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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO

De Pé Calçado:
Família, Trabalho e Migração no Pós-Abolição da
Baixada Fluminense, RJ.
(1888-1940)

Carlos Eduardo C. da Costa

Rio de Janeiro
2013
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De Pé Calçado: Família, Trabalho e Migração no Pós-Abolição da Baixada Fluminense, RJ.


(1888-1940)

Carlos Eduardo C. da Costa

Tese de Doutorado apresentada ao Programa de


Pós-Graduação em História Social, Departamento
de História, Universidade Federal do Rio de
Janeiro, como parte dos requisitos necessários à
obtenção do título de Doutor em História Social.

Orientador: Manolo Florentino

Rio de Janeiro
2013
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COSTA, Carlos Eduardo C. da

De Pé Calçado: Família, Trabalho e Migração na Baixada


Fluminense, RJ. (1888-1940)/ Carlos Eduardo C. da Costa. Rio de
Janeiro: IFCS, 2013.

xviii, 270f.:il.;30cm

Orientador: Manolo Florentino e Cacilda Machado

(Doutorado em História Social) – UFRJ, IFCS,

PPGHIS – Programa de Pós-Graduação em História Social, Rio de


Janeiro, 2008.
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De Pé Calçado: Família, Trabalho e Migração na Baixada Fluminense, RJ.


(1888-1940)

Carlos Eduardo C. da Costa

Orientador: Manolo Florentino

Tese de doutorado submetida ao Programa de Pós-Graduação em História Social


(PPGHIS), Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, da Universidade Federal do Rio de
Janeiro – UFRJ.

Aprovada por:

Orientador: Prof.ª Dr.ª Manolo Florentino, (UFRJ).


(Presidente)

Prof.ª Dr.ª. Cacilda Machado (UFRJ)

Prof.º Dr.º José Roberto Pinto de Góes (UFRJ)

Prof.º Dr.ª Edinélia Maria Oliveira Souza (UNEB)

Prof.º Dr.º Álvaro Pereira do Nascimento (UFRRJ)

Suplentes

Prof.º Dr.ª Márcia Amantino (Universo)

Prof.º Dr.º Carlos Engemann (Universo)


2013
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AGRADECIMENTOS

Antes de tecer meus agradecimentos não posso deixar de prestar homenagem a minha
eterna orientadora, Ana Lugão Rios. Até o momento eu não havia feito isso em lugar algum,
nem mesmo em seminários, redes sociais ou e-mails. Deixei para fazer aqui. Desde o primeiro
dia que a conheci em Porto Alegre eu sabia que tinha de ir para a UFRJ aprender tudo sobre o
pós-abolição que ela havia trazido dos Estados Unidos. Mas o que realmente me chamou para
o PPGHIS foi a sua alegria de viver.
Com ela não aprendi apenas a escrever uma dissertação e uma tese, ela me ensinou
muito mais. No primeiro Chopp no Bar Brasil, no primeiro dia de orientação ela me ensinou o
melhor dos ensinamentos: a sua vida não é a academia, e sim a sua família. Não me sinto de
forma alguma o seu percussor, até porque em relação a bibliografia e metodologia aprendi
muito pouco, pois em seus últimos dias ela me deu uma verdadeira lição de coragem.
Ainda me arrependo muito de não ter retornado seu último telefone, mesmo sabendo
que era a sua despedida. E como havíamos conversado, eu sabia que você é quem iria me
consolar, e não ao contrário.
Sinto-me muito orgulhoso de ter sido seu primeiro e último orientando. E o pouco que
aprendi com certeza levarei aos meus futuros orientandos. Ana, a você tenho meus eternos
agradecimentos. Deixo na epígrafe a música que você cantou para mim em nossa última
cerveja no Bar Brasil.
Agradeço também aos grandes amigos da Ana, Manolo e Cacilda Machado que
sabendo da situação em que ela se encontrava de antemão me chamaram para conversar e nos
últimos me orientaram com grande amor. Com certeza a Ana também agradece a vocês pelo
grande ajuda que me deram.
Aos professores do Programa de Pós-Graduação em História Social da UFRJ, Manolo
Florentino, Cacilda Machado, Mônica Grin que ao longo desses 4 anos, a partir de seus
exemplos de vida, ensinaram-me que há muito mais vida além da academia.
A minha namorada Evelyn Rosa que nos momentos mais difíceis soube compreender,
ter paciência e com seus carinhos me apoiou em todas as momentos da tese.
As professoras Hebe Mattos e Martha Abreu que fizeram parte da minha formação na
graduação e que me ajudaram em muitos momentos durante o mestrado e agora no
Doutorado. Ajudaram-me com incentivos financeiros para realizar as entrevistas, nos
empréstimos de materiais e com boas conversas sobre o tema desta pesquisa
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Ao Professor Álvaro Nascimento. A quem tive o prazer de conhecer nos cursos


prestados pela Professora Ana Rios e que participou de minha primeira banca. Além disso,
tornou-se um grande amigo ao me incentivar à carreira acadêmica, assim como me auxiliou
bastante nos momentos mais difíceis da pesquisa e da vida.
Aos professores César Menezes e Jorge Bahiense, por suas magníficas aulas no ensino
médio. Sem os seus ensinamentos e a maestria jamais me tornaria um professor de História.
Muito obrigado a vocês pelo incentivo quando decidi investir na carreira acadêmica.
Agradeço a todos os amigos que fiz no Ofício do Registro Civil das Pessoas Naturais
da 1ª Circunscrição de Nova Iguaçu, em especial a Dona Dylza, pois sem a boa vontade e o
bom humor deles a pesquisa não teria saído do papel.
Aos meus pais, José Hamilton e Maria Lúcia que me apoiaram e, em boa parte do
tempo, financiaram-me para que pudesse realizar o desejo de fazer o que mais gosto: estudar.
À minha irmã Wiviane, que nos momentos mais difíceis e desanimadores deu-me
palavras encorajadoras para continuar o trabalho. Também ao meu sobrinho-afilhado
Vinícius, uma criança especial em minha vida, que nos pequenos momentos me ensina todos
os dias a dar valor a vida.
Aos amigos Alexandre Moraes, Bruno Mouzinho, Carolina Peixoto, Igor dos Reis e
Ludmilla, pois muito do meu caráter e da minha dedicação aos estudos se deve a vocês.
Aos amigos do curso de pós-graduação Jonas, Leandro Braga, Siméa, Carlos, Rafaela
Balsinhas e Francisco Aimara que a todas as terças-feiras discutíamos nossas pesquisas e
sonhos na sacristia.
Aos amigos do tema de pós-abolição, Rodrigo Weimer, Renata Moraes, Emilía
Vasconcellos, Edinélia, muitas das nossas discussões pelo MSN, Facebook e em mesas de bar
estão presentes nessa tese.
Aos meus amigos que reencontrei no Aeromodelismo, Roberto Leão, Paulo Seixo,
Jaime, Odylon, Mauricio Guimarães, Marcelo Capote, Thiago, Diogo Menezes que nos
momentos mais estressantes e tristes da tese sempre estiveram ao meu lado tentando me
animar.
À Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e aos meus colegas do Departamento de
Ciências Jurídicas e Sociais, a quem agradeço por ter permitido meu afastamento parcial.
Instituição essa que me identifico cada vez mais.
Cada uma dessas pessoas contribuiu de forma decisiva na minha formação acadêmica e
pessoal, agradeço a todos vocês.
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“Quando eu não puder pisar mais na avenida


Quando as minhas pernas não puderem aguentar
Levar meu corpo, junto com meu samba
O meu anel de bamba, entrego a quem mereça usar
(...)
Não deixa o samba morrer
Não deixa o samba acabar
O morro foi feito de samba
De samba para gente sambar”

(Edson e Aluísio)
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RESUMO
COSTA, Carlos Eduardo C. De Pé Calçado: Família, Trabalho e Migração na Baixada
Fluminense, RJ. (1888-1940). Tese de Doutorado em História Social do Programa de Pós-
Graduação em História Social, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2013.

O Pós-abolição vem se destacando como um importante tema para a compreensão das


experiências de ex-escravos e de seus descendentes no Brasil e nas Américas. Esta pesquisa
pretende ampliar o estudo da família e a conseqüências para estabilidade familiar na Baixada
Fluminense, assim como o processo migratório e de estabilização de pretos e pardos, entre os
anos de 1889 e 1940.
Começo a análise do imediato pós-abolição na Baixada Fluminense. A produção de
café da região havia entrado em crise no final do século XIX. A escravidão não se comparou a
regiões como Vale do Paraíba e norte do Estado, e por isso foi mais fácil para pretos e pardos
se inserirem socialmente. Sem impedimentos para prosperar esse grupo conseguiu formalizar
sua família e ascender socialmente.
Na década de 1920 e 1940, por conta da crise do café, agora no Vale do Paraíba, no
Nordeste impulsionado pelas secas, muitos migraram e se dirigiram, em boa parte, para a
região da Baixada Fluminense, no Estado do Rio de Janeiro. A região estava ampla ascensão
em virtude das plantações de laranjas que haviam conquistado o mercado internacional e
necessitavam de mão de obra.
9

ABSTRACT

COSTA, Carlos Eduardo C. De Pé Calçado: Família, Trabalho e Migração na Baixada


Fluminense, RJ. (1888-1940). Tese de Doutorado em História Social do Programa de Pós-
Graduação em História Social, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2013.

The Post-abolition has been highlighted as an important issue for understanding the
experiences of former slaves and their descendants in Brazil and the Americas. This research
aims to further the study of political participation and consequences for family stability in the
field, as well as the migratory process and the stabilization of black and brown, between the
years 1889 and 1940.
We begin our analysis in the municipality of Valencia, the place that concentrated in
recent years of the monarchy, a significant portion of captives in Southeast coffee. During the
First Republic, with the decline of coffee, new investors increased the production of cattle and
eucalyptus that were advancing on the small fields, achievements still slavery. Added to this,
we must ask what the political parameters that allowed a certain extent, permanence and / or
expulsion of the same, the farms.
Because of these events blacks and browns have migrated from the Paraíba Valley,
during the '20s and 30 of the twentieth century, and if directed, in part, for the region of
Baixada Fluminense in Rio de Janeiro. The stabilization in the Baixada Fluminense was
another aspect assessed in this work, as demonstrated demand for land near the big producers
- a process similar to what happened in Jamaica in the post-abolition
10

SIGLAS

AESIRP – Arquivo Eclesiástico de Santa Isabel do Rio Preto

AEMSP – Arquivo Eclesiástico da Matriz de São Pedro e São Paulo de Paraíba do Sul

AMC – Acervo Memórias do Cativeiro

AMMN – Acervo UFF Petrobrás Cultural de Memória e Música Negra

RCN – Ofício do Registro Civil das Pessoas Naturais 1ª Circunscrição de Nova Iguaçu de
Nascimentos

RCO - Ofício do Registro Civil das Pessoas Naturais 1ª Circunscrição de Nova Iguaçu de
óbitos

AP – Arquivo Pessoal

MJERJ - Museu da Justiça do Estado do Rio De Janeiro

APERJ – Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro


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SUMÁRIO

Introdução ................................................................................................... 18

Capítulo 1 - Antecedentes, metodologia e fontes...............................................25

Capítulo 2 - Um retrato em Preto, Branco e Pardo: A Experiência dos


Primeiros Anos do Pós-Abolição na Baixada Fluminense (1888-1890)............. 50

Capítulo 3 - De Calçados Novos: A inserção social de pretos e pardos


na Baixada Fluminense (1888-1940)............................................................... 88

Capítulo 4 - Caminhando de Pés Calçados: A migração no Pós-abolição


(1888-1940)....................................................................................................153

Capítulo 5 - De Pés Cansados: O perfil dos migrantes da Baixada


Fluminense (1919-1940)..................................................................................173

Capítulo 6 - Festejando o reencontro: A Folia de Reis e a construção


de sociabilidades na Baixada Fluminense (1889-1939).....................................230

Conclusão Geral.............................................................................................251

Bibliografia....................................................................................................257

Anexos...........................................................................................................269
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Lista de Tabelas
Tabela 1.1 - Produção de laranjas do Estado do Rio de Janeiro, 1931-34.................29
Tabela 1.2 – Total por tamanho das propriedades segundo o censo de 1920. Município
de Nova Iguaçu.......................................................................................................35
Tabela 1.3 - Total por tamanho das propriedades segundo o censo de 1940. Município de
Nova Iguaçu............................................................................................................35
Tabela 2.1 - Quantidade de Escravos por ano nos Municípios de Iguassú, Valença e
Campos...................................................................................................................52
Tabela 2.2 - Número absoluto e porcentagem da população, por cor, do Município de
Nova Iguaçu, 1872 e 1890. ......................................................................................54
Tabela 2.3 – Situação conjugal dos pais e mães por cor no registro civil de nascimento,
em números absolutos e em %. Nova Iguaçu, 1890..................................................63
Tabela 2.4 – Legitimidade (%) por cor no registro civil de nascimento. Nova Iguaçu,
1890........................................................................................................................65
Tabela 2.5 – Legitimidade (%) por cor no registro civil de óbito. Nova Iguaçu,
1890........................................................................................................................65
Tabela 2.6 – Declarantes (%) por cor nos registros civis de Nascimento. Nova Iguaçu,
1890.........................................................................................................................65
Tabela 2.7 – Sexo (%) por cor no censo de 1890. Município de Nova Iguaçu,
1890........................................................................................................................67
Tabela 2.8 – Presença do nome dos avós (%) por cor no registro civil de nascimento.
Nova Iguaçu, 1890...................................................................................................69
Tabela 4.1 – crescimento populacional Município neutro, 1872 a 1920....................158
Tabela 5.1 - Região de Nascimento das crianças migrantes (%) registradas
tardiamente na Baixada Fluminense, de acordo a cor. Município de Nova
Iguaçu, 1919-1939. ................................................................................................176
Tabela 5.2 - Região de Nascimento dos “auto-declarantes” migrados para a Baixada
Fluminense. Município de Nova Iguaçu, 1919-1939................................................176
Tabela 5.3 - Região de Nascimento (%) dos óbitos de migrados para a Baixada
Fluminense. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939. ..............................................177
Tabela 5.4 - Migrantes para a Baixada Fluminense (%) por ano nos registros civis de
nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1924-1939. ...............................................182
Tabela 5.5 - Região de nascimento (%) dos migrantes nos anos de 1934 e 1939 por
cornos registros civis de nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1934-1939...........183
Tabela 5.6 - Relação sexo por ano de migrantes nos registros civis de nascimento.
Município de Nova Iguaçu, 1934 e 1939..................................................................184
Tabela 5.7 - Legitimidade (%) por cor dos auto-declarantes migrantes
do Vale do Paraíba em 1934, nos registros civis de nascimento. Município
de Nova Iguaçu, 1934..............................................................................................200
Tabela 5.8: Situação Conjugal dos pais (%) por cor dos auto-declarantes migrantes do
Vale do Paraíba em 1934 e 1939, nos registros civis de nascimento. Município de Nova
Iguaçu, 1934 e 1939.................................................................................................201
Tabela 5.9 - Avós (%) por cor dos auto-declarantes migrantes do Vale do Paraíba nos
registros civis de nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1934 e 1939.....................206
Tabela 5.10 - Alfabetização (%) por cor dos auto-declarantes migrantes do Vale do
Paraíba nos registros civis de nascimento. Município de Nova Iguaçu,
1934 e 1939............................................................................................................208
Tabela 5.11 - Local de Nascimento (%) por cor dos migrantes Nordestinos por ano, nos
registros civis de nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1889 - 1939....................222
13

Tabela 5.12 - Registros (%) dos migrantes Nordestinos por ano nos registros civis de
nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1889 - 1939...............................................223
Tabela 5.13 - Cor (%) dos migrantes Nordestinos por ano nos registros civis de
nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1889 - 1939...............................................223
Tabela 5.14 - Legitimidade por cor (%) dos migrantes Nordestinos, nos registros civis de
nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1889 - 1939................................................226
Tabela 5.15 - Avós por cor (%) dos migrantes Nordestinos nos registros civis de
nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1889 - 1939.................................................226
Tabela 5.16 - Analfabetismo (%) entre os migrantes nordestinos, nos registros civis de
nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939...................................................229

Lista de Gráficos
Gráfico 2.1 - Pirâmide sexo-etário (%) de brancos nos registros de óbito em 1890.
Município de Nova Iguaçu, 1890..............................................................................73
Gráfico 2.2 - Pirâmide sexo-etário (%) de pardos nos registros de óbito em 1890.
Município de Nova Iguaçu, 1890..............................................................................73
Gráfico 2.3 - Pirâmide sexo-etário (%) de pretos nos registros de óbito em 1890.
Município de Nova Iguaçu, 1890...............................................................................74
Gráfico 2.4 - Pirâmide sexo-etário (%) de não-brancos nos registros de óbito em 1890.
Município de Nova Iguaçu, 1890...............................................................................74
Gráfico 2.5 - Causas Mortis (%) por cor em 1890. Município de Nova Iguaçu,
1890.........................................................................................................................77
Gráfico 2.6 – A cor (%) por causas mortis em 1890. Município de Nova Iguaçu,
1890........................................................................................................................78
Gráfico 2.7 - Distribuição da cor (%) por região de moradia no registro civil de óbitos.
Município de Nova Iguaçu, 1890................................................................................80
Gráfico 2.8 - Região de falecimento (%) por cor nos registros de óbitos. Município de
Nova Iguaçu, 1890. ...................................................................................................80
Gráfico 2.9 - Composição social da região de residência (%) por cor nos registros civis
de nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1890........................................................81
Gráfico 2.10 - Profissão do pai (%) por cor das crianças registradas em 1890,
nascimentos. Município de Nova Iguaçu, 1890. .........................................................84
Gráfico 2.11 - Profissão da mãe (%) por cor das crianças registradas em 1890,
nascimentos. Município de Nova Iguaçu, 1890...........................................................84
Gráfico 2.12 - profissão dos homens falecidos (%) nos registros de óbito em 1890.
Município de Nova Iguaçu..........................................................................................85
Gráfico 2.13 - profissão das mulheres falecidas (%) nos registros de óbito em 1890.
Município de Nova Iguaçu..........................................................................................86
Gráfico 3.1 - Crescimento populacional do Município de Nova Iguaçu de acordo com os
censos, 1872 a 1920.....................................................................................................92
Gráfico 3.2 - Cor (%) por ano nos Censos Demográficos de 1872, 1890, 1920 e 1940.
Município de Nova Iguaçu. ........................................................................................93
Gráfico 3.3 - Brancos e não-brancos (%) por ano no Censos Demográficos de 1872, 1890,
1920 e 1940. Município de Nova Iguaçu.......................................................................93
Gráfico 3.4 - Relação cor por ano em números absolutos nos Registros civis de
nascimentos. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939.....................................................95
Gráfico 3.5 - Registros civis de nascimento (%) por ano e cor. Município de Nova Iguaçu
1889-1939. ..................................................................................................................95
14

Gráfico 3.6 - Relação brancos e não-brancos por ano em números absolutos nos
registros civis de nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939.......................96
Gráfico 3.7 - Relação brancos e não-brancos por ano em porcentagem nos registros civis
de nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939. ...........................................97
Gráfico 3.8 - Relação cor por ano em números absolutos nos Registros civis de óbitos.
Município de Nova Iguaçu, 1889-1939....................................................................98
Gráfico 3.9 - Relação de cor (%) por ano nos registros civis de óbito. Município de Nova
Iguaçu, 1889-1939..................................................................................................98
Gráfico 3.10 - Relação brancos e não-brancos por ano em números absolutos nos
registros civis de óbito. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939................................99
Gráfico 3.11 - Relação brancos e não-brancos (%) por ano nos registros civis de óbito.
Município de Nova Iguaçu, 1889-1919.....................................................................100
Gráfico 3.12 - Pais e Mães Solteiros (%) por cor e ano nos registros civis de nascimento.
Município de Nova Iguaçu, 1889-1939. ...................................................................103
Gráfico 3.13 - Solteiros (%) por cor e ano nos registros civis de óbito. Município de Nova
Iguaçu, 1889-1939...................................................................................................105
Gráfico 3.14 - Crianças registradas como naturais (%) por ano nos registros civis de
nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939.................................................107
Gráfico 3.15 - Crianças registradas como legítimas (%) por ano nos registros civis de
nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939. ..............................................108
Gráfico 3.16 - Falecidos registrados como naturais (%) por cor e ano nos registros civis
de óbitos. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939....................................................109
Gráfico 3.17 - Falecidos registrados como legítimos (%) por cor e ano nos registros civis
de óbitos. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939. ..................................................109
Gráfico 3.18 - Pai presente (%) por cor e ano nos registros civis de nascimento.
Município de Nova Iguaçu 1889-1939. ..................................................................112
Gráfico 3.19 - Não-parentes (%) como declarantes dos registros civis de nascimento.
Município de Nova Iguaçu, 1889-1939. .................................................................114
Gráfico 3.20 - Parentes (%) como declarantes dos registros civis de nascimento.
Município de Nova Iguaçu, 1889-1939....................................................................115
Gráfico 3.21 - Declarantes (%) Não-parentes dos registros civis de óbitos. Município de
Nova Iguaçu, 1889-1939.........................................................................................116
Gráfico 3.22 - Declarantes (%) parentes dos registros civis de óbitos. Município de Nova
Iguaçu, 1889-1939. ................................................................................................116
Gráfico 3.23 - Avós (%) de crianças brancas por ano nos registros civis de Nascimento.
Município de Nova Iguaçu, 1889-1939. ...................................................................117
Gráfico 3.24 - Avós (%) de crianças pardas por ano nos registros civis de Nascimento.
Município de Nova Iguaçu, 1889-1939......................................................................118
Gráfico 3.25 - Avós (%) de crianças pretas por ano nos registros civis de Nascimento.
Município de Nova Iguaçu, 1889-1939. ....................................................................119
Gráfico 3.26 - Presença de todos os avós (%) por cor e ano nos registros civis de
nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939...................................................120
Gráfico 3.27 - Profissão do pai (%) de crianças brancas nos registros civis de
Nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939. .................................................124
Gráfico 3.28 - Profissão dos falecidos do sexo masculino (%) de brancos e ano nos
registros civis de óbito. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939. ................................124
Gráfico 3.29 - Profissão do pai (%) de crianças pardas nos registros civis de Nascimento.
Município de Nova Iguaçu, 1889-1939......................................................................125
Gráfico 3.30 - Profissão dos falecidos do sexo masculino (%) de pardos por ano nos
registros civis de óbito. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939..................................126
15

Gráfico 3.31 - Profissão do pai (%) de crianças pretas nos registros civis de Nascimento.
Município de Nova Iguaçu, 1889-1939...................................................................126
Gráfico 3.32 - Profissão dos falecidos do sexo masculino (%) de pretos por ano nos
registros civis de óbito. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939................................127
Gráfico 3.33 - Profissão da mãe (%) de crianças brancas nos registros civis de
Nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939................................................129
Gráfico 3.34 - Profissão dos falecidos do sexo feminino (%) de brancos e ano nos
registros civis de óbito. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939...............................130
Gráfico 3.35 - Profissão da mãe (%) de crianças pardas nos registros civis de
Nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939................................................130
Gráfico 3.36 - Profissão dos falecidos do sexo feminino (%) de pardos por ano nos
registros civis de óbito. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939. ...............................131
Gráfico 3.37 - Profissão da mãe (%) de crianças pretas nos registros civis de
Nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939. ...............................................131
Gráfico 3.38 - Profissão dos falecidos do sexo feminino (%) de pretos por ano nos
registros civis de óbito. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939. ...............................132
Gráfico 3.39 - Pais analfabetos (%) por cor e ano nos registros civis de nascimento.
Município de Nova Iguaçu, 1889-1939. ...................................................................133
Gráfico 3.40 - Causas mortis (%) de brancos por ano nos registros de óbito. Município
de Nova Iguaçu, 1889-1939. ....................................................................................135
Gráfico 3.41 - Causas mortis (%) de pardos por ano nos registros de óbito. Município de
Nova Iguaçu, 1889-1939...........................................................................................135
Gráfico 3.42 - Causas mortis (%) de pretos por ano nos registros de óbito. Município de
Nova Iguaçu, 1889-1939. .........................................................................................136
Gráfico 3.43 - Idade média de morte por ano nos registros civis de óbito. Município de
Nova Iguaçu, 1889-1939. ........................................................................................139
Gráfico 3.44 - Região de residência de Brancos (%) por cor e ano nos registros civis de
nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939. ...............................................141
Gráfico 3.45 - Região de residência dos Brancos (%) por ano nos registros civis de óbito.
Município de Nova Iguaçu, 1889-1939. ..................................................................142
Gráfico 3.46 - Região de residência de pardos (%) por cor e ano nos registros civis de
nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939................................................142
Gráfico 3.47 - Região de residência dos Pardos (%) por ano nos registros civis de óbito.
Município de Nova Iguaçu, 1889-1939....................................................................143
Gráfico 3.48 - Região de residência de pretos (%) por cor e ano nos registros civis de
nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939. ..............................................143
Gráfico 3.49 - Região de residência dos pretos (%) por ano nos registros civis de óbito.
Município de Nova Iguaçu, 1889-1939....................................................................144
Gráfico 5.1 - Registros Civis de nascimentos e óbitos em números absolutos. Município
de Nova Iguaçu, 1889 – 1939..................................................................................174
Gráfico 5.2 - Sexo etário (%) de todos os migrantes nos registros civis de nascimento.
Município de Nova Iguaçu, 1934-1939....................................................................178
Gráfico 5.3 - Pirâmide sexo-etário (%) de todos os migrantes nos registros civis de
nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1934-1939. ...............................................179
Gráfico 5.4 - Pirâmide sexo-etário (%) de todos os migrantes pardos nos registros civis
de nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1934-1939. ...........................................180
Gráfico 5.5 - Pirâmide sexo-etário (%) de todos os migrantes pretos nos registros civis
de nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1934-1939. ...........................................180
Gráfico 5.6 - Pirâmide Sexo-Etário (%) dos migrados auto-declarantes em 1934, nos
registros civis de nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1934. .............................185
16

Gráfico 5.7 - Pirâmide Sexo-Etário (%) dos migrados auto-declarantes em 1939, nos
registros civis de nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1939. ............................186
Gráfico 5.8 - Pirâmide sexo-etário (%) dos migrantes brancos no ano de 1934, nos
registros civis de nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1934. ............................187
Gráfico 5.9 - Pirâmide sexo-etário (%) dos migrantes pardos no ano de 1934, nos
registros civis de nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1934. ............................187
Gráfico 5.10 - Pirâmide sexo-etário (%) dos migrantes pretos no ano de 1934nos
registros civis de nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1934. ...........................188
Gráfico 5.11 - Pirâmide Sexo-etário de Brancos (%) ao total de cada sexo, 1939, nos
registros civis de nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1939. ...........................188
Gráfico 5.12 - Pirâmide Sexo-etário de Pardos (%) ao total de cada sexo, 1939, nos
registros civis de nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1939. ...........................189
Gráfico 5.13 - Pirâmide Sexo-etário de pretos (%) ao total de cada sexo, 1939, nos
registros civis de nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1939. ...........................189
Gráfico 5.14 - Percentual de migrantes por sexo e década de nascimento em relação ao
total de entrevistados...........................................................................................192
Gráfico 5.15: Percentual de migrantes para a Baixada Fluminense por sexo e década de
nascimento, em relação ao total dos migrados nas entrevistas realizadas no Vale do
Paraíba...............................................................................................................194
Gráfico 5.16 – População por ano segundo os censos. Paraíba do Sul, Valença,
Vassouras e Iguassú..............................................................................................195
Gráfico 5.17: Pirâmide sexo etária (%) de migrantes brancos do Vale do Paraíba, nos
registros civis de nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1934 e 1939................. 202
Gráfico 5.18: Pirâmide sexo etária de migrantes pardos (%) do Vale do Paraíba, nos
registros civis de nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1934.............................202
Gráfico 5.19: Pirâmide sexo (%) etária de migrantes Pretos do Vale do Paraíba, nos
registros civis de nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1934..............................203
Gráfico 5.20: Pirâmide sexo etária (%) de migrantes brancos o Vale do Paraíba, nos
registros civis de nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1939..............................203
Gráfico 5.21: Pirâmide sexo etária (%) de migrantes Pardos do Vale do Paraíba, nos
registros civis de nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1939..............................204
Gráfico 5.22: Pirâmide sexo etária de migrantes Pretos (%) do Vale do Paraíba, nos
registros civis de nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1939..............................204
Gráfico 5.23 - Profissão (%) dos migrantes do Vale do Paraíba por cor em cada
categoria sócio-profissional nos registros civis de nascimento. Município de Nova
Iguaçu, em 1934. ...................................................................................................210
Gráfico 5.24 - Profissão (%) dos migrantes do Vale do Paraíba por cor divididos em
todas as categoriais sócio-profissionais, nos registros civis de nascimento. Município de
Nova, 1934. ...........................................................................................................210
Gráfico 5.25 - Profissão (%) dos migrantes do Vale do Paraíba por cor em cada
categoria sócio-profissional em 1939.......................................................................211
Gráfico 5.26 - Profissão (%) dos migrantes do Vale do Paraíba por cor divididos em
todas as categoriais sócio-profissionais, em 1939....................................................211
Gráfico 5.27 - Divisão da cor (%) em cada profissão dos letrados, nos registros civis de
nascimento, em 1934 e 1939. Município de Nova Iguaçu, 1934 e 1939. ..................212
Gráfico 5.28: Divisão das cores (%) pelas profissões dos letrados, nos registros civis de
nascimento em 1934 e 1939. Município de Nova Iguaçu, 1934 e 1939. ....................213
Gráfico 5.29 - Registros por ano de nordestinos em números absolutos, nos registros
civis de nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939.....................................220
17

Gráfico 5.30 - Estado civil (%) por cor dos migrantes Nordestinos por ano nos registros
civis de nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1889 - 1939..............................222
Gráfico 5.31 - faixa etária (%) de brancos migrantes auto-declarantes nordestinos nos
registros civis de nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939. ................224
Gráfico 5.32 - Faixa etária pardos (%) auto-declarantes migrantes nordestinos nos
registros civis de nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939. ................225
Gráfico 5.33 - Divisão dos ofícios (%) por cor, nos registros civis de nascimento dos
auto-declarantes nordestinos. Município de Nova Iguaçu, 1919-1939. ................227
Gráfico 5.34 - Divisão de cada cor (%) entre as categorias sócio-profissionais. Auto-
declarantes nordestinos, nos registros civis de nascimento. Município de Nova Iguaçu,
1919-1939. ........................................................................................................228
18

Introdução
Essa pesquisa pretende trabalhar duas questões muito importantes para o período do
pós-abolição: Família e Migração. O local escolhido para desenvolver a pesquisada foi o
antigo Município de Iguassú, que hoje corresponderia a quase toda a Baixada Fluminense.
Nessa região, a escravidão não foi tão amplamente utilizada como mão de obra como em
outras regiões, como o Vale do Paraíba e Norte Fluminense. Além disso, nas décadas de 1920
a 1940 esse município recebeu uma leva significativa de migrantes, provindos principalmente
do Vale. A finalidade última era compreender se essa região empreendeu uma inserção ou
segregação social da população preta e parda no pós-abolição. Para analisar tal processo
utilizei diversas fontes, como: entrevistas, relatórios de província, assentos eclesiásticos e o
registro civil.
Nesta tese encontram-se dez anos de pesquisa sobre o pós-abolição. O interesse pela
área surgiu quando da primeira visita a Comunidade Quilombola Remanescente de Escravos
de São José da Serra, localizada no Município de Valença - interior do Estado do Rio de
Janeiro – no ano de 2003. E a maior surpresa foi encontrar uma comunidade com cerca de 200
pessoas, ainda residentes na mesma fazenda onde seus pais e avós foram escravos. Várias
histórias me interessaram como a organização da comunidade, os trabalhos coletivos, a lógica
contratual dos fazendeiros, a construção de uma identidade quilombola e a manifestação
cultural do Jongo.
No entanto, dois detalhes sempre chamaram a atenção: a relação familiar e as histórias
de parentes que foram embora e nunca mais voltaram. Ali, todos se reconhecem como
parentes e valorizam essa identidade. No ano 2004, quando eu ainda era bolsista da Professora
Hebe Mattos, consegui localizar os ancestrais dessa comunidade: os escravos de José
Gonçalves Roxo, denominados Tertuliano e Miquelina. Para além da memória dos ancestrais
havia na comunidade vários relatos de saída de parentes que nunca mais voltaram. Avós, tios,
sobrinhos que tinham abandonado a fazenda e tinham se dirigido para a Baixada Fluminense,
para trabalhar nos laranjais. Ana Rios também encontrou relatos semelhantes em várias
entrevistas, demonstrado que a migração tinha feito parte da história de ex-escravos e de seus
descendentes.
Desde 2004 quando comecei a participar da organização final das fotos do livro
“Memórias do Cativeiro” escrito por Ana Lugão Rios e Hebe Mattos, venho me dedicando a
problemática do pós-abolição. O livro, em certo sentido, inaugurou esse período como um
lugar a ser estudado. Na época ainda havia muitas dificuldades em conseguir delimitar as
trajetórias de libertos e de seus descendentes no Brasil. A falta de fontes era o principal
19

argumento de historiadores que não conseguiam avançar para além da abolição. Em capítulo
introdutório, ambas as autoras levantaram diversas questões que hoje começam a ser
respondidas.
A maior preocupação nessa tese não era a de tentar reconstruir trajetórias de libertos
e/ou seus descendentes diretos. Afinal, na última década de escravidão no Brasil proprietários
empreenderam diversas ações para manter os escravos em suas propriedades como
trabalhadores livres. Uma dessas práticas foram as alforrias em massa.1 O meu desejo era
recuperar a trajetória daqueles que vivenciaram a Primeira República e que por conta de sua
cor, e independente de seu passado, tinham a marca da escravidão. Isso era um grande
problema para época, afinal a vários séculos já existiam no Brasil pessoas da cor preta ou
parda , libertos ou filhos de livres, que haviam de certa maneira ascendido socialmente. Por
isso, era impossível identificar todos os pretos e todos os pardos como iguais aos recém
libertos e com a mesma situação material.
A família foi uma questão escolhida principalmente pela ampla bibliografia que já
existia na escravidão.2 E uma pergunta que ficava era a seguinte: se nesse período de
privações, desmandos, poucos cuidados o escravo possuía uma família por que no pós-
abolição o estudo desse tema foi abandonado? Ana Rios foi uma das primeiras a tentar
encontrar e definir essa família no pós-abolição.3 Utilizando registros civis de nascimento e de
óbito ela acompanhou a população de pretos e pardos até a década de 1920, quando a cor dos
registrados diminuiu consideravelmente.
Mas uma questão ainda ficava no ar: se o escravo era um agente que negociava, tinha
família, entrava em conflito, será que após a abolição ele se tornou inerte?
Ainda hoje, os estudos sobre família no pós-abolição estão preocupados somente com
as trajetórias de libertos e não da população como um todo. Como já afirmei nem todos pretos
e pardos saíram da mesma forma após a abolição, e caso o racismo tivesse impedido o acesso

1
MATTOS, Hebe Maria. Das Cores do Silêncio. Significados da liberdade no Brasil escravista. Rio de
Janeiro, Arquivo Nacional, 1995, p. 329.
2
MATTOSO, Katia de Queirós. Ser escravo no Brasil. São Paulo:Brasiliense, 1982. FLORENTINO, Manolo;
GÓES, J. R. A paz das senzalas: famílias escravas e tráfico atlântico, Rio de Janeiro, c. 1790-c.1850. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 1997. SLENES, R. W. Na senzala, uma flor: esperanças e recordações na
formação da família escrava Brasil Sudeste, Século XIX. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999. MOTTA, J.
F. Corpos escravos, vontades livres. Estrutura de posse de cativos e família escrava em um núcleo cafeeiro
(Bananal, 1801-1829), tese apresentada ao Departamento de Economia da Universidade de São Paulo, 1990.
ROCHA, Cristiany Miranda. Histórias de famílias escravas. Campinas: Editora Unicamp, 2004.
3
RIOS, A. L. Família e Transição (Famílias negras em Paraíba do Sul, 1872-1920). Dissertação de Mestrado
apresentada no Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal Fluminense, Niterói, 1990.
20

ao trabalho e a moradia, ele não seria direcionado somente para os libertos, mas sim para
todos que carregavam o passado da escravidão em sua cor. Afinal, no dia 14 de Maio de 1888,
independente da condição material, todos ficaram de pés calçados. Por isso torna-se essencial
estudar a população preta e parda como um todo, e não somente os libertos.
A migração é uma parte intrínseca da experiência de vida do africano.4 A primeira
migração era a realizada do local moradia, após ter perdido uma luta, ou de ser vendido por
dívidas, ou mesmo entregue por parentes, em direção as cidades do litoral – do Oriente médio
ou Atlântico posteriormente.5 Após chegar aos portos eram embarcados para a segunda
jornada em direção as Américas.6 Chegando aos seus locais de destino, por exemplo, o Rio de
Janeiro, após um longo período de espera e de “engorda”, quando comprados, tinham que
caminhar até a casa de seu proprietário, que poderia estar localizado no centro da cidade, no
Vale do Paraíba ou nas minas.7 Quando se interrompe o tráfico atlântico de cativos, muitos
dos que já tinham chegado ao nordeste, agora tinham que caminhar até as fazendas de café no
Sudeste.8 Por fim, após a abolição, com a crise econômica de todas essas regiões, sobrava
como estratégia de sobrevivência, a migração para outras localidades em ascensão, como a
Baixada Fluminense.
Durante muitos anos a migração no pós-abolição foi compreendida como um processo
de perda por parte dos ex-cativos. Até pouco tempo atrás, ainda se explicava a formação de
favelas e guetos na cidade do Rio de Janeiro em decorrência da migração dos libertados pela

4
BERLIN, Ira. The making of African America: the four migrations: Viking, 2010.
5
THORNTON, J. K. A África e os africanos na formação do mundo Atlântico 1400 –1800. Rio de Janeiro:
Ed. Elsevier, 2004, LOVEJOY, Paul. A escravidão na África: Uma história de suas transformações. Rio de
Janeiro, Ed. Civilização Brasileira, 2002.
6
, Miller, Joseph. “O Atlântico escravista: açúcar, escravos e engenhos”. In Reis, João José e SILNEIRA, Renato
da (orgs.). Revista Afro-Ásia. Número 19/20, 1997. Silva, Alberto da Costa e. A Manilha e o Libambo: A
África e a escravidão de 1500 a 1700. Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira, 2002. Soumonni, Elisée. Daomé e o
mundo atlântico. Rio de Janeiro, Centro de estudos Afro-Asiáticos, 2001. COSTA E SILVA, Alberto da. Um
rio chamado atlântico. A África no Brasil e o Brasil na África. R.J.: Nova Fronteira / EdUFRJ, 2003 e
FLORENTINO, M. Em costas negras: uma história do tráfico atlântico de escravos entre a África e o Rio
de Janeiro (séculos XVIII e XIX). Rio de Janeiro: Arquivo Nacional. 1995.
7
SALLES, Ricardo. E o vale era escravo. Vassouras, séc. XIX, senhores e escravos no coração do Império.
RJ: Civilização Brasileira, 2008.
8
SLENES, R. The demography and economics of Brazilian Slavery: 1850-1888. Phd. Stanford University,
1976.
21

Lei Áurea.9 Porém, não há qualquer estudo seriado que entreviste e/ou colete informações
sobre as origens dos primeiros moradores de favelas.
Poucos historiadores nos dias de hoje trabalharam a questão da migração no pós-
abolição no Brasil, sendo que na maior parte das pesquisas apenas a tangenciaram. Uma das
primeiras foi Maria Helena Machado ao afirmar que nos últimos anos da escravidão
ocorreram fugas em massa para diversas regiões de São Paulo, contudo, sua pesquisa não
avança para o período posterior a escravidão.10 Lucia Helena da Silva, tentou coletar
trajetórias de migrantes pretos e pardos originários de São Paulo.11 No entanto, encontrou
poucos casos, e não conseguiu dar uma dimensão maior ao processo, pois se concentrou
apenas nos registros da Casa de Detenção. Walter Fraga conseguiu acompanhar uma migração
de ex-escravos para região metropolitana de Salvador, mas não avançou, pois encontrou
poucas trajetórias, não observáveis como um comportamento de grupo.
A primeira coisa em mente ao analisar a migração no pós-abolição é que ela não
ocorreu, pelo menos no Rio de Janeiro, como todos esperavam. Ou seja, os libertos em 13 de
maio de 1888 não migraram para a Capital Federal no dia seguinte, pelo contrário a maior
parte permaneceu nas mesmas fazendas de origem. E os que migraram foram para regiões
próximas, sem abandonar o campo.12 Então quem migra? E quando migra?
Durante a década de 1920 e 1940 houve uma emigração em massa do Vale do Paraíba,
principalmente por conta da crise do café.13 Analisando entrevistas com a pesquisadora Ana
Rios, descobrimos que a maior parte dos migrantes não foram para a cidade do Rio de
Janeiro, mas sim a Baixada Fluminense, e muito menos foram os libertos que a
empreenderam.14 Desse modo, nessa pesquisa pretendo analisar a migração de descendentes
diretos ou indiretos de escravos nascidos no pós-abolição para a Baixada Fluminense.

9
CARVALHO, José M. Os Bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo, Companhia
das Letras, 1987, p. 37.
10
MACHADO, Maria Helena. O Plano e o Pânico. Os movimentos sociais na década da abolição. Rio de
Janeiro. EDUFRJ, 1994.
11
SILVA, Lucia Helena de Oliveira Construindo uma Nova Vida: Migrantes Paulistas Afro-descendentes
na Cidade do Rio de Janeiro no Pós-Abolição (1888-1926), Tese de Doutorado em História Apresentada na
Universidade Estadual de Campinas. 2001.
12
RIOS, A. e MATTOS, H. Memórias do Cativeiro. Família, Trabalho e Cidadania no Pós-Abolição. Rio de
Janeiro, Civilização Brasileira, 2005.
13
Idem.
14
COSTA, C. E. C.; RIOS, Ana. M. Lugão. “Famílias Negras, migração e dispersão no pós-abolição: duas
fontes para um problema”. In: XXVIII International Congress of the Latin American Studies Association,
Rio de Janeiro, 2009.
22

A visualização desse fenômeno só foi possível por conta de uma adoção teórica e
metodológica pouco usual para estudos de Primeira República. No capítulo inicial desenvolvo
principalmente as questões teóricas como a redução de escala de análise, a busca por indícios
de passagem de migrantes, assim como a pesquisa seriada e demográfica dos indivíduos que
buscaram a Baixada Fluminense para residir.15 Trata-se também de avaliar as ações e escolhas
dos indivíduos, que tomavam as decisões baseados nas informações que obtinham. Assim
como identificar os comportamentos ao longo dos anos através da busca do que ele s
consideravam valioso.16 Por isso a migração não é vista como um último mecanismo de
sobrevivência, mas sim como estratégia para ascender socialmente.
Para atingir os objetivos de pesquisa optei por diversas fontes. Os relatórios de
Província localizam-se no Arquivo Público do Estado e assim como os censos, que se
encontram digitalizados e disponíveis no sítio do IBGE, ambos foram utilizados como
material de consulta. Também utilizei dois arquivos de registros eclesiásticos, o primeiro
localiza-se na Igreja de Santa Isabel do Rio Preto e o segundo na Cúria Metropolitana de
Nova Iguaçu.17 As entrevistas e filmagens foram realizadas por Ana Rios, Hebe Mattos e por
mim, e todas estão localizadas em dois acervos: o Acervo Memória do Cativeiro e o Acervo
UFF Petrobrás de Memória e Música Negra.18 E por último os registros civis de nascimento e
de óbito, localizados no 1º Ofício de Registros de Pessoas Naturais do Município de Nova
Iguaçu.
Desse modo, os capítulos da tese se dividem da seguinte da forma. No primeiro
capítulo farei um breve apanhado da historiografia regional da Baixada Fluminense. Trata-se
de construir um contexto da região, que vai desde o final do século XIX até o ano de 1940.
Além disso, discuto sobre as teorias e metodologias empregadas, dando um maior destaque
para os registros civis. Demando mais tempo sobre essa fonte, em primeiro lugar para reforçá-

15
LEVI, G. A Herança Imaterial – Trajetória de um exorcista no Piemonte do século XVII. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2000, GRENDI, E. “La micro-analise: fra antropologia e storia”. In: Polanyi:
dall’antropologia econômica alla microanalisi storica. Milão: Etas Libri, 1978, GRENDI, Edoardo,
“Microanalise e História Social”, In: OLIVEIRA, Mônica Ribeiro & ALMEIDA, Carla Maria Carvalho.
Exercícios de micro-história. Rio de Janeiro: ed. FGV, 2009, LEVI, Giovanni. "Sobre a Micro-História" in:
BURKE, P. (org). A Escrita da História: novas perspectivas SP, UNESP, 1992, GINZBURG, Carlo. A micro-
história e outros ensaios. Rio de Janeiro: Bertrand; São Paulo: Difel, 1991, REVEL, Jacques (Org.). Jogos de
escalas: a experiência da microanálise. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 2000.
16
BARTH, Fredrik. O guru, o iniciador e outras variações antropológicas. Rio de Janeiro, Contra-Capa, 2000
e Barth, Fredrik. Process and form in social life. vol. 1, London: Routlegde&Kegan Paul, 1981.
17
Ambos futuramente serão disponibilizados no sítio www.historia.uff.br/labhoi .
18
As transcrições podem ser visualizadas no seguinte sítio: http://www.historia.uff.br/jongos/acervo/.
23

la como fonte confiável, e em segundo lugar para encorajar futuros historiadores a se


debruçarem sobre ela. Mostro que ela pode ser usada não apenas como fonte serial, mas
também qualitativa.
No segundo capítulo, denominado De Pé Calçado, um retrato em preto, branco e
pardo, tento compreender o imediato pós-abolição na Baixada Fluminense. O capítulo serve
para complementar as pesquisas sobre os primeiros anos da Lei Áurea, comparando os dados
encontrados nessa tese com os trabalhos de Ana Rios, para o Vale do Paraíba e de Hebe
Mattos para o Norte Fluminense. Pretende-se dessa forma construir um panorama das
experiências sociais, de família, trabalho e moradia no Estado do Rio de Janeiro.
O capítulo três apresenta pela primeira vez a construção e/ou manutenção da família
no pós-abolição, ao longo de 50 anos. Nesse capítulo tento reconstruir, a cada cinco anos, os
projetos de vida, a legitimação da família, os locais de trabalho, de moradia, o acesso a
educação e a saúde, a qualidade de vida, a mobilidade social e a mudança de cor. Trata-se de
comparar a situação social de brancos, pardos e pretos, assim como perceber a mobilidade
social de todos.
O capítulo 4 e 5 se complementam e foram divididos apenas para ter uma melhor
compreensão do problema. No capítulo 4 construo a migração no pós-abolição como um
problema histórico, mostrando o quanto a bibliografia estrangeira avançou nesse tema, dando-
lhe papel de campo de estudo. Também discuto de que forma visualizo a migração, assim
como discuto a dificuldade em se trabalhar com migrações internas no Brasil. No capítulo 5
separo todos os migrantes que escolheram a região da Baixada Fluminense como local de
moradia, tentando identificar os seus perfis.
Desse modo, separo os dois principais grupos, os originários do Vale do Paraíba e do
Nordeste. Na pesquisa consigo perceber que a migração se dá em estágios, se em um primeiro
momento a migração é realizada por homens que são jovens e adultos, na segunda há a
chegada de mulheres e da família por completo. Foi possível notar que brancos migraram de
forma bem diferenciada em comparação aos pardos e pretos. Para os nordestinos a situação
foi bem parecida. Enquanto na primeira onde, ainda no século XIX, eles migravam em
famílias, como refugiados da seca, na década de 1920 são homens também jovens a
comparecer a região.
No último capítulo, tento mostrar outro lado do processo da migração, mais cultural.
Após algum tempo na região, morando em barracões ou em casa coletivas, enfim os migrados
conseguem se estabilizar. Após esse processo de estabilização começa a reconstrução das
redes sociais, perdidas com a migração. Nesse processo de conhecer os vizinhos e aumentar o
24

número de amigos, a Folia de Reis aparece como um ótimo mecanismo de sociabilidade. Essa
manifestação cultural, trazida tanto por pessoas do Vale do Paraíba quanto por Nordestinos,
modificou-se em comparação a sua origem, o campo, para se adaptar a adaptar a nova
realidade da cidade em ascensão. Uma das principais mudanças foram os dias de festejo,
agora nos fins de semana, e a possibilidade de incorporar qualquer pessoa, mesmo sem laço
parental.
25

Capítulo 1

Antecedentes, metodologia e fontes.

Ainda hoje existem poucos estudos acadêmicos que utilizaram como espaço territorial
de pesquisa a Baixada Fluminense. Neste capítulo tento identificar as principais pesquisas
sobre a região, explorando um recorte temporal referente ao auge da produção e exportação de
laranja, do final do século XIX até a década de 1940, discutindo a bibliografia existente e
dando-lhe novos contornos.
Na parte seguinte do capítulo exploro as matrizes metodológicas e as críticas
referentes às fontes, em sua maior parte inédita, utilizadas no presente trabalho. Em segundo
lugar, cabe destacar o lugar da pesquisa, situando-a no campo do estudo populacional e não na
demografia histórica, como a existente em diversos trabalhos para os séculos anteriores ao
XIX. Para além das análises de fontes seriais, pretendo aplicar uma metodologia, na qual as
entrevistas não apenas servem como elementos narrativos e qualitativos (como as
coincidências narrativas e as mini-biografias), mas sim contabilizados, como Ana Lugão Rios
propôs em diversos trabalhos. Assim como, reforço o emprego de uma fonte inexplorada, pelo
menos para a área dos estudos dos grupos sociais no período do pós-abolição, a análise do
registro civil de nascimento e de óbito do Município de Nova Iguaçu, o único, até o momento,
a apresentar a categoria “cor” desde o ano de 1889.

Antecedentes e Contexto da Baixada Fluminense


Quando se trata da contextualização política, econômica e social dos últimos anos da
Monarquia na Baixada Fluminense, a bibliografia é bem escassa. Enquanto os esforços de
uma historiografia recente buscam avaliar a importância da região no período Colonial e do
Império - como entreposto comercial entre as minas e o porto do Rio de Janeiro -19 pouco se

19
Entre os historiadores atuais destacam-se as pesquisas publicadas de Nielson Bezerra e Marisa Soares em
BEZERRA, N. R. ; SOARES, M. C. . Escravidão Africana no Recôncavo da Guanabara, séculos XVI-XIX.
1. ed. Niterói-RJ: EdUFF, 2011; e as pesquisas defendidas em programas de pós-graduação no Rio de Janeiro:
DEMETRIO, D. Famílias escravas no Recôncavo da Guanabara: séculos XVII e XVIII. Dissertação de
Mestrado defendida no PPGH-UFF, 2008 e SOUZA, R. M. Terras Foreiras: Espaço de Conflito Agrário no
Recôncavo da Guanabara (1751/77). Dissertação de Mestrado defendida no PPGH-UFF, 2001.
26

atentou para a segunda metade do século XIX.20 Um dos livros mais citados, que aborda a
temática dessa Tese, é o “Cana, Café e Laranja” de Waldick Pereira. Escrito na década de 70,
propondo-se a produzir uma história econômica de Nova Iguaçu, o autor preocupou-se em
avaliar os ciclos econômicos da região expostos em seu título.21 E, apesar de seus inúmeros
problemas, como a falta de citação da maior parte das fontes consultadas, o livro ainda é
muito consultado por estudantes e historiadores e, dessa forma, ainda é uma referência, e
ponto de partida, para quem pretende iniciar uma pesquisa na Baixada Fluminense.
Em meados do século XIX o antigo município de Iguassú havia se tornado um dos
maiores entrepostos comerciais entre o Vale do Paraíba e a cidade do Rio de Janeiro. Boa
parte da produção do café, assim como produtos manufaturados, eram comercializados e
escoados por dois caminhos, passando pela região. Um deles, era a Estrada do Comércio, cujo
traçado ligava a região de Ubá, em Minas Gerais ao porto de Iguassú. De acordo com
Waldick, a estrada margeava a Serra do Mar e por ela o transporte de mercadorias era
realizado por mulas que transportavam em média oito arrobas de café.22 Por conseguinte, ao
chegar ao Porto de Iguassú, além da trocas de provisões a produção era diretamente escoada,
através do rio que levava o mesmo nome, para a Cidade do Rio de Janeiro. O segundo
caminho era pela Serra do Tinguá, que ligava Iguaçu até o Município de Paraíba do Sul. Ela
foi utilizada inicialmente para o escoamento do ouro provindo de Minas Gerais, mas após a
segunda metade do século XIX também serviu para a circulação de café e de produtos
manufaturados.
De acordo com Flávio Gomes, durante esse período, as trocas de mercadorias e o
espaço geográfico de Iguassú era controlado por “quilombolas, escravos assenzalados, forros,
proprietários rurais e taberneiros brancos e até carregadores de ganho da Côrte.”23 Dentre
as áreas produtivas controladas por escravos e libertos em Iguassú, estava o comércio pelos
rios. O Rio Iguassú, antes navegável, desembocava na Baía de Guanabara, e por ele muitos
barqueiros foram responsáveis pelas trocas mercantis, principalmente durante o século

20
O Mapa da localização da Região aqui denominada de Baixada Fluminense encontra-se no anexo desta Tese.
21
PEREIRA, Waldick. Cana, Café e Laranja: História econômica de Nova Iguaçu. Rio de Janeiro:
FGV/SEEC, 1977.
22
PEREIRA, W. op. cit., 1977, p. 52.
23
REIS, João José; GOMES, Flávio dos Santos (Orgs.). A Liberdade por um Fio. História dos Quilombos no
Brasil. SP, Cia. das Letras, 1996, p. 278 apud VELASCO E CRUZ, Maria Cecília “Tradições Negras na
Formação de um Sindicato: Sociedade de Resistência dos Trabalhadores em Trapiche e Café, Rio de Janeiro,
1905-1930”. In: Afro-Ásia, n. 24, 2000, p. 278.
27

XVIII.24 Além das trocas de produtos provindos dos portos da cidade do Rio de Janeiro, o
comércio barqueiro era nutrido pela produção de alimentos do Recôncavo da Guanabara. A
farinha de mandioca foi um dos principais produtos dessa região, principalmente da região
próxima ao atual município de Magé, que aliada ao trabalho escravo, na maior parte dos casos
de mulheres africanas, e de pequenas propriedades subsistiu as plantações de açúcar da região
e a Côrte.25
Contudo, ao longo do século XIX, e para ser mais específico após sua metade, a antiga
Villa de Iguassú26 foi perdendo importância. E o principal vilão foi o trem. O primeiro trecho
da estrada de ferro foi inaugurado pelo Barão de Mauá em 1854, e se alongava do porto de
Mauá à fazenda de Fragoso, na Vila de Estrela. Posteriormente, a linha atingiu a fazenda de
Belém, atual Paracambi, recebendo as primeiras cargas de café de Mendes, da Sacra Família e
de Piraí. Em 1865, o trem havia chegado a Barra do Piraí, Ipiranga, Vassouras, Desengano,
Concórdia, Paraíba do Sul e Entre Rios. Naquela época, o trem já acumulava as funções de
transporte de passageiros e, principalmente, de condução da produção do café para o porto do
Rio de Janeiro.27
O projeto inicial previa a ligação da região cafeeira até a zona portuária do Rio do Rio
de Janeiro. Ao mesmo tempo em que a linha férrea trazia novos empreendimentos, novas
oportunidades de comércio e muitos passageiros, os portos foram perdendo importância
econômica. O golpe final ocorreu na inauguração da Linha de Ferro Dom Pedro II, em 1858.
A estrada passou a ligar a atual estação Central do Brasil a Queimados, ainda nesse período
pertencente ao antigo Município de Iguassú. E, por fim, quando chegou às cidades produtoras
de café, como Barra do Piraí em 1863, toda a economia do Município passou a ser
direcionada para a mais nova linha férrea, deixando de lado a antiga sede, localizada em Vila
de Cava, e passando a se direcionar para Maxambomba – que posteriormente recebeu o nome
de Nova Iguaçu.28 Após um curto período, e incentivado por uma epidemia de “cólera
morbus” a população passou a morar na nova sede.

24
BEZERRA, N. R. . Escravidão, Farinha e Comércio no Recôncavo do Rio de Janeiro, século XIX. 1. ed.
Duque de Caxias-RJ: Clio-INEPAC, 2011, p. 72.
25
BEZERRA, N. R., op. Cit., 2011, p. 58.
26
O antigo Município de Iguassú congregava os atuais municípios emancipados de: Japeri, Belford-Roxo,
Queimados, Mesquita, Nilópolis, São João de Meriti e Duque de Caxias.
27
PEREIRA, W. op. cit., 1977, p. 53-54.
28
Idem.
28

Apesar de um papel secundário, o antigo município também ensaiou uma produção de


café. De acordo com Pereira, por ser um entreposto comercial de trapiche e café, muitas
mudas foram deixadas para trás. As regiões serranas, hoje conhecidas como Tinguá, Estrela,
Jaceruba e Japeri, foram os locais escolhidos para a produção. Apesar de a Baixada
Fluminense estar no caminho dos migrantes do Vale do Paraíba, na virada do século XIX para
o XX, ela se encontra muito mais devastada economicamente do que o Vale do Paraíba. A
plantação de café que ali existia havia entrado em estagnação muito antes do que no Sudeste
Cafeeiro, o que motivou inclusive a saída de muitas pessoas da região.29 Todavia, não houve
uma grande projeção da região em comparação às cidades do Vale do Paraíba, pois a
30
movimentação econômica da região ainda residia sobre o status de entreposto comercial.
Isto é, no imediato pós-abolição a região não era um local atrativo para migrantes de diversas
regiões. Porém, esse panorama modificou-se na década de 1920.

Laranjada na Baixada
Com o crescimento econômico promovido pelo trem, o município de Estrella, até
então separado politicamente de Iguassú, perdeu importância na região.31 Paralelamente à
construção das estradas de ferro por toda a Baixada, dois outros problemas contribuíram para
crise econômica do final do século XIX. Aquela era uma região caracterizada por grandes
extensões de terras alagadiças e de brejos, aos quais contribuíam para a proliferação rápida de
doenças. Esse foi o caso da antiga sede de Iguassú, Vila de Cava, quando na virada do século
sofreu um surto de cólera-morbus e de malária, que impediu, temporariamente, o tráfego de
pessoas e de produtos pelos rios. Parte dos moradores optou por migrar, escolhendo como
local Maxambomba, que começava a despontar economicamente nesse período,
principalmente em virtude da estação de trem.
Maxambomba, ou “Machine-Bomb” como inicialmente foi chamada, no início do
século XX. estava crescendo economicamente, primeiro, por conta da linha férrea que cortava
o distrito e, segundo, pela produção de laranjas. Em virtude desses fatos, de acordo com o
decreto n.º 1.331 de 9 novembro de 1916, Maxambomba foi elevada à sede do município e
passou a se chamar Nova Iguaçu.32

29
Idem.
30
PEREIRA, W. op. cit., 1977, p. 86-87.
31
PEREIRA, W. op. cit., 1977, p. 53.
32
No período estudado, entre 1888 a 1940, o nome do Município mudou pelo menos três vezes. Para impedir
futuras confusões entre termos, optou-se por utilizar apenas o nome atual, Município de Nova Iguaçu, para
29

De acordo com Pereira, a laranja era uma fruta plantada há muito tempo no Rio de
Janeiro. Produzida em pequenas propriedades ou “chácaras”, na segunda metade do século
XIX era vendida apenas para o mercado interno. Nesse período, São Gonçalo, ainda unido ao
Município de Niterói, ganhou destaque ao iniciar uma produção direcionada apenas a
mercados vizinhos ao município. Já no final do século, ela passou a ser comercializada em
São Paulo. 33
Na virada do século XIX para o XX, a produção de laranja se espalhou pelo Rio de
Janeiro. As fazendas que haviam entrado em crise econômica estavam abandonadas e/ou
foram loteadas. Esse era um cenário típico para o tipo de produção que a laranja exigia, ou
seja, a de pequenas propriedades ou “chácaras”.34 As regiões que despontavam
economicamente no Estado na produção de laranjas, nesse período, foram: São Gonçalo,
Campo Grande, Bangu, Santa Cruz e Nova Iguaçu. Para além do Rio de Janeiro, São Paulo
também investiu na produção, obtendo uma maior produtividade por pé de laranja em
comparação aos municípios do Rio.35 Para se ter uma melhor noção da importância
econômica dessa atividade no Estado do Rio de Janeiro, segue abaixo os números do
Relatório de Interventoria do Estado do Rio de Janeiro:

Tabela 1.1 - Produção de laranjas do Estado do Rio de Janeiro, 1931-34.

Produção Valor
1927-1930 2.863.637kg 49.883:262$000
1931-1934 7.810.498kg 168.607:324$000
Total 4.946.861 kg 118.724:062$000

Fonte: Relatório de Interventoria do Estado do Rio de Janeiro, 1931-34

simbolizar a região da Baixada Fluminense, antes da divisão em pequenos municípios, ocorrido após a década de
50. Na presente pesquisa, considera-se como Baixada Fluminense toda a região pertencente ao antigo município
de Iguassú e de Estrella. Na primeira metade do século XIX, essas regiões eram compostas pelas freguesias de
Nossa Senhora da Piedade do Inhomirim, São João Batista do Meriti, Santo Antônio da Jacutinga, Nossa
Senhora da Conceição de Marapicú, Nossa Senhora do Pilar, Nossa Senhora da Piedade do Iguassú e Nossa
Senhora da Guia de Pacopahyba. Todas essas freguesias, após a década de 1940, tornaram-se os municípios
emancipados de: Nova Iguaçu, Queimados, Japeri, Nilópolis, Mesquita, São João de Meriti, Belford Roxo,
Mesquita e Paracambi.
33
PEREIRA, W. op. cit., 1977, p. 114.
34
Idem.
35
Idem.
30

Ou seja, em comparação as outras atividades, a laranja demonstrou um crescimento de quase


150%, somente na tonelagem de produção em 7 anos, sem contar a valorização em sua
importância econômica no Estado.
Com o advento da República, foram vários os setores que incentivaram a produção de
cítricos em modelo agroexportador no Brasil. A plantação de laranjas, nestes moldes, no
Estado do Rio de Janeiro e especificamente, em Nova Iguaçu, ganhou força com entrada de
Nilo Peçanha no Governo. Ao assumir o governo estadual, ele passou a se dedicar ao
desenvolvimento de programas que visassem a recuperação econômica do estado.
Entrementes, conforme Marieta Ferreira, ele deixou de ser uma liderança representativa
apenas do setor açucareiro do município de Campos, e passou a contar com a sustentação
política de setores advindos de outras regiões, principalmente das áreas cafeeiras do Vale do
Paraíba. Apesar de estar ligado as esses setores, Peçanha apostava na diversificação da
agricultura como a principal saída para a crise pela qual passava o Estado.36
Em 1909, Nilo Peçanha, ao assumir a presidência do país, colocou em prática seus
planos de incentivo à economia fluminense. No mesmo ano, estabeleceu isenção de direitos
aduaneiros sobre as frutas comercializadas entre Brasil e Argentina. Dessa forma, ampliava o
comércio entre os dois países além de incentivar economicamente a produção de laranjas na
Baixada Fluminense.37 O incentivo as exportações de laranja tiveram início na década de 20,
momento no qual a economia Fluminense necessitava se reerguer economicamente após o
declínio na produção de café. As primeiras exportações foram incentivadas pelo Governo do
Estado que no

“intuito de auxiliar os citricultores, (...) construiu [n]o Estado um pavilhão em São


Gonçalo, para a separação de frutas, dotado das respectivas machinas, tendo sido
posto a disposição do governo, um téchnico do serviço, o agrônomo Felisberto
38
Camargo, Assistente do Instituto Biológico de Defesa Agrícola”.

36
FERREIRA, M. Em busca da Idade do Ouro: as elites fluminenses na Primeira República (1889-1930).
Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 1994, p. 21-22.
37
PEREIRA, W. op. Cit. 1977, p. 115.
38
Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro (APERJ): Relatório da secretaria de agricultura e obras públicas
de 1924, p 133.
31

Somado a isso, “para maior efficiencia no auxílio, a esta diretoria foi feito o adeantamento
de 20:000$000, a fim de custear as diversas despesas.”39 Ou seja, o Governo entrou a fundo
nesse primeiro ensaio de exportação do produto.
Foram três as tentativas de exportação ao longo da década, sendo a primeira sob
direção da Associação dos Fruticultores de São Gonçalo, e as duas posteriores sob o comando
do Estado. Inicialmente houve um problema logístico. Todos desejavam exportar para a
40
Inglaterra, pois o consideravam “um mercado incontestavelmente mais remunerador”.
Contudo, nem todos os barcos dispunham de frigoríficos capazes de manter as laranjas a uma
temperatura eficiente, de modo a impedir a decomposição das frutas. Assim, escolheram
como destino a Argentina.41
O primeiro ensaio de exportação não foi como todos esperavam, fracassou totalmente.
No primeiro embarque, as caixas para Buenos Aires saíram ao preço de 18$450 por unidade,
contudo ao serem vendidas tiveram um déficit de 3$470 por caixa. No 2º embarque, através
do navio Voltaire, pela primeira vez foram exportadas 6 mil caixas de laranja “pêra”,
proveniente do município de Nova Iguaçu, porém, do total, 700 caixas não conseguiram ser
embarcadas por falta de espaço. Chegando ao destino as laranjas do porão interior chegaram
em péssimas condições e muitas frutas do frigorífico estavam estragadas. Resultado: sendo
embarcadas por 17$466 por caixa, tiveram um déficit de 1$600 por unidade.42
O maior problema enfrentado, de acordo com os receptores da mercadoria em Buenos
Aires, não era propriamente a falta de frigorífico, mas sim o tipo de laranja embarcada. Para o
Sr. Glossop ao enviar carta a Secretaria da Associação, nos dia 28 de Outubro de 1924,
informou que:
“VV. SS. São os únicos exportadores da classe Natal. Outros exportadores tem feito
experiência de exportar esta classe, encontrando-a como negócio um fracasso
completo (...) Falei hoje com um Senhor brasileiro que me manifestou que o ano
passado comprou 1000 caixas e que teve tanta perda que a fruta não alcançou a
cobrir o frete. (...) Verá pois V.S. que a exportação da ‘Natal’ é um assunto
43
sumamente difícil”

39
Idem.
40
Ibidem
41
Ibidem
42
Relatório da secretaria de agricultura e obras públicas de 1924, p 134. (APERJ).
43
Idem
32

Em virtude da dificuldade de exportação da classe “natal”, produzida em larga escala no


Município de São Gonçalo, o Sr. Glossop, continua em carta, recomendando ser a laranja
“Pêra” a produzida em Nova Iguaçu, como a melhor para exportação. Completa ele em 5 de
Novembro do mesmo ano:

“Atualmente não há importador nenhum aqui que receba esta classe de laranjas,
sendo a “pêra” a única classe importada. VV. SS. Não devem continuar com a
exportação desta classe de laranjas. (...) Como a fruta tinha sido colhida e
embalada com todo o capricho, era de se supor que resistisse, pelo menos, tão bem
44
como a laranja Pêra, embalada e colhida em más condições.”

Na carta é possível observar duas informações importantes. Primeiro que a plantação de


laranjas em Nova Iguaçu estava se iniciando, uma vez que, a sua colheita ainda era feita de
forma precária. Contudo, mostra o porquê a produção da Baixada cresceu tanto: o tipo laranja
plantada ali resistia mais ao transporte internacional.
Mesmo diante dessas informações, o 3º embarque foi o mais problemático. No
momento do preparo do carregamento desta partida, o mesmo Sr. Glossop, enviou um
telegrama suspendendo o embarque da laranja “natal”, mas mesmo assim a fruta foi enviada a
Buenos Aires em nome do Ministério da Agricultura. De acordo com o relatório da Secretaria
de Agricultura

“Não somente devido ao fato da fruta não ter chegado ainda em boas condições,
por não contarmos com espaço frigorífico, mas, também, ao pouco interesse do
negociante encarregado da venda, o resultado deste embarque foi o de maior
45
fracasso.”

O custo por caixa chegou a Buenos Aires a 18$032, e o resultado da venda a 12$510, dando
um déficit de 5$522 por unidade. Ou seja, foi uma perda maior do que a soma dos déficits do
primeiro e segundo embarque.46
A vontade do governo de tentar novamente a exportação obteve sucesso em seu
segundo ensaio. O produto já encontrava no mercado local preços bastante compensadores, e
o local escolhido foi a Alemanha. De acordo com o relatório do Estado, escrito em 1926:

“Esta exportação, feita por intermédio da casa B. Damásio & Cia., logrou
resultados satisfatórios, tanto assim que a mesma firma propoz-se agora a arrendar

44
Idem.
45
Ibidem.
46
Idem.
33

o pavilhão de beneficiamento, que o Estado fez construir no Alcântara, Município


de São Gonçalo, obrigando-se a beneficiar o fructo que se destina, quer ao consumo
47
interno, quer externo do país.”

Mesmo com todos os problemas envolvidas na exportação, a laranja conseguiu alcançar o


mercado internacional.
Apesar dos problemas iniciais, a produção da laranja, sob domínio de grandes
empresas, conseguiu, entre as décadas de 20 e 40, atingir números expressivos na exportação.
Pelo porto do Rio de Janeiro, no período de 27 a 34, foram exportadas 10.674.135 caixas de
48
laranjas que somavam um valor no total de 218.590.586$800. Em 1928, o Estado de São
Paulo contribuiu com a exportação de 205.379 caixas e o Distrito Federal, 432.738. Em 1934
o Brasil como um todo exportou 2.631.827 caixas e dois anos mais tarde chegou ao número
de 5.487.043. 49
A participação do Município de Nova Iguaçu na exportação de caixas de laranjas, após
a década 30, ganhou mais destaque em relação a outras regiões. Em 1931, a exportação pelo
porto do Rio de Janeiro chegou a um total de 1.236.453 caixas de laranjas, das quais Nova
Iguaçu colaborou com 687.900.50 Em 1938, somente este município exportou 2.111.618
caixas de laranja, destacando-se como maior produtor nacional. 51

Preparando o terreno
Nada incentivou mais o desenvolvimento da Baixada Fluminense do que o
investimento em saneamento básico. Embora a busca por soluções para tal questão tenha
começado em 1894, o governo de Peçanha colaborou na resolução desses problemas.52 Seus
esforços se concentraram nos locais tipicamente pantanosos da Baixada, principalmente à
beira dos rios Iguassú, Sarapuí, Inhomirim e Pilar.53 De acordo com o relatório do interventor

47
Relatório da Secretaria de Agricultura e Obras públicas do Estado do RJ, 1926, p., 29-30 (APERJ).
48
PEREIRA, W. op. cit., 1977, p. 123.
49
Idem.
50
Ibidem.
51
SOUZA, Sonali Maria Da Laranja Ao Lote: Transformações sociais em Nova Iguaçu. Dissertação.
(Mestrado em Antropologia Social) Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro,
1992. p. 58-59.
52
O decreto n.º 128 de 10 de outubro de 1894 previa estudos para resolver o problema do saneamento.
53
VIANA, M. T. Nova Iguaçu: absorção de uma célula urbana pelo grande Rio de Janeiro. Nova Iguaçu, IBGE,
1962, p. 205, Apud PEREIRA, W. op. cit. 1977, p. 115.
34

federal, a partir dessas obras, somado a atitudes que visavam à higiene “o índice de febre
palustre decresce vertiginosamente, podendo afirmar-se que o mesmo baixou, em casos
agudos, de 30%, e na mortalidade, de 60%, em relação aos anos anteriores”.54 A diminuição
de áreas alagadiças permitiu um decréscimo nos casos de doenças infectocontagiosas, assim
como as transformou em áreas habitáveis.
As fazendas, antes utilizadas para a produção de café e cana-de-açúcar, tornaram-se
improdutivas, e aos poucos deram lugar aos laranjais. Com o loteamento de terras, na virada
do século, a sede do município encontrava-se compartimentada em várias chácaras e
pequenos sítios. De acordo com o censo de 1920, Nova Iguaçu possuía uma extensão de terra
equivalente a 144.700 hectares dos quais 117.937 eram estabelecimentos rurais, ou seja,
81,5% da extensão de terras. Eram, no total, 280 propriedades, das quais 161 estavam sob
controle dos proprietários, 18 em mãos de administradores e 161 arrendadas. Em 1920, as
propriedades que possuíam menos de 41 hectares somavam 213, porém a maior parte das
terras ainda era controlada por uma pequena parcela de proprietários.
De acordo com a Diretoria de Agricultura do Estado do Rio de Janeiro, de 1927, eram,
ao total, 104 propriedades produtoras na região e o valor de seus imóveis somava um total de
9.753.300$000. 55 Vale destacar que a maior parte das plantações de laranjas se concentrou no
distrito sede do Município de Nova Iguaçu, chegando a reunir, em 1932, 83% dos laranjais.
Com isso torna-se fácil perceber que as propriedades localizadas nessas regiões tornaram-se
mais valorizadas, logo à população mais pobre foi dificultada sua estabilização.
Ao longo dos anos aparentemente a quantidade de pequenas propriedades aumentou,
ao mesmo tempo em que ocorreu um processo de concentração de terras. De acordo com o
censo de 1920 os abastados e ricos possuíam cerca de 23,9% de todas as propriedade, o que
diminui drasticamente para o ano de 1940, quando eles passaram a possuir apenas 4%.
Mesmo a quantidade de pequenas porções de terra terem aumentado significativamente, de
76,1%, em 1920, para 96% em 1940, a grande característica da região foi a concentração de
terra na mão de poucos.

