Você está na página 1de 17

TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL

-CASOS PRÁTICOS-

ADENILSA CORREIA

BERTA CONCEIÇÃO

CÉSAR SANTOS SILVA

BRUCE JOHN NEVES

MARCIA MONTEIRO

Maio 2018
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL
-CASOS PRÁTICOS-

ADENILSA CORREIA

BERTA CONCEIÇÃO

CÉSAR SANTOS SILVA

BRUCE JOHN NEVES

MARCIA MONTEIRO SOARES

Trabalho apresentado no Curso de Direito da


ULCV - Universidade Lusófona de Cabo Verde,
Unidade Universitária do Mindelo, para a disciplina
de Teoria Geral do Direito Civil.

Docente: Dr. Diamantino Soares

Maio 2018
CASO I

INCAPACITAÇÃO POR INABILITAÇÃO (Artº 157 DO CCCV)

3 Actos

1 – Venda de BMW

2 – Alienação de lote de Acções

3 – Compra de mota Harley Davidson

Em Dezembro de 2015, a esposa de Bento, propôs em Tribunal uma acção


porque o mesmo vinha mantendo sistematicamente a prática de actos ruinosos
(prodigalidade).

Em Março de 2016, é publicitada a referida acção.

Em Fevereiro de 2017, a sentença do Tribunal competente veio dar razão a


esposa Ana.

Acto 1 – Janeiro de 2017, venda de BMW 525 TDS.

Acto 2 – Novembro de 2017, alienação de lote de acções.

Acto 3 – Março de 2017, compra de mota Harley Davidson.

Introdução

O caso número I, remete-nos para o domínio da capacidade de exercício de


direitos que para termos um correcto enquadramento deste tema, há que
abordar algumas noções gerais.

O CCCV ao estabelecer no seu artigo 65º que “as pessoas podem ser sujeitas
de quaisquer relações jurídicas, salvo disposição legal em contrário” o que
pressupõe que a capacidade jurídica é inerente à personalidade jurídica.
A capacidade jurídica emerge como aptidão de um sujeito para ser titular de
relações jurídicas.

Diferente da capacidade jurídica é a capacidade de exercício de direitos que se


rege pela idoneidade para agir juridicamente, através do exercício de direitos
ou do cumprimento de deveres, da aquisição de direitos ou do reconhecimento
de obrigações.

Portanto a capacidade de agir reside na circunstância de tal conduta ser


efectuada por acto próprio e exclusivo ou por representante voluntario ou
procurador indicado pelo próprio representado.

Neste caso vale dizer que o sujeito dotado de capacidade de exercício de


direitos não carece de ser substituído para a prática de actos juridicamente
relevantes.

Estaremos perante uma incapacidade de exercícios de direitos, quando não se


verifica a aludida aptidão para actuar pessoal e autonomamente, que se
classificará de genérica ou específica, consoante se reporte a actos jurídicos
em geral ou a alguns em especial.

Devemos distinguir que enquanto a incapacidade negocial de gozo determina a


nulidade dos respectivos negócios jurídicos, sendo insuprível, já a
incapacidade negocial de exercício tem como consequência jurídica a
anulabilidade dos mesmos, podendo ser suprida através dos meios legalmente
previstos.

As incapacidades de exercícios resultam, conforme o CCCV, da menoridade,


da interdição, das inabilitações, do casamento e da incapacidade natural
acidental.

Em consequência, o comportamento de Bento é susceptível ser inserido no


âmbito de aplicação da incapacidade por inabilitação conforme o artigo 157º e
seguintes, do CCCV.
O artigo 157º diz que devem ser sujeitos a inabilitação os indivíduos cuja
anomalia psíquica, surdez-mudez ou cegueira, embora de caracter
permanente, não seja tão grave que justifique a sua interdição, e aqueles
outros que se revelem incapazes de reger o seu património por habitual
prodigalidade ou pelo abuso de bebidas alcoólicas ou estupefacientes.

O comportamento de Bento, prática sistemática de actos ruinosos e


injustificados (prodigalidade) tal como prefigura o arrigo 157º, o mesmo
poderá vir a ser sujeito de uma acção de inabilitação. Em abono da verdade, a
habitual prodigalidade refere-se à prática habitual de actos de delapidação
patrimonial de forma desproporcional relativamente aos rendimentos auferidos,
na realidade são actos de gestão de património improdutivos e injustificáveis,
também tendo em conta o destino ou a finalidade das despesas efectuadas,
não havendo assim prodigalidade se os actos embora ruinosos tèm um fim
digno ou nobre.

