Você está na página 1de 22

!UNIYtH~IUf\Ut ttUtl1f\L Ut UD~nI.I1"' . m ~

BIBUOTECA

515BII UFU

1000434100 1

1 5Ç ; . 3 j~

Copyrig ht © d os o r g ani za d ores: J oão Fr agoso e

Mar i a d e Fá tim a Go uv êa, 20 14

C IP-BRA S I L . C ATAL OG A Ç ÃO N A P U BLI CAÇÃO

SINDI C ATO N A C IO N AL D O S E DITORES DE LIVRO S, RJ

F874b

' e d.

O Br a si l Co l on i a l , v o lume 2 (ca. 1 5 80 - ca. 17 20 )/o r ga n iza ção

J

3

'

e

3 oão Luis Ribeiro Fr agoso, M a ri a d e Fát i m a Go u v ê a

Ri o de Jan e ir o : C i v i l i zaç ã o Br as ile ir a, 201 8 .

i l . ;23 c m .

In c l u i bibliog r afi a e índice ISBN 978 - 8 5-200 - 1 07 8-5

1 . Br a si l - Hist ó ria - Período c o l o nial , 1 5 0 0- 1822.1 . Fr a go s o ,

,.\ J' f O I t l~

~ . ,

~

!

~ \

~ /

EDITORA"_AFILlADA

,oç •••.•••u ••.•QI ~~

,

,

J o ã o Luís R i beiro. 11 .Go u vêa, M a ri a de F á tim a.

1

3 -0 1 1 3 5

CD D : 98 1 . 03

C

DU : 9 4 ( 81 ) ' 1500 1 1822 '

Todo s o s direitos reserv a d o s . Proibid a a r e pr o dução, a rm a zen a m e nt o ou

transmi s s ã o de p a rtes de s t e livro , a tr a vés d e quai s quer meios, se m pr é vi a autor i zação por escri t o.

Texto r e visado se g undo o n o vo Acord o Or t o g r á fi co da Lín g u a P o rtu g u es a .

Dir e itos desta edição adquirido s pel a EDITORA CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA um s e l o EDITORA JOSÉ OLYMPIO LTDA . Rua Ar ge ntina, 1 7 1 - 20921 - 380 - R i o de Jan e ir o , RJ - T e l .: ( 21 ) 2 585 -2000

Seja um l eitor preferenci a l R e cord .

C ad as tr e - se e re ce ba inf o rm açõe s so br e nos sos

l a n ça m e nt os e n ossas pr o m oções .

A t e ndim e nt o e ven d a di re t a ao leit o r :

mdir e t o @ rec o rd .co m.br o u ( 21 ) 25 85-20 02 .

Imp resso n o B ras il

20 1 8

A PRESENTA Ç ÃO

Sumário

Sistemas atlân t icos e monarquias na época moderna:

anotações pre l iminares

João Fragoso Thia go Kraus e

7

PARTE I Impér i os conectados : o Império português da União Ibérica à r estauração

CA P í TULO 1

A expansão da Coroa portu guesa e o es t atuto polít ico dos territ órios

Pedro Cardim e Susana Münch Miranda

CA PíTULO 2

CA P í TULO 3

CA P í TU L O 4

CAPíTULO 5

Mundo portug u ês e m u ndo ibérico

Francis co Car l o s C o sentin o

PARTE 11 População

A sociedade co l onial em Pernambuco . A conq u ista

dos sertões de d entro e de fora

Maria d o Soc o rr o Perra z

Tempo dos f l amengos: a experiência colonia l

holandesa

R o n a ld o Vainf as

Conquista do centro-sul: fundação da Colônia de

S a cramento e "achamento" das Minas

Ca rl a Ma ria Carv alh o d e A lm ei da e

Mô n ica Rib eir o d e Ol iv e i ra

5

51

107

171

22 7

26 7

o BRASIL

COLONIAL

- V OL .

2

PRICE, J aco b M . "C r e dit in th e S l ave tr a d e an d pla nt a tio n economi es " , S lave ry and

t he Ri se of t h e A tl an ti c System . SOLOW , B ar b ara L . (ed.), Cam b r id ge: Ca mbr' d

Uni ve r s it y P ress, 1 9 91 .

I ge

PUDS EY, C uthb e rt . [ ou rn a l o f a R esi d ence in B razi l. I n: P APA V E RO Ne l s

'

TEIXEIR A, D a nte Martins (e ds. ), S é rie Dut c h Br az il, 3 vo l s. , P e t ró p o lis : Petro br a s '

2000

o n .

.

,

Bra s il h o land ês e as guer ras

PUNTO N I, Pedr a . A m ísera s o rt e . A esc ra v id ão a fr ic a n a n o

d o tr á fi co n o Atl â nti co s ul , 1621-1648. S ão Paul o : HU C ITE C, 1999 .

REIS DE QUEIROZ, Suely Robles. " Algumas notas sobre a lavou ra do a çúcar em São Paulo no período colonial " . Anais do Museu Paulista , v. 21 ( 1 9 67 ) .

SCHALWIJK, Frans Leonard. "Atas da Classe" . ln: A i g r e ja r e f o rmada no Br asil ho l and ê s, RIAHGP , v. 58 (1993) , p . 145,168,1 7 2,1 7 8.

SCHWARTZ, Stuart B . "Free Labor in a S l a ve Econom y : The lavradores d e cana of Colon i al Bahia" . ln : Co l onia l Roots o f Modern Bra z il, ALDEN , Da ur i l ( ed . ), Berkel ey : University of California Press, 19 7 3 , p . 14 7 -9 7 .

--

" The Plan t ations of St. Benedict: The Benedictine Sugar Mil ls i n Co lonial

Brazil ", The Ameri c as,

v. 39 : 1 (1982).

"Indian Labor and New Wor l d P l antations : Eur o pean Demands a nd lnd i a n

Responses in Nor t heast ern Brazil" , Am e rican Historic a l Revi e w , v. 83 , n ° 3 (197 8),

p

. 43-79 . o S e gred o s, p . 67-73.

--

Sugar P l a nt a t ions in the Formation of Braz ilian Society Bahia, 1550- 1835 . Nova York: Cambridge Universi t y Press, 1985 .

SOUSA, Ga b r i e l Soares de. Tratado d e scritiv o d o Brasil e m 15 87, 4 " e d. , São Pa ul o,

1971 .

STOLS, Eddy . "Um dos primeiros documentos sobre o Engenho dos Sc h etz e m São Pau l o", Revista de História, v. 33 (1968), p. 405-419.

"Um dos pr i meiros docume n tos sobre o engenho dos Schetz em São Vice n t e" , Revista de História v. 76 (1968), p. 407-420.

D e Spaanse Brabanders of d e handel s b e tr e kkingen d e r Zuidelijk e Neder l an de n me t d e lberis c he W e rel d, 1589 - 1648,2 vols. Bruxe l as: Paleis der Ac a dern ié n, 19 7 1 . DUSSEN , Van Der. "Relatório sobre o Estado das Ca pitanias Conquistadas no Bras il" , FNBH, 1, p. 93-96.

WATJEN , Herm a nn . O domínio co l o nial h o land ê s n o Brasil . São P a ulo, Edi tora Naci o n a l ,19 3 8.

378

CAPíTULO 7 Fluxos e refluxos mercantis: centros, periferias e diversidade regional

Antô ni o C arlos Ju cá d e S a mp a i o'

A viragem Atlântica

No in íc io d o século XVII, Brandônio,

alter ego de Ambrósio F e rnan -

d

es B ra ndão, afirmava que "o Brasil é mais rico e d á mai s pro v eito à

aze nd a de Sua Majestade, que toda a Índia " . ! Para fazer tal afirmação

f

b

aseava- se tanto no crescimento da produção açucareira quanto das

d

emais riquezas da América portuguesa, que significavam r e ndimentos

i

g u a l me nte crescentes da s alfândegas do rei. A e s sa imagem contrapunha,

p

or ou tro lado, os gasto s crescente s que o Estado da Índia r e presentava

para a C oroa.

Bra ndônio não s e enganav a . É ao longo da s egund a metade

do sé culo

XV

I q u e o Brasil "surge " no c ontext o

do Imp é rio portugu ês

e p assa a

rivalizar com o Est a do d a Índ i a p e la ~ t e nç ã o da monarquia p o rtu g uesa . '

Com a cr iaç ã o do g overno ger a l a c o l o nizaçã o ga nha t e rren o. Ao m e smo

tempo a ument a rapidam e nte a produ çã o aç u c ar e ira e c o m e l a a pr o duçã o

' Professor adjunt o da UFRJ . E s t a pesqui s a cont o u com o apoio d o CNPq.

37 9

o BRASil

COLONIAL

_ VOl .

2

de cat i v os, tanto pe l a captura

O~ col o nos, que ta l vez

mil por vo l ta de 1583, com uma populaçao escrava de 32 mi l . E m 1600

'

nt o

co l o n i a l seria d e

e ín dio s li v res" e

110 mi l seriam escravos. ê

de índios quanto pe l o trá f ico a tl â n t i c

fossem dois mi l n: década de 1540, p ass a m a 2~

os colo n os

contin u aria

subiam a 30 mi l , e os escravos, a 7 0 mil . Esse c r esci

no século XVII . Em 1660, a população

m

e

das quais 74 mil seriam "brancos

18

4 mi l pessoas,

O número ap r ox i madamen t e

de engenhos de açúcar cresce igua l me nt e

r á pido. De

60 em 1570, e l es passaram

a 130 e m 1585, 230 e m

ma i s de 4 70% e m po uco m ais

d e me i o s é c ul o . " A l ém d isso, o comércio d e Por tu ga l co m o Brasi l não

e s t ava o rgan iza d o como um monopó l io da Coroa, ao CO ntrário do

comérc l Í o da Ín d ia, o que a b ria espaço para uma ma i o r pa rtici p a ção

d

m a nut enção d e fr o t a .

a l ém d e sign i f i car a a u sênc i a d e gasto s co m a

1610 e 346 em 1629. U m a expansão

d e

e m ercadores pr i vados,

Essa expa n são t inha ref l exo, na tu ra l me nt e, nas r e l ações co m a Áf rica .

escravos para a Amér i ca po rtu g u esa cresce de uma m é dia

O tr á fi co de

de m o d e stos 222 cat i vos por ano e n tre 1531 e 1575 pa r a 1 . 6 00 no p e río-

d o

na segunda me t a d e .> Nesse con t ex t o, a f u n d ação

si gnifi co u u m au t ê nt ico e nr aizame nt o d os i nt eresses n eg rei r os lusos no

co nt i n en t e,

fo rn ecedora de ca t ivos para a A m érica.

1576-1600, q u a tr o m il n a pr i meira m e t a d e d o sécul o X VII e 7 .200

d e L u a nda ( 1575)

o q u e conver t e u A n go l a, não por acaso, n a pri n c ip a l reg ião

O ou t ro l ado d a moeda a con t ribu i r para essa virage m e r a a prof un-

d a d ecadência

sa e m de Lis b oa e m direção à Ásia em 1 500-09 passa-se a 51 e m 155 0 -

da Carreira d a Índ i a. De um máximo d e 1 3 8 n av ios que

em 1 661 - 66 . Essa evo lução e ra

afe t ada tan t o pe l as enormes perdas da Co r oa po rt ug u esa

Seiscentos quanto pela preferência que os próprios po rt ug ue ses dava m

a o com é rcio interno

se tenh a uma ideia, s omente de um oitavo a um décimo da pr o d ução d e

na Á sia no s

59, 16 em 1630-35

e tão so m ente nove

a s iático em detrimento

d a ro t a do Cabo. " Pa ra q ue

e s pecia r ia s e ra e nviado à Eu r opa . ? A e ssa si tu ação somava-se a c re sce n t e

incapac id a de d o Estado da Índia de equilibrar s uas co n tas:

380

FLUX O S

E REFLU X OS

MERCANTIS:

CENTROS ,

PERIFERIAS

E DIVERSIDADE

T o d os

os n o v o s vic e- r e i s, d es d e o co nde d e R e d o ndo em 161 7, at é o conde

d

e Ave ira s, e m 1640 , s e qu e i x a v am à ch e gada e m Goa, veement e me n te,

d

e q u e o t eso uro es t ava

vaz i o e d e que não h a via fundos para acorrer às

n

ecessid a d es m a i s pr e m e nt es

do E s tado. Fre quentemente a admini s tração

d

e Goa era incap az d e sa ti s fa ze r a s d e spe sas

de rotina com a s rec e ita s lo-

cais reg ula r es, a s so b e rbada p e la s n e cessidad e s de d e fe s a extr a ordin á ria s . "

A vira ge m atl â ntica , ou, se quisermos assim c h amar, a a tla nt ização do

I mp é ri o lu s itano, foi, porta n to,

c imento contínuo da América e da África po r tug u esas correspondeu

da Índia, sem q u e u m fa t o es t e j a

di retament e ligado ao ou t ro. Mas a a nálise desse processo não estar i a comple t a se tra t ássemos aqui

um a concomitante crise no Es t ado

um processo de d u p l a face: a um cres-

so m ente das r e lações e nt re as conquistas de Por t uga l . As r e l ações e n tre

do t e mp o e

com especial intens id a d e no séc ul o XV II. O mesmo séc ul o q u e assis t e à

r ápida e xpansão demográfica e econômica do Bras il t es t emu n ha ig u a l-

m ente a estagnação reino l . Em t ermos demográficos, Portuga l aprese nt a

um crescimento próximo de zero ao l ongo de cem a n os, com a oco rrência

p eriódica de epidemias q u e e l evavam a mort a l idade a níveis alarma nt es . "

Al ém disso, de 16 4 1 a 1665 h á a guerra com a Es p anha a ceifar vi d as .

Em r e lação à economia po rtug u esa, não h á da d os g l obais que per-

m i t am estabe l ecer t endê n cias com segurança. Mesmo assim, é possíve l

f a l ar, n a melhor das hipót eses, numa clara estagnação . Na agricu l t u ra, as

f o n te s quinhen t istas e seiscen tis t as ressa l tam com insis t ência a presença de

t erren o s incu ltos na paisagem, sin t oma de uma agricu ltura ain d a baseada

n o p o u s io. ' ? Permanecia também a fort e depe n dência da importação de

alim e ntos para ate n der às necessidades internas. No caso do Algarve,

Joaquim Romero identi f ica t r ês fases bem marcadas:

entr e 1 6 18 e 1638; 2 ) um "marasmo" en t re 1639-70; e 3) uma ascensão a

parti r daí , mas que só vai a dquirir verdade ' i f o vigor entre 1690 e 1710 , 11

o R eino e o seu ul t ramar t ambém se alt eram com o passar

1) uma depressão

No qu e conc e rne à produção manufatureira, os dados são ainda mais

Imp rec is os, mas não há qualquer evidência que indique crescimento

381

- J

o BRASil

COLONIAL

- VOl.