54
Relatório do interventor federal do Estado do RJ, 1934, p. 248. (APERJ)
55
Diretoria de agricultura do Estado do Rio de Janeiro, 1927, apud PEREIRA, W. op. cit., 1977, p. 125.
35

Tabela 1.2 – Total por tamanho das propriedades segundo o censo de 1920. Município de Nova
Iguaçu.
Tamanho (ha) Propriedades
abs. %
Menos de 41 213 76,1
41 a 100 19 6,7
101 a 200 10 3,6
201 a 400 10 3,6
401 a 1000 11 3,9
1001 a 2000 10 3,6
2001 a + 7 2,5
Total 280 100

Fonte: Censo Agrícola de 1920.

Tabela 1.3 - Total por tamanho das propriedades segundo o censo de 1940. Município de Nova
Iguaçu.

Tamanho (ha) Propriedades


abs. %
Menos de 50 1470 96
50 a 100 30 1,9
100 a 200 13 0,8
200 a 500 10 0,7
500 a 1000 4 0,3
1000 a 2500 3 0,2
2500 a + 1 0,1
Total 1531 100

Fonte: Censo de 1940.

Essa particularidade, encontrada nessa região metropolitana do Estado, colaborou no


impulso inicial da produção de laranja. Proprietários antigos e novos arrendaram ou
investiram suas terras para a produção de citricultura. A partir dessas tabelas, que relatam o
mercado imobiliário, o valor das propriedades e o perfil dos proprietários, pode-se supor
apenas que, com o crescimento econômico da região, sob o auspício da plantação de laranjas,
as propriedades se valorizavam. Efetivamente, a compra da pequena propriedade ou o
arrendamento da mesma não estava acessível a todos, uma vez que somente pessoas que
56
possuíam dinheiro suficiente poderiam investir. Dessa forma, possivelmente, ao longo
desses anos, os fazendeiros mais ricos e donos de mais de uma propriedade passaram a
dominar a produção da laranja na região.

56
PEREIRA, W. op. cit., 1977, p. 125.
36

Ao fim do ano dessa pesquisa, 1940, a produção havia chegado ao seu auge. De
acordo com o censo do mesmo ano, os estabelecimentos rurais, declarados como produtores
de laranja chegaram ao número de 1.398, em um total de 1.529 propriedades. Isso significa
dizer que 92% das propriedades localizadas no Município de Nova Iguaçu estavam
direcionados à essa atividade.57
O crescimento urbano gerado pela expansão da produção de laranjas, aliado aos
incentivos governamentais, seja na política de saneamento, seja no investimento à exportação,
podem ter atraído e provocado uma migração em massa para o antigo Município de Iguassú.
Então resta a seguinte pergunta: quem migra para essa região?

Sobre Métodos e Fontes


Como o leitor irá perceber nessa pesquisa foram utilizadas diversas fontes de pesquisa.
Entre elas destaco as entrevistas, os relatórios de província, os censos, assentos paroquiais e o
registro civil. O cruzamento dessas informações auxiliou, principalmente, na análise de
estrutura familiar, de brancos, pardos e pretos ao longo dos anos pós-abolição, assim como no
processo de migração e de reconstrução de sociabilidades.
A forma como utilizo a História oral nessa pesquisa se aproxima as preocupações
levantadas por Marieta Ferreira. A autora organizou um dos mais famosos livros, denominado
“História Oral” para defendê-la como metodologia de trabalho e não apenas teoria.58 Há toda
uma gama de trabalhos que buscam utilizar as entrevistas como formas de compreender as
identidades, projetos de vida, organização social, silenciamentos, disputas, ressentimentos de
outros.59
Nessa pesquisa não utilizei as questões referentes à “memória” dos indivíduos, ao
contrário, preocupei-me muito mais com suas coincidências narrativas e com uso quantitativo
delas. A metodologia empregada na utilização dos depoimentos orais foi discutida
amplamente e utilizada por Rios em diversas pesquisas, na qual eles foram utilizados como
meio de obter dados demográficos de uma dada região, assim como auxiliaram na
57
IBGE, censo 1940.
58
FERREIRA, M. e AMADO, J. Usos e Abusos da História Oral. Rio de Janeiro: FGV, 1996.
59
BURKE, P. A historia como memória social. In: O mundo como Teatro. Lisboa: Difel, 1992,
HALBWACHS, Maurice. A Memória Coletiva. SP: Vértice, 1990, POLLACK, Michael. Memória e Identidade
Social. in: Estudos Históricos. RJ, vol. 5, nº.10, 1992. POLLACK, Michael Memória, Esquecimento e Silêncio.
Revista Estudos Históricos. Rio de Janeiro, vol. 2, no3, 1989, THOMPSON, P. A voz do passado: história oral.
Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1992, VELHO, G. "Memória, identidade e projeto" in: Revista Tempo Brasileiro.,
n.85, out-dez, 1988, entre outros.
37

reconstrução de mini-biografias.60 Desse modo, busquei analisar os registros orais e visuais


existentes no fundo arquivístico, do qual fiz parte como organizador, denominado Acervo
UFF Petrobrás Cultural de Memória e Música Negra, localizado no Laboratório de História
Oral e Imagem da Universidade Federal Fluminense.61
Os Relatórios de Província e os censos foram amplamente usados como fontes de
consulta. Para o primeiro coletei dados referentes a região da Baixada Fluminense, buscando
sempre relatos sobre a produção da laranja, saneamento básico, populacional e de qualidade
de vida. Já para os censos utilizei os anos de 1872, 1890, 1900, 1920 e 1940. E aqui residiu o
problema. Primeiro, os censos de 1890 e de 1900 sofrem até hoje duras críticas, uma vez que
os recenseadores não chegaram até o final da pesquisa e a maior parte dos quadros foi
montada a partir de estimativas.62 Para além disso, a categoria “cor” não estava presente no
censo agrícola de 1920, o que de me dá uma período de 50 anos sem qualquer informação
relativa a movimentação populacional dos grupos identificados pela cor.
Na falta de censos demográficos que pudessem ajudar no estudo da movimentação
populacional de pretos e pardos, busquei alternativas para esse problema. Um dos principais
desafios dessa Tese foi a transposição metodológica da demografia histórica, muito utilizado
por pesquisadores do período colonial e do Império,63 para a Primeira República. Assim como
os estudiosos tentei partir dos pressupostos de análise de Louis Henry em seu livro “Técnicas
de análise em Demografia Histórica” assim como o estudo de Nadalin em “História e
Demografia”.64 O que se mostrou infrutífero.

60
RIOS, A. “Histórias de Família: Arquivos da memória na história demográfica”. In: Anais do IX Encontro de
Estudos Populacionais. vol. 3, Caxambu, 1994, p. 315-324.
61
As transcrições das entrevistas e parte dos vídeos podem ser visualizados no seguinte sítio:
http://www.historia.uff.br/jongos/acervo/
62
CARVALHO, José M. Os Bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo,
Companhia das Letras, 1987, p. 16.
63
BERGAD, Laird W. Escravidão e história econômica: demografia de Minas Gerais, 1720-1880. Bauru:
Edusc, 2004, ENGERMANN, Carlos. “Da comunidade escrava e suas possibilidades, séculos XVII-XIX”. In:
FLORETINO, Manolo (org.). Tráfico, cativeiro e liberdade (Rio de Janeiro, séculos XVII-XIX). Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 2005. MACHADO, Cacilda A trama das vontades: negros, pardos e brancos
na construção da hierarquia social do Brasil escravista. Rio de Janeiro: Apicuri, 2008, GUEDES, Roberto,
Egressos do cativeiro: trabalho, família, aliança e mobilidade social (Porto Feliz, SP, 1798-1850). RJ:
Mauad/ RJ: FAPERJ, 2008, entre outros.
64
HENRY, Louis. Técnicas de Análise em Demografia Histórica. Curitiba: Universidade Federal do Paraná,
1977 e NADALIN, S. O. História e Demografia. Elementos para um diálogo. Campinas: Associação
Brasileira de Estudos Populacionais - ABEP, 2004.
38

Como todos os pesquisadores apresentados acima, e indicado por Henry e Nadalin, fiz
um levantamento dos registros paroquiais da Baixada Fluminense após o ano de 1888. Ao
contrário dos registros do século XIX e anteriores, na região estudada, a cor desapareceu nos
registros após o ano de 1871 e nunca mais retornaram.65 Por isso, tornou-se necessário buscar
fontes alternativas. Autores como Bassanezi, Henry e Nadalin já haviam referido, em seus
respectivos livros, que o registro civil também poderia ser utilizado como fonte de pesquisa
demográfica.66
Contudo, apontam em todos os seus estudos que essa documentação sofre de um
problema não apresentado, o alto número de sub-registros. Bassanezi, em artigo, apresenta
todos os caminhos possíveis de análise do registro civil, contudo somente fortalece o
eclesiástico. Já Nadalin tão pouco relata em seu livro a utilização deste, relegando-o a fonte
não tão confiável. Já Henry é o que mais se esforça em trabalho, todavia a transposição pura
de sua metodologia mostrou-se inconcebível, uma vez que os registros civis analisados por
eles são referentes aos europeus, que se diferem, e muito, dos brasileiros.
Mesmo que o registro civil seja apontado, pelo menos por esses pesquisadores, como
uma fonte não tão confiável, foi a única a que me restou para analisar a Baixada Fluminense
de forma demográfica. Aqui a originalidade do trabalho consiste em tentar empregar essa
metodologia com um grande diferencial: enquanto o assento eclesiástico continha parcas
informações, o registro civil é muito mais completo. Ou seja, enquanto do assento de batismo
se retira para a construção de banco de dados entre 8 a 10 categorias, no civil essas categorias
aumentam para quase 65.
Outro dado importante a ser destacado é a obrigatoriedade do registro. Enquanto o
assento paroquial era tomado como quase obrigatória pelas famílias mais católicas, o registro
civil não possuía a mesma característica, pelo menos nos primeiros anos. Da mesma forma,
não encontrei indícios que demonstrassem, pelo menos por parte do governo, campanhas que
incentivassem o registro compulsório de crianças.
Diante desse problema, o ato de registrar sem a obrigatoriedade, era muito mais
complexo em comparação aos assentos eclesiásticos. O ato de registrar civilmente a criança

65
Em outros lugares do Brasil, a exemplo do interior da Bahia, já foi possível mapear a categoria “cor” nos
assentos de batismo, óbitos e matrimônios. Ver: SOUZA, Edinélia Maria de Oliveira. Pós-abolição na Bahia:
hierarquias, lealdades e tensões sociais em trajetórias de negros e mestiços de Nazaré das Farinhas e Santo
Antônio de Jesus, 1888-1930. Tese (Doutorado em História Social) - Universidade Federal do Rio do Janeiro,
2012.
66
BASSANEZI, M. S. “Os eventos vitais na reconstituição da história”. In PINSKY, C. B.; LUCA, T. R. de
(orgs.) O Historiador e suas fontes. São Paulo: Contexto, 2009, p. 141-172, HENRY, L. op. Cit., p. 47-51 e
NADALIN, S. O. op. Cit., 2004.
39

demonstra antes de tudo uma ação do indivíduo. Ou seja, o pai, provavelmente, valorizava o
reconhecimento de seu filho perante o Estado, uma vez que teve de se dirigir até o cartório
para efetivar o ato ou indicou outra pessoa para efetuá-lo. Essas ações estavam inseridas em
um contexto bem particular, como irei discutir abaixo, da mudança do controle da Igreja nos
registros civis para o Estado laico. Isto significa dizer que os pais agiam dentro de
determinadas regras e sistemas normativos, logo o ato de registrar, assim como toda ação
social “é vista como resultado de uma constante negociação, manipulação, escolhas e
decisões do indivíduo, diante de uma realidade normativa que, embora difusa, não oferece
muitas possibilidades de interpretações e liberdades pessoais.”67 Isto também significa dizer
que a pessoa que registra seu filho e nele coloca as informações que acha necessária.
Sendo assim, tomo o ato de registrar civilmente, tanto o nascimento quanto o óbito,
como um indício, do qual posso seguir e obter comportamentos e projetos de vida dos
indivíduos.68 É através desses indícios, pelo menos aqui já posso apontar a valorização da
legitimação familiar, que busco analisar os projetos e os mecanismos usados por essas pessoas
para atingir os objetivos da sua vida e de seus descendentes. A fim de compreender melhor a
natureza da fonte e defendê-la como passível de ser analisada segue uma discussão
metodológica, original, da utilização do registro civil.

O Registro Civil
Desde a segunda metade do século XIX, o governo Imperial tentou, em vão,
implementar o registro civil no Brasil. Sua aplicação visava, entre outros, substituir os censos,
extremamente dispendiosos e demorados. Em seu esforço inicial, o primeiro decreto previa a
laicização dos registros de nascimentos, matrimônios e óbitos, até então sob o poder da Igreja
Católica. Somado a isso, seus interesses estavam basicamente direcionados à obtenção de
identidades de imigrantes não-católicos e, consequentemente, a produção de estatísticas
oficiais sobre a quantidade de aportados no país por ano.69

67
LEVI, G. “Sobre a Micro-História”. in: BURKE, P. (org). A Escrita da História: novas perspectivas. SP:
UNESP, 1992., p. 135.
68
GINZBURG, Carlo. “Sinais: raízes de um paradigma indiciário” In: Mitos, emblemas, sinais: Morfologia e
História. 1ª reimpressão. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
69
Decreto n.º 798 de 18 de junho de 1851. SENRA, N. C. História das Estatísticas Brasileiras. Rio de Janeiro:
IBGE, Centro de Documentação e Disseminação de Informações, 2006. p. 88.
40

Não obtendo êxito, posteriormente mais dois decretos entraram em vigor com o
propósito de regulamentar os registros de nascimento, casamento e óbito.70 O último seguiu
para a Assembléia Geral, e por lá ficou por muito tempo até ser aprovado. Contudo, o decreto
que colocou em prática o registro civil foi o de nº. 9.886 de 7 de março de 1888, “e é ele que
será legado à República, e por ela implantado”.71 Apesar da Lei ser implantada em 1888, os
meses que seguiram foram extremamente conturbados. Vale lembrar que um mês após foi
abolida a escravatura e no ano seguinte mudou-se de regime. Desse modo, com o advento da
República e da maior burocratização do governo, o registro civil ganhou novo fôlego, e no
ano de 1889 os primeiros registros começaram a ser escritos.
O decreto de 1888 impôs regras para o assentamento dos registros de nascimento,
casamento e óbito, sendo uma das primeiras referente ao declarante. Inicialmente, o Art. 6
estabelecia que “os empregados do registro civil não devem inserir nos assentos, que
lavrarem, ou nas respectivas notas e averbações, senão aquilo que os interessados
declararem”. A parte deveria, no prazo máximo de três dias, declarar o nascimento da
criança; no entanto, dependendo da distância da residência em relação ao local do registro, o
prazo poderia ser estendido para até 60 dias (Art. 53). O declarante deveria ser, em primeiro
lugar, o pai da criança, e, se esse estivesse impossibilitado, era dever da mãe registrar; se
ambos não pudessem declarar, algum parente próximo deveria se apresentar ao cartório (Art.
57). Somando a essas condições, os livros deveriam ter, no máximo, 200 folhas e deveriam
ser fornecidos pelos poderes estaduais.72
As categorias a serem registradas nos registros de nascimento estavam
concomitantemente assinaladas no decreto. De acordo com o Art. 58, os registros de
nascimento deveriam conter os seguintes elementos: 1º) O dia, o mês, ano e lugar do
nascimento, e a hora certa ou aproximada; 2º) O sexo do recém-nascido; 3º) O fato de ser
gêmeo; 4º) A declaração de ser legítimo, ilegítimo ou exposto; 5º) Os nomes e sobrenomes
que forem ou houverem de ser postos na criança; 6º) A declaração de que nasceu morta, ou
morreu no ato ou logo depois do parto; 7º) A ordem de filiação de outros irmãos do mesmo
nome, que existam ou tenham existido; 8º) Os nomes, sobrenomes e apelidos dos pais;
naturalidade, condição e profissão destes; a paróquia ou lugar onde casaram e o domicílio ou
residência atual; 9º) Os nomes e sobrenomes de seus avós paternos e maternos; 10º) Os nomes

70
São eles: o decreto n.º 907 de 29 de janeiro de 1852 e o decreto nº. 5.604 de 25 de abril de 1874.
71
Todos os decretos e leis mencionados na presente dissertação foram consultados em SENRA, N. C. op. cit.,
2006, p. 89-90.
72
SENRA, Nelson. Estatísticas legalizadas: c.1889-c.1936. Rio de Janeiro: IBGE, 2006, p. 90-91.
41

sobrenomes, apelidos, domicílio ou residência atual do padrinho, da madrinha e de duas


testemunhas, pelo menos, assim como a profissão destas e a daquele, se o recém-nascido já
for batizado.
No que se refere aos óbitos, a maior preocupação era em relação aos enterros
coletivos, sem qualquer referência ao indivíduo falecido. O Art. 74 decretava que “nenhum
enterramento se fará sem certidão do Escrivão de Paz do Distrito, em que se tiver dado o
falecimento”, salvo em casos específicos, como a não localização ou mesmo “ter sido causa
da morte moléstia contagiosa, a juízo do médico, o enterramento poder-se-á fazer com
autorização do Inspetor do quarteirão, abrindo-se assento no dia imediato, e mencionando-se
nele a dita autorização” (Art. 75).73
Quando havia informações claras sobre o indivíduo, outros procedimentos eram
adotados. Após as primeiras instruções, o Artigo 76 informava ser obrigação da comunicação
da morte, quando do falecimento em seio familiar, em primeiro lugar, do chefe de família
sobre os respectivos entes familiares, em seguida a viúva e os filhos, no caso do falecimento
de ambos os pais. Já em casos nos quais o óbito ocorria em locais de trabalho, o
administrador, diretor, gerente deveria se apresentar ao cartório mais próximo. Não obstante,
na falta das pessoas anteriormente citadas, esse papel era incumbido àquela que tiver assistido
os últimos minutos do falecido, “o Pároco ou sacerdote que lhe tiver ministrado os socorros
espirituais”, ou o vizinho mais próximo. Por fim, a autoridade policial, para os casos de
vítimas encontradas mortas.74
Assim como nos registros de nascimentos o Artigo 77 obrigava os agentes cartorários
a assentarem nos óbitos: 1) o dia, hora, mês e ano de falecimento; 2) o lugar de residência do
morto; 3) Nome, sobrenome, apelidos, sexo, idade, estado, profissão, naturalidade e
residência; 4) situação conjugal e o nome do cônjuge; 5) declaração se era filho legítimo,
natural ou exposto; 6) Nomes, sobrenomes, profissão, naturalidade e residência dos pais; 7) se
possui testamento; 8) Se deixa filhos, quantos e os nomes; 9) Causa da morte; 10) Local de
enterro. Caso não haja qualquer informação referente ao falecido, o registro deverá conter a
estatura, cor, sinais aparentes, idade presumida, vestuário e qualquer outra indicação a qual
possibilite o futuro reconhecimento (art. 78).75

73
SENRA, N. C. op. Cit. 2006, p. 93
74
Idem.
75
SENRA, N. C. op. Cit. 2006, p. 93-94.
42

Mesmo as diretrizes sendo bem específicas a os escrivães interpretaram a lei como


lhes aprouvessem. Diante das dificuldades encontradas pelo DGE (Diretório Geral de
Estatísticas) com inconsistências nos registros e informações incompletas recebidas
anualmente, uma vez que os registros eram escritos a mão livre, e não com lacunas a serem
preenchidas - somente implantado na década de 40 -, Bulhões de Carvalho criou um
questionário direcionado aos cartórios, com a finalidade de identificar os problemas no
processo do registro de nascimentos, óbitos e casamentos.76 A partir do resumo do inquérito, a
direção do DGE organizou um projeto de Lei, o qual visava reformular pontos objetivos do
registro civil. Porém, uma vez colocado no congresso, foi discutido e esquecido pelos
parlamentares.77
A grande virada na reformulação dos registros civis veio após o ano de 1928.78
Aparentemente, as inovações foram poucas e, na maior parte, restringiam-se a multas dadas
aos cartórios pela demora no envio do resumo anual. Todavia, houve um reforço na menção à
inclusão da categoria “cor” nos registros, até então não mencionada nos decretos anteriores.
Mesmo sendo uma novidade, em questão de decreto, esta prática já vinha sendo realizada por
diversos cartórios.
O custo dos registros era em média de 500 réis, o que aparentemente não era
proibitivo. De acordo com Ana Rios podia ser feito “gratuitamente por aquelas pessoas
‘notoriamente pobres’, sendo suficiente para provar a pobreza notória a declaração de
párocos, juízes de paz ou subdelegados de polícia.”79 Porém, caso o prazo se extinguisse, o
declarante deveria pagar multa cuja importância variava entre 5$000 a 20$000 réis, e no caso
de reincidência poderia ser duplicada. Mesmo com a pena, já que a mesma não era alta, logo,
“restava a certeza de que não era o registro de acesso proibitivo à camadas mais pobres da
população.”80
No mesmo ano de abertura do Ofício do Registro Civil das Pessoas Naturais da 1ª
Circunscrição de Nova Iguaçu, mais dois cartórios de registro civil passaram a funcionar em

76
SENRA, N. C. op. Cit. 2006, p. 373.
77
SENRA, N. C. op. Cit. 2006, p. 384.
78
O decreto n.º 18.542 de 24 de dezembro de 1928.
79
RIOS, A. L. Família e Transição (Famílias negras em Paraíba do Sul, 1872-1920). Dissertação de
Mestrado apresentada no Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal Fluminense, Niterói,
1990, p. 13.
80
Idem.
43

São João de Meriti e em Vila de Cava, ambos os distritos Nova Iguaçu nesse período. Por
conta da mudança de eixo econômico da Vila de Cava para a nova sede, Nova Iguaçu, optou-
se por analisar somente esse cartório entre os anos 1888 a 1940, ou seja, os anos do imediato
pós-abolição ao censo de 1940. Em virtude da quantidade significativa de registros de
nascimentos e de óbitos, segui um critério estatístico pesquisou-se os registros em intervalos
de cinco anos: 1889, 1894, 1899, 1904, 1909, 1914, 1919, 1924, 1929, 1934 e 1939. Além do
ano de 1890 analisado que integra o primeiro capítulo. Ao total foram computados, em base
de Access, 10.732 registros.
Apesar de todos os esforços dos legisladores e do governo brasileiro na implantação
do registro civil de nascimento e de óbitos, ao analisá-lo in locu é possível notar os seus
limites, como também suas qualidades. Inicialmente buscava-se, através dessa documentação,
prover uma análise demográfica da região, semelhante ao realizado com documentação
eclesiástica do século XVIII ao XIX por diversos pesquisadores. Por haver uma
obrigatoriedade “de registrar batismos, casamentos e óbitos imposta pela Igreja de Trento”81
essa documentação tornou-se providencial para os estudos históricos, uma vez que “os
registros paroquiais se constituem, pois, na fonte por excelência da Demografia Histórica.”82
Em um esforço inicial, tentou-se comparar a quantidade de nascimentos registrados na
igreja com os civis, e a conclusão não foi das melhores. Uma das primeiras constatações, pelo
menos para o Estado do Rio de Janeiro, foi a presença de um número maior de sub-registros,
em comparação aos registros eclesiásticos. Contudo, nota-se que pelo menos para os registros
civis analisados no Norte Fluminense (por Hebe Mattos), em Paraíba do Sul (Ana Rios) e
Baixada Fluminense (Carlos Eduardo Costa), tanto os de nascimento quanto os de óbito,
apresentaram proporções muito semelhantes de sub-registros quando comparados brancos e
não-brancos, ou seja, a nenhum grupo foi proibido a presença nos cartórios.83
A partir desses fatos busquei empreender uma abordagem qualitativa à fonte. Através
dos registros civis é também possível demonstrar situações limites do cotidiano, assim como
também informar comportamentos coletivos da população.84 De acordo com Hebe Mattos, os

81
MARCÍLIO, M. “Os registros eclesiásticos e a demografia histórica da América Latina.” In: Memórias da I
Semana da História. Franca, 1979 , p. 260 apud NADALIN, S. História e demografia: elementos para um
diálogo. Ed.: ABEP, Campinas, 2004, p. 46
82
Idem
83
MATTOS, Hebe Maria. Das Cores do Silêncio. Significados da liberdade no Brasil escravista. Rio de
Janeiro, Arquivo Nacional, 1995, p. 329.
84
RIOS, A. op. cit., 1990, p. 16.
44

dados retirados dos registros civis são “bem significativos do ponto de vista da análise social,
possibilitada pela rara referência sistemática à ‘cor’.85
Apesar da qualidade superior, a maior dificuldade encontrada pelos historiadores,
concentrados na análise pós-abolição e na pesquisa serial dos registros eclesiásticos, consiste
na presença da categoria “cor” na documentação. Hebe Mattos ao analisar o norte fluminense
constatou que “já na segunda metade do século XIX os registros paroquiais das paróquias de
Campos não declaravam a ‘cor’, nem mesmo das crianças livres levadas a batismo”.86
Situação análoga a encontrada por Ana Rios, pois “os registros paroquiais em Paraíba do Sul
após 1888 não fornecem a cor de quase nenhum dos personagens, além de serem
extremamente pobres”.87 E o mesmo acontece com a documentação eclesiástica encontrada na
Cúria Metropolitana do Município de Nova Iguaçu.
Porém, não foi incomum encontrar a categoria “cor” nos registros civis do Estado do
Rio de Janeiro nos primeiros anos de abertura do cartório. Em seus dados, Ana Lugão Rios,
ao computar os dados do Município de Paraíba do Sul, notou a quase inexistência de registros
de casamentos de pessoas pretas e pardas ao longo dos primeiros anos republicanos. O
registro de nascimento e óbito, era “mais pobre de informações do que o fora [o eclesiástico]
no Império e com um sub-registro bem maior.” 88 Entre os principais problemas constataram-
se a falta de nomeação dos padrinhos, assim como “as diversas situações conjugais
cede[rem] lugar a penas duas: casados e solteiros.”89 Assim como no Norte Fluminense, ao
se aproximar da década de 1920, o número e proporção dos registros de pretos e pardos
diminuiu consideravelmente.90
Todavia, o mesmo não se observou na região da Baixada Fluminense. E aqui consiste
a originalidade desse trabalho. Entre os anos de 1889 e 1940, a menção à categoria “cor”, no

85
MATTOS, H. op. cit., 1995, p. 330.
86
MATTOS, Hebe Maria. op. cit. 1995, p. 329.
87
RIOS, A. op. cit. 1990, p. 13.
88
RIOS, A. op. cit., 1990, p. 100.
89
Idem.
90
Ibidem. Para Hebe Mattos a ausência significativa da categoria “cor” na documentação judiciária, estava
ligada, em primeiro lugar à qualificação da testemunha. Para ela, os termos “preto” e “negro” eram usados, quase
sempre, para fazer referência, de modo pejorativo, à condição de ex-escravo da pessoa e/ou de seus
antepassados. Em segundo lugar, tratava-se de uma estratégia social, empreendida pelos próprios de negros, com
a finalidade de evitar a segregação racial. Desse modo, o silenciamento da cor era tomada como uma estratégia
de inserção social. MATTOS, H. Das Cores do Silêncio: Significados da liberdade no Brasil escravista. Rio
de Janeiro: Arquivo Nacional, 1995/ Nova Fronteira, 1997, p. 104 e 329.
45

1º Oficio de registro de pessoas naturais do Município de Nova Iguaçu, estava presentes em


99,4% dos registros analisados. E, desse modo, tornaram-se uma fonte significativa e um
importante meio para se chegar à experiência do pós-abolição na região.
Antes de analisar a documentação faz-se necessário elencar determinadas ressalvas. As
cores nos registros civis aparecem, em sua grande maioria, divididas em: brancos, pardos e
pretos. Também foi possível localizar outras categorias de cor, porém não permaneceram ao
longo dos anos, a saber: moreno, clara e fula. Para facilitar a visualização em algumas tabelas,
em virtude de seu número reduzido de aparições, optou-se por somá-las e denominá-las
“outras cores”. Cabe salientar não ser objetivo dessa pesquisa a análise da mudança de sentido
das categorias, certamente ocorrida entre os anos 1889 e 1939. Dessa maneira, optou-se, por
respeitar as nomenclaturas presentes na documentação – branca, parda e preta.
Como o período aqui analisado se aproxima a uma “longa duração” também busquei
analisar a mudança das terminologias empregadas na categoria “cor”. No dicionário da
Língua Portuguesa de Antonio Silva de Moraes, publicado em 1890, as cores são
representadas de diversas maneiras. Branco como substantivo significa apenas aquele que tem
“a côr branca”, enquanto como adjetivo é o “da côr da cal, limpa, da neve, do leite”. Ou a
melhor definição “homem branco; oposto a pardo, preto”. Já para os homens pardos tem-se a
seguinte definição: “côr escura entre o branco e o preto; homem de côr, mulato, um pardo.”
Enquanto para as mulheres fica a seguinte citação: “mulher de côr. Usa-se este nome
geralmente no Brazil, em vez de mulata, por darem a este termo uma significação
depreciativa, ou offensiva.” Para Moraes o preto em 1890 é aquele da “Raça preta, ou negra;
raça de homens caracterisada pela pelle negra; raça ethiopica”. Ingressando nas outras
terminologias de cores, que aparecem muito pouco se tem os claros e os fulos. O primeiro é
caracterizado como “branco ou quase branco; pessoa clara; não trigueira”. E os fulos: “diz-se
do preto, e do mulato, que não tem a cor bem fixa, mas tirante a amarello ou pallido.”91
Em 1899, para Candido de Figueiredo a definição das cores não parece ter se
modificado tanto em relação ao dicionário anteriormente citado, somente incluindo cores não
enunciadas.92 Para os “morenos” a definição para mulher e homem é “aquele que tem côr
trigueira”. Não havendo posteriormente qualquer definição do que seja trigueiro, apenas “que
tem a côr trigueiro maduro; moreno” E o que mais chama atenção, pelo menos nesse

91
SILVA, Antonio de Moraes, Diccionario da lingua portugueza / 8. ed. rev. e ampl., 1890.
92
FIGUEIREDO, C. Novo Dicionário da Língua Portuguesa Ed.: Tavares Cardoso e Simão, Lisboa, 1899.
46

dicionário: à cor preta faz-se referencia ao passado escravista: “habitante negro da África;
escravo preto.”
Nos dicionários de S. da Fonseca e de Laudelino Freire, publicados em 1926 e 1939,
respectivamente, não há grande diferenças nas definições da cor. Para o branco a definição
continua como “que tem a côr da neve, da cal, do leite.” Tendo apenas uma clara referência
ao passado desse grupo no segundo dicionário no qual ele é referenciado como “Senhor,
Patrão”. Dos fulos continua a afirmação de que estão entre pardos e pretos e “tirantes a
amarello”. O pardo é referenciado como “aquelle que é mestiço das raças brancas e negras;
aquele que é escuro ou trigueiro”93
Cabe aqui lembrar que a mudança de significados da cor ao longo dos anos, e como
visto aqui nos dicionários, não é a preocupação última dessa Tese. Uma das autoras que
conseguiram visualizar, nos diversos dicionários pesquisados, a mudança da cor, de acordo
com a situação social de cada grupo, foi Margarita Correia. A partir da análise, somente dos
dicionários portugueses contemporâneos ela analisou a discriminação racial propagado por
escritores na época.94
Voltando ao registro civil, nos primeiros anos após a abertura do cartório, em 1889,
na documentação observei as dificuldades enfrentadas pelos funcionários na implantação do
registro civil em Nova Iguaçu, em função da recente separação ocorrida entre Igreja e Estado.
A Igreja Católica ainda clamava seu poder sobre os registros civis, enquanto a burocracia
estatal lutava pela sua autonomia. O resultado da disputa pôde ser observado nos primeiros
registros civis de nascimento, nos quais os tabeliães, aparentemente ainda mal informados
sobre o que assentar, registraram informações desnecessárias para o mundo civil, como o
nome dos padrinhos e a data do batismo:

“Número um. Assento de nascimento. Aos dois dias do mês de janeiro do anno de
nascimento do Nosso Senhor Jesus Christo [grifo meu], de mil oitocentos e oitenta
e nove, neste distrito de Paz da Parochia de Santa Antonio de Jacutinga[grifo
meu], Municipio de Iguassú, Provincia do Rio de Janeiro, compareceu no meu
cartório Bazilío Francisco Xavier, na presença das testemunhas abaixo nomeadas e
assignadas, declarou que no dia trinta e um de Dezembro do anno próximo
passado, nasceu uma criança do sexo feminino, filha natural de Anna Francisca do
Espírito Santo, idade vinte e um annos, solteira, natural desta freguesia, profissão
doméstica, residente nesta parochia, no lugar Vendinha, cuja criança foi
baptizada[grifo meu] com o nome de Maria, por não haver tempo de levar a igreja,

93
FONSECA, S. Dicionário da Lingua Portuguesa, Ed.: Livraria Garnier, 1926 e FREIRE, L. & CAMPOS, J.
L. Grande e novíssimo Dicionário da Língua Portuguesa, Ed.: A Noite, S. A., RJ, 1939-1944.
94
CORREIA, M. “A discriminação racial nos dicionários de língua: tópicos para discussão, a partir de
dicionários portugueses contemporâneos.” In: Revista Alfa V.50, n.2, jul/dez, 2006.
47

neta materna de Juniana do Espírito Santo, sendo padrinhos[grifo meu] o


declarante e Rozalina Luiza Xavier, este de profissão jornaleiro e esta de profissão
doméstica, residentes nesta parochia, na Vendinha, as testemunhas Francisco de
Castro Pereira e José Antonio de Freitas, de profissão lavradores e residentes na
mesma Parochia, da que para constar lavrei este termo em que comigo assignão o
95
declarante e as testemunhas”.

Infelizmente a Maria não teve muitas oportunidades na vida, pois o primeiro registro de óbito
de Nova Iguaçu, do mesmo cartório, foi o seu:

“Número um. Assento de óbito. Aos oito dias do mês de Janeiro do anno de
nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo [grifo meu] de mil oitocentos e oitenta
e nove, neste districto de Paz da Parochia de Santo Antonio de Jacutinga,
Municipio de Iguassú, Província do Rio de Janeiro, compareceu em meu cartório
Bazílio Francisco Xavier, e declarou que no dia sete do corrente mez, falleceu na
Vendinha a inocente [grifo meu] Maria, filha natural de Anna Francisco do
Espírito Santo, idade vinte um annos, natural desta Parochia, profissão doméstica,
residente na Vendinha, cujo inocente[grifo meu] falleceu de Mal de sete dias,
conforme a declaração feita pelo declarante, por ser seu vizinho e assistiu o
fallecimento, o qual não havendo tempo de se baptizar na Igreja [grifo meu], foi
baptizada em casa [grifo meu] com o nome de Maria, tendo padrinhos [grifo meu]
o declarante e Rozalina Luiza Xavier, cujo cadáver será sepultado no Cemitério
Público desta Parochia. E, para constar lavrei este thermo que assigno com o
declarante Eu, Luiz José de Vargas Dantas, Luizão da [ilegível] e Luiz José de
96
Vargas Dantas.”

Nele, estão as mesmas categorias apresentadas no registro de nascimento, com exceção


apenas do motivo do falecimento (causas mortis), o “mal de sete dias” e a qualificação da
mesma, onde novamente se fez referência aos registros eclesiásticos, chamando-a de
“inocente”.
Nos registros produzidos após 1894 a principal mudança consistiu na retirada de todo
o passado religioso. Desse modo, os registros civis de nascimento, salvo raras exceções, são
descritos da seguinte forma:

Número trinta e cinco. Aos vinte e dois dias do mês de janeiro de mil novecentos e
desenove n`esta cidade de Nova Iguaçu, Primeiro districto do município de Iguassú,
estado do Rio de Janeiro, em cartório compareceu Octavio Provençano e em
presença das testemunhas abaixo assignadas, declarou que, hontem, as nove horas
da noite, n`este districto no lugar denominado Mesquita, nasceu uma criança do
sexo masculino, de cor parda, filho natural de Plínio Mafra e D. Juliana Lessa,
residentes n´aquelle lugar. Avós maternos Deolinda Rosa do Espírito Santo e avô
materno José Lessa. A criança há de chamar-se Wilson, do que lavro este termo que
assignam comigo o declarante e as testemunhas Arsitides José da Silva e Gustavo

95
Registro Civil de Nascimento de Nova Iguaçu do 1º Ofício (RCN) Livro 1, p. 1 reg. 1, de 1889.
96
Registro Civil de Óbitos de Nova Iguaçu 1º Ofício (RCO) Livro 1, reg. 1 de 1889.
48

Francisco de Sá, residente n`este districto. Eu Antonio Pinto Duarte Junior,


97
escrivão o escrevi e assigno.

A partir deste exemplo foram selecionadas as seguintes categorias para compor o banco de
dados Nascimentos, construído na plataforma Access: ano, livro, registro, local de nascimento,
região do nascimento, sexo, legitimidade, cor, título do declarante, nome dele, profissão, local
de nascimento e região de nascimento; situação conjugal dos pais, naturalidade dos pais,
região de nascimento dos pais, profissão dos pais, avós; nome das duas testemunhas, profissão
delas, local de nascimento, região de nascimento, se o declarante sabia ler e observações. Ao
total foram computados 7.014 registros.98
Assim como nos registros de nascimento, as categorias presentes nos óbitos também
apresentam regularidade, como visualizado a seguir:

Número cincoenta e cinco. Aos dez dias do mês de Fevereiro de mil novecentos e
vinte e quatro, nesta cidade de Nova Iguassú, Estado do Rio de Janeiro, em cartório
compareceu Boaventura do Nascimento, e declarou que no lugar denominado
Mesquita, deste districto, hontem, as vinte horas e dez minutos, no leito da estrada
de Ferro, falleceu por esmagamento em virtude de desastre de trem que o alcançou
Serapião Rodrigues, do sexo masculino, de cor preta, natural deste estado, com
cincoenta anos de idade, de filiação desconhecida, casado, jornaleiro, residente
naquelle lugar. Attestou o óbito o Delegado de Polícia deste Municipio e será
sepultado no Cemitério Público desta Cidade. Do que faço este termo que lido e
achando conforme assigna o declarante Eu, Paulinho de Souza Barboza, Escrivão,
99
o Li e assigno.

Da mesma forma, optou-se por construir um banco de dados, na mesma plataforma, com os
registros de óbito com as seguintes categorias: ano, livro, registro, nome e profissão do
declarante, local de nascimento, região de nascimento, local de moradia, região de moradia e
idade; nome do falecido, causa mortis, local de nascimento, região de nascimento, local e
região de moradia, local e região do falecimento, idade, profissão, sexo, legitimidade, nome
do cônjuge, cor, estado civil, local de enterro, condição de liberto, se deixa testamento, o
número do registro de nascimento, situação conjugal dos pais, nome e naturalidade dos pais,
profissão e local de residência dos pais, nome dos avós, nome e número de filhos, nome das

97
RCN Livro 19, reg. 35 de 1919.
98
Nesse banco de dados de nascimentos não a há presença dos nomes, pois à época da autorização para a
digitalização da documentação, dada pelo Desembargador Murilo Kieling, o mesmo solicitou sigilo sobre as
identidades. Todavia, após a publicação on-line dos mesmos registros (disponíveis em www.familysearch.org),
optou-se por utilizar a categoria “nomes” nos casos de importância qualitativa.
99
RCO Livro 13, reg. 55 de 1924.
49

testemunhas, locais de moradia delas e a profissão. Ao total foram contabilizados 3.723


registros de óbitos. A documentação civil total contabilizada para essa pesquisa é de 10.737.
O leitor deve estar se perguntando o porquê da não utilização dos registros civis de
casamento nessa pesquisa. Explico-me, em primeiro lugar cabe destacar que após um
levantamento inicial dos livros conclui que a quantidade de registros era realmente ínfima em
relação aos registros paroquiais e aos demais livros de nascimento e óbito. Provavelmente,
isso pode simbolizar que o casamento civil demorou a ser incorporado aos hábitos de família
na Baixada Fluminense. Somado a isso, um dos principais problemas para a utilização dessa
fonte foi a inexistência da categoria “cor” em todos os registros, mesmo após a
obrigatoriedade, como citado anteriormente, no ano de 1928.
Em relação aos sub-registros, um problema das fontes de demografia histórica, é
possível observar, através desses números, uma busca mais intensa pelo registro civil de
nascimento em comparação ao óbito. Inicialmente, era conhecimento público e notório o alto
índice de mortalidade por doenças infecto-contagiosas na região, como malária e tuberculose.
Ou seja, os sub-registros de óbito superam em muito os de nascimento. Apesar disso, os dados
analisados acompanharam o aumento populacional comparado aos censos. Desse modo,
mesmo não sendo possível, através dele, analisar demograficamente a região - a exemplo do
que ocorre para os séculos anteriores com a documentação eclesiástica - é possível obter
indícios interessantes e importantes da movimentação e crescimento populacional entres os
anos de 1889 a 1940, assim como retirar informações sobre o imediato pós-abolição.
A partir desses será possível analisar diversas características da população, da família
e de sua movimentação de acordo com Bassanezi

“através desses registros, é possível recompor uma parcela do mundo da infância,


da família, da mulher, do trabalhador migrante (...); ao óbito (idade ao falecer,
causa morte, sem ou com assistência médica) entre os migrantes e os relativos ao
nascimento, casamento e óbito de seus filhos na terra hospedeira. Como é possível
recompor as características do movimento migratório em termos de volume, sexo,
idade, nacionalidade, naturalidade, estado conjugal, filiação legítima ou ilegítima,
ocupação, condição social, instrução e verificar a existência de certos padrões
100
específicos de comportamento demográfico ou sócio-cultural”.

Esses são os dados essenciais que podem ser retirados dos registros civis de nascimento, ou,
como Basssanezi prefere denominar: registros de eventos vitais. Desse modo, os registros
civis tornaram-se uma fonte essencial para estudar o pós-abolição na Baixada Fluminense.

100
BASSANEZI, C. B “Uma Fonte Para O Estudo Da Migração e Do Migrante: Os Registros Dos Eventos
vitais” In: Idéias - Revista do Instituto de Filosofia e Ciências v. 1, n. 2, 2011, p. 12.
50

Capítulo 2

Um Retrato em Preto, Branco e Pardo:


A Experiência dos Primeiros Anos do Pós-Abolição
na Baixada Fluminense (1888-1890)

O grande medo não se concretizou. Terminada a escravidão o temor dos proprietários


rurais, com suas plantações em pleno vapor, era o da migração em massa empreendida pela
população ex-escrava e a conseqüente falta de braços em suas lavouras. De acordo com
pesquisas atuais, nos Estados Unidos, Cuba, Jamaica, no Brasil (Bahia, Minas Gerais, Vale do
Paraíba e Norte Fluminense) isso não ocorreu.101 Pelo contrário, a estabilidade e manutenção
de mão de obra foram a regra nessas regiões. Neste capítulo, busco explicar a experiência da
população preta e parda em relação a população branca, no período pós-abolição, no antigo
Município de Iguassú. O objetivo deste capítulo é o de comparar experiências coletivas de
populações que passaram pelo período da escravidão na Baixada Fluminense, com pesquisas
do Norte Fluminense e do Vale do Paraíba.102 A partir dessa pesquisa será possível traçar um
possível panorama do imediato pós-abolição no Estado do Rio de Janeiro.103
Para a região da Baixada Fluminense não há quaisquer trabalhos referentes ao
processo de abolição, a quantidade de cativos e muitos menos sobre suas lutas antes e após o
cativeiro. Em virtude desse fato, nessa primeira parte, tentarei lançar e responder questões

101
Entre diversos títulos: HOLT, Thomas. The Problem of Freedom: Race, Labor, and Politics in Jamaica
and Britain, 1832-1938. Baltimore and London: Johns Hopkins University Press, 1992, SCOTT, R.
Emancipação Escrava em Cuba: a transição para o trabalho livre, 1860-1889. Rio de Janeiro: Paz e Terra;
Campinas, SP: Editora da Universidade Estadual de Campinas, 1991. E nacionais MATTOS, Hebe Maria. Das
Cores do Silêncio. Significados da liberdade no Brasil escravista. Rio de Janeiro, Arquivo Nacional, 1995/
Nova Fronteira, 1997, GUIMARÃES, Elione S. Terra de Preto: usos e ocupação da terra por escravos e
libertos (Vale do Paraíba mineiro, 1850-1920). Niterói: EdUFF, 2009, RIOS, A. L. Família e Transição
(Famílias negras em Paraíba do Sul, 1872-1920). Dissertação de Mestrado apresentada no Programa de Pós-
graduação em História da Universidade Federal Fluminense, Niterói, 1990.
102
MATTOS, H. Ao Sul da História: lavradores pobres na crise do trabalho escravo Rio de Janeiro, FGV,
2009 e RIOS, Ana L. e MATTOS, Hebe. Memórias do Cativeiro. Família, Trabalho e Cidadania no Pós-
Abolição. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2005.
103
Ainda existem outras regiões do estado que concentraram comunidades remanescentes de escravos no pós-
abolição que necessitam de uma amplo estudo, como é o caso do Litoral Sul e norte do Estado do Rio de Janeiro.
51

relativas às experiências finais dos cativos e as possibilidades abertas à população de pretos e


pardos no pós-abolição, nessa região.
Na Baixada Fluminense, o contexto de decadência econômica, no final do século XIX,
só foi superado na década de 20, do século seguinte. Diante desta situação, pode ter ocorrido
uma mudança substancial na composição social na região. Além da mudança demográfica, o
acesso a família nuclear e ampliada poderia ser um claro sinal de possibilidade de ascensão
social e de melhores condições de vida. Para além da análise do arranjo familiar, identificar o
local de moradia tornou-se fundamental na compreensão do possível acesso à saúde, total ou
parcial, por brancos, pardos e pretos. Ou seja, o que pretendo buscar nesse capítulo é se todos
os grupos tiveram o mesmo acesso à inclusão social e consequemente a uma melhora de vida
no atual Município de Nova Iguaçu.
Para responder tais questões utilizei nesse capítulo fontes diversas, com a finalidade de
produzir dados de modo a compará-los com as pesquisas supracitadas, tais como:
eclesiásticas, orais, secundárias e, principalmente, as de registro civil de nascimentos e óbitos.
Essa última tornou-se o diferencial nessa pesquisa, uma vez que, ao contrário de todas as
outras regiões do país, até então analisadas, a Baixada Fluminense apresentou
sistematicamente a categoria “cor”.

I - A composição social do Município de Nova Iguaçu do final do século XIX


ao imediato Pós-Abolição (1890)

A composição social da população da Baixada Fluminense, da segunda metade do


século XIX, diferia em diversos aspectos da principal área econômica da Província do Rio de
Janeiro, o Vale do Paraíba. Em 1872 no antigo Município de Iguassú e Estrella, foram
recenseadas 31.251 pessoas das quais 6.984 eram escravos, isto é 22%. Apesar de o número
ser relativamente alto, quando comparado a regiões concentradoras de mão de obra cativa,
como os municípios do Norte Fluminense e do Vale do Paraíba, essa quantidade era
inexpressiva para uma produção em larga escala. Em Campos, por exemplo, foram
recenseados 36.620 escravos de um total de 92.832 residentes, ou seja, os cativos
representavam 39% da população total da região. No município de Valença havia, no mesmo
censo, 46.531 moradores dos quais 18.035 (39%) eram pessoas declaradas livres e 28.496
52

(61%) escravos.104 Um número bem superior de trabalhadores cativos em comparação às


outras duas regiões citadas.
A quantidade de escravos nos últimos anos do século XIX variou bastante de região
para região no estado do Rio de Janeiro. A tabela 2.1 foi construída a partir de informações
retiradas do censo de 1872 e do Relatório de Província em 1884, que informa os dados
referentes ao de 1873 e 1883. Nela há apenas informações relativas a quantidade de escravos,
não sendo possível delinear temporalmente a relação percentual entre cativos e população
livre. Entretanto, aqui a utilizo apenas para obter indícios sobre a diminuição de cativos nas
principais regiões econômicas da Província. Justifico mais uma vez a utilização dessa tabela
em virtude da falta de trabalhos que analisam as alforrias nas últimas décadas da escravidão
na Baixada Fluminense, assim como a falta de censos e de outros dados demográficos
passíveis de serem comparados a população livre local.

Tabela 2.1 - Quantidade de Escravos por ano nos Municípios de Iguassú, Valença e Campos.
1872 1873 1883
105
Iguassú 6984 6984 5296
Valença 18035 27099 24811
Campos 32620 35668 28797

Fonte: Censo de 1872 e Relatório da Província do Rio de Janeiro, 1884.

No Município de Valença, na década compreendida entre 1873 e 1883, proprietários


mantiveram a posse sobre os cativos. A concentração da escravidão, nesse local, diminuiu
apenas 8,4% em dez anos. De acordo com Ana Rios, encontrou-se situação análoga em
Paraíba do Sul. No ano de 1872 foram registrados 14.881 cativos, enquanto na última
contagem de 1885, três anos antes da abolição, 13.990. Já em Campos, a saber, em apenas dez
anos houve um decréscimo de 19% no emprego de escravos e no Município de Nova Iguaçu a
desestruturação de mão de obra servil chegou ao total de 24% no mesmo período. Outras
regiões do Estado do Rio de Janeiro acompanharam o desmantelamento da utilização
exclusiva de mão de obra cativa em relação ao panorama nacional. Para se ter uma noção,

104
IBGE, Censo de 1872.
105
Para uma melhor percepção da demografia da região optou-se por somar o Município de Estrella ao de
Iguassú. Ambos hoje correspondem aos atuais municípios de: Japeri, Queimados, Nilópolis, Mesquita, Nova
Iguaçu, Duque de Caxias, São João de Meriti e Belford Roxo.
53

Osório Duque Estrada visualizou o declínio total da população escrava no Brasil, ao computar
os seguintes números: “em 1873 (1.541.345); 1883 (1.211.946) e 1887 (723.419).106
Para o caso do Vale do Paraíba e do Norte Fluminense as fugas, as alforrias em massa
e as estratégias para a manutenção da mão de obra nas fazendas, através principalmente da
gratidão, explicam o porquê da diminuição acentuada de cativos na década da abolição107, ou
seja, a “pequena diferença apenas reforça conclusão a que chegaram muitos autores: os
fazendeiros do Vale Fluminense apegam-se, até o fim, aos seus escravos”.108 Para a Baixada
Fluminense, essa diminuição de cativos, pelo menos em maior número, apesar de não existir
dados sobre a população livre em geral, pode demonstrar que os escravizados não eram a de
mão de obra principal utilizada na região. Da mesma forma é possível supor que o
desmantelamento econômico da região, em virtude da crise do café, pode ter acelerado o
processo de alforrias. Contudo como já apontei anteriormente essa conclusão necessita de
mais pesquisas.
Na comparação entre os censos também foi possível visualizar que a presença de
imigrantes na Baixada Fluminense também variou, e muito, ao longo dos anos. No Censo de
1872 eles correspondiam a 818 pessoas, das quais 601 eram homens e 217 mulheres.
Representavam apenas 2,6% da população. No censo seguinte, em 1890 a sua presença
recuou muito se comparada aos anos anteriores. A quantidade de homens reduziu
drasticamente para 171 e de mulheres para apenas 53. Se somados eles passaram a
corresponder, simplesmente, a menos de 1% da população. A partir desses dados, é possível
retirar algumas conclusões. Primeiro, pode ter ocorrido um possível retorno a suas cidades
natais, ou mesmo uma emigração para outras regiões do Estado. Por seguinte, também é lícito
supor que a imigração reduziu ou mesmo parou, pois seus filhos não são registrados como
imigrantes, mas sim nacionais.
Para além da população cativa e dos imigrantes, nos censos de 1872 e 1890 é possível
acompanhar a movimentação da população nacional livre na Baixada Fluminense. De acordo

106
ESTRADA, O. D. A Abolição, Brasília: Senado Federal, 2005, p.203. Apud ALBUQUERQUE, Wlamyra. O
jogo da dissimulação. Abolição e cidadania negra no Brasil. São Paulo, Cia das Letras, 2009, p. 96. Mais
detalhes sobre os escravos nos últimos anos de escravidão no Brasil ver: SLENES, R. The Demography ans
economics of Brazilian Slavery (1850-1888), Tese PHD, Stanford University, 1976.
107
São diversos os autores que trabalham o período final da escravidão e as estratégias tomadas pelos cativos em
busca da liberdade. Tais como: MATTOS, H. op. cit. 1990, MACHADO, Maria Helena. O Plano e o Pânico. Os
movimentos sociais na década da abolição. Rio de Janeiro. EDUFRJ, 1994, CHALHOUB, Sidney. Visões da
Liberdade. Uma história das últimas décadas da Escravidão na Corte. São Paulo: Companhia das Letras,
1990, entre outros.
108
RIOS, A. op. cit., 1990, p. 22
54

com a tabela 2.2 no primeiro ano citado, a população branca correspondia a 39% de toda a
população. Um número bem superior quando comparado a quantidade de escravos acima
citada, de 22%. Todavia, quando observados os números referentes aos pardos, 26%, os
pretos, 33%, e amarelos, 1%, nota-se, claramente, a despeito dessa região possuir uma
escravaria ínfima, se comparado ao Vale do Paraíba, os não-brancos (cativos e livres)
correspondiam a 60% da população.

Tabela 2.2 - Número absoluto e porcentagem da população, por cor, do Município de Nova
Iguaçu, 1872 e 1890.

abs. % abs. %
Brancos 12450 39,33 8690 34,59
Pardos 8350 26,37 10279 40,92
Pretos 10485 33,12 5612 22,34
Amarelos 369 1,16 538 2,14
Total 31654 100 25119 100

Fonte: Censos do IBGE de 1872 e 1890.

Nos anos posteriores da Abolição a região conheceu um declínio populacional, com


variações entre a participação de cada grupo. Ainda de acordo com a tabela 2.2, em termos
demográficos, a população diminuiu 20% em 20 anos. Aqui se percebe que a população
branca decresceu 30% entre 1872 e 1890, considerando também a existência de imigrantes
nesses números. Já para a população preta e parda pode-se estimar uma queda de 10,6%.
Então a população preta e parda caiu muito menos do que a escrava e esta menos do que a
branca. Ou seja, mesmo tirando os escravos, que passaram a livre de cor em 1890, a
população de pretos e pardos subiu percentualmente na Baixada Fluminense.
Mesmo diante desse “esvaziamento” é possível notar a manutenção do domínio de
pretos e de pardos. Explico-me. Em primeiro lugar cabe destacar que o número de pretos
(5.612) em 1890 é muito próximo a de escravos registrados em 1883 na tabela acima, 5.296,
embora houvesse muito mais pretos, em 1872, do que escravos (6.984). Para a população
branca destaca-se a diminuição da população branca de 39,3% para 34,6%. Uma queda não
tão expressiva se comparada à população de pretos declinante de 33,1% para apenas 22,3% da
população. Com esses dois grupos diminuindo a sua contribuição na composição social, nota-
se um aumento expressivo de pardos, saltando de 26,3% para 40,9% da população total no
ano de 1890. Isto é, nesse último censo analisado, os pretos e pardos passaram a equivaler
63,3% do total de recenseados. Esse movimento de “empardeci mento” pode ser explicado em
55

parte pela mudança de cor ocorrida no imediato pós-abolição. Provavelmente homens livres
registrados como pretos, em 1872, passaram a ser registrados como pardos em 1890, pelo
menos na Baixada Fluminense, para se diferenciar daqueles que foram libertos somente com a
Lei de 1888.

Uma foto para o imediato pós-abolição na Baixada Fluminense (1890)


Apesar da existência da categoria cor no censo de 1890, utilizo também outra fonte
para tentar fotografar o imediato pós-abolição demograficamente do antigo Município de
Iguassú, a saber: o registro civil de nascimento e de óbito. Ao contrário de regiões do Estado
do Rio de Janeiro como Campos e o Vale do Paraíba, analisados por Hebe Mattos e Ana Rios
respectivamente, a categoria “cor” foi citada nessa fonte de forma sistemática, após o período
da abolição, na Baixada Fluminense.109 Nos nascimentos analisados, entre os anos e 1889 e
1939, a categoria “cor” está presente em 99,4% dos assentos e nos óbitos, 92,64%.
Para se ter uma noção da diferenciação desses dados, no ano de abertura do registro
civil, 1889, no Município de Nova Iguaçu, a categoria “cor” esteve presente em poucos
assentos. Dos 237 nascimentos registrados no ano de 1889, em 171 não havia informações
sobre a cor, ou seja, 72% das crianças não foram registradas civilmente conforme o decreto
instituído durante a República. Já entre os óbitos, são ao total de 170, sendo 85% (145)
registros não são informados pela cor. Apenas no final do ano, exatamente no mês de
Outubro, a cor passou a ser indicada. Entretanto, o mesmo não ocorreu em outras regiões do
Estado. De acordo com Ana Rios, por exemplo, em Paraíba do Sul o primeiro registro, em
janeiro já possuía a cor. Em ambas as regiões, pelo menos no primeiro ano de funcionamento,
a cor aparece na duas regiões, só que no Vale do Paraíba começou um pouco mais cedo,
apesar de sua presença diminuir consideravelmente ao longo dos anos.
Apesar do registro civil ainda não possuir um apelo tão forte quanto o registro
eclesiástico, na comparação entre as regiões, ficou clara a presença significativa de pretos e
pardos nos nascimentos em 1889. Em Paraíba do Sul

“No primeiro ano de funcionamento do Registro Civil (1889), o cartório de


Inconfidencia (atual Terceiro Distrito, o qual abarca a antiga freguesia de
Cebolas), registrou 323 nascimentos. Destes, 230 (71%) foram de crianças pretas
110
ou pardas.” .

109
MATTOS, H., op. cit. 1995 e RIOS, A. op. cit. 1990.
110
RIOS, A. op. cit., 1990, p. 81.
56

Entre os registros que apresentavam a cor, no Município de Nova Iguaçu, foram


contabilizados, 19 brancos, 32 pardos e 15 pretos, dando um total de 66 crianças. Ou seja,
pretos e pardos correspondiam a 71,2%. Já entre os óbitos foram declarados 4 brancos, 9
pardos e 12 pretos, isto é, somados os não-brancos eles continuam sendo maioria dentro dos
registros. Uma das explicações plausíveis sobre a falta da categoria “cor” na Baixada
Fluminense pode ser a pouca informação que os cartórios possuíam sobre o que assentar nos
registros, assim como em definir quem era branco, pardo, e, inegavelmente, o preto.
Em virtude desses problemas e com a finalidade de obter um retrato estático do
imediato pós-abolição na Baixada, busquei analisar o ano seguinte, 1890, uma vez que nele há
informações mais contumazes de cor. Em relação à presença da categoria “cor” inicialmente,
cabe destacar que, nesse ano, ela está presente em 97,91% nos registros de nascimento e entre
os óbitos em 88,54%.
No ano de 1890, nos assentos analisados a menção a categoria “cor” dos pais e avós
das crianças registradas como pretas ou pardas, se diferencia das encontradas em outras
regiões do Estado. No caso do Município de Campos, no norte fluminense, Hebe Mattos
indicou que pelo menos nos registros de nascimento

“[n]os primeiros anos, era ainda comum a designação dos pais como negros
crioulos’ e de alguns avós como ‘negros africanos’, mas desde meados da década
111
apenas a cor das crianças era referida” .

Não encontrei tal especificidade nos registros da Baixada Fluminense, uma vez que a cor dos
pais e avós em momento algum é citada. Logo, em todos os registros civis não é possível
supor a cor dos ancestrais das crianças registradas como pardas, pretas e brancas.
Pelos registros de óbitos serem mais completos, pois em muitos casos os falecidos
eram adultos e idosos, a menção a condição social do indivíduo dos anos anteriores à abolição
foi destacada. Quando analisou o norte fluminense, Hebe Mattos reparou que em poucos
casos denotados “a menção a cor (...) mostrou-se claramente informada por uma concepção
112
da designação ‘negro’ ainda referenciada a uma passada experiência escrava.” Nessa
documentação, tanto para Campos quanto para Paraíba do Sul havia referencia explícitas “à
condição de liberto (‘negro africano’ ou ‘negro criuolo’)” assim como mostravam uma
ausência de sobrenomes, para aqueles que nitidamente haviam passado pelo cativeiro.113 Para

111
MATTOS, H. op. cit., 1995, p. 335
112
MATTOS, H. op. cit., 1995, p. 330
113
Idem e RIOS, A. op. cit., 1990.
57

ambas, a indicação da cor “negra” ou “nação” “era referencia de um passado cativo próximo
ou remoto.”114
Nos registros analisados em Nova Iguaçu não é possível delimitar o mesmo acima.
Nesses, em momento algum há referência à categoria ‘negro’; e ao contrário do ocorrido em
outras regiões, como em Paraíba do Sul e em Campos, vale destacar que em nenhum
momento, tanto nos nascimentos quanto nos óbitos, há citação à condição de liberto dos
registrados. Somente no registro de óbito de uma senhora falecida na Posse (bairro um pouco
distante do atual centro de Nova Iguaçu) no ano de 1890, com idade presumível de 30 anos,
de cor preta, profissão jornaleira, há uma rápida citação a uma possível condição de ex-cativa:
Filha de Bazilia, sem sobrenome, a mesma é registrada como Maria Liberta.115
Na tentativa de recuperar alguma experiência do cativeiro captada pelos registros civis
busquei analisar os registros de 10 africanos falecidos entre os anos de 1889 e 1894. Dona
Theresa Maria da Conceição era uma delas. Infelizmente não há sinalização específica de
local do nascimento dela, somente que era de origem africana; mas sabe-se que veio a falecer
no ano de 1894, em São Bento, com 104 anos, e foi sepultada no Cemitério Municipal do
Mosteiro de São Bento, localizado no atual Município de Duque de Caxias.116 No mesmo ano,
outro caso interessante aconteceu na Fazenda do Barão de Mesquita, hoje bairro da Cachoeira,
atualmente Município que leva seu nome. Anacleto, africano e registrado como preto, tendo
como local de nascimento a Costa d´África, com 100 anos presumíveis, faleceu de velhice.
117
Era lavrador e, provavelmente, deve ter sido escravo dessa fazenda. Os sobrenomes estão
presentes em praticamente todos os registros, de nascimentos e de óbitos. A partir desses
nomes não foi possível localizar suas trajetórias como ex-escravos, uma vez que não os
encontrei nos registros de batismos, assim como não havia referência aos seus ex-senhores, o
que permitiria uma busca nos inventários. Possivelmente já eram libertos antes de 1888, por
conta da lei dos Sexagenários.
Entre os registros de nascimentos também busquei pela presença de filhos de libertos.
Efetivamente não é lícito afirmar, mas um forte indício apontou os filhos dos escravos do

114
Ibidem.
115
RCO, livro 1, reg. 194, 1890.
116
RCO, Livro 2, reg. 450 de 1894.
117
RCO, Livro 2, reg. 392 de 1894.
58

Barão de Mesquita sendo registrados nos anos posteriores à abolição.118 No ano de 1889,
cinco crianças foram registradas como “pretas” nessa localidade. Esse foi o caso de Justino
das Dores, registrado no dia 11 de dezembro de 1889 e o único parente a ser apresentado em
seu registro foi sua mãe Marculina das Dores, ambos moradores do bairro Cachoeira.119 No
mesmo ano nasceu Francisca, filha de Ida Luiza da Conceição e neta de Carolina Luiza da
120
Conceição. Também foi o caso de Manoel, filho de Izidora Maria da Conceição e neto de
Amélia Maria da Conceição, nascido aos oito dias do mês de Janeiro de 1894.121 Igualmente o
caso de Maria, filha de Marcolina das Dôres, nascida no dia 25 de março do mesmo ano, e
neta de José Joaquim Dionísio e Maria das Dores.122 São registrados em anos diferentes os
filhos de Dyonísia Maria da Conceição: primeiro Maria Dyonisia, registrada em 23 de
novembro de 1889, e em seguida seu irmão Dyonisio, registrado a 9 de outubro de 1894.123
Apesar de uma ligação direta entre esses moradores e a fazenda cachoeira não encontrei nos
registros eclesiásticos e nos inventários ligações com o antigo proprietário.
Contudo, em apenas um caso foi possível fazer relação direta entre o registro civil e a
experiência dos ascendentes no período do cativeiro. No dia 11 de março de 1894 nasceu
Cândida. Sua mãe Cecília Carolina Leocádia buscou o cartório no dia 13 do mesmo mês,
informando ser sua filha da cor preta e tendo como local de moradia a localidade denominada
Cachoeira. O único parente a ser citado foi a avó, denominada Carolina Leocádia.124 Nos
registros paroquiais localizei o registro de sua mãe, Cecília, nascida após a Lei do ventre-livre
e batizada no dia 16 de fevereiro de 1873. 125 Já a única referência a condição de escrava vem
da avó Carolina, tendo como naturalidade “crioula” e como proprietário Comendador

118
No final do século XIX a Fazenda Cachoeira fazia parte do distrito de Mesquita e era de propriedade do
Barão de Mesquita, Jerônimo José de Mesquita. Conhecido na região como proprietário de escravos, seu
inventário foi aberto em 1878, vindo a falecer em 1888. A propriedade passou para seu filho, Jerônimo Roberto
Mesquita. Inventário de Barão de Mesquita, 1866 e de Jerônimo Jose de Mesquita, 1878. Museu da Justiça do
Estado do Rio De Janeiro.
119
RCN livro 1, reg. 226 de 1889.
120
RCN livro 4 , reg. 113 de 1894.
121
RCN livro 3, reg. 370, de 1894.
122
RCN livro 3, reg. 445, de 1894.
123
RCN Livro 1, reg. 141, de 1889 e RCN Livro 4, reg. 141, de 1894.
124
RCNNI livro 3, assento 428. De 1894.
125
Registro de Batismo da Freguesia de Santo Antonio de Jacutinga, p. 78v. assento n. 905 de 1873. Agradeço
ao mestrando Rubens Machado que solidariamente permitiu a visualização de seu banco de dados.
59

Jeronimo José de Mesquita. Apesar de ser apenas um caso, um estudo mais aprofundado nos
registros paroquiais de outras igrejas poderiam apontar aquele grupo de cima como também
originários de escravos da fazenda Cachoeira. Portanto, nesta tese corrobora-se com a Hebe
Mattos ao afirmar que “(...) mesmo de maneira mais difusa, as crianças registradas como
‘negras’, pelo menos até meados da década, eram aquelas de pais ainda reconhecidos como
ex-cativos”.126
No ano de 1890, de um total de 235 nascimentos de crianças registrados, as brancas
correspondiam a 25,5% (60), as pardas 56,6% (133) e pretas 17,5% (42). Já entre os óbitos os
números são respectivamente: 30,2% (35), 39,6% (46) e 30,2% (35). Inicialmente percebe-se
que os não-brancos continuam sendo maioria entre os registros, uma vez que entre os nascidos
eles equivaliam a 74,5% e entre os óbitos são 69,8%.127 Isto é, a Baixada Fluminense, no
período pós-abolição, é uma região formada majoritariamente por uma população de não-
brancos.
Comparando os nascimentos e os óbitos nota-se se observa as taxas brutas de
natalidade e mortalidade. No primeiro caso são 6,9‰ para brancos; 12,9‰ para pardos e
7,5‰ para pretos. Já as taxas de mortalidade no ano de 1890 são calculadas da seguinte
maneira: 4,02‰ para brancos; 4,5‰ para pardos e 6,2‰ para pretos (sendo ‰ por mil). Ou
seja, preliminarmente é possível supor que ou os pretos morrem mais e/ou tem uma esperança
de vida menor. Além disso, seria necessário perceber se possuem um percentual maior de
homens e/ou idosos, o que poderia acarretar em uma taxa de fecundidade menor e uma taxa
maior de mortalidade. Para compreender melhor o porquê dessa diferença entre pardos, pretos
e brancos torna-se necessário analisar mais delicadamente a estrutura familiar de cada cor.
Porém o que mais se destaca nesses registros é a maioria significativa de pardos, assim
como sua taxa de natalidade e mortalidade. Através desses dados é possível retirar algumas
observações, em primeiro lugar, quando comparados ao censo de 1890, os registros de
nascimentos se mostram muito mais confiáveis em relação aos de óbitos. Afinal, como já
discutido anteriormente os sub-registros de falecimento, em todo o período analisado sempre
foi superior aos de nascidos. Em segundo lugar, ao cruzar os registros de crianças com o
censo citado acima, nota-se a existência de uma tendência ao “empardecimento” na Baixada

126
MATTOS, H. op. cit., 1995, p. 336.
127
A porcentagem restante se refere às pessoas declaradas com outras cores, tais como: morena, clara, fula, entre
outras. Assim como se refere aos registros sem a identificação da categoria cor.
60

Fluminense, o que foi visualizada tanto no registro civil de nascimento e óbito quanto nos
censos.
Esse processo não pode ser encarado como um branqueamento da população, antes
disso, aqui se assemelha ao ocorrido em Campos no qual o registro “parece delinear-se um
processo de apagamento da memória do cativeiro, no registro da cor”.128 Para corroborar
essa idéia, basta demonstrar a mudança do perfil social entre os censos de 1872 e 1890 no
qual tanto os brancos quanto os pretos diminuíram e os pardos aumentaram
consideravelmente. Infelizmente, nos registros civis de nascimento não há referencia a cor dos
pais, contudo a quantidade de crianças pardas sendo registradas acompanhou o seu
crescimento nos censos citados. Desse modo, na Baixada Fluminense, o processo de
miscigenação, pelo menos nos primeiros anos pós-abolição, se mostrou muito mais evidente
se comparado a outras regiões de passado escravista.