Quanto a legitimidade para requerer a inabilitação, o CCCV, no seu artigo


146º aplicável por remissão do artigo 161º, confere ao cônjuge, ao tutor ou
curador, qualquer parente sucessível e ao M.P. essa legitimidade, portanto
neste caso a Ana na qualidade de cônjuge dispõe de legitimidade para
requerer a inabilitação de Bento.

Os actos praticados por Bento, enquadrados no âmbito da acção de


inabilitação, poderão vir a ser anulados, pelo que cumpre analisar cada um
deles (1 – Compra de BMW, 2 – Alienação de lote de Acções e 3 – Compra
de mota Harley Davidson).

Acto 1 – venda de BMW


O primeiro acto do Bento foi praticado em Janeiro de 2017 e consubstanciou-
se na venda do seu automóvel BMW 525 TDS pelo valor de 200 contos ao seu
amigo de infância Carlos que passava por dificuldades económicas. O facto do
acto ter sido praticado após a propositura da acção, Dezembro de 2015, mas
antes de lhe ter sido dada publicidade, Março de 2016, salta logo à vista.
O artigo 157º, aplicável por força do artigo 161º que aos negócios celebrados
pelo incapaz antes de anunciada a propositura da acção é aplicável o disposto
acerca da incapacidade acidental, conforme preceituado também no artigo
257º. A declaração negocial feita por quem, devido a qualquer causa, se
encontrava acidentalmente incapacitado de entender o seu sentido ou não
tinha livre exercício da sua vontade, é anulável se o facto em causa for notório
ou conhecido do declaratário ou como manda o número 2 quando uma pessoa
de normal diligência o teria podido notar.

Logo a primeira, a inabilitação não atinge automaticamente os actos praticados


antes de anunciada a acção, uma vez que estes se encontram sujeitos ao
regime do artigo 257º, mas uma vez que a sentença de inabilitação deverá fixar
data em que se iniciou a incapacidade natural. Assim do no pressuposto de a
sentença de inabilitação fixar a data do início da incapacidade natural como
sendo anterior à prática do acto de Janeiro de 2017, poderá o acto vir a ser
anulado.

Outrossim, há que se lembrar que o automóvel era de 2015, mas nem o facto
de lhe ter sido doado pelo seu tio Daniel extingue o direito processual por não
ter sido exercido no prazo, a possibilidade de ser classificado de negócio
ruinoso, pois o seu valor em condições normais seria, no mínimo uma 8 vezes
mais.

Portanto o que importa é que mesmo que não tivesse havido prejuízo efectivo
para Bento, mas se verificassem os demais requisitos expostos, o negócio
poderia ser anulado.

Acto 2 – Alienaçao de lote de Acçoes


O segundo acto do Bento, foi praticado em Novembro de 2017, que foi a venda
a Ernesto, por 1000 contos, de um lote de acções, que não chega a entregar e
cujo preço não recebeu, e que mais tarde em virtude de movimentações
especulativas na bolsa de valores, sofrem uma valorização acentuada na sua
cotação passando a valer 1500 contos.
O referido acto tendo sido efectuado em Novembro de 2017, a acção de
inabilitação proposta em Dezembro de 2015 e publicada em Março de 2016 ea
sentença que decretou a inabilitação datada de Fevereiro de 2017, estamos
perante um acto praticado no decurso da acção previsto no artigo 154º
aplicável por remissão do artigo 161º, ambos do CCCV.

O artigo 154, n.º 1 diz que os actos praticados pelo incapaz no decurso da
acção (1º requisito) são anuláveis, contando que a inabilitação venha a ser
definitivamente decretada (2º requisito) e se mostre que o negócio causou
prejuízo ao incapaz (3º requisito).

No tocante aos dois primeiros requisitos, não restam dúvidas quanto a sua
verificação. O acto praticado depois de ter sido anunciada a proposição da
acção, cerca de catorze meses depois e a inabilitação veio a ser efectivamente
decretada em Fevereiro de 2017.

Salientamos que no caso dos negócios onerosos, o prejuízo se verificará


sempre que um contratante sensato e prudente na gestão dos seus bens não
celebrasse o negócio nesses termos. No caso em causa, tal parece ter sido
cumprido, pelo que não há fundamentos para invocar a anulabilidade da venda
das acções por via de inabilitação. O negócio é portanto plenamente válido e
eficaz.

