para a t
mulas para serem ditas com o sorriso de ironia dos pode¬ é mais f ácil perceber , por exemplo, o poder de um
rosos, como resultado de uma longa e laboriosa reflexão crata que apenas implementa decisões de outros do
do poder sobre si próprio. O que têm de sabor popular poder de uma proposta política que mobiliza e
nada mais é do que o resultado de um longo e feroz tra quantidades de pessoas para chegar a determinada
sões. Percebe melhor o poder morto do “ aparelh
¬

balho de inculcação ideológica , no qual cooperaram , ao


longo do tempo, todas as oligarquias e todas as ditaduras “ máquina ” , do que o poder vivo, potencialmente tr
de nossa história. mador , das relações políticas reais. No limite , vê no
Esta mistura complexa de ambigüidade e de cinismo a capacidade da repressão muito mais do que a da
nos legou um conceito de democracia segundo o qual esta tação.
é apenas um instrumento de poder . Um instrumento de
poder entre outros , apenas um meio , uma espécie de fer ¬
UMA ARMADILHA CONSERVADORA
ramenta para se atingir o poder. Essa idéia está de tal
modo enraizada em nossos há bitos políticos que fica¬
mos, com freqiiência , embaraçados diante da simples pos¬ Também faz parte da tradição jogar a resp
sibilidade de virmos a pensar a democracia como um fim lidade dessas idéias nas costas da esquerda. E n ão
em.si'. evidentemente , os que , na esquerda brasileira , estej
H á exceções. Por exemplo, o brilhante ensaio de Car ¬
los Nelson Coutinho, que é , que eu saiba , o primeiro in ¬ postos a aceitar esta pecha como um título de gló ria .
telectual brasileiro a tratar com profundidade teórica o um equívoco. A concepção da democracia como inst
conceito da democracia como um valor universal .1 Mas são to vem , em linha direta , do privatismo conservad
disant liberal , das oligarquias da República Velha .
1 N ão deixa de ser interessante assinalar que Que era o Estado no Brasil de antes de 1930
a primeira proposta teó rica
sobre a democracia como valor universal venha de um marxista . Sugestões uma espécie de apê ndice das grandes plantations e
inovadoras sobre o tema podem ser encontradas, também no campo da es¬
tif ú ndios senhoriais ? Que noção da “ coisa pú blica
36 FRANCISCO C . WEFFORT POR QUE DEMOCRACIA ?

zendas ? Que sentido da sociedade poderiam ter oligarcas DEMOCRACIA: DOMINAÇÃO BURGUESA
para os quais a “ questão social ” se definia como “ quest ão
de polícia ” ?
O liberalismo dos senhores de terra neste pa ís sempre Mas se a esquerda deixou-se seduzir foi també
foi , em essência, um privatismo. Pouco ou nada mais do que aprendeu , em leituras mal digeridas de Marx ,
que isso. Enquanto liberalismo privatista e “ possessivo ” , que trabalhavam no mesmo sentido. Entre estas, a
só foi capaz de conceber a liberdade económica e , ainda idéia da democracia como a forma , por excelência ,
assim , limitando-a , exclusivamente, à liberdade económica minação burguesa . O problema é que muita gente p
,

dos propriet á rios. Por isso mesmo, a liberdade pol í tica que esquecer que isso que era verdade para a Europa do
eles foram capazes de entender nunca diferiu das justifica ¬ Marx , vai deixando de sê-lo, por exemplo, já para a
ções que tinham a apresentar para a manuten ção de seus pa do velho Engels. Quem tiver d úvidas a respeit
próprios privilégios. o célebre pref ácio de Engels ao ensaio de Marx
Em vez de invenção da esquerda , a idéia da demo ¬
As Lutas de Classe na França. Em todo caso, se a id
cracia como instrumento aparece na história brasileira democracia como forma da dominação burgues
como uma espécie de armadilha conservadora . Por que a muito a ver com determinado período da história eu
esquerda brasileira deixou-se atrair tão facilmente para a pouco tem a ver com a história brasileira .
armadilha ? As democracias européias da época de Marx
Há algumas confusões teóricas na raiz disso , que
tratarei logo a seguir . Mas há também um dado de rea ¬
seja , de meados do século XIX — eram burguesas e
próprios fundamentos. Mudaram depois , a partir do
lidade que poucos têm conseguido ver com a necessá ria quartel do século passado, com a conquista popu
clareza . A esquerda brasileira é , ela própria , tribut á ria da sufrágio universal , com o fortalecimento dos sindi
tradição que combate. com o surgimento dos partidos operá rios . Mas en
Se nós formos capazes de perceber o quanto é pro ¬ Marx vivia , não creio que ninguém caísse de espan
funda a hegemonia conservadora na história brasileira , po¬ ocasiões em que ele qualificava o Estado como “
deremos admitir esse fato sem maiores dificuldades. A es¬ executivo dos interesses da burguesia ” . As democra
querda sempre lutou , bem ou mal , contra a tradição mas , seu tempo eram democracias censitá rias nas quais
durante muito tempo, teve de fazê-lo com as armas que a dania se definia a partir da propriedade e de níveis
tradição tornava disponíveis. Que é a hegemonia de uma minados de renda .
classe na política sen ão a sua capacidade de impor o seu A vantagem de Marx sobre os liberais da época
discurso — ou pelo menos a sua lógica — até mesmo aos
seus adversá rios ? Que é a hegemonia em política sen ão a
ponto como , aliás , em muitos outros, estava em q
adotava uma posição crítica onde aqueles adotavam
capacidade de uma classe de definir o terreno e as armas posição apologé tica . A burguesia via-se a si própria
que seus adversá rios usarão em sua própria luta ? A idéia classe universal e apresentava os seus direitos como
da democracia como instrumento tem sido uma pedra de reitos do homem . Marx examinava a realidade à sua
toque da hegemonia conservadora na história pol ítica deste e não temia dizer o que via , qualidade que, diga-se d
pa ís desde a Repú blica Velha . sagem , se perdeu em muitos dos que, hoje, se pret
POR QUE DEMOCRACIA ?
38 FRANCISCO C . WEFFORT

para os burgueses são direitos burgueses. E a dita burgue¬


mo que se considere o período da Regência
entre Pedro I e Pedro II— , como deixar de
— inte
ver aí
sia , que se pretendia classe universal , portadora das vir ¬
de uma oligarquia de propriet á rios de terra ?
dura
tualidades do progresso, da liberdade e da igualdade, era a Repú blica Velha , de 1889 a 1930, senão o domín
apenas uma classe dominante a mais na história . Marx dizia
que o rei estava nu . E , de fato, estava , como veio a ser disfarces , das oligarquias senhoriais? Há quem pref
reconhecido pelos historiadores depois dele.2 mar aos proprietários de terra daquela época de bu
agrá ria , para realçar o car á ter capitalista da forma
Se descontarmos o lado apologé tico , o liberalismo da
época oferecia da democracia uma visão semelhante . Se o
cial brasileira . Pode-se aceitar esta interpretação s
isso altere em nada a visão que temos do regime da
conceito liberal sobre o homem livre recobria , em essên
tão violento quando paternalista , em todo caso libe
¬

cia , o conceito do proprietá rio , se o conceito da liberdade


se ligava , em essência , à noção da propriedade privada, se
nas na superf ície.
Desde a chamada Revolu ção de 1930, tivem
o liberalismo político não se dissociava do liberalismo eco¬ longos per íodos ditatoriais : o primeiro de 1930 a 1
nómico, que podia ser a democracia dos liberais senão a segundo de 1964 até hoje. Entre 1945 e 1964, e
democracia dos burgueses ? Marx, que lia os liberais
ali ás, outro há bito salutar que muitos de seus discípulos
— per íodo democrá tico, de reconhecida fragilidade ,
sustentou muito mais nas pressões das massas po

perderam , ia mais fundo e tirava as conseqiiências. A
democracia burguesa era a ditadura da burguesia sobre o
urbanas que recém-ingressavam no cená rio político,
proletariado. Era a forma , por excelência , da dominação
em qualquer suposto entusiasmo da burguesia pelas
democráticas.
burguesa . Que os burgueses da época se indignassem , é A verdade é que em 160 anos de história in
coisa f ácil de compreender. Mas n ão creio que pudessem
dente , o Brasil n ão teve a oportunidade de avaliza
negar uma realidade que estava à vista de todos assim
da democracia como forma , por excelência , da dom
como embutida em seu próprio discurso.
burguesa . Se Marx fosse brasileiro , teria dito , cert
que a ditadura é a forma , por excelência , da dom
DEMOCRACIA: REBELDIA POPULAR burguesa . E talvez dissesse também que a democra
forma , por excelência , da rebeldia popular .

Outra coisa , muito diferente , têm sido as formas po ¬

l íticas adotadas pelas classes dominantes no Brasil. O Im ¬

pério, desde a Independência até 1889, foi uma ditadura,


mal disfarçada , do “ poder pessoal ” do imperador. E mes-
2 Chamar as modernas democracias européias
atuais de burguesas só é
possível à custa de um enorme empobrecimento da an álise e, por conse
qiiência , da perspectiva política . Seria mais correto dizer que são democra ¬
-
cias sob hegemonia burguesa , aliás hegemonia em permanente disputa por
parte dos trabalhadores . O problema dos trabalhadores nas democracias mo¬
dernas é o de conquistar hegemonia
POR QUE DEMOCRACIA ?

so
tado Novo) e 1938 ( tentativa de rebelião militar
o
tação integralista ) . O período 1930 -1945 n ã tem
nada de excepcional .
O recurso a expedientes golpistas se torna ain
freqüente no período democrá tico que vem de 1945
Aliás , o per íodo democr á tico se abre com um g
Estado que leva à derrubada de Get úlio Vargas do
Vêm a seguir : 1950 ( tentativa de impedimento d
de Get ú lio Vargas , democraticamente eleito para
dência ) , 1954 ( pressões militares que levam à ren
... E o golpe como ao suicídio de Vargas) , 1955 ( tentativas de impe
da posse de Juscelino Kubitscheck , democraticame
prática habitual to para a Presid ê ncia ) , ainda em 1955 ( impedim
facto , do vice-presidente Caf é Filho) , 1961 ( tenta
impedimento da posse de João Goulart após a renú
J ânio Quadros à Presidência) , 1964sem esquecer , evide
te , o golpe de Estado que , em , leva à instaur
atual regime militar.
Um pa ís formado em uma tradição de ambig ü idade e Seria demasiado longo enumerar todos os cas
cinismo em relação à democracia teria de transformar o nho-me portanto aos que considero mais significati
golpe em prá tica corrente . Se a democracia é apenas um o meu argumento. Assim como o per íodo “ revoluc
meio para o poder, a política perde o sentido do direito e pós-1930 e a fase democr á tica pós-1945 , também
da legitimidade. Institui-se a pr á tica da usurpação como do atual , pós-1964 , se submete à mesma regra . À
norma . próprio golpe de 1964 , tivemos golpes em todas a
sões presidenciais havidas de lá para cá .
O segundo presidente militar , o general Costa
GOLPES E GOLPISTAS
se impôs ao primeiro presidente militar , o general
Branco, pela força . Em 1969 , quando Costa e Si
reu , o vice-presidente , o civil Pedro Aleixo, foi alij
Isso não é nenhuma abstração. Tomo como exemplos força por uma Junta Militar que , também pela forç
apenas fatos da historia republicana contemporánea , ou o terceiro presidente , o general Mediei . A força
seja , de 1930 para cá . À parte a chamada Revolução de bém o critério que decidiu a sucessão de Mediei pe
30 — ela pró pria um golpe de Estado, embora de caráter
progressista e de enormes consequ ê ncias para a historia
to presidente militar , o general Ernesto Geisel. E
tituição de Geisel por Figueiredo só se tornou
posterior — , registramos , até 1945 , os seguintes golpes ou depois de superada pelo menos uma tentativa de
tentativas de golpe: 1932 ( tentativa de restauração das do general Silvio Frota , em 1977 .
POR QUE DEMOCRACIA ?
42 FRANCISCO C . WEFFORT
só valem em seu interesse, instituir a prática
dos
envolvem , de modo direto ou indireto, a chefia do Estado o governamenta
e a utiliza ção , direta ou potencial, da violência. Na tradi¬ secretos” . Eram diretrizes de çã
a
ção brasileira , a prá tica do golpe se espraia para quase tavam a toda a sociedade mas da qual esta não
conhecimento! Em todo caso, se é verdade que
todos os setores da atividade política. Não somos, no Brasil,
apenas herdeiros de atitudes amb íguas e cínicas em relação
à democracia . Somos também herdeiros de uma verdadeira
cultura do golpe. O exemplo mais expressivo dessa cultura
mos — no sentido em que tomamos hoje a exp
são relativamente novos , também é verdade que
de cinismo em relação à lei vem de há muito te
é o tratamento que , tradicionalmente, conferimos à lei e ao Em fins do século passado, nos primeiro
direito. Repú blica Velha, alguém recorreu ao Supremo
Federal contra determinado ato do presidente d
ca . Indagado pela imprensa sobre a possibilidad
O PRIVILÉGIO CONTRA O DIREITO decisão do Tribunal contrária aos seus interesse
dente teria comentado com ironia: “ Se isso
quem dará , depois, habeas corpus para os me
Na confusão, tipicamente oligárquica, entre o direito Supremo Tribunal ? ” . O presidente em questão
e o privilégio, a lei , desprovida da sustentação de um Es rechal Floriano Peixoto, que os livros de historia
como um dos consolidadores da República e q
¬

tado democrá tico que lhe assegure a vigência , só vale como


o reflexo direto e imediato dos interesses ou da força da ¬ ficar conhecido, segundo os mesmos livros, com
queles que se empenhem em sua aplicação. Como dizia um rechal de Ferro” .
jurista fascista dos anos 30, Francisco Campos, “ tem lei Em 1955 , o ent ão presidente Caf é Filho
que pega e tem lei que não pega ” . “ Pega ” quando atende Supremo Tribunal alegando constrangimentos m
a um interesse particular o bastante forte para fazê-la va¬ o impediriam de voltar à Presidência depois de
ler. “ Não pega ” quando não tem atrás de si uma força período de afastamento por razões de saúde. E
que obrigue a sua aplicação ou quando encontra resistên¬ mento dif ícil , marcado por golpes e contragolpe
cias demasiado fortes contra a sua aplicação. Significa di¬ os lados , e a atitude de Caf é Filho foi entendid
zer que, na tradição polí tica do país, poucas são as leis adversá rios como uma manobra a mais visando
de sentido efetivamente geral , reduzindo-se a maioria delas posse do novo presidente eleito, Juscelino K
a instrumentos que podem ser utilizados ou não, de acordo Seja como for , o fato é que o Supremo Tribun
com a força dos interesses particulares que com elas even¬ recurso , consagrando o que era , na realidade,
tualmente se comprometam . deposição do presidente . E um dos membros d
É, portanto, particularismo dos privilégios oligá rqui Tribunal , o jurista Nelson Hungria , justificou
cos que enquadra , na tradição, a abordagem política das
¬
quase com as mesmas palavras usadas , meio sé
questões referentes ao direito. Depois de 1964, o regime pelo “ Marechal de Ferro” .
militar tem usado em tal escala da manipulação da lei que Quaisquer que possam ser as interpreta
acabou se criando uma designação de caráter geral para um momento polí tico tão conturbado, n ão resta
44 FRANCISCO C . WEFFORT POR QUE DEMOCRACIA?

direito e da democracia que, então, se desejava preservar segundo os seus próprios interesses, quais greves
no pa ís . Quaisquer que tenham sido as intenções dos au ¬ ser consideradas legais ou ilegais .
tores , esta farsa ajudou , como muitas outras antes e depois
dela , a preparar a filosofia dos casuísmos de hoje. Na verdade , o decreto , que acabou prevalec
primia o direito de greve que dizia regulamen
passava a depender da tolerâ ncia (ou intolerância
A LEI COMO PRETEXTO PARA O ARBITRIO vernos que , de fato , ao longo do tempo, manip
direito de greve a seu bel-prazer , seja quando r
as greves , seja quando as permitiam . Funcionou
todo como uma chantagem contra o movimento
Não é alegre a história das relações entre o direito e visando a mantê-lo nos limites das conveniência
a pol í tica neste país. A Constituição democrá tica de 1946
Depois de 1954 , quando alguns governos pa
foi desrespeitada várias vezes antes de vir a ser definiti¬
vamente abolida pelo atual regime militar . E quando o re¬ ver no movimento operá rio um possível aliado
gime se implantou em 1964 , n ão haveria de faltar-lhe o ter a impressão de que o velho decreto antigreve t
concurso do velho jurista fascista , o mesmo Francisco em desuso, tornado letra morta em face da comb
Campos, teórico da ditadura do Estado Novo, para intro¬ crescente dos trabalhadores . Alguns sindicalistas
chegaram mesmo a pensar que o haviam derr
duzir no primeiro Ato Institucional algumas doses de ci¬ prá tica . V ã ilusão. A lei antigreve estava l á e,
nismo totalitá rio.
1964, foi usada pelo primeiro governo militar
Sua contribuição para recobrir com palavras os pri¬ quando a substituiu por outra lei , igualmente a
meiros atos de força do regime foi alguma coisa do gênero igualmente arbitrá ria.
“ a revolu ção é criadora do direito ” . E com isso, numa só
Teria o movimento operá rio perdido a opo
frase, ele conspurcou , uma vez mais, duas palavras de de mudar a lei nos seus anos de ascenso e de pro
grande nobreza política , revolu ção e direito . O que ele com os governos ? Talvez . O certo, porém , é que
pretendia dizer , já se sabe. Onde ele diz revolução, leia-se vimento oper á rio sempre combateu o Decreto 9.
“ golpe ” . Onde diz direito, leia-se “ f órmulas adrede pre¬ ca se preocupou demasiado em substituí-lo po
paradas para o exercício ilegítimo da força ” . O que ele democr á tica . Se política é força , que importâ ncia
queria dizer, confere , precisamente, com o cinismo pre¬ nova lei ? O movimento operá rio n ão poderia ser
sente em nosso tradicional realismo político. A lei para o espírito da época .
poder significa pouco mais do que um pretexto para o
arbítrio.
É uma id é ia cí nica , sem d ú vida , mas que se ajusta REVOLU ÇÃO = GOLPE?
como uma luva a certos aspectos das relações entre direi¬
to e pol ítica no pa ís. O Decreto-Lei n.° 9.070 , que regulou
o direito de greve , de 1946 a 1965 , foi denunciado desde A cultura do golpe pressupõe o uso da violê
46 FRANCISCO C. WEFFORT
POR QUE DEMOCRACIA?
freqiientes deste desvirtuamento está no que os partidos
de esquerda chamam de “ aparelhismo ” . mos falar não ocorreram aqui , não seria compreen
É prática golpista típica, embora se ache muito dis¬ o nosso conceito de revolução estivesse contamin
simplesmente de uma forma de usurpação de postos ou
-
tante da possibilidade da aplicação de violência . Trata se profundamente — pela cultura do golpe?
N ão se trata , ali ás, de um mal exclusivo
funções partid á rias por indivíduos ou grupos sem títulos É de toda a América Latina , com as exceções co
de legitimidade política para tal . Embora possam chegar a México , de Cuba e da Nicarágua . E porque o co
tais postos ou funções na forma da lei, o que caracteriza revolução se confunde , em nossa tradição, com
os “ aparelhistas ” é o fato de que, a partir de então, dedi não se pode dizer que se trata de um mal exclus
reita . Contamina , de quando em quando, mesm
¬
quem a maior parte de suas energias a manter-se nisso que
chamam de poder e que, no mais das vezes, não é mais do combatem a tradição conservadora e autoritá ria .
que uma ilusão de poder . Quanto mais fazem por perma ¬ na esquerda , negar que já cedemos , mais de um
necer, tanto mais a verdadeira política se distancia deles tentação de dar nomes honrosos para práticas me
e do partido que tenha a infelicidade de tê-los em seu meio.
Assim como a finalidade ú ltima do golpista é o Estado, a
finalidade última do “ aparelhista ” é o “ aparelho” .
Desnecessá rio prosseguir aqui em uma descrição de
todas as formas possíveis da cultura do golpe. Creio que
os exemplos mencionados são o bastante para se perceber
até onde pode ir uma cultura política que se limita a con ¬
ceber a democracia como um instrumento, demonstrándo ¬
se incapaz de concebê-la também como um fim em si .
A conseqiiência final disso tudo ocorre no plano da
linguagem política . Quando o golpismo se torna prática
habitual, a mentira e a manipulação tomam o lugar que
caberia , no debate político , à informação e à persuasão.
Os n íveis de toler â ncia caem , o debate degenera e a vio¬
lência verbal passa a preparar o caminho da violência f í ¬
sica . É assim que a cultura do golpe vai preparando, no
dia-a-dia da política , o seu grande momento: o golpe de
Estado. E quando este acontece, como vimos em 1964, as
palavras já se acham de tal modo deturpadas que não
custará muito aos golpistas se chamarem a si próprios de
revolucioná rios.
O nosso conceito tradicional de revolução, sem dúvi ¬
d
SEGUNDA PARTE
Que transição é esta?