Retrato de Família no imediato Pós-Abolição.


Desde a década de 1980, é possível acompanhar uma revisão historiográfica sobre a
agência da população de pretos e pardos no mundo e no Brasil. Primeiramente, pode-se
apontar os trabalhos revisionistas da escravidão negra nas Américas que passaram a analisar
temas antes pouco discutidos, a saber: família, identidade cultural e políticas, economia
autônoma, alianças horizontais e verticais, entre outros. Nesses, o cativo saía da posição de
submisso e cada vez mais assumia o lugar de um agente que negociava, trocava e acumulava;
tentando, de diversas formas, minimizar a opressão cotidiana.129
Se foi possível, durante o período mais duro da experiência de pretos e pardos, a
agência seria observável no período pós-abolição? O ato de registrar o nascimento, casamento
e óbito na Igreja e sobretudo no cartório, demonstrava, em primeiro lugar, a agência de pretos
e pardos (ex-escravos ou não) assim como a vontade de legitimar, perante a burocracia do
novo governo republicano, os laços familiares construídos ainda no período da escravidão. Na

128
MATTOS,H. op. cit. 1995, p. 336
129
Entre as principais referências, destacam-se os trabalhos de: MATTOSO, K. M. Q. Ser escravo no Brasil. (1ª
edição de 1982). São Paulo: Brasiliense. 1988; LARA, S. H. Campos da violência: escravos e senhores na
capitania do Rio de Janeiro: 1750-1808. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988; CHALHOUB, S. Visões de
liberdade: uma história das últimas décadas da escravidão na Corte. São Paulo: Companhia das Letras,
1990; REIS, J. J. Rebelião escrava no Brasil: a história do levante dos malês em 1835. São Paulo: Companhia
das Letras, 2003 e do mesmo autor REIS, João José & SILVA, Eduardo. Negociação e Conflito - A resistência
negra no Brasil escravista. São Paulo, Cia. das Letras, 1989.
61

introdução do livro “Memórias do Cativeiro”, Ana Rios e Hebe Mattos discutiram de que
forma o ex-cativo e seus descendentes por muito tempo foram visualizados e pensados no
período pós-abolição. Para ambas a “herança da escravidão” não significou para os ex-
cativos a “anomia”, e muito menos essa experiência gerou uma “patologia social”
dificultando a construção de laços familiares e compreensão do funcionamento do trabalho
130
livre. Isto é, a situação da população preta e parda, no pós-abolição, não foi pura e
simplesmente resultado da escravidão, mas sim uma construção social historicamente
determinada, que pode mudar de região para região.
Diante do tema da família, nos registros civis de nascimento e de óbito, nos primeiros
anos, notei a importância dada a ela, no período pós-abolição. Com a finalidade de facilitar as
análises sobre esse aspecto na Baixada, optei por utilizar três nomenclaturas para diferenciar
os tipos de famílias. Na primeira, encontra-se a família nuclear, composta pela relação mãe
e/ou pai e filhos solteiros ou sem família formada. Na segunda categoria, está a família
ampliada, que agrega os filhos com famílias próprias e/ou outros parentes de mesmo sangue;
como os avós, tios, primos, entre outros. Por último, a família estendida, que no grupo
familiar considerado, inclui pessoas sem vínculo consanguíneo.131 Para observar esse
fenômeno, no período pós-abolição, na Baixada Fluminense, torna-se necessário analisar a
situação conjugal dos pais, a legitimidade, a presença do pai e a citação aos avós.
Nos anos seguintes à abolição muitos ex-cativos buscaram os registros de matrimônio
tanto eclesiásticos quanto os civis. Esse foi o caso de Dionísio. Desde a época da escravidão,
132
ele manteve um relacionamento conjugal com Zeferina, escrava da mesma fazenda. Em
1889, no dia 25 de Maio, oficializaram o matrimônio, mantendo em seus sobrenomes uma
clara referência à condição de libertos, ele como Dionísio Crioulo, e ela como Zeferina
Crioula.133 Esse foi o caso também do irmão dele, Geraldo Preto, que em 1889, já com o
nome de Geraldo Fernandes, casou-se com Apolinária da Conceição, filha natural de Rosária
da Conceição.134

130
RIOS, A. op. cit., 2005, p. 29.
131
JOHNSON, Ann Hagerman. “The impact of market agriculture on family and household structure in
nineteenth century Chili”. Hispanic American Historical Review 58 (4): 625-48. 1978 e KUZNESOF,
Elizabeth. Household Economy and Urban Development, São Paulo, 1765 to 1836. Boulder, Colo., Westview
Pres, 1986 apud RIOS, A. op. cit., 2005 p. 7.
132
Zeferina nasceu no dia 15 de outubro de 1870, filha natural de Paulina, escrava de Francisco Antonio Martins.
Livro II de Batismo fl.35. termo 66, Arquivo Eclesiástico de Santa Isabel do Rio Preto - AESIRP.
133
Livro II de Matrimônio fl. 31, termo 59 – 25 de Maio de 1889, AESIRP.
134
Livro II de Matrimônio fl. 34, termo 100 – 28 de setembro de 1889, AESIRP.
62

De acordo com Souza, as proclamas de casamento se intensificaram em muitos


periódicos após 1888. Para uma melhor idéia do processo, o Diário de Minas, do dia 25 de
setembro de 1889, cita a seguinte passagem:

“desde 19 de maio a 17 do corrente, quatro mezes mais ou menos, casaramse em


São João Nepomuceno, 250 libertos. Em Santa Bárbara, termo da mesma cidade,
135
dizem que o número de casamentos de libertos subio a 300.”

Essa situação não ficou restrita somente a Minas Gerias, outras regiões do Brasil também
vivenciaram o mesmo processo. Karl Monsma, através do censo municipal de 1904, da cidade
de São Carlos, interior do Estado de São Paulo, notou que “as taxas de casamento de pretos e
136
mulatos são mais altas que as de brasileiros brancos.” Ou seja, através desses dados
compreende-se a importância emprestada pelos ex-escravos na formalização de suas situações
conjugais originadas ainda da época do cativeiro.
Em alguns casos encontrados tanto na região do Vale do Paraíba e d Baixada
Fluminense, os pais solteiros pediram que fosse anotado o seu desejo em oficializar a situação
conjugal, de contrair matrimônio, num futuro próximo. No ano de 1890, nos registros civis,
muitos pais declararam o interesse em se casar, provavelmente a referência era ao matrimônio
na igreja, uma vez que, como já demonstrado, os cartorários ainda encontravam dificuldades
na diferenciação entre o laico e o eclesiástico. Nos que declararam a vontade de se casar
estavam 38 solteiros brancos, 57,9%, 115 pardos, 19,1%, e entre os pretos nenhum indicou o
interesse em contrair casamento com seu cônjuge.
Entre os casados e solteiros no momento do registro é possível encontrar uma
diferenciação entre as cores. Os brancos tem o maior número percentual de casados se
comparados aos outros grupos. Desse modo, o que chama mais chama a atenção nessa tabela
abaixo foi a quantidade de solteiros entre pardos e pretos 70% e 88,1% respectivamente. Ou
seja, pretos e pardos não legitimavam tanto a família perante a burocracia do Estado laico
quanto os brancos. Porém, a presença deles indicava a intenção e a importância dada à
legitimação e a formação de família pelos diferentes grupos.

135
SOUZA, Sônia Maria de. Terra, família, solidariedade: Estratégias de sobrevivência camponesa no
período de transição – Juiz de Fora (1870-1920). (Doutorado em História) Instituto de Ciências Humanas e
Filosofia, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2003. Apud RIOS, A. & MATTOS, H. “O pós-abolição
como problema histórico: balanços e perspectivas”. In: Topoi, v. 5, nº. 8, 2004. p. 186.
136
MOSNMA, Karl “Vantagens de Imigrantes e Desvantagens de Negros: Emprego, Propriedade, Estrutura
Familiar e Alfabetização Depois da Abolição no Oeste Paulista” In: DADOS – Revista de Ciências Sociais, Rio
de Janeiro, vol. 53, no 3, 2010, 527.
63

Tabela 2.3 – Situação conjugal dos pais e mães por cor no registro civil de nascimento, em números
absolutos e em %. Nova Iguaçu, 1890.

Branca Parda Preta Total geral


abs. % abs. % abs. % abs. %
Casado 22 36,7 18 13,5 5 11,9 45 19,1
Solteiro 16 26,6 93 70,0 37 88,1 146 65,2
Vão se Casar 22 36,7 22 16,5 - - 44 18,7
Total geral 60 100 133 100 42 100 240

Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.

A referência á legitimidade das crianças, tanto nos registros de nascimento como nos
de óbitos, reflete a importância dada à estrutura familiar, tanto por brancos como por não-
brancos. Nos registros as crianças são identificadas da seguinte forma: legítima, natural e
ilegítima. De acordo com o decreto n. 9886 de 7 de março de 1888, seriam declarados
legítimos os filhos que fossem reconhecidos por casamento legítimo e reconhecido pela
comunidade, como afirma o artigo n.59. Já para as crianças registradas como “naturais” a
situação é mais complexa. De acordo com o artigo 60, caso o pai não se faça presente e
“ainda que o pai seja notoriamente conhecido, não se declarará seu nome sem que elle
expressamente o autorise e compareça por si ou por procurador para assignar ou mandar
assignar a seu rogo com duas testemunhas”. Ou seja, a criança declarada como natural é
aquela nascida diretamente da mãe, na qual não se duvida da ancestralidade.
Já para as crianças registradas como ilegítimas a situação é pior ainda. De acordo com
o artigo 61:

“sendo illegitimo, não se declarará o nome do pai sem que este expressamente o
autorise e compareça, por si ou por procurador especial, para assignar, ou, não
sabendo, ou não podendo, mandar assignar a seu rogo o respectivo assento, com
duas testemunhas.”

Resumindo. Legítimos: aquelas crianças cujos pais estão presentes e são fruto de uma relação
reconhecida. Natural: aquelas cujo pai pode estar presente ou não, mas a relação conjugal não
é reconhecida socialmente. Ilegítima: aquela criança cujo pai é conhecido, mas seu nome não
pode ser identificado sem sua permissão – normalmente nesses registros o nome do pai
aparece, e se reafirma que o mesmo possuiu relação conjugal com outra pessoa.
Volto a análise da legitimidade das crianças nascidas no ano de 1890 na Baixada
Fluminense. De acordo com a tabela 2.4, quando as cores são analisadas individualmente, a
legitimidades das crianças se diferencia um pouco entre as cores. Em 73,3% das crianças
brancas registradas os pais declararam o filho como legítimo. O mesmo não é repetido para
64

crianças pardas e pretas. No primeiro, as crianças legítimas são 30,1%, enquanto na segunda
11,9%. O mesmo parece se repetir nos registros de óbitos. Na tabela 2.5 foram computadas
apenas as crianças falecidas na faixa etária de 0 a 15 anos. De acordo com ela as crianças
brancas legítimas também são maioria nos registros de óbito. Contudo, quando somados os
não-brancos a proporção em comparação fica equilibrada.

Tabela 2.4 – Legitimidade (%) por cor no registro civil de nascimento. Nova Iguaçu, 1890.

Branca Parda Preta Total geral


abs. % abs. % abs. % abs. %
Legítimo 44 73,3 40 30,1 5 11,9 89 37,8
Natural 16 26,7 93 69,9 37 88,1 146 62,2
Total geral 60 100 133 100 42 100 235 100

Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.

Tabela 2.5 – Legitimidade (%) por cor no registro civil de óbito. Município de Nova Iguaçu, 1890.

Branca Parda Preta Total geral


abs. % abs. % abs. % abs. %
Legítimo 14 73,7 11 50 4 36,4 29 55,8
Natural 5 26,3 11 50 7 63,6 23 44,2
Total geral 19 100 22 100 11 100 52 100

Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.

Mesmo os brancos tendo uma superioridade em porcentagem na legitimidade, todos os


grupos emprestavam a mesma importância à formalização familiar. Logo, não havia uma
predominância dos brancos nos registros e muito menos impedimentos a pardos e pretos na
hora da busca pela legitimação da família.
Comparando ainda esses dados, referentes à legitimidade das crianças, com outras
regiões nota-se uma semelhança entre todas as cores, pelo menos na vontade de registrar os
filhos como legítimos. No Vale do Paraíba, por exemplo, de acordo com Ana Rios, “a
legitimidade das crianças registradas era extremamente baixa nos dois grupos [negros e
pardos], porém mais elevada entre os ‘pardos’ (27,10% e 38,24%).”137 Somado a isso, a
mesma autora encontra “famílias consensuais, identificadas pela mãe como ‘caseira’ ou

137
MATTOS, H. op. cit., 1995, p. 340.
65

‘amasia’ do declarante e deste como o pai da criança, mostraram-se significativas nos dois
grupos, mais incisivamente para os ‘pardos’(35,16% e 47,51%)”. 138
Como a questão principal a ser discutida aqui não é a legitimação da família, mas sim
a sua existência, necessito buscar a aparição do nome do pai nos registros civis de nascimento
para comprovar a existência dos núcleos familiares. Porém, nessa região o que mais chama a
atenção do leitor é a quantidade de crianças sendo registradas, sem a presença do pai. Como
entre as crianças declaradas como naturais em 1890 em nenhum dos registros há a presença
do pai, busquei coletar apenas os registros nos quais ele está presente/ausente. O pai esteve
presente da seguinte forma no total dos registros civis de nascimento: brancos, 73,3%; pardos
30,1%; e pretas 11,9%. Exatamente como informada pela tabela de legitimidade. Os pais das
crianças brancas encontram-se muito mais presentes do que as não-brancas.
Para além da citação do nome dos pais, cabe destacar a relação familiar do declarante
com a criança momento da declaração do nascimento. A tabela 2.6 Foi dividida em três
categorias:pai, parente e não parente. Os parentes aparecem em menor número tanto entre
brancos e pardos. O pai está presente em todas as cores, sendo em maior percentual entre o
brancos. Porém o que mais chama a atenção é a quantidade de crianças sendo registradas por
não-parentes em todas as cores.

Tabela 2.6 – Declarantes (%) por cor nos registros civis de Nascimento. Nova Iguaçu, 1890.

Brancos Pardos Pretos Total


abs. % abs. % abs. % abs. %
Pai 31 51,7 30 22,5 3 7 64 27,2
Parente 1 1,7 5 3,8 - - 6 2,6
Não Parente 28 46,6 98 73,7 39 93 165 70,2
Total geral 60 100 133 100 42 100 235 100

Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.

A ausência do pai nos registros já foi destacada em outras regiões do Estado. Para Ana
Rios, pelos menos em Paraíba do Sul, “para crianças negras ou brancas, a ausência do pai
no registro é um fenômeno que atravessa todo o período e aparece em quantidade expressiva,
mas entre as crianças negras ele é bem mais recorrente.”139 A autora ao tentar explicar esse

138
Idem
139
RIOS, A, op. cit., 1990, p. 112.
66

fenômeno compara a situação de famílias negras do Vale do Paraíba as do Caribe. Isto é, para
ela a estrutura família nuclear “incompleta” dos negros reflete mais um padrão diferenciado
do que a uma “inconstância ou falta de tradição de organização familiar.”140
Por um lado, fica claro que esses dois grupos podem não ter um suporte familiar para
registrar a criança, ou mesmo um desinteresse pelo registro civil de nascimento. Por um lado
vale destacar que mesmo sem um parente próximo capaz, ou mesmo disposto em registrar seu
familiar, isso não foi um impedimento às crianças brancas e não-brancas de serem citadas nos
registros civis de nascimento. Por outro, a natureza da fonte não permite afirmar
categoricamente que o pai não fazia parte da família, ela apenas informa um indício de sua
não-presença. Muito possivelmente pais de famílias nucleares não puderam estar presentes ou
virtude da hora do trabalho ou mesmo por terem saído da região em busca de novas
oportunidades de subsistência de sua família.
Na tentativa de explorar ainda mais essa ausência do pai na hora do registro civil de
pretos e pardos na Baixada, serão analisados os seguintes aspectos: a proporção entre os
sexos, o empobrecimento regional, e as leis sobre a transmissão de propriedade. Inicialmente,
para explicar a ausência masculina nos registros deve-se atentar para a proporção entre
homens e mulheres recenseadas na Baixada Fluminense. A tabela 2.7 foi construída a partir
de dados citados no censo de 1890, ano de preocupação desse capítulo. Ao analisar a relação
de sexo por cada cor tem-se o seguinte panorama: Entre os brancos, são 52,8% de homens
para 47,2% de mulheres e entre os pardos e pretos a diferença é de 51% para 49%. Mesmo
sendo os brancos os que possuíam uma maior desproporção entre os sexos, todos os membros
das outras cores seguem um padrão semelhante. O que nos auxiliaria na compreensão da
presença desses homens na Baixada seria a faixa etária por sexo e cor, o que infelizmente o
censo de 1890 não informa. Logo, se os homens pretos e pardos não desapareceram da região
da Baixada Fluminense, então o que explicaria sua ausência nos registros civis de
nascimento?

140
Idem.
67

Tabela 2.7 – Sexo (%) por cor no censo de 1890. Município de Nova Iguaçu, 1890.

Homens Mulheres Total


abs. % abs. % abs. %
Brancos 4587 52,79 4102 47,2 8689 100
Pretos 3789 51,14 3619 48,85 7408 100
Caboclos 358 51,06 343 48,93 701 100
Mestiços 5245 51,02 5034 48,97 10279 100
Total 13979 51,62 13098 48,37 27077 100

Fonte: Censo IBGE 1890

Como dito no início do capítulo, o antigo Município de Iguassú entrou em decadência


econômica na virada do século XIX para o XX. O café e a cana de açúcar já não produziam o
necessário para manter economicamente a região. E somada a isso, os antigos rios
responsáveis pelo transporte de produtos do interior do Brasil para a capital federal, perdiam
ano a ano sua importância com o crescimento da malha ferroviária. Afinal, além de
transportar mais rapidamente as mercadorias, o trem agilizava o deslocamento de passageiros
e trabalhadores. A migração sazonal de homens para regiões próximas e mais prósperas pode
ter se tornado uma estratégia com o intuito de manter a família estabilizada na região. Isso,
em parte, explicaria a ausência masculina, pelo menos momentânea nos registros civis de
nascimento. Igualmente, o homem continuava fazendo parte da familiar nuclear, todavia em
função dos seus constantes deslocamentos em busca de arranjos de trabalho, provavelmente
não definitivos, nem sempre era possível estar presente no nascimento dos filhos e muitos
menos no dia exato do registro civil.
Porém, o pai poderia ser mencionado no registro mesmo em sua ausência. Se ele era
considerado membro da família, mesmo distante, era de se esperar a citação de seus nomes,
pelo menos, nos registros civis de nascimento. Isso provavelmente não acontecia por conta de
uma legislação assimétrica que privilegiava o sexo masculino. Explico-me. De acordo com o
Art. 57, que institui o registro civil de nascimento, o declarante deveria ser, em primeiro
lugar, o pai da criança, e, se esse estivesse impossibilitado, era dever da mãe registrar; se
ambos não pudessem declarar, algum parente próximo era incumbido de se apresentar ao
cartório. Logo, nada impedia que o nome do pai, pelo menos nessa legislação, estivesse no
registro da criança, mesmo em sua ausência.141

141
Neste momento da pesquisa seria muito importante a utilização dos registros civis de matrimônio. Contudo, a
opção foi por não utilizá-lo em virtude da ausência da categoria cor, assim como o alto grau de sub-registro
percebido.
68

No entanto, de acordo com Maria Beatriz Nizza da Silva um dos maiores problemas
enfrentados no Brasil, desde o Brasil colonial, versava sobre a transmissão de bens por
herança.142 Com o início da República, aparentemente, o problema se perpetuou, afinal com a
falta de uma nova constituição, só promulgada em 1891, somada a ausência de um novo
código civil, que só seria colocado em prática no ano de 1916, utilizou-se abertamente as
Ordenações Filipinas nas decisões mais contraditórias, principalmente no ano 1890, na
recente inaugurada República. Por exemplo, em casos de adultério via-se claramente uma
assimetria entre os sexos visto que as Ordenações puniam somente a mulher, ficando o
adúltero livre de punição.143
Como a legislação valorizava o papel do homem e não recriminava os concubinatos
fora do casamento, uma das maiores preocupações passou a recair na transmissão de
propriedades após a morte. Afinal a quantidade de crianças nascidas fora do casamento
possivelmente se tornou um problema na hora da divisão dos bens. Para a Primeira República
a legislação referente a esse tema foi muito pouco estudada; todavia, em virtude da falta de
legislação específica, e da possível alta taxa de ilegitimidade das crianças, tentou-se, sempre
que possível, proteger os interesses materiais dos homens. Com a finalidade de impedir mães
com a intenção de legitimar filhos ilegítimos, sem a vontade do pai, e de futuros problemas na
divisão de bens entre os verdadeiros herdeiros, provavelmente os cartorários omitiram os
nomes dos pais em sua ausência.
Mesmo com a falta do pai no dia exato do registro, a mulher não deixou de usar o
sobrenome dele, em alguns casos os avós paternos também foram citados. Esse é o caso de
Rezende Denio, nascido na localidade denominada São Bento, atual município de Duque de
Caxias, de cor declarada parda e filho natural de Maria Roza da Conceição. O nome de seu
pai não aparece, mas cita as duas avós, paternas e maternas, a saber: Arminda Alves Denio e
Roza Joaquina de Jesus.144 Ou seja, era possível, mesmo sem a presença de o pai observar
uma estrutura familiar, além da nuclear.
Nesse sentido, na intenção de visualizar a família ampliada, deve-se analisar também
os avós presentes nos registros. Inicialmente, serão destacados os dados mais gerais, para
então dividir por cores. Como nos registros de óbitos os avós aparecem em raríssimos casos,
optou-se por utilizar somente os nascimentos. No ano de 1890, os avôs e a avós paternos

142
SILVA, M. B. “Legislação e práticas familiares no Brasil Colonial”. In: NEDER, G. História e Direito Ed.:
Revan, Rio de Janeiro, 2007.
143
SILVA, M. B., op. cit., 2007, p. 24.
144
RCN, Livro. 1 reg. 322, ano 1890.
69

estiveram presentes respectivamente em 22,3% e em 38,7% de todos os registros de


nascimento (tabela 2.8). Já os maternos foram percentualmente mais presentes, sendo citado o
avô materno em 46,2% e a avó em 89,2% dos assentos. Apenas 22,3% das crianças tiveram a
oportunidade de conviver com todos os avós, ou apenas terem ouvido falar deles – uma vez
que a citação sobre o falecimento era rara. Já apenas 10,4% possivelmente nunca ouviram
falar de ao menos um dos avós. Quando esses dados são observados de forma mais geral é
possível afirmar que a maior parte da população, presente no registros civil de nascimento,
não passou para Primeira República com famílias extremamente desestruturadas, pelo
contrário, a família ampliada era muito comum a época.

Tabela 2.8 – Presença do nome dos avós (%) por cor no registro civil de nascimento. Nova Iguaçu, 1890.

Brancos Pardos Pretos Total


abs. % abs. % abs. % abs. %
Avô Paterno 39 65 24 18 2 4,7 68 22,3
Avó Paterna 43 71,7 44 33,1 2 4,7 93 38,7
Avô Materno 49 81,7 49 36,8 10 23,8 111 46,2
Avó Materna 57 95 118 88,7 34 81 214 89,2
Todos os avós 39 65 24 18 2 4,7 68 22,3
Nenhum dos avós 3 5 13 9,7 6 14,2 25 10,4
Total de registros 60 100 133 100 42 100 240 100

Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.

Analisando a presença do nome dos avós por cor fica mais nítido a diferença familiar,
pelo menos no registro civil. O avô paterno está muito mais presente entre os brancos, já a avó
paterna é citada tanto por esse grupo quanto pelos pardos. Já entre os maternos a figura
masculina continua alta entre os brancos, mas é avó materna que parece ter mais importância
nos três grupos, com grande destaque para os pardos e sobretudo para pretos.
A mesma situação, da avó materna como um dos eixos mais importantes foi também
encontrada por Ana Rios em Paraíba do Sul. De acordo com a autora

“Mais de 97% das crianças registradas tiveram referida a avó materna,


evidenciando que uma referencia geracional em linha materna não era exclusiva de
nenhum grupo social. (...) o que reforçava a solidez das uniões consensuais na área,
visto que, em outras freguesias, não foi comum registrar-se o nome dos avós
145
paternos dos filhos naturais, mesmo quando reconhecidos por seus pais.”

Isto é, tanto no Vale do Paraíba quanto na Baixada Fluminense, a figura da família da mãe
sempre esteve mais em evidência. Optou-se aqui afirmar a existência de uma tradição familiar

145
RIOS, A. op. cit., 1990, p. 86.
70

diferente, entre pardos e pretos, que possuía a figura da mulher como central e não a do
homem. Isso pode ser observado na importância dada a avó materna como elemento central da
família ampliada.
Além disso, deseja-se aqui afirmar que apesar dos números dos avós serem inferiores
aos de brancos, os dados não parecem afirmar que aos não-brancos houvesse impedimentos na
formação de núcleos familiares, ao contrário, como afirma Ana Rios ao analisar o Vale:

“o fato de se encontrar famílias nucleares completas e famílias ampliadas que


persistem no tempo empresta ao liberto uma dimensão de socialização, de
constância e lógica em suas ações que até aqui muitas vezes lhe foi negada”.146

O mesmo foi encontrada na Baixada Fluminense, pois como demonstrado, no ano de


1890 a maioria dos registros civis de óbitos, e, principalmente, de nascimentos, são de não-
brancos. Desse modo, pode-se concluir que “este interesse em regularizar a situação das
crianças e (...) a situação conjugal os casais (...) reflete uma vontade de integração, e não de
exclusão.”147 Ou seja, a análise inicial dos dados sobre a família demonstrou a vontade dos
pretos e pardos, com ascendência na escravidão ou não, em legitimar as suas relações
familiares, assim como, buscaram se integrar a nova burocracia do Estado.
Assim, quando da regularização conjugal, os ex-escravos e seus descendentes
buscaram registrar toda a sua família. Mesmo em regiões onde a maioria da população era
formada por ex-escravos e seus descendentes, era de se esperar, por conta da presumível
anomia, que sua presença nos registros, tanto eclesiásticos quanto civis, fosse inferior em
relação aos brancos. Na região do Vale do Paraíba, no ano de 1893 Vô Dionísio e Dona
148
Zeferina batizaram sua segunda filha, no Distrito de Santa Isabel, Sebastiana. Seus filhos
do sexo masculino nasceram após a abolição, e são: Manoel, José e Joaquim.149 Todos eles, de
acordo com relatos dos familiares que permaneceram no Vale, migraram para a Baixada
Fluminense entre as décadas de 1920 e 1930.150 Já Brandina Maria, sua primeira filha, como
nasceu no Distrito de Ipiabas, o único registro que menciona o seu parentesco com Dionísio

146
RIOS, A. op. cit., 1990, p. 113.
147
RIOS, A. op. cit., 1990, p. 107.
148
Livro IV de Batismo, fl. 93, termo 75 – 20 de janeiro de 1893, AESIRP.
149
Manoel: Livro IV, fl. 181, termo 8 – novembro de 1898, AESIRP; José: Livro V, fl. 37, termo 4 – 23 de
setembro de 1903, AESIRP e Joaquim: Livro V, fl. 89, termo 73 - 3 de março de 1908, AESIRP.
150
Entrevista oral com Manoel Seabra, Zeferina Seabra e Florentina Seabra, todos netos de Dionísio – Acervo
Memórias do Cativeiro (AMC).
71

foi o de seu matrimonio. Nesse assento é possível ver que ela casou aos 14 anos, em 1903,
com o grande amigo de seu pai, Manoel Pereira do Nascimento, ex-morador da Fazenda São
151
José. Seguindo essa busca pela legitimação Ana Rios encontrou em Paraíba do Sul, nos
primeiros anos pós-abolição, uma quantidade de registros civis de crianças pretas e pardas
superior a de brancos. Para a autora, de certa maneira, os “libertos buscaram [também]
regularizar suas vidas familiares através do casamento, das promessas lavradas de
casamento e declaração de paternidade, de registro civil de suas crianças”. 152
As condições familiares herdadas ainda do tempo do cativeiro podem ter influenciado
diretamente nas experiências vivenciadas no período pós-abolição. Afinal, como visualizado
em todas as tabelas acima, e afirmada por Ana Rios em trabalho anterior

“(...) os lavradores que costumam recorrer ao registro tem estabilidade familiar,


que em sua maioria vieram no mínimo de famílias nucleares completas. Que tal
estabilidade, como a presença constante dos avós o indica, já vem de longa data e
153
atravessa gerações.”

Ou seja, a busca pelo registro civil tanto de nascimento quanto de óbito era um claro sinal da
estabilidade vivenciada pelas famílias de pretos e pardos. Isso porquê, como lembrado no
início do texto, no ano de 1890, eles foram a grande maioria nos registros.
Somado a isso, essa estabilidade vivenciada por pretos e pardos, no pós-abolição, em
função da família nuclear e ampliada, pode ter ajudado também na melhora de condição de
vida ao longo dos anos. De acordo com Monsma o tamanho das famílias “(...) podia
influenciar nas possibilidades de poupar dinheiro e adquirir propriedade (...) as famílias
maiores podiam tratar talhões maiores e ganhar mais”.154 Como demonstrado, mesmo em
menores proporções, os pretos e pardos conheceram a família nuclear e ampliada no
Município de Nova Iguaçu. Com isso, a opção de permanecer na região, através da conquista
da pequena roça, por compra ou por concessão, e não a de migrar, possivelmente tornou-se a
regra na Baixada Fluminense.

151
Livro II de Matrimônio, fl. 81, termo 6 – 23 de Maio de 1903, AESIRP.
152
RIOS, A. RIOS, A. “Não se esquece um elefante: notas sobre os últimos africanos e a memória d’África no
Vale do Paraíba”. In: FRAGOSO, João; FLORENTINO, Manolo; JUCÁ, Antônio Carlos; CAMPOS, Adriana.
Nas Rotas do Império: eixos mercantis, tráfico e relações sociais no mundo português. Vitória: Edufes;
Lisboa: IICT, 2006. p. 668.
153
RIOS, A. op. cit., 1990, p.109.
154
MONSMA, K. op. cit., 2010, p. 527.
72

II - Qualidade de vida, moradia e profissão na Baixada Fluminense no


imediato Pós-Abolição (1890)

A qualidade de vida dos moradores do Município de Nova Iguaçu variou muito de


grupo para grupo, sendo uma das referencias, a mortalidade infantil. Os gráficos 2.1 e 2.2
foram construídos a partir dos registros civis de óbito desse município. No ano de 1890
nasceram 240 crianças, das quais apenas 10 não completaram um ano. As crianças brancas
foram as que mais sofreram, uma vez que quando comparado aos pardos, a morte de crianças
somente é superior quando elas alcançam mais de um ano até 5.
O interessante foi ver que foram as crianças do sexo feminino e de cor preta as que
mais sofreram. Contudo, quando somados os registros de não-brancos nota-se que a
mortalidade infantil muda completamente a constituição da familiar ao longo do tempo. Entre
o nascimento e a idade de 5 anos, tanto em números absolutos, quanto em porcentagem de
falecimentos por faixa-etária, os não-brancos superam, e muito, a população de crianças
brancas. De acordo com Monsma, situação parecida ocorreu em São Paulo. Ao analisar a
cidade de São Carlos, de acordo com o autor, o grande número de mortes de crianças pardas
e, principalmente, de pretas estaria ligada a falta de atendimento médico.155 E as
consequências desse fato seriam sentidas na própria constituição familiar dos não-brancos
uma vez que “diferenças raciais nas taxas de mortalidade, sobretudo de crianças e de
mulheres durante o parto, podem explicar uma parte da diferença no tamanho das
famílias.”156 Ou seja, famílias de não-brancos seriam menores, em relação aos brancos,
exatamente por conta das maiores taxas de mortes na infância.

155
MONSMA, K. op. cit., 2010, p. 529.
156
MONSMA, K. op. cit. 2010, p. 528.
73

Gráfico 2.1 - Piramide sexo-etária (%) de brancos nos registros de óbito em


1890. Município de Nova Iguaçu, 1890.

80 ou Mais
71 - 75
66 - 70
61 - 65
56 - 60
51 - 55
46 - 50
41 - 45
36 - 40
31 - 35
26 - 30
21 - 25
16 - 20
11 - 15
6 - 10
1-5
0 - 11 meses

-100 -80 -60 -40 -20 0 20 40 60 80 100

Masculino % Feminino %

Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.


Gráfico 2.2 - Piramide sexo-etária (%) de pardos nos registros de óbito em
1890. Município de Nova Iguaçu, 1890.

80 ou Mais
71 - 75
66 - 70
61 - 65
56 - 60
51 - 55
41 - 45
36 - 40
31 - 35
26 - 30
21 - 25
16 - 20
11 - 15
6 - 10
1-5
0 - 11 meses

-100 -80 -60 -40 -20 0 20 40 60 80 100

Masculino % Feminino %

Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.


74

Gráfico 2.3 - Piramide sexo-etária (%) de pretos nos registros de óbito em


1890. Município de Nova Iguaçu, 1890.

80 ou Mais
71 - 75
66 - 70
61 - 65
56 - 60
51 - 55
46 - 50
41 - 45
36 - 40
31 - 35
26 - 30
21 - 25
16 - 20
11 - 15
6 - 10
1-5
0 - 11 meses

-100 -80 -60 -40 -20 0 20 40 60 80 100

Masculino % Feminino %
Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.

Gráfico 2.4 - Piramide sexo-etária (%) de não-brancos nos registros de


óbito em 1890. Município de Nova Iguaçu, 1890.

80 ou Mais
71 - 75
66 - 70
61 - 65
56 - 60
51 - 55
46 - 50
41 - 45
36 - 40
31 - 35
26 - 30
21 - 25
16 - 20
11 - 15
6 - 10
1-5
0 - 11 meses

-100 -80 -60 -40 -20 0 20 40 60 80 100

Masculino % Feminino %
Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.

Analisando a qualidade de vida, agora na outra extremidade da faixa etária, foi notável
a quantidade de idosos entre todos os grupos, com destaque para os pretos. Quando analisados
os dois primeiros gráficos de óbitos, os pretos aparecem tanto em maior quantidade absoluta
75

quanto em porcentagem. Entre os mais velhos, falecidos no ano de 1890, estava José Joaquim
Dias. Natural da Costa da África, faleceu com 72 anos no lugar denominado Campo da Ponta,
na cidade de Nova Iguaçu, de causa mortis, marasmo. Declararam ser o falecido casado com
Roza Dias, de profissão lavrador e da cor preta.157 Outro africano também faleceu no mesmo
ano. Manoel Antonio de Araujo, teve como idade presumível, na hora da morte, 70 anos. Ao
contrário do seu companheiro de continente, Manoel faleceu no interior do município, em
uma localidade chamada Rangel. Também era lavrador, mas morreu sem contrair
matrimônio.158 Essa longevidade dos negros pode também explicar o porquê da baixa
fecundidade, o que consequentemente afeta a baixa natalidade entre eles. Ou seja, nascem
menos pretos por conta da idade avançada deles.
Essa quantidade de idosos também demonstra uma qualidade de vida pelo menos
melhor do que a de brancos e pardos, revertida em mais anos de vivência, parece ter sido
melhor para aquele grupo. Isso fica mais claro quando analisada a idade média de morte entre
as três cores. Para os brancos a idade média era de 20,2, para os pardos 18,6 e para os pretos,
impressionantes, 36 anos. Para se ter uma melhor ideia do que significam esses números, a
idade média ao falecer para todos, na Baixada Fluminense, era de 23,5 anos. Isto significa
dizer que o único grupo a estar acima, e bem acima, foram os pretos.
Essa aparente melhor qualidade de vida parece transparecer quando observado os
indigentes registrados. Em todos os 131 casos de óbitos computados, em apenas três o
falecido era indigente. Dona Leopoldina, faleceu aos 96 anos de congestão no fígado, na
povoação de Maxambomba, atual centro do Município de Nova Iguaçu.159 Mesmo sendo
declarada da cor “preta”, a condição de indigente não ficou restrita ao seu grupo. Manoel
Lopes da Silva, de cor “branca”, não teve sua idade citada no registro, ao falecer de febre, em
1890. Era natural da Freguesia de Jacutinga, mas morreu na localidade de São Bento, atual
Município de Duque de Caxias. Mesmo indigente o declarante informou ser o falecido
solteiro, mas com citação a sua cônjuge, Olympia Adelayde da Silva, assim como o nome dos
seus pais, Domingos Lopes da Silva e Francisca Maria da Silva.160 Já o terceiro caso não
informava a cor do falecido. A pequena quantidade de indigentes sendo enterrados no
Município de Nova Iguaçu aparentemente era uma característica dessa localidade, uma vez
157
RCO, Livro. 1, reg. 185 de 1890.
158
RCO, Livro. 1, reg. 270 de 1890.
159
RCO, Livro. 1. reg. 187 de 1890.
160
RCO, Livro. 1 reg. 177 de 1890.
76

que a mesma situação não foi encontrada por Ana Rios no Município de Paraíba do Sul. De
acordo com a autora

“(...) parte dos óbitos de negros idosos foram declarados pela autoridade policial
ou oficial de justiça, não constando no termo a referencia a qualquer parente ou
amigo que os tenha assistido. De alguns não se sabia o nome, a procedência ou a
causa da morte. Seus corpos eram encontrados pelas ruas, nas estações do trem ou
em prédios abandonados. Eram enterrados como indigentes. A maioria dos óbitos
de pessoas de nome desconhecido foram de negros, geralmente aparentando idade
161
avançada, e concentrados nos dois primeiros anos do registros (1889 e 1890)”.

Comparando as regiões através do primeiro ano de registro, possivelmente, para ex-escravos,


pretos e pardos a longevidade e o número reduzido de indigentes pode ser explicado pela
possibilidade aberta de: possuir famílias nucleares e ampliadas, relações estendidas a outros
grupos, assim como o acesso à terra; o que provavelmente gerou uma melhor qualidade de
vida no período pós-abolição, pelo menos na Baixada Fluminense.
Essa mesma impressão é passada quando se analisa as causas mortis em relação à cor
dos registrados. Para facilitar a visualização dos gráficos, pois ela contém mais de 100 causas
mortis, optou-se por agregar algumas doenças semelhantes. Alguns ficaram de fácil percepção
como nutrição e digestivas; nas infecto-contagiosas foram inseridas pessoas que faleceram,
por exemplo, de Tísia, Tuberculose e Meningite. Já em traumas estão os óbitos relacionados
com afogamentos, hemorragia, asfixia e traumatismo craniano.
Ao analisar inicialmente o gráfico 2.5, fica claro que algumas doenças não foram
específicas de cada cor. As mortes ligadas as doenças infecto-contagiosas atingiram a todas as
cores, aparentemente, sem distinção. Os brancos parecem ter morrido também em grande
número de traumas e de doenças infecto-contagiosas. Os pardos não morreram em
consequência de apenas uma doença, eles são os que mais se espalharam por todas as
categorias de cor, com destaque para as doenças do sistema nervoso e natimortos. Já a morte
dos pretos parece estar mais concentrada naquelas áreas onde a qualidade de vida,
aparentemente é menor, isto é, nas infecto-contagioasas, nutrição e digestiva.

161
RIOS, A. op. cit., 1990, p. 91.
77

Gráfico 2.5 - Causas Mortis (%) por cor em 1890. Município de Nova
Iguaçu, 1890.
100
90
80
70
60
50
40
30
20
10
0

Branca % Parda % Preta %


Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.

No entanto tomando as doenças que aparentemente estão mais ligadas a uma pior
qualidade de vida como as infecto-contagiosas, natimortos, nutrição e digestiva, é possível
perceber uma grande diferença entre as cores. No primeiro caso, as doenças ligadas a
epidemias não distinguiram ninguém, se houve uma onda não de tuberculose por exemplo, ela
pode ter afetado a todos. Dentre todos os natimortos as crianças pardas são as que mais
sofrem enquanto o mesmo é visualizado para pretos que morreram de Nutrição, ou pela falta
dela. Entre os traumas, os brancos foram os que mais sofreram com eles, sendo nenhuma
ligada a homicídio ou acidente. Já entre as doenças digestivas, ligadas tanto aos problemas
estomacais quanto do intestino, normalmente ligadas a má alimentação, os pardos e pretos são
superiores. Pardos e pretos parecem ter sofrido mais com a má qualidade de vida.
78

Gráfico 2.6 - A divisão da cor por categorias das Causas Mortis (%) por cor
em 1890. Município de Nova Iguaçu, 1890.
100
90
80
70
60
50
40
30 Branca %
20 Parda %
10 Preta %
0

Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.

Ao contrário do que acontece em São Carlos em São Paulo, como afirma Karl
Monsma onde “coerente com a posição um tanto melhor dos mulatos na estrutura
ocupacional, parece que as esposas de mulatos gozavam de melhores condições de saúde e
mais acesso ao atendimento médico que as esposas de pretos”162, o mesmo não se reflete na
Baixada Fluminense. Nos registros civis de óbito pesquisados as não há informações
referentes aos óbitos pós-parto. Cabe aqui destacar, que aparentemente os pretos e pardos não
sofreram de doenças específicas, demonstrando, pelo menos em 1890, não haver
diferenciação no acesso à saúde. Afinal o primeiro hospital da região, o Hospital de Iguassú,
somente é fundado no ano de 1938.
Mesmo com a falta de hospitais, no centro de Nova Iguaçu ainda era possível
encontrar médicos, boticários e farmacêuticos especializados em ajudar enfermos, em casos
de urgência. Logo, para identificar a diferenciação no acesso ao atendimento médico e na
qualidade da região de moradia – se eram perto de córregos, de pântanos ou mesmo sem
saneamento básico – torna-se necessário analisar os locais de moradia. No gráfico abaixo
nota-se como as cores se dividiram pelas regiões da Baixada. Até 1916 a sede da Baixada
Fluminense localizava-se em Vila de Cava, que no caso está inserida em “Nova Iguaçu
Interior”. Como já falado no primeiro capítulo a sede só muda em 1916 quando se cria a
cidade de Nova Iguaçu, antigamente denominada Maxambomba. Nesse caso, tomo a sede

162
MONSMA, K. op. cit., 2010, p. 529.
79

como o local de melhor moradia e quanto maior o raio de distância pior é a qualidade de vida,
nesse caso o atual Município de Duque de Caxias.
De acordo com os gráficos, tanto brancos, pardos e pretos parecem ter se concentrado
no interior de Nova Iguaçu, afinal, até o presente, o eixo econômico, mesmo em decadência,
estava ali concentrado. Os pretos parecem ter escolhido ficar mais distante dessa região,
residiram, pelo menos em 1890, na área da atual sede do Município. O trem, do ramal
Leopoldina, já passava por ali desde 1848. Também optaram por morar em Mesquita e
Belford Roxo, locais que também já possuíam estações ferroviárias. Brancos e pardos, além
de morar no raio mais próximos do eixo econômico, também moraram em cidades mais
longínquas como o atual Municípios de Duque de Caxias.
Quando visualizado os óbitos um cenário também interessante nos é apresentado. No
interior de Nova Iguaçu, as relações entre as cores é bem equilibrada, ali tanto nasciam quanto
faleciam todos (gráfico 2.7). Assim como Mesquita, os pretos parecem ter escolhido a região
para residir por muito tempo, pois ali nasciam e morriam. Já na região de Nova Iguaçu cidade
o cenário é bem diferente. Apesar de nascer bastante pretos ali, poucos ali também morriam.
Isso significa dizer ali provavelmente não era o local de residência para a vida toda. Como
bem lembrado anteriormente, na cidade encontravam-se os boticários e médicos, isto é a
assistência médica. Muitos pretos podem ter levado suas esposas grávidas para ali parir, e
posteriormente, retornavam a suas moradias em regiões a órbita dessa região. Ou mesmo pode
significar que aqueles nascidos na cidade de Nova Iguaçu, antiga Maxambomba, tinham mais
anos de vida, como já mencionado anteriormente, e por isso não morriam tanto nessa
localidade, que posteriormente a cidade se erguerá, trazendo a qualidade de vida.
80

Gráfico 2.7 - Distribuição da cor (%) por região de moradia no registro civil
de óbitos. Município de Nova Iguaçu, 1890.
100
90
80
70
60
50 Branca %
40 Parda %
30 Preta %
20
10
0
Belford Roxo Duque de Mesquita Nova Iguaçu Nova Iguaçu
Caxias (cidade) (interior)

Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.

Gráfico 2.8 - Região de falecimento (%) por cor nos registros de óbitos.
Municipio de Nova Iguaçu, 1890.
100
90
80
70
60
50 Branca %
40 Parda %
30 Preta %
20
10
0
Belford Duque de Mesquita Nova Iguaçu Nova Iguaçu Queimados
Roxo Caxias (cidade) (interior)

Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.

Esses dados ficam mais claros quando se divide cada região por cor, tanto através dos
registros civis de nascimento quanto no de óbitos. O gráfico 2.8 divide os nascimentos por cor
em cada região. Os pardos são a maioria em todas as regiões, não sendo excluídos de alguma
delas. O interior de Nova Iguaçu tem poucos pretos em relação a brancos, enquanto na atual
sede, próxima a linha do trem e do eixo econômico da antiga Vila de Iguassú, a relação entre
as cores parece mais equilibrada. A maior diferença encontra-se em Mesquita, município mais
81

próximo, no qual além dos pardos os pretos são a grande maioria, enquanto na outra ponta,
Duque de Caxias, os brancos e pardos são os que mais povoaram essa região.

Gráfico 2.9 - Composição social daregião de residência (%) por cor nos
registros civis de nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1890.
100
90
80
70
60
50 Branca %
40 Parda %
30 Preta %
20
10
0
Belford Roxo Duque de Mesquita Nova Iguaçu Nova Iguaçu
Caxias (cidade) (interior)

Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.

A partir desses dados é possível notar que os pretos moravam na órbita dos locais que
ofertavam emprego, a sede do Município, e nem muito distantes, como Duque de Caxias. Ao
mesmo tempo, é possível afirmar não haver, no ano de 1890, qualquer concentração de pretos
e pardos, nem na sede, em muito menos ao entorno. Isto significa dizer que não existe a
formação de guetos onde essa população tenha se concentrado no período pós-abolição. A ela
não era impedida a moradia e a convivência na sede, e, muito menos, se concentravam nas
regiões menos prósperas.
Como explicado, no início dessa discussão, a proximidade a sede, possibilitava um
maior acesso a melhores condições de saúde. Em São Carlos, interior de São Paulo, por
exemplo, os pretos e pardos não tiveram a possibilidade de morar no centro da cidade, pois
“depois da abolição muitos libertos se concentravam na periferia de São Carlos, nos bairros
de Santa Izabel e Vila Pureza.” Para autor, “(...) os bairros urbanos e suburbanos onde os
negros se concentravam provavelmente eram menos salubres, afetando, sobretudo,
crianças.”163 Situação semelhante ocorreu no Norte Fluminense. Hebe Mattos afirmou que
“em Cachoeiras de Muriaé, os ‘negros’ adultos, nos registros de óbito, identificados muitas
vezes como africanos’, ‘crioulos’ ou simplesmente ‘libertos’, residiam majoritariamente em

163
MONSMA, K. op. cit. p. 529.
82

‘fazendas’ (62,99%), contra apenas 26,26% dos brancos e 43,3% dos pardos”.164 Isto é, em
ambos os casos, pretos e pardos pouco podiam recorrer a uma melhor qualidade de vida em
função do local de suas moradias.
Na Baixada Fluminense, como visto anteriormente, acontece exatamente o contrário.
Através dos dados apresentados torna-se factível supor que nenhum grupo tenha sido
impedido ao acesso à saúde quando a questão era a proximidade, uma vez que nenhuma cor
foi renegada a uma região. Logo, se os médicos, boticários e farmacêuticos de plantão
estivessem na sede da cidade, todos os grupos residentes no centro teriam facilidade, assim
como todos que moravam ao entorno tiveram dificuldades.
Por fim cabe destacar que a provável distribuição populacional aliada a ínfima
escravidão nos últimos anos na Baixada Fluminense, impediu, de certa maneira a formação de
comunidades negras baseadas no parentesco de famílias extensas. Essas experiências somente
foram encontradas no norte fluminense (Conceição do Imbé, Aleluia, Batatal e Cambucá),
Região dos Lagos (Caveira, Preto Forro, Rasa, Botafogo e Maria Joaquina), Vale do Paraíba
(São José da Serra, Santana, Maria Conga, São Benedito, Alto da Serra, Deserto Feliz e
Tapera) e sul fluminense (Bracuí, Campinho da Independência e Ilha da Marambaia).165 Essas
duas últimas regiões ainda não foram estudadas no período pós-abolição para compreender o
processo de formação. Contudo, aqui se deseja afirmar que, provavelmente, em função da
dispersão populacional de ex-escravos, de pretos e pardos, aliado a uma melhor condição de
vida e a outras características, ainda não exploradas - como a grande quantidade de terras
devolutas, a facilidade de compra e da pouca necessidade de mão de obra nos primeiros anos
pós-abolição - contribuíram para a integração social e dificultaram a formação “guetos” e
muito menos de comunidades negras extensas.

Inserção social através do trabalho em 1890


Como apresentei anteriormente, no ano de 1890 a Baixada Fluminense passava por
uma mudança bem drástica em sua economia local. A cana de açúcar já tinha sido
abandonada há muito tempo e o café, que nunca se comparou à produção do Vale do Paraíba,
já dava sinais de esgotamento. Contudo, apesar da diminuição populacional, boa parcela da
população permaneceu ali. Mas de que forma e quais as possibilidades de emprego que
164
MATTOS, H. op. cit., 1995, p. 331.
165
Para uma melhor visualização das regiões do Estado do Rio de Janeiro onde essas comunidades se encontram
ver o seguinte sítio: http://www.palmares.gov.br/?page_id=88&estado=RJ .
83

permitiram a essas pessoas manter a residência? Para responder a tal questionamento me


direcionarei aos trabalhadores, cruzando essa informação com cor, residência e legitimidade.
No ano de 1890, como a Baixada Fluminense estava passando por um período de
mudança de eixo econômico, e também de área central, da antiga Vila de Iguassú para
Maxambomba - a futura Nova Iguaçu – boa parte da população estava empregada nas
atividades ligadas ao campo. Nos gráficos 2.10 e 2.11 separou-se por sexo e cor os
trabalhadores registrados apenas em 1890. O intuito novamente é tomar esse ano como um
retrato da população no pós-abolição. Nos serviços ligados a Agricultura ou Manufatura
Rural, encontram-se os serviços ligados a lavoura. Na fonte, na maior parte das vezes, a única
categoria que se apresenta é: profissão “lavoura”, isto é não há distinção se a pessoa é
empregada ou proprietária. No artesanato encontram-se os trabalhadores manufatureiros,
como sapateiros, carpinteiros, entre outros. No comércio entra-se no mesmo problema da
agricultura, quando o individuo é identificado como “comerciante” ou “do comércio” não é
possível diferenciá-lo como dono ou empregado. Entre os jornaleiros estão aqueles que
recebem por jornada, os assalariados e os operários. Há ainda os profissionais liberais e os que
trabalham no serviço público.
Para uma compreensão melhor do que significa mudança social, tomo a lavoura como
o pior ofício, pois nele não há referência de posse de pequena propriedade, assim como já
visualizadas em outras situações, há uma maior dependência em relação ao proprietário e
menor controle no ritmo de trabalho.166 Na outra extremidade identifico os jornaleiros. Nessa
categoria foram incorporados ofícios como: trabalhadores, trabalhador braçal, operário,
jornaleiro e assalariado. Ao contrário dos que trabalham na lavoura os jornaleiro possuem
maior independência em relação ao patrão, liberdade de escolha de emprego e controle sobre
o ritmo de trabalho, e por isso os considero acima.
De acordo com os gráficos, 100% dos pais de crianças registradas como pretas estão
dedicados somente ao ofício da lavoura, enquanto as mães estão principalmente no trabalho
na roça e uma pequena parte nos serviços domésticos. Os pais e as mães de crianças pardas
parecem seguir o mesmo padrão, mas alguns pais se dedicam a outros ofícios, porém em
menor proporção que os brancos. Os que aprecem estar em melhor situação são os brancos,
uma vez que se dedicam bem menos a lavoura, tendo um bom percentual de comerciários, e
de empregados nos serviços de Jornaleiro, profissionais liberais e no serviço público. De
acordo com o gráfico 2.11, as mulheres brancas trabalham muito menos com a lavoura, 50% e

166
RIOS, A. op. cit. 2005, ver principalmente capítulo 3.
84

se dedicam muito mais aos serviços domésticos do que em relação as outras cores 45%. Não é
possível delimitar o ofício de doméstica como sendo ou trabalho em casa de pessoas ou
doméstica no sentido de “do lar”. Tomando-a como nesse último sentido, aparentemente o
ofício dos pais parece ser suficiente para mantê-las em casa, enquanto pardos e
principalmente pretos necessitam da ajuda da companheira para complementar a renda
familiar.

Gráfico 2.10 - Profissão do pai (%) por cor das crianças registradas em
1890, nascimentos. Município de Nova Iguaçu, 1890.
100
90
80
70
60
50
40
30
20
10
0
Agricultura ou Artesanato Comércio Jornaleiros Profissões Serviço
Manufatura Liberais Público
Rural

Branca % Parda % Preta %


Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.

Gráfico 2.11 - Profissão da mãe (%) por cor das crianças registradas
em 1890, nascimentos. Município de Nova Iguaçu, 1890.
100
90
80
70
60
50 Branca %
40 Parda %
30
Preta %
20
10
0
Agricultura ou Doméstica Serviço Público
Manufatura Rural

Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.


85

Para as pessoas que faleceram o quadro é um pouco diferente. Os declarados como


pretos estavam concentrados principalmente no trabalho com lavoura, tendo poucos
empregados em transportes. E as mulheres foram declaradas como sendo principalmente
domésticas. Já os pardos estavam divididos em várias categorias, com destaque para a lavoura
e para o artesanato, porém trabalhavam com artesanato e serviço público em menor
quantidade. As do sexo feminino declaradas como pardas, aparentemente tinham papel de
complementação de renda dentro do seio familiar, pois ao mesmo tempo em que se
apresentam como domésticas, a outra metade está atarefada com a lavoura.
Contudo, a surpresa aparenta estar entre os brancos. Estavam quase divididos entre a
lavoura e o comércio. Essa concentração dos brancos no setor comerciário já foi explica por
Karl Mosnma. Para autor, os imigrantes quando chegarem ao interior de São Paulo
monopolizaram esse setor, empregando na maior parte dos casos apenas compatriotas ou
brancos. De certa forma isso impediu aos pardos e pretos uma mobilidade social, segregando-
os, pelo menos em São Carlos, região por ele estudada.167 Pelo menos no ano de 1890, aqui
selecionado para análise, o único imigrante, José Moreira da Silva tinha nacionalidade
portuguesa, era viúvo, tinha dois filhos e trabalhou até o fim da vida na lavoura.168 Até o ano
de 1890 os brancos podem ter controlado o comércio, mas somente um estudo ao longo dos
anos pode ajudar a definir se o mesmo processo de segregação por oficio ocorreu na Baixada.

Gráfico 2.12 - profissão dos homens falecidos (%) nos registros de óbito em
1890. Município de Nova Iguaçu.
100
90
80
70
60
50
40
30
20
10
0
Agricultura Artesanato Comércio Doméstica Jornaleiros Serviço Transportes
ou Público
Manufatura
Rural

Branca % Parda % Preta %

Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.

167
MOSNMA, K. op. cit. 2010, p. 537.
168
RCP, Livro 1, reg. 248, de 1890.
86

Gráfico 2.13 - profissão das mulheres falecidas (%) nos registros de óbito
em 1890. Município de Nova Iguaçu.
100
90
80
70
60
50
40
30
20
10
0
Agricultura Artesanato Comércio Doméstica Jornaleiros Serviço Transportes
ou Público
Manufatura
Rural

Branca % Parda % Preta %


Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.

Por fim, observo se as profissões tem interferência no local de moradia. Para as


crianças registradas como brancas, na qual os pais e as mães tinham por oficio principal a
agricultura, o local de moradia era o antigo centro econômico da região, a Vila de Iguassú
(atualmente Vila de Cava). Já nas outras profissões como comerciantes, jornaleiros,
profissionais liberais, serviço publico e as mulheres domésticas, o local frequente ficava na
atual sede, próximo a linha do trem, e nas áreas produtoras de laranja, e principalmente, da
urbanização em processo. Comerciantes e servidos públicos, em menor quantidade residiam
em locais mais distantes do Cartório, como em Belford Roxo e Duque de Caxias. A única
pessoa do sexo feminino que se apresenta como servidora pública reside em Mesquita. Dos
gráficos abaixo é possível analisar que os pais e mães de crianças registradas como pardas que
trabalhavam no comércio e na agricultura, em sua grande maioria, conseguiram residir no
interior de Nova Iguaçu, ao entorno do Rio Iguassú, antigo entreposto comercial com a
Capital Federal. Ao contrário desse grupo, quem trabalhava como artesanato preferia morar
na sede da cidade, onde, possivelmente a sua clientela era bem maior. Já as poucas
domésticas, elas estão espalhadas pelas diversas regiões, menos em Mesquita.
Pelo menos nos registros de nascimentos, todos os pais e mães de crianças registradas
como pretas dedicava-se somente ao trabalho na lavoura e estavam morando tanto em
Mesquita quanto na sede. Já as mulheres da agricultura estavam tanto interior quanto na atual
sede. As mulheres em sua grande maioria que foram registradas como domésticas, residiam
principalmente na atual sede, e em menor número no interior e em Mesquita.
87

O comportamento é quase análogo ao dos brancos. Provavelmente os brancos, pelo


menos nessa data, deviam possuir pequenas propriedades na sede no Município. Aos pretos
restava apenas trabalhar nas propriedades localizadas no centro, e ao fim do trabalho se
deslocar para suas residências localizadas ao entorno desse centro, por isso residiam em sua
maior parte ou na futura sede, em Maxambomba ou em Mesquita.
O centro econômico se desloca de Vila de Cava para a sede. O interior de Nova Iguaçu
onde se concentrava a agricultura pelo menos no ano de 1890, começou a perder espaço para
as novas chácaras de plantação de laranja. Com essa mudança econômica, quase radical,
como a família de brancos pardos e pretos reagiu? Houve emigração da região?

Conclusão
Em Nova Iguaçu, pelo menos em 1890 notou-se uma diminuição populacional,
provavelmente influenciada pelo declínio econômico que pode ter levado alguns grupos a
migrarem. No entanto o que se observa ali é uma situação vivenciada no Vale do Paraíba no
qual “a crise do trabalho escravo na região afetou fundamentalmente a elite branca,
oferecendo condições para permanência da população pobre majoritariamente mestiço.”169
A pouca quantidade de libertos, aliada a decadência da elite econômica branca na região,
assim como o aumento de pardos pode ter possibilitado uma maior inserção da população
preta e parda que vivenciara direta ou indiretamente a escravidão.
Esse capítulo foi apenas um retrato do imediato pós-abolição. Todos os grupos
estavam direcionados para o trabalho na lavoura, pois não havia uma diversificação dos
ofícios. Somente para brancas, mesmo em sua minoria, havia a possibilidade de trabalho no
comércio e no artesanato, mas a maior parte estava concentrada na agricultura. Em virtude
desses fatores a residência ainda permanecia ao entorno da antiga sede em Vila de Cava. As
epidemias de doenças infecto-contagiosas ainda não tinham se espalhado pela região, e a
aparentemente, a maior preocupação ainda era com os natimortos.
Contudo, ao longo dos anos essa situação modificou-se, a fim de analisar essa
mudança, na família, nos empregos, na moradia e na qualidade de vida cabe salientar que se
torna necessário acompanhar essas famílias ao longo do tempo para visualizar se conseguiram
ascender socialmente, e, principalmente, se disputaram trabalho e residências com os
migrantes provenientes das décadas de 20 e 30.

169
MATTOS, H. op. cit. 1990, p. 134.
88

Capítulo 3

De Calçados Novos:
Família e ascensão social de brancos, pardos e pretos no pós-abolição
Baixada Fluminense (1888 a 1939)

Desde a década de 80, a família e a sua estrutura ao longo do tempo foram objetos de
pesquisa de historiadores brasileiros e brasilianistas voltados para estudos dos períodos
colonial e imperial no Brasil. Procuraram, principalmente, comparar a vida familiar de
brancos, pardos e pretos livres, e de escravos170 A grande novidade daquela década consistia
na “descoberta” da existência da unidade familiar na senzala, e como ela afetava a relação
entre escravos e proprietários. Ou seja, a possibilidade de possuir família abria espaço tanto
para a negociação como para o conflito,171 assim como mantinha certa estabilidade e por
vezes refletia até mesmo uma diferenciação, e porque não, uma ascensão social dentro da
escravaria.172
Dentre os que se tiveram no pós-abolição, contudo, foram poucos os pesquisadores
que se dedicaram a acompanhar as estruturas familiares e o resultado de suas ações. Um dos
primeiros trabalhos a apresentar a família no pós-abolição foi o “Sul da História” de Hebe
Mattos, publicado em 1987. Sua maior preocupação, naquele momento, era demonstrar de
que forma a pequena propriedade foi utilizada no norte fluminense. Após entrevistas
sucessivas com moradores da região de Capivary, a autora percebeu que muitos deles eram
descendentes, diretos ou não, de ex-escravos da região. E ao mesmo tempo todos eles usavam

170
Não pretendo aqui debater todos, mas basta citar os trabalhos clássicos: MATTOSO, Katia de Queirós. Ser
escravo no Brasil. São Paulo:Brasiliense, 1982. FLORENTINO, Manolo; GÓES, J. R. A paz das senzalas:
famílias escravas e tráfico atlântico, Rio de Janeiro, c. 1790-c.1850. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
1997. SLENES, R. W. Na senzala, uma flor: esperanças e recordações na formação da família escrava
Brasil Sudeste, Século XIX. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999. MOTTA, J. F. Corpos escravos, vontades
livres. Estrutura de posse de cativos e família escrava em um núcleo cafeeiro (Bananal, 1801-1829), tese
apresentada ao Departamento de Economia da Universidade de São Paulo, 1990. ROCHA, Cristiany Miranda.
Histórias de famílias escravas. Campinas: Editora Unicamp, 2004.
171
REIS, João José e SILVA, Eduardo. Negociação e conflito: a resistência negra no Brasil escravista. São
Paulo: Companhia das Letras, 2005.
172
FLORENTINO, M. e GÓES, J. R. op. cit. 1997.
89

como mão de obra de seus familiares em suas propriedades.173 A partir desta constatação a
autora passou a se dedicar ao Vale do Paraíba, nos anos anteriores a abolição. Também ali ela
identificou a família como principal mecanismo de negociação entre proprietários e escravos,
assim como a diferenciação dentro da escravaria.174 Para autora, nos anos finais da escravidão
no Brasil, muitos senhores que possuíam em suas fazendas grandes parentelas de escravos
utilizaram as alforrias em massa como mecanismo para manter a mão de obra em suas
fazendas. Gratos pela boa vontade de seu patrão, muitos deles permaneceram nas fazendas de
origem.175 Algumas dessas parentelas eram tão bem estruturadas que muitas se tornaram
comunidades negras, atualmente denominadas de Comunidades Remanescentes de
Quilombolas.176
Apesar de toda preocupação em traçar a família como um mecanismo que possibilitou
a vivência e a permanência no Vale do Paraíba após a Abolição, foi Ana Rios quem conseguiu
acompanhar qualitativamente as trajetórias de famílias de libertos.177 Por meio de entrevistas
com descendentes de escravos, ela conseguiu perceber diversas ações que permitiram aos
libertos, pelo menos até a década de 1920, permanecerem na região do Vale. Em primeiro
lugar, havia a possibilidade de acesso a roça, de onde poderiam retirar sua subsistência assim
como vender os produtos excedentes nos mercados locais. Ali o trabalho era basicamente
familiar, no qual a esposa e os filhos tinham papéis essenciais.178 Por conseguinte,
demonstrou como os contratos de trabalho foram organizados quase sempre privilegiando as

173
MATTOS, H. Ao Sul da História: lavradores pobres na crise do trabalho escravo Rio de Janeiro, FGV,
2009.
174
MATTOS, Hebe Maria. Das Cores do Silêncio. Significados da liberdade no Brasil escravista. Rio de
Janeiro, Arquivo Nacional, 1995/ Nova Fronteira, 1997.
175
Idem.
176
Para acompanhar todo esse processo ver: MATTOS, H. Marcas da escravidão: Biografia, Racialização e
Memória do Cativeiro na Historia do Brasil. Tese para professor Titular no Departamento de Historia da UFF.
Niterói, 2004; MATTOS, H. “Novos Quilombos: re-significações da memória do cativeiro entre descendentes
da última geração de escravos” in: RIOS, A. e MATTOS, H. Memórias do Cativeiro. Família, Trabalho e
Cidadania no Pós-Abolição. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2005; COSTA, C. E. Construção de
Identidade Quilombola: Comunidade Negra Remanescente de Quilombo de São José da Serra. Valença,
RJ. (1995-2005). Monografia de final de curso. Departamento de História da Universidade Federal Fluminense,
2006, entre outros.
177
RIOS, A. L. Família e Transição (Famílias negras em Paraíba do Sul, 1872-1920). Dissertação de
Mestrado apresentada no Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal Fluminense, Niterói,
1990 e RIOS, A. e MATTOS, H. Memórias do Cativeiro. Família, Trabalho e Cidadania no Pós-Abolição.
Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2005.
178
Rios demonstra por exemplo a importância da plantação de milho, parte essencial da alimentação familiar e
da venda nos mercados. RIOS, A. e MATTOS, H. op. cit. 2005, p. 240.
90

chamadas “turmas”, provavelmente parentes entre si que se uniam para realizar determinadas
tarefas ou “empreitadas.179 Por fim, mesmo que a estabilidade nas fazendas não fosse a norma
de algumas famílias, a migração entre as propriedades em busca de emprego e de uma
pequena roça eram sempre realizadas com a família em conjunto.180
Contudo, estes estudos não conseguiram demonstraram claramente como a família se
estrutura e se modifica ao longo do tempo e muito menos qual é o resultado dessa
organização. Com exceção das entrevistas realizadas, por conta das fontes utilizadas, que não
apresentavam a cor dos familiares, a maior parte destes trabalhos baseava-se apenas em
poucas trajetórias de vida de libertos. E, principalmente, por terem como corte final de
pesquisa a década de 1920, não conseguiam dar conta dos rumos dos descendentes de
escravos nascidos no pós-abolição.
Neste capítulo busco acompanhar as famílias ao longo dos anos do pós-abolição na
Baixada Fluminense. Pretendo analisar os comportamentos familiares, com a finalidade de
perceber se a ascensão social foi um resultado de suas ações enquanto família. Para atingir
tais objetivos irei cruzar dados referentes às estruturas familiares, ao longo do tempo, de
brancos, pardos e pretos, tais como: legitimidade das crianças e dos falecidos, estado civil dos
pais e dos mortos, declarantes, presença do nome do pai; com informações que auxiliam na
compreensão da mudança de status social, a saber: profissão, moradia e mudança de cor.
Serão analisados, a exemplo do capítulo anterior, os registros civis de nascimentos e de óbitos
do Município de Nova Iguaçu somente dos nascidos na região, excluindo-se todos os
migrantes provenientes de outras localidades. A diferença desta pesquisa, em relação as
citadas anteriormente, consiste na análise temporal, que se estende até o fim da década de
1930, mais especificamente contemplando os seguintes anos: 1889, 1894, 1899, 1904, 1909,
1914, 1919, 1924, 1929, 1934 e 1939.

179
RIOS, A. e MATTOS, H. op. cit. 2005, ver principalmente o capítulo 3.
180
Entrevista de Izaquiel Inácio – Acervo Memórias do Cativeiro (ACM).
91

I - Demografia, Família e Estabilidade no Período Pós-Abolição da Baixada


Fluminense: 1888-1940.

Pouco se sabe sobre os anos seguintes ao período do pós-abolição na Baixada


Fluminense. Em capítulo anterior atentou-se para a construção de um retrato do imediato pós-
abolição deixando de lado o que ocorreu ao longo das décadas seguintes. Nesta parte,
pretendo analisar os 50 anos posteriores à abolição, com o intuito de comparar os dados aqui
encontrados com as demais pesquisas supracitadas sobre o pós-abolição no Brasil.
Após o período de decadência econômica da região, como visto em capítulo anterior, a
população da Baixada Fluminense variou muito pouco entre os anos de 1872 e 1920. De
acordo o gráfico 3.1 nota-se que o decréscimo populacional foi encontrado no ano de 1890,
quando boa parcela da população aparentemente deixou a região em busca de locais
economicamente mais vantajosos. Essa migração tinha, provavelmente, caráter sazonal, uma
vez que não há relatos e muito menos indícios de uma debandada, em massa e em definitivo,
para outras regiões do Estado do Rio de janeiro. Para se ter uma noção, a população diminui
de 31.654 moradores para 25.119 nos censos, respectivamente, uma variação de 20%.181 Ao
longo dos anos o quadro parece se reverter, principalmente a partir década de 1920, quando o
crescimento populacional parece retomar o antigo patamar em torno de 33 mil pessoas.
Contudo, o que mais chama atenção no gráfico é o crescimento vertiginoso na para a década
de 1940. De acordo com o censo desse ano, a população chega ao patamar de 140.606
pessoas, o que aponta para um aumento demográfico de 300%, possivelmente resultado de
migração, em apenas 20 anos.

