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Honoré de Balzac, A obra-prima ignorada

Letícia Nascimento Marques – 14/0183876

Introdução

Ao realizar a leitura da obra e Balzac, “A obra-prima ignorada”, encontramos


características do Romantismo e fragmentos do processo de criação artísticas
até a questão da imitação e da representação pelos artistas, além da dura crítica
de Balzac em relação a arte pictórica.

Embora a obra tenha sido escrita por Balzac em 1981, período do romantismo,
a história se passava em 1612, período predominantemente iluminista, o que
traz a história a ruptura com o iluminismo através da linha estética do romantismo
utilizado pelo autor, a quebra dos padrões clássicos de beleza, a apresentação
de um personagem emotivo, intuitivo, que expressa livremente seus sentimentos
e emoções mais intimas, ao contrário do iluminismo, o personagem é retratado
como gênio e louco por possuir um poder de criação fora do comum, além da
questão do burguês começar a ter voz no romantismo e nas obras, como
Fenhofer.

“Eu sou mesmo um tolo, um louco! Não tenho mesmo nenhum talento ou
capacidade, não passo de um homem rico que, quando caminha, caminha e só!
Não vou mesmo produzir nada!”. (BALZAC, P. 21)

Indagações a respeito da obra “A obra-prima ignorada” de Balzac

Frenhofer quando declara que “A missão da arte não é copiar a natureza, mas
expressá-la! Você não é um vil copista, você é um poeta! ”, ele está afirmando
que o pintor também é um poeta, ou seja, um criador, que não basta o artista
fazer uma cópia do que ver se nela não põe vida, então o que Balzac quer é uma
obra de arte que transmita vida e que transcenda o limite da própria existência,
e ao falar sobre a tocha de prometeu, ele mostra a incapacidade de dar vida a
obra se a inspiração não for autêntica, Prometeu roubou a tocha do monte olimpo
e por não ser dele, não sabia como mantê-la acesa, e assim é a inspiração na
arte, o dom da criatividade. Fenhofer era capaz de “descer aos infernos da arte
para de lá trazer a vida”, assim como Orfeu, daria de tudo para dar vida a sua
obra buscando o extremo da arte, e que ao fim da narrativa, assim como Orfeu,
ele perde tudo, a amada, sua obra de arte e sua própria vida. Então tal forma
que Fenhofer busca alcançar, com tantos detalhes e tamanha complexidade é
mais inalcançável que as artimanhas do Proteu da lenda, um deus marinho, filho
de Oceano e Tetis, tinha o poder do conhecimento do passado, do presente e
do futuro, mas era quase impossível o acesso a ele, e a forma não perde para
isso, Proteu embora fosse o difícil acesso até ele, ainda assim não era
impossível, já Frenhofer não foi capaz de alcançar a forma, que para isso era
necessário cravar um combate e usar da força para alcança-la.

Embora Balzac fosse um artista extremamente realista, não havia da parte dele
problema algum em preencher o que observava com sua imaginação e
capacidade de inventar, mesmo que assim fosse necessário ultrapassar o limite
do real para obter-se uma dimensão visionária, o que contraria a teoria de
Bakhtin que afirma haver um limite.

“...e é este o terreno onde nascerão sua inspiração, o ímpeto criador que o leva
a iniciar novas combinações e formas nesse mundo da literatura, sem sair dos
seus limites. ” (BAKHTIN, P. 209)

Durante a obra toda, Fenhofer causa um suspense em relação ao conteúdo de


sua obra, a expectativa do leitor é criada em cima de tantas citações de artistas
e obras consagradas que Balzac utilizou-se, ao realizar a leitura da obra, o que
se espera com a descrição da mulher é uma obra criada em cima das
perspectivas de artistas como Poussin, Da Vinci, mas o que temos ao ser
revelada a obra de Fenhofer é um estranhamento, o perturbador desconcerto do
velho é gerado pelo comportamento de Porbus e Poussin quando não
conseguem enxergar nada em seu quadro, nada além de cores e mais cores
jogadas, um borrão de cor clara, como é descrito pelo próprio autor.

“...com a ponta do pincel, indicava aos dois pintores um borrão de cor clara. ”
(BALZAC, P. 20)

Contudo, essas sobreposições de cores que encontrava-se no quadro, o pé


saindo da lateral de forma vívida, que dava a entender que havia uma pessoa ali
no quadro, porém por trás de todo o escombro da “destruição” e “caos” que as
sobreposições de cores apresentavam, a imagem de um pé tão real que
paralisava quem via, através disso, Fenhofer sem nenhuma intenção conseguiu
atingir um estilo inovador de pintura, rompendo com os traços do classicismo e
inserindo algumas características que mais pra frente viriam a se encaixar na
arte vanguardista europeia, um quadro que retrata a realidade de forma
fragmentada, inovadora e que rompe com as tradições artísticas, tornando-se
moderna e fora de tempo.

Conclusão

Essa obra é de fato riquíssima, traz consigo uma ruptura do iluminismo em meio
ao romantismo com uma inovação na arte, onde através de uma pintura, pode
alcançar a vanguarda europeia, além de ser uma obra utilizada como ensaio
para criticar o estatuto da criação artística e as questões problematizadas pelos
personagens a respeito da representação e da recepção, ou seja, do que era
conhecido como obras miméticas, o autor utiliza do personagem principal para
responder a esses problemas utilizando de mais um recurso do romantismo –
além dos já citados – que é a relação com a mitologia grega.

Bibliografia

BALZAC, Honoré de. A OBRA-PRIMA IGNORADA. Org. Teixeira Coelho. Ed.


Iluminuras.
BAKTHIN, Mikhail. Estética da Criação Verbal. Trad. Maria Ermantina Galvão
G. Pereira. Martins Fontes, 2007.