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OPOSIÇÕES

TRABALHOS MALÉFICOS E BENÉFICOS

As diferentes preparações usadas por babalaôs e curandeiros cobrem uma


grande gama de receitas medicinais e trabalhos mágicos, podendo ser
maléficas (àbilú) ou de proteção (idáàbòbò). E difícil separar quais
dentre elas pertencem ao campo medicinal e quais ao mágico, pois, como
veremos, eles estão profundamente interligados. A seguir cito exemplos de
trabalhos ofensivos e seus antídotos. Doenças e acidentes Para mandar
diarréia e vômito a alguém (àbllú irán onígbá méji si èníyàrí) (fórmula
399), usa-se èso apíkán, o fruto de DATURA METEL, Solanaceae, pilado com
ninhos de vespa provenientes de uma casa (ilé agbón ilé) e do campo
(ilé agbón oko), uma vagem de odidi ataare (AFRAMOMUM MELEGUETA,
Zingibiraceae, o amorno), e uma centopéia (òkúrí). Os ingredientes devem
ser pilados, secos e colocados na comida ou na água a ser consumida
pela pessoa que se quer atingir e, para completar-se o efeito, um pouco
dessa preparação deve ser despejado na soleira da porta do inimigo. Para
curar a doença citada acima (oògun onígbá méji), temos duas receitas
muito parecidas. Usam-se ewé àgúnmònà, "trepar-para-conhecer o-caminho"
(CULCASIA SCANDENS, Araceae) e odidi ataare (AFRAMOMUM MELEGUETA,
Zingibiraceae, o amorno), ao que, em uma das receitas, adiciona-se ewé
agbado (ZEA MAYS, folha do milho) (fórmula 111) e na outra uma pena de
perdiz (iyé aparo). Queima-se até obter-se um pó preto, que é então
colocado em uma pequena cabaça, furada no alto e na base, arrolhan-do-se
os dois lados. Muito simbolicamente, o pó deve ser extraído do lado
superior para combater o vômito e do lado inferior para combater a
diarréia. Em ambos os casos, o paciente deve comer a preparação com
acaçá (èko) frio. Durante a preparação, deve-se pronunciar o ofò: Àgúnmònà
májé kí àrún ó gun mi. Agbado kí ó gbà mi 1 'ówó àrún. Trepar-para-
conhecer-o-caminho, não deixe a doença trepar em mim. Milho, resgate-me da
mão da doença. Para mandar uma úlcera fagedênica a alguém (àbilú ifi
nárun si èniyàrí), trabalho classificado no odu ogbè iròsún, é preciso
uma preparação complicada (fórmula 385). A doença nárun é tida como a
primeira a aparecer na terra, conforme uma história classificada no
perigoso odu òfún òkànràn ou òfíràn ekún, "provocar-o-leopardo". Devo dizer,
para crédito dos babalaôs e curandeiros, que nos foi dado apenas um
"trabalho agressivo" {àbilú) para provocar a úlcera fagedênica, enquanto
forneceram-nos 26 receitas do remédio usado para curá-la (oògún nárun).
Dois deles pertencem ao odu òwónrín méji (fórmula 68) e ao odu ogbè òsá
(fórmula 69). Pertencendo ao odu òtúrá iwòrí, temos ainda a receita que
diz para moerem-se juntas as folhas ewé itàkún àrán (FLABELLARIA
PANICULATA, Malpighiaceae), ewé ojú ológbò (ABRUS PRECATORIUS, Leguminosae
Papilionoideae), ewé çfun ilè (EVOLVULUS ALSINOIDES, Convolvulaceae, a corre-
corre) e ingerir-se a preparação com acaçá frio. Seu ofò é: Itàkún àràn k'ó
bani rán an kúrò. Ojú ólógbò ki íjé kí ibí ó ri ni. Efun ilè májé kí ó