181
Nos censos de 1872 e 1890 foram somados os municípios de Iguassú e Estrella, por hoje comporem quase a
totalidade da Baixada Fluminense.
92

Gráfico 3.1 - Crescimento populacional do Município de Nova Iguaçu nos


censos, 1872 a 1940.
160000

140000

120000

100000

80000

60000

40000

20000

0
1872 1890 1920 1940

Fonte: Censos Demográficos IBGE de 1872, 1890, 1920 e 1940

O mais difícil de demonstrar através desses censos é a composição social através das
cores ao longo dos anos. No gráfico 3.2, a seguir, tentei representar a participação da cor em
valores percentuais por ano, na Baixada Fluminense. No capítulo anterior analisei dados dos
censos de 1872 e 1890, indicando que, pelo menos na região estudada, houve um movimento
em direção a miscigenação. O recenseamento seguinte poderia comprovar esse processo,
porém, o censo de 1920 não apresentou a categoria “cor” em seus dados. Somente após 50
anos a cor volta a aparecer e nele os brancos aparecem como a grande maioria em relação aos
pardos e aos pretos. Ao mesmo tempo em que se visualiza a relação entre brancos e não-
brancos, fica muito claro que se antes, no período da escravidão e no imediato pós-abolição,
os últimos citados são a grande maioria, em 1940, há um claro equilíbrio entre os dois grupos.
93

Gráfico 3.2 - Cor (%) por ano no Censos Demográficos de


1872, 1890, 1920 e 1940. Município de Nova Iguaçu.
100
90
80
70
60 Brancos %
50 Pardos %
40 Pretos %
30
Amarelos %
20
10
0
1872 1890 1920 1940

Fonte: Censos Demográficos IBGE de 1872, 1890, 1920 e 1940

Gráfico 3.3 - Brancos e não-brancos (%) por ano no Censos


Demográficos de 1872, 1890, 1920 e 1940. Município de Nova
Iguaçu.
100
90
80
70
60
50 Brancos %
40
Não-Brancos %
30
20
10
0
1872 1890 1920 1940

Fonte: Censos Demográficos IBGE de 1872, 1890, 1920 e 1940

Mesmo os não-brancos estando em equilíbrio quando somados com os brancos, tenho


que destacar o número superior de brancos em comparação a população parda e preta. A
suposição mais óbvia seria a de estes últimos teriam abandonado e/ou sido expulsos da região
e se direcionado para locais mais pobres do Estado do Rio de Janeiro. Já por outro lado, caso
a constituição de família e sua manutenção tenha sido uma realidade na região, muitos pardos
e pretos podem ter modificado sua cor para brancos, em um possível símbolo de ascensão
social. Contudo, com um déficit de 50 anos de informação ainda é muito cedo para levantar
tais afirmações.
Em virtude da falta de informações referentes a cor na década de 1920, para conseguir
montar uma comparação entre as trajetórias de brancos, pardos e pretos no Município de
94

Nova Iguaçu, entre os anos de 1889 a 1940, procurei outras fontes. Como apontado no
primeiro capítulo, em meu caso os registros civis de nascimentos e de óbitos tornaram-se um
ótimo e possível mecanismo de suprir essa falta de 50 anos de informação da população na
região da Baixada Fluminense.182
O gráfico abaixo representa a quantidade de registros em números absolutos dividido
pelas cores. Quando analisados, nota-se claramente, ao longo dos anos, uma mudança de
atitude em relação ao registro civil de nascimento, no que se refere à cor. Afinal, como
mencionado, apesar de ser obrigatório o registro dos recém-nascidos, nem todos os pais
compareciam ao cartório – problema enfrentado até hoje em algumas regiões do país. A
primeira grande diferença consiste nos primeiros anos do registro civil. Entre os anos de 1889
e 1899 os pardos, de longe, foram grande maioria nos registros civis de nascimentos, tanto em
números absolutos quanto percentualmente (gráfico 3.4). O ápice de sua presença foi o ano de
1894, quando corresponderam a 45,2% de todos os registrados naquele ano, enquanto as
crianças brancas eram 36,5% e as pretas 17,9%. Todavia, quando analisados em separado,
após o ano de 1899 os brancos ultrapassaram em números absolutos e percentuais ambos os
grupos.
Se tomado o registro como uma ação, os primeiros anos da implantação do registro
civil demonstraram uma busca intensa pelo registro civil que pode estar ligada a euforia dos
primeiro anos do pós-abolição, assim como da recém-inaugurada república, e da promulgação
da primeira constituição da nova era.183 Possivelmente, houve campanha em massa para o
registro, uma vez que através dele era possível pelo menos almejar a cidadania brasileira,
mesmo que não plena.

182
Vale lembrar que até o ano de 1943 (ano em que ocorreu a primeira emancipação) os municípios de Duque de
Caxias, Belford Roxo, Mesquita, São João de Meriti, Japeri, Queimados, Mesquita e Nilópolis, faziam parte do
Município de Nova Iguaçu. Nessa tese quando denominar “Município de Nova Iguaçu”, deseja-se referir a todos
esses município somados.
183
CARVALHO, José M. Os Bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo,
Companhia das Letras, 1987, p. 37.
95

Gráfico 3.4 - Relação cor por ano em números absolutos nos Registros civis
de nascimentos. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939.
1000

900

800

700

600
Branca
500 Parda

400 Preta
Outras cores
300

200

100

0
1889 1894 1899 1904 1909 1914 1919 1924 1929 1934 1939

Fonte: Registros Civis de Nascimento do 1º Ofício de Registro de Pessoas Naturais do Município de Nova
Iguaçu: 1889, 1894, 1899, 1904, 1909, 1914, 1919, 1924, 1929, 1934 e 1939.

Gráfico 3.5 - Registros civis de nascimento (%) por ano e cor. Município de
Nova Iguaçu 1889-1939.
100

90

80

70

60
Branca %
50 Parda %
40 Preta %
Outras cores %
30

20

10

0
1889 1894 1899 1904 1909 1914 1919 1924 1929 1934 1939

Fonte: Registros Civis de Nascimento do 1º Ofício de Registro de Pessoas Naturais do Município de Nova
Iguaçu: 1889, 1894, 1899, 1904, 1909, 1914, 1919, 1924, 1929, 1934 e 1939.
96

Todavia, o mais empolgante nesse período foi notar que o grupo que mais buscou o
reconhecimento de seus filhos, pelo governo brasileiro, foram os não-brancos. A expectativa
de que os brancos tivessem mais engajamento político, um maior conhecimento da estrutura
burocrática do estado, e consequentemente maiores possibilidades de inserção social, não se
sustenta para a Baixada Fluminense. De acordo com os gráficos 3.6 e 3.7, entre os anos de
1889 e 1899, as crianças registradas como não-brancas superaram, e em muito, as brancas. Ao
analisar os números absolutos percebe-se, claramente, sua predominância nos primeiros anos,
e quando analisados os percentuais, a sua maior presença é mais significativa ainda, uma vez
que até 1914 os não-brancos sempre estiveram acima dos 60%.

Gráfico 3.6 - Relação brancos e não-brancos por ano em números absolutos nos
registros civis de nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939.
1000

900

800

700

600

500 Branca
400 Não-brancos

300

200

100

0
1889 1894 1899 1904 1909 1914 1919 1924 1929 1934 1939

Fonte: Registros Civis de Nascimento do 1º Ofício de Registro de Pessoas Naturais do Município de Nova
Iguaçu: 1889, 1894, 1899, 1904, 1909, 1914, 1919, 1924, 1929, 1934 e 1939.
97

Gráfico 3.7 - Relação brancos e não-brancos por ano em porcentagem nos


registros civis de nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939.
100
90
80
70
60
50
40
30
20
10
0
1889 1894 1899 1904 1909 1914 1919 1924 1929 1934 1939

Brancos % Não-brancos %

Fonte: Registros Civis de Nascimento do 1º Ofício de Registro de Pessoas Naturais do Município de Nova
Iguaçu: 1889, 1894, 1899, 1904, 1909, 1914, 1919, 1924, 1929, 1934 e 1939.

Ao comparar esses dados com os registros civis de óbitos (gráficos 3.8, 3.9, 3.10 e
3.11), nota-se muito mais semelhanças do que diferenças nos primeiros anos. Também neles,
os pardos estão mais presentes, porém não em grande maioria, como nos de nascimento. Cabe
aqui destacar o problema enfrentado no primeiro ano de abertura do cartório, em 1889, ali
foram muito poucos os registros que apresentavam a categoria “cor”, por isso essa quantidade
acima do normal de pretos não deve ser levada em conta. Já no ano seguinte de análise, de
1894 dos 177 falecimentos registrados, a maioria, de 34,5% eram pardos, enquanto 28,8%
brancos, e 20,9% pretos. Apesar de uma quantidade maior de pardos falecendo nesse ano, os
números não são muito díspares se comparados aos registros civis de nascimento. Porém, no
ano de 1899 os brancos ultrapassaram a quantidade de mortos em números absolutos e
percentualmente, ou seja, possivelmente os brancos estavam falecendo mais quando os dados
em relação às cores são analisados separadamente.
98

Gráfico 3.8 - Relação cor por ano em números absolutos nos Registros civis de
óbitos. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939.
1000

900

800

700

600
Branca
500 Parda
400 Preta
Outras cores
300

200

100

0
1889 1894 1899 1904 1909 1914 1919 1924 1929 1934 1939

Fonte: Registros Civis de Óbito do 1º Oficio de Registro de Pessoas Naturais do Município de Nova
Iguaçu: 1889, 1894, 1899, 1904, 1909, 1914, 1919, 1924, 1929, 1934 e 1939.

Gráfico 3.9 - Relação de cor (%) por ano nos registros civis de óbito.
Município de Nova Iguaçu, 1889-1939.
100

90

80

70

60
Branca %
50 Parda %

40 Preta %
Outras cores %
30

20

10

0
1889 1894 1899 1904 1909 1914 1919 1924 1929 1934 1939

Fonte: Registros Civis de Óbito do 1º Oficio de Registro de Pessoas Naturais do Município de Nova
Iguaçu: 1889, 1894, 1899, 1904, 1909, 1914, 1919, 1924, 1929, 1934 e 1939.
99

Entretanto, quando os não-brancos são somados, nota-se uma maior porcentagem de


falecimentos entre eles. Entre os anos de 1889 e 1899 quando analisados em números
absolutos, os não-brancos morrem, por vezes, o dobro se comparados aos brancos. No ano de
1894, os não-brancos representam 55,4% dos falecidos e no ano seguinte a proporção se
mantém quase a mesma, 56%. No primeiro ano citado, faleceu Francisco, de cor parda, aos 27
anos de idade. José Guilherme do Nascimento declarou que o óbito ocorreu na localidade
denominada São Bento, atual Município de Duque de Caxias, tendo como causa da morte:
“catarro sufocante”. Sua legitimidade foi declarada como sendo natural, sendo filho de
Heptania Maria da Conceição. Em 1899, outro não-branco também veio a falecer, Izabel
Maria da Conceição, aos 74 anos de “lesão cardíaca”. Foi declarada por Thomaz de Castro
Pereira como sendo da cor “fula”, natural do distrito de Nova Iguaçu, e viúva de Serafim José
de Oliveira; sepultada no Cemitério da Cidade de Nova Iguaçu.

Gráfico 3.10 - Relação brancos e não-brancos por ano em números absolutos nos
registros civis de óbito. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939.
1000

900

800

700

600

500 Brancos
400 Não-brancos

300

200

100

0
1889 1894 1899 1904 1909 1914 1919 1924 1929 1934 1939

Fonte: Registros Civis de Óbito do 1º Oficio de Registro de Pessoas Naturais do Município de Nova
Iguaçu: 1889, 1894, 1899, 1904, 1909, 1914, 1919, 1924, 1929, 1934 e 1939.
100

Gráfico 3.11 - Relação brancos e não-brancos (%) por ano nos


registros civis de óbito. Município de Nova Iguaçu, 1889-1919.
100
90
80
70
60
50
Brancos %
40
30 Não-brancos %
20
10
0

Fonte: Registros Civis de Óbito do 1º Oficio de Registro de Pessoas Naturais do Município de Nova
Iguaçu: 1889, 1894, 1899, 1904, 1909, 1914, 1919, 1924, 1929, 1934 e 1939.

A presença maciça tanto de brancos e, principalmente, de não-brancos torna possível


supor que, pelo menos através desses registros, ao longo do tempo, não é possível concordar
com a afirmação de José Murilo de Carvalho de que “expectativa inicial, despertada pela
República, de maior participação, foi sendo assim sistematicamente frustrada”.184 Tudo
indica que houve sim um interesse maciço pelo registro civil. Após o boom nos primeiros
anos da recém inaugurada República, a euforia inicial, pela busca do registro civil de
nascimento e de óbito, não deu lugar a frustração, mas sim a estabilidade.
Partindo para a segunda parte dos gráficos, nota-se claramente uma diminuição brusca
em números absolutos, a partir de 1904, da busca pelos registros de nascimentos de todas as
cores. Entre esse ano e o de 1914, apesar da predominância dos registros de crianças brancas,
53,84% naquele e 40,6% nesse, quando somadas, as pretas e pardas elas continuam sendo
maioria – em 1904 corresponderam a 38,46% e em 1914 passam para 57,14%. Situação que
só se modificou após 1914.
Após esse ano nos registros de nascimento os brancos passaram a ser a grande maioria
tanto em números absolutos quanto percentuais. Situação essa que só se modifica no ano de
1939. Mesmo que em menor número, nos anos seguintes à abolição, os não-brancos
utilizaram ativamente da burocracia do Estado, uma vez que o registro civil de nascimento de
seus filhos não deixou de ser realizado. Isto significa dizer que, pelo menos na Baixada
Fluminense, os pais de crianças pretas e pardas não foram alijados, impedidos ou mesmo

184
CARVALHO, J. M. op. cit., 1987, p. 37.
101

proibidos de frequentarem o cartório local. O que provavelmente os auxiliou em sua inserção


social na localidade.
Já em entre os óbitos a comparação entre a presença de brancos, pardos e pretos se
modificou um pouco ao longo dos anos. O ano de inflexão e de mudança acontece em 1904.
Ludgerio Antonio Maria faleceu aos 68 anos de idade e quem declarou a sua morte foi
Frederico de Castro Pereira chegando ao cartório declarou que o falecimento ocorrera na
localidade denominada Brejo, sendo a vítima da cor branca, solteiro e a causa mortis,
Pneumonia.185 Somado a esse óbito foram registrados apenas 52 falecimentos, um número,
com certeza, muito abaixo da realidade local, principalmente numa região onde ainda
ocorriam mortes relacionadas à proliferação de doenças infecto-contagiosas. Contudo, os
brancos falecidos foram mais do que o dobro em relação a pardos e o triplo em relação aos
pretos. Mesmo quando somados os não-brancos eles faleceram menos, 38,5%, enquanto os
brancos, 53,8% em 1904.
Entre 1909 e 1939, cujos registros demonstraram ser mais críveis, a situação se
modificou. Em números absolutos e percentualmente, os brancos faleceram mais, em
comparação aos pardos e pretos separados. Porém, quando esses últimos são somados, os não-
brancos, aparentemente possuíram uma qualidade de vida inferior aos brancos. Em 1909
àqueles compuseram 62% dos falecidos enquanto esses, apenas 34,8%. Como ocorreu com
Maria Luiza da Conceição, nascida e falecida em São Bento, aos 35 anos de idade. Era da cor
“morena”, solteira e filha legítima de Antonio Moreno e de Emilia Maria da Conceição,
ambos também residentes em Nova Iguaçu.186 No ano seguinte analisado, 1914, o panorama
se manteve mais ou menos mesmo, enquanto a população preta e parda falecida correspondia
a 57,1%, os mortos declarados como brancos eram apenas 40,6%.
Em 1914, os brancos correspondiam a 40,6%, os pardos a 39,1% e os pretos a 13,5%.
Já no ano seguinte, 1919, a proporção se manteve apenas para brancos com 40,9%, os
registros de pardos diminuíram para 28,7% e os pretos passam a corresponder a um percentual
maior, com 19,68%. Aparentemente os pretos parecem ter sofrido mais com a chegada da
década de 20. Em 1919, Francisco Gonçalves compareceu ao cartório de Nova Iguaçu e
declarou que Maria, da cor preta, faleceu aos 6 dias após ter nascido, de febre palustre. Sua
mãe chamava-se Maria da Glória, ambas naturais e residentes da localidade denominada São
Bento, atual Município de Caxias, mas foi sepultado na sede do antigo Município de

185
RCO, Livro 5, reg. 245, ano 1904.
186
RCO livro 6, reg. 239, ano de 1909.
102

Iguassú.187 Contando com esses registros o aumento na quantidade de falecimentos de pretos


subiu 350% entre 1914 e 1919.
Contudo, de acordo com a tabela entre 1919 e 1929, apesar de maioria
percentualmente, os não-brancos passam a falecer menos ao longo dos anos. O aumento de
falecimentos em números absolutos provavelmente não está ligado a uma mortandade em
grandes proporções. Pelo contrário, houve um aumento populacional significativo no ano de
1919, o que pode ter impactado diretamente na qualidade de vida familiar nos anos seguintes,
questão essa que será amplamente estudada na última parte deste capítulo.
Resumindo. Cabe destacar que a diminuição de registros após 1894 até o ano de 1914
pode estar ligada a diversos fatores. Primeiro, deve-se levar em conta o já mencionado
processo de emigração sazonal da região nessas décadas; tanto de trabalhadores em busca de
regiões mais prósperas, quanto as definitivas, de proprietários pobres que venderam suas
terras em virtude da decadência econômica do café. Segundo, acredita-se que houve uma
euforia inicial pela busca do registro civil, gerada pela inauguração da República, seguida por
um período de equilíbrio. Afinal, os números não decresceram ao longo dos anos, pelo
contrário, mantiveram-se muito próximos, até a década de 20, quando houve um salto na
quantidade de registros. Ou seja, a diminuição de registros não está ligada a uma “frustração”
com o governo, mas sim a uma estabilização da vida cotidiana na região e a pequenas
emigrações sazonais.

Família no Pós-abolição
Será que as conquistas relacionadas principalmente, ao acesso a burocracia do estado e
à família permaneceram no decorrer dos anos? Afinal como apresentado até aqui, no imediato
pós-abolição parece não ter havido impedimentos ao acesso a burocracia do Estado, e
tampouco à formação de família para egressos do cativeiro. Contudo, para alguns
historiadores a segregação social através da cor se efetivou ao longo das primeiras décadas do
pós-abolição no Brasil. Com a finalidade de compreender esse processo, de aparente perda
gradual da inserção social, conquistada pelo menos em 1889, deve-se realizar um comparativo
com os dados já apresentados até a década de 1940. Para atingir tal objetivo, torna-se
necessário analisar a legitimidade, a situação conjugal dos pais e dos falecidos, a presença do
pai e a citação dos nomes dos avós nos registros civis de nascimento e de óbito do 1º Oficio
de Registro de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.

187
RCO livro 11, reg. 72, ano de 1919.
103

Entre os anos de 1889 e 1939, a situação conjugal dos pais de crianças registradas
como brancas, pardas e pretas aparentemente modificou-se bastante ao longo do tempo. O
gráfico 3.12 comparam percentualmente a quantidade de solteiros e casados entre os anos
sugeridos. Nos anos pesquisados houve uma progressiva inserção de todas as cores na família
conjugal, pois os índices caem progressivamente, embora haja um período – entre 1919 e
1929 – em que houve um vertiginoso aumento de ilegitimidade entre os brancos, e depois
uma retomada do processo. Um dos poucos encontrados na documentação é Maria Cardozo
de Freitas. Sua filha foi registrada por Manoel Soares de Oliveira no dia 25 de setembro de
1909. A criança foi declarada tendo a cor branca, nascida em Morro Agudo e neta materna de
Martiniano José de Freitas e Leopoldina Maria da Cruz.188 Pardos e pretos sempre estiveram
acima dos brancos no quesito declaração de pai solteiro. Após a instalação do registro civil de
nascimento para todas as cores há uma diminuição bem significativa de pais solteiros e apesar
de um pequeno pico em 1939, em nenhum momento após se retornou ao patamar do ano de
1889.

Gráfico 3.12 - Pais e Mães Solteiros (%) por cor e ano nos registros civis de
nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939.
100
90
80
70
60
Brancos %
50
Pardos %
40
Pretos %
30
20
10
0
1889 1894 1899 1904 1909 1914 1919 1924 1929 1934 1939

Fonte: Registros Civis de Nascimentos do 1º Oficio de Registro de Pessoas Naturais do Município de Nova
Iguaçu: 1889, 1894, 1899, 1904, 1909, 1914, 1919, 1924, 1929, 1934 e 1939.

Seria fácil afirmar que a diminuição de solteiros simbolizaria um aumento de casados


nos registros civis de nascimento. Após o ano de 1894 em quase 80% dos registros de

188
RCN, Livro 12, reg. 109 de 1909.
104

crianças brancas ao longo dos anos os pais se declararam como casados ao cartorário. Os
pardos começam com um número bem inferior em 1889, com 30% e terminam em 1934 com
quase 70% das crianças tendo pais casados. Menos de 20% das crianças declaradas como
pretas têm os pais casados no primeiro ano do cartório, mas no mesmo movimento dos pardos
eles chegam a quase 60%.Apesar de os pais das crianças declaradas pretas e pardas se
casarem menos, mesmo com a diminuição de casados em 1939 por conta de situações
conjecturais que avaliarei mais a frente, aqui cabe destacar que a quantidade de pais
reconhecidos pelo cartorário e se declarando como casados aumentou até o ano de 1934.
Entre os que se declaravam como solteiros era possível encontrar promessas de
casamento no registro civil de nascimento. Nos 14 registros encontrados, todos concentrados
apenas em 1889, os presentes se referiam ao matrimônio consentido perante a Igreja Católica
e não ao registro civil de casamento. Não é a toa que 5 casais brancos e apenas um pardo
quiserem assentar esse desejo em registro cartorário. Nesse ano, como apontado em capítulo
anterior, os limites entre as esferas públicas e eclesiásticas no controle da documentação civil
ainda não estavam claramente definidos para a população, e principalmente para cartorários.

Nos registros civis de óbitos o estado civil dos falecidos também foi informado, e os
dados parecem acompanhar aos encontrados nos nascimentos. O gráfico 3.13 relaciona todos
os falecidos declarados como solteiros. Os pretos continuam sendo a maioria entre os solteiros
enquanto os brancos mantêm média semelhante a dos registros de nascimento. Somente em
um ponto os três grupos parecem convergir, o ano de 1914. E novamente no ano de 1934
ocorre uma queda de solteiros e em 1939 uma leve alta.
105

Gráfico 3.13 - Solteiros (%) por cor e ano nos registros civis de óbito.
Município de Nova Iguaçu, 1889-1939.

100
90
80
70
60
50 Brancos %
40 Pardos %

30 Pretos %

20
10
0
1889 1894 1899 1904 1909 1914 1919 1924 1929 1934 1939

Fonte: Registros Civis de Óbito do 1º Oficio de Registro de Pessoas Naturais do Município de Nova
Iguaçu: 1889, 1894, 1899, 1904, 1909, 1914, 1919, 1924, 1929, 1934 e 1939.

Assim como nos registros de nascimentos, os brancos são a maioria entre os casados
em todos os anos acompanhados. Ao longo dos anos, há mais casados entre os brancos
falecidos na localidade, seguidos dos pardos e por fim dos pretos. Porém nas linhas do gráfico
como uma tendência, observa-se que brancos e pardos apresentam uma linha de estabilidade,
e pretos uma linha de decréscimo no número de solteiros. A única inflexão é no ano de 1914.
Até o presente momento não consegui identificar nenhum fato que possa ter influenciado nos
dados. A única relação, superficial, que pude fazer foi a promulgação da Lei 2.887 de 25 de
Novembro de 1914 que retirou a multa para crianças que não tenham sido registradas no
prazo correto. Aparentemente se isso não motivou o registro de crianças brancas, acelerou a
procura por parte dos pais de crianças registradas como pretas. Apesar de a lei ter sido
direcionada para os registros de nascimento não consegui fazer relação com os óbitos.
Coletando os últimos anos de registro civil, 1934 e 1939, ao comparar tanto os
registros civis de nascimento quanto o de óbitos ficou evidente o aumento, mesmo que não
tão latente, de solteiros em 1939 e a diminuição de casados entre todas as cores. Como
demonstrarei nos capítulos seguintes, a região da Baixada Fluminense recebeu uma gama de
migrantes, de várias regiões do país – com destaque para os originários do Vale do Paraíba e
do Nordeste – em virtude da ampliação de oferta de trabalho por conta da exportação de
laranjas. A maior parte dos migrantes era do sexo masculino. Logo, a sua chegada a região da
Baixada Fluminense provavelmente modificou o mercado matrimonial, uma vez que ampliou
106

a disputa pelas mulheres ali existentes, dificultando a boa parte dos homens residentes da
região, contrair matrimonio.
Em resumo, o que vale ressaltar após a análise dos gráficos acima foi o aumento
significativo de pessoas indicando serem casados, ao longo dos anos. Isto significa dizer que a
ação de registrar em papel a situação conjugal dos pais e o estado civil dos falecidos é um
claro indício da valorização da legitimação e do matrimonio em si ao longo das primeiras
décadas do século XX.
Apesar da situação conjugal dos pais e do estado civil dos falecidos ser um bom
indicador da mudança da estrutura familiar ao longo dos anos, outro dado me parece ser
importante de analisar, a legitimidade tanto das crianças quanto dos mortos. De certa maneira
a legitimidade dos registrados seguiu a indicação da situação conjugal.189 Desde a fundação
do cartório as crianças consideradas “naturais” aparecem em menor quantidade entre as
brancas, mantendo-se um nível baixo e estável desde o ano de 1904. As crianças pardas e
pretas sempre foram declaradas como naturais em maior porcentagem em relação às brancas,
mas as últimas diminuíram mais radicalmente a sua proporção ao longo dos anos. Sebastião
Lino da Silva, mesmo tendo comparecido ao Cartório para declarar o nascimento de seu filho,
Luiz, no dia 26 de Março de 1914, afirmou ser a criança da cor preta e “natural”. A mãe se
chamava Adelaide do Nascimento e ambos eram residentes no distrito de Nova Iguaçu.
Mesmo a criança sendo fruto de uma relação não reconhecida pelo Cartório, e provavelmente,
também pela Igreja Católica, os avós paternos – Lino da Silva e Hermelinda Francisca – e
maternos – Ignacia Dias – foram citados.190 Mesmo a criança sendo fruto de uma relação
entre solteiros, ela teve a oportunidade de conhecer uma família ampliada.

189
No capítulo anterior atentei para as diferenças entre crianças consideradas como naturais filhas de um
relacionamento não reconhecido, de crianças legítimas, aquelas cujos pais possuíam um casamento reconhecido
ou pelo cartório ou pela Igreja.
190
RCN livro 14, reg. 33, ano de 1914.
107

Gráfico 3.14 - Crianças registradas como naturais (%) por ano nos registros
civis de nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939.
100
90
80
70
60
Brancos %
50
Pardos %
40
30 Pretos %

20
10
0
1889 1894 1899 1904 1909 1914 1919 1924 1929 1934 1939

Fonte: Registros Civis de nascimento do 1º Oficio de Registro de Pessoas Naturais do Município de Nova
Iguaçu: 1889, 1894, 1899, 1904, 1909, 1914, 1919, 1924, 1929, 1934 e 1939.

Ao contrário das crianças brancas que se estabilizaram entre as naturais logo nos
primeiros anos, o decréscimo de crianças naturais da cor preta é relativamente alto, saindo de
quase 100% para menos de 50% em apenas 40 anos. Ou seja, tanto os pais de crianças pardas
quanto de pretas buscaram ao longo dos anos legitimar suas relações.

Quando comparados os comportamentos da declaração da legitimidade das crianças


brancas, pardas e pretas nota-se claramente um antagonismo. Desde a fundação do cartório as
crianças brancas foram amplamente registradas como fruto de relações legítimas,
principalmente após 1904 quando quase 90% foi declarada dessa forma ao longo dos anos.

O salto de legitimidade das crianças pardas e, principalmente, das declaradas pretas,


parece ter ocorrido no ano de 1894 tendo o primeiro ápice em 1904 como o caso de Zeferina,
nascida e registrada no dia 24 de junho. Antonio dos Santos Barboza, compareceu ao cartório
e declarou que nesse dia nasceu uma criança do sexo feminino de cor parda, sendo filha
legítima de Tertuliano Pimenta e Zeferina Rosa da Silva, ambos brasileiros e naturais do
distrito de Nova Iguaçu. Seus avós paternos e maternos também foram citados.191 Mesmo em
menor quantidade, crianças registradas como pardas e pretas passaram a ser mais registradas
como legítimas, e possivelmente não foram impedidas de conhecer e/ou conviver em famílias
ampliadas e legitimadas pela sociedade e/ou pela Estado e/ou pela Igreja Católica.

191
RCN livro 11, reg. 396, ano de 1904.
108

Gráfico 3.15 - Crianças registradas como legítimas (%) por ano nos
registros civis de nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939.
100
90
80
70
60
Brancos %
50
Pardos %
40
Pretos %
30
20
10
0
1889 1894 1899 1904 1909 1914 1919 1924 1929 1934 1939

Fonte: Registros Civis de nascimento do 1º Oficio de Registro de Pessoas Naturais do Município de Nova
Iguaçu: 1889, 1894, 1899, 1904, 1909, 1914, 1919, 1924, 1929, 1934 e 1939.

Nos registros de falecidos dos considerados “naturais”, filhos de pais solteiros e/ou
não reconhecidos pelo cartório e pela Igreja, não houve qualquer diferenciação drástica em
comparação aos registros de nascimento. Desse modo, os brancos continuaram participando
pouco desses registros, como foi o caso de Domingos Pageiro, falecido no ano de 1914. Era
operário, solteiro e morreu no atual Municipio de Mesquita, aos 26 de anos, em virtude de
uma Tuberculose. Foi registrado como Natural, e apenas o nome de sua mãe foi citado:
Gervagia Maria da Conceição.192
Uma diferenciação a ser ressaltada foi a redução bem significativa de pretos e pardos
sendo registrados na hora de sua morte como “naturais” em 1939. Para as registradas como
pretas, apesar de seu percentual atingir o ápice com 100% em 1904, após esses longos anos a
quantidade diminuiu drasticamente.

192
RCO, livro 8, reg. 8, anode 1914.
109

Gráfico 3.16 - Falecidos registrados como naturais (%) por cor e ano nos
registros civis de óbitos. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939.
100
90
80
70
60
Brancos %
50
Pardos %
40
Pretos %
30
20
10
0
1889 1894 1899 1904 1909 1914 1919 1924 1929 1934 1939

Fonte: Registros Civis de Óbito do 1º Oficio de Registro de Pessoas Naturais do Município de Nova
Iguaçu: 1889, 1894, 1899, 1904, 1909, 1914, 1919, 1924, 1929, 1934 e 1939.

Gráfico 3.17 - Falecidos registrados como legítimos (%) por cor e ano nos
registros civis de óbitos. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939.
100
90
80
70
60
Brancos %
50
Pardos %
40
Pretos %
30
20
10
0
1889 1894 1899 1904 1909 1914 1919 1924 1929 1934 1939

Fonte: Registros Civis de Óbito do 1º Oficio de Registro de Pessoas Naturais do Município de Nova
Iguaçu: 1889, 1894, 1899, 1904, 1909, 1914, 1919, 1924, 1929, 1934 e 1939.

A repetição de gráficos muito semelhantes entre nascimentos e óbitos faz-se


necessário para reforçar e afirmar a qualidade dos registros civis de óbito. Pois mesmo tendo
um alto número de sub-registros, como apontei no primeiro capítulo, usando-o como indício
de comportamento ele seguiu na maior parte os detalhes o registro civil de nascimento. Por
110

conta disso ele acompanhou a tendência de aumento da legitimação da estrutura familiar dos
pretos e pardos ao longo do tempo

O número alto de solteiros e de crianças naturais, entre os pretos, poderia levar a


concluir que essas pessoas emprestavam menor importância à relação familiar ampliada.
Contudo, ao observar os filhos considerados ilegítimos, foi possível encontrar um, de 22 de
julho de 1919, quando Joaquim da Silva Falcão compareceu ao cartório para declarar o
nascimento de uma criança do sexo masculino, da cor preta e filho ilegítimo de Pio França e
de D. Amelia Rosa, moradores da localidade de Rancho Novo. O pai era lavrador e a mãe
doméstica. Mesmo tendo nascido fora do casamento, Elias, como foi denominado, teve os
avós paternos citados: Vidal França e Manoela Nascimento; assim como os maternos:
Honorato de Noronha e Luiza Rosa.193 Entre as crianças registradas como brancas houve três
casos desse tipo, dentre eles destaca-se o de Octacílio, nascido no dia 17 de fevereiro de 1919.
O Pai, Manoel de Araujo Pinto Duarte, natural de Portugal, declarou que a criança era da cor
branca, e seu filho ilegítimo com Dona Albertina de Souza, sendo ele artista e ela doméstica.
Os avós não deixaram de ser citados, sendo os paternos Antonio José de Araujo e D. Custódia
Maria dos Santos; e maternos: Manoel Antonio de Souza e D. Leopoldina Maria de Souza.194

A maior quantidade de crianças sendo registradas como ilegítimas, porém inseridas em


famílias conjugais aparentemente consensuais, estavam entre as pardas, ao total foram 8. João
Lopes Machado compareceu ao cartório no dia 14 de maio de 1899 para declarar o
nascimento de seu filho ilegítimo, Sebastião, com a mãe Luiza de Leopoldina de Almeida,
nascida na Serra de Madureira. Apenas a avó paterna foi citada: Cecília Joaquina da
Conceição; e os avós maternos: Francisco Coelho da Silva e Antonia Leopoldina da Silva.195
Assim, através da análise qualitativa desses registros, nota-se que na maior parte dos casos de
crianças consideradas ilegítimas, o nome do pai estava presente. Isso significa dizer que
nascendo de uma relação não legitimada, à criança foi permitida conhecer ou pelo menos
ouvir falar dos avós, e de possivelmente ter convivido em uma família ampliada.

Além disso, foi interessante perceber que somente em três casos os falecidos foram
considerados ilegítimos. Não estavam agregados, pelo contrário, era um de cada cor. Os casos

193
RCN Livro 19, reg. 220, ano de 1919.
194
RCN Livro 19, re. 59, ano de 1919.
195
RCN Livro 6, reg. 414, ano de 1899.
111

aconteceram somente no ano de 1919, sendo o primeiro de Sebastião, falecido aos 8 anos de
idade por conta de uma caquexia paludosa. Foi declarado por Alberto Travassos Veras como
sendo da cor parda e filho ilegítimo de Josepha Catharina, natural do primeiro distrito de
Nova Iguaçu. Os avós não são citados.196 O segundo caso foi o de Sergio, que faleceu de
morte natural aos 4 meses de vida, de cor preta. Como o exemplo anterior só o nome da mãe é
citado, Manoela Maria da Paixão.197 Ambas as crianças foram enterradas no Cemitério
Público de Nova Iguaçu. Já a terceira falecida era Maria Clara, de apenas 10 dias e da cor
branca. Sua mãe chamava-se Candida Piedade e era moradora de Mesquita.198 Todas eram
crianças e talvez por isso tenha sido mais fácil identificá-las como filhos de relacionamentos
consensuais ou extra-conjugais.
Porém entre os registros de óbitos de pessoas ilegítimas deve-se atentar para sua
especificidade. Ali não estava mais em voga somente reconhecimento da situação conjugal
dos pais, apesar de uma mortalidade infantil altíssima, nesses dados também são incorporados
jovens e adultos. Isso significa dizer que boa parte dos registros foi efetuada por declarantes
fora do eixo familiar, ou seja, a legitimidade do falecido tinha muito mais a ver com o seu
reconhecimento social do que efetivamente com a situação conjugal de seus pais,
propriamente dito.
Logo, se o problema de pesquisa é a estrutura da família deve-se atentar não somente
para a legitimidade da relação dos pais, mas sim a presença do nome do pai e da mãe nos
registros civis. Como apontado anteriormente, boa parte das crianças, nos primeiros anos de
abertura do cartório de registro civil foram declaradas “naturais”. Todavia isso não impediu
que em alguns registros o nome dos pais fosse declarado. Um dos poucos casos onde a criança
é declarada como “natural” e onde os pais aparecem citados é o de Carmello. Seu pai, José
Baroni, compareceu ao cartório no dia 2 de fevereiro de 1899 para declarar o nascimento de
seu filho, do sexo masculino, de cor branca e de legitimidade “natural”, na localidade de
Rangel. O pai era natural da Itália e a mãe, Josélia Maria da Conceição, deste Estado, os avós
paternos são citados e apenas a avó materna está presente no registro.199
De acordo com o gráfico 3.18 encontra-se a seguinte situação da presença do nome do
pai nos registros civis de nascimento. Para as crianças registradas como brancas, após o ano

196
RCO, livro 11, reg. 14, ano de 1919.
197
RCO, livro 11, reg. 17,. Ano de 1919.
198
RCO Livro 11, reg. 208. Ano de 1919.
199
RCN Livro 6, reg. 355, ano de 1899.
112

de 1894 o nome do pai esteve presente em mai de 90% de todos os registros como foi o caso
de Antonio Miguel Freitas, pai de Maria, que compareceu ao cartório em 1904, para declarar
o nascimento de sua filha. Afirmou que ela havia nascido na localidade denominada Austin,
era do sexo feminina e legítima dele e de sua esposa Evangelina de Jesus - ambos portugueses
e residentes na cidade de Nova Iguaçu.200
Esse número se modifica para os pardos, pois eles começam em 1889 com
percentagem bem baixo de “pai” presentes. Contudo, a partir do ano de 1894, a semelhança
das crianças brancas ele se tornou figura carimbada na maior parte dos registros. Como foi o
caso de Eustaquio Pereira de Sampaio, pai de Bibiana Maria Edith de Sampaio, nascida em
1914 e registrada como parda, sendo filha legítima dele e de sua esposa Judith Pereira de
Sampaio. A criança era neta paterna de Adelino Pinto Pereira de Sampaio e Maria Augusta
Pereira de Sampaio, sendo os maternos: Bento Luiz Pereira de Sampaio e Joaquina Carvalho
Pereira de Sampaio.201

Gráfico 3.18 - Pai presente (%) por cor e ano nos registros civis de
nascimento. Município de Nova Iguaçu 1889-1939.
100

90

80

70

60
Brancas %
50
Pardas %
40
Pretas %
30

20

10

0
1889 1894 1899 1904 1909 1914 1919 1924 1929 1934 1939

Fonte: Registros Civis de Óbito do 1º Oficio de Registro de Pessoas Naturais do Município de Nova
Iguaçu: 1889, 1894, 1899, 1904, 1909, 1914, 1919, 1924, 1929, 1934 e 1939.

200
RCN, Livro 9, reg. 225, ano de 1904.
201
RCN, Livro, 15, reg. 148, ano de 1914.
113

A trajetória da presença do nome pai das crianças pretas não diferencia dos demais. Se
em 1894 menos de 10% estiveram presentes ou pelo menos seu nome citado, a partir de 1909
ele está em quase 80% dos registros. Apesar de uma presença menor, isso não significa dizer,
como analisado em capítulo anterior, que os mesmos estivessem ausentes da vida da criança.
Esse foi o exemplo de Laurentino Ferreira dos Santos, que declarou o nascimento de sua filha,
da cor preta e legítima, dele e de sua esposa Alice Ferreira dos Santos. Infelizmente, a criança
nasceu morta, e, talvez, por conta desse fato, ela não tenha recebido um nome. Contudo, o
nome dos avós estava presente no registro, eram eles, do lado paterno: Ricarda da Conceição;
e materno: Rosa Maria da Conceição. O pai era natural da localidade de Jacarepaguá, no
Distrito Federal, e tinha como profissão Padeiro, mas era residente em Belford Roxo.202

Talvez esse último registro citado ajude a explicar a ausência de pais de crianças
registradas como pretas e pardas nos primeiros anos do funcionamento do cartório. Em
virtude do declínio econômico da região, passaram a ocorrer emigrações sazonais,
provavelmente maior entre os homens em idade adulta, impedindo-os de estar presentes no
parto, como também na hora do registro. Porém, outros estudos também já demonstraram que
nesses primeiros anos de pós-abolição boa parte da configuração familiar da população preta e
parda era formada por mulheres: avó materna – mãe – filhos.203 O mais importante a se
destacar nesse gráfico é que após o ano de 1914, com a eliminação das multas de registrados
atrasados o nome do pai esteve presente quase equilibradamente em todas as cores.
Saber se algum parente se fez presente na hora da declaração do nascimento ou do
falecimento também era um ótimo indicio da configuração familiar, de cada cor. Nos gráficos
3.19 e 3.20, a seguir optei por separar os não-parentes e parentes presentes no ato do registro
do Nascimento. Entre os não-parentes se encaixavam aqueles que estiveram presentes no
cartório, mas que no ato do registro não informaram se possuíam algum vínculo parental com
a criança, em muitos casos são despachantes, amigos e, na maior parte, vizinhos. Antes de
apresentar a comparação entre os dados tenho que retomar o ano de 1914, nesse ano há um
diferencial por conta da corrida aos cartórios, uma vez que relembrando o já discutido foi
permitido o registros de crianças fora do período regulamentado, sem o pagamento de multa.
Visto desse modo, a presença de não-parentes registrando crianças brancas sempre foi
inferior, percentualmente, se comparada às crianças pardas e pretas. O maior destaque fica

202
RCPNN, livro 4, reg. 58, ano de 1894.
203
SOUZA, Edinélia Maria Oliveira. O Pós-abolição na Bahia: Hierarquias, lealdades e tensões sociais em
trajetórias de negros e mestiços de Nazaré das Farinhas e Santo Antonio de Jesus – 1888/1930. Tese apresentada
ao Programa de Pós-graduação em História Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro, RJ., 2012, p. 95.
114

para a diminuição quase radical de não-parentes registrando seus filhos após 1919, pois houve
após esse ano um reforço nas leis que retiravam as multas para as crianças nascidas há mais
tempo. Além disso, cabe destacar que apesar a maior freqüência de não ter parentes na hora
dor registro, os pais das crianças pretas demonstraram possuir amplas redes de sociabilidades,
pois registraram seus filhos com ajuda de amigos ou conhecidos em número bem superior aos
brancos.

Gráfico 3.19 - Não-parentes (%) como declarantes dos registros civis de


nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939.
100
90
80
70
60
Brancos %
50
Pardos %
40
Pretos %
30
20
10
0
1889 1894 1899 1904 1909 1914 1919 1924 1929 1934 1939

Fonte: Registros Civis de nascimento do 1º Ofício de Registro de Pessoas Naturais do Município de Nova
Iguaçu: 1889, 1894, 1899, 1904, 1909, 1914, 1919, 1924, 1929, 1934 e 1939.

Para os parentes que estiveram presentes na hora registro destacam-se principalmente


avós, tios, irmãos, mães e pais. De todas as crianças brancas, em apenas dois casos foram os
avós que efetuaram o registro de nascimento. Semelhante parece ter ocorrido com os pardos
onde apenas 3 avós registraram seus netos. Contudo, não há um caso sequer de avós
declarando o nascimento de crianças pretas.

De acordo com o gráfico, quase inversamente proporcional ao gráfico relativo aos


não-parentes, fica patente a maior presença de familiares na hora do registro após o ano de
1919. Se nos primeiros anos da abertura do cartório poucos familiares de pretos e pardos
estiveram presentes no ato, deixando quase sempre esse dever com despachantes e vizinhos,
pois provavelmente emigraram para outras regiões, a partir dos anos 20 do século XX o
registro de todos os membros familiares por parentes tornou-se quase obrigatório por de todas
as cores. A busca pelo registro civil de nascimento se tornou ao longo dos anos um elemento
legitimador da família e valorizado por eles. Tanto que deixaram os despachantes de lado e o
115

ato de registrar os membros familiares tornou-se quase um ritual familiar, assim como o
registro de batismo.

Gráfico 3.20 - Parentes (%) como declarantes dos registros civis de


nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939.
100
90
80
70
60
Brancos %
50
Pardos %
40
Pretos %
30
20
10
0
1889 1894 1899 1904 1909 1914 1919 1924 1929 1934 1939

Fonte: Registros Civis de Nascimento do 1º Oficio de Registro de Pessoas Naturais do Município de Nova
Iguaçu: 1889, 1894, 1899, 1904, 1909, 1914, 1919, 1924, 1929, 1934 e 1939.

Já nos óbitos a situação é bastante diferente. A declaração do falecimento no cartório


raramente era realizada por parentes. A partir dos nomes dos declarantes surgiu apenas
algumas suposições. Nos primeiros anos de criação do registro de óbito a maior parte era
declarada por policiais, legistas e médicos. Posterior a isso os nomes variam bastante, não
sendo possível sequer identificar a profissão dos declarantes. A única suposição a fazer é a de
que agentes funerários fossem os responsáveis por realizar o registro de óbito, uma vez que
para enterrar o indivíduo no cemitério da cidade exigia-se o documento.
No gráfico 3.21 encontra-se a pequena parcela de parentes presentes declarando os
óbitos no cartório. No gráfico 3.22 optou-se por usar as barras por conta da falta de indicação
em alguns anos da presença de parentes, o que no gráfico de linhas não seria demonstrado.
Nesses registros é possível encontrar uma pequena parcela de avós, pais, mães, genros, filhos
e cônjuges registrando o óbito de seus relativos. A presença dos parentes não passou em
nenhum momento dos 30% independente da cor ao longo dos anos. Apesar de os anos de
1924 e 1929 terem um ápice de parentes, nos anos seguintes houve diminuição significativa.
116

Gráfico 3.21 - Declarantes (%) Não-parentes dos registros civis de


óbitos. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939.
100
90
80
70
60
Brancos %
50
Pardos %
40
Pretos %
30
20
10
0
1889 1894 1899 1904 1909 1914 1919 1924 1929 1934 1939

Fonte: Registros Civis de Óbito do 1º Ofício de Registro de Pessoas Naturais do Município de Nova
Iguaçu: 1889, 1894, 1899, 1904, 1909, 1914, 1919, 1924, 1929, 1934 e 1939.

Gráfico 3.22 - Declarantes (%) parentes dos registros civis de óbitos.


Município de Nova Iguaçu, 1889-1939.
100
90
80
70
60
Brancos %
50
Pardos %
40
Pretos %
30
20
10
0
1889 1894 1899 1904 1909 1914 1919 1924 1929 1934 1939

Fonte: Registros Civis de Óbito do 1º Oficio de Registro de Pessoas Naturais do Município de Nova
Iguaçu: 1889, 1894, 1899, 1904, 1909, 1914, 1919, 1924, 1929, 1934 e 1939.

Outro bom indício da configuração familiar ao longo dos anos está presente no valor
dado à citação dos avós, na hora do registro. Somente para reforçar cabe lembrar que os
gráficos abaixo foram construídos a partir da citação do nome dos avós, portanto não é
possível delimitar se eles estavam presentes no cotidiano da criança ou se já era falecido no
momento do registro. No entanto, o uso de seus nomes é um claro indício da importância que
se dava aos avós, mesmo quando esses já não eram vivos ou mesmo se moravam distantes.
117

No gráfico 3.23 coloquei somente os avós citados de crianças registradas como


brancas. Desde a fundação do cartório todos os avós estiveram presentes em mais de 50% dos
registros. A avó materna é a figura mais presente desde o índio dos registros, mantendo-se até
1939. Para as crianças brancas, após 1914 a diferença de citação de avós torna-se quase
indiferente,

Gráfico 3.23 - Avós (%) de crianças brancas por ano nos registros civis
de Nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939.
100
90
80
70
60 Avô Paterno %
50 Avó Paterna %
40 Avô Materno %
30 Avó Materna %
20
10
0
1889 1894 1899 1904 1909 1914 1919 1924 1929 1934 1939

Fonte: Registros Civis de Nascimento do 1º Ofício de Registro de Pessoas Naturais do Município de Nova
Iguaçu: 1889, 1894, 1899, 1904, 1909, 1914, 1919, 1924, 1929, 1934 e 1939.

Quando analisados os pardos (gráfico 3.24), nos primeiros anos é possível observar
uma mudança bem significativa de comportamento. A primeira diferença consistiu na
diminuição da presença dos nomes dos familiares do pai, no ato do registro. O avô paterno e a
avó paterna até 1904 foram poucos citados. Em comparação aos brancos, nesse primeiro
período, os pardos valorizam mais a família da mãe em comparação à do pai. Em virtude
disso, a presença do avô materno começa em 40% dos registros e termina em 1939 em quase
90% deles, enquanto a avó materna aparenta ser a figura central nessa constituição familiar,
pois sempre esteve presente entre 80% e 100% dos registros. Essa aproximação dos avós,
principalmente maternos, demonstra a importância dada à constituição familiar para além do
núcleo pai-mãe-filho por parte dos pardos, no qual nos primeiros anos é a formação avó
materna-mãe-filho que aparenta ser o corriqueiro. Situação essa que muda ao longo dos
tempos, principalmente após 1914 quando a família nuclear toma mais força.
118

Gráfico 3.24 - Avós (%) de crianças pardas por ano nos registros civis
de Nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939.
100
90
80
70
60 Avô Paterno %
50 Avó Paterna %
40 Avô Materno %
30 Avó Materna %
20
10
0
18891894189919041909191419191924192919341939

Fonte: Registros Civis de Óbito do 1º Ofício de Registro de Pessoas Naturais do Município de Nova
Iguaçu: 1889, 1894, 1899, 1904, 1909, 1914, 1919, 1924, 1929, 1934 e 1939.

Se comparado aos dois casos anteriores, as crianças registradas como pretas (gráfico
3.25) tiveram uma relação familiar mais parecida com a de pardos, com pequenas diferenças.
A maior mudança encontra-se na presença dos ancestrais do pai, pois o avô paterno no início
do registro está presente somente em menos de 10% dos registros. Os avós por parte de mãe
também se diferenciam bastante, enquanto o materno é pouco mencionado nos primeiros
anos, a avó materna constitui-se como elemento essencial da constituição dessa família em
todos os anos consultados. A semelhança dos pardos quanto nos primeiros anos o eixo
familiar é a avó materna-mãe-filho, após 1919 há uma mudança radical de comportamento
familiar, pois os avós paternos passam a ser mencionados. Logo é possível reafirmar que a
tanto a família de pardos quanto a família de pretos demoraram um pouco mais, em
comparação aos brancos, para se legitimarem ou se agruparem.
119

Gráfico 3.25 - Avós (%) de crianças pretas por ano nos registros civis de
Nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939.

100
90
80
70
60 Avô Paterno %
50 Avó Paterna %
40
Avô Materno %
30
Avó Materna %
20
10
0
1889 1894 1899 1904 1909 1914 1919 1924 1929 1934 1939

Fonte: Registros Civis de Óbito do 1º Ofício de Registro de Pessoas Naturais do Município de Nova
Iguaçu: 1889, 1894, 1899, 1904, 1909, 1914, 1919, 1924, 1929, 1934 e 1939.

Também foi possível visualizar aqueles registros que mencionam todos os avós e
aqueles casos nos quais nenhum é mencionado. Os gráficos a seguir foram construídos a partir
desta informações e, pelo menos no primeiro (gráfico 3.26), já é possível delimitar uma
grande diferença entre todas as cores. As crianças brancas, desde 1889 e até 1939, tiveram a
oportunidade de conviver ou de pelo ouvir falar nos nomes dos avós muito mais se
comparado as outras cores. Para as crianças pardas o crescimento do convívio com os avós foi
gradual, começando no inicio do registro com menos de 10% e terminando em 1939 com
mais de 70%. Isso aconteceu com Walkir. Apesar de seus pais Alfredo Braz de Souza e
Maria José de Souza - ele natural da Bahia e empregado público, e ela doméstica e de
nacionalidade espanhola – apresentarem uma trajetória de migração, indicaram em seu
registro os nomes de seus avós paternos, Manoel Gomes de Souza e D. Maria Gloria de
Souza; e maternos José Gustavino Virosck e Thereza Gustavino Virosck. Em virtude de suas
origens e de residirem na Baixada não é possível delimitar se a criança conviveu com eles, no
entanto ela teve a possibilidade de pelo menos ouvir falar de seus avós.204
São as crianças registradas como pretas que apresentam maior diferenciação de
comportamento. Enquanto nos primeiros anos todos os avós são citados, provavelmente
impulsionados pela novidade do registro assim como pela ansiedade em legitimar seus
familiares, a seguir houve uma inflexão desse movimento, aumentando gradativamente ao
longo dos anos. A partir desses gráficos conclui-se que, aparentemente, é o núcleo avó

204
RCPNN, livro 19, reg. 226, de 1919.
120

materna-mãe-filho a que tem vital importância na constituição familiar de não-brancos, porém


isso vai mudando ao longo do tempo. Ou seja, boa parte das crianças registradas como não-
brancas tiveram a oportunidade conhecer e/ou conviver em uma família para além do núcleo
pai e mãe. A família ampliada não era um privilégio somente dos brancos.

Gráfico 3.26 - Presença de todos os avós (%) por cor e ano nos registros
civis de nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939.
100
90
80
70
60
Brancas %
50
Pardas %
40
Pretas %
30
20
10
0
1889 1894 1899 1904 1909 1914 1919 1924 1929 1934 1939

Fonte: Registros Civis de Óbito do 1º Ofício de Registro de Pessoas Naturais do Município de Nova
Iguaçu: 1889, 1894, 1899, 1904, 1909, 1914, 1919, 1924, 1929, 1934 e 1939.

A referência a família avó materna-mãe-filho, antes de significar uma desagregação


familiar ao longo do período pós-abolição ou mesmo de uma aproximação à extrema pobreza,
simbolizava um comportamento construído ao longo do tempo com características próprias.
Não se pode tomar a família nuclear como padrão, e a ausência dela como desvio, e muito
menos como sinal de pobreza extremada. Mas sim, deve-se compreender cada formação
familiar como característica de cada grupo.
Concluindo. Em primeiro lugar ficou nítido que tanto pardos e principalmente pretos,
se comparados as crianças brancas, demoraram muito mais em legitimar e reforçar a unidade
familiar. Obviamente, por conta dos dados apresentados eu seria levado a crer que as perdas
provenientes do período da escravidão afetaram pardos e pretos e por isso eles só
conseguiram constituir famílias conjugais após muitos anos. Tanto Mattos quanto Rios já
haviam criticado, na introdução do livro Memórias do Cativeiro, a noção de que os recém-
libertos não tinham a capacidade de formar família no pós-abolição por conta de todo
121

processo violento vivenciado durante o cativeiro.205 Contudo, nenhuma delas demonstrou a


construção de famílias e o seu reforço ao longo dos anos por parte desses grupos, como foi o
caso dessa parte de capítulo. Em segundo lugar, tenho que reforçar o seguinte argumento e
percepção da fonte: o registro civil não demonstra a construção de família, mas sim o valor
construído ao torno delas, o que fez com pretos e pardos buscassem legitimá-la perante o
Estado ao longo do tempo.
Como apontado em capítulo anterior, umas das maiores preocupações durante a
Primeira República, e antes mesmo da promulgação do Código Civil, versava sobre a
transmissão de bens.206 Com uma legislação que privilegiava o papel do homem tanto nas
decisões familiares quanto no controle patrimonial da família, a herança se tornou um grande
problema. A solidificação e convivência de uma família ampliada e legitimada, com a
liderança do pai, possibilitavam uma maior segurança aos filhos no momento de sua morte.
Isto significa dizer que quanto mais posses o pai havia conquistado ao longo da vida, maior a
probabilidade da família se tornar ampliada e, principalmente legitimada ao longo dos anos,
pois havia uma grande preocupação na transmissão desses bens.
Nos anos que se seguiram a abolição, pelo menos na Baixada Fluminense as crianças
registradas como brancas demonstraram possuir uma família mais ampliada em relação aos
não-brancos. Entretanto, deve-se ressaltar que nem todos os brancos faziam parte das camadas
mais ricas, mas, muito provavelmente, possuíam um costume adquirido, ao longo dos anos, de
uma preocupação na conservação de seus bens. Então, quanto mais a família de brancos
melhorava sua condição de vida material, mais a questão de transmissão de bens se tornava
importante. Com isso a família passou a se organizar melhor.
Através dos dados analisados supõe-se que as famílias de não-brancos não dividiam do
mesmo costume, o de construir famílias ampliadas em prol da segurança dos bens, após a
abolição. Afinal, muitas delas atravessaram o período sem adquirir grandes bens e/ou mesmo
propriedades. Ao comparar os dados citados nesse capítulo, com o ano de 1890, nota-se
claramente que a quantidade de membros na família cresceu, e se tornou mais importante no
cotidiano, tanto para brancos quanto para não-brancos legitimá-la. Isso fica bem claro na
citação ao nome de todos os avós ao longo do tempo.
Desse modo, quanto maior a família, maior a probabilidade de aumentar os bens
adquiridos. De acordo com Monsma, o tamanho das famílias “(...) podia influenciar nas

205
RIOS, A. e MATTOS, H. op. cit., 2005, Introdução.
206
SILVA, M. Beatriz “Legislação e práticas familiares no Brasil Colonial”. In: NEDER, G. História e Direito
Ed.: Revan, Rio de Janeiro, 2007.
122

possibilidades de poupar dinheiro e adquirir propriedade.”207 Se o aumento da família


ampliada está ligada a ascensão social é obvio que todos os grupos, sem distinção,
melhoraram de vida. Se no imediato pós-abolição todas as cores já tinham a experiência da
família ampliada, isso permitiu não apenas a permanência na região, no imediato pós-
abolição, na Baixada Fluminense, como também uma melhora na condição de vida material
até a década de 1940.
Temporalmente as famílias de crianças brancas organizaram-se e se legitimaram bem
antes em relação às pardas e pretas. O que aparentemente não impediu ao longo do tempo que
pardos e pretos fizessem o mesmo caminho. Cabe também analisar posteriormente se essa
formação e legitimação “precoce” das famílias brancas influenciou as disputas pelos locais de
moradia e, primordialmente, do mercado de trabalho.

II - Trabalho, moradia e qualidade de vida na Baixada Fluminense, 1889 a


1939.

Os anos que se seguiram ao pós-abolição na Baixada Fluminense não foram de


estagnação e de conseqüente segregação social. A possibilidade de construção de família
ampliada e legitimada era apenas um dos símbolos da melhora de condição de vida. Então nos
resta a seguinte questão: quais foram os meios utilizados por pretos e pardos para ascender
socialmente, e consequentemente obter uma melhor qualidade de vida? Com a finalidade de
obter uma possível causa para a ascensão social perguntei-me sobre os ofícios ocupados tanto
por brancos, pretos e pardos ao longo dos anos. A partir desses dados foi possível, por
exemplo, delimitar se havia concentração de ofício por cor, e se isso se prolongou ao longo
dos anos; assim como analisar o impacto no mercado de trabalho com a chegada de migrantes
após a década de 20.

Trabalho e Mobilidade Social


Nas primeiras décadas após a abolição, na Baixada Fluminense, a maior parte dos
moradores dedicavam-se principalmente a agricultura, ou a manufatura rural. Os gráficos
abaixo foram construídos a partir das informações dos registros civis de nascimento e dos
falecidos do sexo masculino nos óbitos do 1º Oficio de Registro de Pessoas Naturais de Nova

207
MONSMA, K. op. cit., 2010, p. 527.
123

Iguaçu. Nessa categoria, agricultura ou manufatura rural incluem-se tantos os trabalhadores da


lavoura quanto os proprietários de terra, ou seja, todos que se dedicavam ao campo.
No gráfico 3.27 nota-se claramente que nos primeiros anos os três grupos dedicavam-
se inteiramente ao trabalho na lavoura. Entre 1899 e 1904 as informações referentes a todas as
profissões se tornam escassas, retornando com força em 1909. Tanto nos registros de
nascimento quanto nos de óbito é possível notar que até 1939 todas as cores dedicaram-se ao
campo, e os pretos tinham um percentual um pouco superior, de 50% em relação aos brancos
de 40%. Porém nos óbitos tanto pretos quanto brancos são minoria, com destaque para os
pardos.
Apesar de todas as cores estarem presentes nessa categoria, nem todos tinham o
mesmo status. Dentre todos os registros civis de nascimento e óbito, aparecem apenas 44
proprietários, dos quais todos são brancos. Contudo, isso não impede a afirmação de que
possivelmente brancos, pardos e pretos trabalharam na lavoura lado a lado até a década de
1940, sem distinção de ofício por cor. Situação semelhante foi vivenciada por ex-escravos e
descendentes de escravos que trabalharam em conjunto com imigrantes e índios nas antigas
fazendas de açúcar.208

208
SCOTT, R. “Fronteiras móveis, ‘linhas de cor’ e divisões partidárias” in: SCOTT, R., HOLT, T. e COOPER,
F. Além da Escravidão: investigações sobre raça, trabalho e cidadania em sociedades pós-emancipação.
Ed.: Civilização Brasileira, RJ, 2005.
124

Gráfico 3.27 - Profissão do pai (%) de crianças brancas nos registros civis de
Nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939.
100
90
80
70
60
50
40
30
20
10
0
1889 1894 1899 1904 1909 1914 1919 1924 1929 1934 1939

Agricultura ou Manufatura Rural % Artesanato %


Comércio % Corpo Militar %
Jornaleiros % Magistratura %
Profissões Liberais % Rentistas %
Serviço Público % Serviços em geral %
Transportes %
Fonte: Registros Civis de Nascimento do 1º Ofício de Registro de Pessoas Naturais do Município de Nova
Iguaçu: 1889, 1894, 1899, 1904, 1909, 1914, 1919, 1924, 1929, 1934 e 1939.

Gráfico 3.28 - Profissão dos falecidos do sexo masculino (%) de brancos e ano nos
registros civis de óbito. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939.
100
90
80
70
60
50
40
30
20
10
0
1889 1894 1899 1904 1909 1914 1919 1924 1929 1934 1939

Agricultura ou Manufatura Rural % Artesanato %


Comércio % Corpo Militar %
Jornaleiros % Magistratura %
Profissões Liberais % Rentistas %
Serviço Público % Serviços em geral %
Transportes %
125

Fonte: Registros Civis de óbito do 1º Ofício de Registro de Pessoas Naturais do Município de Nova
Iguaçu: 1889, 1894, 1899, 1904, 1909, 1914, 1919, 1924, 1929, 1934 e 1939.

Gráfico 3.29 - Profissão do pai (%) de crianças pardas nos registros civis de
Nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939.
100
90
80
70
60
50
40
30
20
10
0
1889 1894 1899 1904 1909 1914 1919 1924 1929 1934 1939

Agricultura ou Manufatura Rural % Artesanato %


Comércio % Corpo Militar %
Jornaleiros % Profissões Liberais %
Rentistas % Serviço Público %
Serviços em geral % Transportes %
Fonte: Registros Civis de Nascimento do 1º Ofício de Registro de Pessoas Naturais do Município de Nova
Iguaçu: 1889, 1894, 1899, 1904, 1909, 1914, 1919, 1924, 1929, 1934 e 1939.
126

Gráfico 3.30 - Profissão dos falecidos do sexo masculino (%) de pardos por ano nos
registros civis de óbito. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939.
100
90
80
70
60
50
40
30
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10
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1889 1894 1899 1904 1909 1914 1919 1924 1929 1934 1939

Agricultura ou Manufatura Rural % Artesanato %


Comércio % Corpo Militar %
Jornaleiros % Profissões Liberais %
Serviço Público % Serviços em geral %
Transportes
Fonte: Registros Civis de óbito do 1º Ofício de Registro de Pessoas Naturais do Município de Nova
Iguaçu: 1889, 1894, 1899, 1904, 1909, 1914, 1919, 1924, 1929, 1934 e 1939.

Gráfico 3.31 - Profissão do pai (%) de crianças pretas nos registros civis de
Nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939.
100
90
80
70
60
50
40
30
20
10
0
1889 1894 1899 1904 1909 1914 1919 1924 1929 1934 1939

Agricultura ou Manufatura Rural % Artesanato %


Comércio % Corpo Militar %
Jornaleiros % Magistratura %
Profissões Liberais % Serviço Público %
Transportes %
Fonte: Registros Civis de Nascimento do 1º Ofício de Registro de Pessoas Naturais do Município de Nova
Iguaçu: 1889, 1894, 1899, 1904, 1909, 1914, 1919, 1924, 1929, 1934 e 1939.
127

Gráfico 3.32 - Profissão dos falecidos do sexo masculino (%) de pretos por ano nos
registros civis de óbito. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939.
100
90
80
70
60
50
40
30
20
10
0
1889 1894 1899 1904 1909 1914 1919 1924 1929 1934 1939

Agricultura ou Manufatura Rural % Artesanato %


Jornaleiros % Serviço Público %
Transportes %
Fonte: Registros Civis de Nascimento do 1º Ofício de Registro de Pessoas Naturais do Município de Nova
Iguaçu: 1889, 1894, 1899, 1904, 1909, 1914, 1919, 1924, 1929, 1934 e 1939.

Nos registros também foi possível visualizar a atuação das três cores em vários ofícios,
como artesanato, profissões liberais, transporte e serviço público. Na primeira categoria
incluem-se aqueles que produzem manualmente seus produtos e dele tiram seu sustento,
como: sapateiros, pedreiros, costureiros, entre outros. Os dois ápices, tanto em 1894 e 1914
podem ser deixados de lado, uma vez que em ambas as situações apenas 1 pessoa foi
registrada nesse ano atuando no ofício. Desse modo é lícito retirar dos gráficos abaixo que
menos de 10% de todas as cores, ao longo de todos os anos pesquisados dedicaram-se ao
trabalho manual. Em relação às profissões liberais fica bem claro que nenhuma cor teve
destaque especial, apenas para os pais de crianças brancas, mas sem grande exclusividade.
Situação semelhante para os percentuais de pessoas registradas como trabalhadores no
transporte ou de pessoas ou de carga, no qual não havia qualquer concentração no oficio.
Todas as cores também atuaram nos serviços públicos da cidade de Nova Iguaçu. Entre os
pais que registraram as crianças como brancas pardas e pretas, percentualmente por ano
atuaram de forma igual nesse serviço.
As diferenças primordiais vão se dar no oficio de jornaleiros e no comércio. São
nesses ofícios que se instalam a diferenciação e a mobilidade social. Ambas estão ligadas com
o crescimento da cidade e a conseqüente urbanização. Entre os que categorizei como
128

jornaleiros estão os que se declararam como: Trabalhador, trabalhador braçal, operários e


assalariados. Nos primeiros anos de registros, como já apontei a maior parte da população
ainda estava concentrada nos serviços para a lavoura. Com o advento da produção em larga
escala da laranja, e a construção de meios que facilitavam o seu escoamento, como as casas de
beneficiamento, o transporte de cargas, e o trem, houve uma diversificação nos ofícios.
Todos, mal ou bem estavam, estavam concentrados no setor cítrico. Nesse sentido, a partir de
1914 todas as cores começaram a participar mais dessa categoria, com maior destaque para
pretos e pardos. Em 1939, 30% de todos os pais de crianças registradas desse grupo estavam
presentes. Os pais de crianças brancas não estavam tão presentes enquanto jornaleiros nesse
mesmo período, pois estavam concentrados em outro ofício.
Se os pais de crianças pretas e pardas controlavam os ofícios ligados a categoria de
jornaleiros, o mesmo não pode ser dito aos “comerciários”. Infelizmente nos registros civis de
nascimento e de óbito não é possível diferenciar entre proprietários de estabelecimentos,
“guarda-livros” e empregados. Porém, de acordo com os gráficos apresentados, os brancos ao
longo de todos os anos pesquisados dominaram o ofício. A presença de pardos é ínfima,
enquanto para pretos, segundo os registros de nascimento, ela era nula.
Esse controle dos brancos comerciários também poderia estar ligado a nacionalidade.
Dentre todos os brancos registrados e residentes na Baixada Fluminense, os imigrantes
comerciantes eram 36% enquanto os nacionais 64%. Ao contrário de outras regiões do país,
209
como por exemplo, o interior de São Paulo, na Baixada Fluminense não houve
concentração desse setor nas mãos de imigrantes. Pouco se sabe, até os dias de hoje, do
processo de imigração para a Baixada Fluminense, apenas aqui gostaria de presumir que ela
deve ter sido bem inferior a ocorrida em outros estados do país.
Concluindo. Em primeiro lugar, percebe-se claramente que durante o período
conhecido como o auge da produção de laranjas todas as três cores estiveram presentes
trabalhando nas lavouras, até o ano de 1939. Contudo, com o passar dos anos, com a
urbanização e maior necessidade de serviços, todas as cores começaram a migrar para outras
atividades, pretos e pardos para a vida de jornaleiros e brancos para o comércio. Nessa
pesquisa gostaria de apontar que ambas as profissões auxiliaram na mobilidade social dos
grupos. Enquanto na categoria de jornaleiro, estavam às pessoas que tinham uma vida mais
regular, mesmo os que sobreviviam do “jornal” (diária), elas tinham uma maior
independência em relação aos seus patrões, do que aqueles que ainda estavam na agricultura.

209
MONSMA, K. op. cit. 2010.
129

Para os brancos a estratégia de ascensão social foi a dedicação ao comércio. Ou seja, há uma
divisão bem nítida de projetos de vida.
Esse comportamento fica ainda mais claro quando visualizo os locais de trabalho das
mulheres. Para as pessoas registradas como brancas e pretas ou mães de crianças dessa cor,
quando da abertura do cartório o trabalho na lavoura imperou. As pardas, após a abolição,
muitas estavam divididas entre o oficio na lavoura e em casa. Já no ofício delimitado como
“domésticas”, para a as brancas a partir de 1914 quase todas estão nesse oficio, enquanto para
pardas e pretas ainda há uma pequena divisão até 1929. Após essa última data todas as
mulheres parecem se dedicar ao lar.
O trabalho de doméstica apesar de aparentar ser mais simples de classificar ele
esconde uma dubiedade, ao mesmo tempo em que se assume o trabalho em casa cuidando dos
filhos, também é possível registrá-lo como emprego em casa de outras famílias. Mas indica
também saída da lavoura, o que sugere ascensão social, uma vez que o trabalha no campo
sempre é mais pesado do que o doméstico. Desse modo, parece que a partir de 1914 houve
por parte de todos os grupos uma maior preocupação em tirar a mulher do trabalho na lavoura,
colocando-a sob a proteção de um teto familiar, ou o seu, ou de outra pessoa.

Gráfico 3.33 - Profissão da mãe (%) de crianças brancas nos registros civis de
Nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939.
100
90
80
70
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50
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1889 1894 1899 1904 1909 1914 1919 1924 1929 1934 1939

Agricultura ou Manufatura Rural % Comércio %


Doméstica % Jornaleiros %
Magistratura % Profissões Liberais %
Rentistas % Serviço Público %
Transportes %
Fonte: Registros Civis de Nascimento do 1º Ofício de Registro de Pessoas Naturais do Município de Nova
Iguaçu: 1889, 1894, 1899, 1904, 1909, 1914, 1919, 1924, 1929, 1934 e 1939.
130

Gráfico 3.34 - Profissão dos falecidos do sexo feminino (%) de brancos e


ano nos registros civis de óbito. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939.
100
90
80
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60
50
40
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1889 1894 1899 1904 1909 1914 1919 1924 1929 1934 1939

Artesanato % Doméstica % Jornaleiros % Profissões Liberais %

Fonte: Registros Civis de óbito do 1º Ofício de Registro de Pessoas Naturais do Município de Nova
Iguaçu: 1889, 1894, 1899, 1904, 1909, 1914, 1919, 1924, 1929, 1934 e 1939.

Gráfico 3.35 - Profissão da mãe (%) de crianças pardas nos registros civis de
Nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939.

100
90
80
70
60
50
40
30
20
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0
1889 1894 1899 1904 1909 1914 1919 1924 1929 1934 1939

Agricultura ou Manufatura Rural % Doméstica % Jornaleiros %

Fonte: Registros Civis de Nascimento do 1º Ofício de Registro de Pessoas Naturais do Município de Nova
Iguaçu: 1889, 1894, 1899, 1904, 1909, 1914, 1919, 1924, 1929, 1934 e 1939.
131

Gráfico 3.36 - Profissão dos falecidos do sexo feminino (%) de pardos por ano nos
registros civis de óbito. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939.
100
90
80
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1889 1894 1899 1904 1909 1914 1919 1924 1929 1934 1939

Agricultura ou Manufatura Rural % Artesanato % Doméstica % Jornaleiros %

Fonte: Registros Civis de Nascimento do 1º Ofício de Registro de Pessoas Naturais do Município de Nova
Iguaçu: 1889, 1894, 1899, 1904, 1909, 1914, 1919, 1924, 1929, 1934 e 1939.

Gráfico 3.37 - Profissão da mãe (%) de crianças pretas nos registros civis de
Nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939.
100
90
80
70
60
50
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30
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1889 1894 1899 1904 1909 1914 1919 1924 1929 1934 1939

Agricultura ou Manufatura Rural % Doméstica %

Fonte: Registros Civis de Nascimento do 1º Ofício de Registro de Pessoas Naturais do Município de Nova
Iguaçu: 1889, 1894, 1899, 1904, 1909, 1914, 1919, 1924, 1929, 1934 e 1939.
132

Gráfico 3.38 - Profissão dos falecidos do sexo feminino (%) de pretos por ano
nos registros civis de óbito. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939.
100
90
80
70
60
50
40
30
20
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0
1889 1894 1899 1904 1909 1914 1919 1924 1929 1934 1939

Agricultura ou Manufatura Rural % Corpo Militar % Doméstica % Serviços em geral %

Fonte: Registros Civis de óbitos do 1º Ofício de Registro de Pessoas Naturais do Município de Nova
Iguaçu: 1889, 1894, 1899, 1904, 1909, 1914, 1919, 1924, 1929, 1934 e 1939.