Por não ter entregado as acções nem recebido o preço, o negócio não se
considera para todos os efeitos, concretizado. Determina o artigo 287º n.º 2
que enquanto o negocio não estiver cumprido, poderá a anulabilidade ser
arguida sem dependência de prazo, tanto por via de acção como de excepção.

Tratando-se porem de uma problematização lateral que não nos afastará da


conclusão de que o negócio celebrado entre Bento e Ernesto é valido e eficaz
por não se verificar o requisito de prejuízo ao incapaz.
Acto 3 – Compra de mota Harley Davidson
O terceiro acto do Bento que foi a compra de uma moto Harley Davindson, com
o dinheiro resultante da venda de vários pinhais, foi praticado em Março de
2017, um mês depois da sentença do Tribunal que deu razão a Ana, sua
esposa. No enunciado não se vislumbra quaisquer verbas envolvidas no
negócio, poderemos estar perante duas hipóteses distintas:

- Se a compra da mota só implicou despesas de pequena importância, o


negócio jurídico é valido.

- Como não nos parece que assim tenha sido, deste modo o acto em causa
seria então anulável por ter sido praticado apos o registo da sentença de
inabilitação definitiva.

A anulabilidade dos actos em causa não poderá jamais ser afastada mediante
invocação de intervalo lucido de Beto, falta de prejudicialidade do acto ou
desconhecimento por parte de Fernando, da inabilitação. Todo caso será uma
invalidade sanável por confirmação das pessoas com legitimidade para a
invocar, assumindo eficácia retroactiva.

O facto de Bento haver sido declarado inabilitado por prodigalidade o impedirá


de ver a sua incapacidade levantada sem a prova de cessação da causa da
inabilitação e sem o decurso de um prazo de 5 anos sobre o transito em
julgado da sentença da inabilitação.

Com a eficácia retroactiva da anulação do negocio, deverá ser restituído tudo


que tiver sido prestado ou o valor correspondente, se a restituição em espécie
não for possível, pelo que as obrigações sendo reciprocas deverão ser feitas
de forma simultânea entre as partes como preceituado nos artigos 289º e 290º
do CCCV.
CASO II

INCAPACIDADE DOS MENORES (Artº 133 DO CCCV)

2 Factos

a) Quem é o proprietário do computador


b) Se Sofia quiser reaver a máquina digital, poderá faze-lo? E se Alberto
tivesse falecido em Junho de 2017?

1 de Maio de 2000, data nascimento de Alberto

Abril de 2016 vendeu a Mário um computador, qua havia adquirido com


proventos do seu trabalho.

Mário só aceita o negócio depois de Alberto mostrar um documento que dizia


que a data de nascimento era em Maio de 1996.

Abril de 2016, Raquel, mãe de Alberto, vende máquina fotográfica do filho à


Doriza.

Maio de 2016, Alberto emancipou-se por casamento, com Sofia.

Junho de 2016, Alberto vende o mesmo computador ao Inácio.

Abril de 2017, Alberto e seus pais faleceram.

Introdução

a) O caso número II, remete-nos para o domínio da capacidade de


exercício de direitos ou capacidade de agir.

Todas as pessoas singulares, em princípio, gozam de capacidade de exercício


de direitos tal como preceituado no nosso CCCV.

No caso em apreço, resulta claramente que o tema a ser abordado recai sobre
a incapacidade de exercício visto que o Alberto é menor.
A incapacidade por menoridade é uma incapacidade genérica o que abrange
por norma quaisquer negócios de natureza pessoal ou patrimonial. Não é
absoluta, dado que é permitido ao menor praticar alguns actos conforme o
preceituado nos artigos 135º, excepção à incapacidade geral de exercício.

A incapacidade termina logo que o menor atinja a idade de 18 anos ou seja


emancipado conforme o artigo 138º que preceitua o termo de incapacidade de
menores.

a) Para sabermos quem é proprietário do computador, temos de averiguar


qual o valor jurídico de dois actos:
1- Da venda, por Alberto, do computador, a Mário,
2- Da alienação, igualmente por Alberto, meses depois do mesmo
aparelho, mas dessa vez ao Inácio.

Quanto a primeira venda feita de alberto para Mário, que foi realizada em Abril
de 2016, poderíamos pensar que o negócio viria a ser anulado nos moldes
estabelecidos pela incapacidade por menoridade, conforme o artigo 136º, pois
alberto à data da realização do negócio tinha apenas 16 anos.

Alberto usando de artifício (documentos falso), consciente de induzir em erro o


Mário, preencheu os requisitos que o artigo 253º, numero 1 determina o que é
dolo.