le fún mi. Itàkún àràn, mande a doença para fora de nós. Ojú ólógbò, não
deixe que o mal nos veja. Efun ilè, não deixe a doença ser capaz de me
pressionar [para baixo]. Pertencendo ao odu iká òsé, temos a receita que
manda pilar juntas ewé okún epò (IPOMOEA OBSCURA, Convolvulaceae), eèpo,
"casca", de pándòrò (KIGELIA AFRICANA, Bignoniaceae), uma boa quantidade
de orógbó (GARCINIA KOLA, Guttiferae), ata gidi (ZANTHOXYLUM SENEGALENSE,
Rutaceae) e kán-ún bílálà (potássio concentrado). Deve-se comer o
preparado com acaçá quente, pronunciando o ofò: Ewé okún epò pa nárun
k'ó kú. Pándòrò pa nárun k 'ó kú. Orógbó gbé nárun kúrò. Kán-ún bílálà
kán an dànú. Folha okún epò, mate nárum [a doença], que ela morra.
Pándòrò, mate nárun, que ela morra. Orógbó, carregue nárun para fora.
Potássio concentrado, nocauteie-a. Para fazer com que alguém quebre o
braço ou a perna (àbilú idá nilésè), existe a receita pertencente ao odu
iròsún ògúndá ou iròsún gédá, naceae) e uma rã recém morta e despelada
(àkèré), desenhar o odu com iyèròsún e em seguida despejar a mistura e
o iyèròsún em e/nu, "vinho-depalma". Deve-se então colocar o iyèròsún
sobre Exu, desenhar novamente o odu e recitar o ofò. Logo depois,
despeja-se o vinho-de-palma preparado sobre a imagem de Exu e deixa-se que
escorra no chão. Seu ofò é: B 'ákèré báVégúdú, a Vómi Véhin esè méjèèji
èhin. T'òjò t'èrún omi ki í tán nínú olójòngbòdú. Emú ni k'óo fi m 'éji
náà wáyé Ifá o. Òtúá eréji ni k 'óo fi tú 'jò s 'ílè. Quando a rã pula
fora do rio, traz água em suas patas traseiras. Chova ou faça sol, a
água não acaba dentro de olójòhgbòdú. Use vinho-de-palma para dirigir a
chuva para a terra cie Ifá. / Use otúá eréji para deixar cair água na
terra. A receita para parar a chuva (àwúre imú òjò dúró) pertence ao odu
ogbè òyèkú e determina que se queimem juntas ewé èkúkú (CYNOMETRA MANII,
Leguminosae Caesalpinoideae) e ewé òkúnkún (PALMAE sp.), colocando-se a
mistura em uma panela quebrada e adicionando cinzas. Tudo deve então ser
posto no teto da casa ou em um lugar a céu aberto. Maldições (èpè) Uma
atividade importante e assustadora efetuada pelos babalaôs é ajudar as
pessoas a amaldiçoar outras (sépè so ou èpè isépèlé èniyàn) e também
protegê-las da maldição (idáàbòbò Vówó èpè). A receita para amaldiçoar
alguém (èpè isépèlé èniyàn) (fórmula 401) pertence ao odu ogbè iretè. A
proteção contra a maldição é uma recei ta classificada sob o perigoso
odu iru ekun e manda pilar juntos o fruto (èsó) e as folhas (ewé) de
kidan (TETRAPLEURA TETRAPTERA, Leguminosae Mimosoideae), a casca (eèpó) e
as folhas de odán (Frcus spp., Moraceae) e ewé túdè (CALLIANDRA
PORTORICENCIS, Leguminosae Mimosoideae), misturando com sabão (ose dúdú),
lavando-se então o corpo com o preparado.. Pertencendo ao odu òfiín iwòrí
ou òfún wore, "ò/i//j-parece-bem", temos outra receita de proteção
(idáàbòbò lówó èpè) (fórmula 426) com o ofò: Wá bá mi pa èpè ti wón fi mi
sé yií. Sawerepèpè bá mi pa elépè fún mi. Venha e ajude-me a matar a
maldição que puseram em mim. Sawerepèpè, ajude-me a matar os que me
amaldiçoam.