2

significativo dessa ao longo da centúria. Pelo contrário, o aume nto da

importação de artigos industriais estrangeiros após a Restauraç ão le -

vou a Coroa portuguesa a promulgar diversas leis pragmáticas v i s ando

limitar essas mesmas importações. " Toda essa estagnação sig nificava

uma dependência cada vez maior do ultramar. E ultramar era ca da vez mais sinônimo de Brasil .

Após a Restauração, a importância do Brasil tornou-se ain da maior

para a sobrevivência da nova dinastia. Em meados dos Seiscen t os, D. João

IV referia-se ao Brasil como a "vaca de leite" da Coroa port u g uesa, res -

saltando, assim, a forte dependência que a própria existência d e Port u ga l

como nação independente guardava em relação aos recursos auferi d os

no comércio com o Brasil." Essa dependência fazia-se ain d a maior co m

por conta do imenso recuo das possessõ es lusas n o

o passar do século,

F

L U XOS

E REFLUXOS

MERCANTIS:

AS conjunturas do açúcar

CENTROS,

PERIFERIAS

E DIVERSIDADE

Durante muito tempo foi consensual a visão do século XVII como

marcado, no que tange à América portuguesa, por duas conjunturas

econômicas distintas: uma primeira metade de considerável crescimen-

to, com a consolidação da colonização tendo por base a expansão da

produção açucareira e do tráfico de escravos, e uma segunda metade

marcada por uma crise agrícola, fruto do surgimento da competição

antilhana no mercado do açúcar e da consequente baixa dos preços

internacionais do produto." Essa visão aparece de forma razoavelmente

semelhante em diversos autores, embora com algumas nuances dignas

de nota. Para Boxer, por exemplo, a crise agrícola é fundamentalmente

u ma crise de preços, e não de produção. É ele mesmo quem cita Thomas

Oriente no período 1610-65. A atlan t ização do Império po rtuguês não

Maynard, que em 1683 refere-se às "espantosas quantidades" de açúcar

pode ser vista, portanto, somente como uma alteração na i mportân cia

b

rasileiro que chegavam a Lisboa 1 7 e daí eram reexportadas. Mais ainda,

relativa das suas áreas periféricas . Mais do que isso, ela s i g nifica uma

p

ara ele essa crise pode ser localizada nas décadas de 1670 e 1680 e não

redefinição das relações entre o reino e seu ultramar .

Pode-se considerar que o processo se completa quando os fluxos do

Atlântico passam a influenciar decisivamente as relações en tr e o Es t a do

da Índia e o reino de Portugal . Isso se dá sobretudo a par tir de 167 2,

a t lâ nticas c om

a África Oriental . Na prática, tal concessão significava a l i berda d e de

comércio com os navios da Carreira. Essas embarcações, alé m de ve nde r

na América os produtos orientais que traziam, embarcava m tam bém

quando a Coroa autoriza o comércio de suas possessões

açúcar para ser levado a Lisboa. O resultado foi uma rela t iva recupera -

ção da Carreira, com o crescimento tanto do número de n a vi os quan to

da tonelagem transportada."

o porto brasileiro [Salvador] permitiu assim, através do seu mov imentO,

que a navegaçao ao ongo o roteiro

declínio era crítico, dando a Vi eira aquela perplexidade q u e não I!e

d b i l idad e o

consentia nr ou c orar, como nos con essa ao re erir-se a e

-

I

d

do Ori

o

f

nente contllluass ,

.

feri

e pois seU

.

h

mesmo com é rcio."

382

alt era a tendência secular de crescimento demográfico e econômico da A mérica portuguesa .1 8

Para Frédéric Mauro, por sua vez, a crise açucareira teria início ainda dep ois:

Até a crise da década de 1680 a tendência secular da produção brasileira de açúcar foi de alta, o que é particularmente notável, já que se exclui o Brasil holandês dessa consideração. Ademais, frente ao modelo geral de depressão do século XVII, a abundância e o crescimento da produção não afetaram o movimento dos preços do açúcar, que também estavam em alta, assim como o preço dos escravos. A crise do século XVII não afetou seriamente o Brasil até por volta dos finais do século. "

A crise econômica, que de fato é uma crise açucareira, surge, portanto,

como consequência de uma crise europeia seiscentista, mas sem de-

monstrar nos Seiscentos qualquer grau de dramaticidade. No entanto,

na década de 1980 vieram à luz dois trabalhos que tentaram definir as

383

o BRASIL

COLONIAL

- VOL.

2

conjunturas

aiS e que mudaram essa percepção: os de Stuart Schwartz e de Ve ra Ferlini.

da economia açucareira

a partir do uso de fo nt es s erl ' .

Ao debruçar-se sobre as conjunturas do comércio do açúc ar n o pe '

fia-

do entre 1650 e 1750, Schwar t z " carac t erizou-o como um mo mento d e

crise para a produção aç u careira de v i do a diversos fatores, no t a d a men t e

a

Na primeira metade do séc ul o XV III , esse quadro seria ag rav ado pelo

advento da mineração, q u e gera ri a um a dispu t a preda t ór i a ( para o açú-

car) pela mão de o b ra ca t iva, co m a conse qu e nt e

O t raba l ho de Vera Fer l ini;" po r s u a vez, é em gran d e m e dida tri bu -

tário do de Schwa rt z, j á qu e a m a i or pa rt e d os dados mais g lobais por

concorrência an t i l hana e a q u e d a d os preços no merca d o in t er nacion I

a.

e l evação d o s preços .

e

é marca d o por u ma reg r essão s ec ular d a pr o du ção aç uc a re ira, have ndo

na segun d a me t a d e d o sé culo XVIII , um renasci m e n t o ag ríco l a (na

l a u t i l izados é re ti ra d a

d esse a utor . P ara Fer l ini, o p e r í o d o 1650 - 17 50

verdad e, trata-se

d e um re na s cim e nt o

d o set or aç uc a r e iro).

Para a au -

tora, no en t a nt o,

m ais d o q u e a c o n c o r rê n cia a ntilh a na ,

foi a que da do

(- preço do açúcar a ca u sa p ri ncipal d essa regressão . A mbos re conhec em

a

exis t ência de co n j u n tu ras

fa vo r áve i s d e c u r t a dur a ção,

as qua i s, no

en

t anto,

são vis t as co m o i nc a pa zes d e a l terar

a t e nd ê nci a mais ge ral .

Não seria impreciso a fi r ma r que esses do i s a ut ores ten d e m a pintar

com t ons for t es um qu a d ro q ue no s t ra b a lh os an t eriores s u rge com c ores

b e m mais ma t iza d as.

res t rita aos preços, e não como um a crise d a a t iv id a d e aç u ca reira e m

si, para Sc h war t z e Fe rlin i h á um a re l ação est rei t a en tr e pr e ç o e níve l d e

Tu d o se passa como se o s impl es fa t o de os pr e ços do aç ú car

prod u ção.

baixarem signif i casse necessar i ame nt e uma dimin u ição da produçã o.

Il ação no mínimo c u r i osa, já q u e n ão há dados sobre pro dução ou so br e

exportação que corroborem o q u adro pi nt ado por ambos. No trabalho

de Schwartz, por exemp l o, enco nt ramos estimativas a t é 1 6 29 -30 e, na

pula para 1702. 22 A razão é a f al t a de fontes

for-

esparsas para re do

m exemp I o e a uti izaçao por

Se e m Bo xe r e Mau ro a crise é e nt e ndida co mo

parágrafo seguinte, o au t or

que permitam esse tipo de estima t iva para o período.

Ambos acabam por se utilizar de informações -

U

'

'I'

çar o argumento.

F er I' iru 'dos d a doS

384

FL U XOS E REFLUXOS

MERCANTIS :

CENTROS,

PERIFERIAS

E DIVERSIDADE

enbo Sergipe do Conde (velho fetiche dos historiadores "

a a extrapolação

ligados à

eng his t ória do Nor di' este co orna

1)

sem apresentar quaisquer jus t i 'fi ca t ivas .

para o

feita dos dados de um único engenho

~;~junto da economia açucareira

r ec l amações dos senhores

n ecessário provar que tais re c lamações estão dire t ame nt e liga d as às

con junturas, ou seja, que elas aumen t am em cer t os mo m e nt os e di mi-

nu e m em outros, por exemplo.

e nd i vidamento dos senhores de engen h o e a conseq u e nt e " d es f abri-

caçã o" dos engenhos,

s ão um traço estrutura l

ao c i c l o açucareiro

me r c anti lizado da economia co l onial . 2 5

ao cará t e r a ltamen t e

das

de engenho como indício d a crise.:" Seria

colonial. 23 Outra é a u t i l ização

De fato não é isso o que aco nt ece.

O

sempre t ão cit ados como s into m as d essa crise,

da economia açucareira. Es t ão l igados tan t o

(e agríco l a em gera l ) quan t o

O c aráter cíc lico da produção açucareira gerava u m d esco m passo

entr e a s necessidades cotidianas de insumos e a l i m e nt os p ara as u ni d a -

des p r o d u ti vas (inclusive escravos) e a capacid ade dessas de gerar re n di-

ment o s, que estava limitada ao período das safras . " Esse d escompasso

era p ar c i a l mente compensado pe l o sis t ema de co nt as-co r re nt es, e m que

o com erciante adiantava para o produ t or as mercador i as

dinh e i r o de que esse necessi t ava, em gera l em t roca d e s ua s afra f utu ra.

Mes m o assim, não impedia uma dependência d os se nh o r es d e e n gen h o

Evi denteme nt e esse

quad ro gerava tensões entre os dois grupos, mas na d a indica q u e essas

( e l avra dores em geral) fren t e aos comerciantes.

o u m es m o o

ti v e ssem aumentado na segunda metade dos Seisce nt os.

da a çu carocracia por proteção para as suas moendas i nseria - se em um

C o nt ext o muito mais amplo de negociações e nt re as

Cor oa , como veremos adiante.

Po r fim , o clamor

e l i t es colon i ais e a

P o r Outro lado, a utilização

do preço como í n dice da evolução

e C on ô m ica é extremamente

r e l a t i vos a um setor pode falar-nos de sua lucratividade, capacidade de

a

P

ra ISSO,é necessário que cruzemos tais dados com outras variáveis que

questionável. Um bom número de preços

frente às conjunturas.

c urnu l

a

-

açao etc., mas não de seu comportamento

.

385

o BRASIL

COLONIAL

- vo t . 2

nos permi t am conhecer minimamente o comportamento da produção. É Pierre Vilar quem nos lembra q u e

mesmo que estivesse definitivamente resolvido o e ni g ma dos " mo v imen_

tos gerais dos preços " , este apenas forneceria

comportament o prováv e l das outras grand ez as eco n ô micas e m dive rsos

grupos [o grifo é nosso] . 2 7

uma indicação

sobre o

N o caso es p ec ífi co d a Amér i ca p o rtugu esa,

é ev id en t e q u e desconhe-

cemos os " m ovi m en t os

ge r ais d os pr e ç os",

o que demonstra

a total

impossib ilid a d e d e derivarmos, a p a rt i r d o comportamen t o desses valores, as con ju n tu ras eco n ô mi cas d o período .

de alguns

A

l é m di sso, nem t o d os os pr eç o s s e co mp or t am

como

e Fer l in i es p e r ariam .

É c ur ioso

notar qu e a di minuição

Schwartz

d o preço do

açúcar na seg und a me t a d e do

e l es t e nd e m a s u bir, O q u e reve la tanto o

(ou, o que

quer d izer o m es m o, a impo rt â nc i a d essas m oe nd as para a definição

das h ierarq ui as

ex t ernas. N a B a h ia, o preço mé di o d e um e n gen h o com 30 cativos sobe

d e 20 m i l cru za d os

números exatos: 10 :4 51$220 ) e nt re 1 66 0 e o f i na l do séc ul o, de mais d e 30%. 28

uma alta

a p reço qu e essa soc i e d a d e co l o n ia l tinha p o r s u as moendas

d os engen h os. P e l o co ntr ário,

sé cul o XV II

n ão se ref l e t e nos preços

sociais) q u an t o a s ua a ut o n omia fren t e às c onjunturas

(8: 0 00 $000 )

para m ais d e 26 mi l c ruzados

(em

No R io de Ja n eiro, essa tra j e t ória é menos bri l han t e, como podemos

ver à fren t e, m as mesmo assi m é c o ntr á ri a

con t exto d e uma suposta crise

médio de um engenho de açúcar a u me nt a 9,55% na capitania f lu mi nense.

A única queda clara é para a déca d a d e 1670, a qual pode indica r uma

muito

reduzida, já que para esse período há apenas cinco vendas de enge nho cujos preços foi possív e l recuperar .

crise de c u r t a duração

ao q u e se po d eria esperar no

aç u carei ra.

E n tre 1650 e 1700, o preço

o u ser ape n as o efei t o de uma amost ra

não s e r e flete num preç o

igualmente de c linante da s unidades que produziam esse mesmo açúca r .

Ou seja, o preço de c linante

do açúcar

3B6

FLUX OS

E REFLU X OS

MERCANTIS :

CENTROS,

PERIFER I AS

E DIVERSIDADE

Lo ucura dos homens ou sabedoria de Deus? Nem uma coisa nem outra.

Essa s ociedade simplesmente

ain d a, nela o engenho não é só um bem

de pr estígio e poder político, sinônimo de acesso a escravos. Tudo isso

con tribuía para que a sociedade colonial não se movesse (ou melhor, fosse movida) pelo preço do açúcar . É marcante também a impo rtância que as transações de engenhos

t iver am durante todo o período no conjunto dos negócios f l uminenses.

Se o lharmos

r espondendo

apenas para os negócios r urais, enco nt ramos os engenhos

não se rege p e las leis do mercado.

Mais

econômico . É também fator

sempre por pe l o men os 70 % do valor t o t a l transacionado . Se

a mpliarmos nosso foco para o to t a l dos bens transacionados, veremos que

s u a participação variou de 30% em 1650-70 para 43 % na ú l tima década

do s Seiscentos, atingindo o incríve l índice de 61,5% en t re 1671 e 1690 .