“ A cada refeição que fazemos


liberdade é convidada a senta
deira permanece vazia , mas o
posto.”
(R
A conquista da democracia tornou-se, desd
leitmotiv da polí tica brasileira. Examinem-se os
dos partidos e as declarações dos polí ticos. Exa
os conceitos que florescem na vastí ssima literatu
pela crónica pol í tica. Todas as divergências são
A verdade, porém , é que trazem argumentos em
democracia num volume maior do que em qualq
de nossa história . Teríamos rompido com a tra
descrevemos antes?
O Brasil teria, finalmente, admitido
nos, estaria admitindo — — ou ,
os valores democrático
suas crenças fundamentais? Eu me refiro, com
até aqui, ao Brasil político, ou seja, aos dirigen
militantes dos partidos , aos cidadãos em geral ,
que seja o seu grau de participação pol í tica, e ta
muitos que , sem terem ainda atingido a cidadan
por ela.
Depois de tudo que se fez para tornar esté
reno onde deveriam florescer os valores democrá
POR QUE DEMOCRACIA ?

deu-se o nome de Constituição. O mais irónico do


é que esta imposição ditatorial abre com a afirmaç
soberania popular: “ Todo o poder emana do povo
seu nome será exercido ” .
O maior mal de uma tradição pol ítica marcada
ambigüidade entre a democracia e o autoritarismo
nesta enorme distâ ncia entre o que as inten ções procl
e o que as ações fazem . Digamos que esse cinismo
na direita . Mas a verdade é que depois se genera
acaba afetando a todos.
É sabido que os autoritarismos — e mesmo os
litarismos
cracia . A
— gostam
abertura da
de fazer
emenda
homenagem
de 1969 ,
à idéia de
fazendo ho
Transição para onde? gem à idéia de soberania popular , é um exemplo
Depois de exaurida na história moderna a legitimaç
poder pelo direito divino dos reis , simplesmente nin
consegue falar do poder sem mencionar que as suas
estão no povo. Será disso que se trata quando vemc
aí tantas proclamações de inten ções democr áticas ? Ò
Se algo se rompeu em nossa tradição política e se, de-se admitir que estar íamos, de fato, transitando
portanto, a democracia está em vias de se constituir como alguma forma de democracia ?
um valor geral , trata-se ainda de processos em curso e,
assim , de dif ícil reconhecimento. Sempre permanecem, evi ¬

dentemente , os que , como ontem, se apegam a uma visão DEMOCRACIAS SÃO REIATIVAS?
rigorosamente autoritá ria da pol ítica . Paulo Maluf , por
exemplo, é o fruto mais completo do regime implantado
no país em 1964 e , mais ainda , de todo o autoritarismo A palavra democracia tem sido usada em tanto
de direita que viceja em nossa historia desde os anos 30. tidos para caracterizar a transição política brasileir
Mas há também, felizmente, os que vêm realizando podemos sempre nos perguntar se tem , finalmente,
escolhas democrá ticas e que , penso , constituem a maioria , sentido. O general Geisel , por exemplo, pretendeu
no meio do povo e das lideranças pol íticas. É sobretudo a terizar o seu período de governo falando de “ demo
formação desta maioria democrática que me preocupa . relativa ” . Basta lembrar a expressão para que se
Quem conhece a história pol í tica brasileira tem di ¬ uma pequena tempestade polêmica .
reito a muitas d ú vidas quando vê alguém se afirmar como Pretenderia o criador da “ política de distensão
democrata . O Brasil de hoje é regido por uma emenda nas repetir um truismo ? Pois não é apenas um tr
imposta em 1969 do modo mais ditatorial possível dizer que a democracia — como qualquer forma de
54 FRANCISCO C . WEFFORT
POR QUE DEMOCRACIA ?
A democracia da antiguidade clássica , por exemplo, limi-
tava-se a uma aristocracia de senhores que reinavam sobre eram definidas por certos atributos que faltavam ao
uma sociedade de escravos. A democracia liberal do século no Geisel e que continuavam pesando no governo
XIX era dirigida por uma elite burguesa que se acreditava redo. O império da lei , à qual se subordinam gov
portadora da razão e do conhecimento do bem comum , e governantes, a liberdade de se organizar para co
qualidades que, segundo se supunha , as massas de prole¬ de modo pacífico, pelo poder , a liberdade de parti
t á rios n ão tinham , exatamente porque eram prolet á rios.
do conjunto dos cidad ãos , através do voto, nos mo
de constituição do poder — eis aí atributos mín
A democracia moderna — onde existe
tência de grandes partidos de massa e
— de
depende da exis
ampla e intensa
¬

essenciais da democracia em qualquer tempo ou em


participação dos trabalhadores. Seria a coisas desse tipo que quer lugar em que exista ou tenha existido.
Geisel se referia quando falava de “ democracia relativa ” ?
Ao truismo do general Geisel sobre a democr
lativa a oposição respondia com outro truismo.
O general Geisel , que falava pouquíssimo, gostava ,
porém , de frases de sentido duvidoso. E a oposição, na democracia sem liberdade . Regido por toda a soma
época enquadrada no MDB, se indignava sempre. Não foi bítrio que lhe conferia o Ato Institucional nú mer
mais tolerantes entre os oposicionistas recusavam
também ele quem disse que a extensão das redes de águas
e esgotos deveria ser considerada como um dos direitos
ao governo Geisel até expressões como “ ditadura re
humanos ? Quem conhece as precaríssimas condições de no temor de que o adjetivo atenuasse a imagem d
higiene em que vive a maior parte da população poderia poder autocrático. A propósito, o então senador
até concordar. Uma ampliação das redes de á guas e esgo¬
Brossard chegou a comparar o governo Geisel com
tos poderia significar , por exemplo , um decréscimo das
dos imperadores romanos. Pouco importa a precis
nossas escandalosas taxas de mortalidade infantil . tórica da comparação. Ela vale para o objetivo q
autor tinha em vista , qual seja , o de caracterizar a
O problema é que a frase do general soava , para mui¬
ta gente , em particular na oposição, como expressão de um
soma de poder autocr á tico jamais conhecida na
intolerá vel cinismo. Nos dois primeiros anos do seu gover ¬ brasileira .
no, a luta pelos direitos humanos era , sobretudo, a luta
contra a censura à imprensa , contra as prisões ilegais e CONTRADIÇÕES DA TRANSIÇÃO
os seqiiestros praticados por órgãos de segurança do Esta ¬

do. Mais do que isso, era uma luta contra a tortura.


A oposição poderia talvez entender que o general Fi¬ Tudo isso é conhecido. Contudo, nem líderes
gueiredo falasse de “ democracia relativa ” como descrição sivos do campo liberal, como Brossard e Ulysse
de sua “ política de abertura ” . Ainda assim , insistiria sem¬ mesmo os setores mais radicais da esquerda deixar
pre, como o fez v á rias vezes o presidente nacional do MDB,
Ulysses Guimarães , que uma meia democracia é como uma
reconhecer um fato: foi precisamente no governo
que teve início o processo de transição em que nos
meia gravidez : ou existe ou não existe.
tramos. N ão era o melhor início que se poderia d
A democracia , como a gravidez, é um processo. A Mas foi o que se teve.
oposição não se recusava , portanto , a reconhecer o cará ter
POR QUE DEMOCRACIA ?
56 FRANCISCO C. WEFFORT
torna anacrónicos muitos dos conceitos que a trad
“ pol ítica de distensão” de Geisel e a “ pol ítica de abertura ” mou sobre a atividade política no país . E no plano
de Figueiredo , como ninguém se negará a reconhecer que mico, em que pesem os efeitos da crise , o menos
há um v ínculo de continuidade entre a “ abertura ” e as
perspectivas de transição que se esboçam agora . Qual o
pode dizer é que nos tornamos — pelo menos no
sentido da democracia que se define num processo de tran ¬
Sul — um pa ís de perfil capitalista industrial.
O cará ter contraditório e ambíguo de uma t
sição que começou , e continua , t ão pelo alto quanto este? que começa por cima se acentua sobre o pano d
Sempre houve polêmicas sobre a democracia. E as dos fortes contrastes entre o “ país legal ” , submetid
polêmicas continuam existindo. No período de Geisel, al ¬ e instituições anacrónicas, e o “ país real ” , em pro
guns falavam de “ democracia relativa ” , outros de “ demo¬ modernização acelerada . Compreende-se , pois , que
cracia social ” , outros ainda de “ democracia forte ” , “ demo¬ sição seja um assunto polêmico , dif ícil de expli
cracia brasileira ” , etc. Os homens da oposição repudiavam mesmo de descrever .
qualquer adjetivo. Mas a verdade é que aquilo que os pri ¬
Eu me explico. Para tomar um exemplo, nã
meiros buscavam definir com espí rito de apologia não era d ú vida de que a Lei de Segurança Nacional é um
muito diferente daquilo que diziam os seus adversá rios, totalitá rio. É uma antilei , à qual chamamos de lei
embora estes movidos pelo espírito de denú ncia e de crítica. trema concessão de linguagem . Mas bastaria defin
De Geisel para Figueiredo, tivemos o restabelecimen ¬
r á ter totalitá rio (ou , se quiserem , autoritá rio) de le
to do habeas corpus e da liberdade de imprensa , a anistia , esta para termos caracterizado o regime que as el
a reorganização partid á ria , as eleições diretas para os go ¬
A realidade é que o regime , ao mesmo tempo,
vernos estaduais em 1982 e estamos chegando ao limiar
da substituição de Figueiredo por um presidente civil . Neste
per íodo tivemos ainda , a partir de 1978, o ressurgimento
tolera
suas

leis
ou simplesmente não consegue impedir
sejam denunciadas nos jornais , no rádio
levisão. Um fato ainda mais curioso: em 1983,
do movimento operá rio que , de l á para cá , realizou al ¬
deputados de oposiçã o , entre eles toda a bancada
gumas das maiores greves que se conhece na história deste tornaram expressa sua recusa em obedecer à em
pa ís. Na reorganização partidá ria surgiram , entre os velhos, tatorial que nos serve de Constituição, quando p
alguns novos partidos. Um destes , o PT , surge de baixo juramento de posse em suas funções de represent
para cima , fen ômeno radicalmente novo a atestar a pujan¬ povo no Congresso Nacional . Que regime é este
ça alcançada pelos movimentos populares, em particular o evidentemente , rid ículo imaginar que um regime q
crescimento do peso social da classe operá ria industrial . te tais fatos se tenha tornado uma democracia. M
Na mesma á rea social , surgem duas propostas novas de negar que está deixando de ser uma ditadura ?
organiza çã o oper á ria , a Central Ú nica dos Trabalhadores A pol êmica se acende quando se busca defini
( CUT) e o Congresso da Classe Trabalhadora (CONCLAT) . sição. Mas é inegá vel que , do lado do regime e do
Na transição, descobre-se que o país vai deixando oposições , se busca fazer referência a uma reali
para tr á s as imagens conservadoras que a tradição busca mum , por dif ícil que seja defini-la . Ou será que
ciosamente preservar . A liberdade de imprensa permite nos - lado e de outro, se faria referência a um valor
descobrir um processo de modernização de jornais e revis ¬
Por estranho que pareça , entre a apologia , de
58 FRANCISCO C . WEFFORT
POR QUE DEMOCRACIA ?
oposições falam para assinalar o quanto falta caminhar, os
do regime , desde Geisel até hoje , falam para enaltecer o —
mais radicais se recusaria a reconhecer que , nos
dez anos, nós percorremos um pedaço da caminh
quanto já andamos . Mas a idéia do ponto de chegada apa¬
rece como sendo a mesma . rumo de uma maior liberalização política . E não po
deixar de reconhecê-lo , até porque a caminhada n
sido possível sem eles. Se é verdade que a inicia
DENOMINADOR COMUM transição vem de cima , também é verdade que su
nuidade e o seu avan ço progressivo não teriam sid
veis sem as pressões nascidas da sociedade civil e d
Desde fim de 1983, as oposições entraram em campa¬ tidos de oposição, que , aos poucos, acabaram cons
nha visando o restabelecimento das eleições diretas para a no país uma ampla e difusa , porém muito eficaz
Presidência da Repú blica . Tivemos, neste percurso, as democrática .
maiores manifestações de massa que se conhece na história Desde 1974 , tem havido uma complexa relaçã
brasileira , as quais aprofundaram a reivindicação demo¬ regime e oposição , por um lado , e entre Estado e
cr á tica das diretas, ligando-a com as grandes questões so¬ de, por outro, que faz de todos responsáveis , emb
ciais e económicas vividas pelo país nesta época de crise. graus diversos , pelo caminho percorrido. E é esta
É , evidentemente, um quadro povoado por inú meras diver ¬ relação que , criando em todos a convicção de qu
gências sobre temas os mais diversos. Contudo, nenhuma nhamos para a democracia , cria também um sen
dessas divergências se revelou bastante forte para impedir de responsabilidade em face do caminho a perco
a unificação das oposições sob o lema diretas- já .
O mais interessante disso tudo é que, sob pressão da DEMOCRACIA: VALOR GERAL
mobilização popular , o governo Figueiredo enviou ao Con¬
gresso uma emenda propondo as diretas para 1988. É cer ¬
to que depois a retirou , em uma de suas muitas manobras
para assegurar o controle da sucessão. Registro, porém, o A luta política no Brasil , hoje , é tanto uma l
fato de que enviou a emenda e nela expressou uma vontade poder quanto uma luta em torno do significado d
pol ítica , admitindo as diretas para daqui a quatro anos. cracia . Em outras palavras: a democracia é o terre
O que significa que, pelo menos nesta questão, a grande grupos e partidos que representam interesses e id
diferença entre as oposições e o regime estaria apenas na diversas lutam pelo poder . É por isso que todos (o
avaliação do timing da transição. todos) têm de incluir entre seus objetivos a conq
É evidente que, por tr ás da quest ão do timing , está a democracia ou , para os setores mais ligados ao
questão da continuidade do regime , do controle da transi¬ o aprimoramento da democracia . É evidente que,
ção e , em última instâ ncia , do tipo de democracia que se dida que aparece como um instrumento para o
imagina possível para o pa ís. Mas também é evidente que, a democracia é concebida como um instrumento. M
na questão das diretas como em muitas outras, as contra¬ bém me parece evidente que , na medida que s
dições entre o regime e as oposições pressupõem um deno¬ titui no terreno da luta , a democracia passa a ser u
tivo comum geral , do conjunto das forças políticas
60 FRANCISCO C . WEFFORT POR QUE DEMOCRACIA ?

Quando se examina o curso da transição , desde 1974 , ou n ão imposto por alguma lei histórica ou socio
percebe-se que algo se rompeu — ou se est á rompendo
em nosso tradicional realismo político. Se o realismo cínico
— desenvolvimento é , no Brasil , concebido como u
tivo que vale em si mesmo.
da tradição fosse o nosso critério maior de avaliação da Mais investimentos , mais empregos , melhores
situação pol ítica , poderíamos facilmente acreditar que ca ¬ maiores oportunidades de consumo — tudo isso v
minhamos , hoje , para nova forma de ditadura . além de qualquer preferência por este ou aquele
Poderíamos , por exemplo, imaginar que só uma outra econó mico. Temos o direito de preferir o socialis
ditadura seria capaz de desfazer tudo o que de ruim se capitalismo como caminho para o desenvolvimen
atribui à atual ditadura . Poderíamos também acreditar em qualquer hipótese , entendemos o desenvolvimen
que “ a ú nica sa ída ” estaria
pela direta — — tanto pela esquerda quanto
numa volta ao espírito de 1968. Com o que
uma condi ção para a conquista de uma vida ma
Se os anos 50 são os anos da constituição d
estaríamos de novo voltando à retórica de uma suposta volvimento como um valor geral , penso que os 70
revolução, enquanto , na realidade , estaríamos preparando são os da constituição da democracia como valo
um golpe de Estado . Se examin ássemos o momento atual da Porque a quest ão da democracia aparece — e nã
ótica da tradição , haveria v á rios rumos possíveis , e o menos
prová vel seria este que seguimos agora : o da democracia .
ser de outro modo — ligada ao problema do
polêmica em torno do seu significado é uma dec
Em que consiste isso que chamei antes de inverossímil necessá ria . Temos todo o direito de preferir um
na transição brasileira ? Consiste em que as vicissitudes da cracia liberal ou socialista . Temos todo o direito d
transição acabaram criando as condições para o enraiza ¬ assegurar a hegemonia burguesa ou lutar pela he
mento de uma crença nova : a da democracia concebida dos trabalhadores . Mas esta luta de partidos , gr
como um valor geral . Esta crença democrá tica , inverossí¬ interesse , classes sociais cm torno do sentido da d
mil de acordo com os critérios da tradição, tornou-se na cia só pode existir quando se vai além do seu sig
campanha das diretas de uma evidência t ão n ítida que meramente instrumental . Na própria luta dos div
quase se poderia tocar com a mão. e dos contr á rios em torno do sentido da democra
Para deixar as coisas mais claras , recorro a um exem ¬ a afirmação da democracia como um valor geral .
plo. A idéia de desenvolvimento económico constitui-se, a lor que é de todos , espa ço irrenunci á vel de reali
meu ver , como um valor geral desde os anos 50. Isso sig¬ dignidade humana .
nifica que embora os políticos , os partidos e os cidad ãos A formação e o enraizamento de um valor
em geral possam divergir quanto a saber quais os melho ¬
já disse , processo de dif í cil an álise , em especial
res caminhos para o desenvolvimento, eles estão, em sua est á ainda acontecendo. Se as coisas parecem mais
grande maioria , de acordo com rela ção ao valor do desen¬ quando se fala do desenvolvimento, é por um e
volvimento como tal . ótica causado pela distâ ncia histórica . Parece-nos
E não se trata de que apenas concebam o desenvol ¬
tural que a política brasileira tenha no desenvo
vimento como uma necessidade histórica , seja esta deriva ¬
um dos seus par â metros , que poucos de nós esta
da das leis económicas do capitalismo, das leis sociológicas postos a admitir que houve uma é poca em que
da modernização ou do que se queira . Se fosse só isso, assim . Valores consagrados íerminam sempre por
62 FRANCISCO C . WEFFORT

Até aqui , fico nisso que me parece ser uma consta ¬


tação de fato. Vivemos um tempo no qual a democracia ,
I mais do que um instrumento / vale em ¡¿i mesma . Mas como
entender o surgimento desta crença nova quando se sabe
da tradição pol ítica que temos ?