Se para pretos e pardos, egressos do cativeiro ou apenas descendentes desse grupo, o


projeto de vida era ter maior autonomia de trabalho, retirar a mulher do eito e adquirir a
pequena propriedade, 210 eles foram bem sucedidos na Baixada Fluminense. Contudo, ainda
existem outros itens necessários para a compreensão de sua mobilidade social e sua melhora
na condição de vida.
O acesso a educação é outro importante meio para verificação da mobilidade social. O
gráfico 3.39 foi construído a partir da presença da assinatura dos pais no registro civil de seus
filhos, ou se declararam “não sabiam ler nem escrever”. Dentre todas as cores, os brancos são
os que apresentam menor percentual de analfabetos. Os pardos são os que se mantém quase
média. E, percentualmente por ano os pretos são os que menos sabem ler e escrever nos
primeiros anos de abertura do cartório, tanto que em 1899 estavam nessa condição todos os
pais de crianças registradas como pretas. O dado interessante a ser retirado é que após o ano
de 1924 a quantidade de pais iletrados pardos e pretos diminui significativamente.
Infelizmente não possuo os dados posteriores a 1939 para saber se esse processo continuou.

210
Estes projetos de vida dos libertos foram densamente discutidos e apresentados por diversos historiadores,
como: DRESCHER, Seymour The Meaning of freedom economics, politics, and culture after slavery
Pittsburgh: University of Pittsburgh Press, c1992; HOLT, Thomas. The Problem of Freedom: Race, Labor,
and Politics in Jamaica and Britain, 1832-1938. Baltimore and London: Johns Hopkins University Press,
1992; SCOTT, R. Degrees of Freedom: Louisiana and Cuba After Slavery. Cambridge: The Belknap Press of
Harvard University Press, 2005; RIOS, A. e MATTOS, op. cit., 2005; CHALHOUB, Sidney. Visões da
Liberdade: uma história das últimas décadas da escravidão na corte. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
Entre outros.
133

Desses gráficos é possível inferir, ainda, que mesmo que a educação não tenha alcançado a
todos na Baixada Fluminense, ainda assim havia um bom percentual de pessoas que sabiam
ler e escrever entre todas as cores.

Gráfico 3.39 - Pais analfabetos (%) por cor e ano nos registros civis de
nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939.
100
90
80
70
60
Brancos %
50
Pardos %
40
Pretos %
30
20
10
0
1889 1894 1899 1904 1909 1914 1919 1924 1929 1934 1939

Fonte: Registros Civis de Nascimento do 1º Ofício de Registro de Pessoas Naturais do Município de Nova
Iguaçu: 1889, 1894, 1899, 1904, 1909, 1914, 1919, 1924, 1929, 1934 e 1939.

Desde o período anterior a abolição as escolas públicas já haviam se instalado na


Baixada Fluminense. E através dela muitos moradores da região puderam se educar, no
período da escravidão e posterior a ela.211 Apesar da significativa presença de escolas na
região Bezerra aponta que não havia qualquer direcionada exclusivamente para os pretos e
pardos da região. 212 Além disso, nenhuma pesquisa havia sido desenvolvida até então para
avaliar a presença deles nas escolas.213 Para o autor, a percepção das crianças pretas e pardas
nas escola só ocorreu quando visualizou fotos publicadas no número 12 da revista Pilares da

211
DIAS, Amália. Entre laranjas e letras: processos de escolarização no Distrito-Sede de Nova Iguaçu
(1916-1950). Tese de Doutorado em Educação. Universidade Federal Fluminense, 2012.
212
Os nomes das diversas escolas podem ser visualizadas em BEZERRA, N. A Cor da Baixada: Escravidão,
Liberdade e Pós-abolição no Recôncavo da Guanabara. Ed.: APPH-CLIO e INEPAC, Duque de Caxias,
2012, p. 176 e DIAS, Amália, op. cit. 2012, p. 93-100.
213
BEZERRA, N. op. cit., 2012, p. 176.
134

História, e lá pôde constatar que havia “fotografias com a presença majoritária de alunos e
pais de cor.”214 Ou seja, havia a possibilidade de pretos e pardos terem acesso a Educação.

Acesso a saúde, moradia e qualidade de vida.


Outro fator de peso como símbolo de melhora de qualidade de vida é o acesso a saúde.
A qualidade de vida dos moradores da Baixada Fluminense variou bastante ao longo dos
primeiros anos da recém inaugurada República. Do fim do século XIX aos anos 40 houve
uma diversificação das nomenclaturas das doenças e dos diagnósticos encontrados nos
registros de óbitos da Baixada Fluminense. De tal forma a tabela cresceu que se optou por
colocá-las em gráficos para uma melhor visualização.
Dentre as maiores causas de enfermidades na região pode-se apontar, em primeiro
lugar, as infecto-contagiosas, tais como: Tuberculose, Tísica, Bronquite, Febres (palustre e
perniciosa) e Pneumonia; por conseguinte com muitas mortes de recém-nascidos. E por
último, as doenças ligadas à falta de estrutura de vida e de saneamento básico adequado,
como: a nutrição e gastro-enterite. Um olhar mais atento mostra claramente que nenhuma
dessas doenças atingiu uma única cor. Muito pelo contrário, todos sofreram dos mesmos
males, até a década de 1940, sem distinção.
Os gráficos 3.40, 3.41 e 3.42 foram construídos a partir dos registros civis de óbitos
por ano e por cor, e um das informações que mais chamam a atenção, quando analisados, é a
mortalidade infantil. As crianças registradas como brancas e pardas aparentemente foram as
que mais sofreram com a falta de assistência médica na hora do parto, no início dos registros
cartoriais. Quando analisados percentualmente percebe-se que boa parte das crianças brancas
e pardas não conseguiram completar sequer 1 ano de idade. Já as falecidas e registradas como
pretas, tanto em números absolutos, quanto percentualmente, nessa faixa etária, tiveram
índices de mortalidade muito inferiores em relação as outras cores.
Para as crianças pretas e pardas o pico do percentual de crianças nascidas mortas foi o
ano de 1894. Verdade que se comparados ao ano de 1890, fica claro que, entre 1889 e 1904
houve uma melhora significativa na qualidade de vida de todas as crianças registradas como
pretas e pardas. Com o passar dos anos os índices de mortalidade dos brancos mantiveram-se
os mesmos, enquanto os dos pardos melhoraram um pouco. Contudo a mudança para todos
ocorre em 1914, quando novamente a quantidade de natimortos aumenta para todas as cores.

214
BEZERRA, N. op. cit., 2012, p. 177
135

Esse deve ser um dos motivos, aliado a emigração, pelo qual o censo de 1890 apontou um
crescimento demográfico bem baixo em relação ao ano de 1872.

Gráfico 3.40 - Causas mortis (%) de brancos por ano nos registros de óbito. Município
de Nova Iguaçu, 1889-1939.
100
90
80
70
60
50
40
30
20
10
0
1889 1894 1899 1904 1909 1914 1919 1924 1929 1934 1939

Cancerígina % Cardio-Circulatório % Digestiva % Genito-Urinário %


Infecto-Contagiosa % Natimorto % Natural % Nutrição %
Respiratória % Sistema Nervoso % Traumas %
Fonte: Registros Civis de óbito do 1º Ofício de Registro de Pessoas Naturais do Município de Nova
Iguaçu: 1889, 1894, 1899, 1904, 1909, 1914, 1919, 1924, 1929, 1934 e 1939.

Gráfico 3.41 - Causas mortis (%) de pardos por ano nos registros de óbito.
Município de Nova Iguaçu, 1889-1939.
100
90
80
70
60
50
40
30
20
10
0
1889 1894 1899 1904 1909 1914 1919 1924 1929 1934 1939

Cancerígina % Cardio-Circulatório % Digestiva % Genito-Urinário %


Infecto-Contagiosa % Natimorto % Natural % Nutrição %
Respiratória % Sistema Nervoso % Traumas %
136

Fonte: Registros Civis de óbito do 1º Ofício de Registro de Pessoas Naturais do Município de Nova
Iguaçu: 1889, 1894, 1899, 1904, 1909, 1914, 1919, 1924, 1929, 1934 e 1939.

Gráfico 3.42 - Causas mortis (%) de pretos por ano nos registros de óbito. Município
de Nova Iguaçu, 1889-1939.

100
90
80
70
60
50
40
30
20
10
0
1889 1894 1899 1904 1909 1914 1919 1924 1929 1934 1939

Cancerígina % Cardio-Circulatório % Digestiva % Genito-Urinário %


Infecto-Contagiosa % Natimorto % Natural % Nutrição %
Respiratória % Sistema Nervoso % Traumas %
Fonte: Registros Civis de óbito do 1º Ofício de Registro de Pessoas Naturais do Município de Nova
Iguaçu: 1889, 1894, 1899, 1904, 1909, 1914, 1919, 1924, 1929, 1934 e 1939.

Para além do falecimento de recém nascidos, nada parece ter matado mais na Baixada
Fluminense do que as doenças infecto-contagiosas. Como já apontado no primeiro capítulo,
até o ano de 1916 o antigo município de Iguassú tinha sua sede em Vila de Cava, e no seu
entorno havia muitas áreas alagadiças propicias à propagação de doenças. Desde que assumiu
o governo da Província do Estado do Rio de Janeiro, em 1903, até o seu mandato como
Presidente, em 1909, Nilo Peçanha atuou fortemente para tentar amenizar esses problemas na
Baixada Fluminense. Um dos principais resultados pode ser observado nos gráficos
anteriores. Para brancos, pardos e pretos o auge da infestação de diversas doenças ocorreu
entre 1899 e 1904, e as ações do então Governador parecem ter surtido efeito, não é a toa que
para brancos e pardos o decréscimo de falecimentos devido a essa causa foi significativo.
Contudo, como os mesmo gráficos demonstram, os problemas não foram sanados de vez,
apenas controlado nesse curto período até 1914. E somente para os pretos as ações de
137

saneamento básico não foram tão efetivas, pois após esse período a mortalidade por conta das
doenças infecto-contagiosas não diminuíram de 50%
A condição de indigente também é um fator a ser levado em conta na hora da análise
da qualidade de vida. Entre todos os registros a referência à cor é baixíssima, tanto que foram
enterradas apenas duas pessoas da cor preta, a saber: Joaquim Moraes da Conceição, falecido
aos 21 anos de tísica, na cidade de Nova Iguaçu;215 e Antonio Baptista, aos 55 anos, solteiro,
de profissão jornaleiro, faleceu de Hepatite Cronica, dentro da cadeia de Nova Iguaçu.216 No
ano seguinte, 1894, foram enterrados 1 branco e 7 não-brancos. E em 1899 foram um branco
para 4 não-brancos. Contudo, a substancial mudança na qualidade de vida aparentemente
ocorreu após esse período. Nos anos compreendidos entre 1894 e 1904, apenas uma pessoa
foi enterrada, por ano, na condição de indigente, entre os não-brancos. Em nenhum dos casos
de pretos e pardos sepultados, dessa maneira, houve qualquer referência a uma condição de
ex-cativo ou mesmo de ascendência ligada à escravidão.
Nem sempre ser enterrado, nessa condição de indigente, caracterizava-se por uma
ausência de estrutura familiar ampliada. Dentre os cinco casos onde o nome da mãe é citado,
3 são de crianças que não completaram 2 anos, enquanto os outros dois casos são de não-
brancos. O primeiro é de Lino José Soares, de cor parda, que faleceu com 42 anos, na
localidade denominada São Bento, atual Município de Duque de Caxias, no ano de 1909, de
Béri-Beri. Era casado e foi declarado como sendo filho “legítimo” de Marcelino José Soares e
de Joaquina de Amas Divino.217 Já o segundo é de Joaquina Moraes da Conceição, lavradora,
de cor preta, de idade 21 anos, e moradora da região de Maxambomba. Era solteira e filha
natural de Maria Joaquina. Tinha dois filhos, Maria de 3 anos e Anthonio de 2. Faleceu de
Tísica e foi enterrada no Cemitério Público da Cidade.218
Outro dado importante de indício de qualidade de vida e, possivelmente, a ascensão
social, é a idade média ao morrer, por ano e por cor. No gráfico 3.43 nota-se claramente que
em vários momentos os não-brancos possuem uma idade média acima dos brancos, com
destaque para os pretos. Esses, então, têm idades superiores em dois momentos, entre 1899 e
1909, e surpreendentemente entre 1919 e 1939. Não foi difícil encontrar pessoas sendo
registradas como pardas e pretas com mais de 80 anos. Esse foi o caso de Dona Emiliama
215
RCO Livro 1, reg. 145 de 1889.
216
RCO Livro 2, reg. 373 de 1889.
217
RCO Livro 6, reg. 300, ano de 1909.
218
RCO Livro 1, reg. 145, ano de 1889.
138

Maria do Espírito Santo, de cor preta e moradora do interior do Município de Nova Iguaçu.
Ela veio a falecer com 84 anos no ano de 1909, não tinha filhos e nem era casada. Foi
sepultada no Cemitério de São Bento, atual Município de Duque de Caxias, por conta de uma
Febre.219 Em 1919 também foi possível encontrar pessoas registradas como pretas. Carolina
Maria Clara faleceu aos 90 anos, na localidade denominada Andrade Araujo, atual Município
de Belford Roxo. Era natural de Nova Iguaçu, solteira e de profissão Doméstica.220 No mesmo
ano também faleceu Angelo dos Santos, nascido em Morro Agudo, interior desse Município,
faleceu com 80 anos presumíveis, era lavrador e não possuía filhos. Foi enterrado no
Cemitério Público, no centro do Município de Nova Iguaçu.221 Em todos os casos analisados
no período compreendido entre 1889 e 1939, nos óbitos não existem qualquer referencias que
possam ligar essas pessoas a uma experiência no cativeiro.
Mesmo quando se calcula todo o período, as idades médias de morte continuam a ser
superiores para pretos. Existe o seguinte panorama, brancos 19,5, pardos 18,2 anos e pretos
22,8 anos. Ou seja, ou na Baixada Fluminense os pretos viveram muito mais tempo do que os
brancos e pardos, entre 1889 e 1939 ou essa população era mais velha, em média, fazendo
com que a idade média ao morrer aumentasse, devido ao pequeno número de crianças
nascidas.
Efetivamente, ainda não consegui identificar o porquê desse fenômeno. Uma das
possibilidades que posso levantar é a rápida inserção social dos ex-escravos ainda no período
anterior a abolição, uma vez que a quantidade de escravos, como demonstrado nos primeiros
capítulos, era ínfima. Aliado a isso, a decadência econômica da produção de cana de açúcar e
do café, no último quartel do século XIX na Baixada Fluminense, pode ter acelerado as
alforrias elevando-as a altas taxas. Porém só um estudo sistemático das alforrias desse
período, ainda não realizado por ninguém, poderia auxiliar o meu argumento.

219
RCO Livro 6, reg. 235 de 1909.
220
RCO Livro 11, reg. 293 de 1919.
221
RCO livro 11, reg. 130, ano de 1919.
139

Gráfico 3.43 - Idade média de morte por ano nos registros civis de óbito.
Município de Nova Iguaçu, 1889-1939.
80

70

60

50

40

30

20

10

0
1889 1894 1899 1904 1909 1914 1919 1924 1929 1934 1939

Brancos Pardos Pretos

Fonte: Registros Civis de óbito do 1º Ofício de Registro de Pessoas Naturais do Município de Nova
Iguaçu: 1889, 1894, 1899, 1904, 1909, 1914, 1919, 1924, 1929, 1934 e 1939.

Mesmo a idade média de morte sendo maior, de todos os mortos do período os não-
brancos morreram muito mais. Para se ter uma noção, dos 2940 registros que apresentam a
cor do falecido, 38,1% são de brancos, enquanto 61,8% são de não-brancos. Provavelmente,
esse fato pode estar ligado ao maior e melhor acesso a assistência médica por parte dos
primeiros. O hospital do Município somente foi inaugurado em 1935, durante a gestão
Vargas. Logo, qualquer ajuda pontual de pequenos casos ficava a cargo de boticários e
médicos locais, que se encontravam, na maior parte das vezes, na sede da cidade, recém
denominada de Nova Iguaçu. Até essa data, o Hospital mais próximo ficava na Capital
Federal. Essa distância por vezes foi inimiga dos enfermos mais graves, como ocorreu a Mara
Ignacia da Conceição de 85 anos, de cor preta e residente em Iguassú. Em 1909 estava a
“caminho da Santa Casa de Misericórdia da Capital Federal”, mas veio a falecer durante o
trajeto.222 Logo, a proximidade com a nova sede interveio no acesso à melhor condição de
saúde, que mesmo precária, era de pronto atendimento.

222
RCO Livro 6, reg. 296, ano de 1909.
140

Entre os anos de 1889 a 1939 a população do Município de Nova Iguaçu tendeu a se


concentrar em algumas regiões específicas. A partir dos gráficos 3.44 a 3.49, cabe destacar,
em primeiro lugar, o grande deslocamento populacional ocorrido após 1914. Brancos, pardos
e pretos parecem ter abandonado a antiga sede do município que se localizava no atual
interior. Historiadores locais e acadêmicos já haviam apontado para uma mudança
demográfica após a virada do século XIX para o XX na Baixada Fluminense.223 O declínio
econômico da antiga sede, gerada principalmente pela crise do café e do ressecamento dos
rios que serviam para escoamento da produção do interior do país, assim como várias
epidemias seguidas de “cóleras morbus”, motivaram a saída da antiga Vila de Iguassú. A
região de Maxambomba, nesse mesmo período, se apresentava como um novo eixo
econômico regional, em virtude tanto da construção da Estrada de Ferro Dom Pedro II, quanto
das novas plantações de laranja que já despontavam no mercado nacional. Em 1916 a região
foi elevada a sede do Município, denominando-se “Nova Iguaçu”. Contudo, nenhum dos
pesquisadores, até a presente pesquisa, havia acompanhado por cor e visualizado em números
a movimentação populacional no interior do Município de Nova Iguaçu. Esta pesquisa pode
ajudar a historiadores futuros da região a compreender a composição social de cada atual
município emancipado a partir desses gráficos.
Para a atual pesquisa o que importa nesse momento é visualizar a proximidade a sede,
uma vez que os médicos, boticários e farmacêuticos ali estavam concentrados, ou seja, quanto
mais próximo a cidade, melhor é o acesso a saúde e a condição de vida. A partir de 1914 - o
período de grande mudança - brancos, pardos e pretos abandonaram o interior do município e
se espalharam por diversas regiões. Durante a década de 1920 houve certa estabilidade e
brancos e pardos conseguiram sobreviver na sede do município.
A segunda mudança na vida de todos foi a década de 1930. Com a chegada maciça de
trabalhadores de diversas regiões do país e com a provável valorização tanto dos aluguéis
quanto das propriedades, agora direcionadas para a produção de laranja, poucos conseguiram
se manter na sede. Somente os brancos ali conseguiram permanecer. Parte significativa dos
pardos retornou para o interior do município, onde as propriedades deveriam ser mais baratas.

223
PEREIRA, Waldick. Cana, Café e Laranja: História econômica de Nova Iguaçu. Rio de Janeiro:
FGV/SEEC, 1977; BARROS, Ney Alberto Gonçalves de. Um pouco da história de Iguassu a Iguaçu. Nova
Iguaçu: Colégio Leopoldo Machado, 1993; PEREIRA, Waldick, A Mudança da Vila (História Iguaçuana).
Nova Iguaçu: Artesgráfica,1970; SOUZA, Marlúcia dos Santos. Economia e sociedade iguaçuana. Dissertação
de mestrado, Departamento de Historia da UFF. Niterói: Universidade Federal Fluminense. 2000; TORRES,
Gênesis (org.). Baixada fluminense: a construção de uma história: sociedade,economia, política. São João
de Meriti, RJ: IPAHB Ed., 2004; SOUZA, Sonali Maria Da Laranja Ao Lote: Transformações sociais em
Nova Iguaçu. Dissertação. (Mestrado em Antropologia Social) Museu Nacional, Universidade Federal do Rio
de Janeiro, Rio de Janeiro, 1992, entre outros.
141

A experiência dos registrados como pretos foi bem diferente. Mesmo após a grande
mobilidade após 1914 nunca abandonaram por completo a zona rural, ou seja o interior do
município.
Na década de 1930, é possível notar o resultado do crescimento das cidades ao
entorno do centro de produção de laranjas. Em localidades como Miguel Couto, Brejo e
Morro Agudo, os não-brancos, apesar de uma pequena maioria, ocupam o espaço de forma
equilibrada em relação à quantidade de brancos, na região. Isto é, quanto mais afastados dos
centros, maior a possibilidade de se encontrar não-brancos na região. Nos Municípios
atualmente emancipados, Belford Roxo e Duque de Caxias, os não-brancos foram a grande
maioria em relação aos brancos. Porém nenhum outro Município parece ter atraído mais
pretos do que Mesquita. Ali, em virtude da valorização das propriedades, e possivelmente por
conta da proximidade ao centro, foi o local escolhido para residirem. Apesar de distantes da
sede, esse último grupo não estava tão afastado como os residentes em Caxias e Belford
Roxo. Ou seja, pretos e pardos não conseguiram se concentrar na sede, mas mantiveram-se
espalhados em sua órbita.

Gráfico 3.44 - Região de residência de Brancos (%) por cor e ano nos
registros civis de nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939.
100

90

80
Belford Roxo %
70
Duque de Caxias %
60
Mesquita %
50 Metropolitana e Interior %
40 Nilópolis %
Nova Iguaçu (cidade) %
30
Nova Iguaçu (interior) %
20
Queimados %
10

0
18891894189919041909191419191924192919341939

Fonte: Registros Civis de Nascimento do 1º Ofício de Registro de Pessoas Naturais do Município de Nova
Iguaçu: 1889, 1894, 1899, 1904, 1909, 1914, 1919, 1924, 1929, 1934 e 1939.
142

Gráfico 3.45 - Região de residência dos Brancos (%) por ano nos registros
civis de óbito. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939.
100
90
80
70
Belford Roxo %
60
Duque de Caxias %
50
Mesquita %
40
30 Nova Iguaçu (cidade) %

20 Nova Iguaçu (interior) %


10
0
1889 1894 1899 1904 1909 1914 1919 1924 1929 1934 1939

Fonte: Registros Civis de Óbito do 1º Ofício de Registro de Pessoas Naturais do Município de Nova
Iguaçu: 1889, 1894, 1899, 1904, 1909, 1914, 1919, 1924, 1929, 1934 e 1939.

Gráfico 3.46 - Região de residência de pardos (%) por cor e ano nos registros
civis de nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939.
100
90
80
70
Belford Roxo %
60 Duque de Caxias %
50 Mesquita %
40 Nova Iguaçu (cidade) %

30 Nova Iguaçu (interior) %


São João de Meriti %
20
10
0
1889 1894 1899 1904 1909 1914 1919 1924 1929 1934 1939

Fonte: Registros Civis de Nascimento do 1º Ofício de Registro de Pessoas Naturais do Município de Nova
Iguaçu: 1889, 1894, 1899, 1904, 1909, 1914, 1919, 1924, 1929, 1934 e 1939.
143

Gráfico 3.47 - Região de residência dos Pardos (%) por ano nos registros civis
de óbito. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939.

100
90
80
70
Belford Roxo %
60
Duque de Caxias %
50
Mesquita %
40
Nova Iguaçu (cidade) %
30
20 Nova Iguaçu (interior) %
10
0
1889 1894 1899 1904 1909 1914 1919 1924 1929 1934 1939

Fonte: Registros Civis de Óbito do 1º Ofício de Registro de Pessoas Naturais do Município de Nova
Iguaçu: 1889, 1894, 1899, 1904, 1909, 1914, 1919, 1924, 1929, 1934 e 1939.

Gráfico 3.48 - Região de residência de pretos (%) por cor e ano nos registros
civis de nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939.
100
90
80
Belford Roxo %
70
Duque de Caxias %
60
Mesquita %
50
Metropolitana e Interior %
40
Nilópolis %
30
Nova Iguaçu (cidade) %
20
Nova Iguaçu (interior) %
10
0
18891894189919041909191419191924192919341939

Fonte: Registros Civis de Nascimento do 1º Ofício de Registro de Pessoas Naturais do Município de Nova
Iguaçu: 1889, 1894, 1899, 1904, 1909, 1914, 1919, 1924, 1929, 1934 e 1939.
144

Gráfico 3.49 - Região de residência dos pretos (%) por ano nos registros civis de
óbito. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939.
100
90
80
70
Belford Roxo %
60 Duque de Caxias %
50 Mesquita %
40 Nova Iguaçu (cidade) %
30 Nova Iguaçu (interior) %

20 Queimados %

10
0
1889 1894 1899 1904 1909 1914 1919 1924 1929 1934 1939

Fonte: Registros Civis de Óbito do 1º Ofício de Registro de Pessoas Naturais do Município de Nova
Iguaçu: 1889, 1894, 1899, 1904, 1909, 1914, 1919, 1924, 1929, 1934 e 1939.

Cabe destacar que nos registros de óbitos naqueles considerados brancos, estão
incluídos os imigrantes. Se comparados ao ano de 1890, estudado em capítulo anterior, a
entrada de pessoas provindas de fora do Brasil, principalmente, entre os anos de 1889 e 1919,
aumentou consideravelmente. Em 1890 apenas 1 imigrante faleceu, enquanto no período aqui
considerado, foram 69. Os portugueses eram a ampla maioria na região, com 40 falecimentos,
seguido pelos italianos, com 14. Assim como os declarados pardos, os imigrantes, apesar de
buscaram residir na sede de Nova Iguaçu, a maior parte optou pelo interior desse município.
Retornando ao argumento - quanto maior a proximidade à sede do Município, maior a
possibilidade de um melhor acesso aos aparatos de saúde, como médicos e boticários - através
desses dados foi possível observar que a nenhuma cor foi impedido o acesso de moradia à
sede. Ou seja, apesar de claramente a sede ser uma região onde os brancos eram maioria, eles
não possuíam o monopólio das residências. Logo, na sede e no município como um todo não
ocorreu qualquer tipo de processo de segregação espacial. Se até 1939 os brancos eram a
maioria dos moradores da região central da Baixada Fluminense, não há uma clara exclusão
do espaço de convivência, pois ali pardos e pretos estiveram, compondo em alguns momentos
40% da população. Se a cidade, aparentemente, era dominada pelos brancos, em contrapartida
os pardos, além de estarem na sede e no interior, se concentraram basicamente nos municípios
145

ao entorno. Ao mesmo tempo em que em localidades mais afastadas, como Duque de Caxias,
também encontraram um lugar para morar.
Entretanto, um dos dados mais interessantes se referiu aos pretos. Eles não estavam
concentrados em nenhuma parte da Baixada Fluminense, pelo contrário, se espalharam por
todas as regiões. Aparentemente, a eles não foi impedido a mobilidade e tão pouco houve
algum tipo de segregação, com a conseqüente formação de guetos e favelas. Logo, mesmo
morando distantes da sede do Município, provavelmente tinham acesso à saúde, educação,
afinal localidades como Belford Roxo, Mesquita e Duque de Caxias, apresentavam já a época
inúmeros caminhos que aceleravam inclusive o contato com o Distrito Federal.
Assim outro questionamento surge: se não houve impedimentos à mobilidade e a
escolha nos locais de moradia por que os não-brancos optaram por residir ao entorno da sede
do Município de Nova Iguaçu? Em 1890, como visto em capítulo anterior, não-brancos já
residiam em ampla maioria nessas regiões. Em Duque de Caxias, por exemplo, eles
compunham 81,84% da população, nesse ano. No período que se seguiu a abolição, 1889 a
1939, eles não foram expulsos e muito menos migraram para o Distrito Federal como
esperado; pelo contrário, permaneceram e, provavelmente, a família continuou residindo nos
locais onde os pais e os avós foram escravos. Essa permanência também só foi possível por
conta das políticas públicas, apresentadas no início do capítulo, de dessecamento de regiões
alagadiças e consequente venda de terras até então inabitadas. Além disso, muitos
proprietários abandonaram a região após a crise do café, e suas terras foram vendidas em
pequenos lotes, normalmente muito baratos.224 O projeto camponês da pequena propriedade,
aliada ao comércio de pequenos gêneros com trabalho nas grandes lavouras de laranja, parece,
em Nova Iguaçu, ter sido muito bem sucedido. Ou seja, foi possível, para pardos e pretos,
inserirem-se socialmente na região.

Mudança de Cor e Mobilidade Social


Os indícios até aqui construídos, sugerem que pretos e pardos conseguiram conquistar
o projeto camponês e mantê-los ao longo dos anos, quando não aumentavam seus ganhos
materiais. Ou seja, em uma região onde a produção de laranja em larga escala não estava
totalmente direcionada para exportação, e muito menos se utilizava grandes propriedades, a

224
ROCHA, Jorge Luís De quando dar os Anéis – A estrutura fundiária da Baixada Fluminense e suas
transformações. Hidra de Iguassú, nº3, Abril/Maio/Junho de 2000, p. 30.
146

pretos e pardos, com histórico de passagem pela escravidão ou não, foi possível permanecer
na Baixada Fluminense. Ainda pouco se sabe sob que condições, se conseguiram comprar
terras, quais as possibilidades de trabalho, os espaços de enriquecimento e sobrevivência.
Somente um estudo mais apurado com outras fontes pode complementar essa análise.
Esse processo de permanência de ex-cativos e seus descendentes nas regiões onde
eram escravos não foi exclusividade da Baixada Fluminense. Em outras regiões como Cuba,
Jamaica e Sul dos Estados Unidos ocorreu processo semelhante.225 Assim como também em
várias regiões do Brasil, como Bahia, Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro (Norte
Fluminense e Vale do Paraíba).226 Ou seja, com mais esse capítulo nota-se claramente que a
experiência do liberto e/ou de pretos e pardos que não vivenciaram a escravidão não foi a de
movimentação em massa, nos anos seguintes, para os grandes centros. Pelo contrário,
estabilizaram-se nas regiões de onde eram originários, com a possibilidade de ascenderem
socialmente.227
Somado a essa permanência, aparentemente houve um incremento material na vida de
pretos e pardos, tanto que conseguiram se inserir socialmente também na vida política. A
dispersão pela região após a década de 1930 pode explicar a inexistência de grandes
comunidades negras, a exemplo de regiões como o Vale do Paraíba, Norte Fluminense e
Litoral Sul do Estado. Se brancos, pardos e pretos conviveram lado a lado, ali estava aberta a
possibilidade de inserção social através de candidaturas a vereador. No ano de 1917 foram
eleitos três afro-descendentes para a Câmara de Vereadores de Nova Iguaçu, são eles: Gaspar
José Soares, Izaac Manoel da Câmara, e Peregrino Esteves de Azevedo. O primeiro, de
acordo com os registros civis de óbitos, em várias ocasiões se apresentou como declarante,
tendo como local de profissão a Sub-delegacia de Polícia, com a patente de Tenente.228 Ele

225
FONER, Eric. “O Significado da Liberdade”. In: Revista Brasileira de História. 8, 1988, HOLT, Thomas.
The Problem of Freedom: Race, Labor, and Politics in Jamaica and Britain, 1832-1938. Baltimore and
London: Johns Hopkins University Press, 1992 e Emancipação Escrava em Cuba: a transição para o
trabalho livre, 1860-1889. Rio de Janeiro: Paz e Terra; Campinas, SP: Editora da Universidade Estadual de
Campinas, 1991.
226
Entre os autores nacionais destacam-se: ALBUQUERQUE, Wlamyra. O jogo da dissimulação. Abolição e
cidadania negra no Brasil. São Paulo, Cia das Letras, 2009, FRAGA FILHO. Encruzilhadas da Liberdade:
histórias de escravos e libertos na Bahia (1870-1910). 1. ed. São Paulo: Editora da UNICAMP, 2006,
MACHADO, Maria Helena. O Plano e o Pânico. Os movimentos sociais na década da abolição. Rio de
Janeiro. EDUFRJ, 1994, MATTOS, Hebe Maria. Das Cores do Silêncio. Significados da liberdade no Brasil
escravista. Rio de Janeiro, Arquivo Nacional, 1995/ Nova Fronteira, 1997, RIOS, Ana L. e MATTOS, Hebe.
Memórias do Cativeiro. Família, Trabalho e Cidadania no Pós-Abolição. Rio de Janeiro, Civilização
Brasileira, 2005.
227
Sobre a problemática da migração e estabilização ver capítulo seguinte.
228
RCO livro 4, reg. 208, ano de 1899 e RCPNO livro 4, reg. 213 ano de 1899.
147

exerceu cinco mandatos consecutivos. O segundo também foi Vereador por cinco vezes
seguidas até 1929. E por fim, Izaac Câmara completou quatro mandatos e nas eleições de
1919 e 1924 se apresentava como Major.229
Não só o mundo da política estava aberto às possibilidades de ascensão. Aliado aos
exemplos anteriores, outra figura não-branca também se destacou na região: Silvino de
Azevedo, fundador do Correio da Lavoura, em 1917. O jornal tem uma circulação semanal e
funciona até os dias de hoje, tornando-se o semanário em atividade mais antigo do Rio de
Janeiro.230 Porém, até o presente momento pouco se sabe sobre as trajetórias dessas
personalidade,s e as pesquisas sobre suas biografias ainda são incipientes. Mas a plena
inserção social, pelo menos até a década de 1920 foi uma realidade para eles em Nova Iguaçu.
A ascensão de pretos e pardos na região também pode ter provocado outro fenômeno,
a mudança de cor. Cabe lembrar que Roberto Guedes já fez uma ampla discussão sobre a
relação entre a mudança de cor e mobilidade social. Uma de suas principais preocupações era
a de que normalmente pesquisadores que se debruçavam sobre esse processo estavam quase
sempre preocupados na mudança para cima, e pouco se preocupavam sobre o que poderia
provocar a mudança de cor.231 Ou seja, todas as mudanças de cor devem ser analisadas,
independente da ascensão social ou não. Além disso, outra preocupação estava concernente, a
mudança era fluída e dependia das circunstâncias sociais sendo por vezes “reatualizadas,
negociadas”.232 Isto significa dizer que nenhuma cor era definitiva para o individuo presente
no registro.
Se o pesquisador citado anteriormente se debruçava sobre as listas nominativas, uma
fonte colonial que auxilia os pesquisadores, permitindo encontrá-la em diferentes situações ao
longo dos anos, eu me debrucei sobre os registros civis. Ao contrário da fonte anterior nem
sempre em todos os anos pesquisados era possível encontrar as mesmas pessoas, afinal nem
todos tinham filhos de 5 em 5 anos. Contudo, encontrei pelo menos duas referências do
mesmo nome do pai registrando seus filhos, ao ano, ao longo dos anos de 1889 a 1939.

229
NOVA IGUAÇU, Memória da Câmara Municipal de Nova Iguaçu, 2000.
230
NASCIMENTO, Á. P. e SILVA, Maria Lúcia Bezerra da. Um mulato na imprensa da Baixada
Fluminense: possibilidades de ascensão no pós abolição. 2011.
231
GUEDES, R. Egressos do Cativeiro: Trabalho, Família, Aliança e Mobilidades Social. (Porto Feliz, São
Paulo, c.1798-c.1850) Rio de Janeiro, Ed.: Mauad X: FAPERJ, 2008, p. 94.
232
GUEDES, R. op. cit. 2008, p.102.
148

Uma das maiores preocupações era a de decifrar quem atribuía a cor ao recém nascido.
Não há qualquer dado que informe de quem era retirada a cor da criança, uma vez que nem
sempre a criança era levada ao cartório, pois cabe lembrar que era necessária a presença de
duas testemunhas do nascimento para se fazer o registro. Também não posso supor que todo
cartorário era extremamente autoritário ao ponto de assinalar o que bem desejasse. E no caso
da presença de declarantes que não conheciam a família? Quem lhe dizia qual era cor do
recém-nascido?
Afinal a presença ou ausência do familiar na hora do registro poderia influenciar na
mudança de cor? Para algumas das crianças registradas o parentesco do declarante tinha
função primordial na mudança da cor. Antonio Rodrigues da Silva e Etelvina Soares da Silva
aparecem duas vezes como pais. A sua primeira filha nasceu em 1924 enquanto a segunda em
1929 Em ambos os casos tanto o avô materno, Mario Antonio Soares, como outra pessoa não
reconhecida declaram as crianças como sendo da cor parda. Contudo, a filha que nasceu em
1929, registrada pelo mesmo avô, foi registrada como branca.233
Outro caso também foi o de José Bonifácio, casado com Maria de Cesário Oliveira. O
primeiro filho nasce em 1894, registrado como branca pelo avô materno. O segundo filho
nasce em 1918, no entanto somente é registrado em 1939, provavelmente por conta da morte
do marido, como atesta a mãe no papel de declarante, no qual sua filha de 21 anos de idade,
tinha a cor parda.234
A presença do pai como declarante também pode ter influenciado o cartorário na hora
do registro da cor da criança. No ano de 1919 quando Eduardo nasceu, era filho de Aristides
Lopes e Felícia da Conceição, o pai não declarou o nascimento, sendo registrado por uma
pessoa a qual não pude fazer relação de parentesco, da cor preta. Quando seu pai foi registrar
o nascimento de seu irmão José Lopes, em 1929, declarou ser este de cor parda.235 Do mesmo
modo, Luiz de Paulo Mascarenhas, casado com Geralda Maria da Conceição vai ao cartório
no papel de declarante, em 1899, registrar sua filha Gabriela, da cor branca. No nascimento da
segunda filha, Nair, em 1904, não pôde estar presente, e foi registrada por Fernando José de
Oliveira, como sendo da cor parda.236 E isso não acontecia apenas com brasileiros, imigrantes
também passaram pela mesma experiência. Marcílio Dias, imigrante português, era casado
233
RCN livro 35, reg. 475, de 1929; Livro 19 reg. 80 ano 1919 e Livro 25, reg. 446 de 1924.
234
RCN Livro 4 , reg. 116, ano 1894 e Livro 59, reg. 14332 de 1939.
235
RCN Livro 19, reg. 160 ano 1919 e Livro 35, reg. 379, ano 1929.
236
RCN Livro 7, reg. 31 ano de 1899 e Livro 9 reg. 238, ano de 1904.
149

com Olivia Gaspar Dutra, e no registro do primeiro filho pediu a Arthur de Oliveira Braga
para que registrasse sua filha Elisabeth. O declarante, sem possuir qualquer laço de
parentesco, registrou a descendente de um imigrante, em 1919, como parda. Já no segundo
filho Marcílio fez questão de que a cor de Marcos, nascido dez anos depois, fosse assentada
como branca. 237
Porém, nem sempre era o pai ou o parente que enaltecia o embranquecimento da
criança. Feliz Dias teve quatro filhos com Paula: em 1929, 1931, 1934 e 1939. A primeira
criança foi registrada pessoalmente por ele, sendo registrada como preta. Por conta de sua
morte todas as outras crianças foram registras em 1939. Daniel Dias, nascido em 1931, e
Joaquina Dias nascida, em 1934, foram registradas pela mãe, também com a cor preta.
Contudo quando provavelmente o amigo da família Theophilo Moura, comerciário, registrou
a última criança, nascida em 1939, indicou a cor parda.238
Após a análise desses registros não é possível afirmar que a proximidade familiar na
hora do registro interfira diretamente na cor da criança a ser registrado. Então será que o
estado civil dos pais e a conseqüente legitimidade da criança influenciam? Silvino Francisco
Martins teve três filhos com três mulheres distintas. A primeira nasceu em 1924, com Joana
da Rosa, ambos a época eram solteiros, e a criança foi registrada como parda. No dia 24 de
setembro de 1934 Silvino compareceu o cartório e registrou Maria Martins, nascida no
mesmo ano. Já a terceira filha, Marina Francisco Martins nasceu no dia 2 de julho de 1924, e
o seu pai compareceu ao cartório no dia 26 de dezembro de 1934 quando ela tinha 10 anos.
Ambas foram registradas da cor branca. Nesses dois registros o pai se apresentou como
casado ao cartório.239 Porém, as vezes o estado civil não interferia na mudança de cor, mesmo
os pais sendo reconhecidos como casados, a criança também podia mudar de cor. Octavio
Machado era casado com Maria das Dores Penna, e tiveram quatro filhos. Eles nasceram nos
anos de 1934, 1935, 1937 e 1939. Todos foram registrados como pardos, com exceção do
último, João machado, que foi registrado da cor preta.240 Ou seja, o estado civil de casado ou
de solteiro também não condicionava a mudança de cor.

237
RCN Livro 19, reg. 44 ano de 1919 e Livro 34, reg. 22, ano de 1929.
238
RCN. Livro 34, reg. 45 ano de 1929; Livro 59, reg. 14889 de 1939; Livro 60, reg. 14972 e reg. 14973 de
1939.
239
RCN Livro 24 reg. 142, ano de 1924; Livro 49, reg. 6355 de 1934; Livro 50, reg. 6651 de 1934.
240
RCN Livro 50, reg. 6507 ano 1934; Livro 60, reg. 14794 ano de 1939; Livro 61 reg. 15661 e 15662 ano de
1939.
150

Em boa parte dos casos como o de Augusto Pereira, que registrou dois filhos, em 1919
e 1924, a mudança de cor ocorreu por conta da troca de trabalho, pois ao longo dos anos
passou de lavrador para pedreiro. E mesmo aprendendo a ler, como informa no registro,
continuou sendo registrado como preto.241 Mas ao mesmo tempo havia casos nos quais a cor
mudava em outra direção. Anselmo Costa registra três crianças nos anos de 1924, 1929 e
1934. No primeiro ele se apresenta como jornaleiro, e sua filha Maria Rodrigues da cor
branca. Já nos registros seguintes, ele assumiu o posto de empregado público e, mesmo com a
aparente ascensão social suas duas filhas são registradas como pardas.242
Aparentemente os únicos registros dos quais consegui localizar a mudança de cor, por
conta da mobilidade social, foram naqueles que apresentaram uma melhora no acesso a
educação, a mudança de moradia, e principalmente de emprego. Estevão Dias de Carvalho
registra duas crianças, a primeira em 1904 era preta e a segunda em 1909 era parda. A única
diferenciação de vida que pude constatar foi a de que na primeira o pai não assinou uma vez
que atestou não saber ler e escrever. Situação modificada em 1909 quando seu nome aparece
no registro assinado.243 Maximiano Francisco de Lima, casado com Ernestina Tobias de Lima,
registrou somente um dos três filhos, em 1929. Nesse registro, no qual a criança é declarada
da cor morena, ele aponta não saber e escrever. Contudo, nos outros dois, a pessoa que faz o
registro declara que as crianças eram parda e branca, respectivamente244 Assim como a
presença do declarante desconhecido modificou a cor, o acesso a educação também o fez.
O local de moradia também parece ter influenciado diretamente a categorização da cor
da criança. São muitos os casos que apontam para essa mudança, e por conta de espaço
selecionei apenas poucos para ilustrar a situação. Alfredo Gonçalves Vianna, casado com
Ignacia Maria da Conceição, por então morador da Serra de Madureira, ao se apresentar ao
cartório registra o primeiro filho, em 1924, da cor preta. Em 1929, o pai retorna ao cartório,
sendo então morador de Cabuçu, região ainda com poucas habitações; esse segundo filho é
registrado como pardo.245 Galdino Pinheiro da Silva, apesar de apontar nos registros não saber
ler e escrever, seus três filhos apresentaram uma mudança de cor em função da moradia. Seus

241
RCN Livro 19, reg. 134 ano de 1919 e Livro 25, reg. 464 ano de 1924.
242
RCN Livro 24, reg. 60 ano de 1924; Livro 35, reg. 93 ano de 1929; Livro 48, reg. 5494 ano de 1934.
243
RCN Livro 9 reg. 187 ano de 1904 e Livro 11, reg. 345 ano de 1909.
244
RCN Livro 19, reg. 301 ano de 1929; Livro 24, reg. 365 ano de 1924 e Livro 34 reg. 231 ano de 1929.
245
RCN Livro 19, reg. 194 ano de 1919; Livro 24, reg. 249 ano de 249; e Livro 35, reg. 146 ano de 1929.
151

dois primeiros filhos são registrados em 1894 como pretos e moradores de Mesquita. Quando
em 1899 se muda para Belford Roxo, o filho caçula é registrado como pardo.246 Essa situação
não era apenas vivenciada por brasileiros, filhos de imigrantes também mudaram a cor por
conta do local de moradia. José Cardoso, português, em 1924 registra seu primeiro filho, da
cor morena, como morador da Serra de Madureira. Seu segundo filho, nascido em Cabuçu, no
ano de 1939, foi declarado pelo pai como sendo da cor branca.247
Há também dois casos em qual, aparentemente, a qualidade de vida aparentemente
piorou. Paulo José da Silva morava em Posse, próximo a sede de Nova Iguaçu, em 1914, o
seu filho é registrado como pardo. Já em 1919, quando se muda para Ambay, localizado no
atual município de Belford Roxo, seu caçula é declarado como preto. Perciliano Barboza
também aparenta ter piorado de situação. Em 1904 seu primeiro filho é registrado como
branco e morador de Tinguá, no interior de Nova Iguaçu. O segundo nasce em 1914, em São
Bento, como moreno. E o último filho é registrado em 1919, como pardo e morador de Santa
Rita.
Nenhum outro registro demonstrou melhor a fluidez da cor em virtude do local de
moradia do que os filhos de Calixto Ferreira. São quatro filhos registrados, os três primeiros
por ele, e o último por sua esposa. O primeiro nasce em 1924, na localidade denominada
Jacutinga, atual município de Mesquita, da cor parda. Mais dois filhos tiveram seus
nascimentos declarados no mesmo dia 18 de setembro de 1929, da cor preta, e a família vivia
então na localidade Retiro, no interior de Nova Iguaçu. Já o caçula foi registrado por sua
esposa Joana Ferreira em 1934, sendo da cor parda. A partir desses dados é lícito supor que
quanto mais próxima a sede do Municipio de Nova Iguaçu, a tendência das pessoas era a de
melhora na condição de vida e conseqüente mudança de cor.
Além do local de moradia, o ofício empreendido pelo pai e pela mãe também parece
ter afetado tanto a condição social quanto a cor da criança. Boaventura do Nascimento registra
seu primeiro filho em 1924, da cor preta, tendo o pai a profissão de jornaleiro.
Aparentemente, ele parece ter modificado sua qualidade de vida ao mudar de emprego, tanto
em 1930 e 1934, ainda morador de Mesquita, ao registrar ambos os filhos eles aparecem da
cor parda. Com Bernardino Ferreira da Silva acontece situação semelhante. Em 1929, quando
atuava como operário, seu filho, Sebastião Ferreira da Silva, foi registrado da cor preta. Nos
anos seguintes, seus outros três filhos foram registrados em 1931 e 1932 como da cor parda,
quando seu pai atuava como pedreiro.

246
RCN Livro 4 reg. 74 e 75 ano de 1894 e Livro 7, reg. 7 ano de 1899.
247
RCN Livro 24, reg. 367, ano de 1924 e Livro 59, reg. 14419, ano de 1939
152

A situação inversa também ocorria. Antenor de Freitas, quando era morador de Austin,
interior de Nova Iguaçu era reconhecido como Negociante, e seu primeiro filho em 1929 é
registrado como branco. Contudo, ao se mudar para a sede na Rua Getulio Vargas, número
47, ele passa a ser designado apenas como comerciante, e seu segundo filho foi declarado
como da cor parda. Mas por vezes a cor não acompanhava a mudança de status social, como o
caso de Carlos Teixeira dos Santos. Quando seu oficio foi declarado como sendo carvoeiro,
no registro de seu primeiro filho em 1919, a cor da criança havia sido declarada como branca.
Aparentemente a mudança para o serviço público em 1939 acarretou no reconhecimento de
seu filho como pardo. Nessa equação, contudo, também se deve levar em conta a mudança de
oficio da mãe. Sebastiana Maria Pimenta, casada com Wenceslau Pimenta de Moraes, aparece
pela primeira vez num registro em 1919, com a profissão lavoura, e seu filho da cor branca.
Passados cinco anos, seu segundo filho é registrado como pardo tendo ela abandonado a
agricultura e passando a cuidar dos serviços domésticos, ou da sua casa ou de outra pessoa.
Nada parece ter modificado mais a cor do que a mudança de moradia e trabalho
somados. Godofredo de Oliveira, em 1919 era morador da Serra de Madureira e trabalhava na
lavoura. Seu primeiro filho foi registrado com sendo da cor preta. Após cinco anos seu
segundo filho é registrado da cor parda. Nesse período, Godofredo já era operário e havia se
mudado para Mesquita, local onde provavelmente conseguiu obter um local próprio de
moradia. Imigrantes também passaram pela mesma situação. Manoel José Gomes, originário
de Portugal, teve seu primeiro filho em 1934, na localidade denominada Morro Agudo, no
interior de Nova Iguaçu, e seu filho é registrado como pardo. Ao se mudar para Mesquita, e se
tornar comerciante, seu segundo filho, em 1939, é declarado como sendo da cor branca.
A mudança de moradia e de trabalho para pior aparentemente também era
determinante. Eurico Joaquim de Mattos era reconhecidamente um comerciante, em 1929
quando, morador da Estrada de Madureira, registrou seu primeiro filho como pardo. Após
cinco anos, aparentemente abandonou o comércio e passou a se dedicar a lavoura, e seu
segundo filho, registrado em 1934, aparece como da cor preta e morador da região
denominada Chavascal.
A mudança da cor não estava totalmente vinculada a mobilidade social do indivíduo.
Contudo, em alguns casos é possível delimitar que a mobilidade social foi projetada na cor
das crianças, tanto para os pais que ascenderam socialmente, como para aqueles que perderam
oportunidades e se mudaram para bairros mais pobres. A cor era fluída, mas ela ajuda a
compreender melhor o processo de melhora e de qualidade de vida de brancos, pardos e
pretos entre os anos de 1889 a 1939, na Baixada Fluminense.
153

Capítulo 4

Caminhando de Pés Calçados


Migração no Pós-Abolição (1888-1940)

Antes mesmo da saída de seu continente, os africanos e seus descendentes


vivenciaram a experiência da migração. Após a perda de uma guerra com outras etnias,
africanos escravizados migravam para o litoral e dali seguiam por um longo trajeto até chegar
as Américas. Desembarcados, alimentavam-se, engordavam para então serem vendidos.
Começava a terceira migração em direção ao interior do Brasil para trabalhar nas plantações e
áreas mineradoras. Com a proibição do tráfico atlântico, em 1850, voltaram a migrar, mas
agora dentro do Brasil. Saíam dos canaviais do Nordeste, e das áreas mineradores de Minas
Gerais para se dirigirem ao Vale do Paraíba Cafeeiro. E ali se tornaram maioria em relação
aos brancos.
A história da migração de africanos e de afro-brasileiros não acaba com fim da
escravidão, nela apenas se insere mais um capítulo. A esse momento histórico pretendo
dedicar essas linhas, traçando com um olhar empírico essa experiência de ex-escravos e seus
descendentes no período do Pós-Abolição. Não busquei analisar o processo como um todo,
afinal a documentação é escassa e pouco informativa sobre a origem e o paradeiro dessas
pessoas. Contudo, a experiência daqueles que optaram por residir no atual Município de Nova
Iguaçu chamou-me a atenção assim como a de outros pesquisadores.

A migração no pós-abolição das Américas


Os estudos internacionais sobre a experiência e cotidiano de ex-escravos e de seus
descendentes no período do pós-abolição encontram-se em um estágio bem desenvolvido. As
pesquisas se concentraram na análise dos processos emancipatórios dos seguintes países:
Jamaica, Estados Unidos e Cuba. A partir deles, foram levantados diversos temas possíveis de
serem analisados, dentre os quais, destaco, nessa discussão bibliográfica, a migração.
Foner, ao atentar para esse processo histórico no pós-guerra civil, identificou o
movimento populacional como sendo um significado, dentre outros, de liberdade. Em certas
localidades, como no Alabama, por exemplo, nos primeiros anos de pós-abolição, boa parte
dos ex-escravos abandonou as fazendas e utilizou seu direito de ir e vir, viajando a diversas
localidades. De acordo com cronistas da época, “parecia que eles queriam chegar mais perto
154

da liberdade, para então saber o que era isso”. Ter o direito de viajar para onde bem
quisesse, durante certo período, foi tido como “fonte de orgulho e excitação para os ex-
escravos”.248
Porém, nada parece ter influenciado mais a migração do que a busca do reencontro dos
parentes separados, pela venda, na escravidão. Nos primeiros meses, após 1865, no sul dos
EUA, muitos jornais noticiaram uma movimentação populacional, aparentemente
desordenada e não apenas no norte, como era esperado. Contudo, por mais que a procura
obtivesse êxito, na maior parte dos casos, os ex-cônjuges já haviam contraído novos
casamentos ou mesmo falecido.249
A migração para as cidades também ocorreu durante os primeiros anos após a Guerra
de Secessão. Entre 1865 e 1870, a população negra das dez maiores cidades do sul dobrou.
De acordo com Foner essa movimentação está ligada, em primeiro lugar, a uma busca por
locais nos quais as instituições sociais negras encontravam-se: como igrejas, escolas e
sociedades de ajuda mútua; assim como organizações de ajuda contra a violência, muito
comuns nesse período, como o Departamento dos Libertos (Freedman´s Bureau). Para Foner,
as consequências da migração para as cidades foram desastrosas, pois em virtude da falta de
trabalho e de dinheiro, passaram a residir nos subúrbios, com pouca higiene e com alta
proliferação de doenças. A segregação nas urbes era nítida.250
Porém, dentre todas as experiências vivenciadas no pós-abolição pela população de
ex-escravos e de seus descendentes, Foner identificou, para o Sul dos Estados Unidos que o
destino mais comum foi a permanência nas fazendas nos primeiros anos, trabalhando, agora,
sobre outras condições.251
A busca pela independência, frente ao poder dos proprietários, passava, entre outros
fatores, pela possibilidade de adquirir terra e controlar o ritmo e a forma do trabalho.
Acreditava-se, no caso da Jamaica que os libertos tenderiam a comprar terras baratas,
improdutivas, para subsistência e distantes das grandes propriedades. Contudo, o que se pôde
perceber foi um movimento contrário: de acordo com Holt, eles conseguiram comprar
pequenas propriedades, nos centros urbanos e próximas às paróquias e das áreas
agroexportadoras. Desse modo, em suas roças, buscavam aliar uma produção de subsistência

248
FONER, Eric. “O Significado da Liberdade”. In: Revista Brasileira de História. 8, 1988, p. 14.
249
Idem.
250
FONER, E. op. cit., p.15
251
Ibidem.
155

com excedentes para a venda em mercados locais, assim como almejavam vender sua força de
trabalho nas fazendas de grande porte. Ou seja, possuíam três fontes de renda distintas,
ampliando sua independência.252
No caso cubano, o lado oriental da ilha atraiu os possíveis migrantes. De acordo com
os dados analisados por Rebecca Scott entre os censos de 1862 e 1899, pôde-se distinguir um
novo padrão da distribuição populacional dos pretos e pardos, localizados agora no leste. Essa
região oferecia um maior acesso à terra, em virtude dos seguintes fatores: era uma região
montanhosa e não propícia à produção açucareira em larga escala; após a Guerra dos Dez
Anos, essas terras foram distribuídas pelo governo para serem ocupadas e revitalizadas.253 A
migração para as cidades foi limitada. De acordo com Scott, “a proporção da população
negra da ilha residente na Província de Havana, por exemplo, não aumentou
acentuadamente durante o período de emancipação”.254 Após uma análise de dados
estatísticos, a autora afirma que esses números “não parecem retratar uma migração em
255
massa para as cidades”. Ou seja, as pessoas encontradas, em 1899, nos censos das
cidades, provavelmente, eram descendentes de população preta e parda urbana e não
migrados.
Há toda uma bibliografia norte-americana que trabalha as migrações sulistas em
direção ao norte a partir de vários aspectos, políticos, sociais, econômicos, não-econômicos,
raciais e culturais. Lá a migração para o norte tornou-se um campo específico dos estudos de
pós-abolição.256

252
HOLT, Thomas. The Problem of Freedom: Race, Labor, and Politics in Jamaica and Britain, 1832-1938.
Baltimore and London: Johns Hopkins University Press, 1992, principalmente capítulo 5.
253
SCOTT, R. Emancipação Escrava em Cuba: a transição para o trabalho livre, 1860-1889. Rio de
Janeiro: Paz e Terra; Campinas, SP: Editora da Universidade Estadual de Campinas, 1991, p. 250.
254
Idem, p. 252.
255
Ibidem.
256
Boa parte da bibliografia norte americana ajudou a construir os argumentos e a organizar o texto. São eles:
BERRY, Chad. Southern Migrants, Northern Exiles. Urbana, IL: University of Illinois Press, 2000.
GROSSMAN, James R. Land of Hope: Chicago, Black Southerners, and the Great Migration. Chicago, IL:
University of Chicago Press, 1989. TOLNAY, Stewart E. “The Great Migration and Changes in the Northern
Black Family, 1940 to 1990.” In.: Social Forces 75:1213-38. 1997. TOLNAY, Stewart E “Migration
Experience and Fam-ily Patterns in the 'Promised Land.” In.: Journal of Family History 23:68-89. 1998.
TOLNAY, Stewart E “The Great Migration Gets Under-way: A Comparison of Black Southern Mi-grants and
Non-Migrants in the North, 1920.” In.: Social Science Quarterly, 2001.LIEBERSON, Stanley and
WILKINSON, Christy A.. “A Comparison between Northern and Southern Blacks Residing in the North.” In.:
Demography 13:199-224. 1976. LEMANN, Nicholas. The Promised Land: The Great Migration and How It
Changed America. New York: Knopf. 1991. JOHNSON, Daniel M. and REX R. Campbell. Black Migration
in America: A Social Demographic History. Durham, NC: Duke University Press. 1981. HENRI, Florette.
Black Migration: Movement North, 1900-1920. Garden City, NY: Anchor. 1975. GREGORY, James N. “The
156

O Sumiço dos Negros e a migração para os grandes centros.


Os primeiros estudos que analisavam a trajetórias de ex-escravos e de seus
descendentes, no período posterior a abolição, denunciavam a falta de informações sobre o
seu paradeiro nas documentações visualizadas. No caso de Florestan Fernandes, em “A
integração do Negro na sociedade de classes”, os censos demonstraram para ele que o
“negro” foi sumindo ao longo dos anos dessa fonte.257 Para o autor o “sumiço”, pelo menos
no caso de São Paulo, explicava-se por sua inaptidão ao novo mundo mercadológico e
exigente de mão de obra qualificada que se abriu nas primeiras décadas da República. Ou
seja, como o ex-cativo acabara de sair de um período no qual a maior exigência era o trabalho
manual na agricultura, e o novo mundo industrial moderno exigia um funcionário capacitado
e qualificado, o negro foi automaticamente excluído da sociedade. E desse modo, segregado
para regiões menos prósperas como a periferia das cidades.
Ainda em São Paulo, Warren Dean explicitava o sumiço dos negros como o resultado
de um processo migratório. Ao analisar o Município de Rio Claro, o autor percebeu que
quando da disputa por mercado de trabalho entre imigrantes e nacionais, os pretos e pardos
saíram perdendo. Na falta de inserção social através do trabalho nas fazendas do interior de
São Paulo, sobrou como alternativa aos ex-cativos a migração para cidades em ascensão,
nesse caso, a cidade de Santos, zona portuária.258
Apesar do sumiço de ex-escravos em São Paulo, aparentemente, esse Estado tornou-se
uma opção para moradores do Vale do Paraíba. Manoel Seabra, residente da atual
Comunidade Quilombola Remanescente de Escravos de São José da Serra, localizada no
Município de Valença, no Vale do Paraíba Fluminense. Em Entrevista a Hebe Mattos, no ano
de 2003, Seu Manoel afirma que após a abolição o então proprietário da Fazenda, Antonio
Ferraz, convocou parte de seus parentes para trabalharem em fazenda da família no Estado de
São Paulo. O depoente não soube afirmar a localidade específica, mas afirmou que o trabalho

Southern Diaspora and the Urban Dispossessed: Demon-strating the Census Public Use Microdata Samples.”
In: The Journal of American History 82:111-34. 1995. GREGORY, James N. The Southern Diaspora: How
the Great migrations of Black and whit southerners transformed America. Ed.: University Of North
Carolina Press, 2005. TROTTER JR. , Joe William The Great Migration in historical Perspective: new
dimensions of race, class & gender. Ed.: Indiana University Press, 1991. HARRISON, Alferdteen, Black
Exodus: The Great Migration From the American South. Ed.: University Press of Mississipi, 1991.
257
FERNANDES, F. A Integração do Negro na Sociedade de Classes. Vol. 2. São Paulo: Àtica, 1978.
258
DEAN, W. Rio Claro: um sistema brasileiro de grande lavoura, 1820-1920. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
1977.
157

exercido por seus parentes era o da lavoura.259 História semelhante foi encontrada Ana Lugão
Rios ao entrevistar em Juiz de Fora, em Minas Gerais, Cornélio Cansino, descendente direto
de ex-escravo. O entrevistado afirmou que dois de seus tios, Dionísio e Cornélio, migraram
para o estado de São Paulo em busca de emprego. No depoimento ele não consegue precisar
no que foram trabalhar, mas provavelmente atuaram no meio rural. E próximo ao ano de 1900
Dionísio decidiu sair dessa localidade e se mudou para o Distrito Federal.260
No entanto, pesquisas atuais demonstraram que pretos e pardos, descendentes diretos
ou não de escravos, optaram por migrar do Estado de São Paulo para outras regiões do País.
Lucia Helena Silva, através da análise da documentação da Casa de Detenção do Município
do Rio de Janeiro, conseguiu identificar uma migração dessa população para a então Capital
Federal. De acordo com a autora fugiram da concorrência desleal de empregos com os
imigrantes, do racismo e da falta de terras, principalmente aqueles provenientes do interior do
Estado. Ou seja, a cidade do Rio de Janeiro transformava-se numa localidade receptora de ex-
escravos e provavelmente seus descendentes.261
Uma explicação mais generalizada atualmente, sobre a trajetória de ex-escravos, no
período pós-abolição, baseou-se em notícias alarmantes de jornais, e principalmente em uma
lógica liberal de modernização do país. Nesse sentido, a teoria da liberação de mão de obra do
campo para as cidades, para a construção de um exército de reserva que levaria a futura
industrialização do Brasil, foi uma das mais utilizadas no mundo inteiro, e por aqui não foi
diferente. Para José Murilo de Carvalho, a abolição transformou acentuadamente as
características da cidade do Rio de Janeiro uma vez que “alterou-se a população da capital
em termos de número de habitantes, composição étnica, de estrutura ocupacional.” Ou seja,
após 1888 a Capital Federal passou a ser o centro de absorção de mão de obra ociosa. Por isso
o autor afirma que esse êxodo da região cafeeira do Vale do Paraíba para a cidade do Rio de
Janeiro após “a abolição lançou o restante da mão de obra escrava no mercado de trabalho
livre e engrossou o contingente de subempregados e desempregados.”262

259
Entrevista Manoel Seabra, 2003 – Acervo Memórias do Cativeiro (AMC)
260
Entrevista Cornélio Cansino – AMC.
261
SILVA, Lucia Helena de Oliveira Construindo uma Nova Vida: Migrantes Paulistas Afro-descendentes
na Cidade do Rio de Janeiro no Pós-Abolição (1888-1926), Tese de Doutorado em História Apresentada na
Universidade Estadual de Campinas. 2001.
262
CARVALHO, José M. Os Bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo,
Companhia das Letras, 1987, p. 16.
158

Essa migração em massa de desocupados provenientes do Vale do Paraíba teria, para


esse autor, assim como para Costa Pinto, um resultado nefasto. Sem perspectiva de trabalho,
com a falta de locais para moradia condizentes com a boa qualidade de vida, restou aos
migrantes residirem em regiões até então pouco povoadas, mas próximas ao grande centro
urbano. Para Costa Pinto nos morros ao entorno da cidade do Rio de Janeiro

“aos migrantes do Vale do Paraíba que para o Rio de Janeiro continuam vindo
desde a falência da lavoura cafeeira na região, aos veteranos da Guerra do
Paraguai, os flagelados da grande seca, vêm juntar-se, agora, mais e mais negros,
oriundos das diversas regiões do país, mas principalmente das províncias
263
vizinhas.”

De fato a população do então Município Neutro aumentou significativamente após 1890. De


acordo com a tabela abaixo é possível notar que a população dobrou de tamanho em apenas
20 anos. Se no ano de 1872, incluindo escravos e livres, havia na Capital Federal 274.972
pessoas, esse número aumentou para 522.651. Ou seja, somente na análise superficial desse
número é possível atestar um movimento migratório para essa cidade.

Tabela 4.1 – crescimento populacional Município neutro, 1872 a 1920.

População Município Neutro


1872 1890 1920
274.972 522.651 1.157.873

Fonte: Censos de 1872, 1890 e 1920 do IBGE.

Ainda não há pesquisas que apontem numericamente a origem dos migrados para a
cidade do Rio de Janeiro. No entanto, Lucia Helena Silva, debruçou-se sobre alguns indícios
para tentar avaliar a origem de alguns desse migrados. Avaliando os dados da Casa de
Detenção, localizados no Arquivo Público do Estado, separou os migrantes e pôde “observar
a forte presença dos baianos na composição da população carcerária.”264 Se chegavam sem
empregos e formavam o “contingente de desempregados” nenhuma outra fonte melhor
ajudaria a encontrar os migrados do que a da Casa de Detenção da Cidade do Rio de Janeiro.
Nas fontes também foi possível encontrar outros migrantes, como os nordestinos. É
notório dizer que boa parte pode ter vindo ainda durante a época da escravidão,
principalmente após 1850, com o fim do tráfico internacional e início do interprovincial.

263
LOPES, N. O Negro no Rio de Janeiro e sua tradição musical: partido-alto, calango, chula e outras
cantorias. Rio de Janeiro: Pallas, 1992, p. 3. Apud, SILVA, L. H. op. cit. 2001, p. 94.
264
SILVA, L. H. op. cit. 2001, p. 126.
159

Apesar do Vale do Paraíba ter concentrado a maior parte da mão de obra no final do século
XIX, não é possível afirmar que todos esses nordestinos passaram pela produção de café antes
de migrarem para a cidade do Rio de Janeiro. Afinal, tanto o Vale quanto a cidade eram
grandes pólos atrativos de mão de obra.
Mesmo não aparecendo na documentação da Casa de Detenção, provavelmente por
não colocarem a naturalidade de moradores do interior do Rio de Janeiro, o processo de
migração do Vale do Paraíba para a Cidade do Rio de Janeiro foi captada em outras fontes de
pesquisa. Em entrevista realizada por Ana Lugão Rios, na década de 1990, foi possível
encontrar pelo menos duas trajetórias de descendentes de ex-escravos que optaram por residir
na Capital Federal. Cornélio Cansino, nascido em Juiz de Fora, afirmou em depoimento que
seu Tio Cornélio, que havia migrado do Estado de São Paulo, posteriormente optou por residir
no Distrito Federal. Chegando lá encontrou mais dois Tios: Ricardo e Geraldo. Todos foram
morar no centro da Cidade. O Tio Cornélio conseguiu uma pequena casa na Rua Frei Caneca,
enquanto os outros não tiveram a mesma sorte. Ricardo e Geraldo moravam no Morro do
Catumbi, na Rua São Carlos, atual Favela São Carlos.265
Apesar de esses exemplos demonstrarem a possibilidade de moradia bem próximo ao
grande centro urbano, a maior dos migrantes descendentes diretos de ex-escravos parece ter
optado por regiões periféricas. Através da documentação da detenção e da cadeia pública na
APERJ, Silva afirma que em 1891,

“(...)a freguesia de Santana era o local preponderante de habitação de migrantes


detentos, quando comparamos com os dados sobre as demais regiões, como Glória,
266
Candelária, Engenho Novo, São Cristovão e Santo Antonio.”