4 500000

400 0000

'

" 3500 0 0 0

o :t; 30000 00

' (I )

E 2500 000

'"

~ 200000 0

o

i

>

ã 1 5 0000 0

1000 0 0 0

500000

O

1650

- 60

I

Valor m é dio

--

1661

< ,

~

/

- 70

I

1671- 8 0

Períodos

~

/ I-+- V a lor médi o l

I

16

8 8-17 00

F o nte: Escr i turas púb l ic a s de co m pra e ven d a d os Cartór i os d o 1° e 2° Of íc i o s d e No t as

do Rio d e J ane i ro ( 1650-1750 ).

P o r fim , s e utilizarmo s os esparsos dados disponíveis sobre a produção

d e aç úcar e o núm e ro de engenhos no período colonial coligidos pelo

p ró prio Schwart z, vere m os como e les se ch o c a m com a interpretaç ã o

geral n a

d a da pelo aut o r . 2 9 T e nd o em vista a ideia d e uma decadência

387

o BRASil

COLONIAL

- VOl .

2

segund a met a de do XVII, poderíamos esperar encontrar uma produção e um número de engenhos bem menores do que os de períodos anteriores. Entretanto, se acompanharmos Antonil, nos deparamos com um qua dr o muito distinto. A Bahia, por exemplo, que teria talvez 130 engen hos

no Recôncavo em

1675, tinha 146 em 1710. O Rio de Janeiro, co m 60

FLUXOS

E REFLUXOS

MERCANTIS:

CENTROS,

PERIFERIAS

E D I VERSIDADE

l hes permitia escolher onde moeriam sua cana . No entanto, independen -

te mente de qual fosse

aç úcar daí resultante para o proprietário da moenda. Abaixo desses fazendeiros estavam os "lavradores de cana obrigada"

o u " lavradores

a escolha, eles eram obrigados a entregar 50 % do

de partido". Ao contrário dos primeiros, esses planta-

engenhos em 1629, tinha 136 oito décadas depois. Pernambuco passa ria

va m cana em terras dos engenhos, o que lhes tirava a possibilidade

de

de 119 engenhos em 1622 para 246

no início do XVIII . Na década de

açucareira já estaria instalada, os

esc olher onde desejavam moê-Ia (daí a expressão "cana obrigada")

e

1660, quando supostamente a crise

era

m em geral proprietários de poucos escravos. Além disso, na Bahia

senhores de engenho baianos pedem a l imitação

da construção de nov as

ess

es agricultores eram obrigados a entregar, além dos 50% do açúcar

moendas alegando não uma crise do setor, mas a concorrência cresce nte pelo fornecimento de cana e pela madeira, matéria-prima essencia l pa ra a produção do açúcar . Porém, somente duas décadas depois a Cor oa decide l imitar não a expansão dos engenhos, mas a distância en t re e les, visando reduzir a competição pe l os recursos naturais. ê?

Esse conjunto de dados, merecedores sem dúvida de novas pesqui s as que aprofundem nosso conhecimento das conjunturas do período, r e v e- la, no entanto, uma pujança que permi t e refutar de vez a ideia de uma decadência seiscentista. Parte dessa pujança pode ser exp l icada pela própria organização do setor açucareiro. Essa tinha por centro o engenho, para o qual conve rgia toda a estrutura produtiva. Isso porque era ne l e que a cana era t ra ns- formada no precioso açúcar . No entan t o, nem toda a cana uti li za da

pelos mesmos era cultivada pelo senhor do engenho. Parte dela vi nha de outros produtores, vinculados ou não ao engenho. Em um nível social e produtivo mais elevado situavam-se as fazen d a s de cana. Essas eram de grande importância, pois forneciam parte consi de - rável da cana-de-açúcar que era moída nos engenhos, diminuindo, assi m , os gastos dos proprietários com plantações e escravos e garantindo-Ihe s fornecimento constante de matéria-prima . Podiam possuir dimensões

consideráveis

engenho propriamente dito. "

e as maiores fazendas assemelhavam-se a engenhos sem o

E sses fazendeiros, por serem proprietário s das t er r as em que plan-

t ava m, era m indep e ndente s

em relação aos s enhore s d e e n ge nho , o que

388

p r oduzido, mais um terço ou um quarto da metade que lhes cabia; "

co mo pagamento pelo uso da terra. A existência de uma verdadeira renda

fundiária era possível porque já no início do século

c a navieira do recôncavo estava apropriada e a única

t e rra era a compra ou o arrendamento . P

XVII toda a área forma de acesso à

Esse quadro não pode ser, no entanto, generalizado para o restante

d a América portuguesa. No Rio

camente inexistiarn. " Em grande parte porque não era vantajosa a pro- pri e dade delas. Ao contrário do que ocorria na Bahia, os lavradores de

partido eram aí obrigados a entregar somente 50% do açúcar produzido ao senhor do engenho, sem que houvesse qualquer renda pelo uso da

terra. Em outras palavras, o elemento de subordinação dos lavradores de cana em relação ao senhor de engenho na capitania fluminense não era

o monopólio da

no fato de que a terra não gerava, por

proprietário. Ela era utilizada como mecanismo de atração para que esse con s eguisse lavradores que lhe fornecessem matéria-prima, repartindo,

ass im, os custos inerentes à produção de um engenho. Nessas condições, não havia qualquer ben e f í cio na produção de canas em terras próprias, já que o pagamento feito ao senhor de engenho seria rigorosamente

próprias moendas. Isso fica c laro si só, qualquer rendimento ao seu

de Janeiro, as fazendas de cana prati-

terra, mas sim o das

i g u a l ao daqu e l es que produziam

va ntag e m , pa r a o d o n o d e um p a rtido , de t e r a garantia de que sua cana

ser i a ben e ficia d a . Essa i n ex i s t ê ncia

uma m e n o r mon o p o l ização d a t e rra p or p a rte da e lite agrária fluminen s e.

dentro das terras do engenho. Com a

d e um a renda fundiá ria

liga v a- s e a

3 89

o BRASil

COLONIAL

- VOl .

2

FL UXOS

E REFLUXOS

MERCANTIS:

CENTROS,

PERIFERIAS

E DIVERSIDADE

.

Diferenças à parte, ambos os casos nos mostram que a hegemonia do

um e pisódio um pouco posterior ao período aqui estudado : trata-se da

engenho no setor açucareiro não só não impedia como até mesmo con tri-

de

t e rminação régia, conhecida como "lei da mandioca " , que, em 1703,

buía para a presença de outros grupos no seu interior . Visava-se, ass im,

ten tou obrigar os senhores de engenho e lavradores de cana a plantarem

reduzir custos e riscos de uma atividade marcada pela instabilidade. Por

500 covas de mandioca por escravo. 36 Na Bahia , a forte reação dos

outro lado, a separação parcial entre produção de cana e produção de

a

t i ngidos demonstrou o quanto o sistema açucareiro era dependente

açúcar possibilitava a participação de setores numerosos no comp lexo

do mercado interno, ou seja, da existência de um setor especializado

açucareiro. As consequências imensas desse fato ligavam-se não só às

na produção alimentar que desonerasse tais grupos de atividade tão

suas repercussões econômicas como também políticas, gerando um f orte

p

o uco rentável . 37

consenso social em torno de tudo que se relacionasse ao mesmo . Na

Tal especialização era possível porque havia na capitania diversas fre-

sociedade colonial, o açúcar não era, definitivamente, assunto res trito

g

u es ias especializadas na produção de alimentos, sendo possível apontar

apenas aos mais abonados.

a

existência de três "círculos" de produção de farinha de mandioca- " O

p

ri meiro constituía-se de freguesias próximas a Salvador (Nazaré das

Muito além d e açúca r e e sc ra v os : o m o s a ico ag r ícola

da América portu g u e sa

Se os dados demonstram a grande importância que o açúcar poss uía para a economia e a sociedade coloniais, isso não significa dizer q u e tal sociedade se resumia a açúcar e escravos ou, na expressão consag r a da de Caio Prado Júnior, ao trin ô mio "latifúndio, monocultura e escra vi- dão"." Por outro lado, rotular todas as atividades não açucareiras co mo "subsidiárias", como se dependessem umbilicalmente do "produto -rei" e por isso gravitassem em torno dele, também está longe de resolve r a questão. É evidente que o complexo açucareiro (entendido aqui como o con jun- to dos senhores de engenho e plantadores de cana) gerava uma enor me demanda por uma série de produtos, muitos importados (a começar pe lo escravo) e outros produzidos localmente (entre os quais os alimentos era m os mais importantes). No entanto, mais do que gerar uma demanda po r produção de alimentos, o setor açucareiro pressupunha uma economia interna pujante, capaz de atender às suas necessidades básicas e, com

i s so, permitir-lhe a especialização. Um exemplo c laro do que poderíamos denominar de uma autêntica interdependência pode s er encontrado em

390

Fa rinhas, Jaguaripe e Itaparica), com um raio de até 200km. O segundo

c í rculo era formado pelas "vilas de baixo", com as freguesias de Cairu, Boipeba, Camamu, Valença e Maraú, com um raio de até 400km. O último era constituído por Ilhéus e a vila do Una, já com um raio de

m a i s de SOOkm. Esse era um esquema variável ao longo do tempo e a

r e lativa especialização não significava a presença de uma monocultura:

Embora, e aí sem a menor dúvida, a mandioca

gênero dominante,

Assim, antes de 1750 o feijão e o milho aparecem

lado da farinha de mandioca,

c o mo uma grande riqueza local. 39

fosse em toda a região o

ocorria a produção significativa de outros gêneros .

enquanto

com frequência ao

após esta data

o arroz surge

Em Pernambuco, esse quadro aparentemente se repete, embora não

t e nh a mos para essa capitania um estudo tão minucioso quanto o de

Fr ancis c o Carlos Teixeira. Mesmo assim, é possível identificar pelo me-

n os dua s importantes áreas produtoras de mandioca entre o final do s

Seisce nt os e início do s éculo seguinte. A primeira, mais longínqua, cons-

t i tuíd a pela s fregue s ia s de Santo Antão , São Lourenço e Tracunhaem. A

seg u n da, inse r ida na principal região açucareira da capitania, englobava as freg ue si a s de Ipojuca , Serinhaem , Mur i beca e Cabo. "

391

o BRASIL

COLON I A L

- VO L.

2

Na capit a nia do Rio de Janeiro essa produção alimentí c ia mos tr a -se

ainda mai s importante . Nesse senti d o, é ilus t rativa a reação do

governador f l uminense, Álvaro da Silveira e Albuquerque, bem co mo

e ntão

FLUXOS

E REFLUXOS

MERCANTIS:

CENTROS,

PERIFERIAS

E DIVERSIDADE

.

g ê neros aliment í cios . " O cultivo de frutas c ítricas parece ter se difundido

bastan t e rapidamente , a ponto de dois v iajantes espanhóis as chamarem,

e m 1618, de "frutas da terra " . " Em 1649 , segundo Richard Flecknoe,

da Câmara, à "lei da mandioca"

c it a d a acima . Para ambos havia " uma

o

l i mão, "que cresce por toda parte" , era o fruto mais comum, junto

no t ória diferença que vão das t e r ras da B a h ia às do Rio de jane iro" ."

co

m a banana. O poeta ing l ês apenas suspeitava que laran j as e l imões,

Segundo e l es, na capitania f lumi ne n se

"a

bundantes e exc e lentes", fossem cultivos transp l an t ados para a Arn é-

) é certo q u e as ma n diocas d e qu e se s u s t e nt am, e as q u e lhes bast a m, e muitas vezes sobram, t o d as se p l a nt a m n o recô n cavo desta mesma c idade e pe l os r i os acima: Ag u aç u , lnho mi rim , Morobaí, Magé, Serna mb e ti- ba, G u apiaç u , Sur u í e Macac u , e m qu e se costu mam com u me nt e (sic)

(

l avrar mand i ocas, d e cu j as t erras são poss uid ores vários donos, e nelas

não há engen h os q u e pre jud i q ue m a s s u as p l a nt as e d e l as t raze m a esta

cidade far i nha em t a nt a q u a ntidad e e a bund â n cia q u e sust e nt a o povo largamen t e e de fáci l provi m e nt o as fro t as sem d emora, nem de t r i me nto, por serem di l a t a d as as t erras d esses r i os acima ci t ados ."

Devemos r e l ativizar a image m um tant o rósea d a pro du ção de m a ndioca,

vinda de uma câmara co nt ro l a d a por se nh ores

dos. No entanto, a inexis t ê n cia d e cr i s e s d e a b ast ecimen t o seve r as, que

d e e n gen h o e seu s alia-

sig n if i cassem a exis t ência d e f o m es r e lativam e nt e endêmicas, est á c om-

provada para o Seiscen t os f lu mi n e n s e. Na s e g und a me t ade d a ce ntúria

a capi t ania atravessou some nt e dua s c r is e s a lim entares, sen d o a p e nas

uma delas, já em 1697, referen t e à carência d e pro d u t os. " A l ém di s so,

o fat o de que os rios ci t a d os ac im a d esag u assem na baía de Guana b a ra

tornava o transporte para a ci d a d e bem m enos c u s t oso do que na B a hia,

aspecto essencial ta nt o para a re du ção d os c u s t os quanto para a seg u-

rança do abastecimen t o .

Também aqui, em q u e pese a im p or t ância da mandioca na die t a a li-

mentar colonial, estamos dian t e d e um sis t ema agrário diversificado, co m

uma produção igualmen t e farta de arroz e milho, além de uma abundâ n -

cia , tanto em quantidade

em 158 3 F e rn ã o Cardim r e feria-se à disponibilidad e e ao b a i x o custo do s

quanto em qualidade, d e legume s e frutas. " J á

392

rica . " Essa difusão da citricultura estava fortemente re l acionada com o

a bastec i mento dos navios que demandavam o porto carioca, tendo em

vis ta a s u a import ância no combate ao escorbuto. É signi f icativo, nesse

sentido, que a única mercadoria entregue à indeseja d a frota de Olivier

Va n Noor t , q u e aí apartou

em 1599 , tenha sido cerca de 50 l aranjas ."