As derrotas da violência
ou a questão do Estado

Os que insistem em afirmar que caminhamos


democracia na base do argumento de que “ não tem
nhum outro lugar para ir ” cedem ao equívoco d
concepção determinista ( mecanicista) da história .
livrar-me aqui , desde logo, da possibilidade de vi
interpretado na linha do equívoco contrário. Refiro
erro simé trico— embora oposto — ao do determ
É o erro de quem vê a história como pura realizaç
valores, sejam estes princípios morais, religiosos o
l ógicos . Seja a história concebida como realização
cessidade ou de um imperativo categórico, o que se
é , precisamente, o essencial, isto é , a liberdade.
Na conjuntura de 1968, a revolução era uma
bilidade entre outras. Na conjuntura atual , a democ
uma possibilidade entre outras. Em 1968 a dem
n ão era uma alternativa excluída nem, hoje, a rev
estaria fora de questão. Se a democracia vier, co
espera , a ter êxito , não será por ter sido imposta p
64 FRANCISCO C . WEFFORT POR QUE DEMOCRACIA?
como se pensa, a democracia. Ocorre apenas que as cir¬
cunstâncias embora dif íceis , a tornam possível. O a segunda dependia de pequenos agrupamentos pol
cose a fare. O mais é luta . mais é com capacidade de fogo apenas rudimentar .
Embora em proporções brutalmente desiguais ,
Quais são estas circunstâ ncias?
Creio que a duas formas de violência tiveram, pelo menos em um
berta do valor da democracia na política brasileira desco
¬

ocorre to, resultados semelhantes. Serviram como fator de


no momento mais escuro de nossa história , os anos de ¬ ganização e de ruptura do sistema político. O que
f âmia do período Mediei . O assessor da embaixada in ainda uma vez , a velha verdade de que quando a vio
quem conversei me disse que essa é uma idéia de com se impõe , a política desaparece. Por isso mesmo,
nâncias bíblicas. “ Você tem de perder a sua vida resso lência que se abateu sobre o país revelou-se um fr
¬

para
ganhá-la .” O que ele queria dizer é algo que
todos sabe¬ do ponto de vista pol ítico . Da parte da esquerda, se
mos, até por experiência própria . “ Você conhece o valor como forma de resistência à ditadura , certamente
da liberdade quando a perde.” sou como o meio , que alguns sonharam , de conqui
Diz Juan Linz, em um dos seus estudos, que a poder. Da parte da direita , se valeu para os seus fin
sição da ditadura à democracia na Espanha se tran¬ nómicos , foi totalmente ineficaz para os seus fin
pelo menos em parte , pela memória da Guerra
explica , ticos. Destruiu o que restava da democracia golpea
seu milhã o de mortos. É uma parte da explicação, Civil com 1964 e , deste modo , tornou estéril o terreno onde qu
sabemos que entre a Guerra Civil e o período da transiçã pois política, de esquerda , de centro ou de direita , p
a Espanha mudou. o, prosperar.
Nos dez anos que vão de 1964 a 1974, o siste
No Brasil , não se pode falar, a rigor, de uma guerra
civil, nem em 1964, nem em 1968, nem durante o lítico formado durante o período democrático foi
de terror de Mediei. Mas ninguém duvidará de que reinado mente destroçado . N ão apenas foi destruído o sistem
bém aqui o início da transição não se entende sem se tam¬ tidá rio, abolido em 1965 , para dar lugar do simula
preender os efeitos da violência que se com¬ bipartidarismo ARENA-MDB , o qual não passou d
abate sobre o sis¬
tema pol ítico e sobre a sociedade depois de os anos Mediei de um exercício de ficção política . N
particular, depois de 1968. E, aqui,
1964 e, em de terror , após 1968, a própria imprensa tornou-s
como na Espanha,
isso é apenas uma parte da explicação. Pois, como vés da censura , em um simulacro de si própria . Na
também o Brasil mudou . se sabe, cia do habeas corpus , para mencionar logo o caso ex
o sistema judiciá rio se anulou como poder indepe
E o Congresso, destituído dos seus poderes e am
TERROR DE ESTADO pelo fantasma das cassações, converteu-se em cená
vida , eni que pesem as vozes de protesto que se ouv
quando em quando. Destruído o sistema político, o
Há violências e violências. Digamos que, no Brasil, a de Estado passava a destruir-se a si próprio. Criou
violência da direita tomou , desde 1964 e, situação de autofagia do poder .
em
desde 1968, proporções industriais, enquanto aespecial , Situações como esta remetem a leis antigas da p
da es¬ Por estranho que possa parecer , nunca foi tão f áci
66 FRANCISCO C. WEFFORT
POR QUE DEMOCRACIA?
como diz Max Weber, em seu clássico ensaio sobre a
Polí tica como Vocação, um conjunto de indivíduos que
reivindicam para si o monopólio do exercício legítimo da
aproximar — tanto da realidade vivida quanto as d
dison, um dos “ pais fundadores ” da democracia ame
violência , a questão que se colocava de imediato era a Para que haja uma democracia , diz ele , a primeir
seguinte: como considerar aqueles indivíduos que, no Es¬ dição é que haja um governo capaz de governar, a se
tado brasileiro, exerciam a violência de modo ilegítimo ? é que haja uma sociedade capaz de controlar o go
Seriam ainda o Estado ? N ão que fosse possível fazer uma O liberal Madison estaria mais perto da realid
preleção sobre Weber nestes termos. O terror de Estado o que o marxista Engels , ou é que já começávamos a
impedia. Mas o fato de que o terror existisse , sentido por naquele momento , os pren ú ncios da hegemonia libe
todos como coisa tangível, tornava concretas e imediatas re¬ bre o que ainda viria a ser o processo de transição
ferências teóricas que , em outras circunstâ ncias , seriam abs¬ leira ? Era a realidade da crise que colocava na ord
tratas. Entre estas mencione-se questões como a violência dia uma proposta teórica liberal , ou já estaríamos o
de Estado e a legitimidade de Estado, envolvendo ques¬ os ecos da proposta pelo restabelecimento do Esta
tões complexas sobre o direito, os sistemas de represen¬ Direito que algumas vozes liberais começavam a apre
tação, etc. no Congresso?
Quem diz terror de Estado diz crise de Estado: um O certo é que nos anos de terror faltavam t
Estado que pratica o terror tende a anular-se a si próprio. primeira condição quanto a segunda . O que chamá
Nestas circunstâ ncias, qualquer reflexão sobre o Estado, naqueles anos , de governo, tinha muito de parecid
em particular se inspirada nos clássicos , torna-se de ime¬ um bando de gangsters . Cham á vamos aquilo de g
diato uma proposta política. pela mesma razão que estamos dispostos a chamar
Naqueles dias , qualquer teoria sobre o Estado encon¬ a antilei da Segurança Nacional .
Era um antigoverno , pouco mais do que um
trava sentido em evidências incontrastáveis. O Estado
diz Engels — surge quando a sociedade se divide em um — de sectá rios que manejava os instrumentos do pod
seu próprio benef ício ou em benef ício dos interess
conflito irreconciliá vel. Da í que o Estado é um órgão capaz
de assegurar a coesão da sociedade, à qual se apresenta vados que tomavam o Estado como coisa sua . Os
como soberano. Que havia em algum lugar um conflito duos que se diziam governo tratavam a sociedade em
irreconciliável era evidente. Tão evidente quanto a carên¬ como um exército de ocupação trataria um país oc
cia de um órgão capaz de submetê-lo a controle. O que se Se conseguiam dar a ilusão de que constituíam um
tornava ainda mais grave pelo fato de que o aspecto vio¬ no , foi porque est á vamos em pleno “ milagre econó
lento do conflito aparecia ali mesmo onde se supunha de¬ resultado de uma conjuntura de expansão da econom
vesse estar o Estado. cional e internacional que a propaganda insistia em
siderar como realização do poder .
Foi, porém , destes anos de violência, de conf
-
PRECISA SE DE UM GOVERNO QUE GOVERNE de medo que surgiu no pa ís uma atitude nova em r
ao Estado e, por conseqUência, em relação à socie
à democracia. Tanto para as iniciativas que nasc
Estado mais precisamente das Forças Armada
68 FRANCISCO C . WEFFORT POR QUE DEMOCRACIA ?

tica , o ponto de partida tem de ser procurado nos anos INICIO DA “ DISTENSÃO”
mais escuros do regime de após-1964 . São também , por
isso mesmo , os anos mais confusos de toda uma fase his¬
tórica carregada de confusões. Se tem sentido falar de A verdade , porém , é que , em 1974, quando
esquizofrenia para um pa ís , aqueles foram , sem d ú vida , chegou à Presidência , já n ão havia “ radicais ” nas
os anos da esquizofrenia política brasileira . ções , pelo menos não no sentido que o regime atr
Se o Estado era um anti-Estado, o que chamávamos esta palavra . As guerrilhas estavam já inteiramente
de sociedade se reduzia a pouco mais do que um conglo ¬ tadas quando Carlos Marighela e Carlos Lamarca
merado de indiv íduos amedrontados. A partir de Mediei , assassinados , o primeiro em 1971, o segundo em 19
nós que vínhamos de cinco anos de ditadura militar , pas¬
samos a viver a situação terrível de uma ditadura de mui¬
maioria dos seus remanescentes
momento , das esquerdas que

haviam
e o que restava,
ficado de fora d
tos ditadores. No episódio da substituiçã o de Costa e Silva
por uma junta militar , a autoridade do presidente sobre as
armada — se convertia à s lutas democr á ticas , o
inspiração dirigente cabia , sobretudo , aos liberais. O
For ças Armadas viera abaixo e Mediei n ão fora capaz de cos “ radicais ” que sobravam em atividade estava
restabelecê-la ou n ão tivera interesse nisso. Dizem as más “ porões do regime ” . O país , como tal, vivia em plen
línguas que Mediei foi escolhido , entre outras razões, por e ordem . A ordem do garrote e a paz dos cemitério
ser uma personalidade irrelevante. Por uma razão ou por lando em “ distensão ” para o país, o que Geisel f
outra , com ele a ditadura chega ao paroxismo . restabelecer a paz e a ordem nas Forças Armadas
N ão era mais, porém , a ditadura de urti general-pre¬ Estado.
sidente , mas a do chamado “ sistema ” . E o “ sistema ” era As explicações para o in ício da transição bra
um caos de iniciativas descoordenadas , embora todas são clássicas na teoria política . Como diria Finer ,
tendentes a um arbítrio cada vez maior , de comandantes Man on Horseback , os militares, como institui ção, e
de exé rcito, comandantes de região, brigadeiros da Aero ¬ na política quando sentem ameaçada a unidade i
n á utica , coronéis dispersos por diversos órgãos de segu¬ cional das Forças Armadas . Pela mesma razão, co
rança , etc. o autor , ser ão obrigados , mais cedo ou mais tarde,
Se o general Geisel — em que pese o autoritarismo Entrando na política , em 1964, em resposta a um

extraordin á rio do seu governo - prestou algum serviço à
democracia , foi o de restabelecer a disciplina nas Forças
de Estado que já atingia o interior das Forças Arm
os militares acabaram eliminando , pela raiz , qualque
Armadas, preparando as condições para que viesse a exis¬ cípio de legitimidade do poder político , sobretudo n
tir no país um governo com capacidade para governar. Ele respeita às regras da sucessão presidencial . Na seq
chamou a isso de “ distensão ” , porque acreditou que a sua de Castello a Costa e deste a Mediei ficava claro qu
tarefa fosse a de restaurar a paz e a ordem em um país vez quebrada a legitimidade do Estado, tomava d
em guerra . E a melhor tradução que tinha a oferecer para quem tinha capacidade de fogo. Era o que se chama
tal política foi a frase inventada por algum dos seus asses ¬ época , de “ processo revolucion á rio ” .
sores , dirigindo-se às oposições: “ Segurem os seus radicais N ão era , como se poderia pensar , o reino do L
que nós seguramos os nossos ” . o Estado supercentralizado diante de uma sociedad
70 FRANCISCO C . WEFFORT POR QUE DEMOCRACIA ?

isso . Foi o reino , ainda mais monstruoso, de Behemoth, a pre maior à medida que o poder se concentra e perd
violência solta , desbragada . A ú nica comparação histó¬ tentação. Em 1969 , quando Mediei recebe o pod
rica que me ocorre para o Brasil desses anos é a China mãos de uma Junta Militar , este processo já havia fe
dos “ senhores da guerra ” . E havia mais : a corrupção, pra ¬ longo percurso .
ticada em ampla escala , no entusiasmo do “ milagre eco¬ Setores pol íticos que haviam participado do
nómico” . Sem esquecer os seqiiestros , praticados por embora em posição relativamente marginal , como
agentes do Estado , e a tortura , praticada em estabeleci ¬ lino Kubitscheck , são exclu ídos rapidamente da p
mentos militares . Setores que haviam participado ativamente , como
Era o caos , t ão temido pelos militares, mas promovido Lacerda e o grupo que se reunia em torno do jor
a partir do poder , o qual se achava em suas próprias mãos. Estado de S . Paulo , são rapidamente marginaliza
E a í , sim , passava a ter sentido “ colocar ordem na casa ” , logo depois , também excluídos.
como dizem as justificações clá ssicas das intervenções mi¬ É , portanto, praticamente desde o início que
litares na pol ítica . Foi o que Geisel fez . me se submete à lógica infernal que haveria de levá
isolamento político. A atividade política torna-se , ca
mais, um assunto dos comandos militares e das cam
CONCENTRAÇÃO DO PODER E ISOLAMENTO POLITICO políticas e burocráticas que conseguem sobreviver
sombra . N ão houve , no Brasil , apenas “ um golpe
do golpe ” , mas vá rios. E cada um deles significa
Como foi possível que se chegasse a isso ? A pergunta passo a mais no plano inclinado da perda de legitim
é pertinente , tanto pelo que ela pode explicar do passado , Ê verdade que as promessas de restabelecime
quanto pelo que pode sugerir sobre o andamento futuro democracia feitas, no início, por Castello, são ren
das lutas democr á ticas no pa ís. por Costa e, também , por estranho que pareça , por M
Não é demais relembrar que o golpe de Estado de Ê também verdade que , na fase coberta pelos três
1964 foi feito , como outros antes dele, em nome da de¬ ros presidentes militares, surgem , aqui e acolá, ten
mocracia . Também é de reconhecer que este golpe foi pre ¬
de institucionalização pol ítica , embora todas fraca
parado com apoio em amplo movimento de opinião pú bli¬ Também é certo que , apesar das suspensões tempo
ca , do qual participaram a maioria da classe média , da o Congresso se manteve em funcionamento, embo
burguesia , e da Igreja , bem como toda a grande imprensa evidentes constrangimentos e destitu ído de boa par
e boa parte dos partidos de centro e de direita . seus poderes. E também é certo que , apesar de tu
Desde o momento de sua implantação, porém, o re ¬
eleições ( parlamentares e municipais) se mantiveram
gime entra em um processo de concentração militar do
uma pr á tica que se renovava de dois em dois anos, e
poder que marcha no mesmo ritmo do esvaziamento de
tivessem um sentido meramente simbólico e não de
suas bases de sustentação civil , isto é , política e social. Os
militares, que deveriam ser apenas o braço armado de um
renovação do poder .
movimento civil sob hegemonia burguesa , tomam o poder , Nada disso , porém , serviu para mudar o rum
marginalizam os civis e acabam criando um mal-estar até acontecimentos. Os fatos que mencionei acima valia
72 FRANCISCO C . WEFFORT
POR QUE DEMOCRACIA ?

-
cia para o futuro, mas o que se via , no dia a-dia do presen ¬
durante o governo Geisel — , tratava-se de restab
te , era o horror da ditadura.
n ão apenas o Estado , mas o Estado de Direito .
Fiquem claras as diferenças . Para Geisel, trat
O ESTADO E O ESTADO DE DIREITO de criar as condições em que o governo fosse cap
governar. Para as oposições , inspiradas em uma d
eminentemente liberal , tratava-se de criar as condiçõ
Em todo caso , a retórica estava lá . E começa a tomar viessem permitir à sociedade controlar o governo .
sentido quando passa a servir de cobertura para as ban¬ São duas visões diferentes , mas simultâ neas .
deiras das oposições, em boa parte formada por políticos tantes em muitos aspectos , mas não necessariamente
antes comprometidos com o golpe de Estado. dentes. A distensão , “ lenta , gradual e segura’’ para
A fracassada Frente Ampla , de Lacerda , Kubitscheck, foi, para as oposições, sobretudo inseguras e, em
.
etc terá sido talvez a primeira tentativa neste sentido. É ,
, momentos , extremamente violenta . Apesar de tudo
porém , a partir de 1968, quando o país se acha sob Me¬ duas linhas de ação esboçaram , em mais de uma op
diei e em plena vigência do Ato Institucional n ú mero 5 , dade , o reconhecimento de um terreno comum . E
que os liberais frustrados com ó golpe começam a juntar-se tinham de comum era que ambas se colocavam , e
aos liberais remanescentes da democracia de 1946. O de modos diferentes , contra o terror de Estado.
MDB, que nasce, como o partido do governo, a ARENA, A questão do Estado e a quest ão da democraci
de uma iniciativa do regime, seria o escoadouro natural sob ótica liberal , aparecem , assim , simultaneamen
destas primeiras expressões da oposição liberal. É a partir por o Estado nos trilhos e reorganizar a sociedade
aí duas tarefas diferentes que cabem , desde o iní
de então — com as esquerdas esmagadas sob o peso da
transição , a atores diferentes e , em muitos se
repressão — que começa a definir-se para o conjunto das
oposições o tema do restabelecimento do Estado de Direito. opostos.
A í se encontram , em todo caso, algumas das
Tudo isso significa dizer que a hegemonia liberal que
vemos hoje , tão n ítida , no campo das oposições, vem des¬ ções que haveriam de permitir que o regime , atra
de o início da luta pelo restabelecimento da democracia no Geisel e , depois , de Figueiredo , tomasse a iniciat
país. E mais: começa , através de umas oposições nas quais transição , reabsorvendo, ao longo do caminho, a
os dissidentes do regime têm peso decisivo , na forma da das bandeiras liberais em mãos das oposições. São a
cobran ça de uma promessa democrá tica frustrada pelos mas condições que haveriam de permitir à s opo
novos donos do poder . nascidas da iniciativa liberal , manter-se ao longo d
po , sob hegemonia liberal , em que pesem todas as
Para Geisel— ligado ele próprio aos “ castelistas ” ,
ções que haveriam de ocorrer , de cunho acentuada
muitos deles tidos por liberais nos meios militares

ta-se de restabelecer a disciplina militar , a começar pelo
tra- popular e operá rio.
princípio da soberania do poder presidencial sobre as For ¬

ças Armadas. Nas circunstâ ncias de 1974, quando chega


ao poder, isso significava restaurar o Estado. Para as opo ¬
POR QUE DEMOCRACIA ?

por efeito de alterações de estrutura na sociedade


leira . É inegá vel que certas situações políticas
caso de cará ter marcadamente violento — —
alterar
modo mais ou menos profundo , a maneira pela q
pessoas, os grupos sociais e as classes se colocav
face da política em geral e , em particular , em f
Estado.
Em que pese toda a nossa tradição de cinis
rela ção aos valores democrá ticos, a verdade é qu
adquiriram um novo sentido naqueles anos . Adq
um novo sentido para os liberais que foram os pr
As derrotas da violencia a reivindicá-los no plano político. E tinham de a
um sentido novo para a esquerda , que voltava,
ou a questão da democracia leante , ao cená rio político. Muita gente, no pa ís
medo. E é muito dif ícil ser cínico quando se tem m
A preced ê ncia hist ó rica dos liberais sobre a es
na luta pela democracia é um fato que não pode
cuidado . Vem de antes do período Mediei, como já
A violência que rompeu o sistema pol ítico vigente vamos . E se afirma nos dois primeiros anos de te
Estado. Enquanto a direita , aparelhada nos órgãos
antes de 1964 rompeu também , sobretudo depois de 1968, gurança e no “ sistema ” , fazia a sua “ guerra revo
com algumas de suas tradições ideológicas . ria ” e a esquerda armada desenvolvia as suas t á t
Mudou o país , já sabemos , com o crescimento urbano guerrilha , algumas vozes liberais começavam a e
expans ão industrial, criando, em particular no Centro-
e a pedindo a revogação do AI 5 .
Sul, setores novos na classe média e na classe oper á ria . J á É a célebre quest ão dos caminhos , decisiv
seria um motivo importante para a ruptura ideológica. O quem pretenda a hegemonia na política . Quem t
país moderno , urbano e industrial dos anos 70 n ão pode¬ caminho certo tem uma boa chance de dirigir os
ria manter por muito tempo tradições ideológicas que dei ¬
Enquanto uma parte da esquerda resistia pelas ar
tam ra ízes no país agr á rio que engendra o movimento dos liberais erguiam uma bandeira de cará ter institucio
anos 30. Seria , por isso, um engano pensar que as mudan¬ luta pela supressão do AI 5 passam a reivindicar o
ças de mentalidade que ocorrem nos anos 70 sejam apenas de Direito . A resistência armada foi derrotada e est
fruto de uma situa ção de violê ncia . de car á ter institucional acabaram se tornando pala
mum do conjunto das oposições. Inclusive da esqu
RA í ZES DA HEGEMONIA LIBERAL
Marx disse, certa vez , que “ a democracia é o
resolvido de todas as Constituições ” . No Brasil d
sição , a democracia tem sido, e creio continuar á s
76 FRANCISCO C. WEFFORT POR QUE DEMOCRACIA ?