Logo o acto do Alberto não poderá ser anulado nem por ele, nem por qualquer
herdeiro seu e nem por ninguém conforme o artigo 136º numero 3.

Independentemente da posição que se adopte em relação a este tema, os pais


do alberto, enquanto seus representantes, faleceram sem arguirem a
anulabilidade da venda do computador à Mário, pelo que consideramos em
definitivo o acto da vendo como valido e assim sendo o legitimo proprietário do
computador é o Mário, desde Abril de 2016.

O negocio é valido não porque o bem adquirido por alberto com o salario do
seu trabalho mas sim por ele ter usado de dolo com firme intuito de se fazer
passar por maior no momento em que contratava com Mário.
Mário sendo proprietário de pleno direito do computador, desde Abril de 2016,
a venda por Alberto do mesmo computador em Julho de 2016 a Inácio é uma
situação de venda de coisa alheia, que recai na alçada do artigo 892º, portanto
Mário poderá invocar em qualquer altura a nulidade da venda do computador a
Inácio por parte de Alberto.

b) Para sabermos de Sofia, esposa de Alberto, poderia reaver a maquina


fotográfica, é necessário averiguar qual o valor da venda efectuada por Raquel,
mãe de Alberto.

Poderá a mãe de Alberto, vender bens do filho?

Estará essa faculdade contemplada no regime do poder paternal?

O poder paternal encontra-se regulado no artigo 1815º, que taxa


expressamente uma série de poderes-deveres e de poderes funcionais a cargo
dos pais nos quais incluem a obrigação de representar e administrar os bens
do menor, alínea f).

O CCCV no âmbito do exercício do poder paternal relativamente aos bens dos


filhos, estabelece algumas limitações exclui da administração paternal alguns
bens pertencentes aos filhos como por exemplo os bens que advierem aos
filhos por doação ou sucessão, ou os bens adquiridos pelo filho maior de
dezasseis anos pelo trabalho.

O artigo 1885º do CCCV efectivamente dispõe que para alienar ou onerar


bens, os pais como representantes dos filhos, carecem de autorização judicial.

Claro que neste caso, essa autorização não foi obtida, uma vez que a mãe de
Alberto vendeu a máquina fotográfica sem dizer nada a ninguém pelo que por
força do artigo 1887º o acto será anulável. O número 2 do artigo supra, dá a
Sofia, esposa de Alberto, a possibilidade de proceder ao requerimento da
anulabilidade apenas e só se o falecimento de Alberto tiver ocorrido dentro de 1
ano a contar da emancipação de Alberto obtida em Maio de 2016.
Por conseguinte podemos concluir que se Alberto tiver falecido em Abril de
2017, Sofia poderia arguir a anulabilidade, pelo que teria um ano a contar da
morte de Alberto para o fazer ou seja até Abril de 2018, reavendo a maquina
fotográfica que lhe pertencia por sucessão.

Contudo tal já não ocorreria no caso de Alberto ter falecido em Junho, por ter
passado mais de um ano desde a sua emancipação.

CASO III

INCAPACIDADE POR INTERDICÇÃO (Artº 133 DO CCCV)

Setembro de 1999, nascimento de Diogo.

Setembro de 2016, requerimento dos pais por anomalia psíquica.

Janeiro de 2017, publicidade do requerimento.

Janeiro de 2018, Registo de sentença de interdição.

Dezembro de 2016 vende pulseira valiosa a Fernanda.

Abril de 2017, vende estatua a Helder, usando documento falso.

Outubro de 2017, intervalo de lucidez de Diogo oferece guitarra a Roberto.

Fevereiro de 2018 Diogo pede emprestado 3.000$00 a Roberto.

24 de Abril de 2018, pais de Diogo, pretendem destruir os efeitos, mas já


tinham conhecimento dos actos aquando da sua pratica.

1 Facto

- Poderão os pais de Diogo, que souberam de todos os actos logo aquando da


sua prática, destruir os seus efeitos?

R1- a situação em analise é complexa envolvendo mais do que um tipo de


incapacidade e do que um regime legal.
Cada um dos actos de Diogo tem um valor diferente e está sujeito a um regime
distinto.

O artigo 143º, numero 1 do CCCV admite a invocação no requerimento de


interdição a anomalia psíquica. De destacar que, na eventualidade de a
anomalia psíquica não ser tão grave que leve a considerar-se o demente como
estando inapto para a pratica de todos os negócios o incapaz será inabilitado e
sujeito a disciplina dos artigos 157º e seguintes, o CCCV não faz alusão a
qualquer tipo de interdições parciais.