Essa produção diversificada era garantida, por sua vez, não só pelas

proprie d a d es rurais do recôncavo da Guanabara, mas t amb ém pe l as

ch á caras q u e existiam no entorno imediato da cidade e q u e se voltavam

para o a b astecimento dessa . As chácaras produziam man d ioca, frutas e

l eg umes e se beneficiavam da proximidade do mercado

urbano. "

Por co nt a dessa abundância, sempre sub l inhada pe l os viajan t es que

estiveram na capitania ao longo dos Seiscentos, e l a viu-se por vezes

obrigada a abastecer outras regiões, como a própria Bahia, no contex-

to das g u erras contra os ho l andeses. É assim, por exempl o, em 1639,

quando o R io, junto com São Pau l o e Espírito Santo, enviou aliment os e

homens para o Nordeste . O mesmo ocorreu quando, em 16 4 8, d ura nt e

os preparos d a expedição de reconquista de Luanda,

ao sul da Bahia. " A par t ir

Sá foi instado a enviar gêneros alimentícios

d

S

Sa l va d or Correia de

e 1680 a capitania acramento. 51

vê-se obrigada a prover de alimentos a Co l ônia de

Por fim, parte da produção de farinha de mandioca era des t inada,

a primeira metade do século XVII, ao tráfico de escravos, fato ao

n

qual a historiografia tem dado pouca atenção. R e ferindo - se à sit uação

d a capitania em 1612 , frei Vicente do S a lvador afirma que "até aqui

s e t e m prestado

p a ra A ng o la " ; "

est eve em 1618 , info rma q u e " n a reg i ão qu e va i do Rio de Janeiro até

batav o Dierick Ruiter s , que aí

mai s a t e nç ão à ex portação

T a mb é m o m a rinh e iro

da farinha [de mandioca]

393

o BRASil

COLON I AL

- VOl .

2

São Paulo ( ) a mandioca

Rio de Janeiro buscá-Ia para trocar p or negros em Angola". " Em 1620, a Câmara de t erminou que aqueles que pretendessem levar a pre ciosa

farinha

comprome t e nd o-se a trazer esc r avos para o Rio . Buscava-se ev itar, assim, q u e eles fossem vendi d os n o Nordeste, onde al c ançava m maior preço. 5 4 Tais fa t os apon t am para a exis t ência de um circuito me rcantil

já co n so l i dad o, no q ua l a p ro du ção

Muitos navios vêm ao po rto do

é abundan t e.

para t rocar por escravos e m Angola deveriam deixar f iança,

d e a l i m entos tornara - se res ponsável,

em par t e, p e l a pró p ria re p ro du çã o

do s i s t ema escravist a .

E m São P a ul o, o sis t ema agrári o, por s u a vez, a d quiriu feições bastante

pec u lia r es. B asea d a i n icia l me nt e na m a n dioca e no milho, a p rodução

d o p l analt o d e P ira t ininga d es l oca - s e a par t ir de 1620 para o tr i go. " O

dese n vo l vi m en t o d esse c ulti vo é c o nsequ ê n c i a do pro j e t o de D . Francisco

de Sousa, q ue , co nfi an t e na d es c o bert a

pre t en d ia arti c ul a r mineração,

agr i c ultur a

d e riq u ezas m in era i s na região, e manufat u ra, sust e ntadas por

"uma só lid a b ase d e tra b a lh a d or e s

i nd í ge n as". " Se fa lh o u na busca

p o r me t a i s p rec i osos,

q u e co n cer n e ao a p resament o d e í ndi os e ao desenvolvime nt o de uma

agricu ltur a comercial . Essa p ro du ção tr i t ícola abast ec i a princ ipalmente

o p ro j e t o p o de ser co n si d era d o bem-s ucedido no

FLUXOS

E REFLUXOS

MERCANTIS:

CENTROS ,

PERIFERIAS

E DIVERSIDADE

q

descobertas regiões auríferas eram as mesmas que compunham a e lite loca l desde os Quinhentos.

u e , a partir da década de 1690, chefiaram

a colonização

das rec é m -

A produção de alimentos apresentava - se, portanto , não como mero

apê ndice da produção açucareira, mas, pelo contrário, dotada de consi- deráve l autonomia em relação a ela. Isso não significa dizer que o setor

aç ucareiro não fosse um impo r tante consumidor de alimentos, mas

s im que ele não gerava essa produção. P e l o contrário, a pressupunha.

Er a exa t ame n te a capacidade dos se t ores não açuca r eiros de abastecer

moendas e lavradores de cana com o "pão da terra" q u e permitia a esses

a especialização. Além disso, o setor alimentício atendia ao conjunto de uma sociedade colonial que ia muito além do engen h o. Populações ur-

banas, trip u lações de navios, a p r ópria popu l ação rura l (já que produzir

a limentos não significa prod u zir todos os alimentos), esc r avos recém-

d esembarcados e mesmo pop ul ações de outro continente (como no caso

d a exportação de farinha de mandioca para Angola) eram abastecidos por essa produção.

Por fim, embora os grupos d edicados a essa atividade fossem geral-

m e nte dos estratos sociais mais baixos, eles estavam l onge de se cons t ituir

o

R io d e J aneiro, embora h o u vesse cont a t os comerciais t a mb é m com

e

m um mar de camponeses indolentes, na visão tão cara a Caio Prado

B

a h ia, P ern ambuco e a t é mes m o Ang o l a.

Júnior . A diversidade qua n to à p osição social era consideráve l e dependia

A so c i ed a d e q u e se formou no pl a nalto

d e P irat i ninga em conse qu ê n c ia

d

e fatores variados, tanto conjun t urais (a qualidade das co l heitas e o

da tri t ic ultu ra mos t rou-se prof u n dam e nt e d esig u a l . A posse de escra vos

v el dos preços, por exemplo) q u anto estruturais (produ t o cult ivado,

indíge n as,

e mb ora b as t an t e

d i fundid a, concentrava-se em p o u cas mãos.

di

s tância em relação ao mercado consumidor etc . ). Se a elite agrária

Da mes m a f orma, a proprie d a d e d e m o i n h os h ierarquizava os p ro dutores

de trigo. R epe t ia-se aqui, em esca l a b em mais modesta, o q u e aco ntecia

na pro du ção aç u careira. Ta l co n ce n tração tinha, ainda, um cará t er c la-

ramente familiar . Dos 10% de mora d ores mais ricos, metade per t e n c ia

às fam í lias B u eno e Camargo . A part ir da década de 1670, a diminuição

indígena e o esgotamento do solo nas áreas de ocupação mais an tiga provocaram a decadência da produção de trigo. Tal d e cadência, no e n- tanto, não teve maiores ref l exos na estrutura s o c ial p a ulista. As famí l ia s

da oferta de mão de o bra

394

identificava - se com a proprie d ade de engenhos, a não propriedade dos me s mos não mergulhava ninguém numa pobreza irremediável.

Além disso , é preciso lembrar que o caráter policultor predominante

n as unidades não a çucareiras fazia com que frequentemente essa pro-

du ç ão fo sse combinada com a de artigo s não alimentícios. Dentre esses ,

o caso m a i s b e m c o nh e cido é o do tab a co . H á notícias de sua pr e s e nça

e m di ve r sas c a pita ni as, como Par á , Ma ra nh ã o ,

J a n ei ro , 57 mas a B a hi a f o i sem dú v ida o ce ntro de s ua produção n o Br asil

co l o nial . N ão se sa b e exa tamente qu a nd o s u a pr o duçã o começou, m as n o

e Rio d e

Pernambuco

395

o BRASIL

COLONIAL

- VOL.

2

início do século XVIII Antonil retrocedia tal início a aproximada mente cem anos antes. " Os dados dão alguma razão ao jesuíta. Em 16 29, o tabaco já era in c luído entre os itens de exportação da capitania baiana

e sua importância tendeu a crescer a partir daí, transformando - se num

item impor t a nt e de expor t ação para o reino já em meados da ce ntúria. Em 1657, o governa d or - geral, conde de Atouguia, exprimia à Câ mara de Cair u sua preocu p a ç ão com a ex p a n são d o se u cu ltivo e or denava a

s u a erra d icação no t er m o d a v il a. Tal or d em seria repe t ida a partir daí

por se u s s u cessores, sem qu a l q u er s uc esso visíve l . Na déca d a de 1680,

FLUXOS

E REFLUXOS

MERCANTIS:

CENTROS,

PER I FER I AS

E DIV E RS I DADE

O cultivo do tabaco tinha algumas características que o tornavam

a traente não só para os grandes produtores, mas também para os peque-

no s . 62 O caráter ar t esanal de sua produção, que começava com o cuidado

ne cessário com cada planta em separado, retirava qualquer vantagem de

es cala das grandes unidades produtoras. Além disso, como a planta do

t

co ndições duas co lh eitas em um mesmo ano. Os cus t os das benfeitorias também eram muito menores d o que os de uma unidade açucareira

a baco demorava somente seis meses para madurar, permitia em boas

(e m média, uma propriedade t abaqueira cus t ava 5% do va l or de um

a

export ação para P or tu ga l j á e r a de a p roxima d a m e n te 160 mil a r robas

e

ngenho), o que os t ornava mais acessíveis. O principal custo de mão

p

or ano."

de obra era com escravos especializados no beneficiamen t o do produ t o

Mas o t a b aco não se d esti nava so m e nt e à Europa. Mui t o rap idamente

(

" e nro l adores" e "pisadores"), que podiam, no entanto, ser alugados .

se u cons um o d isse m i na- se e seu co m é r cio se t o r na g l oba l . No s dizeres

d

e An t oni l ,

Se o açúcar d o B r asil o tem d a d o a con h ecer a to d os os rein os e provín- cias d a Europa, o tab aco o tem f e it o muito m a i s afa m ado e m todas as

qua t ro partes do mund o,

diligências e por q u a l quer v i a se p roc u ra. ê?

nas q u a i s

h oje tant o se deseja, e co m tantas

O tabaco, p ortan t o, não circu l ava e m um único eixo merca ntil . P e lo con t rário, era o que po d e m os denom in ar d e uma m ercadoria-cha v e , cuja

circu l ação n o in t erior d e t odo o I mp é ri o p o rt uguês c on t rib u ía para f e char certas transações. A pa rt ir do ú lt imo qu artel d os Seisce nt os o e n c ontra- mos, p o r exem pl o, nos c ar r ega m e nto s d as emb a r cações da Ca rr e ira da índia que, na ida para o O rien t e, paravam em Sa l vador . 6 1 Sua utiliz aç ão permitia a redução d o envio de pra t a p ara a Ásia e con t ribuía par a que no torna-viagem chegassem à Amé r ica, a Portugal e mesmo à Áfr ica produtos d o Es t ado da Índia, no t adame nt e têx t eis. O tabaco era t a m- bém enviado diretamen t e para a África, onde era trocado por escrav os- Embora considerado de pior qua l idade do que o enviado para a E ur o pa,

o

tabaco destinado ao tráfico era muito apreciado p e los africanos, po is

o

fato de ser banhado em melado dava um sabor adocicado ao prod uto .

396

C onsequentemen t e, o setor tabaq u eiro vai se caracterizar p or um espec-

tro amp l o de prod u tores, q u e variavam de camponeses sem escravos a

fazendeiros com d ezenas de ca ti vos . Embora não tenhamos dados para os Seiscentos, no início do século XVIII havia aprox i madamen t e d ois mil plan t adores de tabaco no recôn - cavo, incl uindo desde grandes produtores com colheitas de até quatro mil arrobas a indivíduos cuja produção não a t ingia 100 arrobas. Como

a expor t ação era então de 200 mil a 300 mil arrobas, a média era de

100 a 150 por plan t ador, o q u e demonstra que os pequenos produtores constituíam a ime n sa maioria no setor. Hierarquicamen t e, o setor t abaqueiro constituía-se de três grupos distintos. No seu níve l mais alto, estavam os grandes plan t adores, for-

mados pelos primeiros povoa d ores da região de Cachoeira (principal

área ta baque ira da Bahia) e que, além de dominar a política local, com

o controle da Câmara e das ordenanças, man t inham laços es t reitos com o

s etor açucareiro, do qual eram em grande medida originários. As famílias Peixoto Viegas, Adorno e Barbosa Leal, entre outras, eram exemplos desses laços que inseriam a elite local na elite baiana em geral . Nesse

g

rupo era frequente que a propriedade combinasse produção de tabaco

e

pecuária, já que o estrume animal era essencial para uma produção

d

e melhor qualidade.

397

o BRASIL

COLONIAL

- VOL .

2

o segundo grupo era constituído por lavradores de tabaco, proprie tá- rios ou não das terras onde trabalhavam. Tratava-se de um grupo de o ri- gem variada, formada por imigrantes portugueses, produtores de alime ntos convertidos total ou parcialmente ao cultivo do tabaco e também por comerciantes de Salvador, que viam nesse investimento a possibilidade não só de diversificar investimentos como de produzir um artigo de grande importância, como vimos, em diversas rotas comerciais. Ao contrário do açúcar, cujo elevado nível de investimento só o tor nava acessível à elite mercanti l , no caso do tabaco o investimento era possível para comerciantes dos mais diversos portes . Os indivíduos que aparecem na documentação ora como "co l o nos" ora como "lavradores de roça" constit u íam a base do setor. Eram liv res ou libertos sem acesso formal à ter r a, já que não eram proprie t á rios nem arrendatários. Ocupavam, assim, terras de terceiros, gera lme nte grandes proprietários, que em troca cobravam uma renda nomina l ou a entrega de parte da produção. Es t avam ligados sobre t udo à pro dução de alimentos e o tabaco surgia como uma alternativa de diversifi ca ção mais lucrativa. Se a produção fumageira se mostrava acessível a um número m a ior de pessoas do que a açucareira, nem por isso era menos marcada pe las hierarquias sociais. Pelo contrário, essa maior acessibilidade con t r ibuía para uma discrepância ainda mais acentuada entre os seus produ to r es. Por outro lado, é inegável que o tabaco constituiu-se numa importa nte al t ernativa econômica para o conjunto da sociedade baiana na segu nda metade dos Seiscentos, o que explica a sua rápida expansão . Em um momento de queda dos preços internacionais do açúcar, a existênc ia de um cultivo rentável e com um mercado consumidor em expans ão atendia aos interesses tanto da e lite açucareira e dos grandes come r- ciantes sediados em Salvador quanto de recém-libertos em busca de sua sobreviv ê ncia. F '

398

FLUXOS

A pecuária

E REFLUXOS

MERCAN T IS:

CENTROS,

PERIFERIAS

E DIVERSIDADE

A

i mportação e a criação de animais na América portuguesa confundem-

se

c om a própria colonização, sem que seja poss ív el estabelecer um iní c io

p r e ciso. Tanto Gabriel Soares de Sousa, em 1587 , quanto Ambrósio

Bra ndão, no início do século XVII, apontam a existência de uma pecuá-

ria já bastante diversificada, com a presença de bovinos, ovinos, equinos

e

muares, além de aves domesticadas. v ' Nessa grande variedade de animais, o gado mais importante era

o

bovino, por sua utilização como força motriz e meio de transporte.