Para a autora, no ano de 1891, os dados apontavam que os migrantes já se encontravam


espacialmente mais distribuídos, o que demonstra uma interiorização nas áreas da Cidade do
Rio de Janeiro.
Em virtude dessas informações o próprio crescimento do subúrbio e da Baixada
Fluminense não pode ser explicado apenas como resultado direto da Reforma Pereira Passos e
consequente expulsão da população pobre do centro da Capital Federal. Rafael Mattoso
apontou em sua dissertação de mestrado que o crescimento dessas regiões está conectado a
sua dinâmica própria de atração e não é resultado de pessoas expulsas do centro do Rio de

265
Entrevista Cornélio Cansino – AMC
266
SILVA, L H. op. cit. 2001, p. 121-122.
160

267
Janeiro. O bairro de Madureira, por exemplo, atraía população por conta do seu amplo
comércio, enquanto Bangu crescia demograficamente em virtude de sua característica
fabril.268 Para o autor a ideia do subúrbio como um local de menor qualidade para se morar,
assim como um local perigoso, e até mesmo pejorativo, foi construído ao longo dos anos pela
imprensa da Capital. Para esses, o subúrbio era um local utilizado como esconderijo para
bandidos e meretrizes.269
Analisar a inserção social através do trabalho dos migrantes é uma tarefa muito difícil.
Fabiane Poppiginis se debruçou sobre o oficio dos comerciantes no centro da cidade do Rio
de Janeiro, no período da Primeira República, assim como a de seus empregados. Apesar de
ter encontrado uma parcela considerável de trabalhadores pretos e pardos, nada encontrou
sobre a origem desses empregados.270 O mesmo parece ter sido o caso de Velasco e Cruz, ao
pesquisar os estivadores de café no porto do Rio de Janeiro. Mesmo tendo analisado as fichas
dos sindicalizados, sua maioria preta e parda, não há, pelo menos em suas pesquisas
publicadas, qualquer indício de migrantes do Vale do Paraíba.271 Álvaro Nascimento também
não conseguiu identificar entre os marinheiros participantes da Revolta da Armada migrantes
originários do Vale do café.272
Um dos poucos indícios de trabalho de migrantes vem das entrevistas realizadas por
Ana Rios. Um dos tios de Cornélio Cansino, de mesmo nome, não tinha um emprego fixo,
tendo que atuar como camelô nas ruas da cidade do Rio de Janeiro. Dali retirava seu sustento
e podia pagar a passagem para visitar parentes que permaneceram em Juiz de Fora.273 Para os
que não conseguiam algum tipo de ofício na Capital, restava buscar emprego em áreas em
ampla expansão. Esse parece ter sido o caso dos dois Tios de Seu Manoel Seabra, Manoel e

267
MATOSO, Rafael Echos de Resistência Suburbana": Uma analise comparativa das contradições sócio-
espaciais cariocas a partir das experiências dos moradores da Freguesia de Inhaúma (1900-1903). Rio de
Janeiro/RJ. Dissertação de Mestrado, UFRJ, 2009.
268
Ronaldo Luiz Martins Mercadão de Madureira: caminhos do Comércio. 2009.
269
MATOSO, R. Op. Cit.
270
POPINIGIS, Fabiane Proletários de casaca: trabalhadores no comércio (Rio de Janeiro, 1850-1920).
Campinas: Editora da Unicamp, 2007.
271
VELASCO E CRUZ, Maria Cecília “Tradições Negras na Formação de um Sindicato: Sociedade de
Resistência dos Trabalhadores em Trapiche e Café, Rio de Janeiro, 1905-1930”. In: Afro-Ásia, n. 24, 2000.
272
NASCIMENTO, Álvaro Pereira A ressaca da marujada: recrutamento e disciplina na. Armada Imperial.
Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2001.
273
Entrevista Cornélio Cansino – AMC
161

Joaquim. Ambos optaram por deixar o município de Valença para se dedicar a plantação e
colheita de laranjas no Município de Nova Iguaçu.274 De acordo com Paul Singer

“(...) seria um erro pensar que as principais correntes migratórias se dirigiram para
a indústria. O crescimento vegetativo acelerado aumentou a pressão nas regiões
mais estagnadas, nas quais cresceu o caudal migratório, não por fatores de
mudança mas sim por fatores de estagnação.”275

Isto é, as migrações internas dos primeiros anos da recém proclamada República foram
incentivadas pela crise e estagnação econômica local, e não pela atração de empregos das
indústrias ainda muito incipientes. Além disso, de acordo com o autor, para além da
estagnação econômica, as migrações internas também foram incentivadas pela

“(...) melhoria dos meios de transportes e o encurtamento das distâncias (novas vias
e melhoria do sistema rodoviário) estão na base dos movimentos populacionais,
especialmente no tocante à migração rural-urbana causada por fatores de expulsão
atinentes à piora das condições econômicas nas áreas de origem.”276

Isso significa dizer que as preferências populacionais, principalmente daquelas regiões em


crise, era a de migrar para regiões onde havia transporte facilitado e que estava em ascensão.
Aparentemente, a possibilidade da chegada da população preta e parda em massa para
o centro da Cidade assustava mais do que ocorreu efetivamente. O temor era maior do que a
realidade. Isso me leva a crer que a migração para o centro da Capital Federal não ocorreu na
proporção que todos imaginavam. Aparentemente, essa percepção, da migração em direção
aos grandes centros, para os autores apresentados anteriormente estava inserida em um
pensamento desenvolvimentista, uma vez que, para eles, a abolição da escravatura teria sido o
processo de liberação de mão de obra tão esperado para o desenvolvimento da indústria
brasileira.
Mesmo com as teorias liberais presentes, os pretos e pardos, ex-escravos ou
descendentes, não pensavam e não atuavam como os liberais. Isso ficou bem claro, por
exemplo, nos processos de pós-abolição das Américas. De acordo com Foner, pelo menos nos
EUA,

274
Entrevista Manoel Seabra, 2003 – AMC
275
SINGER, P. “Migrações internas: Considerações teóricas sobre seu estudo” In.:SINGER, P. Economia
Política da Urbanização, SP, Brasiliense, 1972, p. 56, Apud MATOS, Ralfo Edmundo. “Alguns aspectos sobre
a importância das migrações internas no sudeste: uma questão histórica não resolvida.” In.: VIII Encontro da
ABEP.
276
Idem
162

“os negros podem não ter sido ‘homens racionais do ponto de vista’ econômico no
sentido entendido pelos economistas clássicos (isto é, trabalhadores assalariados e
disciplinados), mas isso não refletia uma aversão ao trabalho, mas sim o desejo de
trabalhar sob circunstancias de sua própria escolha”.277

Como o liberalismo possuía regras de vivência próprias, esse novo comportamento pode não
ter sido compreendido, o que levou em alguns lugares a construção de estereótipos gerando
segregação. Quando a agência do liberto ou mesmo do seu pensamento ia de encontro ao
ideário liberal, poderia gerar em alguns um preconceito racial quanto a incapacidade de
compreensão do ex-escravo do que era melhor para ele.278 Como o Rio de Janeiro ainda era
praticamente rural e tanto os ex-escravos quantos os antigos proprietários não mudaram a
mentalidade de um dia para o outro, o ócio e a vagabundagem foram perseguidos diariamente.
Apesar de esses autores apresentarem o processo de migração como consequência de
uma sociedade que está em crescimento industrial, essa experiência por vezes ocorreu em
sociedades pré-industriais. Mesmo durante o período da escravidão, libertos dirigiam-se ao
longo de grandes intervalos para regiões onde existiam poucos escravos, mas com terra
disponível. Em locais onde a agro exportação havia sido abandonada seus números absolutos
podiam até mesmo ser pequenos, contudo sua participação na população era,
comparativamente, grande.279 Os migrantes tinham como destino áreas com terras livres,
preferencialmente abandonadas ou mesmo não cobiçados pela produção agroexportadora.280
A migração de camponeses no Brasil foi uma constante desde os primeiros séculos e
não ocorreu apenas após a abolição. Sheila de Castro Faria dedicou alguns capítulos em sua
tese sobre a migração de livres no interior do Brasil. A autora conseguiu identificar, por
exemplo, que a migração entre descendentes de libertos era notório no século XVIII e XIX.
Sheila de Castro Faria demonstra que muitos filhos de escravos não registravam seus filhos
nas paróquias de onde eram originários.281 Do mesmo modo Carlos Lima percebeu que “é

277
FONER, Eric Nada além da Liberdade: a emancipação e seu legado. Rio de Janeiro, Ed.: Paz e Terra,
1988, p. 43-44.
278
De acordo com Holt essa incapacidade de compreensão do outro gerou um forte preconceito racial na
Jamaica, balizado principalmente por teorias raciais de época que denotavam a incapacidade intelectual dos
recém libertados. HOLT, Thomas. The Problem of Freedom: Race, Labor, and Politics in Jamaica and
Britain, 1832-1938. Baltimore and London: Johns Hopkins University Press, 1992.
279
LIMA, C. “Sertanejos e Pessoas Republicanas Livres de Cor em Castro e Guaratuba (1801-1835)” in.:
Estudos Afro-Asiáticos, Ano 24, nº 2, 2002, p. 322.
280
LIMA, C. op. cit., 2002, p. 330.
281
FARIA, Sheila de Castro A Colônia em Movimento, Fortuna e Família no Cotidiano Colonial. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 1998, p. 37.
163

perceptível uma tendência dos homens não brancos livres e libertos emigrar.(...)”.282 Para o
autor migraram para regiões onde havia a possibilidade de contrair matrimônio, aliado a
possibilidade de obtenção de terra. 283
Desse modo, desejo reafirmar que a migração no Pós-Abolição para a cidade do Rio
de Janeiro não se deu como todos esperavam. Ainda não existem estudos que demonstrem
esse processo, nem em quais locais os ex-escravos foram residir e muito menos que ofícios
adquiriram. A especulação e o medo da migração foi muito maior do que efetivamente
aconteceu.

A migração em Teoria
Tornou-se claro que o processo migratório que aqui apresento não está inserida em um
processo desenvolvimentista, mas sim partícipe de uma sociedade pré-industrial. Para facilitar
a leitura e a análise das fontes a seguir, optei por demonstrar teoricamente como visualizo
esse processo de migração de pretos, pardos e brancos no período do Pós-Abolição.
Do ponto de vista demográfico os estudos que se concentraram na construção de
cidades atentavam principalmente para a relação entre industrialização e a formação de
Metrópoles. Para Giovanni Levi pouco se estudou sobre a formação de cidades pré-
industriais.284 Nesse caso, busca-se analisar o porquê de tantos descendentes de escravos
buscarem migrar para uma região que até então não apresentava qualquer desenvolvimento
industrial, como é o caso da Baixada Fluminense, mas que ao mesmo tempo aumentou sua
população em 300% em apenas 20 anos.
O estudo da migração ajuda na própria definição da cidade. De acordo com Levi “na
aparentemente caótica distribuição dos fluxos deve-se reconhecer um conjunto de tipos de
movimento.”285 Esses movimentos podem parecer diversos “na duração, distância percorrida,
motivos de atração e de expulsão,”286 e sua percepção auxilia o pesquisador a delimitar

282
LIMA, Carlos A. M. Pequena diáspora: migrações de libertos e de livres de cor (Rio de Janeiro, 1765-1844).
LOCUS: Revista de História, 26. Juiz de Fora, Departamento de História/Programa de Pós-Graduação em
História da Universidade Federal de Juiz de Fora, vol. 6, n. 2, 2000, p. 107.
283
LIMA, Carlos. Op. cit. 2000, p. 109.
284
ESPADA, H. L. A Micro-História Italiana: escalas, indícios e singularidades. Rio de Janeiro: Ed.
Civilização Brasileira, 2006, p. 235.
285
Idem.
286
Idem.
164

“tanto a área de relações da cidade, quanto os modos de integração e de


coagulação da população urbana, que podem fornecer uma útil contribuição para a
compreensão do formar-se de uma sociedade e de uma população nos seus aspectos
não apenas quantitativos, mas também sociais, culturais e demográficos.”287

Nesse intuito analisar as diversas migrações para a Baixada Fluminense pode me


permitir, por exemplo, avaliar se houve disputa de mercado entre grupos, ou se a condição de
migrados criava condições de reconhecimento de dificuldades e possibilidades de alianças.
Para além de analisar a questão econômica do Vale do Paraíba e do Nordeste, ou seja,
se houve crises, desastres naturais, entre outros, torna-se também necessário analisar qual foi
o impacto deixado pelo abandono generalizado da região. Desse modo, acredito que “os
efeitos sobre a zona que envia sua população em direção a um centro urbano podem dar
indicações preciosas para o conhecimento do mundo camponês.”288 Por isso, no caso do Vale
do Paraíba é possível analisar quais sãos os tipos de família e de condição de vida que
permitiram o migrante almejar esta estratégia.
Uma das primeiras características dos migrantes nas sociedades pré-indústrias que se
pode observar na primeira fase da migração é o predomínio do retorno. Nesse sentido, torna-
se mister apontar que, assim como Levi demonstrou para o Antigo Regime, nas sociedades
tradicionais

“as ausências das comunidades rurais são sazonais e periódicas e têm como caráter
fundamental uma ligação direta, tradicional, com a família e a comunidade de
origem. A cidade pré-industrial não fixa população senão em mínima parte; ela
289
infla e esvazia como um pulmão.”

Por isso me indago se nas primeiras experiências de migração do Vale do Paraíba para
a Baixada já era possível construir algum tipo de estabilidade residencial.
Apesar de algumas cidades pré-industriais receberam um fluxo vertiginoso de pessoas,
que em alguns momentos podem aparentar certo caos, essas pessoas são ao mesmo tempo “a
vida da cidade e a vida das comunidades rurais menores que fornecem à cidade profissões,
pessoas, serviços, sazonalmente, mas todos os anos, seguindo percursos e tradições cem
vezes repetidos.” 290 Ou seja, o fornecimento de Mão de obra sazonal insere-se em um sistema

287
ESPADA, L. op. cit. 2006, p. 236.
288
LEVI, G. “Mobilità della popolazione e immigrazione a Torino nella prima metà Del settecento.” In.:
Quaderni storici, n. 17, a. VI (2), 1971, p. 510.
289
ESPADA, L. op. cit. 2006, p. 237.
290
LEVI, G. op. cit. 1971, p. 533-534.
165

no qual tanto a comunidade rural de origem quanto o local de trabalho longínquo fazem parte,
onde um depende do outro. Então o local de chegada sempre mantém um canal de diálogo
com diversas regiões. A relação entre campo e cidade é contínua. Para Levi “uma mobilidade
marcada por uma forte ligação entre centro e periferia, entre a vida da cidade e a vida no
campo, que mantinham entre si um fluxo contínuo de população, composto de profissionais e
até mesmo de mendigos.”291 Nesse sentido, pode-se pensar que os Municípios do Vale do
Paraíba, que na década de 20 forneceram mão de obra para localidades como a Baixada,
nunca ficaram isoladas entre si. Sempre houve um canal de comunicação. Assim como o
Município de Nova Iguaçu nunca perdeu sua relação com o campo. Basta ver as notícias do
Jornal Hebdomadário Correio da Lavoura que falam das festas em Paty de Alferes e em
outras regiões do Vale.
A migração não era um movimento aleatório. De acordo com Sheila de Castro Faria,
essa experiência “respondia a escolhas individuais e a motivos individuais, embora
conjunturas específicas tendessem a unificar o movimento.”292 Para a autora as áreas em
expansão sempre foram um chamariz poderoso, contudo um dos principais incentivos
consistia em “residir, na região escolhida, alguma pessoa de relacionamento anterior.”293 Ao
analisar a Colônia, Sheila Faria percebeu que “houve freqüência impressionante de
indicações de parentes e conhecidos antigos, morando próximos uns dos outros, em
praticamente todas as camadas sociais. (...) fica claro que o viajante buscava lugares onde
tivesse algum laço (consanguíneo ou não).”294 Esse será um dos aspectos a qual eu tentarei
averiguar se foi possível obter na Baixada Fluminense.
O tamanho das famílias impacta diretamente nas escolhas e estratégias de migração.
Para Levi, ao analisar a regiões de origem dos migrados deve-se atentar primordialmente para
a relação entre consumidores/trabalhadores. A partir disso é possível
“avaliar as escolhas de cada família: escolhas de agregação, desagregação, de
contratação de servos ou de agregação de parentes, de expulsão, temporária ou
definitiva, de membros. E podemos alargá-la para além do esquema da família
conjugal para fazer dela uma lei explicativa geral: a família em cada uma de suas
fases corre o risco de uma sobrecarga de consumidores e pode escolher uma

291
LEVI, G. “Migrazione e popolazione nella em Francia del XVII e XVIII secolo.” In.: Rivista Storica Italiana,
v. LXXXIII (1), março, 1971, p. 112.
292
FARIA, S. op. cit., 1998, p. 111-112.
293
Idem.
294
Idem.
166

política corretiva; e isso se verifica, em condições normais, particularmente depois


de 12-14 anos de matrimonio de cada família conjugal que a compõe.”295

Uma dessas estratégias adotadas era a migração sazonal. Normalmente ela é vista
como estratégia familiar na tentativa de manter o equilíbrio econômico entre consumidores e
trabalhadores. Além disso, também eram utilizadas outras estratégias como, por exemplo, o
retardo na idade do matrimônio dos filhos, o celibato e a migração definitiva.296 A migração
era definida também de acordo com a situação conjugal da pessoa. No caso dos solteiros,
eram em sua maioria rapazes, entre a adolescência e o matrimonio. Já para os casados e
chefes de família a migração definitiva simbolizava a falha de todas as outras estratégias para
a permanência no campo.297
Observando sobre esse prisma a migração simbolizava muito mais uma estratégia de
permanência do que de desagregação. De acordo com Levi, a migração deve ser muito mais
observada do “ponto de vista da origem não como uma forma de desagregação da família e
da comunidade, mas como uma estratégia para sua conservação”.298 Por isso não foi difícil
encontram diversas comunidades quilombolas pelo estado do Rio de Janeiro que vivenciaram
em sua trajetória, experiências de migração.299

A Migração interna
Após a década de 1920 para camponeses brancos, bem como para pretos e pardos
descendentes diretos ou não de ex-escravos que não conseguiam obter trabalhos ao redor das
fazendas de origem e muito menos reproduzir o estilo de vida de seus pais, sobrava como
estratégia a migração para centros em ascensão.
Com a estagnação econômica no interior do país, após a década de 30 o governo
concentrou sua atenção na migração empreendida por moradores rurais. A fim de proteger o
migrante, duas importantes medidas, contra a entrada de imigrantes foram tomadas pelo
governo:

295
ESPADA, L. op. cit., 2006, p. 241-242.
296
ESPADA, L. op. cit., 2006, p. 242.
297
Idem.
298
Idem.
299
MATTOS, H. “Novos Quilombos: re-significações da memória do cativeiro entre descendentes da última
geração de escravos” in: RIOS, A. e MATTOS, H. Memórias do Cativeiro. Família, Trabalho e Cidadania
no Pós-Abolição. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2005.
167

“a primeira, 4160/58 visa a suspensão da imigração estrangeira por quatro anos,


procurando atender os problemas de “endomigrações” com os recursos
disponíveis. Já a segunda, 4084-A/58, proibia o financiamento da imigração pela
União, propondo que os recursos fossem canalizados para alimentação, transporte
até o novo local de trabalho, do trabalhador rural forçado a deslocar-se por conta
de condições climáticas para outras regiões brasileiras.”300

Mesmo com todos os esforços a migração interna, após a década de 1930 tomou
proporções significativas, suplantando em alguns lugares a imigração estrangeira. Para
Martine, “calcula-se que na década de 1940 a saída do campo tenha atingido, nos diversos
estados brasileiros, em torno de três milhões de pessoas, o equivalente a 10% do total de
habitantes do mundo rural da época.”301 Para alguma regiões, “após 1930 as migrações
internas tornaram-se intensas, sobretudo a de origem rural em direção a São Paulo e estados
do Sul, suplantando largamente a migração estrangeira.”302
A consequencia desse fenômeno foi o aumento demográfico de cidades que ainda
estavam em seu processo de urbanização. Para Durham

“o crescimento demográfico das capitais mais populosas do país devia-se


fundamentalmente aos efeitos do êxodo rural: é o caso de Recife, Salvador, Belo
Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre, cujo inchaço ao longo da
década foi resultado da chegada de pessoas nascidas fora do município.”303

A migração para algumas capitais, como por exemplo, São Paulo, foram exemplares desse
processo. Ali, entre 1936 e 1940 chegaram “pessoas provindas do Nordeste, com destaque
para a Bahia, contribuindo com fornecimento de 50,9% dos trabalhadores nacionais (...)
outros 22,7% eram originários de Minas Gerais”.304
As migrações quase sempre são explicadas por motivações econômicas dos
indivíduos, e pouca ou quase nenhuma atenção é dada para as características sociais e

300
ARAUJO, A. S. . A Incorporação dos negros no mercado de trabalho: um estudo de 1930 a 1945. In: Xi
Congresso Luso Afro Brasileiro De Ciencias Sociais, 2011, Salvador - BA. Anais Eletrônicos, 2011, p. 5-6.
301
MARTINE, G. “As migrações de origem rural no Brasil: uma perspectiva histórica.” In.: História e
população: estudos sobre a América Latina. São Paulo: Seade, 1990, p. 16-26 apud. FLORENTINO, M.;
LEWKOWICZ, I.; GUTIERREZ, H. (orgs.) Trabalho compulsório e trabalho livre no Brasil. São Paulo:
UNESP, 2008. p. 72.
302
EDMUNDO, R. “Alguns aspectos sobre a importância das migrações internas no sudeste: uma questão
histórica não resolvida.” In.: VIII Encontro da ABEP. p. 330.
303
DURHAM, E. R. A caminho da Cidade. São Paulo: Perspectiva, 1984, cap.1 in: FLORENTINO, M.
LEWKOWICZ, I. E GUTIÉRREZ, H. op. cit. 2008, p. 72.
304
MONBEIG, P. Pioneiros e fazendeiros de São Paulo. São Paulo: Hucitec/Polis, 1984. p. 150-151. Apud
FLORENTINO, M. LEWKOWICZ, I. E GUTIÉRREZ, H. op. cit., 2008. p. 73.
168

culturais desse processo. Ao observar sociedades pré-industriais, como é o caso do Brasil, as


migrações do período pós-abolição também podem ter motivações não-econômicas. Em
primeiro lugar, nada deve ter incentivado mais a migração do que o desejo de muitos ex-
escravos em reunir famílias separadas a muito tempo pelo flagelo da época da escravidão.305
Para esse grupo inicial, em virtude da recém promulgada Lei Áurea, muitos antigos senhores
devem ter resistido a essa possibilidade.
Uma segunda característica que incentivou a migração pode estar na busca de uma
maior e melhor acesso à educação. Desde o período da escravidão, como já ficou constatado,
muitos cativos na hora da conquista de sua alforria preferiram trocar o cativeiro por 30 ou
mesmo 40 anos de serviço obrigatório.306 Contudo, em suas cartas de alforria solicitavam em
troca alguns pedidos não tão econômicos, como o dever do patrão em lhe assistir em caso de
doença e, principalmente, em dar educação aos seus filhos.307 Efetivamente pouco ainda se
estudou sobre o acesso da população preta e parda às escolas de ensino básico no inicio da
Primeira República, principalmente no Vale do Paraíba. Sendo assim, por ser um projeto de
liberdade, desde o período da escravidão é lícito supor que boa parte dos jovens optou por
migrar em busca de um acesso a educação, pois provavelmente viam nela uma possibilidade
de ascensão social.
Em terceiro lugar, pode-se apontar a violência como motivadora da migração. Em
entrevista a Ana Lugão Rios, Cornélio Cansino contou uma história de quando seus familiares
foram obrigados a se mudar para a fazenda São José, em Juiz de Fora. Seu pai havia feito uma
rocinha em uma fazenda denominada São Lourenço, e por conta da necessidade de capinar a
área, ele acabou faltando ao trabalho de “turma” naquele dia. Para se vingar o proprietário
mandou abrir a porteira de sua rocinha e colocou os bois para comer tudo. Seu tio,
preocupado com a situação convidou-os para morar junto a ele na Fazenda São José. De
acordo com Seu Cornélio:

“Cada um pegou um trapo, sabe com é que era? Porque não tinha nada, era tralha,
tá me entendendo? A mudança da gente era tralha. Era aqueles cavaletes, saco,
desses cavaletes assim, e botava umas talbas assim encima e outroera de forquilha
enfiada assim na beirada da parede, botava bambu com cipó e botava capim... nós
era um bicho, não vamos falar não, nem vale a pena...Então aquele colchão de saco

305
FRAGA, Walter Filho, Encruzilhadas da liberdade: histórias de escravos e libertos na Bahia (1870-
1910), Campinas, Editora da UNICAMP, 2006, p. 314.
306
ESPADA, H.R. “Sob domínio da precariedade: escravidão e os significados da liberdade de trabalho no
século XIX”. TOPOI, vol.6, nº11, jul. dez. 2005.
307
Idem.
169

de estopa, né, de botar palha de milho. Então cada um pegou uma coisa e vamo
embora, larga isso tudo por aí e vão embora, aí é que nós pegou um, eu me lembro
é que papai e mamãe fizeram aquela trocha de colchão assim ó de saco, botava
aquelas mochilas dentro do saco de estopa, cada um, eu me lembro é que vim com
uma lamparina, eu era pequeno, mas era perto, sabe, de São José. Aí eu vim, cada
um trouxe uma coisa, sabe como é, uns trouxe uma caixa, um outro troço, mas não
308
tinha nada, nada pra trazer também não, né.”

A violência física também era experimentada em outras épocas, principalmente no


período de eleição. Quando Seu Cornélio ainda era muito jovem lembra muito bem de uma
passagem quando um dia estava capinando um barranco e chegou o capataz da fazendo e
laçou seu colega de trabalho, jogando-o ladeira abaixo. Após terem pegado o rapaz, o
proprietário ficou atrás do capataz dando chicotada. Isso tudo ocorreu porque o rapaz,
conforme comentário de diversas pessoas, não havia votado no candidato do Fazendeiro.309
Apesar desses exemplos de violência não demonstrarem qualquer conotação racial, no
interior de São Paulo Karl Mosnma encontrou casos de assassinatos muito semelhantes aos
existentes nos Estados Unidos.310 Ao analisar uma correspondência entre o chefe de Polícia e
o Delegado local, em São Carlos, o autor deparou-se com um caso de linchamento. De acordo
com a carta, um mês e meio logo após a abolição 400 pessoas invadiram a delegacia e
assassinaram a tiros e pauladas o “liberto João” que havia assaltado uma casa da localidade
dois dias antes. Apesar de nenhum jornal ou mesmo a ocorrência policial ter denunciado a
ocorrência de um estupro a moradora no assalto a casa, a população local acreditou haver
ocorrido, por conta da violência utilizada pelo ex-escravo. E por isso, após terem matado o
autor do crime, o ajuntamento de pessoas resolveu pendurá-lo na Praça Matriz da Cidade.
Somado a esse, Monsma encontrou mais três casos muito semelhantes.311 Apesar dos

308
Entrevista Cornélio Cansino – AMC
309
Idem.
310
Para compreender os aspectos não-econômicos da migração dos sulistas para o norte dos Estados Unidos ver:
HENRI F. Black Migration: Movement North, 1900-1920. Garden City, NY: Anchor, 1975.; TOLNAY, S.,
BECK, E. M. Racial violence and black migration in the South, 1910 to 1930. Am. Sociol. Rev. 57, 1992, p.
103.; TOLNAY, S. E. e BECK, E. M. A Festival of Violence: An Analysis of Southern Lynchings, 1882-
1930. Urbana: Univ. Ill. Press1995; WOOFTER, T. J. Negro Problems in Cities. New York: Doubleday, Doran
& Co. 1928 e TOLNAY, S. E. “The African American ‘Great Migration’ and Beyond” Annual Review of
Sociology, Vol. 29, 2003, p. 215.
311
MONSMA, Karl . “Histórias de violência: inquéritos policiais e processos criminais como fontes para o
estudo de relações interétnicas”. In: Zeila de Brito Fabri Demartini; Oswaldo Truzzi. (Org.). Estudos
migratórios - perspectivas metodológicas. São Carlos: EDUFSCar, 2005, v. , p. 159-221. E MONSMA, Karl .
“Linchamentos raciais depois da abolição: quatro casos do interior paulista”. In: XXVIII Congresso
Internacional da Latin American Studies Association, 2009, Rio de Janeiro.
170

linchamentos diminuírem entre 1910 e 1930, onde ocorreu essa violência a população de
pretos e pardos migrou.
Após a derrubada da Monarquia e do fim da escravidão, muitos ex-escravos
sobreviveram nas fazendas de café sobre o domínio dos “laços de gratidão.312 Para aqueles
que optaram residir na órbita do grande proprietário havia uma clara restrição de
movimentação entre fazendas e principalmente entre municípios. Afinal, a estabilidade na
região significava para o proprietário obter mão de obra barata e de fácil localização, uma vez
que os cafezais encontravam-se abarrotados e alguém tinha que fazer a colheita. Além disso,
cabe destacar que esses laços ao longo dos anos vão se tornando parte da relação de
clientelismo. Por essa necessidade de ambas as partes os antigos Barões de Café vão abrindo
espaço para a entrada dos Coronéis. Apesar de a bibliografia existente apontar para um
mandonismo local, numa relação quase despótica entre proprietários e trabalhadores rurais,
Rios demonstrou que havia uma negociação entre ambos, mesmo que em desequilíbrio para
um lado.313
Contudo, os descendentes de ex-escravos, nascidos no pós-abolição parecem não ter
participado desses “laços de gratidão”. Um desses casos foi o de Toninho Canecão. Neto de
escravos, nascido na Fazenda São José da Serra, no Município de Valença, estado do Rio de
Janeiro. Em entrevista, contou que certa vez o proprietário da fazenda onde residia chamou
seu pai para realizar um serviço de empreitada no pasto. Toninho acompanhou seu pai, e ele
se permitiu considerar insuficiente o valor combinado. Não considerando sua observação, o
pai fechou o serviço pelo preço estipulado e, como previra, o dinheiro acabou antes mesmo da
finalização do trabalho. Sem conhecimento do pai, Toninho foi até o fazendeiro e informou
que o pai estava abandonando o serviço, em uma ação bem ousada. Antes mesmo de sair à
porta o proprietário, atônito pelo descumprimento do acordo do seu pai, chamou-o novamente
e informou que pagaria o restante. Ao chegar a casa, Toninho disse ao pai que havia
encontrado o fazendeiro e esse resolvera aumentar o valor pago pelo serviço. Como acordado
ambos terminaram de capinar o pasto. 314

312
MATTOS, H. Das Cores do Silêncio: Significados da liberdade no Brasil escravista. Rio de Janeiro: Arquivo
Nacional, 1995/ Nova Fronteira, 1997.
313
RIOS, Ana Maria Lugão. “Campesinato negro no período pós-abolição: repensando Coronelismo, enxada e
voto.” In.: Cadernos IHU Idéias, Unisinos, São Leopoldo, n. 76, 2007.
314
MATTOS, H. Marcas da escravidão: Biografia, Racialização e Memória do Cativeiro na Historia do
Brasil. Tese para professor Titular no Departamento de Historia da UFF. Niterói, 2004, pg. 22.
171

Após alguns dias, o proprietário encontrou Seu Sebastião, pai de Toninho, na Igreja
matriz de Santa Isabel do Rio Preto. Ali mesmo mostrou que estava descontente por sua
atitude der ter mandado seu filho em seu lugar para dizer que iria abandonar o serviço. Diante
da situação, Toninho assumiu a culpa e apenas pediu ao seu pai para que lhe comprasse uma
mala vermelha para assim poder deixar a fazenda. Dali Toninho foi para a Baixada
Fluminense, como havia feito seus tios, e depois ingressou na carreira Militar.315 A partir
desse pequeno relato é possível inquirir a inexistência entre proprietários e filhos e netos de
ex-escravos qualquer laço ou relação social que impedia sua movimentação.
Também é possível apontar como motivações não-econômicas para a migração a
malha de transportes. Desde o final do século XIX a ferrovia transportava além do café para a
Capital, passageiros. Foram muitos os casos nas entrevistas que informavam a utilização do
trem como meio de transporte. José Gomes de Moraes, mais conhecido como Seu Juca, em
entrevista a mim, no dia 14 de junho de 2006, contou sobre a trajetória familiar. Em 1935 a
família se mudou para o centro da cidade de Barra do Piraí, e após um tempo de procura
conseguiu emprego na Estrada de Ferro Central do Brasil. Na época a linha de trem não
terminava em Japeri, como ocorre nos dias de hoje, mas sim em Barra do Piraí, conhecido
como um dos maiores entroncamentos ferroviários da América Latina. Apesar da estrada de
ferro chegar bem próximo a sua casa, o seu trabalho ficava na Central do Brasil. Todos os dias
pegava o trem para ir ao seu trabalho, retornando no final do dia.316 Ou seja, havia uma
facilidade na utilização de transporte público.
As escolhas dos locais de moradia e de trabalho dos migrantes podem ter sido
influenciadas pelas estações de trem. Coletando informações sobre as antigas estações de
trem, Seu Juca relembra de todas sem pular uma sequer, são elas: Barra do Piraí, Santana,
Morsing, Matos Costa, Mendes, Lèrio ferreira, Humberto, Paulo de Frontin, Palmeira, Serra,
Frade, Mario Belo, Japeri, Engenheiro Pedreira, Queimados, Austin, Morro Agudo, Nova
Iguaçu, (Mesquita, Edson, Nilópolis, Olinda, Anchieta, Ricardo de Albuquerque – Novas
estações), Deodoro, Marechal Hermes, Prefeito Bento Ribeiro, Oswaldo Cruz, Madureira,
Cascadura, Quintino, Piedade, Encantado, Engenho de Dentro, Todos os Santos, Méier,
Engenho Novo, Sampaio, Riachuelo, Rocha, São Francisco, Mangueira, São Cristovão, Lauro
Alvim e Dom Pedro. Cabe destacar que mesmo um migrante que desejasse ir para o centro da
Cidade do Rio de Janeiro, obrigatoriamente tinha de passar pelos municípios da Baixada

315
Idem.
316
Entrevista Seu Juca. Acervo UFF Petrobrás Cultural de Memória e Música Negra (AMMN)
172

Fluminense. Ou seja, atuais municípios como Japeri, Nova Iguaçu, Nilópolis e Mesquita eram
mais acessíveis e muito mais próximos ao Vale do Paraíba do que a cidade do Rio de Janeiro.
Em decorrência das violências, somadas a facilidade dos transportes, migrantes pretos
e pardos também buscavam regiões de moradia onde a sua inserção seria facilitada por conta
da sua cor. Até o fechamento dessa Tese ainda não há qualquer estudo sobre os últimos anos
da escravidão na Baixada Fluminense. Contudo, alguns trabalhos mostram que pelo menos até
meados do século XIX, escravos e libertos tinham domínio sobre áreas de comércio. Nielson
Bezerra, por exemplo, mostra como eles dominaram o comércio de farinha de mandioca e as
jangadas que faziam as transações pelo rio Iguassú. Isso pode ter facilitado à compra de
alforrias e a inserção social. Em comparação ao Vale do Paraíba a quantidade de escravos ali
existentes era ínfima e por essa possibilidade de compra da liberdade, muito provavelmente a
escravidão não foi levada até os últimos dias. Ou seja, muitos pretos e pardos que ali viviam
conseguiram se inserir socialmente. Não é a toa que o município teve três Vereadores Negros,
entre 1919 e 1935, são eles: Gaspar José Soares (5 mandatos), Izaac Manoel da Câmara (5
mandatos) e Peregrino Esteves de Azevedo (4 mandatos).
Desde o início das pesquisas sobre escravidão e da abolição sempre houve uma
preocupação com o destino daqueles que sofreram os flagelos do cativeiro e conquistaram o
privilégio da liberdade, no último quartel do século XIX. Ao contrário do que jornalistas e
especialistas do período apostavam, os ex-escravos não migraram em peso em direção aos
grandes centros. Boa parte preferiu residir nos mesmo locais onde foram cativos. Apenas seus
descendentes optaram, dentre outras estratégias, por migrar para regiões mais prósperas. Essa
migração para a Baixada não foi realizada apenas por pretos e pardos. Entre as décadas de
1920 e 1940 a região recebeu migrantes de diversas regiões do Brasil e do mundo. Cabe
destacar, em primeiro lugar, que tanto brancos quanto pretos e pardos originários do Vale do
Paraíba optaram por migrar para a Baixada Fluminense. No entanto a Baixada já havia
conhecido uma migração anterior, de imigrantes. Dentre esses últimos destacam-se os
portugueses, espanhóis, italianos e muitos asiáticos que escolheram a cidade de Nova Iguaçu
para residir e adquirir posses e pequenas propriedades. Ali se dedicavam ao cultivo de
diversas culturas, dentre as quais se destacavam a produção em larga escala da laranja. Os
nordestinos também compuseram boa parte dos migrantes. Apesar de estar em um número
reduzido, ao não conseguir se inserir no mercado de trabalho da capital federal e muito menos
do interior, viram na crescente Baixada Fluminense a oportunidade de ascender socialmente,
assim como de obter pequenas propriedades através da compra de lotes.
173

Capítulo 5

De Pés Cansados
O perfil dos migrantes da Baixada Fluminense (1888-1940)

Os migrantes que optaram por residir na Baixada Fluminense aparentemente possuíam


um projeto próprio. Este capítulo tem a finalidade de identificar quem eram essas pessoas: os
perfis, as origens, os empregos ocupados, e, principalmente, os projetos de vida de cada um
dos grupos que almejaram ali residir. Para tanto utilizarei tanto informações dos registros
civis de nascimento obtidas pelo método quantitativo, quanto os dados qualitativos obtidos
em entrevistas e em alguns registros mais descritivos.

O perfil do Migrante
Na década de 1920 a população da Baixada Fluminense aumentou significativamente,
e os dados dos registros civis de nascimento e de óbitos expressaram aumento demográfico da
região. De acordo com o gráfico 5.1 é possível notar que apesar da existência de sub-registros,
problema enfrentado até os dias de hoje no Brasil, no Município de Nova Iguaçu a busca pelo
registro de nascimento aumentou a partir do ano de 1914. No entanto os óbitos parecem ter
sofrido mais com os sub-registros. A partir dessa fonte, de todo modo, é possível levantar
alguns indícios da configuração e movimentação populacional no Sudeste.
Entre os registros civis de nascimento notou-se a existência de três tipos. No primeiro,
encontram-se os realizados dentro do prazo estipulado por lei, ou seja, até 60 dias contados a
partir do nascimento da criança.317 O segundo relaciona-se às crianças registradas
tardiamente, incentivadas por novas legislações que anulavam multas incididas sobre o atraso.
E por último os registros de pessoas que durante a adolescência ou na fase adulta procuraram
o cartório espontaneamente e declararam o seu nascimento. 318

317
Para uma melhor leitura das Leis que regiram o Registro Civil no Brasil, após 1889, ver: SENRA, N.,
História das Estatísticas Brasileiras, vol. 2, Rio de Janeiro, IBGE, Centro de Documentação e Disseminação
de Informações, 2006.
318
No dia 18 de fevereiro de 1931, o Decreto 19.710 obrigou os registros de nascimentos, não exigindo
pagamento de multas nem, tampouco, a necessidade de qualquer justificativa para o registro tardio. Nos anos de
1934 e 1939, foram coletados 540 registros que mencionavam esse decreto. No entanto, nada parece ter
incentivado mais a procura pelo registro civil do que o Decreto 1.116 de 24 de fevereiro de 1939, pois somente
no ano do funcionamento dessa lei foram feitos 1.187 registros tardios.
174

Gráfico 5.1 - Registros Civis de nascimentos e óbitos em números absolutos. Município de Nova
Iguaçu, 1889 – 1939.
2500

2000

1500
Nascimentos
1000 Óbitos

500

0
1889 1894 1899 1904 1909 1914 1919 1924 1929 1934 1939

Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.

No primeiro caso, das crianças registradas no tempo correto, as informações referentes


ao local de nascimento do pai e da mãe não são tão precisos. Por exemplo, se o pai e/ou mãe
nasceram na região norte, sul ou do Vale do Paraíba do Estado do Rio de Janeiro, é apenas
declarada a sua naturalidade como sendo “neste estado”. Todavia, o mesmo não ocorre com
os registros tardios, compreendendo os de crianças e os “auto-declarados”. A riqueza de
detalhes do segundo e do terceiro tipos de registros é superior ao primeiro, uma vez que
informam, além do local preciso de nascimento, as profissões exercidas na Baixada (no caso
do terceiro).319 Em virtude dessas qualidades, neste capítulo tanto os registros tardios quantos
os “auto-declarados” compõem a amostra que permitiu a análise da migração e dos
trabalhadores pretos e pardos migrantes, nesse artigo.
Dentre o rol de pessoas registradas tardiamente no Cartório de Nova Iguaçu, boa parte
era proveniente de diversos municípios e inclusive de outros estados. Dos 957 registros de
nascimentos tardios de crianças, 340 (35%) foram declarados como nascidas em outras
regiões. Na tabela 5.1 foram selecionados apenas os registros onde havia declaração do
nascimento fora do Município.320 As crianças declaradas como brancas haviam nascido
principalmente, nessa ordem, na Capital Federal, nos municípios que compõem Vale do
319
Na falta de uma terminologia específica nesta pesquisa optou-se por denominar esse grupo de “auto-
declarados.” Mesmo com a presença do registrado no cartório não é possível afirmar se a cor assentada foi
declarada por ele ou apenas assinalada de forma “autoritária” pelo cartorário. Contudo, o que torna essa
documentação importante é a ação do indivíduo na busca do primeiro registro de identidade civil.
320
Infelizmente em virtude da natureza do registro não é possível localizar a origem dos pais, uma vez que esse
dado normalmente não é informado. Portanto, em registros de crianças nascidas na Baixada não há referência ao
local específico do nascimento do pai.
175

Paraíba e no Nordeste.321 Tanto as crianças pardas quanto as pretas eram majoritariamente


naturais do Vale do Paraíba, com uma boa parcela também do Distrito Federal, seguindo-se o
Estado de Minas Gerais e apenas três pardos do Nordeste. Dos que vieram de outros estados,
destaca-se o percentual de brancos vindos do Nordeste. Desse modo, esses registros
demonstram não apenas uma migração familiar, mas também que elas provinham
principalmente do interior do Estado do Rio de Janeiro, sendo que entre pardos e negros o
percentual dos originários do Vale é mais relevante.
E qual é a origem dos migrantes jovens e adultos da região da Baixada Fluminense?
Na tabela 5.2 encontra-se os dados referentes às pessoas que buscaram o registro civil para
declarar o seu próprio nascimento. Nela, é possível notar que, independente da cor, o Vale da
Paraíba aparece como o principal local de origem. Porém aqueles registrados como brancos e
pardos provinham principalmente, nesta ordem, de municípios do Vale do Paraíba, da região
Nordeste, da Capital Federal e de outras localidades do interior do Estado do Rio de Janeiro.
Já os migrantes identificados como pretos eram originários principalmente, nesta ordem, de
municípios do Vale do Paraíba, de outros municípios do interior do Estado do Rio de Janeiro,
e de Minas Gerais. No conjunto, portanto, as correntes migratórias para a Baixada eram
basicamente duas: do próprio Sudeste e do Nordeste, isto é, o mesmo quadro que encontra-se
na tabela 5.1, quando trabalha-se com dados de famílias.

321
Apesar da possível variação semântica das categorias de cor “branca”, “pardo” e “preto” ao longo de 50 anos,
neste artigo optei por utilizá-las como são apresentadas na documentação.
176

Tabela 5.1 - Região de Nascimento das crianças migrantes (%) registradas tardiamente na Baixada
Fluminense, de acordo a cor. Município de Nova Iguaçu, 1919-1939.

Branca Parda Preta Total geral


abs. % abs. % abs. % abs. %
Regiões do País Norte 4 2,4 - - - - 4 1,2
Centro-Oeste - - - - - - - -
Nordeste 25 14,9 3 2,7 - - 28 8,2
Sul - - - - - - - -
Subtotal 1 29 17,3 3 2,7 - - 32 9,4

Estados do Sudeste Minas Gerais 7 4,2 7 6,2 9 15,0 23 6,7


Espírito Santo - - 2 1,8 - - 2 0,6
São Paulo 3 1,7 5 4,5 - - 8 2,3
Subtotal 2 10 5,9 14 12,5 9 15,0 33 9,6

Estado do Rio de
Janeiro Capital Federal 55 32,7 29 25,9 8 13,4 92 27,1
Metropolitana e
Interior 20 11,9 10 8,9 4 6,6 34 10,0
Vale do Paraíba 54 32,2 56 50,0 39 65,0 149 43,9
Subtotal 3 129 76,8 95 84,8 51 85,0 275 81,0
Total geral 168 100 112 100 60 100 340 100

Fonte: 1º Oficio de Registro de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.

Tabela 5.2 - Região de Nascimento dos “auto-declarantes” migrados para a Baixada Fluminense.
Município de Nova Iguaçu, 1919-1939.

Brancos Pardos Pretos Total


abs. % abs. % abs. % abs. %
Regiões do País Norte 4 1,6 3 1,3 − − 7 1,1
Centro-Oeste 1 0,4 1 0,4 − − 2 0,3
Nordeste 72 29,1 52 22,4 5 3,4 129 20,6
Sul 3 1,2 2 0,9 1 0,7 6 1,0
Subtotal 1 80 32,3 58 25,0 6 4,1 144 23,0

Estados do Sudeste Minas Gerais 17 6,9 17 7,3 11 7,5 45 7,2


Espírito Santo 2 0,8 1 0,4 3 2,1 6 1,0
São Paulo 6 2,4 3 1,3 − − 9 1,4
Subtotal 2 25 10,1 21 9,0 14 9,6 60 9,6

Estado do Rio de Janeiro Capital Federal 36 14,6 31 13,4 6 4,1 73 11,6


Metropolitana e Interior 29 11,8 27 11,7 18 12,2 74 11,8
Vale do Paraíba 77 31,2 95 40,9 103 70,0 275 44,0
Subtotal 3 142 57,6 153 66,0 127 86,3 422 67,4
Total Geral 247 100 232 100 147 100 626 100
Fonte: 1º Oficio de Registro de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.
177

Como se sabe, no Nordeste a população livre de cor era mais antiga - já que o Sudeste
concentrou a maior parte dos escravos no século XIX, sobretudo na segunda metade – e,
portanto, mais miscigenada, não só com brancos, mas também com índios. A maioria de
brancos e pardos que migraram para a Baixada Fluminense, em comparação aos registrados
como pretos, pode ser explicada pelo processo de empardecimento da população, visualizado
através dos censos de 1872, 1890 e 1940 e dos registros civis de nascimento ao longo dos
anos.322
Na tabela 5.3 entre encontram-se os possuem como origem principalmente o nordeste,
Minas Gerais, a Capital Federal e o interior do Rio de Janeiro. Já pardos e pretos eram
originários principalmente do Distrito Federal e do interior, e somente duas pessoas são
registradas como originárias do Vale do Paraíba. Além do alto número de sub-registros, nos
óbitos há também poucas informações sobre os falecidos, principalmente àqueles recém
chegados à região, uma vez que ainda não possuíam amplas redes sociais capazes de
incorporar mais detalhes aos seus registros de óbitos.

Tabela 5.3 - Região de Nascimento (%) dos óbitos de migrados para a Baixada Fluminense. Município de
Nova Iguaçu, 1889-1939.

Total
Branca Parda Preta geral
abs. % abs. % abs. % abs. %
Regiões do País Centro-Oeste 1 0,1 - - - - 1 0,1
Nordeste 25 3,5 25 3,9 10 2,2 60 3,3
Sul 2 0,3 1 0,2 - - 3 0,2
Subtotal 1 28 3,9 26 4,1 10 2,2 64 3,6

Estados do Sudeste Minas Gerais 29 4,1 37 5,8 40 9 106 5,9


Espírito Santo 2 0,3 3 0,5 - - 5 0,3
São Paulo 9 1,3 2 0,3 - - 11 0,6
Subtotal 2 40 5,6 42 6,6 40 9 122 6,8

Estado do Rio de
Janeiro Capital Federal 73 10,2 38 5,9 26 5,8 137 7,6
Metropolitana e
Interior 573 80,2 531 83,2 369 82,7 1473 81,9
Vale do Paraíba - - 1 0,1 1 0,2 2 0,1
Subtotal 3 646 90,5 570 89,3 396 88,8 1612 89,7
Total Geral 714 100 638 100 446 100 1798 100

Fonte: 1º Oficio de Registro de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.

322
Ver capítulo 2.
178

Dentre os migrantes os homens parecem ter dominado, pelo menos na análise conjunta
da migração para a Baixada Fluminense nos anos de 1934 a 1939. Entre os brancos os
homens correspondem a 71,6%, entre os pardos eles são 73,3% e entre os pretos 83,0%.
Enquanto o comportamento de migração dos pardos se assemelha ao dos brancos, o da
população registrada como preta destoa bastante. Para se ter uma noção, ao calcular a razão de
masculinidade, a de brancos foi de 252,8, a de pardos 274,1 e a de pretos surpreendentes 488.
Ou seja, a migração de pretos para a Baixada foi feita quase que exclusivamente por homens.
A maior parte de migrantes para a Baixada Fluminense era formada por homens,
principalmente jovens. No gráfico 5.2, a seguir, quando analisados todos os migrantes,
independente de sua cor fica claro que a maioria deles possuíam, pelo menos no período em
que migraram, entre 21 e 30 anos. Contudo, não é desprezível a quantidade de pessoas do
sexo masculino entre 31 a 45 anos. Já as mulheres, que como já demonstrado estavam em
menor número, a maioria que migrou encontrava-se entre 21 e 25 anos.

Gráfico 5.2 - Sexo etário (%) de todos os migrantes nos registros civis de
nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1934-1939.

80 ou Mais
71 - 75
66 - 70
61 - 65
56 - 60
51 - 55
46 - 50
41 - 45
36 - 40
31 - 35
26 - 30
21 - 25
16 - 20
11 - 15
6 - 10
0-5

-100 -80 -60 -40 -20 0 20 40 60 80 100

Masculino % Feminino %

Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.

Contudo ao se analisar a pirâmide sexo-etário por cor é possível denotar


comportamentos diferenciados desses migrantes. Nos gráficos 5.3, 5.4 e 5.5 somei os anos de
1934 e 1939 para se ter um panorama geral da migração. Comparando brancos, pardos e
pretos fica nítida, em primeiro lugar, a preponderância de jovens do sexo masculino entre 21 e
30 nos três grupos. Entre as mulheres, apenas as brancas corresponderam a essa mesma idade,
179

já as pardas e pretas ficaram restritas na faixa etária de 21 a 25 anos. Contudo a maior


diferença está presente nos migrantes com idades acima de 31 anos. Apesar dos três gráficos
demonstrarem que os idosos não migravam, na pirâmide dos brancos eles estão bem presentes
até os 60 anos, enquanto os pardos se aproximam dos pretos com a quase inexistência deles.

Gráfico 5.3 - Pirâmide sexo-etário (%) de todos os migrantes nos registros


civis de nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1934-1939.

80 ou Mais
71 - 75
66 - 70
61 - 65
56 - 60
51 - 55
46 - 50
41 - 45
36 - 40
31 - 35
26 - 30
21 - 25
16 - 20
11 - 15
6 - 10
0-5

-100 -80 -60 -40 -20 0 20 40 60 80 100

Masculino Feminino

Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.


180

Gráfico 5.4 - Pirâmide sexo-etário (%) de todos os migrantes pardos nos registros
civis de nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1934-1939.

80 ou Mais
71 - 75
66 - 70
61 - 65
56 - 60
51 - 55
46 - 50
41 - 45
36 - 40
31 - 35
26 - 30
21 - 25
16 - 20
11 - 15
6 - 10
0-5

-100 -80 -60 -40 -20 0 20 40 60 80 100

Masculino Feminino
Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.

Gráfico 5.5 - Pirâmide sexo-etário (%) de todos os migrantes pretos nos registros
civis de nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1934-1939.

80 ou Mais
71 - 75
66 - 70
61 - 65
56 - 60
51 - 55
46 - 50
41 - 45
36 - 40
31 - 35
26 - 30
21 - 25
16 - 20
11 - 15
6 - 10
0-5

-100 -80 -60 -40 -20 0 20 40 60 80 100

Masculino Feminino
Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.
181

A partir dessa análise geral dos migrados é possível refletir sobre quatro situações. A
primeira consiste na possível melhor qualidade de vida dos brancos antes mesmo da migração
uma vez que não apenas os jovens migraram, mas toda a família junta. A segunda se refere ao
tipo de migração. Enquanto as famílias de pardos e pretos preferiram mandar seus jovens na
frente, os brancos migravam em família. Em terceiro, pretos e pardos podem ter optado por
migrar anos após os brancos. Por último pode-se supor que sendo os brancos a primeiro
chegar a região da Baixada Fluminense, eles conseguirem obter rapidamente um ofício que os
remunerasse bem, isto é, a inserção social dos brancos pode ter sido facilitada por sua cor e
conhecimento profissional. Logo isso teria provocado uma ascensão social mais rápida em
relação a pardos e pretos, o que motivou a migração de seus parentes mais rapidamente.
Com intuito de responder as essas questões, procederei inicialmente uma análise de
marco temporal, para enfim analisar as perspectivas de disputa de mercado a partir do local de
origem e, principalmente, da diferença de cor.

As Correntes migratórias e os perfis dos migrados.


Como o observado no primeiro gráfico deste capítulo, os migrantes começaram a
chegar a Baixada a partir de 1914, mas nos anos de 1934 e 1939 que foi possível captá-los.
Isso se explica em parte pela natureza da fonte. O mais importante a ser destacado é a
importância do ato do registro. Ao se registrar, na maior parte dos casos na fase adulta, muito
provavelmente o declarante já era residente da região e possuía alguma estabilidade. Ou seja,
possivelmente já tinha algum local de moradia, contraíra matrimonio assim como tivera
filhos. Alexandre Gonçalves Barboza Junior, lavrador casado com Adalgiza Travassos
Barboza, era natural de Mar de Espanha, no estado de Minas Gerais, na região do Vale do
Paraíba, registrou no dia 14 de setembro de 1934 seus 3 filhos: José Maria Barboza
(26/09/1917), Geraldo Travassos Barboza (05/12/1918) e Margarida Maria Barboza
(02/09/1919). Aparentemente ele migrou inicialmente sozinho, e só posteriormente trouxe
esposa e filhos, registrando todos no mesmo dia.323 O registro civil de nascimento do “auto-
declarante” é um ato que simboliza a sua estabilidade. Portanto, ao atentar para o dia de seu
registro é licito supor que ele possa ter chegado ou no mesmo mês, ou em anos anteriores.
Em segundo lugar pode-se também apontar a busca mais incessante por esses
migrantes do registro civil de nascimento como consequência de sua estabilidade, a
necessidade de formalizar o seu emprego. O aumento de “auto-declarantes” em 1934 pode ser

323
RCPN, livro 49, reg. 6222, 6223 e 6224 de 14/09/1934;
182

explicado em parte pela promulgação e divulgação de novos direitos conquistados pelos


trabalhadores através da constituição de 1934. Mas nada parece ter incentivado mais aos
empregadores a regularizar os seus empregados do que a criação da Justiça do Trabalho no
mesmo ano.324
Esse aumento por ano de registros de “auto-declarantes” pode ser observado nos
registros civis. Na tabela 5.3 separou-se por cor aqueles que migraram para a Baixada
Fluminense. Nela é possível observar o como a migração de acordo a cor. Enquanto brancos e
pretos deslocaram-se na mesma proporção nos anos de 1934 e 1939, os pardos parecem ter
preferido vir para a região da Baixada apenas nas proximidades da década de 40.
Provavelmente a situação econômica em suas regiões de origem não eram tão ruins quanto a
de brancos pobres e de pretos trabalhadores. Ou até mesmo os empregos existentes, pelo
menos em 1934, não eram atraentes para essa parcela da população.
Por ano também é possível visualizar a região de origem que mais incentivou
migrantes para a Baixada (tabela 5.5). Em 1934 os locais que mais expulsaram trabalhadores
foram as regiões do interior do Estado do Rio de Janeiro, da Capital Federal, do Nordeste e do
Vale do Paraíba respectivamente. Em 1939 o panorama não parece ser tão diferente, uma vez
que o Nordeste, apesar de seu número absoluto aumentar, diminui a sua proporção dentro dos
migrados que optaram pela Baixada.

Tabela 5.4 - Migrantes para a Baixada Fluminense (%) por ano nos registros civis de nascimento.
Município de Nova Iguaçu, 1924-1939.

Branca Parda Preta Total geral


abs. % Abs. % abs. % abs. %
1924 1 0,3 1 0,3 - - 2 0,3
1929 4 1,2 2 0,6 - - 6 0,7
1934 160 48 115 36,7 88 43,1 363 42,6
1939 168 50,5 196 62,4 116 56,9 480 56,4
Total geral 333 100 314 100 204 100 851 100

Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.

324
CARVALHO, José Murilo. Cidadania no Brasil. Um longo caminho. RJ: Ed. Zahar, 2000.
183

Tabela 5.5 - Região de nascimento (%) dos migrantes nos anos de 1934 e 1939 por cornos registros civis de
nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1934-1939.

1934 1939 Total


abs. % abs. % abs. %
Regiões do País Norte 4 1,5 3 0,8 7 1,1
Centro-Oeste 1 0,4 1 0,3 2 0,3
Nordeste 51 19,3 80 21,2 131 20,4
Sul 3 1,1 4 1,1 7 1,1

Estados do Sudeste Minas Gerais 19 7,2 26 6,9 45 7,0


Espírito Santo 4 1,5 2 0,5 6 0,9
São Paulo 4 1,5 6 1,6 10 1,6

Estado do Rio de Janeiro Capital Federal 40 15,2 35 9,3 75 11,7


Metropolitana e Interior 30 11,4 46 12,2 76 11,9
Vale do Paraíba 108 40,9 174 46,1 282 44,0
Total 264 100 377 100 641 100

Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.

Ao comparar os anos de 1934 e 1939 é possível visualizar as correntes migratórias


para a Baixada Fluminense, de acordo com cada região de origem. Para os migrantes da
região norte, Centro-oeste, Sul e da Capital Federal a corrente manteve-se equilibrada, não
ocorrendo uma diferença em larga escala na comparação entre os anos. O número de
migrantes em 1939 aumentou somente para os originários do Vale do Paraíba e do Nordeste.
Provavelmente nessas regiões as crise se acentuou no meio da década de 1930.
Nos primeiros anos de migração houve uma predominância masculina na Baixada
Fluminense. Na tabela 5.6, abaixo, nota-se como esse processo de migração ocorreu. Em 1934
as mulheres correspondiam a apenas 14% dos migrados, para 85% de homens. Já no ano de
análise seguinte a quantidade de mulheres aumenta para 32%. A razão de masculinidade entre
todos os migrantes é muito maior em 1934, atingindo um número de 594,7 e no ano de 1939
passa para 206,5. Sugere-se então que 76,40% de todos os migrantes chegam em 1939.
184

Tabela 5.6 - Relação sexo por ano de migrantes nos registros civis de nascimento. Município de Nova
Iguaçu, 1934 e 1939.

Masculino Feminino Total geral


abs. % abs. % abs. %
1934 226 85,6 38 14,4 264 100
1939 254 67,4 123 32,6 377 100
Total geral 480 74,8 161 25,2 641 100

Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.

Em primeiro lugar, é mister salientar que por mais que as os homens tenham sido os
pioneiros na migração as mulheres também fizeram esse empreendimento. Não é novidade a
migração desse grupo mesmo antes da abolição. De acordo com Jean Lebrum

“As mulheres do século XIX movem-se mais do que se pensa. Participam


das migrações camponesas vindas como domésticas ou costureiras,
burguesas médias contratadas como perceptoras, não raro muito longe de
seu país. Elas viajam e (às vezes) exploram. O mundo muda, modificam-se
as fronteiras, mas também os sexos.” 325

Ou seja, nem sempre as mulheres tendem a migrar na companhia ou em função dos


seus cônjuges. Sua migração tem características próprias, nem sempre associadas ao processo
desenvolvimentista de uma região.
Já analisando a migração da mulher em função da presença do marido, é possível
chegar a duas suposições. Pode-se supor que a grande quantidade de homens migrados, 5 para
1, em 1934, provavelmente exigiu que contraíssem matrimonio com as mulheres locais. Ou,
já casados em sua região de origem, viajavam sem a companhia das esposas e quando
obtiveram algum grau de estabilidade e/ou mesmo mobilidades social as traziam num
segundo momento, em alguns casos, em 1939. Essa análise está ligada a todos os migrantes,
para observar melhor esse movimento irei analisar grupo por grupo migrante para a Baixada
posteriormente. No momento ainda cabe analisar a corrente migratória.
Comparando as correntes migratórias em 1934 e 1939 já é possível denotar uma
grande diferença de comportamento entre esses cinco anos. Nos dois anos a maior parte dos
migrados encontra-se nas faixas etárias de 21 a 30 anos. Porém a maior diferença encontra-se
nas idades acima de 45 anos. No ano de 1934 a quantidade de pessoas entre 31 e 45 anos
325
LEBRUN, Jean, “Palavras de mulheres” in: PERROT, M. Mulheres públicas. SP: UNESP, 1998, p. 86 apud
SILVA, Lucia Helena de Oliveira Construindo uma Nova Vida: Migrantes Paulistas Afro-descendentes na
Cidade do Rio de Janeiro no Pós-Abolição (1888-1926), Tese de Doutorado em História Apresentada na
Universidade Estadual de Campinas. 2001.
185

manteve-se praticamente a mesma, mas somente em 1939 os homens acima de 46 anos


aparecem. Muito provavelmente vieram numa segunda etapa de migração, quando seus filhos
e netos já estabilizados, conquistaram ascensão social, podiam trazê-los de suas localidades de
origem. Afinal, Nova Iguaçu em 1939 já havia crescido urbana e economicamente. Acredito
também que um dos maiores atrativos para os idosos tenha sido a inauguração do Hospital de
Iguassú em 1938.

Gráfico 5.6 - Pirâmide Sexo-Etária (%) dos migrados auto-declarantes em


1934, nos registros civis de nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1934.

80 ou Mais
71 - 75
66 - 70
61 - 65
56 - 60
51 - 55
46 - 50
41 - 45
36 - 40
31 - 35
26 - 30
21 - 25
16 - 20
11 - 15
6 - 10
0-5

-100 -80 -60 -40 -20 0 20 40 60 80 100

Masculino Feminino
Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.
186

Gráfico 5.7 - Pirâmide Sexo-Etária (%) dos migrados auto-declarantes em


1939, nos registros civis de nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1939.

80 ou Mais
71 - 75
66 - 70
61 - 65
56 - 60
51 - 55
46 - 50
41 - 45
36 - 40
31 - 35
26 - 30
21 - 25
16 - 20
11 - 15
6 - 10
0-5

-100 -80 -60 -40 -20 0 20 40 60 80 100

Masculino Feminino
Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.

Os gráficos 5.8 a 5.13 analisam por sexo e idade as duas ondas de migração
acompanhadas nos anos de 1934 e 1939. Em 1934 a maior parte dos migrantes está na faixa
etária de 21 a 30 anos. Contudo já no ano de 1939 esse número cai drasticamente para os
brancos, e o gráfico perde sua forma de pirâmide. Outro detalhe é a quantidade de mulheres
brancas que se registram em 1939. Se visualizadas numericamente são até superiores aos
homens entre 21 e 30 anos. Caso sua migração esteja ligado ao laço conjugal isso significa
dizer que começaram a chegar quando seus maridos estavam em uma melhor condição de
vida e de moradia. Se as mulheres de brancos chegaram antes é muito provável que tenham
conseguido ascender socialmente na frente de pardos e pretos.
A pior situação se encontrava entre os pretos, tanto em 1934 quanto em 1939. Se os
pardos no primeiro momento ainda conseguiram levar as mulheres para a migração, a
quantidade de pretas é ínfima. Em 1939 a situação parece ser melhor para os pardos do que
para os pretos. Seu movimento aparenta muito com o de brancos dos cinco anos anteriores, o
que já pode demonstrar certa mobilidade social na região. Nesse mesmo ano, apesar de uma
quantidade de idosos ínfima, a maior parte dos migrados tinham entre 21 e 25.
187

Gráfico 5.8 - Pirâmide sexo-etária (%) dos migrantes brancos no ano de


1934, nos registros civis de nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1934.
80 ou Mais
71 - 75
66 - 70
61 - 65
56 - 60
51 - 55
46 - 50
41 - 45
36 - 40
31 - 35
26 - 30
21 - 25
16 - 20
11 - 15
6 - 10
0-5

-100 -50 0 50 100


Masculino Feminino

Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.

Gráfico 5.9 - Pirâmide sexo-etária (%) dos migrantes pardos no ano de


1934, nos registros civis de nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1934.

80 ou Mais
71 - 75
66 - 70
61 - 65
56 - 60
51 - 55
46 - 50
41 - 45
36 - 40
31 - 35
26 - 30
21 - 25
16 - 20
11 - 15
6 - 10
0-5

-100 -50 0 50 100

Masculino Feminino

Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.


188

Gráfico 5.10 - Pirâmide sexo-etária (%) dos migrantes pretos no ano de 1934nos
registros civis de nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1934.

80 ou Mais
71 - 75
66 - 70
61 - 65
56 - 60
51 - 55
46 - 50
41 - 45
36 - 40
31 - 35
26 - 30
21 - 25
16 - 20
11 - 15
6 - 10
0-5

-100 -50 0 50 100

Masculino Feminino

Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.

Gráfico 5.11 - Pirâmide Sexo-etária de Brancos (%) ao total de cada


sexo, 1939, nos registros civis de nascimento. Município de Nova
Iguaçu, 1939.

71 - 75

61 - 65

51 - 55

41 - 45

31 - 35

21 - 25

11 - 15

0-5

-100 -80 -60 -40 -20 0 20 40 60 80 100

Masculino % Feminino %
Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.
189

Gráfico 5.12 - Pirâmide Sexo-etária de Pardos (%) ao total de cada


sexo, 1939, nos registros civis de nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1939.

80 ou Mais
71 - 75
66 - 70
61 - 65
56 - 60
51 - 55
46 - 50
41 - 45
36 - 40
31 - 35
26 - 30
21 - 25
16 - 20
11 - 15
6 - 10
0-5

-100 -80 -60 -40 -20 0 20 40 60 80 100

Masculino % Feminino %

Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.

Gráfico 5.13 - Pirâmide Sexo-etária de pretos (%) ao total de cada


sexo, 1939, nos registros civis de nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1939.

80 ou Mais
71 - 75
66 - 70
61 - 65
56 - 60
51 - 55
46 - 50
41 - 45
36 - 40
31 - 35
26 - 30
21 - 25
16 - 20
11 - 15
6 - 10
0-5

-100 -80 -60 -40 -20 0 20 40 60 80 100

Masculino % Feminino %

Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.


190

Apesar da aparente dificuldade dos pretos em relação aos brancos, no que se refere a
inserção social na região, esses dados podem demonstrar exatamente o inverso quando se
analisa a região de origem. Se os brancos migraram primeiro, como demonstrei nas tabelas
anteriores provinham principalmente do Nordeste e do Vale do Paraíba, isso significa dizer
que a sua situação econômica piorou muito antes do que para pardos e pretos. Lavradores
pobres e/ou proprietários de pequenas roças brancos podem ter sentido os efeitos da crise no
Nordeste e no Vale do Paraíba muito antes do que pardos e pretos. Explico-me. No caso dos
nordestinos, nada mais incentivou a migração do que a seca que assolou a região no início da
Primeira República.326 Para os que residiam no campo, a erosão do solo, as pragas, a
diminuição do emprego por conta do café e a desvalorização do café afetaram muito mais
rapidamente o pequeno produtor no Vale do Paraíba. Provavelmente para sobreviver tiveram
de abrir do seu último bem, a terra, para os novos produtores que entravam na região. Afinal,
toda área desgastada ainda servia como pasto para o gado que começava a se tornar a
alternativa mais viável economicamente para a região.
A situação de pardos e pretos no Vale do Paraíba, no mesmo período aparenta ser
diferente da enfrentada por brancos. Possuindo ou não ascendência escrava, certo é que em
muitas fazendas, como a bibliografia demonstrou anteriormente, as famílias de ex-cativos
permaneceram nas fazendas, funcionando como uma reserva de trabalhadores para os
fazendeiros.327 Nessas comunidades a maior parte dos moradores se reconhecia como parente
entre si e ali todos se ajudavam. Assim descreveu Manoel Seabra sobre a Comunidade São
José da Serra no período de seus pais e avós.328 Por terem famílias estendidas, para pretos
e/ou pardos descendentes diretos ou não da escravidão era mais fácil a sua manutenção no
local de origem do que comparado ao lavrador branco de pequena propriedade. A família fez
toda a diferença para o processo de migração. Por demoraram a sentir os efeitos da crise da
café, migraram posteriormente aos brancos para a Baixada Fluminense.
Contudo, uma questão ainda paira no ar. Mesmo chegando após os brancos e pardos e
disputar o mercado de trabalho eles conseguiram se inserir socialmente? Os melhores
empregos já estavam ocupados? Pata atender a essas questões, principalmente a da disputa de

326
Irei analisar esse grupo em separado nas linhas abaixo.
327
RIOS, A. L. Família e Transição (Famílias negras em Paraíba do Sul, 1872-1920). Dissertação de
Mestrado apresentada no Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal Fluminense, Niterói,
1990.
328
Entrevista Manoel Seabra –Acervo Memórias do Cativeiro.
191

mercado de trabalho, proponho analisar em separado os principais grupos migrantes para a


Baixada Fluminense: do Vale do Paraíba, do Nordeste e os Imigrantes europeus.

Os migrantes do Vale do Paraíba


Vô Dionísio, assim denominado pelos três netos entrevistados, saiu da Fazenda São
José da Serra no período pós-abolição e fez uma “rocinha” na propriedade ao lado,
denominada “Empreitada”, ambas localizadas no Município de Valença, na região do Vale do
Paraíba Fluminense. Ali ele criou e casou boa parte de seus filhos. De acordo com o neto
Manoel Seabra, “ele era carreiro e tinha as pernas tortas de tanto carregar peso.”329 Além
disso, “Dionísio era maestro e tocava clarinete, mas é lembrado por netos e bisnetos como um
homem terrível que tratava os filhos com mão de ferro, a figura típica do ‘pai senhor.”330 Seus
descendentes não tiveram as mesmas oportunidades de trabalho e de acesso a terra. Ao longo
dos anos de 1920, os filhos homens de Vô Dionísio, nascidos após a abolição, Manoel
(20/01/1899), José (23/09/1903) e Joaquim (03/03/1908), abandonaram a fazenda para
trabalhar na plantação e colheita de laranja, no antigo Município de Iguassú,331 localizado na
Baixada Fluminense. E após longas investidas na região, retornaram para levar seus irmãos
mais novos. 332
Seguindo o procedimento de buscar as trajetórias de descendentes diretos de ex-
escravos do Vale do Paraíba, buscou-se analisar as informações de 16 entrevistas, arquivadas
no Laboratório de História Oral e Imagem da UFF, realizadas entre 1994 e 2001, por Ana
Lugão Rios.333 A fim de produzir uma amostra significativa de indivíduos, foram
contabilizadas todas as pessoas mencionadas nos relatos (exceto as que morreram na infância

329
A genealogia familiar qualitativa de Dionísio foi construída a partir de três entrevistas realizadas com seus
netos moradores da Comunidade de Remanescentes de Quilombos de São José da Serra: Dona Zeferina, 1995;
Manoel Seabra, 1998, 2003 e 2005; e Florentina Seabra do Nascimento, 2003 e 2006.
330
Hebe Mattos, Marcas da escravidão: Biografia, Racialização e Memória do Cativeiro na História do
Brasil, [Tese para professor Titular] Departamento de Historia da UFF, Niterói, 2004.
331
O antigo Município de Iguassú compreendia os atuais municípios emancipados de: Japeri, Duque de Caxias,
São João de Meriti, Queimados, Nilópolis, Mesquita e Belford Roxo.
332
A genealogia de Dionísio foi publicada parcialmente em Hebe Mattos. op. cit., 2004, e, posteriormente,
complementada em Carlos Eduardo da Costa, Campesinato Negro no Pós-Abolição: Migração, Estabilização
e os Registros Civis de Nascimentos. Vale do Paraíba e Baixada Fluminense, RJ. (1888-1940). Dissertação
[Mestrado em História Social], Programa de Pós-Graduação em História Social, UFRJ, 2008. Manoel: Livro IV,
fl. 181, termo 8 – novembro de 1898, AESIRP; José: Livro V, fl. 37, termo 4 – 23 de setembro de 1903, AESIRP
e Joaquim: Livro V, fl. 89, termo 73 - 3 de março de 1908, AESIRP.
333
As entrevistas encontram-se no Acervo Memórias do Cativeiro (MC) e encontram-se transcritas seguinte
sítio: www.historia.uff.br/labhoi
192

ou adolescência), e foi considerada migração apenas os deslocamentos duradouros para fora


do município onde o antepassado escravo viveu. Os depoimentos foram coletados em
diversos municípios do Vale do Paraíba e proximidades (Valença, Paraíba do Sul, Bananal,
Juiz de Fora e Bias Fortes). Foram contabilizadas 466 pessoas, nascidas entre os anos de 1850
a 1959. Desse total, 137 (29,4%) migraram do município de origem, em relação aos que
tiveram como opção a permanência 329 (70,6%).

Gráfico 5.14 - Percentual de migrantes por sexo e década de nascimento em relação ao total de
entrevistados.
100
90
80
70
60
50
40 Homens

30 Mulheres
20
10
0

Fonte: Entrevistas arquivadas LABHOI-UFF.