liberais queriam , contra o AI 5 , restabelecer o Estado de dentemente , a alegação de que n ão tiveram , no p


Direito , entendido como o império da lei, como diz a as condições de se expressar como tais . Não cre
expressão em sentido estrito. As esquerdas que voltavam seja bem assim .
à política avançavam os seus toques na temá tica geral, fa ¬ Um autorit á rio é um sujeito que se comporta
lando em Estado Social de Direito , participação dos traba ¬ tariamente . Um democrata é um sujeito que se co
lhadores, etc. Em que pesem as muitas divergências, e democraticamente. Quem age como um democrata ,
apesar dos conflitos que ainda haveriam de vir , o adver¬ mantendo, no fundo da alma , sentimentos autoritá ri
sá rio comum era um só: a violência do “ sistema ” . talvez um mau pol ítico, mas n ã o deixar á de ser de
ta por isso . Quem atua como um autoritário,
guarde reservas íntimas do gênero “ como seria bo
RUPTURA DA TRADIÇÃO povo estivesse maduro para a democracia ” , talvez
chegue a ser um totalitá rio mas, nem por isso, dev
considerado um democrata. Penso que o esforço que
N ão falo das intenções , mas das ações. Nada mais muitos por buscar no passado as ra ízes de suas co
inú til, em política , do que a tentativa de desvendar as in¬ democrá ticas atuais vale apenas como o primeiro p
tenções “ de foro í ntimo ” dos protagonistas. Em política , uma revisão de atitudes que , mais cedo ou mais
a ú nica intenção que vale é aquela que aparece na ação terminar á em uma ruptura com a tradição.
real . O fato de que a questão da democracia apare
Ê com este crité rio em mente que sustento aqui a tese da , e de modo indissol ú vel , à questão do Estado , co
de que, sob as circunstâ ncias de violência do período Me¬ as coisas nesta revisão necessá ria . Complica para
diei , muitas das ambigiiidades da tradição política brasi¬ em particular para os liberais , que , embora tendo
leira em face da democracia se resolveram em favor de primeiros a dar voz às reivindicações democrá tic
uma concepção democr á tica de democracia . Há ainda , por também , desde sempre , os que se acham mais pr
certo , setores irredut íveis, tanto à direita quanto à esquer¬ do Estado . Mais dif ícil ainda quando se sabe que
da . E o que possam fazer , ou deixar de fazer , não é de der de origem autocrá tica não tem como deixar de
modo algum irrelevante. Mas se são as ações que contam , os que dele se aproximam . Para se fazer avançar a
não me parece haver d ú vida de que a maioria tenta “ um cracia depois de um período tão longo de autorit
jeito novo de andar ” . E o que a transição já caminhou até impõe-se romper o regime autorit á rio , dando nova
aqui seria simplesmente incompreensível se não houvesse ao Estado. Para quem est á próximo do poder , isso
da parte de muitos uma atitude nova em relação à de¬ impossível . Mas , sem d ú vida , é mais dif ícil .
mocracia . Embora as dificuldades maiores estejam com
Em face das perspectivas da transição hoje , aparecem rais , é no campo da esquerda que elas mais apa
muitos para dizer louvores à nossa tradição democr á tica . Ainda que a esquerda esteja distante do poder , pes
São as vantagens da ambigiiidade de uma tradição que , bre ela enormes preconceitos. Pode-se , por exemplo
permitindo às pessoas tentarem ser , ao mesmo tempo, au¬ a sério os comunistas quando afirmam querer a de
cia ? E os remanescentes da esquerda armada de 19
78 FRANCISCO C . WEFFORT POR QUE DEMOCRACIA ?

podem significar um cínico jogo tá tico. E o pior é que —


à parte setores minoritá rios de esquerda , que, realmente,
decepções que conduzem muitos liberais a posiçõ
direita.
n ão conseguem conceber a democracia senão como tá tica Evidentemente, os comunistas n ão podem ser
— mesmo aqueles que se empenham numa verdadeira luta
pela democracia acabam tendo dificuldades com outro
derados inocentes quanto às práticas golpistas da
anos. De resto , nenhuma das demais forças políticas
tipo de preconceitos , os que vêm de sua própria tradição. atuantes pode ser considerada inocente, em que
diferenças de grau na responsabilidade comum pel
pismo. Em todo caso, é fato que , sempre que as circu
OS COMUNISTAS, OS LIBERAIS E A DEMOCRACIA cias políticas lhes permitiram , os comunistas tratara
se ajustar às regras do jogo democrá tico. Isto ocorreu
ticularmente, depois de 1954 , o que lhes assegurou
Para as comunistas do PCB , por exemplo, a sua atitu¬ posição de participação ativa em 1961 em defesa da
de atual de valorização da democracia parece significar, lidade democrá tica. Também é verdade que depo
n ão uma novidade , mas um aprofundamento de posições 1964 sempre buscaram caminhos democráticos pa
que se acham em sua própria tradição. opor ao regime militar . Quaisquer que sejam as m
Em 1945, num quadro de derrota do fascismo e de opiniões pessoais sobre o PCB e suas políticas, n
aliança dos EUA e da Inglaterra com a URSS, o PCB viveu surpreende que a quest ão da democracia tenha hoje
um momento de entusiasmo democrá tico que, lamentavel¬ de relevo em sua agenda .
mente , durou tão pouco quanto a sua própria condição A quest ão da rela ção entre os comunistas e a
de partido legal. Um entusiasmo democrático que o levou cracia merece, porém , uma referência mais longa .
a políticas, a meu ver , equivocadas no gênero de aconselhar pelo seu peso real no jogo político do que pelo peso
a classe operá ria a “ apertar o cinto ” em nome da recons ¬
me que tem tido o anticomunismo em nossa história
trução da democracia , quando o que teriam a fazer era tica . E os profundos compromissos dos comunista
sustentar as greves e as lutas oper á rias, precisamente para
ajudar o pa ís conquistar a democracia.
sua própria histó ria — onde o peso do autoritari
muito maior do que eles gostariam de admitir — só
Note-se , aliá s , que a perda de entusiasmo pela demo¬ para atrapalhar os seus pr óprios movimentos.
cracia não é exclusiva dos comunistas. Depois de 1947 , Quando eles afirmam querer a democracia, a
eles passam a pregar o que chamavam de “ a derrubada do sempre algu ém para perguntar: “ Ea Rú ssia ? ” Mui
governo de Dutra ” , bom ou ruim um governo democrati¬ atrapalham enormemente para responder. Há exceçõ
camente eleito pelo povo. Mas a verdade é que o clima da lizmente . Lembro-me de um comunista que , partici
guerra fria afetou o próprio governo, que , desde o início, de um debate , estabeleceu a ú nica base que me parec
passou a uma pol ítica anticomunista , denunciada na época , reta para questões como esta . Colocado diante da m
até por parlamentares liberais filiados à UDN . Além disso, pergunta , ele começou dizendo: “ Eu sou comunist
lavraria entre os liberais uma funda decepção com a de¬ n ão sou russo” . A seguir , mostrou algumas diferenç
mocracia de 1946 . N ão eram poucos os que, dentro da vias entre a R ú ssia czarista de 1917 e o Brasil do
UDN , viam na democracia da época uma continuação dis¬ 80 e terminou sugerindo que , afinal , mesmo na “ R
80 FRANCISCO C . WEFFORT POR QUE DEMOCRACIA ?

Para mim , o essencial era o ponto de partida . No (


jades detreinamento a alguns grupos , mas isso é a

gesto inicial que implica na verdade uma saud á vel rup¬ ijma parte da questão. Quem se apega à idéia d
tura com a sua própria tradição — ele deu a entender que ififluência decisiva dos cubanos acabará perdendo
nificado real das ações dos jovens de 1968. Se a insp
se sentia tão responsá vel pelo stalinismo quanto um ca ¬
tólico pode se sentir responsá vel pela Inquisição ou um da retórica guerrilheira era buscada em uma revoluç
liberal brasileiro pode se sentir responsável pelas atroci¬ se convertera em um mito , as razões reais de sua l
dades dos americanos na guerra do Vietn ã ou dos france¬ tavam aqui mesmo. E quanto às influências externas
ses na guerra da Argélia . do que Cuba há de ter pesado a atmosfera criad
movimento de 1968 na França . Sem esquecer a pro
da , tão cínica quanto violenta , do governo americano
A NOVA ESQUERDA E A DEMOCRACIA a guerra do Vietnã .
Embora as simpatias pela revolução cubana v
desde os seus in ícios , em 1959 , as ações armadas
Mais sutil é o processo de mudança vivido por muitos querda só começaram nove anos depois , em 196
que , na virada de 1968 , se lançaram à luta armada. Como preparação é posterior ao Ato Institucional núm
entender que os que se dedicaram ontem a ações armadas de 1965 , que dissolve os partidos políticos da demo
contra o regime militar participem hoje da luta pela demo¬ de 1946. Foi um momento de frustração geral no
cracia ? Também aqui , é preciso despir a análise dos pre¬ tanto mais porque o AI 2 vem em resposta aos resu
conceitos correntes e enfrentar os fatos como eles se apre¬ das campanhas eleitorais estaduais do Rio de Janeir
sentam. Minas Gerais , onde foram vitoriosos candidatos de
Registro , em primeiro lugar , que a maioria dos gru ¬ ção ao regime militar . É também o momento em que
pos de ação armada atuou no eixo Rio-São Paulo, ou seja , e Silva se impõe a Castello, frustrando a primeir
no centro econ ómico e pol í tico do pa ís . A ú nica exceção messa de restabelecimento da democracia no pa ís .
relevante foi a de um grupo do PC do B que tentou esta ¬ Pretendo dizer que , qualquer que tenha sido
belecer uma base de ação guerrilheira no Araguaia , regi ão rica , a luta armada daqueles anos tinha o sentido d
recôndita do extremo Norte do pa ís. Em segundo lugar , luta de resistência . E ocorreu n ão porque em Cub
a grande maioria dos guerrilheiros daquele momento era vesse um regime socialista , mas porque havia no
formada por jovens , em geral estudantes , que nasceram um regime militar . Quando o regime brasileiro er
para a pol ítica depois de 1964 , encontrando barrado seu ou bem , democr á tico, um grupo se alongou pelo i
caminho para a cidadania pelo regime militar. Em terceiro do Brasil para treinamentos de guerrilha , mas fo
lugar , boa parte de suas ações militares acabou destinada antes que fosse capaz de qualquer ação. E n ão con
a obter a libertação de companheiros presos. Se estes três chamar a atenção dos meios políticos nem mesmo
fatos são considerados , o que se pode concluir é que as seus dirigentes , presos , foram submetidos à tortura ,
suas ações armadas foram , sobretudo, de fustigamento t ão Estado da Guanabara , sob o governo Lacerda .
contra a ditadura militar implantada . N ão ocorreu atividade guerrilheira no país an
O primeiro preconceito a ser deixado de lado é o da 1964, como não ocorre agora depois de iniciado
1

82 FRANCISCO C . WEFFORT POR QUE DEMOCRACIA ?

mocracia , onde não se vê nem rastros de ações violentas t ca brasileira e, em particular , com algumas das tra
da esquerda . Nem a Espanha , modelo da transición sin dá “ velha esquerda ” . O caminho das ações armad
ruptura, se enquadra neste caso. sultou em fracasso, mas não morreu o motivo que o
A experiência da luta armada de 1968 é fruto de um rava: a busca de perspectivas para a construção d
conjunto excepcional de circunst â ncias, no qual a influên¬ esquerda independente da política dominante. Por
cia cubana entra apenas como um condimento a mais. O doxal que possa parecer , a verdade é que dos esco
entusiasmo democrá tico que acompanhou o governo Jus- a que se viu reduzida pela repressão, nasce uma
celino Kubitscheck trocou-se em seu inverso depois da esquerda ” no Brasil . Muitos dos seus sobreviventes
renuncia de J â nio Quadros. As circunstâ ncias de ameaça ram depois aos partidos que se criam a partir de 1
de guerra civil que cercam a posse de João Goulart leva¬ PMDB , o PDT e, sobretudo, o PT . No PT se encon
ram muitos à convicção de que o país entrara em uma com um setor de ponta do sindicalismo e da esque
crise de poder , para a qual n ão se via saída pacífica . origem católica , todos em busca de uma perspectiva d
Começa , ao mesmo tempo , uma depressão económica independente para o movimento operá rio e para os
que haveria de durar até 1968 e para a qual muitos seto¬ lhadores em geral .
res de esquerda n ão viam sa ída possível nos limites do N ão tenho elementos de informação para saber
capitalismo . E atenção: n ão foram os jovens, alguns deles importâ ncia que os jovens de 1968 atribuíam à de
quase meninos , de 1968 que criaram esta visão, mas figu ¬ cia . Eram muitos grupos , mais de dez , cada qual
ras tão importantes do pensamento económico brasileiro sua proposta e os seus próprios dramas. Sei de algun
quanto um Celso Furtado , com a sua “ teoria do estanca ¬ embora tentando romper com os há bitos stalinista
mente ” da economia brasileira . E , finalmente, entre 1964 fizeram mais do que levar o stalinismo às últimas
e 1968 , todas as forças pol íticas brasileiras passam por qiiências , esgotando assim as suas virtualidades. Em
uma seriíssima crise de credibilidade. caso , n ão tenho d úvidas de que para a maioria d
Depois de Costa e Silva haver levado ao fracasso as sobreviveram à derrota , a democracia se inscreve
promessas democrá ticas de Castello , quem poderia levar entre os seus primeiros objetivos .
a sério as suas próprias promessas ? Quem poderia confiar Os jovens de 1968 propunham a “ derrubada d
nos liberais , que , até ontem , eram entusiastas do golpe de dura como um meio , um primeiro passo, para o s

Estado ? Como tomar a sé rio a Igreja Católica , quando mo ou para a libertação nacional . Mas o que conse
todos tinham na memória as “ marchas com Deus ” , através realizar foram ações de resistência . Depois da der
das quais muitos dos seus l íderes haviam dado cobertura ainda a idéia de pôr fim à ditadura que permanece
ao golpe ? Como confiar no próprio PCB, derrotado em seu objetivo. Uma vez mais na política , temos um c
1964 e em processo de crise interna ? Como tomar a sério que um meio se torna um fim em si próprio. Um
a Frente Ampla , se ela contava com Lacerda , protagonista parte deles permanece com este objetivo até hoje
do golpe coadjuvante do fracasso das promessas de Cas ¬ demais, se puderam acrescentar à idéia do fim da d
tello ? a perspectiva de uma sociedade futura , o fizeram
A esquerda de 1968 nasce de todas estas crises. E â mbito de uma orientação política de contornos
embora o caminho que escolheu viesse a dar em mais uma crá ticos.
84 FRANCISCO C . WEFFORT

também procedimentos e métodos de ação. Depois da der ¬


rota das armas , ficou claro para muitos que um dos modos,
na verdade o mais efetivo, de se lutar contra uma ditadura
estaria em organizar a democracia pela base, na sociedade.
Tornou-se , então , possível entender que a democracia é
algo mais do que uma formalidade descartável e que as
instituições civis e os movimentos sociais devem fazer va ¬
ler a sua autonomia em face do Estado e dos partidos.
Há também a questão do tempo, aliás fundamental
em uma transição que já se alonga por dez anos e promete O Estado na dianteira...
continuar alguns anos mais. Em luta tão demorada contra ou como se faz
a ditadura n ão haveriam de faltar as oportunidades para
o reconhecimento das virtudes da democracia onde quer
que ela exista , seja na sociedade , seja no Estado. Para
uma transição conservado
quem se empenha nesse combate, procedimentos ditatoriais
ou autoritários tendem a tornar-se , em si mesmos, repug¬
nantes. Nada é t ão desastroso para quem combate, durante
anos seguidos , contra uma ditadura , quanto ser acusado
de usar procedimentos semelhantes aos do adversá rio. A transição vem desde 1974 e promete contin
Muitos jovens de 1968 continuam socialistas . E uma alguns anos mais. Começamos este segundo seme
boa parte deles está certamente convencida de que o socia¬
1984 sob ameaça do Colégio Eleitoral , a institu
lismo não virá sem uma revolução social . Mas é inegá vel reprodução do regime. N ão se exclui, porém, a p
que algo mudou , tanto em suas concepções sobre o socia ¬ dade de que , numa situação de emergência , os
lismo quanto em suas concepções sobre a revolução. E a dominantes concedam afinal em adotar o siste
diferença essencial passa , me parece , pela idéia de de ¬
eleições diretas , permitindo assim a participação d
mocracia . na escolha de seu presidente. Ou podem ficar a m
minho , instituindo um sistema de governo parla
'
com eleições diretas para presidente.
1 Em qualquer hipó tese , a transição continua
alguns anos mais . Eleito o presidente pelo povo,
ainda muito a fazer para podermos dizer que en
de fato, em um período democr á tico. Nas condições
mesmo a conquista de uma Assembléia Nacional
tuinte , reivindicação da maioria das oposições, dif
te poderia ser considerada um novo começo para
stória política . Seria , como as diretas, mas um
8b FRANCISCO C . WEFFORT
POR QUE DEMOCRACIA ?