S

u a importância era tão grande que, quando nos r e ferimos às grandes

reg iões pecuaristas da América seiscentista, referimo-nos basicamente à

cri a ção desses animais. No início da colonização, os currais instalaram- se e m torno das cidades mais importantes, como Salvador e Olinda, vis ando atender tanto aos engenhos situados na mesma região quanto

à

população urbana. A conquista de Sergipe, em 1590, levou o gado a té

o

r io São Francisco, onde essa frente de expansão encontrou - se com a

pernambucana. O rio tornou-se, assim, nos Seiscentos, um eixo ao longo

d o qual se desenvolveu a atividade pecuária, havendo nessa região em

torno de dois mil currais por volta de 1640. Essa expansão estendeu-se

por toda a centúria e só se completou com a conquista do Piauí, já na primeira década do século XVIII. As consequências desse crescimento constante foram significativas. Em primeiro lugar, houve uma diminuição constante do preço do gado no período, em torno de 50 % . Em segundo lugar, na segunda metade do

XVII a América portuguesa transforma-se

e m e xportadora . No início dos Setecentos, a exportação gira v a em torno

de 110 mil p e les por ano. 6 5 Tamanha oferta permitia que o s engenhos de

aç úca r in v e s tiss e m pouco em gado, que raramente ultrapa s sava 10 % do

va l o r total dele s . "

de importadora de animais

E m torno de ss a atividade, constituíram-se algumas da s maiores pro-

p r i e dad es d o p e ríodo colonial , c omo a de Ant ô nio Guede s, com mai s de

1 . 90 0 . 00 0 h ec t ares, ou as do c l ã Vi e ira Rava s c o, co m mais de 2. 3 00 . 000

3

99

o BRASil

COLON I AL

- VOl .

2

hectares. "? Em grande parte, essas propriedades não eram exp l o radas

diretamente, mas arrendadas como "ranchos"

cons t i t uía em impor t a nt e fonte de re nd a para os seus proprietár i o s . Na porção meridio n al da América po rt uguesa verifica - se també m uma

importante expansão d a pecuária. No Ri o de J aneiro, t e m os a oc upação

do a tu al Nort e F lu minense. t" então par t e da abandona d a

São Tomé, pe l os c h a m a d os "se t e ca p i t ães", expansão essa q u e se fa z sob

o s ign o da pec u á ri a . T a mb ém a qu i a a pr opriação prévi a d a t erra pelos

seus d es b rava d ores g e ra u m q u a d ro d e m onopó li o f u n di ár i o, o b r ig a ndo

os p ovoa d ores q u e

a rrend amen t o.

N o q u e era e nt ão o ex t re m o s ul d a A m ér i ca por tu guesa f u n d a m-se na

seg und a me t a d e d o séc ul o as

pa r a a criação d e g ado. A expansão pe cu á ria d ese n vo l ve u- s e s e g und o um c l a r o p a dr ã o. Bus-

à c r iação ex ten siva, o u seja,

cou á r eas cu j a geo grafi a fosse a d e quada

de

para t erce i ros,

o q ue se

capi t a nia de

v ie ra m em seg uid a a se s ub me t er a o paga m e nto

vi l as d e Sã o F rancisco e Lag u na, v oltadas

razoavelmente p l a na s e c o m um a veg et a ç ão po u co d ensa, constituindo-se

e m p astos na tu rais p ara nu merosos reb a nh os. I nsere m- se nesse padrão

t

a nt o a caatinga do N or d es t e q u a nt o os cam p os das ca p i t a ni as

d e baixo

("Campos Gerais" e "Campos dos Go it acazes"). A di s t â n cia e ntr e essas

á rea s e os cen t ros c on s u m id ores

ga d o podia cobri- I a p or si mesmo .

P or outro lado, a exis t ência d essas áreas esp ec i a li zadas n ão sig n i ficava

n ão ch egava a ser pro bl ema,

j á que o

a in existência da c ria ção d e a n imais e m áreas com vocação ni t i d a mente

ag rí co l a. Sobre tud o n o e nt o r no d os nú c l eos u rbanos sem p re ex i s tiram

p ro p riedades

eram proprie d ades m istas, que co mbin avam a produção de al i me ntos

com a pecuária. Mais ainda, a criação de an i mais de pequeno e mé dio

por t e (porcos, cabras, ovelhas, ga linh as e t c.) era bastante dissemina da,

inclusive no interior das urbes . O século XVII caracterizou-se, assim, por uma expansão agrá ria consideráv e l , marcada tanto por uma maior vinculação com o merca do extern o quanto pelo crescimento das relaçõe s e ntre diferent es r e giões e

vo lt a d as para o a b a st e c ime nt o

l ocal . N ão por a caso

400

FLUXOS

E REFLUXOS

MERCANT I S :

CENTROS,

PERIFERIAS

E DIVERSIDADE

set o res econ ô micos internos à América portuguesa. A existência de um pu j a nte mercado interno gerava uma fort e autonomia local em relação

à s co njunturas

opos ta à do reino de Portugal no mesmo per í odo, como vimos acima .

No en t anto, tais articu l ações explicam apenas em parte essa autonomia.

R esta conhecer os mecanismos internos que permitiam a reiteração da

est r utura social colonia l .

externas, o que nos permite falar de uma conjuntura

A tro pical i zação do Antigo Regime : mecani smos de reprodução e

ampli a ç ão da econom i a co l oni al

o primeiro desses meca n ismos era, eviden t eme n te, o comércio. Nascida

co mo parte de um vas t o I mpério u l tramarino, cujas dist an t es regiões

c o n e ctavam-se principa lmen t e pela atividade

n ess a empreit ada foi u m d estino da América portuguesa desde os seus

não se deu somen t e com a

produção de artigos expor t áveis, a serem vendidos por u m setor mer-

c a ntil situado fora das co l ônias. Ao contrário do q u e afir m a Novais, o exc lusivo colonial não foi u ma reserva de mercado para a "burguesia

primórdios. Tal par t icip ação,

merca n til, a participação

no entanto,

c o m e rcia l metropolitana'V " O exclusivo benef i ciou sem d úvida os co-

merciantes imperiais, não somente os sit ua d os no reino, mas também os que estavam nas conquist as de Sua Majestade.

Nosso já conhecido B randônio,

ao l ist ar as seis principais

rique-

lugar, l ogo a t rás da

produção de açúcar . Já no início dos Seiscentos ele dist inguia entre os

z a s do Bras i l, colocava a mercancia

em segundo

m

e rcadores "de ida por vinda" , que faziam o comércio entre Portugal

e

a A m é rica , e os

a ss i s t e nt es n a t er ra com l o j a a b e rt a, colmada s de mer ca doria s de muit o

pr eço, co m o são t o da s ort e d e l o u ç a ria, s eda s r iqu Íss imas, pano s fin Ís - s im os, b roca d os mara v ilh osos, qu e tud o se gas t a em g rande có pi a n a t e r ra, co m d e i xa r g rand e pr ove it o aos m erca d ores qu e os ve nd e m .

40 1

o BRASil

COLONIAL

- VOl.

2

Em que pese o exagero

existência de um setor mercantil já constituído na colônia, responsáve l ,

portanto, por reter parte dos ganhos obtidos sobre o conjunto da po -

pulação colonial . Mais ainda, parte desse grupo mercantil seiscentis ta

investia na atividade agrária os seus rendimentos: "(

lojas abertas, há muitos que têm grossas fazendas de engenho e lavo ur a na própria terra, e estão nela assistentes e alguns casados". " Descriçã o sucinta e precisa da transformação de mercadores em membros da e lite

barroco de nosso personagem,

fica c lara a

) dos que têm s u a s

agrária, processo esse já bem conhecido da produção historiográf ica mais recente.

Na Bahia, parcela considerável da elite açucareira tinha sua orige m

no comércio. Em uma amostra de 80 senhores de engenho

do fina l do

F

LUXOS

E REFLUXOS

MERCANTIS:

CENTROS,

PERIFERIAS

E DIVERSIDADE

Joana de Sá Peixoto, filha do senhor de engenho Cosme de Sá Peixoto ,

en t ã o um dos homens mais eminentes da capitania. Cosme era tamb é m

e le um portugu ê s

q u e cera no com é rcio,

que, chegado à Bahia no início dos Seiscentos, enri-

casara - se com uma baiana e desde a década d e

16 20 era dono de um engenho.

A repetição ao longo das gerações mostra um padrão claro, tanto

por parte dos reinóis (buscando inserir-se socialmente através do ma-

tri mônio) quanto da e lite baiana, aberta à renovação através da incor-

po ração constante dos adventícios bem-sucedidos. Não por acaso, no

caso de Viegas vemos que o matrimônio

i

coincide com o início de seus

n v estimentos rurais. No entanto, em vez de tornar-se senhor de engenho

Vie gas optou por adquirir (através de compras e sesmarias) imensos tratos

século XVII, 46 (57,5%) eram portugueses ou filhos de portug u eses.

d

e terra no sertão da Bahia, Paraíba e do Rio Grande do Norte para

Dentre esses, a atividade principal antes da aquisição de engenhos er a o

cr

i a ção de gado, dando origem, assim, a um dos maiores latifúndios do

comércio. Entre os 24 portugueses donos de moendas, nada menos do

p

er íodo colonial, como visto acima. Além disso, dedicou-se também à

que 13 tinham atuação pregressa na lida mercantil . Além de apontar para

p

ro dução de tabaco.

uma renovação considerável dessa el i te, esses números mostram o sig ni-

A

trajetória de Viegas ilustra à perfeição como a atividade mercantil

ficado do comércio como via de ascensão ao topo da hierarquia co l o nial .

n

a colônia revestia-se de grande significado não só para reprodução da

Uma trajetória que ilustra bem essa estratégia é a de João Peixo to

sociedade em seu conjunto, mas também muito particularmente

de sua

Viegas, um dos maiores comerciantes baianos seiscentistas e, ao mes mo

e

lit e social . Mais ainda, mostra que não havia uma distinção clara dentro

tempo, patriarca de uma família que se destacaria no interior da e lite

d

ess a elite entre um setor mercantil e outro agrário.

baiana. " Chegado a Salvador em 1640, Viegas aparece já em 1641 co mo

E

s sa indistinção é ainda mais c lara na capitania fluminense, onde

negociante, ascendendo rapidamente a partir daí . Em 1648, ele já a pa-

a

própria utilização do termo "homem de negócio" (marca distintiva

recia como um dos homens mais ricos de Salvador e também

nesse a no

d

a elite mercantil)

só se generaliza na última década da centú ria. "

As

recebeu o título de familiar do Santo Ofício. Na mesma época, conseg uiu

bio g rafias de alguns mercadores de destaque desse período mostram a

entrar para a Irmandade da Santa Casa da Misericórdia (condição sine

tr

a nsformação de todos, sem exceção, em membros da elite agrária local,

qua non para quem tivesse pretensôes de ascensão na sociedade baia na

a

tr avé s da aquisição de engenhos e/ou via casamento s.

de então) e em 1654 foi eleito tesoureiro .

E

x emplar ne ss e sentido é a trajetória de José Gomes Silva. Chegado

A carreira de Viegas combinou a atividade mercantil, a participação

ao Rio de J a n e iro no final da década de 1660, já em uma escritura

de

em instituições de prestígio, como as citadas acima , e a ocupação de

e

mpr éstimo d e 16 7 4 e le aparece como " mercador " . " Por volta de 1692 ,

cargos públicos típicos de comerciantes, como o de tesoureiro dos novos

era dono de um a lo j a ." Além di ss o , entre 1688 e 1698 aparece e m di -

direitos do açúcar e da Bula da Cruzada. Para consolidar sua ascensão

versos contrat os d e a rrendam e nt o co mo contrat a d or do s dízimos re a i s . "

e garantir a entrada definiti v a na elite baiana , c a sou-se em 1650 com

P

ara l e lam e nt e a essa a tiv idad e m e r ca ntil , qu e j ama i s abandonou , Silva

402

403

o BRASIL

COLONIAL

- VOL .

2

buscou também a inserção na e lite açucareira. Para isso, em seus dois

casamentos uniu-se a mulheres pertencentes a famílias de senhores d e

engenho. " Além disso, adquiriu por compra pelo menos dois engenhos de aç ú car . "

F

LUXOS

E REFLUXOS

MERCANTIS :

CENTROS,

PERIFERIAS

E DIVERSIDADE

f ran ca expansão, com o início da produção açuc a reira nas Antilhas . No

e nta nto, a economia açucareira não s ó se mantém de pé como consegue

expa ndir-se no período . Dizer que iss o aconteceu porque o engenho era

ma i s do que um bem econômico nos permite entender o porqu ê. Resta-

João Rodrigues

Calaça e José de Souza Barros desenvolverão tra je -

nos, porém, entender como essa economia colonial conseguiu forjar uma

tórias semelhantes

à de José Gomes. No caso de Calaça, vemo-lo e n-

t

al a utonomia frente às conjunturas externas. Evidentemente, teremos

volvido com o comércio

dos Seiscentos, mas ao ser preso pela Inquisição, em 1712, já hav i a se

transformado em senhor de engenho. " Souza Barros, por sua vez, foi

o principal credor particular da praça na virada do século XVII p ar a o

seguinte. " Ao falecer, no início dos Setecentos, era dono, entre o utras

propriedades, de um engenho de açúcar em Iriri.ê?

Os exemplos citados confirmam a indistinção que apontamos an-

com Pernambuco e Angola na segunda me t a de

teriormente entre elite agrária e mercantil, mas, sobretudo, sub l i nham

o fato de que o cume da hierarquia social colonial no século XV II, ao

menos em termos de prestígio, era a elite agrária. Por isso, aque l es que

conseguiam acumular recursos nas a t ividades mercantis buscava m as

mais diversas formas de fazer parte dela. O resultado desse pro cesso

era a contínua

o agronegócio,

transferência de recursos acumulados no comércio para

contribuindo, assim, para a contínua revitalização d e ste.