O artigo 146º indica quem tem legitimidade para requerer a interdição. Mas
uma vez que Diogo no momento do requerimento era ainda menor, estando
sob o poder paternal, o numero 2 do artigo supra mencionado que terá
aplicação nesta situação, portanto terão os seus pais toda legitimidade para
requererem a respectiva interdição.

Ao abrigo do artigo 143º n.º 2, que se refere aos prazos para a propositura da
acção, eles foram respeitados, embora a incapacidade por interdição seja
apenas aplicável a maiores, dado que os menores, que sejam dementes,
surdos-mudos ou cegos estão protegidos pela incapacidade por menoridade,
ela poderá ser requerida dentro do ano anterior a maioridade para que a partir
desse momento os seus actos sejam protegidos pelo regime da interdição.

A interdição de Diogo se afigura como legitima.

Primeiro acto do Diogo - a venda de uma pulseira em ouro de extraordinário


valor, a Fernanda em Dezembro de 2016, foi efectuado quando o Diogo
contava 17 anos, o que se enquadra no regime de menoridade e com ele os
artigos 133º e seguintes.

Por força do artigo 136º, n.º 1, o negocio celebrado por Diogo será anulável. A
alínea a) do mesmo artigo confirma a legitimidade dos pais de Diogo para
arguirem a anulabilidade, mas ao mesmo tempo, estabelecendo prazo de um
ano a contar do conhecimento que o requerente haja tido do negocio para que
a acção seja proposta, invalidam a pretensão dos pais de Diogo de anularem a
venda da pulseira a Fernanda, pois decorreu mais de um ano entre a referida
venda e a possibilidade de darem entrada do requerimento de anulação.

No caso em apreço foi decretado, foi decretada a interdição definitiva pelo que
não subsistem dúvidas quanto à possibilidade de aplicação da emissão do
artigo 155º para o artigo 257º.

Por via das disposições legais referidos, não seria possível aos pais do Diogo
anular o acto, pois já decorreu mais de um ano desde seu conhecimento.

Há que referir que aquando da venda da pulseira, Diogo ainda não era
interdito, temos portanto que para a situação em apreço, os pais do Diogo não
poderem arguir a anulabilidade por ter já expirado o prazo de um ano desde o
conhecimento que estes tiveram do mesmo.

Conclusão

Indubitavelmente conclui-se pela validade da venda da pulseira em ouro a


Fernanda, devendo o acto produzir todos os seus efeitos.

Segundo acto do Diogo - que se trata da venda da estatua em Abril de 2017 à


Hélder, foi também enquanto Diogo era menor, com 17 anos pelo que seriamos
tentados a aplicar o regime de incapacidade por menoridade, porém face ao
artigo 136º. O direito de invocar a anulabilidade é precludido pelo
comportamento do menor, neste caso ter usado de dolo ou má-fé a fim de se
fazer passar por maior ou emancipado.

Foi o que se passou com a actuação de Diogo. Nos termos do artigo 136º, ele
usou de artifícios e embustes para ludibriar acerca da sua verdadeira idade, o
que aconteceu na apresentação de um documento a Hélder na qual constaria o
ano de 1996 como sendo o do seu nascimento o que fazia dele maior face a
CCCV.

Temos de realçar que o negócio entre Diogo e Hélder, foi celebrado estando
pendente contra Diogo uma acção de interdição, pelo que há que se averiguar
quanto à eventual aplicação do artigo 154º, relativo aos actos praticados no
decurso da acção. Podemos concluir que não será possível anular a venda da
estatua nem por intermédio do artigo 135º, uma vez que a verificação dos
requisitos que levam a aplicação do artigo 136º impedem a anulabilidade nem
por força do artigo 154º, já que o negocio não causou prejuízo ao Diogo,
portanto o negocio é plenamente valido e eficaz.

Terceiro acto do Diogo – trata-se da doação da sua guitarra ao seu amigo


Roberto, que foi praticado num momento em que ele é maior e interdicendo,
Outubro de 2017.

Determina 136º, n.º 1 alínea a) atender ao artigo 140º, para efeito de


anulabilidade ou não do acto, porque Diogo, ao atingir a maioridade, tinha
pendente contra si uma acção de interdição.