brasileira tome tanto tempo ? Como entender que um pro ¬


catos , mas registra a informação como quem toma a
cesso tão demorado tenha ocorrido, pelo menos até aqui , como termómetro da febre social . Decidirá depois e
sem rupturas ? der á parte das reivindicações , se isso não con
demais a pol ítica econ ómica . Informação sim , partic
PERGUNTAS DE UMA HISTÓRIA CONSERVADORA
não .
Uma transição conservadora é como o célebr
das bonequinhas russas . Vem uma dentro da outra ,
iguais , só diferentes no tamanho . O comando milit
É evidente que tudo isso est á ligado ao predomí nio, presidentes condiciona o perfil conservador da tran
até aqui inconteste , dos conservadores na sociedade e na E este reforça a hegemonia liberal no â mbito das
política brasileiras. Vejamos a coisa pelo lado da política . ções . Abre-se assim a perspectiva de um projeto, t ã
O controle adquirido, depois de 1974, por Geisel e, depois , dicional quanto elitista , de “ conciliação nacional ” , d
por Figueiredo , sobre as For ças Armadas, é a premissa o ex-governador de Minas , Tancredo Neves , é o exp
sobre a qual estes presidentes militares se ergueram como m á ximo . Do outro lado , com a mesma pretensão m
comandantes pol íticos da transição . Nesta qualidade, con¬ capaz de realizá-la , est á o deputado Paulo Maluf , he
dicionaram de tal modo o processo que este se tem limita ¬ de Mediei , representante da nova direita , agressivo
do , no essencial , às elites políticas e à s classes dominantes. propensões fascistas . É o herdeiro do “ sistema ” .
O perfil conservador da transição é imposto, em pri¬ No confronto entre as duas variantes , a terra
meiro lugar , pelo regime que caberia à transição superar . mas os interesses fundamentais das classes dominan
Tudo isso foi definido já no início da “ distensão ” , que t ão garantidos . Voltemos à s condições definidas po
deveria ser “ lenta , gradual e segura ” , isto é, sem rupturas dison . O regime criou condições para a existência d
e sem traumatismos . O general Golbery do Couto e Silva , governo com capacidade para governar . O de que se
o maior estrategista da distensão e da abertura , falava agora é que uma parte da sociedade, precisamente
alguns anos atr á s de uma distinção entre “ liberalização” cima , est á na bica de vir a controlar o governo . Pass
e “ democratiza çã o ” que conviria recordar aqui . O primeiro portanto , da “ liberaliza çã o ” à “ democratização” , à
termo diz respeito ao aumento da informação, o segundo cipa ção nas decisões. Mas os que estão destinados
ao aumento da participa çã o em decisões . ticipar nas decisões são os de cima . A questão q
A estrat égia dominante na “ distensão” e na “ abertu¬ coloca , portanto , é a seguinte : e o resto da sociedad
ra ” cumpriu à risca a distin ção dos conceitos . Liberou a aliá s , constitui precisamente a maioria ? Como fica
informa ção , ainda assim de forma limitada , permitindo a trabalhadores nessa histó ria ?
cria ção de v á lvulas de escape para as pressões da socieda ¬ Na realidade , era para a í que se dirigiam as inq
de e , ao mesmo tempo , de formas adicionais de controle ções do assessor da embaixada americana naquela
dos governantes sobre os seus subordinados . Mas manteve conversa . Se a democracia que se v ê no horizonte im
as decisões sob estrito controle da minoria militar e tecno- é a dos de cima , por que os de baixo falam tanto d
cr á tica no poder . O Executivo decide , o Congresso, na mocracia e n ã o de revolução ? Os conservadores , estes
melhor das hipó teses , esperneia . Trabalhadores combativos
POR QUE DEMOCRACIA ?
88 FRANCISCO C. WEFFORT
tilo liberal cl á ssico , o melhor governo é o que gar
de esquerda dos quais falei antes , fazendo como o cachorro
que d á voltas sobre o seu próprio rabo? ordem pú blica e deixa o barco da economia ao sab
ventos do mercado .
Goulart , segundo o viam , não cumpria nenhum
DECEPÇOES COM O ESTADO tas condições , herdeiro que era das tradições getuli
intervencionismo estatal e de uma política de alicia
de massas que nem sempre era capaz de controlar. V
Todas estas perguntas estão colocadas no cen á rio po¬
corrupção galopando e o comunismo na virada d
esquina . E queriam voltar o Estado aos trilhos do f
lítico brasileiro. E , segundo me parece , voltarão no futuro
próximo como muito mais força do que agora . Mas quem clássico.
Quanta decepção! Depois de 1964 e, em par
quiser as respostas terá de reexaminar as relações entre o
Estado e a sociedade , nestes últimos dez anos, de uma depois de 1968 , marginalizados muitos deles em
perspectiva mais ampla do que aquela sugerida pelo libe¬ ao poder que ajudaram a criar , muitos liberais come
ralismo de Madison . a dar-se conta de como eram monstruosos os frutos
Que o Estado tomou a dianteira já sabemos. Mas sa¬ própria semeadura . A pouco e pouco, tomaram co
bemos também que a novidade histórica deste momento cia de que tinham diante de si , não a democracia
da política brasileira n ão est á nisso. Está na descoberta , comportada com que haviam sonhado, mas uma di
ou redescoberta , da sociedade como espaço da política , muito mais violenta e corrupta do que a de 1937
tanto a sociedade dos de cima quanto a dos de baixo . que sempre abominaram . Ê verdade que muitos d
Temos de entender que esta descoberta da sociedade, em¬ haviam pregado o golpe em nome do liberalismo
bora ainda incapaz de mudar os rumos do jogo, caminhou neceram à sombra do novo poder. Mas tiveram , pa
muito , obrigando a uma revisão geral das nossas idéias de sacrificar as suas próprias convicções. Por que
tradicionais sobre o Estado e a pol ítica. der á-los liberais enquanto amoleciam nos desvãos d
Tanto quanto o “ milagre económico”
como se sabe , ao período Mediei — — limitado,
a experiência que os
ritarismo ? Em todo caso , é certo que mesmo para e
velhas idéias não funcionavam mais .
Na primeira metade do século XIX , quando e
brasileiros temos tido , de 1964 para cá , com o regime mi¬
litar , produziu o “ milagre político ” de uma completa sub ¬ sões francesas eram habituais na pol ítica brasileir
versão das nossas idéias tradicionais sobre o Estado. Afi¬ liberal cunhou a frase clássica das decepções liber
nal , não é impunemente que um Estado trate um país como face de lutas que carreiam mais água para o moin
se fosse um exército de ocupação mantendo sob controle conservadores e dos autorit á rios . Eram as journé
um povo derrotado. O crédito de confiança que a tradição dupes , as jornadas de ot á rios. Na virada de 1964 e ,
política conferia ao Estado desgastou-se irremediavelmente. tudo , na de 1968 , o movimento que fizeram em fa
Nos anos de terror de Estado, muita gente entrou em golpe tomou , para muitos deles , o sentido de uma
profunda perplexidade sobre o que tinha diante dos olhos . journé e des dupes . São in ú meros os que, em diferent
Os que haviam apoiado o golpe de 1964 eram herdeiros mentos do regime militar , abandonam as suas fileira
da clássica ojeriza liberal em face da intervenção do Es¬ sando para o campo das oposi ções. E hoje, último a
90 FRANCISCO C . WEFFORT POR QUE DEMOCRACIA ?

1964 n ão foi menor naquela parte do espectro político que 1964 , tivemos criminosos e v í timas , ninguém pod
tentou sustentar João Goulart no governo. Havia aí de face da quest ão do Estado , se considerar inteiramen
tudo , desde liberais e conservadores até socialistas e co¬
munistas . Eram parte de uma tradição que se achava con¬
cente . Todos tinham uma meia consciência
mo consciê ncia inteira — de que em
,
— senã
algum s
vencida da utilidade do Estado como instrumento de de¬ haviam ajudado a pavimentar o caminho por onde
mocratização da economia e da sociedade . riam de passar as For ças Armadas na sua chega
Esta cren ça vem , pelo menos , desde a Revolução de poder . Uns mais , outros menos , todos haviam prepa
1930 , quando a concentra ção do poder do Estado cami¬ caminho para a violência .
nhou contra o privatismo das velhas oligarquias agrá rias. É que , crendo ou descrendo das virtudes da in
O crescimento das funções do Estado passou pela ditadura ção do Estado na economia , todos , sem exceção , e
de 1937 e pela democracia de 1946, dando, por vezes, gorosamente estatistas quanto ao aspecto político da
origem a pol í ticas que buscavam o crescimento económico ções entre Estado e sociedade . Se se pode falar d
com base no investimento pú blico. Um desdobramento “ ideologia brasileira ” para a é poca que se abre com
desta concepção é o da idéia do Estado como fator de volu ção de 30 , ela seria uma “ ideologia de Estad
maior igualdade social que d á suporte tanto a certos avan¬ sentido que Bolivar Lamounier atribui à expressão
ços no campo dos direitos sociais quanto à sustentação do bém para o Brasil , de 1930 a 1964 , se aplica o q
corporativismo sindical . Está aí um dos aspectos daquilo Dahrendorf para a Alemanha de Weimar : “ tudo s
que Touraine chamou de “ democratização por via autori¬ para o lado estatal da vida ” .
tá ria ” . Junto com a concepção instrumental da demo
A realidade traumá tica do regime de após 1964, em o pressuposto maior da atividade política no Brasil
particular desde o período Mediei , mostrou , porém , que o la época poderia ser resumido na célebre met áf
sonho de um Estado intervencionista e igualitá rio se havia Gramsci sobre os pa íses orientais. O Estado era tu
tornado um pesadelo. O desenvolvimento intenso do pe¬ sociedade , inarticulada e gelatinosa , era nada .
r íodo do “ milagre ” complicou mais a coisa . Em vez do Nenhum intelectual brasileiro traduziu melhor
Estado democr á tico e igualit á rio que almejavam , tinham o conservador e pró-fascista Oliveira Vianna esta c
diante de si uma ditadura que promovia , ao mesmo tem¬ ção “ oriental ” , rigidamente autoritá ria . É a idéia
po , o crescimento da economia e a miséria das massas. tado demiurgo , da qual não se salva nenhum dos p
O próprio Mediei , num dos raros momentos em que se pol í ticos brasileiros da época . Todos concebiam a p
dignou sair do seu mutismo ensurdecedor, definiu os re¬ e o pró prio Estado com a mesma estreiteza palaci
sultados do seu desgoverno : “ a economia vai bem mas o horizontes . A sociedade era lembrada , n ão como
povo vai mal ” . para a política , mas pelo seu suposto amorfismo
sua suposta incapacidade de organização e de re
tação .
UM ESTADO “ ORIENTAL” O golpismo e o cinismo em relação à demo
mantêm uma estreita afinidade com esta concepção
tal ” das relações entre Estado e sociedade . Seria p
92 FRANCISCO C. WEFFORT POR QUE DEMOCRACIA ?

democrá tico . É o de Otávio Mangabeira , célebre liberal pol í tica civil . Havia generais , almirantes e brigadei
que tornou também célebre a idéia de que , no Brasil da ¬ centro , de esquerda e de direita , estes últimos na m
quele momento , a democracia era “ uma plantinha tenra ” , evidentemente . Se o Estado é tudo , se a democraci
merecedora , portanto , de todo desvelo . um instrumento , não seria inevitá vel o recurso ao
Em junho de 1945 , se opôs , como bom liberal antiin¬ duro do Estado que sã o os militares?
tervencionista , à chamada “ lei malaia ” , um projeto de
Agamenón Magalhães , ministro de Getú lio Vargas , visando
controlar as remessas de lucros para o exterior . ( Agame ¬ DESCOBERTA DA SOCIEDADE CIVIL
nón tinha alguma ascendência indígena e , portanto , os
olhos puxados de um asiático . Seus adversários o chama ¬

vam , por isso, de “ malaio” . ) A decepção , mais ou menos generalizada , com


O interessante do caso , porém , é que quase ao mesmo tado abre caminho , depois de 1964 e , sobretudo ,
tempo , o liberal Mangabeira fez um notável apelo à inter ¬ de 1968 , à descoberta da sociedade civil . Mas ne
venção das Forças Armadas , do qual deveria resultar o isso terá sido , em primeiro lugar , uma descoberta
golpe de Estado de 29 de outubro de 1945 . E, embora lectual .
liberal , argumentou exatamente como o faria Oliveira Na verdade , a descoberta de que havia algo ma
Vianna , dizendo da debilidade de nossa “ organização ci ¬ a pol í tica além do Estado começa com os fatos ma
vil ” (hoje se diria sociedade civil ) e reconhecendo nas ples da vida dos perseguidos . Nos momentos mais d
Forças Armadas a única real organização do país . estes tinham de se valer dos que se encontravam
Muitos outros exemplos poderiam ser aqui apresen¬ volta . Não havia partidos aos quais se pudesse re
tados . Ninguém , absolutamente ninguém , que tenha feito nem tribunais nos quais se pudesse confiar . Na hor
pol í tica depois de 1930 , está isento do pecado comum da cil , o primeiro recurso era à famí lia , depois aos a
exaltação pol í tica do Estado . Ninguém deixou de bater às em alguns casos também aos companheiros de tra
portas dos quartéis . Uns mais , outros menos , todos tinham Se havia alguma chance de defesa havia que procur
os seus generais e os seus brigadeiros preferidos . advogado corajoso , em geral um jovem recém-forma
O próprio Partido Comunista guarda a esse respeito havia feito pol í tica na Faculdade . De que estamos f
um traço que o diferencia da grande maioria dos partidos aqui senão da sociedade civil , embora ainda no estad
comunistas da América Latina e , talvez , de todo o mundo lecular das relações interpessoais? A única institui ç
ocidental . Nascido de um pequeno grupo de anarquistas , restava com força bastante para acolher os perse
ele se submete nos anos 30 à liderança do então capitão era a Igreja Católica .
Lu í s Carlos Prestes , o maior nome do “ tenentismo” . Com Quando se quer entender por que o Estado to
Prestes , aderem vários de seus companheiros , preservando dianteira na transição , não se pode esquecer que ,
o PC , até 1964 , uma razoá vel influência nos meios mili ¬ de 1968 , a sociedade civil brasileira fora reduzida
tares brasileiros . potência , fragmentada no extremo limite . Foi este
Qualquer que tenha sido a importância dos comunis¬ mento da verdade das teorias que afirmavam o amo
tas naquela época , vale o exemplo para afirmar que nas e a incapacidade de organização e de representaç
94 FRANCISCO C. WEFFORT POR QUE DEMOCRACIA ?

velava plenamente diante do “ terror de Estado” . Além que seu irmão estava preso e submetido a torturas.
disso , a perplexidade que tomava conta de todos , se bem assiste hoje , com inteira naturalidade , a Ordem dos
tenha frutificado em atitudes de resistência e de valo¬ gados do Brasil citada como poderosa instituição da
rização da sociedade , tinha de imediato um efeito para ¬ dade civil , terá de lembrar que a conquista desta po
usante. exigiu muita habilidade e coragem de homens como
O “ terror de Estado” reduzira todos os seus oponen ¬ mundo Faoro e alguns outros. Quem expande suas
tes — em geral de esquerda, mas também muitos liberais niões hoje com razoá vel segurança nos jornais, nas
— ao seu m í nimo denominador comum de seres humanos
desprotegidos e amedrontados. Tanto quanto as decepções
sões e nas rádios, não poderia jamais esquecer qu
tempos dos seman á rios Opinião e Movimento não
ideológicas dos políticos em face do Estado, a descoberta assim. Quem se habituou a ver amplos setores da
da sociedade civil nasce também da necessidade , sentida
por muitos , mesmo entre quem não fazia política , de exer ¬
— ou melhor, das Igrejas — numa atitude serena d
sistência , terá de saber que muita gente teve medo qu
cer controle sobre o medo. foi à catedral de São Paulo, em 1975, para assistir ao
Para o meu argumento, é desnecessá rio registrar quan ¬ ecuménico ministrado por sacerdotes católicos, jud
tos foram os presos , os torturados e os mortos. Foram , por protestantes em memó ria de Wladimir Herzog. Que
certo , em n ú mero muito menor que na Espanha ou na hoje o PMDB se deslocando para a direita , nem po
Argentina . Em todo caso , foram em n ú mero suficiente para deveria se esquecer que o lançamento de Ulysses G
que o “ terror de Estado ” cumprisse o seu desígnio. Foram rães e Barbosa Lima como anticandidatos significava
em n ú mero suficiente para que todos pudessem perceber 1973, uma atitude de independência e de muita cora
que os perseguidos não eram exceções à regra . Antes pelo Haveria muitos exemplos a apresentar.
contr á rio , eram a regra . Quando mais não fosse porque Ressurge nestas considerações sobre a sociedade
n ão havia , em muitos casos , nenhuma diferença essencial , isso que chamei de inveross ímil na transição política
do ponto de vista político , entre os livres e os presos. Como sileira . N ós queríamos ter uma sociedade civil, preci
disse certa vez Raymundo Faoro , a ú nica diferença entre mos dela para nos defender do Estado monstruoso à
um homem livre e um homem preso estava em que o pri ¬ frente. Isso significa que se n ão existisse , precisarí
meiro era tolerado e o outro não . invent á-la. Se fosse pequena , precisaríamos engrande
Esta fase terrível da vida brasileira não pode ser es ¬ Não havia lugar para excessos de ceticismo nesta que
quecida . Manter a memória dos tempos escuros em que pois só serviriam para tornar os fracos ainda mais fr
nasceu uma luta pela liberdade — eis o sentido que tem ,
para mim , a frase do poeta da resistência francesa , René
É evidente que quando falo aqui de “ invenção” o
“ engrandecimento ” , n ão tomo estas palavras no sentid
Char , citado por Hannah Arendt em um dos seus estudos . propaganda artificiosa . Tomo-as como sinais de va
Quaisquer que sejam nossas opiniões sobre o velho MDB , presentes na ação pol ítica , e que lhe conferiam se
n ão se pode esquecer , por exemplo , os discursos de Oscar exatamente porque a ação pretendia torná-los uma
Pedroso d’Horta no Congresso , em protesto contra a mor ¬ dade. Numa palavra , nós precisá vamos construir a s
te , sob tortura , de um militante trotskista de São Paulo. dade civil porque quer íamos a liberdade .
Quem vê hoje uma figura como o Lula andando desen ¬
96 FRANCISCO C . WEFFORT POR QUE DEMOCRACIA ?

um setor de vanguarda para o conjunto do movimen


SOCIEDADE CIVIL = SOCIEDADE DE CLASSE dical . Quem examinar o mapa eleitoral do país de
para cá terá outro exemplo da correlação existente
a resistência ao regime militar e o crescimento econ
N ão se poderá jamais diminuir o significado das O jogo das bonequinhas russas da transição c
lutas da época da resistência . Mas não se pode tam ¬ vadora não é, portanto, apenas resultado do êxito
bém negar que em torno da redescoberta da sociedade tratégias políticas apoiadas na força . Pressupõe con
civil como espaço para a pol ítica germinaram certos sociais determinadas que se juntam e reforçam as
equ ívocos. ções políticas. O fato de que os setores empresaria
Durante muito tempo , haveria pouca gente disposta primeiro levantam voz no país pela democracia e
a reconhecer , por exemplo, que a resistência aos desman ¬ no Centro-Sul não poderia ser considerado como co
dos de Mediei e , depois , às violências que continuaram , favorá vel à consolidação da hegemonia liberal nos
j por muito tempo , no governo Geisel , se alimentou também de oposição ? De que parcelas dos grupos dominan
dos resultados do “ milagre económico ” . Dando prossegui¬ fala quando se diz que estão na bica do poder p
mento a um processo de mudan ças estruturais do capita ¬ senão daqueles que não tinham senão que se ben
lismo industrial que vem de meados dos anos 50, os anos com o intenso crescimento havido no período do
70 assistiram a um processo de moderniza ção industrial gre ” ? Como entender a hegemonia dos liberais nas
que importa em uma mudança do perfil do capitalismo no ções sem fazer referência aos banqueiros, ou sej
pa ís . A população empregada no setor secundá rio da eco¬ maiores beneficiá rios das mudanças económicas h
nomia dobrou de tamanho entre 1970 e 1980 , repetindo o no país nos últimos quinze anos? Uma transição sob
que já ocorrera entre I 960 e 1970. Apoiado na observação monia dos grupos dominantes na economia por que d
de fen ômenos como este , Fernando Henrique Cardoso fa ¬ ser uma transição com ruptura ?
lou , certa vez, de uma revolução económica em curso no Nós descobrimos a sociedade civil através da p
país , exagerando de propósito para chamar a atenção para nela encontrar, como não poderia deixar de se
para aspectos quase sempre esquecidos nas análises po- sociedade de classes. Expressando as desigualdades
j l íticas. nais do desenvolvimento do capitalismo no país, a
A sociedade civil da é poca da resistência é também dade civil também expressa as desigualdades entre a
fruto destas mudan ças . N ão por acaso é em estados como ses sociais. O grande movimento pela democracia qu
São Paulo , Rio e Minas — mas sobretudo em São Paulo liberais, socialistas e comunistas, bem como sindic