Mas a mercancia nem de longe esgotava os mecanismos de rep r o du-

ção colonial . Ao falarmos dos engenhos de açúcar chamamos a t e nção

para o fato de que estavam longe de ser somente objetos econô micos

ou, se preferirmos, instrumentos de produção. De fato, nessa socie dade,

como em todas as pré-capitalistas, é puro anacronismo tentar ana li s ar a

economia de forma estanque, apartada do conjunto da realidade social .

Isso porque, como nos mostra Polanyi, a economia encontra-se inserida

no conjunto das relações sociais. Por isso, não nos é possível enten d ê -Ia

a não ser a partir dessa inserção. " Se voltarmos ao exemplo dos engenhos, veremos

ta estritamente econômico, mant ê -los podia ser um ato verdadeirame nte

que, do ponto de v is-

de i r muito além da própria economia para responder a essa questão.

T ere mos de nos voltar ao que podemos denominar,

séc ulo XXI, de "produção política da economia".

Mas afinal, como essa sociedade gerava seus recursos? Se vamos à

origem da colonização, a resposta é: guerra. Foi através das guerras

aos í ndios e secundariamente a outros europeus (sobretudo franceses)

qu e o s primeiros colonos tiveram acesso a dois fatores fundamentais de

pr o dução: terra e mão de obra. Expulsar franceses e conquistar índios

significava liberar territórios à ocupação colonial e, ao mesmo tempo,

produzir cativos em enorme quantidade. O "gasto de gentes", nas pala-

vra s de Anchieta , ou seja, a imensa mortalidade indígena, não esconde

em termos de produção

o qu e isso representou

soci e dade em construção. Gastavam-se gentes e terras e o que possibili-

tav a esse "desperdíc io" era a abundância inicial de ambos.

A r epartição desse autêntico "butim" não era, no entanto, nada

de riquezas para essa

com um olhar do

igualitária. Repetia o padrão observado desde a reconquista. " a cada

um c o nforme a

ou a dquirida na colônia. Assim, se alguns recebiam enormes tratos de

terr as como sesmarias, outros tinham acesso somente ao necessário para

remediar s ua pobreza. 8 3 Garantia-se, dessa forma, a reprodução de uma

hier a rquia de Antigo Regime . Um Antigo Regime tropicalizado, natu-

ralm e nte, já qu e t e ndo por base so c ial a escra v idão. No século XVII, as

lut as Co ntra o s í ndios continuam , apesar do peso cr e scente da escravidão

afri ca n a, e s ã o exe mplos disso a "g uerra dos b á rb a ros" no Nordeste , a s

band ei r as paulis t as

sua ' qualidade, fosse essa qualidade trazida do reino

e a s luta s contra os guarulhos no norte fluminens e.

insano em meados do século XVII, tendo e m conta a baixa

do pr eço

A

g uer r a es t ava t a mbém n a o rige m do sis tem a d e or denança s c riad o

do a ç ú car e as dificuldades

d e um mercad o e m qu e a oferta

estava eJll

(ou r ecr iad o) n a co l ô nia tend o e m v i s ta a d e fe sa d a soc i e dade colo ni a l .

404

405

o BRASIL

COLONIAL

- VOl .

2

Tal sistema traduzia a incapacidade da Coroa de defender suas vastas possessões ultramarinas e a opção por aliar-se com as elites locais pa ra garanti - Ias. Para tais elites a participação nas ordenanças represen t a va

um duplo benefício. Por um

transformava em importantes credores da monarquia. Por outro, gara ntia

que o acesso aos bens advindos da guerra seria mediatizado pelo pos to

que

tempo da hierarquia social . 84 A guerra permite, portanto, uma primeira acumulação de riq u e zas,

lado, o serviço ao rei em suas conquistas as

cada um ocupava nas tropas, garantindo, assim, a reprodução no

riquezas essas produzidas externamente à sociedade colonial: pela n atu-

reza (no caso das terras) ou por outras sociedades (no caso da escrav idão

indígena). No entanto, esse primeiro motor colonial só é suficien t e para

colocar a engrenagem social em funcionamento. Para garantir s u a rei-

F

LUXOS

E REFLUXOS

MERCANTIS:

CENTROS,

PERIFERIAS

E DIVERSIDADE

.

pação com o abastecimento urbano podia também levar à realização de

con t ra tos para produtos espe c íficos. O mais conhecido

ca r ne" , que garantia a quem o arrematasse o monopólio

d e ca rne verde ( fresca) no perímetro urbano por um certo período.

A Câmara era respons á vel também pela organização espacial da

é o "contrato

da

do fornecimento

a ocupação do solo urbano.

Mai s ainda, era proprietária de boa parte das m e lhores áreas urbanas.

c ida d e, o que lhe permitia regulamentar

D aí derivava o poder de decidir quem ocuparia o espaço público e como

se d a ria tal ocupação. Permitia-lhe também criar novos monopólios. É

graça s a esse poder, por exemplo, que a Câmara

Corr eia de Sá e Benevides, em 1635, o privilégio de ser proprietário do

ún ico trapiche então existente na cidade. "

carioca dá a Salvador

Nã o menos importantes eram os impostos arrecadados pela munici-

teração no tempo seriam necessários outros instrumentos.

p

a lidade. Cabe lembrar a difícil conjuntura da monarquia lusitana após

Em primeiro lugar, era preciso não só controlar a guerra, mas g over-

a

R estauração, que significou na prática a transferência de boa parte do

nar na paz. O controle dos cargos da

república foi, por isso, de g rande

c

o nt r ole sobre a defesa da colônia para as e lites locais e, consequente-

importância

para a definição

do grupo que iria se constit u ir

n a elite

ment e , também da capacidade de arrecadação para fazer frente a essas

colonial . Tais cargos eram de grande importância para o gover n o dos

d

esp esas. Como tal arrecadação era feita não diretamente, mas através

povos, não só do ponto de vista da população local, mas també m da

d

a a rrematação dos contratos por terceiros, o controle sobre eles sig-

própria monarquia, cuja primeira função era zelar pelo bem co mum.

ni

f i ca va um importante poder político para os edis e uma significativa

Por isso, ocupá-los era prestar

desses cargos permitia concentrar a riqueza produzida pelo conj unto da

sociedade nas mãos de um grupo restrito. Tratava-se, portanto, n ão de

produzir riquezas, mas de criar elites. Nesse panorama, a Câmara ocupava um papel primordial . R espon-

serviço ao rei.

Além disso, a oc upação

sável pelo governo local e, portanto, defensora primeira do bem co mum

na perspectiva escolástica da época, ela possuía uma atuação decisiva na

vida econômica. Regulava, por exemplo, preços de alimentos através dos

almotacés, o que interessava tanto à população mais pobre (seja a urba na,

consumidora, seja a rural, produtora) quanto aos senhore s de escrav oS. Manter uma oferta abundante e barata (objetivo que nem sempre era a tin- gido) s ignificava reduzir o custo de manut e nção dos escra vos e garan tir,

no c as o do setor açucareiro , a continuidade da e speciali zaç ã o. A preo c u '

406

cap a cidade de acumulação para os agraciados.

A atuação local da Câmara significava , em termos práticos, a interfe-

r ê nc ia da mesma numa miríade de aspectos da vida cotidiana. Gestava,

a ssim , um mercado profundamente marcado pela política. N e le, a

atu aç ão individual não dependia apenas (ou principalmente) do poder

ec o n ô mico de cada um, mas também das alianças que se conseguiam

e s t a b e lec e r . Em nome do bem comum criavam-se monopólios variados,

qu e na prática representavam a canalização de parte do excedente social

p a r a um g rup o restrito de privilegiados.

A i mport â ncia da C â mara, no entanto, ultrapassava e m muito a esfera

l o c a l . Ela

Coroa, o qu e lh e da v a a p ossibilidad e

d e f esa d os int eress es de sse gr upo.

era t a mb é m o v í n c ulo por e x c e l ê ncia entre a e lite colonial e a

d e a tuar junto à monarquia

e m

407

o BRASil

COLONIAL

- VOl .

2

As formas dessa intervenção eram variadas, mas tinham funda men_ talmente um único objetivo: garantir a reprodução da e lite co l o nial .

F

LUXOS

E REFLU X OS

MERCANT I S:

CENTROS ,

PERIFERIAS

E D I VERSIDADE

Na colônia, a participação primeiro na conquista e depois na admi -

nis tração dos povos era s erviço digno da atenção de um rei agradecido.

Assim , as câmaras buscavam, por exemplo, garantir aos senhores de

A

re tribuição v inha com a concessão de se s marias, como vimos , mas

engenho e lavradores de cana o privilégio de não serem executados e m

ta

mbém de cargos públicos. Cargos-chave ,

como a Al c aidaria-mor,

suas "fábricas", ou seja, não terem seus bens produtivos arrema tados

a

P r ovedoria

da Fazenda

e o Juízo da Alfândega,

eram concedidos

em praça pública para pagamento de seus credores.t " Também par t i ci-

co

mo propriedades às "melhores famílias da terra " . " Tais cargos

pavam das juntas que, a cada frota chegada do reino, estabelecia m os

sig nificavam não só proventos consideráveis como um poder político

preços dos açúcares. Impasses sobre tais preços podiam ter consequê ncias

ex

pressivo para seus ocupantes,

que podiam,

assim, intervir

em as-

significativas, como a proibição de saída da frota se o açúcar não

fosse

pe

ctos diversos do funcionamento da economia. Outros cargos, como

comprado. " Aqui, pesava a favor dessa elite o seu efetivo poder m i litar .

A defesa de tais interesses podia atravessar os oceanos. Em 1679, por

exemplo, o Senado da Câmara da cidade do Rio de Janeiro escr eveu

ao rei relatando as dificuldades enfren t adas no tráfico de escrav os de Angola para a capitania fluminense. Reclamava, então, dos obs t á culos

criados pelos governadores locais à sua participação num comérci o tão

os diversos ofícios de escrivão ou tabelião,

po d e r, mas significavam também acesso a recursos nada desprezíveis.

P

d e engenhos, mas também, e sobretudo,

m esmo, uma "nobreza política"

d o A ntigo Regime português.

não possuíam o mesmo

não só pela propriedade

or isso mesmo,

a elite colonial

definia-se

p e la de ofícios. Era, por isso

da terra",

nos termos

ou "nobreza

lucrativo quanto estratégico para a co l ônia . "

Outro mecanismo fulc ral para a reprodução da sociedade colonial,

Temos, portanto, uma quase onipresença camarária na def e s a dos

c

o mo vimos, era o crédito. Controlá-lo,

ou melhor, controlar o acesso

interesses da açucarocracia, do fornecimento de mão de obra às co ndi-

a

e l e, era ter uma das chaves que

definiam a hierarquia social . Por isso

ções de venda do produto final . Mas a Câmara, em que pese a sua

m

esmo , é digno de nota que, no

século XVII, em duas das principais

centralidade, não era o único órgão da república a garantir a rei t e ração

c a pitanias açucareiras

(Bahia e Rio de Janeiro) , as principais fontes de

da elite colonial. Havia, sobretudo nas capitanias régias, uma série de

cr

é dito fossem instituições coloniais.

cargos cuja ocupação, embora dependente da sanção régia, era ess en c ial

Na Bahia, segundo Rae Flory, a Santa Casa da Misericórdia respon -

para a reprodução desse grupo. Para entender como os interesses de EI

di

a por mais de um quarto do valor total das transações

de crédito na

Rey e dessa elite colonial se combinavam, é preciso analisar o sist e ma

p

ass agem do século XVII para o seguinte. Se a ela somarmos

todas as

de mercês exis t ente na monarquia lusa.

d

e mai s instituições,

atingimos um percentual de 45,3 % do valor total

Esse sistema tem sua origem ainda no período da Reconquista, c om

co

ntrolado por

e las. No sentido oposto, os senhores de engenho e plan -

as concessões que o rei fazia, principalmente à nobreza, de uma séri e de

t

a d o res de cana respondiam, como devedores, por mais de 50 % do valor

benefícios (concessão de terras, isenção de impostos etc.) em troca dos

t

o t a l , s endo que os primeiros absorviam

sozinhos mais de um

terço de

serviços dessa na luta contra os mouros. " A reciprocidade era, por t a nto,

t

o d o o crédito disponív e l no

per í odo. " No Rio de Janeiro, por sua v e z,

a mola mestra do sistema e obrigava o rei a retribuir os serviços presta dos

o

m erc ado d e cr é dito tinha como principal in s tituiç ã o

credora o Juízo

por seus súditos . Segundo Âng e la Xavier e António He s panha, "o re i

d

e Ór fão s . Emb o r a co m uma participação va riáve l a o longo da segunda

aparec e, assim, sujeito aos constrangimentos de conting ê ncias impos t a s

p e la economia de favores' t . "

408

m e t a d e do s S e i s c e nt os, essa i n s tituição re s p o nd e u por praticamente um

t erço de tod os os r e cur sos e mpre stado s

n o p er í o d o. "

409

o BRASil

COLONIAL

- VOl .

2

Apesar de se tratar de instituições bastante distintas, o Juízo de Ór fãos

e a Santa Casa têm um importante aspecto em comum: em

casos o dinheiro emprestado não tinha origem na acumulação mercan til .

ambos os

Nas Santas Casas, a origem dos valores emprestados estava, em ge ral,

nas doações post mortem feitas por seus irmãos. Em troca de missas por

sua almas, esses faziam doações testamentárias de propriedades, di nheiro

ou mesmo de dívidas ativas . Como as Misericórdias necessitava m de

recursos constantes para fazer frente a suas despesas, transform a v am

esses bens em dinheiro a ser emprestado a terceiros, para com os juros

desses pagar seus compromissos. "

FLUXOS

E REFLUXOS

MERCANTIS :

CENTROS,

PERIFERIAS

E DIVERSIDADE

e m préstimos muitas vezes esbarrava no prestígio do devedor . Segundo

Russell-Wood , "muitos devedores descobriam que a melhor manei ra

de o cultar suas defici ê ncias no pagamento d e dívidas era serem eleito s

para a Mesa". "

Com isso, eram frequentes não s ó os atrasos no paga-

me nto de juros, mas também as perdas dos valores totais emprestados .