Quanto a existência ou não de prejuízo, o elemento decisivo a considerar é o


facto de se tratar de um negócio gratuito. A guitarra oferecida é de grande valor
mas não se refere nem a marca nem ao valor do instrumento. Para que
houvesse prejuízo bastaria apenas que houvesse uma doação, qualquer que
ela fosse, mesmo que se tratasse de um bem sem qualquer valor comercial,
segundo os Doutores em Direito Mota Pinto e Manuel de Andrade, tal
conclusão pode ser chegada neste caso pela evidência óbvia de que se tratava
de uma guitarra valiosa.

A anulabilidade do acto não poderá ser afastada mediante invocação de


intervalo de lucidez de Diogo ou desconhecimento por parte de Roberto da
pendencia da acção de interdição. Será sim, uma invalidade sanável por
confirmação das pessoas com legitimidade para a invocar, podendo ser
expressa ou tacita e assumindo eficácia retroactiva.

O artigo 144ºequipara o interdito ao menor o que impõe a aplicação do artigo


136º, n.º 1 alínea b) que conferirá validade ao negocio, por ser um negócio que
implica despesas de pequena importância.

Conclusão: o negócio da doação da guitarra por Diogo ao Roberto é


valido.
CASO IV

INCAPACIDADE AUSÊNCIA (Artº 86 DO CCCV)

Novembro de 2012, Anastácio 77 anos desaparece (avô)

Novembro de 2012, Miguelito, 13 anos desaparece (neto)

2 Factos

- Josué, pai de Miguelito, e filho de Anastácio pretende agir no âmbito do


regime de ausência.

- Berta era casada com Anastácio na altura do desaparecimento, pretende


contrair novo matrimónio.

R1- o caso remete-nos para o domínio regulados pelo instituto de Ausência,


previsto dos Artigos 86º a 118º do CCCV. No sentido jurídico, ausência traduz-
se não so o desaparecimento ou a simples não presença de alguém,
acompanhados da falta de noticias sobre o seu paradeiro mas também o
desencadear de medidas necessárias para administrar temporariamente os
seus bens, caso não haja representante legal ou voluntario.

Nos artigos 86º e seguintes do CCCV, estão preceituadas as indicações para a


nomeação de curador provisório, que terá as suas funções terminadas se o
ausente regressar ou providenciar acerca da administração dos bens.

Ao abrigo do artigo 96º que estabelece o regime da curadoria definitiva, que


encerrará pelo regresso do ausente pela noticia da sua existência e do lugar
onde habita, pela certeza ou previsão de sua morte, ou pela declaração de
morte presumida.

Quanto a figura da morte presumida, “decorrido dez anos sobre a data das
últimas noticia, ou passados cinco anos, se, entretanto o ausente tiver
completado 80 anos de idade, podem os interessados a que se refere o artigo
111º, n.º 2.
Porém se a pessoa ausente for menor, a declaração de morte presumida não
será proferida antes de haverem decorridos 5 anos sobre a data em que o
ausente se fosse vivo, atingiria a maioridade, conforme o preceituado no artigo
111º, nº 2. A declaração da morte presumida não depende de prévia instalação
de curadoria provisória ou definitiva e referir-se-á ao fim das noticias que dele
houve.

Quanto ao instituto de Ausência, o artigo 112º diz que a declaração de morte


presumida produz os mesmos efeitos que a morte.

Já o artigo 113º apressa-se a permitir ao cônjuge do desaparecido a


possibilidade de contrair novo casamento sem necessidade de recorrer ao
divórcio.

Nos termos do artigo 97º chamado a colagem do artigo 111º admite-se que
Josué, enquanto pai de Miguelito, tem legitimidade total para requerer a
declaração de morte presumida de seu filho na medida em que é seu herdeiro
legitimo. Portanto, ao se aplicar as regras do artigo 111º, n.º 2, ele poderá pedir
a declaração da morte presumida de Miguelito em 2022, cinco anos até
completar a maioridade, mais cinco anos depois desta.

Josué, filho de Anastácio, é constituído seu herdeiro, tendo legitimidade com


base no artigo 97º do CCCV, requerer a declaração da morte presumida.
Portanto com base no artigo 111º, Josué poderá proceder ao respectivo
requerimento.

Josué poderá requerer a declaração de morte presumida em 2015, quando


tivesse 80 anos, visto que Anastácio desapareceu em 2012 quando tinha 77
anos.

Quanto a Berta, esta pode contrair novo matrimónio que não estará
enquadrada na prática de bigamia na medida em que o artigo 113º lhe confere
o direito a contrair novo casamento.