|

forte.
que a resistência ao regime foi , desde o in ício, mais e empresá rios, contra o arbítrio do regime autoritár
meça a dar sinais de uma diferenciação social nece
A í está o centro dos movimentos dos estudantes e Quanto mais se caminha no sentido da democracia
da intelectualidade de antes de 1968 , como também os mais se definem as identidades políticas e sociais d
principais focos de resistência armada da virada de 1968 , dela participam . Um processo ainda tímido na etap
e não nos estados perif é ricos , como faria supor certo ro ¬ da transição conservadora , mas que só tende a aprof
mantismo revolucion á rio daqueles anos . N ã o por acaso as se nas etapas seguintes.
98 FRANCISCO C. WEFFORT
POR QUE DEMOCRACIA?
E OS DE BAIXO?
proliferação das sociedades de bairro. Quem conh
ponto de partida disso tudo pode avaliar o quanto
minhou .
Os comandantes militares do regime tomaram a dian¬ Como os movimentos sociais cresceram, em
teira da transição e condicionaram a entrada dos liberais. estes anos , na busca de caminhos autónomos, pode-se
Os liberais tomaram a dianteira nas oposições e condicio¬ mar que continuarão crescendo quaisquer que venh
naram a entrada dos setores populares, em particular do ser os próximos passos da transição . São evidentes,
movimento oper á rio. Que papel cabe ao movimento ope ¬
agora , tentativas de cooptação de parcelas das lider
rá rio neste drama ? Que papel cabe ao movimento operá rio dos movimentos por grupos e partidos de orientação
na conquista da democracia? ral e conservadora . A formação da Aliança Democr
Sempre chamou a atenção dos estudiosos de outros de que participam o PMDB e a Frente Liberal do
países latino-americanos o fato de que, no Brasil de Mediei oferece alguns exemplos disso. Creio, porém , que o
a Geisel , houvesse mais estudos sobre a classe operária do cessos de cooptação n ão são o bastante para conter
que esta mereceria no seu longo silêncio desde 1964, que¬ dência geral. Embora sem força suficiente para se c
brado apenas por duas greves em 1968. É que tais estudos, rem no centro dos acontecimentos políticos, os setores
mesmo tratando do passado , sugeriam a possibilidade de
uma retomada do movimento operá rio no presente. E tal
retomada , de fato, aconteceu.
combativos dos movimentos populares
movimento operá rio — — especialmen
constituem a garantia de um
vindicação de identidade social e de reconheciment
Ainda está para ser feito um estudo comparativo da l ítico que já n ão pode ser ignorada . O Brasil de ant
capacidade de organização do movimento operário de an¬ 1964 e o de hoje são tão diferentes que se torna
tes de 1964 e o de após 1978. Arrisco, porém, a hipótese dif ícil voltar atrás.
de que o crescimento foi muito maior do que alguns sau ¬ Hoje, o impulso maior da democratização da
dosistas gostariam de admitir. O movimento operá rio de dade e do Estado no Brasil vem de baixo. Isso é
após 1978 cresceu em condições muito mais dif íceis do mais verdade quando se sabe que os de cima volt
que as que prevaleciam antes. O que significa que ganhou , alojar-se no Estado, com perspectivas de tímidas refo
sobretudo, em capacidade de ação autónoma tanto em re¬ que apenas servem para amenizar o peso das suas
lação ao Estado quanto em relação aos partidos. turas autoritá rias. Enquadradas em uma perspectiva
O mesmo ocorre com os movimentos sindicais em servadora , as bandeiras da democracia passam às
geral, os quais ganharam , em particular nos setores ligados das classes populares, em particular da classe operá
aos serviços, uma capacidade de organização que ninguém dos setores de classe média que a acompanhem na
antes teria admitido como possível. Idem com os movi¬ Qualquer que seja o governo que venha a result
mentos populares de qualquer tipo. Tomo como exemplos, confuso processo de sucessão em que nos encontra
no campo operá rio, a formação da CUT , da CONCLAT não poderá resolver a questão da democracia até po
e o expressivo crescimento da CONTAG . Nas atividades para tal , precisaria cortar o galho autoritá rio ond
ligadas aos serviços estão in ú meras associações profissio
¬
apoiar á . A transição para a democracia continuará.
nais, entre as quais as associações de docentes e as de se até aqui tem caminhado sob a iniciativa do regi
TERCEIRA PARTE
Democracia e revolução

“ O único caminho para o renasc


passa pela escola da pró pria vida
ca, pela democracia e opinião p
mais ilimitadas e amplas. Ê o te
que desmoraliza.”
( Rosa Luxem
O assessor americano perguntava: “ por que dem
cracia, por que não revolução?” Teria sido f ácil resp
der-lhe que a pergunta, como formulada, importava
um equí voco. Democracia e revolução não são conce
que se excluam reciprocamente. E com isso teríamos p
pado — —
a mim e ao eventual leitor este longo percu
sobre as vicissitudes da transição polí tica brasileira.
O problema, porém, não é só de conceitos, mas
bretudo de hist ória. Quero dizer: o problema é da histó
real . Ninguém faz democracia ( ou revolução ) no plano
conceitos. E a história real é a história do presente ,
aqui e do agora.
Mas a nossa longa volta sobre a história brasile
era necessária também por uma outra razão. Os equí vo
sobre democracia e revolução não são apenas do no
interlocutor americano. São também , como vimos, da
dição brasileira, da qual a esquerda faz parte. Ê na bu
de uma perspectiva nova que devemos trabalhar ago
POR QUE DEMOCRACIA ?

a tirania . Todas as revoluções, diz Hannah Arend


como motivo essencial a conquista da liberdade .
A afirmação é inquestion ável , mas ainda assim
soar surpreendente. Um revolucionário notável diz
exemplo, que “ nada é mais autorit á rio do que um
lução” . E muitos de nós estamos tão habituados a
que as revoluções se fazem apenas contra a misér
nos esquecemos que a maior parte dos países do m
dominada por oligarquias privilegiadas que reinam
massas miserá veis para as quais o maior sonho po
o pão do dia seguinte e apenas isso.
Quem só consegue pensar uma revolução na
da misé ria e caindo em uma ditadura , esquece-se
Revoluções da liberdade é óbvio: nada mais autoritário do que as tiranias
as quais as revoluções são feitas . Revoluções reivi
também o pão, mas jamais ocorreriam se n ão quise
liberdade .

O nosso interlocutor americano separa a revolução da


democracia como o diabo da cruz. Haveria que lembrar- UBERDADE VERSUS IGUALDADE?
lhe que em 1959 — ano I da revolução cubana que o go
verno dos Estados Unidos haveria de reprimir, como já o
¬

fizera com as demais , antes dela — momento de auge da


guerra fria , na qual os Estados Unidos se dedicavam a re¬
A liberdade , que é o motivo essencial das revo
é também o princí pio que leva muitos ao desencant
primir as revoluções no mundo
veu um livro inteiro para

recordar
Hannah Arendt escre
aos americanos que a
¬ se trata de um paradoxo, mas de problemas reais q
de ser enfrentados. E enfrentados tanto no plano d
sua democracia nasceu de uma revolução. A lembrança ceitos quanto — mais importante ainda — no pl
deveria valer também para os revolucionários. É que história real .
Hannah Arendt vai mais longe. Ela busca também as per ¬ É muito comum que se coloque a questão da
didas origens revolucioná rias das democracias inglesa e ções entre democracia e revolução como algo que se
francesa , bem como as origens democrá ticas da revolução na questão das relações entre democracia e soci
russa. N ão é bem assim que eu vejo o assunto. Há revo
As interpretações que apresenta são tão discutíveis no mundo moderno que não são socialistas e há r
quanto quaisquer outras. Mas apóia-se em fatos irrecusá ¬ socialistas que n ão têm origem revolucioná ria . Mas
veis quando afirma o cará ter radicalmente democrático a “ tradu ção ” como um ponto de partida pela razão
das revoluções. Todas as revoluções quaisquer que pos¬ direta de que é assim que as coisas aparecem no
106 FRANCISCO C. WEFFORT POR QUE DEMOCRACIA ?

do que recorrer a algumas anotações de Norberto Bobbio cratas) quanto por socialistas que só conseguem imag
sobre o tema das relações entre socialismo e democracia . o socialismo com ditadura .
Diz o filósofo italiano que , sobre esta questão , nós nos Um socialista autorit á rio poderia responder facilm
encontramos “ com uma situação que poderia ser resumida te . Muito bem , se n ão há caminho para o socialismo a
um pouco drasticamente nestes termos: ou capitalismo com vés da democracia , por que deveríamos nos apegar a
democracia ou socialismo sem democracia ” .8 Se a democracia não leva à transformação da socied
Advirto, desde logo , que seria um equ ívoco retirar de posso concluir que contribui para manter a desiguald
uma ú nica frase conclusões sobre o pensamento de um e a exploração. Neste caso , seria um instrumento de
autor . Bobbio é t ã o l ú cido na an álise das dificuldades da se valem os que se beneficiam com o statu quo do cap
democracia e do socialismo quanto entusiasta na disposição lismo , n ão um valor geral . Se o sentido da liberdade
de enfrent á-las . “ Se o socialismo é dif ícil ” , diz ele, “ a de
¬ realização da dignidade humana , qual o valor de uma
mocracia é ainda mais dif ícil ” . Mas a sua visão das difi ¬ mocracia que ajuda a manter a maioria dos homens
culdades vai muito além da constatação de uma situação uma condi ção indigna ?
na qual alguns poderiam ler , interessadamente, uma con¬ O adepto do capitalismo (e o social-democrata)
denação do socialismo e uma apologia do capitalismo. maria a quest ão pela outra ponta . Se não há caminho
A sua sentença “ drástica ” estabelecendo “ ou capita¬ socialismo para a democracia , por que dever íamos nos
lismo com democracia ou socialismo sem democracia ” tem gar a ele ? Se o socialismo é indissociá vel do autoritaris
a intenção de apresentar um desafio proposto aos socialis¬ posso concluir que contribui para manter a dominaçã
tas que crêm na democracia . É uma provocação no melhor a opressão. Neste caso, seria um instrumento de qu
sentido da palavra . N ão aos social-democratas , pois estes valem os burocratas da “ nova classe ” , não um valor g
já resolveram , há muito tempo , o seu problema optando de todos os trabalhadores. Se o sentido da liberdade
pelo capitalismo , apenas atenuado pelo Welfare State ( Es¬ realização da dignidade humana , qual o valor de um
tado do Bem-Estar) . Mas um desafio para os socialistas cialismo que ajuda a manter a maioria dos homens
que sabem que as revolu ções nascem para a liberdade e uma condição de submissão e , portanto, de indignida
mantêm a crença no sentido original do socialismo . Peço ao leitor que compreenda que não se trata
Mas a verdade é que , retirada do seu contexto, a frase apenas de especulações em torno de uma frase retirad
soa “ drasticamente ” com a constatação de uma realidade seu contexto. Sem temor ao exagero, eu diria que pro
imutá vel de nossa é poca . Tanto mais porque o próprio mas como estes aparecem no dia-a-dia da atividade p
autor anota em seguida que a experiência histó rica estaria tica , sempre que se tem de tomar decisões relevantes
mostrando que os sistemas socialistas n ão chegaram a trans¬ formos mais fundo na discussão chegaremos ao tema
formar-se em sistemas políticos democrá ticos nem se co¬ sico das relações entre a liberdade e a igualdade. A que
nhecem casos de sistemas capitalistas que se tenham trans¬ das rela ções entre democracia e socialismo é de como c
formado em sistemas socialistas por métodos democráticos . binar estes dois valores b ásicos do mundo moderno.
Tomando-se nestes termos , a proposição poderá ser aceita problema que Bobbio apresenta é , a meu ver , o de c
tanto pelos adeptos do capitalismo (ou pelos social-demo¬
os socialistas podem continuar sendo democratas e rev
cion á rios .
' Bobbio , , Quale
108 FRANCISCO C . WEFFORT POR QUE DEMOCRACIA ?

ções que amenizem o injustificável autoritarismo que s


REVOLUÇÕES E REGIMES PÓS-REVOLUCION ÁRIOS
em muitos paí ses socialistas . Pretendo apenas que se
conheça o óbvio: uma coisa é , por exemplo , a revolu
russa , outra o regime que veio a seguir . O sistema do
Na sua aparente clareza , o problema , tal como habi ¬ tido único , para continuarmos neste exemplo , não é in
tualmente se coloca , envolve alguns equívocos que conviria 1 ção da revolução , que foi pluripartidária , mas do reg
desfazer . Há quem se desencante com o autoritarismo tão Tanto assim que nem mesmo Stalin , que , apesar de tu
freqüente nos regimes de origem revolucionária e termine foi um homem da revolução , pretendeu instituir o par
perdendo clareza quanto à natureza do próprio fenômeno único em princ í pio constitucional . Isso coube a um hom
revolucionário . Se muitos regimes pós-revolucionários são t í pico do regime , Brezhnev . E quanto aos sovietes da
autoritários , pretende-se que as revoluções que lhes deram volução , eram instituições livres , inspiradas em princí
origem também o tenham sido . O desencanto com os regi ¬
da democracia direta , não o simulacro de parlamento
mes está , nestes casos , a um passo de um desencanto com presentativo que deles fez o regime .
a própria revolução . E , deste modo , caminha-se rapida ¬ ( As revoluções são fenômenos democráticos , e con
mente para uma separação estrita entre democracia e re ¬ didas com o autoritarismo dos regimes pós-revolucioná
volução , com perda para ambas . pouco tem a ver com a história . O autoritarismo pós-r
Um primeiro ponto a assinalar é que o autoritarismo lucionário se vincula a dois problemas que toda revolu
dos regimes sa ídos de revoluções não é , de modo algum , acaba enfrentando . O primeiro é o de construir um n
coisa exclusiva dos regimes socialistas . Com a possí vel ex ¬
Estado . O segundo é o de , construindo um novo Est
ceção da revolução da independência dos Estados Unidos , abrir caminho para uma nova democracia . São prec
nenhum país que tenha feito a sua revolução deixou de mente as duas condições de que falava Madison . São
pagar a sua quota de autoritarismo . pontos sobre os quais a teoria pol ítica socialista tem ai
Quem tiver dúvidas relembre , para ficarmos apenas muito a desenvolver , preparada que está — como ace
no exemplos clássicos , que o regime pós-revolucionário , na damente Norberto Bobbio afirma em seus ensaios sob
França , envolveu dois Bonapartes e uma guerra de alcance socialismo — muito mais para pensar sobre os proc
continental , submergindo o país numa fase de instabilida ¬
mentos para a tomada do poder do que sobre o seu e
de e de autoritarismo que haveria de durar até 1871 . Cerca I cicio .
de oitenta anos , portanto . Na Inglaterra , a revolução de Mas voltemos ao desafio proposto por Bobbio , e r
1642 envolveria episódios como o próprio Cromwell en¬ nheçamos que ele tem toda a legitimidade de um estím
trando a cavalo no Parlamento , decapitando um rei e I à reflexão . Visa estimular progressos no pensamento
abrindo um período em que teríamos uma ditadura mili¬ * cialista , não a consagração de uma esclerose da nossa
tar e , depois , uma situação de instabilidade que só se re¬ ca . Por isso mesmo pode ser superado . O México pa
solveria mais de 40 anos depois , na segunda revolução, a por uma revolução, aliás a primeira deste século , e é
de 1688 . Apesar disso tudo , poderíamos pensar a democra¬ hoje dirigido por um partido — o Partido Revolucion
cia francesa sem a Revolução Francesa ? Ou a democracia Institucional ( PRI ) — que se coloca em linha de des
inglesa sem as revoluções inglesas? dência direta do Partido da Revolução Mexicana ( PR
Não é minha função aqui apaziguar consciências so ¬

. Menos ainda , buscar racionaliza -


^ Haveria por isso alguém disposto a estabelecer que o
ol s
110 FRANCISCO C . WEFFORT POR QUE DEMOCRACIA ?

n ão cumprirão jamais a regra democrá tica da alternâ ncia


no poder ? São maioria no mundo contemporâ neo os paí¬
ses capitalistas governados por regimes autoritá rios. E nem REVOLUCIONARIOS E REFORMISTAS
por isso aparece muita gente disposta a sustentar que tal
ocorre em fun ção de característica intrínsecas ao capita ¬

lismo. O que mais importa discutir , porém , é a afirma


O que há a reconhecer , de novo com Bobbio, é que de que nenhuma democracia passou jamais ao socialism
“ se o socialismo é dif ícil , a democracia é mais dif ícil ain
¬
É uma verdade que a histó ria comprova . Valerá , por is
da ” . No Brasil , tivemos , em 1964, um golpe de Estado , como uma lei de ferro , destinada a durar para todo
n ão uma revoluçã o , e estamos ainda hoje, cumpridos já 20 sempre ? A associação que se pretende estabelecer en
anos , buscando caminhos para definir um novo Estado e capitalismo e democracia não significaria atribuir a e
uma nova democracia . E aqui mesmo, neste Brasil desde um cará ter necessariamente conservador ?
sempre capitalista e quase sempre autoritá rio, não faltam , O problema é muito próximo à divisa célebre
evidentemente , os que pretendam ver no socialismo carac¬ Bernstein , o pai fundador do reformismo social-democra
ter ísticas que o obrigariam a viver sob regimes autorit á rios “ O movimento é tudo, o fim é nada ” . Em outras palav
para toda a eternidade . Se queremos realmente a democra ¬ nos países democrá ticos a política dos trabalhadores
cia , já seria tempo de deixarmos de lado certos precon¬ resumiria a introduzir reformas no capitalismo. A tra
ceitos. formação do capitalismo em socialismo seria uma ilu
que conviria deixar definitivamente de lado .
Sabemos todos da existência de processos de demo¬ Um certo revolucionarismo, voluntarista e ingén
cratização em curso nos países socialistas. Podem tomar diria o contrá rio: o movimento é nada , o fim é tudo. N
muito tempo até que se chegue à democracia . Mas nem há reformas a fazer , a ú nica coisa que importa é prepa
por isso devem ser esquecidos. Afinal , a história não ter¬
minou ainda . Assim como o capitalismo não tem de ser ,
mos o dia em que os trabalhadores
o que é mais prov ável — chegar ã

o ao
ou alguém por e
poder .
necessariamente, democrá tico, também o socialismo não A idéia de que só existem reformas a fazer é t ão
tem de ser , necessariamente , autoritá rio. sória quanto a outra de que só h á que preparar-se p
O desafio que retiramos das páginas de Bobbiç vale tomar o poder . Na serena realidade dos fatos , nenhum
para os dois lados . É ele próprio quem diz: “ N ão devemos formista faz apenas reformas. Ele tem também respons
nos iludir : os perigos que ameaçam a democracia em uma lidades com o andamento geral das coisas na sociedad
sociedade capitalista são os mesmos que ameaçam ou amea¬ na economia .
çaram o processo de democratização em uma sociedade Para tomarmos o exemplo cl á ssico, o dos parti
socialista ” .4 Em outras palavras, a questão da democracia social-democratas , n ão é verdade que estes se dediqu
no mundo contemporâ neo é uma questão geral. O que há apenas a realizar reformas , em benef ício da classe oper
a fazer é aprimorar a teoria da democracia e continuar ou de quem seja . Eles se dedicam , a maior parte do tem
a luta . à gestão do conjunto da sociedade e da economia cap
lista . N ão é verdade , portanto, que “ o movimento é t
e o fim não é nada ” . É que o fim, que antes era o so
4 Bobbio, op. cit., p. 20. , na modernização do capitalismo, e
1 12 FRANCISCO C . WEFFORT
POR QUE DEMOCRACIA?
isso o movimento mudou de natureza . A grande diferença
entre reformistas e revolucioná rios não est á apenas na ques¬ noite , também nenhuma sociedade se transforma glo
tão de como articular os meios e os fins, mas em saber mente, de uma só vez , em todas as suas partes. Ora ,
quais são os meios e quais são os fins.
é disso , precisamente de mudanças parciais e graduais,
se trata quando se fala de reformas?
A ojeriza de certos revolucioná rios por reformas é A diferença , quando se fala de reformas no â m
também uma ilusão que a história desmente. Certos direi¬ de uma revolução , é a participação do povo na direçã
tos dos trabalhadores, hoje praticamente universais, como processo. Ou seja , a diferença é a democracia . Se é
o dia de trabalho de oito horas ou o sufr ágio universal , que se trata quando se menciona as reformas no â m
teriam sido impossíveis sem participação revolucioná ria. da revolução, com mais raz ão ainda quando se fal
A reforma agr á ria — que consta de qualquer programa
revolucion á rio que se preze, pelo menos na América La ¬
possibilidade da transformação da sociedade atravé
democracia.
tina — que é senão uma reforma ? O que distingue um
revolucioná rio de um reformista em face de reformas ne
A diferença é a participação popular nas muda
Significa lutar para criar no âmbito da democracia ,
¬

cessá rias é que aquele luta para que as conquistas parciais mo que em cará ter parcial , os processos de particip
sirvam à organização dos trabalhadores em busca de uma que são t ípicos de uma revolução . Ou seja , para q
mudança de alcance geral da sociedade. O que o preocupa quer realmente mudar a sociedade , o caminho é mais
essencialmente não é a gestão da sociedade tal como ela ticipa ção , ou seja , mais democracia , e n ão menos.
está , mas encontrar caminhos para transformá-la . Não deveria haver , afinal , tanto motivo para sur
Um certo revolucionarismo ingénuo sonha com a re¬ quando revolucioná rios tomam o caminho da democ
volução como um momento depois do qual nada será como Revoluções e democracias são modos pelos quais o
antes. Seria uma espécie de grande catarse coletiva . Seria procura tomar o seu destino em suas próprias m ãos. “
um novo começo para a história que aboliria todo o pas¬ o poder emana do povo e em seu nome ser á exercido
sado, permitindo aos revolucionários organizar uma nova princí pio que serve de fundamento a todas as constitu
sociedade como se escrevessem sobre um caderno em bran ¬
democr á ticas é o mesmo que inspira os processos re
co. Quem se dedique a estudar as revoluções sabe que cioná rios. Em ambos os casos , o que est á em caus
neste sonho há , talvez , um grão de realidade mas, com os fundamentos do poder , isto é, da organização po
toda segurança , muito de ilusão. da sociedade . Por que deveríamos nos surpreende
N ão se conhece nenhuma revolução que tenha mu¬ quando tocamos nos fundamentos pol í ticos da socie
dado a sociedade da noite para o dia . O que acontece é atingimos também os seus fundamentos sociais e e
que as revoluções criam as condições políticas para que micos ?
as sociedades mudem . Na França revolucion á ria , os cam ¬

poneses adquiriram o direito à propriedade da terra , mas


a nobreza proprietária continuou lá , e por muito tempo. REVOLUÇÃO = VIOLÊNCIA?
Depois de uma revolução, as condições de vida do povo
mudam , inas isso ocorre com muito mais vagar do que se
pensa . A diferença é que o povo sabe que as coisas estão Mas os equívocos das definições usuais sobre d
mudando, até porque participa das mudanças. Mas assim cracia e revolução persistem , apesar de tudo. Usual
i 14 FRANCISCO C . WEFFORT POR QUE DEMOCRACIA ?