As i nstituições coloniais, portanto,

mise ricórdia dos homens ou o cuidado dos órfãos , não descuravam

re p r odução de suas elites.

mesmo quando

voltadas

para a

da

As variadas

formas de acesso a riquezas

através do exercício dos

aqui apenas uma parte, nos

of ícios da república, das quais expusemos

No

caso do Juízo de Órfãos, o dinheiro destinado a empréstimo era

in

dicam a importância central que esses cargos tinham na criação e

parte da herança dos órfãos, muitas vezes o resultado da arrema tação

re

it e ração da elite colonial. Mais do que produzir riquezas, o que eles de

em praça pública de bens deles . Com isso buscava-se simultanea mente

evitar as perdas dos bens

enquanto fossem menores de idade. "

e garantir recursos para a sua sobreviv ência

Portanto, em ambos os casos era a mor t e de determinados indiví duos

que fazia com que parte dos bens por e l es acumulados ao longo da vida

fosse transformada em capital e repassada a terceiros. Colocava-se , as-

fa to faziam era redistribu í -la, ou melhor, canalizá-Ia para alguns poucos

g rupos sociais. Tratav a -se, portanto, de uma economia de privilégios,

qu e buscava por todos os meios garantir o sucesso dessa apropriação

p ara, assim, reproduzir e naturalizar as desigualdades sociais. Ao mesmo

t e mpo , garantia a tais privilegiados uma importante autonomia frente

aos humores externos. Diminuía, sem eliminar, as incertezas inerentes

sim, em

circulação

uma riqueza que muitas vezes já se encon t rava, no

a

um sistema colonial fortemente calc ado na atividade mercantil . Sem

todo ou

em parte, fora do mercado. A l ém disso, o fato de inst ituições

d

úv ida está aqui uma das chaves, se não a principal,

para se entender

coloniais aparecerem como principais credoras nas duas praças a ponta

para uma relativa autonomia da economia colonial frente aos g rupos

mercantis metropolitanos.

Por outro lado, a importância das ins t ituições coloniais não esc onde

o fato de que elas não chegavam a con t rolar a maior parte da ofe rt a de

crédito na colônia. Em outras palavras, havia uma miríade de cre d o res

privados participando desse mercado. Do outro lado, havia igualme nte

uma enorme variedade de indivíduos aparecendo como tomadores de

empréstimos, comprovando o que já foi dito sobre a capilaridade do

mercado de crédito na colônia . Para a elite colonial, essa capilarida de

também era útil, já que significava a multiplicação da s fontes de recursos.

As instituições eram as grandes fontes de crédito, m a s não as únicas.

do s

Al é m disso, pelo menos no caso das Misericórdi as,

a cobrança

410

as e normes diferenças entre a conjuntura por que passa o reino e aquela

d e s ua colônia americana no século XVII.

Notas

1 . A mbrós i o Br a nd ão, 1 977, p. 118.

2 . Sa nj ay S ub ra hm a n ya m , 1 99 5 , p . 161 .

3 . As e s tim a ti vas são d e Co m re iras

4 . Fré d é r ic Ma u ro, 1 997, v. 1 , p . 25 7.

5 . Her b e rt Kle in , 1 990, p. 53 - 6 1 .

6 . Vi t or i no Maga lh ães Go dinh o, 1 990, p . 4 39. 7. San j ay S u b r a h ma n yam, 1995, p . 1 39.

8 . A. R . Di s n ey, 1981, p . 67-68.

Rodri g u es, 1 990, p . 30.

411

o BRASil

COLONIAL

- VOl.

2

9. Ruggiero Romano, 1993, p . 29-38 . Tal tendência geral não significa a inexistên cia de conjuntur a s mais curtas . Assim, teríamos, gr o ss o m o d o, um crescimento a té

1620 , se g uid o de uma depressão que duraria até apro x imadamente 1660 , qua ndo

se iniciaria um novo período de crescimento demográfico . A esse respeito, v er

José Vicente Serrão, 1998, p. 44 - 48.

10 . José Vicen t e Serrão, 1998, p. 69-82.

FLUXO S

E REFLUXOS

MERCANTIS:

CENTROS,

P E RIFERIAS

E DIVERSIDADE

g arnento em dinh e iro . Segundo F r a nci sco C ar l os T e i x eira , ess e tipo de arr e nda- men t o tornou- s e uma importante fonte de renda para a elite agrária col o ni a l . Ver Francisco C a rlos T . Sil va , 1990 , c a po 8.

A ntonio C arlos Juc á de Samp a io , 200 3, capo 2.

C aio Prado Jr . , 1992 .

3 4.

3 5.

36. Francisco Carlos Teixeira da Silv a , 1990 , cap o 9.

11 . Joaq ui m Romero de Maga l hães, 1993, p. 161-192 .

 

37. Segundo Rae F l or y ( 1990 : 31 ), as escrituras de vend a de e ngenhos do per í odo

12.

Leis pr a gmáticas eram " l eis a nt issunt u ár i as que proibiam o uso de um con junto

1680-1 7 25 r a ramen t e mencionam o cultivo de mandioca.

d

e

a r tigos consid era d os d e lu xo": José V i ce nt e Serrão , 1998, p. 84 .

38. Fra n cisco Carl os Teixeira d a Silva , 1990 , p. 1 2 4- 126 .

13.

C

h

ar l es R. Boxer, 1 973, p . 190 .

39

. Idem, p . 125 .

1 4 . No sécu l o XVI I I essa recuperação da Car reira continuar i a, impu l siona d a por

40. Gui llermo Palácios, 1998, p . 23-30 .

 

u

m l a d o pe l o o u ro d o B ras il e por o ut ro p e l a demanda por t êx t e i s para o trato

4

1 . AHU - CA, doc. 2672-2673. Cons ul ta do Conselho U lt ramarino

acerc a dos

d

e

cat ivos. Sanjay S ubr a h manyam, 1995, cap o 7; C h ar l es R Boxe r ,1992 , capo VII.

inconvenie n tes da l ei da m andioca, s e gundo o gover n ador Á l varo da Silveira e

15.

J

osé R oberto do A m ara l Lapa, 2000, p. 256 .

A

l buquerque ( 12/9/1703 ).

16.

Essa crise agrí c o l a seri a sec ul ar e se est e nd e ri a a t é meados do séc ul o XVI II: Ce lso

4

2. Idem.

Fu r t ado, 1986, p . 4 7 - 53 .

 

4

3. Franc i sco Carl os Teixeira da Silva , 1990 , p. 18 2- 188.

 

17.

C

h

arl es R. Boxer, 1992, p. 157 .

44 . A melhor descr i ção ainda é a de François Froger ( 1698: 7 5- 77 ), via j a n te franc ê s

18.

C

h

a rl es

R . Boxer, 1 9 73,

p. 4 01 .

cujas ricas informações foram de grande utili d ade para as invasões francesas d e

19.

Frédéric Ma u ro , 1 99 0 , p . 14 0.

 

1

7 10 e 1711 .

20.

S

t

ua r t Schwar t z, 1988, p . 157-169; Id e m , 1990, p. 191-259.

45 . Apud Ciro Ca rdoso e Pa u lo H. Ar a újo , 1 9 92, p. 50-51 .

 

21 . Vera Fer l ini, 1988, ca p o lI .

22. S tu art Schwar t z, 1988, p. 14 7-1 4 9 .

23 . Vera F e r l ini , 1988, p . 72. (Ver nota 35 .)

2 4 . A crítica a esse proced i me nt o foi feita p i o n e i ra m e nt e por J . H. Ga lloway (197 5 : 21 -

4 6 . J e an Marce l C arva l ho França, 1999 , p. 32.

4

48. Por se tratar de n a vios holandeses , o gover n ador deixou c l aro q u e não desejava

7. Ide m , p. 37 .

s ua presença n a baí a de G u anabara. Idem, p . 25 .

 

38), cu j as con c lu sões d ivergem parcia lm e nt e, no en t a n to , d as d es t e tex t o.

4

9. E xemplo desse cará t er d i versificado ' da prod u ção c h acareira é dado pe l a venda

25.

P

oderíamos ir ainda mais l o n ge e l embrar a impo rtância p r imo rdia l d o cré d i t o no

das benfeitorias de uma c h ácara , em 1691, por Domingos Pime n ta pa r a Fernando

f

u

ncionament o

das sociedades de A nt igo R egime em gera l : Pau l Ser v ais, 19 94,

F

aleiro de Aguirre. Entre as benfeitorias cons t avam: árvores de espin h o (ou seja ,

p. 1 . 393-1 . 4 09.

d

e frut as c ítricas), roças d e mand i oca , bananais, dois abac a xizais, e "todos os

26.

A nt onio Car l os Jucá d e Sampa i o, 2002, p. 31-32.

 

l

eg umes e p l antas que se ac h arem " . ANRJ, CPON , L . 58 , f . 98.

27

. P i erre Vi l ar, 1982, p . 65.

50.

Lu í s Fe lipe de Alencastro, 2000, p. 89; Charles R. Boxer, 19 7 3 , p. 26 7 -2 7 0 .

28.

Desagregamos os d a d os da a u tora, po r q u e e l a traba lh a com o p erío d o 168 4 -17 25

51

. A HU - CA , doe. 2672-2673 . Consulta do Conselho Ultramarino acerca dos

como um todo: R ae F l ory, 19 7 8, p. 6 4 - 65 e Apê n dice 1 .

 

i

nconvenie nte s da l e i da mandio c a , se g undo o governador Á lvaro da Silveir a e

29.

Stuart Schwar t z, 1988, p. 150 e Apêndice C, p . 403.

A

lbuquerqu e ( 12/ 9/ 1 7 03 ) .

30.

R

ae Flory, 1978,

p . 2 4 .

52.

C har l es R . Bo xe r , 19 7 3, p . 192 .

31 . Idem , p. 31-32.

32 . Stuart S c hw a rtz,

1988, p. 24 9 -252 ; Rae Flor y, 19 7 8 , p. 33; Ver a L . Ama ral

Ferlini, 1988 , p. 171-177.

33. Tal m o nop ó li o da terra permitia aos grandes pr o p r i e t á rios , in c lu s i ve, a r r enda r

p a rte d e l as sem obriga ção d e e ntre g a de cana a o e n g enh o e m troca d e um pa -

412

53 . J ea n M . C . Fra n ça, 2 000 , p. 40 .

54 . V . C o a r acy, 1 965 , p. 5 4 .

55 . O trig o, n o e nt a nt o, nunca foi um a m o n o cultura . Junt o c om e le, mas em m e n or e s

q u a ntid a d es, ex p o rt ava m- se fei j ão e m a ndio ca, por exe mpl o. V er : John Mont e ir o ,

199 4 , ca p o 3.

413

o BRASil

COLONIAL

- VOl.

2

56. John Monteiro, 1994, p. 59.

FLUXOS

E REFLUXOS

MERCANTIS:

8 2 . Adeline Rucquoi, 1995.

CENTROS,

PERIFERIAS

E DIVERSIDADE

57. Em relação à capitania fluminense temos apenas o relato de François Froge r

58. André João Antonil, 1976, p. 149.

83.

BIBLIOTECA NACIONAL, Tombo das cartas de sesmarias do Rio de Janeiro ,

(1698:75 ) sobre a proibição desse cultivo no final do século XVII e seu teste mu_

1997, Coleção Documentos Históricos, vol . CXI .

nho de ter visto algumas plantações. Na documentação não há referência a t a l

8

4 . Embora menos formais na hierarquia militar, nas bandeiras paulistas também se

produção.

reproduzia a desigualdade na distribuição dos índios escravizados entre os seus participantes: John Monteiro, 1994, cap o 2 .

59. Rae Flory, 1978, p. 161 .

8

5 . É bem verdade que no final do século a mesma câmara briga com os descendentes

78-79.

60. André João Antonil, 1976, p. 149.

de Correia de Sá para instalar um novo trapiche na cidade, o que mostra que

61

. José Roberto do Amaral Lapa, 2000, p. 254-255.

as conjunturas políticas mudam. Mas o ideal do privilégio permanece: o novo

62. Todos os dados abaixo foram retirados de Rae Flory, 1978, p. 181-206.

trapiche pertenceria a Francisco de Almeida Jordão e a seu irmão, capitão

63. É provável, portanto, que a expansão do tabaco tenha contribuído para a pró pria sustentação da economia açucareira em uma conjuntura desfavorável. A confirma -

64. Gabriel Soares de Sousa, 1987, p. 163-165. Ambrósio Brandão, 1977, p. 50.

Manuel Mendes de Almeida. Ver: Antonio Carlos Jucá Sampaio, 2003, p.

ção dessa hipótese depende, no entanto, de novas pesquisas que estabeleçam melhor as relações entre as elites tabaqueiras, as açucareiras e os grandes comerciantes .

86. Curiosamente, esse privilégio nunca foi dado de forma definitiva, sendo renovado periodicamente pela Coroa. Aparentemente funcionava como uma espada de Dâmocles sobre a elite colonial, forma de a monarquia garantir o controle sobre

65. Frédéric Mauro, 1997, v. lI, p. 97-101 .

ela: idem, p. 123-124.

66. Stuart Schwartz, 1988, p. 187 - 188.

67. Francisco Carlos Teixeira da Silva, 1990, p. 336-345.

68. Ciro Cardoso, 1984.

69. Fernando A. Novais, 1986, p. 88.

70. Ambrósio Brandão, 1977, p. 115 e p. 132-137.

71 . Todos os dados da trajetória de Viegas são retirados de David Smith, 197 5 ,

cap.8.

72. Antonio Carlos Jucá de Sampaio,

73. Escritura de empréstimo, ANRJ, CPON, L . 53, f . 114.

74. Carlos Eduardo Calaça Costa Fonseca, 1999, p. 92.

75. Ver, por exemplo, Escritura de arrendamento de contrato, ANRJ, CQON, L . 1, f. 9v (1688).

76. Respectivamente, Maria de Barros e Isabel de Paredes. Na família de Maria hav ia pelo menos três senhores de engenho, segundo Carlos Fonseca, 1999, p. 91 . Já sua segunda esposa era irmã de Manuel de Paredes da Silva, senhor de engen ho que, por sinal, era também seu genro: Carlos G. Rheingantz, 1965, vol . II, P:

2003, capo 1 .

281-282.

77. Escritura de compra e venda, ANRJ, CPON, L . 1, f . 162v (1690); Escritura d e compra e venda, AGCRJ, CPON, Códice 42-4-90, f . 10v (1698 ) .

