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LEISHMANIOSE : Você Sabia ?

Leishmaniose Visceral Canina - Panorama Atual


A leishmaniose visceral canina é causada pelo dos atuais apontam, inclu-
protozoário Leishmania infantum, transmitido pelo sive, para cura parasitológi-
vetor mosquito palha (Lutzomyia longipalpis), du- ca. Recidivas podem acon-
rante o repasto sanguíneo nos hospedeiros susceptí- tecer e, para tal, o Médico-
veis (inúmeros mamíferos). O cão é o reservatório Veterinário deve estar aten-
mais próximo, o mais estudado e, por isto, o mais to e ser capaz de intervir
incriminado na transmissão para o homem. adequadamente. A proibição do tratamento pelo Go-
Os sinais clínico são variáveis, inespecíficos e verno Brasileiro se baseia na possibilidade de resis-
dependentes da resposta imunitária dos indivíduos. tência que, no cão, é anedótica, inexistente e nunca
O diagnóstico não deve ser pautado apenas em as- confirmada in vivo pela literatura científica mundi-
Dr. Paulo Tabanez pectos clínicos, mas também em epidemiológicos e al, mesmo na Europa, onde se utilizam drogas leish-
pctabanez@uol.com.br
Médico-Veterinário laboratoriais. O diagnóstico preconizado pelo Ma- manicidas há décadas.
graduado pela nual de Vigilância Sanitária do Governo Brasileiro O uso de vacinas e repelentes inseticidas à base
Universidade Estadual de se baseia na reação de imunofluorescência indireta de deltametrina (colar e pour on) reduzem drastica-
Londrina (UEL). (RIFI), onde cães com títulos iguais ou superiores a mente a incidência e expansão da doença na popu-
Diretor do Hospital
Veterinário Prontovet (DF) 1:40 são considerados sororreagentes e, portanto, lação canina e, muito provavelmente, nos seres hu-
e Coordenador dos passíveis de sacrifício. manos. Existem no mercado três vacinas contra a
departamentos de Os testes sorológicos não são 100% específicos leishmaniose visceral canina, sendo que uma delas
Oncologia e Infectologia. e sensíveis, uma vez que ocorrem reações cruzadas Canileish® (Virbac) foi recentemente lançada ape-
Membro fundador do
BRASILEICH com diversas outras doenças, inclusive com a leish- nas na Europa. As outras duas são inteiramente na-
maniose tegumentar. Contudo, de acordo com o cionais, desenvolvidas em universidades brasileiras
mesmo Manual, cães com leishmaniose tegumen- por competentes pesquisadores: Leishmune® (Pfizer)
tar não devem ser sacrificados. Todavia, no Brasil, e Leishtec® (HertapeCalier). Ambas apresentam boa
milhares de animais foram indevidamente mortos proteção, são seguras e não interferem em inquéri-
em virtude de erros de diagnóstico. Logo, apenas tos epidemiológicos. A Leishmune® já está há mais
títulos iguais ou superiores a 1:160 na RIFI devem tempo no mercado e inúmeros trabalhos publicados
ser considerados relevantes, indicando-se confirma- respaldam o seu uso. Recentemente, os Ministérios
ção com exames parasitológicos. da Agricultura e da Saúde exigiram um novo traba-
Recentemente, em nota técnica, o Governo Bra- lho de fase III (campo) para manutenção do registro
sileiro reconheceu a ineficiência e as consequências dessas vacinas. A Leishmune® recebeu parecer favo-
nefastas dessa política e anunciou que, em breve, rável para a manutenção do registro, confirmando
substituirá esse teste pela imunocromatografia com os trabalhos anteriormente publicados e dirimindo
confirmação pela ELISA, ambos testes sorológicos. todas as dúvidas porventura persistentes. A Leishtec®
Porém, a literatura científica comprobatória da efi- aguarda igual decisão. A sociedade civil tem se ma-
ciência desses testes ainda é muito incipiente e deve nifestado contra o sacrifício dos animais infectados,
se ter cautela para não se cometer novo erro. As a proibição do tratamento, como também tem exigi-
melhores alternativas de controle são a prevenção e do a distribuição de vacinas e repelentes em campa-
a educação da população. A eliminação dos cães não nhas públicas. Reflexo disto são as inúmeras audi-
é medida aceitável em uma sociedade evoluída. ências públicas, projetos de lei e eventos científicos
O Brasil é o único país do mundo que tenta obri- realizados neste ano. Um marco importante foi a
gar a população a matar seu cão sororreagente ou criação do BRASILEISH, Grupo de Estudos Sobre
infectado, focando o controle da doença nessa me- Leishmaniose Animal, por pesquisadores brasilei-
dida. As consequências dessa política são o deslo- ros, com o objetivo de pesquisar, capacitar, orientar
camento de animais “condenados” para áreas não e discutir o assunto de forma criteriosa, científica,
endêmicas, tratamentos indevidos, substituição dos moral e ética. A sociedade deve exigir de seus repre-
animais por outros mais susceptíveis e aumento da sentantes uma postura coerente, humanitária e justa
taxa de abandono. O tratamento de cães utilizando quanto ao controle dessa doença, não mais baseado
drogas de uso humano não é indicado, de acordo em exames incongruentes, proibição do tratamento
com a Portaria no 1.426, de 11/7/2008. Contudo, ou extermínio dos cães, sem evidências científicas,
quando realizado, é eficaz, pois confere cura clínica simplesmente para fugirem de suas reais responsa-
Colaboração: e epidemiológica (não transmissibilidade), e estu- bilidades para com a vida humana e animal.