e, na segunda , o caráter violento da disputa. N ão é urna O poder havia apodrecido. Alguns revolucioná rios
distin ção irrelevante , mas n ão tem toda a importância que , refiro-me a alguns em particular que não participaram
de há bito, se lhe atribui. J á deveríamos saber muito sobre revolução nenhuma e que, ademais, lêm pouco sobr
as disputas políticas entre as oligarquias da América La
tina para nos impressionarmos com distinções deste gêne¬
¬ sua história —
gostam de falar da destruição do Esta
dando a entender que se trataria , sobretudo, de um ato
ro. Sabemos que h á , entre as oligarquias, disputas pacífi¬ vontade. N ão é tão simples assim . São mais freqiientes
cas pelo poder que não são democrá ticas. E também há história os casos em que Estados apodrecem no curso
in ú meras disputas violentas que não são revolucionárias. um longo processo de desgaste, de corrupção e de vio
N ão pretendo negar , evidentemente , que as revoluções te¬ cia , do que os casos em que sejam destruídos pela a
nham a sua quota de violência. Mas insisto em que não é externa de pol íticos conscientes desse propósito. Regi
a violência que as define . autoritá rios e tirânicos acumulam contradições e pro
A violência que emerge nas revoluções está na raz ão mas ao longo de décadas. No fim acabam inteiram
direta da violência exercida pelo regime que elas põem carcomidos. Em certos casos , pelo menos, não é qu
abaixo. É a insurreição popular . N ão é , como pensam al ¬ revolução comece por destruí-los. É porque eles mostr
guns, uma violência que se possa programar. É um fenô¬ em determinado momento, que estão podres que a r
meno de massas que explode sob a ação de circunst â ncias lução, inesperadamente, começa. O trabalho dos rev
imprevisíveis e que se generaliza no rebate aos agentes da cion á rios em tais casos é o de pôr fim a uma obra
repressão . Ninguém pode programar uma insurreição. In¬ destruição já muito avançada . E a seguir , sua prim
surreições acontecem , e os que primeiro se surpreendem missão é , precisamente, a de construir um novo Esta
com elas são os próprios revolucioná rios. Tão imprevisí ¬ Processos de crise de poder deste tipo podem
vel é a sua ocorrência quanto o é a queda do regime tirâ ¬ previstos em suas linhas gerais. Os revolucion á rios
nico contra o qual elas se voltam. realmente participaram de revoluções costumam dize
Uma rachadura abre a passagem das águas. Mas só com razão, que estas acontecem quando os de cima já
por acaso terá sido feita com essa intenção . A Revolução têm capacidade para continuar governando e quand
Francesa começa com pressões vindas da nobreza , e a Re¬
,

volução Russa , com manifestações de rebeldia dos setores


Na descrição acima , eu me apóio em dois casos que considero clás
liberais, tradicionalmente acomodados. É uma rachadura 5
e a Revolu çã o Russa . A aplicaçã o dessa descri ç
a Revolução Francesa
a mais no edif ício do poder. Podem ocorrer também mais revoluções que conhecemos no Caribe e na Am érica Central não seria
perm
um movimento das massas de Paris ou mais uma greve sí vel sem algumas modificações . Entendo , porém , que o essencial
A formação de grupos ou mesmo de exércitos guerrilheiros nmesmo ão era inc
em Petrogrado. São, porém , manifestações iguais a tantas naquelas regiões e em outros países latino-americanos antes precariedad da
outras que o regime enfrentara antes e reprimira com êxi¬ lução cubana . E creio que esse fen ômeno corresponde à
estruturas estatais tradicionais naqueles pa íses . A Rep degenerescência do E
to. Na hora em que as coisas estão acontecendo não há sob Batista ou Somoza é tão evidente quanto na hoje úblicaEIDominican
nenhuma maneira de saber se tais pressões são maiores ou Trujillo , na Guatemala desde Castillo Armas ou em Salvador
formaçã o de grupos de guerrilha à s vezes antecipa os momentos mais a
menores do que as muitas outras que um regime autoritᬠdo processo de degeneresc ência , tamb ém é verdade que o desenvolvi
rio sofre ao longo do tempo , como parte “ normal ” de sua destes grupos em exércitos é , em grande parte , um resultado e uma re
a esta degenerescência . O desenvolvimento dos exércitos guerrilheiros
e
existência . Só depois é que se vai perceber que aquilo que j
i tanto , a vitória da revoluçã o só se tornam poss í veis com a
adesão , em
parecia um esbarr ão a mais em um poder inexpugnável de massa , da população . Para comprovar esta afirmação existem,, um em s
e Nicarágua e , em sentido negativo g
116 FRANCISCO C . WEFFORT POR QUE DEMOCRACIA ?

de baixo j á n ão agüentam a dominação que sofrem. É ções , mas a violência dos regimes que nascem dela
verdade . Mas os exemplos históricos mostram que é muito que assusta não é a violê ncia do povo contra a tira
mais f ácil perceber a segunda condição do que a primeira . mas a que , com demasiada freq üé ncia , regimes sa ído
Os sinais de que os de baixo já n ão ag üentam a dominação revolu ção acabam exercendo contra parte , pelo menos
são muitos e , além disso , são pú blicos . São protestos de seus próprios fundadores .
massa , explosões de violência . E quando não são pú blicos , Tanto o autoritarismo dos regimes pós-revoluci
de qualquer modo são vis íveis nos índices estatísticos sobre rios quanto a violê ncia que se exerce em seu interior
desemprego , fome , degenerescência da força de trabalho, mais a ver com a fragilidade , ou mesmo a inexistência
mortalidade infantil , etc . Mais dif ícil é avaliar os proces¬ institui ções pol íticas herdadas do regime anterior do
sos de degenerescê ncia que afetam os que estão no poder com o impacto da revolução como tal . Pelo contrá rio
e que os tornam incapazes de continuar governando. de-se afirmar que quanto maior a participação pop
Lenin , que entendia dessas coisas , cogitava em Zuri¬ na revolução tanto menor a violência que se seguirá
que , na Suíça , em janeiro de 1917 , se os “ mais velhos ” , mesmo modo , quanto mais fortes as instituições popu
como ele próprio se achava aos 46 anos , ainda estariam existentes antes , tanto menor o autoritarismo . Isso sig
vivos para assistir à “ segunda onda ” da revolu çã o. A pri¬ ca : quanto mais democracia existe antes , tanto mais
meira , como se sabe , havia ocorrido em 1905, doze anos mocracia haver á durante e depois .
antes. A “ segunda onda ” começou , inesperadamente, seis
semanas depois . Era o sonho maior de sua vida , mas como
prever o momento ? O poder czarista , que também n ão
podia saber , reage diante das manifestações populares
com um impulso que n ão é mais capaz dq sustentar . Reage
com a violência habitual e provoca , com isso, uma vio¬
lência maior que já é incapaz de reprimir . Começa a rolar
a bola de neve do processo revolucion á rio . Revoluções são
assim , feitas pelo povo . O papel dos revolucioná rios é re ¬

conhecê-las e , se tiverem , como Lenin , bastante talento ,


dirigi-las .
Importa , sobretudo , ressaltar aqui : a violência é um
aspecto da revolu ção , n ão a sua essência . O que a define
é a emergência abrupta e maciça do povo para o cená rio
político. Se a democracia acontece quando o povo participa
de mecanismos cuja legitimidade reconhece, a revolução
acontece quando o povo cria , nas ruas, por seus próprios
meios , o seu próprio poder . O que espanta
q úência e desde sempre
— — com fre-
n é a violência das revolu-
ã o

* Carr , E . H . ,
POR QUE DEMOCRACIA ?

corpus chegou aos trabalhadores e inscreve-se ent


direitos humanos, adquirindo, por isso , valor univer
A democracia foi , em algum momento da histór
Europa , um instrumento da aristocracia contra o ab
tismo moná rquico. Tornou-se depois instrumento da
guesia contra a aristocracia . E é já de algum temp
como democracia representativa e democracia dire
um instrumento do operariado e das massas pop
contra a burguesia .
Raciocinar sobre a democracia , como a conhec
Por uma democracia no mundo moderno, como se fosse apenas fruto de ar
nhas das classes dominantes, é mais do que dar prov
revolucionária ignorâ ncia da história política moderna . É ignorar
tória das lutas oper á rias e populares. Mais grave ain
entregar , de graça , às classes dominantes avanços
cráticos que são dos trabalhadores, seja “ por ado
como o habeas corpus , seja por conquista , como o su
universal. Por que a democracia é um valor univ
O sentido da luta dos revolucioná rios , no Brasil, está Pela razão muito simples de que suas conquistas , d
em contribuir para a criação da democracia . Vou mais de terem chegado aos trabalhadores, passam a dize
longe: o sentido da revolução no Brasil é o de criar a peito a todos os homens. E onde não chegaram é p
democracia . Esta democracia será socialista ? É o que eu que cheguem . E se são insuficientes , são também a
espero. E me alinho entre os que lutam para que venha a de avanços que precisam ser feitos.
ser assim . Se alguém tem de renunciar à democracia não
Os equívocos herdados da tradição conservadora e certamente , os de baixo . “ A democracia ” , como diz
que condenam a democracia a uma função meramente ins¬ bem Nort íerto Bobbio, “ é subversiva . E é subversiva n
trumental têm de ser simplesmente jogados na lata de lixo ¡ tido mais radical da palavra , porque , ali onde ela c
da historia . A democracia foi e , por certo, continua sendo i subverte a concepção tradicional do poder , t ão tra
um instrumento no mesmo sentido em que um direito é nal que é considerada natural , segundo a qual o pod
| seja o poder político ou o económico, seja o poder pa
um instrumento para aquele que reivindica a sua apli¬
ou o sacerdotal — vem de cima para baixo ” .7 Nã
cação. O que , como se sabe, não elimina o caráter geral acaso Rosa Luxemburgo dizia que “ as formas democr
do direito . Antes, pelo contrá rio, o reafirma . da vida política de cada país realmente envolvem o
Não creio que haja trabalhador nenhum no mundo damentos mais valiosos e inclusive os mais indispen
que esteja disposto a renunciar ao direito do habeas cor¬ da política socialista ” .*
pus, embora sabendo que este foi , na origem , um instru ¬
mento da aristocracia e , depois , da burguesia , contra o 7 Bobbio, op. cit ., p. 53.
s Escogidas , II , ô mbia , Editorial
120 FRANCISCO C . WEFFORT POR QUE DEMOCRACIA?

QUAL DEMOCRACIA? permanece , o produtor se converte em cidad ão de te


integral . É , portanto , o predomínio da democracia d
Esta, contudo, não pode durar muito tempo, sob pen
Quem seja capaz de perceber o sentido democrá tico que a sociedade e a economia parem de funcionar .
de uma revolu ção n ão deveria ter dificuldades para perce¬ Falo de predomínio da democracia direta nas re
ber também o sentido revolucioná rio da democracia . Se ções , n ão de exclusividade. Mesmo nos momentos de
em vez de se falar tanto da violência das revoluções e do intensa participação popular , uma parte, pelo menos
cará ter pacífico das democracias, déssemos mais atenção atividades produtivas e, sobretudo , dos serviços tem
aos mecanismos de participação popular , talvez as dife ¬ continuar funcionando. Mesmo nos momentos mais
ren ças e as relações entre elas ficassem mais claras. sivos , nem todos podem estar o tempo todo nas ruas
O que distingue, essencialmente, uma revolução não pra ças p ú blicas . Além disso , mesmo que fosse pos
é a violência , mas a predomin â ncia dos mecanismos da de¬ parar totalmente a economia sem que a sociedade su
mocracia direta sobre os mecanismos de representaçã o. Na bisse , a participação direta de todos não seria praticam
Revolução Russa , o momento decisivo foi quando o eixo possível . Não estamos mais nas cidades da Grécia clás
dos acontecimentos passou da duma (o parlamento) para onde os cidadãos podiam ser reunidos todos na praç
os sovietes , ou seja , para os conselhos de trabalhadores. mercado. Na Revolu ção Russa , por exemplo, os sov
Na Revolução Francesa , a pressão dos “ clubes ” e, em es¬ eram , evidentemente, instituições de democracia d
pecial , das massas de Paris sobre a assembléia d ão exem¬ Mas nem por isso exclu íam o princípio representa
plos do mesmo fenômeno. Em uma democracia , as Forças Soldados, operá rios e camponeses faziam-se repres
Armadas são “ o povo em armas” , no sentido de que são através de deputados .
obedientes a instituições que representam o povo. Em uma
revolução, as milícias s ão “ o povo em armas ” sem me¬
diação do sistema representativo. Haveria muitos outros OS RISCOS DA USURPAÇÃO
exemplos .
Esta é a grande diferença entre uma democracia e
uma revolução. Na primeira , prevalecendo o sistema re¬ O pior que pode ocorrer quando se discute as rela
presentativo, torna-se inevit á vel a separação do homem em entre a democracia direta e a democracia representati
produtor e cidadão. O fenômeno é tão visível nas demo¬ tomar qualquer deles como excludente . N ão é assim ,
cracias liberais, sob hegemonia burguesa , quanto o será nas revolu ções nem nas democracias realmente existe
em qualquer democracia socialista. Pode-se aumentar 1
E onde a exclusão de um dos princípios ocorre, a
muito os n íveis de participação popular através de meca¬ pação do poder se torna inevitável . Em vez de pe
nismos inspirados na democracia direta , mas a exigência mos em opor representação e participação direta tería
do sistema representativo permanece predominante em pelo contrá rio , de estudar mecanismos que permitam
qualquer democracia . E não apenas por razões pol íticas os dois princípios se complementem.
mas, sobretudo , por razões económicas. A exaltação do princípio representativo comp
A revolução é uma situação na qual os homens
todo caso um grande n ú mero deles — — em
se convertem em
riscos conhecidos. Um deles , talvez o mais freqúente,
siste na apropriação, por parte do representante , de
122 FRANCISCO C . WEFFORT DEMOCRACIA ?
POR QUE

uma propriedade pessoal. É o que mais se vê por a í. Quem


n ão conhece pelo menos um representante do povo que
depois de eleito se volta para este povo como se fosse, não
de funcionamento do princí pio representativo
caso, mau funcionamento — com a no ção do mandato
n —
perativo que só vale para a democracia direta. Ai
seu representante, mas seu senhor ? assim , não vejo nenhuma avaliação do quadro político
Temos um exemplo nítido disso hoje no Brasil. De¬ pudesse legitimar , em nome da democracia , a suspen
pois de muitas e inequívocas manifestações da opinião
pú blica em favor das eleições diretas já para a Presidência,
’ da campanha com o visível objetivo de facilitar acor
contrá rios ao restabelecimento das eleições diretas já. C
a maior parte dos pol íticos que haviam participado da que este é um caso típico de desobediência dos princíp
campanha decidiu suspendê-la para facilitar acordos de da democracia representativa , com laivos de usurpa
cú pula . A reorientação dos setores liberais e conservado¬ tipicamente autorit á ria .
res das oposições rumo às eleições indiretas no Colégio E existem riscos mais graves. O grande cientista
Eleitoral não foi , como pretendem fazer crer, uma impo ¬ cial e pensador liberal Max Weber fez parte, como as
sição das circunstâ ncias, mas uma escolha política . A cam¬ sor , da delegação alemã que foi a Versalhes para nego
panha de mobilização .— isto é, de participação direta — * ( ou para se submeter ? ) o tratado que pôs fim à guerra
valia, para tais setores, como um instrumento visando ele¬ 1914-1918. Nessa ocasião, manteve com o também fam
var seu cacife nas negociações com o regime . Mas como general Ludendorf , um militar de direita que depois ap
a mobilização alcançou níveis muito superiores aos espe¬ ria Hitler , ainda em in ício de carreira , um diálogo
rados , começou a provocar um visível deslocamento do vale a pena ler . Lá pelas tantas, Ludendorf pergu
eixo dirigente das oposições em benef ício de lideranças “ Então o que você entende por democracia ? ” . Weber
situadas à esquerda . A aposta , antes imprová vel, de Ulys ¬
* ponde: “ Em uma democracia o povo escolhe um líder
ses Guimarães como possível candidato à Presidência pas ¬ qual confia . Então o líder escolhido diz : ‘Agora calem
sou a ganhar contornos mais nítidos. E , além dele, surgia , boca e obedeçam-me’ . Desde esse momento o povo
ainda à sua esquerda, o nome de Leonel Brizóla e — em¬ partido não têm mais liberdade de interferir nos assu
bora sem pretensões à Presidência
— o prestígio crescente
de Luís Inácio Lula da Silva . Como todos estes nomes são
do líder ” . Ludendorf diz que gostaria de uma democr
desse tipo, e Weber arremata : “ Depois o povo pode fa
tidos por inaceitá veis pelo regime, os setores liberais e o seu julgamento. Se o líder cometeu erros, que seja
conservadores das oposições decidiram arranjar as coisas tido no prisão! ” .0
de modo a que retomasse vôo o nome , reconhecidamente Max Weber não era um qualquer . Felizmente p
“ confiá vel ” , de Tancredo Neves . ele , Weber morreu em 1920, treze anos antes da ascen
Sei que a questão das diretas é apenas um item de de Hitler na Alemanha. Em todo caso, sua visão da
uma agenda pol ítica mais complexa onde a questão geral mocracia representativa tornou-se , certamente, parte d
da democracia ocupa o lugar central . N ão haveria , portan ¬ que veio a se chamar , depois , o espí rito de Weimar . D
to, razões que impedissem os políticos , como representan¬ cilmente alguém poderia profetizar a tragédia do nazi
tes da vontade popular , de fazer as suas próprias avalia ¬ na Alemanha com mais clareza do que Weber nesse
ções sobre o quadro político. É neste sentido que se enten ¬ logo. Também não creio que nenhum crítico das estreite
de como legítima a autonomia dos representantes em face
dos representados. N ão pretendo aqui , até porque seria
» W Essays Sociology , Nova Iorque , O
124 FRANCISCO C. WEFFORT POR QUE DEMOCRACIA ?