O gráfico 5.14 apresenta, percentualmente, por sexo e década de nascimento, os


indivíduos que experimentaram migrar para fora do município de origem. Apesar de a
permanência ter sido a norma entre os que vivenciaram a passagem da escravidão para a
liberdade, boa parte dos nascidos entre 1850 a 1869 experimentaram algum tipo de migração.
Em primeiro lugar, como visto pelo gráfico, eram homens, provavelmente solteiros, eles se
enquadram na primeira tipologia de Ana Rios, ou seja, provavelmente migraram dentro do
interior do Estado, de propriedade para propriedade.334
Apesar de ex-escravos terem vivenciado algum tipo de deslocamento, a migração
definitiva aparentemente esteve mais presente nas trajetórias de vida dos nascidos no pós-
abolição. De acordo com as entrevistas, esse fenômeno teve início em meados da década de
20, tendo o ápice em 1930, e finalizado em meados de 1940. De acordo com o gráfico 5.14 a
maioria é composta pelo sexo masculino, e na década de 30 teriam entre 10 e 30 anos,
exatamente as idades de Manoel, José e Joaquim, filhos de Vô Dionísio. Isto significa dizer
que os homens nascidos entre as décadas de 1900 a 1919 não encontraram as mesmas

334
Podem estar inseridos na primeira trajetória de migração apontada por Ana Rios anteriormente.
193

condições de vida dos ancestrais nas fazendas de café, em sua fase jovem, e por isso optaram
pela estratégia da migração definitiva, como apontado anteriormente por Ana Rios.
Já as mulheres migrantes são mais expressivas entre as nascidas nas décadas de 1910-
19 e 1920-29. Muitas delas, a exemplo de Leonor, migraram seguindo parentes.335 Desse
modo, apesar do número maior de homens migrando, as mulheres também migraram,
provavelmente após a estabilização dos parentes do sexo masculino.
A Baixada Fluminense, região metropolitana do Rio de Janeiro, aparece como o
destino preferido dos filhos e netos de ex-escravos do Vale do Paraíba. De acordo com as
entrevistas realizadas, das 137 pessoas que tiveram alguma experiência de deslocamento em
sua trajetória, 54 (39,41%) não tiveram um destino específico, espalhando-se quase sempre
por centros em ascensão como, por exemplo, a cidade de Juiz de Fora; todavia, os 83 (60,6%)
restantes direcionaram-se para a Baixada.
O gráfico 5.15 aponta a porcentagem daqueles que optaram por migrar para a
Baixada Fluminense, por ano de nascimento, em relação ao total de migrados. Tomando mais
uma vez a década de 30 como o momento de ápice da migração para essa região, nota-se que,
dentre os mais idosos, nascidos entre 1850 e 1879, e que provavelmente vivenciaram a
escravidão, 100% dos que tiveram alguma experiência de migração foram para lá. Semelhante
trajetória foi vivenciada por Dionísio e sua esposa Zeferina. Após seus filhos se estabilizarem
em Cabuçu – atual Bairro do Município de Nova Iguaçu - eles se mudaram para a Baixada
Fluminense já com idades avançadas, pois como apontam seus netos, ali havia facilidades
geradas pelo crescimento urbano, como por exemplo o Hospital de Iguassú, em pleno
funcionamento.336 No entanto, é a migração de jovens a que mais chama atenção. São os
nascidos entre 1900 e 1929 que mais optaram por residir na Baixada Fluminense. Como a
experiência de migração geralmente ocorria quando estas pessoas estavam ou em fins da
adolescência ou, o mais comum, em torno dos vinte anos, pode-se dizer que os nascidos entre
1890 e 1929 incrementaram as migrações para a Baixada entre 1910-1949, caindo
significativamente esse movimento nas décadas de 1950 e 1960 entre os nascidos entre 1930 e
1949, movimento retomado somente na década de 70, pela geração nascida entre 1950 e 1959.

335
Entrevista Izaquiel Inácio - AMC.
336
Entrevista Florentina Seabra,1003 - AMC.
194

Gráfico 5.15: Percentual de migrantes para a Baixada Fluminense por sexo e década de nascimento, em
relação ao total dos migrados nas entrevistas realizadas no Vale do Paraíba.
100
80
60
40
20
0

Fonte: Entrevistas arquivadas LABHOI-UFF.

Se ao longo das primeiras décadas da recém-inaugurada República os jovens


descendentes de escravos do Vale do Paraíba encontravam dificuldade em angariar empregos
nessa região, em virtude da desvalorização da produção do café no cenário internacional, e da
entrada maciça de criação de gado – que necessitava cada vez menos de mão de obra - a
Baixada Fluminense começava a exportar as suas primeiras laranjas.
A produção de laranjas, em pequenas chácaras, começou timidamente na década de
1920, tendo seu auge em fins de 1940.337 De acordo com o censo do mesmo ano, em Nova
Iguaçu dentre as 1.529 propriedades, havia 1.398 estabelecimentos rurais declarados como
produtores de laranja. Isso significa dizer que 92% das propriedades localizadas no Município
de Nova Iguaçu estavam direcionados à produção de laranjas.338 Em virtude do crescimento
urbano, aliado aos incentivos governamentais, seja na política de saneamento, seja no
investimento à exportação, tornou-se necessário cooptar mão de obra para subsistir esse novo
empreendimento.
Em virtude desse processo, no final da Primeira República ocorreu uma migração em
massa para o antigo Município de Nova Iguaçu e suas redondezas. Em comparação aos
municípios do Vale do Paraíba o crescimento demográfico da Baixada Fluminense foi
estrondoso. De acordo com o gráfico 5.16, no recenseamento de 1872 havia na região 31.251
pessoas, o que não mudou drasticamente para o seguinte, de 1920, que contabilizou 33.396.
No Relatório de Estatística Econômica e Financeira do Estado do Rio de Janeiro de 1931 a

337
PEREIRA, W. Cana, Café e Laranja: História econômica de Nova Iguaçu, Rio de Janeiro, FGV/SEEC,
1977, p. 115.
338
IBGE, censo 1940.
195

população de Nova Iguaçu atingiu o número de 42.408.339 Como visto no capítulo 1, a partir
da década de 1920 já é possível apontar um aumento demográfico no Município de Nova
Iguaçu. Contudo o maior salto acontece na década seguinte, no censo de 1940 quando há um
crescimento de mais de 300% em apenas 20 anos.340

Gráfico 5.16 – População por ano segundo os censos. Paraíba do Sul, Valença, Vassouras e Iguassú.
160000

140000

120000

100000

Iguassú
Paraíba do Sul
80000
Valença
Vassouras

60000

40000

20000

0
1872 1890 1920 1940

Fonte: Censos de 1872, 1890, 1920 e 1940. IBGE

Experiência Qualitativa da migração.


De acordo com a genealogia familiar de Vô Dionísio, seus filhos não migraram para a
cidade do Rio de Janeiro, e muito menos trabalharam em indústrias na Baixada. O que se
pôde perceber como trajetória de migração, pelo menos nesse primeiro momento, foi o
deslocamento para regiões onde o ofício ainda era a agricultura. Ou seja, essa primeira
geração de nascidos no pós-abolição, ao migrar não abandonou por completo o trabalho na
lavoura.341
Mesmo que o destino fosse os grandes centros, que não é o meu foco de análise, em
outras regiões do país como, por exemplo, Paraná, ocorreu um processo semelhante de busca
por áreas agrícolas. De acordo com Marques

339
Idem.
340
Censos IBGE: 1872, 1920, 1940.
341
Entrevista Manoel Seabra – Arquivo Memórias do Cativeiro (ACM)
196

“ao observarmos a migração de ex-escravos para a capital, portanto, não é


exatamente o protótipo de uma cidade urbanizada, moderna e regida por leis de
mercado que estamos lidando. E a própria cidade, apesar de apresentar um grande
crescimento populacional e mudanças, era marcada ainda por muitas áreas rurais,
onde a agricultura e a pecuária eram as atividades predominantes.”342

Ou seja, mesmo que o destino fosse a Capital Federal essa primeira geração de migrantes
inseriu-se socialmente nas regiões ao entorno, uma vez que ali estavam as lavouras para o
abastecimento alimentar da cidade. Isto significa dizer que ao chegar ao Distrito Federal
haveria emprego para eles.
No entanto o que se observa nessa trajetória dos primeiros migrantes do Vale do
Paraíba descendentes de ex-escravos, é a sazonalidade da migração. Na Baixada Fluminense
os filhos Manoel e Joaquim tiveram como destino provisório o trabalho nos laranjais. Esse
tipo de ofício, pelo menos para a época, não exigia empregados o ano todo, para ser mais
exato eram chamados apenas em dois momentos: preparação do terreno (plantação) e no
momento da Colheita. Nas demais épocas do ano parecem se deslocar para outras regiões do
Estado.343
A migração sazonal foi tomada como estratégia, por essa primeira geração de
nascidos, no intuito de manter o núcleo original da família. A Comunidade São José da Serra,
já apresentada anteriormente, existe até os dias de hoje muito em função dessa migração de
jovens. A saída e o retorno regular dos migrados permitia que a comunidade possuísse uma
fonte de renda para além do trabalho na lavoura local. Ou seja, de acordo com Marques “o
retorno ao lugar de origem podia, portanto, fazer a diferença crucial no cotidiano da
sobrevivência.”344
Desse modo, é possível supor que a migração não era uma decisão individual, mas sim
uma estratégia familiar de sobrevivência e de manutenção no tempo. Nesse sentido é que
Pinheiro Machado defende a migração como estratégia de ampliar os domínios da
comunidade local, ou seja,

342
MARQUES, L. Por aí e por muito longe: dívidas, migrações e os libertos de 1888. Rio de Janeiro, Ed.:
Apicuri, 2009, p. 102-103.
343
Entrevista Manoel Seabra – ACM.
344
MARQUES, L. op. cit., 2009, p. 135.
197

“a expansão consistia na distensão das populações sobre os territórios contíguos,


sem que a parte que se mobilizava perdesse o contato físico, social e econômico
com o núcleo inicial. Assim se criavam conjuntos regionais com unidade territorial
345
e comunitária, formadas de um centro dominante e comunidades subordinadas.”

Essa estratégia facilitava a circulação de informações. Sempre foi interessante pensar


sobre como as noticiais relacionadas a emprego ou terra livre chegava a locais tão
interioranos. Um desses mecanismos foi aberto por Dionísio. Seu Neto, Manoel Sebara,
residente da Comunidade São José, contou como seu avô caminhava durante seis dias do
município de Nova Iguaçu até chegar a cidade de Santa Isabel do Rio Preto, onde se
localizava sua casa. Em suas viagens, além de trazer presentes, inteirava os parentes com os
acontecimentos familiares e do seu local de origem.346 Isso também foi identificado por
Martins, e para ele “a teia de relações de parentesco e de compadrio se encarrega de difundir
as informações sobre a localização de novas terras que ainda podem ser ocupadas, o que é
facilitado pelo lento deslocar de fragmentos de grupos familiares desses camponeses.”347
Apesar da existência dessa ampla rede, que incluiu os padrinhos, outra fonte foi
importante para a divulgação da informação sobre trabalho em diversas regiões do Estado.
Álvaro Nascimento vem se dedicando a análise de um Jornal Metropolitano denominado “O
Correio da Lavoura”. Ele era editado por um mulato que se chamava Silvino Azeredo. Em
sua trajetória o autor conseguiu identificar o nascimento do editor como sendo na localidade
de Paty de Alferes, e por lá morou durante um bom tempo até ser emancipado por seu tutor.
Nas folhas do jornal é possível notar em várias passagens sua preocupação com os
trabalhadores do Vale do Paraíba. Ainda não se sabe se o jornal também era lido no Vale do
Paraíba, contudo somente as folhas publicadas já demonstram haver uma relação nítida entre
essas regiões.348

345
MACHADO, P. Problemática da cidade colonial brasileira. História: questões e debates, 6 (10): 3-23, jun,
1985. p. 17 Apud NADALIN, S. O. História e Demografia. Elementos para um diálogo. Campinas:
Associação Brasileira de Estudos Populacionais - ABEP, 2004, p. 153.
346
Entrevista Manoel Seabra – ACM.
347
MARTINS, José de Souza. “O tempo da fronteira. Retorno à controvérsia sobre o tempo histórico da frente
de expansão e da frente pioneira”.in.: Tempo Social; Rev. Sociol. USP, S. Paulo, 8(1): 25-70, maio de 1996. p.
175-176.
348
NASCIMENTO, Á. P. ; SILVA, Maria Lúcia Bezerra da . “Um mulato na imprensa da Baixada Fluminense:
possibilidades de ascensão no pós abolição”. 2011. (Apresentação de Trabalho/Simpósio)
198

Por isso é possível explicar como os primeiros filhos de Dionísio migraram sem a
existência de qualquer parente migrado anteriormente. Através desse exemplo, e dos dados
apresentados acima, é possível notar que a migração era normalmente iniciada por jovens, do
sexo masculino e normalmente os mais velhos. No primeiro momento, de acordo com de
Dionísio apenas os três filhos homens e mais velhos vão, deixando para trás pais, tios, irmãos,
filhos, primos e sobrinhos.
Caso semelhante foi o vivenciado por Izaquiel Inácio, seu tio mais velho migrou
primeiramente para a Baixada, na plantação de laranjas, e posteriormente, após assentado,
buscou os seus irmãos Joventino, Sebastião e Hermenegildo. Em todos os casos os migrantes
de segunda geração ficaram na casa do desbravador. 349
Ao visualizar essa experiência como um processo de migração camponês típico, deixa-
se de lado a análise do custo da migração. Para aquele que decide migrar em primeiro lugar,
há o desconhecido. Por mais que pessoas de outras regiões tenham vindo até a fazenda propor
um trabalho em outro município, ou mesmo de notícias de jornais sobre empregos em
diversas regiões do estado, a decisão de migrar é coletiva (familiar) e normalmente cara.
Simplesmente por não haver qualquer indício ou informação do quanto será necessário gastar
até receber o primeiro salário. A segunda e a terceira geração de migrados não sofre do
mesmo problema. O custo da mudança dessas duas gerações é sempre menor, pois o que
migrou primeiro tende a ter uma condição de vida melhor, já conhece onde estão os
empregos, volta para o local de origem e coopta apenas aqueles para os quais ele sabe que
encontrará ocupação, e por fim cede sua casa para um primeiro momento. Tudo isso diminui o
custo das gerações posteriores de migrados.
Pouco ou quase nada se sabe sobre o custo real da primeira, segunda ou terceira
geração de migrados. E por isso deve-se também levar em conta os fracassos, pois apesar de
algumas pessoas terem sucesso, nem sempre a migração ocorria como o planejado. Dona
Florentina Seabra, irmã de Manoel, conta que seu Tio Hermegildo foi para Nova Iguaçu e por
lá casou. Ficou pouco tempo casado, pois sua esposa acabou largando-o. De acordo com a
depoente, após o acontecido “endoideceu e voltou pra cá. Aí ficou aí com a gente”.350

A experiência de quem chega

349
Entrevista Izaquiel Inácio – AMC.
350
Entrevista Florentina Seabra – ACM.
199

Apesar dos problemas enfrentados por uma parcela de pessoas que decidiu migrar,
muitos registraram o seu nascimento no Município da Baixada. São diversos os casos que
consegui acompanhar desde o nascimento no Vale do Paraíba até o registro na Baixada.
Acompanhando os depoimentos coletados por Ana Lugão Rios, encontrei, por exemplo,
homens na fase adulta e provavelmente solteiros que migraram para a Baixada entre os anos
de 1934 e 1939. No dia 14 de Dezembro de 1917 Agostinho Alves de Amorim e sua esposa
Brígida Alves de Amorim batizaram Gil na Igreja de Santa Isabel do Rio Preto, Distrito do
Município de Valença, nascido no dia 17 de setembro do mesmo ano.351 Gil provavelmente
migrou ainda jovem para a Baixada Fluminense, pois aos 22 anos se dirigiu ao Cartório de
Registro Civil de Nova Iguaçu para declarar seu nascimento. Já se autodenominando Gildo
Alves de Amorim, deixou expresso sua cor, preta, assim como o nome dos avós paternos:
Álvaro de Amorim e Eliza de Amorim; e maternos: Pedro Américo de Amorim e Maria da
Conceição.352
Assim como Gildo, muitos migrados do Vale do Paraíba deixaram assentados em seus
registros de nascimento os nomes de seus pais e avós, mas principalmente afirmaram
pertencer a uma família nuclear. Nas tabelas a seguir, encontram-se as informações referentes
aos dois anos coletados onde foi possível encontrar migrantes do Vale do Paraíba. Em 1934
brancos e pardos declaram vir de uma família nuclear completa, assentando por vontade
própria o nome dos pais e avós. Já os pretos tiveram, apesar de um número elevado
declarando-se filhos legítimos, a proporção de filhos de pais casados é bem menor. Pelo
menos em 1939 a situação parece mudar. Se em 1934 o comportamento dos pardos se
assemelha ao de brancos, no ano seguinte a quantidade de filhos auto-declarando legítimos é
bem menor do que os pretos. Contudo, cabe destacar que os únicos dois filhos que auto-
declararam ilegítimos, um era branco e o outro pardo.

351
Registro Eclesiástico da Igreja de Santa Isabel do Rio Preto. Livro: s/n. Assento: 226, p. 185 de 1917.
(AESIRP)
352
RCN: livro 60, reg. 14880, do ano de 1939.
200

Tabela 5.7: Legitimidade (%) por cor dos auto-declarantes migrantes do Vale do Paraíba em 1934, nos
registros civis de nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1934.

1934
Branca Parda Preta Total geral
abs. % abs. % abs. % abs. %
Legítimo 33 91,7 26 92,9 32 78 91 86,7
Natural 3 8,3 2 7,1 9 22 14 13,3
Total geral 36 100 28 100 41 100 105 100
1939
Ilegítimo 1 2,4 1 1,5 - - 2 1,2
Legítimo 39 95,2 49 73,1 52 88,1 140 83,8
Natural 1 2,4 17 25,4 7 11,9 25 15
Total geral 41 100 67 100 59 100 167 100

Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.

Apesar do grande número de pessoas declarando-se como filhos provindos de uma


relação legítima, foram poucos os que relataram a situação conjugal de seus pais. Em 1934
dentre todos os que se declararam filhos de pais casados, a maior parte estava entre os pretos,
seguido pelos brancos e depois os pardos. Porém os pretos são a maioria quando declarados
sendo filhos de pais solteiros.
No ano seguinte, 1939, foram poucos os registros que mencionaram a situação
conjugal dos pais. Nesses, quando analisados todos os casados, os pardos passam a ser a
maioria, enquanto brancos e pretos se mantém equilibrados. Os pais solteiros sumiram no ano
de 1939. Essa quantidade ínfima de informação sobre os pais no final da década de 30 apenas
corrobora o que afirmei acima. Os brancos migram primeiro, e por isso existem menos
informações sobre eles em 1939, seguidos pelos pardos e, posteriormente chegam os pretos.
Esses auto-declarantes, provavelmente, nasceram no acirramento da crise no Vale do Paraíba
e tiveram que sair antes de casa, tiveram menos contato com a família em comparação aos
migrados do início da década.
201

Tabela 5.8: Situação Conjugal dos pais (%) por cor dos auto-declarantes migrantes do Vale do Paraíba
em 1934 e 1939, nos registros civis de nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1934 e 1939.

1934
Branca Parda Preta Total geral
abs. % abs. % abs. % abs. %
Casado 27 81,8 25 92,6 29 74,4 81 81,8
Solteiro 5 15,1 2 7,4 10 25,6 17 17,2
Viúvo 1 3,1 - - - - 1 1
Total geral 33 100 27 100 39 100 99 100
1939
Casado 3 100 5 50 3 60 11 61,1
Solteiro - - 3 30 - - 3 16,7
Viúvo - - 2 20 2 40 4 22,2
Total geral 3 100 10 100 5 100 18 100

Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.

A pirâmide sexo etária dos migrantes do Vale do Paraíba também nos ajuda a entender
o processo de migração para a Baixada. A semelhança do comportamento de todos os
migrantes os brancos jovens, entre 21 e 30 anos, originários do Vale do Paraíba migram
primeiro para o antigo Município de Iguassú. Como demonstra os gráficos praticamente
cessam a sua migração para a região em 1939. Esse parece ser o segundo momento da
migração quando as mulheres e os idosos chegam, para desfrutar da estabilidade e da provável
ascensão social desse grupo.
Pardos e pretos também migram em 1934, em menor quantidade e mais diversificados.
Nos gráficos a seguir é possível notar que pelo menos no primeiro ano de migração além dos
jovens entre 21 e 25 anos, muitos com idades acima dos 30 anos também decidem se mudar
para Nova Iguaçu. Provavelmente eram os irmãos mais velhos ou pais dessas famílias
extensas que optaram por migrar no primeiro sintoma da crise. Como nesse primeiro
momento, como já afirmei acima a migração era sazonal, não havia muitos que optassem por
residir na região. Porém, em 1939 a situação muda de figura. Os pardos parecem já
estabelecidos, e não é a toa que nesse ano a quantidade de mulheres aumenta
consideravelmente. A quantidade de jovens pretos entre pretos entre 21 e 25 anos, no ano de
1939, pode significar a segunda leva de migrantes parentes. Explico-me. Começa a migração
era iniciada normalmente por irmãos mais velhos, esses, após assentados, voltaram em 1939
para buscar seus irmãos mais novos. Como pretos migraram posteriormente a brancos e
pardos, era lícito ver essa quantidade de jovens aparecendo no registro em 1939.
202

Gráfico 5.17: Pirâmide sexo etária (%) de migrantes brancos do Vale


do Paraíba, nos registros civis de nascimento. Município de Nova
Iguaçu, 1934 e 1939.

71 - 75

61 - 65

51 - 55

41 - 45

31 - 35

21 - 25

11 - 15

0-5

-100 -80 -60 -40 -20 0 20 40 60 80 100

Masculino % Feminino %

Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.

Gráfico 5.18: Pirâmide sexo etária (%) de migrantes pardos do Vale do


Paraíba, nos registros civis de nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1934.

80 ou Mais
71 - 75
66 - 70
61 - 65
56 - 60
51 - 55
46 - 50
41 - 45
36 - 40
31 - 35
26 - 30
21 - 25
16 - 20
11 - 15
6 - 10
0-5

-100 -80 -60 -40 -20 0 20 40 60 80 100

Masculino % Feminino %
Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.
203

Gráfico 5.19: Pirâmide sexo (%) etária de migrantes Pretos do Vale do


Paraíba, nos registros civis de nascimento. Municipio de Nova Iguaçu, 1934.

80 ou Mais
71 - 75
66 - 70
61 - 65
56 - 60
51 - 55
46 - 50
41 - 45
36 - 40
31 - 35
26 - 30
21 - 25
16 - 20
11 - 15
6 - 10
0-5

-100 -80 -60 -40 -20 0 20 40 60 80 100

Masculino % Feminino %
Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.

Gráfico 5.20: Pirâmide sexo etária (%) de migrantes brancos o Vale do


Paraíba, nos registros civis de nascimento. Municipio de Nova Iguaçu, 1939.

80 ou Mais
71 - 75
66 - 70
61 - 65
56 - 60
51 - 55
46 - 50
41 - 45
36 - 40
31 - 35
26 - 30
21 - 25
16 - 20
11 - 15
6 - 10
0-5

-100 -80 -60 -40 -20 0 20 40 60 80 100

Masculino % Feminino %
Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.
204

Gráfico 5.21: Pirâmide sexo etária (%) de migrantes Pardos do Vale do


Paraíba, nos registros civis de nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1939.

80 ou Mais
71 - 75
66 - 70
61 - 65
56 - 60
46 - 50
41 - 45
36 - 40
31 - 35
26 - 30
21 - 25
16 - 20
11 - 15
6 - 10
0-5

-100 -80 -60 -40 -20 0 20 40 60 80 100

Masculino % Feminino %

Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.

Gráfico 5.22: Pirâmide sexo etária de migrantes Pretos (%) do Vale do


Paraíba, nos registros civis de nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1939.

80 ou Mais
71 - 75
66 - 70
61 - 65
56 - 60
51 - 55
41 - 45
36 - 40
31 - 35
26 - 30
21 - 25
16 - 20
11 - 15
6 - 10
0-5

-100 -80 -60 -40 -20 0 20 40 60 80 100

Masculino % Feminino %
Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.
205

Se os brancos migram primeiro, seguidos pelos pardos e, por último, os pretos, quando
eles chegam a Baixada Fluminense? Em 1934 os brancos nasceram principalmente entre os
anos de 1903 e 1911, ou seja, como confirmado acima possuíam entre 23 e 31 anos. Entre os
pardos e pretos não há grande diferença nasceram entre 1909 e 1912, tendo idades entre 21 e
25 anos. É no ano de 1939 que a migração muda completamente de figura. Os brancos
praticamente cessam o processo de deslocamento, enquanto os pardos parecem copiar o
comportamento desses após cinco anos; e os pretos, sendo a grande maioria, nasceram entre
os anos de 1915 e 1918, tendo de 21 a 24 anos em 1935.
A partir da análise desses dados é lícito supor o período em que cada grupo chegou a
Baixada Fluminense. Tomando os 18 anos como a idade média de abandono definitivo do
ambiente familiar – afinal o comportamento de se registrar civilmente simboliza uma
estabilidade na região – os brancos começaram a migrar em 1921 e só pararam de migrar em
massa em 1929. Já os pardos e pretos começaram a migrar em larga escala somente no final
da década de 20, em 1927 para ser mais preciso. Contudo, a migração dos pardos finaliza bem
no início da década de 30, enquanto a de pretos vai até o final dela.
Mesmo migrando em períodos diferentes, e sendo a maioria dos migrantes homens
entre 21 e 30 fica uma questão para ajudar a pensar na constituição de famílias na origem:
será que essa migração era empreendida por solteiros ou casados? Em 1934 ninguém aparece
como casado, sendo todos em grande maioria solteiros. Já em 1939 a quantidade de registros
que informam o estado civil do declarante diminui consideravelmente, somente 45 pessoas
registram esse dado. Desses, há somente uma pessoa registrada como preta e casada, Luiz da
Cruz, nascido em 20 de Dezembro de 1911, em Ipiabas, Bairro de Valença. Ele era filho de
João da Cruz e de Paulina Maria de Jesus, não informa seu ofício, mas sabia ler e escrever
como demonstra sua assinatura no registro. Infelizmente, a partir desses dados é possível
supor que muitos dos migrados ainda não haviam legitimado seus laços afetivos no cartório, o
que muito provavelmente tenha ocorrido apenas nos registros eclesiásticos que infelizmente
não aponta a cor no Município de Nova Iguaçu. O registro civil de matrimonio possivelmente
era mais caro, e não era tão importante como o próprio registro de nascimento. Contudo,
mesmo com esse problema próprio fonte, a semelhança das informações anteriormente
obtidas, os que declararam o estado civil disseram ser solteiros em sua ampla maioria.
Ainda realizando a pesquisa sobre o local de origem e as condições que podem ter
levado a migração, a citação aos avós torna-se importante para a avaliação da estrutura
familiar no Vale do Paraíba. Na tabela 5.9 a seguir visualiza-se todos os avós nomeados pelo
auto-declarantes. Ainda que não haja informações sobre a condição de vivos ou falecidos, a
206

referência aos seus nomes pode simbolizar um contato ao longo do tempo, ou mesmo um
contato maior familiar no qual pais e mães faziam questão de informar os nomes deles. No
ano de 1934 os migrantes brancos do Vale do Paraíba parecem ter convivido mais com seus
avós em comparação aos pardos e pretos. Nesse último grupo o mais citado é a avó materna.
Apesar de uma maioria de citações dos brancos, os números de todos são relativamente baixos
se comparados ao ano de 1939. Neste ano a diferença entre brancos e pardos é quase nula. A
discrepância fica entre os que se auto registraram como pretos. Pouco mais de 50%
conheciam ou podiam relatar o nome de todos os avós, ainda assim a situação de vida dos
pretos que chegaram em 1939 aparentemente era muito melhor do que a primeira geração de
migrados.

Tabela 5.9: Avós (%) por cor dos auto-declarantes migrantes do Vale do Paraíba nos registros civis de
nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1934 e 1939.

1934
Brancos Pardos Pretos
abs. % abs. % abs. %
Avô Paterno 16 44,4 7 25 5 11,9
Avó Paterna 16 44,4 5 17,8 5 11,9
Avô Materno 17 47,2 4 14,3 8 19
Avó Materna 17 47,2 4 14,3 8 19
Todos os avós 16 44,4 4 14,3 5 11,9
Nenhum dos avós 18 50 20 71,4 33 78,6
Total de registros 36 100 28 100 42 100
1939
Avô Paterno 28 68,3 46 68,6 34 55,7
Avó Paterna 27 65,8 44 65,7 36 59
Avô Materno 31 75,6 48 71,6 39 63,9
Avó Materna 32 78 50 74,6 45 73,8
Todos os avós 27 65,8 44 65,7 34 55,7
Nenhum dos avós 8 19,5 16 23,9 15 24,6
Total de registros 41 100 67 100 61 100

Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.

Em resumo, esse conjunto de tabelas e gráficos tornou possível visualizar duas ondas
de migração a de 1934 e a de 1939. Os brancos parecem ter chegado antes, assim como se
estabilizaram muito antes de pardos e principalmente de pretos. Conseguiram trazer seus pais,
irmãos, tios e avós antecipadamente. Para pardos a situação parece muito mais semelhante a
dos brancos com cinco de anos de diferença. Eles tentam construir o mesmo comportamento,
207

contudo chegam posteriormente a região, e aliado a migração de parentes, muitos jovens


também chegam a região. Os últimos a migrar foram os pretos. Mesmo em 1939 não é
possível visualizar pessoas com idades mais avançadas e mulheres migrando para região.
Aparentemente sua estabilização vai acontecer posteriormente ao período analisado.
Com essa análise já possível delinear as estratégias de cada grupo para buscar
alternativas de sobrevivência no campo do Vale do Paraíba. Em primeiro lugar, os brancos
provavelmente sentiram a crise da produção do café mais rapidamente, por conta da falta de
parentela estendida, assim como na desvalorização de suas pequenas propriedades e,
principalmente, por falta de laços não-econômicos com os proprietários – como era o caso dos
ex-escravos que vivam sob a tutela dos “laços de gratidão”.
Para pardos e principalmente para pretos as estratégias de sobrevivência no Vale
foram mais profícuas. A parentela estendida, como já afirmei, parece ter auxiliado a
estabilização. Somado a isso, como bem nos lembrou Hebe Mattos, pardos e pretos ex-
escravos criaram laços não econômicos com seus antigos proprietários o que lhes assegurou
trabalho, mesmo com salários irrisórios. Contudo, nada deve ter ajudado mais do que o local
de moradia. Com os laços de gratidão também vinham a possibilidade de roçar uma pequena
parte da propriedade do patrão para consumo próprio. Todos esses elementos auxiliaram a
pardos e principalmente a pretos tomar como primeira estratégia para sair da crise, a migração
sazonal. Afinal havia toda uma comunidade a qual o migrante jovem deveria ajudar. A
posterior migração definitiva provavelmente estava ligada a uma melhor condição de vida
conquistada no lugar de chegada.
Se os pretos e pardos chegaram por último na região a sua inserção social foi facilitada
ou dificultada? Ficaram com os piores empregos? Ficaram com as piores casas? Foram
segregados? Para atingir tais objetivos comparei inicialmente duas informações importantes e
possíveis de serem retiradas dos registros civis de nascimento: alfabetização e profissão. 353
No momento da declaração do nascimento o auto declarante deveria ao final colocar
sua assinatura se soubesse escrever. Em 1934 foram poucos os migrantes do Vale do Paraíba
que pediram auxilio na hora de assinar o seu próprio registro. Na tabela 5.13 é possível
visualizar que foram poucos os analfabetos que recorreram ao registro civil de nascimento em
1934, em comparação a todas as cores. Já no ano de 1939 esse índice se reduziu,
principalmente entre os pretos.

353
Os locais de moradia, a segregação, a qualidade de vida e a reconstrução de redes de sociabilidade serão
tratadas no último capítulo da Tese.
208

Desses dados é possível concluir algumas premissas. Primeiro, os migrantes da


primeira geração que se dirigiram para a Baixada Fluminense possuíam uma melhor condição
material, pois como demonstrei acima a primeira migração, por ser mais arriscada e
aventureira, normalmente é a mais custosa. Isto é, os primeiros migrantes vieram de famílias
com uma estabilidade considerável para empreender esse processo custoso. Uma segunda
questão é a de que essa primeira geração, a de 1934, conseguiu obter ascensão social mais
rapidamente do que a segunda. Provavelmente a oferta de trabalho era maior e de melhor
qualidade, o que permitiu uma ascensão rápida e um melhor acesso a educação. A última e
acredito ser a mais plausível, é a de que em 1934 a maior parte dos trabalhadores analfabetos
não estavam empregados em ofícios que exigiam uma identidade civil, e consequentemente,
uma carteira de trabalho. Logo, não era necessário buscar o registro civil para obter algum
trabalho.

Tabela 5.10 - Alfabetização (%) por cor dos auto-declarantes migrantes do Vale do Paraíba nos registros
civis de nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1934 e 1939.

1934
Branca Parda Preta Total geral
abs. % abs. % abs. % abs. %
Sabem ler e escrever 35 97,2 25 89,3 40 95,2 100 94,3
Não Sabem Ler e escrever 1 2,8 3 10,7 2 4,8 6 5,7
Total geral 36 100 28 100 42 100 106 100
1939
Sabem ler e escrever 34 82,9 55 82,1 41 67,2 134 77
Não Sabem Ler e escrever 7 17,1 12 17,9 20 32,8 40 23
Total geral 41 100 67 100 61 100 174 100

Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.

No momento seguinte, em 1939, chama a atenção o aumento de analfabetos


recorrendo ao cartório. Provavelmente com a derrubada das restrições ao registro, com a
retirada da multa, o acesso por parte desse grupo a identidade civil pôde ter facilitada.
Somado a isso, torna-se mister apostar que, com o crescimento da cidade, a quantidade de
ofícios ofertados a todas as cores pode ter ampliado, assim como a necessidade da posse da
carteira de trabalho ou da identidade civil para obter empregos. Nesse sentido, os pretos
analfabetos parecem terem sido os mais beneficiados com esses acontecimentos. O acesso a
novos ofícios exigiam a identidade civil. O aumento da busca pela identidade civil dos
iletrados pode demonstrar, principalmente de pretos, uma melhora na condição de vida.
209

Contudo, é com o item profissão, por ano, que tornará possível caracterizar o mercado
de trabalho desde o inicio da migração. Quando analisada a porcentagem de participação de
cada oficio por cor e ano é possível notar que em 1934 tanto pardos e pretos eram maioria nos
trabalhos envolvendo a lavoura; no artesanato e nas profissões liberais encontram-se
equilibrados; o comércio é controlado pelos brancos, tendo uma pequena participação de
pretos. Entre as domésticas, as brancas são a larga maioria, isso significa que as mulheres
pardas e pretas poderiam estar envolvidas em outras atividades. Entre os jornaleiros, ou seja,
aqueles que trabalham com “a paga de cada dia”354 os pretos são a larga maioria. No serviço
público os brancos parecem controlar, e os transportes equilibra-se entre brancos e pretos.
Se em um primeiro momento, como sugerem as entrevistas antes citadas, a primeira
opção para trabalhar na Baixada era o cultivo da laranja, para aqueles estabilizados que se
auto registraram em 1934 a opção de emprego era o de jornaleiro e não na lavoura. Daí é
possível duas linhas. A primeira reflete a ascensão social daqueles que chegaram primeiro e
só conseguiram trabalhar na lavoura, uma vez que o registro sendo o símbolo da estabilidade,
o auto declarante já havia passado por uma mobilidade social no momento do registro.
Já no ano de 1939 a situação parece se modificar. Apesar de um número alto de auto-
declarantes não informarem a sua cor, os que deram essa informação serão analisados.
Somente duas pessoas da cor preta informaram trabalhar com agricultura. Quando analisado a
disputa de mercado em cada ofício, vê-se claramente que as mulheres já estão concentradas
no oficio de domésticas em todas as cores, no comércio o predomínio é de pretos e nas
profissões liberais os pardos são os únicos a aparecer. Quando cada grupo é dividido por todas
as profissões, fica mais claro que todos parecem apostar no ofício de jornaleiros e no
comércio.

354
De acordo com o Dicionário de S. da Fonseca *Jornaleiro. S. m. : o que trabalha por jornal e *Jornal. S. m. A
paga de cada dia. “Dicionário da Lingua Portuguesa”, Ed. Livraria Garnier, 1926.
210

Gráfico 5.23 - Profissão (%) dos migrantes do Vale do Paraíba por cor em cada
categoria sócio-profissional nos registros civis de nascimento. Municipio de Nova
Iguaçu, em 1934.
100
90
80
70
60
50
40
30
20
10
0
Agricultura ou Artesanato Comércio Doméstica Jornaleiros Profissões Serviço Transportes
Manufatura Liberais Público
Rural

Branca % Parda % Preta %

Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.

Gráfico 5.24 - Profissão (%) dos migrantes do Vale do Paraíba por cor divididos
em todas as categoriais sócio-profissionais, nos registros civis de nascimento.
Município de Nova, 1934.
100
90
80
70
60
50
40
30
20
10
0
Agricultura ou Artesanato Comércio Doméstica Jornaleiros Profissões Serviço Transportes
Manufatura Liberais Público
Rural

Branca % Parda % Preta %


Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.
211

Gráfico 5.25 - Profissão (%) dos migrantes do Vale do Paraíba por cor em cada
categoria sócio-profissional em 1939.
100
90
80
70
60
50
40
30
20
10
0
Agricultura Artesanato Comércio Doméstica Jornaleiros Profissões Serviço Transportes
ou Liberais Público
Manufatura
Rural

Branca % Parda % Preta %


Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.

Gráfico 5.26 - Profissão (%) dos migrantes do Vale do Paraíba por cor divididos
em todas as categoriais sócio-profissionais, em 1939.
100
90
80
70
60
50
40
30
20
10
0
Agricultura Artesanato Comércio Doméstica Jornaleiros Profissões Serviço Transportes
ou Liberais Público
Manufatura
Rural
Branca % Parda % Preta %

Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.

Dentre os que não sabem ler e os que sabem também foi possível visualizar suas
escolhas. Apenas 57, 5% informaram onde trabalhavam, desses, a maior parte era composta
por mulheres no oficio de domésticas, tendo as pardas a maioria (52,9%), seguidas pelas
pretas e pelas brancas. Aparece apenas um comerciante branco. E os jornaleiros dividem-se
entre pardos (60%) e pretos (40%). Já entre os que assinaram pelo menos o nome e
informaram saber ler e escrever a situação é bem diferente. Ao analisar a composição de cada
profissão dos migrados por cor nota-se que na agricultura os pretos são a maioria, enquanto
212

no artesanato e nas profissões liberais todas as cores aparecem de forma equilibrada. No


comércio os brancos parecem controlar, acompanhados pelos pretos e uma pequena minoria
de pardos. No Serviço público os brancos migrados aparecem em grande proporção. Nos
transportes, brancos e pretos equilibram-se. Por fim, é entre os jornaleiros que os pretos que
sabem ler e escrever se destacam, sendo a maioria, seguidos pelos pardos. Todavia é na
análise do gráfico seguinte, onde as cores se dividem em todos os ofícios que os pretos
letrados ganham destaque. A maior parte deles está no oficio de jornaleiros, seguidos pelo
oficio no comércio e na agricultura.
Finalizando. De acordo com os dados aqui apresentados é licito supor em primeiro
lugar que os brancos migraram primeiro, por motivos já discutidos, e por isso conseguiram
obter e, em alguns casos, até controlar ofícios. Porém, como os dados demonstraram, não
obtiveram nenhum monopólio que poderia impedir a entrada de outros grupos, como pardos e
pretos. Ou seja, não houve segregação por oficio, nem em 1934 e muito menos em 1939.

Gráfico 5.27 - Divisão da cor (%) em cada profissão dos letrados, nos registros
civis de nascimento, em 1934 e 1939. Município de Nova Iguaçu, 1934 e 1939.
100
80
60
40
20
0
Agricultura Artesanato Comércio Doméstica Jornaleiros Profissões Serviço Transportes
ou Liberais Público
Manufatura
Rural

Branca % Parda % Preta %


Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.
213

Gráfico 5.28: Divisão das cores (%) pelas profissões dos letrados, nos registros
civis de nascimento em 1934 e 1939. Município de Nova Iguaçu, 1934 e 1939.
100
90
80
70
60
50
40
30
20
10
0
Agricultura Artesanato Comércio Doméstica Jornaleiros Profissões Serviço Transportes
ou Liberais Público
Manufatura
Rural

Branca % Parda % Preta %


Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.

Nas entrevistas realizadas por Ana Lugão Rios, Hebe Mattos e por mim, ficou claro
que a migração sazonal para áreas agrícolas foi a primeira opção dos descendentes diretos de
escravos do Vale do Paraíba. Como a fonte do registro civil demonstra a estabilidade na
região, é possível afirmar que, quando ocorreu a migração definitiva, essa geração ou
posterior, já ocupavam os ofício que melhor remunerava, o que indicava um mobilidade
social. Aparentemente, a partir desses dados os nascidos no pós-abolição do Vale do Paraíba
que migraram para a Baixada Fluminense tinham como projeto o abandono da lavoura e um
maior investimento nos ofícios assalariados que lhes poderiam garantir ascensão social, como
o de jornaleiros e no comércio.

Os migrantes nordestinos
Para além dos originários do Vale do Paraíba, outro grupo contribuiu para a formação
populacional da Baixada Fluminense na primeira metade do século XX. A experiência da
migração nordestina para o grandes centros urbanos já foi muito retratada em diversos livros e
filmes, porém pouco se atentou para a sua estabilização nas regiões metropolitanas, como foi
o caso da Baixada Fluminense. Nesta parte pretendo analisar esse processo através da
aparição de 238 nordestinos, nos registros civis, tanto no papel de pais, avós, registrados e
auto-declarantes. Busco, nesse sentido, demonstrar os locais de origem, a duração do processo
de migração, o perfil do migrado, os empregos obtidos e/ou permitidos e os locais de moradia.
214

Seguindo a mesma intuição do processo migratório dos pretos e pardos do Vale, tento avaliar
o sucesso da inserção social desse grupo na Baixada Fluminense.
Torna-se quase óbvio afirmar que na contramão dos analistas de época sobre a falta de
mão de obra nacional, e a necessidade de importação de europeus para suprir essa
necessidade, havia trabalhadores suficientes no Brasil. De acordo com Gonçalves “durante o
século XIX, o maior contingente da população brasileira ainda residia no Nordeste, a região
que mais contribuía para o crescimento demográfico do país e que, juntamente com Minas
Gerais, formava o principal reservatório de mão de obra livre e escrava.”355
Essa migração não começou no século XX como se especula, mas sim durante o
século XIX. Com a proibição do tráfico intercontinental, primeiro em 1831 e posteriormente
em 1850, muitos proprietários do centro-sul do país começaram a incentivar a compra de
escravos oriundos principalmente do Nordeste. No período de anterior a 1872356 e até meados
de 1890 “toda a região nordeste, com exceção de Alagoas, sofreu com saída de seus
habitantes; enquanto as províncias/estados do sul – inclusive São Paulo – e o Amazonas
receberam grandes continentes de migrantes.”357
A migração de escravos nordestinos e de seus descendentes para a região do centro-sul
fez com que o Sudeste, concentrasse no último quartel do século XIX a maior quantidade de
escravos em comparação com o restante do Brasil. Até a virada do século, pelo menos na
Capital Federal, esse fluxo migratório foi garantido por Negros Baianos Livres, de acordo
com Moura

“os primeiros que conseguem uma situação na capital, um lugar para morar e
cultuar seus orixás e uma forma de trabalho, não hesitam em fornecer comida e
moradia aos que vão chegando, o que permitiu um fluxo migratório regular até a
passagem do século, garantindo uma forte presença dos baianos no Rio de
358
Janeiro.”

355
GONÇALVES, P. C. Migração e mão-de-obra: retirantes cearenses na economia cafeeira do centro-sul.
Ed.:Associação Editorial Humanitas, São Paulo, 2006, p.118.
356
GONÇALVES, P. C. op. cit. 2006, p.121.
357
GRAHAM, D. H.; HOLANDA FILHO, S. B. Migrações internas no Brasil (1872-1970). São Paulo:
IPE/USP CNPq, 1984. P. 24-25.
358
MOURA, T. M. “Para Além Da Casa Da Tia Ciata:Outras Experiências No Universo Cultural Carioca,
1830-1930”.Afro-Ásia, 29/30, 2003. p. 86.
215

Após o fim do tráfico de interprovincial, propiciado em algumas regiões como o Ceará


por conta da abolição da escravatura em 1885,359 outros eventos vão impulsionar a migração
de nordestinos. A seca já havia assolada a regiões em diversos outros períodos, como em
1877 a 1879, todavia em 1888 ela se apresentou como irremediável. De acordo com
Gonçalves, nesse ano “com a dificuldade em obter víveres, tornou-se inevitável o êxodo dos
habitantes menos favorecidos à procura dos recursos essenciais à sobrevivência fora de seus
distritos. Esse movimento começou pelas províncias do Ceará e Piauí, prolongou-se pelas do
Rio Grande do Norte, Paraíba e Bahia, repercutindo até o norte de Minas Gerais.”360 Num
segundo momento, a seca parece não ter dado trégua, e em 1901 o processo acelerou
significativamente, “na capital, Fortaleza, acumulou-se uma população adventícia de
aproximadamente 12 mil pessoas, sem nenhuma condição de higiene e representando grave
perigo para a saúde pública.”361
Com a finalidade de reforçar o que já ficou aparente acima, o Ceará aparece nesse
primeiro momento como o principal exportador de braços para diversas regiões do Norte,
Nordeste e do restante do país.362 A migração iniciava-se no interior do próprio estado. De
acordo com Bassanezi em 1888-1889 os oriundos da seca “tiveram como direção outro porto
da própria Província do Ceará, ao norte ou ao sul de Fortaleza (4,6%);”363 Posteriormente,
seguiam para a região Norte do País como os portos de Belém e de Manaus. De acordo com
Florentino e Gutierrez quase 50% de todos os migrantes do Ceará migraram para essa última
região “seduzidos pelas possibilidades de trabalho na cultura cacaueira e, principalmente, na
exploração da borracha, então no auge.”364
Contudo, nenhum lugar parece ter recebido mais migrantes Nordestinos no século XX
do que a região Sudeste. Para Bassanezi e Nozoe quase 30% dos migrantes cearenses optaram
por residir “nas Províncias da Região Sudeste: Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo

359
FERREIRA, Lusirene Celestino França. Nas asas da imprensa: a repercussão da abolição da escravatura
na província do Ceará nos periódicos do Rio de Janeiro (1884-1885). São João del-Rei, 2010. Dissertação
(Mestrado em História). Departamento de Ciências Sociais. Universidade Federal de São João del-Rei, São João
del-Rei, 2010.
360
GONÇALVES, P. C. op. cit., 2006, p. 113.
361
GONÇALVES, P. C. op. cit., 2006, p.117.
362
GONÇALVES, P. C. op. cit., 2006, p.119.
363
BASSANEZ, M. “Migrantes no Brasil da segunda metade do século XIX” In.: Anais ABEP, 2000, p. 17
364
FLORENTINO, M.; LEWKOWICZ, I.; GUTIERREZ, H. (orgs.) Trabalho compulsório e trabalho livre no
Brasil. São Paulo: UNESP, 2008. p. 51.
216

especialmente”365 Entre as três regiões, o Estado do Rio de Janeiro foi o local preferido por
essa população uma vez que “além de ser sede da capital do Império, esta Província era um
centro cafeicultor, precisava de mão-de-obra para manter a produção da subsistência (uma
vez que os escravos estavam sendo canalizados para os cafezais) e para as obras de infra-
estrutura; portanto, em condições de absorver os cearenses.”366
Em suma, nos anos compreendidos entre 1890 e 1900 na região Nordeste, apenas os
estados do Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte conheceram o processo de emigração de sua
população; tendo como principais locais de recepção os Estados do Rio de Janeiro, São Paulo,
Amazonas e Pará.367 Somado a isso também foi notória a percepção de um movimento em
etapas desse processo de migração. De acordo com Bassanezi

“em um primeiro momento, a população atingida emigrava para a sede dos


municípios, ou para lugares mais amenos em busca de ajuda dos parentes e amigos.
O descolamento seguinte era em direção ao litoral, de preferência a capital
“porque é onde mora o governo” e daí para outras províncias. A invasão das
cidades e os riscos socais e de saúde levaram, por várias ocasiões, o próprio
governo a usar o aparelho policial para obrigar as pessoas a deixarem o Ceará.”368

Não só a Polícia foi convocada para tentar acalmar o problema. Quando a notícia
espalhou-se que “o litoral abarrotou-se de pessoas flageladas, vieram do sul e do norte
agentes de diversos estados em busca do braço cearense para lavrar suas terras”.369 Diante
de tal situação, ainda durante o Governo Imperial

“(...) além das verbas destinadas ao socorro imediato dos flagelados, como gêneros
alimentícios, assistência médica e empregos nas obras públicas, foi fundamental o
financiamento estatal para transporte, abrigo e alimentação dos migrantes, pois
apenas o governo central tinha condições materiais de realizar tal
empreendimento.”370

Desse modo, o Governo passou “a recomendar que se concedessem passagens aos que
desejassem migrar para outras províncias, respeitando suas preferências quanto ao destino

365
BASSANEZ, M. op.; cit., 2000, p. 17 e NOZOE, N. Os refugiados da seca: emigrantes cearenses, 1888-
1889. São Paulo: NEHD/NepoCedhal, 2003.
366
BASSANEZ, M. op. cit., 2000, p. 17.
367
GONÇALVES, P. C. op. cit., 2006, p.123.
368
SOUZA, I., MEDEIROS FILHO, J. Os degredados filhos da seca. Petrópolis: Ed. Vozes, 1984. 111p., 1984:
p. 56-59 apud BASSANEZI, M. op. cit., 2000, p. 15-16.
369
GONÇALVES, P. C. op. cit., 2006, p.142.
370
GONÇALVES, P. C. op. cit., 2006, p.124.
217

escolhido.”371 Os deslocamentos eram feitos pelas companhias de navegação a vapor que


recebiam pagamento pelas viagens, foram “utilizados, ainda, alguns vapores de guerra do
Ministério da Marinha e a malha ferroviária sob a responsabilidade do Ministério da
Agricultura”.372
Apesar do financiamento maciço do Governo Imperial, e posteriormente do
Republicano, havia entre setores da sociedade resistências a migração de nordestinos para o
Norte e principalmente para o Sudeste. De acordo com Gonçalves “no Senado Imperial,
durante sessão no ano de 1990, o Senador Castro Carreita lamentava o despovoamento da
província pela fuga dos flagelados, sem que estes tivessem a possibilidade de lá permanecer,
através do trabalho em obras empreendidas pelo poder público. Porém o senador reconhecia
que a migração para o Sul seria mais proveitosa.”373 Além dos discursos enraivecidos, outras
medidas foram tomadas para diminuir o interesse do financiamento dessa migração como a
criação “de uma lei obrigando o agenciador ao pagamento de um imposto no valor de um
conto e quinhentos mil réis por trabalhador contratado. Isso, porém não impediu a
migração.”374
Mesmo diante dessas atitudes restritivas da migração nordestina, a migração
populacional no interior do país foi bem significativa. No ano de 1888, Gonçalves calcula que
da província do Ceará saíram “cerca de 5 mil pessoas; enquanto nos quatro primeiros meses
de 1889, o número subiu para 28 mil. Desse total, cerca de 8,5 mil cearenses encaminharam-
se para o Rio de Janeiro e São Paulo e aproximadamente 15 mil dirigiram-se para o
Amazonas e Pará.”375 Já no ano de 1901, pelo menos o movimento para a Capital Federal
diminui numericamente, até cessar no mês de abril. Ao analisar a hospedaria de migrantes
nordestinos, das 535 pessoas arroladas, de acordo com seus cálculos, 128 pessoas migraram
para o Estado do Rio de Janeiro, enquanto apenas 24 se dirigiram para a Capital Federal.376
Resumindo, ao analisar todo esse primeiro período de migração, entre os anos de 1869 a

371
GONÇALVES, P. C. op. cit.,2006, p.138.
372
Idem
373
GONÇALVES, P. C. op. cit., 2006, p. 140.
374
THEOPHILO, R. Seccas do Ceará (segunda metade do século XIX), Ceará . Ed.: - Louis Cholowiesçki –
Typografia Moderna a vapor – Ateliers – Louis, 1909, p. 45, apud GONÇALVES, P. C. op. cit., 2006, p.143.
375
GONÇALVES, P. C. op. cit., 2006, p. 141.
376
GONÇALVES, P. C. op. cit., 2006, p. 175.
218

1900, muitas pessoas abandonaram o Nordeste, e “no Ceará, por exemplo, calcula-se que,
entre 1869 e 1900, trezentas mil pessoas deixaram a região – em média, 9.400 por ano.”377
Para os que migravam para o Sudeste a primeira parada era a Capital Federal. Dali
dirigiam-se principalmente para regiões como São Paulo, Espírito Santo, Rio de Janeiro e
Minas Gerais.378 Para Juiz de Fora foram remetidos cerca de 200 nordestinos, região do Vale
do Paraíba e um dos principais produtores de café da região.379 Distrito Federal foram
recebidos mais de 5 mil migrados entre os anos de 1888 e 1889. Desses não é possível supor
quantos ficaram na capital e quantos migraram para o interior Fluminense.380
Apesar da região do Vale do Paraíba Fluminense ter concentrado uma boa parcela da
população de ex-escravos e de seus descendentes, como demonstrado em capítulos anteriores,
a região incorporou muitos dos trabalhadores provindos da região Nordeste. Um dos
principais agenciadores de mão de obra foi “José Pereira de Faro, O barão do Rio Bonito,
encarregado pelo Ministério do Império de receber os retirantes no Rio de Janeiro.”381 Antes
de levá-los às regiões do interior que necessitavam de mão de Obra, o Barão do Rio Bonito
recebia os migrados em um barracão localizado na Rua do Livramento n. 14, como demonstra
a carta abaixo.

“Ao seguinte officio; dirigido ao nosso amigo, Sr. Julio Brigido dos Santos, pelo
Barão do Rio Bonito, director do serviço de desembarque e internação dos
immigrantes cearenses no Rio de Janeiro; damos publicidades com muita
satisfação, porque é valioso documento do modo correcto pelo qual desempenhou-
se aquelle nosso amigo de commissão delicada e difícil:
Escriptorio de Serviço de Desembarque e Internação dos Immigrantes Cearenses, á
Rua do Livramento nº 14 – Rio de Janeiro, 26 de fevereiro de 1889.
Ilmº Sr. Recebi n’esta data o officio de V.S. de 20 do corrente no qual me
communica que tendo sido commissionado pelo Sr. Presidente da Província do
Ceara para acompanhar os immigrantes cearenses embarcados do Porto de
Fortaleza com destino a esta cidade. Á bordo do Vapor “Uma”, de acordo com as
instruções que recebeu da presidência daquella províncias me remettia uma
exposição succinta do que ocorreu de mais importante durante a mesma viagem.
Por Ella vejo que mereceu V.S. especial cuidado o tratamento recebido a bordo, o
qual nada deixou a desejar, e que a alimentação era de bôa qualidade e distribuída
regularmente.
Se como V.S. reconheço foi um pouco avultado o numero dos fallecimentos durante
a viagem deve isto atribuir-se, como V.S. julga, ao estado de estrema fraqueza que
na máxima parte embarcam os ditos immigrantes, alguns delles já gravemente

377
FLORENTINO, M. LEWKOWICZ, I. E GUTIÉRREZ, H. Trabalho op. cit., 2008, p.50.
378
GONÇALVES, P. C. op. cit., 2006, p. 155.
379
BASSANEZI, m. “MIGRANTES DO BRASIL P. 17.
380
GONÇALVES, P. C. op. cit., 2006, p. 195.
381
GONÇALVES, P. C. op. cit., 2006, p. 131.
219

doentes e em estado de não poderem resisistir aos incommodos que resultão de uma
viagem por mar.
Pela minha parte cumpre-me agradecer a V.S. a delicadeza que teve em remetter-
me este relatório, o qual muito apreciei e delle darei opportunamente conhecimento
ao Exmº Sr. Conselheiro Ministro do Imperio, pelo qual me acho encarregado do
serviço e desembarque e internação dos immigrantes cearenses.
Deus guarde a V.S. Ilmº Sr. Julio Brigido dos Santos – Barão do Rio Bonito.” 382

A movimentação no interior do estado do Rio de Janeiro era intensa. Inicialmente, as


famílias eram agrupadas e recebiam residência no Barracão localizado no Bairro da Gambôa.
Dali, os que não conseguiam se empregar rapidamente eram transferidos para um segundo
Barracão localizado no Município de Barra do Piraí “onde aguardavam encaminhamento
para os serviços da lavoura nas demais províncias do Centro-Sul”.383 Gonçalves conseguiu
identificar o percurso de alguns migrantes: “os poucos registros indicam que 189 retirantes
(41 famílias) foram contratados para os trabalhos na lavoura nos municípios de Resende,
Barra Mansa, São João Príncipe e Cantagalo, importantes áreas cafeicultoras da
província.”384
A migração de moradores do Nordeste não ficou concentrada apenas na Capital e no
Vale do Paraíba. A Baixada Fluminense também se tornou um local de estabilização dessa
população na virada do século e, principalmente, nos anos posteriores a década de 1920. No
gráfico abaixo foram coletados todos aqueles que identificaram de alguma forma sua origem
nos registros civis de nascimento. Eles aparecem por vezes como pais, mães, declarantes de
outros nascimentos e também auto-declarantes.

382
(GAZETA do NORTE. Fortaleza, 14 de Março de 1889) apud GONÇALVES, P. C. op. cit., 2006, p. 130.
383
GONÇALVES, P. C. op. cit., 2006, p.131.
384
GONÇALVES, P. C. op. cit., 2006, p.192.
220

Gráfico 5.29 - Registros por ano de nordestinos em números absolutos, nos


registros civis de nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939.
90

80

70

60

50

40

30

20

10

0
1889 1894 1899 1904 1909 1914 1919 1924 1929 1934 1939

Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.

A partir da análise quantitativa do gráfico nota-se claramente que a migração de


nordestinos para a região da Baixada Fluminense divide-se em duas etapas. A primeira
corresponde ao período apresentado acima, aquele no qual a seca assolou a região entre os
anos de 1889 e 1890. Como o registro civil demonstra a estabilidade de uma pessoa na região,
não foi a toa que a maior parte dos registros só foram feitos em 1894, quase cinco anos após a
saída do sertão. Porém o que me chama mais atenção é o crescimento da busca do registro
civil após a década de 20, culminando na década de 1930. Se a primeira geração de migrados
nordestinos correspondia ao escravos traficados, a segunda ao período de maior seca, a qual
motivo estaria ligado a terceira migração da década de 20-30?
Para Ralfo Edmundo Matos foi um conjunto de fatores que levou essa população a
uma emigração em massa na década de 1930. Para ele elementos como a “concentração
fundiária, a crise na economia exportadora, as secas periódicas, o alto crescimento
populacional e a concentração do desenvolvimento econômico no Centro-Sul”385 motivaram
essa migração para o Sudeste, e em contrapartida para a Baixada Fluminense.
No intuito de comparar as condições de vida e compreender o processo pelo qual os
migrantes nordestinos conseguiram se inserir socialmente na região da Baixada, torna-se

385
MATOS, Ralfo Edmundo. “Alguns aspectos sobre a importância das migrações internas no sudeste: uma
questão histórica não resolvida.” In.: VIII Encontro da ABEP. p. 322.
221

necessário analisar o perfil, assim como a disputa do mercado de trabalho com os locais e com
os demais migrantes, e os locais de moradia.

O perfil do migrado nordestino


Através da análise quantitativa dos registros civis de nascimento foi possível encontrar
238 pessoas que informaram ter como origem a região Nordeste do Brasil. Desse total 31,9 %
eram mulheres enquanto 68,1% homens. Ou seja, se analisada a razão de masculinidade
213,15, havia 2 homens para cada mulher migrada. Apesar de um número significativo de
nordestinos, apenas 183 registros apontaram o estado civil do migrante. Desses, 47,5%
declararam serem casados enquanto um total de 51,4% informaram estar casados. Apesar de
uma migração nitidamente masculina, os casados estavam entre os nordestinos que optaram
pela Baixada Fluminense. Gonçalves aponta que “da mesma forma que os imigrantes
europeus, a maioria absoluta dos cearenses migrou em grupos familiares; poucos indivíduos
chegaram sozinhos às províncias do Centro-Sul”386
Nas primeiras décadas do século o Estado do Ceará foi a região que mais perdeu
população para as regiões do centro-sul. No terceiro movimento de migração, da década de
1930 outros estados também terão uma participação significativa. A tabela abaixo foi
construída a partir dos locais de origem informados pelos migrantes nordestinos. Apesar de
estados como Ceará, Alagoas, Sergipe e Bahia terem contribuído para a formação
populacional da Baixada Fluminense, aparentemente são os nascidos no Estado de
Pernambuco que mais procuraram residência na região metropolitana do Rio de Janeiro.

386
GONÇALVES, P. C. op. cit., 2006, p.184-185.
222

Gráfico 5.30 - Estado civil (%) por cor dos migrantes Nordestinos por ano nos registros civis de
nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1889 - 1939.

100
90
80
70
60
Casado %
50
Solteiro %
40
Viúvo %
30
20
10
0
1889 1894 1899 1904 1909 1914 1919 1924 1929 1934 1939

Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.

Tabela 5.11 - Local de Nascimento (%) por cor dos migrantes Nordestinos por ano, nos registros civis de
nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1889 - 1939.

Local de Nascimento abs. %


Alagoas 32 13,44
Bahia 44 18,48
Ceará 30 12,6
Maranhão 4 1,68
Pará 7 2,94
Paraíba 1 0,42
Paraíba do Norte 16 6,72
Pernambuco 68 28,57
Rio Grande do Norte 8 3,36
Sergipe 28 11,76
Total geral 238 100

Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.

Em virtude da natureza da fonte aqui analisada a cor somente informada para os filhos
dos nordestinos registrados como nascidos na Baixada. Contudo, um grupo de migrantes
dessa região procurou o cartório para declarar o seu nascimento. A exemplo dos auto-
declarantes do Vale do Paraíba, 131 se registraram. Na tabela abaixo foi dividido por ano e
em porcentagem a quantidade de registros civis de nascimento do Cartório do 1º Oficio de
Nova Iguaçu. Em 1934 foram 51 (38,9%) registros enquanto a massa de migrantes
223

nordestinos, 80 (61,1%) registrou-se em 1939. Tomando o registro civil de nascimento como


o momento da estabilização na região, é lícito afirmar que os migrantes chegaram nos
primeiros anos da década de 1930 e assentaram-se ao longo dela.

Tabela 5.12 - Registros (%) dos migrantes Nordestinos por ano nos registros civis de nascimento.
Município de Nova Iguaçu, 1889 - 1939.

abs. %
1934 51 38,9
1939 80 61,1
Total 131 100

Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.

Como referido nos registros dos auto-declarantes nordestinos há referência a categoria


cor. Na década de 1930 os migrantes estavam divididos da seguinte forma: 55,81% eram
brancos, 40,31% pardos e apenas 3,87% pretos. Se no primeiro movimento de migração,
ainda no século XIX, a proeminência de migrantes eram de escravos, provavelmente pretos,
no segundo não há dados específicos sobre a cor, e no terceiro eles são a minoria. O flagelo
da seca e da crise econômica local parece ter atingido muito mais os brancos e pardos do
interior do Nordeste, onde provavelmente eram pequenos roceiros.

Tabela 5.13 - Cor (%) dos migrantes Nordestinos por ano nos registros civis de nascimento. Município de
Nova Iguaçu, 1889 - 1939.

abs. %
Branca 72 55,81
Parda 52 40,31
Preta 5 3,87
Total geral 129 100

Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.

Como visualizado anteriormente a quantidade de migrantes solteiros e casados estava


bem equilibrada, mas pouco se sabe sobre as suas idades. No cartório estiveram presente
pessoas nascidas desde o ano de 1863, em menor quantidade diga-se de passagem. Entre os
brancos são os nascidos entre 1911 e 1914 os que mais migraram para a Baixada Fluminense.
Tomando o ano de 1934 e 1939 eles teriam entre 20 e 30 anos no momento do registro. Na
análise da migração de pardos é possível notar que estiveram mais equilibrados no processo
de migração, estando presentes em quase todas as idades apesar de haver um preponderância
entre os nascidos em 1905 a 1915, ou seja, teriam entre 20 a 40 anos no momento de sua
224

estabilização. Já entre os pretos o número de 5 indivíduos não nos auxilia na identificação de


sua trajetória de migração.
Separando-os por sexo e idade é possível notar além de semelhanças no processo de
migração, uma significativa diferença entre o comportamento de brancos e pardos.387 Nos
dois gráficos abaixo é possível reforçar o descrito acima, os migrantes, em sua maioria,
possuíam entre 20 e 30, e eram do sexo masculino. Apesar dos brancos apresentarem mais
idosos entres os registrados entre os pardos eles também estão presentes. Porém, a maior
diferença a ser destacada é a significativa presença de mulheres entre os brancos na mesma
faixa etária dos jovens do sexo masculino. A presença de adultos e de mulheres me leva a crer
que essa migração, ao contrário da apresentada entre os migrantes do Vale do Paraíba era
realizada por famílias inteiras e não apenas por jovens.

Gráfico 5.31 - faixa etária (%) de brancos migrantes auto-declarantes nordestinos


nos registros civis de nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939.

80 ou Mais
71 - 75
66 - 70
61 - 65
56 - 60
51 - 55
46 - 50
41 - 45
36 - 40
31 - 35
26 - 30
21 - 25
16 - 20
11 - 15
6 - 10
0-5

-100 -80 -60 -40 -20 0 20 40 60 80 100

Masculino Feminino
Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.

387
Em virtude da pequena quantidade de migrantes pretos apenas 2 com idades entre 21 e 30 anos não construí
uma pirâmide sexo etária.
225

Gráfico 5.32 - Faixa etária pardos (%) auto-declarantes migrantes nordestinos nos
registros civis de nascimento. Município de Nova Iguaçu, 1889-1939.
80 ou Mais
71 - 75
66 - 70
61 - 65
56 - 60
51 - 55
46 - 50
41 - 45
36 - 40
31 - 35
26 - 30
21 - 25
16 - 20
11 - 15
6 - 10
0-5

-100 -80 -60 -40 -20 0 20 40 60 80 100

Masculino Feminino
Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.

A importância da família e a sua presença localmente são reforçadas pela análise das
tabelas a seguir. Muitos dos que se registraram colocaram detalhes sobre os seus familiares
tanto na referencia a sua legitimidade, quanto na divulgação e lembrança do nome dos avós.
De acordo com a tabela de legitimidade, tanto brancos quanto pardos, acima dos 90%,
disseram serem filhos provenientes de relações legítimas, e muito poucos não souberam
nomear o nome do pai. Já na nomeação dos avós muitos poucos não tiveram a oportunidade
de conhecer todos os avós, enquanto a grande maioria, entre brancos e pardos, nomearam pelo
menos 50% deles.
226

Tabela 5.14 - Legitimidade por cor (%) dos migrantes Nordestinos, nos registros civis de nascimento.
Município de Nova Iguaçu, 1889 - 1939.

Branca Parda Preta Total geral


abs. % abs. % abs. % abs. %
Legítimo 68 94,4 48 92,3 4 80 120 93
Natural 4 5,6 4 7,7 1 20 9 7
Total geral 72 100 52 100 5 100 129 100

Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.

Tabela 5.15 - Avós por cor (%) dos migrantes Nordestinos nos registros civis de nascimento. Município de
Nova Iguaçu, 1889 - 1939.

Brancos Pardos Pretos


abs. % abs. % abs. %
Avô Paterno 36 50 27 51,92 4 80
Avó Paterna 34 47,22 26 50 4 80
Avô Materno 40 55,55 26 50 4 80
Avó Materna 39 54,16 27 51,92 4 80
Todos os avós 34 47,22 26 50 4 80
Nenhum dos avós 31 43,05 23 44,23 3 60
Total de registros 72 52 5

Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.

Esses dados me levam a crer mais uma vez na migração familiar em contraponto a um
movimento populacional de apenas indivíduos jovens entre 20 e 30. Aparentemente desde o
segundo movimento de migração “as unidades familiares eram preferidas pelos
proprietários, já que se constituíam em reserva de mercado barato, representando, assim,
menor custo de aquisição de mão de obra.”388 Ao mesmo tempo o migrante também parece se
aproveitar desse desejo dos proprietários uma vez que “o trabalho familiar também era
conveniente ao colono, pois a cooperação tornava possível o melhor aproveitamento das
oportunidades de ganho”.389 Desse modo me resta uma questão se migravam em família quais
foram os postos de trabalho ocupados por esse grupo?
No segundo movimento de migração, aquele a qual considero realizado entre 1889 a
1901, os trabalhadores nordestinos que migraram para o Centro-Sul ocuparam principalmente
as áreas direcionadas para o campo, assim como diversos ofícios, não necessariamente ligados
à lavoura. No Estado do Rio de Janeiro “muitos retirantes foram contratados como substitutos

388
GONÇALVES, P. C. op. cit., 2006, p.184-185.
389
Idem.
227

dos serviços cativos, com famílias nucleares ou chefiadas por mulheres e crianças órfãs.”390
No Vale do Paraíba como um todo, principalmente em São Paulo, esse parece ter sido o
391
destino profissional dos que ali chegaram na virada do século XX. Contudo, pelo menos
no Estado do Rio de Janeiro dedicaram-se a diversos ofícios uma vez que “muitos deles
também trabalharam na lavoura canavieira e na construção da Estrada de Ferro Leopoldina
e no Espírito Santo, as evidências indicam que esses braços foram encaminhados para áreas
produtoras de farinha de mandioca e para os cafezais.” 392
Já na década de 1930 os nordestinos parecem ter optado por outros tipos de ofício na
Baixada Fluminense. No gráfico abaixo visualiza-se como cada categoria sócio-profissional
foi dividida por cor. Os nordestinos brancos estão presentes em ampla maioria em quase todos
os ofícios categorizados. Já os pardos ocuparam bastantes ofícios na Agricultura e nos
trabalhos com pagamento de diárias, os “jornaleiros”. Porém é entre os militares que os
pardos se destacam sendo a ampla maioria. Não é de hoje que pesquisadores demonstraram a
facilidade de não-brancos incorporarem as forças armadas, principalmente a Marinha.393

Gráfico 5.33 - Divisão dos oficios (%) por cor, nos registros civis de
nascimento dos auto-declarantes nordestinos. Município de Nova
Iguaçu, 1919-1939.
100
90
80
70
60
50
40
30
20
10
0
Agricultura Artesanato Comércio Corpo Doméstica Jornaleiros Serviço Transportes
ou Militar Público
Manufatura
Rural

Branca % Parda % Preta %


Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.

390
GONÇALVES, P. C. op. cit., 2006, p.193.
391
GONÇALVES, P. C. op. cit., 2006, p. 155.
392
GONÇALVES, P. C. op. cit., 2006, p. 156.
393
NASCIMENTO, Álvaro Pereira A ressaca da marujada: recrutamento e disciplina na. Armada Imperial.
Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2001.
228

É na análise da distribuição das cores pelos oficio que se visualiza as estratégias de


inserção social através do trabalho dos migrantes nordestinos. De acordo com o gráfico
abaixo, os brancos encontram-se muito mais presentes entre os ofícios ligados ao comércio e
ao de Jornaleiro. Os pardos estão presentes no corpo militar, mas a sua escolha foi pelos
ofícios ligado ao assalariamento. Já os pretos estão mais espalhados, presentes no comércio,
entre os jornaleiros e no serviço público. Aparentemente nenhum desses três grupos dedicou-
se exclusivamente ao oficio da lavoura, delegando-o nem mesmo a uma segunda opção. Isto
significa dizer que pelos menos os migrantes nordestinos chegados a Baixada Fluminense não
se ocuparam na produção de laranja, preferiram, ao contrário, em apostar nos ofícios que
permitiam uma melhor estabilização familiar.

Gráfico 5. 34 - Divisão de cada cor (%) entre as categorias sócio-profissionais.


Auto-declarantes nordestinos, nos registros civis de nascimento. Município de
Nova Iguaçu, 1919-1939.
100
90
80
70
60
50
40
30
20
10
0
Agricultura Artesanato Comércio Corpo Doméstica Jornaleiros Serviço Transportes
ou Militar Público
Manufatura
Rural

Branca % Parda % Preta %


Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.

A facilidade de sua inserção fica ainda mais clara quando se observa o grau de
analfabetismo entre os indivíduos que procuraram os registros civil de nascimento. A tabela
abaixo foi construída a partir das informações dadas pelos próprios declarantes, informado se
sabiam ler ou não. Dentre os brancos 91,6% sabiam assinar pelo menos o nome, enquanto
94,23% de pardos também o sabiam. Todos os pretos que se auto- registraram sabiam ler e
escrever.
229

Tabela 5.16 - Analfabetismo (%) entre os migrantes nordestinos, nos registros civis de nascimento.
Município de Nova Iguaçu, 1889-1939.