78. Carlos Eduardo C. C . Fonseca, 1999, p. 72-84.

79. Antonio Carlos Jucá de Sampaio, 2003, p . 37-39 .

80 . José Vi eira Fazenda, 1912, p . 118.

81 . Karl Polanyi, 1980 .

414

87. Esse tipo de pressão era mais importante no Rio de Janeiro, onde o açúcar era de pior qualidade e, consequentemente, nem sempre interessava aos comerciantes .

88. AHU-CA, doc. 1 . 367 -

dos oficiais da Câmara do Rio de Janeiro sobre a navegação para Angola e o tráfico de escravos para laboração dos engenhos (28/1/1679).

89. Ver nota 82.

90. Ângela B. Xavier e António M. Hespanha, 1998, p. 339-349.

91 . Rae Flory, 1978, p. 128-133; Antonio Carlos Jucá de Sampaio, 2003, capo 6.

92 . Rae Flory, 1978, p . 73-77.

93. Antonio Carlos Jucá de Sampaio, 2003, p. 32-35.

94 . Russell-Wood, 1981, capo 5.

95. Por exemplo: ANRJ, CPON, L . 44, f. 104v (1662) .

96. A. J . R. Russell-Wood, 1981, p . 82. Não há dados semelhantes sobre irregulari- dades nos empréstimos do Juízo de Órfãos.

Consulta do Conselho Ultramarino sobre representação

Bibliografia

ALE N CASTRO, Luís Felipe de . O trato dos viventes: formação do Brasil no Atlântico

S ul . São Paulo : Companhia das Letras, 2000 .

AN TONIL, André João. C ultu r a e opulência do Brasil. São Paulo / Brasília :

M e lhoramentos / INL, 19 7 6 , 2 a ed.

415

o BRAS i l

C OLONIAL

- VOl .

2

BIBL I OTECA NACIONAL . Tombo das cartas de sesmarias do Rio de J aneiro . Rio de Ja n eiro: Fundação Bib l io t ec a Nacio n a l , 1 997 . Co l eçã o D oc u ment os Hi s t ó ricos, vo ! . CXI . BOXE R , Char l es R . Sa l vador de Sá e a l u t a p e l o Brasil e Ango l a , 1602 -1 686 . São

Pa ul o: Compan h ia E d i t ora N aci ona l , 1973. . O I mpé r io marí t imo p o rtu g u ês, 141 5 -1 825. Li s b o a : E d ições 7 0 , 1 99 2 , 2 " ed.

B

R AN D Ã O , Am b rós io F . Di á l ogo s d as grandez a s do B rasil . S ão Pa ul o: Me lh ora mentos,

1 977 .

CA RDOSO , Ciro. " Atla s hi s t ó rico do Es t a do do Rio d e J a neir o - D a co l ô n ia a meados

d o sécul o XX " . Niter ó i , 1984 (mime o grafado ) .

CA RDOSO , C ir o; A RAÚ JO , Paulo H . Ri o d e Ja neiro, M a dri: E d i t o ria l Mapfre, 199 2 .

C

DISNEY, A . R . A d e cad ê n c ia d o Imp é r io da Pim e nta: co m é r cio p or tugu ês na 1ndi a

O A RACY , V . O Ri o d e J a n e ir o no s éc ul o d ezesset e . Ri o de Janeiro: Jo sé Olympio , 19 65 .

no iní c i o d o séc ulo X V II. Lisboa : E dições 7 0 , 1 98 1 .

F ERLINI, V e r a. T erra, trab a lh o e p o d e r: o mund o d os e n ge nh os no No rd es t e c o lonia l.

São Paul o: Br a siliense, 1 9 88 .

F LORY , Ra e . " Bahian society in the mid-colonial p e riod : the s u ga r planters, tobac co

g rower s, m e rchants , a nd artisans o f Salvador a nd the R ec ô nca v o , 1680-1725 ".

Austin: University of Texas, 1978 ( tese de dout o r a do ) . FONSE CA, Ca rl o s Edu a rdo Calaç a Co sta. ' ' 'C ris t ã o s Nov os' n a turais do re in o e morad o r es n a cidade do Rio de Janeiro (1680-1 7 10) " . São P a ul o: USP, 1999 ( dis-

se rta ção d e m e strado ) .

F RANÇA , J ean Marcel C . ( org.). Vi sões do Ri o d e Jan e iro co l o nial: antologia de tex to s, 1 53 1-1 8 00 . Ri o de Janeir o : U E RJ/Jos é Ol y mpio , 1 999. o Outr as v i s ões d o Ri o de Jan ei r o c ol o ni a l: ant o logia d e t e xtos , 1582-18 08 .

Rio de J a n e ir o : José Ol y mpio, 2000 . FROGER , Fr a n ç ois. R e l a ti o n du voyage d e M. d e Ge nnes ao d e t ro it d e Mage llan.

P a ris : B r unet , 1698.

FURTADO , Celso. Forma ção econ ô mi ca do B rasil. São Paul o: Co mpanhia Edi tora

Naci on a l , 1 98 6, 21 " e d .

G A LLOW A Y , J. H. " North ea st Br a zil , 1 7 00-1 7 50 : th e ag ricultur a l c r i sis re exa mine d" ,

J o urn a l of Hi s t o ri ca l Geog raphy, 1 ( 1 ), ( US ), 19 7 5 , pp. 21 -38 .

G ODIN HO , Vit o rin o Maga lhãe s. M i t o e me rca d oria, u t opia e prá t ica de navegar,

sécul os XV I- X VIII. L i s boa : Dif e l , 1 99 0.

I BGE . Es t atísticas H is t óricas do B rasi l . Rio d e J a n eiro : IB GE , 1990,2 " ed.

KL E I N, H erb er t . " T rá f ico d e e s cr a v os". In: IB GE . Es t a tís t icas His t óricas do Brasil.

R io d e Jane i ro:

IB GE, 1990, 2 " e d ., pp. 53 - 61 .

LAPA, J osé R o b er t o d o Amar a! . A Ba h ia e a Carr e ira da Índia. São P a ul o: Hu c itecl

U ni camp , 2000.

416

FLUXOS

E REFLU X OS

MERCANTIS:

C ENTROS,

PERIFER IAS

E DIVERSIDADE

MAG A LH ÃES, Joa qui m R ome r o d e. O a l garv e eco n ô mico , 1600 - 177 3. Lis b oa:

E d ito r i a l Es t a mp a, 1 993 .

MAU R O , Fré d éric. " P or tu ga l y Brasil: estru c tu ras po l ít i cas y económ i cas d ei Imperio,

1580 -1 750 " . I n: B ETH ELL, L es li e. His t oria d e América L a t ina 2 ( América La t i n a

co l o nia l : Eur o pa y Am é ri c a e n l o s sig l o s XVI , XVI I , XVIII ) . Barce l o n a: Ed i toria l

C rítica , 1 990, p. 12 7-1 4 9.

.

_

P ortuga l , o B rasi l e o Atl ânt i co, 15 7 0 -1 670. Lisboa: E dit o ri a l Es t a mp a , 199 7 ,2 V.

M

ONT EIRO , J o hn . Negros d a t e r ra: índios e b a n deiran t es n a origem d e São Pau l o.

S ã o P a ul o : Com panh ia d as L e tr as, 199 4 .

NO VA IS , F e rn a nd o A. P or t uga l e B ras il na crise do a nt igo sis t e ma co l onia l ( 1 777 -

1 8 08 ) . São Pa ulo : Hu c it ec, 1 9 8 6, 4 3 ed .

PALÁC IOS , G uille rmo. C ult iva d o r es li bres , Es t ado y cr i s i s d e I a es c l av itud en Br a s i l en Ia é p oca de I a r evolu c i ón i n du s t ria l . M éx i co : FCE, 199 8 .

P O LAN YI , K ar ! . A gra n de trans f ormação . Ri o d e J a n e i ro: C a mpus, 1980 .

PR A DO JÚ N IOR , C ai o. Formação d o Brasi l con t empo r â n eo . São P a ulo: B ras ilie nse ,

1 9 92, 22 " . e d .

RH E IN G A N T Z , C arlo s G. P ri m e ira s fa m í l ias d o Rio de J a n eiro ( s é cu l o s X V I e X VII ) . Rio de J a n e ir o : Livr aria Br as ilian a E dit o ra , 1 965 , 2v . ROMAN O , Ru gg i e ro. Coy untura s o p ues t as . L a c r isis d e i s i g l o X VII e n E ur o p a e

H i s p a n oa m é r ica . Méx i co: Fo nd o d e C ultura Eco n ó mica , 1 993 .

R

UC Q UOI , A deline . H istór i a med ieva l d a P e n íns ul a Ib érica. Lis boa : E dito r ial

E

sta mp a, 1 995 .

R

U SSELL -WOOD , A. J . R . Fid a l gos e f i l a ntr o p os : a San t a C a sa da Mis e r icórdia da

B a hia, 1 550-1755. B rasíli a: UnB , 198 1 .

S

A MPA IO , A nt o ni o C a rl os Ju cá de. "O m erc ad o ca ri oca de c ré d i t o: da a cumul açã o

se nhorial à ac umul ação m e r c antil (1650 -1 7 5 0)" . In : R evis t a Es t u d os H is t ór i cos,

n

" 29, Ri o d e Ja neir o: C PD o c / FGV , 200 2 , p . 2 9- 4 9 .

-

Na enc r u z i lh a d a d o Imp ério: hierar qu ias so c ia i s e co n ju nt u r as econ ô m i cas no Rio d e J aneiro ( c. 1650 - c. 1 750 ) . Ri o de J ane i ro : A rqui vo Nac i o n a l , 2003.

S

C HWA R TZ, S tu ar t . Segr e dos i nt ernos: enge nh os e esc r avos na soc i e dad e co l o n i al . São Pa ul o: Com p a nhi a d as Le tr as , 1988 . "Brasi l co l o ni a l : p l a n tac i o n es y pe ri f erias, 158 0- 1750". In : B ETHE LL,

L

es lie ( ed .). His t oria d e América Latina 3 ( Am ér i c a Latina co lonia l : econ o m i a ) .

B

ar ce l on a : Editor i al C r ítica, 1 990 , p . 19 1-2 59.

S

E RR Ã O , J osé Vice nt e. " O q u a d ro humano". In: HESP ANHA,

A nt ónio M .

(coo rd .) .Hi s t ó ria de Portuga l . O Anti g o R egim e . L i s b oa: Edit o ri a l Es t ampa,

1 998, p . 4 3 - 63. " O qu a dro econ ô mico" . In: HESPAN H A, António M. ( coord. ) . H is t ó ria de Port u ga l . O A ntig o R egi m e. Lisboa : Editorial E s tampa , 1998 , p. 6 7 -112 .

4 17

o BRAS il

CO L ON I AL

- VOl .

2

SE R VAIS, Pa ul . "De I a re nt e au cré di t h y p ot h ecá i re

en p ério d d e t ransi ti on industrie ll e :

s

t ra t égies

fa mili a l es

e n rég i o n

li égeoise a u XV IlI e

s i ê c l e" . In : Anna l es : histo i re,

s c i en ces

so c iales, 4 9 ' année , n ° 6, P a r is : Arman d

Co l in, 199 4 , p . 1.393- 1 . 409.

S

I LVA, Fra n c i sco

Ca rl os

T . d a. "A m o rf o l og i a

d a escassez: cr i ses d e s ubsistênc i a

e

p

o l í t ica eco n ô mi ca

n o Br asi l Co l ô n ia

( Sa l va d or

e R io

d e J anei r o, 1680 -1 7 90)" .

N

it er ó i :

U F F, 1 990 ( t ese d e d o ut ora d o ) .

 

SMITH ,

D a vid . " Th e m erca ntil e c l ass o f P o rtu ga l a nd Br az il

in th e seve nt ee nth cen tur y :

a s ocioe c o n o mi c

s tud y of mer c h an t s

of Li s b on a nd B a hi a,

1 6 2 0- 1 6 90".

A u S tin:

Uni ve rsit y o f T exas, 19 7 5 ( tese d e doutor a do ). SOUSA , G abri e l Soar e s d e. T ra t a d o d escr it ivo d o Bra sil e m 1 587. São P a ul o : Com p a nhia

Edit o r a N ac i o n a l ,

1 9 8 7 .

SUBRAHMANYAM ,

S a nj ay . O Impéri o Asi á ti co P o rtu g u ês, 1500-1700.

L isboa:

Dif e l , 199 5. VI EIRA FAZ E NDA ,

Jos é. "Os prove d or es

da Sant a C a sa da Miseric ó rdia

d a C ida d e

de S ão S e b asti ão

do Rio d e Jan e iro. "

Rio d e J a neiro: J o rnal d o

Co mmer c io, 1912 .

VILAR , Pier re. D ese n vo lvim e nt o ec on ô mi co

e an á lise hi s t ór i ca . Li s boa: E ditoria l

Presença , 1982 . XAVIER, Ân g ela B.j HESPANHA , Antônio M. " A s r e d es c li e ntel a r e s " . In : HES P A NHA,

Ant ó nio M. Hi s t ó ria d e Portu g al . O Anti go R eg im e. Lisb oa : Editoria l Es tam p a,

19 98, p . 33 9- 3 49.

Abreviaturas

AGCRJ -

A rqui vo

G e ral d a C idade d o

Rio d e Jan e iro

AHU-C A:

A r qui vo

Hist ó r ic o Ultr a marin o ,

Ca t á lo go Cas tro e Alm e ida

AN-RJ

-

A r qui vo N aci o n a l ,

R io d e Jan e iro

C

PON

-

Ca rtório

do Primeiro

Ofício d e Not as

C

QON

-

Ca rt ó ri o

do Qu a rt o

Ofí c io d e Not as

f

.

-

F o lha -

Liv ro

418

CAPíTULO 8 Cultura l e t ra d a no século do Barroco

(1580-1720)

Diogo Ram a d a Curt o"

Em 1 956, o g rand e historiador que foi Sérgio Bu a rque de Holanda chegou

a anunc iar a publicação de uma

i

sécul o s XV II e XVIII ) .

Antoni o Candido edit ou uma pa rte dos man u s critos que Sérgio chegara

a p rep a r a r e t e ceu importan t es considerações sobre essa obra inacabada. Eram qu a t ro os principais pontos a que s e poderia reduzir o barroco na

s u a v e r são brasil e ira

expr essão lit e r á ria. Ant e s de mais n a da, h av ia que contar com o impacto

colonia l, pelo me