do liberalismo quanto ao sistema representativo poderia quando se fala de uma revolução. Em qualquer hipó
ir t ão fundo na qualificação das responsabilidades dos li¬ conselhos populares , conselhos de empresa , etc. têm
berais pela tragédia do totalitarismo. É a isso que condu ¬ conviver com partidos e parlamentos. A participação p
zem , no limite , as pequenas fraudes do princípio represen¬ lar que se dá , de modo direto, nas ruas e nas praças
tativo . Pavimentam o caminho para a grande usurpação de conviver com a participação em eleições para os
— sempre catastrófica — do fascismo . lamentos e para os governos . N ão há d ú vida de que e
tem tensões entre estes diferentes modos de participa
popular . Em determinados momentos, estas tensões po
BUROCRACIA E DEMOCRACIA
adquirir um cará ter decisivo para os rumos do proc
pol í tico. Mas são essenciais ao jogo democrático. El
ne-se um dos lados e todo o jogo democrático aca
Os riscos da exalta ção da democracia direta são, de sendo suprimido .
h á bito , apresentados como diametralmente opostos aos da A exaltação do princípio representativo é um
democracia representativa . É assim , de fato. Mas acabam principais álibis para os golpes de Estado que conh
levando a resultados semelhantes. mos na histó ria do Brasil e da América Latina . Se parc
O princípio do mandato imperativo — t ípico da de¬ da população se organizam e reivindicam , sempre apa
mocracia direta — segundo o qual o representante recebe
uma pauta definida de seus eleitores , para cumprir tais e
alguém para dizer que é o caos que se aproxima . “ O
verno n ão decide sob pressão . ” Não é esta uma frase
quais pontos e n ão outros , só se aplica em casos especia¬ mum na boca de muitos dos nossos governantes ? Mas
l íssimos na pol í tica . Desde que se generalize , ele torna os que não deveriam decidir sob pressão ? A pressão dos
representantes em meros procuradores de suas bases , sem pos de pressão não é precisamente um mecanismo
qualquer capacidade como dirigentes políticos. À parte funcionamento das democracias modernas ?
situações excepcionais
— — t í picas das revoluções mas não
exclusivas delas , o uso do mandato imperativo envolve
Mas a história registra também in úmeros exem
em que a exaltação da democracia direta acaba cria
riscos bastante conhecidos. O primeiro é evidente. Sempre álibis para golpes e para a ditadura . O corporativismo
surgem as situações em que alguém tem de decidir sobre
questões que as bases n ão puderam discutir . Às vezes são
cista— um simulacro de democracia direta —
relacionar quantidades de casos. Mas deixemos de la
permi
situações corriqueiras , às vezes momentos decisivos para neste caso , os fascistas. Tomemos os riscos da democr
a vida de um movimento político , de um partido ou , mes ¬
direta onde ela é tomada realmente a sério, ou seja ,
mo , de um país. Se se considera só a participação direta i histó ria da esquerda revolucioná ria .
como democrá tica , não teremos instituições representativas
que possam dar conta do recado. Que alternativa resta , em

O exemplo clássico— mas de modo algum o ú n
é u da supressão da Assembléia Constituinte na re
casos como esse , sen ão a usurpação autoritá ria ? luçã o russa . Os bolcheviques, ent ão no poder , diziam
A exaltação extrema do princípio representativo aca ¬ a Constituinte , eleita antes de outubro, não represent
ba sempre , de uma maneira ou de outra , na supressão da mais o povo . A prova disso , diziam , estaria no curso
participação popular . Mas se reduzirmos o conceito de de¬ revolução , apoiado sobretudo nos sovietes. Até este po
mocracia tão-só à democracia direta , chegaremos ao mesmo posso admitir que estavam com a razão. Mas se isso
126 FRANCISCO C . WEFFORT POR QUE DEMOCRACIA ? 1

tituinte ? N ão o fizeram . E deu no que deu , ou seja , na cupar com as reivindicações oper á rias , se dedicam a co
supressão da democracia representativa e no esvàziamento trolar os operá rios para cumprir os índices de produtiv
da democracia direta . Rosa Luxemburgo criticou isso tudo dade previstos no plano .
no devido tempo. Sabemos que a mágica da conversão de circunstâ ncia
Transcrevo algumas das críticas de Rosa Luxemburgo. em princípios n ão teria sido poss ível sem o totalitarism
Depois de anotar os fatos sobre a Constituinte, com apoio vigente na é poca de Stalin . Mas a verdade é que Stal
em um folheto de Trotsky , ela diz: “ Tudo isso está muito morreu h á trinta anos e muitas coisas continuam iguai
bem e é bastante convincente. Mas não posso deixar de me Se formos mais fundo nestas mágicas , encontraremos
perguntar porque pessoas t ão inteligentes como Lenin e princípio da democracia direta transformado em álibi par
Trotsky n ão chegaram à conclusão de que surge imediata ¬ o autoritarismo . E isto vai conjugado como uma depr
mente dos fatos mencionados. Como a Assembléia Cons¬ cia ção extrema do sistema representativo. Se a primeir
tituinte foi eleita muito antes da mudança decisiva
Revolução de Outubro — , e como sua composi çã o

refle
a
¬
fun ção de qualquer Parlamento é a fiscalização do Ex
cutivo , que significam parlamentos que , como ocorre em
tia o passado e não a nova situação, deduz-se auto¬ muitos pa íses socialistas , só se re ú nem uma ou duas veze
maticamente que se teria de anular a Assembléia Cons¬ por ano ?
tituinte já superada e convocar, sem perda de tempo, O exemplo maior , porém , é o do sistema do partid
eleições para uma nova Constituinte. N ão queriam con¬ ú nico ou , conforme a Constituição da URSS , do “ partid
fiar , e n ão deviam fazê-lo , o destino da revolução a uma dirigente ” . A propósito , por que definir , na Constituiçã
assembléia que refletia a R ússia kerenskista de ontem , do que determinado partido é “ dirigente ” ? O argumento
período das vacilações e das alianças com a burguesia . no essencial , o mesmo que leva à anulação do direito d
Portanto , a ú nica coisa a fazer era convocar uma assem¬ greve. Se a classe oper á ria estaria , por assim dizer , dir
bléia que surgisse da Rússia renovada que tanto havia tamente embutida no Estado , ela n ão poderia ter mais d
avançado . Em vez disso, Trotsky extrai das característi¬ que um partido, precisamente aquele que criou o Estad
cas específicas da Assembléia Constituinte que existia em oper á rio . Anula-se assim o princípio democr á tico represen
outubro uma conclusão ' geral sobre a inutilidade , durante tativo do pluripartidarismo e criam-se as condições par
a revolução, de qualquer representação surgida de eleições um inevit á vel afastamento entre a classe oper á ria realme
populares universais ” .10 te existente e as burocracias estatais e partid á rias que d
Medidas autoritá rias tomadas na revolução russa zem represent á-la . É , de novo , a usurpação do poder .11
acabaram se tornando, em certa tradição da esquerda , em Quando Max Weber estava em sua comissã o em Ve
princípios de organização política . Por que estranha razão t salhes , a l íder revolucion á ria espartaquista Rosa Luxem
oper á rios n ão podem fazer greve em muitos países socia ¬
listas ? Ora , nada mais simples. Se as empresas são do 11 De novo vale a pena transcrever as cr í ticas de Rosa Luxemburgo
Estado e se o Estado é diretamente da classe operá ria , não medidas revolucion á rias que , de in ício, limitam a participa ção democr á tica
depois , conduzem ao partido ú nico: " A liberdade só para os que apóiam
teria sentido que esta fizesse greve contra empresas que governo , só para os membros de um partido ( por numeroso que seja ) nã
são suas . Estamos a apenas um passo da conversão dos é , em absoluto , liberdade. A liberdade é sempre exclusivamente liberdad
para quem pensa de maneira diferente . N ão por causa de nenhum concei
sindicatos em agências do Estado que, mais do que se preo- fan á tico de ‘ justi ça , mas porque tudo o que é instrutivo, totalizador e p
1

rificante na liberdade pol í tica depende desta caracter ística essencial . E su


efetividade desaparece t ã o logo a ‘liberdade ’ se converte em um privil ég
10 ”
POR QUE DEMOCRACIA ?
128 FRANCISCO C. WEFFORT

burgo estava em uma prisão em Berlim . Era o início do aprimoram a democracia e a capacitam para constitu
primeiro governo social-democrata da Alemanha , o de como espaço de transformação da sociedade .
Num país como o Brasil , que caminha para a de
Friedrich Ebert . Rosa , a Vermelha , era a mais dura dos cracia sob hegemonia liberal e conservadora , não pa
seus críticos de esquerda . Mas se era implacável com a haver dú vidas de que o horizonte dos donos do pode
social-democracia , era també m extremamente atenta ao que atuais e os pretendentes , n ão vai além de uma conce
acontecia na Revolução Russa . Rosa morreu , assassinada ,
junto com Karl Liebcknecht , por alguns oficiais reacio¬
limitada de democracia representativa . Alguns — em e
n á rios alem ães , em 1919 , alguns anos antes do in ício do
cial no PMDB — falam de promover a
lar . Lástima que , onde tal participaçã
participa
o ocorre ,
çã op
eles
stalinismo. Mas a sua cr ítica dos desvios autoritá rios da a suportem . Convivem mal e com a participação pop
revolu ção russa permanece atual até hoje . como acabamos de ver na campanha das diretas e em
Vale a pena ler : “ Em lugar dos organismos represen ¬
meros outros exemplos. E , na mesma medida , conv
tativos surgidos de eleições populares gerais , Lenin e razoavelmente bem com as heran ças autoritá rias que
Trotsky implantaram os sovietes como ú nica representação baram transformando a democracia representativa
verdadeira das massas trabalhadoras. Mas com a repressão país em um simulacro de si própria .
da vida pol í tica no conjunto do país, a vida dos sovietes Como se dará a disputa pela hegemonia na dem
se deteriorar á cada vez mais. Sem eleições gerais, sem uma cia que se inicia sob hegemonia liberal e conservad
irrestrita liberdade de imprensa e de reunião, sem uma N ã o sei e duvido que alguém possa responder isso a
livre luta de opiniões, a vida morre em toda instituição Mas sei que haverá disputa e que os partidos e lidera
pú blica , se torna mera aparência de vida , ficando apenas pol í ticas vinculadas aos trabalhadores terão de dese
a burocracia como elemento ativo . ( . . . ) (surge em con- ver um amplo programa de democratização do Esta
seq úência ) uma ditadura , por certo , mas n ão a ditadura da sociedade brasileiros.
do proletariado e sim " de um grupo de pol íticos, isto é, Depois de tanto maltratar no passado o conceit
uma ditadura no sentido burguês , no sentido do governo democracia , a história brasileira exige agora o recon
dos jacobinos. ( . . . ) Podemos ir ainda mais longe: essas mento da democracia em sentido pleno. Quando digo
condições devem causar inevitavelmente uma brutalização o sentido da revolução do Brasil será o de criarmos
da vida pú blica , tentativas de assassinato , caça de ref éns , mocracia , tenho claramente presente que esta é uma t
etc . ” .12 que vai muito além de discussões de caráter instituci
embora n ão possa , nem deva , deixá-las de lado. Criar
democracia em um país como o nosso supõe , certam
A DEMOCRACIA E A LUTA DOS TRABALHADORES o restabelecimento das eleições diretas em todos os n
o pleno restabelecimento das prerrogativas do Congr
a independência do Judiciá rio , a revogação da Lei d
Representação e participação direta são aquisições gurança Nacional , a supressão das leis que tolhem o
irrenunci á veis da democracia e das revoluções do mundo cício da liberdade e da autonomia sindical, a supre
moderno . São duas formas de participação popular que das leis que tolhem a liberdade de organização partid
a desativação dos órgãos da chamada “ comunidad
130 FRANCISCO C . WEFFORT POR QUE DEMOCRACIA ? 1

Mas supõe também alterações drásticas na política de instituições populares que permitirá , no futuro , muda
económica , redirecionando o funcionamento da economia o eixo da transição .
para atender às demandas populares. Como pode funcio¬
nar a democracia em um país em que cerca de trinta mi¬
lhões de pessoas vegetam em uma condição de miséria E O SOCIALISMO?
absoluta ? E n ão fica nisso. É evidente que a democracia
terá de contribuir para a supressão das desigualdades so¬
ciais extremas que impedem , para a maioria do povo, o Volto à pergunta que se acha na abertura deste cap
acesso à cidadania . Neste sentido, a realização de uma tulo e , na verdade , no in ício das minhas preocupações a
reforma agrá ria é uma tarefa democrá tica urgente. escrever este ensaio. A democracia no Brasil será soci
Se entendermos que democracia , no mundo moderno, lista ? Sim , se os que lutam pelo socialismo fizermos p
só existe com participação dos trabalhadores, a verdadeira merecer. E uma das maneiras de merecê-lo está em com
luta pela democracia começa agora . Uma democracia mo¬ preender que não chegaremos jamais ao socialismo se
derna é uma democracia na qual a maioria do povo não uma vastíssima e complexa luta pela hegemonia dem
esteja confinada na condição de cidadãos de segunda clas¬ crá tica . Uma luta que envolve um n úmero enorme de que
se. Na qual , portanto, a maioria do povo
uma minoria de privilegiados — — e não apenas
tenha a condição de se
tões de há muito resolvidas pelo capitalismo em vári
partes do mundo , mas também algumas — por exempl
tornar dirigente . Na qual todos os trabalhadores
apenas uma minoria dentre eles — — e não
possa vir a pú blico
a reorientaçã o da pol ítica econ
funcionamento do grande capital
ómica

e o
cujas
controle
solu ções
sobre
se col
“ para dizer a sua própria verdade ” . O programa de uma cam na fronteira do socialismo.
democracia moderna no Brasil é o de uma verdadeira A pior maneira de os socialistas enfrentarem um
revolução. luta tão ampla e complexa será a de converterem as idéi
Caberá , certamente , aos setores populares das atuais do socialismo em mero artigo de propaganda . Quem vi
oposições — os ú nicos, em verdade , que continuarão sen¬
do oposição amanhã — um papel decisivo nesta luta . Penso
por aí gritando “ viva o socialismo” a propósito de tudo
de qualquer coisa poderá sentir-se interiormente satisfei
aqui nos partidos ligados ao movimento oper á rio e po¬ por ouvir o som da própria voz . Mas isso não ajuda e
pular , em particular o PT . Mas também no conjunto das grande coisa . Será em cima das questões concretas que
instituições ligadas ao movimento operá rio e ao movimen ¬ há de construir no país alternativas de poder popular q
to popular . Seria ingénuo pensar que um só partido po¬ no futuro venham a se constituir como base de uma no
l ítico, ou mesmo alguns partidos possam dar conta de um sociedade socialista e democrática . E quem continuar s
programa t ão vasto . Estamos entrando em etapa de amplo nhando que o poder é algo que apenas se toma , terá
desenvolvimento dos conselhos populares, conselhos de passar pela experiência de construí-lo na luta do dia-a-di
empresa , sindicatos, sociedades de bairro, comunidades de Ou isso, ou o poder que realmente tem de ser tomado n
base, associações profissionais , associações culturais, etc. o será nunca .
etc. Uma democracia real em um país como o Brasil pres¬ O socialismo não pode ser apresentado apenas com
supõe não apenas pluralismo partidário, mas também plu¬ a idéia do futuro. Todo futuro começa sempre no presen
ralismo institucional — —
e, mesmo , social dos movimen¬
tos populares . É o desenvolvimento de todo este complexo
O fato de que a maior parte dos problemas vividos n
país seja passível de solução sob regime capitalista alime
132 FRANCISCO C. WEFFORT POR QUE DEMOCRACIA ?

ta as perspectivas da hegemonia liberal sobre a democracia que tal possa surpreender os assessores do governo Re
brasileira. Mas que sejam problemas, na maior parte, pas¬ já não haverá , na esquerda e no movimento operá
s í veis de solu ção no capitalismo não é garantia nenhuma popular , equ í vocos sobre o sentido da democracia e o
de que venham a ser resolvidos. nificado da revolução. É que , então , a luta pela democ
Do mesmo modo , o fato de que os liberais tenham será também a luta pelo socialismo .
tido até aqui , a hegemonia da frente de oposições que
,
empurra para diante a transição não significa que estejam
destinados à hegemonia na democracia que deve vir . Sa ¬
bemos que a frente liberal burguesa que ora se apresenta
para governar o país carrega consigo um lastro pesado de
conservadorismo. E que, além dos seus próprios conserva ¬

dores , terá como contrapeso , pela direita , os remanescentes


do regime militar que agora se colocam sob a direção de
Maluf . O próximo governo , qualquer que seja , ser á não
apenas um governo de crise mas também provavelmente
um governo em crise . Seria uma lamentável ingenuidade
enfrentar uma situação como essa apenas com gritos de
euforia radical . Mas seria também um erro descartar a
possibilidade do socialismo .
A democracia pela qual lutamos será socialista? O
futuro dirá. São muitos os que já estão na luta , que, aliás,
não começou ontem . Mas creio que o número dos que lu ¬
tam vem aumentando e cresceu muito quando fomos aos
poucos descobrindo um “ novo jeito de caminhar ” , com ele ,
um novo caminho. Quem vem observando, ao longo dos
anos , as muitas maneiras pelas quais os trabalhadores afir ¬

mam a sua independência na política pode admitir tam ¬

bém que não está longe o dia em que ultrapassem o estágio


atual das suas lutas de resistência para apresentar-se ao
conjunto da sociedade brasileira com alternativas pró prias »
de poder .
Nesse dia , o socialismo deixará de ser consigna abs¬

trata de uns quantos para se converter no programa con ¬


creto de transformações que a maioria preconiza para a
sociedade brasileira . O passado da nossa tradição conser¬
vadora e autorit á ria pesará apenas sobre os seus legítimos
herdeiros, os conserv
f
t
f 44 444"

Até quando?
O SENHOR E O UNICÓRNIO - A Economia dos Anos 80
Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo
Através de artigos publicados originalmente na Revista S

nhor, Belluzzo intelectual independente que luta pela recon
Sobre o Autor —
tru çã o nacional analisa a situa çã o económica brasileira e i
ternacional, numa linguagem que nã o d á margem à s interpret
-
Francisco Co rêa Weffort formou - se pela USP em Ciências So ¬

ciais , em 1962, e é professor titular de Ciencia Política dessa Universi ¬


ções duvidosas.

dade. DÍVIDA EXTERNA E POLÍTICA ECONÓMICA - A


Tem diversos estudos publicados sobre populismo e sindicalis ¬ Experiência Brasileira nos Anos 70
mo na política brasileira. Paulo Davidoff Cruz
De 1964 a 1968 foi professor do Instituto Latino - Americano de Estudando em profundidade as transforma ções da econ
mia brasileira , os mecanismos de financiamento e o endivid
Planificación Económica y Social, organismo da ONU , sediado em mento do Brasil no per í odo que vai do auge do ciclo expansivo
Santiago , Chile. De 1968 a 1969 foi professor visitante na Universida ¬ recessã o dos anos 80, o autor discute o papel desempenhado p
de de Essex , Inglaterra. Em 1974 foi assessor da OIT , na Argentina , la polí tica econ ómica governamental e as conseqiiê ncias d
estando ent üo vinculado à Universidade de La Plata. “ abertura financeira ” para o exterior.
É colaborador regular da revista Isto É . -
( INFLAÇÃO E RECESSÃ O
Membro da Comissão Executiva Nacional do Partido dos Tra -
balhadores, PT , desde a sua fundação, exerce hoje as funções de se¬
' Luiz Carlos Bresser Pereira e Yoshiaki Nakano
Reunindo textos inéditos ou publicados na Revista de Ec
cretário geral nacional. nomia Polí tica , este livro lança uma luz à discussã o sobre infl
çã o e recessã o: partindo do conceito de estagflaçã o , os autore
identificam fatos hist ó ricos decisivos na "estabiliza çã o" da cr
se econ ó mica mundial .