Branca Parda Preta Total geral


abs. % abs. % abs. %
Sabem Ler 66 91,6 49 94,2 5 100 120 93
Não Sabem ler 6 8,4 3 5,8 9 7
Total geral 72 100 52 100 5 100 129 100

Fonte: 1º Ofício de Registro Civil de Pessoas Naturais do Município de Nova Iguaçu.

A partir desses dados é possível afirmar que a migração de nordestinos para a Baixada
Fluminense, pelo menos aquela ocorrida na década de 1930 foi bem proveitosa. Eram em sua
grande maioria jovens, mas traziam em sua companhia mulheres e provavelmente os pais e
seus filhos. Em virtude da grande oferta de trabalho na região, em virtude do crescimento da
produção da laranja, aliado ao crescimento urbano e industrial da região, puderam optar por
ofícios para além da lavoura, o que lhes permitiu uma mudança social de vida. Principalmente
no que se refere a educação, mesmo que precária.
230

Capítulo 6

Festejando o reencontro:
A Folia de Reis e a construção de sociabilidades
na Baixada Fluminense (1889-1939)

“Caxumbu morreu
manda enterrar
vai lá na porteira
que Caxambu ta lá”
(Seu Pedro, contramestre de Folia de Reis)

Ao longo do tempo os migrantes do Vale do Paraíba e do Nordeste começaram a se


estabilizar na Baixada Fluminense. Como demonstrado no capítulo anterior, a maior parte se
concentrou a órbita da sede do Município e ali passaram a conviver cotidianamente. Ambos
trouxeram de suas regiões de origem práticas culturais e tentavam praticá-la em seu novo
local de moradia. Esta nova situação para todos forçava-os a reconstruir suas redes sociais e
assim praticar diferentes tipos de sociabilidades.
Neste capítulo, tento demonstrar como duas práticas culturais desenvolvidas na
Baixada Fluminense foram o resultado da reconstrução de sociabilidades dos novos grupos ali
existentes. O Jongo e a Folia de Reis eram manifestações culturais muito comuns no Vale do
Paraíba cafeeiro no período da escravidão, como já apontou Mattos e Abreu.394 No período
pós-abolição essas manifestações continuaram, e, em algumas localidades, ambas são
praticadas até os dias de hoje. Foi exatamente a partir de entrevistas realizadas com foliões
que se teve o indício de que ocorrera uma processo migratório par a Baixada, sendo boa parte
dos fundadores dessa Folias originários do Vale do Paraíba. 395
Mas uma questão não ficou clara, e neste capítulo será desenvolvido: após a migração,
já na fase de estabilização e reconstrução de redes sociais, a folia e o jongo são reproduzidos

394
MATTOS, Hebe; ABREU, Martha. “Jongos, registros de uma história” In: LARA, Silvia Hunold;
PACHECO, Gustavo (Orgs.). Memória do Jongo: as gravações históricas de Stanley J. Stein. Rio de Janeiro:
Folha Seca; Campinas, SP: CECULT, 2007.
395
No capítulo 4 e 5, através de registros civis de nascimento e de óbito de Nova Iguaçu, observou-se que esse
processo começara na década de 1920, e teve seu ápice na década de 1940.
231

na Baixada, contudo, por que o segundo não vingou? Visto que, inserido nesse mesmo
processo de migração, aparentemente, o último conseguiu se desenvolver em outras regiões
do estado do Rio de Janeiro, como foi o caso do Morro da Serrinha e do Salgueiro.
Então, quais características da folia que permitiram sua reprodução e permanência na
Baixada? As hipóteses defendidas neste capítulo são: a forma de organização – diferenciada
do jongo – possibilitou a reprodução no tempo; e, somado a isso, supõe-se que o tipo de
migração e, principalmente, de estabilização, da população preta e parda, saída do Vale para a
Baixada Fluminense e Nordestina, foi que possibilitou a construção/reconstrução da Folia de
Reis, mas não incentivou a prática do Jongo. Nesse processo estava em construção uma nova
forma de identidade, que nada mais tinha a haver com o local de origem, mas sim o da
experiência recente: a migração.
Para clarear o desenvolvimento de meus argumentos, serão seguidas as orientações de
Fredrik Barth. Em primeiro lugar, caracterizar-se-á os padrões mais destacados das Folias de
Reis, encontradas no Vale do Paraíba e da Baixada, assim como de outras regiões do Brasil.
Em seguida, serão analisados os elementos que possibilitam a construção de uma coerência e
os conteúdos que permitem à Folia tornar-se um sistema lógico. Em terceiro lugar, analisar-
se-á como ela se produz e reproduz no tempo e como mantêm as fronteiras, apesar das
variações culturais. E por último, identificar os processos sociais pelos quais as correntes
culturais, presentes nessa região, se misturaram, ocasionando interferências, distorções e
mesmo fusões.396

As Folias de Reis
Um dos temas mais discutidos, mas que aparentemente a maior parte dos folcloristas
concorda, versa sobre a possível origem dessa manifestação cultural. Segundo Gustavo
Pereira Côrtes, a Folia de Reis é uma tradição que chegou ao Brasil pelos colonizadores
portugueses, realizada na Península Ibérica, onde era comum dar e receber presentes,
entoando cantos e dançando, ou apenas pedindo esmolas e alimentos. O Dia de Reis, em
Portugal, marca oficialmente o fim do ciclo natalino, terminando com a queima das lapinhas,
a retirada dos presépios e a apresentação de autos tradicionais, como bois natalinos, as
marujadas e as pastorinhas, dentre outros.397

396
BARTH, Fredrik. O Guru, o Iniciador e outras variações antropológicas. (Organização: Tomke Lask.).
Rio de Janeiro, Contracapa, 2000, p. 127.
397
CÔRTES, Gustavo Pereira Dança, Brasil! Festas de danças populares Belo Horizonte, Ed. Leitura, 2000.
232

A Folia de Reis tornou-se uma prática muito comum no campo, todavia apresentava
uma mitologia religiosa um pouco distante do Velho Testamento católico, aproximando-se de
um tipo de catolicismo popular. De acordo com os cadernos folclóricos, a história dos Reis
Magos, contada nos cânticos das folias, diverge dos Evangelhos e

“acrescenta pormenores de legítimo sabor popular. Por exemplo, Manuel Jorge,


mestre da Folia Estrela do Oriente do Rio de Janeiro, faz tábua rasa do encontro de
Herodes com os Magos e do seu interesse em localizar o Menino (São Mateus, 2:1-
398
12), afirmando que, ao contrário, procurou desviá-los do caminho de Belém.”

Na folia há, pelo menos, 12 participantes, denominados foliões, representantes dos 12


apóstolos, podendo esse número variar ao infinito. Se houver muitos componentes, em alguns
casos, há um fiscal que ajuda na organização. Desfilam em coluna, com o Mestre à esquerda e
o Contramestre à direita encabeçando as filas. Entre os dois se posiciona o Alferes,
encarregado de levar a bandeira. Os palhaços têm liberdade de movimentos, mas nunca
podem vir à frente da mesma. Salvo o alferes e o fiscal, todos os componentes da folia são
músicos, e é nesse sentido que participam da folia.399
Os foliões, na maior parte dos casos, partem a meia-noite, no dia 24 de dezembro –
quando os Magos teriam recebido o misterioso aviso – e encerram a jornada no dia de Reis.
Porém, essas datas podem variar. Na cidade do Rio de Janeiro as folias se estendem até o dia
20 de janeiro, dia de São Sebastião e em Niterói até dia 2 de fevereiro, dia de Nossa Senhora
da Candelária. Há assim duas fases da jornada. Na primeira, a dos Reis, que vai até o dia 6 de
janeiro, assinala-se a presença dos Magos na bandeira, o estandarte da folia. A segunda fase,
do dia 7 em diante, exige o acréscimo de uma estampa de São Sebastião ao lado da dos Magos
ou de Nossa Senhora da Candelária.400
Uma semana depois de finda a jornada, ou seja, ao encerrar seu ciclo de apresentação,
as folias costumam dar uma festa para agradecer as contribuições recebidas. A denominada
“festa do remate”, a mesma visualizada no início do capítulo, comemora a saída e o sucesso
da folia. Costuma-se convidar outras folias e amigos para comer abastadamente, que
comparecem uniformizados e cantam o nascimento de cristo a seu ritmo.401

398
CASTRO, Zaíde Maciel de e COUTO, Aracy do Prado Folia de Reis Cadernos de Folclore (nova série), nº
16, 1977, p. 19.
399
CASTRO, Zaíde Maciel de e COUTO, op. cit. 1977, p. 12.
400
Idem.
401
NOGUEIRA, Álvaro Janotti (org.) Guia do folclore fluminense Rio de Janeiro, Presença Edições, Secretaria
de Estado de Ciência e Cultura, 1985.
233

Outra singularidade do Reisado é a sua estrutura inspirada no “militarismo”. É comum


a figura de o líder estar associada ao Alfer (Alferes), da bandeira, pessoa escolhida entre os
acompanhantes de maior devoção. Em Araruama, falam em Sargento de Folia que chega a
Capitão por tempo de participação e comportamento. Já as vestimentas variam de ano para
ano, e muitas vezes lembram fardas militares.402 Ao analisar as folias que saíam do município
de Araruama, o pesquisador Almeida conseguiu perceber que “os participantes deviam
obedecer às seguintes regras: não beber, não namorar, não fazer violência (briga), não
destruir as placas de sinalização, não fumar nas casas, não fazer versos inconvenientes,
difíceis e incompreensíveis.”403 A disciplina é bem rígida na folia, principalmente quando o
problema é o alcoolismo.
A bandeira é ornamentada à vontade do mestre, empunhada durante toda a jornada
pelo contramestre e seguida pelas pastorinhas. A bandeira representa a folia, assim como a
identifica, simbolizando a jornada dos Magos à Belém e a intenção com que os foliões se
dispõem à peregrinação. Vai sempre à frente, carregada pelo alferes (ou bandeirista) e ladeada
pelo mestre e contramestre. Representações ou cenas da adoração dos magos são constantes,
mas no Rio de Janeiro acrescentou-se à bandeira a figura de São Sebastião e alguns mestres
permitem juntar a imagem da Virgem ou dos santos de devoção do próprio mestre.404
A figura do palhaço é a mais emblemática. Em alguns livros aparece como o que tem
parte com diabo. Nas entrevistas aparecem como personagens facilmente maleáveis por forças
ocultas, como, por exemplo, o saci. Ao contrário do mundo mágico criado por Monteiro
Lobato, no mundo rural ele não é infantilizado, pelo contrário, é demonizado e temido por
adultos e principalmente pelas crianças. Dona Marly, moradora de Duas Barras no Vale do
Paraíba, contou que certa vez seu palhaço sumiu durante a noite, levado pelo saci, e só foi
encontrado no dia seguinte, no meio do mato. Após uma longa reza do mestre sobre ele,
conseguiu se levantar e voltou a seguir a folia.405

402
ALMEIDA, Antonio Soares de Pesquisa da manifestação cultural do Rio de Janeiro (Angra do Reis,
Araruama, Mangaratiba, Parati e Saquarema). Relatório Final, Rio de Janeiro, Governo do Estado do Rio de
Janeiro/Instituto Estadual do Patrimônio Cultural/Divisão de Pesquisa da Manifestação cultural, 1979.
403
Idem.
404
CASTRO, Zaíde Maciel de e COUTO, Aracy do Prado Folia de Reis Cadernos de Folclore (nova série), nº
16, 1977.
405
Entrevista Dona Marly - Acervo UFF Petrobrás Cultural de Memória e Música Negra (AMMN).
234

Quando uma folia entra nas casas, na maior parte dos casos, os palhaços esperam
pacientemente na rua, descansando à sombra de alguma árvore, com a máscara suspensa, ou
fazendo graça para as pessoas que se reúnem, curiosas, à porta da casa. Quando os foliões
saem, a sanfona, as caixas e o bumbo chamam os palhaços – estes saltam, dançam, recitam as
suas chulas, sob a gargalhada das crianças e o sorriso divertido e complacente da família
visitada. Costumeiramente, a despedida se faz após a brincadeira dos palhaços.406
Como já mencionado, eles nunca devem ir à frente da bandeira, isso porque
representam os soldados de Herodes, que só foram em perseguição a Jesus quando os três reis
do oriente já haviam dado os seus presentes. O palhaço veste-se como lhe parecer, mas deve
estar descalço e trazer máscaras apavorantes no rosto, de sua concepção. Para completar os
trajes, trazem os palhaços um porrete em que se apóiam e por cima do qual pulam durante as
suas exibições. O palhaço usa nome de guerra, mas nada impede que revele a sua verdadeira
identidade.407
Para todos os entrevistados em nenhum momento a Folia é tratada como folclore, e
sim religião. Fazem-na por devoção. Boa parte participa por conta de promessa, cumprida ao
término de sete anos, e a renovação dos votos faz-se sempre nos múltiplos desse número.408
Ao indivíduo não é vetada a participação antes da obtenção da graça, em alguns casos é até
mesmo incentivada. De certa forma, a promessa cria um vínculo com a manifestação cultural,
permitindo a sua existência, pelo menos durante sete anos.
As folias não necessariamente devem ser abertas na igreja católica. Seu Pedro, da folia
de São João de Meriti, afirmou, em entrevista, que o pai abria a bandeira dentro da igreja.
Contudo, ao trazer a folia para a Baixada o Bispo não permitiu e ele arrumou um centro espírita
onde trabalhava de fiscal, Centro Espírita Divino Espírito Santo, e diz que ali sendo “Umbanda de
409
linha branca, dá impressão de ser uma igreja”. Conta ainda que normalmente faz gira no
centro de Dona Leia, onde costumam ir em torno de 10 folias. O mesmo acontece com a folia a
qual Eduardo sai de palhaço eles entram em centros de umbanda para saudar os santos.410
Todavia, o palhaço não tem obrigação de fazer isso.

406
CASTRO, Zaíde Maciel de e COUTO, Aracy do Prado op. cit., 1977, p. 8.
407
Idem.
408
NOGUEIRA, Álvaro Janotti, op. cit., 1985.
409
Entrevista Seu Pedro de São João de Meriti - AMMN.
410
Entrevista Eduardo - AMMN.
235

Saindo da descrição pura, a fim de responder as questões levantadas, deve-se


compreender melhor a composição social das folias de Reis. De acordo com pesquisa
desenvolvida em Uberaba, Minas Gerais, 95% dos foliões são homens, dos quais 62% estão
entre 19 e 50 anos. Além disso, os mais jovens estão concentrados entre 22 e 30 anos, e os
mais velhos, com mais experiência de folia, entre os 50 e 65 anos.411
Pensando a folia enquanto uma organização social, nota-se nela uma presença familiar
significativa em sua composição. Na analisada em Uberaba, em 28% das manifestações
estudadas os participantes são da mesma família e em 23% ninguém ou quase ninguém é da
família. Porém naquelas em que todos ou quase todos os integrantes são aparentados, somam
38% e nas quais quase ou ninguém é parente, somam apenas 25%. Ou seja, um dos elementos
que permite a manutenção no tempo da folia de reis, pelo menos no mundo rural, é o seu
comportamento endógeno familiar.412
Na Folia de Reis é muito difícil perceber a participação de pessoas com alta renda, sendo,
na maioria dos casos, formada por indivíduos que possuem pouca instrução ou mesmo
nenhuma.413 Contudo, principalmente no meio rural, os participantes aparentam possuir extensas
redes de sociabilidades. Analisando essa questão, Carlos Brandão definiu essa expressão cultural
da seguinte forma:

“é um grupo precatório, em um espaço camponês simbolicamente estabelecido


durante um período de tempo igualmente ritualizado, para efeitos de circulação de
dádivas, bens e serviços entre um grupo precatório e moradores da região por onde
ela circula”.414

Isso significa dizer que mesmo diante das dificuldades financeiras, ser mestre de folia simboliza,
em certa medida, estar em uma posição hierárquica acima dos demais moradores da região, estar
inserido em uma rede ampla de sociabilidades, uma vez que controlava o sistema de dádivas.
Somado a todos esses fatores, no caso de Uberaba, localizada no Triângulo Mineira,
nada surpreendeu mais aos pesquisadores a participação de tantos negros em uma
manifestação cultural de “origem” européia. De acordo com os dados levantados por eles, em

411
FONTOURA, Sonia M., CELLURARE, Luiz H. e CANASSA, Flávio A. Em nome de Santo Reis: um
estudo sobre as folias de reis de Uberaba Uberaba, MG: Arquivo Publico de Uberaba, vol. II, 1997, p. 6.
412
FONTOURA, Sonia M., CELLURARE, Luiz H. e CANASSA, Flávio A op. cit. 1997, p. 14.
413
FONTOURA, Sonia M., CELLURARE, Luiz H. e CANASSA, Flávio A. op. cit. 1997, p. 10.
414
BRANDÃO, Carlos Folia de Reis de Mossâmedes. Caderno de Folclore, vol. 20, Funarte, Rio de Janeiro,
1977, p. 3.
236

84% das folias havia pessoas negras.415 E por que sua presença é tão expressiva na região do
campo?

O Rei Negro e a coerção


Na bibliografia levantada para a pesquisa, com a colaboração da pesquisadora Martha
Abreu, notou-se a inexistência da menção ao Rei Negro entre as imagens dos Três Reis
Magos. Em contrapartida, nas entrevistas coletadas e pesquisadas, no Vale do Paraíba e na
Baixada, em boa parte, há pelo menos uma citação em relação a esse rei. Na maior parte, no
Vale, aparece como Belchior ou Brechó. Seu Nilton, morador de Duas Barras e Mestre de
folia, conta a trajetória do Rei Negro. Diante do longo trajeto percorrido, ao encontrar, no
caminho, os outros dois, ele fora enganado por ambos, pois haviam indicado um caminho
mais longo e complicado até chegar a Jesus nascido. No entanto, quando os dois Reis brancos
chegaram ao estábulo, o Rei Negro já estava lá. Ele teria pegado o caminho errado, mas
auxiliada por uma estrela, chegou primeiro.416
A partir desse relato, também reproduzido por Dona Mariana no Município de
Mesquita, na Baixada Fluminense, será analisado, por diversos meios, a importância da
construção da figura do Rei Negro e a sua função na construção de identidade negra, mesmo
que não ativamente política, para a população preta e parda, no pós-abolição.
Remontando à época da escravidão, parece ser plausível afirmar que dentre os
diversos espaços abertos para a participação dos cativos na sociedade, os meios religiosos
populares eram um dos mais importantes. Apesar das práticas culturais e religiosas serem
toleradas pelo poder público, aparentemente quanto mais próximo dos cultos católicos maior
era a possibilidade de viver sem perturbações da polícia. Este parece ter sido o caso de
Domingos Sodré, pois no dia de seu aprisionamento foi encontrado em sua sala diversos
santos católicos, enquanto nos quartos, haviam diversos elementos do candomblé. João José
Reis aponta essa atitude como uma estratégia e não simplesmente como um fingimento.417
No período pós-abolição a “expectativa do caos” ou o “grande medo”, como
Albuquerque convencionou chamar, provocou maior perseguição aos batuques, uma vez que,

415
FONTOURA, Sonia M., CELLURARE, Luiz H. e CANASSA, Flávio A. Em nome de Santo Reis: um
estudo sobre as folias de reis de Uberaba Uberaba, MG: Arquivo Publico de Uberaba, vol. II, 1997, p. 16.
416
Entrevista Seu Nilton - AMMN.
417
REIS, João, Domingos Sodré. Um Sacerdote Africano. São Paulo, Cia das Letras, 2008, p. 282.
237

para a população em geral, assemelhavam-se ao ritmo das religiões afro-brasileiras.418 De


acordo com os jornalistas baianos, entre 1880 e 1890 houve proibição dos batuques pela
polícia, uma vez que acreditavam não se enquadrar ao modelo carnavalesco.419 De acordo
com a autora, desejava-se naquele momento construir um modelo de carnaval que não
incluísse, de certa forma, os aspectos culturais africanos considerados negativos.
Inicialmente, supõe-se que o jongo, por se assemelhar aos ritos afro-brasileiros, e
durante muito tempo denominado, de forma pejorativa, “macumba”, provavelmente foi muito
mais perseguido do que a Folia de Reis que se aproximava do Catolicismo, mesmo que
popular e distante dos ritos oficiais da Igreja Romana. Diversos são os relatos, de
entrevistados para o projeto Jongos, Calangos e Folias, sobre o preconceito sofrido em relação
ao jongo. O pai de Dona Mariana fazia jongo em Itaperuna, no interior do Rio, e tentou trazê-
lo para Mesquita. Todavia, sofreu muito preconceito na região de sua residência, efetivamente
porque seus vizinhos diziam estar praticando “macumba”.420 Délcio possui relato semelhante.
Morador da Comunidade de Negros Remanescentes de Quilombo de Bracuí, localizada no
município de Angra dos Reis, Sul Fluminense, diz que no dia seguinte às festas em sua casa
que tinham jongo, muitos vizinhos perguntavam sobre a “macumba” do dia anterior. Após
algum tempo na região se criou certo preconceito em relação a essa manifestação cultural, a
qual os jovens, por vergonha, deixaram de praticar.421
Bem, se o rei negro ganha mais projeção ou não no período do pós-abolição, a partir
dos dados levantados, não é possível afirmar. No entanto, ele é muito mais citado no Vale do
Paraíba do que na Baixada Fluminense. Em entrevistas realizadas na última região, apenas
Dona Mariana relata sobre o Rei Negro. Já Seu Pedro, morador de São João de Meriti e
Mestre de Folia, nascido em Miracema, no norte do Estado, conheceu a folia com seu pai,
mas quando chegou à Baixada não a reproduziu. Após o falecimento de um grande amigo,
praticante da folia de reis desde a década de 40, ele tornou-se mestre da mesma. Em entrevista
não cita em momento algum o Rei Negro, mesmo quando perguntado duas vezes pela
entrevistadora Hebe Mattos.422

418
ALBUQUERQUE, Wlamyra. O jogo da dissimulação. Abolição e cidadania negra no Brasil. São Paulo,
Cia das Letras, 2009, p. 98.
419
Idem, p. 199.
420
Entrevista Dona Mariana - AMMN.
421
Entrevista Délcio Bernardo - AMMN.
422
Entrevista Seu Pedro - AMMN.
238

Mas o questionamento permanece, mesmo sem poder datar a construção da figura do


rei negro, pode-se, pelo menos, tentar identificar sua importância para essa população de
pretos e pardos, no pós-abolição. Nesse sentido, torna-se mister discutir os processos de
construção de identidade e o da identidade negra.
Fala-se da identidade primeiramente no sentido mais amplo, aquele que estabelece
uma imagem de si, para si e para os outros. Pollack423 a define como a imagem que a pessoa
cria para si durante um determinado tempo, e que ela constrói para os outros, com a
finalidade das pessoas a perceberem do que jeito que ela deseja. Dessa forma, o autor salienta
a existência de três elementos na construção da identidade. O primeiro, consistiria na unidade
física, na percepção de fronteiras. Em segundo lugar, a identidade pode ser encontrada numa
continuidade dentro do tempo, já que nos construímos com a percepção da moral e do
psicológico; e por último, existe o sentimento da coerência, no qual os elementos dos quais as
pessoas se constituem, dão referencias para os outros. Logo, o “outro” se torna o parâmetro
para a construção de nossa identidade, ou seja, ninguém se constrói sem mudar no tempo,
sem negociar com os recursos simbólicos e, principalmente, tem que ser aceito pelos demais.
424

Ao enfatizar a construção de uma identidade deve-se atentar para o que define as


fronteiras, ou seja, os elementos diacríticos e não o seu conteúdo. Nessa tese, busca-se atingir
o momento no qual o indivíduo aciona essa cultura, e para isso deve-se analisar as fronteiras
425
que definem quem é o “nós” e quem são “eles”. Para que haja essa diferenciação é
necessário a existência de algum ponto de contato mantedora dessa relação, ou seja, deve
haver uma estrutura de interações que permita esse relacionamento. E o fato de existir este
tipo de dicotomização entre os de “dentro” e os de “fora”, nos permite especificar a natureza
da continuidade e por seguinte o conteúdo cultural em mudança.426 Portanto, a memória pode
acionar elementos variados que por vezes os incluem em acontecimentos públicos ou
experiências públicas, ou pelo contrário, pode acionar as fronteiras e se manter fora do fato.
A construção de uma identidade quase sempre acontece no plano político, podendo ser uma

423
POLLACK, Michael. “Memória e Identidade Social” in: Estudos Históricos. RJ, 1992, vol. 5, n.10. p 5.
424
Idem.
425
BARTH, F. “Os Grupos étnicos e suas fronteiras”. In: LASK, Tomke (org.) O guru e o Iniciador e outras
variações. RJ: Ed. Contracapa. 2000.
426
BARTH, F. op. cit., 2000, p. 33.
239

identidade étnica, cultural, sócio-profissional ou de classe, no sentindo de identificar o grupo


enquanto ator político.
Somado a esses fatores, os ritos, principalmente os comemorativos, tem efeitos
holísticos e desempenham funções instituintes de sociabilidades, ultrapassando o problema da
fidelidade. A memória, nesse sentido, possui um papel pragmático e normativo. Em nome da
história ou de um patrimônio comum, ela visa inserir os indivíduos em cadeias de filiação
identitária, distinguindo-os e diferenciando-os, e “exige-lhes, em nome da identidade do eu ou
da perenidade do grupo, deveres e lealdades endógenas”.427
Afinal, surge um questionamento: será que a folia, ao utilizar o Rei Negro, está
construindo em torno do seu grupo uma identidade negra? A partir da leitura de Gilroy nota-
se que essa forma de identidade se formula na memória da escravidão, na vivência do racismo
e a partir do sentimento de desenraizamento dessa parcela da população.428 Buscando os
elementos identitários da folia, nesse caso, torna-se mister salientar que em nenhuma folia
entrevistada há menções sobre a África e/ou exacerbação da experiência do cativeiro.
Como mencionado anteriormente, na Baixada e Vale do Paraíba há uma forte presença
de afro-brasileiros na folia. Nas entrevistas, coletadas pelo Projeto Jongos Calangos e Folias,
em poucas vezes a memória da escravidão foi evocada na Baixada, e quando levantada
poucos faziam relação entre escravidão e folia de reis. Eduardo, por exemplo, palhaço da folia
Estrela do Oriente de Caxias, diz que a Folia na qual participa tem mais de 160 anos, e mesmo
assim não menciona o tempo do cativeiro.429 Em contrapartida, seu Pedro, de São João de
Meriti, quando perguntado, menciona que os avós, Manoel Augusto Carmo e Maria Helena da
Conceição, pegaram o tempo da escravidão, eram trabalhadores de roça e não faziam folia. O
pai, descendente de escravos, e provavelmente nascido já no pós-abolição, não aprendeu folia
da ascendência, mas sim de amigos e vizinhos.
Em relação ao jongo, mais praticado no Vale do Paraíba, a associação entre
manifestação cultural e memória da escravidão é muito mais próxima, pois de acordo com
alguns jongueiros, era a língua pela qual os escravos, de forma cifrada, se comunicavam. Foi

427
CATROGA, Fernando. Memória, História e Historiografia. Coimbra, Quarteto, 2001, p. 25-26.
428
GILROY, Paul. O Atlântico Negro, Modernidade e Dupla Consciência, Rio de Janeiro, UCAM/Ed. 34,
2001.
429
Entrevista Senhor Eduardo - AMMN.
240

assim que Seu Manoel Seabra, morador da comunidade de São José da Serra, reconstruiu sua
memória sobre o jongo.430
Declarar e buscar mencionar a origem européia da Folia de Reis pode ter diminuído, e
muito, a repressão da polícia e das ordens públicas, mesmo que a tensão entre a
permissividade e a lei fosse sempre latente.431 O fardamento pode ter sido uma forma
encontrada por essa população para demonstrar ser a folia extremamente disciplinada. Mesmo
se em muitos casos eram confundidos com bagunça, alcoolismo e vadiagem, tentavam a todo
o custo retirar essa imagem de seu grupo. Isso também ocorria em virtude da recorrência das
brigas, no campo, por conta das disputas, muito comuns, entre as folias. Até hoje os mestres
possuem muita força dentro de sua folia e exigiam disciplina, exatamente para evitar a
coerção e a proibição de renovar a licença.
Acredita-se que o controle mais efetivo sobre as folias ocorreu quando da instituição à
retirada de alvará de saída. Desde o século XIX, somente ele permitia a folia a sair pelas ruas
e a decisão sobre a liberação da licença ficava a cargo do delegado da região. Na maior parte
dos casos eram leis municipais, pois somente com muita negociação a folia recebia permissão.
Caso o delegado não desejasse, ela não saía. Logo, mesmo diante dos conflitos localizados e
do “grande medo”, como afirma Albuquerque, nunca houve no Brasil, no pós-abolição,
alguma lei que se assemelhasse ao “código negro” norte americano.432
Já na década de 70, para ser mais preciso em 1972, Edgar de Souza, no Município de
Caxias, criou a Federação de Reisado. Apesar da iniciativa de unificar as Folias de Reis e de
se tornar um centro de discussão, hoje o seu principal papel é o da liberação da licença, pois
atualmente não fica mais a cargo do delegado. Seu Pedro, hoje vice-presidente da Federação,
conta em entrevista que antes dessa organização ocorriam muitas brigas entre as folias. Tanto
que certa vez viu duas folias se encontrarem às 3 da manhã e só terminarem às 6 da tarde,
claro, em pancadaria. Ao assumir a presidência resolveu acabar com os encontros nem um
pouco amistosos e nos dias de hoje só permite a cantoria até as 10 da noite. 433

430
ABREU, Martha, MATTOS, Hebe e DANTAS, Carolina Vianna “Capítulo 9 - Em torno do passado
escravista: as ações afirmativas e os historiadores” In: Helenice Rocha Marcelo Magalhães Rebeca Gontijo A
escrita da história escolar: memória e Historiografia Rio de Janeiro Ed.: FGV, 2009, p. 194.
431
ABREU, Martha O Império do Divino – Festas religiosas e cultura popular no Rio de Janeiro (1830-
1900). Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2000.
432
ALBUQUERQUE, Wlamyra. op. cit., 2009, p. 123.
433
Entrevista Seu Pedro - AMMN.
241

Essas tentativas de unificação dos ritos, através de Federações, quase sempre


malogram, por não levarem em conta a variação existente entre os grupos. Dificuldade
encontrada também entre as organizações de ritos afro-brasileiros. No processo de busca para
unificar a doutrina e pela necessidade jurídica de conseguir sobreviver à perseguição, a
Umbanda se institucionalizou na década de 1960. Momento no qual as disputas pelo campo
religioso se intensificaram, pois havia uma significativa variedade de cultos de Umbanda. As
federações se reuniram, primeiramente, com o intuito de conseguir resistir às pressões e
continuar a praticar livremente seus cultos. Nesse processo de institucionalização, a
unificação e o controle da doutrina foram uma das grandes controvérsias da instituição. Por
vezes estava relacionando a disputas até no campo político, no qual candidatos pediam
proteção aos orixás e aos integrantes do culto para conseguir ganhar eleições.434 De acordo
com Birman, na Umbanda isso ocorre porque “a dinâmica de dispersão, própria das formas
de organização dos cultos, não pôde ser evitada nem mesmo entre aqueles que tentavam
colocar em prática um projeto de centralização e unificação doutrinária.”435
Capone, ao analisar o candomblé, demonstra semelhante problema. De acordo com a
autora, em Salvador, entres as décadas de 1980 e 1990, ocorreram várias discussões, tendo
como principal esforço unificar os orixás e acabar com a fragmentação africana pelo
mundo.436 Aparentemente, entre essas manifestações culturais religiosas há semelhante
característica que apontam na existência de uma formação, quase pedagógica, dentro de
pequenos grupos; e quando o nível máximo é atingido, o indivíduo está liberado para ter sua
própria confraria. Isso é recorrente na Folia de Reis, na Umbanda e no Candomblé.
No processo de migração da população de pretos e pardos em direção à Baixada
Fluminense, é mister salientar que a manifestação cultural, no caso a Folia de Reis, esteve
sempre em processo de construção e em fluxo de mudança. Supõe-se, então, que ela sofreu
diversas mudanças, dentre as quais destacam-se: controle, silenciamento e apagamento de
experiências.437 Ao longo do texto notou-se a tensão do Estado na tentativa de controlar os
ritos afro-descendentes e o silenciamento do rei negro em algumas folias da Baixada. Isso, ao
longo do tempo, pode ter construído entre os praticantes, através da Federação o dos
encontros consecutivos, um sentimento de pertencimento e a formação de um grupo. Nesse
434
BIRMAN, Patrícia O que é umbanda. São Paulo: Abril Cultural/Brasiliense. (Coleção). (Primeiros Passos)
1985.
435
BIRMAN, Patrícia op. cit., 1985, p. 97.
436
CAPONE, Stefania. A Construção da África no Candomblé. São Paulo, Pallas, 2004, p. 295.
437
BARTH, F. Etnicidade e o Conceito de cultura. Niterói, Antropolítica, n. 19, 2005, p. 22.
242

sentido, a construção em torno do apagamento da memória do rei negro, não visava construir
uma identidade negra, mas sim criar uma rede sociabilidades que permitiria aos foliões se
sentirem integrados a um grupo e o seu papel dentro da comunidade mais abrangente. Ou seja,
se há um silenciamento sobre a identidade negra, qual é o elemento que os une? O sentimento
de desenraizamento?

A transformação do mesmo
A experiência da migração, aparentemente, fez parte da história de vida das folias do
Sudeste. Fontoura, ao analisar os relatos dos foliões, observou que em Minas Gerais ocorreu
uma intensa migração das folias do mundo rural para a zona urbana, na década de 1940.438
Para ela, a entrada da criação de gado acelerou esse fenômeno. De certa forma, houve um
esvaziamento das colônias, e, consequentemente, muitos migraram para a periferia de
Uberaba.439
Paralelamente, como mencionado no início deste capítulo, nas entrevistas com Dona
Mariana e Seu Pedro de São João de Meriti houve também um processo de migração do Vale
do Paraíba para as zonas urbanas, principalmente as que estavam em crescimento, como o
município de Nova Iguaçu.440 Em virtude desse fenômeno, observou-se a existência de
diferenças entre as folias do campo e da cidade, o que, ao longo do tempo, não interditou sua
existência. Afinal, como diria Barth, a formação de grupos ocorre com base nas diferenças
culturais, uma vez que a cultura possui uma variação contínua.441
De acordo com Castro, uma das mais consistentes diferenças entre as folias do campo
e da cidade versa sobre o ritmo e a forma de peregrinar no período natalino.442 No campo, à
meia noite do dia 24 de dezembro, após a abertura da bandeira na missa do Galo, começa a
peregrinação. É uma viagem com término apenas no dia 6 de janeiro, quando do retorno à
casa. O caminho traçado na volta não pode ser o mesmo, visto que os três Reis Magos tiveram
que encontrar Herodes antes de retornar às suas terras, e se voltassem pelo mesmo caminho
poderiam levá-lo até Jesus recém-nascido. Esse longo período afastado pode ser facilitado

438
FONTOURA, Sonia M., CELLURARE, Luiz H. e CANASSA, Flávio A. Em nome de Santo Reis: um
estudo sobre as folias de reis de Uberaba Uberaba, MG: Arquivo Público de Uberaba, 1997, p. 12.
439
FONTOURA, Sonia M., CELLURARE, Luiz H. e CANASSA, Flávio op. cit. 1997, p. 27.
440
Entrevistas: Seu Pedro Meriti e Dona Mariana - AMMN.
441
BARTH, F. Etnicidade e o Conceito de cultura. Niterói, Antropolítica, n. 19, 2005, p. 16.
442
CASTRO, Zaíde Maciel de e COUTO, Aracy do Prado op. cit. 1977.
243

pela condição de lavrador ou meeiro, pois esses tipos de atividades não exigem um ritmo
diário de trabalho.
Já nas folias da cidade os participantes só podem sair aos finais de semana, visto que a
maior parte trabalha durante o dia e não pode se ausentar durante longo tempo. O palhaço
Eduardo, da folia Flor do Oriente de Caxias, em entrevista, ao comparar as folias da cidade e
do campo aponta que apesar da folia na cidade só sair aos finais de semana, no Rio para no
dia 6, e retorna somente no dia 19 para o dia 20 de janeiro. Porém, para sua infelicidade, nessa
data não é permitida a presença de palhaços. 443
As distâncias percorridas pela folia também variam entre essas regiões. No campo se
visita praticamente todas as casas da comunidade. Seu Geraldo Abel, morador do município
de Duas Barras, afirma que antigamente era comum visitar os amigos da redondeza, para
rezar o presépio.444 Já na cidade, em virtude das inconveniências do batuque em alto tom e do
avanço das religiões evangélicas, tornou-se quase obrigatório perguntar antes, aos moradores,
quem deseja ter a folia em casa. Consequentemente, o número de casas visitadas é bem
menor, em relação ao mundo rural, o que pode gerar até mesmo uma menor arrecadação para
a manutenção da Folia. Por isso, o Sr. Pedro enfrenta dificuldades para colocar a Folia de Reis
na rua e, em muitos casos, depende de financiamento público para freqüentar os encontros.445
Outra diferença, visualizada na bibliografia especializada e na pesquisa de campo, é a
participação das mulheres. No campo, em tempos anteriores, era difícil que mulheres
participassem da folia, sendo permitido apenas enquanto pastorinhas e ajudantes da folia.446 Já
no mundo urbano essa atuação é bem diferente. Elas estão muito mais presentes, no papel, em
muitos casos, de Mestres de folia, como é o caso de Dona Mariana, citada anteriormente, e
Dona Eliane, da Folia Estrela D´alva do Pilar.
Em relação a composição social, entre duas regiões é possível apontar uma grande
diferença, principalmente no quesito fonte de renda. No campo, os participantes são
empregados em sua maioria na lavoura ou em atividades de pouca remuneração, o que exige
uma maior atividade da folia para arrecadar fundos. Senhor Dudu conta que a mãe tinha uma
folia com 18 componentes, todos solteiros, mas ele não saía. Ela tinha terreno próprio, e
trabalhava na lavoura. Os parentes vieram todos para o Rio, e só ficaram ele, a mãe e o caçula
443
Entrevista Eduardo - AMMN.
444
Entrevista Geraldo Abel - AMMN.
445
Entrevista Sr. Pedro - AMMN.
446
FONTOURA, Sonia M., CELLURARE, Luiz H. e CANASSA, Flávio A. op. cit., 1997, p. 29.
244

lá em São Sebastião.447 Já na cidade os foliões exercem diversos tipos de trabalho que quase
sempre exigem a presença de segunda a sexta. Nesses casos, boa parte das folias da Baixada
se auto-sustentam, ou seja, o mestre possui condição, mesmo que mínima, para manter a folia,
sem necessitar tanto das doações. Como é o caso da Folia de Dona Mariana, no Município de
Mesquita. Sua filha afirma que recebe muito pouco patrocínio, seja do poder público, seja dos
moradores que recebem a folia em suas casas.448 Contudo, Fontoura alerta muito bem que não
é comum se ver grandes empresários e pessoas de alto nível social da cidade participando
ativamente na folia de reis. 449
A participação da família na Folia também se modifica em virtude de sua localização.
No campo, a maior parte das folias é composta somente por membros da mesma família ou
com parentes muito próximos. Todavia, na cidade a folia também pode ser formada por
familiares e parentes, mas já há uma grande presença de parentes distantes e, principalmente,
de amigos que não possuem laços parentais. Quando vai para o meio urbano, as folias tendem
a aceitar os migrantes e moradores da periferia. Contudo, essa nova formação “não interferiu
na estrutura ritual e devocional da folia e no seu aspecto de religiosidade rural.” 450 A partir
disso “constata-se que as transformações garantiram a sobrevivência da manifestação do
catolicismo tradicional das folias de reis, num contexto inteiramente diferenciado.”451
Dessa forma, é possível concluir que a folia é, primordialmente, de acordo com
Brandão, rural, mas “a sua presença dentro dos centros urbanos resulta do êxodo rural,
sendo um aspecto da adaptação de vida de migrantes do campo. A folia se transforma em um
452
espaço simbolicamente reconstruído”. Esse novo espaço de sociabilidades pode ter sido
criado na Baixada Fluminense, região que recebeu, entre as décadas de 20 e 40, quantidade
significativa de migrantes, vindos de todas as partes do Brasil e da Europa.

Migrando e cantando e seguindo a Folia


Como mencionado no início do capítulo, depois de realizadas entrevistas na Baixada
Fluminense, notou-se a existência de muitas folias que tiveram como fundadores e mestres

447
Entrevista Senhor Dudu, AMMN.
448
Entrevista com Lazy, AMMN.
449
FONTOURA, Sonia M., CELLURARE, Luiz H. e CANASSA, Flávio A. op. cit., 1997, p. 28.
450
FONTOURA, Sonia M., CELLURARE, Luiz H. e CANASSA, Flávio A. op. cit., 1997 p. 36.
451
Idem.
452
BRANDÃO, Carlos op. cit., 1977, p. 37.
245

pessoas migradas do Vale do Paraíba. Ao ser entrevistado por Hebe Mattos, em São João de
Meriti, o palhaço Henrique diz que nasceu na folia. O bisavô foi o mentor da folia de reis que
hoje é comandada por sua tia Eliane, moradora do Bairro do Pilar, Município de Duque de
Caxias. De acordo com o entrevistado, a Folia Estrela D´Alva do Pilar, veio de Minas Gerais,
de Além Paraíba. Todavia, não soube datar quando a família saiu dessa região do Vale do
Paraíba, mas o pai veio para o Rio com 10 anos, inicialmente para Piabetá e depois fixando
residência em Caxias.453
Caso semelhante é o de Sr. Antônio Marcelino Moraes e Rogério, Mestre e
Contramestre, respectivamente, da Folia Reizado Flor do Oriente, existente há a 35 anos na
Vila Rosário, em Duque de Caxias. Rogério afirma que a sua Folia de Reis está perto dos 160
anos, sendo ele a 4ª geração de praticante da família. O depoente diz que foi em Miracema, na
Fazenda Recreio, em Minas Gerais, o local onde seu bisavô criou a folia. Seus familiares
trabalhavam na lavoura, mas outros já tinham “suas próprias vidas”. A fazenda não tinha
muita vida ativa, pois já era boi nessa época. O tio de seu avô reside em Caxias, mas antes de
se estabilizarem no Rio de Janeiro, passaram pelo Espírito Santo.454
Essas experiências de migrações aparentemente vinham de dois lugares específicos do
Sudeste. No primeiro caso vinham do Vale do Paraíba onde o café era mais antigo, isto é, de
regiões como Vassouras, Valença, Piraí, no Estado do Rio; e de locais como Além Paraíba,
Mar de Hespanha, de Minas Gerais. Já no segundo caso vinham do Vale do Paraíba mais ao
norte do Estado, aonde o café chegou com força no século XX, de regiões como: Itaperuna,
São Fidélis, Miracema, entre outros. Preliminarmente, através dessas entrevistas, é possível
delimitar no tempo as duas experiências. No primeiro caso, aparentemente, começa entre as
décadas de 20 e 40. Migração essa acompanhada no capítulo 4, através dos registro civis de
nascimento do município de Nova Iguaçu. Já o segundo, caso somente foi possível datá-lo
como um processo das décadas de 50-70 através de entrevistas.
Na segunda experiência algumas entrevistas são emblemáticas, como foi o caso de
João Olegário das Silva (João festeiro), nascido em Natividade, Carangola, Norte Fluminense,
em 1946. A avó, Maria Luísa, morou na fazenda, mas depois veio para o Rio de Janeiro e
passou a residir em Imbariê e, sempre que possível, ia visitá-la. Ele decidiu sair em 1969 com

453
Entrevista Henrique - AMMN.
454
Entrevista Senhores Antônio Marcelino Moraes e Rogério - AMMN.
246

idade de 24 anos. O entrevistado fala que os irmãos compraram um lote para o pai em
Itaboraí, e lá viveu de plantação.455
No entanto, o caminho mais comum dessa migração parecia ser o de Dona Mariana
Leve dos Santos, nascida em 1930, tendo 81 anos na dia da entrevista. A sua avó paterna,
Felicíssima, foi da época do cativeiro, e veio a falecer quando a entrevistada possuía 15 anos.
No processo de migração familiar os primeiros a saírem de Itaperuna foram o pai e o irmão
mais velho, Antonio Jacinto, para trabalhar como pedreiros. Posteriormente, ela foi para o
Município de Duque de Caxias com a família toda, no Bairro Copacabana.456
Para o caso do Vale do Paraíba mais antigo, foi possível acompanhar
genealogicamente a família de Dionísio, que permaneceu na mesma fazenda, localizada em
Valença, até o período posterior a abolição. Vô Dionísio nasceu no dia 20 de Maio de 1866,
filho de Tertuliano e Miquelina, escravos de José Gonçalves Roxo. 457 Cresceu junto a seus
pais na fazenda São José, mesmo local onde nasceram seus filhos e netos. Eles tiveram, nessa
fazenda, mais cinco filhos. A família de Dionísio pertencia a comunidade de remanescentes
de quilombo São José da Serra, onde reside até os dias de hoje descendentes de escravos dessa
mesma fazenda. Local onde, de acordo com Seu Manoel Seabra, a folia era praticada entre os
mais velhos.458
Vô Dionísio saiu da Comunidade e fez uma “rocinha” na Fazenda da Empreitada, onde
criou e casou boa parte dos seus filhos. Entretanto, ao longo dos anos 1920, viu seus filhos
homens, nascidos após a abolição, Manoel (20/01/1899), José (23/09/1903) e Joaquim
(03/03/1908) saírem da fazenda para trabalhar na produção da laranja no antigo Município de
Iguassú, na Baixada Fluminense. 459
A partir dessa entrevistas e dos dados mencionados no capítulo 4 pode-se chegar uma
primeira conclusão sobre o perfil dos migrados que compuseram a Baixada Fluminense,entre
os anos de 1920, e 1940, e quais as suas possíveis implicações na produção e/ou reprodução

455
Entrevista João Olegário - AMMN.
456
Entrevista Dona Mariana, 2006 - AMMN.
457
Livro II de Batismo, fl. 13, termo 29 – 20/05/1866, Arquivo Eclesiástico de Santa Isabel do Rio Preto
(AESIRP).
458
Entrevista Manoel Seabra, 2003, Acervo Memórias do Cativeiro (AMC).
459
Manoel: Livro IV, fl. 181, termo 8 – novembro de 1898, AESIRP; José: Livro V, fl. 37, termo 4 – 23 de
setembro de 1903, AESIRP e Joaquim: Livro V, fl. 89, termo 73 - 3 de março de 1908, AESIRP. Parte da
genealogia foi publicada em MATTOS, H. MATTOS, H. Marcas da escravidão: Biografia, Racialização e
Memória do Cativeiro na Historia do Brasil. Tese para professor Titular no Departamento de Historia da UFF.
Niterói, 2004.
247

das manifestações culturais. Primeiro, um grupo expressivo deixou registrado possuir como
origem de nascimento a região do Vale do Paraíba. Em segundo, são na maioria identificados
como pretos e pardos. Terceiro, a maior parte se declara do sexo masculino e estão
localizados na faixa etária entre 21 e 30 anos. Se nasceram no Vale e possuíam essa idade,
podem ter convivido e conhecido as manifestações culturais do Jongo e da Folia de Reis.
A hipótese desse capítulo aponta que esse processo específico de migração de jovens
para a Baixada dificultou a continuação e/ou reconstrução da prática do Jongo. Seu Manoel
Seabra, morador do Quilombo de São José, em entrevista ao projeto Memórias do Cativeiro,
afirmou que no passado crianças e adolescentes não podiam participar das rodas de caxambu.
Havia várias explicações para isso ocorrer, a primeira era em virtude das constantes brigas de
cacete, sempre no final da roda. Em segundo, e mais importante, o jongueiro deveria ser
muito bom, pois caso contrário poderia sofrer uma demanda e ficar preso na roda – o que
ocorreu uma vez ao nosso entrevistado.460 Ou seja, para ser bom jongueiro era necessário ser
bom de briga e, principalmente, saber muito bem as regras, o que, claramente, levava tempo;
logo, um bom jongueiro normalmente tinha idade avançada. Para Délcio, por exemplo, isso
impediu que a prática se prolongasse na comunidade de Bracui, uma vez que os jovens viam a
manifestação como “coisa de velho”.461
Desse modo, a maior parte dos que migraram para a Baixada Fluminense, podem
nunca ter presenciado uma roda de jongo. Primeiro, em virtude de sua idade jovem, uma vez
que era proibida aos mais novos a sua participação. Ou se conheciam, deveriam saber muito
pouco as regras para reproduzi-lo com confiança. Pois a eles era permitido somente participar
das rodas de calango ou da Folia de Reis.462 Ou seja, essa constatação desmonta a tese de que
foi a repressão policial que acabou com o jongo.
Como demonstrei no início do texto, a Folia de Reis no campo era uma prática
familiar, que raramente aceitava pessoas de fora. Com a mudança para a cidade, acredito ser
muito mais provável, que depois de assentado, o migrado forme uma família grande, convide
amigos católicos, independente da origem e a partir dela inicie uma Folia de Reis própria -
como foi o caso de Dona Mariana, tantas vezes relembrada aqui - do que encontrar algum
jongueiro que provinha de uma região específica do Brasil, o Vale do Paraíba.463

460
Entrevista Senhor Manoel Seabra, 2003 – Acervo Memória do Cativeiro (AMC).
461
Entrevista Délcio Bernardo - AMMN.
462
Entrevista de Manoel Seabra, 2006 - AMMN.
463
Entrevista Dona Mariana - AMMN.
248

No entanto, forçando essa possibilidade ao máximo, faz-se a seguinte pergunta:


mesmo conhecendo o jongo, ao chegar numa região desconhecida, com pessoas de todos os
cantos do mundo, seria fácil encontrar jongueiros que pudesse compartilhar da cultura? Então,
provavelmente, o tipo de ocupação territorial, na região estabelecida pelo migrado,
influenciou nessa produção/reprodução cultural.
Haja vista a experiência do Morro da Serrinha, no Subúrbio do Rio de Janeiro, um dos
poucos lugares onde se pratica o jongo até os dias de hoje. Havia também entre os que
chegavam à Serrinha migrados das fazendas do interior fluminense, do Espírito Santo e de
Minas Gerais, que buscavam trabalho na capital da recente república, libertos da condição de
escravos pela lei de 13 de Maio de 1888.464
Entre os migrados destaco os principais jongueiros do morro: José nascimento Filho,
empregado da resistência do cais do Porto, nasceu em Três Rios no dia 19 de Março de 1903,
dia de São José e falecido em 1952; Marido de Eulália de Oliveira nascimento, ambos
moradores da Serrinha. Muitas vezes, a cada aniversário do marido, Dona Eulália fazia o
jongo no morro. Um dos grandes jongueiros da comunidade, Antonio Rufino dos Reis, o Seu
Rufino da Portela, mineiro de Juiz de Fora, chegou ao Rio em Novembro de 1920 com 14
anos. Nascido em 2 de março de 1907, neto de jongueiro, quando era criança acompanhou a
Folia de Reis, foi mensageiro do divino e contador de desafios. De acordo com Raquel
Valença, o primeiro Jongo que seu Rufino compareceu não pôde participar, pois ainda era
muito criança. 465
Outra jongueira importante na Serrinha foi Vovó Maria Joana (1902-1986), nascida na
Fazenda Saudade, município de Valença, a 24 de Junho de 1902. Quando criança ainda
trabalhou em lavouras de arroz, feijão e café antes de chegar a Madureira, subúrbio do Rio de
Janeiro, na segunda década do século XX. Estabeleceu-se na Serrinha com 28 anos, onde se
dedicou aos cultos afro-brasileiros e dançava Jongo, ao lado do marido Pedro, sendo, Darci,
filho do casal, também jongueiro, o promotor de festas de jongo realizadas em homenagem á
Mãe, todo dia 24 de Junho. Algumas décadas depois, ajudou a fundar a escola de samba
Império Serrano.466

464
VALENÇA, Raquel Teixeira Serra, Serrinha, Serrano: O império do samba. Editora Olympio, Rio de
Janeiro, 1981.
465
Idem.
466
GANDRA, E., Jongo da Serrinha. Do terreiro aos palcos. Rio de Janeiro: Giorgio Gráfica e Editora, Uni-
Rio, 1995 apud MATTOS, H. e ABREU, M. “Jongo, registro de uma história” In: LARA, Silvia Hunold e
249

E por que o Jongo conseguiu se reconstruir em alguns morros cariocas?


Provavelmente esse processo ocorreu, pelo menos na Serrinha, em virtude da ocupação no
morro, por pessoas oriundas do Vale do Paraíba. Além disso, é mister salientar o papel de
Mestre Darcy na reorganização do jongo, dando um aspecto teatral e profissionalizante a essa
manifestação cultural. Como afirma Martha Abreu, em 1975, Darcy, Antonio Santos (Mestre
Fuleiro) e Candeia chamaram a atenção da mídia ao organizar apresentações de jongo no
Teatro Opinião, buscando “reavivar a cultura negra autêntica”.467 Somado a isso, uma das
principais decisões de Mestre Darcy, na reformulação do Jongo na Serrinha, foi a permissão
dada as crianças de participarem da roda. E, ao longo dos anos, iniciou um processo
pedagógico de aprendizado do Jongo.
Em relação ao segundo ponto, a forma de ocupação do morro beneficiou o encontro de
pessoas que conheciam ou pelo menos presenciaram o jongo em algum momento da vida o
jongo. Provavelmente, José Nascimento, Antonio Rufino e Dona Maria Joana se esbarravam
constantemente nas idas e vindas do trabalho, o que pode ter reavivado a memória do Jongo.
Efetivamente, existem poucos dados sobre essa ocupação, no entanto, supostamente se
encontravam muito mais próximos do que os migrados que escolheram ir para a Baixada
Fluminense.
A explicação para a reconstrução da Folia de Reis na Baixada Fluminense e não o
jongo, consiste na observação do padrão de estabilização já apresentado em capítulos
anteriores. A chegada e a instalação da população migrada na Baixada Fluminense foi
recheada de muitos conflitos. A disputa pelo mercado de trabalho e, principalmente, pelas
terras loteadas fizeram parte do cotidiano citadino. E entre as décadas de 30 e 40, a população
começou a se estabilizar na região. A população de pretos e pardos, migrados para a Baixada
Fluminense, optou por se espalhar pela região metropolitana, não se concentrando em apenas
um bairro ou mesmo município. Uma vez que as propriedades do distrito-sede, agora
denominado Nova Iguaçu, foram valorizadas, essas pessoas ocuparam as terras ao entorno,
consideradas mais baratas. Nesse sentido essa migração assemelha-se e muito com a
experiência da Jamaica. Lá os descendentes de escravos, ao migrar, optaram por regiões
próximas aos grandes centros, onde poderiam acumular três fontes de renda: subsistência,

PACHECO, Gustavo. (Org.). Memória do Jongo. As gravações históricas de Stanley Stein. Rio de Janeiro:
Folha Seca, 2008, p. 95.
467
MACHADO, Ana Maria, “Hoje é dia de jongo. Corpo e ritmo falando da alma”, in: Jornal do Brasil, Rio de
Janeiro/RJ, 29/9/1975 (Hemeroteca temática do Museu do Folclore). Apud MATTOS, H. e ABREU, M. op. cit.
2008, p. 95.
250

venda de excedentes para mercados locais e trabalho assalariado nas propriedades


produtoras.468
Resumindo. Essa dispersão populacional dos migrados, ocorrida na Baixada
Fluminense, pode ter dificultado o encontro de pessoas conhecedoras do jongo. Mesmo que a
migração, como apontei em capítulos anteriores, tenha ocorrido para casa de parentes, a
dificuldade em encontrar muitos praticantes se perdeu ao longo do tempo. Afinal, a prática do
Jongo exige uma longa caminhada de conhecimento, e os migrados eram em sua maioria
jovens que podem nem sequer terem sido iniciados na prática.Afinal, é muito mais fácil
encontrar católicos de várias partes do país, que já praticavam a Folia, como no caso dos
Nordestinos que escolheram a Baixada, do que encontrar jongueiros que vieram de uma parte
específica do Vale do Paraíba.
Por isso aqui defendo que a Folia de Reis não construiu uma identidade negra entre
migrantes.A folia de Reis da Baixada une as pessoas não em torno da figura do Belchior, o
Rei Negro, tão citado entre nossos entrevistados, mas sim por conta da situação vivenciada
por todos, a migração. Uma das principais mudanças na comparação entre a prática no campo
e na cidade foi a incorporação de pessoas que não possuíam vínculo familiar. Ou seja, agora
qualquer vizinho ou amigo da família poderia participar, reconstruindo assim, ao entorno do
mestre, uma nova rede sociabilidades. Concordo, nesse sentido com Barth ao afirmar que
cultura é distributiva, compartilhada por alguns e não por todos. Ou seja, as manifestações
culturais são o resultado de experiências e se essas experiências não são compartilhadas, a
469
cultura não se reitera no tempo. Desse modo, a Folia de Reis por conta de suas
características, como a de caminhar por diversas localidades, reforça não uma identidade
étnica, mas sim uma identidade migrante.

468
HOLT, Thomas. The Problem of Freedom: Race, Labor, and Politics in Jamaica and Britain, 1832-1938.
Baltimore and London: Johns Hopkins University Press, 1992, principalmente o capítulo 5.
469
BARTH, F. op. cit., 2000, p. 128.
251

Conclusão Geral

Essa pesquisa tentou colaborar na análise de duas questões muito importantes para o
período pós-abolição: família e migração. Durante muitos anos os dois foram vistos como um
problema na inserção social de descendentes diretos ou indiretos de escravos. Parte de uma
historiografia anterior a década de 70 apostava na anomia dos cativos, uma vez que por conta
da violência da escravidão eles teriam sido deformados psicologicamente. Dessa forma, não
conseguiriam contrair matrimônios e nem mesmo formar uma família e, desse modo, a
migração seria visualizada como um sinônimo de perda. Nessa tese afirmo que ambas foram
possíveis, e mais, eram uma estratégia para ascender socialmente.
Estudar famílias no pós-abolição não foi uma novidade nessa pesquisa. Ana Rios já
havia se debruçado sobre o tema, primeiro em sua dissertação de mestrado e posteriormente
em sua Tese. Em ambas esbarrou em um problema. No primeiro, analisando a cor nos
registros civis percebeu que a categoria sumia após 1920, o que a fez apostar na pesquisa
qualitativa, através de entrevistas.
Nessa tese que apresento, a originalidade, sobre a temática da família, consistiu na
possibilidade de acompanhar a trajetórias coletivas, de pretos e pardos descendentes ou não de
escravos, ao longo de 50 anos, de forma quantitativa e qualitativa. A principal diferença dessa
pesquisa foi a presença da categoria cor em todos os registros. A metodologia não foi
inovadora, pois tentei aplicar o estudo da demografia histórica, muito utilizada para os séculos
anteriores ao XIX, para o século XX. Contudo, sua aplicação foi inovadora, pois consegui
demonstrar ser possível utilizar os registros civis como fonte confiável para o século XX.
Além disso, a segunda questão apresentada também foi inovadora: a migração. Até o
presente momento foram poucos os historiadores brasileiros que se dedicaram a esse tema, na
maior parte dos casos apenas tangenciaram-no. A partir dessa pesquisa a intenção é a de
construir a migração no pós-abolição como um campo de trabalho, com futuros sub-temas
como: valor da migração, motivos não econômicos, acesso a terras ou casas, reconstrução de
outras manifestações culturais para além da folia, entre diversos outros.
Para compreender essas duas questões escolhi como recorte espacial a Baixada
Fluminense. Era uma região completamente diferente tanto do Norte Fluminense quanto do
Vale do Paraíba. Se na primeira, as plantações de cana de açúcar tiveram um importante papel
na economia do Estado, a segunda região teve um importante papel nacionalmente. Na região
Sudeste, por conta dessas duas produções se concentrou, na segunda metade do século XIX, a
252

maior parte dos escravos do Brasil. Contudo, o antigo Município de Iguassú não participou
diretamente desse processo.
Ali tanto a cana de açúcar quanto o café estagnaram-se rapidamente. A relação entre
propriedade e quantidade de escravos era ínfima se comparada a essas duas regiões. Pouco se
sabe sobre o padrão de alforrias, mas a escravidão, por conta da crise, enfraquecera-se bem
mais rápido que o Vale do Paraíba. No imediato pós-abolição foi possível visualizar brancos,
pardos e pretos trabalhando lado a lado na lavoura, afinal não havia ainda uma grande
diversificação de ofícios. Do mesmo modo, a população parece ter passado por um processo
de miscigenação, na qual a quantidade de pessoas registradas como pretas e pardas diminuiu
consideravelmente entre o censo de 1872 e 1890. A identificação enquanto “pardo”
possivelmente estava ligado a uma tentativa de diferenciar aqueles que já eram livres
anteriormente a abolição, daqueles recém libertados em 1888.
Nos primeiros anos após a abolição a região sofreu uma pequena emigração de
pessoas. Provavelmente buscavam alternativas econômicas em outras regiões do Estado, ou
mesmo na Capital Federal. Para os que ficaram a moradia ainda estava concentrada na antiga
sede do Município, em Vila de Cava, por onde os últimos barcos que faziam o escoamento do
café passavam. Ali também buscaram legitimar seus familiares, enquanto brancos declararam
em grande maioria serem casados, pretos e pardos não de compareceram ao dobro no registro
civil. Mesmo que não tendo o casamento reconhecido pela Igreja, a eles não foi proibido o
acesso ao cartório e com isso conseguiram legitimar a existência de sua família perante o
Estado.
A grande questão era perceber se essa constituição familiar se manteve ao longo do
tempo. Aqui consiste a primeira contribuição de minha tese para a historiografia do pós-
abolição. Para os anos de 1890 e 1940 não existem quaisquer informações sobre a
movimentação populacional e a cor das pessoas nos censos. O registro civil de nascimento e
de óbito do Município de Nova Iguaçu demonstrou ser um ótimo caminho para suprir esse
interstício de 50 anos de dados.
As famílias de brancos, pardos e pretos foram captadas nesses registros. As crianças e
os falecidos registrados como brancos parecem ter procurado legitimar a família logo nos
primeiros anos. Entre os brancos havia um número bem maior de casados, de crianças
legítimas e de avós citados em comparação ao pretos e pardos. Contudo, esses últimos
acompanharam esse movimento, tanto que nos últimos anos de análise, a diferença entre todos
era bem ínfima. Além disso, o pai passou a estar mais presente em quase todos os registros.
253

Isso mostra que pretos e pardos não saíram perdendo e nem foram segregados após a
abolição. Eles caminharam paralelos aos brancos.
A formação da família teve um impacto com a chegada de migrantes na década de
1930. O mercado matrimonial ficou mais disputado, afinal eram em sua grande maioria
homens jovens e adultos. Além disso, ampliavam também a disputa pelo mercado de trabalho.
Os moradores brancos controlavam o comércio, mas ao longo dos anos apesar de se
diversificarem um pouco as profissões, todos continuaram na lavoura - não se sabe se eram
trabalhadores ou pequenos agricultores, mas concentraram em suas mãos esses ofícios. Já os
moradores pretos registraram seu maior interesse nos ofícios com menor dependência para
com o patrão, os “jornaleiros”. Nessa atividade tinham maior controle do ritmo de trabalho e
podiam retirar a mulher do trabalho árduo da lavoura.
Ao analisar também os registros por local de moradia foi possível encontrar uma
movimentação intensa dentro do Município de Nova Iguaçu a partir de 1914. Muitos
historiadores locais já haviam apontado nessa “mudança de Vila”, mas até a presente pesquisa
ninguém a tinha observado sistematicamente. A originalidade desses dados refletiu em uma
mudança drástica de residências em 1914. Inicialmente o que os expulsou foi a epidemia de
“cólera morbus” e o que os atraiu para a atual sede do Município, para além da estação de
trem, foi a expansão da plantação de laranjas que exigia uma demanda significativa de braços.
Na sede não havia lugar para todos morarem. Além disso, com o aumento da
produção, agora direcionado para o mercado exterior, as propriedades se valorizaram. De
acordo com os registros civis, os brancos conseguiram se fixar no centro da cidade, enquanto
pretos e pardos se espalharam ao entorno da órbita da sede, principalmente no atual município
de Mesquita. Aliado a um processo de loteamento de latifúndios improdutivos, ao longo dos
anos 30 e 40, nessas regiões provavelmente conseguiram conjugar as pequenas propriedades
com o trabalho nas chácaras de laranja.
No processo de mobilidade social entre os moradores da Baixada também houve
mudança de cor.. As mudanças nunca foram radicais, e nem sempre a alteração acompanhava
a ascensão material. Além disso, não houve casos de pessoas passando de branco para preto e
muito menos no caminho inverso. Em boa parte dos casos a mudança de cor estava ligada ou
a presença do pai no cartório, ao local de moradia e a legitimidade da criança. No entanto, não
foi difícil encontrar crianças sendo registradas como pardas ou como brancas quando o pai
mudava de profissão, para melhor ou para pior.
Na década de 1920 e 1930 o panorama econômico e social mudou consideravelmente
na Baixada Fluminense. A exportação de laranjas, o crescimento urbano e a diversificação de
254

arranjos de trabalho atraíram pessoas de várias partes do país. Não foi toa que a região
recebeu pelo menos duas ondas migratórias ao longo da primeira metade do século XX. A
primeira foi a de Nordestinos, no final do século XIX, fugidos da seca que assolara o sertão
entre 1889 e 1890. Já a segunda, e mais significativa ocorreu na década de 1920, quando não
apenas Nordestinos migraram, mas pessoas do Vale do Paraíba também.
Nesse sentido essa tese tem como originalidade a pesquisa da migração de pretos e
pardos no pós-abolição, assim como a de Nordestinos para a Baixada Fluminense. Afinal, são
poucos os trabalhos que se dedicam as migrações relacionadas ao campo, no início do século
XX, pois quase sempre as pesquisas veem a migração como um fenômeno do mundo agrário
para o industrial, e pouco se atenta para as especificidades das migrações em direção as
cidades em ascensão.
Por mais dúbio que possa ser consegui captar as migrações através de um documento
que demonstra claramente a estabilidade, o registro civil. Explico-me. O registro civil para ser
realizado, normalmente, exigia do registrado a residência na região. Foram muitos os pais de
crianças que registraram tanto o seu nascimento quanto o do seu filho como originários do
Vale do Paraíba e do Nordeste. Contudo, a fonte mais importante foi a de pessoas que na fase
adulta recorreram ao registro para declarar o seu próprio nascimento, os “auto-declarantes”.
Essa documentação é muito mais completa do que a de crianças, uma vez que informa
principalmente a profissão ocupada por eles no momento do ato. Provavelmente recorrer ao
registro civil de nascimento tenha sido uma exigência de seus patrões para assinar a carteira
de trabalho. No entanto, o que mais interessa é que tanto brancos, quanto pardos e pretos auto-
registraram seu nascimento, sem impedimentos a qualquer cor.
Ao analisar todos os migrantes de forma generalizada foi possível observar um
movimento muito interessante. Em 1934 a maior parte dos migrantes eram homens, e
possuíam entre 16 e 30 anos de idade. As mulheres só passaram a ser registradas 5 anos
depois, quando possivelmente os primeiros homens migrados retornaram para buscar suas
esposas, mães, tias, primas e sobrinhas.
Os migrantes do Vale do Paraíba começaram a chegar na região por volta da década de
1920, mas só foram observados nos registros na década de 1930 quando assentaram na
Baixada Fluminense. Os brancos foram os primeiros a ingressar na região. A desestruturação
da produção de café em larga escala, assim como a pauperização do solo pode ter prejudicado
em primeiro lugar a esse grupo uma vez que na situação de pequenos roceiros, sentiram a
situação de crise anteriormente aos descendentes de cativos. Como demonstrado por Ana Rios
e Hebe Mattos, boa parte dos cativos, assim como seus filhos e netos, conseguiram se manter
255

nas antigas fazendas de café. Normalmente formavam comunidades inteiras de parentes entre
si e serviam desse modo, como reserva de trabalhadores para os fazendeiros da região. Nessa
ajuda comunitária conseguiram residir nas propriedades até a década de 1920 para 1930. Ao
longo dos anos os filhos e netos não conseguiram reproduzir esse estilo de vida, e por isso,
tomaram como estratégia a migração para localidades em ascensão, principalmente a Baixada
Fluminense.
Tomando a migração como estratégia de melhora de vida, e não como um resultado da
desestruturação familiar, os primeiros a migrar tendem a fazê-la de forma sazonal, migrando
somente nas épocas de plantação e colheita. Contudo, ao longo dos anos outras oportunidades
vão surgindo, e assim que se instalam na Baixada Fluminense, começam a retornar as suas
comunidades para buscar os irmãos, tios e primos. Com a vida completamente estabilizada, e
a cidade de Nova Iguaçu em pleno crescimento urbano, voltavam as comunidades de origem
para buscar pais e avós. Afinal ali havia melhores condições de acesso a saúde em
comparação a vida no campo.
Os moradores da região Nordeste também optaram por migrar para a Baixada
Fluminense. A maior parte das pesquisas sobre migração de Nordestinos quase sempre
privilegiam os Estado de São Paulo como local de chegada. Pouco se sabe sobre os outros
destinos por eles tomados, como Espírito Santo, Minas Gerias e interior da região
metropolitana do Rio de Janeiro
Apesar de uma migração sem grandes proporções no final do século XIX, os
nordestinos chegarem a números significativos a partir de 1910 na Baixada Fluminense. Ao
contrário dos migrantes do Vale do Paraíba, os primeiros a chegar não eram os solteiros, pois
na maior parte das vezes captei famílias inteiras migrando. Eram, dessa forma, por alguns
fazendeiros preferidos para compor a gama de trabalhadores em suas fazendas, pois traziam
consigo mais trabalhadores, como a esposa e os filhos. Já na década de 1930 os homens
solteiros começam a chegar à região e também passam a disputar tanto o mercado
matrimonial quanto o de trabalho. Eles não se concentraram em nenhum tipo de ofício na
Baixada Fluminense. Foram poucos os que passaram a trabalhar com a agricultura, a maior
parte preferiu mesmo se ocupar dos ofícios de jornaleiros, serviço público e no comércio,
apesar de muito poucos não saberem ler.
Passado o sufoco da migração, quando todos esses migrantes conseguiram se
estabilizar a região, começaram a tecer novas redes de sociabilidade. Não apenas nas novas
amizades, nas missas ao domingo, mas também nas manifestações culturais. A Folia de Reis,
256

muito praticada até os dias de hoje, foi um dos melhores meios pelos quais os migrantes
conseguiram se inserir e reconstruir novos laços sociais.
A Folia era praticada tanto por migrantes do Vale do Paraíba quanto por Nordestinos,
mas a integração e a construção de sociabilidades na folia de reis só ocorreram por conta da
adaptação de suas características para a nova situação na cidade. Agora ela só saía aos finais
de semana, não atrapalhando o horário de trabalho; assim como passava a aceitar pessoas que
não eram parentes e principalmente as crianças. Além disso, ela possuía um elemento que os
identificava enquanto iguais, eles caminhavam por diversas regiões visitando as casas
daqueles que desejavam receber a benção dos Três Reis Magos. Ou seja, através dessas
características ela reforçava a identidade de migrante.
Nas entrevistas com foliões de hoje, eles afirmaram que seus pais e avós, migrantes do
Vale do Paraíba, retomaram a Folia de Reis na Baixada, convidando vizinhos, amigos,
parentes e crianças para participar. Assim, até os dias de hoje no final do ano, após 24 de
Dezembro, ainda é possível ver várias Folias de Reis caminhando por diversas regiões da
Baixada Fluminense.
257

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